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O caos chileno

Vamos querer repetir aqui o que hoje ocorre no Chile,
isto é, aumentar o processo de exclusão?

As “façanhas” das ditaduras latino-americanas do séc. XX continuam produzindo trágicos efeitos. No Chile, Pinochet impôs ao país um dos mais bárbaros regimes ditatoriais.

O país, menina dos olhos dos neoliberais, construiu seu “progresso” sobre torturados, desaparecidos e assassinados. Tais atrocidades são ignoradas pelos neoliberais e, por incrível que pareça até justificadas, diante dos supostos avanços econômicos.



Jornalistas Pedro Santander, Victor Farinelli e Francisca Quiroga, diretamente do Chile, explicam a convulsão social que vem tomando as ruas do país governado por Sebastián Piñera.

Agora, entretanto, o “paraíso do neoliberalismo latino-americano”, começa a mostrar seu verdadeiro caráter.

O descontentamento dos chilenos com o sistema previdenciário, administrado por empresas privadas, o deficiente sistema público de educação, o custo da saúde e os baixos salários em relação ao custo de vida acabou vindo à tona junto com os protestos sobre o preço do metrô.

Os idosos chilenos, em função do sistema de aposentadoria por capitalização, hoje ganham menos do que o salário mínimo. Resultado. Depressão e altas taxas de suicídios entre os mais velhos.

A desigualdade é espantosa entre os chilenos. 1% da população detém 26,5% da riqueza nacional. Já 50% das famílias vulneráveis são o obrigadas a se contentar com 2,6% do todo.

São raros no mundo os lugares onde o 1% mais rico da população ganha mais de 25% da renda total do país. Na América Latina, o fenômeno acontece em apenas dois países: no Chile e no Brasil.

Manifestações chilenas, outubro de 2019

O modelo neoliberal que dá evidentes sinais de esgotamento vem deixando um rastro de miséria atrás de si. A Argentina de Macri já quebrou em duas ocasiões. Enquanto isso os grandes bancos enchem suas burras nos “paraísos” neoliberais.

A constatação é de que, ao lado da ditadura centralizadora de Maduro, na Venezuela, que levou o país ao caos, igualmente, os ditos “paraísos” neoliberais de ditadura rentista, também estão afundando.

Aqui é preciso destacar que um dos artífices do modelo neoliberal chileno, que hoje leva o país a ameaça de uma guerra civil, foi o ministro Paulo Guedes que quer importar o modelo chileno para o Brasil. Uau!

À título de comparação, gostaria de lembrar que a Bolívia de Evo Morales, agora reeleito, é o país que mais cresce na América Latina. Riquezas como petróleo e gás foram nacionalizados. No Velho Continente, Portugal governado por um socialista, vai muito bem obrigado, depois de romper com o neoliberalismo da UE.

Vamos querer repetir aqui o que hoje ocorre no Chile, isto é, aumentar o processo de exclusão?



Uma aula sobre o que acontece no Chile – Reinaldo Azevedo

​Ocupando vidas com cuidado e arte


Projeto CuidArte realiza ações com crianças
que residem na ocupação Valinhos II,
em Passo Fundo



Desde pequenas, as crianças da Ocupação Valinhos II vivem o desejo da família de conquistar uma moradia. Algumas delas peregrinarão por mais de uma ocupação ao longo da vida. Viver em um lugar ocupado é um desafio e uma insegurança diária. Faltam acessos a muitas coisas, especialmente no que se refere aos direitos. Mas como vivem as crianças de uma ocupação em meio a esse cenário? Foi a partir de reflexões semelhantes a essa que surgiu o projeto CuidArte, promovido pela Associação Beneficente São Carlos, em parceria com a Universidade de Passo Fundo (UPF) e Cáritas Arquidiocesana.

 A ocupação Valinhos II existe há cerca de cinco anos e conta com cerca de 130 famílias, grupo que, em grande parte, é composto por crianças. Nesse contexto, o projeto CuidArte surgiu em 2018, voltado especialmente para atender às crianças. Uma das filiais da Associação Beneficente São Carlos em Passo Fundo é o Seminário Scalabrini, que fica em frente à ocupação. “Começamos a nos dar conta da realidade social dessas famílias, que residem na ocupação Valinhos II, ou Vale da Benção, como costumam chamar. Conhecendo um pouco das demandas, resolvemos construir um trabalho social”, comenta o presidente da Associação Beneficente São Carlos, padre Alexandre Biolchi.

O nome do projeto reúne duas ações importantes: o cuidar e a arte. “O CuidArte surgiu a partir da ideia do cuidado com a vida, especialmente o cuidado com as crianças e mulheres, categorias mais vulneráveis da ocupação, e o cuidado com a arte, por meio de atividades lúdicas”, explica Biolchi.

E esse olhar para as crianças faz muito sentido para Edivânia Rodrigues da Silva, moradora da ocupação. “Crianças precisam de um lugar para brincar e não temos pracinha aqui. Sabemos o quanto esses espaços também são educativos na perspectiva pedagógica. Dessa forma, o projeto ajuda a construir relações fraternas, por meio de pinturas, jogos e conhecimento”, declarou Edivânia, que também integra a Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, e destaca ainda a importância de investir nos pequenos. “Investir nessas crianças é investir no adulto do amanhã. E você sabe que grande parte delas não sonham em sair daqui, mas em melhorar o lugar onde moram. Então, precisamos melhorar este espaço para conjugar esse sonho com a realidade”, ressalta a moradora.

As ações do projeto costumam ocorrer na sede da ocupação, localizada no ponto mais alto do lugar. As paredes são de madeira, forradas com caixinhas tetra pak. Aos sábados à tarde, o projeto CuidArte ocupa a sede para receber as crianças, os pais, voluntários e estagiários do projeto.


Parcerias para realizar desejos e mostrar possibilidades

Diversas parcerias estão sendo realizadas a fim de potencializar esse trabalho. Dois acadêmicos do curso de Pedagogia da UPF realizam estágio com esse grupo de crianças e trabalham temas e metodologias variadas. Entre os principais assuntos, estão cidadania, direitos humanos, cuidado com a natureza e autocuidado. “Levarei essa experiência para o resto da minha vida profissional. Trabalhando com a subjetividade e o capital cultural das crianças, a gente percebe por que temos tantas dificuldades em trabalhar conceitos como cidadania, porque muitas vezes as pessoas mal têm lazer ou educação, sendo que direitos fundamentais básicos são negados, até mesmo o saneamento básico”, salienta o acadêmico de Pedagogia Leonardo Viecilli.

São muitas as atividades realizadas com as crianças, desde desenhos, pinturas, brincadeiras, até o registro dos sonhos, desejos e possibilidades. Vagner Santos da Silva, 9 anos, deseja muitas coisas, entre elas, que as paredes da sede da ocupação sejam pintadas de azul, que as janelas tenham vidros, que haja um refeitório, que a ocupação tenha árvores com um monte de frutas (laranjas e maçãs…), e que seja feito um campinho de futebol. Singelos desejos, mas que para o Vagner representam grandes possibilidades.

Ao ser perguntado sobre o que é uma ocupação, ele respondeu: “Eu ainda não sei o que é ocupação, estou tentando conhecer e aprender. Eu só sei que é importante ter casa, porque não podemos morar na rua e também não podemos ficar sem emprego”.

 O Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo (VivaEmau!) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UPF também está engajado no projeto justamente para tentar realizar os desejos das crianças na ocupação. Uma forma de mostrar ao Vagner que as possibilidades existem. “As crianças entregaram desenhos nos quais elas disseram o que gostariam que tivesse na sede da ocupação. Pretendemos começar pela pintura, que foi algo que eles representaram muito em todos os desenhos. A ideia é deixar o espaço mais colorido”, revela a acadêmica do curso de Arquitetura e integrante do VivaEmau! Samara Savariz.


Fotos: Natália Fávero 
A ocupação Valinhos II existe há cerca de cinco anos e conta com cerca de 130 famílias, grupo que, em grande parte, é composto por crianças

Pobreza e compaixão

Os pobres não são invenção,
não são uma ideia.
Os pobres são reais.
Os pobres existem,
e sofrem a violação
da sua vida e dignidade.

A defesa das causas dos pobres é uma tarefa muito árdua. Exige-nos mais do que compreensão, discursos e teorias sobre a pobreza, mas, sobretudo, compromisso e compaixão. Somos muito preconceituosos para com o sofrimento e a situação indigna como vivem os pobres.

Desconhecemos sua realidade e não queremos mexer na raiz dos nossos problemas: a nossa forma de organizar o mundo. É muito forte entre a gente a ideia de que pobres são coitados, por isso desprovidos de sorte e de bens. Se não lutam, são preguiçosos. Se lutam e exigem mudanças tornam-se perigosos. Mesmo quando passam fome, insistimos em dizer que eles ainda deveriam ser capazes de sonhar.



Papa Francisco, o Papa dos pobres.



Só a lucidez da razão e a sensibilidade podem tratar bem das questões da existência e convivência humanas. Na visão ocidental, desenvolvemos a ilusão de que só a razão nos dará respostas aos problemas humanos.

Nem a razão ornamental (que serve de ornamento), nem a razão instrumental (ferramenta para transformar a realidade) são capazes de justificar o sofrimento e a realidade daqueles que excluímos socialmente (os pobres).

Os pobres não são invenção, não são uma ideia. Os pobres são reais. Os pobres existem, e sofrem a violação da sua vida e dignidade.

Leonardo Boff, defensor incansável das causas dos pobres e oprimidos, afirma que são três as compreensões que se tem da pobreza.

Uma primeira, clássica, é a ideia de que o pobre é aquele que não tem. A estratégia então é mobilizar quem tem para ajudar a quem não tem, através de ações assistencialistas, sem reconhecer a potencialidade dos mesmos. A segunda ideia, moderna, é aquela que descobre os potenciais do pobre e compreende que o Estado deve fazer investimentos para que ele seja profissionalizado e potencializado, com vista à inserção no mundo produtivo.

Ambas as posições desconsideram, na visão de Boff, que a pobreza é resultado de mecanismos de exploração, que sempre geram enormes conflitos sociais. Boff acredita que é preciso reconhecer as potencialidades dos pobres não apenas para engrossarem a força de trabalho, mas principalmente para transformarem o sistema social. Os pobres, organizados e articulados com outros atores da sociedade, são capazes de construir uma democracia participativa, econômica e social. “Essa perspetiva não é nem assistencialista nem progressista. Ela é libertadora”.

Só a compaixão se reveste de libertação. A compaixão não é sofrer pelos outros, mas sofrer com eles. O sofrer com os outros permite colocarmo-nos no seu lugar. Ver a partir dos seus pontos de vista e das suas realidades. É também deixar-se transformar, permitindo que os nossos mais nobres sentimentos se traduzam em ações concretas a favor dos pobres, fracos e marginalizados.

Poucos vivem a compaixão. Muitos perderam a sensibilidade, o que os impossibilita de viver a caridade e o amor ao próximo.



“Não fechemos o coração diante dos pobres”.



Outros preferem atribuir aos pobres a culpa pela sua situação de miséria e vulnerabilidade. Outros discursam democracia, não perguntando se esta propicia as mesmas condições e oportunidades a todos, como ponto de partida. Porque o ponto de chegada depende de cada um de nós. E muitos, em grande número, tratam como crime a atitude de quem luta por causas humanitárias, quando estas exigem uma mudança na estrutura e organização da sociedade.

“As pessoas são pesadas demais para serem levadas nos ombros. Leve-as no coração”, disse Dom Hélder Câmara. Este é o sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual, que não sabe lidar com eles.

Papa Francisco anuncia e confirma em seu pontificado desejo: “como eu gostaria de uma igreja pobre, para os pobres”. Desejemos, também nós, praticar a compaixão para erradicar a pobreza no Brasil e no mundo, engajando-nos na defesa dos pobres e na denúncia das desigualdades sociais que os geram.



O médium baiano Divaldo Franco dedica uma singela homenagem à Irmã Dulce, recentemente canonizada como Santa Dulce dos Pobres. Em Salvador, a freira é conhecida como O Anjo Bom da Bahia.

Contra a banalização do mal, a educação

Esse mês de outubro tem que ser de alerta,
de espanto, de protesto dos que não renunciam
à educação como processo de humanização!

Hannah Arendt em A banalidade do mal, evidencia que viu no julgamento de Adolf Eichmann – criminoso nazista –  um burocrata preocupado em cumprir ordens, para quem as ordens substituíam a reflexão.  Foi muito criticada pelos que queriam que ela o julgasse um monstro, mas ela foi além. Apontou o sistema que banalizou o mal.

Para torturar, matar um semelhante, é necessário que não se trate mais de um semelhante, uma pessoa que pensa, chora, ama, sofre.  É necessário deixar de ser gente, tornar-se um elemento, um judeu, um negro, um gay, um terrorista, um comunista, um número, um vínculo, uma vaga.

A desumanização do objeto da violência é fundamental pra um sistema voltado para um grupo dispor da vida e do sofrimento dos outros – o totalitarismo.  Torturar, matar, tirar direitos de um semelhante se choca com os valores herdados ou aprendidos.

O professor Ladislaw Dowbor em seu artigo sobre o filme Hannah Arendt, cujas reflexões registrei acima, contou que seu torturador – de quando preso na ditadura militar – lhe apresentava relatos de outros prisioneiros para que confirmasse, ganhando rendimento, pois só queria mesmo era ser promovido. Treinado para conseguir resultados e premiado por eles – meritocracia – o que o impedia de ver os torturados como seres humanos iguais a si.

As iniciativas que pautam a educação brasileira seguem nesse sentido perigosíssimo.  Números e escalas orientam os discursos, assépticos de gente, cínicos ao comparar realidades bem diversas: público – privado, países ricos – países pobres; perversos ao colocar em suspeita o educador e estimular a filmagem como obtenção de “provas” pelo estudante, suprimindo a ética e a amorosidade da relação educacional.



“A pergunta é: a quem interessa manter a escola pública tão sufocada e tão maltratada? (Nei Alberto Pies)



Lembrem que o fascismo se nutre da destruição do diálogo! Não à toa, se propõe a ordem cívico-militar nas escolas.

Quando professores e estudantes se tornam meros números, “vínculos”, vagas, o fechamento de bibliotecas escolares, de setor pedagógico, de refeitório, por necessidade do sistema de reduzir custos é absorvido.

Não há prurido nenhum em romper processos pedagógicos suprimindo turmas e reenturmando estudantes em qualquer período do ano, mudando os professores, os colegas, as formas de avaliação.  Como também não tem em demitir profissionais por adoecerem, subtrair salário e carreira. 

“São ordens que recebemos” – repetem as Coordenadoras Regionais de Educação, selecionadas para tal. Ordens que visam o sucesso do sistema do “estado mínimo”, não o sucesso da educação. Ordens substituem a reflexão, afirmava Hannah, lembram?

Esse mês de outubro tem que ser de alerta, de espanto, de protesto dos que não renunciam à educação como processo de humanização! Um salve aos professores e às professoras que lutam. É por todos nós que o fazem!



“Para quem defende “melhor ter algum emprego que emprego nenhum”, saibam que a teoria de o governo ter que pagar melhor por risco de ficar sem profissionais nunca vai acontecer, há sempre alguém desesperado que vai aceitar trabalhar por trocados. A educação de verdade desaparecerá”. (Douglas Peretto, professor)

Brasil está mais desigual

A desigualdade existente reflete, essencialmente,
os talentos, esforços e valores diferenciados dos indivíduos
ou, ao contrário, ela resulta de um jogo viciado
na origem e no processo.

O Brasil, que já é um dos 15 países mais desiguais do mundo, conseguiu ver a concentração de renda aumentar ainda mais em 2018, segundo levantamento divulgado esta semana pelo IBGE. Os mais ricos no país concentraram rendimento, enquanto os mais pobres sofreram com queda na renda.



Desigualdade Global: Brasil


Todo bom cristão sabe que os homens são iguais por sua natureza porque todos são portadores da mesma essência. Ideias velhas nos legaram o tema da corrupção dos tolos, só na política, como nosso grande problema nacional.

Na corrupção real, no entanto, o problema central – sustentado por outras forças – é a manutenção secular de uma sociedade desigual, que impede o resgate do Brasil dos esquecidos e humilhados.

A ONG Oxfam Brasil, já havia revelado que apenas 5% da população, os mais ricos, recebe mensamente o mesmo que os demais 95%. A desigualdade patrimonial é igualmente escandalosa. Seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade mais pobre da população.

Não é por acaso, que o Brasil dono da nona maior economia do mundo, ocupa a décima colocação no ranking da desigualdade da ONU, empatado com a Suazilândia, a menor nação da África.

Esta injustiça secular que nos dilacera, também nos divide entre o país dos privilegiados e o país dos despossuídos.

Em 2014, o Brasil parecia disposto a reduzir as desigualdades infames. Naquele ano a FAO, celebrou, em seu relatório de segurança alimentar, a exclusão do país do mapa da fome. A verdade, é que apesar do inegável avanço social – entre 2003 e 2014, 29 milhões de cidadãos saíram da condição de pobreza –, a redução das disparidades de renda e patrimônio foi tímida.

Agora, infelizmente, voltamos ao caminho da desigualdade absurda. Os segmentos superiores continuam aumentando seus privilégios, o que lembra a França do séc. XVIII, em que primeiro e segundo estados estavam isentos de obrigações, como pagar impostos.

Exemplos: “A posse de jatos, helicópteros, iates e lanchas não paga nenhum tributo. Veículos terrestres, como o meu e o seu carro, requerem o pagamento de IPVA.”

Mais. Somos um país com uma porção de terra cultivada de cerca de 300 milhões de hectares, 35% do território nacional. Já o valor arrecadado do ITR representa menos de 0,06% do total arrecadado pelo país. O rombo está em torno de 30 bilhões. Fantástico!! São benesses para o agronegócio. Uau!!

Um dos pilares da abissal desigualdade no Brasil é o regressivo sistema de tributação, “amigo dos super-ricos”. A carga tributária é mal distribuída, de modo que os pobres e a classe média pagam mais impostos, proporcionalmente, do que os mais ricos. Isto sem contar com a sonegação fiscal.

A justiça – ou não – de um resultado distributivo depende do enredo subjacente: das dotações iniciais dos participantes e da lisura do processo do qual ele decorre.

A desigualdade existente reflete essencialmente os talentos, esforços e valores diferenciados dos indivíduos ou, ao contrário, ela resulta de um jogo viciado na origem e no processo.

Uma sociedade justa é uma sociedade que harmoniza eficientemente as exigências da hierarquia e da igualdade, numa ordem que tende para o bem comum. Não é, infelizmente, o nosso caso.

Nossa sociedade é fruto de um pacto dos donos poder para perpetuar um modelo social cruel forjado na escravidão. A brutal desigualdade de renda continua a ser o traço que nos caracteriza. O atual governo veio para manter e consolidar esta infâmia.

O Brasil, como asseverou Darcy Ribeiro, “último país a acabar com a escravidão tem uma perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso”.


Pesquisa mostra que aumento da desigualdade coincidiu com queda no atendimento do Bolsa Família.

Os jovens e os exterminadores

O rapaz mostrado para todo o Brasil entregando
um boneco a Salles, durante audiência na
Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados,
é quase uma aparição.
Nem seu nome os jornais
conseguiram descobrir.

O jovem de gravata que afrontou os incendiários da Amazônia e entregou o boneco-troféu Exterminador do Futuro ao ministro Ricardo Salles é uma raridade. Os jovens brasileiros não afrontam publicamente mais ninguém que detenha poder.

É a realidade dos tempos bolsonaristas. Politicamente, os jovens brasileiros envelheceram décadas desde as passeatas de 2013 e as ocupações de escolas de 2016.

O rapaz mostrado para todo o Brasil entregando um boneco a Salles, durante audiência na Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados, é quase uma aparição. Nem seu nome os jornais conseguiram descobrir.



O ministro recebeu estatueta com um homem usando terno e segurando uma placa sobre o tronco de uma árvore derrubada.


É um moço ao redor dos vinte anos, com cara de guri e uma mochila às costas. Mas a Folha de S. Paulo o definiu assim: “Homem que entregou boneco a Ricardo Salles foi retirado de audiência por seguranças”.

É um homem. Não é um jovem. Homem. Só isso. Não é apresentado tampouco como estudante. Parece que assim sequestram sua condição de jovem. Se os estudantes sumiram, quem aparece para protestar só pode ser um homem, não um jovem.

O moço se identifica nas redes sociais como iannunesc. Iann seria seu nome, e Unesc seria, dizem, a Universidade do Extremo Sul Catarinense.

Apresenta-se como “às vezes marxista, sempre antifascista”. Defende “ecologia, revolução e igualdade” e prega: “A juventude tem que ser revolucionária”.

É uma bela apresentação. Mas onde estão seus parceiros? Dia desses, um grupo de estudantes fez passeata em Porto Alegre contra o desmonte da educação. A chuva acentuou a dramaticidade da solidão de algumas dezenas de bravos. Apenas algumas dezenas.

Jovens se reúnem com radicalidade em praças do mundo todo para defender a Amazônia. Poucos se mobilizam no Brasil. A cara da expressão midiática mundial da defesa do meio ambiente era, até pouco tempo, a do democrata Al Gore. Um homem, um político consagrado, um sujeito maduro. E o mundo se sensibilizava com Al Gore.

Agora, a defensora da Terra é uma menina de 16 anos. Os jovens têm Greta Thunberg como inspiração. Mulher, adolescente autista, uma pessoa diferente, uma voz poderosa a acusar os exterminadores de futuro.

Mas os adultos atacam Greta. Sabe-se que as escolas têm a sueca como inspiração. As crianças a adoram. Só que os homens feitos buscam problemas em Greta. E os jovens brasileiros não conseguem dar potência política ao que Greta significa para o país na hora em que os cúmplices de Bolsonaro devastam a Amazônia.

Onde estão os parceiros de Iann? Mesmo os não-marxistas, os não-ambientalistas, os não-antifascistas? Que poder de destruição foi acionado pela extrema direita a ponto de imobilizar quem historicamente sempre puxou as resistências?

Repetem-se os relatos de professores (e dos próprios estudantes) sobre a combinação de resignação, inércia e depressão em escolas em geral e nas universidades. Na Ufrgs, na Unicamp, na USP, na Unisinos, na UFC, na PUC, no IFSul, na UFSM. Dizem que os estudantes estão abatidos e sem forças.

Há um sentimento de alheamento, que aciona uma pergunta desconfortável, quase sempre arredada para um lado: os jovens não estariam refletindo a desorientação dos professores e do ambiente universitário?

A universidade teria perdido, há muito tempo, o poder de inspirar os que se inquietam, provocam e transgridem. O bolsonarismo apenas se aproveitou dessa acomodação para iniciar a destruição das disciplinas das humanas e da universidade pública, perseguindo, cortando bolsas, ameaçando demitir, disseminando o terror.

É desolador, mas é bem provável que o avanço do bolsonarismo não explique tudo.

Fonte: ExtraClasse

O dia do professor

Educação não transforma o mundo.
Educação muda as pessoas.
Pessoas transformam o mundo”
(Paulo Freire)

Foi no dia 15 de outubro de 1827 que D.Pedro I baixou um Decreto Imperial criando o Ensino Elementar no Brasil.Ele estabelecia que “todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem suas escolas de primeiras letras”.

O decreto falava de muita coisa: descentralização do ensino, salário dos professores, as matérias básicas que todos os alunos deveriam aprender e até como os professores deveriam ser contratados. A ideia era inovadora, revolucionária.

Faltou apenas ser cumprida. O dia dedicado ao professor, entretanto, somente foi comemorado 120 anos depois, em 1947.

Foi iniciativa de professores de uma pequena escola da Rua Augusta, em São Paulo. Quatro professores tiveram a ideia de organizar um dia de parada para evitar a estafa e também de congraçamento e análise dos rumos para o restante do ano, já que o longo período letivo do segundo semestre ia de 1º.de junho a 15 de dezembro, com apenas 10 dias de férias em todo este período.

A celebração, que se mostrou um sucesso, espalhou-se pela cidade de São Paulo e pelo país nos anos seguintes, até ser oficializada nacionalmente como feriado escolar pelo Decreto Federal 52.682, de 14 de outubro de 1963.

Desde então muita coisa mudou na atividades dos professores. Hoje, pais não aceitam as notas dos filhos, ameaçam e questionam professores.

Os filhos, sem limites, brigões, cultivadores do bulling, passam a ter toda a razão. As escolas, temerosas de perder clientes, avalizam em muitas ocasiões tais comportamentos, justificando-os como “rebeldia característica de adolescentes” E em meio a tudo isto está o professor.

Agora o professor enfrenta um novo desafio: uma tentativa irracional de evitar as luzes do conhecimento via defensores da estapafúrdia, anacrônica e medieval “escola sem partido”. São donos de uma compreensão das mais estreitas do que é educação e do que é ensinar.

Essas pessoas de um reacionarismo espantoso, acreditam piamente no mito da neutralidade da ação docente, segundo o qual, o professor não tem cara, não tem lado, não toma partido, não pensa nem intervém de modo transformador na realidade social.

Para elas, o professor deve estar unicamente comprometido com a sagrada missão de transmitir conteúdos anonimamente escolhidos, aparentemente desinteressados e oficialmente listados.

Os defensores da “escola sem partido”, são os extremamente partidários e ideologizados. O caminho por eles apontado é do retrocesso, já que são portadores do “chip fascista” da extrema-direita. O que querem é “uma escola para o seu partido”.

Não aceitam que o professor é o condutor do processo de conhecer, aprender, isto é, mudar. O verdadeiro portador da vocação ontológica de cada ser humano: ser livre, produtor de cultura, história. E isto ele faz trabalhando o conhecimento enquanto práxis: teoria e método que desvelam a contradição existente em todos os fenômenos e coisas.

É ele que desperta o jovem para a transformação e a criatividade. Paulo Freire chamou a isso de Curiosidade Epistemológica, isto é, acrescentar ao mundo algo nosso. Ao assim proceder escola, professores e alunos estão mudando o mundo. E mudando para melhor.

Mas para que este processo seja concretizado, as coisas não podem acontecer apenas e tão-somente na sala de aula. O professor precisa ser valorizado com piso salarial, carreira, condições de trabalho, acesso aos bens culturais e tecnológicos, respeito, diálogo, formação permanente e participação efetiva na gestão da educação.

Os processos avaliativos devem ser democráticos, internos e externos (por meio de universidades públicas), onde será valorizado o mérito, em contraposição à “meritocracia” de inspiração neoliberal. Afinal, professor não é jogador de futebol que deve ganhar de acordo com o número de gols marcados.

Sabemos que os melhores professores se caracterizam por ter vários anos de experiência, ter um conceito positivo de si mesmo e do seu trabalho, ter expectativas positivas com relação a todos os seus alunos e conseguir fazer todos os alunos aprenderem.

O bom professor é aquele que consegue fazer com que seus alunos aprendam bem o que precisam aprender, no ritmo correto. A sociedade espera tudo dos professores, os pais transferem a eles muito das suas responsabilidades.

A propósito encontrei uma carta de Abrahan Lincol, enviada ao professor do seu filho, em 1830.Isto é, antes da primeira metade do século 19, já aos professores tudo era atribuído. Eis o que pedia Lincoln:

“Caro professor, ele terá que aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, para cada vilão há um herói, que para cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder, mas também a saber gozar a vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.

Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo sozinha contra todos. Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram”.

Um grande abraço a todos os colegas professores pela passagem do nosso dia. Vamos continuar lutando pela educação crítica e livre. Jamais evoluiremos como sociedade sem examiná-la com rigor, visando melhorá-la!

A cultura sob ataque

Se quisermos combater a censura,
não será ridicularizando seus excessos,
mas contestando seu cerne.

A censura é multiforme e camaleônica. Ela nunca morre, apenas dorme. Hoje o seu modus operandi é via aparelhamento da cultura pela extrema-direita no poder.

O trator do obscurantismo investe pesado contra as instituições de cultura e lazer. Um exemplo claro é o que está acontecendo no sistema S (que inclui Sesc, Sesi, Senai, Senac, Sebrae e outras instituições ligadas às confederações patronais do País).

É uma guerra subterrânea, quase invisível ao olho público, que o bolsonarismo está dirigindo às expressões do espírito no Brasil. Programações culturais estão sendo obrigadas a serem canceladas e existe um clima de autocensura por conta das indicações do governo, que se alinham a cultura neopentecostal.

A sanha moralista e amante da censura começa a macular a reputação de instituições como o Sesc que têm se configurado em anos recentes como refúgio da liberdade de expressão.

Assim, a censura vai ganhando novas formas e regenera o corpo destruído, como certas espécies de vermes. O governo, claramente, quer controlar as manifestações culturais, com o apoio de “machões e bolsogatas” acuados pelos avanços na questão de gênero.

Um filme sobre Chico Buarque sofreu interferência do governo quando de sua exibição no Uruguai. A vida de Carlos Marighella, retratada em um filme de Wagner Moura, foi proibido.

A Caixa Federal agora ganhou um “manual” que traz orientações sobre “possíveis riscos de atuação contra as regras dos espaços culturais, manifestações contra a Caixa e contra o governo e quaisquer outros pontos que podem impactar”. Este “manual” orientará o que poderá ou não ser mostrado no espaço Caixa Cultura.

No Banco do Brasil não é diferente. Censura descarada de fazer inveja ao DIP de Vargas que censurava a manipulava a cultura na ditadura do Estado Novo.

O governo parece querer controlar a cultura pelas portas de entrada e saída, dizendo o que pode ou não ser apresentado. Esquece que a cultura é livre, independente e, em seus melhores momentos, antagônica ao Estado.

A censura no governo Bolsonaro é explícita e há uma forte razão: quem quer impedir os outros de refletir por conta própria tem que começar muito cedo.

Tem que começar proibindo a imaginação. E por isso, se quisermos combater a censura, não será ridicularizando seus excessos, mas contestando seu cerne.

Não será zombando de seus erros, mas defendendo a capacidade que têm o pensamento – e a fantasia – de criar mundos novos.

A censura jamais conseguirá reprimir a liberdade de pensamento e a imaginação.

Escola não é caserna: modelo cívico-militar criminaliza educadores e custa caro

Ora, é na rua que as forças de segurança pública devem estar. Com patrulhamento permanente, fora dos portões da escola e do processo de ensino-aprendizagem.

Com pompa e medalha de mérito da Brigada Militar, o secretário Faisal Karam anunciou recentemente a adesão do Rio Grande do Sul ao programa de escolas cívico-militares criado pelo governo Bolsonaro.

Trata-se de mais um aceno do governo Eduardo Leite ao PSL, partido do presidente e do deputado estadual Tenente Coronel Zucco, entusiasta do modelo e autor da proposta.

Sem projetos para atacar os reais problemas da educação, Leite se curva ao autoritarismo e compromete a autonomia das escolas, a gestão democrática e recursos do Estado em um projeto inútil e demagogo.

O programa institui a presença de oficiais da reserva ou brigadianos reformados no interior das instituições para “resgatar princípios como disciplina, ordem e valorização dos símbolos da pátria”.

Não há problemas em formar fileiras para cantar o hino nacional. Mas o fetiche da disciplina cívica não salvará jovens das drogas ou da violência urbana. Nem elevará o nível de ensino. Lugar de militar é na caserna e de policial é na rua.



O civismo é autoritário e impositivo, já o amor nasce livre e desimpedido, espontâneo e duradouro. O civismo precisa ser medido, enaltecido e demonstrado, já o amor ao Brasil brota livre, instantâneo e sem medidas definidas para ser vivido pelos brasileiros.(Nei Alberto Pies)

Escola é para quem tem formação para educar, não para reprimir.


Desvio de função

Além da função “disciplinar” caberá aos militares atuar na área psicossocial, identificando problemas familiares de estudantes e situações que possam “influenciar no aprendizado e convivência”. São atribuições para as quais o oficialato não tem qualquer formação.

Por estudo e experiência, monitoria e supervisão são atividades natas de quem educa.

Trocar o giz pelo coturno é um desrespeito com a categoria. A mensagem por trás do projeto é clara: a culpa da “desordem” e da “indisciplina” é dos professores e funcionários(as).

Alçado do anonimato à cadeira na Assembleia pelo bolsonarismo, Zucco soube surfar a onda do pânico moral e da cruzada contra a educação como poucos.

O militar acredita em fábulas, como a existência de doutrinação ideológica imposta por educadores(as), e já escreveu que “a permissividade em sala de aula está produzindo uma legião de jovens incapazes”.

É mais um expoente da sombria inversão de narrativa que criminaliza quem trabalha no chão da escola, ainda mais cruel quando se considera as condições de miséria da categoria no Rio Grande do Sul.

Com um mentor intelectual desta envergadura, não resta dúvidas de que as escolas “cívico-militares” serão ricas em episódios de censura, ingerência na gestão pedagógica e perseguição aos trabalhadores(as).


Programa onera o Estado

O investimento anunciado pelo governo federal – de R$ 1 milhão por escola – será destinado ao salário dos oficiais da reserva. É o Estado que precisará bancar uniformes e a qualificação dos espaços.

Caso opte por brigadianos reformados, a destinação dos recursos se inverte. Em todo caso, o projeto onera os cofres públicos em um contexto de crise financeira e sucateamento da educação.

Como de costume na gestão Eduardo Leite, há dinheiro para tudo, menos para quem mais precisa.


Critérios escusos

Nesta quarta-feira (2), veio a público o primeiro alvo selecionado para o experimento de militarização. Trata-se da EEEM Alexandre Zattera, de Caxias do Sul.

Estranhamos.

De acordo com o governo federal, com a Seduc e com o próprio deputado Zucco, dois critérios seriam utilizados na definição das escolas: vulnerabilidade social e baixo desempenho no Ideb

A Alexandre Zattera é uma escola de qualidade acima da média. No índice em questão, está entre as dez melhores instituições estaduais de Caxias. No Rio Grande do Sul, supera a maioria dos educandários.

A vulnerabilidade social é uma característica da maior parte do alunado da rede pública, mas não é especialmente destacada em Caxias, cidade que figura no topo de índices como o IDH e o Idese.

No Atlas da Violência, o município da Serra ocupa a 15ª posição no ranking gaúcho de homicídios.

Por outro lado, a cidade é a que mais votos concedeu ao deputado Zucco, excetuando a capital. Outro dado preocupante: a escola na mira dos militares é conhecida por ter trabalhadores(as) engajados na luta sindical.

Resta saber se haverá diálogo real com a comunidade escolar ou se o modelo será, como sugeriu Bolsonaro, imposto de cima para baixo, à revelia do resultado da consulta.

Em reportagem do Pioneiro, a diretora ilustra – de forma inadvertida – a ineficácia do modelo. Afirma que 10 alunos já foram assaltados a caminho da escola em uma mesma noite.

Ora, é na rua, portanto, que as forças de segurança pública devem estar. Com patrulhamento permanente, fora dos portões da escola e do processo de ensino-aprendizagem.

Miguel Arroyo, professor emérito da UFMG, sintetizou o problema em entrevista recente: “as escolas militares têm bons resultados para formar militares, mas não são os melhores exemplos para formar cidadãos com valores de democracia e de igualdade.”



Disfarçado de “racionalização e otimização de custos”, o brutal enxugamento imposto pelo governo Leite sufoca a qualidade da educação, desestrutura a organização pedagógica, onera profissionais e, em última instância, prejudica o aprendizado”. (Helenir de Oliveira, presidente CPERS)


Nota conjunta Direção Central CPERS.

Rosangela Trajano: professora, escritora e amante da sabedoria

Rosângela Trajano, pseudônimo Danda Trajano,
é uma mestra em muitas coisas que envolvem educação:
poesia, filosofia e amor no ato de ensinar.

Ela simplesmente é. Não veio ao mundo a passeio, mas veio para fazer diferença. Além de sua formação superior (em Literatura Comparada, Filosofia Licenciatura e Bacharelado), criou o Projeto Giges que ensina filosofia na calçada da sua casa desde o ano 2000 e foi uma das responsáveis pela implantação da disciplina de filosofia no ensino fundamental II da Secretaria Municipal de Educação de Extremoz-RN. É também editora da Revista Barbante, revista que edita material e produção literária.

Atua com filosofia para crianças, meio ambiente (ecologia), literatura infantil, informática para crianças, psicanálise, filosofia e literatura e contação de histórias.

Com 22 livros publicados na área da literatura infantil e 01 e-book para adultos. Criadora de três coleções de material didático de ensino de Filosofia para Crianças e uma para adolescentes: Lelo amarelo Belo (educação infantil), Para gostar de pensar (ensino fundamental I), Amigos do saber (ensino fundamental II) e Meninos da filosofia (ensino fundamental II), De boa (Ensino médio). É também pesquisadora da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Caicó, no grupo Ensinar e Aprender na Educação Básica (Filosofia para Crianças).

Atualmente, Trajano é professora apenas no seu projeto voluntário de filosofia para crianças que realiza na sua casa e também é palestrante.

Entrevistamos Rosangela Trajano com a intenção de homenagearmos todos os professores do Brasil, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Queremos respeitar as diferenças, mas, sobretudo, destacar as semelhanças na arte de ensinar de todos os educadoras e educadores brasileiros.


NEI ALBERTO PIES: De onde surgiu sua paixão por ensinar? Conte-nos um pouco de sua experiência com alfabetização de crianças.

Desde criancinha brincava de ser professora com as minhas bonecas de pano. Gostava de ensiná-las a ler e escrever. Colocava os meus poucos e velhos livros nos colos das minhas bonecas e ficava lendo com elas. Escrevia nas paredes de casa para que lessem. Quando adulta, minha primeira formação foi em licenciatura e a minha primeira aula foi para crianças do segundo ano do ensino fundamental I, na cidade de Extremoz, onde coloquei em prática o meu amor pela arte do ensino-aprendizagem.

Os meus alunos daquele segundo ano ensinaram-me a como dar aulas para crianças, eles eram os alunos mais fofos do mundo! Tudo o que eu ensinava aprendiam e estavam sempre ansiosos por novos conhecimentos. Eu ensinava inglês, espanhol, ecologia, artes, literatura além das disciplinas obrigatórias.

“Ilustrações, uma das habilidades bastante utilizadas por Rosângela Trajano”



NEI ALBERTO PIES: Como você usa a filosofia na vida e na profissão? Qual é a importância da filosofia neste momento histórico?

Toda criança nasce questionadora e, comigo, não foi diferente. Eu tinha muitos porquês na infância e os trouxe para a vida adulta. Antes mesmo antes de cursar a faculdade de filosofia eu brincava de ser filósofa nas minhas poesias questionando a vida e as coisas ao meu redor. Nunca aceitei conceitos prontos e sempre fui crítica em relação ao que me ensinavam, acho que por isso deixei várias faculdades incompletas porque as aulas nunca satisfaziam minha vontade de aprender e eu saía delas questionando se o que me foi ensinado estava certo ou não.

A filosofia ajuda-me a ser mais humana e aceitar as pessoas como elas são.

Na profissão, acredito que as minhas aulas abordam sempre questões presentes no cotidiano das crianças e dos jovens incentivando o pensar crítico.

O que mais respeito no meu aluno é a sua forma de pensar e se relacionar com o outro. Sou apenas uma ponte entre o pensar crítico e a sabedoria.

Estamos vivendo um momento bastante difícil no mundo e no país em que as pessoas estão cheias de ódio e não têm mais tempo para se preocuparem umas com as outras, somos líquidos como dizia o sociólogo Zygmunt Bauman.

Sinto que necessitamos de pessoas capazes de pensar criticamente para não aceitarem as fake news e a disseminação do ódio. Também vivemos uma época onde as emoções devem se sobrepor a razão para nãos nos tornarmos robôs ou manipulados por terceiros.

 Nunca se falou tanto em inteligência emocional quanto agora e a filosofia sempre se preocupou com a razão deixando as emoções um pouco de lado, mas alguns filósofos como Cícero e Epicuro exploraram essa área, também.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a importância de professores e professoras escritores/escritoras como você?

Não me acho uma escritora, escrevo mal traçadas linhas para viver um pouco mais além dos outros. Escrever nos salva e nos ajuda a conhecermos os nossos outros eus, nos leva a criar mundos melhores e a sair da poluição desse mundo contemporâneo onde as pessoas estão preocupadas em tirarem proveito das coisas a qualquer custos. As amizades, na maioria das vezes, geram interesses.

Acredito que todo escritor deveria ter um projeto voluntário para ajudar as pessoas a aprenderem a ler e a escrever cada vez melhor.

NEI ALBERTO PIES: O que caracteriza a cultura potiguar? Que elementos culturais levas para tua profissão docente e como escritora de livros e revistas?

Os meninos do mangue da Pedra do Rosário e da Ponte Velha do bairro de Igapó. Eles são a minha maior inspiração.

No Rio Grande do Norte diz-se que em cada esquina tem um poeta e creio ser isso verdadeiro. Aqui comemoramos o dia da poesia duas vezes ao ano. O nome dado à cidade do Natal pelo folclorista Câmara Cascudo é uma poesia linda “Natal, a noiva do sol”. 

A poesia potiguar influencia bastante a minha inspiração. Tenho dentro de mim uma alma de muitas artes e culturas que vão desde a poesia à paixão pelo piano. Acredito que o calor humano do povo potiguar me contagia. Aqui todos somos irmãos e amigos, um ajuda o outro naquilo que melhor conhece.

NEI ALBERTO PIES: Conte-nos de tuas produções literárias e de material didático de filosofia para crianças.

O meu primeiro livro impresso foi publicado em 1999 no gênero poesia para crianças. De lá para cá não parei mais de escrever para crianças. Escrevo mais de madrugada quando contemplo as estrelas da janela do meu quarto de dormir.

Tenho muitos escritos inéditos e passeio pelos mais diversos estilos poéticos contemporâneos que vão desde a arte de fazer poetrix ao camaquiano. Também já produzi um poema épico para crianças com mais de três mil versos.

O material didático para crianças é um trabalho que tenho orgulho de fazer e é reconhecido e utilizado por professores do Brasil inteiro.

Já escrevi várias coleções para educação infantil, ensino fundamental I e II e ensino médio. Mantenho uma página no Facebook onde publico aulinhas quase todos os dias e disponibilizo gratuitamente para professores e estudantes. No momento, estou trabalhando numa nova coleção de material didático para a educação infantil que será toda ilustrada por mim e terá como texto o poetrix, estilo poético distribuído em três versos de trinta sílabas poéticas contendo um título.

NEI ALBERTO PIES: Qual é a finalidade da poesia no processo de ensino-aprendizagem de crianças, adolescentes e jovens?

Ensinar a criança a pensar criticamente através das figuras de linguagem e incentivá-las a criarem novos mundos através do imaginário. A criança que estuda poesia tem rapidez na elaboração de problemas lógicos e facilidade na leitura e interpretação de textos.

Se os professores melhor conhecessem os benefícios que a poesia pode trazer às crianças trabalhariam mais com ela em sala de aula.

É uma pena que existam tão poucos livros de teorias sobre isso. Eu mesma já quis oferecer um curso sobre a poesia para crianças na sala de aula e quase não achei material, foi preciso adaptar material do ensino superior. Penso em mais tarde escrever livros de teoria sobre a importância da poesia para criança no seu processo de ensino-aprendizagem. O meu grande sonho é ver todas as escolas trabalhando a poesia em sala de aula.

NEI ALBERTO PIES: Foste desafiada a produzir textos mais reflexivos, todos publicados no site e com muita aceitação. Conte-nos deste desafio novo, uma vez que já tens mais de 20 publicações deste estilo publicados no site.

Comecei publicando no site apenas historinhas curtas para crianças, mas ao longo dos meses percebi que tinha pouca leitura por parte do público. Pensei em algo que pudesse contribuir na formação dos leitores do site e tive a ideia de escrever textos que levassem o internauta a ser instigado a ler o que eu escrevia. Logo dediquei a minha escrita a reflexões sobre a educação de crianças incluindo as suas emoções e afetividade.

NEI ALBERTO PIES: Na sua percepção, qual é a influência do afeto e da inteligência emocional na aprendizagem das crianças e adolescentes?

Um professor só deveria ensinar se amasse verdadeiramente a sua profissão e os seus alunos. Sei que é difícil falar de amor nos tempos atuais, mas é necessário e muito.

Quem ensina com amor transmite sabedoria para o resto da vida, deixa marcas na alma da criança. Vivemos épocas de ódio em que as pessoas não se preocupam mais umas com as outras, tememos sair das nossas casas, não acreditamos mais nas pessoas, não temos mais amigos verdadeiros, passamos a confiar mais nas máquinas e estamos presos à tecnologia. Diante de tudo isso, o amor pede passagem para uma nova era. Um amor que cuide do outro, respeite e tenha proximidade do ser amante. Necessitamos falar mais de amor.

A inteligência emocional urge nas salas de aulas, principalmente às crianças que são incompreendidas pelos adultos na maioria das suas emoções, para citar um exemplo simples, uma criança birrenta nem sempre é assim por falta de educação, mas porque quer chamar a atenção de cuidados.

Já não damos atenção às nossas emoções e deixamos de lado os motivos pelos quais estamos crescendo ansiosos e depressivos, para evitar que isso se torne um problema mais grave salvemos as nossas crianças trabalhando as suas emoções.

As crianças também têm medo do escuro, de palhaços, de perderem as pessoas que amam e tantos outros medos, logo precisam saber lidar com esses medos.

Cabe ao professor ensinar a criança a lidar com as suas emoções de forma que não sofra tanto, porque a infância é uma fase da vida onde sofremos bastante por não termos as nossas dúvidas respondidas e aceitas pelos adultos.

Toda escola deveria adotar a disciplina de inteligência emocional, pois assim as crianças poderiam sair das suas casas na certeza de que encontrariam amor na escola. Tenho dedicado as minhas pesquisas na área da inteligência emocional há cerca de cinco anos, mas só agora venho escrevendo material didático para crianças e disponibilizado em meu site e redes sociais.

NEI ALBERTO PIES: Quais os desafios na profissão docente no Brasil hoje?

Temos muitos desafios, citarei os que acredito serem mais urgentes nos dias atuais: ensinar as crianças a pensarem criticamente, respeito e valorização ao professor, aprender a ensinar através da tecnologia da informação e escolas com boa estrutura.

NEI ALBERTO PIES: O reconhecimento e a valorização dos professores é uma concessão da sociedade ou uma conquista e uma afirmação permanente dos próprios professores e de quem acredita no poder da educação?

As duas coisas estão relacionadas. A sociedade sempre vai reconhecer o bom professor. Sabemos que há uma desvalorização do educador brasileiro, mas aquele que se dedica com amor e desenvoltura à educação se destacará dos demais sendo reconhecidos pelos próprios alunos, pais ou responsáveis e depois pela sociedade como um todo.

A educação precisa ser revista no Brasil. Temos grandes educadores e insistimos em importar modelos educacionais estrangeiros, não valorizando as metodologias de ensino dos nossos professores.

Conheço professores que se dedicam a elaborarem planos de aulas com textos instigantes aos seus alunos, eventos culturais nas escolas, salas de leitura com mediadores eficientes e nada disso é percebido pelas autoridades. Os nossos professores ganham salários baixos, não têm salas de aulas confortáveis e nem material didático de apoio, como vão ensinar com qualidade? Esforçam-se muito para dar o melhor que sabem e fazem isso com dedicação.

Salvemos a nossa educação oferecendo aos professores novas oportunidades de crescimento nas suas carreiras pedagógicas e melhores salários, assim todos estaremos reconhecendo os seus serviços essenciais à sociedade.

NEI ALBERTO PIES: Uma frase que define Danda Trajano.

Amanhã ainda serei criança.

NEI ALBERTO PIES: Uma mensagem aos professores e professoras deste imenso Brasil.

Caros professores e professoras, sei das dificuldades e desafios que vivemos nos últimos anos, porém não podemos cruzar os braços diante de tudo isso. Escolhemos essa profissão e devemos exercê-la com todo o nosso afeto e carinho por aqueles que tanto precisam de nós. Aquele que ensina transmite também valores para os seus alunos, muitos jovens sonham os sonhos dos seus professores.

O mundo necessita de adultos com conhecimentos os mais variados, por isso nos esforcemos cada vez mais para darmos o melhor de nós às crianças que chegam todos os dias nas nossas escolas com vontade de aprender um pouco sobre o que é o mundo e por que precisamos tanto estudar.

Quando tem um professor amigo, a criança ou jovem passa a sentir os seus desejos e vontades mais fortes e possíveis de serem realizados. Somos responsáveis pela criação de um novo mundo.

Façamos como nos ensina Edgar Morin nos seus sete saberes necessários à educação do futuro. Sigamos os exemplos de Rousseau, Kant, Montaigne e Sócrates para nos tornarmos cada vez melhor sem perder as nossas singularidades.

Eu também sou professora e ensino pensando sempre no que o meu aluno vai levar para a sua vida futura daquilo tudo que lhe ensino. Ensinar é uma arte que toca a alma do educando. Ensine com amor, ensine a viver.



Conheça site oficial Rosângela Trajano https://rosangelatrajano.com.br/

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