Rosângela Trajano, pseudônimo Danda Trajano,
é uma mestra em muitas coisas que envolvem educação:
poesia, filosofia e amor no ato de ensinar.
Ela simplesmente é. Não veio
ao mundo a passeio, mas veio para fazer diferença. Além de sua formação
superior (em Literatura Comparada, Filosofia Licenciatura e Bacharelado), criou
o Projeto Giges que ensina filosofia na calçada da sua casa desde o ano 2000 e foi
uma das responsáveis pela implantação da disciplina de filosofia no ensino
fundamental II da Secretaria Municipal de Educação de Extremoz-RN. É também
editora da Revista Barbante, revista que edita material e produção literária.
Atua com filosofia para
crianças, meio ambiente (ecologia), literatura infantil, informática para
crianças, psicanálise, filosofia e literatura e contação de histórias.
Com 22 livros publicados na
área da literatura infantil e 01 e-book para adultos. Criadora de três coleções
de material didático de ensino de Filosofia para Crianças e uma para
adolescentes: Lelo amarelo Belo (educação infantil), Para gostar de pensar
(ensino fundamental I), Amigos do saber (ensino fundamental II) e Meninos da
filosofia (ensino fundamental II), De boa (Ensino médio). É também pesquisadora
da UERN – Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, Campus Caicó, no grupo
Ensinar e Aprender na Educação Básica (Filosofia para Crianças).
Atualmente, Trajano é
professora apenas no seu projeto voluntário de filosofia para crianças que
realiza na sua casa e também é palestrante.
Entrevistamos Rosangela Trajano com a intenção de homenagearmos todos os professores do Brasil, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte. Queremos respeitar as diferenças, mas, sobretudo, destacar as semelhanças na arte de ensinar de todos os educadoras e educadores brasileiros.
NEI ALBERTO PIES: De onde surgiu sua paixão por ensinar?
Conte-nos um pouco de sua experiência com alfabetização de crianças.
Desde
criancinha brincava de ser professora com as minhas bonecas de pano. Gostava de
ensiná-las a ler e escrever. Colocava os meus poucos e velhos livros nos colos
das minhas bonecas e ficava lendo com elas. Escrevia nas paredes de casa para
que lessem. Quando adulta, minha primeira formação foi em licenciatura e a
minha primeira aula foi para crianças do segundo ano do ensino fundamental I,
na cidade de Extremoz, onde coloquei em prática o meu amor pela arte do
ensino-aprendizagem.
Os meus alunos daquele segundo ano ensinaram-me a como dar aulas para crianças, eles eram os alunos mais fofos do mundo! Tudo o que eu ensinava aprendiam e estavam sempre ansiosos por novos conhecimentos. Eu ensinava inglês, espanhol, ecologia, artes, literatura além das disciplinas obrigatórias.
“Ilustrações, uma das habilidades bastante utilizadas por Rosângela Trajano”
NEI ALBERTO PIES: Como você usa a filosofia na vida e na profissão? Qual é a importância da filosofia neste momento histórico?
Toda
criança nasce questionadora e, comigo, não foi diferente. Eu tinha muitos
porquês na infância e os trouxe para a vida adulta. Antes mesmo antes de cursar
a faculdade de filosofia eu brincava de ser filósofa nas minhas poesias
questionando a vida e as coisas ao meu redor. Nunca aceitei conceitos prontos e
sempre fui crítica em relação ao que me ensinavam, acho que por isso deixei
várias faculdades incompletas porque as aulas nunca satisfaziam minha vontade
de aprender e eu saía delas questionando se o que me foi ensinado estava certo
ou não.
A
filosofia ajuda-me a ser mais humana e aceitar as pessoas como elas são.
Na
profissão, acredito que as minhas aulas abordam sempre questões presentes no
cotidiano das crianças e dos jovens incentivando o pensar crítico.
O
que mais respeito no meu aluno é a sua forma de pensar e se relacionar com o
outro. Sou apenas uma ponte entre o pensar crítico e a sabedoria.
Estamos
vivendo um momento bastante difícil no mundo e no país em que as pessoas estão
cheias de ódio e não têm mais tempo para se preocuparem umas com as outras,
somos líquidos como dizia o sociólogo Zygmunt Bauman.
Sinto
que necessitamos de pessoas capazes de pensar criticamente para não aceitarem
as fake news e a disseminação do ódio. Também vivemos uma época onde as emoções
devem se sobrepor a razão para nãos nos tornarmos robôs ou manipulados por
terceiros.
Nunca se falou tanto em inteligência emocional
quanto agora e a filosofia sempre se preocupou com a razão deixando as emoções um
pouco de lado, mas alguns filósofos como Cícero e Epicuro exploraram essa área,
também.
NEI ALBERTO PIES: Qual é a importância de professores e
professoras escritores/escritoras como você?
Não
me acho uma escritora, escrevo mal traçadas linhas para viver um pouco mais
além dos outros. Escrever nos salva e nos ajuda a conhecermos os nossos outros
eus, nos leva a criar mundos melhores e a sair da poluição desse mundo
contemporâneo onde as pessoas estão preocupadas em tirarem proveito das coisas
a qualquer custos. As amizades, na maioria das vezes, geram interesses.
Acredito
que todo escritor deveria ter um projeto voluntário para ajudar as pessoas a
aprenderem a ler e a escrever cada vez melhor.
NEI ALBERTO PIES: O que caracteriza a cultura potiguar?
Que elementos culturais levas para tua profissão docente e como escritora de
livros e revistas?
Os
meninos do mangue da Pedra do Rosário e da Ponte Velha do bairro de Igapó. Eles
são a minha maior inspiração.
No
Rio Grande do Norte diz-se que em cada esquina tem um poeta e creio ser isso
verdadeiro. Aqui comemoramos o dia da poesia duas vezes ao ano. O nome dado à
cidade do Natal pelo folclorista Câmara Cascudo é uma poesia linda “Natal, a
noiva do sol”.
A
poesia potiguar influencia bastante a minha inspiração. Tenho dentro de mim uma
alma de muitas artes e culturas que vão desde a poesia à paixão pelo piano.
Acredito que o calor humano do povo potiguar me contagia. Aqui todos somos
irmãos e amigos, um ajuda o outro naquilo que melhor conhece.
NEI ALBERTO PIES: Conte-nos de tuas produções literárias e
de material didático de filosofia para crianças.
O
meu primeiro livro impresso foi publicado em 1999 no gênero poesia para
crianças. De lá para cá não parei mais de escrever para crianças. Escrevo mais
de madrugada quando contemplo as estrelas da janela do meu quarto de dormir.
Tenho
muitos escritos inéditos e passeio pelos mais diversos estilos poéticos
contemporâneos que vão desde a arte de fazer poetrix ao camaquiano. Também já
produzi um poema épico para crianças com mais de três mil versos.
O
material didático para crianças é um trabalho que tenho orgulho de fazer e é
reconhecido e utilizado por professores do Brasil inteiro.
Já
escrevi várias coleções para educação infantil, ensino fundamental I e II e
ensino médio. Mantenho uma página no Facebook onde publico aulinhas quase todos
os dias e disponibilizo gratuitamente para professores e estudantes. No
momento, estou trabalhando numa nova coleção de material didático para a
educação infantil que será toda ilustrada por mim e terá como texto o poetrix,
estilo poético distribuído em três versos de trinta sílabas poéticas contendo
um título.
NEI ALBERTO PIES: Qual é a finalidade da poesia no
processo de ensino-aprendizagem de crianças, adolescentes e jovens?
Ensinar
a criança a pensar criticamente através das figuras de linguagem e
incentivá-las a criarem novos mundos através do imaginário. A criança que
estuda poesia tem rapidez na elaboração de problemas lógicos e facilidade na
leitura e interpretação de textos.
Se
os professores melhor conhecessem os benefícios que a poesia pode trazer às
crianças trabalhariam mais com ela em sala de aula.
É
uma pena que existam tão poucos livros de teorias sobre isso. Eu mesma já quis
oferecer um curso sobre a poesia para crianças na sala de aula e quase não
achei material, foi preciso adaptar material do ensino superior. Penso em mais
tarde escrever livros de teoria sobre a importância da poesia para criança no
seu processo de ensino-aprendizagem. O meu grande sonho é ver todas as escolas
trabalhando a poesia em sala de aula.
NEI ALBERTO PIES: Foste desafiada a produzir textos mais
reflexivos, todos publicados no site e com muita aceitação. Conte-nos deste desafio
novo, uma vez que já tens mais de 20 publicações deste estilo publicados no
site.
Comecei
publicando no site apenas historinhas curtas para crianças, mas ao longo dos
meses percebi que tinha pouca leitura por parte do público. Pensei em algo que
pudesse contribuir na formação dos leitores do site e tive a ideia de escrever
textos que levassem o internauta a ser instigado a ler o que eu escrevia. Logo
dediquei a minha escrita a reflexões sobre a educação de crianças incluindo as
suas emoções e afetividade.
NEI ALBERTO PIES: Na sua percepção, qual é a influência do
afeto e da inteligência emocional na aprendizagem das crianças e adolescentes?
Um
professor só deveria ensinar se amasse verdadeiramente a sua profissão e os
seus alunos. Sei que é difícil falar de amor nos tempos atuais, mas é
necessário e muito.
Quem
ensina com amor transmite sabedoria para o resto da vida, deixa marcas na alma
da criança. Vivemos épocas de ódio em que as pessoas não se preocupam mais umas
com as outras, tememos sair das nossas casas, não acreditamos mais nas pessoas,
não temos mais amigos verdadeiros, passamos a confiar mais nas máquinas e
estamos presos à tecnologia. Diante de tudo isso, o amor pede passagem para uma
nova era. Um amor que cuide do outro, respeite e tenha proximidade do ser
amante. Necessitamos falar mais de amor.
A
inteligência emocional urge nas salas de aulas, principalmente às crianças que
são incompreendidas pelos adultos na maioria das suas emoções, para citar um
exemplo simples, uma criança birrenta nem sempre é assim por falta de educação,
mas porque quer chamar a atenção de cuidados.
Já
não damos atenção às nossas emoções e deixamos de lado os motivos pelos quais
estamos crescendo ansiosos e depressivos, para evitar que isso se torne um
problema mais grave salvemos as nossas crianças trabalhando as suas emoções.
As
crianças também têm medo do escuro, de palhaços, de perderem as pessoas que
amam e tantos outros medos, logo precisam saber lidar com esses medos.
Cabe
ao professor ensinar a criança a lidar com as suas emoções de forma que não
sofra tanto, porque a infância é uma fase da vida onde sofremos bastante por
não termos as nossas dúvidas respondidas e aceitas pelos adultos.
Toda
escola deveria adotar a disciplina de inteligência emocional, pois assim as
crianças poderiam sair das suas casas na certeza de que encontrariam amor na
escola. Tenho dedicado as minhas pesquisas na área da inteligência emocional há
cerca de cinco anos, mas só agora venho escrevendo material didático para
crianças e disponibilizado em meu site e redes sociais.
NEI ALBERTO PIES: Quais os desafios na profissão docente
no Brasil hoje?
Temos
muitos desafios, citarei os que acredito serem mais urgentes nos dias atuais: ensinar
as crianças a pensarem criticamente, respeito e valorização ao professor,
aprender a ensinar através da tecnologia da informação e escolas com boa
estrutura.
NEI ALBERTO PIES: O reconhecimento e a valorização dos
professores é uma concessão da sociedade ou uma conquista e uma afirmação
permanente dos próprios professores e de quem acredita no poder da educação?
As
duas coisas estão relacionadas. A sociedade sempre vai reconhecer o bom
professor. Sabemos que há uma desvalorização do educador brasileiro, mas aquele
que se dedica com amor e desenvoltura à educação se destacará dos demais sendo
reconhecidos pelos próprios alunos, pais ou responsáveis e depois pela
sociedade como um todo.
A
educação precisa ser revista no Brasil. Temos grandes educadores e insistimos
em importar modelos educacionais estrangeiros, não valorizando as metodologias
de ensino dos nossos professores.
Conheço
professores que se dedicam a elaborarem planos de aulas com textos instigantes
aos seus alunos, eventos culturais nas escolas, salas de leitura com mediadores
eficientes e nada disso é percebido pelas autoridades. Os nossos professores
ganham salários baixos, não têm salas de aulas confortáveis e nem material
didático de apoio, como vão ensinar com qualidade? Esforçam-se muito para dar o
melhor que sabem e fazem isso com dedicação.
Salvemos
a nossa educação oferecendo aos professores novas oportunidades de crescimento
nas suas carreiras pedagógicas e melhores salários, assim todos estaremos
reconhecendo os seus serviços essenciais à sociedade.
NEI ALBERTO PIES: Uma frase que define Danda Trajano.
Amanhã
ainda serei criança.
NEI ALBERTO PIES: Uma mensagem aos professores e
professoras deste imenso Brasil.
Caros
professores e professoras, sei das dificuldades e desafios que vivemos nos
últimos anos, porém não podemos cruzar os braços diante de tudo isso.
Escolhemos essa profissão e devemos exercê-la com todo o nosso afeto e carinho
por aqueles que tanto precisam de nós. Aquele que ensina transmite também
valores para os seus alunos, muitos jovens sonham os sonhos dos seus
professores.
O
mundo necessita de adultos com conhecimentos os mais variados, por isso nos
esforcemos cada vez mais para darmos o melhor de nós às crianças que chegam
todos os dias nas nossas escolas com vontade de aprender um pouco sobre o que é
o mundo e por que precisamos tanto estudar.
Quando
tem um professor amigo, a criança ou jovem passa a sentir os seus desejos e
vontades mais fortes e possíveis de serem realizados. Somos responsáveis pela
criação de um novo mundo.
Façamos
como nos ensina Edgar Morin nos seus sete saberes necessários à educação do
futuro. Sigamos os exemplos de Rousseau, Kant, Montaigne e Sócrates para nos
tornarmos cada vez melhor sem perder as nossas singularidades.
Eu
também sou professora e ensino pensando sempre no que o meu aluno vai levar
para a sua vida futura daquilo tudo que lhe ensino. Ensinar é uma arte que toca
a alma do educando. Ensine com amor, ensine a viver.