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Professora de uma escola com uma sala só

Nilva Signor foi professora de uma pequena escola no interior de Sarandi, RS. Uma escola de uma sala só, escola do campo, séries iniciais, multisseriadas, durante 30 anos, até próximo de sua aposentadoria.

Começou, desde cedo, como ajudante da sua professora. Imagina, a sua professora morava na sua casa, acolhida pela sua família. Depois, cursou “magistério” para poder exercer o ofício de professora. Trabalhou alguns anos ainda na cidade de Sarandi, aposentando-se como professora da rede municipal.

Iniciou as atividades como professora no ano de 1962.

Sempre foi muito dedicada e envolvida com as crianças, com sua profissão e com as atividades comunitárias, seja auxiliando na realização de atividades religiosas ou sociais ou aconselhando crianças, adolescentes e jovens, como também a seus pais, nas escolhas pessoais, profissionais ou de estudo, depois da saída dos mesmos de sua escola.

Até hoje, mora no mesmo local, pertinho do local onde existia a escola, pertinho do salão comunitário e da igreja (tombada como patrimônio histórico), construídas no terreno doado por seu falecido pai.

Conheçamos a história desta importante professora, por ela mesma.

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SITE NEIPIES: Como, quando e por que decidiu ser professora?

NILVA SIGNOR: Acho que nasci com esta possibilidade de ser professora, pois naquela época, a minha professora parava (morava) na minha casa para dar aulas, já que residia perto da escola, minha família a abrigou para que ela pudesse trabalhar. Isso era comum na época, quando a professora era de outra localidade, era acolhida na casa de uma família. Quando cresci, via a professora ir para a escola pertinho da minha casa, às vezes, queria ir para a escola, e comecei a ir junto com a profe, ficava uma hora e depois voltava para casa.

Naquela época, na década de 50, não havia pré-escola, as crianças começavam na 1ª série. Aos 7 anos comecei na 1ª série, gostava muito de estudar, nunca reprovei, sempre acabava as tarefas primeiro e comecei a ajudar a professora com os alunos da 1ª série, continuando até a 5ª série. Como a escola só funcionava até a 5ª série, eu fiquei repetindo a 5ª série até os 16 anos, quando fui contratada como professora, assumindo três turmas, de 1º, 2º e 3º séries, pois sempre gostei muito de trabalhar com crianças.

SITE NEIPIES: Qual é a formação que era exigida na época para ser professora?

NILVA SIGNOR: Naquela época, por volta de 1960, a maioria dos professores não tinha ensino fundamental completo, porque as escolas eram localizadas no interior, longe da cidade, não havia transporte, eram muitas as dificuldades para os professores estudarem e se aperfeiçoarem mais.

No final de cada mês, reuniam os professores no distrito mais próximo, no meu caso o Barreirinho, para chegar lá eram 4km a pé. A reunião iniciava de manhã e se estendida até a tarde, na qual recebíamos orientações dos coordenadores de educação.

Depois de alguns anos eu fiz o supletivo e completei o primeiro grau, na época era chamado assim. Ao completar o 1º grau, fiz o magistério. A minha professora se aposentou e eu assumi todas as séries. Estudava de manhã e lecionava à tarde.

SITE NEIPIES: Quais foram os maiores desafios e dificuldades enfrentados no exercício da profissão com as crianças, os pais e mães e a comunidade? (material, apoio, estrutura física da escola, condição das crianças)

NILVA SIGNOR: Dificuldades sempre tiveram. Porque nossa escola recebia alunos de outra comunidade em que não havia escola, sempre tínhamos alunos sem condições de comprar o material necessário.

Os pais e mãos nem sempre colaboravam, não eram todos, uns por falta de interesse, outros por falta de condições. Na comunidade, famílias que não tinham filhos demonstravam interesse em ajudar.

Material a gente consegui das crianças que tinham condições ou eram realizadas festas na comunidade para conseguir dinheiro para a compra. A escola era pequena, só com uma sala, não havia água encanada próximo à escola, o banheiro era do lado de fora, de madeira, era feito com fossa.

Como professora, tinha que fazer o papel de diretora, professora, merendeira, faxineira, cuidava do jardim e da horta. A água para tomar e preparar a merenda os alunos pegavam no poço na minha casa. Sempre busquei desenvolver nos alunos a educação baseada na ajuda, no trabalho coletivo e na colaboração para que o ambiente fosse o melhor para todos dentro das condições que tínhamos.

Última turma na escola/turma de alunos escola antiga/turma de alunos com antigo uniforme/ Escola de uma sala só/ Fotografias da entrevistada.
Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

SITE NEIPIES: Quais foram as maiores realizações como professora?

NILVA SIGNOR: Muitas foram as realizações. Em primeiro lugar, chegar ao final de cada ano escolar e ver aquelas crianças todas aprovadas, as da 1ª série sabendo ler e escrever, eu me sentia muito feliz.

Sempre dei prioridade na preparação das minhas aulas, procurava buscar mais novidades e conhecimentos, apesar do pouco acesso da época.

Os projetos que realizava com os alunos e na culminância percebia o quanto eles tinham aprendido, faziam a demonstração de seus trabalhos, eram momentos em que mostrávamos aos pais e à comunidade aquilo que construíamos na escola. A cada mobilização que fazíamos para melhorar a escola, o entorno, quando chegavam novos livros, renovávamos a horta, o jardim, cada um desses progressos me deixava feliz.

SITE NEIPIES: Qual era o papel exercido pela escola junto à comunidade e igreja?

NILVA SIGNOR: A escola e a igreja eram instituições muito próximas. Muito a professora fazia para a comunidade. O que os alunos aprendiam na escola, como comemoração das mães, dia dos pais, Natal, apresentavam na igreja para toda a comunidade. Todos gostavam, davam elogios para a professora e os alunos, isso nos estimulava.

Quando havia festa na comunidade, a professora e os alunos deixavam o jardim e o pátio sempre limpos, para contribuir com a boa imagem do local para os visitantes. Aos sábados à tarde, eu também era a catequista da comunidade, e preparava as turmas para a Eucaristia e Crisma, utilizávamos, muitas vezes, o espaço da escola para os encontros de catequese. Contribui por mais de 25 anos com a Igreja preparando 17 turmas para a 1ª comunhão.

SITE NEIPIES: Que didática era utilizada para atender estudantes de quatro séries numa escola de uma sala só, com crianças de séries e idades diferentes?

NILVA SIGNOR: Para atender as quatro séries numa escola de uma sala só, eu precisava planejar bem cada aula.

Uma das estratégias que eu utilizava era a divisão do quadro de giz, um espaço identificado para cada série, assim, eles também sentavam divididos para enxergar melhor a sua parte do quadro. Procurava incentivar os maiores para que ajudassem os menores quando acabassem as atividades. Os menores também aprendiam com os maiores. Sempre precisava ter atividades-extras prontas, para entregar e manter todos ocupados. Tentava manter a disciplina para que um grupo não atrapalhasse tanto a concentração do outro, fazer atividades parecidas, ou seja, quando um grupo estivesse em avaliação o outro também precisaria estar.

Se eu desenvolvesse uma atividade mais dinâmica, todos participavam juntos. Mais ao final da carreira, quando passamos a estudar outras metodologias de trabalho, fui desenvolvendo também espaços no fundo da sala como cantinho da leitura, para que quando acabassem as atividades os alunos pudessem ficar naquele espaço, deixando os demais acabarem as atividades.

SITE NEIPIES: Olhando para a educação de hoje, na sua visão, o que mudou? Mudou para melhor?

NILVA SIGNOR: A educação mudou muito. Vejo que a tecnologia entrou nas escolas e faz parte do dia a dia dos professores, na preparação das aulas, no estudo dos alunos em casa. Hoje há inúmeras possibilidades, o conhecimento se ampliou, os alunos já chegam na escola com muitas informações, na minha época, o único lugar onde eles tinham acesso a livros e informações era na escola. Isso é um ponto positivo, acho bom que o acesso à informação tenha aumentado. Mas também, acredito que há mais distrações e às vezes isso pode atrapalhar a concentração e o aprofundamento do conhecimento. Acredito que os professores e a família devam encontrar um meio termo.

Outro ponto é que as gerações mudaram muito do meu tempo para cá. Não só na questão da tecnologia, como na educação, nos limites, nos interesses, gostos, enfim, então isso também se reflete em sala de aula, pois o planejamento do professor também precisa se adaptar.

SITE NEIPIES: Na sua visão, quais os desafios da educação hoje?

NILVA SIGNOR: Nem me imagino professora neste contexto atual, os desafios são outros, se por um lado na minha época faltavam recursos básicos, hoje os desafios são outros. Como mencionei, um dos principais é compreender a geração ativa e dinâmica dos estudantes de hoje, que utilizam muito a tecnologia. Outro desafio é trabalhar ao lado das famílias para a educação dos filhos, o que era mais fácil há tempos atrás, hoje, as famílias trabalham muito, fora de casa e acabam não tendo tempo de participar e acompanhar a vida escolar dos seus filhos.

SITE NEIPIES: Que mensagem gostaria de deixar aos colegas professores e professoras e aos estudantes de hoje?

NILVA SIGNOR: Acredito que apesar de tantos desafios, a educação sempre teve e sempre terá um papel fundamental na construção da sociedade que queremos.

É na escola que construímos laços afetivos, que aprendemos a solidariedade, a convivência, ensinamos muito mais do que conteúdos, e assim contribuímos na formação de seres humanos. Precisamos seguir acreditando, tendo esperança, buscando valorização profissional.

Aos colegas professores desejo força, coragem e amor pela educação para vencer os desafios. Aos estudantes, desejo que percebam que a educação é um caminho importante para a vida, não só para o futuro, mas para hoje também. Que durante muito tempo foi difícil para quem queria estudar e talvez hoje esteja mais fácil, então é preciso aproveitar as oportunidades.



Um depoimento de uma ex-aluna

Fui aluna da professora Nilva de 1980 a 1983. Lembro da escola pequena, mas muito bem cuidada; da horta, das apresentações nos eventos da comunidade, das aulas sempre muito criativas e dos colegas de idades e séries diferentes, das brincadeiras no entorno da escola… Mas o que mais me marcou foi a profunda consideração que a professora demonstrava, dia após dia, com as crianças, seus alunos. A forma como ela ensinava levava em consideração as características, potencialidades, limites e realidade de cada um. A forma como ela nos tratava sugeria que ela, muito antes do Estatuto da Criança e Adolescente já via a cada de um nós, as crianças, como sujeitos de direitos.

Rosicler Terezinha Dalchiavon
Na foto, em 1983, com colegas de escola e professora Nilva Signor. Ao fundo, pomar e horta da escola.

Religiosidade popular: no braseiro da fé, esperança é minha luz

“Vou cantar minha fé com a voz do coração,
um sentimento movido pela gratidão.
Rio de graças que banha a minha emoção,

no choro incontido de um povo de pés no chão.
Prece cabocla serena de pele morena, da vida
vivida na simplicidade na dificuldade, na superação.
Amazonas, o templo sagrado da minha oração”.


Faço uso do verso da canção “Prece cabocla”, do Boi-bumbá Garantido, para falar da experiência religiosa do povo amazonense, sobretudo da região do rio Juruá.  É importante nos darmos conta que esta região, como outras regiões da Amazônia, teve influência dos nordestinos que foram para lá em busca de uma nova vida, na época da extração do látex da seringueira, a chamada Belle Époque. Estamos falando de um processo de miscigenação que ajudou a dar um novo “tom” à religiosidade popular nessa região.

O povo que aí vive possui dentro de suas práticas religiosas mais comuns o catolicismo. Neste universo amazônico é muito comum a crença nas mitologias que fazem parte do cotidiano do caboclo amazônida, como as lendas do boto, da mãe da mata, do curupira e nas crenças como o mau olhado e os encantamentos.

A religiosidade popular nasce justamente da conjugação de todo esse ambiente, vivido por todos no Amazonas: esse desejo de poder encontrar-se com o transcendental, o sobrenatural, que se dá nas várias manifestações da vida do povo.

E é na vida tão simples e cotidiana do caboclo amazonense que essa religiosidade se demonstra tão forte, seja na devoção aos santos católicos, seja na reunião das comunidades em momentos específicos para celebrar seus padroeiros, transformando-se em eventos que se caracterizam pela realização de festas religiosas ou festejos, como são popularmente chamados. Dessa maneira, as comunidades passam grande parte do ano ora envolvidas com a preparação, ora com a realização ou participação nesses acontecimentos religiosos, tanto na cidade como nas demais comunidades ribeirinhas.

Os grandes festejos que se destacam são os de São Francisco e São Pedro. Estes se caracterizam por serem manifestações de fé, de agradecimento por benefícios alcançados e de renovação dos pedidos feitos à imagem do santo protetor. Obviamente, a intenção deste texto não é dizer se isso é catequeticamente certo ou não, mas a expressão e devoção popular se mostram vivazes e pé no chão, fruto de uma bonita vivência das Comunidades Eclesiais de Base.

Outra característica que merece destaque é que o povo do rio Juruá cumpre suas promessas por meio de rituais, traduzidos, muitas vezes, na forma de festejos, almoços comunitários, missas, procissões e novenas. Assim, cada evento destes possui sua própria história e razão de existência, forma única de ser organizado e sua representatividade para a comunidade varia de uma para a outra. Nas comemorações dos festejos o sagrado e o profano estão presentes e, de certa forma, se entrelaçam a todo momento.

A religiosidade popular, enraizada na vida cotidiana recupera aquilo que o povo tem de mais profundo na sua alma e traz uma vivacidade da fé que ora é devoção, ora se mostra no comprometimento na vida das comunidades na atuação de leigas e leigos nos vários serviços pastorais.

Nestas experiências profundas com o sagrado, o povo dessa região encontra na fé o braseiro, que sacia a alma e arde nos pés, fazendo-o caminhar rumo a novos e melhores horizontes.

Fé é caminho, é meta, resistência, destino e encontro, expectativa e busca, risco e certeza, ousadia e liberdade de quem reza o terço nas procissões, faz invocações às entidades da floresta, ou banha-se com o perfume das encantarias.

É na fé e na esperança que o povo das margens do rio Juruá se mantém firme e sempre está aposto para lutar e vencer as adversidades cotidianas, perpetuando às futuras gerações o eminente desejo de prosseguir lutando e respeitando o princípio sagrado, essencial para a vida em harmonia.

No Braseiro, na brasa, no fogo, a fé conduz a vida do caboclo amazonense à esperança que jamais se apaga, “aprendendo a ouvir a mensagem de um Deus que nos fala na brisa, nas águas nas flores no chão”.




Autor: Fr. Igor Pereira msf
Coordenador Serviço de Animação Vocacional
Passo Fundo – RS

Fr. Igor Pereira trabalha no setor de Animação Vocacional da Província Brasil Meridional dos Missionários da Sagrada Família. Seu serviço é animar todas vocações, exercendo a função de despertar, acompanhar, animar e subsidiar vocações religiosas, sacerdotais e leigas. Faz também um itinerário com as juventudes a fim de levá-los à reflexão sobre projeto de vida e discernimento vocacional.

Redescobrindo a alegria de ensinar: os sons emitidos tem de ser percebidos

Esse momento de pandemia
tem sido de sofrimento, nós precisamos
acolher tudo isso, mas não hospedar
dentro de nós.


Estamos vivendo momentos que a sala de aula sede espaço para novos sons que precisam ser percebidos, talvez, precisamos reinventar a nossa audição, ressignificar os sons que nos movem e direcionar nossos olhos para sentir novas paisagens na profissão de educar.

Essa minha fala, pertinente neste momento, procura trazer uma atmosfera carregada de sensibilidade e emoção do reinventar o sentido da vida educacional atual, para que de fato não se perca essa chama que a escola nos traz.

Participei de um Seminário virtual “REDESCOBRINDO A ALEGRIA DE SER DOCENTE EM TEMPOS DE PANDEMIA”, onde falei sobre o tema desta reflexão (minutos 38 a 60).

Reinvenção é a palavra e a atitude que todos nós, educadores, estamos vivendo. O verbo reinventar é fabuloso, pois esse verbo é bem forte para nós, enquanto sujeitos de um processo de renovação dolorido e ainda mais neste momento, que precisamos descobrir a alegria de ensinar em tempos remotos.

Alegria, nossa companheira na missão de Educar.  Alegria de perceber o brilho no olhar do nosso aluno.  Da Alegria de ver a nossa escola cheia. Alegria de ver o nosso aluno aprendendo.  Alegria de ver os nossos alunos sorrindo no pátio e conversando.

A nossa alegria, na verdade, sempre esteve o tempo todo em nossas vidas ao longo de nossa profissão, se não fosse por ela jamais estaríamos e resistiríamos a tantos impropérios que nos são apresentados. Porém, a alegria esmoreceu no início da pandemia, estávamos perdidos. Ela andou um pouco distante das nossas vidas, principalmente, porque não sabíamos o rumo do recomeço.

Neste processo de reinvenção começamos a mandar atividades “às escuras” para nossos alunos. Ficamos desolados porque não recebíamos o eco esperado, pairava o silêncio. Estou falando da minha experiência de educador há mais de 26 anos e que sou apaixonado por educar. Não ouvir o som de retorno, nos deixa muito desolados, inquietos, desesperados e tristes.

Trago, para exemplificar melhor minha fala, as sábias palavras de Rubem Alves: “Os olhos tem de ser educados para que nossa alegria aumente”.  Os olhos precisam ser direcionados em outros horizontes, para que nós não sejamos privados de ver a beleza, de ver o retorno.

Tivemos que buscar novos olhares, os olhos tiveram que ser educados para um novo recomeço, talvez dolorido, como faz a águia velha, que mesmo sentindo muita dor, vai até uma montanha, bem alta, e no mais triste silêncio e solidão, bate com o bico numa pedra até cair, para se renovar, parafraseando, o autor da famosa Lenda da Águia. Esta automutilação é necessária, para que nasçam novas penas, novo bico e novas unhas.

Estamos batendo com o bico, ele dói, estamos descobrindo a plataforma Classroom, que agora permite que a gente se aproxime, na distância. Reinventamos o jeito de dar aula, “o bico precisava cair para nascer um novo bico”. Essa renovação permitiu que a gente pudesse retomar a interação do aluno. Que a gente pudesse viver um pouco mais e ter uma alegria reinventada.  

Neste processo de automutilação dolorosa, diria que não só os nossos olhos precisam ser educados, mas os nossos ouvidos também porque nós enquanto professores, somos movidos pelo som, mas os sons que evocamos, e sentir a percepção até onde eles chegam, pois é isso que nos move a alma. Quando não percebemos os nossos sons, ficamos perdidos, não soubemos prosseguir.

Estou desenvolvendo na dissertação do Mestrado um estudo do Linguista Francês Émile Benveiste (1989, p.82) que estuda a linguagem, ele diz que para existir a efetivação da linguagem humana, necessita se estabelecer uma relação de um eu e um tu, caso contrário não há enunciação. Pois na linguagem os sons emitidos devem ser percebidos, ou seja, os sons emitidos eles têm de ser percebidos e para nós isso é essência da nossa profissão.  

Nós não sabemos fazer educação de outra forma. E todos passamos por alguns momentos tristes e a alegria deu espaço ao silêncio, pois enquanto educador gosto de ouvir o e perceber que o meu som é percebido, ouvir o som.

Portanto, essa é nossa vida real, essa nossa angústia de aprender e perceber novos sons. Mesmo na distância, separados pela tela, sentimos o feedback. Você precisa do que te alimenta, que é a percepção do teu som. Aprender ao ouvido a perceber outros ruídos, talvez daqueles que não tem acesso a uma internet de qualidade, que possibilita ouvir o eco do professor, o som da internet que cai. Daqueles que “perdem o fio da meada”.

Aprender a escutar novos sons. Essa semana tinha um aluno andando de bicicleta acompanhando a minha aula, o outro estava indo no mercado para vó, a outra estava tomando banho para ir trabalhar, ouvia-se o barulho do chuveiro, mas esses também são os sons do momento, sons que refletem esse descobrir dessa alegria e, dessa forma, nós vamos nos descobrindo enquanto educadores.

Com dor no “bico”, mas continuamos batendo, pois isso é necessário.  Em tempos difíceis, há sofrimento que nós não podemos evitar. Esse momento tem sido de sofrimento, nós precisamos acolher tudo isso, mas não hospedar dentro de nós. Isso faz parte da resiliência que é a capacidade que alguns seres humanos têm de se reinventar frente às dificuldades.

“Afinal, amor rima com flor e com professor. Francês só rima com freguês, do capitalismo e do consumismo utópico. Agora vou me perfumar para a minha primeira aula do dia. Bom dia a todos! Boas aulas!” (Rosângela Trajano) Veja mais aqui.

Consumimos. Logo, existimos

Propagandas, novelas e filmes vendem promessa
de que a felicidade das pessoas está nas coisas e
não nelas próprias. Baseiam-se mais em valores de
consumo materiais do que em valores espirituais,
culturais ou artísticos.


Consciência ambiental não rima com consumismo. As crianças de hoje já estão sensibilizadas para a proteção do ambiente. Mas será que, na era do descartável, elas têm noção dos malefícios do consumo exacerbado?

É em casa que se aprende a conviver com as pressões da sociedade de consumo. Mas o estímulo e o apelo ao consumo produzem magnetismos sociais tão potentes que fica difícil convencer adolescentes e jovens de que não possuir determinados objetos e coisas não interferem em seu reconhecimento e convivência social.

Daí o nosso maior desafio: competir com as sofisticadas estratégias de propaganda e marketing pensadas exclusivamente para a venda de produtos. Isto quando nós também não somos assim considerados produtos, ou para manipular ou mesmo vender.

Os meios de comunicação, como a sociedade em geral, nos últimos anos, reconheceram a gravidade da situação do planeta. Telejornais e reportagens, destacam, incisivamente, a necessidade de mudarmos hábitos e modos de vida para contribuir com a sustentabilidade do planeta, dando-nos a impressão de que estão fazendo um trabalho de relevância social. Contraditoriamente, segundos após, apresentam as mais sofisticadas e elaboradas propagandas que nos apresentam produtos para o consumo, não estabelecendo quaisquer critérios e nem limites para consumir.

Propagandas, novelas e filmes nos vendem a promessa de que a felicidade das pessoas está nas coisas e não nelas próprias. Baseiam-se mais em valores de consumo materiais do que em valores espirituais, culturais ou artísticos.

“A história das coisas” (The Story of Stuff), documentário de apenas 20 minutos que fala sobre o consumo exagerado de bens materiais e o impacto negativo que esse consumo causa no meio ambiente. 



Nossas escolas, por sua vez, há muito tempo, vêm abordando valores e conceitos que buscam a formação de uma consciência crítica do consumo e de posturas de respeito ao meio ambiente. Destacam-se os conceitos do respeito, preservação e sustentabilidade.

Mas será que estes conceitos têm alguma força para se contrapor a uma organização e estrutura de sociedade, que tem no consumo um de seus maiores pilares?

Qual é a validade das ideias, se elas não se transformam em atitudes e hábitos?

A sociedade organiza seus meios de produção, seguindo uma lógica de consumismo. Produtos são criados e lançados no intuito de nos convencer de que consumi-los é como uma condição de participar da vida em sociedade. Não consumir determinados produtos é como “estar fora de”, não participar da dinâmica da comunidade global. Daí a necessidade das propagandas, sempre bem elaboradas, criativas, dizendo sempre aquilo que desejamos ver, ouvir e saber.

O certo é que as novas gerações já têm a consciência da crise ambiental. Contudo, consciência ainda não se traduziu em atitudes e hábitos cotidianos. É que outras ideias, definitivamente, são mais fortes e decisivas. Estas ideias traduzem-se na máxima “Consumo, logo, existo”.

Na filosofia existe a máxima “Penso, logo existo”, do filósofo René Descartes, importante contraponto para inverter a lógica do consumo. No mundo consumista, mecanismo bem eficaz para operar uma venda é justamente não dar muito tempo para o “cliente” pensar, pois quem pensa mais, compra menos. Ou só compra o que é necessário.

A crise ambiental é também uma crise da humanidade e se produziu de forma criativa e engenhosa, sem perceber os limites do planeta. As grandes inovações sempre buscaram elevar a nossa qualidade de vida, mas também criaram um conjunto de necessidades que estão muito além daquilo que realmente precisamos. É por isso que consumimos muito além do que necessitamos.

É importante destacar que todo conhecimento gera compromissos. Estes compromissos já foram assumidos há muito tempo por estudiosos, líderes sociais e ambientalistas, que nem sempre foram bem compreendidos. Precisamos chegar ao limite para reconhecermos que os nossos interesses individuais – econômicos – não podem estar acima dos interesses coletivos.

O que ainda falta acontecer para que mudemos as nossas práticas de consumo a partir das nossas consciências? Até quando continuaremos atribuindo responsabilidade às crianças, adolescentes e jovens que se tornaram seres manipulados pelo sistema para sustentar um sistema social, produtivo e econômico baseado no consumismo sem freios e sem critérios?

Você já reparou que a maioria das propagandas e anúncios tem por alvos sempre as crianças, adolescentes e jovens. Por que será?

De acordo com a própria Constituição Federal, crianças devem ser preservadas de uma influência abusiva da publicidade. Deveríamos conhecer as consequências de deixar as crianças expostas à comerciais quando elas ainda não têm a maturidade para diferenciar as compras necessárias do consumismo desenfreado.

* Publicado em Livro Conviver, educar e participar: nos palcos da vida, 2014.



Proposta de uma atividade pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do Nono Ano do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio. No Nono Ano, Unidade temática: Ética. Objeto de Conhecimento: Refletindo sobre temas morais e éticos/Liberdade Habilidades: EF08FL03PF01 Examinar temas e problemas que envolvem a vida cotidiana do adolescente, reconhecendo possibilidade de fazer escolhas e justificá-las.

Questões para pensar:

Após a leitura do texto (individual ou em grupo, na turma), responder:

  1. Consumimos. Logo, existimos. Por que será que o autor pensou neste título? O que você entendeu?
  2. Por que a maioria dos jovens, apesar de terem consciência ambiental, ainda são manipulados na hora de consumir e comprar produtos nem sempre tão urgentes e necessários para a sua vida?
  3. Qual é a principal mensagem do Documentário “A história das coisas”? Por que o consumo exagerado de produtos gera graves impactos no meio ambiente?
  4. Defina, em algumas frases, a “Sociedade do Consumo”.
  5. Por que o consumo tornou-se importante fator de afirmação social, sobretudo para os adolescentes e jovens?
  6. Assista esta reportagem e dê a sua opinião sobre propaganda abusiva das propagandas na vida das crianças, adolescentes e jovens. https://youtu.be/rU6LNVdOAQs?t=40

Ensino remoto: falta o calor humano do abraço

A tela do computador só esquenta devido
a energia elétrica, a gente se aquece com o calor
de um abraço afetuoso que só os seres humanos sabem oferecer.


Pela tela do computador abraço os meus alunos, mas um deles me diz que não é a mesma coisa do abraço presencial e manda um emoji triste para mim. Fico a pensar em quantos abraços deixei de dar nesses últimos cinco meses, em quantos desabafos e conselhos ficaram perdidos por trás da tela do meu computador.

Às vezes me veem as lágrimas e eu choro pensando nos meus alunos distantes, bem distantes, que não têm sequer condições técnicas e financeiras de assistirem as minhas aulas. A inclusão digital ainda é um sonho para muitas escolas brasileiras.


Em outra publicação do site, já escrevi que “quem ensina a crianças deve saber o quanto elas gostam de nos abraçar e cheirar. Com essa preocupação, sempre fui às minhas aulas o mais bem vestida possível nas escolas que não exigem fardamento, gastei muitas vezes o meu salário quase todo para comprar um perfume francês que tivesse um cheiro agradável e que ficasse fixo no corpo durante várias horas”. Leia mais aqui.


Os recém-nascidos nos seus primeiros momentos de chegada ao mundo são colocados nos braços da mamãe e recebem o calor do seu abraço. Nos braços da mamãe, o choro logo se abranda para muitos deles. Esse abraço que transmite um calor amoroso e seguro. A mãe busca passar para o filho que ele não precisa se preocupar nos seus braços. Ali ninguém o fará mal nenhum. É assim também quando o professor abraça um aluno, envolvendo-o carinhosamente como se seu corpo fosse um ninho.

O abraço diz sempre o que as palavras não conseguem dizer. Lembro-me de uma canção antiga que diz mais ou menos assim “correndo da chuva, tendo seus braços para me abraçar, eu era tão feliz, feliz…” Como fazer crianças e jovens felizes por meio de uma conexão remota? Como abraçá-los quando correm de problemas, frustrações, pressões e dúvidas do dia a dia se estamos tão distantes? Como salvar os nossos alunos da morte da perseverança?

Mexendo na minha caixa de lembranças escolares, acho a foto de uma aluna abraçando a sua bola. Que foto linda! Quanto carinho ela devia ter por aquela bola! Que abraço gostoso e sorriso largo no seu rosto! Imaginei-me sendo aquela bola e entrei no túnel do tempo para ser abraçada por aquela aluna do jeito que ela abraçava a bola.

Acho que ando necessitando de abraços. Estou mais necessitada do que os meus alunos, eles têm uns aos outros, eu não tenho meus amigos professores por perto.

A maioria dos meus alunos moram perto e muitos são da mesma família ou de famílias próximas. Eles se veem, se abraçam, trocam confidências, conversam. Ainda bem que vivem assim. Penso nas crianças que moram em grandes edifícios e nunca veem seus amigos ou professores com esse distanciamento social. E que distanciamento estamos vivendo! A tela do computador só esquenta devido a energia elétrica, a gente se aquece com o calor de um abraço afetuoso que só os seres humanos sabem oferecer.

Até os animais se abraçam para trocarem afetos e cuidados especiais. Num abraço o calor humano é compartilhado e ninguém sente frio. Os animais se abraçam por uma questão de instinto e sabedoria da natureza. Nós, humanos, abraçamos porque somos emotivos e necessitamos uns dos outros, ou seja, aprendemos a viver em sociedade.

Ninguém é uma ilha. Precisamos do outro para vivermos melhor. O calor de um abraço é poesia que se escreve na alma de quem abraça e de quem é abraçado.

Estão matriculados no meu de curso de filosofia vinte e cinco alunos, mas ontem só tinham três alunos online. Os demais mandaram mensagens depois dizendo que estavam sem dados móveis para acessarem a Internet, pediram desculpas e me abraçaram virtualmente. Antigamente, o emoji do abraço era o seguinte []. Isso mesmo, dois colchetes. Logo no início da internet, nos tempos do ICQ.

Os nossos encontros presenciais eram sempre cheios de abraços, brincadeiras, carinho, aconchego. Qual criança não gosta de abraçar e ser abraçada? Aquela carreira com os braços abertos vestida em sorriso largo pronta para abraçar aquele que espera para instruir e ao mesmo tempo educar, sim porque nesse país os professores fazem as duas coisas ao mesmo tempo.

Ontem descobri, mexendo no meu computador, que ele estava quente por demais, seu cooler está com problemas, disse o técnico. O cooler deve ser o coração do computador com acúmulo de calor porque não aprendeu ainda o que é um abraço. Pensei comigo que talvez ele tivesse recebido o meu calor humano e não soube como transmitir aos alunos… computadores não são inteligentes, mas sim quem os programa.

Nos meus mais diversos estudos sobre a Inteligência Artificial entrei numa área faz alguns poucos anos onde os computadores sentem emoções. Bastante interessante para quem tem curiosidade de saber se é possível fazer uma máquina chorar ou sorrir. Sim! Elas podem ter emoções! Estudei algumas coisas e achei empolgantes na época! Porém, nada substitui o homem!

As máquinas podem até chegar a amar, mas nunca poderão passar esse calor humano que liga professor e aluno. Calor humano que recebe o aluno tristonho na sua sala e ouve, atentamente, os seus problemas.

Alunos que sofrem maus tratos em casa são os mais comuns dos relatos que ouço. Dói no coração saber que damos tanto amor aos nossos alunos enquanto eles estão na escola e quando vão para as suas residências, ao invés de receberem muito mais amor, são obrigados a fazerem coisas que não gostam senão poderão ser vítimas de agressões físicas.

Outro dia, um dos meus alunos chegou com uma mancha roxa no braço direito. Desconfiei logo. No final da aula o chamei e perguntei que mancha era aquela. Ele mentiu dizendo que tinha escorregado no banheiro. Relutou e não me disse a verdade. Passados alguns dias, sem a mancha aparecer mais ele me contou tudo. O seu pai queria que fosse participar de um acerto de contas entre facções, como negou-se a ir o pai puxou-o fortemente pelo braço para fora de casa obrigando-o a ajudar os amigos da tal facção. O restante da nossa conversa deixo guardada dentro de mim. Melhor não contar. É muito dolorida. O fato é que abracei meu aluno com todo o meu amor e chorei junto com ele. Nunca mais soube dele. Tem faltado as aulas remotas. Sempre me falou de que não gosta desse tipo de aula. Acho que ninguém gosta, quis dizer a ele.

O calor humano jamais poderá ser transmitido pela conexão de uma banda larga, coisa difícil no nosso país. Os jovens mal têm acesso a uma conexão em casa. Esse calor que aproxima as pessoas, que passa confiança, que extrapola a distância entre professor e aluno jamais poderá ser transmitido por uma fibra óptica ou conexão sem fio.

Está difícil ficar longe dos meus alunos. Sou mais conselheira do que professora na escola onde leciono. Tenho alunos com os mais diversos tipos de problemas.

No último dia de aula presencial, uma aluna estava para receber o resultado do seu teste de gravidez. Não sabia o que faria se o resultado fosse positivo, pois nem sabia direito quem era o pai da criança e a sua família jamais a aceitaria grávida em casa. Os pais dessa jovem ainda chamam de “mãe solteira” as jovens que têm filhos foram do matrimônio e são muito mal vistas na comunidade. Envergonham a família. Lembro-me que minha aluna estava apreensiva e com cólicas, à espera do resultado. Na minha humildade, falei para ela que encontraríamos uma saída e a abracei.

Eu sempre abraço os meus alunos quando não tenho respostas para eles. Parece-me que o abraço é a melhor resposta que encontro, e como um santo remédio cura as dores e aflições que os trazem até mim.

Conversando com uma professora amiga outro dia, ela me disse que o mais difícil para ela nesse ensino remoto está sendo elaborar aulas para os alunos com necessidades especiais. Ela não tem ideia do que fazer. Sente muitas saudades de um aluno autista e de outro que é portador de uma doença degenerativa e vive em uma cadeira de rodas, esse mal fala.

 O que ensinar a esses alunos através do computador se eles precisam de alguém que pegue nas suas mãos e os ajudem a fazerem as lições? Quem vai pegar nas mãos deles? Se eu costumava cantar e abraçá-los quando ficavam nervosos em sala de aula com o barulho dos demais alunos.

 A professora não sabe o que fazer com os seus alunos. Mas, como todo bom professor, ela reinventou-se e comprou um violão para tocar música para eles, vale salientar que ela não sabe nada de instrumentos musicais. O aluno autista sequer se conecta a internet. Ele não gosta. Ele sente saudades da tia, como é carinhosamente chamada a professora dos primeiros anos escolares, que o ajudava a pintar o desenho, diz a mãe preocupada com o filho.

A gente se abraçava nos corredores da escola, no caminho, na sala dos professores, na biblioteca. A gente se abraçava onde se encontrasse, isso porque somos humanos e necessitamos uns dos outros. Um abraço transmite além de confiança e amor, tranquilidade, aquele vai ficar tudo bem ou vai passar é dito num simples abraço.

Se meus alunos têm sentido falta de um abraço presencial, digo com certeza de que também tenho sentido saudades dos seus abraços que gostavam de sentir a fofura do meu corpo. A gente abraça para sentir calor humano, a gente abraça para aliviar a nossa dor, a gente abraça para compartilhar sentimentos, a gente abraça para agradecer, a gente abraça porque queremos sentir que a pessoa amada está ali pertinho e nunca partirá. Porém, nesses tempos de distanciamento social, já não podemos mais abraçar nem as pessoas de casa imagine nossos alunos que estão bem longe da gente.

A minha maior emoção na penúltima aula foi ver a minha aluna de trezes anos chorar diante da tela do computador dizendo que estava com saudades do meu abraço e que estava precisando muito de um. Fiquei sem palavras. A aula foi interrompida. Todos os outros alunos disseram a mesma coisa.

Por detrás da câmera não é mais fácil segurar as emoções, ao contrário. Você tem que ser forte, buscar coragem nos confins da sua alma para não chorar diante dos seus alunos que estão distantes e poderão sofrer mais ainda com a sua reação. Sorri na tela do computador e lhes mandei um abraço apertado virtualmente. Disse-lhes de que tudo passaria e logo poderíamos nos abraçar presencialmente. A aluna de trezes anos pediu para eu ir à escola pra de longe ela me ver, pra de longe ela poder me abraçar e falou mais “eu só quero ver alguém da escola. Estou com saudades.”

Fui dormir pensando numa forma de abraçar meus alunos mesmo virtualmente de um jeito que eles se sintam mais confortáveis e seguros, como se sentiam nas aulas presenciais. Nas minhas aulas de filosofia, passei a ensinar inteligência emocional para que eles aprendam a lidar com as suas emoções, coisa bastante necessária nos últimos meses.

Tem sido bem difícil para eles aceitarem o ensino remoto, mas é preciso para que as aulas não parem. É a nossa única forma de não ficar mais distante ainda.

Nessa conversa lembrei de uma amiga que tem um filho de dez anos de idade que se nega a assistir as aulas remotamente. O garoto diz que não consegue aprender nada, as suas notas nas avaliações caíram bastante, ele não tem paciência de ficar parado diante da tela do computador duas horas. Seu pensamento se dispersa, quer jogar videogame, quer ir pra rua, inventa mil e uma desculpas para não mais assistir a aula, vai ao banheiro várias vezes, vai tomar água, reclama da vista cansada. Reclama que a conexão está lenta.

O garoto não se adaptou ao ensino remoto, nem eu. Ele costuma dizer para a sua mãe que sente saudades de quando o professor de matemática perdia a paciência diante da gritaria da turma.

Um vídeo de um professor vestido de entregador de pizza tem ganhado visibilidade no WhatsApp nos últimos dias. Ele chega na casa dos seus alunos e entrega a caixa de pizza, depois retira o boné e os óculos e, imediatamente, é reconhecido pelo aluno. A primeira reação dos alunos é correr para abraçar o professor que se afasta para longe porque não pode abraçar para não correr o risco de infectar ou ser infectado pelo vírus que nos separou há alguns meses.

É um vídeo emocionante. Mostra o real sentido do abraço. Aquela vontade de agradecer, de sentir perto, de dizer que você é importante para mim. Um abraço diz tantas coisas que nem sei direito o que falar dele. 



Professor visita seus alunos como entregador de pizza

Nas salas de aulas remotas não temos bolinhas de papel jogadas uns para os outros alunos, até isso está fazendo falta.

A maioria dos meus alunos não gosta de abrir a câmera e preferem mostrar apenas as suas fotos. Eu respeito as suas privacidades. Um deles me disse que não vê a hora de me abraçar novamente porque a tela do seu celular estava quebrada e ele mal me via.

As dificuldades do ensino remoto são muitas no nosso país. Falta tudo aos nossos alunos. Como bons brasileiros que somos, acredito que nunca nos acostumaremos a esse tipo de ensino porque somos um povo alegre e que gosta de abraços e proximidade, calor humano não se transmite em bytes ou ondas magnéticas. Calor humano só se transmite num abraço. Aquele abraço aos meus alunos!

Centenário da imigração russa no sul do Brasil

Este centenário da presença russa no RS
representa muito para os descendentes das
famílias russas que chegaram ao Brasil em
busca de novas e importantes oportunidades
de vida e de trabalho.


Por ocasião das comemorações do centenário da imigração Russa, comemorado em outubro de 2009, no RS, a RBS TV produziu um documentário denominado Nadejda que significa esperança, que foi ao ar durante 4 dias seguidos na abertura do Jornal do Almoço.

Este centenário representa muito para os descendentes das famílias russas que chegaram ao Brasil em busca de novas e importantes oportunidades de vida e de trabalho.

Jacinto Zabolotski, um descendente destas primeiras famílias no RS mora em Campina das Missões, uma pequena cidade do RS que ainda mantém tradições e possui marcos importantes como um grande cemitério, uma Igreja Ortodoxa Russa e uma comunidade que não mede esforços para conectar-se com as suas origens.

Em 2018, entrevistamos Jacinto Zabolotski. Reproduzimos aqui parte da entrevista à época concedida para o site. Matéria completa clicando aqui.

***

Nei Alberto Pies: Jacinto, como descendente de russos que vieram da Sibéria em busca de melhores condições de vida, como avalias o impacto cultural e econômico no desenvolvimento desta região missioneira a partir da imigração russa?

Os imigrantes de todas as etnias tem a sua parcela de contribuição no progresso do estado e da nação, independente da etnia de sua origem. Pois com a força de seu labor mudaram o rosto de Campina das Missões, do Estado e do Brasil, com determinação, garra e coragem em busca de novos horizontes que esta terra tão maravilhosa acolheu a todos a partir de 1909, que aqui plantaram sua história, constituíram as suas famílias, cultura, religiosidade, enfim, o seu legado histórico-cultural-religioso, se tornando o berço da cultura russa. 

Nei Alberto Pies: O que torna esta cultura tão marcada em solo gaúcho? Foi a união, a identidade em torno da igreja e da cruz ortodoxa, do cemitério e das festas anuais que estes imigrantes realizavam por aí? O que mesmo identifica este grupo étnico nesta região do RS?

Assim como o Brasil, a Rússia é um país com dimensões continentais, culturalmente multifacetado e multiétnico. Os dois países são formados por inúmeros povos e culturas que se entrelaçaram ao longo dos séculos entre si, e formam as suas nacionalidades. A identidade do Brasil enquanto povo é formada essencialmente por estas misturas, e aqui no RS, onde vieram inúmeros imigrantes da Europa tal riqueza cultural da nossa identidade se torna ainda mais evidente.

Devido a singularidade do povo russo, ao chegarem ao Brasil trouxeram consigo não só o trabalho para desbravar estas novas terras, mas sobretudo uma série de novos costumes e tradições que não eram praticados pelos imigrantes da Europa Ocidental ou nesta região até aquele momento. Neste sentido, os imigrantes russos ajudaram a formar e enriquecer o mosaico cultural de nosso Estado.

“Uma das principais contribuições deste povo, foi justamente a introdução da fé ortodoxa russa no Brasil, sendo que em Campina das Missões, no ano de 1912 foi inaugurada a primeira Igreja Cristã Ortodoxa Russa em solo brasileiro”.

Tal excepcionalismo é uma marca que os difere da fé católica primordialmente praticada pelos imigrantes de origem europeia ocidental que colonizaram o RS. Para além de inúmeras diferenças culturais, como idioma, culinária, danças etc, se eu pudesse definir o que os identifica enquanto grupo étnico, seria primordialmente a fé ortodoxa, que é preservada até os dias de hoje em nosso município.

Também trouxeram na sua bagagem a determinação para vencer as vicissitudes, tanto é que tinham que desbravar as densas florestas, enfrentar animais selvagens, encontrando aqui índios e a vontade de lutar para melhorar as condições de vida de sua família e não esqueceram a fé, pois na hora das imensas dificuldades, era na fé que encontraram forças para vencer as dificuldades. Foi aqui erigida a primeira Igreja Ortodoxa no Brasil em 1912.

“As festas anuais realizadas cada ano no dia 09 de outubro, ou no domingo mais próximo, são como um encontro de todos e os que se mudaram para outras regiões do Estado e do Brasil. Nesta data é a comemoração em honra ao seu patrono, o Padroeiro Apóstolo São João Evangelista, o Apóstolo do Amor. Nesta data também é comemorado o Dia do Município de Campina das Missões e o Dia da Etnia Russa no Estado (Lei Estadual nº 13.299/2008)”.

Para salvar a história foi erigido um monumento na entrada da cidade, nas margens da RS 307, em homenagem ao Centenário da Imigração comemorado em outubro de 2009. Também, no centro da cidade, encontra-se a Praça Russa São Vladimir, Santo Equiapostólico, batizador da Rússia em 988, cujo busto está no arco, com  a cruz Ortodoxa, com cúpula dourada.

Nei Alberto Pies: Em sua vida cotidiana, estás bastante conectado com a cultura dos teus antepassados da Rússia. O que mais te realiza como cidadão brasileiro, mas com um pezinho na Rússia?

Para iniciar esta resposta, posso dizer que realmente estou conectado, pois possuo dois canais da TV Russa, canal um (pervií canal) e outro, Russia RTR, onde vejo as notícias em tempo real diariamente. Também tenho contato com os primos que residem na Sibéria, em Krasnoyarsk Ainda contatamos com o Pe. Dionisio, que atualmente exerce trabalho pastoral em Rublevo, próximo a Moscou.

Da mesma forma temos congresso anual de médicos, do qual sou o mediador entre Brasil-Rússia, deste projeto. Em meados de 2016 estive 47 dias, para aprimorar o idioma russo no Instituto Pushkin, em Moscou. Sempre que possível, viajo com a família.

Estamos na coordenação, há 26 anos (desde 1992) do Grupo Folclórico Russo TROYKA, que divulga os usos, costumes, tradições e as danças alegres e vibrantes do fascinante folclore russo.

“A preservação do legado histórico-cultural-religioso de meus antepassados no Rio Grande do Sul, é algo que me fortalece enquanto brasileiro, e que fortalece o Brasil enquanto uma nação multiétnica e multicultural. Não esquecer a memória e a vivência de luta dos imigrantes russos que vieram até as longínquas terras de Campina das Missões é sobretudo lembrar e resgatar a história da formação de nosso Estado e de nosso povo”.

***


Conheça esta série, produzida pela RBS TV


Lembranças da Imigração



Imigração russa no RS: religiosidade



Gastronomia e cultura: imigração russa no RS


Com o resgate de parte da  história da imigração russa no RS, estamos abrindo parceria com Jacinto Zabolotski para que o mesmo assuma uma coluna na Seção Convidados do site. Integrará o grupo de mais de 40 Convidados que colaboram, no seu ritmo e no seu tempo, com suas publicações reflexivas. Bem-vindo! Conheça aqui os demais Convidados aqui .

Símbolos Religiosos, Laicidade e Intolerância Religiosa no Brasil

O direito ao uso dos símbolos religiosos
pela pluralidade religiosa, sem recorrer ao
fundamentalismo, pode ser uma ação de política pública.


Como já debatemos nesta coluna, o Brasil tem sérios problemas no tocante em assumir uma posição clara e objetiva acerca da laicidade. Avançamos significativamente na liberdade de culto e de ter ou não uma religião ou religiosidade. Entretanto, o Estado e outras repartições públicas não tratam de forma igualitária as instituições religiosas.

As políticas públicas adotadas de interesses às entidades confessionais beneficiam claramente setores evangélicos e católicos. Tais privilégios podem ser percebidos por meios do tratamento dos símbolos religiosos em espaços públicos.

Antes de falarmos da relação entre símbolos religiosos, laicidade e intolerância religiosa, cabe perguntar: o que são símbolos religiosos?

Cada religião tem seus símbolos. Elementos que expressam o significado a sua fé, cosmovisão, normas, tradições, rituais, esperança, natureza e relação com o mundo. Normalmente os fiéis utilizam os símbolos por entenderem que são meios poderosos para alcançar seus desejos ou reforço de suas vinculações religiosas.

Historicamente o Brasil priorizou a agenda católica no campo político e cultural. Os símbolos católicos reforçavam a ideia que ser brasileiro é também ser católico. Houve financiamento de construção de imagens em espaço públicos, uso de crucifixos em espaços de deliberações politicas, distribuição de bíblias nas escolas, dentre outras iniciativas.

A partir dos anos 1990, com o crescimento dos evangélicos, o Brasil não é mais um país de hegemonia católica e, sim, de pluralismo de expressões cristãs, e os símbolos religiosos pentecostais e neopentecostais são valorizados e financiados pelo Estado. Roupas, templos, bíblias, panfletos, cruz, são utilizados e incentivados como meios religiosos necessários para a vida em sociedade.

Outros exemplos que demostram que símbolos católicos e evangélicos são beneficiados em relação a outros são os crucifixos que permanecem em Câmara dos Deputados e de Vereadores no Brasil. Muitas ações já foram movidas por setores da sociedade civil argumentando que a lógica laica de uma democracia como é a brasileira não pode permitir em uma repartição públicas um único símbolo religioso. Argumentação aponta que as decisões discutidas e deliberadas não podem sofrer interferência direta ou indireta de qualquer confissão religiosa. No entanto, algumas decisões judiciais julgam pertinentes a presença dos crucifixos nas repartições públicas supracitadas. Alegam que o Brasil culturalmente é cristão e que a presença de elementos religiosos em espaços públicos significa o direito pleno do exercício da liberdade religiosa.

O mesmo nem sempre acontece com os símbolos ligados às religiões de matriz africana. Ao falar das oferendas, vestimentas, danças, objetos, comidas, e outros utensílios sempre são associados a questão demoníacas, erradas, desviantes e imorais.

Historicamente, não foram poucos as ações que proibiram terreiros de candomblé ou umbanda (e setores do espiritismo) de praticarem seus rituais em espaços públicos ou usos de seus elementos. Atualmente, fieis afro-brasileiros tem evitado usar o branco nas sextas-feiras e saírem as ruas com medo de serem mortos, ridicularizados ou espancados. Não podemos esquecer que o grupo religioso que mais sofre intolerância religiosa são as religiões de matriz africanas. Seus templos são invadidos e destruídos. Lamentável isto.

O que defendemos é uma democracia que reconheça em termos práticas o direito do outro utilizar seus símbolos religiosos em um contexto que a laicidade é respeitada. O direito ao uso dos símbolos religiosos pela pluralidade religiosa, sem recorrer ao fundamentalismo, pode ser uma ação de política pública. Expressar por meio de elementos religiosos o que aquela experiência de fé significa e o que trouxe para sua vida é natural e fundamental em algumas situações.


Apresentamos aqui uma série de vídeos que podem ser assistidos, tanto para aulas quanto para aprofundamento de conhecimentos, sobre a importância dos símbolos religiosos para as diferentes tradições religiosas. Estes vídeos foram recomendados pelo professor Valdecir João Bianchi, da rede estadual e particular em Passo Fundo, RS.

Série:  “O que é um símbolo religioso” caracterização e implicações

Parte 1 – https://www.youtube.com/watch?v=uyYe1GyEjzg
Parte 2 – https://www.youtube.com/watch?v=aaw3M4yIkhE
Parte 3 – https://www.youtube.com/watch?v=isYGm79aMBg

Imagens e símbolos religiosos – Pe. Fábio de Melo – https://www.youtube.com/watch?v=yRvb-RabqaQ




Sugestões de uma prática pedagógica

Colaboração do professor Alex Rosset

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Oitavos Anos do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio.

No Oitavo Ano, Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida, Objetos de Conhecimento: Doutrinas religiosas/Crenças, filosofias de vida e esfera pública. Habilidades: EF08ER03RS-03) Conhecer e descrever em que se constitui o sincretismo religioso e as formas de manifestações nas Tradições Religiosas. (EF08ER03RS-04) Observar e comparar como elementos de uma Tradição Religiosa são ressignificados em outra, através do Sincretismo. (Ex.: Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá).

Para aprofundar conhecimentos:

  1. É possível imaginar, no Brasil, como seria uma democracia e uma pluralidade religiosa?
  2. Qual é a posição do religioso Fábio de Mello sobre adoração de imagens (vídeo https://www.youtube.com/watch?v=yRvb-RabqaQ)
  3. Qual é o problema de um país manter ou retirar símbolos religiosos de lugares ou repartições públicas? (Veja no vídeo  https://www.youtube.com/watch?v=isYGm79aMBg)
  4. O Brasil se constitui culturalmente a partir do sincretismo religioso. Pesquise sobre isso e faça síntese.
  5. Após leitura do texto e acesso aos vídeos, qual é o seu posicionamento pessoal sobre o uso de símbolos religiosos em lugares públicos?



Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis, professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Políticas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Políticas Públicas. E-mail para contato: marcosvinicius5@yahoo.com.br

Estamos longe fisicamente, mas conectados pelo coração

A EMEF Zeferino de Costi, de Passo Fundo, realizou projeto de reconstrução de vínculos com seus estudantes, famílias e professores e professoras, durante a pandemia, durante o mês de julho de 2020. A partir do mês de agosto de 2020, as aulas não presenciais serão a partir da plataforma Google For Education.

Foi uma experiência incrível, cheia de desafios, como forma de superar ou amenizar o distanciamento físico e conectar-se com o coração. A Escola acredita que os laços de afetividade e conexão são fundamentais para que ocorra uma boa aprendizagem.

No mês de julho, ocorreu também o aniversário de 29 anos de existência da Escola. Na sua página do Facebook, houveram muitas e significativas postagens de estudantes, pais, mães e professoras, fazendo o reconhecimento deste espaço educativo para a humanização, através do conhecimento.

Destacamos, nesta publicação, depoimento da professora Elaine dos Santos, sobre uma atividade que foi uma reunião virtual com os estudantes.

***

“Resgatar os vínculos neste tempo de pandemia, foi o tema central do projeto desenvolvido pela escola ZDC e nos oportunizou momentos de grande emoção junto aos colegas, às famílias e, principalmente, aos nossos alunos.

Perceber o envolvimento das pessoas, a preocupação com a escola, com os outros e consigo mesmo foi muito emocionante.

Não imaginei em momento algum de minha vida profissional vivenciar uma experiência de pandemia e agora todos nós estamos vivenciando momentos de incertezas, de ansiedade e muita saudade de tudo e de todos.

Saudades daqueles sorrisos, das gargalhadas, das piadinhas sem graça, dos pedidos inusitados no meio da aula, de compartilhar uma experiência muito legal com a turma, de aprender um conteúdo bem importante… da convivência diária.

Esses momentos de reflexão são importantes para reforçar quanto precisamos uns dos outros para nossa saúde emocional ….

Receber uma visita inesperada da equipe gestora que veio trazer umas gostosuras para acarinhar meu coração tão saudoso foi muito emotivo, porque não existia essa combinação e de repente… que bom poder fazer parte deste grupo.

Em grupo, decidimos retribuir o carinho… nossa, quanta expectativa… que maravilha perceber a emoção e o nascer de um sorriso genuíno de agradecimento. Valeu a pena!!!

E o mais afetivo dos encontros foi com os alunos do 6º ano A e B.  Como eles cresceram, as feições estão em processo de transformação… não são mais tão crianças e a pré-adolescência já começa a demonstrar a nova fase de suas vidas… mas o carinho ainda está ali.

Um pouco tímidos inicialmente, os novos pets que chegaram, muitas novidades para contar. Meu choro naquele momento foi de muita, muita saudade de todos. Ver meus alunos virtualmente, serviu para reforçar nossos vínculos afetivos, nossa identidade de turma e de escola, enfim, nosso pertencimento a essa escola. 

Autora: Elaine dos Santos
Professora de Língua Portuguesa do 6º ano







Recortamos, também, postagens da página do faceboock que se referem a este importante projeto realizado pela EMEF Zeferino de Costi.

Estimadas famílias e comunidade ZDC!

Do dia 06 a 17 de julho a escola estará desenvolvendo o Projeto: “Estamos longe fisicamente, mas conectados pelo coração” buscando resgatar e fortalecer o vínculo entre escola e família para coletivamente enfrentarmos os desafios que o contexto histórico exige, diminuindo o distanciamento através de várias atividades e ações.

Importante a participação das famílias e estudantes, pois estaremos nos preparando para enfrentar novos caminhos e superar as dificuldades coletivamente, pois juntos podemos reinventar este momento de transformação e aprendizagem.

Fiquem atentos e conectados porque será enviado tarefas, informações, vídeos, mensagens… pelos grupos de whats e facebook.

Um abraço a todos!

Professores e equipe gestora

(Postagem no faceboock da escola)




Queridos estudantes do ZDC!

Preparamos com muito carinho um vídeo para expressar nossa saudade, nosso cuidado e para fortalecer nosso vínculo, que mesmo nós estando longe, estamos conectados pelo coração. Veja mais aqui.

A Escola também aposta muito no papel e na função das famílias no atual momento histórico.

Trabalho dos oitavos anos de uma escola para retomar os vínculos afetivos e de aprendizagem para as aulas à distância e de forma remota.

Deixa Morrer!

Não há desculpas. 
O país, favorecido pelo clima e pela
distância de 16 mil quilômetros da China,
teve quase dois meses para se preparar
para enfrentar a ameaça da Covid-19.


Na semana em que o Brasil bateu a marca de  mais  de  100 mil mortes  confirmadas  pelo  Coronavírus,  é obrigatória  uma  reflexão  sobre  as  razões  de tal  tragédia.

Fica notório que muitas mortes poderiam ser evitadas se houvesse uma política  sanitária  e social de combate  à  doença. Basta comparar o impacto  da pandemia  em outros países.  Se a China é a excepcionalidade  do sucesso na condução desta  crise,  a experiência  de nossos  vizinhos, como  Argentina  e  Paraguai, mostra  que o Brasil  é  um grande  fracasso.

Não há desculpas.  O país, favorecido pelo clima e pela distância de  16  mil quilômetros  da  China,  teve  quase  dois meses para  se preparar  para  enfrentar  a ameaça  da  Covid-19. Enquanto o vírus avançava pela  Europa, Bolsonaro e seus seguidores, acometidos  de  aguda  dissonância cognitiva, preferiram ignorar a realidade. 

Osmar Terra, um dos luminares do negacionismo, disse  em abril  que “vai morrer menos gente  de coronavírus  em todo o Brasil do que gente no inverno gaúcho de  gripe sazonal”. Já Edir Macedo asseverou: “não se preocupem com o coronavírus. Porque essa é a tática, de  Satanás”. Olavo de Carvalho, que se diz filósofo, foi taxativo, “essa  epidemia  simplesmente não existe”. Ulala!!

Assim, a  maior  catástrofe  sanitária  da história brasileira  foi ganhando forma, enquanto  o ex-capitão  dedicava  todos  os esforços  para minimizar  a pandemia e  sabotar as medidas de isolamento social. Bolsonaro passou a correr  o país  com uma  caixa de remédio inútil  e naturalizou os milhares de mortos, como se  fosse  algo natural.

Enquanto isso, testes não foram feitos e o monitoramento da doença foi desdenhado.  Um militar sem nenhuma experiência prévia foi colocado no Ministério da Saúde, depois da troca  de dois ministros.

Diante da omissão do governo federal prefeitos e governadores, responsáveis diretos pelos serviços de saúde  pública, assumiram  então a linha  de  frente no enfrentamento à pandemia.

Pressionados por empresários e por fiéis da seita messiânica bolsonarista, muitos  precipitaram a abertura  das  economias locais, agravando o quadro e tornando a pandemia foram de  controle.

A receita necessária para conter  a pandemia  é uma  só:  rígido isolamento social, coordenado   pelo poder  central, com abertura progressiva  e responsável das  atividades  econômicas. Isto é que países civilizados estão fazendo, algo impensável no Brasil de Bolsonaro.

Para o professor de Direito da USP, Conrado Hubner, o único  programa que o governo Bolsonaro se  esforça  em manter  ativo  é o “Deixa Morrer”. E daí??

Meninas negras também são princesas

Direitos iguais para todas as crianças,
independente da cor da pele.
Crianças negras também precisam estudar.
Crianças negras também acordam
com o nascer do som.


Tomaram a boneca de cabelos crespos da menina porque naquela escola não podia se brincar de boneca na hora do recreio, mas a menina viu outras garotas iguais a ela brincando com as suas bonecas e ficou no canto da parede, sozinha, a olhar para o jardim florido no pátio. Todos os dias tomavam uma coisa dela. Todos os dias tomavam a sua criancice e nunca pôde experimentar uma travessura porque a colocavam de castigo.

Que difícil é a infância para uma menina negra, pobre, estrábica e gordinha! Ninguém prestava atenção na sua farda limpinha e nos seus sapatos vermelhos. Tudo o que sempre ouviu era que devia comportar-se como as outras meninas. Era sempre deixada de lado, ninguém a queria ouvir. Não podia falar que seus avós foram escravos de brancos ricos e nem do seu pai que era um negro bonito e salvava vidas todos os dias. Dizia a professora quando ela falava dos avós que nunca ninguém foi escravizado no Brasil e que isso é uma coisa monstruosa. As crianças abriam as bocas, espantadas com a monstruosidade de espancar uma pessoa com um chicote até ela desmaiar, contava ao léu a menina quando podia, escondida da professora.

Certo dia, essa menina brigou com a amiguinha branca mais querida da escola. As duas choravam. As duas ficaram de mal uma da outra. Mas foi a menina branca quem foi acalentada pelas professoras e levada para ver o jardim. A menina negra ficou sozinha com a sua dor. Não havia ninguém para confortá-la. Ninguém para dizer-lhe uma palavra de carinho. Se chegasse em casa e dissesse aquilo para a mamãe era capaz dela vir na escola e aprontar a maior confusão.

A mamãe não gostava que a tratassem diferente. Aquela era a única escola da sua cidade onde os meninos aprendiam outro idioma e seus pais podiam pagar para que estudasse ali. Porém, a menina se via em meio a tantas outras crianças brancas que perdeu a sua identidade e começou a agir como tal, desprezando os seus amiguinhos da rua só porque eram negros iguais a ela e começara a achar no seu pequeno pensamento que negros não são crianças, não são nada. Só dão trabalho. Era melhor ser branco que podia brincar do que quisesse onde quisesse.

Nenhuma outra criança da escola sabia o que era castigo. Só aquela menina negra conhecia a dor de ficar quatro horas presa num banheiro sem luz por ter tomado o lápis do amiguinho branco que não queria emprestar-lhe. A sua primeira travessura na escola. Apesar dos pedidos de desculpas, ninguém a ouviu, e a deixaram sozinha naquele pequeno espaço por quatro horas.

Essa menina cresceu, tornou-se uma mulher, profissional dedicada, mas carrega consigo o medo da noite, ou seja, o medo do escuro. Só dorme com a lâmpada ligada. Agradece sempre aos Orixás quando é noite de lua cheia e o céu fica claro, e assim pode dormir com a janela do seu quarto aberta… a menina foi brutalmente forçada a ter medo da noite. Que triste era não poder contemplar as estrelas!

O que fazem com as nossas crianças negras nas escolas?

Nunca saberemos se elas não nos contarem ou até que aprontem uma travessura e seus pais sejam chamados. De resto só as paredes podem dizer como sofrem com a opressão da branquitude. À criança branca, toda atenção é dedicada. A professora pega na mão da criança branca para ela aprender a escrever, já na mão da criança negra algumas professoras acham que vão se sujar se pegarem em suas mãos. Isso é triste, mas é verdade. Ocorre, principalmente, nas escolas elitizadas do nosso país.  Em Fanon encontramos a expressão sincera que define o que dissemos acima

Eu sou branco, isto é, me pertencem a beleza e a virtude, que nunca foram negras. (tradução livre) [1]

Assim como as crianças brancas, as crianças negras podem ser virtuosas se tiverem uma boa educação em casa. Não se define caráter por cor da pele. O caráter da criança se forma ao longo dos anos baseado nas pessoas ao seu redor e naquilo que vive e experiencia. Também é bela por natureza, igual a toda criança.

Diferente da Menina Bonita do Laço de Fita da escritora Ana Maria Machado, ninguém achava a nossa menina bonita. Ela nunca teve um coelho que a amasse. Só era amada pelos seus familiares. Se chegava na escola com tranças nos cabelos as demais meninas começavam a sorrir dela, dizendo “olha a negrinha de trança”. A sua professora nunca lhe disse que as suas tranças eram bonitas. Ela vestia os vestidos mais bonitos de todas as meninas da escola, mas ninguém nunca viu isso, aliás as pessoas só viam que era preta, a escurinha metida que estudava numa escola de mensalidade cara feita para crianças ricas e brancas que podiam pagar.

A nossa menina tinha o sonho de ser uma princesa, mas como não nascera numa família de reis e rainhas, apesar dos seus pais poderem comprar tudo o que lhes pedia, eles nunca puderam realizar o seu sonho. Contudo, havia a chance de ser a princesa da quadrilha da escola. E a menina vendia todos os caroços de milho que a professora lhe dava numa folha de papel desenhados. Quanto mais vendesse mais aumentavam as suas chances de tornar-se a princesa da quadrilha. Todos os familiares, parentes e amigos compravam. Todos os dias ela trazia uma folha de caroços de milho novos para casa. Na certeza de que seria a princesa mais bonita da escola naquele ano. Só que nunca se procurou saber o motivo da menina jamais chegar a ser princesa e ficar em último lugar na foto das meninas que participaram do evento. O seu sonho nem de brincadeirinha nunca se realizou. As meninas brancas eram sempre as três primeiras princesas ela ficava em quarto lugar.

Nessa escola, era proibido falar de algumas religiões e a menina negra nunca pôde falar dos Orixás que tanto amava, uma vez tentou falar em Iemanjá e foi repreendida com um “Não é a sua vez de falar”. Ela nunca soube quando chegou a sua vez de falar, porque nunca lhe deram voz, era apenas ouvinte do que não gostava. Colocavam à força no pensamento da menina que devia amar a religião católica e todos os dias ela ia junto com as outras crianças rezar na igreja com um terço entre as mãos.

Apesar de não entender muito por que fazia aquilo, aprendera a ser comportada para não chamar mais atenção, bastavam as suas tranças. Ela não compreendia o ensino daquela escola onde as perguntas das crianças brancas eram sempre respondidas, as dela nunca tinham respostas. Sentia-se sozinha dentro daquela sala de aula de vinte e cinco alunos. Todos brancos. Até a professora era branca igual nuvem. A menina era vista como uma coisa feia na escola, uma estranha, algo que nem ela mesmo sabia o que podia ser. É isso o que encontramos em Fanon

Se eu sou negro não é por obra de uma maldição, senão porque havendo afirmado minha pele, posso captar todos os eflúvios cósmicos. Eu sou verdadeiramente uma gota de sol na terra. (tradução livre)[2]

Não era nenhum tipo de monstro ou bicho-papão só porque era negra e de vez em quando deixava seus cabelos crespos crescerem bem muito. Sim, a menininha era uma gota de sol na terra e na sua casa junto com os seus familiares, aquela que era educada e gentil para com as pessoas e costumava dá esmolas aos mais pobres que batiam à sua porta. Aquela que pintava o sol de preto igual a cor da sua pele, para puxá-lo pra dentro de si e acender um dia onde a opressão da branquitude lhe devolvesse a sua infância.

Para não citar apenas a dor e o sofrimento dessa menininha, quero falar de outra que recentemente viveu uma situação constrangedora, porque os brancos gostam de constranger as crianças negras. Essa menininha de quem vou falar agora estudava numa grande e cara escola do nosso país. A grande maioria dos estudantes era de cor branca. Na sua turma só ela era a negrinha metida, como lhe chamavam os maiorzinhos. De repente, foram encontrados piolhos na sua cabeça e aquilo foi um espanto enorme para a escola! Criança com piolho? Falta higiene em casa! É que dá ter um monte de cabelo pixaim que quase não se vê o rosto! Vai passar para as outras crianças! Precisamos fazer algo urgente!

O problema do piolho nas escolas é algo comum para quem conhece a educação infantil. Algumas crianças sofrem mais com piolhos por eles serem endêmicos, ou seja, para medicina é uma doença infecciosa que ocorre habitualmente e em certas regiões apesar dos cuidados dos pais. É só começarmos a falar em piolhos que a nossa cabeça começa a coçar.

O piolho também é uma doença chamada Pediculose provocada pela infestação de Pediculus humanus capitis (piolho) e lêndeas (ovo do piolho) no couro cabeludo, um parasita comum que acomete preferencialmente crianças em idade escolar.[3]

O piolho é um inseto parasita que se alimenta do nosso sangue extraído do couro cabeludo. É um bichinho preto que anda nas cabeças das crianças. O sintoma clássico da Pediculose é o “prurido”, ou seja, a coceira no couro cabeludo. O piolho é transmitido principalmente através das brincadeiras entre crianças e compartilhamento de objetos de uso pessoal, como o pente ou a escova de cabelos. Raramente necessita-se cortar o cabelo. O piolho não pula e nem anda. A sua transmissão maior é pelas brincadeiras entre as crianças. Seu tratamento é o uso de produtos farmacológicos como sabonetes apropriados para a doença.

Essa doença deve ser tratada com cuidado e responsabilidade pela escola. A criança não deve ser isolada completamente das outras. Em primeiro lugar, é preciso que os pais sejam avisados do que está acontecendo e tomem as providências.

A criança não deve sentir-se diferente das demais só porque tem piolhos. Toda criança na idade escolar pode ter piolhos. A cautela se faz necessária nessa hora. Só que com a nossa menininha citada acima a coisa foi diferente. Colocaram-na sentada longe das outras crianças na sala de aula e foi proibida de brincar na hora do recreio. Fazia o seu lanche sozinha. Ninguém chegava perto dela. Quando coçava muito a cabeça, todo mundo se afastava mais ainda com medo dos piolhos saírem voando pela sala de aula. Fez tratamento, mas seu caso era especial. Era uma infecção crônica. Apesar de ser medicada, os piolhos iam e vinham toda hora. Diante disso, a sua mãe que cuida dela sozinha porque o papai sumiu, achou melhor dá um tempo e por obra dos Orixás as aulas começaram a ser remotas, o que a menininha achou maravilhoso. Assim nunca mais ninguém teria medo de ficar perto dela.

O que a mamãe vai fazer quando as aulas presenciais voltarem? A menininha agora estuda numa nova escola. Mas e se tudo for igual?

Há brancos por todos os lados nesse país. Somos a minoria e cada dia estão matando as nossas crianças seja com balas perdidas seja com desprezo. O desprezo é o maior assassino das nossas crianças nos dias atuais, principalmente das negras. A morte não é só a física, mas a espiritual também. Aquela em que a criança é esquecida por todos. Para muitas crianças, o ensino remoto foi a melhor coisa que inventaram, porém isso não é assunto para nosso ensaio.

Nos faltam políticas públicas de respeito e aceitação da criança negra nas escolas elitizadas do nosso país. A maioria delas é oprimida e sofre preconceitos os mais diversos na escola tanto privadas quanto públicas, sendo nessa última menor. Dizem que criança é tudo igual, não é o que me parece. Criança pode ser igual até antes de conhecer os comportamentos e palavras dos adultos, depois passam a agir iguais a eles.

Levamos para a escola o que vemos em casa. Se nossos pais humilham a mulher negra que cuida da casa porque é preta tendemos a humilhar e desprezar todas as outras pessoas de cor preta. Se nos foi ensinado em casa que negros não cagam na entrada, mas podem cagar na saída, também levamos isso para o nosso dia a dia. Se para um adulto negro é difícil conviver com amigos brancos numa universidade privada, imagine para uma criança negra que não sabe ainda como se defender e o seu espírito está em formação. O que levará para a vida adulta essa criança negra? Que lembranças escolares ficarão marcadas na sua pequena alma na idade adulta? A da opressão e do desprezo.

Os direitos universais da criança precisam ser levados à sério no nosso país, principalmente pelas escolas. Direitos iguais para todas as crianças, independente da cor da pele. Crianças negras também precisam estudar. Crianças negras também acordam com o nascer do som.

“Cultura de direitos humanos se tornará uma realidade quando mudarem substancialmente as práticas da educação no Brasil. Todos os envolvidos na educação (gestores, professores, equipes diretivas) devem mudar as suas posturas autoritárias, para promover a democracia, o respeito e a consideração de todos como seres aprendentes”. (Nei Alberto Pies). Veja mais aqui.




Eu sou o sol!



Não me oprimam!



Toda criança tem piolhos!



Referências

FANON, Frantz. Piel Negra, Máscaras Blancas. Editorial Abraxas, Buenos Aires, 1973.
6 recomendações importantes sobre o piolho na escola. Disponível em https://www.crechesegura.com.br/6-recomendacoes-importantes-sobre-piolho-na-escola/.  Acesso em 12 de agosto de 2020.


[1] FANON, Frantz. Piel Negra, Máscaras Blancas. Editorial Abraxas, Buenos Aires, 1973. p. 37.

[2] FANON, Frantz. Piel Negra, Máscaras Blancas. Editorial Abraxas, Buenos Aires, 1973. p. 37.

[3] 6 recomendações importantes sobre o piolho na escola. Disponível em https://www.crechesegura.com.br/6-recomendacoes-importantes-sobre-piolho-na-escola/.  Acesso em 12 de agosto de 2020.

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