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Penso. Logo, estou enclausurado

2020 ainda será comprido,
mesmo que aparentemente tenha sido
congelado pela clausura.
É possível que 2020 só acabe em 2022,
e pode acabar mal, ou pode não ter fim.


Poucas vezes a humanidade teve tanto tempo para pensar. Mas estamos vivendo um desperdício de tempo.

Tenho pensado que, no meio disso tudo, sempre tem alguém comprando um carro zero ou uma calça ou uma gravata ou indo à Serra ver a neve.

Mas não conheço ninguém que tenha feito nada disso desde março ou abril. Nem sei se ainda vendem carro zero, ou se ainda compram carro.

Tenho certeza de que desde março as pessoas que conheço apenas trocam experiências virtuais e descobertas cotidianas sobre comidas, panelas, artesanato, bichos e plantas.

Ninguém compra nada, só faz descobertas. Acho bom, porque também estou nessa lida. Mas gostaria muito de comprar alguma coisa que não seja comida.

Não compro uma calça há 10 anos e de repente me deu vontade de comprar uma calça.

Não falo de afetos, de saudades, no plural mesmo, mas de adquirir ou ver alguma coisa, sentir falta do banal ou singelo, de algo que antes estava ao alcance de uma caminhada.

Não é o departamento dos filhos, dos netos, dos amigos, dos colegas, nem o do cafezinho, é o do consumo miúdo mesmo, de coisas úteis e inúteis e das paisagens mais distantes. Até do centro de Porto Alegre.

Se pudesse, amanhã eu sairia de casa para ir a uma livraria comprar uma agenda de 2020. Ainda não tenho agenda do ano.

E 2020 ainda será comprido, mesmo que aparentemente tenha sido congelado pela clausura. É possível que 2020 só acabe em 2022, e pode acabar mal, ou pode não ter fim.

Eu sairia e aproveitaria e compraria dois pacotinhos de post-it, um azul e um cor de rosa, e uma caneta preta Faber Castell 1.0.

Paisagem de rua já me consola. Ser atendido por alguém seria o máximo. Ouvir: mais alguma coisa?

Mas neve eu não quero ver. Para não ter que lembrar daqui a algum tempo que o ano da neve foi o ano da peste.

É no que às vezes tenho pensado. Sei que é um desperdício, enquanto tanta gente tenta imaginar como será a humanidade depois disso tudo. Mas é o que penso, é a realidade.

Na contramão deste momento de clausura, imposto pela Pandemia, há o movimento de “Consumir para existir”. Leia mais clicando aqui.


*Esta reflexão foi escrita e postada no perfil do faceboock do autor em 23/08/2020.

Seres humanos e outros animais: uma questão de reverência

Eu prefiro a reverência aos animais,
ou seja, um sentimento de profundo
respeito e consideração por eles.


Sofri duras repreensões de uma colega professora ao afirmar, num pequeno diálogo, que não gosto de conviver com certos animais dentro de casa como cachorros e gatos.  Ao que tenho a dizer: não gostar de conviver com animais não significa maltratá-los ou concordar com sofrimento ou sacrifício dos mesmos. Não gostar de conviver com animais também não significa desrespeitar os sentimentos de quem gosta de conviver com eles.

Eu prefiro a reverência aos animais, ou seja, um sentimento de profundo respeito e consideração por eles. Respeitá-los em seu habitat ou considerar que os mesmos não precisam dividir os mesmos espaços com os humanos, faz parte desta reverência. Ou ainda, manter uma certa distância dos animais para que os animais não substituam os seus instintos pelas características e qualidades humanas.

Conforme dicionário (versão digital), reverência é veneração pelo que se considera sagrado, por extensão, profundo respeito por alguém ou algo, em função das virtudes, qualidades que possui ou parece possuir; consideração; deferência.

Monja Coen, em um belo vídeo, traz uma reflexão bem próxima com esta que faço aqui, com a qual tenho muita concordância, sobretudo quando afirma que os seres humanos não são superiores, mas muito mais complexos e diferentes. Diz ainda: seres humanos são livres e cuidadores e o fato de apreciar outras espécies não nos torna nem superiores e nem inferiores, mas uma condição diferenciada.

Monja Coen: O que diferencia o ser humano dos demais animais?



Subsídios de pequenos vídeos

  1. Conheça também esta matéria onde uma família passou a tratar um cachorro como filho. Veja quais são as consequências para a vida dos animais. Tratar os animais de estimação como ser humano pode ter sérios graves problemas colaterais.
  • Nesta série, Christian Dunker pretende responder a algumas dúvidas frequentes relacionadas à psicanálise. No vídeo-pílula de hoje, ele busca na psicologia algumas considerações sobre a diferença na psicologia entre humanos e animais. Vídeo: qual é a diferença entre humanos e animais?




Proposta de uma atividade pedagógica

Esta atividade pode ser trabalhada com estudantes do Oitavo Ano do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio.

No Oitavo Ano, seguindo as orientações da nova BNCC, Unidade temática: Ética. Objeto de Conhecimento: Virtudes e valores humanos.  Habilidades: (EF08FL01PF05) Entender conceitos de prudência, empatia, coragem, autonomia, responsabilidade.

Questões para pensar:

  1. Por que ainda temos tantas dificuldades em reconhecer que nós, humanos, não somos superiores aos demais animais ou seres vivos?
  • Por que a reverência aos animais é uma atitude mais interessante do que a arrogância da superioridade?
  • Assista ao vídeo da Monja Coen “O que diferencia o ser humano dos demais animais?” (https://youtu.be/vWJabljQkaA?t=127) Após, faça um breve resumo sobre o que ela pensa da relação entre os seres humanos e demais animais?
  • Veja também matéria de família que trata seu cachorro como um filho, um ser humano. (https://youtu.be/YpLQ8QyYCHk?t=79) Após assistir, anote as consequências que este tipo de relação causa aos animais domésticos.

Menina de dez anos

Perdoa-nos a todos e todas, Menina de dez anos,
pelo sofrimento que cedo se abateu sobre teu corpo e tua alma;
há quatro anos, vítima no interior mesmo do “lar sagrado” que a devia proteger,
o que resultaria numa gravidez indesejada, com suas consequências unilaterais.
Não, não queremos saber teu nome, tua família nem teu endereço;
tampouco desejamos chafurdar em teus segredos e mistérios de criança,
precocemente atropelados pela trágica trajetória, em espiral e crescente,
do uso e abuso, estupro e violência contra a mulher – cujo fim é o feminicídio.

Perdoa aos que, moralizantes, insistimos em apontar o dedo em riste,
aos que, em lugar do criminoso, tentamos linchar a vítima inocente e indefesa,
e aos que, de tua infância rota e interrompida, fazemos um espetáculo.
Sentados e protegidos confortavelmente nos sofás de nossas casas,
acostumamo-nos a consumir, através dos jornais, telejornais e Internet,
histórias sinistras e macabras, que tendemos a engolir e naturalizar
como se fossem notícias normais do dia-a-dia, da mesma forma que se consomem
roupas e calçados, bolsas e viagens, gols e futebol, celulares e falsas notícias.

Na pessoa do tio homem, macho e covarde, física e moralmente miserável,
logo medroso e desconhecido, foragido da lei e das responsabilidades;
perdoa-nos o comodismo da banalidade e da impotência, ambas hipócritas.
Perdoa-nos quando, não obstante a clara evidência em contrário,
longe e ao mesmo tempo perto dos acontecimentos que nos circundam,
sentimo-nos e agimos como se fôssemos protagonistas e sujeitos da história,
um tecido social, político e econômico que, à revelia dos “sábios e conscientes”
é costurado diariamente por nomes e rostos invisíveis, “descartáveis” e silenciosos!…

No mapa da existência, seguimos nos achando uma espécie centro ou epicentro
das coisas e dos fatos, das relações e polêmicas, da continuidade e ruptura:
ponto de convergência do cotidiano agitado, voraz e veloz, das vidas frenéticas;
redemoinho sem norte, destino ou direção, girando em falso e em vão,
Sempre em busca de ventos fortes, raios furiosos e chuvas torrenciais.
Novidades febris que venham sacudir a letargia e trazer sentimentos e sensações,
capazes de preencher o vazio inócuo desta ilha do aqui e agora em que nos instalamos,
onde o barco dos “tempos modernos” encalhou num arquipélago de fantasias
de uma geração volátil e virtual, efêmera e transitória, mas em busca de novo rumo,
abandonada, sedenta e solitária no hoje imediato, desligada do passado e do futuro,
sem saber ao certo o que fazer no presente – com seus apelos, clamores e desafios.

Sós e embrutecidos, ébrios ou eufóricos – farejamos e nutrimo-nos de escândalos;
por isso, Menina de dez anos, perdoa-nos por que não sabermos o que fazemos!
Nosso silêncio e indiferença favorecem a ação criminosa dos tios perversos,
e que, perversamente, se ocultam ao abrigo da “inviolabilidade do espaço familiar”;
a apatia parece paralisar nosso cérebro e nossas mãos duras e cerradas;
perdoa-nos e ensina-nos a despertar para a realidade viva, nua e crua
das ruas e becos, dos porões e periferias, dos “infernos humanos” sobre a terra,
em vista de participar na construção de um “céu humano-divino”, onde ninguém será excluído!

Relembre o caso da menina de apenas 10 anos, que foi estuprada pelo tio e que, por força da lei, realizou aborto considerado legal pela legislação brasileira. Leia mais aqui.

Professores e professoras nas Câmaras de Vereadores

Se a educação sozinha não
transforma a sociedade,
sem ela tampouco a
sociedade muda.
(Paulo Freire)


Não vou declarar publicamente meu voto nestas eleições municipais. Um artigo ou crônica não servem para isso.

Vou declarar um conjunto de habilidades e qualidades que subsidiem a escolha dos votos para vereador, sob a ótica dos professores e professoras. Acredito que as reflexões podem colaborar para afirmar a crença na boa política, levada a sério na perspectiva do bem comum, como já aprendemos com os sábios gregos.

Estamos num momento do país em que a educação, novamente, é colocada na pauta política e, desta feita, não pode deixar de fora os principais protagonistas: os professores e as professoras.

Quem não gosta de política sempre é dirigido pelos que gostam dela.

Entendemos que realidade que envolve a educação no país e nos nossos municípios e, sobretudo, os professores e professoras, exige também a representação política a partir das Câmaras de Vereadores.

Chega dos professores e professoras viverem a alienação política. Chega de professores e professoras querendo a neutralidade política, até porque ela nem existe.

A democracia exige a superação da alienação política e o engajamento permanente de todos, sobretudo para dizer que a educação não é a solução para tudo e para todos, mas que, sem ela, nenhuma mudança social significativa acontecerá.

A democracia representativa tem sentido e legitimidade se estiver casada com a democracia participativa. Este “casamento” é a mudança que deveríamos fazer em nossas cidades, empoderando a comunidade também através de seus representantes eleitos.

Todos deveríamos gosto pela política porque a política é da nossa essência humana. Por que ela é decisiva para a promoção da nossa cidadania. Além de votar, deveríamos lutar para que se ampliem as formas de toda sociedade manifestar-se e decidir sobre os rumos de sua cidade, estado e nação.

Por falta de uma reflexão crítica e por medo de mudanças substantivas, uma grande maioria ainda decide pela continuidade, pela mesmice, pela manutenção do mínimo que sempre se apresenta como o máximo do que é possível fazer.

Muitos professores e professoras ainda não votam em candidatos professores por não entenderem a importância de estarem representados no legislativo municipal.


Adotemos um vereador professor

Adotemos um vereador professor em nossa cidade, votando em candidatos e candidatas professores e professoras nesta eleição.

Milton Jung, gaúcho radicado em São Paulo, junto com amigos, tem uma proposta interessante de aproximação com os vereadores. Chama-se “Adote um vereador”. Um vereador é o agente político mais próximo da vida da gente. Deveríamos, sim, acompanhá-lo, cobrá-lo, sugerir pautas, convocar reuniões para esclarecimentos de suas posições. Deveríamos, ainda, cobrar que a participação da comunidade seja mais efetiva na vida da Câmara de Vereadores, com espaços de escuta e reivindicação permanentes, para que não nos iludamos com o slogan “o poder da comunidade”.

Professores vereadores ou vereadoras bem qualificados cumprem com função política de mostrar à sociedade saídas para a sua realidade, a partir da educação. Vereadores professores ou professoras qualificam o debate público dos problemas das cidades, pois os professores de escolas públicas estão imersos e envolvidos com a dura realidade da maioria da população.

Os professores e professoras da rede pública estão vinculados às suas comunidades, o que permite que as suas demandas possam tê-los como porta-vozes.

Espera-se, também, que os vereadores professores exerçam mandatos participativos, que abram os seus gabinetes para acolher e encaminhar as demandas do magistério, que se somem às lutas e exerçam liderança e pressão junto ao executivo por melhorias na educação municipal. Que tenham atitudes que corroboram com a esperança e o exercício na verdadeira política. Que sejam éticos e coerentes com os propósitos e as expectativas de quem os elegeu.

Sofia Cavedon, professora municipal de Porto Alegre, ex-vereadora, ex-secretária municipal de educação e deputada estadual é um exemplo desta construção aqui referida. Sua atuação política e cidadã demonstra que, ocupando espaços políticos, os professores e professoras, através de mandatos parlamentares, podem contribuir para a elaboração de políticas educacionais, para a defesa da educação pública de qualidade e para o resgate da dignidade na profissão docente. Leia mais clicando aqui.

Cavedon lembrou, recentemente, que as lutas pela educação exigem “… compromisso absoluto com a recuperação da dignidade da profissão de professor, de professora, de sua valorização e autonomia pedagógica, de seu salário e condições de trabalho. Renovo a convocação para fazermos uma escola cidadã, que construa homens e mulheres democráticos, igualitários e justos!”

Recolocar a educação, a valorização da dignidade docente e a função social da escola pode ficar um pouco mais fácil a partir de mandatos parlamentares de professores em todas as Câmaras de Vereadores do Brasil.

Não tenhamos medo e nem vergonha de fazer política a partir da educação, da responsabilidade e da justiça social. Nossa responsabilidade pessoal é a de sermos bons profissionais, bons professores e professoras. Nossa responsabilidade coletiva exige posicionamentos de categoria e de representação social. Ou deixaremos, mais uma vez, para os outros, a defesa dos professores, da escola e da nossa dignidade? O desafio está posto! Sejamos sábios!

A importância do fardamento escolar completo

Calcemos os pezinhos das crianças
para que possam caminhar de encontro
a um futuro com menos pedras no
meio do caminho.


Alguns pais não têm dinheiro para comprar comida, imagine comprar roupas para os seus filhos. As crianças, quando repetem as suas roupinhas na escola, na maioria das vezes, recebem risinhos das demais. O pior é quando essas roupinhas têm furinhos ou são velhinhas. As crianças ouvem as outras sorrirem de si e começam a se sentirem estranhas naquele local onde deveriam sentir-se no melhor lugar do mundo.

A situação financeira das famílias brasileiras é difícil, muitos pais trabalham informalmente e o que ganham mal dá para comprar comida. Manter duas ou três crianças bem vestidas é impossível para um assalariado. Eu sei disso porque fui criança pobre e a minha mãe sempre remendava as nossas vestimentas à mão porque não tinha máquina de costura.

Toda criança quer vestir-se “bonitinha” como as demais, usar laço de fita no cabelo ou calçar um tênis que acenda luzinha ao pisar no chão, motivadas pela mídia desde a tenra idade já se tornam consumistas. Porém, isso é outro assunto que podemos em outra oportunidade.

O fardamento escolar é bastante importante às crianças que não podem todos os dias irem à escola com uma roupa diferente, sem contar que ele as identifica com o nome da escola, se acontecer algo no caminho de casa, mas falo aqui de um fardamento completo.

Na escola onde trabalho, os alunos recebem apenas uma camiseta com a logomarca da prefeitura e o nome da escola. Eles não recebem shorts, calças compridas e muito menos sapatos. Algumas secretarias de educação têm mais cuidado com as crianças da educação infantil e dão o fardamento completo, mas nem todas as secretarias fazem isso.

Vejo muitas crianças indo à escola com chinelos, sandálias de dedo e outras desejam ganhar um par de tênis para poderem caminhar melhor pela estradinha de barro que fica cheia de lama quando chove, sujando os seus pezinhos delicados. É preciso que as secretarias se preocupem com o fardamento completo que vista e calce todos os estudantes dos seus municípios. A farda completa protege a criança de se perder e protege o seu frágil corpinho do frio e das pedras nos pés.

Na minha infância, recebi fardamento completo na escola e usava um tênis azul marinho toda feliz. Não custa quase nada às secretarias de educação calçar as crianças para que fiquem protegidas de pisarem em coisas que possam sujar os seus pezinhos contaminando os seus corpos com vermes que podem causar as famosas verminoses, se cortarem com cacos de vidro ou pisarem numa ponta de pau e até mesmo em pregos pequenos largados pelas ruas por pessoas inconsequentes.

Calçar as crianças é importante para que possam pisar firme no chão sem medo de escorregarem, muitas delas sequer têm chinelos para irem à escola. Conheço crianças que já deixaram de frequentar a escola por vários dias porque não tinham um par de chinelos, a alpercata de borracha partiu-se. É preciso que as secretarias de educação repensem a distribuição de fardamento escolar completo para todos os anos da educação básica, pois toda criança deve sentir-se bem vestida diante dos seus amigos e professores.

Um fardamento completo veste e calça. Calça os pezinhos que um dia poderão pisar a lua ou outros mundos. Protegem as crianças de sofrerem escorregos nos corredores da escola porque estando bem calçadas a proteção será maior. É preciso incluir no fardamento um par de tênis, mesmo que seja um calçado simples, mas que dê para durar o ano inteiro. Já foi comprovado pelos médicos que pelos pés descalços adquirimos muitas doenças como já mencionado acima.

O aluno pequenino caminha sem prestar atenção no que está pisando e costuma pisar em cocô de cachorro, de vaca e até mesmo de gente. Muitos acham isso “nojento” e chegam em casa ou na escola chorando e mostrando os pezinhos sujos. Os cocôs podem transmitir doenças também quando pisados por pés desprotegidos, como podemos constatar nos cocôs e urinas de cachorros, gatos e ratos que transmitem a leptospirose quando as crianças pisam descalças num deles.  A leptospirose é uma doença grave e pode ser percebida por meio do aparecimento de alguns sintomas, como por exemplo dor de cabeça, dor nas pernas, dor no corpo e comprometimento do fígado.

Há crianças que vão à escola a pé. Andam vários quilômetros. O chinelo de dedo pode causar até mesmo um acidente se acaso a criança quiser correr para não chegar atrasada na escola. Eu mesma, quando ando de chinelos meio apressada, tenho medo de cair com a cara no chão.

Talvez ninguém tenha se preocupado com isso ainda, mas eu me preocupo porque fui uma criança pobre e convivo com crianças que não têm condições de comprar sequer um par de chinelos imagine um tênis. Crianças que me pedem todos os dias um par de sapatos para poderem vir à escola. Sei que alguns professores já devem ter recebido este mesmo pedido.

Os alunos maiorzinhos costumam pedir não apenas para se protegerem de algum acidente, mas porque eles acham bonito calçar um par de sapatos ou tênis para estarem na presença dos seus professores bem vestidos e calçados. Quando tem aula passeio para visitar um museu ou teatro a criança se sentirá estranha num ambiente como esses calçada com chinelo de dedo. Se a escola é convidada para assistir filme num shopping o aluno não se sentirá à vontade para fazer tal passeio sem estar calçado adequadamente para o ambiente. A mesma coisa acontece quando se vai visitar uma caverna ou lugar onde é preciso calçamento apropriado para poder caminhar com segurança.

Talvez alguém chegue a dizer que estou exigindo muito quando deveria preocupar-me com a doação de livros e merenda por parte das secretarias de educação. Sem dúvida, essas coisas são imprescindíveis e essenciais ao ensino-aprendizagem e já falei delas aqui, em outras reflexões neste site, em outros 30 artigos já publicados (veja mais aqui).

Mas, precisamos olhar para as demais coisas que se fazem urgentes. Tudo o que causa transtornos e constrangimentos aos nossos alunos deve ser debatido. A falta de calçados no fardamento escolar é um problema que é preciso ser discutido pela comunidade escolar e secretarias de educação.

Que adianta vestir um fardamento bonito se quando olhamos para os pés das crianças elas estão com chinelos de dedos emprestados pelos seus irmãos? Muitas vezes os chinelos são maiores do que os seus pés, porque não são deles. São de alguém próximo que os emprestou para que a criança não deixasse de ir à escola por falta de calçados. Vamos cuidar dos pezinhos dos nossos alunos.

Desde a tenra idade, as crianças têm seus pezinhos protegidos pelas roupinhas para bebês que se preocupam em calçá-las adequadamente. O bebê precisa estar bem vestido para sentir-se confortável e protegido do frio ou do calor. Não é porque os bebês passaram a ser crianças maiorzinhas que os cuidados devem ser relaxados. Pelo contrário, só aumentam os cuidados. Uma criança bem calçada nunca pegará bicho-de-pé, falo daquelas que moram em regiões mais distantes das cidades grandes. Essas é que devem ter os seus pezinhos mais protegidos ainda, pois são as que caminham diariamente por estradinhas onde se escondem cobras e escorpiões que podem picar os seus pezinhos desprotegidos.

O cuidado com as crianças na escola deve ser pautado em todos os segmentos. Nada deve passar despercebido. O fardamento completo que veste e calça é imprescindível a todos os estudantes do nosso país.

Que eu possa levar esta minha reflexão a todos os professores, diretores, coordenadores e, principalmente, às secretarias de educação. Não deixem de calçar os nossos alunos. Em pés bem calçados diminuem os riscos de escorregões em poças de água espalhadas pelos corredores da escola ou até mesmo na quadra onde os alunos costumam brincar quando chove muito.

E por falar em quadra esportiva, há tantos alunos que gostariam de ter um par de tênis para poderem jogar bola ou praticarem outros esportes tipo o atletismo de forma que pudessem competir por igual com outros alunos. Calcemos os pezinhos das crianças para que possam caminhar de encontro a um futuro com menos pedras no meio do caminho.

Muitas prefeituras do país já adotam o uniforme escolar como uma política de educação. A Prefeitura Municipal de Passo Fundo, na região norte do RS, por exemplo, instituiu, por lei, o uniforme escolar obrigatório.

Por que usar o uniforme? O Programa Uniforme Escolar foi criado em conceitos de autoestima, economia, segurança, pertencimento, identidade, talento, mobilidade e orgulho. Desde 2014, o município conta com o Decreto 052/2014, que implanta o uso do uniforme escolar. Sendo assim, é imprescindível que os alunos usem a coleção completa ou, pelo menos, uma peça da parte superior do uniforme escolar que seja visível. 

O conjunto completo da Coleção Uniforme Escolar compreende: 1 jaqueta de inverno, 1 casaco, 2 camisetas de mangas longas, 2 camisetas de mangas curtas, 1 bermuda masculina, 1 corsário feminino, 2 legues femininas e 2 calças masculinas. 

Pais destacam importância do uniforme em dias gelados. Veja aqui.

Qualidades necessárias ao educador revolucionário

Mais do que nunca, hoje, em tempos da pandemia,
tendo que ensinar à distância, mesmo que a maioria
não tenha acesso à mínima tecnologia,
será necessário reavaliar o ato de ensinar,
ou seja, ensinar a quem, em que tempo,
e com qual metodologia?


Enquanto leitores, não temos o direito de esperar, muito menos de exigir, que os escritores façam sua tarefa, a de escrever, e quase a nossa, a de compreender o escrito, explicando a cada passo, no texto ou numa nota ao pé da página, o que quiseram dizer com isto ou aquilo. Seu dever, como escritores, é escrever, simples, escrever leve, é facilitar e não dificultar a compreensão do leitor, mas não dar a ele as coisas feitas e prontas (Freire, 1993, p.30).

A propósito da celebração do centenário de nascimento de Paulo Freire[1], este texto se propõe atualizar a reflexão, à luz de práticas pedagógicas, parte da obra Pedagogia da Autonomia/1996: Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos Educadores

Para o conjunto desta obra, me uno a todos os parceiros/autores que darão visibilidade teórica às práticas educativas de suas experiências, que se enraízam, nutridas em solo fértil e bem adubado pelos ensinamentos do legado de Paulo Freire[2].

Pedagogia da Autonomia – saberes necessários à prática educativa, é a última obra publicada em vida, por Paulo Freire. Lembremos que, sua transcendência em 02 de maio de 1997, nos deixou órfãos de um educador do povo, sem o qual nos parecia não saber viver. Mas como a vida ensina, caminhando, reencontramos o caminho. Em seguida, à época mestranda na UFRGS, li este livro com lentes de aumento, lutando para não me despedir do Mestre, cujo aprendizado se iniciou junto a educadores ribeirinhos, à beira do Rio Purus/Amazonas, na década de 1980, tropeçando na compreensão do Pedagogia do Oprimido/1967, embora estivesse convivendo com eles, filhos de pescadores ribeirinhos e indígenas. Lá encontramos essa obra, depositada em uma prateleira. Sim, obras de Paulo viajam, e são encontradas por aqueles que buscam guias metodológicos de formação humana que forjarão sonhos, possíveis de transformação.   

Passados anos, em outro contexto político e social, encontrei no Pedagogia da Autonomia, uma construção feita com maturidade, sabedoria e sensibilidade pedagógica sem igual, permeada de um diálogo lúcido e metodológico para comigo, educadora na luta pela terra, que se mostrava na década de 1990, favorável para ocupar o latifúndio improdutivo em vários estados, construir um projeto de educação para os filhos de acampados e assentados e produzir alimentos saudáveis para alimentar as pessoas. Uma década, cujos sonhos foram possíveis, e muitos realizados. 

Neste período, criamos Escolas Itinerantes nos acampamentos do MST, dezenas de escolas em assentamentos. No dizer dos Sem Terra, a escola foi conquistada na hora certa, lá onde povo está, próxima da vida. Práticas pedagógicas libertadoras foram devidamente sistematizadas e visibilizadas. Escrevemos livros, boletins de educação, cartas, e trocamos muitas ideias, exercitando a autonomia num ambiente de expansão do Movimento Sem Terra para outros estados do Brasil. Neste período, milhares de jovens e adultos se alfabetizaram, através do Programa Nacional de Educação e Reforma Agrária – PRONERA. Estas práticas, de modo especial, são indícios de termos compreendido e levado a cabo, o que Freire insistiu durante a vida: Ser recriado e reinventado em cada momento histórico. Esta foi uma década se que se mostrou fértil para as lutas sociais e para a esperança. E se olharmos para ela, desde a atualidade, que nos quer levar à cegueira e ignorância, ainda mais fértil a vemos.

Assim como eu, pensei durante a leitura, todos que lerem este livro sentirão profunda saudades deste Mestre, que transcende, sem se despedir, porque também a morte corporal o pegou de surpresa. Contudo, não morre nunca de um ser humano tão especial, são as ideias, por que seu eco continua ressoando o legado. Dele herdamos lições de vida, cuja vida foi vivida para pensar e produzir conhecimento que liberta. Um conhecimento que continuará nos questionando se soubermos levar adiante seu legado: obras e exemplo.

Hoje, relendo este livro, a propósito deste texto, percebo claramente sua atualidade. Aliás, é próprio de sua pedagogia, acompanhar o tempo histórico, porque suas obras dialogam com os sujeitos educadores e educandos de ontem, hoje e amanhã. A nós educadores, cabe lê-lo e interpretá-lo, neste centenário de seu nascimento com os pés na realidade onde atuamos, cuja face é encharcada de tensões e contradições, de perda de direitos e sequestro de nossa dignidade humana.


Freire: A Pedagogia do Oprimido, da Esperança, da Autonomia e da Indignação 

Para entendermos o conteúdo e o sentido do Pedagogia da Autonomia, será necessário primeiro elucidar o processo e o tempo que a Pedagogia[3] ocupou em Paulo Freire, com um significado além do dicionário. Em 1967, no exílio, se ocupou com a Pedagogia do Oprimido, na escuta e diálogo permanente com os oprimidos do seu país e do mundo. Dialogou com sua própria prática, e com tantos pensadores, cujo exílio ou prisão foram as únicas condições de sobrevivência em tempos de ditadura. Sobretudo, ele trata de uma pedagogia dos silenciados do mundo, e que somente tomando sua própria história nas mãos, poderão se libertar. Esta é sua obra clássica, traduzida em mais de 30 idiomas e edições em dezenas de países do sul ao norte. Cabe destacar aqui o pensamento que encerra a escrita desta obra: “Se nada ficar destas páginas, algo, pelo menos, esperamos que permaneça: nossa confiança no povo. Nossa fé nos homens e na criação de um mundo em que seja menos difícil amar” (Freire, 1975, p.218,).

Ainda, a recomendação de que o fazer pedagógico é ético, e educar é um ato político, perpassou as obras e exemplos. Recomendação reafirmada veementemente, na sua fase mais madura, de maior clareza e sabedoria de sua vida no Pedagogia da Autonomia.

Em 1992, em plenas atividades acadêmicas no Brasil, escreve Pedagogia da Esperança – um reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Aliás, é neste livro que entendemos o processo de maturação que levou Freire a delinear o Pedagogia do Oprimido, porque são os oprimidos que encontrou pelo caminho, seus mais prediletos interlocutores. Com rigor, modéstia e humildade, ele vai recordando, reconstruindo sua memória das experiências que o tornaram um educador universal, aprendendo da própria vida. Sendo direto e sincero, ele nos diz: “É um livro assim, escrito com raiva, com amor, sem o que não há esperança” (Freire, 1992, p.12).

Como um homem de esperança e de profunda crença no ser humano, afinado com a escrita da palavra, em 1996, escreve Pedagogia da Autonomia. Uma autonomia que é também fruto da Pedagogia do Oprimido, que ao se libertar, tornar-se-á um ser autônomo. Nesta reflexão, aposta no empoderamento e humanidade dos educadores, elencando as qualidades exigidas na prática de um educador que se compromete com a educação libertadora porque se pretende revolucionário. É uma obra que dá subsídios para nos tornarmos mais competentes no ato de ensinar-aprender, sermos mais gente, mais políticos e éticos, formando cidadãos autônomos. Se tomadas cronologicamente, lidas e estudadas, estas três obras referidas acima, afinadas entre si, porque tratam da necessária educação do ser humano, se prestam a um verdadeiro romance de formação humana, porque grávidas de pedagogia social, política, econômica.

Continuando nossa memória, no ano de 2000 é publicado, por Ana Maria Freire, Pedagoga da Indignação – cartas pedagógicas e outros escritos, no qual encontra-se seus últimos escritos, deixados sobre a mesa, inacabados – com três Cartas, pela primeira vez denominadas de “pedagógicas”. Neste sentido, se evidencia que a Questão Pedagogia acampou nele de forma sábia, do início aos seus últimos escritos[4].

Pela última Carta Pedagógica, especialmente, é notável seu sentimento de perplexidade e indignação. Como nós, se indignava ver as injustiças comedidas contra o ser humano, como foi do assassinato de Galdino Jesus dos Santos – índio pataxó, em Brasília. Relendo sua última carta, suponho que seu coração parou, com certo temor do porvir. Não sabe Freire que brutalidades semelhantes vem se repetindo com mais crueldade nos dias atuais, lembrando as centenas de mortos pelo rompimento de barragens, o assassinato de Sem Terras, as mortes coletivas pela Covid/19, sem a necessária assistência pelo Sistema Único de Saúde nos hospitais públicos. Sem, contudo, haver sensibilidade por parte do Presidente da Nação, que insiste em dizer: “vai morrer muita gente, a maioria idosos”, como se estes já estivessem descartados. Podemos dizer: uma total ausência de humanidade.  

Nesta perspectiva, lembremos também o Projeto de Escola Cívico-Militar, cuja força vem se avizinhando nas escolas públicas, especialmente. É assustador pensar, que sendo nós herdeiros da Pedagogia que deu voz aos oprimidos, e tendo Freire como o nosso maior farol pedagógico, vemos a escola pública sendo invadida pela disciplina cívico-militar, que desconsidera a função social dos educadores, a educação dialógica, as práticas pedagógicas democráticas de direito, e civilizadas.   

Como acabamos de ver, a palavra Pedagogia, com tudo o que nela cabe, acampou em Freire e o ocupou até o final da vida. Esta palavra, muitas vezes usada por nós rapidamente e sem aprofundamento, manteve o Mestre incomodado, ocupando-se para entender qual Pedagogia habita o opressor e o oprimido, ambos dentro de nós. Que Pedagogia dá conta de ensinar, educar e formar um ser humano, filho de trabalhadores? Que pedagogia dará conta de ensinar, educar e formar crianças, adolescentes e jovens das periferias, dos acampamentos e assentamentos dos Sem Terra, crianças ribeirinhas, quilombolas, indígenas?


Vida e Obra: munição e alimento

Nesta perspectiva, vemos o quanto seus escritos nos dão munição para pensarmos e recriarmos sua instigante e comprometedora Pedagogia, vivenciada e recriada por diferentes povos e nações! Hoje, não temos dúvida, Paulo Freire fez a sua parte, com amor e determinação. É isto que vemos em suas obras – um legado expressivo e generoso que nos orienta a prestar atenção às falsas acomodações, alimentando nossa consciência crítica, ética. O tempo dedicado a convivência com os oprimidos, lhe deu a condição de reconhecer o opressor e o oprimido dentro de cada ser humano. E que a libertação não é uma questão simples de troca de papéis. Pois, para haver humanidade, livre e feliz, precisamos da conscientização, condição para nos libertar de dois monstros, que não cabem no projeto de ser humano. Uma luta a ser enfrentada a vida inteira, desde o nascimento até a morte. Sem vacilar em momento algum. Para Freire,

A violência dos opressores que os faz também desumanizados, não instaura uma outra vocação – a do ser menos. Como distorção do ser mais, o ser menos leva os oprimidos, cedo ou tarde, a lutar contra quem os fez menos. E esta luta somente tem sentido quando os oprimidos, ao buscar recuperar sua humanidade, que é uma forma de criá-la, não se sentem idealistamente opressores nem se tornam, de fato, opressores dos opressores, mas restauradores da humanidade em ambos (Freire, 1968, pp. 30-31).

Educador nato, intuitivo e perspicaz que sempre foi, seu último recado, foi de que para ensinar não basta ter conhecimento. O processo de ensinar exige o cultivo de qualidades/virtudes, tais como: humildade, tolerância e luta na defesa do direito dos educadores. Notadamente se percebe a ausência do pensamento freiriano nos cursos de formação de educadores, nas Universidades Públicas ou particulares, ao alcance e a condição de cada um.

Há jovens professores, pedagogos, que se quer leram uma obra de Paulo Freire. Sendo assim, há professores que se impactam com a falta destas qualidades/virtudes, assim que entram em sala de aula em uma escola pública, e desesperados, buscam na pedagogia de Paulo Freire um caminho. Enquanto outros, as ignoram, tão logo que se encontram com os educandos das periferias, filhos de trabalhadores, e continuam dando aula com métodos autoritários e antidialógicos. Na luta pela terra, no projeto de Educação do Campo desde 1998, não concebemos formação de educadores, ensino médio ou superior, sem o diálogo permanente com as obras freirianas. Geralmente o Pedagogia do Oprimido é a primeira obra que os estudantes são desafiados a estudar.   

À primeira vista, pensei que eram exageradas e quase impossíveis de concentrar em um só educador, em um só tempo, tantas qualidades, sendo ele tão desvalorizado e desconsiderado em sua função social de educador das novas gerações. Todavia, dei-me conta de que são qualidades/virtudes a serem perseguidas, cultivadas e avaliadas durante toda a vida, através de um longo e penoso processo de formação humana integral, mediado por boas leituras, debates coletivos, sistematização de práticas, envolvimento nas causas sociais e nas lutas em favor da vida e da democracia. Estas são condições para entendermos o lugar social dos educandos, filhos da classe trabalhadora. Porque são estes sujeitos que frequentam a Escola Pública da qual Freire se referiu e fez a defesa incondicional, durante toda a vida, nos diferentes continentes por onde viveu durante o exílio, sujeitos/educandos, sem-terra, sem teto, ribeirinhos, quilombolas, indígenas, dos quais falamos aqui.

Seguramente, é no ambiente da escola pública, hoje, aquém das políticas públicas de Estado, rebaixada e desqualificada que podemos construir os aprendizados, aprimorando a metodologia de ensinar e aprender com nossos educandos, com tolerância, humildade e decência.

Esta vivência nos dará a condição para entender o educando como ser único, com tempos e estilos diferentes de aprendizagens. A postura e abertura para o diálogo do educador com seu educando, fará a diferença na libertação de ambos, porque, sem o exercício permanente de liberdade na relação entre ambos, não absorvemos o conhecimento necessário para a liberdade e autonomia. No entanto, nem sempre o educador, detentor de um determinado e limitado conhecimento, se deixa educar pelos processos formativos, mantendo-se indiferente ao que escuta, lê e vê.

A este educador, perguntamos: O que fará um educador frente aos educandos nas escolas do campo, por exemplo, com postura autoritária? Se deixará educar e transformar pelos educandos, cuja vida é dedicada ao trabalho familiar, vivendo em agrovilas, participando de uma cooperativa de produção? Como exigir respeito aos seus direitos se não dialoga, não busca cultivar as qualidades necessárias ao ato de ensinar?  Que capacidade terá de educar para um projeto de desenvolvimento do campo, baseado na relação social, na produção de alimentos saudáveis, e na permanência do trabalhador no campo?  Estas são algumas questões, cujas respostas estão aguardadas, de modo especial, pelas escolas onde os educadores estão refletindo, organizando e lutando contra os ventos da opressão, tendo em vista alcançar uma educação emancipatória.

Penso ser oportuno trazermos ao debate e a atualidade o conteúdo contido na Pedagogia da Autonomia, porque os descompassos que vive a Escola Pública nos dias atuais, requerem uma nova leitura, um novo pensar, e uma nova prática pedagógica que dá conta de ensinar, educar e formar as novas gerações. Tanto mais, porque estes últimos escritos de Freire nos inquietam. E a inquietude, nos move para as mudanças.

É importante ressaltar que Freire sempre acreditou e incentivou o trabalho do educador, porque ele entendia de qual tarefa estava se referindo, ou seja, a dele própria, e da qual se orgulhava.

Lembremos quantas vezes ele nos alertou para que sua pedagogia fosse recriada, continuidade, e nunca reproduzida, tendo presente os desafios de cada tempo histórico. Neste gesto também se evidencia a humildade de Freire. E hoje temos contradições de sobra, para aprofundarmos os processos dialógicos ancorados nas virtudes sinalizadas pela Pedagogia da Autonomia.

Mais do que nunca, hoje, em tempos da pandemia, tendo que ensinar à distância, mesmo que a maioria não tenha acesso à mínima tecnologia, será necessário reavaliar o ato de ensinar, ou seja, ensinar a quem, em que tempo, e com qual metodologia?

Como tratar pelo ensino à distância, as grandes diferenças sociais que separam os poucos ricos da imensa maioria do povo pobre, desprovida de políticas públicas de educação, cultura, saúde, saneamento básico? O que temos visto é que apenas os conteúdos mínimos, a certeza dos dias letivos que venham garantir o ano escolar é que são contabilizados nesta opção. Há que se pensar um novo jeito de ver o ensino, educação e formação. 

Um desafio que se mostra atual para a educação, é pensarmos que os processos educativos precisam ser vivenciados para além da sala de aula, para a realidade dos sujeitos deste processo. A escola nunca foi o único lugar de aprender, porque a própria vida ensina. Para entender estes desafios, o educador precisa ser leitor, pesquisador da realidade onde atua, planejando e construindo pontes, para que ele e o educando compreendam que o processo educativo se dá em diferentes espaços e experiências de vida. 


Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos Educadores

Na parte que me coube trazer à atualidade desta obra, a frase acima é emblemática. Mas como veremos, é um desafio, um projeto de vida. Contudo, creio: Humildade, Tolerância e Luta, não são qualidades/virtudes escolhidas ao acaso e espontaneamente por Freire, ao tratar do ensino e aprendizagem. A meu ver, são qualidades, educadas nele próprio, portadoras de significados singulares, por nós a serem desvendados no rigor de nossas práticas sociais. Somente um político na qualidade e maturidade pedagógica, no exercício humilde de escuta da palavra, especialmente dos oprimidos, chegará a reflexão-ação, tão verdadeiras e éticas. Nossa gratidão pela sua lucidez, pela decisão de gastar seu tempo em escrever, nos deixando como orientação para a vida. 

Em que pese a importância deste seu escrito, penso que é hora de fazermos a nossa reflexão sobre a Pedagogia da Autonomia, ou, autocrítica pela falta dela em nossas práticas educativas nas escolas do campo, conquistadas nas últimas quatro décadas.

É importante dizer aqui, em forma de denúncia, todavia, de que os sujeitos sociais que frequentam estas escolas, atravessam um momento extremamente complicado e conflitivo, porque constantemente ameaçados de perdê-las pelo atravessamento de projetos governamentais, cuja aposta é pelo retrocesso da Educação do Campo para a velha e Educação Rural. Uma questão que parecia resolvida pelas Diretrizes Operacionais para a educação básica nas escolas do campo. Resolução CNE/CEB nº 1 de 3 de abril de 2002. Ministério da Educação, e pelas Diretrizes Estaduais/RS, de 2018.

Neste cenário, será preciso atenção às investidas do Projeto Hegemônico do Capital, contrários aos avanços e conquistas de direitos adquiridos nos últimos anos pela maioria dos trabalhadores. Em que a Pedagogia da Autonomia nos subsidia a continuar na luta para assegurar as parcas Políticas Públicas conquistas, nos mantendo, lúcidos, éticos, contrários a governos autoritários, e com pressa, construindo o Projeto de Educação do Campo? Qual a autonomia assegurada aos educandos de fazer questionamentos, de trazer o seu aprendizado para a escola, buscando entender o que o trabalho lhes exige?   

Seguindo nossa leitura para atualizar este escrito, é bom lembrar que Freire admirava o trabalho do educador no MST, porque percebia o forte vínculo entre a Pedagogia da Autonomia e a Pedagogia do Movimento. Ele entendeu o quanto este educador era fortalecido pela formação humana, pela experiência de viver em acampamentos e assentamos que se constituem como escolas de formação humana.  Por isso, vemos que as qualidades exigidas a quem ousa educar para a liberdade, são pressupostos imprescindíveis nos processos de formação humana de educadores, sem as quais não se educa. Sem elas, se adestra, como se vê cotidianamente ser feito com os animais de estimação, para lembrar a opção preferencial de pessoas, preferindo a companhia de um animal, que conviver e enfrentar os desafios da convivência humana, que tem como principal exigência – se importar com ela. Portanto, mesmo que tenhamos avançado nas escolas do campo, se comparado aqueles educadores, sem causas para lutar, a humildade, a tolerância e luta, precisam ser exercitadas e reavaliadas, no dia a dia, em todas as oportunidades e relações estabelecidas. Nenhum ser humano nasce com qualidades tão sóbrios, sem ter que lutar para conquistá-las.

Pois bem, entre tantas, lembremos de um exercício de profunda humildade de Freire no percurso de sua vida. Colocando dúvidas sobre sua escrita, entregou o primeiro capítulo de Pedagogia do Oprimido a uma aluna negra em Harvard, solicitando que lesse. Segundo ele: “na semana seguinte, me trouxe a escrita dela, e a do jovem filho (16 anos) a quem pedira que lesse o texto. Este texto, disse ele, foi escrito sobre mim. Ele trata de mim” (p. 75,).

A meu ver, ele sugere e nos orienta nesta direção, porque educou, exerceu e internalizou as qualidades, virtudes pedagógicas na sua prática, sem as quais não se tornaria o educador do povo, reconhecido no mundo todo, especialmente em Guiné-Bissau. Lembremos que ao alcançar a independência, em 1975, com 93,7% de analfabetos, por coincidência ou não, lá estava Freire, junto, buscando encontrar um caminho de libertação. Estar e ouvir este povo, porque poucas pessoas sabiam escrever, levou Paulo Freire a exercitar a humildade de quem sabe que nenhuma obra grandiosa se faz sozinho e sem amorosidade. E que no caso de Guiné-Bissau, somente criando laços organizativos e afetivos fortes de trabalho coletivo, poderia resultar na alfabetização e formação do povo.

O respeito e a defesa dos direitos dos educadores requerem muita atenção por parte das políticas públicas no atual cenário educacional brasileiro.

Em primeiro lugar é preciso rever o salário tão indigno por eles recebido. É preciso ser sindicalizado, participar das lutas de sua categoria e juntos, brigarem por salários menos imorais. Juntos, lutar para se contrapor ao ataque aos professores e de modelos de privatização da Educação Pública, que trazem incertezas e medos para sua carreira. E para os mais experientes e vividos no magistério, sérios problemas para a perspectiva de aposentadoria.

Nós, aprendizes da Pedagogia freiriana, sabemos de que só a luta e o conhecimento liberta, estamos convencidos de que as lutas educacionais não podem cessar, em momento algum.  As ameaças à educação brasileira, desde o ensino básico ao ensino superior, exigem a energia militante do educador para pautar um debate em defesa das escolas púbicas democráticas, inclusivas, laicas, com liberdade de ensinar e aprender, tendo sua profissão e carreira valorizados, em contraponto ao que hoje alcança contorno de barbárie em nosso país.

A formação permanente é outro aspecto do qual o educador precisa prestar atenção permanente, inclusive para rejeitar treinamentos, impostos por governos autoritários, não cabíveis a um educador, cuja ação pedagógica é nutrida pela prática da liberdade nas escolas públicas.

Não se sustenta um trabalho pedagógico transformador sem que o educador tenha formação humana, que tenha lido, pelos menos algumas obras de Freire. Que tenha tempo de estudo, de reflexão e sistematização de sua prática docente, tempo de estudo e debate com os colegas. É importante que tenha tempo de planejar, avaliar, visitar seus educandos, conhecer a comunidade ao entorno da escola. E o direito ao lazer, qual tempo ocupa na vida dos educadores?  É imoral um professor ter que lecionar 60 horas para fugir de um salário menos digno. É imoral ter que aceitar lecionar disciplinas em áreas de conhecimento que não domina, porque o conhecimento adquirido na academia ainda tem facetas divididas, sem conexão entre si. É desumano, não ter tempo para nada além de estar na escola, diria o Mestre!

Nessa ótica, é bom trazendo para os dias atuais, o que Freire, em plena maturidade de seus últimos dias nos disse: 

Um dos piores males que o poder público vem fazendo a nós, no Brasil, historicamente, desde que a sociedade brasileira foi criada, é o de fazer muitos de nós correr o risco de, a custo de tanto descaso pela educação pública, existencialmente cansados, cair no indiferentismo fatalistamente cínico que leva ao cruzamento dos braços. Não há o que fazer, é o discurso que não podemos aceitar (Freire, 2004, pp. 70-71).

O ambiente de trabalho, acolhedor e agradável na escola é importante para a autoestima de educadores e educandos. Uma escola com sua estrutura, descolorida e desbotada, com cercas e muros ao seu redor, longe da vida dos educandos, ao estilo de prisões, desencanta a todos nós. Ao chegar nela, alimentamos a vontade de sair dela, às vezes, ainda, desejosos de não mais retornar.

A saúde física e mental dos educadores precisa ser preservada, cuidada, e tratada nos casos em que houver complicações, com direito ao tempo de tratamento, sem perdas na sua carreira. Hoje, tem sido comum encontrarmos educadores, ainda em sala de aula, exaustos, deprimidos, sem esperança, à pura espera pela aposentadoria, cujo salário será ainda mais indigno, num tempo de vida em que sua saúde estará mais fragilizada.

Outra condição indispensável, porque se tem que lutar todos os dias, de modo particular nas escolas do campo, é pelo transporte escolar seguro, que leva e busca os educandos e educadores às escolas mais distantes das residências familiares. Pelo processo de sistematização de quatro escolas do campo, em diferentes regiões do RS, realizado entre 2017-2018, o que vimos é um puro descaso. Um transporte terceirizado, de qualidade duvidosa, transportando crianças e adolescentes sem cinto de segurança.  Em dias de chuvarada, os ônibus não chegam à escola, atolando pelo caminho, porque a manutenção das péssimas estradas não é feita regularmente, contudo, reservada e prioritária, para tempos de campanha política. Em consequência desta realidade, educandos são prejudicados nos processos educativos, porque esse tempo escolar não é recuperado. 

Ainda no que diz respeito a autonomia, não concebemos uma escola pública que se presta a formar sujeitos para a autonomia e liberdade, sem uma ampla biblioteca escolar, com obras literárias de diferentes épocas e contextos. A biblioteca deverá ocupar um espaço importante na escola, de livre acesso dos educandos, educadores e comunidade. Um espaço bem iluminado, amplo, acolhedor. Biblioteca e escola são duas instituições que se encontram na história humana e na educação do ser humano.

Se perpassarmos pela Pedagogia Freinet (1896-1966), a Pedagogia Socialista (1917-1930) a Pedagogia Freiriana e a Pedagogia do Movimento Sem Terra, todas são unânimes na defesa incondicional e na orientação de que para haver autonomia e liberdade é preciso que biblioteca e escola estejam juntas. No entanto, pelo visto, esse direito não está assegurado. Historicamente, a escola capitalista dá pouca importância a biblioteca, porque é negadora de conhecimento à classe trabalhadora.

Nas escolas do campo, tem se exercitado a pedagogia da ocupação da biblioteca escolar, forjando o direito a denunciar as péssimas condições destes espaços, muitas vezes uma pilha de livros na dispensa, fundo do corredor ou no banheiro. A falta de políticas públicas para a aquisição de obras críticas, e a imposição do recebimento de livros que sustentam o agronegócio e o uso de agrotóxicos em alguns estados. Enfim, na maioria das escolas há duas lutas a serem enfrentadas: a primeira, é para que haja um espaço adequado para a biblioteca; e a segunda, para que haja a liberdade de acesso a este espaço, tão o mais importante que a sala de aula.        

Nessa direção é fundamental avançar um pouco mais, buscando nos nutrir de esperança, porque lutamos juntos, contra o capital que desqualifica e desvaloriza o professor à medida que determina seu salário inferior a qualquer outra profissão. Quando admite que este trabalhe 60 horas para sobreviver, quando não é incentivado a ser pesquisador. Quando é machucado em sua dignidade, porque contratado temporariamente, sem nenhum direito legal de futuro.

Pois bem, Paulo não está aqui para nos ajudar a entender a maldade opressora que está subliminar ao projeto de Escola Cívico-Militar, que ronda a Educação Pública, proposta pelo Governo Federal. Mas estamos nós aqui, neste tempo histórico, orientados por seu legado de luta e esperança.

Vejamos, a escola, um lugar de ensino, educação e formação é ameaçada todos os dias a ser transformada em um lugar que adestra em vez de educar, ensinar e formar o ser humano.

Mais grave ainda, porque há casos em que o projeto invade a escola, com a adesão da comunidade e alguns professores, cujo período de ditadura lhe passou ao largo, sem se importar com a leitura e memórias dos que a sofreram. Desta forma, o projeto vem gradativamente avançado e se consolidando, retirando a força pedagógica dos educadores éticos, conscientes de que não há docência sem discência, liberdade e autonomia. No bojo do projeto cívico-militar é exaltada a submissão, a negação da palavra, do diálogo, o retorno da “ordem e obediência” cegas. E sobretudo, o projeto controla o trabalho e o conteúdo veiculado pelos educadores, que na ordem do dia tem que ser acríticos, antidialógicos, sem relação alguma com a educação para a transformação social.

A formação de sujeitos sociais, capazes de pensar, projetar e ter cidadania é vista como partidária, e fora de ordem. Nestes casos, penso, a luta pelo direito a uma educação libertadora, democrática, decente, terá que perpassar o cotidiano destes educadores, no diálogo permanente com seus educandos, exercitando e educando em si próprios a humildade, a tolerância e a luta cotidiana. Não há como compreender a maldade deste projeto, e como podemos nos contrapor e ele, sem relermos por exemplo a obra Medo e Ousadia – o cotidiano do professor, um diálogo entre Paulo Freire e Ira Schor, de 1986, e o segundo capítulo de Pedagogia do Oprimido, um verdadeiro tratado sobre a educação bancária. Nestes escritos, tão atuais, encontraremos pistas para fazermos o nosso caminho, caminhando e enfrentando as tensões e contradições próprias da instituição escolar que há séculos foi criada e mantida a serviço do sistema hegemônico do capital, sempre inimigo da classe trabalhadora. Uma instituição pública, que vem sendo interrogada e forjada a caminhar na direção da formação da classe trabalhadora, desde a criação do Projeto de Educação do Campo, em meados de 1998.   

Para concluir, deixo aqui um rastro de pura esperança, porque somos muitos, e unidos somos fortes. Paulo Freire, patrono da educação brasileira, sempre esteve ao nosso lado, temos certeza, o lado certo da história, porque não concebemos Educação divorciada da Humanização. São trilhas de mãos dadas. Nos orgulhamos de termos tido formação humana integral em boa companhia, aprendendo a cada dia de seu legado. Vivendo em outra dimensão, feliz por nos vermos construindo resistências, perseguindo um mundo que seja menos difícil amar, nos assegura: esperançar é preciso! Tão necessário como nos manter vigilantes contra todas as práticas de opressão e desumanização, especialmente racistas e sexistas, fortemente vivenciadas na atualidade. São coerências para as quais o educador revolucionário precisa prestar muita atenção na escola e na sociedade. 

Em seu legado pedagógico encontramos lições de aprendizados de que vale a pena ser educador do povo, estudioso, ético e comprometido com a classe trabalhadora, e persistente em seus sonhos. Aquele que dá aula pensando na transformação social, sem medo e com ousadia. Aquele, cuja luta é sua munição cotidiana, e que não se deixa abater por mais de cinco minutos.

Queridos educadores/as, espero que a Pedagogia do Oprimido, da Esperança, da Autonomia, da Indignação, dos Sonhos Possíveis, da Tolerância e do Compromisso, continue a indagar, mexer e mover nossas práticas sociais na perspectiva da transformação, anunciado que sem educador revolucionário, não haverá prática pedagógica revolucionária.

Por fim, que tenhamos coragem de começar hoje, continuar amanhã e depois, construir a Esperança coletiva, alimentados pelo que Paulo disse certa vez: “Quem espera na pura espera, vive um tempo de espera vá. Por isso, não te esperarei na pura espera….”

Em outro artigo publicado no site, já escrevemos: “Vejam bem, nestes estágios de elaboração, as preocupações, angústias, medos, inseguranças não tem espaços, ou são minimizadas porque estamos ocupados com o ato de pensar, criar, bordar as páginas com as letras. Desta forma, ficamos bem ocupados, e intencionalmente focados. Para quem deve e pode manter-se no isolamento, eis uma sugestão, experimentada no exercício da disciplina consciente”. Leia mais.




Bibliografia

BOLETIM DA EDUCAÇÃO n.15. Paulo Freire e a Pedagogia do Trabalho Popular. São Paulo, MST, 2020.

BOLETIM DA EDUCAÇÃO N. 14. Literatura, Sociedade e Formação Humana. Lutar, Construir Reforma Agrária Popular. São Paulo, MST, 2018.

CALDART, Roseli S. Escola é mais do que Escola na Pedagogia do Movimento Sem Terra. Petrópolis, Vozes, 2000. 

CAMINI, Isabela. Escola Itinerante – na fronteira de uma nova escola. São Paulo, Expressão Popular, 2009. Primeira Reimpressão em 2011.

CAMINI, Isabela. Cartas Pedagógicas – aprendizados que se entrecruzam e se comunicam. São Paulo, Outras Expressões, 2012.

Diretrizes Operacionais para a educação básica nas escolas do campo. Resolução CNE/CEB nº 1 de 3 de abril de 2002. Ministério da Educação. 

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Diretrizes Curriculares da Educação Básica nas escolas do campo – RS. Resolução n. 342, de 11 de abril, 2018. Conselho Estadual de Educação do Estado do Rio Grande do Sul.

FREIRE, Paulo; GUIMARÃES, Sergio. A África Ensinando a Gente – Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe. São Paulo, Paz e Terra, 2003.

FREIRE, Paulo; SHOR, Ira. Medo e Ousadia – o cotidiano do professor. Rio e Janeiro, Paz e Terra, 1986.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Indignação. Cartas Pedagógicas e outros escritos. São Paulo, Editora UNESP, 2000.

______Pedagogia da Esperança – Um reencontro coma Pedagogia do oprimido. São Paulo, Paz e Terra, 1992.

______ Professora Sim, Tia não. Cartas a quem ousa ensinar. São Paulo, Editora Olho D’água, 10 ed., 1993.

______Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975.

______Pedagogia da Autonomia, São Paulo, Paz e Terra. Licenciado gratuitamente, por Ana Maria Freire ao MST, 2004. 

FREINET, C. A Educação do Trabalho. São Paulo. Martins e Fontes, 1998.

Kmowles, Malcolm S. The modern practice of adult educatiion: andragogy versus pedagogy. New York: Association Press, 1970. 

MST/SETOR DE EDUCAÇÃO/RS. Alimentação Saudável na perspectiva da Agroecologia – Sistematização de Práticas Pedagógicas em Escolas de Assentamentos do RS. Porto Alegre, 2018. 

KRUPSKAYA, N. K. A Construção da Pedagogia Socialista. São Paulo. Expressão Popular, 2017.

PITANO, Sandro de Castro; STRECK, Danilo Romeu; MORETTI, Cheron Zanini (Orgs). Paulo Freire uma Arqueologia Bibliográfica. Curitiba, Appris, 2019.

Autora: Isabela Camini, Doutora em Educação pela UFRGS. Do Setor de Educação do MST/RS. Autora dos livros: Escola Itinerante – na fronteira de uma nova escola, São Paulo, Expressão Popular, 2011; e, Cartas Pedagógicas – aprendizados que se entrecruzam e se comunicam, São Paulo, Expressão Popular, 2012.


[1] Lembramos que se Freire estivesse vivo, em 19 de setembro de 2021, estaria completando 100 anos de vida.

[2] Como de costume, antes da publicação, meus textos são testados por diferentes leitores, meus interlocutores. Por isso minha gratidão a Diana Daros, Soloá Sitolin, Letícia Camini Colen, Fernanda Paulo, Roseli S. Caldart, Daniel Momoli e Solange Todero Von Onçay.

[3] A palavra Pedagogia vem do grego (pais, paidós = menino, filho) e agogué—agogia = conduzir, guiar. Daí a ciência de guiar, educar. Outrora, o conceito fazia, portanto, referência ao escarvo que levava os meninos à escola. Atualmente, a Pedagogia é considerada como sendo o conjunto de saberes que compete à educação enquanto fenômeno tipicamente social e especificamente humano. Trata-se de uma ciência aplicada de caráter psicossocial, cujo objeto de estudo é a educação. A pedagogia recebe influência de diversas ciências, como a psicologia, sociologia, a antropologia, a filosofia, a história e a medicina, entre outras. A pedagogia também tem sido relacionada com a andragogia, a disciplina educativa que se encarrega de instruir e educar permanentemente o homem em qualquer período de seu desenvolvimento e em função da sua vida cultural e social. “Andragogia é vista como arte e a ciência de ajudar os alunos a aprender, em contraste com a pedagogia como a arte e a ciência de ensinar crianças”. Kmowles, Malcolm S. The modern practice of adult educatiion: andragogy versus pedagogy. New York: Association Press, 1970.  

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[4] Para quem interessar, Ana Maria Araújo Freire continuou a publicar obras póstumas de escritos de Paulo Freire, tais como: Pedagogia dos Sonhos Possíveis, 2015; Pedagoga da Tolerância, 2012; e Pedagogia do Compromisso, 2018.

A merenda escolar mata duas fomes

Matando a fome física matamos
também a fome do conhecimento,
pois na escola a criança passa a amar os estudos,
a valorizar o saber e muitas delas são “salvas”
pela merenda escolar.


É fato que o Brasil ainda é um país de desigualdades sociais enormes. Em algumas regiões, crianças são desnutridas e muitas delas passam fome, ou seja, não têm o que comer em casa. A fome é o pior mal do século vinte e um.

Inventamos todos os dias máquinas capazes de imitar as emoções humanas, mas ainda não descobrimos uma solução para a fome. Essa fome que enfraquece o corpo e mata milhões de crianças no mundo inteiro, principalmente no continente africano. É triste ver uma criança pedindo um pão nos semáforos das grandes avenidas das cidades. É triste quando vemos os pais com os filhos nos braços de casa em casa pedindo um pouco de comida. Porém, essa cena tem crescido nos últimos anos.

Não é verdade que estamos vivendo melhor no nosso país. O número de pessoas desempregadas cresceu, o trabalho informal também cresceu e as pessoas lutam de todas as formas para trazer comida pra casa. Com tantos impostos que temos para pagar acabamos comprando apenas o básico, ou seja, feijão e farinha. Isso quando o preço do feijão está num valor que um assalariado pode comprar, porque há alguns meses vi nas prateleiras do supermercado um quilograma de feijão chegar a nove reais.

Os direitos universais das crianças, afirmados pela UNESCO, garantem uma vida digna para todas, porém não é o que enxergamos viajando pelas regiões mais carentes do nosso país.

Chega a doer na alma ver os ossinhos das crianças aparecendo de tão magrinhas, porque não têm alimento em casa. Desde a tenra idade as crianças aprendem a conviver com a hora incerta de comer porque nunca sabem quando terá comida na mesa. É uma alegria ganhar restos de comidas de alguns restaurantes que se compadecem dessas crianças que andam pelas ruas vazias de tudo, principalmente de comida. Não é raro ver crianças à procura de comida nas latas de lixo deixadas em frente dos grandes condomínios residenciais. A fome mata aos poucos. É a pior morte que pode existir.

Ademais, quero falar de outra fome, essa talvez menos explorada no nosso país, mas que acho de tamanha importância para o desenvolvimento de uma nação e para a formação do espírito do cidadão.

Falo da fome do conhecimento. Ainda vemos muitas crianças fora da escola por diversos motivos. Algumas sentem-se rejeitadas pela sociedade porque se acham pobres e feias, outras não encontram estímulos que as façam ter vontade de ir à escola e ainda há aquelas que precisam trabalhar para ajudarem a manter a casa.

Quantas crianças passam o dia inteiro nos semáforos das nossas ruas limpando para-brisas de automóveis em troca de algumas moedas. São centenas delas. Centenas que deixam de adquirir conhecimento para uma vida digna no futuro.

Apesar da nossa Constituição de 1988 garantir o ensino básico às crianças ainda faltam políticas-sociais de incentivo à instrução nos primeiros anos da infância. Conheço jovens com dezoito ou vinte anos que mal sabem escrever um bilhete, mas eles têm fome de aprender. Vejo isso em seus olhos. Necessitam apenas de um “empurrãozinho” de alguém que lhes mostre o quanto é importante o conhecimento científico. Apesar das cotas para escolas públicas e negros nas universidades serem garantidas por lei, muitos dos nossos jovens não conseguem alcançar aprovação no ENEM porque o que aprenderam na escola foi pouco diante do exigido nas provas a que se submeteram. As cotas ainda são injustas com os mais pobres e negros.

Temos muitos problemas com a fome de conhecimento, contudo sabemos que crianças e jovens têm vontade de aprender coisas novas todos os dias. Eles são curiosos.

Eles desejam ser alguém na vida no futuro, alguém importante. Eles acham bonito serem chamados de “doutores”. Precisamos alimentar essa fome com conhecimento que chegue de maneira mais prática e diversa às nossas crianças e jovens. Que possamos ter mais escolas públicas nas regiões carentes, bibliotecas, salas de leitura, laboratórios e, principalmente, a inclusão digital.

Quando falo que a merenda escolar mata duas fomes não estou enganada. Fui criança pobre e senti esses dois tipos de fome. Eu ia à escola com vontade de aprender, mas também pensando na merenda do dia.

Acredito que a maioria das crianças pobres têm essas mesmas fomes. A merenda escolar é muito importante para manter a criança na escola, pois é o maior estímulo àquelas que não têm o que comer em casa. Matando a fome física matamos também a fome do conhecimento, pois na escola a criança passa a amar os estudos, a valorizar o saber e muitas delas são “salvas” pela merenda escolar. Salvas da marginalização e do mundo dos crimes.

A merenda escolar não pode faltar nas escolas e em tempos de pandemia ela deve ser distribuída de alguma forma que possa chegar à casa das crianças junto com a lição do dia. É preciso que a merenda siga junto com a lição para alimentar as duas fomes.

A criança que tem fome física não consegue estudar, o seu cérebro não dispõe de substâncias capazes de memorizar o que lhes é passado. Se a merenda escolar contribui para melhorar os índices das crianças na escola desde a tenra idade e do maior número de jovens concluindo o ensino médio é porque ela tem fundamental importância na vida desses estudantes.

A fome do conhecimento deve ser alimentada todos os dias, também. Porém, quanto mais fome despertamos nos nossos estudantes mais conhecimento eles aprenderão, por isso faz-se necessário que professores, escolas, governantes estejam engajados num ensino-aprendizagem que se dedique aos saberes que são importantes àqueles estudantes. Saberes esses que podem ser transmitidos a partir da experiência dos seus conhecimentos de mundos, como dizia Paulo Freire. A gente tem que ensinar baseado no que o aluno vive todos os dias.

Não é verdade que os nossos jovens não querem mais saber de estudar, vão para escola porque são obrigados pelos pais, vão para escola porque é um lugar onde se sentem seguros ou vão para “bagunçar”. A maioria dos jovens quer aprender algo, quer crescer na vida e alcançar os seus sonhos.

Os jovens moradores de regiões carentes do Brasil costumam deixar seus sonhos de lado e acabam sendo “mortos” pela fome do conhecimento que não recebeu comida. Comida essa que poderia ser dada através dos nossos governantes com a distribuição de livros paradidáticos, com acesso a internet de banda larga até mesmo nos mais longínquos lugares. Afinal, vivemos e aprendemos a ler e escrever agora pelos nossos computadores.

A merenda escolar é a garantia de que as nossas crianças e jovens terão um futuro melhor, por isso ela nunca pode faltar nas escolas. Eis a razão por que ela é tão importante para o aluno, principalmente o aluno na educação infantil que corre o risco de morrer desnutrido por falta de uma alimentação de qualidade.

O papel da merenda escolar é duplo: mata a fome física e a fome do conhecimento. Os copinhos e pratinhos de plástico cheios de comida são um tesouro aos olhos dos estudantes famintos. Assim como um livro que desperte o seu interesse pela leitura ou uma aula passeio onde ele conheça outros mundos e adquira novos conhecimentos. Vamos matar a fome dos nossos estudantes. A fome que parece um fantasma na vida de quem vai dormir com a barriga vazia e se acorda no outro dia na certeza de que na escola terá comida e poderá desfrutar do prazer de comer um pedaço de pão com um copo de leite lendo um bom livro de astronomia.

A criança pobre que vai à escola com fome busca ser alimentada por comida e por instrução de qualidade. Não basta apenas sermos bons professores, a escola precisa oferecer instalações seguras e confortáveis à comunidade escolar. Conheço escolas que ficam dias sem o botijão de gás, logo deixam de fazer a merenda. Algumas sofrem com a burocracia das secretarias de educação, que trato como um descaso, pois a merenda escolar nunca deve faltar, nunca mesmo. Com isso, as crianças também deixam de ir à escola.

Que possamos alimentar a fome de conhecimento com escolas pintadas, banheiros limpos com papel higiênico, salas ventiladas e, se possível, com um vaso de flores em cima da mesa do professor.

Na minha infância estudei numa escola pública onde a merenda sempre foi garantida e todos os dias a minha melhor alimentação era feita lá. Também na escola foi onde alimentei a minha fome de conhecimento com professores que me ajudavam a cobrir as palavrinhas segurando carinhosamente na minha mão.

Foi na escola pública onde aprendi que a fome do conhecimento pode ser alimentada com cadernos e livros doados pelos nossos governantes. Ainda sinto fome de conhecimento até hoje, mas alimento-me assistindo as aulas da minha universidade que é gratuita e me oferece oportunidades de ensino, pesquisa e extensão.

Até no ensino superior encontramos auxílios de alimentação para os jovens porque é sabido que com fome ninguém consegue aprender nada. No ensino superior do turno da manhã temos dois intervalos que são oferecidos para que os alunos possam se alimentar e descansar o cérebro. Nas universidades públicas são ofertados, ainda, vários tipos de alimentos para matar a fome de conhecimento dos estudantes como bolsas de pesquisas e acesso a laboratórios de qualidade. Ainda temo essas boas coisas nas nossas universidades, mesmo que estejam aos poucos se acabando.

A fome seja qual for ela precisa de alimentos. Não deixe ninguém com fome. Doe alimentos.

Transcendente, livros e fundamentos da fé judaica

Os teólogos judeus, especialmente desde a Idade Média, descreveram a transcendência de Deus em termos de simplicidade divina, explicando as características tradicionais de Deus como onisciente e onipotente.

Apresentamos breve histórico dos imigrantes judeus que habitam a região norte do RS desde 1912, estabelecendo aqui suas raízes, suas crenças e tradições. Apresentamos, também uma conversa/entrevista com o líder religioso Berel Natan Engelman que, com muita sabedoria, serenidade e experiência vem conduzindo esta comunidade religiosa há 24 anos.

Os primeiros judeus a se estabelecerem em Passo Fundo datam de 1912. Após 10 anos, em 1922 fundaram a União Israelita Passofundense e logo providenciaram uma biblioteca. Nas ocasiões das grandes festas religiosas iam para o Município de Quatro Irmãos agregando-se aos demais judeus que lá viviam.

No ano seguinte em 1923, a Sociedade Israelita instalou-se em casa alugada, a Sinagoga, a biblioteca e a sede social e já na sequência, a escola com aulas de instrução religiosa. Na necrópole municipal, a Sociedade possui o Cemitério Israelita, este fundado em 1924. Nesta época a Sociedade Israelita, além da Sinagoga, havia também uma escola e um salão onde realizavam-se festas, bailes e teatros. Na escola havia um professor chamado Boruch Bariach que ministrava aulas para o primário e ensino judaico.

Moravam em Passo Fundo cerca de cinquenta famílias. Samuel Chmelnitzky e Celina Milman organizavam e dirigiam um grupo de amadores que apresentavam quadros e peças em Yidish (dialeto adotado pelos judeus na Europa Central). O Sr. Chmelnitzky também dirigia um coro misto que se apresentava para a comunidade com canções em Idish e Hebraico. Em 1944 havia cerca de setenta famílias judias em Passo Fundo. Quatro Irmãos fornecia população para Erechim, Passo Fundo e Porto Alegre. Philipson para Santa Maria, Cruz Alta e também para a capital.

A Sinagoga teve três incêndios em anos diferentes, mas o Sefer Torá (Rolo Sagrado) sempre foram salvos sem sofrerem danos. No último sinistro ocorrido, a Comunidade judaica se uniu novamente e reconstruíram a Sinagoga em dois meses, ficando pronta para as grandes festas religiosas. (Comunidades Judaicas-Leon Back.vol.IV-1958).

Atualmente vivem em Passo Fundo somente quinze famílias judaicas.Vários fatores contribuíram para este fenômeno. O primeiro é a diminuição dos filhos, acompanhando uma tendência geral da sociedade, pressionada pelas questões socioeconômicas e culturais. O segundo fator é a migração de jovens para outros estados ou países, seja por causa de estudos, atrás de emprego, ou simplesmente buscando vida nova em outros lugares. Entre os chefes de família, todos os judeus desta região são de origem Askenazi, judeus provenientes da Europa Central e Europa Oriental.

A Coletividade Israelita local segue um calendário anual com datas a serem lembradas, dentre elas as Grandes Festas e tem como tradição à celebração do Cabalat Shabat todas as sextas-feiras na Sinagoga Abrahão Melnick.

Conheça também uma outra interessante matéria, já publicada no site. Leia aqui.

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SITE NEIPIES: Como a tradição judaica concebe o Transcendente?

BEREL ENGELMAN: A Transcendência Judaica no transcurso da História se vincula a fatores diversos, dentre os quais a Essência de D’us, a Divina Providência e os Mandamentos.

1 – A Essência de D’us:

O alicerce ou a base transcendental de Israel enquanto Povo Judeu, reside na crença de D’us como o Criador de toda a existência física e espiritual.

Como Criador de todos os mundos e de tudo o que neles há, a existência de D’us é precedente e diferente de Sua criação.

Quando a Torá afirma que D’us criou o homem a Sua imagem (Gênesis 1:27), ela não está insinuando que D’us se parece com o homem. Mas, sim, que o homem compartilha dos mesmos Atributos – as Sefirot Intelectuais e Emocionais -, que D’us emprega ao interagir com o mundo. Nada pode descrevê-Lo, nenhuma palavra e nenhum enaltecimento, porque D’us é incompreensível, inominável e anônimo.

2 – A Divina Providência:

A base do Ensinamento Chassídico reside no fato, de que a Providência Divina se aplica a todos e a tudo.

D’us não apenas “determina os passos do homem” (Salmo 37:23), mas também provê a cada uma das criaturas do mundo, direcionando-as ao objetivo pré-determinado a cada uma delas.

A Divina Providência, então, cuida de todas as necessidades de cada uma das criaturas, mesmo daquelas primitivas como as minhocas – que no Plano Perfeito da Criação, têm seu lugar e um papel a cumprir.

Esta é a resposta Cabalística, para a Divina Providência:

D’us se preocupa com tudo, com cada detalhe ínfimo de toda a Sua Criação.

3 – Os Mandamentos: Fisicalidade e Espiritualidade

Os Mandamentos da Torá, tanto os Físicos quanto os Espirituais, podem ser comparados a uma ponte criada por D’us, que permitem ao homem (a Humanidade) conectar-se a Ele.

Os Mandamentos Divinos, que são cumpridos física e espiritualmente, são os meios pelos quais as criaturas finitas podem vivenciar a D’us.

Estes aspectos de Transcendentalidade permanecem imutáveis na vida Judaica, nem o tempo histórico, o espaço geográfico e o antissemitismo conseguiram mudar tais aspectos PÉTREOS do Judaísmo.

Resta, porém, nesta síntese, abordar o Imanente e o Transcendente, em D’us.

Imanente: a Essência de D’us em Si mesma, a qualidade do que pertence à Substância interna de D’us.

Transcendente: a “Exterioridade” de D’us, que se faz notar por meio de Seus Atributos manifestados nas Sefirot, na parte correspondente à metafísica da vida.

Fonte: (MORASHÁ + BDR)

SITE NEIPIES: Qual é a importância dos livros sagrados para a observância e seguimento dos fundamentos da fé judaica?

BEREL ENGELMAN: Todas as religiões têm seus próprios livros sagrados e certamente muito importante para àqueles que seguem sua fé. Dentre outros livros sagrados para o judaísmo, falamos aqui especialmente da Torá.

As cinco partes que constituem a Torá são nomeadas de acordo com a primeira palavra de seu texto, e são assim chamadas:

Em Bereshit é narrada a criação do mundo e do homem sob o ponto de vista israelita, e segue linearmente até o pacto da Divindade com Abraão. São apresentados os motivos dos sofrimentos do mundo, a constante corrupção do gênero humano e a aliança que a Divindade faz com Abraão e seus filhos, justificados pela sua fé monoteísta, em um mundo que se torna mais idólatra e violento. Nos é apresentada a genealogia dos povos do Oriente Médio, e as histórias dos descendentes de Abraão, até o exílio de Yaakov e de seus doze filhos em Egito.

Em Shemot mostram-se os fatos ocorridos neste exílio, quando os israelitas tornam-se escravos na terra de Egito, a Divindade se manifesta a um israelita-egípcio, Moisés, e o utiliza como líder para libertação dos israelitas, que pretendem tomar Canaã como a terra prometida aos seus ancestrais. Após eventos miraculosos, os israelitas fogem para o deserto, e recebem a Torá dada por Yahweh. Aqui são narrados os primeiros mandamentos para Israel enquanto povo (antes a Bíblia menciona que eram seguidos mandamentos tribais), e mostra as primeiras revoltas do povo israelita contra a liderança de Moisés e as condições da peregrinação.

Em Vayikrah são apresentados os aspectos mais básicos do oferecimento dos korbanot, das regras de cashrut e a sistematização do ministério sacerdotal.

Em Bamidbar continuam-se as narrações da saga dos israelitas no deserto, as revoltas do povo no deserto e a condenação da Divindade à peregrinação de quarenta anos no deserto.

Em Devarim estão compilados os últimos discursos de Moisés antes de sua morte e da entrada na Terra de Israel.

Os fundamentos da fé judaica podemos nos basear desta forma:

10 Mandamentos

Os dez mandamentos foram escritos com 620 letras: abrangem 613 preceitos ao povo judeu e 7 Leis de Nôach para a humanidade, que somam 620.

13 Princípios

Ao formular os Treze Princípios de Fé, Maimônides estabeleceu os principais pontos de afirmação e crença em um D’us único e em Sua revelação a Moshê, o líder de nosso povo.

As Sete Leis de Noé

Este Código de Leis fornece um propósito à vida para todos os tempos, guiando a humanidade a perceber seu potencial máximo e sua semelhança com o Criado

Conceitos: Os Três Pilares do Judaísmo

Os três pilares de nosso serviço a D’us são Teshuvá (arrependimento), Tefilá (prece) e Tsedacá (caridade), no entanto estas traduções não expressam os verdadeiros conceitos judaicos destes três elementos essenciais de nossa fé.

Os sete poderes espirituais da alma

Toda alma humana possui 10 sefirot, ou poderes espirituais. Os primeiros três são intelectuais, enquanto que os sete remanescentes estão relacionados às emoções.

SITE NEIPIES: Como os judeus percebem a presença e a força do Transcendente no dia a dia e ao longo da história da história da humanidade?

BEREL ENGELMAN: Os teólogos judeus, especialmente desde a Idade Média, descreveram a transcendência de Deus em termos de simplicidade divina, explicando as características tradicionais de Deus como onisciente e onipotente. Intervenções da transcendência divina ocorrem sob a forma de eventos fora do campo da ocorrência natural, como milagres e a revelação dos Dez Mandamentos a Moisés no Monte Sinai, ou como providência divina, que é parte do Deus transcendente, segundo Fílon de Alexandria (século I) por ser Ele a causa ativa na manutenção do universo.

Na cosmologia cabalística judaica, Deus é descrito como o “Ein Sof” (literalmente, sem fim) como referência à simplicidade divina de Deus e à incognoscibilidade essencial. A emanação da criação do Ein Sof é explicada através de um processo de filtragem. 

No mito da criação da cabala luriânica, chamado de “quebra dos vasos”, a filtragem era necessária porque, caso contrário, essa essência simples e intensa sobrecarregaria e tornaria impossível o surgimento de criações distintas. Cada filtro, descrito como um vaso ou recipiente, capturou a emanação dessa força criativa até que foi sobrecarregado e quebrado pela intensidade da essência simples de Deus. Uma vez quebrados, os fragmentos dos vasos, cheios de “centelhas divinas” absorvidas, caíram em um vaso abaixo. Esse processo finalmente continuou até que a “luz” da Divindade fosse suficientemente reduzida, “ocultada” para permitir que o mundo em que habitamos fosse sustentado sem romper.

A criação deste mundo, no entanto, vem com a consequência de que a transcendência divina está oculta ou “exilada” (do mundo imanente). Somente através da revelação de faíscas escondidas dentro dos fragmentos embutidos em nosso mundo material é que essa transcendência pode ser reconhecida novamente. No pensamento hassídico, as faíscas divinas são reveladas através do cumprimento de mandamentos ou “mitzvot” (literalmente, as obrigações e proibições descritas na Torá). Uma explicação cabalística para a existência de malevolência no mundo é que essas coisas terríveis são possíveis com as faíscas divinas sendo escondidas. Portanto, existe alguma urgência em executar mitzvot, a fim de liberar as faíscas ocultas e executar um ” tikkun olam ” (literalmente, a cura do mundo). Até então, o mundo é presidido pelo aspecto imanente de Deus, frequentemente chamado de Shekhinah ou espírito divino, e em termos femininos.

SITE NEIPIES: Quais são os pilares fundamentais da fé judaica?

BEREL ENGELMAN: Segundo os judeus, existe somente um D’us, todo-poderoso que criou o universo e tudo o que nele há. Os judeus acreditam que Deus tenha uma relação especial com o seu povo, consolidada no pacto que fez com Moisés no Monte Sinai, 3,5 mil anos atrás.

Os Treze princípios do Judaísmo:

  1. Confio plenamente que D’us é o Criador e guia de todos os seres, ou seja, que só Ele fez, faz e fará tudo.
  2. Confio plenamente que o Criador é um e único; que não existe unidade de qualquer forma igual à d’Ele; e que somente Ele é nosso D’us, foi e será.
  3. Confio plenamente que o Criador é incorpóreo e que está isento de qualquer propriedade antropomórfica.
  4. Confio plenamente que o Criador foi o primeiro (nada existiu antes d’Ele) e que será o último (nada existirá depois d’Ele).
  5. Confio plenamente que o Criador é o único a quem é apropriado rezar, e que é proibido dirigir preces a qualquer outra entidade.
  6. Confio plenamente que todas as palavras dos profetas são verdadeiras.
  7. Confio plenamente que a profecia de Moshe Rabeinu (Moisés) é verídica, e que ele foi o pai dos profetas, tanto dos que o precederam como dos que o sucederam.
  8. Confio plenamente que toda a Torá que agora possuímos foi dada pelo Criador a Moshe Rabeinu.
  9. Confio plenamente que esta Torá não será modificada e nem haverá outra outorgada pelo Criador.
  10. Confio plenamente que o Criador conhece todos os atos e pensamentos dos seres humanos, eis que está escrito: “Ele forma os corações de todos e percebe todas as suas ações” (Tehilim 33:15).
  11. Confio plenamente que o Criador recompensa aqueles que cumprem os Seus mandamentos, e pune os que transgridem Suas leis.
  12. Confio plenamente na vinda do Mashiach (Messias) e, embora ele possa demorar, aguardo todos os dias a sua chegada.
  13. Confio plenamente que haverá o renascimento dos mortos quando for a vontade do Criador.



Qual a origem da religião judaica? Quais inovações o Judaísmo trouxe para a Humanidade? No que acreditam os judeus? Quais são as subdivisões da religião? É possível ser judeu e não ser religioso? Qual a origem do antissemitismo? Como a tradição judaica contribuiu para a cultura ocidental? Neste vídeo, trago reflexões sobre a primeira religião monoteísta da História. (LEANDRO KARNAL)

O judaísmo é a religião monoteísta que possui o menor número de adeptos no mundo, cerca de 12 a 15 milhões. Essa religião originou-se por volta do século XVIII a.C. Veja mais aqui.




Sugestões de uma atividade pedagógica

A matéria “Transcendente, livros e fundamentos da fé judaica” é escrita com base nas crenças e práticas religiosas judaicas. Nem todas as religiões pensam o Transcendente (Ser Superior) do mesmo jeito, mas independentemente dos nomes e das ideias que se tem dele, a busca é muito parecida nas diferentes religiões ou tradições religiosas.

Esta atividade pode ser aplicada a turmas do nono ano do Ensino Fundamental, seguindo orientações da Nova BNCC no Componente Curricular Ensino Religioso. Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida. Objeto de Conhecimento: Imanência e transcendência. Habilidades: (EF09ER01RS-01) Definir imanência e transcendência expressas pelas Tradições Religiosas em seus livros sagrados. (EF09ER02RS-01) Propor, com base nos escritos sagrados, soluções cotidianas que contemplem a valorização da vida, o respeito, altruísmo.

Questões para aprofundamento:

  1. Após leitura da entrevista do líder religioso Berel Natan Engelman, descreva quais são algumas características do Transcendente, no judaísmo D’us?
  2. Por que o Judaísmo é a primeira religião monoteísta e porque é a religião com menor número de adeptos no mundo?
  3. Quais inovações o Judaísmo trouxe para a Humanidade? (Assista o vídeo de Leandro Karnal para responder: https://www.youtube.com/watch?v=wBB1OhBK_-c&feature=youtu.be
  4. Quais são as cinco partes ou cinco livros que compõem a Torá?
  5. Escolha um dos conteúdos desta matéria sobre judaísmo que mais lhe chamaram atenção. Copie e faça um breve comentário.

Reflexão Espírita sobre a Responsabilidade de ser pai

Os pais, como bons cultivadores da moral,
devem plantar no coração dos filhos as
sementes de tolerância e do bom entendimento.


O pai é o canal que Deus se utiliza para entregar o espírito, criado por Ele para ser conduzido na viagem reencarnatória. Como a mãe, ele terá que prestar contas a Deus do filho que lhe foi entregue para ser amparado, educado, protegido e amado na experiência da paternidade.

No retorno dos pais à verdadeira vida, certamente terão que responder através de suas consciências o questionamento: “Que fizestes do filho de Deus entregue em suas a mãos para encaminhá-lo pelas trilhas do bem, para que ele aproveitasse satisfatoriamente a oportunidade reencarnatória?”

A missão da paternidade não se resume a oferecer o corpo material, mas sustentar, amparar, dar segurança, educar, estimulando o desabrochar das potencialidades divinas incrustadas no âmago desse espírito imortal, enfim, amá-lo e reconduzi-lo para Deus.

A resposta da questão 582 de “O Livro dos Espíritos”, de Allan Kardec, explica sobre a responsabilidade da paternidade: “Sem dúvida é uma missão. É, ao mesmo tempo, um dever muito grande e que envolve, mais do que o homem pensa, a sua responsabilidade quanto ao futuro. Deus colocou o filho sob a tutela dos pais, a fim de que estes o dirijam pelo caminho do bem, e lhes facilitou a tarefa dando à criança uma organização frágil e delicada, que a torna acessível a todas as impressões”.

A paternidade quanto a maternidade são magistérios sublimes. O lar é a primeira escola e os pais os primeiros professores dos filhos. Essa abençoada escola precisa ter um programa moral a ser ensinado e cumprido.

O pai exerce importante papel na estruturação da personalidade dos filhos. O pai e a mãe representam os dois pilares sobre os quais a personalidade dos filhos vai se estruturar.

O pai deve envolver-se ativamente na criação e educação da prole. Ele tem papel importante no processo de desvinculação do nenê da figura da mãe. É na atuação dessa figura ímpar que o filhinho vai se perceber um indivíduo, desvinculado da mãe, durante os primeiros meses de vida. A seguir, a figura paterna vai representar o equilíbrio, a segurança na materialidade, o ser que representa Deus no imaginário da criança, contrabalançando com a figura de mãe que representa a meiguice, o aconchego, o recolhimento, a ligação com a espiritualidade.

O pai deve ser o melhor amigo dos filhos, o conselheiro, o orientador dos caminhos do mundo, o que ajuda a abrir portas ou fechá-las. O defensor e o protetor dos perigos e desafios, a autoridade moral máxima. O exemplo de atitudes a serem seguidas, até que o filho fique independente e caminhe com suas próprias pernas na vida, utilizando o seu livre arbítrio. Quando estes vínculos foram criados e fortalecidos na convivência familiar na fase adulta dos filhos o pai será o parceiro que continuará na retaguarda, a dar sustentação moral e emocional na vida dos mesmos.

A maneira de o pai exercer a paternidade vai interferir diretamente no desenvolvimento do caráter do filho.

O pai autoritário, rígido, de regras inflexíveis pode levar a criança a ser depressivo na infância, e apresentar problemas e sintomas desde humor reprimido e imitável, agitação ou retardo psicomotor até pensamentos recorrentes de morte. Na adolescência provoca comportamento negativista e anti-social, uso abusivo de álcool ou outros tóxicos, dificuldades escolares, emocionalidade descontrolada, etc.

O pai permissivo, indulgente, sem impor limites leva o filho a ter dificuldade de controlar seus impulsos. Essa é uma característica muito comum de pais atuais, pouco identificados com o seu verdadeiro papel. Para ele tudo é permitido. Isso gera filhos adolescentes que se envolvem em acidentes de trânsito, uso de drogas, com transtornos de ansiedade e a busca desenfreada de prazer.

Outro estilo de pai é o indiferente que tem negligência e falta de envolvimento. Isso leva o filho, geralmente, a um comportamento agressivo e delinqüente, com transtorno de conduta que viola as regras sociais e os direitos dos outros.

A criança criada em condições soturnas, e negligentes com falta de afeto, em clima silencioso ou com palavras rudes apresenta-se rancorosa, exigente e perturbadora, não tolera frustração, tem baixa autoestima e não apresenta sentimento de culpa ou remorso pela sua atitude rude, agressiva.

Os pais autoritários, permissivos ou indiferentes deixam marcas negativas no comportamento desequilibrado dos filhos.

O estilo de exercer a paternidade de forma mais eficaz e recíproca é o que envolve a coerência, a recompensa pelo bom comportamento e a punição pelo comportamento indesejável, tudo exercido num ambiente acolhedor, e carinhoso. É o que Jesus nos ensinou: “Seja o teu falar sim, sim. Não, não” (Mateus 5:44) É o pai que dá lugar ao filho de compartilhar na tomada de decisões, que privilegia o diálogo, a troca de ideias de modo racional resultando em um senso de auto confiança e equilíbrio emocional e psíquico do filho. É o caminhar juntos, de mãos dadas, lado a lado…

Dentro das funções paternas destaca-se a segurança e estabilidade material e psicológica que ele dá, ou não, à mãe, além de prover as necessidades do filho e educá-lo. O pai é de extrema importância no processo de separação referente a díade mãe-filho, mostrando-se presente como a outra pessoa de amor enfatizando sua presença física e afetiva. O pai estimula a formação dos limites, as frustrações adequadas e educativas e a formação da capacidade para pensar.

O pai tem o dever de conduzir os filhos com sabedoria, pois eles são concessões divinas e possibilitam a reabilitação de erros do passado. Os filhos devem aos pais sempre gratidão e respeito pela bendita oportunidade do recomeço, mesmo quando eles não se desincumbam bem do compromisso assumido.

O relacionamento familiar possibilita a vivência da fraternidade, todos se conhecem e se podem desculpar com mais facilidade tendo em vista o bem geral e individual.  Ser filho representa uma oportunidade de aprendizagem para se tornar futuro genitor. Aos filhos cabe exercitar os deveres do afeto e do trabalho para o próprio desenvolvimento e preparar-se para proteger os pais quando envelhecerem ou adoecerem, no futuro.

Os pais devem observar atentamente as imperfeições morais dos filhos e as tendências à agressividade, especialmente entre irmãos, e corrigir tais tendências, dialogando com paciência e ternura, mas de forma firme, cortando o mal pela raiz. Para isso, o exemplo de união e respeito entre os cônjuges dará equilíbrio e segurança para os filhos, irmãos entre si, na família. A convivência entre os irmãos deve ser edificante, ajudando-se mutuamente, desenvolvendo a fraternidade e o respeito, estimulados pelos pais.

Cada filho é um ser único, traz suas características individuais que atestam sua maturidade espiritual. Os pais não devem verbalizar a comparação entre um irmão e outro, enaltecendo um em detrimento do outro, mas estimular a amizade, o respeito e o carinho entre eles para ajudá-los a superar a rivalidade natural dos irmãos em relação aos pais.

No lar, os filhos devem encontrar os recursos preciosos de educação para a formação equilibrada do caráter e da personalidade. Os irmãos devem aprender a ser unidos e superar as dificuldades emocionais que existem no seu relacionamento conseguindo, no futuro, enfrentar os desafios existenciais com harmonia.

Os pais, como bons cultivadores da moral, devem plantar no coração dos filhos as sementes de tolerância e do bom entendimento. Elas vão fixar-se no cerne da memória afetiva, prolongar-se por toda a existência e no além. Na fase infanto-juvenil é mais espontânea a amizade, o relacionamento sincero e a natural convivência.

No lar, nas conversações edificantes deve-se falar sobre a Justiça Divina, a Lei de Causa e Efeito e o sofrimento, a expiação ou provação, explicando que são processos perfeitamente normais e não punições divinas. A família deve ser um remanso de união na qual se retificam erros de vidas anteriores e onde todos devem se ajudar porque conseguem compreender as leis divinas.

Os pais devem reconhecer os seus erros, deixar que os filhos saibam disso. Reconhecer as atitudes equivocadas não vai enfraquecer a autoridade e mostra à criança que os erros são um sinal que o aprendizado está se processando.

Os filhos devem perceber que os pais são humanos, tem defeitos mas lutam consigo para se melhorarem.

Acostumar os filhos a dar um passeio a pé, num parque ou bosque e/ou deleitarem-se observando as maravilhas na natureza. Ouvir o murmúrio da brisa, os pássaros cantando, abraçar uma árvore, sentindo sua energia e luz. Sentir a existência de Deus na natureza.

Assistir com eles o nascer ou o pôr do sol ou da lua, observar o céu, as estrelas, as nuvens… Cultivar um jardim ou vasos com plantas, observar a germinação de uma semente transformando-se em vegetal. Saborear uma fruta, analisar sua semente.

Frequentar com regularidade uma atividade religiosa, servir, de algum modo a uma causa social, solidária e fraterna, são atividades simples mas edificantes que despertam a dimensão espiritual, emocional e moral da inteligência infanto-juvenil.

O importante é não acelerar a infância das crianças preparando-os para serem adultos. Aprender a curtir as brincadeiras inocentes, a tristeza suave, a emoção de aprender, a singeleza de expressar o amor, o carinho, a dança livre, o balbuciar alegre de uma canção, a conversa com o amigo invisível, com o brinquedo predileto e a rica imaginação do infante.

Os pais não devem se apressar, devem curtir cada momento do crescimento físico, emocional, espiritual de seus filhos. As crianças gostam de relaxar, ficar livres para brincar, imaginar, agir. O ócio é importante nessa fase.

Deus para a doutrina espírita,
do palestrante Haroldo Dutra Dias.




Sugestões de uma atividade pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a turmas do nono ano do Ensino Fundamental, seguindo orientações da Nova BNCC no Componente Curricular Ensino Religioso. Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida. Objeto de Conhecimento: Imanência e transcendência. Habilidades: (EF09ER01RS-01) Definir imanência e transcendência expressas pelas Tradições Religiosas em seus livros sagrados. (EF09ER02RS-01) Propor, com base nos escritos sagrados, soluções cotidianas que contemplem a valorização da vida, o respeito, altruísmo.

Questões para aprofundamento:

  1. Assista ao vídeo “Deus para a doutrina espírita”, do palestrante Haroldo Dutra Dias. Qual é a concepção/visão de Deus no espiritismo?
  • Após ler o texto “Reflexão Espírita sobre a Responsabilidade de ser pai”, o que você entendeu que venha a ser a responsabilidade do pai ou da paternidade?
  • Após ler o texto “Reflexão Espírita sobre a Responsabilidade de ser pai”, o que você entendeu que venha a ser a responsabilidade da família?
  • Sugerimos que faça uma pesquisa sobre o Espiritismo e seus fundamentos para apresentar em sala de aula.
  • Pesquise também uma resenha ou resumo sobre o livro referência do Espiritismo “O evangelho segundo o espiritismo”.
  • Comente esta frase da autora Gládis Pedersen: “Frequentar com regularidade uma atividade religiosa, servir, de algum modo a uma causa social, solidária e fraterna, são atividades simples mas edificantes que despertam a dimensão espiritual, emocional e moral da inteligência infanto-juvenil”.

Taxação dos livros?

O acesso pleno à leitura é condição fundamental
para a capacitação cultural  e acadêmica  das presentes 
e futuras  gerações, sem o que este desafio torna-se
inviável  em um país  como  o nosso  com
terríveis problemas  na área  educacional.


Desde a posse de Bolsonaro, o retrocesso civilizatório é assustador notadamente no campo da  cultura. O ataque se dá em várias frentes. Agora, por exemplo, o governo acena em taxar a venda  de  livros  com uma tributação  de  12%  e  com  um programa  de doação de  obras.

Segundo o ministro Guedes “livros são artigos para a  elite”  e que o governos  os  dará  de  graça  aos pobres.

A União Brasileira de Escritores deixou claro que  este  pensamento  retrógrado nos faz lembrar  a prática  de regimes nocivos  que  a humanidade  conheceu, que não hesitaram  em queimar milhares  de  volumes  e  impor os que interessavam  à  sua ideologia.

Meus assustados  botões  indagaram:  ler o que se quer  não é uma prerrogativa  de  cada  cidadão?  Com a doação, os  cidadãos de  baixa  renda   ficarão sem a opção de escolher  o que querem ler? Obviamente, a doação pelo poder público  significará  instrumentalizar  os  conteúdos  conforme  a orientação  político-ideológica  do  governo de plantão. Corremos o risco de  ter, em  pleno século XXI,  o Index de  volta, o que  seria  um despautério.

Ora, são apenas livros  com  “um amontoado de montão de palavras,” na lúcida  definição  do ocupante  do Palácio do Planalto,  que  vê livros como  inimigos.

Ao contrário do que pensa o Presidente, livros são parte fundamental na formação de qualquer indivíduo. Eles ajudam as pessoas a entender  seu tempo  e tenham  seu espaço na sociedade, questionando-se e observando a  si mesmos  de  forma  crítica.

O acesso pleno à leitura é condição fundamental  para  a capacitação cultural  e  acadêmica  das presentes  e futuras  gerações, sem o que este  desafio  torna-se inviável  em um país  como  o nosso  com terríveis problemas  na área  educacional.

O Estado como afirma  a  UBE “tem  o dever  de prover  obras didáticas  para os  alunos  de escolas  públicas, desde que selecionadas,  de  modo democrático  e autônomo, por  colegiados  de professores, como vem sendo feito  com sucesso  no Brasil  há muitos  anos,  graças  ao Programa  Nacional  do Livro Didático”.

Aliás, a cultura via livros didáticos, também não escapou do obscurantismo  bolsonarista, que determinou  a redução do tamanho dos mesmos. Livros para os alunos e o material de apoio aos professores  afinaram. Perde-se, obviamente, muito da base científica e pedagógica  para preparar  as aulas.

Vale  a pena  lembrar  que  a Constituição  estabelece  ser  vetada  à  União, Distrito Federal, estado  e municípios, a instituição de qualquer  imposto sobre  livro, jornais, periódicos  e o papel  destinado à sua  impressão.

A Carta reconhece que  a leitura  é  instrumento  fundamental  de  educação,  liberdade, igualdade  de oportunidades, democracia e justiça social.   O mesmo, ao que parece, não   tem ressonância no atual governo.

O curioso é que enquanto  livros  são taxados, iates, jet  skys  e helicópteros  continuam isentos  de  taxação. E  daí?

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