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Culminância de uma transformação profunda

A culminância e o esgotamento deste modelo conhecido como modernidade é simbolizada por pessoas escravas de necessidades artificiais, criadas pelo indústria do consumo, apoiado no individualismo, no produtivismo e na competição ilimitada.

O ciclo da história humana que sucedeu o período medieval é conhecido como modernidade. A modernidade passou por várias etapas, tendo como um dos marcos iniciais, as grandes navegações e a chegada dos europeus na América.

A revolução industrial e a revolução francesa, são dois marcos sinalizadores de uma nova etapa da modernidade. Nó século XX, as disputas entre os modelos sociais capitalistas e socialistas e os confrontos pelo poder, simbolizadas nas duas guerra mundiais, no fim das grandes ditaduras e na ampliação das democracias, sugere a caracterização de uma nova etapa para a modernidade.

A partir das últimas décadas do século XX, evolução tecnológica impulsionada pela internet, que revolucionou a comunicação, simbolizou mudanças profundas nas relações humanas que, em nome da progresso, elevaram a instrumentalização da natureza, provocando um aumento no distanciamento dos seres humanos entre si e na desumanização.

O desenvolvimento da inteligência artificial possibilitou a produção muito além do que seria o necessário para a sobrevivência digna de todos os seres humanos existentes no planeta terra. Paradoxalmente ao excesso de produção, de circulação facilitada e rápida das mercadorias, das pessoas e das informações, a humanidade passou a conviver com a falta do básico para a maioria das pessoas.

Para uma leitura e interpretação adequada da crise vivida pela humanidade nas últimas décadas, e frequentemente escondida, duas contradições devem ser evidenciadas. Uma entre a produção de bens materiais, mais do que o necessário para todos e a realidade social na qual a maioria das pessoas estão vivendo sem alimentação e sem habitação adequadas. Outra contradição está simbolizada na rapidez das informações, com a ampliação dos meios de comunicação e o aumento das dúvidas, desinformações, incertezas e desorientações.
Estas duas contradições sugerem que o modo de organizar a vida, pautado pelo progresso visando o crescimento econômico e o lucro ilimitado se esgotou, chegou no limite e perdeu o sentido.

A exaltação do individualismo ilimitado, subordinado ao consumismo, e a produtividade está sendo abalado pelas mortes causadas pelo Covid 19, que não foram prevenidas por um modelo de desenvolvimento que destruiu e distanciou o ser humano da natureza.

A culminância e o esgotamento deste modelo conhecido como modernidade é simbolizada por pessoas escravas de necessidades artificiais, criadas pelo indústria do consumo, apoiado no individualismo, no produtivismo e na competição ilimitada.

A construção de uma transformação profunda que pode possibilitar a evolução da humanidade, está vinculada com a substituição dos valores individualistas, egocêntricos e antropocêntricos por valores alicerçados na solidariedade, na imaterialidade, na evolução espiritual, na reconexão dos seres humanos entre si e com a natureza.

“Mujica emite seu pensamento em frases como: “Não podemos ser fanáticos. Temos que ter a ousadia política de inovar. Devemos ter a honra intelectual de reformular o caminho”. Tais compreensões permitem uma visão alargada do conceito de política, além de uma única determinação da atividade política, como gerenciamento de conflitos ou como gestão da economia. (Cecília Pires)

Pandemia e desigualdade

Fica claro quem morrerá:
poucos ricos e muitos pobres.
“E daí”, dirá o presidente, cuja política econômica
é voltada para os interesses da elite.


Eu não sei se meu prezado leitor já percebeu, mas o Covid-19 é uma doença de risco, no sentido de que ela atingiu primeiramente os privilegiados, os viajados, os globalizados. Foram eles os primeiros infectados e foram eles os transmissores para o resto da população.

Este fato foi decisivo para o surgimento de opositores enfáticos ao governo, diante da inépcia de Bolsonaro. As barbaridades contra a soberania nacional, assalariados, a educação, cultura e democracia, embora graves, não pareciam sensibilizar grande parte da elite.

Agora não. A própria elite que o elegeu percebe que, em poucos meses, Bolsonaro transformou o país  em uma  República  da Esculhambação.

Quem age com base no cálculo eleitoral e deixa de lado tudo mais, conviria que tivesse presente as lições da história – quando quis  enfrentar a ciência, nunca a política ganhou. Ao contrário, sempre perdeu.

Estamos chegando com a pandemia a um patamar desesperador em algumas regiões do país. Com o insuficiente e precário sistema público de saúde, não é difícil de adivinhar quais serão as principais vítimas: os pobres e humildes.

Como pedir a uma  parcela de  35 milhões  de  brasileiros que não têm água potável nem  sequer  para lavar  as mãos  que se proteja do vírus? Como exigir que 13 milhões  que vivem abaixo  da extrema pobreza que mantenham  padrões de higiene para se prevenir  do covid-19? Beira ao deboche.

Fica claro quem morrerá: poucos ricos e muitos pobres. E daí, dirá o presidente, cuja política econômica é voltada para os interesses da elite.

Aqui aparece a chaga histórica do Brasil, a desigualdade. A abolição tardia da escravidão fez com que milhões ficassem disponíveis para trabalhar com um mínimo de dignidade. Na esfera política, o poder sempre esteve nas mãos das classes abastadas.

O Brasil se transformou em um dos campeões de desigualdade social no mundo. A soma da riqueza de todas  as  famílias  brasileiras é de cerca de  16  trilhões de  reais, mas a metade, 8 trilhões, encontra-se nas mãos  de  1% de  abastados. Agora, alguns bilionários estão fazendo benemerência.

Não vale, entretanto, fazer benemerência com dinheiro público. A filantropia no Brasil, sempre foi feita para granjear aprovação da opinião pública, mas  as  despesas  são abatidas do Imposto de Renda. No fim das contas, nós é que pagamos.

Quem sabe, diante desta tragédia, a sociedade brasileira coloque em pauta a redução desta criminosa desigualdade, vencendo as barreiras criadas pela mentalidade  elitista e escravocrata das classes  dominantes,  taxando as  grandes  fortunas.

Mais. Está na hora dos cidadãos que reclamam do tamanho do Estado, de sua suposta corrupção e ineficiência, que comecem a revisar suas opiniões. É hora de debater sobre o aumento do papel do Estado, dos serviços públicos e em especial da saúde.

É preciso rever o egoísmo, o anti-igualitarismo, a ganância extremada, a incultura, o irracionalismo dos chamados “homens de bem”; dar lugar aos sentimentos de fraternidade, igualdade, equidade e aos verdadeiros princípios humanitários e cristãos.

Cabe aqui lembrar do que disse o personagem Dr. Rieux, do romance A Peste (1947), de Albert Camus. “Pode parecer uma ideia ridícula mas a única forma de combater a praga é através da decência”.

Conhecendo religiões de matriz africana: testemunho de um religioso iniciado

Ao falarmos das religiões de matriz africana precisamos, em primeiro lugar, deixarmos em “alguma gaveta” a nossa visão ocidental de mundo e isso deverá ser um exercício bem abrangente.

Nossas vivências e nosso entendimento de religiosidades está profundamente marcada pela visão judaico-cristã. Ainda que não sejamos praticantes de nenhuma religião, temos conhecimentos sobre santos, bíblia, igrejas, papas, etc… Isto está na midia, nos livros de história, nas conversas entre famílias, nos livros e imagens de arte, na literatura, na música, na arquitetura e no nosso vocabulário.

Quantas vezes dizemos “Meu Deus” ou “vai com Deus”; quantas vezes desenhamos em nossa infância um presépio; quantas vezes rezamos um Pai Nosso na escola; quem nunca cantou Noite Feliz? Os exemplos da força do cristianismo na vida de todos nós poderia encher páginas e isso marca profundamente a nossa compreensão e aceitação de práticas religiosas.

Precisamos entender que a visão de mundo trazida pelos escravizados para o nosso país era totalmente diferente da visão dos colonizadores. Tudo que era sagrado para os Africanos, foi demonizado.

Todo a cultura trazida por eles foi desqualificada, esvaziada de sentido e proibida. Nossa visão estética está turva, pois não conseguimos ver beleza em outros padrões que não sejam eurocentrados. Não entendemos uma conexão com o sagrado que não seja através do silêncio ou de canções “respeitosas”; o tambor e a dança são considerados profanos.

Os praticantes das religiões de matriz africanas aqui no Brasil, ultrapassaram essa barreira estética e cultural. Conseguem ver a beleza na dança, no som do tambor, nas guias coloridas que adornam e protegem seus corpos, no canto, na voz, no axé que é a energia divina construída e mantida através dos rituais sagrados.

Quando conseguirmos abrir uma gaveta para colocarmos toda uma nova visão de cultura e religiosidade dentro, um arquivo de novas referências em nossas mentes; quando soubermos enxergar a beleza em outros padrões, em outras práticas, estaremos dando passos largos e seguros em direção a um futuro de harmonia e respeito.



Tânia Mara Duda
Nome religioso: Tânia de Obá
Iniciada na Umbanda e Batuque
Coordenadora da Escola de Teologia Umbandista da Associação de Umbanda Caxias – Caxias do Sul.



Cosmovisão

E de repente nos damos conta de que estamos aqui.

E diante da imensidão, do todo e de tudo que nos cerca, descobrimos que não sabemos nada.

Nasce então dentro de nós, um conjunto de interrogações: Quem somos? De onde viemos e por quê estamos aqui? Para onde vamos?

Respostas inconclusivas, baseadas em suposições, teorias e admissão de possibilidades; apresentadas por alguém , aceitas, defendidas e sustentadas por civilizações ao longo dos tempos.


Cosmovisão africana

Diante da imensidão do cosmos e cientes  de nossa fragilidade, impotência e medo ante determinadas situações, num pensamento coletivo, projetamos para fora de nós, para o além, alguém ou algo detentor de todos os poderes imagináveis e de toda a sabedoria possível; em quem buscaríamos forças e respostas nos momentos de dificuldades e incertezas.

E assim o humano criou o Ser supremo e deu à ele os mais diversos nomes ao longo dos tempos, em todas as civilizações. Mas, tudo começou na Àfrica, berço da humanidade.

Os povos africanos criaram um complexo sistema de crenças que explica e justifica tudo; e esse tudo, está o tempo todo na vida dos africanos; e essa relação cotidiana com o sagrado, é o que chamamos de espiritualidade e que nada tem a ver com religiosidade ou religião. Esse é um outro conceito, um outro entendimento.

Autor: Ipácio Carolino Pinto


Segue entrevista com Ipácio Carolino Pinto ( Orùkó – Èsú Abimbade (Nome africano) Duplo pertencimento: Bàbálorixá (Sacerdote do Batuque-RS) e Cacique de Umbanda (religião brasileira).

SITE NEIPIES: Como, quando e porquê fez sua iniciação à religião?

Ipácio: A tendência é sempre sermos iniciados na religião de nossos pais, pois, não fazemos escolhas quando recém nascidos. Quando dei por mim, já estava dentro da Umbanda; ou a Umbanda já estava dentro de mim. Fui batizado num terreiro e cresci acompanhando minha mãe nesses espaços; embora por força de um contexto histórico, herança da escravização, tenha vivenciado também, ensinamentos da visão judaico-cristã como: primeira eucaristia etc…Mas, o coração bateu mais forte, nos ritmos afro – indígena, Saravá Umbanda!

A iniciação no culto aos Orixás (Batuque do Rio Grande do Sul) se deu bem mais tarde, já na fase adulta e de forma espontânea: foi conhecer, se reconhecer como pertencente à esse espaço; e começar a caminhada.

SITE NEIPIES Quais as diferenças entre entidades e Orixás?

Ipácio: Seguem as diferenças:

Entidades trabalham(incorporam), na Umbanda; são espíritos que já tiveram uma experiência no corpo físico, passaram pela vida, tal qual a conhecemos; e após a morte, conectam-se com os vivos, interagem com quem ainda permanece nesse plano.

Orixás – termo africano yorubá, que define seres invisíveis que estão acima dos vivos e dos mortos e com poderes para nos ligar, nos aproximar de Òlódumàré, Òlórúm ou N’zambi (o Ser supremo).

SITE NEIPIES:O que significa axé?

Ipácio: Quando uso a expressão “yorubá”, me refiro aos homens e mulheres que foram capturados no continente africano, onde hoje ficam o Benin e a Nigéria, para serem escravizados no Brasil. Pois bem; Axé é um termo yorubá que significa: ‘Força Vital’. Mas também pode ser entendido como “tudo que é bom”.

SITE NEIPIES: Qual o sentido e o significado das oferendas?

Ipácio: Oferendas (na Umbanda) ou Ebós(no Batuque), são formas de interagir com as entidades ou com os Orixás; é uma forma de comunicação(agradecimento ou compartilhamento) com o sagrado.

SITE NEIPIES: O que é um terreiro? Como ele se forma e se articula com a comunidade?

Ipácio: O terreiro está para a Umbanda e o Batuque, assim como a igreja está para o cristão, a sinagoga para o judeu ou a mesquita para o muçulmano; é um local de culto ou práticas litúrgicas. Esse espaço é integrado por um sacerdote ou uma sacerdotiza, pela corrente mediúnica ou filhos de santo e pelo público simpatizante.

A um terreiro, pode-se fazer uma série de analogias, mas é essencialmente um lugar de acolhimento e cuidados; e o ideal é que promova ações e atividades que envolvam a comunidade onde se localiza.

SITE NEIPIES: Qual foi seu caminho para se tornar um pai de santo?

Ipácio: Tornar-se um bàbá, uma iyá do Batuque ou cacique de Umbanda, demanda tempo, estudo, vivência, dedicação e vocação.

SITE NEIPIES Quais são suas maiores realizações como liderança religiosa?

Ipácio: Religião é um enquadramento; espiritualidade é a busca pelo autoconhecimento e a descoberta do potencial que há dentro de cada um. Eu me realizo quando o(a) consulente entende a diferença entre uma coisa e outra; e opta pela elevação.

SITE NEIPIES: Que tipo de atendimentos normalmente são oferecidos num terreiro?

As pessoas trazem para o terreiro, queixas, necessidades, fragilidades, sonhos…Cabe às entidades ou divindades trabalhar essas questões, dando respostas ou soluções, quando possível.

SITE NEIPIES: Quais são os maiores desafios de resistência e existência das religiões de matriz africana:(desconfiança, preconceito ou marginalização)?

Ipácio: Tudo junto e misturado. Lutamos desde sempre contra esse combo de perseguição instalado inicialmente pelo “estado” em parceria com a igreja católica e aceito e reproduzido pela “sociedade” racista e intolerante.

SITE NEIPIES: Qual sua mensagem aos professores e estudantes?

Ipácio:A forma mais eficaz de se combater qualquer forma de preconceito, discriminação ou intolerância, é com informação e conhecimentos (corretos) e educação de qualidade.

Saravá!

Axé!



Religiões Afro-brasileiras: as religiões afro-brasileiras são aquelas que têm origem nas tradições dos negros africanos trazidos para o Brasil como escravos. Essas crenças possuem maior ou menor grau de influência europeia e indígena e nascem da cultura de diversas etnias africanas, como iorubás, lundas e ashantis. As mais conhecidas são o Candomblé e a Umbanda. Esta edição do Unidiversidade mergulha nesse universo para conhecer um pouco mais sobre essas religiões.

Em comemoração à Década Internacional de Afrodescendentes, documentário produzido pelo Centro de Informação da ONU para o Brasil (UNIC Rio) aborda as causas da intolerância religiosa e a riqueza da cultura afrodescendente no país.

7 Diferenças entre Umbanda e Candomblé




Sugestões de uma prática pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do sétimo ano, segundo trimestre, Unidade temática “Manifestações religiosas/crenças religiosas e filosofias de vida”, Objeto de Conhecimento: “Lideranças religiosas” e “Habilidades”: reconhecer papéis atribuídos às lideranças de diferentes tradições religiosas/identificar lideranças religiosas presentes no espaço municipal e suas contribuições à formação espiritual/exemplificar líderes religiosos que se destacam por contribuições à sociedade.

Questões para aprofundamento conhecimentos de religiões de matriz africana.

  1. Cosmovisão é visão de mundo. Que aspectos da cosmovisão africana você destacaria?
  2. Discuta com colegas (em grupo) sobre a dificuldade que a maioria dos brasileiros ainda tem de reconhecer e respeitar a cultura negra que vem resistindo no Brasil para não acabar?
  3. Na entrevista do Ipácio Carolino, aparecem vários conceitos que são importantes na Umbanda e no Batuque. Quais destacaria?
  4. Assista ao primeiro vídeo, publicado logo após a entrevista(https://youtu.be/uA7_b_tZzFE?t=1022)  O que você entendeu?
  5. Assista ao segundo vídeo (https://youtu.be/tSbl2LwFB1s?t=18) e descubra quais ainda são as razões da intolerância contra as religiões de matriz africana no Brasil.
  6. Assista ao vídeo(https://youtu.be/aXRGTQLWFgU?t=3)e descreva as sete diferenças entre Umbanda e Candomblé.

Um lembrete para a razão, em tempos de pandemia

A isso podemos chamar de crise. Na verdade, uma porção delas: crise econômica, crise social, crise médica. E como nós, cidadãos comuns que estamos impacientes na espera de respostas, podemos lidar com essa angústia?


– Discorde-se quem puder!

Espera, não entendeu? Então, vem comigo! Mas, antes de tudo, devemos lembrar-nos de aceitar racionalmente a incerteza e tomar cuidado com possíveis consequências `non gratas’ do nosso desejo instintivo de ver padrões no que pode ser uma mera casualidade. Calma. Leia de novo, com todas as pausas que julgar necessárias, pois é exatamente disso que vamos tratar de refletir neste texto. A frase pode não parecer atrativa em primeiro momento, mas tem fundamental importância para entender nosso comportamento diante do mal-estar na sociedade.

Sob condições de sobrecarga de informações e ansiedade relacionada à incerteza – e estamos em um período demasiadamente incerto -, temos a tendência crescente de favorecer inadequadamente as informações adquiridas recentemente, devido à sua facilidade do que podemos chamar de recall – uma heurística conhecida como viés de disponibilidade. Calma, eu vou facilitar, eu prometo, vem comigo.

O período que estamos passando – a pandemia de 2020 – nos traz uma série com abundantes episódios de incertezas sobre, basicamente, tudo. Quanto tempo vai durar? Quando vamos encontrar um tratamento ou vacina? Que medicamento profissionais da saúde devem dar aos pacientes? Quando todos voltarão ao trabalho?

Provavelmente todos nós, seres mortais, já nos deparamos com alguma dessas perguntas flutuando em nossas mentes enxugadas de vieses cognitivos, aqueles, que contornam nossas incertezas. Ora pois, mas é claro. Isso é natural do ser humano, né.

Pensar, ideologizar, problematizar, reinventar. Mas vem aqui comigo só um pouquinho. Quantas respostas nós temos para cada uma dessas perguntas?  Tantas. Parece que o mundo é incerto e o fim está sempre perto, como diria um certo artista que não vem ao caso.

Enfim, onde está a solução? A isso podemos chamar de crise. Na verdade, uma porção delas: crise econômica, crise social, crise médica. E como nós, cidadãos comuns que estamos impacientes na espera de respostas, podemos lidar com essa angústia? As pessoas estão morrendo! “Edaí?” – Como diria… não lembro quem.

Muitos observam essa enfermidade deslocando seus traumas mais impetuosos e mal resolvidos para o jogo do conflito, em meio a cruzadas: o ódio colossal. Aqui no Brasil, parece que somos uma referência forte nesse quesito. Mas acredito que não somos exclusivos, não. Nas situações emergentes, o que prevalece é a cegueira ao padrão de desejo instintivo, o qual pode ser uma mera casualidade. A isso, não podemos chamar de razão. Conquanto, outros são otimistas, outros negam (ah, lembrei!), outros são pessimistas, outros querem a revolução, assim como fez nosso mais prestigiado sanitarista brasileiro, que sim, você sabe quem é, né? Claro que sabe, quem não gostaria de uma mente brilhante como a de Oswaldo Cruz neste momento… ah, dele não posso me esquecer.

Pois bem. Alguém nos diz, em tom gritante e destemperado: Cloroquina é a salvação! – Outrora, um novo componente – Hidroxicloroquina é eficaz! – Ou, por bem, vejamos, o Ritonavir? Azitromicina? Remdesivir? Mas que tal fazer como Waldick? Tome Anemokol!

É, é. Dentre essas e outras, pairamos nas `soluções’ regadas de incertezas em nome da emergente situação que nos espanta. E discutimos, debatemos, brigamos, cortamos relações nas nossas telas virtuais. Isso assola o bem-estar social, que já não está nos seus melhores picos desde… anos. Contudo, não podemos negar o caos.

Mas, perceba a necessidade que por vezes temos – e aqui devo me colocar como réu confesso -, de compactuar com o caos. “Se você não acredita na Cloroquina, é simples, não tome quando estiver morrendo”, ou “AH, MAS ESSE BANDO DE IRRESPONSÁVEIS, QUERENDO EMPURRAR CLOROQUINA GUELA ABAIXO! ASSASSINOS!”, é, porque é, porque é. Por vezes a gente caí nos precipícios. Tem gente, que vive por lá…

Compactos ao caos. Triste loucura. Loucura essa que não passa de uma máscara que esconde alguma coisa, esconde um saber fatal e “demasiado certo”. A isso, não podemos chamar de razão. Pensamos nisso juntos, e assim, posso me colocar. Um lembrete para raciocinar. Contribuir construindo, a medida que vivemos uma crise biopsicossocial, raciocinando criticamente e refletindo sobre os vieses que podem influenciar nossos processos de pensamento. Ah, isso é trabalhoso, com certeza. Mas é um trabalho digno, que fazemos para o nosso bem e que esta diretamente ligado a uma raiz – uma guerreira raiz -, do nosso bem-estar social.

Como eu poderia contribuir em meio ao caos? Atacando o argumento que não me convém ou construindo uma união racional? O primeiro meio é o mais fácil, mais atraente, pelo fato de instigar a mediocridade, que tanto conforta, que tanto almeja as incertezas casuais. O segundo é trabalhoso, pouco atraente por este fato – é verdade -, mas, instigador da veracidade. Envolve vários processos, dentre eles, o autoconhecimento. Este, procura aceitar racionalmente as incertezas. Porém, os caminhos estão à beira da loucura.

Então eu digo: SALVE-SE QUEM PUDER! – Ou melhor – DISCORDE-SE QUEM PUDER! Pois assim percebemos o poder e a importância dela… da dolorida e tão construtiva autocrítica. Mas, lembre-se de ter cautela, cautela para não cair nela, na triste loucura, ou melhor… na balela.

Reflexão inspirada nas seguintes referências:

1.Mal- estar na Civilização – Sigmund Freud

2. Perspective Covid-19 – A RemindertoReasonIvry Zagury-Orly, B.Sc., and Richard M. Schwartzstein, M.D. – NEJM

3.Nietzsche, Vida e Obra – Editora Nova Cultural Ltda.

Pandemia, medicina e sociedade sob o olhar de um médico

Arnaldo Porto, 68 anos, nascido na cidade e Erechim-RS, formou-se médico em 1977 pela UCS (Universidade de Caxias do Sul). Atua em Passo Fundo, RS, desde o ano de 1988, especialmente nas especialidades de alergista e imunologista.

Porto é um estudioso da medicina e da sociedade, um ser humano preocupado com seus pacientes e com os destinos da humanidade. Atua em sua clínica e em hospitais de nossa cidade, fazendo acompanhamento de médicos residentes e que estão buscando formação em especialidades.

Na entrevista que segue, Arnaldo Porto falará sobre as suas realizações como médico, sobre o papel da medicina e sobre as pandemias, bem como suas consequências na saúde e na vida das pessoas e na organização da sociedade.

SITE NEIPIES: Doutor Arnaldo, fale-nos como, quando e porquê o Senhor decidiu empreender sua vida na medicina.

ARNALDO PORTO:  Decidi ser médico ainda no antigo ginásio/oitava série. Foi uma vontade pessoal, pois tinha que decidir entre ser das humanas ou ser da área técnica. Estudava em Erechim, no Colégio Marista Conceição e tive de decidir. A decisão foi pela área de Humanas, pois medicina trabalha com gente. Esta decisão me custou sair de Erechim e morar e estudar fora da minha cidade.

SITE NEIPIES: O que mais lhe realiza e o que mais lhe intriga como médico?

ARNALDO PORTO: Me realizo, me sinto bem, quando consigo ajudar a resolver ou aliviar o problema da doença, do sofrimento dos pacientes. Gosto muito desta relação médico-paciente. O que me intriga, incomoda, deve ser assim com todo médico, quando não conseguimos ajudar ou dar soluções para aqueles que muito esperam da gente como médico.

SITE NEIPIES: Além de médico, atuas como professor. Nos diga um pouco mais sobre esta experiência. Qual é o papel da educação hoje?

ARNALDO PORTO: Acompanho médicos que fazem pós-graduação/especialidades no Hospital de Clínicas e na Faculdade de Medicina da UPF com residentes. É importante poder repassar a nossa prática, dar a segurança a eles que estão querendo conhecer e consolidar sua atuação médica. Quanto à educação, modo geral, é a base para a formação e cultura de um país, de uma nação. Com pouca educação ou má educação, não conseguimos obter progressos, não conseguimos evoluir. Precisaríamos priorizar muito mais a educação para sermos um país com mais progresso e autonomia.

SITE NEIPIES: Qual foi e qual é, hoje, o papel da medicina e dos conhecimentos científicos no enfrentamento às diferentes pandemias ao longo da história?

ARNALDO PORTO: Em todos os momentos de pandemia, de dificuldades, de pestes, a medicina se superou, ultrapassou limites e soube dar sua contribuição para a resolução dos problemas humanitários e de saúde. A medicina sempre ousou mais e fez processos de superação, dispondo de todo conhecimento acumulado e das tecnologias para fazer o melhor, como faz hoje, na pandemia do COVID 19. Sem os conhecimentos da medicina, morreríamos todos.

SITE NEIPIES: Como profissional da medicina, como vês a Pandemia do Covid 19?

ARNALDO PORTO: Um verdadeiro caos que se apresenta a todos, em todo mundo. Um desconhecido vírus que veio nos desconcertar na nossa forma de ver o mundo, ver a vida e os conhecimentos que já imaginávamos dominar. Um vírus que veio para mudar nossas concepções de vida, de mundo e de saúde.

SITE NEIPIES: Modo geral, os diferentes países do mundo e o Brasil tem acertado nas estratégias de enfrentamento ao novo vírus?

ARNALDO PORTO: Apesar do inusitado, do temor e do medo que causa o vírus, os países do mundo, incluindo o Brasil, têm se superado muito. Têm aprendido rapidamente com a experiência dos outros. Os países tem se unido para compartilhar informações e tecnologia para enfrentar a pandemia.

O isolamento ou distanciamento social ainda é a melhor forma de conter o avanço do vírus e dar capacidade aos Sistemas de Saúde atenderem os que precisam de cuidados mais especializados. Afinal, ainda não temos cura e nem temos vacina.

SITE NEIPIES: Como vê o papel da mídia no combate à pandemia?

ARNALDO PORTO: Hannah Arendt, já disse, a partir dos horrores da segunda guerra mundial, sobre os efeitos da “banalização do mal”, de que uma sociedade massificada gera uma multidão de incapazes de fazer julgamentos morais, razão porque aceitam e cumprem ordens sem questionar.

Também agora, quando a grande imprensa trata o tempo todo, todos os dias, os números e a complexidade da doença, passamos a ter ideia de que é natural a morte pelo Covid, de que não nos sobra muito senão morrer, se não tivermos cuidado, médicos…. Ainda vejo a grande mídia investindo no medo e não na informação e na educação sobre a pandemia.

SITE NEIPIES: Quais as consequências do distanciamento social, nas relações familiares, a convivência conjugal, o cuidado com os filhos, a sanidade mental?

ARNALDO PORTO: Muito difícil saber, mas as leituras do mundo científico e das notícias e da realidade que faço é que a população, modo geral, está sofrendo muito. Aumentou a venda de bebidas alcóolicas, aumentou a violência, os conflitos interpessoais, a violência contra as mulheres, o desentendimento entre as pessoas. Vivemos um momento com falta de paciência, ansiedade e ausência de perspectivas claras sobre o futuro próximo.

SITE NEIPIES: Como o senhor acha que sairemos desta pandemia?

ARNALDO PORTO: Gostaria que saíssemos melhores, mas temo que não aprendamos muito. Que no futuro próximo esqueçamos tudo o que estamos vivendo hoje. O exemplo das ruas cheias, logo após a abertura do comércio nas cidades, comprova que, talvez, não aprendamos a conviver de um jeito novo, aproveitando os aprendizados que estamos tendo com a pandemia.

SITE NEIPIES: Quem mais sofre com as consequências e implicâncias do isolamento neste momento da pandemia?

ARNALDO PORTO: Quem sofre mais são os adolescentes e jovens e os mais velhos. As crianças não sofrem tanto porque não tem a noção exata e nem a dimensão do problema, administram melhor as situações. Já os jovens sofrem com ansiedade, com a dificuldade de encarar e pensar a morte que rodeia a todos. Os jovens precisam, neste momento, de muito amparo de suas famílias. Imaginemos a situação destes jovens quando não têm apoio das famílias. E os mais velhos, pelo isolamento, pela depressão, pela dificuldade de entender a mudança de comportamento tão grande que a maioria dos que os rodeiam passou a ter.

SITE NEIPIES: Por que, mais do que nunca, é preciso pensar nos outros, viver a coletividade?

ARNALDO PORTO: Na pandemia do COVID 19, para sobreviver, precisamos também dos outros. Precisamos exercer a solidariedade e a fraternidade, que andavam esquecidas. Precisamos pensar em saídas que não implicam só a vida da gente, mas a vida de todos. Mudou tudo o que vínhamos aprendendo, sobretudo o egoísmo que havíamos incorporado na rotina da gente.

SITE NEIPIES: A verticalização das cidades, até o presente momento, era apontada no mundo como uma das saídas para organização urbana. Depois da pandemia, esta teoria ainda se sustenta?

ARNALDO PORTO: Esta é uma questão que precisa ser levantada, ser refletida. Era um modelo de cidade no Brasil e no mundo, porque economicamente era mais viável oferecer as condições de vida. É mais caro levar esgoto, agua, ruas, quando a cidade é horizontal. Mas o que me preocupa mesmo é a aglomeração, a multidão, a concentração das pessoas e dos serviços tudo no Centro das cidades. Talvez fosse o caso de levarmos alguns serviços dos centros urbanos para os bairros, ou para outras regiões das cidades. Outro fator que preocupa é que concentramos tudo no centro durante o dia e a noite o centro fica deserto, abandonado, sem gente. São reflexões que precisamos levantar, para pensar saídas para melhor convivência nas cidades.

SITE NEIPIES: Quais são as suas esperanças na humanidade, a partir das grandes experiências que o início deste século 21 nos apresenta?

ARNALDO PORTO: Sou um pessimista realista, mas tenho esperanças. Percebo que, ao longo dos últimos séculos, a humanidade vem evoluindo. Estamos nos tornando melhores seres humanos. Mas, no Brasil, um pouco diferente de demais países do mundo, ainda temos a alta concentração de renda. As elites políticas e econômicas ainda não aprenderam que é necessário distribuir melhor a riqueza, para melhorar a vida de todos.

SITE NEIPIES: Como médico imunologista, que cuidados o senhor aconselha nesta época de pandemia?

ARNALDO PORTO: Há muitos alimentos que ajudam a termos uma boa imunidade. Mas o que importa é termos uma alimentação muito equilibrada, com vitaminas e sais minerais. Alimentos como Ômega 3, alimentos ricos em Zinco. Evitar, quando se pode, os alimentos processados e industrializados.

SITE NEIPIES: O que mais o Senhor gostaria de dizer sobre este momento histórico da vida no Brasil e no mundo?

ARNALDO PORTO: Que tenhamos Esperança. Que valorizemos os valores humanistas, que cultivemos valores mais solidários e menos egoístas. Mas não posso deixar de lembrar todos os profissionais da saúde, os verdadeiros heróis, estes que estão no “front” do combate à pandemia. Estes profissionais que, muitas vezes, arriscam suas vidas, trabalhando as vezes sem as condições mínimas de proteção, precisam ser valorizados e reconhecidos pela função única e essencial que cumprem para proteger a vida de todos nós.

Foto: Arquivo pessoal

Jovens ainda escolhem ser professoras

Quatro jovens, de diferentes lugares do RS,
aceitaram o convite para falar sobre sua
escolha pelo magistério.

Apesar de saberem que esta profissão, na atualidade, é exigente, mal remunerada e pouco valorizada, as jovens declaram o seu amor à profissão docente e o desafio de realização pessoal e profissional através da educação. Em comum, ambas estudaram e se certificaram no Ensino Fundamental em escolas públicas.

O fato de conhecerem a realidade das escolas públicas e de seus grandes desafios, é algo super importante neste contexto. Em suas escolas, com certeza, encontraram professores e professoras inspiradores/as, mas também se deparam com profissionais desmotivados e doentes e que, por vezes, devem até ter desestimulado as mesmas para não escolherem a profissão docente.  Por isso mesmo, seus depoimentos são muito importantes para aqueles e aquelas que ainda acreditam nos potenciais da educação, embora esta (a educação) não seja a salvação ou a única saída para um país.

Juntamente com a educação, as gerações mais jovens deveriam ter oportunidades mais igualitárias de estudo, de profissionalização e de geração de renda; deveriam ter mais estímulos quando a condição de suas famílias não permite; deveriam ter escolas mais e melhor equipadas para o desenvolvimento de suas habilidades neste momento histórico.

A produção desta matéria ocorreu a partir de um roteiro de perguntas que foram respondidas pelas jovens estudantes. Seguem as perguntas feitas a elas: a) O que fez você decidir pela profissão docente (ser professora)? b) Como vês hoje a situação dos professores e professoras, sobretudo os que atuam em escolas públicas? c) O que respondes aqueles que te desestimulam a ser professora? d)Como esperas realizar-te pessoal e profissionalmente, sendo professora num futuro próximo? e) Que boas lembranças ou ensinamentos guardas dos teus professores e professoras? f) O que os professores e a sociedade deveriam fazer para resgatar o valor da profissão professor?

Bárbara Vizini, estudante da Faculdade de História na UPF (Universidade de Passo Fundo) no quinto semestre, tem 20 anos, nascida no interior de Sarandi, RS. Bárbara declara-se otimista e aposta na mudança do mundo através dos jovens e a partir da educação.

Bárbara começou dizendo: “eu não perdi esperança no futuro, e o futuro virá pelos jovens que, para poderem fazer um bom futuro, precisam de boa instrução.

A situação dos docentes hoje, sem dúvida, é de descaso. O salário não é digno para a profissão, o respeito se torna cada vez mais escasso, o professor cada fez mais não é reconhecido dignamente.

Quando contava para pessoas que ia fazer a faculdade de História e ser professora, muitos olhavam nos meus olhos e diziam: “não dá dinheiro, vai morrer pobre, bah, tem certeza?” As respostas eram várias, mas quase num total de negativas. E eu respondia para essas pessoas que não era pelo dinheiro e perguntava se elas tiveram, tem ou terão tempo para ensinar aos filhos, netos, sobrinhos, enfim … E a resposta era somente o silêncio.

Sobre seu futuro como professora, Vizini espera se realizar sendo uma professora comprometida com o aprendizado efetivo do educando, que não passe somente conteúdos, mas também consiga fazer alguma diferença social com o seu trabalho.

Sobre seus professores, afirma que “de cada professor (a) tenho recordações diferentes mas, sem dúvida, a que mais me marcou foi a professora que me ensinou a ler e escrever. Ela sempre dizia que repetir era necessário para aprender, que é persistindo que se alcança o que quer.

Acredito que os professores formam as bases de uma sociedade, ” o professor é a profissão que forma todas as profissões ” mas para resgatar o valor da profissão docente, acredito que a sociedade precise ainda reconhecer e respeitar os docentes, assim como entender que são efetivamente necessários para se ter uma sociedade”.

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Outra jovem, Gabriela Helis Scherer, 16 anos, moradora da cidade de Dois Irmãos, RS, já no segundo ano do Magistério no Instituto Estadual de Educação Sapiranga, em Sapiranga, RS.

Assim escreveu:

“Acredito que meu interesse pelo magistério começou com experiências que tive com meus antigos professores dentro de sala de aula e fora, por sempre ter a vontade de ensinar e sendo muito mais do que só a matéria”.

Sobre a situação dos professores e escolas diz que “está bem complicado, pois vem pouca verba para as escolas (para a compra de materiais) e também pelos salários dos professores que não é valorizado”.

Sobre a percepção dos outros sobre sua escolha, a de ser professora, disse que “a maioria das pessoas comentam sobre o dinheiro, e eu responderia que dinheiro não é tudo (sei que é ele que paga minhas contas), mas a gratificação que tenho de ensinar e aprender todos os dias com os alunos não tem preço”.

Sobre a realização pessoal e profissional que espera no futuro da profissão: “Amar o que eu faço, e passando todo o meu conhecimento para os alunos”.

Quando perguntada sobre a lembrança de professores e o que precisamos fazer para dar mais dignidade à profissão docente, Gabriela afirma que lembra que “o olhar que eles têm além do aluno, mas como um ser humano, que todos têm dias difíceis. E querem sempre levar um outro ensinamentos, muitas vezes envolvendo a sociedade e nos fazendo abrir os olhos para tudo que está acontecendo nesse meio.

Além dos professores serem importantes para o crescimento de crianças e adolescentes, também são fundamentais na construção do país. A sociedade, ou seja, os pais dos alunos devem se mostrar disponíveis para a escola, participando dos eventos e atividades.

A valorização tem a ver também com a parte monetária mas não somente a financeira, o investimento nas escolas, em cursos superiores, em geral, na educação é de extrema importância para o aperfeiçoamento dos professores e também para motivar novas pessoas para a profissão”.

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Júlia Lengert, 15 anos, moradora da cidade de Passo Fundo, RS, aluna de escola da rede municipal. Durante o ano de 2019, no seu nono ano, revelou desejo de seguir carreira no magistério. Estuda na Escola EENAV (Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro), uma referência na formação de professores na cidade e na região, através do Curso Normal, antigo Magistério.

A jovem estudante começa sua participação nesta matéria dizendo:

“Sempre admirei boa parte de meus professores, e esse sentimento só foi crescendo ao passar dos anos. Ser professor é passar todo o seu conhecimento, não só em determinada matéria, mas também sobre a vida e suas dificuldades, para assim tornar seus alunos pessoas preparadas para o futuro, e é isso que me encanta”.

A jovem acredita que “os professores, não recebem seu devido valor, não só pelo salário precário que ganham, mas também pelo desrespeito de alunos em sala de aula, onde muitas vezes são ameaçados ou até mesmo agredidos por exercerem sua profissão.

Sou nova ainda, e não sei exatamente em que área quero trabalhar, mas escolhi a profissão por amor e esperança. Amor ao próximo, em passar meu aprendizado a várias crianças e adolescentes, e esperança de que um dia as pessoas não escolham suas profissões por dinheiro, mas porque realmente gostam do que fazem. Sei que são muitas as dificuldades, mas acredito que vale a pena.

Meus professores são minhas inspirações, aqueles que trabalham com amor tem minha total admiração, pois mesmo quando não estão em um bom dia, ou passando por uma fase difícil, deixam os problemas de lado para dar uma boa aula, planejar uma boa prova, ou muitas vezes nos ajudar com nossos próprios problemas.

Lutar por remunerações melhores, receberem formações mais qualificadas e melhor pensadas para melhorar a prática de ensino, e serem mais respeitados em salas de aula. Afinal, professor é a base de todas as profissões.

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Maria Gevana Lorca Casassola, 15 anos, moradora de Passo Fundo, estudante de escola p no primeiro semestre do Curso Normal, antigo Magistério, também participa com entusiasmo e empolgação, depois de recente ingresso no Curso.

A jovem estudante afirma que: “o magistério é uma das atividades profissionais mais lindas e gratificantes que existem, desde pequena sempre gostei de ensinar meus primos (já que eu sou a mais velha, tudo que eu aprendia na escola passava para eles). Passar para outra pessoa algo significativo, dá uma sensação de dever cumprido e é interessante que parece ter haver com nascer com esse dom, pois é algo que a gente se apaixona apenas por se identificar com aqueles que nos cuidaram desde pequenos”.

Afirma também que “vê a situação dos professores e das escolas bastante complicada, algo difícil e até desafiador ao mesmo tempo, porque a violência nas escolas têm sido algo constante e vemos que a tecnologia trouxe muitas coisas boas mas, também, coisas que levou o ser humano não respeitar mais o outro, passando por cima de regras. Tem sido isso diariamente na vida dos professores de escola pública. Então realizar um trabalho de qualidade fica difícil porque as condições muitas vezes são precárias, não tendo recursos por parte do governo ou até mesmo pela direção não tão direcionada ao verdadeiro desejo de ensinar como deveria ser”>

Como é bastante determinada, Casassola diz que nunca se preocupou com a opinião dos outros, principalmente em relação aos meus estudos, e pelo fato de optar pelo magistério.

Quer ser uma professora para “fazer a diferença, estudando com bastante determinação e inovando sempre”.

Disse ainda que sempre teve “ótimos professores que me desafiaram a pensar diferente mas sempre tive muita convicção com tudo aquilo que minha família me passa. Então tudo para mim é aproveitável quando se trata de aprender”.

Finaliza participação dizendo que os governantes e a sociedade “deveriam rever as leis, os salários e dar mais oportunidades de capacitação na formação dos mesmos”.

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Encerrando nossa matéria, registramos breve avaliação da professora Sandra dos Santos, que há anos vem acompanhando a formação de jovens professores, numa escola da rede estadual de Passo Fundo.

“Meu nome é Sandra dos Santos, trabalhei por 14 anos na EENAV como professora de didática geral e algumas disciplinas específicas no antigo magistério. Na conjuntura atual, vejo menos jovens motivados a seguir essa profissão. Muitos iniciam o curso e, quando percebem a realidade dos seus professores fazendo greve, por exemplo, e devido a todos os motivos que conhecemos, muitos acabam abandonando o Curso. Já fazem alguns anos que saí do curso, mas vejo que cada vez tem menos jovens buscando essa formação. Prova disso é que Curso Normal fechou turmas da noite e sempre tínhamos de 2 a 3 turmas iniciantes do primeiro ano e agora a escola só tem uma. Os que procuram, são estudantes de cidades menores, perto de Passo Fundo, e que realmente tem aquele dom especial para assumir a profissão, que seria por amor e vocação”.

Por fim, cabe-nos lembrar que a esperança se chama JUVENTUDE. Apesar da realidade apontar menor interesse dos jovens na profissão docente, aqueles e aquelas que fazem a escolha pelo magistério hoje estão mais conscientes e mais vocacionados para a missão de educar e mais críticos com relação às mudanças que a sociedade precisa fazer para mudar a educação, a começar pela formação, apoio e valorização profissional dos professores e professoras.

Quanto a nós, professores e professoras, devemos estar atentos para incentivar e estimular os jovens que demonstram interesse na nossa profissão. Devemos encorajá-los, para que no futuro próximo, sejam ainda melhores do que a gente. As gerações futuras tem o dever de ser melhores do que a geração atual.




Segue vídeo com entrevistas com jovens estudantes e as suas motivações para escolher a profissão docente, produzido pelo Canal Futura.



Fotos: Arquivo pessoal

A crise

Economia é parte indissociável
da vida que levamos, como seres humanos.
Proteção à vida pressupõe ações econômicas.


Vivemos uma crise de enormes proporções, que está afetando a saúde, a economia e a vida de cada um de nós.

Ninguém tem a solução definitiva para o que está acontecendo, não há uma fórmula porque nunca passamos por isso antes. Vamos observando, tentando entender, e ajustando a nossa conduta como sociedade à medida que as coisas vão acontecendo.

É preciso responsabilidade, solidariedade e empatia nesse momento de crise. E isso significa muito mais do que ficar em casa para não espalhar o vírus.

Para empresas e empregadores, ser responsável e empático também significa evitar demissões, para não criar mais pânico e insegurança na sociedade. Vale lembrar que, em geral, empresas têm mais acesso a crédito e conseguem aguentar um pouco mais a crise do que uma família.

Para consumidores, agir de forma responsável é comprar apenas o necessário dos itens essenciais, permitindo que outras pessoas também tenham acesso a eles. Ser solidário é pagar suas contas em dia, sem usar como desculpa a crise, lembrando que dos seus pagamentos pode depender o emprego de outras pessoas.

Para cada um de nós, ser responsável é pensar antes de compartilhar notícias nas redes sociais, evitando criar pânico e confusão com informações falsas.  É seguir as regras e tentar não atrapalhar o combate à epidemia.

Para todos nós, empatia e solidariedade também significam tratar com respeito e consideração os profissionais da saúde e da segurança e os gestores públicos que estão trabalhando sob uma pressão imensa, tentando fazer o melhor para proteger a sociedade.

Assim como a propagação do vírus, a crise econômica é inevitável. O que depende da nossa atitude é a rapidez e a gravidade com que isso vai ocorrer. Depende de nós reduzir os danos, proteger os mais frágeis e nos preparar para um recomeço, mais responsável, solidário e empático.

A vida ou a economia?

Entre tantos assuntos e polêmicas levantados nesses tempos de pandemia, um me chamou bastante a atenção. A pretensa dicotomia e até contraposição entre vida e economia. Entendo o contexto em que surgiu esse questionamento, sobre a importância relativa da proteção à vida comparada à proteção à economia, mas me parece que há um entendimento completamente distorcido na raiz dessa discussão.

Economia é parte indissociável da vida que levamos, como seres humanos. Proteção à vida pressupõe ações econômicas.

Acho que a confusão começa no entendimento do que seja economia. Como se economia fosse apenas geração de renda, ou incentivos fiscais, ou crédito para empresas, auxílio emergencial. Não é. Decidir por exemplo quantos respiradores artificiais comprar, de quem, como transportá-los, para quais cidades enviá-los, é economia, e disso depende justamente a vida de muitas pessoas.

Decisões econômicas permeiam toda a gestão de uma epidemia, ou outra catástrofe dessas proporções, e podem significar o sucesso ou fracasso do seu combate.

Gerir recursos escassos em situações de necessidades quase ilimitadas e urgentes, isso é o que a economia faz.

Alocar equipamentos, hospitais, profissionais da saúde, medicamentos e equipamentos de proteção de forma que o maior número de pessoas possa ser beneficiado, isso é economia.

Definir quando a interrupção das atividades produtivas é necessária e de que forma proteger a população da escassez (de alimento, de educação, de trabalho) isso é economia. Definir como devem ser organizadas as prioridades, para obter o melhor resultado para a sociedade, ou o resultado menos trágico, isso é economia.

Lembrando que a finalidade da economia é a vida, a melhor vida possível.




Papa Francisco defende uma economia que coloque a vida em primeiro lugar e que se esforce, ao máximo, para garantir a todos maiores oportunidades.

Ética e ciência: elementos para subsidiar reflexões

Há uma disparada tecnológica terrível. Hoje te matam com o controle remoto, sem sequer colocar a cara, você não tem como reagir. Mataram a poesia. Morreu o espírito, morreu a alma. A ciência contemporânea está condenando o que chamamos de liberdade. Ou melhor: se por liberdade entende-se seguir seu desejo e suas inclinações, a liberdade existe; se por liberdade entende-se poder criar seus desejos e suas inclinações, a liberdade não existe. Este mundo tecnológico e de avanços científicos é pavoroso. Nos deixou sem religião, nos deixou sem alma, nos deixou sem espírito.
Pepe Mujica[2]



De um ponto de vista filosófico, percebo que a pandemia impõe, ao mesmo tempo e sobre todos, um impulso reflexivo que, até agora, era da área de especialistas: precisamos agir com o saber explícito de nosso não-saber. Hoje, todos os cidadãos estão aprendendo como seus governos devem tomar decisões com uma nítida consciência dos limites do saber dos virologistas que os aconselham. A cena em que a ação política se desenrola mergulhada na incerteza raramente foi posta sob uma luz tão forte. Talvez essa experiência incomum, para dizer o mínimo, deixará suas marcas na consciência pública.
Jürgen Habermas[3]



En cuanto a la Ciencia, que iba a dar solución a todos los problemas del cielo y de la tierra, había servido para facilitar la concentración estatal y mientras por un lado la crisis epistemológica atenuaba su arrogancia, por el otro se mostraba al servicio de la destrucción y de la muerte. Y así aprendimos brutalmente una verdade que debíamos haber previsto, dada la esencia amoral del conocimiento científico: que la ciencia no es por sí misma garantía de nada, porque a sus realizaciones les son ajenas las preocupaciones éticas.
Ernesto Sábato, Hombres y Engranajes (1951)




A relação entre ética e ciência retorna com ênfase no contexto da Covid-19. Isto tanto no debate acadêmico quanto nos meios sociais e políticos. No segundo se digladiam o positivismo crasso e o fundamentalismo religioso apegado a crendices. No acadêmico, o cientificismo positivista de um lado, e, de outro, o eticismo precário, in extremis.

As implicações do debate levam, entre outras, à defesa de que a ética fique em quarentena para que a ciência possa agir de modo livre, afinal se a ética só consegue chegar depois, porque meter-se agora, no meio da travessia? Outros entendem que há uma ética, ainda quando dela se abstém de tratar. Há também o debate bioético no sentido estrito que diz respeito aos parâmetros éticos para a investigação e para os atos dos profissionais de saúde no contexto da pandemia. No fundo está a questão de retomar um certo conceito/concepção de ciência e pensar o que significa a tecnologia e sua aplicação aos processos de saúde/doença, parâmetros bioéticos e de direitos humanos. Tentaremos levar adiante alguns aspectos deste debate nos limites do possível. 

O que vai pela cabeça…

A pesquisa “Wellcome Global Monitor 2018”,[4] feita com 140 mil pessoas de 144 países, divulgada pela revista Science, mostrou que 35% dos brasileiros desconfiam da ciência (65% confiam) e que um em cada quatro acredita que a produção científica não contribui para o país. No mundo a maioria confia na ciência: 72% das pessoas acreditam nos cientistas. Quase metade dos brasileiros afirmaram que “a ciência discorda da minha religião” e, desses, 75% disseram que “quando ciência e religião discordam, escolho a religião”. Apenas 13% dos brasileiros entrevistados afirmaram ter “muita confiança” na produção científica. Entre as 144 nações, o Brasil fica em 111º lugar dos que têm “muita confiança” na produção científica. Tomando em conta dados do mundo todo, no caso da saúde a pesquisa revela uma questão forte: 73% das pessoas confiam mais em um médico ou enfermeiro do que qualquer outra fonte de aconselhamento sobre saúde. Ou seja, há pouco espaço para o Dr. Google, apesar de ultimamente ter crescido o Dr. Whatsapp. O estudo mostra também que as pessoas com menor renda familiar têm menos confiança nos hospitais e nos sistemas de saúde.Sobre a confiança nas vacinas: 79% das pessoas concordam que as vacinas são seguras e 84% concordam que são eficazes.

Uma ideia arcaica de ciência

Autoridades de saúde brasileiras em entrevistas ou nos pronunciamentos sobre a Covid-19 tem posições em coincidência com a compreensão média de ciência, aquela que ainda considera meras curiosidades o que está no âmbito da física da relatividade ou da quântica e se apega ao conceito de ciência setecentista. Ou seja, a ideia de que a ciência fornece a explicação das leis de funcionamento da natureza para que se possa, conhecendo-as, produzir mecanismos para subjugá-la. Junto com esta noção está a percepção de que a ciência produz certezas e de que estas certezas, por coincidirem com as leis da natureza, são imutáveis, eternas.

Ora, se a ciência não for capaz de produzir este “consenso”, deixa de fazer sentido e facilmente se substituirá importância por aquilo que pode oferecer algum consolo seguro (alguns tipos de religião). Há uma certa “fetichização” da ciência. Mas, já faz algum tempo que o que menos há na comunidade científica é “consenso” ou mesmo “maioria”. Ainda que “Uma breve história do tempo” (1988),[5] de Stephen Howking, tenha sido lido por milhões de pessoas no mundo todo (vendeu 9 milhões de exemplares em 2002), parece que sua leitura não surtiu efeito. Aliás, ironicamente, em se tratando de Covid-19, a maior certeza “científica” para enfrenta-la é o isolamento ou distanciamento social, a mais antiga prática da humanidade na história da “ciência”, inclusive anterior a toda ciência em sentido estrito, mais uma prática própria do “bom senso”, ainda que hoje em dia se tenha invocado sua natureza científica, talvez porque o que esteja bastante mal distribuído, contrariando a Descartes, seja exatamente o “bom senso”! O consolo vem da ideia de que “logo logo os cientistas descobrirão uma vacina”.

A incerteza…

A expectativa de pensar e conviver com uma concepção de ciência não prepotente parece ficar para traz no afã de “salvar vidas”. O que a quântica mostrou é que não há certeza na ciência e que sua melhor contribuição é sugerir hipóteses explicativas que são razoáveis para dar conta da realidade, mas que nunca são certezas e menos ainda absolutas. Elas são aquelas que melhor sugerem responder aos problemas levantados.

A medicina, aliás, é uma das ciências que mais sabe disso, ainda que nos últimos tempos se tenha visto uma busca desenfreada por “apoios” para diagnóstico e resolutividade, nada desprezíveis, nem por isso absolutos. O prêmio Nobel de química (1977), Ilya Prigogine[6], defende exatamente o “princípio da incerteza” na ciência, de modo que “o elemento novo é colocar a ideia da instabilidade no centro da ciência moderna”. Foi outro Nobel (1932), Werner Heisemberg, em 1927, que enunciou o Princípio da Incerteza ou da Indeterminação, segundo o qual é impossível medir simultaneamente e com precisão absoluta a posição e a velocidade de uma partícula[7]. Num momento de pandemia parece ser muito difícil aceitar esta possibilidade de ciência.

A ciência a serviço da morte

A história está farta de exemplos de uso da ciência e da tecnologia para a morte. O que produzido no contexto do totalitarismo nazista, quando milhões foram mortos com a mais sofisticada aplicação da ciência e da tecnologia (Ziklon B é fruto da pesquisa apurada para matar com o menor custo econômico e de sofrimento), é bom exemplo. Há exemplos também nas supostas sociedades comunistas. Ali também milhares foram submetidos a pesquisas cientificas que nunca foram contestadas, muito pelo contrário, têm sido usadas largamente como base para o “avanço científico” que se lhe seguiu. Mas isso não é obra somente dos estados totalitários: vide o que se tem feito na África em pesquisas para combater HIV/Aids e tantas outras doenças por democracias nos últimos anos. Há uma necrociência que é tão poderosa e que não se dissocia da biociência… aliás ambas se beneficiam mutuamente. Objetivamente: o positivismo mata!

Progresso

A ciência moderna nasceu, cresceu e se espalhou casada com a noção de progresso.[8] Ambas juntas deram guarida ao desenvolvimento do capitalismo e também do socialismo real. Está muito bem casada com o comunismo chinês atual, inclusive. A ideia básica é que o domínio da natureza pela ciência e a sua aplicação pela técnica permitem que se afastem os mitos[9] e se possa progredir para dias melhores. O fato é que o que temos visto é uma destruição dos recursos naturais e a exclusão da maior parte da humanidade dos benefícios do “progresso”. Na prática, o progresso tem significado muito de regressão, como aliás denunciam filósofos da Escola de Frankfurt, particularmente W. Benjamin (“Sobre o conceito de história”, 1940)[10] ainda antes da guerra, mas também Adorno e Horkheimer depois dela (“Dialética do Esclarecimento”, 1947)[11]: o ângelus novus que o diga…

Protocolos discutíveis

A ideia de que frameworks seriam suficientes para dar conta da objetividade e, dessa forma, da impossibilidade dos aspectos ideológicos e éticos entrarem no laboratório da pesquisa cientifica, tem se mostrado insuficiente. Os melhores protocolos são sempre procedimentais e dificilmente se propõe a discutir a questão de fundo. Cometem um erro lógico básico: dão por pressuposto o que efetivamente precisa ser demonstrado. Ou seja, não se ocupam das condições e dos condicionantes vitais que constituem objetivamente (não subjetivamente) a pesquisa e os procedimentos científicos.

Não basta garantir a boa informação, que esta informação seja transparente, que haja consentimento livre e desimpedido, para que seres humanos participem em escala das pesquisas científicas. É preciso muito mais, sobretudo é preciso discutir, por exemplo, em que medida financiadores poderosos não são determinantes do direcionamento, inclusive dos protocolos, na execução da ciência, ou, em que medida a possibilidade de uma “patente” ou sua existência não se constituem em meta para o empenho de investigação (e todo o esforço colaborativo resulte no final no registro por quem mais facilmente pode fazê-lo – e se sabe que isso é sempre “mais fácil” para um europeu ou um norteamericano do que para um/a brasileiro/a). Os protocolos bioéticos emitidos pela OMS/OPAS para a pandemia da Covid-19 são o mínimo do que se pode esperar (e inclusive flexibilizam, sem ser tão expressos, uma série de medidas éticas para supostamente “viabilizar” e “facilitar” a pesquisa).[12]

Distanciamento social e cientifico

Tem-se construído uma tese “científica”, portanto não passível de questionamentos reflexivos, dado que a “ciência descreve as leis da natureza”, de que o isolamento social ou distanciamento social é científico, como já indicamos acima. Qualquer outra forma de tratar o modo de lidar com os seres humanos em termos biopolíticos neste momento seria anti-científico. Isso não pode ser uma verdade absoluta, nem mesmo uma lei da natureza. Até porque esta proposta vem carregada de muitas perspectivas necrocientificas e necropoliticas[13] como as que se expressam nos mecanismos de controle populacional pelos smartfones e que agora usados e “testados em escala” certamente serão herdados como mecanismos para o futuro.

As tecnologias da informação e comunicação são outros aspectos a considerar. Será que vão dispensar professores e escolas em nome da EAD como a mais maravilhosa das soluções…. Homeschoolling talvez não seja uma boa, pais e mães estão fartos de ter que ensinar filhos a fazer tarefas encaminhadas pelas escolas…. Enfim, o problema ético é saber “quando entrar nele” e “quando e em que condições sair dele”[14], afinal esta decisão implica um volume maior ou menor de afetados ou de mortos em consequência. Um é o aspecto biopolítico ali implicado, mas outro é o aspecto subjetivo, pessoal, de responsabilidade pessoal.

Princípio da precaução

A precaução tem sido invocada como elemento para pensar e agir. Afirmada com ênfase a partir das lutas ambientalistas, a precaução se constitui em orientação para a responsabilidade como elemento chave para dirigir a prática ética e científica[15]. No contexto da pandemia, parece estar em suspenso, ainda que seja desejada por quem pensa que qualquer possibilidade de futuro dependeria em muito do modo como se trataria o tema no seu desenvolvimento presente. Por outro lado, as urgências podem ser exatamente portadoras de perspectivas pouco animadoras no sentido de sua efetivação.

Por uma nova ciência, não neutra

A neutralidade da ciência reduziu as finalidades humanas e suas necessidades vitais a interesses compatíveis em processos parciais de modo a permitir que a distinção entre a orientação a valores e a orientação a fatos fosse formalmente estabelecida como parâmetro de toda ciência. Assim quis Max Weber[16], dando efetividade aos desejos modernos mais profundos. Dessa forma, produziu um modo de ciência bem funcional ao capitalismo. Ou seja, a ciência definitivamente não pode se ocupar de questões amplas (das totalidades: não há necessidades comuns, o que há são interesses gerais ou interesses comuns, preferências) por serem impossíveis de serem submetidas à dinâmica instrumental da razão meio-fim. Não seria factível submeter à investigação científica as necessidades humanas, melhor lidar com os interesses e preferências (como já sugeria Adam Smith em “A riqueza das nações”). As necessidades são por demais subjetivas para serem escrutinadas pela ciência. A teoria da ação racional só pode lidar com fins específicos, as necessidades são gerais e comuns, nunca específicas.

Para ser objetiva, a racionalidade precisa poder fazer o cálculo de eficiência e, para isso, precisa lidar com fins específicos para os quais calcula meios também específicos. Ao fazer isso, institui a eficiência e a competição como valores absolutos que se sobrepõem a todos os demais valores que dialogam com a vida e suas necessidades. Note-se que a vida e suas necessidades não é um fim para a qual se podem calcular meios eficazes. Ela é condição de todo fim, e a possibilidade de ter fins específicos. E isto é tão objetivo quanto qualquer fim especifico. Daí que reduzir a racionalidade científica ao que pode ser submetido ao cálculo meio-fim como sendo objetivo é incorrer na “falácia abstrativa” e desconsiderar que a condição de todo fim é tão objetiva quanto qualquer fim especifico. Mas isto remete para ter que superar a distinção entre uma racionalidade voltada a valores e outra voltada a fatos. Toda a racionalidade lida com fatos e valores, ainda que não os explicite e, por vezes, os eleja como absolutos sem que assim o admita (é o que faz a racionalidade meio-fim ao eleger a eficiência e a competição como valores absolutos, por exemplo, ainda que não o admita).

Há uma racionalidade fundamental que se ocupa deste “sujeito necessitado” e não do ator que ele pode representar numa das finalidades específicas. Em suma, somente uma ciência sem sujeito e somente ocupada por um ator (com papeis e personagens pontuais) será possível pensar na objetividade ao modo de neutralidade que tem sido tão cara ao positivismo mortífero e necrófilo. Ele assim se caracteriza pois, como ilustra Hinkelammert[17] com o exemplo dos competidores sentados sobre o galho que estão cortando, a competição resultará em morte, que não é suicídio (em sentido estrito), mas consequência não intencional (da competição). A necrociência daí resultante se combina e é um bom apoio para a necropolítica e a necroética que vão defender que a morte é parte da vida e que, por isso, “muitos morrerão” com a pandemia e não há muito o que fazer, aliás, entre morrer de peste e morrer de fome não há muita diferença, vai-se morrer, muitos morrerão, então que morram trabalhando e com isso seguirão “colaborando” competitivamente com a acumulação capitalista. O que não pode ser questionado, por ser sempre eivado de ideologia são as totalidades mortíferas. Fiquemos com os fins específicos e os meios que os viabilizam!

Por uma racionalidade ética

A questão de fundo que se coloca é a possibilidade de uma racionalidade ética na qual caibam as mais diversas e todas as formas de conhecimento, de ciência, de vida. Esta racionalidade ética haverá que emergir da necessidade de superação da racionalidade vitimária que é exatamente esta racionalidade que admite a morte como parte “naturalizada” do processo (ainda que não seja “natural”) e que trabalha com o “cálculo do suportável”.[18] Não há suportável possível quando se trata da vida, do sujeito necessitado (que é o humano, mas um humano natural, um humano-natureza).

Submeter a ética ao cálculo meio-fim é exatamente eliminá-la do contexto da ciência e autorizar a “ciência dos fatos” a seguir acreditando que está trabalhando sem valores, quando, na verdade, está orientada por valores absolutos como a eficiência e a competição, além de outros. Problematizar estas questões é abrir-se para possibilidades outras de ciência com ética. Enfim, a possibilidade de uma racionalidade ética se coloca como questão fundamental também neste momento, não como um “post factum” ou “post festum”, mas como processo presente e constitutivo da travessia em curso.

O momento exige a mobilização das diversas racionalidades e das diversas sensibilidades humanas, sobretudo aquelas críticas e reflexivas. Sem elas dificilmente faremos a travessia, ainda que considerando a grande incerteza que a caracteriza. Não é momento para privilegiar uma ou outra expressão da criatividade humana. Abrir mão da crítica reflexiva poderia comprometer a humanidade senão mais, ao menos tanto quanto qualquer pandemia física.



[1] Documento base para a intervenção em “Diálogos Direitos Humanos em Travessia” promovidos pela CDHPF e realizado no dia 11/04/2020, às 9 hs, pelo Hangouts Google. Completado com elementos de referências em 12/04/2020. Versão audiovisual em https://youtu.be/tdE8h5YT_gI 
[2] Entrevista ao Canal Filo News. Disponível em https://youtu.be/o3dtGp4t66w. Traduzido por “Socialista Morena” e publicado em 06/04/2020. Disponível em www.socialistamorena.com.br/as-previsoes-de-mujica-sobre-a-pandemia-nao-sei-se-chegamos-aos-limites-do-homem/.
[3] Entrevista de Jürgen Habermas a Nicolas Truong. Le Monde, 11/04/2020. Trad. Frédéric Joly. No Brasil publicada por Fios do tempo, em 12/04/2020. Disponível em https://ateliedehumanidades.com/ 2020/04/12/fios-do-tempo-precisamos-agir-com-o-saber-explicito-de-nosso-nao-saber-entrevista-com-jurgen-habermas/
[4] Matéria de O Globo “Um terço dos brasileiros desconfia da ciência” publicada em 21/08/2019. Disponível em https://oglobo.globo.com/sociedade/um-terco-dos-brasileiros-desconfia-da-ciencia-23754327.
[5] HAWKING, Stephen W. Uma breve história do tempo. Do big bang aos buracos negros. Trad. Maria H. Torres. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
[6] PRIGOGINE, Ilya O Fim das Certezas. Tempo, Caos e Leis da Natureza. São Paulo: UNESP, 1996.
[7] Trata-se do artigo “Sobre o conteúdo descritivo da cinemática e da mecânica teórica quântica” (1927). Para uma exposição do princípio ver “The uncertainty principle” (In: Standford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/qt-uncertainty/). Em português, entre outras ver HEISENBERG, W.A. Imagem da Natureza na Física Moderna. Lisboa: Editora do Brasil,1980.
[8] Publicamos em nossa conta no Facebook com o título “Momento para parar: breves reflexões (anti)progresso”. Disponível em www.facebook.com/paulocesar.carbonari/posts/3246059255404898, em 09/04/2020.
[9] Francis Bacon foi enfático nesta percepção ao mapear os “idola” (da tribo, da caverna, do foro e do teatro), em “Novum Organum” (Trad. J. A. Reis de Andrade. São PauloAbril Cultural, 1973. Os Pensadores).
[10] BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito de História. In. LÖWY, Michael. Aviso de Incêndio: uma leitura das teses “Sobre o Conceito de História”. Trad. W.N.C Brandt [Trad. das Teses por Jeanne M. Gagnebin e M. L Müller]. São Paulo: Boitempo, 2005.
[11] ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento. Fragmentos filosóficos. Trad. Guido Antônio de Almeida. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1991.
[12] Nos referimos ao documento da OMS e OPAS. “Orientación ética sobre cuestiones planteadas por la pandemia del nuevo coronavirus (COVID-19)”, disponível em www.paho.org/es/documentos/orientacion-etica-sobre-cuestiones-planteadas-por-pandemia-nuevo-coronavirus-covid-19.
[13] Como, aliás foi questionado por Achile Mbembe, em entrevista à Gaúcha ZH do Rio Grande do Sul publicada com o título “Pandemia democratizou o poder de matar”, em 31 de março de 2020. Disponível em https://gauchazh.clicrbs.com.br/politica/noticia/ 2020/03/pandemia-democratizou-poder-de-matar-diz-autor-da-teoria-da-necropolitica-ck8fpqew2000e01ob8utoadx0.html
[14] Jürgen Habermas, em entrevista a Nicolas Truong do Le Monde diz que “Com a decisão relativa ao momento apropriado para pôr fim ao confinamento, a proteção da vida, que se impõe não apenas no plano moral, mas também no plano jurídico, podemos nos deparar com, digamos, as lógicas utilitaristas de cálculo. Quando é necessário arbitrar entre, de um lado, os danos econômicos ou sociais e, de outro lado, as mortes evitáveis, os homens e as mulheres políticos devem resistir à “tentação utilitária”: devemos estar prontos para arriscar uma “saturação” do sistema de saúde e, portanto, maiores taxas de mortalidade, a fim de impulsionar a economia e, assim, mitigar o desastre social de uma crise econômica? Os direitos fundamentais proíbem que as instituições estatais tomem qualquer decisão que se acomode com a morte de pessoas físicas”. Ver “Precisamos agir com o saber explícito de nosso não-saber”. Entrevista com Jürgen Habermas. Le Monde, 11/04/2020já referida.
[15] Discutimos este tema em nossa tese de doutorado à luz das contribuições de Enrique Dussel em Ética da Libertação na idade da globalização e da exclusão (1998) (tradução Vozes, 2000). Para acesso à tese “A potencialidade da vítima para ser sujeito ético: construção de uma proposta de ética a partir da condição da vítima” ver www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/4517. Um interessante estudo poderia ser feito no que diz respeito à “heurística do medo” e com este princípio se apresenta no pensamento de Hans Jonas.
[16] Ver WEBER, Max. Economia e Sociedade. Fundamentos da Sociologia Compreensiva. Trad. Regis Barbosa e Karen E. Barbosa. Brasília: UnB, 1991. Vol. I. Ver também WEBER, Max. O sentido da “neutralidade axiológica” nas ciências sociais e econômicas. In: Metodologia das Ciências Sociais 2. Trad. Augustin Wernet. Campinas: Unicamp; São Paulo: Cortez, 1995.
[17] Em todo este item seguimos muito de perto a exposição de Franz Hinkelammert em El sujeto y la ley. El retorno del sujeto reprimido (Heredia: Euna, 2003).
[18] Trabalhamos as características da racionalidade vitimaria e da racionalidade ética em nossa tese já referida.

O reinado de Cronos: um tempo para construir sentido

De fato, a passagem dos anos corrói a existência,
cada amanhecer é um dia a menos,
cada palavra mal dita, escolha mal feita corrobora
com a insuficiência do tempo.


Cronos, filho de Urano e Gaia, é a principal divindade da primeira geração de titãs, reconhecido como o deus do tempo. De acordo com o mito, Cronos roubou o poder de seu pai, casou-se com a irmã Réia e governou por longos anos.

Atento a profecia, segundo a qual seria tirado do poder por um de seus filhos, Cronos matava e devorava todos os herdeiros assim que nascessem. Discordando desse filicídio Reia enganou Cronos, conseguiu salvar Zeus e escondê-lo na ilha de Creta.  De temperamento forte, pouco dado ao amor, esse titã nos ajuda pensar o tempo e a vida, seria ele um mostro “filicida” que dia após dia nos devora? Como sua experiência, neste tempo de quarentena, tem te ajudado a descobri, corrigir, ressignificar o sentido da vida no tempo que tens?

Desde que fui tomado pela consciência do tempo, vivo com ele uma relação de ambiguidade, momentos de louvor misturam-se a instantes de pavor. Louvo pela vida que passa, pelo aprendizado construído, pelos projetos em construção, pelas amizades em cultivo e pelas alegrias nascidas e nascentes dentro do solo arado no peito da gente.

Contudo, tenho pavor diante de projetos não realizados; de discursos inumanos; de textos que ainda não foram lidos; de pessoas que a muito não abraço. Olho para meus sobrinhos e vejo como estão crescidos; contemplo meus pais vivendo na “terceira idade”, seus passos e raciocínios ganhando lentidão, emoções ficam à flor da pele. De fato, a passagem dos anos corrói a existência, cada amanhecer é um dia a menos, cada palavra mal dita, escolha mal feita corrobora com a insuficiência do tempo. O tempo nos leva da vida!  Cronos continua reinando, como fugir dele?

Olhando para o vivido aprendo que o passado fala sobre a importância do agora. Concordo com Agostinho de Hipona, só existe o presente, visto que o futuro é plano e o passado memória. Ciente disso, que sentido estamos ofertando a nossa vida? Em que projetos se fundam as nossas escolhas? O que faremos ao final desta pandemia com e nos abismos sociais profusamente expostos e vividos? As imagens de corpos “conservados” em caminhões frigoríferos, de valas comuns e sepultamentos coletivos deixarão de compor nossos mosaicos de memórias ou se apagarão com o tempo!?

Esse olhar e essas perguntas lembram da busca por sentido, latente no ser humano, somos os únicos que têm consciência e habilidade para significar a vida. Penso que buscar incessantemente a compreensão da existência, em uma emaranhada teia de relações é uma atitude lógica e revolucionária, pois, um significativo número de humanos prefere a superficialidade e o dogmatismo; infelizmente a ignorância tem ganhando palcos, púlpitos e discípulos que insistem em prestar culto à “burrice” institucionalizada e legalizada, contribuindo com o reinado de Cronos, com o devorador de sentidos. É revolucionário optar e defender a humanidade, neste tempo de paixões ideologizadas, de políticas privativas, opressivas e negligentes.

Ambígua é a compreensão que tenho sobre o tempo, ou melhor, a aceitação do mistério que o envolve.  No entanto, se no contexto atual Cronos nos devora, há situações em que Kairós (o tempo da Graça) nos envolve, nos devolve a instantes plenos, repletos de paz, carregados de benevolência, o tempo em que a fé na vida é realimentada, que a esperança é cultivada e semeada na forma de atitudes, de encontros mesmo que online.  Aproveite deste tempo de quarentena, faça dele presente dentro do seu coração, para viver a intensidade merecida pela vida.

Aproveitemos destes dias para pensar e alimentar a dimensão transcendente da existência, se este período servir para nos fazer mais humanos, empáticos e solidários, se despertar em nós a consciência de classe e um novo modo de entender justiça então, Cronos não terá a vitória final. Onde existe preocupação com o humano, crítica permanente e eficaz não nascem e nem sobrevivem titãs. O tempo feito Kairós, é o presente significado, o agora com sentido. Mesmo que esse sentido seja a necessidade urgente de renovação das estruturas injustas que aplaudem e alimentam Cronos.



Sugestões de uma prática pedagógica

Esta atividade pode ser trabalhada no Ensino Médio. Outros objetos de conhecimento como Sentido da vida (existencialismo) – neste caso o Filme o “Preço do amanhã” é bem adequado para gerar reflexão, pensar no sentido da existência, nas desigualdades e injustiças sociais.

No oitavo ano, Ensino Fundamental, Unidade temática “Ética”, Objetos do Conhecimento: “Refletindo sobre temas éticos e morais”, Habilidade: “Refletindo sobre o homem moderno, seu individualismo e consequências para si e para gerações futuras”.

Atividade prévia.

Contar novamente a história de Cronos, agora com mais detalhes.

Onde for possível pode-se usar vídeos do Yotube com a história de Cronos:

Questões que fazem pensar:

1) O que você entende por tempo?

2) Os tempos são todos iguais? (Quando você está feliz não tem a sensação de que passou mais rápido? A passagem do tempo depende também do que estamos sentindo no momento?

3) O tempo é esse titã que nos devora. O que você pensa sobre essa afirmação?

Leia o trecho que segue:

“Mas o que agora parece claro e manifesto é que nem o futuro, nem o passado existem, e nem se pode dizer com propriedade, que há três tempos: o passado, o presente e o futuro. Talvez fosse mais certo dizer-se: há três tempos: o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro, porque essas três espécies de tempos existem em nosso espírito e não as vejo em outra parte. O presente do passado é a memória; o presente do presente é a intuição direta; o presente do futuro é a esperança”. (AGOSTINHO, Santo. As confissões. Trad. Frederico Ozanam Pessoa de Barros. São Paulo: Edameris, 1964, XI, 20,1).

1) Localize no texto elementos da linguagem mítica?

2). Como tem se dado conta do tempo presente? O que tem feito com seu tempo?

3) Localize no texto concepções positivas e negativas de tempo? De acordo com o autor é possível superar a ambiguidade do tempo?

4) Desenhe uma linha do tempo com fatos marcantes de sua história e com planos que você tem para o futuro.

Avaliação.

Elabore um parágrafo sobre a aula de hoje, mencione que atitudes essa reflexão te motiva a tomar?

Sobre meninos e sobre Lobas

Atrás das telas de celulares é fácil de
nos julgarmos sem o olho no olho,
mas quando a quarentena da loba
acabar e o corpo a corpo voltar,
como serão as atitudes dos guris?


Nesta última segunda, decidimos que seria a última vez que seríamos as segundas. A partir de agora, seremos primeiras, pioneiras, o que quisermos e pudermos ser.

Na semana em que comemoramos o dia da Educação no Brasil e o dia Nacional da Mulher, lembramos, refletimos e discutimos sobre o ser humano Mulher. Que pode ser visto e descrito sobre vários aspectos: físico, psíquico, social, emocional, religioso…

Pelo viés religioso (cristão), feita da costela, do lado para ser igual, nem inferior nem superior, depois dando seu SIM, mais tarde como bruxas, nas fogueiras, até chegar as sufragistas, relatos das tão temidas aulas de história na atualidade.

Como podem perceber, a sociedade muda de acordo com as voltas que a terra, que não é plana, dá, e com o acesso à educação e a informação. Que muitas vezes não chega, não basta, pois nós mulheres temos maior escolaridade e menor reconhecimento.

Vivemos em um mundo heterogêneo em sua composição, mas que deve ser homogêneo na representatividade de ideias, divergindo no mesmo campo e proporcionando mais que igualdade: a justiça social.

Somos Anas, Bárbaras, Marias, Rosas, muitas vezes vistas apenas como números nas estatísticas, cálculos, dados, medidas. Somos 51% da população.

Esta nova geração de mulheres precisa ser levada a sério, porque vamos nos multiplicar, apoiar, fortalecer, não vamos nos calar.

Podemos continuar criando nossos filhos, cozinhando, trabalhando fora e até passando pano, mas não para o machismo ou a desigualdade de gêneros ou desigualdades sociais. Mulheres dedicam mais tempo aos afazeres domésticos e tem apenas cerca de 10% de representatividade política e 37% de cargos gerenciais e ainda assim, com todo o possível fardo, vivem mais do que os homens.



Música que fala de meninos, com respeito às mulheres.



Meninos podem vestir azul, rosa, verde, a cor que quiser, mas podem e devem também vestir a camisa da defesa e proteção das mulheres, conforme a ONU recomenda através de campanhas como “Eles por elas”, para diminuir as desigualdades. Dados apontam que no Brasil, uma em cada quatro mulheres sofre algum tipo de violência e que aqui em nosso país não há lugar totalmente seguro, às mulheres negras e pobres então…

As primeiras a serem julgadas e condenadas à fogueira ou ao fogo: as mulheres, mas como quem tem poder (a caneta na mão) não é mulher, não se importam. Depois vem os negros, os indígenas, jovens e idosos e todas as outras pautas e causas, mas como ninguém se importa, como ninguém toma parte…

E ainda assim, mais de 5 milhões e meio de filhos não tem o registro paterno.

Podemos nós mesmas nos descrever ou escrever sobre nós, como quisermos, mas enquanto a mentalidade não mudar, talvez isso pouco importe, pois cada um poderá nos enxergar como quiser: a defensora, a novata, a estressada, a sabida, uma deusa, uma louca, uma feiticeira…

Atrás das telas de celulares é fácil de nos julgarmos sem o olho no olho, mas quando a quarentena da loba acabar e o corpo a corpo voltar, como serão as atitudes dos guris? Seremos mais positivas e menos apontadas como setas. Porque garotos perto de uma Mulher, são só garotos!



“Brincar é coisa séria! As brincadeiras consistem numa representação e experimentação da vida adulta e no momento que limitamos a criança a determinados brinquedos fazendo diferenciação de acordo com seu gênero, nas entrelinhas estamos limitando suas perspectivas de futuro em carreiras pré-estabelecidas e minando talentos que fogem do padrão “de menino” e “de menina”. (Ingra Costa e Silva)

Autora: Ana Paula de Oliveira Spannenberg





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Sugestões para uma prática pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do oitavo ano, disciplina Filosofia, Unidade temática Ética, Objeto de Conhecimento Refletindo sobre “Temas éticos e morais”, Habilidade: Refletir filosoficamente algumas situações morais e éticas presentes nas relações do homem em sociedade, para melhor pensar e criar saídas para os problemas cotidianos”.

Esta atividade também pode ser aplicada a estudantes do Ensino Médio.

Questões que fazem pensar: (elaboradas pelo professor Nei Alberto Pies)

  • O que a autora deste texto quer destacar sobre a mulher na sociedade?
  • O que é mesmo a Campanha da ONU “Eles por elas”? (pesquisar vídeos e matérias e trazer resumo para próxima aula)
  • Violência contra a mulher: a) Por que as mulheres ainda sofrem tanto com a violência doméstica? b) Você conhece os dados da violência contra a mulher no Brasil, no RS e na sua cidade? (pesquisar na internet)

Veja também