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As estações se repetem na linguagem

Achei uma metáfora capaz de
definir o cotidiano escolar.
As alegrias se repetem.
Repetem-se sem que as esperássemos,
porque isso é da nossa essência.


Como as estações se repetem! Como é bom sentir o frio do inverno depois de ter vivenciado o calor do verão?! Que sensação brilhante, perfumada e alegre, ao nos darmos conta que a primavera chegou, depois de ter presenciado a caída das folhas no outono e o frio congelante do inverno.

As estações se repetem, é verdade! A primavera é vivenciada muitas vezes em uma única vida. Essa sensação nos renova. Por que estou falando tudo isso?  É lógico que achei uma metáfora capaz de definir o cotidiano escolar. As alegrias se repetem. Repetem-se sem que as esperássemos, porque isso é da nossa essência. A alma se alimenta e o coração se enche da mesma forma quando vimos um ipê florido encantar os olhos.

Estava trabalhando sobre linguagem escrita, quando novamente, fui surpreendido, por sinal numa turma bem bacana, a mesma onde, em outra semana, um aluno me questionou e me deixou boquiaberto pelo questionamento que me fez sobre a escrita e a mudança da postura nessa linguagem.

Por que existe aula de língua portuguesa na escola? Esteja certo que não é para ensinar a língua, pois o aluno já sabe. Ela deve servir para refletir o seu uso. Leia mais aqui.

Por isso, as estações se repetem. E que bom que elas nos tiram da mesmice do calor, para o frio, da planta sem cor para o colorido que nos encanta. A alegria em trabalhar com a linguagem se repete.

É como quando estamos num país diferente e já aproveitamos o máximo e vem a vontade de regressar. Quando o avião aterrissa em solo brasileiro e o ouvimos novamente o som da língua materna. Isso toca as profundezas da alma, os olhos se enchem de emoção. E que bom que possamos voltar. E que bom que a primavera retorna. E que bom que a alegria em ensinar nos enche de orgulho.

Pois bem, era 16h20min, sendo que a aula terminaria às 16h35min, a alegria paira nesta aula sobre a pergunta de um aluno chamado Gabriel: – Professor, quando uma palavra, origina de outra língua (inglês, por exemplo) ela é adaptada e conjugada com as regras da língua portuguesa, como por exemplo, a palavra “bugada”, do inglês BUG, que significa erro, defeito, incomodar, irritar alguém? Isso seria apenas uma gíria ou o quê?

Eu logo falei a ele e para a turma que é comum na história a evolução das línguas, quando uma palavra vem de outra língua e ela é agregada na língua portuguesa ela passa a operar segundo as regras da língua que a recebe. Exemplo: a palavra “delete” do inglês, recebe as desinências verbais e nominais da língua portuguesa, recebe desinências de tempo, pessoa e número da nossa língua: deletAR, deletAVA, deletADO…

Percebi que os alunos, quando incentivados a refletir sobre a sua língua, respondem ao estímulo dado. Por isso, ainda bem, temos primaveras mesmo em meio a tempos de inverno rigoroso. Por isso, também, sou um entusiasta do estudo e da compreensão da nossa língua portuguesa.

Em outra reflexão escrevemos: “neste processo de reinvenção começamos a mandar atividades “às escuras” para nossos alunos. Ficamos desolados porque não recebíamos o eco esperado, pairava o silêncio. Estou falando da minha experiência de educador há mais de 26 anos e que sou apaixonado por educar. Não ouvir o som de retorno, nos deixa muito desolados, inquietos, desesperados e tristes”. Leia mais aqui.

Não era pra ser assim!

– Não era pra ser assim!

Minha resposta para quando me perguntam como estou nesse isolamento…

Eu queria estar escrevendo no quadro e fazendo piadas sobre o conteúdo para meus alunos. Não arrumando meu celular em uma instalação mal ajeitada para gravar um vídeo.

Eu queria ouvir o sinal e correr para sala com copo de café pela metade. Não esperar a hora da videoconferência olhando para a tela fria do computador.

Eu queria poder brigar por silêncio e dizer “chega de conversa aí no fundão”. Não colocar mudo nos microfones dos alunos antes de falar.

Eu queria poder ouvir um desabafo na sala dos professores, porque as turmas estão agitadas. Não uma ligação de um colega professor com crise de ansiedade porque não está dando conta dessa loucura que virou nossa vida de “YouTubers” improvisados.

Eu queria ouvir meu aluno inventando desculpas esfarrapadas sobre o tema não feito, como “o cachorro comeu”. Não dizendo dificuldades reais, como sua internet limitada, aparelho antigo e ter somente um computador em casa (usado por todos da família).

Eu queria alunos faltando aula porque o despertador não tocou ou porque tinham uma viagem legal com a família. Não alunos que não assistem às aulas virtuais porque seus pais estão com medo e a família está isolada em uma casa no interior.

Eu queria ouvir “explica de novo, prô João, porque eu não entendi”. Não ter que responder cargas e cargas de e-mails dos alunos e pais pedindo explicações das atividades.

Eu queria poder chegar à mesa daquele aluno tímido que estava com uma cara triste e dizer “você precisa de ajuda, estou aqui”. Não queria passar essa carga aos pais desse aluno que muitas vezes não sabem como ajudar.

Eu não queria famílias preocupadas.

Eu não queria colegas professores sobrecarregados e desgastados.

Eu não queria ter essa incerteza se meu aluno está ou não aprendendo.

Eu só queria poder ser recebido com um abraço na porta da sala de aula

Porque lá é nosso lugar.

Vou dar o meu melhor nessas atividades à distância! Meus alunos merecem! Mas meu semblante nas videoaulas não terá a mesma alegria de quando estou na escola. Nosso rosto mostra onde queremos estar!

Não era pra ser assim e estamos sofrendo. E não foi uma escolha, foi nossa única opção.

Alunos, famílias e corajosos amigos professores, ISSO VAI PASSAR.

Estamos fazendo nosso melhor. E vamos sair dessa, juntos e mais fortes. Porque educação de qualidade sempre será nossa bandeira.

Fique em casa, mas valorize o professor e a escola.

Valorize a educação!

Desabafo de um professor.





João Ricardo Santos
(Tem mestrado e graduação em Letras, pela Universidade de Passo Fundo – UPF/RS. Além de especialização em Ciências da Linguagem e Ensino de Línguas Clássicas, pela Universidade do Porto, em Portugal. Atualmente, é professor e assessor pedagógico na rede privada de Passo Fundo. Faz parte do grupo de pesquisa “Inovações Metodológicas na Educação Básica” no PPGL – UPF. Também atende toda a região sul do Brasil, pela SM Educação, assessorando, por meio de palestras, oficinas e cursos de formação de professores, as escolas conveniadas dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná).

Para quê escrever?

Escrever é, assim, algo meio sem lógica.
Mas, escrever é um exercício de dar lógica às ideias,
em qualquer estilo de escrita que seja.


Eis que, num repente, fui assaltado pela necessidade de escrever. E de escrever sobre as razões, o ato e o significado da escrita.

Lembro muito bem do tempo em que escrever era tido como uma atividade para iluminados. A primeira vez que me aproximei de um escritor de livro fiz reverência como se fosse um supra-humano. Na minha cabeça, uma pessoa que escrevia e publicava livros merecia um respeito adicional porque carregava em si um dom incomum. Uma habilidade reservada a poucos, ou seja, a quem fosse capaz de se transcender pelas ideias bem formuladas.

Agora as coisas já não são bem assim. Os tempos são outros.

Todos escrevem (ou quase todos), sobre muitos temas e muitos o fazem de qualquer jeito. Não que isso não seja um direito, talvez até uma necessidade. Afinal de contas, todos têm o que dizer, mesmo que seja só repetir o que os outros falam, apenas pela necessidade de mostrar que existem. Porém, há escritas que ferem de morte as regras básicas da língua. E mais do que isso: atentam contra o bom senso, o respeito ao diferente e ao divergente.

Defendo que todos escrevam como conseguem, mesmo porque, infelizmente, a grande maioria neste país não escreve melhor em função de que o direito à educação mais ampla e de qualidade ainda segue restrito. Defendo também que todos têm o direito de expressão, contanto que aquilo que dizem ou escrevem não agrida a identidade e a dignidade de outrem.

Lembremos que “verba volant, scripta manent” (as palavras voam, os escritos permanecem). Embora hoje se possa “deletar” com facilidade o que se escreve, não esqueçamos que, antes de apagar, outros já podem ter feito “print”.

Uma vez lançadas, as palavras vão produzir seu efeito, mesmo que se procure “recolhê-las” ou desdizê-las.  Isso sem falar daquilo que é dito ou escrito sem ser verdade, sendo meia-verdade (que é sempre meia-mentira) ou omissão total da verdade, apenas por conveniência. E, como se diz comumente, uma mentira dita ou escrita muitas vezes passa a parecer uma verdade, mas nunca a será verdadeiramente.

Voltemos à escrita.

Essa é uma arte. Ser escritor ou escritora é ser artista. É diferente de ser escrevente, plagiante, copiante e colante. Escrever é um exercício que exige paciência, ambiente e concentração. Também requer muito trabalho e alguma inspiração.

Há certos textos que precisam ser escritos por alguma determinação externa ou mesmo interna, muitas vezes nascem como que em parto revestido de muita dor. Outros, exigem de quem escreve que largue o que está fazendo e corra para dar-lhes vazão porque, do contrário, nascem “dentro da ambulância”. Aí é mais prazeroso do que doloroso.

Escrever é, assim, algo meio sem lógica. Mas, escrever é um exercício de dar lógica às ideias, em qualquer estilo de escrita que seja.

Dizem que Deus escreve reto por linhas tortas. E muitos há que entendem isso lendo as Escrituras Sagradas, mesmo que essas palavras não estejam literalmente em qualquer de suas páginas. Daí que, se escrever é uma arte nobre (quase divina) no rol das linguagens, interpretar o que está escrito é irmã gêmea desta arte primeira.

Escrever não é só pôr no papel e nas telas em sentido amplo, mas também inscrever na alma e na mente, no coração e na razão de quem escreve e de quem lê e interpreta. Portanto, trata-se de um ato que pode ser criador ou destruidor.

Escrever, ler e interpretar são ações ambivalentes. Daí a responsabilidade de quem escreve ou fala, pois, como ensina o velho provérbio: “palavras ditas não voltam”.

Escrever quase sempre implica um ato posterior, ou até simultâneo, consubstanciado no ato de publicar, mesmo que seja para uma única pessoa ler. Dificilmente escrevemos para nós próprios e guardamos a “sete chaves”. Na publicação está a razão e o prazer de escrever. Escreve-se para publicar. E mais, para que alguém leia. Se gostarem e elogiarem, é ainda melhor.

Que triste quando ninguém lê ou, mesmo lendo, não “curte”. Mas a curtição depende do sentido ou não do que se escreve para quem lê. Vale aqui lembrar o que outrora escreveu Bertolt Brecht: “Um homem que tenha algo a dizer e não encontre ouvintes está em má situação. Mas, estão em pior situação ainda os ouvintes que não encontrem quem tenha algo a dizer-lhes”.

“A gente escreve a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os demais, para denunciar o que dói e compartilhar o que dá alegria. A gente escreve contra a própria solidão e a dos outros. A gente supõe que a literatura transmite conhecimento e atua sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe; que ajuda a nos conhecermos para nos salvarmos juntos… A gente escreve, em realidade, para a pessoa com cuja sorte ou má sorte nós nos sentimos identificados, os maldormidos, os rebeldes e os humilhados desta terra, e a maioria deles não sabe ler”. (Eduardo Galeano. Em defesa da palavra)





Sobre o que formulamos e a maneira como o fazemos retratam nossa identidade cultural e epistêmica. O que escrevemos, o que falamos ou apenas insinuamos, revelam nosso lugar social. Em geral falamos desde onde nossos “pés” pisam, embora não seja incomum falsearmos pisadas, ainda mais nesses tempos de pós-verdade, com suas abundantes e perniciosas fake news.

Neste tempo, permeado de “temporais”, escrever é um ato de sobrevivência, de resistência, de persistência e também de desobediência às subserviências.

À pergunta “por que escrevo?”, no livro “Ofício de Escrever”, Frei Betto, entre outras razões, afirma: “escrevo para sublimar minha pulsão e dar forma e voz à babel que me povoa interiormente”. Eu também! E para tentar organizar dentro de mim a babel que nos envolve! (08.07.20)

Música e educação: integração que realiza Michael Pedrotti

Michael Pedrotti é um jovem que entrou no mundo da arte ainda bem menino. Levado por seu pai a um curso de teclado, quando desejava muito brincar e jogar bola, foi descobrindo a música como essência de sua realização.

Nasceu em Ernestina, uma pequena cidade ao norte do RS, bem pertinho de Passo Fundo. Começou, como a maioria dos artistas, tocando em pequenos eventos de escola e da comunidade em que vivia.

Pedrotti já fez experiências com algumas bandas, umas mais caseiras, outras mais profissionais, sempre fazendo o que mais gostava: tocar. No retorno à terra natal, passou a cursar Música, na UPF (Universidade de Passo Fundo). Desde então, vem se engajando em bandas e projetos educacionais que envolvem a música, ou a musicalização.

Conheçamos Michael Pedrotti, por ele mesmo.

***

SITE NEIPIES: Como e quando descobriste a vontade de fazer música e viver dela?

Michael Pedrotti: Na minha casa sempre se ouviu muita música, sem se prender a estilos ou a clássicos, mas sim totalmente influenciados pelas músicas que na época tocavam nas rádios.

Fui me interessar profundamente pela música, quando conheci os instrumentos musicais. Tínhamos um pequeno teclado em casa, e meu pai, apesar de não saber tocar, estava sempre brincando com o instrumento, e isso inconscientemente, me despertou interesse em aprender a tocar. Quando eu tinha 11 anos meu pai me levou a uma aula de teclado. Fui, mas muito contrariado, pois como a maioria das crianças dessa idade, queria jogar bola, brincar de outras coisas. Mas a partir da segunda aula de teclado, tomei gosto. Logo contava os dias para a próxima. A partir daí me despertou interesse por outros instrumentos também.

Mas até aí não tinha pensado em viver disso.

Muito tempo depois, já com 15 anos de idade, montei minha primeira banda com a ajuda dos amigos. Ensaiávamos muito e logo começamos fazer pequenas apresentações na cidade e, com isso, começaram a vir os primeiros cachês.

Como morava em uma cidade pequena, Ernestina, eram raras as apresentações, então decidimos procurar uma cidade maior. Logo após me formar no segundo grau, fomos para litoral catarinense.

Passamos por um momento difícil, de aceitação. Mas depois de muita insistência, conseguimos entrar no circuito de bares noturnos acumulando muitas apresentações. Além de tocar na noite, comecei a dar aulas de violão, e isso me deu um suporte financeiro ainda maior, percebendo assim que se mergulhasse de vez nesse mundo poderia viver disso.

SITE NEIPIES: Tiveste interessantes experiências com Bandas de Rock. Qual foi e qual ainda é o maior desafio para um grupo de adolescentes ou jovens que quer fazer boa música?

Michael Pedrotti: Primeiro grande desafio é tocar um instrumento musical de forma satisfatória, buscando não apenas o conhecimento teórico mas prático, mantendo sempre contato e troca de experiências com outros músicos, almejando sempre sua própria sonoridade.

SITE NEIPIES: A partir de qual momento passaste a perceber o teu potencial de voz e violão?

Michael Pedrotti: Quando estava aprendendo a tocar violão e guitarra montei minha primeira banda com a ajuda de amigos. Como não tínhamos vocalista comecei a me arriscar nos vocais durante os ensaios, mas claro que provisoriamente, pois achávamos que encontraríamos um vocalista num curto espaço de tempo, mas isso não aconteceu, e o provisório perdurou. Logo percebi que se me dedicasse poderia assumir definitivamente esse posto na banda além da guitarra.

Quando chegamos no litoral catarinense(Banda) nos deparamos com a difícil realidade de conseguir lugares para tocar, pois poucos bares e casas noturnas tinham espaço para bandas. E me chamou atenção que a maioria desses bares adotavam a prática de músicos solos (voz e violão). Como estava difícil nossa situação financeira como banda pela escassez de shows, surgiu a ideia de eu tentar esse novo formato de apresentação (voz e violão) para que conseguíssemos nos manter financeiramente até entrar no circuito com a banda.

Dessa forma fui apresentado a esse novo formato de apresentação, no qual tomei gosto e faço até hoje.

SITE NEIPIES: Qual foi a importância do Curso de Bacharelado em violão na consolidação de tua formação como músico?

Michael Pedrotti: O primeiro método de violão que estudei foi “os amigos”. Catando uma informação aqui, outra ali, fui montando meu conhecimento no violão. Só mais tarde fui ter aulas com professores e me aprofundar mais no conhecimento teórico e técnico.

A troca de informações e a experiência de tocar com outros músicos me acrescentaram um conhecimento e uma bagagem musical imensa.

Mas num determinado momento senti a necessidade de estudar algo novo, expandir meus conhecimentos no instrumento. A ocasião me trouxe pro Rio Grande do Sul novamente e descobri o curso de Bacharelado em violão da UPF, onde me matriculei.

Foi uma experiência incrível, pois minha formação até o momento era extremamente popular e o violão erudito me acrescentou muito em termos técnicos e disciplinares. E essa ligação do mundo erudito com o popular me fez crescer imensamente como músico.

SITE NEIPIES: Conte-nos como foi tua primeira experiência unindo educação e música?

Michael Pedrotti:  Minha primeira experiência foi extremamente prazerosa mas também um pouco curiosa.  Comecei a estudar licenciatura em música atrás de novos conhecimentos, mas logo vi que esse curso não era o que eu estava esperando no momento, pois não conseguia me imaginar dentro de uma sala ministrando aulas e acabei trocando o curso e me matriculando em bacharelado em violão.

Num certo dia recebi a ligação de um amigo de um amigo, falando que tinha uma vaga numa determinada escola para professor de musicalização infantil, mas era preciso começar imediatamente. No primeiro momento me assustei com a situação, pois nem licenciatura estava estudando. Primeiramente me opus a proposta mas depois de muita conversa e insistência aceitei o desafio.

O primeiro dia foi um pouco tenso pois minha inexperiência estava a mostra. Para aumentar minha ansiedade descobri que no mesmo dia eu teria aula com várias turmas, sendo do pré até o quinto ano e essa disparidade de idade entre os alunos me assustou ainda mais, por exigir diferentes abordagens de ensino.

Mas toda essa ansiedade e preocupação se acabou quando entrei na sala de aula, onde nessa primeira experiência, levando apenas meu violão consegui me adaptar muito bem, e essa troca com os alunos me atraiu imensamente, fazendo me apaixonar instantaneamente por essa prática tão maravilhosa que é a docência.

Após isso, voltei a estudar licenciatura em música na qual sou formado pela UPF, e até hoje trabalho com musicalização infantil.

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal




SITE NEIPIES: Voltando à tua terra natal, hoje te realiza poder usar teu talento e tuas experiências de música e arte através da musicalização. Qual é a importância da musicalização na formação integral de uma criança ou adolescente?

Michael Pedrotti:  Já faz alguns anos que moro em Passo Fundo, porém sou de uma pequena cidade do norte do estado chamada Ernestina.

Trabalhei e trabalho com musicalização infantil em diversas cidades da região, porém só nesse ano de 2020 essa pratica foi adotada nas escolas municipais de Ernestina. Por ser uma cidade vizinha a Passo Fundo e por eu ter um grande vínculo com esse município resolvi fazer o processo seletivo no qual consegui a vaga.

Está sendo um momento especial pra mim, pois depois de um longo período longe da cidade, estudando, trabalhando, enfim, crescendo como músico, professor, pessoa, poder voltar trazendo toda essa bagagem comigo e poder trabalhar com musicalização com as crianças é fantástico. Outro ponto importante que torna esse momento especial é o fato de que sou o primeiro professor de musicalização da cidade, pois essa pratica só foi aderida nesse ano. Então depois de ter saído da cidade atrás de meu sonho de viver dessa arte (música) onde muitas pessoas na época desacreditavam, voltar como professor me traz uma satisfação imensa.

O ensino de musicalização nas escolas é de suma importância para o desenvolvimento da criança, pois além do conhecimento técnico, prático e teórico, há muitos outros benefícios que já nos foram apresentados em estudos importantes. Mas em meu ver, um dos aspectos mais importantes nesse desenvolvimento da criança através das aulas de musicalização infantil, é o companheirismo, o precisar do outro, o respeito ao próximo, o compartilhar, a paciência, a união, a importância do outro.  Isso tudo está inserido nas aulas de musicalização, onde todos esses aspectos são trabalhados de forma conjunta. Esses benefícios para o desenvolver da criança pode ser percebido a curto prazo, na própria escola, em casa, enfim, se reflete na sociedade.

SITE NEIPIES: Qual é o papel que a música e a arte podem desempenhar para a gente levar uma vida mais leve, livre e solta, ainda mais em tempos de pandemia e isolamento social?

Michael Pedrotti:  Tem um papel fundamental, pois a arte tem o poder de despertar sentimentos diversos nas pessoas, e ainda através dela conseguimos entender, captar, o que está se passando no momento atual, além de conseguir reviver momentos, através das lembranças que uma música por exemplo pode despertar, sentir cheiros, sabores, enfim, a arte nos leva por um passeio por diferentes lugares, muitos desses ainda não visitados por nós. E esse entendimento que a arte nos proporciona nos faz enfrentar os dias atuais com mais serenidade.

SITE NEIPIES: Como avalias a vida dos artistas e dos músicos, neste período em que eventos públicos estão proibidos?

Michael Pedrotti:  Os artistas nunca tiveram um vida fácil, mas nesse momento se agravou os problemas já existentes e também vieram à tona outros que ainda estamos aprendendo a resolver.

Mas como a maioria das pessoas, nós artistas, estamos tendo que viver com essa difícil realidade e tendo que se reinventar. Estamos procurando opções e maneiras de levar nossa arte até as pessoas, pois o artista vive de aplausos, vive do despertar de sonhos nas pessoas, então além da necessidade financeira temos a necessidade desse contato com o público. Com isso cada um vai encontrando maneiras diversas de manter esse contato mesmo à distância, e a internet está sendo um aliado muito importante nessa ligação artista-público.

SITE NEIPIES: Na tua visão, por que ainda não implantamos no Brasil a disciplina ou o Conhecimento de Música nas escolas?

Michael Pedrotti:  A arte no Brasil sempre foi marginalizada, sempre tratada ou pensada como algo não essencial na nossa sociedade, quando comparada com outras áreas de atuação mais diretas.

Apesar dessa ideia estar impregnada em nossa sociedade, o ensino de música nas escolas está começando a se desenvolver, caminhando a passos lentos é claro, mas está caminhando. Pois esse assunto era pouco falado a um tempo atrás e hoje muitas escolas dessa região já aderiram e estão aderindo o ensino de música na educação infantil, principalmente as escolas municipais.

Os municípios e as escolas que aderiram essa prática de ensino mantém ela, pois os benefícios que ela traz se reflete a curto prazo na comunidade.

Posso usar como exemplo minha cidade natal Ernestina, que nunca tinha se pensado em aulas de musicalização infantil e nesse ano de 2020 foi implantado o ensino em todas as escolas municipais da cidade.

SITE NEIPIES: Fale-nos também dos teus projetos atuais e aqueles que projetas para o futuro.

Michael Pedrotti:  Iniciei 2020 com muitas ideias que seriam postas em prática durante esse ano, entre elas estavam o “Grupo de percussão Bahtuca” da cidade de Barão de Cotegipe, Grupo de música da Escola Herculino Baldissarela da cidade de Ronda Alta, iria assumir como professor de música no Cras em Ernestina.

Iniciamos um grupo de violão também na cidade de Ernestina, grupo esse que já tinha aproximadamente 20 integrantes de diversas idades, além de estar planejando mais uma viagem pela américa latina levando a música brasileira e pesquisando a cultura de outros países, e também produzindo músicas autorais visando diversos festivais desse segmento. Mas a grande maioria desses projetos foram interrompidos pelo fato de sermos atingidos por essa pandemia.

As aulas de musicalização infantil de Ernestina foram mantidas, a distância, de maneira on-line, e nesse momento estou focando minhas ideias, minhas energias, meu comprometimento com essa nova maneira de ministrar aulas, pelo fato de ser algo novo não só para os alunos mas para os professores, exigindo todo um planejamento diferenciado, novas técnicas de ensino, para que os alunos sejam atingidos de uma maneira satisfatória com o conhecimento de musicalização.

Estou esperançoso que esse momento difícil de pandemia acabe logo, para poder colocar em prática todos esses projetos novamente, e muitos outros que estão por vir.

Durante esse período de isolamento social, também estou desenvolvendo novos projetos, direcionados a musicalização infantil, como meu 2º disco de músicas infantis, além de um projeto de contação de histórias onde a música e os instrumentos musicais serão o fio condutor.

Também estou aproveitando esse período para compor.

Estou participando de um projeto de Lives solidárias com a banda Diletantes, onde uma vez por mês nos reunimos para levar nossa arte até a casa das pessoas.

Estou também aproveitando esse momento para colocar os estudos em dia me preparando ao máximo para que quando essa pandemia passar poder voltar com força total para a vida de professor e artista.

O “Novo Normal” é uma Vaca!

O “Novo Normal”
é uma Vaca seguindo
a manada.


O que é isso que todos começam a chamar de “Novo Normal”? Qual era mesmo a “velha normalidade”? E a pergunta que mais deve(ria) incomodar: O que é “normal”?

Poderia destrinchar uma série de teorias que convergem e divergem sobre esse conceito. Tudo, porém, de alguma forma levaria à mesma conclusão que canta Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal / Às vezes, segue em linha reta / A vida, que é ‘meu bem, meu mal”. E ao que parece, a vida, essa “Vaca Profana”, tem seguido a linha e nada há de efetivamente novo na aparente “normalidade”. A não ser que a “normalidade” seja essa absurda indiferença humana, as contradições sociais, culturais, econômicas que apenas se revelam ou permanecem veladas, mas de alguma forma mais provocativas, no contexto de um novo tipo de pandemia mundial.

De toda forma e ao que tudo indica, apesar disso, prevalece o entendimento da vida e da morte, na visão apenas do que é “meu” e não “nosso” bem ou nosso mal.

Ou seja, passado o susto da impotência inicial, prevalecido o contágio da ignorância, da indiferença e “eu” fragmentado e isolado na “bolha comum”, a pandemia começa a se tornar aquilo com a qual e sem a qual tudo continua tal e qual. Esse é o significado e o sentido que consigo entender daquilo que, apesar de ser incomum, caótico e intensificar as mazelas da condição humana, começa a ser entendido como “novo normal”. Ou seja, seria como parafrasear a canção do poeta e dizer: Vaca profana mantém teus cornos para dentro e junto com a manada. “Derrama o leite bom na minha cara / E o leite mau na cara dos caretas”.

Os caretas modernos dos tempos de pandemia que fiquem com o leite mau dessa vida, Vaca Profana das divinas tetas das quais somente os “bons e os justos”, defensores da moral e dos bons costumes, somente aqueles que entendem a vida como a pátria acima de tudo e os privilégios da divina vaca, acima de todos, são dignos de seguir a “vida normal” mesmo que tenham que fingir terem se adaptado à novas necessidades.

Nada vejo muito de “novo” na normalidade que segue. Talvez, novas encenações do cotidiano, mutações superficiais que mal tocam o cerne da existência e perpetuação da negação da dignidade humana em formas atualizadas e adaptadas ao slogan do “Novo Normal”. Vejo apenas as vacas seguindo a manada ao som do mesmo berrante, mesmo que soprado por outro fazendeiro que tão pouco é “novo” e muito menos “normal”.

E por falar em “vaca”, e por apreciar a metáfora da natureza poética, ao rabiscar esses devaneios, flagrei-me diante do livro A Revolução do Bichos, escrito por George Orwell, publicado originalmente em 1945.

Abri o livro exatamente na página na qual meu filho o largou e leio trecho que diz: “Quanto aos outros, sua vida, ao que sabiam, continuava a mesma. Geralmente andavam com fome, dormiam em camas de palhas, bebiam água no açude e trabalhavam no campo; no inverno, sofriam com o frio; no verão, com as moscas. […] não conseguiam lembrar se as coisas tinham sido melhores ou piores que agora. […] Os bichos consideravam o problema insolúvel; de qualquer maneira, dispunham de muito pouco tempo para essas especulações.” (Orwell, ed. 2020, p. 103).

Entendi, assim, porque meu filho- que completa 13 anos neste mês de setembro de 2020 -, antes de ir brincar, fechou o livro e me disse, indignado: “Pai, os porcos são muito filhos da p….”.

Sim, eu sei que nesse momento, alguns dos que me leem, defensores da normalidade, da moral, dos bons costumes e da família “tradicional”, estejam berrando indignados por não ter pedido para meu filho não dizer “palavrão” (embora eu não tenha dito que não o fiz) e pior ainda, por perverter sua educação deixando ler um livro dessa natureza (o qual ele mesmo escolheu sem que tenhamos indicado). Sim, eu sei que isso não é normal e não é novo, seja lá o que você entende por “normalidade”.

Poderia agora retomar uma série de estudos sérios e aprofundados sobre essa complexidade; poderia convidá-lo a refletirmos juntos e apurarmos os nossos argumentos, mesmo que não cheguemos ao mesmo entendimento; poderia convidar você a refletir a respeito do fato de que sob o véu da ideia de um “Novo Normal”, talvez sejamos induzidos a considerar “normal”, comum, aceitável justamente aquilo que deveríamos combater mesmo que tivéssemos que pensar novas formas para isso.

Poderia convidar você ao diálogo que foge dos extremos e a perceber que, talvez, apenas talvez, você e eu pensemos que somos agraciados com o leite bom das divinas tetas, mas não enxergamos que essa Vaca é Profana e nós somos os profanados. Mas, claro, isso exigiria tempo, reflexão, pensamento, e, pior, a coragem de enfrentar a dor que é nos descobrirmos apenas seguindo a manada.

É, sobre o que é “normal”, e se realmente faz sentido falarmos sobre uma “nova normalidade”, parece mais um desses problemas insolúveis e, como dispomos de pouco tempo (mesmo sem saber se realmente usamos o tempo ou nos usam o tempo todo), não vamos nos deter nessas “especulações” de desocupados improdutivos. Segue a manada, afinal, o “novo normal” exige recuperar o “leite derramado”. O “Novo Normal” é uma Vaca seguindo a manada.

Fico me perguntando na leitura que faço dos que se apressam com o “novo normal”, preocupados que estão com a tão “insuportável anormalidade” da pandemia: como será o “novo normal” para os/as desempregados/as, os precarizados/as, os subempregados/as, os/as “sem-direitos”, os/as de sempre, os/as de antes e os/as de agora, ainda mais precarizados em razão do impacto que a crise pandêmica produziu em suas vidas? Haveria “vidas matáveis”, “humanos descartáveis”, “humanos essenciais” no “novo normal”? (Paulo César Carbonari) Leia mais, clicando aqui.



Autor: Sidinei Cruz Sobrinho
Sobre o autor: Um bicho tentando se manter anormal em tempos de “novas normalidades”. Também estudou Direito, Filosofia, é professor, é estudante e você pode criticar ele diretamente a ele pelo e-mail sidineicsobrinho@gmail.com

CEPRES discute religião, religiosidade e políticas públicas em evento virtual

O Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (Cepres), da Universidade Federal do Amapá (Unifap), realizará o I Encontro Internacional em conjunto com o III Evento Cientifico. Os eventos serão entre os dias 21 e 26 de setembro, pela plataforma Google Meet e Youtube, no canal Observatório TV.

Veja mais aqui.

O grupo de pesquisa foi criado em 2013 pelos Docentes Marcos Vinicius de Freitas Reis e Andrius Estevão Noronha nas dependências da Universidade Federal do Amapá com o intuito de estudar as manifestações religiosas no Brasil e no mundo. Inicialmente, as atividades eram reuniões mensais para discussão de textos acadêmicos.

Com o interesse crescente dos alunos pela discussão do tema iniciamos a organização de rodas de conversa, palestras, mesas redondas, eventos científicos, organização de livros, dossiês e cursos de extensão.

Entre os anos de 2016 a 2018, o foco do grupo foi o combate a intolerância religiosa e a defesa da laicidade. Organizamos várias iniciativas para proteção ao direito da liberdade religiosa, sobretudo das religiões de matriz africana. A nossa ideia que políticas públicas no enfrentamento a intolerância religiosa seja realizadas em âmbito local e nacional.

“Para teólogo João Moura, o Brasil ainda tem dificuldade pra efetivar Estado laico. “Por uma série de fatores, a religião foi se apoderando de maneira muito forte e rápida do Estado brasileiro. Hoje temos organizações do governo que dizem que o projeto é a criação de um Brasil terrivelmente evangélico. Pra gente garantir um país em que todas as religiões sejam respeitadas, é preciso garantir que todas as religiões tenham plena liberdade, mas também que o Estado não seja um aparato que uma religião ou outra seja hegemônica”, defendeu Moura. Leia mais aqui.

No ano de 2019 ajudamos na construção do Referencial Curricular Amapaense do Ensino Religioso na Base Nacional Comum Curricular do Amapá (RCA). A ideia é ter um currículo laico, plural e diverso.

Atualmente o grupo reúne mais de 20 pesquisadores e dezenas de estudantes de graduação e pós-graduação.



Sobre os eventos

O I Encontro Internacional e III Evento Cientifico do CEPRES terão 3 minicursos, entre os dias 21 e 25 de setembro, transmitidos pelo Observatório TV:

– A Transposição Didático do Ensino Religioso, ministrado pelo Dr. Sérgio Junqueira, docente da PUC-SP.

– Marabaixo – Cultura Amapaense, ministrado pela Prof.ª Laura Cristina da Silva, vice-presidente da associação cultural Raimundo Ladislau.

– História da Bruxaria, ministrado pelo Prof. Giivago Barbosa de Oliveira, vulgo Álex Hylaios, sacerdote wiccano.

A programação completa pode ser conferida aqui

Submissão de trabalhos

A Comissão Científica do evento recebe submissão de trabalhos entre os dias 31 de agosto até 11 de setembro. Serão aceitos trabalhos de todas as áreas do conhecimento, desde que dialoguem com a temática de religião. 

Podem submeter trabalhos graduandos, graduados, especialistas, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores. Estes trabalhos serão apresentados via Google Meet, nos dias do evento no período da tarde, para mais informação confira o edital. As inscrições para participar do evento podem ser feitas aqui.



Tome nota

Além dos minicursos e da apresentação de trabalho, entre os dias 21 e 26 de setembro, acontecem diversas palestras com temáticas voltadas ao estudo da religião, tendo como palestrantes pesquisadores, professores, lideranças religiosas, estudiosos nacionais e internacionais. Veja mais aqui.

Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis, Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Politicas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Politicas Públicas. E-mail para contato: marcosvinicius5@yahoo.com.br

Desejos

Como dizia Sêneca,
“a pobreza não vem da escassez
de recursos, mas da
proliferação dos desejos”.


Há muitos anos, depois da aposentadoria, meu pai se deu de presente um carro importado. Bonito e vistoso, mas claramente exagerado para um sujeito de classe média.

Passado um ano da compra, meu irmão viu estacionado perto de sua casa o recém lançado novíssimo modelo desse mesmo carro que meu pai tinha comprado no ano anterior.

Como sempre, as mudanças eram pequenas. Faróis mais redondos, linhas levemente alteradas, alguma inovação tecnológica no painel com desenho diferente, mais “arrojado”. O que conta mesmo – motor, chassis e lataria – ficam iguais de um ano para outro, mas, o que importa é o impacto da aparência gritando na cara dos outros.

Quando viu o carro ficou impressionado com o luxo e a sofisticação. A frase que me disse, entretanto, é que foi curiosa.

– Vi o novo modelo do carro que o pai comprou. Cheguei a ficar com pena dele dirigindo aquele carro velho.

Sim, como dizia Sêneca, “a pobreza não vem da escassez de recursos, mas da proliferação dos desejos”. Toda a riqueza acima do limite das necessidades é governada pelos desejos, e estes são infinitos e incontroláveis.

Um carro importado, lindo e sofisticado, pode virar pó diante da comparação com uma variedade mais nova e mais moderna. Não é a falta de recursos que o torna velho, mas o desejo despertado pela novidade.

Meu irmão nada disse para o meu pai, mas também acho que ele não cairia no truque.

Apesar de ser admirador de carros charmosos, ele não sucumbiria tão facilmente à armadilha da comparação. Curiosamente, esse carro cheio de símbolos de opulência só lhe ofereceu problemas e dores de cabeça, inclusive o desastre de ter o carro roubado em um assalto à mão armada. Eu havia lhe avisado que seu carro era um “chama-ladrão”, mas parece que o desejo de realizar um sonho infantil foi maior que o bom senso.

Depois desse episódio traumático resolveu refrear seus desejos e voltou a ter carros mais simples, como fazem as pessoas de juízo.

“A sociedade organiza seus meios de produção, seguindo uma lógica de consumismo. Produtos são criados e lançados no intuito de nos convencer de que consumi-los é como uma condição de participar da vida em sociedade. Não consumir determinados produtos é como “estar fora de”, não participar da dinâmica da comunidade global. Daí a necessidade das propagandas, sempre bem elaboradas, criativas, dizendo sempre aquilo que desejamos ver, ouvir e saber” (Nei Alberto Pies). Leia mais aqui.



Sugestões de uma atividade pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser trabalhada com estudantes do Oitavo Ano do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio.

No Oitavo Ano, Unidade temática: Ética. Objeto de Conhecimento: Dilemas éticos: cidadania e consumo responsável Habilidades: (EF08FL01PF03) Pensar sobre conceito de identidade e a relação com a sociedade de consumo para compreender-se e agir com responsabilidade e autonomia.

Questões para pensar criticamente:

  1. Reescreva a crônica “Desejos” ou escreva uma nova crônica envolvendo um objeto de seus desejos, ou desejos de alguém da sua família.
  2. Por que “não é a falta de recursos que torna as coisas velhas, mas o desejo despertado pela novidade”? (por exemplo um celular)
  3. Você entendeu a frase do sábio Sêneca: “a pobreza não vem da escassez de recursos, mas da proliferação dos desejos”? Como interpreta esta frase?
  4. Por que é preciso aprender refrear nossos desejos? Por que não dá para viver escravo deles?



Ricardo Herbert Jones, médico.

Experiências educadoras significativas

Contar a história desta educadora é resgatar um pouco do esforço de outras tantas pessoas e movimentos sociais que foram além da crítica à escola formal; foram capazes de realizar e comprovar a importância de experiências metodológicas de educação popular.

Soloá Citolin é educadora, por essência. Na sua formação acadêmica e na sua trajetória de educadora, pode experimentar diferentes experiências que vão desde a sua atuação em escolas particulares, escolas estaduais e também em escolas ou projetos que se propunham a uma educação popular (Projeto Integrar Metalúrgicos, Escola de Braga (ligada aos movimentos sociais) e Escola Josué de Castro do MST que abrange a Via Campesina e Escola Sindical Sul (de formação de lideranças sociais e Ensino Profissionalizante).

Sua formação inicial é em Pedagogia. Suas especializações: Sociologia da Educação, Psicopedagogia e Arteterapia.

Conhecemos Soloá já na sua fase madura, como pessoa e como profissional. Nos anos 1997 a 1999, estivemos juntos na realização do Projeto Integrar dos Metalúrgicos, um projeto de elevação de escolaridade com qualificação profissional. Sempre exigente com seu trabalho pessoal, mas muito empenhada em valorizar os esforços e as habilidades dos jovens educadores e educadoras como a gente.

Contar a história desta educadora é resgatar também um pouco do esforço de outras tantas pessoas e movimentos sociais que foram além da crítica à escola formal; foram capazes de realizar e comprovar a importância de experiências metodológicas de educação popular.

Soloá Citolin, por ela mesma.

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SITE NEIPIES: Como, quando e porquê nasceu a ideia de ser educadora?

Soloá Citolin: Na verdade meu sonho de criança era ser arqueóloga. O Ensino Médio escolhi fazer magistério e acabei gostando e fui ficando.

SITE NEIPIES: Seu pai viajava pelo Estado do RS para ajudar na construção de escolas do campo (as famosas Brizoletas). Esta história de seu pai te inspirou a seguir o caminho da educação?

Soloá Citolin:  Não porque eu era muito pequena. Mas ver minha mãe não medir esforços para assistir comícios do Brizola e falar sobre política a partir das concepções brizolistas acho que criou em mim, em nível de inconsciente, esta busca por mudança e justiça social.

SITE NEIPIES: Desde o início, ainda jovem, já conciliavas família e profissão. Como foi esta experiência?

Soloá Citolin: Bem difícil. Ter filhos pequenos, estudar e trabalhar exigiu muito esforço. Lecionava no interior, voltava e tinha 15 minutos para almoçar e pegar novo ônibus e ir para a faculdade. E a noite com filhos, estudo e preparação de aulas. Geralmente eu preparava minhas aulas no final de semana, mas também fazia o serviço da casa, cuidava os filhos, fazia trabalhos da faculdade e lia os livros que os professores pediam. A maioria das professoras passaram por isso.

SITE NEIPIES: Que lições tiraste a partir de tua atuação em escola particular, escolas estaduais e escolas de movimentos sociais e sindicais?

Soloá Citolin: Sempre digo que tive sorte neste sentido. Foi uma benção ter tido estas experiências. Na escola pública vi como era ter que enfrentar o sistema. De um lado querer colocar em prática a teoria aprendida nos livros de outro a realidade nua e crua, onde a fome, a miséria, a violência contra as crianças e suas mães me colocava na realidade mais dura e sofrida que eu já tinha visto.

Muitas crianças levavam os cadernos para casa e não traziam mais. Eu dava outro que acabava não voltando também. Até que descobri que o caderno servia para fazer fogo ou um irmão pequeno fazia xixi em cima, porque o caderno era guardado embaixo das cobertas onde dormiam. Passei a visitar as casas e foi ai que comecei a ver e entender a realidade e a mudar minha estratégia/planejamento pedagógico. Só aqui poderia escrever um texto sobre minha experiência.

Na escola particular foi excelente porque era de irmãs franciscanas e um grupo estava engajado com a teoria de Paulo Freire. Então aprendi e contribui em muitas construções inovadoras.

Com os Movimentos Sociais foi muito bom porque lá podia colocar as teorias que eu tinha estudado e aprendido na prática. Era uma pedagogia alicerçada na base social que visava e visa até hoje não só a construção do conhecimento, mas a transformação social. Aprendi muito com eles. Ali lecionei e coordenei cursos e participei de uma caminhada histórica. Uma longa história também com muito para contar.

Com o Movimento Sindical foi outra experiência marcante. Construímos uma proposta pedagógica com elevação de escolaridade, mas com uma organização curricular que tinha como mote principal o trabalho como princípio educativo. Aprendi e vivenciei muitas experiências marcantes. Também muita história para contar.



SITE NEIPIES: Qual é a crítica mais contundente que podemos fazer ao Ensino ou Escola regular/formal?

Soloá Citolin:  Penso que é o formato do currículo que me parece desvinculado da realidade da vida. A organização curricular e a organização da escola deveriam, a meu ver, serem repensadas.

SITE NEIPIES: Qual é a contribuição das experiências educativas, gestadas pelos movimentos populares e sociais, para qualificar a educação brasileira, de modo geral?

Soloá Citolin:  Elas tem muito a dizer e ensinar se fossem ouvidas, mas infelizmente não é assim que acontece. Ao longo da história, podemos ver, ler e estudar várias experiências exitosas que poderiam servir de luz, não para copiar, mas para mostrar que é possível uma educação transformadora alicerçada na realidade do sujeito.

SITE NEIPIES: Por que as escolas formais do Brasil ainda têm tanta dificuldade de aceitar ou assimilar metodologias de educação popular?

Soloá Citolin: Penso que tem vários fatores. Um é a concepção de educação que tem cada gestor público. Cada troca de governo muda tudo e as escolas estão em um eterno recomeçar. Também há uma visão conteudista, preparatória para vestibular ou ensino profissionalizante, ou seja, uma visão unilateral, alienada e reificada. Esquece-se que o ser humano é um ser omnilateral, que precisa de um conhecimento teórico/prático a partir da realidade social onde vive, do aqui e agora até o conhecimento mais amplo que permita ler a realidade local e geral. Entre outros.

SITE NEIPIES: Qual foi, desde sempre, a importância da leitura e da literatura na tua formação e atuação como educadora?

Soloá Citolin: De total importância. Sem leitura não há conhecimento. Quem não lê mal, escreve e tem grande dificuldade de refletir, analisar e sintetizar. Eu amo ler. A leitura é o ar que respiro e o alimento para minha mente e minha alma.

SITE NEIPIES: Agora estás distante das salas de aula, mas atenta aos movimentos e desafios da educação. O que dizer sobre a educação no Brasil, em tempos de pandemia e isolamento físico e social?

Soloá Citolin: Vivemos tempos sombrios. Em uma conjuntura onde se jogou toda a responsabilidade educacional em cima do professor que não tem mais horário e nem vida porque deve ficar disponível para os alunos e pais o tempo todo.

O mais surreal que vejo é quando os meios de comunicação falam se devem voltar às aulas presenciais ou não, pedem a opinião de governantes, pais, alunos, jornalistas, representantes de ONGS e nunca para os professores. Quando falam sobre ensino a distância e presencial entrevistam todos, menos os professores. Parece que o professor é um ser invisível na hora de ser ouvido, mas muito visível na hora das cobranças. Penso que desta forma o processo educativo não pode melhorar.

SITE NEIPIES: Uma frase que ajude a definir a sua pessoa e a sua trajetória educadora.

Soloá Citolin: Sou uma eterna aprendiz com uma ânsia infinita para adquirir novos conhecimentos.

SITE NEIPIES: Que mensagem aos teus colegas professores e professoras neste momento histórico?

Soloá Citolin: Não sofra sozinho/a. Lute engajado/a com sua categoria. Com o grupo nos fortalecemos e no grupo nos apoiamos e avançamos. Não há saída individual. A luta pela educação de qualidade, para todos e transformadora passa pela luta social.

Enfermeira: uma profissão de CUIDADO

Nelci Zorzi, 54 anos, é mãe, enfermeira Obstetra e Doula. É Mestre em Enfermagem e professora. Uma profissional dedicada e realizada em sua profissão. Quando fala de enfermagem, é grande entusiasta e defensora destes profissionais que tanto se dedicam ao CUIDADO na área da saúde.

Acompanhando as mulheres durante a gestação e nascimento, pós nascimento como enfermeira obstetra e Doula, revela-se uma grande parceira e um importante suporte para a boa condução deste importante acontecimento (o nascimento) para toda a família.

Realiza atendimento domiciliar e hospitalar, cursos para casais grávidos e assistência de enfermagem obstétrica para gestantes e parturientes na hospitalização e domicílio durante o parto natural humanizado e cesareana humanizada. Cuida da mãe e bebê – família após o nascimento, prestando cuidado ao recém-nascido, consultoria em aleitamento materno entre outros cuidados.

Empreendeu, também, na Bem Acolher, Centro de Atendimento a gestantes.

Conheçamos Nelci Terezinha Zorzi, por ela mesma.

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SITE NEIPIES: Como, quando e porquê decidiste ser enfermeira?

Enfermeira Nelci Zorzi: Meu desejo desde criança era ser enfermeira e trabalhar num hospital. Saí de São João Da Urtiga em 1983, para estudar em Sananduva, num município vizinho de São João da Urtiga. Na época, nosso município era distrito de Paim Filho, município vizinho também. Não tínhamos o “segundo grau” (hoje Ensino Médio) no colégio daí fui em busca do meu sonho de estudar. Meu pai sempre falava pelo menos os três últimos filhos devem estudar, pois somos uma família numerosa de 11, 10 filhos vivos.

Lembro até hoje do dia que meu irmão e minha mãe foram me levar até Sananduva, iria morar em casa de família, trabalhar de doméstica e estudar à noite. Tinha 15 anos, era magrinha, pequena, quando a “Dona Gema Salvador” que era fotógrafa conhecida na cidade me recebeu, olhou pra mim e se surpreendeu. Depois me relatou o que pensou: “O que vou fazer com essa menina magrinha, não vai saber fazer nada em casa, os serviços da casa, comida, cuidar de roupas…. Para sua grata surpresa, fazia tudo… pois minha infância foi de aprender trabalhar desde cedo, com os pais agricultores. Meio turno íamos a escola o outro turno íamos pra roça e ajudávamos nos afazeres de casa… mas brincávamos muito também… fugíamos logo depois do almoço brincar, eu meu irmão mais novo Claudiomiro e minha irmã Nair.

Nossas brincadeiras eram muito diferentes das que temos hoje. Subíamos em arvores, brincávamos no meio dos grãos de soja que tínhamos nos galpões (chamados de Paiol). Fazíamos “casinhas” em baixo das árvores.  E muitas outras brincadeiras com vizinhos, primos, amigos…, cata vagalumes a noite, jogar bola, caçador, espiribol… Mas meu sonho de ser ENFERMEIRA estava guardado em meu coração.

De Sananduva vim a Passo Fundo fazer a prova para Auxiliar de Enfermagem no HSVP (Hospital São Vicente de Paulo) em 1987, com ajuda da família de Dona Ione Chiocheta, onde, naquele momento trabalhava como empregada doméstica. Fui aprovada, cursei Auxiliar de enfermagem, comecei trabalhar no HSVP no mesmo ano (1988), e em 1989, me desafiei a fazer vestibular na UPF e então iniciei a faculdade com turno integral e trabalhando à noite. Foi um grande desafio, mas a determinação para vencer o cansaço físico e dificuldades financeiras para estudar, me sustentar com aluguel, alimentação, transporte etc… Venci um passo de cada vez.  Os acessos a tudo eram muito mais difíceis do que temos hoje.

Mas meu sonho se concretizou, de estar atuando no cuidado das pessoas, atuei por 14 anos no hospital como enfermeira ssistencial, depois segui como docente que já atuava desde 1994 na UPF, no curso Técnico de Enfermagem e, em seguida, na graduação. Como docente por 22 anos! Neste tempo todo estava em contato no ensino da enfermagem e em 1999 junto a empresa SAMUR- Emergências médicas, montamos eu e uma colega enfermeira Maristela Rodrigues a Enfermagem Domiciliar, onde fazíamos desde procedimentos variados a Home Care.

Nesta caminhada, fiz duas especializações, uma delas Enfermagem Obstétrica na UNISINOS, Mestrado na UFRGS e cursos na área da Humanização do nascimento, Parto, Atendimento Obstétrico de Enfermagem à nível domiciliar e curso de Doula, para agregar no meu currículo.

SITE NEIPIES: O que mais realiza e desafia como enfermeira?

Enfermeira Nelci Zorzi: O que mais me realiza é estar junto, na gestação, acolher e acompanhar a mulher no parto, no nascimento. Cada nascimento, para mim, é um Renascimento. Ver a alegria, a emoção do nascer no parto, é algo mágico, emocionante, transformador. Uma renovação, VIDA!

Hoje, meu maior desafio é estar e seguir apoiando, encorajando, empoderando as mulheres, os casais, na busca do parto natural humanizado, que estes sejam respeitados no plano de parto de sua escolha. Que o filho deste casal seja recebido com amorosidade e acolhimento, respeitando a Golden HOUR: hora dourada (contato pele a pele logo após o nascimento, o bebê deve ser entregue à mãe para que tenham contato pele a pele. Deve ser estimulado que o bebê seja amamentado pela mãe o quanto antes).

Sabemos que temos um sistema no Brasil com alto índice de cesareanas eletivas, cesareanas desnecessárias, e estamos sempre levando informações aos casais durante a gestação da importância de se aguardar o bebê sinalizar que está pronto para nascer, de se ter a possibilidade da mulher entrar em trabalho de parto, de ser a protagonista do seu Parto.  E desmistificar o parto, pois temos muitas informações inadequadas sobre o processo de parir. Estamos sempre nos desafiando, pois o sistema vigente nem sempre segue o que é recomendado pelo Ministério da Saúde nos programas de Humanização do Nascimento. Muitas vezes remamos “contra a maré”.

Nosso papel na Assistência em ENFERMAGEM OBSTÉTRICA é primordial para garantirmos uma adequada assistência á mulher na gestação, parto e pós parto. E fazer um trabalho em equipe multidisciplinar, com isso quem sairá ganhando são as mulheres e suas famílias.

SITE NEIPIES: Dentre os profissionais da saúde, os enfermeiros e enfermeiras têm o devido reconhecimento?

Enfermeira Nelci Zorzi: Dedicamos a vida aos pacientes. A Enfermagem é a profissão do cuidado, cuidamos com o coração, olhamos para o ser humano como um todo; eu não consigo ver de outra forma. A enfermagem tem um papel fundamental no cuidado, no ensino de educação ao autocuidado. Somos qualificados pra atuar na assistência de qualidade, nas instituições hospitalares, nas instituições que cuidam de idosos, na atenção básica, no atendimento domiciliar, no ensino, pesquisa, etc.

Infelizmente, temos um estigma de ser uma profissão auxiliar outras categorias de profissionais, mas não somos meros auxiliares. A enfermagem é curso superior como outro, temos nível superior, temos muitos enfermeiros com Mestrado, Doutorado, Pesquisadores, etc.

Muitas pessoas valorizam a Enfermeira(o) quando realmente precisam, vejam agora na Pandemia. O papel fundamental no cuidado que a enfermagem está tendo. E, infelizmente, muitas instituições não reconhecem e não tem um plano de cuidados destes profissionais que estão na frente e adoecendo também. Perdemos muitos colegas de enfermagem no Brasil nesta pandemia.

Mas eu vejo muita mudança nos últimos anos, pois o enfermeiro buscou a autonomia de sua profissão, temos muito espaço ocupado pelo enfermeiro (a) e sendo ocupados lindamente com muita eficiência, liderança e gestão de qualidade.

Vídeo do IbacBrasil – Tecnologias Educacionais, apresenta Enfermagem como profissão do CUIDADO. Veja aqui:



SITE NEIPIES: O que significa Enfermagem, a profissão do Cuidado?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Cuidar vem desde o nascimento, alguém precisa nos cuidar ou morreremos.  E precisamos ser cuidados até o final de nossa vida. Entendo que cuidar é apoio, troca de idéias, ajuda, atenção, solidariedade, tomada de decisões, sempre embasados no conhecimento técnico e cientifico, promovendo e mantendo o bem-estar.

É estar envolvido no processo, cuidar com qualidade, proporcionar o melhor para se obter o melhor resultado, independente se for um simples procedimento ao mais complexo, se envolve equipamentos, monitores, exames ou simplesmente ouvir a pessoa que estamos cuidando.

Cuidar com o coração, com amorosidade, alicerçado no conhecimento cientifico e na compaixão, para que nossos pacientes recuperem o mais rápido possível sua integridade física e moral.

Cuidar é doar, amar, se colocar no lugar do outro.

Quando estou, por exemplo, acompanhando um trabalho de Parto, me entrego totalmente a este processo. A mulher precisa de mim inteira, conectada, apoiando, mostrando confiança. Trabalho para que esta pessoa que estou cuidando tenha um cuidado digno e respeitoso.

SITE NEIPIES: O que significa conciliar o trabalho de Enfermagem Obstétrica e de Doula com o trabalho de ensinar os fundamentos da profissão, como professora?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Incluiria aqui o papel de mãe, que amo e é grandioso. Vejo que tudo tem uma ligação, não tem como desconectar.  Nosso cuidado está sempre ligado ao ensino, emeducação continuada, em promover a saúde e bem estar.

Como enfermeira assistencial, enfermeira obstétrica, professora, doula, minha caminhada também foi e ainda é muito voltada a área materno infantil, sempre no intuito de melhorar a assistência obstétrica e neonatal e iniciativas de resgate e estímulo ao parto natural que vem ao encontro com as ações propostas do Ministério da Saúde e outros órgãos como OMS e OPAS.

Através da enfermagem na defesa da saúde materno-infantil, aleitamento materno e educação permanente. Através da Bem Acolher segui mais focada aos cursos para casais grávidos e capacitação para profissionais que atuam com o atendimento de gestações, parto e pós-parto. Também na assistência de enfermagem obstétrica para gestantes e parturientes na hospitalização e no domicílio, durante o parto natural, cesarianas e período pós nascimento. Sempre estou comprometida com a atuação ética e humanizada. Todos os serviços desenvolvidos respeitam e buscam um equilíbrio com equipe multidisciplinar,

SITE NEIPIES: Durante a pandemia e a crise do isolamento social, qual é a importância do trabalho dos enfermeiros e enfermeiras, sobretudo nos postos de saúde e hospitais?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Vejo que é um grande desafio aos colegas que se encontram nesta linha de frente. Eu, como enfermeira, não atuo mais diretamente como funcionária de instituições hospitalares ou públicas. Como mencionei, sou enfermeira obstetra e hoje desenvolvo meu trabalho atuando num serviço no qual sou idealizadora, que é a BEM ACOLHER- Atendimento obstétrico de enfermagem, diretamente com gestantes, casais grávidos, mães com seus bebês, consultoria em amamentação etc..

Na pandemia, o desafio é estar cuidando destas gestantes no nascimento e pós nascimento. Estamos tendo dificuldades em entrar em algumas instituições, pois o protocolo é apenas um acompanhante por gestante, que no caso será o companheiro (a), esposo.

Mas seguimos realizando partos humanizados onde está sendo possível e amparando estes casais, pois, pelo isolamento social, ficam sem o suporte de suas famílias no auxílio dos cuidados com a mãe e bebê, cuidados domésticos etc, o que acaba sobrecarregando esta mulher que acabou de ter seu filho. Este é um momento de muita necessidade de apoio afetivo, emocional e físico. Então, para nós da enfermagem, se faz necessário seguir com nosso cuidado técnico-científico e amoroso.

Como classe, vale pensarmos em como as autoridades em saúde, as instituições, sindicatos, Conselho de Enfermagem estão pensando no suporte de cuidados a nós profissionais. Que perspectivas, que projetos, o que a legislação está prevendo para cuidar dos profissionais de enfermagem que estão nesta pandemia? 

Como será o cuidado de quem cuida? Que ações estão sendo desenvolvidas dentro do ambiente de trabalho para que promovam a saúde física e mental destas enfermeiras (os)?  Suas famílias estão recebendo apoio psíquico e emocional?

O cuidador enfrenta diversas situações e fatores no ambiente de trabalho que afetam a sua integridade física, psíquica e emocional. Este é um questionamento importante de ser feito: que suporte está recebendo?



SITE NEIPIES: Como imaginas o futuro da enfermagem no pós pandemia?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Sairemos fortalecidos, pois para a classe da Enfermagem, esta pandemia veio a fortalecer nosso compromisso de CUIDAR.

Nossa percursora da enfermagem, criadora da primeira escola de Enfermagem, FLORENCE NITGHALE, se destacou por cuidar de feridos em batalhas, ficando famosa na Guerra da Criméia. Em 1854, durante a Guerra da Crimeia, quando a o Inglaterra, França e Turquia enfrentaram a Rússia, Florence foi levada ao campo de batalha, onde assumiu a chefia do corpo de Enfermagem do exército britânico na Turquia. Alarmada com o alto índice de mortalidade causado pelo tifo e pela cólera, concluiu que as doenças hospitalares estavam matando mais do que os campos de batalha.

Com uma coleta constante de dados e aplicando os métodos de Quetelet, Nightingale organizou registros e estatísticas montando diagramas de área onde visualizou, mês a mês, que o rigor na assepsia fazia decrescer as mortes por infecção. Seu trabalho baseado em evidência foi responsável pela diminuição de mais de 70% das mortes de soldados feridos em batalhas, por decorrências de atendimento médico inadequado da época.  E cá estamos nós, de novo na linha de frente, no enfrentamento de uma pandemia, tratando de doentes desta pandemia, adoecendo também e muitos perdendo a vida nesta caminhada.

Como profissionais de saúde, entendo que situações como esta nos trazem, como classe, muitos questionamentos, amadurecimento, revisões de nossas funções e condutas e, principalmente, novos horizontes no cuidado, incluindo além de cuidar, muito mais espaço para o ensino e pesquisa.

SITE NEIPIES: Na tua visão, como sairemos desta pandemia? Que ensinamentos podemos levar deste período de imposição do isolamento físico e social?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Eu acredito Nei, que depende como a encaramos. Se persistirmos com medo, pensamentos negativos, será mais delicado. O que vejo, é que temos muitas inseguranças quanto a questão de nossa integridade física e mental, quanto a questões financeiras e, principalmente, quando terminará esta Pandemia, se teremos vacina para proteger toda população, etc…

O medo e as impossibilidades de prever o futuro estão permeando nossa sociedade. Não sabemos se estaremos livres de nos contaminarmos com o COVID- 19. É uma guerra de inimigo invisível. Temos amigos, conhecidos, pacientes, adoecendo, morrendo…isto nos deixa instáveis…

Ainda temos como conseqüências da pandemia outras doenças que o isolamento social  e físico  trazem, que podem estar sendo esquecidas: depressões, pânico, abandono etc.. Sairemos desta, quando e como?  Depende como encaramos o medo, as fragilidades e como desenvolvemos a Solidariedade. E, principalmente, como encaramos e nos relacionamos com nosso próprio EU, e nosso próprio lar.

Não entrar no fluxo energético de negativismo e medo e sim do Amor e Perseverança!

SITE NEIPIES: Uma frase que define tua vida.

Enfermeira Nelci Zorzi:  Duas frases: “A paz do mundo começa em mim”! E “Para mudar o mundo, é preciso antes mudar a forma de nascer” (Michel Odent – obstetra Humanista Francês)

SITE NEIPIES: Que mensagem aos que te lêem agora?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Dizer que acreditem em seu potencial, busquem seu propósito de vida!  A todos da Enfermagem: acreditem e valorizem sua profissão. Busquem vossa autonomia. Somos e seremos sempre uma profissão do Cuidado. Somos o nosso futuro!

Tomei como minha missão: “promover uma nova forma de nascer através de uma assistência adequada, humanizadora, acolhedora no período da gestação, nascimento e pós-nascimento, valorizando o ser humano em sua totalidade”.

Esta é a BEM ACOLHER, está é a NELCI!

Aula de língua-vida

Por que existe
língua portuguesa na escola?
Esteja certo que não é para
ensinar a língua, pois o aluno já sabe.
Ela deve servir para refletir o seu uso.


Numa tarde ensolarada de quarta-feira, estava eu com uma turma de Primeiro Ano do Ensino Médio trabalhando as convenções da escrita, numa das que considero uma das melhores turmas do Instituto Cecy Leite Costa, depois de algumas aulas anteriores ter discutido e refletido sobre a linguagem oral e a linguagem escrita.

Qual a postura que devemos ter ao usarmos a língua diante de uma linguagem e outra? Elas são diferentes?

Passamos pela reflexão sobre as redes sociais. Nas redes sociais usamos a oralidade, ou a escrita? Se estamos escrevendo, poderemos transcrever a fala, visto que usamos a escrita para a comunicação?

Poderia ser somente mais uma quarta na vida de um professor, que procura sempre trazer a reflexão da língua em uso, porém não foi. Porque nesta aula estava presente o aluno chamado Gustavo da Costa Gil e depois de toda essa sequência didática de reflexões linguísticas, já no final da aula, ele me questionou, através do chat, visto que estávamos numa aula na plataforma Google Classroom: – Professor, o que você acha sobre linguagem neutra.

Eu, sem muito pensar, respondi que linguagem neutra não existe.

Gustavo me interrompeu e tentou explicar: – É que assim professor, na internet e em outros escritos as pessoas usam, exemplo, brasileiro ou brasileiros, você tira o “o” e coloca um “e”, ou um “x” que dá a interpretação que não tem um gênero definido, para uma pessoa “cis” ou não binária, isso é importante. Isso mudaria muito a linguística, no quesito linguagem escrita?

Retomei a palavra e disse que, na verdade, então eu não tinha entendido muito bem o que ele quis dizer com linguagem neutra porque a neutralidade não existe, linguagem neutra não é possível de ser concebida porque qualquer palavra que eu utilizar eu já não estou sendo neutro e eu tinha entendido por esse lado.

Continuei dizendo que na verdade o que ele tinha me perguntado não tem nenhuma neutralidade, aliás, quando você usa na linguagem escrita um “x” você está sendo muito ideológico, porque isso representa uma questão de respeito com as pessoas que não se sentem de dois gêneros, entre o masculino e o feminino. Nesse sentido, a linguagem também vai modificando.

Vocês viram no texto que trabalhamos, de 1500 para cá tudo vai mudando, porque as coisas, as inovações impulsionam a sociedade e a linguagem muda, pois é a língua em uso na sociedade, assim, conforme os costumes, as coisas vão mudando, os valores, a linguagem vai acompanhando. E o que eu, enquanto linguista, posso dizer que isso é uma tentativa de contemplar algumas pessoas, que é legítimo àquelas que não se sentem do gênero binário. Ah, você é mulher, ou não, você é homem. Isso é para considerar.  Porque você sabe que na língua qual gênero predomina nas regras? O masculino. 

Portanto, aquele “x” é para dizer que eu estou abarcando todo gênero possível, é a diversidade de gênero. Isso vai acabar sendo aceito pela convenção de uma comunidade linguística e quando isso acontece a escrita muda. Gustavo, e essa linguagem não é neutra.  Isso demonstra que os jovens estão atentos e eu fico muito feliz, por você me fazer essa pergunta na minha aula de português, na qual estamos trabalhando a reflexão das convenções da escrita. O aluno contribui com minha fala dizendo que ele entendeu e inclusive concordava comigo.

Retomo a fala e digo que ninguém precisava concordar comigo, mas que nós, Gustavo, principalmente, vocês da geração mais jovem, que já têm uma mente mais aberta têm de respeitar essa linguagem e, inclusive, aderir a essa escrita, porque quem somos nós para julgar ou tachar um enquadramento linguístico?

Nada mais justo que colocar um X que respeita todos os gêneros e que essas pessoas se sentem incluídos, num momento que clamamos tanto por inclusão, pois nós já passamos por muita exclusão neste país e no mundo.  Não é possível que a gente continue excluindo?

Gustavo me toma a palavra para me deixar de boca caída: – É professor, como o senhor disse, é possível a mudança das nossas regras e eu acho que seria bem aceito também essa mudança, porque como a nossa língua se utiliza muito de gênero, principalmente, o masculino, coisa que em muitas outras línguas não há, não faz tanta diferença, por isso, a base pode ser desconstruída e pode ser fragmentada em vários horizontes. Isso poderá até facilitar o uso da língua portuguesa.

Com essa lição, reforço, portanto, que essa é uma verdadeira aula de linguagem, língua em uso, língua-vida, pois é aula que ajuda o estudante a refletir sobre sua língua.

Por que existe aula de língua portuguesa na escola? Esteja certo que não é para ensinar a língua, pois o aluno já sabe. Ela deve servir para refletir o seu uso. Poderia ser mais uma quarta, não foi. Foi o inverno que se transformou em primavera.

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