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Professor

Um professor sempre será melhor do que o Google.
Porque o professor não dá uma informação, conta histórias.
Porque o professor funciona mesmo sem Wi-Fi, mesmo sem luz, mesmo no temporal.
Porque o professor não facilita a busca, exercita a memória.
Porque o professor não cria dependência, mas possibilita amizades.

Porque o professor pode mudar o destino de um assunto, voltar atrás, recomeçar de novo, dependendo das necessidades da turma.

Porque o professor não realiza só o que você deseja, vai além com detalhes e comparações.
Porque o professor lê a sua alma quando levanta o dedo para a pergunta, não apenas recebe uma dúvida.
Porque o professor também se importa com aquilo que não entendeu mais do que aquilo que quis perguntar.
Porque o professor escolhe falar do que ama. Você não está apenas tendo uma aula sobre um conteúdo, e sim testemunhando uma história de amor.
Porque o professor não coloca o seu salário acima da vocação, não coloca as circunstâncias acima dos indivíduos.

Porque o professor não julga, é todo feito para compreender, e enxerga a nota como um retrato provisório de sua curiosidade. Aposta na recuperação milagrosa quando nem mais a família tem esperança.

Porque o professor não pratica nenhuma competição, não patenteia as suas frases, não sonega o que viveu, repassa tudo o que assimilou na carreira.
Porque o professor vislumbra o que você pode vir a ser, não se fixa em sua idade.
Porque o professor já foi aluno e entende que a atenção é resultado da confiança.
Porque, quando dá as costas, o professor continua enxergando com os ouvidos.
Porque o professor não tem pressa, já que cada um tem o seu ritmo.
Porque o professor não é onipotente. Faz humor quando erra. Você aprende a ser humano como ele.
Porque o professor fica feliz quando alguém demonstra saber mais do que ele.

Porque o professor realiza trabalhos em grupo para os alunos se admirarem pelo conhecimento.
Porque o professor cede o seu espaço para apresentações, torcendo para que um aluno goste de ser professor no futuro.

Porque o professor sofre com elegância. Nunca saberá quando está triste. Ele inspira a seguir adiante ainda que sem ânimo, a não parar a rotina devido a algum descontentamento.
Porque o professor é o próprio livro falado, encadernado de expectativas que vá até o fim.
Porque o professor repassa a lista de chamada para você se pertencer dia após dia.
Porque o professor diferencia a ignorância da burrice. Ignorância é falta de vontade, burrice termina com o esforço.
Porque o professor corrige as suas provas com comentários, personalizando as falhas e os acertos.
Porque o professor acredita em você. O Google acredita apenas em algoritmos.

Fonte: (Jornal Zero Hora, 24/9/2019)
Autor: Fabrício Carpinejar é jornalista, poeta, cronista e colunista de Zero Hora
Foto: Divulgação/arquivo pessoal

Águia não captura moscas

É grave demais a situação
nacional da pandemia.
Então, é hora de mirar-se
no exemplo da águia,
neste rude momento.


O estado de alerta estabelecido em todo planeta pela ação implacável da pandemia tem precipitado manifestações que se sobrepõem ao senso coletivo. A doença que aflige o mundo não estaciona para aguardar solução de equívocos dos combatentes. As cautelas promovidas pelas instituições empenhadas na preservação são conhecidas e indicam o caminho possível. Mesmo assim, a contaminação, com a gravidade da morte, persiste assombrando o que temos de mais imediato: a vida! É redundante dizermos isso, mas reprisamos a preocupação que aflige pessoas, em todos os lugares e em diferentes circunstâncias.

A situação social já existente antes do coronavírus mostra efeitos mais graves por conta da falta de condições de subsistência nas famílias. Em tempo algum seria tolerável a miséria das condições sanitárias que afetam respeitável massa humana nas periferias da cidade.

A estrutura heróica que o Brasil mantém no atendimento médico, é preciso mencionar, apresenta resultados esperançosos com o grande número de curas. Se a contaminação pressiona em desespero e assola com as mortes persistentes, as curas regam a crença de que sempre podemos resistir ao mal invisível.

A par dos efeitos desta situação paralisante da vida que considerávamos normal, no entanto, há outro efeito grave. Em meio à tantas incertezas, acumula-se o descontrole emocional, alteração psicológica, medo, dificuldade financeira e tudo o que ansiedade gera por si só.

A chicana do ódio ergue-se oportunista contra as emoções e resistências do bem. São sentimentos do bem ou do mal que afloram com força imprevisível. Felizmente são incontáveis as ações que brotam no meio do povo como compaixão. Esta mantém o alento à luta diária dos núcleos familiares.

Propositadamente, insistimos na inarredável necessidade de mantermos o foco no combate ao vírus. Isso, no entanto, é amplo diante de tantas obrigações prioritárias. É inegável que o atrito familiar acresce muito, especialmente nos casos em que aparecem como vítimas a criança e a mulher.

Ao mesmo tempo o a tragédia ambiental com o incêndio na floresta amazônica destrói a natureza e afeta a qualidade de nossa respiração. Equacionar esses focos desastrosos é mais do que urgente e agravam o custo do combate ao Covid-19. As vias de comunicação que globalizam a informação sobre os continentes mostram que até entre países mais ricos e tecnologicamente exuberantes não foi encontrada a forma de vencer a pandemia, nem o desemprego.

O diferencial mais evidente nesse tratamento global é o próprio enfrentamento da realidade. O negacionismo é o pior conselheiro dos povos, nesta hora. Os países mais ricos, como Inglaterra e Alemanha, superaram esta fase, tentados a negar o perigo real da doença.

A concentração de objetivo no combate assemelha-se ao hábito da águia que alça vôo com objetivo de buscar sua presa. O que faz a águia? Pois é. Aguça o melhor de sua capacidade de visão para buscar seu alimento. Não dispersa suas potencialidades em pequenos insetos. Não procede como fazem algumas lideranças públicas, ou poderosos do mundo financeiro, vagando por interesses paralelos.

Vejam o que faz o propósito eleitoral. Trump nega o gravíssimo quadro de contaminação no império ianque e sai dispersando insensatez, visando vantagens eleitorais.

No Brasil, o presidente e companhia soltam frases inúteis e estúpidas para negar a gravidade dos fatos. Leviandades como gripezinha, no caso da pandemia, ou apontando índios e caboclos como causadores do devastador incêndio no pantanal ou floresta.

Esquece dos predadores ambientais que desmatam ardilosamente e tocam fogo na madeira tombada. Preocupa-se em apoiar a disputa eleitoral de Trump, e autoriza importação de arroz. Dispensa tratativas sabujas ao privilegiado líder. É grave demais a situação nacional da pandemia. Então, é hora de mirar-se no exemplo da águia, neste rude momento. Ela segue firme com olhar fixo. Por isso diz o adágio popular romano: “Aquila non capit muscas” (a águia não captura moscas).

Reflexões sobre religião e política

O surgimento de novos atores religiosos no Brasil
mostra que o País não é uma nação totalmente
católica e que comporta a pluralidade de
identidades religiosas, apesar de, ainda,
a maioria ser de vertentes cristãs.


Andando pelas ruas dos centros urbanos dos municípios brasileiros, notam-se templos evangélicos, igrejas católicas, associações islâmicas, centros esotéricos, instituições espíritas e organizações das religiões africanas repletos de pessoas que buscam respostas para suas necessidades cotidianas.

Os veículos de comunicação tornaram-se alvos prediletos das lideranças religiosas. Não são raras às vezes em que, vendo um canal de televisão, lendo um jornal, navegando na internet ou sintonizando uma emissora de rádio, encontra-se uma exaustiva e extensa programação religiosa com o objetivo de angariar mais fiéis. Com promessas de curas, milagres, libertações e, sobretudo, ascensão financeira e social, as programações religiosas, principalmente as pentecostais, ocupam horários até então impensáveis nos mais diversos meios de comunicação.

No campo caritativo, existem inúmeras iniciativas filantrópicas que, em nome de um ethos religioso, realizam obras sociais. Podem-se citar, como exemplos, o trabalho com dependentes químicos e/ou a recuperação de alcoólatras, a ajuda financeira a mendigos, famílias carentes e instituições sociais, e os trabalhos voluntários desenvolvidos em hospitais, presídios, creches e escolas, dentre outros.

O mercado editorial tem-se surpreendido com o número elevado de vendas de livros, os quais fornecem conselhos e conforto espiritual para os problemas da humanidade, a exemplo de produções no campo da autoajuda ou, até mesmo, de publicações católicas (livros do Padre Jonas) e evangélicas (livros do bispo Edir Macedo). No campo fonográfico, grupos gospel e padres cantores fazem shows pelo mundo inteiro arrebanhando milhares de fãs. Dentre eles, estão: Padre Marcelo Rossi, Padre Fábio de Mello, Diante do Trono, Oficina G3 e Toque no Altar.

Percebe-se, também, a entrada de diversas denominações religiosas no processo eleitoral brasileiro. O intuito dessas instituições religiosas em eleger seus representantes, seja para cargos executivos ou para cargos legislativos, é propor projetos de lei de acordo com seus dogmas e valores, favorecendo suas práticas religiosas, e usar a estrutura estatal para expansão de suas atividades e, consequentemente, obtenção de novos adeptos, dentre outras razões.

O surgimento de novos atores religiosos, no Brasil mostra que o País não é uma nação totalmente católica, e que comporta a pluralidade de identidades religiosas, apesar de, ainda, a maioria ser de vertentes cristãs.

Percebe-se que nas últimas décadas é notória a queda não apenas do número de adeptos do catolicismo, mais também, sua influência em todos os setores da sociedade brasileira. Se antes ditava as regras nas relações políticas, econômicas e de outros segmentos em função do seu monopólio no campo religioso, hoje, precisa conviver e disputar espaços de influência e de decisão com outras vertentes religiosas, a exemplo dos grupos pentecostais e neopentecostais.

O campo religioso passa por processo de transformação nas últimas décadas.

O País passa a conviver com um pluralismo religioso cada vez mais intenso, e o crescimento de outras vertentes cristãs e os sem religião. Paralelamente a isso, percebe-se o aumento de novas ofertas  religiosas,  denominados novos movimentos religiosos, aumento da liberdade religiosa e liberdade de culto. Nunca se vivenciou no Brasil antes o direito de o cidadão ter ou não uma religião, ou escolher como viver suas experiências com o sagrado.

Com o crescimento de outros grupos religiosos, a Igreja Católica passa a dividir um espaço que antes tinha apenas a sua presença. No tocante à política, o Estado Brasileiro passa a levar em consideração o potencial eleitoral dos grupos evangélicos, os quais, por meio de partidos, igrejas e associações conseguem emplacar seus representantes. Grupos como espíritas, religiões de matrizes africanas e religiões orientais começam a adentrar aos setores dos meios de comunicação para divulgar as suas propostas religiosas, dentre outros exemplos.

Em função do contexto concorrencial, a Igreja Católica se vê obrigada a redefinir as formas que se relaciona com a sociedade como um todo. Novas estratégias começam a ser desenvolvidas por padres, bispos e leigos para permanecerem atuantes junto aos fiéis e às instituições brasileiras.

No âmbito da política partidária que se percebe uma mudança notável na presença dos setores do catolicismo.

Os evangélicos pentecostais têm se destacado nesta prática. Para eleger seus representantes, Igrejas como Universal do Reino de Deus, Internacional da Graça e Assembleia de Deus, desde o findar da década de 1980, têm utilizado seus veículos de comunicação para expor a imagem dos candidatos, fazem propaganda política nos eventos religiosos, têm membros de suas igrejas como cabos eleitorais, investem financeiramente nas campanhas eleitorais, além de outros meios. Para a autora, essas práticas consistem no “jeito” evangélico de fazer política.

O crescimento dos grupos evangélicos na política partidária, informa que essas instituições religiosas trabalham com “candidaturas oficiais”. É comum que os conselhos das igrejas escolham e apoiem, explicitamente, determinados parlamentares. Isso é uma prática recorrente na Igreja Universal do Reino de Deus e tem sido imitada por outras Igrejas a partir dos anos 2000. Com este avanço dos pentecostais evangélicos na esfera política e, consequentemente, a perda de influência da Igreja Católica junto ao poder público, os católicos têm se organizado e tentado eleger seus representantes na defesa dos seus interesses. Para este fim, a Renovação Carismática Católica tem se destacado neste sentido.

Os carismáticos surgem na década de 1960 nos Estados Unidos, num contexto de competição religiosa com outros movimentos religiosos buscando influenciar cada vez mais as decisões no espaço público. A partir do seu nascimento e expansão para outros países, muitos setores do catolicismo têm investido em suas dioceses para atrair novos adeptos à sua religião e evitar a fuga de católicos para outros grupos religiosos.

No Brasil, desde o início das atividades, no final dos anos 1960, os carismáticos, por meio de grupos de oração, missas de cura e libertação, e com o surgimento de novas comunidades  católicas  de  inspiração  carismática,  têm  conseguido  atrair  centenas e milhares de pessoas para seus eventos de massa e muitos têm se identificado e trabalhar para a divulgação de seus ideários.

É comum nas atividades realizadas pela RCC o uso de uma linguagem simples, objetiva e um intenso uso da emoção. Recorre-se a cantos, extensos momentos de oração, uso de expressões corporais e apresentações de teatro e dança para tornar seus eventos mais atrativos. As palestras proferidas pelas lideranças carismáticas sempre possuem uma mensagem para oferecer respostas aos problemas diários das pessoas. Isso permite que o conteúdo católico repassado possa oferecer respostas para os problemas cotidianos do público-alvo ou ajudá-lo a lidar com as dificuldades do dia a dia.

Nas atividades carismáticas é comum a ajuda comunitária. Não são raros os momentos em que os fiéis têm acesso a aconselhamentos, direcionamentos para lidarem com determinadas situações e ainda, se for necessário, receberem ajuda financeira, alimentícia ou para suprir outras necessidades básicas.

O fato de a RCC poder contar com muitos ajudantes permite a ela desenvolver trabalhos mais específicos com determinados segmentos da sociedade. Por exemplo, no estado de São Paulo é normal existirem trabalhos com famílias, universitários, crianças, jovens e seminaristas. Dito de outra forma, em razão da sua estrutura burocrática, do apoio de setores do clero, dos muitos militantes, do acesso a veículos de comunicação, dentre outros fatores, os carismáticos do Brasil conseguem desenvolver muitas atividades ao mesmo tempo com grupos diferentes, e assim ramificar suas ações em diversos lugares.

Por outro lado, nem todos os setores da Igreja Católica apoiam a existência dos carismáticos. Setores mais conservadores, a exemplo dos tridentinos, criticam o carismatismo católico e o fato de o movimento ser muito parecido com os pentecostais – e assim ter o objetivo de mudar a tradição da Igreja Católica ou mesmo se emancipar e criar uma instituição religiosa autônoma.

Outro grupo católico muito crítico dos carismáticos é a ala progressista. Liderada pelas comunidades eclesiais de base (CEBs) e as pastorais sociais, esta ala reforça a ideia de que os carismáticos são caracterizados por uma religiosidade intimista, emocionalista, alienante e apenas oracional, não preocupada com as questões socioeconômicas do Brasil, lutas de classe ou com os problemas trazidos pelo capitalismo. Logo, haveria uma não haveria preocupação por parte dos carismáticos em modificar as mazelas sociais do Brasil, já que o máximo de social exercido por eles é no campo do assistencialismo.

Os carismáticos e os pentecostais são muito parecidos. Ambos possuem o fundamento dos dons do Espírito Santo, que seriam o uso das orações em línguas (glossolália), espontaneidade nas orações, recorrentes orações por busca de curas físicas e emocionais, milagres, exorcismo, uso de instrumentos musicais, uso de aspectos culturais locais em suas atividades e atuação política em torno de temáticas conservadoras. Porém, o fato de ambos serem de instituições religiosas diferentes acaba gerando uma competição acirrada.

No campo político, os católicos carismáticos têm conseguido eleger vereadores, prefeitos, vice-prefeitos, deputados estaduais, deputados federais e, em outros momentos, apoiar candidatos a governos de estados, ao senado e à presidência da república, sendo o político mais expressivo o atual Deputado Federal Gabriel Chalita. Além disso, oficialmente, a RCC tem se posicionado, claramente, quanto às questões relativas ao aborto, casamento gay, eutanásia, partidos de esquerda, sensibilizado seus membros a votarem em candidatos apoiados oficialmente e tentado influenciar juízes para deliberar favoravelmente sobre seus interesses.

Em outra reflexão publicada no site, defendemos que “o Brasil historicamente avançou, em parte, na liberdade religiosa. Não temos mais uma religião oficial. As pessoas em suas casas possuem certa autonomia para praticarem ou não uma religião ou espiritualidade. Mas, ao olharmos as questões públicas não é bem assim. As decisões políticas beneficiam católicos e evangélicos. Exemplos: partidos confessionais, bancadas religiosas, concessão de rádio e tv, feriados religiosos, financiamento público em projetos religiosos, dentre outras situações. Esperamos que a situação supracitada modifique, com a atuação de todos nós, a favor da liberdade religiosa”. Leia mais aqui.

É primavera

Sejamos como as abelhas que polinizam a vida.
É tempo de deixar para trás o inverno que
tocou nossas almas e abrir-se para este novo e
intenso tempo pleno de novas possibilidades.


Simplesmente não há como falar sobre a primavera, sem lembrar destes versos de Beto Guedes: “Quando entrar setembro/E boa nova andar no campos/Quero ver brotar o perdão/Onde a gente plantou/Já sonhamos juntos/Semeando as canções ao vento/Quero ver crescer nossa voz/No que falta sonhar”.

Ouça e veja:

A letra de Sol de Primavera nos leva a refletir que cada estação conduz a diferentes posturas e a novos aprendizados. Esta é a estação que remete a despedidas. As paisagens frias, as árvores despidas, dão lugar aos tons quentes e a explosão das flores.

É chegado o tempo da reprodução, do acasalamento, da fertilidade. A beleza toma conta dos jardins e dos bosques. O canto do Sabiá ressoa, saudando o momento em que a vida se refaz em toda sua intensidade e beleza.

E continuo ouvindo Beto Guedes: “Já choramos muito/Muitos se perderam no caminho/Mesmo assim não custa inventar/Uma nova canção/Que venha nos trazer/Sol de Primavera”.

Nestes tempos obscuros, que a primavera nos inspire superar os momentos hibernais, em que tudo parece estar aparentemente sem vida, e nos traga, ao lado das flores, lufadas de esperança e de novas energias.

“Abre as janelas do meu peito/A lição sabemos de cor/Só nos resta aprender”.

Belos e inspiradores versos do mineiro. Que a primavera nos leve a acreditar em novas possibilidades.

Que, como o pólen que fertiliza os campos, possamos levar a mensagem de esperança de novos tempos às mente e corações que acreditam na possibilidade de renovação, de novos sentimentos, de florir.

Sejamos como as abelhas que polinizam a vida. É tempo de deixar para trás o inverno que tocou nossas almas e abrir-se para este novo e intenso tempo pleno de novas possibilidades.

Como Tim Maia, vamos cantar alto:

“É primavera
Trago esta rosa
Para te dar
Meu amor
Hoje o sol está tão lindo”.

Educadores que brilham. Brilham por quê?

Sandra Castro é uma desbravadora
do mundo online desde 2016.
Criadora e fundadora da empresa educacional
“Educadores que Brilham”, leva autoconhecimento
às escolas e educação emocional aos
protagonistas da educação.


Uma apaixonada por pessoas, é mentora de vida e de mudança pessoal. Ajuda o ser humano a encontrar sua verdadeira missão, seu propósito nesse mundão cheio de possibilidades. Faz isso através do fortalecimento do Eu, da cura e da expansão de consciência.

Autora de dois e-books e do livro de bolso “Sementes de um Educador que Brilha”. Ama o que faz e, é por isso, que vai te ensinar a também amar a vida e seu trabalho e vibrar por todas as mudanças que irão começar a acontecer com você a partir deste processo incrível de virada.

Pedagoga de formação, é formadora de professores desde 2007 e fala sobre inteligência emocional, competências e habilidades emocionais, sobre essência e tudo o mais que diz respeito ao desenvolvimento pessoal e profissional do educador.

Conheçamos Sandra Castro, por ela mesma.

***

SITE NEIPIES: Como, quando e porque abraçaste a educação?

SANDRA CASTRO: A educação está em mim desde a infância, quando costumava brincar com minhas bonecas, onde eu era a professora delas….risos. Mais adiante, em uma conversa sincera com meu pai, ainda no ensino médio, para escolher uma profissão a seguir, parece que foi ontem, quando ouvi ele me dizer: “Filha, faz magistério. A educação, em algum momento, ainda será um bem muito valioso.” Aquilo foi tão expressivo que, em momento algum, duvidei das palavras de meu pai e, como podem ver, até hoje sigo firme nesta jornada. É na educação que está meu propósito de levar mais amor para dentro das escolas, sensibilidade e inteligência intrapessoal, através do autoconhecimento e da Inteligência Emocional. Abraçar a educação é o mesmo que abraçar um filho, muito próximo de um amor incondicional pela profissão.

SITE NEIPIES: Por que Educadores brilham? Brilham por quê?

SANDRA CASTRO: O termo “Brilham” surgiu da junção entre dois mundos que andam em paralelo, mas que ao mesmo tempo, ainda se divergem pelas redundâncias da vida. O brilhar faz conexão com a estrela, que quando colocada em primeiro plano, vê-se sua luz brilhante em todos os lugares e espaços da qual ocupa. Fazer essa analogia, foi o que me fez criar o nome Educadores que Brilham. É a união da razão com a emoção para um avançar em sincronicidade para o bem do que podemos fazer de mais valioso e significativo com e na educação.

Todos temos talentos e habilidades e, com o Educador que Brilha, não é diferente. O “brilham” surgiu da necessidade de perceber que os talentos, quando aprimorados, reacendem o nosso poder de realização e de criatividade. O potencial está para todos, com o Educador que Brilha, este potencial é reconhecido e validado.

SITE NEIPIES: Nestes 20 anos de atuação em educação, sobretudo em palestras para professores e professoras, pais e mães, qual foi a principal mensagem que difundiste?

SANDRA CASTRO: A mensagem mais promissora é a do significado que damos à vida e ao que estamos fazendo dela enquanto nos permitem estar aqui. Sem valores claros, não há possibilidades de construção de bases sólidas que vão nortear todo o trabalho que se realiza. Portanto, a melhor e mais difundida mensagem é aquela que toca os corações e que, a partir disso, nos engrandece e nos possibilita sermos pessoas atuantes e brilhantes.

SITE NEIPIES: Qual é o desafio da educação, em tempos de isolamento físico e social? Como fica o brilho dos professores, agora “atuando” nas telas virtuais?

SANDRA CASTRO: Aqui uma chamada muito especial: o que te difere dos outros profissionais que também estão usufruindo, neste momento com mais intensidade, o alcance das redes sociais e das tecnologias digitais? Ampliar o olhar para além do que conseguimos ver, permitir usar a força criativa para fazer mais e melhor e, aproveitar esse recurso, para impactar vidas. A modalidade, neste sentido, não tem relevância, pois não colocamos “peso” nela e, sim, como estamos aproveitando esse momento para fazer acontecer na educação.

SITE NEIPIES: Por que a educação deve promover a humanização?  O que é humanização?

SANDRA CASTRO: Humanização é tornar humano a outra pessoa, é conseguir olhar além do que os olhos conseguem enxergar, e colocar–se em sensibilidade na escuta ao outro. Para isso, não há julgamentos, apenas o olhar afetivo que ao encontrar outro olhar, se reconhecem, como humanos, pois somos humanos em aprendizado constante.

SITE NEIPIES: O que significa a palavra Educadores? Por que somos educadores?

SANDRA CASTRO: A palavra Educadores tem uma conotação própria e única. Ela é especial, porque ao nos colocarmos como protagonistas da educação, nos deparamos com diferentes cenários, perfis de pessoas, de comportamento, de jeito de ser e de fazer o trabalho docente. Se não formos educadores, ser somente professores, nos remete a específica missão de ensinar e educadores é muito mais do que somente ensinar, é mergulhar no universo do outro e experienciar a sua realidade para nos enriquecer e nos ensinar. 

O que fazemos com o que aprendemos, define o que é Ser Educador.  Portanto, Educador aprende muito mais e ensina a partir das diferentes percepções da realidade que o circunda.

SITE NEIPIES: Na tua percepção, os professores ou educadores cuidam suficientemente de si? Ou descuidam de si cuidando dos outros (no caso estudantes)? Eles tem consciência da importância da saúde psíquica e emocional para exercerem bem sua profissão?

SANDRA CASTRO: Aqui criamos um incrível dilema: equilibrar vida pessoal da vida profissional. A gestão das emoções é a baliza que dá sustentação ao nosso trabalho como professores que somos. A auto-observação nos faz grandes em um cenário de incertezas do qual estamos a viver nesse momento. Cuidar de si é o autovalor que todo o Educador merece abrir espaço e se reconstruir a partir de suas próprias necessidades e demandas emocionais.

SITE NEIPIES: Como foi tua experiência na edição e publicação de teus dois livros? Por que é tão importante os professores escreverem sobre educação?

SANDRA CASTRO: Na escrita é possível deixar a mensagem ir se desenhando e dando forma. Saborear cada palavra, frase e contexto é muito prazeroso. Sempre me deixei levar pela intuição nos processos de escrita e, também, utilizando de minha própria experiência como educadora que já perpassou por todos os níveis e modalidades de ensino, das conversas e interações com colegas da profissão e com leituras, estudos e pesquisa na área. Escrever é um deleite para a alma e muito me honra ser protagonista desta ação em diferencial do que posso contribuir para um mundo melhor através de professores melhores, em saúde e em eficácia de seus trabalhos.

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos que leem tua entrevista agora.

SANDRA CASTRO: Entrega o que consegue de melhor, para isso, encontre no servir as possibilidades de criar os instrumentos e ferramentas que te qualificarão como um ser humano nobre antes de ser um professor por profissão. Servir para então construir, servir para Ser, servir para crescer, por fim, servir para ver frutificar. Como teu sido o teu plantio?

SITE NEIPIES: Uma frase que defina um pouco da sua vida, da tua história.

SANDRA CASTRO: Uma batalhadora nata, uma guardiã dos professores, uma desbravadora do mundo das emoções, uma reconstrutora da vida a partir do refinamento de seus recursos internos. É na reforma íntima que encontramos o nosso “elemento chave”, que é a combinação das habilidades naturais com a competência, que por sua vez, é o gostar do que se faz. Assim, evoluímos em consciência e em expansão de tudo que podemos ser.

SITE NEIPIES: Uma frase ou uma ideia que ajude a definir a educação neste momento histórico?

SANDRA CASTRO: Seja você, em naturalidade, em essência e, principalmente, olhe para si, do mesmo modo que gostaria que olhassem para você neste momento. Lembre-se, as emoções podem ser controladas, mas o que você faz com aquilo que você tem em mente agora pertence ao tanto de valor que você está qualificado a responder à vida e as pessoas que dependem de você neste tempo e espaço da vida.

A educação se faz com o que você ajuda a definí-la. Parafraseando o escritor Ken Robinson, “uma grande educação depende de um grande ensino”.

Cuide com carinho da mensagem que você tem ressoado a todos, pois o que você pensa de si mesmo impacta a partir da sua atuação neste mundo.


Você pode me encontrar por aqui

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BLOG: Blog de Sandra Castro, por aqui você encontra e chega nele.

Não pagaremos com nosso sangue pela incompetência dos que nos governam

Apesar da exclusão, apesar do cansaço, da ansiedade,
do estresse, apesar do descaso do Estado,
dos salários atrasados, do desrespeito
e da falta de reconhecimento,
nós preferimos viver.


Na espiral de acontecimentos absurdos que marcaram o país ao longo do ano, é difícil lembrar. Mas nós não esquecemos.

Em pronunciamento no dia 24 de março, exortando o extermínio do povo brasileiro em rede nacional, o presidente questionou – indignado – “por que fechar escolas?”

É como se perguntasse: por que salvar vidas? Por que proteger crianças, jovens, professores, funcionários e suas famílias? Por que não contaminar o país inteiro? Por que não matar os nossos idosos?

À época, afirmamos: temos um genocida no comando da nação. Em live na noite de 17 de setembro, o presidente confirmou sua vocação.

Criticou a atuação de sindicatos que defendem a vida, defendeu a abertura de escolas e desprezou os educadores que estão enfrentando jornadas de trabalho extenuantes, utilizando equipamentos próprios e pagando Internet sem receber um centavo a mais para garantir o direito à educação.

Apesar da exclusão, apesar do cansaço, da ansiedade, do estresse, apesar do descaso do Estado, dos salários atrasados, do desrespeito e da falta de reconhecimento, nós preferimos viver.

Bolsonaro não mudou. Nunca se responsabilizou pelo combate à pandemia, que já custou quase 140 mil vidas. Nunca combateu a exclusão digital. Nunca propôs qualquer política de reestruturação das escolas. Nunca assumiu o posto de presidente.

As escolas da rede pública também não mudaram. Faltam profissionais, faltam recursos financeiros e físicos, faltam testes, falta segurança. Neste cenário, sem vacina é chacina.

Nós, do CPERS, também não mudamos. A luta dos sindicatos é em defesa da escola pública, do direito à educação e por condições de trabalho e valorização profissional. Não fomos e não seremos cúmplices de um crime contra a humanidade.

Outros mudaram.

Convertidos em bolsonaristas tardios, Eduardo Leite, a Fundação Lemann, o Instituto Ayrton Senna e a imprensa hegemônica passaram a defender a abertura das escolas sem qualquer evidência ou vestígio de segurança.

Estes apologistas da morte ignoram o óbvio: a pandemia não está sob controle. Não há país no mundo que tenha retomado as atividades presenciais em condições semelhantes.

Vivemos em um estado e uma nação que desistiram de fazer o seu trabalho e passaram a responsabilizar pais e educadores(as) pela vida do seu povo.

Nós continuaremos fazendo o nosso trabalho, em segurança. Não pagaremos com nosso sangue pela incompetência dos que nos governam. Escolas fechadas, vidas preservadas.

Fora Bolsonaro e todo seu governo!

Professores são vagabundos

Se depender de nós, vagabundos, o ano não vai ser perdido,
porque improvisamos, com o que temos, em nossa casa.
Do governo, só cobrança, sem contrapartida.
Aliás, faz muitos anos que isso ocorre.
Continuamos sendo atacados
por não trabalharmos.


É mister que trabalhadores em educação sejam denominados vagabundos pois, mesmo recebendo há 5 anos o mesmo salário, e ainda parcelado, recentemente, impuseram uma lei que congela o mesmo por mais 5 anos. Vagabundos porque recebem pingado seu salário todo o mês, o mesmo de quando se pagava um quilo de banana R$ 0,99 que agora custa R$ 3,99. Vagabundos porque têm de sustentar a família vendo o gás de cozinha passar de R$ 37,00 para R$ 80,00, da gasolina de R$ 2,70,00 para R$ 4,70, ver o 5 quilos de arroz pular de R$ 8,00 para R$ 20,00 e ainda ter que engolir as estatística do governo argumentando que não há inflação.

O professor deve levar a vida errante, como diz a descrição de vagabundo no dicionário Aurélio, porque perde o sono por não ter o dinheiro para honrar seus compromissos, pois recebe pingado, enquanto o governo salva a vida não errante de banqueiros. E, se não quiser receber pingado, tem uma solução que ameniza o sono: vai ao banco e financia o seu próprio salário e arca com os juros abusivos do banco do próprio governo, que lucra em cima do funcionalismo.

O professor não trabalha. O professor nunca trabalhou, pois para projetos inovadores acontecerem nas escolas corre para a lojinha mais próxima da escola e compra o famoso TNT, que nem tecido é, mas faz acontecer. Mas para fazer bonito no dia da apresentação, a tinta para o rosto tem de ser de primeira para não provocar alergia no rosto dos estudantes; ele paga com seu dinheiro, isso tudo para fazer acontecer a educação.

O professor é acomodado. Isso todo mundo sabe. Faz seleção de mestrado e se vira como pode, se precisar passa até necessidade para se qualificar, pois a educação tem de ter qualidade, tem professor até doutor, pelo seu mérito, porque no plano de carreira está assegurado a dispensa para estudo. Só na lei, na prática é trabalhar e estudar sem nenhuma “regalia”.

Realmente, o professor não leva a sério seu trabalho. Se tem um evento, até da própria mantenedora, e ele necessita levar os alunos apresentar para fazer bonito, transporta os alunos em seu próprio carro. Se precisar, faz duas viagens e paga alimentação para os estudantes do seu próprio bolso.

Professor não trabalha. Ocupa-se das 60 horas na escola e em casa, se vira vendendo Avon, Natura, potes e até esfirra. E, quando um aluno que vem para o contra turno e não tem dinheiro para o almoço, o professor paga, nem que seja, um pastel, para não deixar frágil o projeto do turno integral que o governo implantou.

Oh, categoria sem compromisso! Quando o governo decide implantar as chamadas on-line. O professor que se espiche, se não tem um aparelho de celular que comporte o Aplicativo “Escola RS Professor”. Compre, parcele em 500 vezes. A internet é de seus dados móveis ou de sua rede de internet. Aguenta “boi de carga”, porque a educação tem de acontecer. Para mais tarde, o governo dizer que implantou. Que a educação evoluiu tecnologicamente. Mas às custas de quem?

“Professores são todos de esquerda”. Quando saem de madrugada, já quase sem força. Só a esperança no olhar. Embaixo de sol e chuva, para reivindicar o que é seu de direito. É de esquerda quando acha um ninho de pomba no pátio da escola, ensina os alunos a proteger a natureza. Faz projeto para conscientização do meio ambiente, enquanto a autoridade maior não está nem aí para as queimadas na Amazônia e no Pantanal. Aliás, a indícios que seja proposital acabar com “essa terra dos índios” que nem usam.

“Ficam em casa para não trabalhar”. Ah, a pandemia! É muito cômodo ficar em casa para não fazerem nada. Se não tiver um computador bom, compre. Se estragar o notebook, vire-se. Se sua internet não suportar aulas síncronas o problema é seu, dê um jeito de contratar outra mais potente. Se não domina determinadas tecnologias, aprenda. “É inadmissível perdemos o Ano Letivo”. (Detalhe: a conjugação desse verbo é autoral do discurso que ofende o professor)

“Ficam em casa e não trabalham”. São exigidos 3 planejamentos semanais: 1 para postar na sala da Coordenação, destinado a alunos sem acesso, 1 no drive da secretaria da Educação e outro para dar aulas síncronas. De 5 em 5 minutos, mais de 50 notificações e não importa a hora, você precisa dar retorno aos alunos. O grupo do whatsapp não para. E dá uma agonia, angústia, quando não damos conta de tantas coisas que nos são cobradas.

Realmente, nos damos conta que os profissionais da educação não trabalham: eles sobrevivem. Levam a educação brasileira nas costas. Porque projeto de governo não há para a educação. Há apenas uma exigência para que a educação ande às custas do próprio professor.

Se depender de nós, vagabundos, o ano não vai ser perdido, porque improvisamos, com o que temos, em nossa casa. Do governo, só cobrança, sem contrapartida. Aliás, faz muitos anos que isso ocorre. Mas continuamos sendo atacados por não trabalharmos. Será que denominação teria alguém que sempre ganhou altos salários há mais de 30 anos dizendo que estava trabalhando?

Em matéria publicada no site, professor Douglas Peretto, defendendo sua tese de que “matam os professores, aos poucos”, escreve, sobre sucesso e aceitação de sua reflexão: “acho que por abordar tema entalado na garganta de tantos profissionais da área. E também por tratá-lo de forma direta, mesclando linguagem formal e coloquial, usando emojis e até linguagem vulgar (no texto original tem um palavrão). O texto não deseja ser uma visão individual, mas uma voz daqueles que não aguentam mais serem colocados em caixas do pensamento”. Leia mais aqui.

“Estamos vivendo um novo luto?”

Publicado originalmente em Radis.

Radis conversou com a psicóloga Maria Helena Franco no dia exato em que ela completava três meses em casa — desde que começou a quarentena por conta da pandemia, havia saído à rua brevemente apenas quatro vezes. Cumprir o isolamento social não significa cruzar os braços para a grave situação que assola o país. Grande referência no tema da morte, inventou um mote que vem seguindo dia após dia: “Nós que podemos, devemos!” A fundadora do Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto (Lelu/PUC-SP) tem usado as tecnologias para amenizar a dor daqueles que tiveram a vida desordenada pela covid-19, com adoecimentos e perdas de parentes e amigos. Por meio do Instituto Maria Helena Franco de Psicologia, coordena um grupo de 20 psicólogos voluntários e oferece suporte emocional para quem está vivendo o trauma de mortes inesperadas. Também colabora com outras iniciativas parecidas, a exemplo da cartilha elaborada pelo Cepedes/Fiocruz sobre “processo de luto em contexto de covid-19”, da qual foi consultora. Em meio a inúmeras atividades, em um começo de noite de junho, concedeu esta entrevista sobre como viver o luto e a ausência dos rituais de despedida — ela também, a entrevista, uma espécie de acolhimento no momento em que o país extrapola o número de mil mortes por dia.

Pelo começo: o que é o luto? E que diferenças existem no luto experimentado em tempos de pandemia?

O luto é uma experiência natural que ocorre quando você tem um vínculo rompido. Quando você tem esse vínculo rompido, se inicia um processo de luto, que pode ter evidências facilmente detectáveis ou não. Você pode viver o luto no campo das emoções. Pode viver o luto no campo cognitivo — a pessoa pode ficar muito desatenta ou esquecer coisas. No campo da espiritualidade ou religiosidade, quanto ao significado da vida e da morte. E você pode também vivê-lo no campo social, quando se recolhe e não quer se aproximar de ninguém, por exemplo. O luto vai se expressar por todos esses âmbitos — geralmente, todos juntos e misturados. Agora, quando se pensa em contexto de covid, a gente está falando de contornos próprios. E uma pergunta que tenho me feito é: será que vem se desenhando um novo luto? Estamos vivendo um novo luto?

Por quê?

Porque tudo o que vem com esse tipo de morte compõe um jeito muito específico de luto. Ele reúne condições de outras formas de luto. Quando as pessoas vivem um luto, é muito comum a pergunta: Por que comigo? Por que em nossa família? Por que essa pessoa? No caso da covid-19, em que há muito fortemente a questão do contágio altíssimo, as pessoas têm se feito perguntas como: Será que contagiei alguém? Será que não higienizei direito as frutas? Será que não fiz isolamento e isso ocasionou a doença naquela pessoa? Como não pude evitar? No luto, a gente vê muito uma experiência, que denominamos de “reação do sobrevivente”, que é exatamente ilustrada por essa pergunta: Por que ela morreu e eu não morri? A reação do sobrevivente é muito encontrada em acidente na estrada. Por exemplo, o carro capota: o que aconteceu que a pessoa ao meu lado morreu e eu, não? Na covid, esse questionamento está muito presente. Se ele adoeceu por uma falha e foi por uma falha minha, eu vivo esse ressentimento de culpa. O que eu lhe digo: cada um desses recortes, aparece nos lutos sem ser por covid. Agora aqui, com a pandemia, a gente está encontrando eles juntos. Por isso, tenho pensando, que temos um novo luto. Além disso, essa construção de um significado passa muito pelos rituais e nesse momento há essa ausência dos rituais.

Como viver esse luto sem despedida ou rituais?

Adorei que você falou ‘como viver o luto’ em vez de ‘como superar o luto’. Porque o luto é para ser vivido. Não tem um by-pass que eu faça para chegar noutra fase. Ele não é um obstáculo a ser superado. Você precisa atravessá-lo, fazer questionamentos e, se não encontrar respostas, procurá-las de outro jeito. O que temos agora — e isso é muito específico de um momento de pandemia — é essa inexistência ou restrição dos rituais. Existe uma imposição sanitária e não podemos brincar com isso, é fato. Mas na ausência do ritual, você retira uma possibilidade importante de quem está vivendo o luto. O ritual permite que você honre a vida do morto. Ouvimos: ‘Fulano não merecia que tivesse tão pouca gente em sua despedida’. ‘Ele era muito querido. Se fosse em outra circunstância, muita gente estaria presente’. ‘Ele não merecia esse ritual asséptico, desprovido de emoção, desprovido de calor”, enfim. Os rituais são uma tradição, seja trazida pela cultura oral ou vicariante que oferece ao enlutado uma possibilidade muito importante de se reorganizar. Principalmente, diante dessas perguntas que a gente falou há pouco. O encontro do ritual é o lugar em que você pode abraçar outras pessoas que também estão fazendo essas perguntas. Podem até não ter uma resposta ali, mas estão juntos.

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E o que resta às famílias ‘atropeladas’ pela covid-19?  

A gente tem trabalhado muito com as possibilidades de rituais alternativos, criativos, intermediados pela tecnologia. É a mesma coisa? Não, não é. Mas, vamos para a página seguinte! Porque se a gente ficar nessa de “não é a mesma coisa”, a gente não segue adiante. A gente está vivendo muitos “nãos” agora. Acho importante irmos atrás do possível. Se for ficar no “não”, eu não saio do lugar. E se vou para o possível, de repente, pode acontecer algo. Então, é importante encontrar maneiras de engatar o “estamos juntos” e de estar com aqueles para quem eu não preciso contar nada, porque eles já sabem. Esse sentido de pertencer é muito importante para substituir o ritual do jeito que era.

Como o processo do luto não vivido pode agravar sofrimentos psíquicos? É possível dimensionar o que isso pode representar coletivamente?

Acho que posso te dizer de um sofrimento, de um luto, que talvez vá durar mais que a pandemia, porque ele é acrescido de mais mortes, de mais casos de pessoas conhecidas. Com esse número crescente, todo dia alguém fala de alguém conhecido que morreu por covid, isso vai chegando mais perto e tomando corpo. Porque eu ouvi aquela dor e ela se somou a esta e eu também posso estar diretamente afetado. Então, nós vamos ter um luto coletivo denso. Não sei medir isso. Quando digo que vai durar mais tempo que a pandemia é porque eu sei que ele vai necessitar de um tempo de elaboração maior.

Para concluir: o que essas perdas repentinas nos dizem da vida e da finitude?

Vou tomar emprestada uma fala do Mia Couto que ouvi ontem: A morte é como um umbigo [“A morte é como o umbigo: o quanto nela existe é a sua cicatriz, a lembrança de uma anterior existência”]. Ele diz isso para falar que ela é uma cicatriz que fica ali para dizer de uma outra vida que você teve antes daquela ruptura. É isso: a gente também não tem um luto sem ter uma cicatriz. Ela existe para lembrar que a gente viveu aquela dor. Mas essa cicatriz não tem que doer para sempre. Existe para nos lembrar que, ainda que a vida não seja mais como costumava ser, o vínculo com aqueles que perdemos permanece em um novo jeito de viver e em cada recomeço. (ACP)

Vida e propaganda!

O mundo midiático transforma nossos gostos
e preferências desde que estejamos propensos a
consumir seus produtos. Cabe torcermos para que
tenhamos discernimento para o consumo consciente
do que realmente é necessidade.



O mundo da propaganda conta com profissionais que criam peças absolutamente geniais. Algumas são obras de arte, outras têm conteúdo absolutamente arrebatador. Escrevem-se tratados acerca das consequências que a propaganda exerce sobre a sociedade tal a importância que ela tem na formação de consumidores. Quero tratar daquelas que nos comovem pelo conteúdo de apelo aos pais.

Refiro-me a duas que divulgam uma marca de fraldas. Os bebês falam com a mãe e pai de uma forma absolutamente verdadeira. Quem tem filhos entende a linguagem usada e as imagens comovem pela ternura retratada em cenas de carinho e cuidado plasticamente perfeitas.

Transportamo-nos aos nossos próprios bebês. Eles foram assim, frágeis, cheirosos e tão nossos. Sabíamos instintivamente do papel fundamental que o nosso amor teria, para que aquelas criaturinhas vingassem.

O turbilhão de sentimentos e responsabilidades, como a voz dos bebês da propaganda preconiza, transformaram-nos em homens e mulheres balbuciantes em torno de mamadas, de cheiradas gostosas, de “bilu-bilu” e “cadê o bebezinho da mamãe?”. Fomos transformados em seres focados naquela criaturinha que, subitamente, tornou-se o centro das nossas vidas.

Sabíamos que aquele estado de encantamento e exclusividade seria transformado em coisa real, quando teríamos que tomar decisões cruciais para o futuro da família. O susto e o medo entravam naquela relação encantada, para nunca mais sair. Do dia para a noite a maior missão da nossa vida estava no nosso colo. E nós fizemos tudo o que era preciso fazer, mesmo que hoje, à distância, tenhamos a sensação de não termos aproveitado tudo o que podíamos.

Por vezes, imaginamos nossos filhos crescidos e a trabalheira menor, o que nos fazia ansiosos para que crescessem. Mas quando dormiam, quando mamavam, quando sorriam, queríamos que tudo permanecesse assim, um ninho de amor, onde nós e nossos bebês nos misturávamos como mamíferos instintivos, plenos de felicidade e transformados em seres irracionais, dispostos a fazer tudo, tudo, tudo pela perpetuação daquela plenitude. E fazíamos, mas a vida real sempre batia na nossa porta.

Sofremos a cada doença, conseguimos varar noites sem dormir, beijamos dodóis milhares de vezes, consolamos e acolhemos. Mas eles cresceram e transformaram-se em seres exigentes, por vezes chatos, chorões, reclamões, mas tantas vezes ternos e sábios. Eles sempre sabiam como nos ganhar. Transformavam-se de uma hora pra outra de monstrinhos a filhotes chegados a beijos e abraços e pedidos de desculpa, com a maior cara de inocentes do mundo.

Mas eles cresceram ainda mais. Tornam-se adultos como nós. E sofrem e não cabem mais no nosso colo, nem no nosso ninho de proteção. De pais protetores, passamos a espectadores. Aprendemos a duras penas a observar e ficar à disposição para colos eventuais. Tornamo-nos velhos cuja principal tarefa é torcer para que a vida não seja muito dura com eles. E com nós!

Nossos bebês – como manda o figurino – encontram seus parceiros amorosos e tornam-se pais também. E tudo começa de novo, com o ingrediente de que, agora, não podemos mais defendê-los de nada. Só podemos estar aí! E estamos!

É impressionante como uma propaganda consegue transportar-nos para paragens tão verdadeiras. Concluo que somos movidos a consumir emocionalmente, tanto o que presta e o que não presta. O mundo midiático transforma nossos gostos e preferências desde que estejamos propensos a consumir seus produtos. Cabe torcermos para que tenhamos discernimento para o consumo consciente do que realmente é necessidade.

Mas preciso agradecer àquela fralda tão lindamente propagandeada, que trouxe de volta os meus rebentos, agora adultos, que foram amados e cuidados como deve ser. Com algumas falhas, é claro! Mas tivemos a melhor das intenções. E fizemos bonito!

Sueli é, avó, mãe, escritora, graduada em filosofia, membro da Escola de pais do Brasil, do coletivo de escritores e escritoras Sociedade dos Poetas Vivos (SPV) e da Academia Passofundense de Letras (APL). Ela é apresentadora do programa Literatura Local na TV Câmara, uma parceria da APL com a Prefeitura Municipal de Passo Fundo (RS). A Convidada Especial do Bloco Papo de Gente Grande nessa edição do Projeto Mulheres na Literatura é a escritora Sueli Gehlen Frosi, que divide conosco como está resistindo a esse período delicado de pandemia e como a literatura está sendo relevante nesse momento.

Como resolver o negacionismo?

Os negacionistas radicais, os que repetiram
o discurso de Bolsonaro, que defenderam a
cloroquina em vez da vacina, esses deveriam
se antecipar e dizer: eu não quero ser vacinado.


Duas ideias para resolver as controvérsias em torno de quem nega a pandemia, nega medidas coletivas de proteção contra o coronavírus, nega a importância da vacina e se dedica a exaltar farsas e milagres bolsonarianos como o da cloroquina.

Imunidade de rebanho

A primeira ideia é essa e envolve convicção, engajamento e capacidade de entretenimento. Enquanto a vacina não chega, os negacionistas seriam encerrados voluntariamente, por algum tempo, em áreas escolhidas.

As áreas poderiam ser parques, praias, casas de festas, estádios de futebol. O negacionista entra sem máscara, faz uma declaração de que é uma adesão voluntária e se integra a outros negacionistas.

Lá dentro, cada um faria o que bem entendesse. Poderia beber, namorar, praticar esportes, tomar chimarrão, fazer rodas de conversa sobre a Terra plana, sempre sabendo que aquele é um reduto fechado e só com negacionistas.

Claro que somente seriam aceitos adultos. Eles ficariam ali por pelo menos quatro semanas, duas semanas além do tempo suficiente para que fosse vencido o período de incubação do vírus.

Seria uma espécie de Big Brother do negacionismo. As áreas teriam infraestrutura, banheiros, refeições e pessoal de apoio, que faria as vezes do suporte de saúde.

Sim, porque todos os infectados seriam tratados ali dentro, ou não teria sentido pregar o negacionismo e, quando doente, procurar socorro em hospitais com profissionais que correm riscos para salvar vidas.

O negacionista que desrespeita o trabalho heroico de médicos, enfermeiros e profissionais de saúde tem que ser valente.

E os que fossem morrendo? Seriam sepultados no entorno, em covas abertas nas proximidades. Em buracos semelhantes às covas coletivas para os pobres infectados, que estão sendo abertas desde março.

O negacionista não tem o direito de achar que pode infectar e ser infectado e dispor de todo o suporte que despreza. Nem os cemitérios estariam à disposição dos negacionistas.

Para que houvesse rodízio, uma turma de negacionistas entraria nos locais determinados. Ao final das quatro semanas, sairiam os sobreviventes. E uma nova turma assumiria as vagas deixadas, até que se completasse, pelo negacionismo, a imunidade de rebanho.

No fim da fila

A segunda ideia envolve a vacinação. A Organização Mundial da Saúde já tem protocolos preliminares para estabelecer prioridades na imunização, quando a vacina russa estiver pronta (ou alguém acha que a primeira vacina não será russa?).

Claro que os primeiros serão os profissionais de saúde, os idosos, os que têm doenças crônicas, as crianças e os adolescentes. Depois virão os outros. E bem no fim seriam vacinados os negacionistas, se sobrar vacina russa.

Os negacionistas precisam ter a ‘dignidade’ de assumir o negacionismo e admitir que devem ficar nos últimos lugares da fila de vacinação.

O negacionista covarde, que passou todo o tempo debochando dos mortos, desafiando isolamentos, recusando o usa de máscara e anunciando que a vacina é uma bobagem, esse deve esperar.

Os negacionistas radicais, os que repetiram o discurso de Bolsonaro, que defenderam a cloroquina em vez da vacina, esses deveriam se antecipar e dizer: eu não quero ser vacinado.

E assim tudo estaria resolvido.

Coluna originalmente publicada em blog do autor.

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