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Ricardo Pacheco: artista na música e na vida

Pacheco é um artista raiz, apaixonado por boa música e engajado culturalmente. É um artista da resistência, que teima em interpretar, na sua robusta voz, letras e canções libertárias de irmãos e irmãs hermanos e brasileiros/as que falam das vivências mais puras e singelas de sua gente.

Como nunca, a arte, a poesia e a boa música estão servindo de suporte para curar as dores da alma, em tempos de pandemia, de isolamento físico e social. Os artistas e as artistas vivem, de forma mais intensa e emblemática, as consequências do isolamento, pois se movem pelo público, por gente que os aplauda, que os abraça e que estimula a viverem de arte.

“O artista não vive de vento”. O artista precisa sobreviver, por pão e comida à sua mesa. Neste contexto de crise sanitária, política, econômica e social, reconhecer e valorizar os artistas de nossa cidade, da região, do estado e do país significa também apontar os rumos que nossa nação tomará na pós pandemia.

Acreditamos que a boa arte, seja através da música, do teatro, da novela, da poesia, aliadas à convivência harmoniosa com a natureza, poderão ajudar-nos na superação de traumas, devolver-nos a felicidade e a liberdade das boas convivências e dos significativos encontros porque, afinal, somos seres sociais.

Conheçamos agora Ricardo Pacheco, da forma mais autêntica, por ele mesmo.

SITE NEIPIES: Donde veio esta sua vontade de fazer arte através da música? Como, quando e porquê decidiste empenhar tua vida como cantor e músico?

PACHECO: Acho que a vontade de fazer arte através da música veio pela vontade de mudar o mundo, de achar que existia alguma coisa errada com a forma do ser humano. A forma de enxergar seu semelhante estava cada vez mais distorcida e que eu poderia fazer alguma coisa e os “FESTIVAIS DE MÚSICA” me davam a impressão de que esse poderia ser um caminho, achava que seria “CAMINHANDO E CANTANDO E SEGUINDO A CANÇÃO” que eu poderia deixa de ser um “SEM LENÇO E SEM DOCUMENTO” e que só poderia mudar a “RODA VIVA” se eu não “ME ENTREGASSE PROS HOME DE JEITO NENHUM AMIGO E COMPANHEIRO”, foi o que “desde piá fui aprendendo, a ser valente, não ter medo e ter coragem”!

Uma frase que ouvi recentemente de um grande mestre e compositor, pouco antes de ele nos deixar, e mesmo assim em seu leito convalescido Sr. JOÃO CASTANHO (autor de PICASSO VELHO), recordando suas inúmeras aventuras do passado ao lado do meu também saudoso pai AURÉLIO PACHECO que devem estar juntos, como sempre estiveram fazendo as suas em outras paragens, deu uma pequena pausa e disse: “é Pachequinho, as coisas boas acabam…mas as ruins também”!

SITE NEIPIES: O que mais te realiza e o que ainda te desafia nesta vida de artista?

PACHECO: O que mais me realiza, encoraja e desafia é poder lutar contra o “RACISMO, O NEGACIONISMO E O EGOÍSMO” em um período como esse.

Tenho uma filha negra, sou pobre e creio na ciência… isso me dá muita força.

Colocar o dedo nas feridas dos hipócritas que bradam por “Tradição, Família e Propriedade” de dentro de seus “templos religiosos” e saindo dali vão correndo para o “ponto de travestis” ou em exitosos “prostíbulos”, invariavelmente, lotados de grandes carrões e camionetas de último modelo e fazerem “sexo na pista” sem prevenção alguma e voltando para seus felizes lares. Dos “falsos moralistas” que batem nas suas esposas, ao feminicídio e à triste realidade de que, nos últimos dez desses crimes ocorridos no RS “NÃO” existia sequer um registro de queixas crime nas delegacias contra o autor.

A vergonha de ter representantes políticos que “espancam” suas companheiras no meio da rua, vendem mandatos, apoiam genocidas e doentes mentais e fazem “sessão solene no puteiro” e falam em “moral e bons costumes”.

SITE NEIPIES: Cantas e tocas porquê? Quais são tuas fontes na escolha do repertório?

PACHECO: Minha família sempre foi muito musical, via que a música exercia um poder extremamente agregador dentro da nossa casa fosse quando nosso pai pegava o acordeom e ficávamos a sua volta ou quando todos os domingos na casa da nossa avó “EDI” sagradamente aquela gaita passava de mão em mão com nosso pai, Tio Sadi Silveira, (meu padrinho abençoado que nos deixou a pouco também), Tio Romeu Ribeiro, que voltara de um tempo morando no Nordeste e nos trazia modas de viola com temas lindos falando do sertão ou quando recebíamos a visita do amigo da família Miguel Pereira o nosso querido “TIATA’, grande músico do grupo “Os Tropeiros de  Passo Fundo” o que nos lisonjeava muito, Tio Ião e Tio Joãozinho no “chocalho” e na ‘caipirinha’ unidos por um amor e uma amizade sem explicação aos meus inocentes olhos.

Então resolvi que queria aquilo para mim (AMOR E MÚSICA), meu irmão Juarez começou a tocar e estudar violão e consegui me aproximar das cordas e não nos separamos até hoje!

SITE NEIPIES: Vivestes por alguns anos na nossa capital Porto Alegre. Como descreverias o ambiente cultural de nossa capital? Que lembranças e boas vivências de arte e de música guardas nas tuas doces lembranças?

PACHECO: Cheguei em Porto Alegre na metade dos anos 80 onde existia um acaloramento na cena cultural e musical, começava naquele momento um movimento de amor pela cidade onde se adquiriam “hábitos saudáveis” com relação à “ECOSISTEMA E DIREITOS HUMANOS’ e isso me fascinava.

Ainda existiam muitos costumes acorrentados aos grilhões do individualismo e do conservadorismo e isso me dava mais “gana” de viver naquele lugar de pessoas tão diferentes e me parecia ter um “PROJETO COLETIVO E DE CULTURA DO OUTRO” do qual eu queria muito me aliar e ajudar a escrever aquela história, como creio humildemente que contribui.

Busquei ajuda com um amigo de meu pai: “Algacir Costa” grande músico passofundense e pai do hoje fenomenal Yamandú Costa que já estavam na capital com seu grupo “Os Fronteiriços” e de carreira consolidada nos palcos portoalegrenses.

Algacir me apresentou à “PULPERIA”, Casa de shows e gastronomia campeira onde tocavam: Os Fronteiriços, José Cláudio Machado, Lucio Yanel, João de Almeida Neto e todos os grandes nomes do “nativismo” do RS e passei a fazer a abertura das noites da “PULPERIA”. Recém chegado do interior fui “adotado” por uma família que até hoje tenho uma relação de “IRMÃE”: Ilce Borges da Silva, figura maior nas questões de vida que Deus me presenteou e que moravam na “Cidade Baixa” bairro boêmio da capital onde existia um circuito de casas noturnas onde eu poderia exercer minha profissão de opção e dividir “GUITARRA, AMOR E VERSOS”!

Vieram os festivais, que são uma emoção ímpar: CANTO DA LAGOA, FESTIVAL DE MÚSICA DE PORTO ALEGRE, FESTIVAL DO TRABALHADOR, MUSICANTO LATINOAMERICANO DE NATIVISMO, TERTÚLIA… aí um novo caminho como compositor e intérprete de trabalhos inéditos que me renderam muitas experiências e alegrias. Tocar e conviver com YAMANDÚ COSTA…até hoje é uma dádiva!

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL – UM OUTRO MUNDO É POSSÍVEL, produções e emoções, fazer parte do CD do FÓRUM com Bebeto Alves, Gelson Oliveira, Tom Zé, Zé Caradípia, Leonardo Ribeiro, Raul Elwanguer, Pery Souza, Serginho Moah… foi inesquecível…

FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 10 ANOS foi outro movimento. Agora fazendo parte da equipe da MSDOIS PRODUTORA com minha abençoada amiga Sandra Narciso, onde pude estar com Eliades Uchoa (BUENA VISTA SOCIAL CLUB), Vicente Feliú (Cuba) e Daniel Viglietti, Agarrate Catalina, Daniel Drexler (UY)….

SITE NEIPIES: Como avalias o ambiente cultural de nossa cidade, Passo Fundo, para artistas que, como tu, vivem, resistem e fazem boa arte? Nossa cidade reconhece e valoriza seus talentos locais?

PACHECO: Nosso ambiente Cultural local ainda é jovem e volátil, nos últimos anos temos tido alguns avanços nas Políticas Públicas de Cultura, mas ainda estamos longe de termos uma efetividade nos compromissos sociais que a CULTURA tem que ter com seu povo.

Temos um legislativo apático nas questões culturais que ao invés de valorizar a cultura local fez recentemente uma “Moção de Repúdio” contra um programa de televisão porque falou mal do “Teixeirinha” que sequer nasceu próximo a Passo Fundo.

Quanto ao reconhecimento, não tenho o que me queixar particularmente porque tenho, graças à DEUS, o reconhecimento das pessoas que eu gostaria de ter e ao mesmo tempo o desprezo daquelas que também gostaria.

Temos alguns veículos de comunicação comprometidos com as administrações públicas, porque são divulgadores patrocinados pelos poderes e são pagos para não falarem mal dos seus patrões. Poderiam fazer um papel fiscalizador e denunciador. Existem na cidade alguns comunicadores preconceituosos e homofóbicos e que fazem o andamento do processo civilizatório retroagir a “TEMPOS MEDIEVAIS” com seus comentários, conceitos e pensamentos ignorantes. A humanidade teve avanços nos últimos 100 anos que não eram sequer falados a milhares de anos e que não tem mais como retroceder.

Essas coisas acabam atravancando as possibilidades de um MOVIMENTO CULTURAL, onde cultura gaúcha é valorizada e a cultura nacional como o carnaval que deveria ser em um plano mais amplo não é reconhecida e como diria o maestro TAU GOLIN: “E os cavalos cagando pela cidade’.

Existem outros veículos de comunicação diferenciados, peleando para esclarecer a população com informações contra o achismo e a personalização das ideias e posicionamentos equivocados.

SITE NEIPIES: Nasceste no contexto da ditadura militar. Quais são suas lembranças daquele período da história do Brasil? Alguma comparação com os tempos de agora?

PACHECO: Nasci no ano de 1968, 62 dias antes do Ato Institucional nº 5, ano em que morreu “Martin Luther King”, acho que recebi uma descarga de energia e isso me povoou de forças para lutar contra tudo que essas duas situações representam.

Sou “FILHO DO COVEIRO”, meu pai Aurélio e minha mãe Sueli se aposentaram como “zeladores do Cemitério Municipal da Vila Petrópolis”, ali aprendi a ter outra relação com a vida e com a morte, enterrei e desenterrei muita gente. Me criei na graxa e sempre quis mudar essa realidade.

Fui forjado por grandes guerreiros e intelectuais da nossa terra Emerson Brotto, Marco Aurélio Weissheimer, Marcos Mussolini, meu abençoadíssimo hermanito Luís Carlos de Cesaro que nesse dia de Corpus Christi em que respondo essa entrevista faz nove anos de sua passagem.

Quanto as semelhanças da época com a atualidade acho que tem uma diferença muito grande que é o “falso moralismo dos falsos profetas e a ignorância”, as mesmas pessoas que querem o retrocesso. “se ele viesse”, seriam os protagonistas dessas mesmas atrocidades que elas defendem, pois, acham que se feitas por eles não é errado! Sonegam impostos, falsificam atestados e documentos, estacionam o carro em vaga de deficiente, falsificam álcool gel em tempos de pandemia ….e  são cidadãos de bem!

Então creio que a “burrice e o mau caratismo”, ainda é o problema maior.

SITE NEIPIES: Qual é o papel da arte e dos artistas no Brasil no atual momento histórico?

PACHECO: O papel da arte e da cultura hoje está se mostrando tão vital e essencial para a humanidade nesse momento quanto o “SUS”, tenho certeza de que se não fossem os dois hoje o nível de mortes e atrocidades seria escandalosamente maior! VIVA A ARTE E O SUS!

SITE NEIPIES: Como tens suportado, durante a pandemia, viver o isolamento físico e social, sem público para apreciar, apoiar e aplaudir a tua música?

PACHECO: Isolamento social e Home office são rotinas diárias que essa sociedade medíocre está conhecendo agora, junto de seus filhos e familiares que praticamente não sabiam que eram.

Para nós, artistas, isso é uma condição imposta desde sempre. Ficamos trancados em quartos horas e dias a fio, tirando música, estudando, ensaiando, decorando textos, fazendo contatos para agendamentos de trabalhos por sermos gestores de nós mesmos.

Amamos o que fazemos e não vamos para o trabalho de mau humor porque nosso chefe é um FDP, vamos com tesão e capacidade de resiliência para começar tudo de novo.

Quero ver esses incompetentes C de cachorro que ganham tudo de mão-beijada dos papaizinhos sobreviverem nessa situação.

SITE NEIPIES: Como os artistas como tu tem sobrevivido financeiramente nestes tempos de isolamento?

PACHECO: A dificuldade sempre existiu e nunca foi fácil sobreviver de arte em um país que é líder mundial em ignorância, onde a “pasteurização” da cultura se transformou em um mercado tão forte e aniquilador onde as “gordinhas gueludas” passaram a dar tanto valor a realidade terrível do papel das mulheres em nosso mundo, onde a “MIGA” barraqueira e sem amor próprio e que bebe e sobe na mesa assume seu lugar ridículo!

Hoje uma nova realidade se apresenta nas possibilidades de “LIVES”, mesmo tendo que concorrer com os sucessos de “BULLINGS” das músicas “Caneta Azul” e o ridículo “baitaquismo” sustentados mais uma vez pela ignorância e pelo preconceito!

Graças a DIOS tenho algumas outras fontes de renda, mesmo sendo na área da cultura e entretenimento, como Produção Cultural, o teatro através do GRUPO RITORNELO, a gastronomia onde faço um pacote de “BÓIA E MÚSICA”, mas que ficam prejudicadas com o afastamento social exigido no momento”.

SITE NEIPIES: Avalias que a pandemia do Covid 19 está mais para uma guerra ou para uma crise?

PACHECO: Sem dúvidas “uma guerra”, a guerra da “ignorância, da ganância, da falta de empatia e do negacionismo” contra a “ciência”. A crise política e corrupção existem no nosso histórico desde o governo de “César” porque o ser humano é “corruptível”.

SITE NEIPIES: Na tua trajetória pessoal e social, trabalhastes também na política, através da militância e da assessoria parlamentar. Que lições tiras destas experiências?

PACHECO: Tive a oportunidade de trabalhar ao lado de grandes guerreiros, assessorando-os ou simplesmente lutando ao lado deles em batalhas a favor da “DEMOCRACIA” e que aprendi muito: Beto Albuquerque, Jauri Oliveira, Jussara Cony, Juliano Roso, Flávio Lammel, Edegar Pretto…

As lições são duras diante da realidade da política, o “sistema” é uma engrenagem que se tiver uma peça que não esteja funcionando dentro da sua “dinâmica” essa peça é imediatamente substituída e a “roda continua a girar”.

Penso que o “bom político para a sociedade” é o político “sem cargo”, aquele que faz o “corre para resolver as coisas na comunidade” a partir do momento que ele é agraciado com um “cargo” se faz qualquer coisa para mantê-lo, aí se vai o boi com a corda.

SITE NEIPIES: Donde vem tua paixão pela cozinha? Fala-nos do teu projeto Feijoada com Pacheco?

PACHECO: Minha paixão pela cozinha mais profissionalmente começou durante o governo Tarso Genro onde foi criado um Grupo de Trabalho de Gastronomia Regional e tive oportunidade de conviver com “CHEF’S” de cozinha maravilhosos com o intuito de criar uma identidade local para nossas “bóias campeiras” com insumos e produtos do nosso RS e meu compadre Edegar Pretto me pediu para que fizesse uma “FEIJOADA PACHECÔNICA” para seus convidados em comemoração ao seu aniversário, respondi que sim e perguntei-lhe para quantas pessoas seria e ele respondeu que seriam umas 40, topei na hora e quando chegou no dia tinham mais de 120 pessoas, daí prá frente virou festa e participei de vários FESTIVAIS DE GASTRONOMIA” chegando a servir mais de 400 pessoas em um evento e hoje a “PACHECÔNICA” é um sucesso que já foi até para Montevidéo – UY.

SITE NEIPIES: Quais são seus desejos e expectativas para o pós pandemia? Seremos melhores?

PACHECO: As máscaras caem nas crises e desumanidades e esse elemento “máscara” está fazendo com que as pessoas voltem a um hábito fora de moda e que muitas pessoas tinham deixado de lado que é: “olhar nos olhos dos outros”, como disse o grande poeta argentino “PIERO”:

HABLAR MIRANDOSE A LOS OJOS, SACAR LO QUE SE PUEDE AFUERA,

 PARA QUE ADENTRO NAZCAN COSAS NUEVAS, NUEVAS, NUEVAS”.

E nesse contesto só podemos ser melhores com avanços e coisas novas e não retrocedermos à costumes velhos e retrógados que temos milhares de provas na história de que “não” deram certo. O hábito da generosidade e da solidariedade que sejam ‘MUI BIÉN VENIDOS’.

SITE NEIPIES: Que mensagens gostarias de deixar a teus amigos artistas?

PACHECO: Que não queiram transformar seu filhos em médicos e doutores, façam-nos ser “ARTISTAS”! PRECISAMOS DE MAIS E MAIS ARTISTAS!!!

SITE NEIPIES: Uma frase que defina Ricardo Pacheco.

PACHECO: “Se as armas e os homens calassem seus gritos de morte e ao som de um violão adoçassem seus temporais, um sonho parceiro seria bem mais do que um sonho: seria um beijo do mundo na boca da paz”! (Carlos Omar Vilella Gomes)

SITE NEIPIES: Uma música que cante o mundo como ele deveria ser.

PACHECO: Música “Alma e na voz” – Pirisca Grecco e Carlos Omar Vilella Gomes.

SITE NEIPIES: Uma receita de boa comida ou de um bom programa para estes tempos difíceis de isolamento físico e social?

PACHECO: A receita de boa comida para esse tempos de pandemia que recomendo é nossa feijoada pachecônica e outras bóias que temos feito para levar para casa e o programa é assistir as nossas lives e dos nossos artistas locais e se possível contribuir para a nossa subsistência nesse período!

Agradeço de coração a oportunidade e SEGUIMOS A LUTA!



Matéria produzida por jornalista Gerson Costa Lopes aborda outros aspectos da vida e da música de Ricardo Pacheco, em 2018. Veja mais aqui.




Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal

Relato de uma família na Pandemia, crise e homeschooling

Neste momento delicado pelo qual passamos, ou falamos demais, ou ficamos sem palavras. O planeta já vem gritando sofridamente há décadas juntamente com os fragilizados. Contudo, a cada amanhecer, a cada olhada rápida nas manchetes dos jornais, mais e mais nos chocamos. O medo e a incerteza do amanhã crescem mundialmente. Em meio a isso tudo, fomos instigados a repensarmos nossas vidas, rotinas, escolas fechadas, perda de emprego, de esperança e de vidas humanas.

Aqui abordaremos um retrato de uma família americana de mãe brasileira e imigrante – a minha própria família. Como sou trabalhadora essencial em pesquisas genéticas, meu marido – Brian é quem fica em casa com as nossas três filhas aqui no estado de Washington, EUA.

Antes da pandemia, as duas meninas mais velhas, Anna e Abby (primeiro ano e pré-escolar) acordavam as 6 e meia da manhã e embarcavam no ônibus escolar às 7 horas. Ficavam na escola regular integral até as 15 horas, depois disso teriam aula de espanhol, piano ou natação até as 17 horas. 

A Amy, ainda bebê, frequentava a baby-sitters de 4 a 5 dias por semana. Nos finais de semana, quase sempre, viajávamos em família. A mãe trabalhando fora e o pai em casa, mas seguindo com projetos ambientais e editoria acadêmica. Desde a metade de março, tudo mudou drasticamente.

Resolvi entrevistar meu marido, que tem Ph.D. em Engenharia dos Sistemas Biológicos, mas está 100% em casa cuidando das filhas há dois anos.

Optamos por ter um de nós ficar em casa com elas porque babás não são comuns nos EUA. Nos revezamos desde 2013 com a primeira filha Anna que ele cuidou por 1 ano, com a segunda filha Abby que eu cuidei por outro ano. Na terceira filha Amy, foi a vez dele novamente e, então, inesperadamente, veio a pandemia, seguida de recessão e crise. Situação posta: não posso parar meu trabalho e ele não pode recomeçar.

Como profissional da área ambiental, como você está vendo o Covid-19?

Brian – Ao longo dos anos, as pessoas foram destruindo habitats naturais e foram se alimentando de animais selvagens para sua sobrevivência, devido a pobreza econômica. É surpreendente a rapidez com que a pandemia cresceu, circulando pelo globo em poucos meses e está em quase todos os países do mundo. A velocidade é assustadora, não sabemos para onde estamos indo. Uma recessão econômica se seguiu.

A razão que a velocidade de contágio pelo Covid-19 é alta porque vivemos numa sociedade globalizada, os vôos são de fácil acesso. Quando o patógeno passou para o ser humano, se achou em novo hospedeiro. Quanto mais animais e pessoas interagem como nos mercados de carne, maiores as chances de novas doenças zoonóticas.

Quando o Covid-19 chega em algum novo lugar, em vez das pessoas se unirem contra o vírus, elas são xenofóbicas culpando outras etnias, os governantes brigando entre si, escondendo dados científicos e não compartilhando equipamento de proteção individual como máscaras, luvas e visores.

A OMS tem cientistas unidos para desenvolver uma vacina, mas os políticos brigam entre si. Até que o governante dos EUA anunciou a saída da organização, infelizmente tudo vira política.

E como pai, o que mudou na sua vida com o Covid-19 aqui nos EUA?

Brian – Na metade de março, começou o isolamento aqui. Nosso estado de Washington foi o primeiro a aparecer casos. Aqui ainda há contagio diário, mas tem outros estados em situação mais grave. Tem um presídio a 30 minutos daqui, com o maior número de casos ainda. O problema é que nem todos levam a sério, as máscaras são recomendadas, porém não são obrigatórias.

Desde a metade de março, não conseguimos encontrar mais desinfetantes no mercado. O papel higiênico que temos foi presente de diferentes amigos. As pessoas aqui ainda estão comprando no modo pânico, o álcool gel sumiu das prateleiras desde janeiro. Semanas de confinamento e isolamento. É desafiador que as crianças queiram sair, mas não é seguro lá fora. As crianças estão entediadas em casa.

Qual a situação educativa das crianças no momento?

Brian – As escolas estão fechadas. Embora eu tenha sido um educador no passado, eu não sou professor de ensino fundamental e eu também tenho que cuidar da bebê. Especialmente porque há 10 anos, neste país, eles mudaram a forma como a matemática tem sido ensinada, ficou mais difícil para quem aprendeu de outro jeito. A metodologia de como você aprende é diferente. Eu posso ensiná-las do jeito que aprendi, mas esse não é o sistema nas escolas atuais, então quando elas retornarem as aulas, isso será um problema.

Uma vez por semana, o distrito escolar envia um pacote com atividades de matemática e inglês para os alunos. Também recebo um e-mail uma vez por semana com um vídeo de ciências. Quase todas as tarefas enviadas para casa pela escola exigem atenção dos pais ou responsável. Não temos um faxineiro ou uma babá no momento porque não é seguro, devemos manter o distanciamento social.

No ensino em casa (homeschooling), o pai ou responsável toma a iniciação de escolher um currículo online e ensinar diferentes assuntos por 6 horas ou mais diariamente. Porém, na pandemia, o ensino regular tornou-se a distância, um ensino de casa. Os professores não fornecem mais do que 30 por criança por dia de atividades.

Neste país, cada Estado tem poder sobre a educação, não o governo federal. No nosso estado, fica a critério de distritos escolares regionais, sendo que o distrito dá poder a cada escola. Assim não há uniformidade. Então usamos pacotes de duas escolas, sendo que uma escola é mais avançada.

As escolas acabam por decidir por conta própria. Quando os pais reclamam, eles passam a culpa para gestores ou professores. Uma quantidade relevante dos pais nesse distrito escolar é considerada essenciais, têm que trabalhar o dia todo e não podem acompanhar seus filhos. Alguns não têm wi-fi em casa e a biblioteca está fechada. Então, basicamente, para algumas crianças, aqui a educação parou em março.

O maior desafio para mim é que as crianças iam à escola 6 horas por dia, e agora a escola fornece materiais que duram de 5 a 10 minutos por dia para minhas filhas sem completar ou dar maiores instruções.

Não há perspectiva de retorno de aulas presenciais. As aulas iniciariam no final de agosto aqui, mas já não há mais como saber. Infelizmente, 99% das crianças nesse distrito serão prejudicadas porque não estão aprendendo em todo seu potencial. Num total de 80-90% das crianças americanas correm esse risco. A menos que você tenha dinheiro para transferir a escolas particulares com tutores disponíveis (mas tutores presenciais também não são permitidos no momento).

Minhas esperanças são de que isso não durará pra sempre. A esperança de uma vacina que está em estudos de campo avançado. A pergunta aqui e quem irá utilizar e quanto custará essa vacina. Tem um movimento anti-vacina aqui e também existem algumas religiões que proíbem. Então, mesmo assim, haverá incertezas. Quando se alega princípios religiosos você não precisa se vacinar aqui.

Existe um número grande de pais que desistiram de ensinar os filhos nessa pandemia e eu entendo porque, realmente, não e fácil. O Covid-19 vai estar com a gente por um grande tempo, mas a vacina é uma proteção. O ponto positivo é que aqui entramos em férias agora e os pais podem descansar.

Você pode descrever sua nova rotina com o covid-19?

Brian – No começo, estávamos perdidos, tanto pais como professores. A minha rotina demorou quatro dias para ser elaborada, mas quando nos encontramos, ficou mais fácil.

Acordamos e como cada criança recebeu emprestado um computador laptop da escola, elas entram em jogos educacionais, tomam café da manhã e retornam aos jogos. Na metade da manhã elas trabalham nos pacotes escolares por 30 min. Então fizemos um intervalo e almoçamos. Depois do almoço é brincadeira livre, elas podem ir no pátio, brincar, ver TV até a mãe delas chegar do trabalho para, então, jantarmos juntos.

A bebê, nesse tempo, assiste as irmãs jogarem e durante as atividades escolares eu a carrego no colo enquanto oriento as outras duas meninas (uma em casa série). Depois do almoço, a bebê dorme por uma ou duas horas e daí eu tenho que limpar a casa, cozinhar e juntar os brinquedos. Durante meu dia há choro do bebê e rivalidade entre as irmãs, mas não o tempo todo. Depois que as crianças vão dormir, eu finalmente tenho algumas horas para ver um filme, editar artigos acadêmicos ou simplesmente aproveitar momentos de calma e paz.

A única diferença no final de semana é que não precisamos ter 30 minutos de instrução. Eu ou a mãe delas vai fazer compras, as crianças ficam com o outro adulto. Porém, até mesmo ir ao mercado, tornou-se estressante com covid-19. Há falta de produtos, as pessoas estão super estressadas ou não tomam precauções. Longas filas com espera de 30 a 40 minutos para entrar no supermercado. Isso tudo soma-se ao stress de ter que tentar conseguir comprar tudo o que está na lista para evitar voltas desnecessárias.

Pode mencionar algo sobre os protestos recentes no seu país?

Brian – Há um “bias racial” comprovado nesse país, em que as pessoas negras são vistas como ameaça a ordem (o que é absolutamente falso). No caso de George Floyd, houve uma reação inaceitável e “bias” dos policiais envolvidos, um por assassinato cruel e os outros por omissão de socorro colaborando com o crime. Outra pessoa foi morta simplesmente por estar correndo na rua. Isso vem acontecendo há décadas e nós atingimos o limite.

Eu apoio os protestos, mas não apoio violência e destruição. Também acho que deveriam utilizar máscaras porque estamos enfrentando uma pandemia.

Para encerrar, estamos entrando numa crise econômica jamais vista na história e caminhamos incertos quanto ao futuro. Aqui esperaremos as eleições em novembro e, talvez, alguma mudança se apresente.


Notas conclusivas

Encerro a entrevista com meu marido e confesso que estou um pouco anciosa sobre o futuro. Porém quero dizer que nós, pais e mães, devemos continuar a ser fortes e criativos. Por exemplo, nossa filha do meio, Abby, fez aniversário dia 18 de maio e sempre celebramos com uma festinha, o que é proibido devido a aglomerações e risco de contágio pelo covid-19.

As crianças estavam muito tristes com a situação e então tivemos a ideia de fazer uma drive-thru para comemorar. Montamos um pacote festa individualizado e personalizado para cada uma das famílias que são nossas amigas. Decoramos uma mesa e colocamos os pacotes na entrada da garagem. As famílias dirigiam em horários separados e pegavam seu pacote sem descer do carro e deixavam seus cartões ou presentes em outra mesa. As crianças assistiam à distância e vibravam a cada carro de convidados! A alegria durou até o outro dia no qual elas abriram os cartões e presentes. Gestos simbolizando abraços e carinho a distância foram expressos. Enfim, creio que devemos tentar encontrar a felicidade nas pequenas coisas em tempos de pandemia para que nossa saúde mental e física seja mantida.

O medo é legitimo, mas é como o paradoxo do copo com 50% de água. Alguns vão reclamar que o copo está incompleto e enxergar somente o 50% que faltam, afirmando que o copo está 50% vazio. Outros vão receber o copo alegremente e enxergar que há ainda água no copo e está assim 50% cheio.

Temos que agradecer pelo que temos e contar as nossas bênçãos, pois sempre haverá alguém enfrentando, ou que já enfrentou, dificuldades maiores que as nossas. Ter fé é preciso para superarmos nossos problemas, mas ter empatia é preciso para um mundo melhor. Quando eu puder ajudar outro ser humano (ou outra espécie), me torno um ser humano melhor.




“O que se pode esperar de uma criança da vila? Uma das possíveis respostas para essa pergunta é: “pode-se esperar o que essa criança quiser – o céu é o limite”.  Apenas, mantenham essa criança viva e alimentada dentro de vocês pois essa criança aceita desafios, não tem julgamentos prévios ou preconceitos e, acima de tudo, ela possui a humildade e a alegria que devemos celebrar cotidianamente para a harmonia planetária”.




Fotos: Arquivo pessoal

O desafio do bom convívio familiar em tempos de pandemia

Professora da UPF conta o que
as famílias podem fazer para terem
uma convivência harmoniosa
durante a quarentena.


A pandemia do novo Coronavírus (Covid-19) tem provocado mudanças em alguns hábitos e costumes de grande parte da população. Um deles está relacionado ao convívio familiar: pais, mães e filhos que antes realizavam atividades a partir de suas próprias rotinas, agora precisam se adaptar com a aproximação imposta pelo isolamento social. Mas o que essa proximidade da quarentena pode estar ocasionando?

De acordo com a professora do curso de Psicologia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Dra. Suzana König Luz, o impacto nas famílias vai além do conviver por mais tempo juntos. “Há famílias tendo que se reorganizar financeiramente, perdendo empregos, não sabendo se vão tê-los novamente. Tudo isso traz uma avalanche de emoções e pensamentos desastrosos nos indivíduos e, consequentemente, nas famílias. A saúde familiar está ameaçada em seu cerne, em sua sobrevivência”, relata.

A docente menciona algumas configurações familiares envolvidas neste contexto que, de certa forma, vivenciam tais mudanças. “Uma minoria da população tem acesso aos meios de comunicação e aos espaços virtuais. Uma minoria das famílias pode fazer o isolamento social, pois tem que trabalhar (se ainda tiver emprego) para garantir o sustento da sua família. Em outro cenário, temos as famílias que sim, conseguem trabalhar em casa, não tiveram redução de salário e estão aproveitando para se aproximar, viver momentos que antes, por conta de uma rotina exaustiva, não era permitido. E temos ainda as famílias hospedeiras, que tinham o lar somente para dormir. Esse momento é desafiador para elas, pois não estão acostumadas a conviver. Como podemos observar, temos vários impactos acontecendo e vários cenários. Não podemos falar somente de um impacto, pois eles são diversos”, destaca Suzana, lembrando que o isolamento social ainda é fundamental para a contenção da pandemia da Covid-19.

Mais respeito, diálogo e organização

Uma dica que a professora dá para as famílias terem uma convivência saudável e harmônica é manter o diálogo e o respeito. “Este é o grande desafio. Os conflitos familiares já existentes tendem a tornar-se maiores. O que antes era ‘apenas a toalha em cima da cama’ ou o ‘tênis fora do lugar’, hoje pode ganhar dimensões e discussões exacerbadas. O ritmo dos membros da família não é o mesmo. O que deve ser feito é tentar manter o diálogo e o respeito. Talvez a harmonia seja algo utópico, pois sabemos que os índices de violência doméstica aumentaram, bem como os índices de alcoolismo, por exemplo. Então, dizer o que fazer para ter uma convivência saudável e harmoniosa vai além de palavras. Precisa de gestos, respeito, tolerância e, acima de tudo, vontade de permanecer juntos”, afirma Suzana.

A organização também é uma aliada para o bom convívio familiar. “É preciso manter a mesma rotina de antes, estabelecendo horários e, principalmente, respeitando-os. Se a família, antes da pandemia, não tinha o hábito de jantar todos juntos por exemplo, não é agora, no isolamento, que isso vai começar a acontecer. Procurar respeitar os horários de trabalho em casa, os horários de conversas em família, os horários para ficar com os filhos. O ficar junto não é o problema, a questão é o excesso e ou o distanciamento”, conta.

Além das atividades ligadas ao trabalho e ao estudo, é importante ter momentos de lazer e diversão neste período de quarentena. “Segundo o que temos escutado, a Netflix tem sido a verdadeira salvação nestes tempos de isolamento. Mas nem todos tem acesso ao serviço de streaming. É inevitável que em alguns momentos as pessoas queiram ficar sozinhas, mesmo estando juntas. Assim, pode ser muito útil um trabalho manual, uma leitura, uma comida diferente. Chamar a família para a cozinha tem sido uma ótima opção. Jogos com os filhos pequenos, conversas sobre as aulas dos filhos que estão tendo que estudar remotamente também. Estamos falando de uma infinidade de possibilidades, mas novamente destaco que a família deve querer esta aproximação. Tem famílias que não querem, que não tinham uma aproximação antes da pandemia e que não querem começar agora, e está tudo bem. O importante é respeitar o momento de cada um”, pontua Suzana, complementando que se tem falado muito na saúde da família, mas que há ainda pessoas sozinhas passando pelo quarentena. “Como elas estão? Será que alguma coisa mudou?”, questiona.

Saiba mais sobre esse assunto acessando o vídeo do minicurso on-line “A saúde familiar em tempo de confinamento”, ministrado pela professora Dra. Suzana König Luz.



Foto: Divulgação/Internet

Racismo

A sociedade racista desenvolve
mecanismos diversos –
uns mais sutis, outros nem tanto –
de restrição, limitação e exclusão social.


Em 1863, entrava em vigor nos Estados Unidos o Ato de Emancipação, assinado pelo presidente A. Lincoln, libertando cerca de 4 milhões de escravos negros.

Entretanto, as desigualdades econômicas, sociais e de saúde continuaram a marcar a vida dos negros norte-americanos. O racismo continuou latente. Assim, após anos de ressentimento, a morte de G.Floyd foi a gota d’água para a explosão do movimento civil – muitos outros já se registraram na história americana –, que hoje se espalha por vários estados.

A frustração é potencializada pelo contexto criado pela pandemia – no qual 40 milhões de americanos se registraram como desempregados para obter benefícios – e que afeta de forma desproporcional as minorias negras e latinas.

Aqui, 132 após a abolição da escravidão o quadro não é muito diferente. Na última semana um garoto de 14 anos, João Pedro, foi vítima de uma “bala perdida”, em função de uma desastrada operação da Polícia Federal.

Você já percebeu que as “balas perdidas” sempre encontram de preferência negros!! Isto é o resultado de uma sociedade que convive histórica e estruturalmente com o racismo, que perpassa as relações sociais e inscreve no país uma forma particular de convivência entre desiguais.

O racismo molda uma sociedade que se assenta na existência e naturalização da desigualdade e dela faz uma base específica de apoio e funcionamento.

Sob a ideologia racista, o fenômeno da pobreza, miséria e violência e, mais grave, sua persistência, não se impõem como um problema social. Pelo contrário, apresenta-se normalizado, parte da paisagem social.

Durante sua campanha à presidência, Bolsonaro em um discurso, comparou um negro a um bovino, afirmando que o mesmo deveria pesar mais de 80 arroubas e sequer como reprodutor teria utilidade.

“A desigualdade que se naturaliza no seio da nossa sociedade forja uma estrutura racialmente hierarquizada sob a égide do racismo. O racismo transforma diversidade em desigualdade”, segundo o Doutor em Economia pela Universidade Paris I – Sorbonne, Mário Theodoro.

A sociedade racista desenvolve mecanismos diversos – uns mais sutis, outros nem tanto – de restrição, limitação e exclusão social. Sujeita o indivíduo negro a barreiras que limitam ou bloqueiam suas condições de mobilidade social.

Associa-o à pobreza e à miséria, banaliza situações graves de constrangimento e violação de direitos que levam à alienação e no limite, à morte.

É o que demonstram os indicadores sobre os assassinatos de jovens negros e sobre as mortes acidentais por “balas perdidas”.

Em trajetória crescente, essas mortes explicitam não apenas a banalidade da desigualdade, mas a ação não constrangida da violência contra população negra.




Em entrevista a emissora alemã, Angela Merkel lamenta a morte de George Floyd e reprova o racismo nos EUA, mas alerta para sua existência também na Alemanha. A chanceler federal cita ainda a polarização na sociedade americana e classifica como “muito controverso” o estilo político de Donald Trump.

A inteligência artificial e renda básica: combinação necessária para uma nova época

O acesso universal da internet,
o uso da automação e da inteligência artificial,
subordinadas ao interesse público, são
decisões necessárias para que todos tenham
acesso ao básico e a humanidade passe a
vivenciar uma fase mais favorável.


O desenvolvimento humano é marcado pela evolução tecnológica e tem a inteligência artificial a seu dispor. Trata-se de uma ferramenta com múltiplas possibilidades, que ainda tem seus usos pouco conhecidos e restritos, mas que será impulsionada com a pandemia de 2020.

A mudança de época que caracteriza a transição entre os século XX e XXI, será acelerada e terá a culminância com as imposições do COVID 19. Entre as mudanças, está o aumentando as demandas pelo uso da internet, que recebem comandos humanos, mas tem seu funcionamento por meio da automação e da inteligência artificial, diminuindo o esforço com deslocamento físico.  

O isolamento físico é uma oportunidade para repensar e transformar os comportamentos produtivistas, consumistas e materialistas, calcificados na cultura e na subjetividade, abrindo os caminhos para uma época em que a vida seja mais valorizada.

 As evoluções tecnológicas em geral e a inteligência artificial, em específico, contribuíram para a que a humanidade produzisse mais do que o necessário para atender dimensão material. Não entanto, dois aspectos foram negligenciados e precisam ter centralidade.  

Um aspecto é que esta produção com muitas sobras, não é acessada pela maior parte da população mundial que sofre por falta de alimentação e habitação adequadas.

Outro aspecto é que a dimensão material da existência humana, apesar de ser importante e básica, representa a menor parte na totalidade da existência. A parte mais abrangente da vida humana está situada na dimensão imaterial, cultural, do pensamento e da espiritualidade.

Em grande parte do tempo da vida, os seres humanos não estão conscientes dos cuidados com o próprio corpo e terceirizam o que deve ser aprendido e assumido como responsabilidade individual. Perguntas em relação aos critérios necessários para a desenvolvimento humano devem incluir os cuidados básicos, com alimentação, habitação e educação para o bom funcionamento do corpo.

As definições a respeito do que seria o básico para uma vida, estão subordinas ao contexto individual e de época, por isto não são exatas e nem universais. No entanto, o conjunto das instituições, especialmente as públicas, devem ter seu funcionamento orientadas e seguindo um planejamento que vise a universalização do acesso a uma alimentação saudável, habitação adequada e uma educação que capacite cada ser humano para cuidar de si e dos outros.

O acesso universal da internet, o uso da automação e da inteligência artificial, subordinadas ao interesse público, são decisões necessárias para que todos tenham acesso ao básico e a humanidade passe a vivenciar uma fase mais favorável.




“A construção de uma transformação profunda que pode possibilitar a evolução da humanidade, está vinculada com a substituição dos valores individualistas, egocêntricos e antropocêntricos por valores alicerçados na solidariedade, na imaterialidade, na evolução espiritual, na reconexão dos seres humanos entre si e com a natureza”.

O corpo do outro é um território afetivo

Com essa loucura toda de uma pandemia
que se propaga pela proximidade, pela troca,
pelo corpo estranho e pelo corpo tão conhecido;
o corpo do outro tornou-se prioritariamente uma ameaça.



O corpo do outro é um território afetivo. É destino dos nossos desejos ou apenas lugar para satisfazer desejos. Também nos vale como filtro, sendo capaz de examinar o que se passa dentro de nós de modo inconsciente. Não há mentiras diante do corpo. Ele é capaz mudar de desejos, afetos e destinos.

O corpo do outro é um lugar de reconhecimento do nosso próprio corpo. Da nossa própria existência. Os afetos também podem ser capazes de destinar coisas ruins. A raiva, o ódio, o preconceito estão ali. O corpo pode ser símbolo narcísico. Pode ser ostentado. Pode ser invejado. Pode ter valor. Pode ser uma ameaça.

Com essa loucura toda de uma pandemia que se propaga pela proximidade, pela troca, pelo corpo estranho e pelo corpo tão conhecido; o corpo do outro tornou-se prioritariamente uma ameaça. Ele exige uma distância ainda maior do que a usual. O corpo é um perigo, vetor do caos, da morte, tornando-se o significante do medo.

O corpo do outro é algo a ser evitado – não que isso já não existisse numa sociedade tão desigual e cada vez mais apartada por escolha própria. Mas agora já não há escolha. Até o corpo dos que se acham iguais também é um território proibido.

Os corpos dos que amamos também nos causam terror: eles são capazes de tombar por um vírus desconhecido e são capazes de nos fazer tombar num encontro desafortunado.

O corpo dos amantes ainda buscavam ser decifrados quando isso tudo começou. Os encontros tiveram de ser pausados e coube a imaginação terminar aquilo que dois pedaços de carne começaram.

Os corpos ainda eram caminhos desconhecidos, passagens a serem percorridas, mas tiveram que encontrar a distância como uma diretriz. Um hiato. E um hiato pode pode mudar tudo. Os corpos dos que há anos se conhecem e se tocam sem tantos pudores, agora mostram que guardam outros segredos que só o silêncio e o tempo são capazes de revelar.

O corpo todo furado. Não de balas como antes. Por ora, ele é vazado pela dualidade, pelo risco, pela noção de que algo concreto pode acontecer a partir de encontros e esbarrões tão fluídos. O corpo todo inteiro. Não com as certezas de antes. Por ora, ele é inteiro por puro instinto de sobrevivência.

O corpo não mudou. Ou talvez até tenha mudado. O que não mudou é que o medo e o desejo continuam a duelar quando dois corpos se encontram.

A pandemia e as lições educacionais

Não podemos negar que os
meios tecnológicos ajudam na
interação do conteúdo com o ser humano,
porém, eles negam as relações inter-humanas.


“A mãe não é igual a você, você tem as manias de [professora], a minha mãe não tem, ela trabalha num restaurante, ela só tem as manias de fazer comida. Me desculpa incomodar agora, só que eu queria falar para a senhora isso.” Veja mais aqui.

Essa mensagem foi enviada por um menininho à Professora Noilza Lopes e viralizou em todas as redes sociais, revela muitas reflexões e lições que podemos elencar, sem sombra de dúvida, a respeito da educação.

Um dos aspectos revelados nesse depoimento é a humanidade, ou a falta dela no sentimento evocado. Sabemos que as palavras não vêm sozinhas: elas trazem valores, sentimentos e emoções. “A mãe não é igual a você, você tem as manias de [professora]”, deixa claro que ser professor é muito mais que trazer conteúdo “seco” e puro. Esta fala transcende o papel da educação que é da socialização e da humanização, pois a escola não existe para memorização, para cumprir lista de conteúdos apenas.



Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos propõe mudanças substantivas para atingirmos a humanização.



Neste momento crítico vivenciado experimentamos a tecnologia que nos permite a construção do conhecimento e aproximação com nosso estudante, porém ela não é o fim para educar, mas sim o meio.

A tecnologia pode muito bem servir como ferramenta para o ensino, porém ela sozinha é fria, é ineficaz, tanto do lado do professor quanto do estudante. Não podemos negar que os meios tecnológicos ajudam na interação do conteúdo com o ser humano, porém nega as relações inter-humanas.

A palavra dessa criança traz o mundo, o mundo que a educação ajuda construir a humanidade. Percebemos que a fala da criança demonstra um mundo de aflições, de sofrimento por não ter contato físico com a professora. A tecnologia pode amenizar a distância, mas jamais trará o afeto, o olhar sensível que tem o ser humano.

O menininho deixa claro que pensar em educação à distância como a única forma de ensino é negar a inter-relação eu-aluno x tu-professor, ou vice e versa tu-aluno x eu-professor, ou seja, a relação eu-outo. Isso porque as relações intersubjetivas estão sempre presentes.

O linguista que estudamos no Mestrado diz: “bem antes de servir para comunicar, a linguagem serve para viver. Se nós colocamos à falta de linguagem não haveria nem possibilidade de sociedade”. (BENVENISTE, 1989, p.222). Isso porque uma das faculdades da educação é a linguagem e o que nos torna humanos. A linguagem é fator fundamental para o professor trabalhar com o outro.

O áudio enviado para a professora Noilza deixa claro de forma angustiante o papel que tem o professor na vida do estudante, que necessita de um toque, de um olhar amigo, de uma visão diferenciada, do reconhecer-se como humano.

Porém, há que se ressaltar que essa angústia é vivenciada também por parte do professor, pois ele está angustiado, insatisfeito, porque sente falta dessa essência que a profissão lhe dá em ver seus alunos aprendendo. Ele está angustiado porque, por mais que manda as atividades, pensadas e refletidas para atender de fato o objetivo, fica no “escuro”, não têm retorno e ao professor esse retorno é seu combustível, a realização, o estímulo a seguir.

Outra reflexão que quero dividir é que o momento exige do professor uma certa obrigação em trabalhar com a tecnologia. Eu, em particular, fui sempre apaixonado e admirador no potencial em poder usar a tecnologia a favor do ensino.

Ao longo de minha carreira fui me reciclando e procurei sempre introduzir nos projetos para que os alunos pudessem usar aliada ao ensino-aprendizagem. Neste mês de junho, inclusive, lecionei uma disciplina de pós-graduação que, em virtude da situação, foi totalmente ministrada com o auxílio tecnológico do Programa Teams.  

Confesso que realmente o contato físico-visual é necessário, nada substitui o professor-físico em sala de aula, sem contar que cansa bem mais e a gente não tem a visão do todo, da atmosfera educacional. Essa questão também afeta o psicológico do professor, uma porque nem sempre todo mundo domina a tecnologia e isso acarreta uma insegurança e ansiedade.

Percebemos que a tecnologia faz parte da sociedade pós-moderna e dias menos dias ela entraria no mundo educacional, porém ela foi introduzida de forma abrupta. O que fica é que educação se faz com gente para gente. As relações intersubjetivas do eu-aluno, tu-professor x tu-aluno, eu-professor jamais serão substituídas pela máquina.

A educação é muito mais que conteúdos decorados. Ela transcende a humanidade que vive em cada um de nós. Isso é inegável. “Me desculpa incomodar agora, só que eu queria falar para a senhora isso”, “você tem as manias de [professora], a minha mãe não tem”.



O que eu espero, quando as crianças voltem para as escolas, é que tenha uma semana “sem aula”, que elas fiquem correndo e gritando nos pátios como os hamsters do capiroto até perderem a voz! Que as escolas mandem na agenda o seguinte bilhete: venham com roupa que possa ser rasgada, para que elas possam ralar os joelhos e cotovelos de tanto rolar na terra; que comam tatu-bolinha; que tomem banho de mangueira e muito, muito sol; que façam penteados malucos; que dancem muito e joguem bola até caírem exaustas no chão”. (Tatiana Lebedeff, professora universitária UFPEL)

Senhores pais ou responsáveis…

Se cada um de nós assumir nossa parcela de responsabilidade na educação das futuras gerações, realmente construiremos uma sociedade mais justa e solidária, bem como contribuiremos para fazer de nosso planeta um lugar equilibrado e sustentável.

Senhores pais ou responsáveis … é título de tradicional bilhete que nós professores mandamos para os pais (ou responsáveis) na tentativa de unir forças na resolução de problemas cotidianos de ensino-aprendizagem ou para a correção de comportamento e indisciplina.

Entretanto, a participação dos pais na escola vem decrescendo com o passar dos anos, fato esse, que preocupa-nos enquanto educadores. Muitos falam em desestrutura familiar e social outros ainda dizem que passamos por um período de instabilidade pós-moderna.

Enquanto educadores, quem algum dia não foi (ou ainda será) surpreendido com as seguintes reconceituações do conceito de família: “a namorada do meu pai é dois anos mais velha que eu e tá esperando nenê” ou “moro com meu avô porque o namorado da minha mãe bebe e pode me bater”. Pode se listar ainda afirmações como “meu pai não paga pensão porque ele tem mais filhos e tá desempregado” ou “prô acho que a minha menstruação tá atrasada, é verdade que existe um chazinho pra fazer descer?”

Nesse novo contexto, precisamos re-avaliar nossas atitudes e estratégias enquanto educadores para trazer a família de volta na escola. A família de hoje, de qualquer maneira que se entenda: a mãe ou o pai solteiro, pais casados, biológicos, de coração, avós, irmãos, tios… enfim os responsáveis!



Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.



Projetos comunitários parecem ser mais atrativos que as tradicionais reuniões de pais e devemos usar a oportunidade para enfatizar o quanto a família é importante no desenvolvimento das crianças e adolescentes, principalmente porque os mesmos tendem a refletir a realidade na qual estão inseridos.

Através de uma atividade com a família, deve-se aproveitar a oportunidade para frisar que a educação pode se dar de três maneiras: formal (nas instituições oficiais, como por exemplo, na escola), não-formal (através da socialização com a família, comunidade e sociedade) e informal (informação recebida através dos meios de comunicação, como por exemplo, programas de rádio e TV).

Nesse sentido, mesmo que a escola através de seus professores e gestores façam tudo que está ao seu alcance, isso representará apenas um terço da educação do aluno. O apoio da família no processo de ensino-aprendizagem é fundamental. Por exemplo, toda vez que eu pronunciava uma palavra errada em quanto criança, o responsável ao meu redor a corrigia.

Sabemos que é uma tendência dos pais se equiparar ao nível de desenvolvimento dos filhos. Assim, quando a criança diz “cuco” ao invés de suco, os pais numa tentativa de atingir a linguagem da criança acabam por oferecer “cuco” a criança, sem pensar nas consequências que isso poderia acarretar no desenvolvimento cognitivo. Quando a criança deixa a família para entrar na escola e diz “cuco” para seus colegas, pode ser que seja exposta à uma situação negativa de aprendizado.

Ao longo da vida escolar do aluno, o ideal é que os pais continuem acompanhando seus filhos, olhando os cadernos e temas de casa. Alguns pais se intimidam nessa trajetória, dizendo que não podem fazer nada pois não aprenderem esse conteúdo. Um outro extremo nessa questão, refere-se geralmente a mãe que acaba por “fazer”as tarefas da criança numa tentativa de ajudá-la.

Nenhum desses extremos acaba por realmente ajudar a criança em seu desenvolvimento. Os pais ou responsáveis não necessitam saber o conteúdo para fazer com que a criança aprenda. O que realmente importa é que a criança sinta a presença e acompanhamento dos pais, ou seja, sinta-se valorizada.

Essa conexão se transfere ao longo da vida, fortalecendo os laços afetivos. Disciplina é fundamental nesse processo e mesmo que escola e família desempenhem suas funções de uma maneira eficaz, ainda devemos levar em consideração o papel da mídia no desenvolvimento das nossas crianças.

Se cada um de nós assumir nossa parcela de responsabilidade na educação das futuras gerações, realmente construiremos uma sociedade mais justa e solidária, bem como contribuiremos para fazer de nosso planeta um lugar equilibrado e sustentável.



Este artigo foi publicado no Livro “Conversas entre educadoras: do dia a dia à utopia”, da autora Eliane Thaines Bodah e Jaira Thaines, Editora IFIBE, 2010.


Um olhar da pediatria sobre a pandemia do Covid 19


Wania Eloisa Ebert Cechin é médica formada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Passo Fundo há 33 anos (desde 1986) com especialização em pediatria e neonatologia realizada no Hospital da Criança Conceição em POA (desde 1989).

Mestre em Ciências da Saéde (2003) e Doutora em Cardiologia e Ciências Cardiovaculares (2013) pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Exerce atividades profissionais como Preceptora da Residência Medica de Pediatria do HSVP – UFFS, como professora do Internato Médico de Pediatria da UPF e nos atendimentos em consultório médico.

Ama o que faz! Acompanhar o crescimento e desenvolvimento das crianças dentro de um contexto familiar assim como trabalhar com acadêmicos de medicina e residentes de pediatria é muito gratificante para Doutora Wania. Wania se sente muito feliz e realizada na profissão, atuando com muito zelo e dedicação.

Tem 56 anos, casada com o médico psiquiatra Edson Machado Cechin e tem dois filhos: Igor, também médico e ortopedista em formação e Gabriel estudante de medicina. Preza muito pela nossa família e bem-estar de todos. Declara-se apaixonada por atividades físicas, dentre elas, a corrida de rua e o ciclismo. Aprecia muito uma alimentação saudável e a preservação da natureza.

Em entrevista ao site, expõe toda sua paixão e realização na profissão, bem como seus esforços para estudar e estar sempre atualizada na medicina, também em tempos da Pandemia do Covid 19.


SITE NEIPIES: Por que escolheste ser médica e qual a razão de ter escolhido a pediatria como especialidade?

DOUTORA WANIA: A escolha pela profissão surgiu na adolescência acredito que por influência familiar já que meus dois irmãos mais velhos também são médicos.  A decisão por ser pediatra veio durante a faculdade ao cursar a disciplina de pediatria e o internato medico, vendo o exemplo dos professores como pessoas carismáticas, responsáveis e com valores éticos.

Senti-me atraída por “cuidar de crianças” e principalmente por me tornar uma médica que seria responsável pelo bem-estar da criança, desde a fase da concepção até à adolescência e que poderia acompanhar o seu crescimento e desenvolvimento durante essa fase da vida.


SITE NEIPIES: Quais são os impactos da Pandemia do Covid 19 na sua rotina como pediatra e professora universitária?

DOUTORA WANIA: Em função das medidas de contenção da pandemia, estamos nos adaptando a um novo modelo de atendimento com o intuito de diminuir a velocidade de transmissão e sobrecarga nos sistemas de saúde.

As atividades acadêmicas de forma presencial e o internato médico foram suspensas. As aulas e discussões de casos passaram a ser de forma não presencial.

Continuamos estudando muito sobre essa nova doença e elaborando  protocolos próprios para atendimento  de crianças  no HSVP (Hospital São Vicente de Paulo) com fluxo diferenciado, quando apresentam sintomas respiratórios.

Os atendimentos em consultório diminuíram consideralvelmente e a procura são aqueles casos estritamente necessários. Houve liberação pelo Conselho Federal de Medicina para uma nova modalidade de atendimento não presencial: a telemedicina, focada mais em protocolos e sistemas. E estamos todos nos adaptando a essa nova situação.


SITE NEIPIES: Quais são os maiores riscos a que estão expostos nossas crianças e adolescentes?

DOUTORA WANIA: A grande maioria as crianças e adolescentes apresentam formas assintomáticas, leves ou moderadas da doença.

No entanto, no final do mês de abril, a Sociedade de Pediatria do Reino Unido emitiu um alerta reportando a identificação de uma nova apresentação clínica em crianças e adolescentes, possivelmente associada com a COVID-19. 

Os pacientes apresentaram uma síndrome inflamatória multissistêmica com manifestações clínicas e alterações dos exames  similares às observadas a síndrome de Kawasaki e/ou síndrome do choque tóxico.  

Nos Estados Unidos, até o dia 17 de maio, já haviam sido descritos mais de 100 crianças e adolescentes (entre 1 e 21 anos de idade, sendo mais de 50% deles entre 5 e 14 anos), hospitalizados por manifestações clinicas e alterações laboratoriais compatíveis com síndrome de Kawasaki .

Todos apresentaram febre, mais da metade apresentou lesões de pele, dor abdominal e diarréia, sendo que as manifestações respiratórias foram raras. Foram registrados três óbitos. Em 90% dos casos foi possível confirmar a infecção pelo vírus. (COVID 19) Os casos ocorreram dias ou semanas após, sugerindo que esta síndrome inflamatória pode ser uma complicação tardia da infecção.

Embora esses casos descritos tragam preocupação em relação a uma característica nova, aguda e grave da COVID-19 em crianças e adolescentes, vale ressaltar que tais ocorrências foram raras até o momento. Na nossa cidade não ocorreram casos de doença grave nas criancas até o momento.


SITE NEIPIES: Quais são os riscos da volta às aulas em nosso Estado e, especialmente, em nossa cidade, (considerados o alto número de infectados e a alta taxa de letalidade de pessoas pelo Covid) para as crianças e adolescentes, bem como para toda a população? Que cuidados devemos tomar para proteger nossas crianças e adolescentes, bem como a população de modo geral?

DOUTORA WANIA: Como as crianças e adolescentes estão sendo  poupadas das formas graves da doença, vários estudos têm demonstrado que elas também são infectadas. Tossem, espirram, compartilham brinquedos e alimentos sem maiores cuidados.

Apesar de até o momento não termos acumulado evidências que demonstrem o real papel das crianças na transmissão da doença, devemos reconhecer que a suspensão das atividades escolares, implementadas em nossa cidade e estado e também em quase todos os países do mundo, acabaram limitando a possibilidade de que se conhecesse  esse papel das crianças na cadeia de transmissão da doença.

Com o retorno das atividades escolares, é importante que cada escola adote medidas para  prevenir a infecção em alunos, pais, professores e funcionários. Os pais devem ser orientados a não levarem seus filhos à escola ao menor indício de quadro infeccioso, seja febre, manifestações respiratórias, diarreia, entre outras.

 As medidas de distanciamento social devem ser mantidas na escola, com o objetivo de diminuir o grande número de pessoas no mesmo espaço, reduzindo, assim a possibilidade de contágio.

Em um primeiro momento, o número de alunos por sala, sempre que possível, deverá ser reduzido e os alunos podem ser divididos em grupos que se alternem entre a atividade presencial e à distância, de acordo com as disciplinas curriculares.

O estabelecimento de ensino deve se organizar para que cada turma tenha o intervalo entre as aulas em horário diferente de outras turmas, assim como estabelecer horários de entrada e saída escalonados, evitando aglomerações.

Em relação ao transporte escolar, é necessário avaliar o número de usuários, para que se preserve a distância recomendável entre as pessoas também no veículo.

As medidas de higiene devem ser postas em prática na escola bem como o uso obrigatorio de máscaras. Cada estudante deve trazer sua própria garrafa de água, utilizando os bebedouros comuns apenas para enchê-las novamente.

A escola deve proceder a limpeza de seus ambientes pelo menos uma vez ao dia e, mais frequentemente, das áreas de maior circulação de pessoas, assim como dos objetos mais tocados (maçanetas, interruptores, teclados, etc.).

E, por fim, a escola é um espaço de formação e de exercício de cidadania e, neste momento, deve buscar cumprir seu papel, inclusive como promotora da saúde, com segurança e responsabilidade.


SITE NEIPIES: Que orientações a Senhora, como pediatra, daria a familia de crianças e adolescentes para atravessar esse momento critico?

DOUTORA WANIA: Nesse momento, cabe a família manter um ambiente equilibrado com redobrada atenção para higiene e distanciamento social. A família deve se organizar para a continuidade das aprendizagens escolares, atentando para as necessárias adaptações de suas rotinas.

O trabalho dos professores e o esforço das escolas não devem ser criticados negativamente.

O eventual amadorismo dos materiais produzidos e apresentados no ambiente virtual pelos professores e professoras durante essa pandemia e a falta de planejamento são esperados na situação atual. Isso está acontecendo com praticamente qualquer outro setor da sociedade e representa uma vitória sobre a inércia, o pânico e o desânimo.


SITE NEIPIES: Como a Senhora vê o mundo no pós pandemia?

DOUTORA WANIA: O mundo está aprendendo uma nova maneira de aprender. E devemos nos fortalecer com isso.




Fontes

  1. COVID – 19 e a volta às aulas: Documento Cientifico da Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento Cientifico de Imunizações em 13/05/2020.
  2. Ano Letivo de 2020 e a COVID-19 : Documento Cientifico da Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento Cientifico de Saúde Escolar  em 13/05/2020.
  3. Síndrome Inflamatória Multissistêmica em Crianças e Adolescentes provavelmente associada a COVID-19 : uma apresentação aguda, grave e potencialmente fatal – Documento Cientifico da Sociedade Brasileira de Pediatria – Departamento Cientifico de Infectologia  em 20/05/2020.


O universo da cultura

 “O homem não é o que é,
mas é o que não é” (Gusdorf)


Não são poucas as vezes que nos deparamos diante de questões de ordem cultural em nosso dia-a-dia. Com frequência ouvimos que conflitos sociais surgem devido às diferenças culturais.

Mas, o que é mesmo cultura? A palavra cultura tem origem latina, vinda do verbo Colere, que significa Cultivar. Isto é, o cuidado que o homem tem com aquilo que a terra lhe produz. Daí o conceito de Agri-cultura como cultura dos campos. Além disto, cultura significa o cuidado e a relação dos homens com os deuses; daí Culto A palavra cultura também adquiriu um significado de cuidado com a própria alma e com a Formação Humana. Por isto que para muitos, cultura significa o grau de conhecimento das ciências e das artes que determinada pessoa possui.

No entanto, antes de adentrarmos na problemática da cultura, retomemos a pergunta originária da reflexão filosófica: o que caracteriza o ser humano? Nesta nossa busca por entender quem é o homem não podemos negar também seu aspecto cultural. Identificar a cultura como aspecto constitutivo da natureza humana é aceitar que o homem se faz organizando uma cultura, ele se torna ser humano na medida que constrói uma “ponte” entre a sua humanidade e a própria natureza.

Muitos historiadores e antropólogos compreendem que o que nos torna verdadeiramente humanos e nos diferencia do mundo natural é a cultura. Segundo esta perspectiva a cultura foi a forma mais primitiva, a primeira manifestação do espírito humano uma vez que ela se constitui fundamentalmente em algo que “conforta” o homem diante da realidade (natureza) que se apresenta a ele de forma assustadora.

Em sentido antropológico, não falamos de cultura, no singular, mas em culturas, no plural, pois a lei, os valores, as crenças, as práticas e instituições variam de formação social para formação social. [1]

Em geral, os ritos, as danças, as festas e crenças revelam que o homem se relaciona com o mundo em que vive criando manifestações artísticas a partir das características geográficas que circundam. Desta forma, veremos que as manifestações culturais de uma comunidade de esquimós é bastante diferentes de uma aldeia de nativos australianos. Seus ritmos, sua culinária, suas festas e crenças se diferenciam na medida em que são resultado do meio em que habitam.

No entanto, há uma profunda identificação entre uma comunidade de esquimós e a aldeia dos nativos australianos, entre índios americanos e comunidades hindus, entre as pessoas que vivem nos aglomerados urbanos das grandes metrópoles e os agricultores da comunidades rurais: cada grupo social cria a cultura como forma de relação com a natureza.

O que é, então, a cultura?

Como resposta a esta questão podemos afirmar que a cultura é um “processo de autoliberação progressiva do homem, o que o caracteriza como um ser de mutação, um ser de projeto, que se faz a medida que transcende a própria existência”[2] ou como “processo pelo qual o homem acumula as experiências que vai sendo capaz de realizar, discerne entre elas, fixa as de efeito favorável e, como resultado da ação exercida, converte em ideias as imagens e lembranças, a princípio coladas às realidades sensíveis, e depois generalizadas, desse contato inventivo com o mundo natural”[3]

Cultura: o conjunto dos modos de vida criados e transmitidos de uma geração para outra, entre membros de determinada sociedade; englo­ba o que pensamos, fazemos e temos enquanto membros de um grupo social; a resposta oferecida pelos grupos humanos ao desafio da existên­cia, resposta que se manifesta em termos de comportamento, conheci­mento e paixão.

A cultura é o que nos faz diferentes do mundo natural. O homem encontra a natureza, estabelece leis e organiza as relações. Este distanciamento da natureza, de certa forma, fragiliza o homem na medida em que passa a perder a harmonia que ele tinha com o mundo natural quando nada mais se apresenta como certo e inquestionável.

No entanto, o que inicialmente parece uma fragilidade, torna-se a capacidade homem produzir a sua própria história, estabelecendo seus valores. Neste sentido, a cultura pode ser compreendida como a “maneira pela qual os seres humanos se humanizam por meio de práticas que criam a existência social, econômica, política, religiosa, intelectual e artística.”[4]

Cultura enquanto Relação

O que constitui uma cultura é a relação que o homem estabelece com o outro: Quem é, então, este Outro.

Primeiramente, este outro é a própria 1) natureza. O homem ao nascer depara-se com leis naturais fixas e imutáveis. Diante da sua incapacidade de modificar estas leis ele estabelece uma cultura que o tranquiliza diante do determinismo no qual está envolto. Em seguida, o outro passa a ser os 2) Deuses que podem significar a “ponte” entre o homem e o universo cósmico e expressam o desejo de transcendência do ser humano. Por fim, o outro pode ser o próprio 3) homem, isto é, seu semelhante.

Na medida em que nos relacionamos com os nossos semelhantes, estabelecemos uma cultura, uma relação que pode variar, conforme o contexto onde esta relação vai acontecer. Karl Marx, filósofo do século XIX, considera a cultura como fruto das relações sociais e de produção entre os homens. Assim, o Império Romano produziu um tipo de cultura, o sistema feudal e o capitalismo produziram um tipo de cultura. Segundo ele, assim surgem as classes sociais e a exploração de uns sobre os outros.

Cultura superior x cultura inferior:

“(…)as pessoas e os grupos sociais têm o direito a ser iguais quando a diferença os inferioriza, e o direito a ser diferentes quando a igualdade os descaracteriza.” (Boaventura de Souza Santos)

Se observarmos a nossa realidade, veremos que existem cientistas com um considerável conhecimento sobre questões bastante específicas e pessoas que sequer sabem escrever seu próprio nome.

Veremos, também, que existem pessoas que apreciam ópera e conhecem a estrutura musical das composições de Bach e outras que se contentam em ouvir sons eletrônicos onde a harmonia e o compasso nem sempre são características fundamentais. Além disto, se observarmos a história do Brasil perceberemos que houve um choque cultural no encontro entre os europeus que dominavam a ciência e os nativos que aqui viviam de maneira rudimentar.

Diante do exposto acima, podemos afirmar que existe cultura superior e cultura inferior?

Esta pergunta é importante porque não foram poucas as vezes em que este conceito foi utilizado no decorrer da nossa história. Podemos perceber o “emprego” desta compreensão de cultura na antiguidade, onde os gregos realizaram a chamada Helenização do Ocidente, através da difusão do ideal humano com valores definidos, quem não fosse helênico era considerado um ser culturalmente inferior.

No império Romano os cristãos foram perseguidos e mortos por expressarem valores culturais adversos aos do império. Da mesma maneira, a igreja católica, na idade média, combateu todas as formas diferentes de manifestação cultural que fugissem do esquema teológico-cristão.

Já no mundo moderno, a cultura procurou superar esta compreensão teológica da natureza e passa a acreditar na capacidade humana de compreender a realidade. Desenvolvem-se as artes, a política e as ciências naturais e a idéia de cultura passa a ser a “Cultura da Racionalidade” . Quem estivesse fora da racionalidade moderna era considerado inculto.

Não foram poucos os pensadores que acreditavam que os nativos “descobertos” na América não passavam de animais com características físicas semelhantes a dos humanos, mas sem nenhum traço cultural. Até mesmo o conceito de catequização dos índios, difundido pela igreja, era uma maneira de “inserir os selvagens no mundo ocidental”.

Por fim, em nosso cotidiano com freqüência constatamos o uso do conceito de superioridade cultural, seja nas disputas e conflitos étnicos que eclodiram em várias regiões do planeta no século XX, seja nas relações sociais que acontecem no mundo do trabalho e da nossa convivência.




Entenda como se configurou a identidade étnica no Brasil.

A partir da segunda guerra mundial percebemos como esta questão ainda está bastante presente nos nossos dias. A perseguição e o extermínio de milhares de judeus, fundamentado no conceito de superioridade da raça ariana; o antissemitismo na Europa e nos EUA, os atentados terroristas de 11 de setembro e a guerra entre Israel e Palestina são, além de exemplos alarmantes, um indicativo de que a paz mundial passa, necessariamente pela redefinição do conceito de cultura.

Existem dois tipos de cultura: da sociedade e da comunidade. A cultura da sociedade se impõe sobre a cultura da comunidade. A sociedade pela ideologia fragiliza a cultura das comunidades.

Sobre a charge: Autoria Laerte Coutinho (São Paulo, 1951]. Uma das principais cartunistas brasileiras, Laerte sempre conciliou arte com posicionamento político e crítica social, desenhou para diversos periódicos, criou revistas, publicou livros e escreveu para a televisão. Fonte: Memorial da Democracia


Autor do texto: Jandir Pauli, professor do PPG em Administração da IMED, graduado em Filosofia e Doutorado em Sociologia.



Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio. No Nono Ano, Unidade temática Política: Conhecimento e Estética, Objetos de Conhecimento: Temas relacionados à filosofia política (A construção do conceito de cidadania e cultura), Habilidades: analisar e compreender as mudanças de concepções socioculturais e políticas no tempo e no espaço.

Questões para pensar:

1) O que significa cultura de um modo geral?

2) O que a cultura, na sua forma primitiva, trouxe ao homem? Isso lhe fez bem?

3) A cultura faz o homem ser diferente do mundo natural. Essa afirmação é verdadeira ou falsa segundo o texto? Explique.

4) O homem estabelece sua cultura em relação ao “outro”. Quem são os três “outros” personagens que se relacionam com o homem pela cultura?

5) Como podemos perceber a questão da superioridade e inferioridade cultural em nosso cotidiano?

6) Por que você acha que o autor do texto resolveu publicar aquela charge no final da publicação? Como relacionar esta charge com a construção cultural da sociedade brasileira?

7) Escreva alguns exemplos de expressões culturais que você conhece em sua cidade.

8) Monte um quadro comparativo de duas regiões diferentes do Brasil e de um país estrangeiro. Use elementos culturais da música, dança, culinária e outros que descobrir.

9) No vídeo “Diversidade étnica brasileira” (https://youtu.be/Cd8wWgrnjSc?t=3 ), é apresentado um roteiro da história do Brasil. Quais são as características da formação e da identidade étnica brasileira?

[1] CHAUI, Marilena, Convite à Filosofia. São Paulo, Ática. 1998.

[2] ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires, Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986, p.5-6

[3] Op. cit. Vieira Pinto, Ciência e Existência, pg. 123 em ARANHA, Maria Lúcia de Arruda e MARTINS, Maria Helena Pires, Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo: Moderna, 1986, p.5

[4] CHAUI, Marilena, Convite à Filosofia. São Paulo, Ática. 1998.

Veja também