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Tempo de refletir e discutir política

Enquanto nos omitimos em participar
(tomar parte) na política, outros o fazem por nós.


Estamos em campanha eleitoral e, a partir da nossa fé e compromisso de cidadãos, devemos nos envolver neste processo, mesmo não sendo candidatos a cargos eletivos, exercendo o direito de todo o cidadão domiciliado no Brasil.

Nosso envolvimento será profundo através da escuta, discernimento e escolha dos representantes, uma vez que o voto é uma forma de promover o bem comum, finalidade da política. Desta campanha depende o futuro legislativo e executivo dos municípios que terão em 2021 novos vereadores e prefeitos.

Lembremos que é um debate importante pelo momento decisório que se avizinha. Entretanto, não está desconectado da necessidade de constante discussão política, o que foi marcante na sociedade grega, de onde se origina o termo (pólis – cidade), que diz respeito à arte de governar a cidade. Infelizmente, ainda reduzimos a política apenas ao período pré-eleitoral. Seu sentido é mais amplo e profundo.

A política está em tudo e muitas coisas dependem da política. Diz respeito ao cuidado e proteção da vida de todos. Logo, não podemos nos omitir em participar da política.

O fundamento dessa participação é uma expressão sugerida pelo Papa Pio XI (1857-1939), referenciada tanto pelo Papa São Paulo VI (1897-1978) e, também, pelo Papa Francisco que define a política como “a forma mais sublime de caridade porque busca o bem comum” (EG 174).

Infelizmente, por parte de muitos cristãos e a partir de um escrúpulo equivocado, buscou-se fugir do debate e da participação política. Afirma-se de forma errada que o “bom cristão” não deve se envolver com política. Está no senso comum das pessoas a desculpa que “não se metem em política porque ela é suja”. Contudo, isto é um equívoco ainda não superado e que traz muitos malefícios. Enquanto nos omitimos em participar (tomar parte) na política, outros o fazem por nós.

A política, como tema de debate e de ação, precisa fazer parte do nosso cotidiano. É responsabilidade maior dos cristãos que seguem o homem de Nazaré, o Filho de Deus. Ele, politicamente, começou a sua missão na Galileia, contexto de periferia, e não em Jerusalém, centro político, religioso e econômico da Palestina. Ali estava uma decisão política de Jesus a qual ele assumiu até as últimas consequências, assim como os seus desdobramentos. Politicamente, Ele se pôs em diálogo com os diferentes grupos sociais, contudo, a partir de um critério: o Reino de Deus e sua justiça (Mt 3,15; 4,17).

Em fidelidade a Jesus e ao Reino por Ele anunciado a Igreja compreende a necessidade do agir político.

Fundamenta este princípio no Compêndio de Doutrina Social publicado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz (2004) e, anteriormente, nas diversas manifestações dos Papas em exortações e encíclicas.

Contudo, é consenso a orientação para o não envolvimento, especialmente, dos ministros ordenados em cargos de poder nas diferentes esferas de Estado. O agir da Igreja em sociedade, na qual atua a partir do princípio da fé cristã, se dá na esfera civil.

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, sustenta este princípio ao afirmar: “A Igreja em razão da sua finalidade e competência, de modo algum se confunde com a comunidade política e nem está ligada a nenhum sistema político, é ao mesmo tempo sinal e salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana” (GS 76).

A Igreja também defende a necessidade do fortalecimento da educação civil e política, para que todos possam desempenhar o seu papel na vida da comunidade política (cf. GS 75).

O agir político do cristão compreende a luta contra a injustiça, a intolerância ou a opressão; volta-se ao bem de todos com sinceridade e retidão e jamais em vista de benefícios particulares ou grupais.

A política é um instrumento importante do agir cristão. Devemos compreender este exercício como direito e dever. É um processo permanente de participação em vista do bem comum, que adquire especial relevância nestes tempos de tomada de decisões.

 

O ensino remoto e os alunos especiais

Se as pesquisas apontam que o ensino remoto
está prejudicando a forma como os alunos compreendem
os conteúdos didáticos, imagine aqueles alunos especiais
que não ouvem, não veem e nem conseguem
aprender sem o auxílio do professor presencialmente.


Desde o início da pandemia, nosso ensino tem passado por grandes transformações. São professores se esforçando para aprenderem a dominar as novas tecnologias, são alunos de um lado procurando se concentrar diante das telas dos computadores durante quase cinco horas ininterruptas e são escolas fazendo de tudo para oferecerem o melhor possível à comunidade escolar. No entanto, uma parcela dessa comunidade tem sido parcialmente esquecida: os alunos especiais. Sim, são eles os mais prejudicados com o ensino remoto.

A distância por si só já nos traz sérios problemas de comunicação, imagine um deficiente auditivo assistir as aulas pelo computador sem intérprete e mesmo que haja o intérprete, o que na maioria das escolas do Brasil quase não existe muitas vezes a conexão da internet atrapalha essa comunicação com travamentos, luminosidade e tantos outros problemas que acarretam na dificuldade cada vez maior do deficiente auditivo ter o seu ensino-aprendizagem garantido. Ele até se esforça e muito para compreender o que está sendo ensinado, mas nem sempre consegue.

Necessitamos olhar com mais cuidado para as diversas deficiências que têm os nossos alunos. Aqui, refiro-me ao deficiente auditivo, mas também temos aqueles alunos com déficit de atenção, autistas, deficientes visuais e tantas outras deficiências que já conseguem ser bem cuidadas nas salas de aulas presenciais, mas no ensino remoto como tudo foi nos colocado de forma rápida e sem tempo para elaboração de planejamento parece que esquecemos dessas pessoas especiais que tanto necessitam de cuidados.

 Quando falo de cuidados, não me refiro somente aos que vão dar condições de um ensino-aprendizagem adequado, mas cuidados também com as suas emoções, pois esses têm sempre mais dificuldades para se acostumarem com o novo. Se o novo nos afeta de maneira tal que chegamos a pensar em desistir de tudo, como vemos muitos alunos trancarem disciplinas porque não conseguem se adaptar ao ensino remoto, imagine para aquele aluno que não consegue acompanhar a aula porque a tela do computador trava e o intérprete fica congelado por minutos.

Devemos imediatamente nos preocuparmos com um ensino remoto que se preocupe com as pessoas especiais ou estaremos fadados a perdermos muitos alunos. A oferta de mais intérpretes às escolas, conexões com a internet mais velozes e computadores mais modernos poderia ser o caminho. Mas, também não adianta ter nada disso se os nossos professores não souberem o que vão ensinar a esses alunos remotamente. É preciso um plano de aula que consiga abranger a todos os alunos.

A deficiência física não deve em momento algum ser um empecilho para o ensino-aprendizagem, porém é o que estamos observando no ensino remoto. Alunos sendo desafiado pela distância com o professor, numa sala de aula virtual, onde o ensino tenta por várias formas se aproximar do real, mas falha e falha porque não temos tido um cuidado com esses alunos que tanto precisam de nós.

Conheço uma professora que tem um aluno com uma rara deficiência mental e física que mal consegue compreender o que é ensinado em sala de aula, esse aluno vai à escola para se socializar com os demais, porque assim estará exercitando o seu direito garantido por lei de estudar. A sua professora me contou que as aulas dele são diferentes das dos demais alunos. Ela não pode mandar vídeos para ele ver porque não entenderia nada. Então, ela prepara atividades por escrito e envia para escola que chama os pais ou responsáveis para levarem a atividade até o aluno. O problema é que na escola, a professora tem a didática e o cuidado de como ensinar a esse aluno, porém em casa ninguém sabe ou tem jeito de ensinar-lhe. Para os seus familiares ele só vai à escola para ficar junto das outras crianças, nunca aprenderá nada. Mas, para a professora dedicada ela sabe que, de uma certa forma, ele aprende quando ela o ajuda a fazer as tarefas mesmo com todas as dificuldades de movimentos físicos que ele tem devido a sua deficiência.

Vemos os nossos professores se reinventarem todos os dias para atenderem as necessidades dos seus mais diversos alunos, os cuidados sempre atentos ao ensino-aprendizagem, contudo nada pode ser feito se não tiverem apoio das coordenações e direções escolares. Tudo tem sido muito difícil para todos nós, e isso precisa ser entendido pelas autoridades educacionais. Não está sendo fácil se adaptar a um tipo de ensino que exige o tempo todo uma reinvenção de outros eus que nem sabíamos que existiam em nós.

De certa forma, conheço vários professores que estão se deslocando até as escolas para entregarem as atividades dos alunos especiais pessoalmente aos pais ou responsáveis, pois chegou-se a conclusão que o ensino remoto não consegue alcançar esses alunos no que diz respeito a aprendizagem.

Quando o professor mora perto da escola, não é do grupo de risco da covid-19 e pode se deslocar da sua casa com o mínimo de risco de ser infectado, ele faz isso para atender ao seu aluno especial que não consegue acompanhar o ensino remoto, ou seja, temos visto esforços por parte dos nossos professores e não são poucos desde que começamos nesse tipo de ensino, mas chegou um momento que exige maiores cuidados por parte dos gestores educacionais porque os alunos especiais estão ficando para trás no que diz respeito ao ensino-aprendizagem.

Se as pesquisas apontam que o ensino remoto está prejudicando a forma como os alunos compreendem os conteúdos didáticos, imagine aqueles alunos especiais que não ouvem, não veem e nem conseguem aprender sem o auxílio do professor presencialmente.

O cuidado à distância é completamente diferente do cuidado presencial. Se o aluno começar a chorar em sala de aula o professor poderá abraçar-lhe e acalmá-lo dizendo que logo tudo vai ficar bem, mas no ensino remoto ele só poderá dizer palavras que serão transformadas em bytes e viajarão por fibras ópticas.

As palavras nem sempre chegam com o mesmo carinho das palavras presenciais. Afinal, nós brasileiros gostamos de calor humano. E estamos acostumados a receber cuidados que ultrapassam conexões de alta velocidade, telas de computadores e sistemas de ensino que por mais bem elaborados que possam ser não nos tirarão nunca o desejo de sentir a presença do professor ao nosso lado.

Vamos criar um jeito de cuidar dos nossos alunos especiais com mais amor e mais respeito às suas dificuldades. Infelizmente, da minha turma de vinte alunos do curso de Inteligência Emocional que eu ministrava remotamente no início da pandemia, restam apenas três porque os demais não têm conexão wi-fi em casa, todos acessam pelos dados móveis dos seus aparelhos telefônicos sendo que um deles ficou de fora do curso porque é deficiente auditivo e não há intérprete para o curso. Eu perdi a minha turma no meio do curso. Sinto que perdi um pouco de mim em meio a tudo isso porque esforcei-me para oferecer esse curso aos meus alunos que tanto necessitam de cuidados emocionais.

Peço aos meus amigos professores que não desistam nunca dos seus alunos especiais e que busquem junto aos seus gestores e coordenadores uma forma de incluir esses mesmos alunos nas aulas remotas, apesar de todas as dificuldades que nós enfrentamos. Somos nós que salvamos todos os sonhos das nossas crianças e jovens. Continuemos salvando!

“Pela tela do computador abraço os meus alunos, mas um deles me diz que não é a mesma coisa do abraço presencial e manda um emoji triste para mim. Fico a pensar em quantos abraços deixei de dar nesses últimos cinco meses, em quantos desabafos e conselhos ficaram perdidos por trás da tela do meu computador”. Leia mais aqui.

O professor e a educação: olhares



“Vivemos tempos de grande ignorância, como um sintoma da falta de valorização da escola. Ademais, há a romantização e idealização do professor como alguém capaz de sacrifícios enormes para cumprir seu “ideal”. Essa visão romântica da educação aparece sobretudo nos meios de comunicação, mas é reflexo do pensamento de uma sociedade na qual o valor do professor não é o mesmo de outros profissionais.
(Valquiria Ponciano, arte-educadora e arteterapeuta)




“Há carência de momentos e espaços para escuta do professor. Somos professores por profissão e educadores por missão, mas, sobretudo, somos pessoas, gente. Se faz necessário que o professor assuma um protagonismo para além do espaço escolar. A educação constrói conhecimento, mas, também, socialização. O conto “O Mundo” de Eduardo Galeano ajuda a entender a humanidade dos professores e o reconhecimento das humanidades que existem em cada um de nós e em cada pessoa”.
(Nei Alberto Pies, professor e escritor).



Conheça o conto

“Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

— O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo”.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio.
Publicado no Livro dos Abraços, editora LPM, 1991. Leia mais aqui.



“É necessária a politização do professor, entendendo a política como um exercício de cidadania. Não é aceitável vermos o Brasil com tantas riquezas sendo apropriadas por poucos e expropriadas por outros países do mundo. Fico preocupado com o futuro da profissão, uma vez que os jovens já não demonstram muito interesse em ser professores.  Isso é resultado de anos sem investimento, cuja relevância aparece apenas em véspera de eleições. O discurso da “escola sem partido” é, na verdade, o desejo de uma escola “sem consciência”.
(Mauro João Calliari, professor aposentado e membro da direção do CPERS).



“Educar é, sobretudo, ampliar a consciência da própria realidade e do mundo. A escola deve ser espaço de formação humana, de promoção de aprendizados, mas, sobretudo, fomentadora de autonomia e consciência de classe visando ao protagonismo do aluno como sujeito da história. Se o aluno tiver acesso à consciência de sua realidade política e social, ele saberá agir para a mudança da realidade. Esse papel não se efetiva sem a participação das famílias. As aulas à distância, durante a pandemia, relevaram como o meio familiar se reflete no aluno. É na família, onde a falta de políticas públicas revela suas consequências”.  
(Renata Piasentini da Rocha, professora de História na rede estadual).

***

O que os professores relatam em seus olhares, é o lado sensível da visão utilitarista e economicista da educação, em que o professor passa a ser apenas uma engrenagem da máquina, exigindo-se dele resultados quantificáveis, e onde os alunos são vistos como produtos de uma fábrica. A desvalorização da educação e do professor é uma estratégia do projeto neoliberal do mundo.

Os estados e os governos preferem investir na produção de conhecimentos úteis e determinados, reduzindo o papel da arte e das humanidades, seja porque não geram lucro aparente, seja porque promovem a consciência e o questionamento do status quo vigente.

Por isso, nestes tempos de escolhas políticas para a cidade, é necessário votarmos naqueles que se comprometem em ouvir e ser voz dos educadores, em partidos cujos princípios sejam comprometidos com as pessoas, com mudanças sociais, com igualdade e respeito à diversidade.

Prefeitos e vereadores devem estar comprometidos na implementação de políticas públicas amplas, as quais, de modo direto ou indireto, promovem a vida digna das famílias, refletindo na valorização dos docentes e no protagonismo dos alunos.

Não vote em quem não acredita na educação, na ciência, e quem acha que os educadores tem privilégios e são vagabundos. Um pouco de amor próprio e caldo de galinha só nos fortalecem!

O sonho em meu caminho: sou Daniel

Chegamos ao novo país!
A primeira expressão escutada
pela primeira vez na vida:
“Bem-vindos! Vocês estão salvos!”

“Sou Daniel, um anjo de nome. O anjo que auxilia a obter a misericórdia de Deus. Foi o que eu fiz quando minha mãezinha recebeu o diagnóstico de câncer, foi um dia de tempestade com sol brilhando. No lugar onde morávamos, não havia recurso. Larguei tudo e viajei em busca de solução. Minha mãe lutou bravamente, mas infelizmente ela partiu tão cedo. O céu se abriu para recebê-la. O céu rasgou o manto num vazio profundo. Meu coração se partiu aos pedaços. Acordei de um pesadelo, mas continuo nele.

O país, num ato paradoxal, sucumbiu. Rico, mas destruído. As dificuldades aumentaram. Não havia mais como ficar remando contra uma maré que não passava. O jeito era tentar acordar do pesadelo, pois ninguém espera que seu país vai falir. Devemos desbravar um sonho de uma vida melhor. Chile? Colômbia? Peru? Talvez pudesse ser a escolha correta já que a facilidade do idioma era um ponto positivo. Não! O meu sonho vai trilhar o caminho da Língua Portuguesa, um desafio maior.

Muitos dias percorremos, noites dormidas no mato, enfrentando os impropérios temporais e humanos para vislumbrar uma nova possibilidade. Dormimos eu e uma amiga Betsimel, na fronteira.  A voz já não saia mais, o cansaço era maior que a alma, maior que o sonho, a esperança era única no olhar. Trazíamos alguns pertences, porém foram deixados para trás, não havia mais força que permitisse carregar. Voltar não era mais possível, em virtude da distância e o momento passado pelo país. Um país onde a fome e o desespero imperavam.

Chegamos ao novo país! A primeira expressão escutada pela primeira vez na vida: “Bem-vindos! Vocês estão salvos!”. Isso deu um grande alívio, porém o desafio começava ali. Sobreviver! Como?

Dormi muitos dias num quarto com muitas pessoas na cidade de Boa Vista. Precisava fazer alguma coisa para tirar o sustento. Minha mente dizia: “Sei que sou formado Engenheiro Eletricista, porém o que me derem para fazer, eu faço. Era carnaval, aliás, a única coisa que sabia sobre o Brasil. Que festa linda!  Conheci uma amiga especial chamada Rosa Angélica. Eu e ela vendíamos doces que minha amiga Betcimel, venezuelana, fazia. Muitas vezes, saíamos nós três. Éramos inseparáveis: eu, Betcimel e Rosa. 

Num determinado dia, saímos para vender sonho. O sonho que sonhei. O sonho que eu vendo. O sonho de uma vida melhor. A festa glamorosa estava acontecendo. Parei com uma bandeja cheia de sonho, em frente uma grande televisão, pois me encantei com a beleza da festa que estava passando.  Logo, observo um homem que vinha em minha direção, parecia mais um gigante do que homem normal. Pronunciou uma expressão em forma de palavras que não entendi nada. Para mim estava tudo bem! “Sai daí seu venezuelano filha da puta! Aqui não é lugar de vender essas porcarias, saia daí”. Como não entendi nada, continuei onde estava. Foi quando um policial me chamou, fazendo sinal para que eu viesse até ele. Você sabe o que ele te disse? Não, eu não entendi. Ele disse que é pra você ir vender em outro lugar. Olhou-me com um ar de pena e disse: me dá todos esses sonhos que vou comprar de ti. E ainda disse para eu ficar com o troco. Meu coração não resistiu a emoção”.

***

Eu, Laercio, estou escrevendo através de um deslocamento que faço por meio das palavras que brotam de meu coração. Sou autor-mensageiro. Coração de irmão. Deslocamento de empatia. Não há como não verter lágrimas dos olhos, sangrar o coração e a alma. Posso dizer que uso uma técnica literária “life writing” originado do inglês, mas meus dedos digitam o que minha alma dita um esboço passado triste em português, para imaginar que isso possa ser ficção, mas é verossímil.

Muitas vezes, parece-me ouvir em espanhol, as palavras contadas por Daniel. Escrita de vida, vidas sofridas. Vidas marcadas por sonhos destruídos e reconstruídos. Life writing, escritas de vidas que buscam representar múltiplas vidas, muitos Danieis, muitas Rosas. Vidas que se cruzam. Como receber as pessoas em nossas vidas? Como perceber vidas que se cruzam? Por que há divisões territoriais? Por que a sociedade é assim? Quem tem essa propriedade pra dizer a outro ser humano que neste espaço ele não pode conviver? Para amenizar essas duras perguntas, escrevo sobre Daniel, que representa muitas histórias de vidas, que está no corpo, no coração, no sofrimento, no preconceito sofrido, na alma de muitas outros e que, muitas vezes, ninguém percebe os sons silenciosos que ecoam da alma sofrida. Eu tentei perceber.

Encarno novamente Daniel. Minha voz de escritor assume a empatia…

***

“Muitas dificuldades enfrentei em Boa Vista. Sempre passava por um mercado, vendendo sonho. Eu fiz amizade muito forte com Rosa Angélica e Bectimel, saímos vender juntos. O namorado de Bectimel sempre dizia para eu procurar trabalho no mercado onde ele trabalhava. Ofereci-me para trabalhar então, foi quando Cristian Fernandes, dono do mercado, me deu a oportunidade para trabalhar.

E, quando quebramos uma asa, quem poderá nos ajudar a voar? Sem dúvida, um anjo como Marília Azevedo. Que quando fiquei doente dos pulmões ela me levantou com duas asas e me levou ao hospital. Cuidou de mim como se cuida de um filho. Fiquei internado por quase 30 dias. Meu diagnóstico era complicado, pois tinha líquido em um dos pulmões. Marília era esposa de Cristian.

Eu sou anjo, porém preciso nominar que conheci os primeiros anjos brasileiros em Boa Vista. Eu fazia um curso de Português e a Professora me convidou, dizendo que num determinado dia haveria uma integração de culturas brasileiras e venezuelanas e era para ir participar porque nesse dia arrecadariam donativos para depois distribuir. Eu fui.

Num determinado momento lá na praça. Entrou na minha vida um clarão. Observei que as portas do universo se abriram. Escutei a música que me comoveu, era salsa. Meu corpo não se conteve. A bailar ele começou. Eu fui tomado pela música.  Nesse momento meus olhos focaram em duas gurias lindas. Acerquei-me e perguntei se uma delas não era a miss Venezuela. Era encantadora. Uma delas me disse que era Jô Oliveira, brasileira e a outra era Tati e que inclusive nem conhecia quem era a miss Venezuela. Ela era Jô, mas tinha o sobrenome de anjo. Um anjo que entrou na minha vida. Ajudou-me a tirar todos os meus documentos. Ela foi meu anjo. Anjos, muitas vezes, não têm asas, mas têm um coração enorme. Não obstante, ela foi e falou para Cristian para que me aceitasse para trabalhar. Eu disse que eu faria qualquer coisa. Disse que eu sabia limpar muito bem o chão. Aprendi muito. Fiquei um ano e pouco trabalhando no mercado. Neste local, inclusive, vivi uma aventura de um assalto.

Os anjos estavam por toda a parte. Parecia que minha vida se cercou de uma legião de anjos. Anjos que me pegaram pela mão e me ensinaram voar. Jhom e Maria foram alguns desses. Venezuelanos. Nunca tiveram carteira assinada. Viviam em Boa Vista. Sobreviviam. Vendiam picolé e brigadeiro, porém a vida estava difícil. E um dia me falaram. Nós precisamos ir embora, aqui não tem vida. Eu fiquei um pouco preocupado, pois para onde iriam? Jhom me respondeu dizendo que não sabia, mas ali não ficariam mais. “Olha, há um cadastro da ONU e igreja, para ajudar aos venezuelanos irem mais para dentro do Brasil. É para onde tem vaga. Pode ser para São Paulo, pode ser para Bahia, Mato Grosso, pode ser para qualquer estado. Tem mais uma coisa, Daniel. Nós vamos embora em 06 de novembro para o Rio Grande do Sul. Uma cidade Chamada Carazinho”.

A despedida foi dura. O coração chorava apertado. Os olhos emaranhados de lágrimas. Pois os meus amigos, meus anjos se foram”.

O tempo passou. Jhom e Maria foram os pioneiros a descobrir um mundo diferente do Sul do Brasil. Inclusive, tiveram uma bebê. A primeira Carazinhense. Eles sempre insistiam para que eu viesse para Carazinho. Nesse meio tempo, Cristian Fernandes vendeu o mercado e outros assumiram, que mais se configuraram uns exploradores de funcionários. Foi aí que me decidi mudar e arriscar. Quando eu pensava isso, começava a chorar, pois sabia que a distância dos meus parentes, do meu país ficava ainda maior.

O dia de dizer tchau a Boa vista chegou. Primeira parada do avião foi no Pará. Nesse lugar estavam muitos venezuelanos que não havia outra feição no olhar, senão a esperança de um porvir. Alegria era grande, porém muita nostalgia por deixarem muitos irmãos lutando naquela terra de meu Deus. O avião decola novamente. Nesse momento bateu o desespero. As nuvens que passavam pela asa do avião, eram parecidas com as lembranças das vivências. Os parentes que muito mais longe ficaram na Venezuela. Eu só chorava. Com 3 horas de voo chegamos a Brasília. Os comissários do avião foram muito amáveis com todos. Fizeram um banquete para receber-nos. Não precisamos comprar nem uma água. Confesso que passei meio tonto porque o avião era da aeronáutica e o piloto fazia manobras muito bruscas.

Brasília a Porto Alegre. Ao passo que aumentava a distância, meu coração exalava mais ainda uma saudade que doía, pois tinha plena certeza que para voltar era mais difícil. Naquele tempo minhas lágrimas já não escorriam mais, apenas meu coração doía, sabendo que meus parentes ficaram na Venezuela. Eu estava sozinho. Na chegada a Porto Alegre o Piloto disse: – Bem-vindo ao estado do melhor churrasco do mundo! Os repórteres cercaram. Muitas entrevistas. Um padre falou, não entendi nada. Separaram as mulheres e crianças num ônibus e homens em outro. Noutro dia partiria para a cidade que seria meu novo lar, Carazinho.

No dia seguinte, cheguei em Carazinho. Assim que cheguei, meu amigo Jhom ligou para o Jornal Diário da Manhã que fez uma entrevista comigo. A primeira impressão foi das melhores. Eu tinha na mente uma impressão não tão boa dos brasileiros, pois em Roraima as pessoas eram muito preconceituosas, algumas, nem todo mundo. Mas eu sentia. Aqui em Carazinho as pessoas são muito carinhosas.

Agradeço muito meus amigos Jhom e Maria que saíram de Roraima primeiro, fazendo o caminho e graças a eles eu estou aqui nesta cidade. Chegando na cidade, aproximaram-se mais dois anjos: Lorena e Sandra. Pois ouviram na rádio e logo deram jeito de cobertores, alimentos e casa para alugar. Elas sempre estão ao redor nos dando suporte. São como mães.

A abordagem é bem diferente e permite que a gente se sinta acolhido: “Tu é venezuelano? Que bom!” “A tua língua é muito linda!” Fomos até em uma festa gaúcha. “Ah, você é estrangeiro? Que bom!” Seja bem-vindo! E ainda continua sendo muito acolhedora.

E eu sou Daniel Vargas. Sou venezuelano. Sou engenheiro eletricista. Trabalho em Não-Me-Toque, na empresa Stara. Sou anjo que encontrei muitos anjos. Fiz o mesmo processo com outros conterrâneos meus. Sou anjo, mas muitas vezes nossas asas enfraquecem e precisamos que outros anjos nos ajudem a voar”.

“Yo soy  Laercio. Soy brasilero. Soy profesor.  No soy angel de nombre, pero ya fui angel para alguién. Ya tuve mi alas sin fuerzas para volar, fue por eso que he recebido muchos impulsos en mi vida de otros angeles. En este texto, he prestado mis alas, mi inteligencia, mi mente para organizar la historia del angel llamado Daniel. Me gustaría que esta historia fuera solo una ficción inventada por mi capacidad linguistica y literaria.  Que lástima! No es! Vidas que se cruzan. ¿Cómo recibimos las personas en nuestras vidas? ¿Cómo percibir cuando vidas se cruzan? La mia se cruzó con a la de Daniel. Muchas personas pasan por nuestras vidas y no dejan nada. Otras pasan por nuestras vidas y dejan lecciones de vida, que sirven para quedarnos más fuertes”.



Fotos: Arquivo pessoal/divulgação

Entre a pena e a agulha

“O essencial é invisível aos olhos”


Por experiência própria, pena e agulha se afinam e se reconciliam entre si, mesmo tendo funções específicas e singulares. Cada uma tem seus pontos e se fazem ao seu tempo.

Escrever e bordar, são duas tarefas espetaculares, terapêuticas. Cada uma guarda segredos próprios, revelados às mulheres e homens, que souberem desvelar esse segredo. Não se mede, de forma alguma, o trabalho que gratifica e realiza quem o faz, aparentemente oculto ao olhar sem lentes.

Quem não arrisca, não tenta, não exercita dar pontos e juntar letras, dificilmente sentirá gratidão própria deste gesto. Contudo, deveria persegui-lo, procurá-lo, até encontrá-lo. É uma espécie de tesouro, ao alcance de poucas criaturas, cuja busca, não as cansam.  

Vemos que o período de Pandemia tem se prolongado mais do que esperávamos, deixando-nos um tanto ansiosos e preocupados. Por vezes, demais desocupados, ou, ocupados por demais, pelas bolhas do mundo virtual, sujeitos ao esvaziamento. Já sentimos que a Pandemia tem se demorado entre nós, agravando ainda mais os dramas humanos do século XXI.

Ainda que haja várias pesquisas em curso, nada nos assegura, em quanto tempo teremos vacinas, seguras e eficazes, capazes de imunizar a maioria das pessoas. O Vírus alcançou, desta vez, o mundo inteiro, especialmente ceifando vidas e deixando sequelas entre os mais pobres, desprovidos de direitos básicos.

Este mundo, alcançado pela pandemia, está fechado sobre si, cuja luz e caminhos de esperança terão que ser reencontrados. Temos o desafio de refazer, com detalhes, as trilhas para esse reencontro.

O momento ainda é de precaução e pré-ocupação. Esta é a orientação dos pesquisadores/cientistas sérios e éticos: precaução. Evitar aglomerações, lavar as mãos várias vezes ao dia, usar máscaras, e sair de casa somente para o necessário. Medidas básicas como estas, tem nos assegurado menos contaminação, menos mortes, e, por isso menos sofrimentos. Ainda assim, há pessoas descrentes, indiferentes e desligadas do que pode ocorrer com o outro, contaminado por mim, ou eu contaminado por ele.  Precisamos combater a indiferença dos que se importam apenas com si mesmos, sem olhar para aqueles que encontram no caminho. Contudo, neste sentido, não esperemos, na pura espera, bons exemplos do Planalto e nem da Casa Branca.  

Fico muito preocupada com a aparente normalidade, com a reabertura de quase tudo: comércio, casas de festas, igrejas, parques, praças e escolas. As escolas são as que mais nos preocupam, pelo número de pessoas que se envolvem neste retorno e percurso. Há como aceitarmos entre 500, 600 óbitos diuturnamente?

Não quero crer nesta indiferença! A indiferença é o peso morto da história, dizia Gramsci. Não é uma atitude aceitável para nenhum ser humano, frente a qualquer situação de sofrimento do outro. A dor do outro deve nos comover, que significa, nos mover, de alguma forma, na direção deste outro que sofre.

Preocupado com os problemas sociais, ainda mais agravados pela Pandemia no mundo, o Papa nos escreve uma Carta Encíclica, Fratelli Tutti, lançada, a propósito, no 04 de outubro, dia de São Francisco de Assis, Patrono de seu Pontificado. Com o cuidado de quem sabe lidar com a pena, nos exorta ao cuidado da vida, das relações humanas, o jeito de tratarmos a natureza. Como um grande cuidador da alma humana, nos dá o exemplo de um coração aberto ao mundo inteiro, solidário. 

Obviamente que o tempo de pandemia força nossa criatividade. A leitura e a reflexão da Fratelli Tutti nos ajudariam a entender melhor este momento, e como vivermos melhor a vida, daqui para frente, se ainda há tempo para repararmos o que envenenamos e estragamos.

A cada dia temos o desafio de organizar nosso tempo e ocupações, por ordem de prioridade, sem esquecer que somos gente, de carne e osso, e com um coração que sangra todos os dias, nos diz Saramago. Somos seres humanos, embora muitas vezes, nossas atitudes provam o contrário: esquecemos de nossa humanidade. Enlouquecer ninguém quer e não é bom que aceitemos a loucura por algo que vai passar, e passará.

Há quem diga: “de perto ninguém é normal”. Eis a oportunidade extraordinária de ficarmos bem perto de nós mesmos, muitas vezes, somente de nós mesmos. Quem sabe, podemos confirmar e reconhecer nossa própria anormalidade. E assim nos perguntar: como me vejo? Como me trato? Como me escuto? E como ouço a voz de quem não está presente? Se enlouquecermos, teremos duplo trabalho: lutar para voltarmos ao normal da vida, dos pensamentos, dos sentimentos. Quantos desafios o tempo de Pandemia está nos impondo! Tenho pensado que a depender do comportamento de cada um de nós, tudo vai passar, e resultará em um grande aprendizado.

Mas, com o que mesmo ocupamos o nosso tempo, limitados de encontros e abraços? Que experiências, aprendizados recolhemos e partilhamos?

Pois é, eu encontrei um jeito, por ora, bem saudável para conviver e enfrentar o tempo de recolhimento, que demora a passar. Retomei o bordado à mão, iniciado há 4 décadas, deixado um tanto de lado pela labuta do cotidiano. Sem muito pensar, comecei a bordar, a princípio, desinteressadamente. Preparei o tecido, as linhas coloridas, as agulhas, os desenhos e o antigo carbono para passar os desenhos, do papel para o pano.  Bordei um ramalhete, e depois outro. A cada obra, me via admirando o que fazia. Sentia forte alegria e amava o resultado. Olhava, admirava, estranhando o que eu mesma havia feito. Ponto por ponto, bordando o pano, como se plantam flores na terra, combinando umas com as outras. Bordar o tecido e plantar flores guardam relação intima. As flores bordam o chão, e cada estação da natureza, requer qualidades próprias. Ambos precisam de planejamento, combinação, ponto por ponto.

A escrita, aqui batizada de pena, porque em outros tempos, a caneta utilizada para escrever as missivas, única forma de se comunicar à época, era uma pena, banhada na tinta, também têm me ocupado, saudavelmente. Este ano escrevi acima da média dos últimos anos. E por isso posso afirmar, a escrita é uma verdadeira e bem sucedida terapia pedagógica, mais ainda quando se reconcilia com o bordado. As duas atividades combinam, pedagogia e terapia.

Entre a agulha e a pena não há distância. Elas se complementam, sem desconfiança alguma. Há sim, acordos. Quando a pena trabalha, a agulha olha, pensa, se recompõe, descansa. Planeja os próximos pontos, a combinação das cores.

Enquanto a agulha trabalha, é a vez da pena descansar, remoer, matutar, estranhar sua própria escritura. Naturalmente, nenhuma se queixa de estar trabalhando ou estar descansando. Não há sentimento de inveja entre uma e outra. A cada uma, seu tempo. Voluntariamente, sem conflitos, uma dá lugar à outra, sem medo de perder o espaço próprio, seu. O que uma faz, a outra não faz. O que as duas fazem, é encantar-se com os feitos da outra. Contudo, ambas lapidam, falquejando suas próprias, singelas, bonitezas e encantamentos.  Ainda cedo elas compreenderam a lição  nos deixada por Gorki em 1917:  “tão logo comecei a sentir prazer no trabalho – compreendi a decisiva significação cultural do trabalho e entendi que se podia encontrar tanta satisfação em serrar madeira, arar a terra ou amassar pão como em entoar uma canção”.

Sim, a vida neste momento requer ocupação produtiva. Não aquela ocupação do lucro, do capital explorador, que envenena as plantas para produzir mais e ganhar mais. A vida requer ocupação e alimentação, saudável, que inclui o acolhimento de si, do outro, do próprio silêncio. E da valorização do medo da morte e da dor.

O Papa nos orienta à “artesanalidade” da paz, a ser construída, ponto por ponto, um nó depois do outro. Pontos que podem combater as guerras, as discórdias entre povos e nações, a pena de morte, inaceitável e desaprovada em qualquer sociedade e tempo histórico. Com sua sabedoria nos exorta à fraternidade, ao amor fraternal, de abertura a todos. É uma Carta endereçada diretamente a você, a mim, a Tutti Fratelli.

Vejam sua caixa de correio, a Carta deve estar lá, à espera de sua leitura. Vale a pena sentir e experimentar o desejo profundo de Francisco de Assis, vivido com rigor pelo Papa Francisco:  A paz é necessária, porque todos somos irmãos.

Como disse acima, a pena e a agulha caminham de mãos dadas, sem discórdias.

Em outra reflexão, já escrevemos que “com um olhar focado na atualidade, temos o Papa Francisco, cuja prática evangélica de solidariedade é viva e profundamente coerente, capaz de ser admirado também por alguns poderosos. Um Francisco, que reza sozinho na Basílica de Roma, emocionado, solidário com as famílias dos entes queridos do mundo inteiro, ceifados pela Pandemia.  Leia mais aqui.

Outubro Educador: reconhecimento de professores para professores

No Outubro Educador, os professores e professores reverenciam um ao outro, reconhecem a sua importância espelhando-se em outros tantos ou tantas que são suas referências maiores.  Os professores sabem reconhecer e valorizar o seu trabalho e o fazem de forma gratuita, fraterna e solidária.


Abençoada seja a nossa missão de educar. Abençoados sejam nossos propósitos, mesmo nem sempre compreendidos pelos alunos, pais e comunidade. Abençoadas sejam nossas famílias que se geram neste contexto que exige ousadia, paciência, preparo e persistência, em resumo, em doação à vida dos outros. Abençoada seja a nossa saúde física e mental, pois não podemos adoecer e nem desistir. Abençoados sejam todos aqueles e aquelas que, por nossas mãos, mentes e coração aceitaram e aceitam o desafio de fazer-se gente, a partir dos seus potenciais e da superação de seus limites. Abençoados todos aqueles que acreditam e enaltecem o trabalho dos professores e professoras.

Muitos falam de educação, mas não são professores. Arriscam palpites sobre melhorias na educação, mas não perguntam sobre o que a gente tem a dizer. Não se importam com nossos baixos salários, muito menos com nossas dificuldades de lidar com as múltiplas dimensões e necessidades presentes nos nossos alunos. Nestes últimos quesitos, lutamos solitários. Embora não tenha mudado o papel da escola e da educação, mudaram as exigências para que possamos construir uma boa aprendizagem. Temos observado que nem todo aluno e nem todos os pais veem a escola como uma forma de inserção na vida social e científica. Que as necessidades dos nossos alunos estão muito além para aquilo que a escola consegue oferecer. Que escolas e professores nem sempre estão em condições de dar conta de tudo o que está “depositado” neles.

***


A Pedagogia do Mestre dos mestres

No dia 15 de outubro de 1827, Dom Pedro I, decretou a criação de escolas primárias em todas as cidades e povoados. Por isso esta data foi instituída como o dia do professor, da professora. No entanto, não podemos reduzir este dia a meras felicitações e comemorações. Somos todos desafiados a nos engajar, promover e apoiar a luta desta classe, tão desconsiderada em sua dignidade, assaltada em seus direitos, menosprezada na sua vital importância para uma sociedade justa e fraterna, restringida em sua nobre missão facilitar o aprendizado de conhecimentos e valores que edificam as pessoas em todos os sentidos.

Muitas vezes os que se dedicam ao campo do ensino, da educação são tratados como mestres e mestras. Este título no remete ao Mestre dos mestres, o Mestre por excelência, Jesus Cristo. Aliás, a Bíblia insiste que há um só Mestre, e todos nós somos discípulos. Há muitos professores e professoras que, por serem fiéis discípulos do Mestre Jesus, adotaram a sua pedagogia e não transmitem apenas conteúdos programáticos, mas transmitem valores que enobrecem e dignificam a vida.

Da Pedagogia do Mestre Jesus, poderíamos elencar uma infinidade de elementos e características, mas cito apenas algumas que são essenciais e fundamentais. O princípio básico da Pedagogia de Jesus é a vida do ser humano: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo10,10). A vida acontece onde se adota e se vive a pedagogia do Amor, da Ternura que são parte fundamental do ser humano como oferta e como demanda. Estão inscritos no mais profundo de cada ser humano. A Ternura é super-abundância do Amor compartido.

Com carinho, Frei Carlos Raimundo Rockenbach – OFMCap




Mês de comemorar nossa dignidade

Nada disso que não temos o que comemorar. Temos muito, a começar pelo orgulho e honra de sermos Professoras e Professores, de escolhermos uma Profissão que exige acolhida, escuta, troca, consciência crítica, desafios lógicos, desafios cognitivos, desafios políticos e desafios éticos.

Deixemos que os que nos contestam se insurjam contra o nosso saber e contra o sabor do nosso saber. Eles imaginam que não tivemos competência para o desempenho de outras profissões e por isso escolhemos ser professoras e professores. Equívocos de mentes reduzidas ao ódio, a má-fé, a ofensa e a mentira.

Comemoremos, caros colegas, com nossos estudantes a alegria da vida, do conhecimento, da partilha, da coragem e saibamos enfrentar os desacatos contra as nossas produções, nossos cursos, nossas orientações, nossas aulas, porque tudo isso estabelece vínculos sociais e reforça a cidadania coletiva.

Todos os saberes que partilhamos nos permitem o abraço, o encontro, a responsabilidade e a soberania de quem sabe de suas escolhas e as assume com grandeza.

Professoras e Professores, meu abraço solidário pela tarefa de acolher e formar diferentes gerações, sem esquecer da “beleza de ser um eterno aprendiz”.

Autora: Cecília Pires




O bom professor

O bom professor é aquele que consegue fazer com que seus alunos aprendam bem o que precisam aprender, no ritmo correto. A sociedade espera tudo dos professores, os pais transferem a eles muito das suas responsabilidades.

A propósito encontrei uma carta de Abrahan Lincol, enviada ao professor do seu filho, em 1830. Isto é, antes da primeira metade do século 19, já aos professores tudo era atribuído.  

Eis o que pedia Lincoln:

“Caro professor, ele terá que aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, para cada vilão há um herói, que para cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder, mas também a saber gozar a vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.

Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo sozinha contra todos. Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram”.

Um grande abraço a todos os colegas professores pela passagem do nosso dia. Vamos continuar lutando pela educação crítica e livre. Jamais evoluiremos como sociedade sem examiná-la com rigor, visando melhorá-la!!

Autor: José Ernani Almeida




Professores inesquecíveis – Educação Transformadora

Professor Ivan Penteado Dourado, professor da UPF (Universidade de Passo Fundo) produziu um vídeo de 07min49s para compartilhar reflexões importantes sobre a nossa profissão. Professores inesquecíveis, e o papel do professor em nossas vidas.

Ivan Dourado mantém Canal SensoComuna. “Um canal de vídeos que faça frente ao senso-comum simplificador, preconceituoso e burro. Que motive a criticidade, autonomia de pensamento e, porque não, posicionamento político? Em um contexto em que se tenta criminalizar uma posição ideológica, o canal com nome provocativo de SensoComuna objetiva oferecer conteúdo crítico e reflexivo, além de dicas de leitura, de filmes, documentários e séries que possam provocar novas percepções da realidade. Um novo senso de percepção, sem grandes pretensões, apenas um espaço de troca franca de ideias, focando principalmente na apresentação do resultado de minhas pesquisas na área de Sociologia e Educação, além de compartilhar minhas experiências como professor e como um ser que busca se consolidar como humano. Um projeto de inúmeras realizações, entre elas, a liberdade de criar e ressignificar o pensamento. Sejam bem-vindos ao canal SensoComuna, pé-na-porta do senso-comum simplificador!

Celebrar a vida dos professores e professoras parece ponto central deste Outubro Educador. Celebrar as vidas que foram preservadas a partir do isolamento físico e social, com a contribuição das aulas remotas, bravamente elaboradas pelos professores e professoras, sim. Cuidar da dignidade da profissão docente, alertar para a pressão desmedida exercida pelos gestores  educacionais sobre os professores e professoras, denunciar as medidas que são tomadas em prejuízo da carreira e dos direitos, isto sim, deve ser o foco das organizações sindicais que representam tão importante profissão. Leia mais aqui.

A paranoia do desconstruir

Brazil's Environment Minister Ricardo Salles gestures during a meeting with a Senate committee in Brasilia, Brazil March 27, 2019. REUTERS/Ueslei Marcelino

A dupla, Ricardo Salles, do Meio Ambiente
e o presidente do Instituto Palmares, Sergio Camargo,
assumem claramente a função de déspotas na destruição de valores.



O primeiro, desde os primeiros episódios que marcaram desastres, ocupou-se em criar narrativas absurdas sobre as causas dos sinistros. Assim foi no derramamento de petróleo que danificou nossas águas, e nos incêndios das matas. O ataque foi generalizado às ONGs, à esquerda, aos comunistas, enfim, em formas provocantes e solertes. No mesmo rumo, a propositada omissão diante da escancarada realidade que exige investigação e ação governamental.

Sergio destila fel sobre as construções históricas da luta pela valorização da cultura negra. Agora se põe como julgador emérito da própria história excluindo sumariamente nomes que se destacam na longa jornada de combate ao racismo. Detonar os sagrados momentos tornou-se obsessão assumindo o que é dito papel de capitão do mato. O método é perverso. A insidiosa campanha visa matar edificação legítima de um alvorecer promissor para a justiça social. Este sadismo explícito pode até parecer ingênuo, mas expõe prepotência e dose de veneno.

Em meio a este pragmatismo esdrúxulo está a paranóia destruidora que visa eliminar avanços do pensamento social democrático e mais justo. Volta e meia irrompe um modo de pensar urdido nos negacionismos e artimanhas para desmotivar a dura jornada da harmonização social. É o falso proceder autocrático pela destruição de valores. Eles surgem como novos bárbaros intermitentes.

O apadrinhamento do governo a estas vilanias que já se torna célebre tenta desestabilizar o senso e o respeito cívico.

Um alerta final · Cuidado, uso de máscara, higiene, água potável, sol e outras prevenções não podem ser dispensadas. Ninguém escapa de estranhas sensações, irritação, e tanta coisa. Por isso é sempre bom avaliar o estado de lucidez. Alguns conselhos devem ser cuidadosamente avaliados. Agora e em toda vida. Até o extraordinário pensador grego – Aristóteles, mesmo devotado a seu mestre Platão advertia sabiamente: “Amicus Plato, sed veritas magis amica” (amigo Platão, mas a verdade é mais amiga)

“Seremos educadores sociais, responsáveis por humanizar, pelo estímulo à capacidade de pensar. Fake News é típico exemplo de pessoas que abandonaram a capacidade de pensar. E essas pessoas estacionaram no pensamento simples e superficial, de frases clichê. De repetir ideias simples para ter alguma vez na “explicação” da realidade. Mas sem ter trabalho nenhum de pensar e refletir. E se formamos pessoas assim, o fascismo mora na simplificação, no ódio baseado em pensamento simplista. Estamos flertando com o agrupamento de ideias e pessoas que abriram mão ou não tiveram acesso ao pensamento complexo e profundo. (Ivan Dourado, 21/10/2018) Leia mais aqui.

Oração de um jovem professor

Bem sabes, Senhor da vida,
que a escola é um espaço democrático,
é a esperança para grande parte da população
que agora sofre tormentos de um poder que não serve,
ao contrário, se serve da fragilidade socioeconômica dos “pequenos”.


A partir deste Quinze de outubro, tenho uma oração especial que nasce do coração humano para o centro do Amor Divino.  

Senhor, Deus de amor e misericórdia, sei que me escutas, que choras minhas angústias e vives as felicidades que nascem da luta cotidiana travada em escolas publicas que se fazem espaços de e para a resistência. Confesso, Senhor, que não foi a profissão que almejei deste a tenra idade, bem sabes que não foi, no entanto, foi o seu amor que me chamou para carregar essa cruz, a cruz da educação foi a que escolhi para significar meus dias.

Tive ao longo da formação inicial e tenho na formação continuada ótimos professores e ótimas professoras, pessoas que apostam na formação humana e humanizadora, que alimentam esperanças e semeiam sonhos em meio aos espinhos de uma sociedade que fomenta o individualismo, infla egos e se organiza em torno do capital e pelo capital neoliberal, o mesmo que ceifa vidas e impede o nascer de jardins.  

Mestre dos Mestres, bem sabes que essa cruz escolhida se opõe a cruz imposta pelos sistemas autoritários, que negam a diferença e a pluralidade para fomentar o espírito acrítico e irreflexivo que mata o pensar e anestesia a consciência.  Bem sabes, Senhor da vida, que a escola é um espaço democrático, é a esperança para grande parte da população que agora sofre tormentos de um poder que não serve, ao contrário, se serve da fragilidade socioeconômica dos “pequenos”.

Mestre dos Mestres, neste dia que muitos celebram, comemoram e parabenizam eu te peço forças para resistir, para carregar a cruz da opção contra a cruz da opressão. Neste ano atípico, no qual se abriram ainda mais os abismos sociais e se mostram teimosas as injustiças te peço resiliência e sabedoria. Resiliência para aprender, reaprender e ressignificar práticas pedagógicas, sabedoria para utilizar o método mais adequado, para elaborar a crítica mais contundente, para transmitir com a vida os conteúdos que ensino.

Mestre dos Mestres, que meu saber produza frutos de justiça e gestos de amor, para que a poesia inexplicável da vida não se perca na racionalidade instrumental que fere e que mata os sentidos paridos na luta cotidiana.

Abençoa, Senhor, o nosso fazer, o trabalho de tantos amigos/ amigas e colegas que não se perdem no meio das tempestades, mas ensinam com o exemplo os mais jovens (como eu) a seguir em frente, a semear esperança do verbo esperançar, a questionar as políticas educacionais, cuja única intenção é manter o Status Quo, do poder que oprime.

Obrigado Senhor, pelos testemunhos que libertam, pelas palavras que confortam, pelos professores e professoras que teimam contra todo desalento, contra toda desesperança. Teimar foi seu testemunho, Mestre dos Mestres; teimaste em semear um reino de justiça e de amor onde prevaleciam privilégios e privilegiados; teimaste em apostar naqueles que outros mestres não apostariam; teimaste em desenhar no olhar dos teus discípulos e no coração de suas ações outra experiência religiosa, outra face de Deus.

A seu exemplo, teimamos em apostar naqueles que o sistema político e econômico exclui, para esses a Escola Pública é a esperança maior, é espaço de resistência e de luta, por isso, teimamos em gritar contra os desmandos dos governos que fazem questão de nos calar. Somos teimosos e não calaremos, aprendemos com o Mestre dos Mestres que a causa da vida, e de toda vida é a mais importante! 

Bem sabemos, Mestre, que somos limitados, humanos em constante formação, mas também sabemos que seu amor acompanha aqueles que decidem servir, sabemos que muitas homenagens deste dia são sinceras, mas reivindicamos espaços de fala, de decisão.

Pedimos aos que “nos governam” que o façam com decência, em espírito colaborativo e responsável, visto que não há direito humano sem democracia e que não há nenhum e nem outro sem formação e valorização humana. 

Professor é parteiro

Professor para nós é parteiro.
Metade parte, metade arteiro.


Estamos num mês festivo para os trabalhadores em educação, ademais vivermos tempos que desafiam até os mais corajosos. Outubro comemoramos o dia das crianças e o dia do professor. As escolas se renovam de alegria, é tempo de comemorar, reconhecer e festejar. Mas como se dá em uma pandemia quando as escolas estão vazias, quando professores e alunos precisam se encontrar de modo remoto?  Estaria sendo o professor substituído pelas novas tecnologias? 

É fato, a pandemia que impactou o mundo em 2020 apenas acelerou transformações históricas programadas para ocorrerem, como a virtualização dos processos de trabalho, ensino e as relações entre as pessoas. Muitos lugares do mundo, já vivem uma democratização da informação, talvez nunca na história o conhecimento esteja tão disponível, literalmente na palma das mãos. Mas informação é conhecimento? E mais, é sabedoria? A informação pode produzir mudanças subjetivas, sociais, culturais? 

Partimos da posição de que informação não é conhecimento, tampouco sabedoria. Uma vez que, estes exigem um processo, uma transformação que precisa ser operada na intimidade de um vínculo humano, num encontro formativo.

Para o educador António Nóvoa, educação é vínculo, é afeto, interação. Educar é construir com o outro experiências que ficarão conosco pela vida. E a experiência é intransferível.  Sabedoria ainda, para além, se dá na experiência da vida, na integração dos conhecimentos. Mas qual é ato que produz essa subversão? Ou melhor, quem pode produzi-la? 

Pode ser um professor. Um professor subverte a lógica do mundo concreto, abre janelas e portas para o mundo das ideias.  Professor para nós é parteiro. Metade parte, metade arteiro.

A metade parte, parte o senso comum, as opiniões e as certezas.  A metade arte, como um artesão, faz nascer, de matérias tão diversas que é a singularidade do aluno, curiosidade, criatividade, conhecimento.

Parte a informação, corta suas camadas, costura, as reorganiza para nascer o saber. Saber que vem da experiência vivida com o aluno, da troca, da intersubjetividade, do afeto. Afeto de quem permite deixar-se afetar pelo outro, permite ser afetado de maneira única por alguém que marcará sua vida. A quem se deixa afetar faz nascer para o conhecimento do mundo, abre as portas para outras dimensões.

No entanto, um parto não é sem dor, não sem dificuldade, não sem atravessar horas de preocupação, dores de abertura, forçagens. Nascer exige esforço do bebê, por que não seria assim também com o aluno? Esforçar a concentração, manter-se consciente, atento, abrir mão de outros interesses, talvez mais prazerosos, menos custosos, porém que o deixariam no mesmo lugar. Exige força também da mãe, às vezes, horas de trabalho duro, dolorido.

Educar, por vezes, é um parto demorado, cercado de sofrimentos e desilusões. É tomar contato com um aluno, que como um bebê não é o ideal, é frágil, inacabado, porém tem dentro de si todo potencial humano. E o professor o conduz a vir ao mundo um sujeito, abre vias para os sonhos, a autonomia, a cidadania.  

Ao dar à luz, uma mulher dá à luz também a uma mãe. Ao educar o professor permite-se renascer, dar à luz ao significado de estar no e com o mundo, com os outros. Ele também se refaz em um cirandar constante, de ver-se em si e ver-se naquele a quem educa.

Todo o professor olha para seu aluno buscando encontrar a si, como uma mãe o faz com seu filho que acaba de chegar. Mesmo sem conseguir estabelecer grandes semelhanças, logo ao nascer, a mãe acredita que com o passar do tempo, os trejeitos, os olhares, o sorriso, a personalidade do filho revelará a continuidade de sua continuidade.

No professor há um constante esperançar de que ao reencontrar seus educandos no futuro, ele reconheça suas palavras, sua mensagem, seu amor naquele a quem ajudou construir, é a identificação da sua arte. 

Ao longo de sua trajetória, o professor é parteiro. Quando (com)parte, compartilha os dias, parte as tristezas, parte o desânimo, pois ele faz de seu trabalho a arte de compartilhar. Compartilhar é não estar sozinho. Partir o que sabe, não é saber menos, é saber mais, o que já sabia com aquilo que pode aprender junto aos outros. Aprender é arte. A arte de viver.  

Em um mundo de divisões, de egos, de incompreensões, o professor é parteiro de novos rumos. Ele não tem medo da desconstrução, parte o que não é da justiça, o que não é ético, o que não valoriza o ser humano, para produzir com seu trabalho a arte da escuta, da cooperação, da empatia, da alteridade. 

Professor é parteiro de vir a ser.


Patrícia Signor, educadora. Doutoranda em Educação pela UFSM, Mestre em Educação. Atua como docente no CESURG de Sarandi e na Escola Santos Anjos de Nova Boa Vista.







Carolina Jainara Lavall Zandoná é Psicóloga, Psicanalista em formação pelo PROJETO – Associação Científica de Psicanálise e Humanidades de Passo Fundo.

Carta ao povo gaúcho sobre a volta às aulas presenciais

Sejamos claros;
não há condições para um retorno seguro.
Anos de descaso deixaram a escola pública despreparada
para enfrentar esta guerra sanitária.


Nós, professores(as) e funcionários(as) de escola da rede estadual do Rio Grande do Sul, pedimos a sua atenção. Dentro de poucos dias o governo Eduardo Leite (PSDB) pretende retomar as aulas presenciais em todo o estado.

Sejamos claros; não há condições para um retorno seguro. Anos de descaso deixaram a escola pública despreparada para enfrentar esta guerra sanitária. Faltam profissionais, faltam recursos físicos e financeiros, faltam equipamentos de proteção, falta organização e capacidade de gestão.

Agora, faltam com as nossas vidas e de todos os gaúchos.
Este não é um governo confiável. Eduardo Leite foi eleito prometendo pagar em dia e valorizar quem trabalha no chão da escola. Jamais honrou a própria palavra. Pelo contrário; cassou direitos, reduziu salários, proibiu matrículas, fechou turnos, turmas e escolas. Sua lógica reside em atender agentes privados que valorizam o lucro acima da vida. Suas promessas e suas palavras são vazias.

Ao contrário do governador, nós temos compromisso e responsabilidade com a educação. Jamais deixamos de cumprir nossas obrigações. Apesar da sobrecarga, da exclusão, do cansaço, dos salários atrasados e cortados, do desrespeito e da falta de reconhecimento, nós preferimos viver. A educação escolhe a vida.

Conhecemos na pele as dificuldades das aulas remotas. Trabalhamos dobrado ao longo desta pandemia, tirando do próprio bolso – já tão saqueado – os recursos para arcar com equipamentos e acesso à Internet, fazendo das tripas coração para atender a comunidade, sem qualquer auxílio do Estado.

Mas, para ensinar e aprender, é necessário, primeiro, viver. E a realidade é que a pandemia da Covid-19 não está sob controle. Não há país no mundo que tenha retomado as atividades presenciais em condições semelhantes.

Conclamamos a sociedade a se manifestar em todos os espaços possíveis, pressionando vereadores e prefeitos, eleitos ou candidatos, em defesa da vida. Pedimos que resistam; não levem seus filhos às escolas, não assinem o termo de responsabilidade exigido pelo governo, não troquem um futuro possível por uma ilusão de normalidade. Não carreguem esta culpa para o resto da vida.

Se você não está seguro para enviar seus filhos, você não está sozinho. Procure o conselho da sua escola, a equipe diretiva e os educadores(as). Decidam, juntos, pelo não retorno nas atuais condições. Lutaremos hoje contra o luto amanhã.

Nós continuaremos fazendo o nosso trabalho, em segurança. Não pagaremos com nosso sangue pela incompetência dos que nos governam. Não seremos cúmplices nem cobaias desta política de morte. Você pode contar conosco. Nós precisamos contar contigo.

Escolas fechadas, vidas preservadas.
#EscolasFechadasVidasPreservadas

Lute hoje contra o luto amanhã
Não troque um futuro seguro por uma ilusão de normalidade no presente. Não carregue esta culpa para o resto da vida.
Lute hoje contra o luto amanhã.

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