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Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes

Estamos postos na sala de aula para servir. Como servimos?
Para além das técnicas, e orientações metodológicas,
educamos pelo exemplo, pelo altruísmo, pelo amor.
Isso só acontece pela espiritualidade.


A espiritualidade é uma dimensão muito importante na vida e no bem-estar dos professores e professoras. Mas, para início de conversa, é importante apresentar qual o entendimento que temos de espiritualidade.

Espiritualidade é a necessidade intrínseca que todos temos de continuarmos ligados ao Plano Sagrado. Espiritualidade é como a água que impregna a relva. Espiritualidade está no nosso modo de ser, de viver, de falar e de agir. A espiritualidade contempla, ainda, a busca de sentido para a nossa existência, para dar significado à vida individual e ao relacionamento de abertura para os outros.

Fé sempre é uma experiência pessoal, de relação intima com o Transcendente. A religião sempre é uma experiência de uma comunidade, que reúne e organiza as vivências coletivas das práticas religiosas. Já a espiritualidade está para o Cuidado: de si, dos outros, da natureza e, para quem tem fé religiosa, do Transcendente.

Como já ensinou Fowler (1992): “ao nascer, somos dotados de capacidades inatas para a fé. Ou seja, potencializamos as condições necessárias para construir nossa fé durante o nosso processo de desenvolvimento psicológico.

Os professores e professoras vivem a sua espiritualidade, que sempre está além de suas religiões. A dimensão espiritual/religiosa do educador manifesta-se no seu fazer pedagógico. É a sua motivação que impregna os projetos e o sentido de vida dos professores.

A espiritualidade se manifesta como reconhecimento multidimensional do ser humano. Os professores e professoras demonstram que a sua espiritualidade independe da prática de uma religião.

Leonardo Boff (1994), enfatiza como é necessário refletir sobre o sentido de vida como algo totalmente integrado à realidade humana e, de maneira especial, à prática educativa. Nas práticas docentes, ocorre uma relação de pertença (professor – aluno), visto que ambos são seres humanos em busca de seus próprios objetivos e de sua realização pessoal.

O professor, com autênticos sentimentos religiosos, mesmo que nunca fale de religião com seus estudantes, deixa transparecer naturalmente sua espiritualidade. Esta é uma característica inerente ao ser humano e, quando o estudante percebe a espiritualidade do professor, sente-se encorajado a viver e manifestar também a sua (espiritualidade).

É por meio das práticas pedagógicas empregadas em seu trabalho, o professor pode contribuir para afirmar e reconhecer a sua espiritualidade, inspiradas nas seguintes perspectivas:

  1. Criar! A criatividade é manifestação de um impulso que mora na alma humana.
    É isso que nos distingue dos DEMAIS SERES VIVOS;
  2. Mudar! Os animais estão felizes no mundo, do jeito como ele é. Albert Camus disse que somos os únicos animais que se recusam a ser o que são. A gente quer mudar tudo;
  3. Adaptar-se! Mudanças geram sentimentos de sofrimento e frustração para alcançarmos metas e objetivos. Ostra feliz não faz pérola. Disse Octávio Paz: “coisas e palavras sangram”;
  4. Pensar! O sofrimento nos faz pensar. Pensamento não é uma coisa. O pensamento se faz com algo que não existe: ideias. Ideias são entidades espirituais. O espiritual é um espaço dentro do corpo onde coisas que não existem, existem.

Afirmamos, por fim, que a espiritualidade está precisamente no desejo e no trabalho para fazer com que aquilo que existe apenas dentro da gente se transforme numa coisa, que pode ser gozada por muitos. De acordo com Rubem Alves, o caminho do espírito é esse: da espiritualidade pura e individual, para a coisa, objeto que existe no mundo, para deleite e uso de muitos. Uma canção só existe quando cantada. Um quadro só existe quando visto. Uma comida só existe quando saboreada. Um brinquedo só existe quando brincado. Um filho só existe quando parido. Um aprendente só se constitui quando tem um efetivo ensinante.

Sem um professor, a mente é muito astuta e muito íntima também. Assim, sempre que houver um momento doloroso, ela tende a se afastar.

Eis o papel do professor: guiar; avaliar o quão receptivo é o aluno(a); a sua presença e seus ensinamentos reverbam no(a) aluno(a); é preciso reaprender o sentido da espiritualidade que tem a ver sim com fé, com Deus, mas sobretudo tem relação com altruísmo

Nossa profissão professor e nossa missão educador exige a prática amorosa como fundamento das práticas docentes. Quando decidimos ser professores, havia em nós o desejo de ajudar o outro, amar o outro.

Estamos postos na sala de aula para servir. Como servimos? Para além das técnicas, e orientações metodológicas, educamos pelo exemplo, pelo altruísmo, pelo amor. Isso só acontece pela espiritualidade. Formamos alunos/pessoas para cuidar do mundo no qual nós também vamos viver.

Não podemos abrir mão de nossos valores, trazer o amor, o afeto, a atenção e o cuidado. Trazer o exemplo de uma relação respeitosa, da troca de afeto. Estar completamente disponível aos alunos, para que eles possam se servir. O aluno não pode se levantar e ir embora quando não servimos o amor. Isso, sim é espiritualidade.

Educar é um ato de persistir com delicadeza.



Esta reflexão é fruto de participação em Painel Virtual “Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes, em tempos de pandemia” realizado pelo CONER Passo Fundo, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo e Sétima Coordenadoria Regional de Educação. Este painel fez parte também da Semana de Formação dos professores da rede municipal de Passo Fundo.




Autor: Vilson Francisco Selch
Bacharel em Filosofia, Licenciatura em Filosofia. Pós-Graduado em Metodologia de Ensino (Feevale). Pós-Graduado em Orientação Educacional (UFRGS). Mestrado em Ciências Sociais Aplicadas (UNISINOS); Doutorando em Processos e Manifestações Culturais (FEEVALE). Professor da rede municipal de Dois Irmãos, RS.

Inteligência artificial e sala de aula virtual: no passado uma possibilidade, no presente uma imposição e uma realidade

Precisamos estar atentos para que os
aspectos negativos do distanciamento e da destruição
da natureza não sejam sucedidos pela destruição
do afeto e do ser humano, com expansão da
substituição do contato humano.


Os recursos da internet para interação de grupo, como as plataformas de salas de aula e reuniões virtuais, existe desde muito antes de 2020. Nos últimos anos foram expandidos, acompanhando o aperfeiçoamento e a ampliação no uso da internet, bem como o debate social sobre a implementação da Educação à Distância (EAD) e do Ambiente Virtual de Aprendizado (AVA).

A partir do advento da pandemia, o que era uma possiblidade para os segmentos educacionais privados e do ensino superior, como uma opção adicional ao ensino definido como presencial, se tornou uma imposição.

As relações entre os seres humanos e a tecnologia não são de mão única, são contraditórias, pois trazem muitos benefícios, mas já trouxeram muitos prejuízos e destruições, com o uso das armas e a destruição da natureza. Podemos mencionar os impactos das ferramentas primitivas, criadas na pré-história, passando pela revolução industrial, para chegarmos nas atuais transformações, vinculadas com a expansão da inteligência artificial.

A construção e o uso de ferramentas parecem estar imbricadas com a expansão daquilo que se concebe como inteligência.

No histórico primitivo das ferramentas construídas pelo ser humano, ainda presentes em nossa cultura, podemos mencionar a faca, o facão, a foice, o machado e o serrote. Essas ferramentas contribuíram significativamente para as transformações no modo de vida dos seres humanos.

Nesta trajetória se evidencia a diminuição do esforço, substituindo a energia humana, aumentando a proteção, das ameaças de outros seres vivos e da natureza, além de buscar melhorar a segurança alimentar e facilitar o deslocamento.

Nesta relação benéfica e ambígua, associada com a construção e uso de novas ferramentas tecnológicas, a substituição do trabalho humano pela máquina decorrente da revolução industrial, transformou radicalmente as relações dos seres humanos entre si e com a natureza.

A produção em larga escala, com a disponibilização de alimentos e bens materiais, além do necessário, trouxe um direcionamento para a diminuição da durabilidade dos produtos, incentivando o consumismo e o produtivismo. Desse modo, entre as consequências dramáticas de usar as ferramentas produzidas pela revolução industrial indiscriminadamente, está a destruição da natureza centrada na renda.

Antes do isolamento social, imposto pelo Covid 19, já se falava da extinção de muitas profissões. A possibilidade de automatizar alguns postos de trabalho como, por exemplo, cobradores de alguns meios de transporte coletivo, ainda não se concretizou com o argumento da necessidade de distribuir renda, por meio do trabalho. Mas, também, os argumentos contrários na implantação das salas de aulas virtuais estão sendo quebrados com a imposição do isolamento social.

Nesta ambiguidade, que continua permeando a história humana, devemos comemorar as facilidades como o acesso às informações sem o esforço do deslocamento físico. No entanto, precisamos estar atentos para que os aspectos negativos do distanciamento e da destruição da natureza não sejam sucedidos pela destruição do afeto e do ser humano, com expansão da substituição do contato humano.



Esta é a vigésima quarta publicação no site. Em recentes reflexões, pensei as relações e os impactos da tecnologia, da pandemia, dos comportamentos e dos processos educacionais que estão em curso. Convite é para que conheçam demais reflexões:

Governo sem educação

Quem está no poder neste momento
quer fazer da educação e da ciência
as principais plataformas de ataques e de
afirmações de uma visão restrita, não humanista.

Enquanto países como Alemanha, China, EUA, Japão investem bilhões de dólares em educação, cultura, tecnologia, aqui o governo Bolsonaro vai  para o quarto ministro  de  educação.

Ricardo Rodríguez, um colombiano olavista, foi o primeiro titular da pasta. Por ser estrangeiro judiava o português. Queria implantar Moral e Cívica nas escolas, achando que se tratava de Sociologia.

Weintraub, foi o segundo olavista no cargo. Acusou as universidades de  locais  de “balbúrdia”, de manterem plantações de  maconha, professores de proselitismo marxista, de doutrinação dos seus alunos, coisas nunca provadas.

 Por completa incompetência, maltratava a língua pátria. Acabou defenestrado e fugiu para os Estados Unidos, sem antes derrubar uma portaria que garantia cotas  para negros, índio e deficientes físicos em cursos  de pós-graduação de universidades públicas.

O terceiro, Carlos Alberto Decotelli, não esquentou a cadeira de ministro. Curiosamente, fez pós-doutorado (negado por universidade alemã) sem ter doutorado. Doutorado por universidade argentina sem ter defendido a tese. Acusado de plágio em trechos de sua dissertação de mestrado.  Um verdadeiro exemplo para o meio acadêmico do país. Ulala!!!

Na verdade, temos um governo que não dá importância para a  educação pública, dentro de um  claro plano de  seu enfraquecimento  e fortalecimento  da ideia  de privatização  do setor  educacional.

É assustador e trágico assistir a destruição do presente e, consequentemente, do futuro das novas gerações. Sem educação, sem cultura, sem ciência e tecnologia, como passaremos do nosso histórico atraso para o desenvolvimento?

Neste governo sem educação, o que vemos é o fortalecimento  do aparelho ideológico do  Estado. Quem está no poder neste momento quer fazer da  educação e da  ciência  as principais  plataformas  de  ataques  e de afirmações  de uma visão  restrita, não  humanista. Nesta lógica, a universidade, os professores, a educação em si, são vistos como inimigos, como um obstáculo.

O projeto de Bolsonaro ameaça levar o Brasil para um abismo de indigência e ignorância. O entra-e-sai de ministros na educação é uma prova eloquente do que está em jogo. O cidadão apolítico que desejam educar é o idiota.

Estamos diante da imposição do conservadorismo moralista, atuando soberano sobre as mentes, convertendo-as em simulacros miméticos  de ignorância, do anti-intelectualismos e da alienação.



Este é o texto de número 68 no site. Fica o convite para visita a outras tantas reflexões que venho fazendo em período recente, sempre abordando temáticas de atualidade e realidade política no Brasil.

Por que o povo não tem medo da Covid?

Gostamos de contar histórias no site. Histórias verdadeiras, vividas com intensidade, responsabilidade e compaixão. Queremos contar a história de Raphael Souza Alves, nascido em Mato Grosso. Ele morou recentemente em Moçambique, na África. Conviveu com a gente também por alguns anos no Estado do RS, cidade Passo Fundo.

Através das redes sociais, acompanhamos a sua angústia e o seu sofrimento por estar contaminado pelo vírus Covid e hospitalizado, junto com sua mãe. Queremos também registrar a alegria por ter vencido a doença, como também suas preocupações com a situação dos povos indígenas e as precárias e insuficientes condições da rede de saúde do seu Estado.

Alves também demonstra preocupação com a falta de sensibilidade e compaixão de muitas pessoas que ainda não acreditam no poder letal do Covid 19.


Convivendo com a Covid

Meu nome é Raphael, escrevo da cidade de Pontal do Araguaia – MT. Sou um jovem negro, filho de uma mulher preta e de um homem caboclo, que no dia do meu aniversário, 17 de junho, fui internado com a minha mãe na UPA de Barra do Garças com Covid-19.

Os sintomas dos dias anteriores já indicavam a contaminação. O que começou com uma forte dor no corpo, na noite de segunda-feira, 08 de junho, se espalhou pelas articulações, por cima dos olhos e irritação na garganta no dia seguinte. As dores no corpo eram parecidas com as da malária, sei bem disso, pois estive em missão nos últimos três anos no norte de Moçambique, onde essa doença deixa homens, mulheres e crianças de cama, por no mínimo três dias. Essa hipótese foi descartada uma semana depois, quando chegaram os resultados dos exames.

Nessa altura, minha mãe e eu, já não sentíamos os cheiros e os sabores dos alimentos, nem apetite para comer aquilo que com esforço se preparava. E uma irritação, agonia, misturado com “coisa ruim”, como se diz por aqui, sem motivo nem razão premeditada, importunava ainda mais nossa rotina.

Meu pai, sem ter para onde ir, ficou conosco se arriscando ser contaminado. Felizmente, ele traz consigo a sabedoria dos ancestrais e da cultura local: beber uma dose de cachaça com alguma erva, raiz ou semente por dia, depois que chega do trabalho, antes da sua cerveja. Não sei se isso se efetiva na imunidade, mas ele não chegou a manifestar os sintomas.

Até que chega a quarta-feira, dia da minha natalidade. Quem me conhece, sabe bem que não gosto de aniversários e muito menos de quartas-feiras: um mau-humor me toma conta, impedindo tudo aquilo que poderia ser aproveitado. Como que tudo que é de ruim acontece para mim nas quartas-feiras, foi neste fatídico dia que fomos internados, com manchas e estrias nos pulmões, reduzindo sua capacidade de funcionamento.


Como foi o atendimento no hospital

Chegamos por volta da meia-noite, passamos pela triagem e depois pela consulta médica, antes de sermos literalmente internados. Tudo muito demorado, até porque não éramos os únicos ali.

Ao nosso lado quatro pessoas, duas delas indígenas, também esperavam atendimento, apresentando os mesmos sintomas. Depois de 4 horas entre consultas, novos exames, injeções, mais picadas, soros e comprimidos, fomos conduzidos aos leitos: um quarto gelado, sem lençóis, travesseiros e mantas, com mais quatro pacientes e um barulho infernal dos respiradores.

Não tínhamos levado nada além de roupas e produtos de higiene pessoal. E, ali, naquela situação, senti na pele a precarização do SUS, fruto de um governo que não está preocupado em combater a pandemia; que não se importa com a vida dos pobres e das minorias étnicas. A única coisa que nos consolava é a atenção, o cuidado e o profissionalismo das enfermeiras, que trabalhavam, diante de tanta dor e excesso de carga horária, com bom-humor e carinho.  

No dia seguinte já recebi alta, minha mãe passaria mais quatro dias internada. Ela foi transferida para outro quarto, maior e com mais leitos, eu segui como acompanhante. Não deixaria ela sozinha com a incerteza de se voltaria ou não para casa. Nesse novo quarto, entre os pacientes, doze indígenas, a maioria deles idosos, também recebiam o tratamento contra o novo corona-vírus.

No hospital, convivendo com outros infectados.

Tive oportunidade de conversar um pouco com uma liderança da etnia Xavante que acompanhava sua esposa, e ele me relatou que na aldeia dele muitos outros irmãos também estavam contaminados e não paravam de chegar ali à procura de atendimento; alguns outros, com medo de morrer no hospital, seguiam o tratamento na aldeia com chás e ervas e sem o isolamento necessário.

Fiquei pensando: como exigir que os povos indígenas, tradições milenares que vivem em comunidade, se isolem por causa de mais uma doença dos brancos?

Sabemos também que há denúncias de que grupos religiosos neopentecostais que ignoraram a quarentena com a falsa intenção de evangelizar nas aldeias, algumas delas tão isoladas, que usaram helicópteros para terem acesso.

Sabemos também que o mesmo se passou um tempo atrás com o plano etnocida de contaminação em massa dos povos indígenas com Varíola, que diminuiu drasticamente suas populações. Não sabemos se situações semelhantes fizeram essa doença chegar às aldeias daqui. Mas conhecemos o plano do governo Bolsonaro em “passar a boiada”, exterminar os povos indígenas para acessar a riqueza das terras, derrubar a floresta e traçar estradas em benefício do agronegócio.


Depois da internação

Hoje, com a graça do Criador, a energia quântica de pessoas amigas e os medicamentos que tomamos nos encontramos bem, curados do Covid-19 e seguindo em isolamento social.

O Brasil, infelizmente, segue na contra-mão das orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde), com mais de 60.000 motos e mais de 1,5 milhões de infectados comprovados (sabemos que esse número é muitas vezes maior, pois não testamos pessoas assintomáticas).

Para mim, o pior de tudo é perceber a incapacidade de pessoas em não se sensibilizarem com a dor das famílias que perderam seus entes queridos, continuando saindo às ruas sem necessidade, ignorantes de Deus e de humanidade. Mas o que esperar dessa gente, estes 30% que seguem fielmente o genocida, amante da ditadura militar, que tem pulsão de morte nas veias, que temos como presidente?




Fotos: Arquivo pessoal/Rede social. Registros durante o período da pandemia e convívio com o Covid 19
Raphael Souza Alves, educador e ativista

Reconstrução de vínculos e sentido às atividades escolares remotas

Quem estuda educação e relações de aprendizagem,
sabe como é importante conceber sentido nas atividades
e nos processos que envolvem as relações de aprendizagem
entre os sujeitos aprendentes: professores e estudantes.


O retorno às atividades escolares, de forma remota e precária, depois de um longo período sem aulas, sem relação e comunicação com os estudantes, coloca um grande desafio aos professores/as e equipes diretivas das redes municipais de ensino: a reconstrução dos vínculos afetivos e de aprendizagem com seus estudantes.

Quem estuda educação e relações de aprendizagem, sabe como é preciso conceber sentido nas atividades e nos processos que envolvem as relações de aprendizagem entre os sujeitos aprendentes: professores e estudantes.

A aprendizagem ocorre de maneira mais fluída quando há sentido e motivação para todos os envolvidos nela. Por isso mesmo, a mediação possível, agora feita por plataformas educacionais ou redes sociais, não pode abdicar de um pacto sobre o sentido desta aprendizagem que se quer promover, de forma remota e precária.

Há pais e mães que entendem que o ano escolar já está perdido. Outros, não têm e nem terão condições de monitorar e acompanhar o recebimento, execução e entrega das atividades enviadas a seus filhos de forma digital. Outros, de forma ingênua e prematura, já trocaram aparelhos celulares e adquiram noteboocks na esperança de que a tecnologia, por si mesma, fará a maior diferença. Outros, apelam por socorro porque não sabem como ajudar seus filhos. Outros, não sabemos quantos, farão todos os esforços para colaborar com seus filhos, acreditando que, mesmo tardiamente, ainda temos a oportunidade de organizar o ano escolar com condições de aprendizagens significativas.

A educação, como dizia o educador brasileiro Paulo Freire, “não muda o mundo. Ela muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo”. Esta ideia de Freire relativiza o poder da educação; por um lado, permite compreensão do seu verdadeiro alcance. A educação não acontece sem intencionalidades e sem motivações bem elaboradas e pactuadas entre os professores, estudantes e famílias.

Para não permanecermos na inércia e na inação, para não perdermos o rumo da educação e as possibilidades que ainda existem de dar sentido ao ano letivo de 2020, precisamos organizar as atividades de casa e pactuar com os estudantes e famílias a rotina de estudos que se perdeu nestes últimos 3 meses. Precisamos planejar, com sensibilidade e empatia, o desenvolvimento de atividades que apontem o sentido verdadeiro da escola e da educação que é a de nos tornarmos melhores seres humanos, através do conhecimento. Precisamos entender que a tecnologia não é um fim em si mesmo mas uma ferramenta importante para mediar a construção do conhecimento.



O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade.



Papel dos pais na educação

Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil, afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos. Lembra que os pais e mães sempre tiveram responsabilidades de organizar a rotina, acompanhar os estudos, os combinados e a evolução do conhecimento dos mesmos na escola.

Neste contexto, também colaborando com reflexões sobre a necessidade de proximidade das escolas com as famílias, a professora Adriana Marcondes, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) avalia que “todos estão se esforçando para dar conta de um jeito de fazer Educação que é remoto e cheio de imprevistos”. Além disso, a professora aponta que esse é o momento de reforçar os vínculos dentro entre professores, pais e alunos. Por isso, é importante entender a sua comunidade escolar para atendê-la bem.



O lugar do outro

A situação é nova para todo mundo, por isso, tenha em mente que todos estão tentando entender como agir. Agora, mais do que nunca, é essencial fazer o exercício de se colocar no lugar do outro não depositar cobranças excessivas de produtividade para esse período.


Considere:

– A relação professor-aluno é muito diferente da relação pai-filho. Além disso, os responsáveis não estão preparados para dar conta do conteúdo escolar. Eles também estão angustiados e pressionados pela quarentena em si;

 – O tempo que a criança tem disponível para o ensino remoto é diferente do tempo na escola. Não apenas por questões de estrutura, mas porque o ambiente e nível de atenção também mudam;

 – Pensar em ações mediadas pela tecnologia que levem ao aprendizado, considerando todas as circunstâncias, é um exercício difícil. Os professores têm se desdobrado para aprender a trabalhar com novas ferramentas. Mas não só eles: estudantes, pais e familiares também estão se adequando às novas dinâmicas.

O momento é o de dar as mãos simbolicamente, testar coisas novas e repensar se a Educação e a dinâmica escolar que estávamos exercendo é a que faz mais sentido ou não para o momento atual. Não existe resposta pronta. Mas existe uma grande oportunidade de construir novos caminhos para a escola.

Leia matéria completa clique aqui.

***



Papel dos professores na educação

Paulo César Carbonari (2018), muito antes desta pandemia do Covid 19, nos alertava sobre os desafios da educação em tempos onde a tecnologia já está presente no cotidiano de todos nós, principalmente, no mundo dos adolescentes e jovens:

Talvez o principal desafio dos pais e dos educadores para educar hoje seja voltar a aprender. Aprender como cada vez menos acumular continuidades e ensinar como cada vez menos mostrar continuidades; aprender como cada vez mais lidar com descontinuidades, continuamente; e ensinar como cada vez mais conectar e mobilizar descontinuidades, continuamente. Quem vai ensinar isso aos pais e aos educadores? Certamente serão aqueles que, desde há muito, são entendidos por pais e educadores como os que nada teriam para tal, aqueles para quem se insiste em destinar o que se sabe, sem se perguntar se lhes interessa a isso aprender. Talvez nunca antes, como em nosso tempo, ensinar e aprender sejam verbos a serem conjugados na extensividade e na intensividade múltipla da transitividade, continuamente, na descontinuidade”.
Leia mais aqui.

Queremos também afirmar desafio contemporâneo de eleger boas estratégias para que ocorram aprendizagens significativas, seja em tempos de pandemia ou não. Estas estratégias passam pela proximidade, pelas relações de parceria e entendimento do papel das famílias, dos estudantes e dos próprios professores.

Um dos maiores desafios na educação que temos nos dias de hoje, imersos em muitas “quinquilharias pedagógicas”, é reencontrar o caminho da relação. Não se trata de não tomar em conta as boas coisas que auxiliam esta relação, mas se trata de escolher somente aquelas coisas que se prestam a oportunizar boas relações de aprendizagem.

Os seres humanos nascem relação e se fazem na relação. Fora dela, não existe vida humana. Relação existe quando o outro aparece na relação como outro, não como o mesmo, como qualquer um, como um comum, um “lugar comum”. É da diferença que brota a possibilidade de relação. É do reconhecimento que brota a qualidade da relação.

O professor e a professora são seres em relação. Mediador/a da construção de aprendizagens. É ele/a um colaborador/a para construir condições para a sistematização das informações, hoje amplamente disponíveis, para a orientação do estudo, para a promoção do diálogo e da convivência que transformam informações em conhecimento e conhecimento em práticas vitais.

A educação é, acima de tudo, uma mediação para a humanização das pessoas através das relações educativas. Afinal, a educação é, acima de tudo, a construção da diferença, é fazer a diferença. Nela não há lugar para a mesmice, a repetição, o “lugar comum”.


Estratégias de proximidade com as famílias

Para promover a proximidade e os vínculos perdidos das escolas com as famílias, dos professores com os estudantes, é necessário pensar estratégias que dialoguem com as dificuldades de toda comunidade escolar. Podem ser realizadas atividades como reuniões virtuais, elaboração de cartilhas, grupos de watsap, páginas no Faceboock, dentre outros.

As equipes diretivas devem manter postura de diálogo e compreensão das dificuldades que as famílias, os estudantes e os próprios professores enfrentam neste tempo de excepcionalidade, em função da crise e da pandemia do Covid 19.

“A orientação às famílias sobre como melhor apoiar os filhos em seu processo de aprendizagem é, portanto, uma dimensão essencial na estratégia das redes. No contato com os pais, porém, podem surgir demandas mais básicas, especialmente em famílias mais vulneráveis.  A Unesco chama a atenção para esses e outros efeitos adversos do fechamento das escolas, como a questão do acesso à alimentação”. Veja mais aqui.

Elencamos algumas estratégias, intituladas “Dicas para os gestores nas orientações às famílias”, em versão resumida.

  1. Comunicar-se com os professores: propiciar aos pais que tenham contatos com os professores. Mais comunicação, maior o êxito de aprendizagem
  2. Ter uma rotina: orientar os pais para que seus filhos tenham rotina e autonomia para não perder o foco.
  3. Planejar intervalos: tempo demais no computador ou no celular, sem pausas para arejar a mente e exercitar o corpo, pode ser muito prejudicial à aprendizagem. O lazer, exercícios físicos e intervalos de descanso são fundamentais;
  4. Participar de grupos de apoio: um grupo de watsap pode ser extremamente importante para tirar dúvidas e compartilhar experiências entre pais e mães;
  5. Acionar as escolas: Mostrar aos pais que as escolas continuam abertas à comunidade para orientações de serviços de assistência social. As famílias mais vulneráveis podem estar precisando de auxílio e apoio para resolver suas maiores necessidades.

Demora a passar, tenhamos paciência!

“Não foi a pandemia
que nos adoeceu,
já estávamos doentes”.
(Papa Francisco)

Em meados do mês de março, quando fomos assolados pela chegada do COVID 19, ingenuamente pensávamos que não demoraria muito, no máximo um mês. Logo retomaríamos ao “ritmo normal”. Contudo, este infortúnio está demorando a passar e estamos preocupados.

Não temos como delimitar os processos futuros devido à disseminação do vírus, sobretudo em um território amplo e um povo diverso culturalmente, como o brasileiro. É uma demora inquietante que desafiará a nossa resistência, capacidade de solidariedade e esperança. Mas também deve provocar a uma revisão séria da nossa forma de conduta no mundo, o caminho que percorremos até aqui.

A pandemia é um alerta sobre as diversas realidades estruturantes da nossa vida, que pensávamos corretas. O clamor da terra, maltratada e doente, devido ao agir humano, denunciado por Francisco na Encíclica Laudato Si (LS 2), foi acentuado pelo clamor de toda a humanidade, ameaçada pelo vírus.

Então percebemos que todos estávamos doentes e alimentávamos a enfermidade cotidianamente, orientados por uma conduta considerada equivocadamente certa. Não era.

Foi explicitada a vulnerabilidade humana. Descobrimos que não somos tudo e não podemos tudo. Junto ao clamor da terra doente fomos forçados a ouvir o clamor da humanidade doente. Como a doença foi “democrática” no avanço, atingindo todos os continentes, tornou-se mais visível e preocupante.

O que era o grito de alguns grupos sociais, historicamente excluídos e tornados invisíveis pela globalização da indiferença, tornou-se agora o grito de toda a humanidade.

No caso do Brasil, a pandemia também revelou o quanto somos um país pobre, injusto e desigual e também o pouco que foi feito para superar estas características históricas. Agrava a situação o fato da condução do país ter sido entregue, via eleitoral, a um grupo reacionário politicamente, despreparado tecnicamente e duvidoso eticamente.

Lembrem-se da famosa reunião ministerial recentemente divulgada. O que foi dito naquele dia é o que realmente o grupo governamental pensa do Brasil. Eles, ou outros, que pensam igual, estarão conduzindo o Brasil pelos próximos anos. Optaram por um modelo de ação governamental orientado pelo descompromisso com a nação e o desejo de agradar alguns grupos isolados.

A enfermidade segue fazendo seus estragos porque não é uma “gripezinha”. A ausência de um projeto amplo de enfrentamento torna a situação mais grave. Temos um sistema de saúde sucateado, que já não respondia às demandas anteriores; um modelo econômico que privilegia o mercado financeiro e não a vida; e um governante mais preocupado com seu “quintal” do que com o povo brasileiro. É o nosso contexto. Não nos iludamos pensando que seja diferente.

É verdade que a enfermidade está demorando a passar. Tenhamos paciência. Mas paciência não significa acomodação. A doença aflorou e exige o tratamento das suas causas. A busca da cura será o objetivo de todos. Estejamos atentos para não seguir os conselhos que se revelaram equivocados.

Segundo o Cardeal Michael Czerny: as certezas que construíram nossa existência parecem, agora, cambalear. É possível dizer que elas nos levaram a enfermidade. A cura exigirá outros caminhos, outras possibilidades. Sejamos criativos. Sejamos solidários.

Recuperemos o sentido do divino presente no humano que nos leva a ser misericordiosos e vamos agir com profecia e esperança, sabendo que o caminho anterior não será o bom caminho. Será preciso descobrir outros caminhos.




Em março deste ano, já publicamos outra reflexo sobre a pandemia no site: “Estamos em uma travessia. Temos muitas preocupações, dúvidas, medos e incertezas. São sentimentos próprios destas situações. Contudo, não percamos a esperança, a vontade de ajudar, a coragem de coletivamente superar esta travessia”.

 

Filosofia: como pronunciá-la?

“Filosofar é uma viagem em que cada um está só.
Mas isso não impede encontros. Ao contrário é o
que os torna ao mesmo tempo possíveis e preciosos”.
(Sponville & Luc-Ferry)


Para começar a contornar conceitos que incidam sobre o que é Filosofia devemos nos valer daquilo que se destaca no universo humano, que se torna fundamental, a ideia de partilha, cujo substrato ético é a philia. A amizade é um registro peculiar no fazer filosófico, que pode conduzir à felicidade. Seria essa uma meta da filosofia, sermos amigos e sermos felizes.

A exortação ouvida por Sócrates do oráculo de Delfos, “conhece-te a ti mesmo”, leva-nos a não descuidarmos desse amparo investigativo, inspirado na racionalidade do sujeito. Articula-se, mais uma vez, a pergunta: quem sou eu?

Para sistematizar o conjunto de possibilidades, que emerge a partir dessa questão, temos que tomar um indicador que permita começar uma resposta – a ratio.

Eu sou um sujeito do logos, eu sou alguém que fala, porque pensa e, ao pensar, constrói significados e interações lingüísticas baseadas na ratio, no logos. Então somos sujeitos da razão e da palavra; essa é a identidade do mesmo, do que pergunta por si, pelo seu sentido, pelo seu destino.

A Filosofia se envolve com essas questões – compreender o humano no seu processo de humanização e de diferença com os demais seres da natureza. A condição humana é a do uso da razão e do pronunciamento da palavra.

A tarefa filosófica, o que fazer filosófico é um dos traços mais genuínos do humano, que permite a postulação das questões paradigmáticas: – Quem sou eu? De onde eu vim? Para onde eu vou?

Encontra-se na História da Filosofia, no nascedouro do pensamento como experiência reflexiva, o registro de que os que se ocuparam da filosofia se envolveram com a pergunta acerca do ser. Esse marco inicial do espanto e da admiração do homem, que formula a pergunta pelo ser, configura sua capacidade de ratio, de logos e permite, como autor da pergunta sobre o ser, formular a pergunta sobre si mesmo, sobre sua condição, sobre sua história. Ele investe filosoficamente nesse pronunciamento elucidativo – o ser é uma articulação de sentido, dada pelo homem.

Sobre a inteligibilidade do mundo e da vida, o homem traça seu percurso de sujeito de saber e de poder, sujeito que inaugura a história do humano como a história da razão. É, pois, a filosofia o evento da razão no cosmos, evento que aproxima os humanos numa aventura comum, a da linguagem como expressão do pensamento.

Quando trabalhamos conceitos, por exemplo, de ciência e filosofia temos de considerar, desde logo a compreensão do conteúdo desses conceitos. Ou seja: o que há de específico no conceito de ciência, que não aparece no conceito de filosofia e o é que próprio do fazer filosófico, que não integra o fazer científico. Não se trata de supremacias, trata-se de especificidades, de movimentos conceituais diferenciados, com propriedades explicativas e sistêmicas. Esses pressupostos exigem precisões que possam conduzir às categorias de singularidade e universalidade, sem estarem freados por determinismos absolutos.

Ao falarmos da ciência, pensamos num corpo teórico inserido em interesses específicos de investigação, embora, alinhados a um eixo metódico necessário para ordenar as investigações e descobertas. Daí a construção de paradigmas.

Ao tratarmos da filosofia, pensamos na condição de um saber ordenado, cujo regramento metódico vincula-se às províncias mapeadas pelo sujeito epistêmico.

Esse sujeito pronuncia discursos acerca do cosmos, da história, da religião, da psiquê, do direito, da ética, como discursos articulados, a partir das reflexões de caráter metafísico, dialético, analítico, hermenêutico, conforme sua intencionalidade investigativa, no âmbito do saber filosófico. É a filosofia, pois, um saber, que prescinde do comprovável e do verificável, uma vez que sua inclinação conceitual não está voltada para a calculabilidade do mundo, nem para as mensurações quantificadoras da verdade.

É evidente que os conceitos, sendo os resultados das reflexões e criações dos homens, sofrem como eles estágios, evoluções, superações, negações, eliminações. Assim, permanecem na sua vida epistemológica o tempo necessário para o seu uso, ou seja, o critério de sua validez tem o caráter contingente da vida e história humanas.

Daí o falarmos em revoluções científicas e tecnológicas, como a experiência do conhecimento humano que troca de eixo, uma vez identificadas novas encruzilhadas no caminho investigativo, as quais possibilitam mudanças de ponto de partida e de ponto de chegada. A revolução copernicana identificada por Kant no seu fazer filosófico demonstra isso. A descoberta do genoma humano pela engenharia genética revela a paciência e a disciplina necessárias da ciência que constrói seu objeto, numa atitude relacional com diferentes áreas de pesquisa, para chegar ao conhecimento desejado.

A unicidade conceitual não ocorre o tempo todo, nem no âmbito da filosofia, nem na esfera da ciência. Um tema filosófico fundante, como o tema da verdade, já não reúne um consenso teórico em torno de si, como no tempo dos gregos.

As investigações científicas das diferentes áreas, antes ancoradas nos critérios de exatidão e verificabilidade de fenômenos, hoje necessitam de outros aportes para desenvolverem o procedimento científico de forma não-determinista. Deparamo-nos com uma tensão necessária entre o sujeito do processo e o resultado das investigações. Nem tudo é previsível e a imponderabilidade integra o mundo da filosofia como o mundo da ciência, na expressão mais eloqüente de que o fazer humano passa por vicissitudes não controláveis na totalidade.

Conceitos científicos e saberes filosóficos são construções humanas necessárias, como balizas teoréticas do mundo, ainda que tomadas pela característica da falibilidade. Isso revela nossas limitações e pode aproximar-nos em todo processo investigativo, sem construir inimizades e sem perturbar as emoções.

Esse exercício da nossa racionalidade permite a perspectiva da sabedoria dos simples e dos serenos. Não há necessidade de guerrear devido às descobertas e inovações. Basta a inteligência, cuja ousadia aprimora o bom senso e afasta a prepotência daqueles que tudo sabem.

Ao nos reportarmos ao “Conhece-te a ti mesmo”, enfrentamos questões aproximativas, que decorrem da exortação apresentada a Sócrates: Quem somos? Quem nos atrevemos a ser? Qual coragem comanda nosso discurso e nossa ação investigativa?




Conheça vídeo “Os sofistas e Sócrates”.

O sujeito histórico que somos, pode buscar o perfil de Caim, da dissimulação pela inveja, negando a fraternidade, ou, seguir os passos de Prometeu, de cumplicidade com os humanos, contra os deuses, ou, ainda, pode repensar sua práxis, na encruzilhada de um destino cujos comandos não estão tão distantes de seu imaginário como possa parecer.

Basta que se torne menor a fala da soberania individualista e heroica e se apresente mais simples o discurso de partilha e de compromisso, para que se efetive uma ação cujas luzes não sejam apenas as do esclarecimento, mas as da cultura da paz.




Conheça um pouco mais da história de Sócrates.

Autora: Cecília Pires

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Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.

No Nono Ano, Unidade temática: Política, conhecimento e estética, Objetos de Conhecimento: Possibilidade de conhecer as coisas a partir de Sócrates.  Habilidades: Entender o processo de conhecimento e as diferentes formas de conhecer desenvolvido pelo ser humano de modo a utilizá-las, respeitá-las e valorizá-las.

Questões para pensar:

  1. Após ler este texto, resumo com palavras próprias o que você entendeu sobre esta reflexão “Filosofia: como pronunciá-la”?
  • Como você pronunciaria a filosofia a partir das ideias do texto?
  • A autora Cecília Pires utiliza em seu texto as ideias de Sócrates, utilizando a frase “Conhece-te a ti mesmo”. O que você já sabe de Sócrates?
  • Assista ao vídeo (https://youtu.be/48YutxLmG_E?t=149 ) sobre Sócrates e os sofistas. Faça um breve resumo do que você entendeu sobre a vida, os fundamentos e o método de Sócrates.

Função do ensino religioso na perspectiva da laicidade

O ensino religioso é mais uma oportunidade
que a escola tem de estudar a cultura local.  
A valorização dos aspectos culturais e religiosos
da sociedade na qual a escola está inserida é fundamental.


É possível ensino religioso nas escolas públicas e privadas no contexto da laicidade brasileira? Qual a função do ensino religioso na perspectiva da laicidade?

Quem não se lembra das aulas de ensino religioso no ensino fundamental? Acredito que a maioria dos brasileiros tiveram aulas com padres, freires, pastores ou pessoas muito engajada em suas atividades religiosas.

Os conteúdos ensinados provavelmente eram ensinamentos sobre a Bíblia, Deus, Maria, Santos, Orações, Campanha da Fraternidade, Círio de Nazaré, Natal, e outros feriados religiosos. O intuito do ensino religioso era a catequização, proselitismo religioso e as igrejas terem espaços nas escolas públicas e privadas para ministrarem temas ligados as suas confessionalidades.

Historicamente, o modelo confessional (ensino dos dogmas religiosos) foi o escolhido pelas escolas públicas e privadas para a identidade do componente curricular ensino religioso. Isto deve-se a influência da Igreja Católica na política brasileira. Acredita-se que o ensinamento do credo, dogmas e princípios morais cristãos eram necessários para a formação humanística do aluno.

A partir da década de 1980, o Brasil avança para o crescimento de outros grupos religiosos cristãos. Os evangélicos tem aumento substancial em número de adeptos e influência na sociedade.

Há quem diga que nas próximas décadas o Brasil será de maioria evangélica. Evangélicos conquistam espaço nas escolas e naturalmente o modelo interconfessional acaba sendo assumindo por alguns sistemas de ensino. Interconfessionalidade consiste no ensino confessional de vários credos religiosos nas aulas de ensino religioso. A diferença que os conteúdos não apenas de inspiração católica, temos a presença de elementos de outras religiões, sobretudo as evangélicas pentecostais e neopentecostais.

Tanto o modelo confessional quanto o modelo interconfessional são problemáticos para o contexto da laicidade em que vivemos. Entendemos a laicidade a separação da Igreja e do Estado.

Assuntos relacionados a religião são fé fórum íntimo, ou seja, a vivência da religião, religiosidade ou outro aspecto de fé é algo particular de cada um. O espaço público é o espaço de todos.  Cabe ao Estado não ter uma religião. A função do estado é garantir a liberdade de culto e religiosa, tratar todas as religiões de forma igualitária, vetar intolerância religiosa e racismo religioso ou qualquer forma de proselitismo religioso nas escolas (isto é constitucional).

O que vem ocorrendo diariamente nas escolas públicas nas escolas brasileiras? Muitos professores de ensino religioso impõe sua religião aos alunos dentro das aulas. Demonizam expressões religiosas diferente da teologia católica ou protestante, a exemplo das religiões de matriz africana. Satanizam as questões de gênero e sexualidade, investem em oração do pai nosso, Ave Maria, recitação da Bíblia, cultos, missas, palestras ecumênicas, dentre outras práticas proselitistas.

Como falamos, o Brasil não é mais um país de maioria católica. Nas últimas décadas, percebemos queda significativa do número de católicos e aumento dos evangélicos e dos sem religião. O perfil religioso do brasileiro mudou radicalmente. O Brasil não é mais uma nação católica e sim de maioria de católicos.

A pluralidade é o retrato da prática religiosa do brasileiro. As pessoas podem optar por serem católicas, evangélicas, espiritas, candomblecistas, islâmicas, umbandistas, vinculadas a alguma filosofia religiosa oriental, uso o chá da Ayahuasca, ou simplesmente não terem religião.

As religiões, religiosidades, filosofias de vidas, crenças, espiritualidades ou o nome que queira sempre influenciaram e sempre continuaram a influenciar a vida particular dos brasileiros e as decisões nos espaços públicos. Isto é, a religião dialoga com as questões de educação, saúde, segurança pública, direitos humanos, turismo, patrimônio, violência, cultura, juventude, e dentre outras áreas.

Acreditamos que a função do ensino religioso na escola pública e laica é outra. É levar o aluno a compreender a religião enquanto fenômeno social. A religião pode e deve ser estudada a partir de uma perspectiva cientifica. As aulas podem ser espaços riquíssimos de levar o nosso alunado a refletir como a religião pode incluir ou excluir as pessoas na sociedade. Isto é, não seria o ensino teológico e sim fenomenológico.

As aulas de ensino religioso precisa estar vinculado a proposta de educação em direitos humanos nas escolas. Os conteúdos relacionados a valores de liberdade, justiça social, tolerância a religião e cultura do outro, solidariedade e promoção da cultura da paz. Caberia ao professor de ensino religioso discutir questões de gênero, raça, etnia, migração, política, cultura, sexualidade, mulheres, indígena, ambiental, na conscientização do respeito as pessoas, a sociedade e a pluralidade religiosa e cultural.

O ensino religioso é mais uma oportunidade que a escola tem de estudar a cultura local.  A valorização dos aspectos culturais e religiosos da sociedade na qual a escola está inserida é fundamental.

Podemos citar o exemplo da Amazônia. Alguns estados reformularam seus conteúdos de ensino religioso e priorizaram as características da cultura e religiosidade local. Os temas trabalhados são as tradições indígenas, as práticas e saberes africanos, religiosidade popular, festas tradicionais, cultura religiosa do ribeirinho e das comunidades quilombolas, turismo religioso, espaços sagrados, dentre outras opções. O objetivo maior é combater a intolerância religiosa e o racismo religioso.



Numa experiência inédita na cidade de Passo Fundo, pelo quarto ano consecutivo, alunos e alunas do nono ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino de Costi (ZDC), organizados por seu professor de Ensino Religioso, realizam visitas de conhecimento à Catedral (referência dos cristãos católicos), Sinagoga (referência dos irmãos judeus), Mesquita (referência dos irmãos muçulmanos) e Centro Espírita Dias da Cruz (referência dos irmãos espíritas).

Acreditamos que a ciência referência para o docente em ensino religioso é a Ciência da Religião. Necessitamos de uma política pública que esteja em consonância com os referencias teóricos e metodológicos de pensar a religião enquanto ciência e não dogmatismo. Para isso, as universidade públicas e privadas necessitam oferecer cursos de graduação e de pós-graduação em ciência da religião. Uma pena que a realidade é o contrário. Há resistência de reitores, secretários de educação no comprometimento desta agenda de ensino e de pesquisa.



Acreditamos que o Ensino Religioso tem a possibilidade de educar para a espiritualidade como CUIDADO: de si mesmo, dos outros, da natureza e do Transcendente. Como afirma Frei Betto, “são inúmeros os exemplos de generosidade e solidariedade nesse período em que estamos todos potencialmente ameaçados. Esses gestos têm sua fonte na espiritualidade, ainda que sem caráter religioso. Espiritualidade é a capacidade de se abrir amorosamente ao outro, à natureza e a Deus. E o que ela melhor nos ensina é o desapego, o segredo da felicidade. Rico não é quem tem tudo, dizia Buda, e sim quem precisa de pouco”.

Autor: Marcos Vinicius



Propostas de uma atividade pedagógica Ensino Religioso

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Nono Ano do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio.

No Nono Ano, Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida, Objetos de Conhecimento: Princípios e valores éticos. Habilidades: Reconhecer-se como parte integrante de uma sociedade pautada em princípios e valores morais, éticos e religiosos.

Questões de aprofundamento:

  1. Comente com seus familiares algumas ideias do texto, sobretudo sobre a forma como eram as aulas de Ensino Religioso no seu tempo de escola (as aulas eram confessionais, interconfessionais ou interreligiosas)? Anote algumas ideias.
  • A maioria dos professores de Ensino Religioso trabalham com o diálogo inter-religioso, ou seja, respeitando todas as religiões e abordando o conhecimento das mesmas, sem fazer proselitismo. Pesquise na internet o que é proselitismo.
  • Segundo o autor do texto, o que mudou na cultuara e na religiosidade do povo brasileiro nos últimos tempos?
  • Qual é a função do Estado, ou da Escola Pública, no que diz respeito às diferentes religiões?
  • Segundo o autor, como devem ser as aulas de Ensino Religioso?

Cenários do futuro pós-pandemia

Já pensou em quais aspectos serão
predominantes ao final da pandemia?
Quais irão morrer?
Cada um terá sua resposta,
mas outras deveremos
construir na coletividade.


Projetar cenários pós-pandemia é um exercício que todos fazem em conversas informais. A frase que mais ouço ou leio no meu cotidiano é: o mundo será diferente. Mas qual mundo diferente poderíamos concatenar?

Há métodos científicos para projetar esse novo mundo. Os cenários futuros são tema do design estratégico e comuns a arquitetura. A partir de enquetes, coleta de dados, opiniões, hábitos de consumo, jogos e inúmeros instrumentos cujos nomes técnicos são inúmeros e variados é possível depreender o que mudará.

Por ora, apliquei nenhuma dessas metodologias, mesmo crendo estar habilitado para realizar esse esforço científico como parte de uma rede comunitária para buscar interpretar o futuro. Entretanto é possível, mesmo sem a pesquisa, obter pistas. Por isso, é apenas um rascunho de projeção de cenários.

Deleuze e Guattari afirmam que o capitalismo territorializa comunidades, oferecendo axiomas (benefícios, hábitos de consumo, bens) para domar os seres. Esses axiomas, no momento, são fique em casa e use máscara. Entretanto, o capitalismo precisa sobreviver como gerador de lucro, senão morre em si.

Como o capitalismo encontra-se periodicamente em falência, necessita inventar novas necessidades ou benefícios, ou seja, axiomas, para continuar existindo.

Dentre esses novos axiomas que a pandemia nos oferecer é possível depreender a ascensão inevitável do online como método de comunicação e vida. É como se buscássemos uma matrix onde apresentamos o melhor de nós nas redes sociais e assim o mundo analógico a nossa volta se curvasse diante do digital. Assim sendo buscamos amores, perfeições, risos e tudo o mais nos ecrãs, nas telas, e fornecer aos demais um pouco desse conteúdo no formato que cada rede social permite que o façamos.

Nos hábitos profissionais, há uma divisão clara entre os que podem ficar em casa em teletrabalho e os que necessitam estar presentes no universo analógico, realizando transporte de indivíduos, alimentos, bens de consumo, produzindo e viabilizando a realidade física. Todavia, há ainda uma busca – que sempre existiu ao longo da história – de reduzir ao máximo a necessidade dos seres utilizarem seus corpos como máquinas e, em alguns casos, a mente sendo substituída pela Inteligência Artificial (IA).

Na agricultura, pecuária, fabricação de máquinas, veículos e equipamentos já há uma mecanização milenar. O escritor Aldous Huxley, nos anos 1950, projetou o que acreditava ser o século XXI.

Em meados do século XX, a humanidade precisava de corpos saudáveis e consumir grande carga calórica para realizar as tarefas que viabilizassem a vida em comunidade. A mecanização, há muito existente, ainda era insuficiente para evitar que todos trabalhassem arduamente de oito a doze horas por dia.

Naqueles anos 1950, imaginou que o século XXI seria da preguiça, do consumo da arte e de que a mecanização supriria todas as necessidades. Os humanos trabalhariam cada vez menos e as artes seriam essenciais para o entretenimento. Em uma parcela da humanidade isso se tornou realidade. Há países que adotaram renda básica de valores consideráveis e períodos de trabalho de 30 horas semanais ou menos.

Para muitos, ainda há o medo da escravidão, os salários baixos e o trabalho extenuante e o medo de não ter possibilidade de sobreviver. Todavia, o capitalismo está fragilizado e, por isso, mesmo os ultraliberais já defendem programas de renda mínima e produção de dinheiro para manter ativa a roda do capitalismo. Há, inclusive, a defesa da manutenção desses programas na pós-pandemia. Somente no Brasil, cerca de 50 milhões necessitam dessa verba para conseguir se manter vivos, consumindo o mínimo necessário de calorias e tendo um teto sobre as cabeças.

Uma outra tendência é que apenas o que está online se torna digno de consulta. Portanto, os conteúdos analógicos perdem cada vez mais espaço. Há, sim, consumo de livros, revistas, long plays e outros bens culturais analógicos. Todavia os precários serviços de correios e os preços tornam, cada vez mais, o online como principal fonte de cultura.

Ao mesmo tempo, ao invés de priorizar os clássicos, em qualquer plataforma, há a busca de uma produção constante de conteúdo, demonstrando que existem sociedade vivas que buscam solucionar suas angústias e expectativas se utilizando da linguagem e formatos contemporâneos para se comunicar.

O próprio dinheiro em papel, portanto analógico, começa a deixar definitivamente de ser utilizado como veículo de troca e, assim como já acontece na China, as moedas online se consolidam, inclusive com programas de descontos e pagamentos. Os bancos possibilitam, inclusive, a transferência de pontos do cartão de crédito para alimentação.

Há meses não há produção comunitária de filmes, séries, novelas e outros produtos que demandam o convívio e a troca pessoal. Todavia explodem produtos feitos a distância – lives, comédias individuais, debates online e outros. No universo dos jogos há esse convívio comunitário. Jogadores de locais diferentes lutam, constroem, disputam em milhares de jogos eletrônicos que surgem diariamente em diversos pontos do mundo.

Há, também, o consumo dentro do jogo. Ao invés do indivíduo adquirir uma camiseta de marca, por vezes prefere gastar dinheiro real em um avatar online transitório.

Tempo é dinheiro, diz a frase capitalista. Se assim o for, nosso tempo está sendo aplicado cada vez mais nesse universo em que se prega o distanciamento social, o fim do contato físico com exceção do familiar. É como se cada vez mais nos tornássemos unidades autônomas em direção a solidão.

O axioma do “Fique em casa” também faz com que pensemos sobre nossas residências. São grandes, pequenas, mal localizadas, bem localizadas? Uma tendência imobiliária em capitais é a de valorizar primeiro a localização e por último o tamanho das casas. Os prédios construídos nas últimas décadas são cada vez menores e as casas ínfimas da China, Coréia e Japão surgem, por vezes, nas linhas do tempo para lembrar que o espaço se tornou cada vez menor e opressivo em nome do lugar.

A pandemia faz lembrar que viver próximo potencializa doenças e que ficar preso em espaços mínimos faz com que sonhemos cada vez mais em locais amplos. Mas onde está essa amplidão?

Na periferia, nas cidades do interior, nas proximidades do campo, em inúmeros locais onde a imaginação dos indivíduos possam almejar. Entretanto esses grandes espaços não são supridos pelas construtoras contemporâneas. Porém, o trânsito, o tempo de deslocamento até o trabalho e aos centros de consumo fazem com que os pequenos espaços sejam aceitos e vividos em nome do conforto comunitário.

Por último e, por óbvio, a forma como convivemos e passamos pela pandemia depende da ciência e da adequada interpretação e transmissão dos conhecimentos necessários para sobreviver enquanto o vírus está ativo no ambiente. Portanto, os que são afeitos a notícias falsas são inimigos da sobrevivência da humanidade.

Todavia, há um movimento de extrema-direita que ganhou o poder em inúmeros países que se mantém graças a propagação de notícias falsas em profusão. Nesses países, em especial nos EUA de Trump, há muito mais casos do que onde o cenário político tem, como característica, o respeito pela ciência e ao conhecimento.

Qual será o futuro?

Acima fiz um pequeno recorte, comentários sobre o que percebo nesses tempos. A partir dessas considerações é possível que eu desenhe um cenário particular, que não se trata de ciência, mas de percepção e opinião.

A partir das percepções acima citadas, é possível depreender alguns elementos que possam estar presentes nos próximos anos. Algumas pistas já apresentei.

Dentre elas, estão:

– Redução drástica do consumo da cultura analógica (livros, revistas, cd, long plays);

– Consolidação das moedas digitais, sejam por aplicativos, jogos ou cartão;

– Aumento exponencial do teletrabalho;

– Redução do deslocamento em vias urbanos;

– Revalorização do bairro como local de convívio;

– Busca de espaços maiores para viver, em detrimento a localização;

– Revalorização da ciência como fonte de bem estar;

– Rejeição dos propagadores de notícias falsas;

– Nova onda de mecanização da produção dos bens de consumo;

– Convívio online aumentado via jogos online e redes sociais;

– Revalorização do núcleo familiar;

– Aumento da solidão nas grandes cidades;

– Internet sendo valorizada como mídia dominante;

– Inteligência artificial e nova onda de mecanização para reduzir o uso da mão de obra;

– Redução do tempo dedicado ao trabalho;

– Entretenimento como sentido para a vida ao invés do trabalho extenuante.

Quais outros aspectos serão predominantes ao final da pandemia? Quais irão morrer? Cada um tem uma resposta particular. Mas também necessitamos de uma pesquisa científica avalizada em métodos para que possamos ter uma abalizada interpretação do porvir.




A pandemia de coronavírus escancara para toda a sociedade as imensas desigualdades brasileiras e evidencia a necessidade se criar no país um pacto social que inclua toda a população. Além disso, temos que enfrentar a concentração de renda e riqueza no país, e garantir direitos e acesso a políticas sociais. Essa foi a tônica da live realizada nesta quinta-feira (23/4) pela Oxfam Brasil em seu canal no Youtube.

Imposições da pandemia em 2020: vida material e reconexão intencional e consciente

O funcionamento das mentes consciente e subconsciente, os hábitos, construídos pela repetição de comportamentos e as crenças representam a base, o fundamento ou essência de cada ser humano, está sendo desafiado para se repensar e se adaptar, diante das imposições de uma nova época.

Um vírus disseminado em 2020 está sendo responsabilizado pela abreviação da trajetória material de milhares de pessoas. Entre as características das vítimas, pode estar incluídos um histórico de auto cuidado precário com o corpo e com a mente. Estes cuidados são de auto responsabilidade, contudo o modelo de produção material e de satisfação psicológica é um aspecto central para uma descrição apropriada do que estamos vivendo.

A relação entre modelo educacional, o produtivismo e consumismo ilimitados, para atender necessidades secundárias ou artificiais precisa ser detectado e ressignificado para que a vida seja priorizada.

A relação entre mente e comportamento é complexa e sua conexão é, em grande medida, desconsiderada pelos modelos educacionais. Trata-se de uma relação tematizada insuficientemente, pela ciência hegemônica de base cartesiana materialista, que considera a mente algo imaterial e separado do corpo material.

No entanto, o funcionamento das mentes consciente e subconsciente, os hábitos, construídos pela repetição de comportamentos e as crenças representam a base, o fundamento ou essência de cada ser humano, que está sendo desafiado para se repensar e se adaptar, diante das imposições de uma nova época.

A crise dos modelos educacionais lineares, sejam eles escolares ou familiares, focados da transmissão padronizada de conhecimentos pré-estabelecidos, já estava sendo substituída por modelos que consolidam comportamentos ativos de todos os sujeitos envolvidos.

Com a ampliação no uso da tecnologia para acessar informações, os educadores, sejam eles pais ou professores, definitivamente, devem assumir a função de mediadores e não detentores da informação ou do conhecimento.

Mais do que um mero desafio se trata de uma revolução, pois atinge e um aspecto central, constituidor da própria identidade, impondo uma mudança no comportamento, no sistema de crenças, no funcionamento do aparelho psíquico e no modo de pensar.

O desenvolvimento da capacidade de se adaptar e sobreviver, diante das novas imposições, será uma referência relevante para o sucesso individual e coletivo. A construção de novos hábitos é o fator decisivo e possibilitará que algumas pessoas alcancem seus objetivos, enquanto outras permanecem presos ao comportamento distópico, diante da nova época que está em curso.

Esta mudança de hábitos exige que as decisões feitas “no piloto automático”, baseadas em ideias já estabelecidas em nosso inconsciente, sejam substituídas por decisões refletidas, criativas, inovadoras e intencionais.

As mudanças impostas em 2020, sugerem um espaço maior para reflexões, a respeito das conexões entre necessidades básicas e secundárias ou artificiais, entre o ser humano e a natureza, bem como dos seres humanos entre si. Nisto deve estar incluído uma atenção privilegiada para obsolescência do acúmulo material e para as conexões entre as dimensões físicas e imateriais ou mentais da existência.

Para quem deseja êxito diante das imposições, uma das alternativas é aumentar a atenção e os cuidados com as conexões entre a mente consciente, que constrói as intenções, os hábitos e comportamento.

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