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Às muitas Anitas!

Obras belas devem circular, serem lidas, contadas, debatidas entre nós. Cartas podem ser este registro. E no futuro, servir de documentários precisos a suscitar a curiosidade e as atenções dos literatos.


Estas cartas, geralmente escritas a punho e à tinta, com letra compreensível, continham os traços de emoção e dos sentimentos que o escritor carregava no momento de sua redação. Para escrevê-las dedicava-se um tempo, um cuidado com a escolha das palavras, e com o tipo de papel e caneta. Somente após este processo, relida algumas vezes, a carta era selada, postada no correio e enviada ao destinatário. Quando recebidas, eram lidas por aquele membro da família que havia se alfabetizado e, por esta condição sabia decifrar as letras (Camini, 2012, p. 23-24)




Prezados/as, por inspiração do encontro de literatura, dia 28 de outubro, decidi vos escrever esta missiva. A tradição de escrever cartas vem desde os tempos bíblicos, entre os apóstolos. Este modo de comunicação, cruzou fronteiras e períodos históricos. 

Cartas foram escritas por Eduardo e Eloisa, séc.XII, por Francisco de Assis, séc. XII, por Rosa Luxemburgo, Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, Antônio Gramsci, Che Guevara, Olga Benário, Francisco Julião, Isabel Allende, Paulo Freire e Anita. Nas condições em que viviam, na prisão ou exílio, ou contidos de liberdade plena, era o único meio de dar notícias à família, amigos, companheiros. 

Alguns escreviam em minguadas folhas de papel, sem óculos e não lhe doía a vista. Ter um lápis/caneta era um privilégio. “Não poderás nunca medir a emoção que senti quando tive em minhas mãos as primeiras folhas de papel e os dois lápis esferográficas com que te escrevo”, disse Francisco Julião à sua filha. Se lermos essas cartas, seremos contagiados pela sensibilidade, características próprias daqueles que não soltaram a mão da humanidade, mesmo encarcerados e separados das pessoas que amavam. No seu conjunto, são verdadeiros romances de formação humana.

Em suas cartas encontramos literatura, filosofia, sociologia, história, psicologia, e muito amor. Partilhavam profundas reflexões de vida, porque separados por proibições que não guardavam sentido. Por isso, escrever cartas e trocá-las entre si era o único meio de alimentar a esperança de um dia poder reencontrar-se. Contudo, torcendo para que os proibidores destas relações, não impedissem de as cartas alcançar o seu destino. 

Não por acaso, crianças das Escolas Itinerantes, escreviam cartas ao Ministério Público, ao Presidente Lula e ao INCRA. As cartas, eram portadoras de reivindicações e denúncias. Contavam os aprendizados construídos na sua escola, conectada com a vida. Em períodos de marchas, destacavam as cidades por onde passavam, as plantações, as pessoas, os conteúdos que estudavam. E porque sua escola foi batizada com o nome de Paulo Freire, seu inspirador. 

Vejam, pela sua forma escolar, essa escola, incomodou o Estado. Por isso a serpente do latifúndio, que envenena terras e águas, reagiu rapidamente, e o Governo se moveu para negá-la aos Sem Terra, após 12 anos de uma linda experiência em curso. Esse latifúndio “entulha os cemitérios e as encruzilhadas dos caminhos de milhares de crianças que tinham o direito de viver”, nos diz Francisco Julião. 

Recentemente nos alcançou uma obra encantadora, cujas cartas, nos levam às lágrimas – A Revolução de Anita. Soube nesse dia, que centenas de militantes sentiram profunda emoção ao lê-la, e por isso a sugeriram a alguém amigo/a. Esse amigo, não poderia, de forma alguma, eximir-se dessa leitura, tão prazerosa e significativa. Quem não a leu ainda, se quer imagina a beleza nela contida. 

O mundo e a realidade que Anita descreve, com rigor e paixão, porque conviveu com camponeses dos quais nos fala, é também a realidade e o nosso mundo há quatro décadas. O que foi feito em Cuba, em 1961, está sendo feito no MST desde 1982. De lá para cá, iniciativas ousadas, em condições desfavoráveis, muitas vezes, milhares de pessoas foram alfabetizadas. Outras, estão se alfabetizando. E, muitas mais, esperam pela oportunidade de aprender a ler o mundo e poder dizer a sua palavra. E estas têm pressa. A diferença é que Cuba, forjada pela revolução, ainda contrariada pelo capitalismo, alcançou a todas as pessoas da Ilha, com planejamento, determinação e formação de brigadas de alfabetizadores, cuja dedicação e amor à Pátria, ajudaram plantar as raízes da revolução. Assim, acenderam a chama redentora na consciência do povo.

Entretanto, é preciso entender.  Vivemos num sistema capitalista, gerador de exclusão. A fábrica, produtora do analfabetismo é eficaz e eficiente. Por isso, nosso trabalho deverá ser bem programado e perseverante. Cada um de nós, tem o dever de prestar atenção ao seu entorno. 

Enquanto houver um analfabetizado, nossa tarefa não estará concluída. Diferente de Cuba, que havia conquistado o Estado, e por isso em condições favoráveis de construir a revolução, nós temos o Estado contra nós, produtor da desigualdade Social, de homens estraçalhados e com fome. 

Por isso mesmo, o MST rema contra a maré, contra a morte, em condições desiguais, com minguados recursos para agir. Ao desenvolver projetos de alfabetização, geralmente tem pouco apoio dos governos. E quando tem, é por tempo limitado, rompendo processos e desmotivando as pessoas. Para nós, a alfabetização tem significado maior – aprender a ler, escrever e interpretar. Estudar é para a vida inteira. Nossa inspiração vem de Martí: “Só o conhecimento liberta”!  

E nós, já escrevemos cartas aos nossos amigos, companheiros de jornadas, de escola, de universidade, contando qual é o nosso trabalho, militância, no MST? Como nos organizamos no trabalho de base, de alfabetização, nas escolas, nas cooperativas? Contamos o que lemos, estudamos, o que tratam as obras lidas em tempo de pandemia? Eis o desafio sugerido para enfrentarmos com mais leveza e atenção redobrada, com a nossa e a saúde dos outros. Ainda mais que não sabemos por quanto tempo o Vírus será o empecilho para darmos o voo dos pássaros. 

Quando lemos algo que nos inspira e move nossas ações, não devemos aprisionar a obra em nós, deixando-a nas prateleiras, esquecida, à disposição das traças. Obras belas devem circular, serem lidas, contadas, debatidas entre nós. Cartas podem ser este registro. 

E no futuro, servir de documentários precisos a suscitar a curiosidade e as atenções dos literatos. Por que não? Cartas precisam ser escritas, comunicadas, guardadas, relidas. Somente cartas, podem contrapor as palavras, mal escritas, esquecidas, tão logo chegam às telas de nossos celulares. 

Fico a imaginar o conteúdo das cartas, vindas da juventude militante que carrega sua mochila nas ações de solidariedade, com o povo nas periferias. Com certeza, eu e vocês, seremos seus fiéis leitores/as. Por isso, sintam-se desafiadas a acrescentar pequenos blocos de papel e caneta nessa mochila. Anotem tudo: emoções, lágrimas, sorrisos, e palavras ouvidas de idosos, adultos e crianças. Aliás, prestem atenção maior no olhar das crianças. São elas que estão à frente, com seus olhos brilhando de felicidade ao receber a comida que esperavam. Elas esperam vocês, a fome não! Elas são criaturas merecedoras de nossa atenção redobrada, porque indefesas, vulneráveis, e, neste período, sem escola, expostas à violência que as ronda, sem lhe dar o direito de respirar sua própria infância.  Esse registro em pequenos pedaços de papel, serão imprescindíveis para dar conteúdo e emoção às cartas que irão escrever. Debruçados sobre a mesa, pensem, rascunhem, reescrevam. A carta endereçada ao Antônio, Matilde, José, Pedro, Edgar, Isabela, Maria Cristina e Miguel, precisa comunicar a palavra, como se estivesse conversando, pessoalmente.  Decidam a quem enviar. A pessoa que a receber, ficará imensamente feliz, e grata. A abrirá, a lerá, mais de uma vez. A carta precisa ser bem escrita, se for com o próprio punho, deve ser legível. Para ser uma carta pedagógica, nome que Paulo Freire batizara seus últimos escritos, precisa estar encharcada de pedagogia, isto é, portadora de aprendizados que comunicam, sensibilizam. 

Sim, as cartas podem ter diferentes sentidos. Por isso a minha quer incentivar a escritura de cartas, e contar a vocês, um fato marcante. Em 1990 houve um grande movimento de alfabetização no RS, que se estendeu pelo Brasil. E no dia 25 de maio de 1991, tivemos a alegria de ter Paulo Freire no ato de lançamento. Dia inesquecível. Esta data demarca a primeira e única vez em que o MST se encontrou, pessoalmente com Paulo Freire, porque em 02 de maio de 1997 ele fechou os olhos para ver melhor. Em sua humildade pedagógica, se emocionou ao saber que o MST iniciava um trabalho de alfabetização nos acampamentos e assentamentos, 26 anos depois de ter sido preso e exilado por esta mesma causa, pelas mãos da ditadura. Ouviu com profundo respeito, a intenção do MST, de alfabetizar seus companheiros, e de não se dar por satisfeito até que tenha um só ser humano que não saiba ler, escrever e interpretar.  

Pois bem, se esta tarefa fosse fácil, não seria para nós executá-la. O desafio é construímos possibilidades e pontes que elevem a consciência e autoestima de nosso povo. Que possam ter liberdade de pensamento e ação. E nas mãos, livros, sentir seu cheiro, abraçá-los e levá-los para casa! 

Por fim camaradas, me despeço, com forte abraço a vocês, lembrando do apelo de um jovem Sem Terra/1990: “Os companheiros que não sabem ler, sofrem muito, tem limitações”. E juntos, abracemos a Anita, ouvindo sua voz: “Outro dia, o meu pai disse algo maravilhoso quando falávamos sobre a campanha. Ele disse que durante a campanha, os camponeses descobriram o mundo das palavras e os brigadistas descobriram o povo esquecido de Cuba”.

Um gênio chamado Beethoven

É comum ouvir muitas histórias (verdadeiras ou não)
sobre indivíduos cuja genialidade rompe limites,
cujo interesse pela vida privada ultrapassa séculos
e cuja obra perdura para todo o sempre.
Com Beethoven, claro, não é diferente.


Ludwig van Beethoven (1770-1827) é talvez o compositor mais influente na história da música, com a proeza de definir nosso vínculo com a arte. De longe, não obstante haja alguns outros espíritos musicais de incomensurável grandeza e magnitude, ele é um dos compositores clássicos mais escutados do mundo; e também um dos embaixadores da cultura europeia. Simplesmente, é o compositor mais cultuado de todos os tempos. 

Não por mero acaso, assim assinalam quase todos os seus biógrafos: a música de Beethoven é o apogeu de uma evolução iniciada no Renascimento e reúne qualidades excepcionais que perduram dois séculos após sua morte. Para falar de modo bastante objetivo, ele foi um gênio da música!

Certo mesmo é que seu trabalho pertence à herança cultural de toda a humanidade. Beethoven é onipresente e eternamente moderno. Seu nome é conhecido muito além do mundo da música: ele fascina até mesmo movimentos e une pessoas em diversos outros ambientes: da publicidade, do cinema, dos esportes e da política. Chega a ser autoexplicativo, para não dizer redundante, que sua genialidade reinventou a noção de música e revelou novas possibilidades para o piano, o violino e o violoncelo. 

Beethoven deixou cerca de duzentas e quarenta obras, entre as quais sinfonias, concertos, quartetos de cordas e outras peças de câmara, como lieder (tipo de arranjo de origem alemã feito para piano e cantor solo e que expressa os sentimentos da música através dos sons) e uma ópera. Um gênio na acepção do termo, vale assim reiterar incontáveis vezes. Há quem afirme que, ao ouvir Beethoven, ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) teria dito: “Esse jovem conquistará o mundo”.

Note, assim, que apenas por essas breves credenciais, poder-se-á dizer euforicamente que dezembro de 2020 marcará um momento único, sublime, especial: a comemoração dos 250 anos de nascimento de um gênio – uma alma predestinada pela beleza musical e divinamente orientada a encantar gerações após gerações. Merecidas homenagens serão realizadas em palcos do mundo inteiro. Em todos os recantos do planeta, cabe sublinhar, festividades diversas vão fazer ecoar o nome, a música, a beleza, a genialidade de Beethoven, especialmente em toda a Alemanha e, claro, em sua cidade natal, a renana Bonn, no oeste do país. Só o parlamento alemão tem intenção de investir 37 milhões de euros na celebração.

É preciso compreender o homem para depois entender a obra

Beethoven começou a compor na infância. Aos 12 anos já escrevia. Avesso tanto às pessoas quanto aos cuidados básicos de higiene (a ponto de ir sujo à escola), ele dedicou a vida a desafiar os limites de sua arte. Influenciado por Mozart, com quem se encontrou ainda adolescente numa viagem a Viena, foi um prodígio na infância e um compositor obstinado até a morte. (Conforme consta em “Beethoven: Angústia e Triunfo”, biografia de quase 1.000 páginas escritas por Jan Swafford). Sua vida foi marcada por diversos problemas de saúde, indo desde a varíola até a febre tifóide, que deixaria o compositor surdo anos mais tarde. Maynard Solomon, biógrafo de Beethoven, escreve que eram poucos os dias em que o compositor não apanhava do pai, que o forçava a estudar o piano, chegando a trancá-lo por horas na sala em que ficava o instrumento. Johann Beethoven, o pai, era alcóolatra, o que deixaria marcas profundas no filho. A mãe, Maria Magdalena Keverich – filha do chefe de cozinha do príncipe da Renânia –  era turberculosa. 

Num belíssimo e completo artigo sobre a vida do compositor, escrito por João Luiz Sampaio, lê-se que, em 1802, quando se deu conta de que a surdez era irreversível, a primeira atitude tomada foi escrever um documento, “O Testamento de Heiligenstadt”, a seus irmãos Carl e Johann falando de sua condição. Esse documento somente foi encontrado após a sua morte. Na verdade, tem sido dito que esse “Testamento” é uma espécie de mergulho profundo no íntimo de Beethoven, principalmente devido à menção à possibilidade do suicídio ao se dar conta de que ficaria completamente surdo. Na vida adulta, Beethoven era conhecido como alguém rabugento e de pouco humor. Ele mesmo teria reconhecido isso nesse “Testamento”. 

De acordo com um de seus biógrafos, Bernard Fauconnier, os primeiros sinais de problemas na audição, de fato, apareceram quando ele tinha 27 anos. No entanto, à medida em que o quadro ia se agravando, o compositor foi desenvolvendo a habilidade de escutar mentalmente as notas e suas combinações. As biografias – quase todas – dão conta do perfeccionismo dele. Vários biógrafos dizem que ele revisava e corrigia as partituras madrugada adentro. Ao todo, Beethoven deixou 240 peças, entre sinfonias, concertos, quartetos de cordas e etc. Fez apenas uma ópera, Fidélio, encomendada pelo Barão Peter Von Braun. Como não teve boas críticas na estreia, fez inúmeras correções até chegar à definitiva versão (a terceira).

Interessa muito observar o que escreve, também em artigo, Guilherme de Alencar Pinto, Presidente da Associação de Críticos Cinematográficos do Uruguai: Beethoven era um homem com uma personalidade impulsiva, consciente da sua própria grandeza e em eterno conflito com as circunstâncias; desarranjado e descortês, porque a sua concentração e inspiração não lhe deixavam tempo para ninharias prosaicas. Em vez de se curvar perante a dificuldade da surdez, respondeu compondo monumentos de uma magnitude sem precedentes, como se estivesse a mostrar a língua ao destino, num estilo que por vezes poderia ser esmagadoramente furioso. 

Cabe sublinhar por último, mas não por fim, que é unanimidade entre maestros, especialistas e biógrafos o quanto as composições de Beethoven foram importantes inclusive para demarcação de fases na história da música erudita. Críticos do período avaliam, por exemplo, que entre 1792 e 1800 foi notória a evolução da música de Beethoven. Por certo, a experimentação se tornou uma máxima na vida dele.

Curiosidades

É bastante comum ouvir muitas histórias (verdadeiras ou não) sobre indivíduos cuja genialidade rompe limites, cujo interesse pela vida privada (ou pública) ultrapassa séculos e cuja obra (tenha ela a natureza que tiver) perdura para todo o sempre. Com Beethoven, claro, não é diferente.

Separamos, dentre tantas existentes, algumas curiosidades desse gênio. Vejamos a primeira dessas curiosidades em tom de pergunta: é correto afirmar que Beethoven deixou instruções para que todas as suas posses fossem para uma mulher misteriosa, à qual se referia como sua “amada imortal”? 

Respondendo: Sim, é correto. Ao menos é o que se passa no célebre filme “Amada Imortal”, de Bernard Rose. O compositor até fala, em uma carta de 1812, de sua relação com uma “amada imortal”, cujo nome ele não revela – durante muito tempo especulou-se o nome de Antonie Brentano, uma mulher casada e patrona das artes com quem teria se envolvido. Mas não há, todavia, nenhum indício de que no final da vida o compositor, que teve dezenas de casos, ainda estivesse ligado a ela.

Outra curiosidade muito difundida em torno de Beethoven se refere ao fato de ele haver dedicado sua terceira sinfonia à Napoleão, celebrando os ideais iluministas, embora, mais tarde, o compositor acabou se decepcionando ao vê-lo coroando a si mesmo como rei e, nesse caso, teria arrancado a página com a dedicatória da partitura. Mas isso, repare bem, não é totalmente verdadeira, e até os dias de hoje parece residir certa controvérsia. Quem conta a história com um pouco mais de detalhe é um amigo de Beethoven e seu primeiro biógrafo, Ferdinand Ries. Segundo ele, Beethoven teria sim ficado transtornado ao saber que Napoleão havia traído seus ideais. A partir dali, portanto, a sinfonia, que, em princípio, seria chamada de Sinfonia Bonaparte, passou a se chamar Sinfonia Eroica. 

Mas há ainda outra história envolvendo nomes dados às suas composições que merece ser destacada. Por exemplo: “A Sonata ao Luar” teria recebido este nome porque foi escrita em um momento no qual, já acometido pela surdez, o compositor vagava pelas noites em Viena, contemplando o céu. Mas isso, porém, não passa de informação falsa. Ocorre que o nome “Sonata ao Luar” não foi dado por Beethoven, que chamou a peça de Sonata quasi una fantasia. Quem a batizou desta forma foi o crítico Ludwig Rellstab, cinco anos após a morte do compositor, estabelecendo, pois, uma reação entre a música do primeiro movimento da peça com o efeito da luz da lua iluminando o Lago Lucerna.

*

Por fim, queremos apenas observar um ponto derradeiro. Colocado ainda em vida sobre um pedestal de semideus do qual jamais sairia, antes de morrer Beethoven tinha preocupações bem mais humanas: seu próximo trabalho, a doença, o dinheiro. Contudo, a implacável passagem do tempo chegou ao compositor, silenciando-o. Ludwig van Beethoven morreu num estado de saúde tão precário que a causa jamais foi esclarecida (havia suspeitas de cirrose, sífilis e até envenenamento). A mais brilhante das luzes da música clássica saia de cena, sem jamais se apagar. E como pouquíssimos, ele pode ser chamado de gênio. Talvez o maior da música. Beethoven vive! E viverá para sempre.

Ludwig van Beethoven ícone supremo da música ocidental. Por Franz Ventura. Tudo sobre Beethoven conta a história de uma forma divertida a biografia do compositor alemão mais respeitado da humanidade.

2020: marcado pela pandemia e pela resistência dos professores da rede estadual do RS

Contar histórias de pessoas que marcam a história de nossa educação, em especial, a educação pública, é uma escolha editorial que fazemos reiteradamente no site. Nosso compromisso é com aqueles e aquelas que sonham, lutam e promovem a educação de qualidade social.

Em novembro de 2020, quando nos aproximamos de mais um final de ano, com poucas previsões e muitas dúvidas sobre o término do ano letivo, entrevistamos Helenir Schurer, presidente do CPERS Sindicato.

O Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul em Sindicato é o sindicato dos professores do ensino público do Rio Grande do Sul, com sede em Porto Alegre. É filiado à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. Foi fundado em 21 de abril de 1945, com o nome de Centro dos Professores Primários do Estado do Rio Grande do Sul (CPPE). Atualmente reúne mais de oitenta mil filiados. 

Conheça a história desta professora e líder sindical que se entrelaça com a história do CPERS Sindicato, por dela mesma.

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SITE NEIPIES: Quando, como e porque a senhora decidiu ser professora?

PROFESSORA HELENIR: Decidi ser professora desde a terceira série, quando tive uma professora maravilhosa. Foi ali que me encantei com a profissão. Depois a vida seguiu, eu trabalhava na iniciativa privada e um dia resolvi largar tudo e fazer o magistério. A partir dali me apaixonei pela educação e nunca mais saí dela.

SITE NEIPIES: Como a luta por educação pública de qualidade foi se entrelaçando com a sua história profissional?

PROFESSORA HELENIR: Minha vida profissional e a nossa luta pela educação pública de qualidade foram se entrelaçando no fazer pedagógico e na importância que eu senti quando trabalhei, principalmente, alfabetizando, num momento, e no outro, trabalhando com o Supletivo. Na alfabetização, quando as crianças aprendem a ler e na busca de alternativas mais apropriadas para fazer o desenvolvimento das crianças na aprendizagem de maneira mais profunda e no Supletivo quando pude ver a alfabetização política das pessoas. Não consigo entender educação que não seja libertadora e no Supletivo pude perceber isso mais fortemente em minha vida.

SITE NEIPIES: O que mais a desafia e o que mais a realiza como dirigente do CPERS Sindicato, um dos maiores sindicatos de professores da América Latina?

PROFESSORA HELENIR: O que mais me desafia a frente do Sindicato é buscar garantias de conquistas para nossa categoria. Estamos vivendo num segundo governo estadual extremamente neoliberal, onde se busca retirada de direitos e isso nos desafia muito. 

O que mais me realiza é o contato com a categoria, é o diálogo com a categoria e, principalmente, saber que a gente conseguiu nestes 06 anos de direção fazer com que a categoria novamente acreditasse no Sindicato e as grandes mobilizações que fizemos. Isso me realiza enquanto professora e me honra muito estar à frente de um Sindicato, de uma categoria tão guerreira, tão batalhadora e com tanta fibra.

SITE NEIPIES: Qual é a importância do sindicalismo neste momento histórico pelo qual passa o Brasil e o RS?

PROFESSORA HELENIR: Estamos vivendo num momento, no mundo inteiro, de ataques aos direitos dos trabalhadores. Nesta conjuntura, o papel do Sindicato se torna fundamental. Sindicatos continuam sendo uma ferramenta de busca de direitos e de resistência, mais de resistência, atualmente, pelos governos neoliberais que temos tanto no país como no Estado. A importância é essa, de estar ao lado dos seus sócios e dos trabalhadores. Não somente dos sócios, porque o movimento sindical tem de saber que todos os trabalhadores tem de ser motivo para nossa luta. O papel dos sindicatos hoje é essa, não só a luta corporativa, mas também a luta pela democracia.

SITE NEIPIES: O CPERS Sindicato é conhecido por demarcar posições políticas significativas com relação aos governos estaduais. É conhecido pela combatividade e pela mobilização contra os reiterados ataques pelos quais vem passando a categoria no RS. Qual é a diferença neste enfrentamento nos últimos 3 governos (Governos de Tarso Genro, José Ivo Sartori e Eduardo Leite)?

PROFESSORA HELENIR: Olha, tem pessoas que dizem que todos os políticos são iguais e é uma despolitização dizer isso. Porque nós temos diferenças e as pessoas tem de entender que tem projetos diferentes. Tarso Genro tinha um tipo de projeto, um projeto diferente de Sartori e de Leite. Apesar de termos feito muita luta no governo Tarso Genro, é importante ressaltar que não tivemos, em momento nenhum, o fantasma da perda de direitos. Conseguimos avanços importantes, principalmente os reajustes dos nossos salários. No Governo Sartori e Eduardo Leite foram somente perdas. Sartori foi reajuste zero, Leite ainda reajuste zero. São governos que privatizaram e que retiraram direitos fundamentais da nossa categoria, com maioria absoluta na Assembléia Legislativa e que lhes dão e deram sustentação.

SITE NEIPIES: Como a Pandemia marca os professores e professoras da rede estadual de ensino em 2020 e o que ela mostra a toda sociedade gaúcha?

PROFESSORA HELENIR: A pandemia tem todo seu lado triste, das milhares de mortes que infelizmente marcam o nosso país, mas na vida dos professores e professoras da rede estadual, eu tenho pensado muito sobre isso. 

O que a pandemia fez com nossos professores e com toda sociedade gaúcha foi demonstrar, primeiro, uma mudança de discurso. Devemos lembrar que antes da pandemia, o grande discurso era homeschooling, era educação à distância, como se isso fosse a salvação da educação. Com a pandemia, quando estamos vivenciando estas duas questões, acho que escola pública sai muito fortalecida. Hoje temos muito mais reconhecimento dos pais da importância da escola pública, da importância do professor, do que tínhamos antes. Se tem alguma coisa desta pandemia, foi este reconhecimento da profissão docente que estava tão desgastada e desvalorizada e que parece foi agora redescoberta pela sociedade gaúcha.

SITE NEIPIES: Por que a educação é o setor da sociedade mais vulnerável e mais oprimido também nesta Pandemia?

PROFESSORA HELENIR: Na pandemia ficou explicitado o grande apartheid que temos na sociedade. Temos pessoas que conseguiram passar pela pandemia com seus estudos tranquilamente, porque tinham todas as ferramentas disponíveis, mas ao mesmo tempo a gente vivencia crianças que não tem sequer um celular para poder acessar as aulas remotas e outros sequer tem o sinal de internet. As diferenças sociais e abismais que temos no nosso país ficaram muito explícitas durante esta pandemia. Por isso é importante a sociedade se mobilizar para termos um plano para no próximo ano recuperarmos as crianças que ficaram à margem de todo este processo educacional.

SITE NEIPIES: Qual é, ou continua sendo, o maior desafio para tornar a educação pública com qualidade social?

PROFESSORA HELENIR: O grande desafio para tornar a educação pública com qualidade social é investimento, investimento não só financeiro, mas também investimento nas pessoas, investimento na formação dos professores (formação continuada), investimento nas políticas sociais para que as diferenças existentes entre aqueles alunos que vão para escola também para garantir sua alimentação e aqueles outros que tem absolutamente tudo. 

Uma educação de qualidade se faz com investimentos sim nos professores e na formação, mas investimento social para que as famílias que fazem parte da comunidade das escolas públicas deixem de ser esquecidas pelos governos e muitas vezes sejam vistos como párias, como se não fizessem parte da sociedade. Tem que se ter este olhar. Com alunos com fome não há como ter uma escola com qualidade social. Um aluno com preconceitos, ou afastado por preconceitos, também não cabe numa escola de qualidade social. Então, temos muito a caminhar, muito a fazer, sendo que um dos grandes desafios da escola, dos professores, da comunidade escolar, em conjunto com a sociedade.

SITE NEIPIES: Por que, muitas vezes, as ações do CPERS Sindicato parecem estar tão distantes da realidade dos colegas professores e professoras, bem como também da situação das escolas?

PROFESSORA HELENIR: Nestes seis anos, o que mais temos buscado é aproximar esta categoria do Sindicato. O Sindicato estava muito distante. Temos feito muitas, muitas Caravanas, muitas ações de ir para a base com a categoria, muitas ações para trazer os aposentados para próximo do Sindicato. Acho que já conseguimos um bom intento, mas ainda temos de continuar trabalhando para que, cada vez mais, as pessoas se sintam o Sindicato. O Sindicato deixa de ser aquela entidade tão distante onde os sócios não se reconhecem como trabalhadores, como parte do Sindicato.

SITE NEIPIES: O que mais marca a atuação do CPERS neste ano de 2020?

PROFESSORA HELENIR: O que mais marcou a atuação do CPERS este ano foi a RESISTÊNCIA. Sofremos ataques terríveis desde o início do ano com a retirada de direitos. Estamos agora numa pandemia, onde o governo, de forma irresponsável, tenta nos fazer voltar às aulas presenciais mesmo sabendo que as condições sanitárias não estão dadas e nós temos resistido. A categoria tem resistido e isso nos dá muito orgulho. Nossa maior marca deste ano é a Resistência.

SITE NEIPIES: Qual é a expectativa do CPERS Sindicato com a implantação do Novo Ensino Médio?

PROFESSORA HELENIR: A implantação do Novo Ensino Médio é um dos grandes desafios que temos pela frente. No Novo Ensino Médio, o governo vai tentar implantar o EAD, mesmo com todos os problemas que a pandemia já demonstrou com relação a isso. Precisaremos fazer grandes debates com a comunidade escolar para continuarmos resistindo. O Novo Ensino Médio retira dos alunos a possibilidade de conhecimento pleno, portanto não serve e deve ser rechaçado.

SITE NEIPIES: Como motivar professores e professoras que, além de seus salários parcelados, convivem com a desconfiança de parcela da sociedade e a imposição de mais precarização no seu trabalho pelo governo estadual?

PROFESSORA HELENIR:  Os professores e professoras, apesar de tudo que passamos, com salários parcelados, há seis anos sem reajuste, e muitas vezes questionados em seu trabalho, esses professores tem resistido. Sempre digo que nossa categoria tem esta característica de “não vergar a coluna”. A gente sofre ataques e parece que quanto mais batem, mais a gente se fortalece. Mas também é verdade que temos de trabalhar como um todo: aqueles que convivem com o Sindicato, que vivem o Sindicato, a gente percebe que conseguem entender a situação, enquanto outros que estão mais afastados realmente ficam mais fragilizados. Então, neste momento que eu falava que a pandemia ajudou a fortalecer a escola pública aos olhos dos pais, vejo que este é um bom momento para nós nos levantarmos e construirmos juntos com a sociedade e a comunidade escolar resistências contra as precarizações. A gente sabe que este governo tem no seu planejamento fechar escolas, principalmente escolas do campo, e temos de fazer muitas lutas para que este projeto não se concretize.

SITE NEIPIES: Qual é o segredo seu para o entusiasmo e sua liderança perene diante de tantos desafios da realidade educacional no RS?

PROFESSORA HELENIR: O segredo para meu entusiasmo é a grande admiração que eu tenho pela nossa categoria. É uma categoria que vale a pena a gente lutar. Uma categoria que temos de abraçar e, quando a gente abraça, a gente caminha junto. Meu entusiasmo é justamente por isso: nunca me sentir só. A gente sempre construiu a luta e a categoria respondeu, o que me deixa muito feliz e muito orgulhosa. Não tenho orgulho de ser presidente, mas de estar presidente do Sindicato desta categoria, eleita por ela, uma categoria tão grandiosa como a do CPERS Sindicato.

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos leitores deste site, em especial, os professores e professoras estaduais do RS?

PROFESSORA HELENIR: A mensagem que eu gostaria de deixar, primeiro, é pela importância do voto. Temos que começar cada vez mais nos preocupar com eleições, nos preocupar com projetos, estudarmos os projetos, fiscalizarmos as ações de todos os partidos políticos, porque só assim vamos poder detectar quais projetos eles defendem. Por exemplo, uma maior fiscalização da Assembleia Legislativa e do Congresso Nacional. Ver como votam os partidos que atacam e retiram os direitos dos trabalhadores. Quando entendermos isso, perceberemos que estes defendem o projeto do Estado Mínimo, de políticas neoliberais. Enquanto aqueles que nos defendem, que estão juntos e caminham conosco defendem outro projeto. Um projeto de um Estado protetor dos direitos, um Estado com desenvolvimento social, e esses fazem a diferença. 

Neste ano de eleições municipais, deveríamos dar respostas a todos os partidos que nos tiraram direitos, porque votar nestes partidos é fortalecer este projeto. E fortalecer este projeto nos exigirá muito mais lutas, lutas difíceis de serem ganhas em relação às nossas conquistas. Para voltarmos a conquistar, é importante termos esta leitura de projetos que estão em jogo na sociedade. Os projetos que nos defendem são daqueles que sempre votaram a favor de nós. Cada voto tem uma consequência e estamos vivendo estas consequências de votos errados que foram dados para Sartori ou Eduardo Leite e a grande maioria da Assembleia Legislativa onde tem 40 deputados que apoiam estas políticas. 

Um grande abraço!



Fotos: CPERS Sindicato

Longe de mim o “novo normal”!

Precisamos nos contrapor com toda
nossa energia a esta tese do “novo normal”.
Não queremos e não aceitamos a
banalização da morte com naturalidade.


Ainda ouvimos falar do tal do “novo normal” que somente banalizou assassinatos. A burguesia criou esta tese para entorpecer o povo sofrido com a tragédia do genocídio consentido pelo governo criminoso. Tem “intelectual”, tanto da direita, centro, social democracia e esquerda, dando cursos, fazendo palestras, conferências, lives, o diabo a quatro, sobre. Nenhum deles [as] discute que com o genocida e sua corja no poder não voltaremos sequer ao normal.

O normal humanitário antes dos assassinos estarem no poder era a sociedade brasileira se comover e se solidarizar com os 71 familiares que perderam os seus na tragédia da Chape. Com os 19 familiares que perderam os seus na tragédia em Mariana. Com os 270 familiares que perderam os seus na tragédia em Brumadinho. O genocida transformou o normal humanitário em novo normal insensível a assassinatos em larga escala.

Salvo raras exceções, os membros da sociedade brasileira enxergam os assassinatos com os insensíveis olhos do coveiro. Já chegamos a quase 160 mil pessoas vitimadas pelo Covid, maior parte devido ao negacionismo dos assassinos que estão no poder e nem sentimos mais. 

“Afinal, esse seria um “novo normal” para quem? Qual seria o nosso coeficiente de “normalidade”? E qual a régua que mede e distingue o que é “normal” do que é “anormal”, ou, ainda, um “novo normal”? […] A pergunta, mais uma vez, é a seguinte: “novo normal” para quem? […] (Paulo César Carbonari) Leia mais aqui.

Nenhum dos intelectuais orgânicos do sistema que organizam as imaginárias realidades da tese do “novo normal” está acreditando em seus próprios discursos orientadores proferidos. Eles tem ciência que o “novo normal” de seus cursos, palestras, conferências, lives, o diabo a quatro, se materializará somente nas calendas gregas!

Não bastasse o macabro genocídio, deliberadamente cometido pelo presidente e seus criminosos asseclas ministeriais, pipocam, por todos os rincões do país, charlatões que se auto definem com nomes pomposos, a serviço do mundo do capital, cimentando a fórceps na consciência coletiva da sociedade brasileira a macabra tese do “novo normal” que na prática é a materialização da barbárie social. 

Precisamos nos contrapor com toda nossa energia a esta tese do “novo normal”. Não queremos e não aceitamos a banalização da morte com naturalidade. Sigamos rumo ao resgate do normal humanitário.

Vamos recuperar nossa humanidade que está sendo assassinada junto com a tragédia pandêmica. Feito isso, poderemos avançar objetivando transformar a realidade social que estamos inseridos em um mundo economicamente viável, ecologicamente sustentável e socialmente justo. Aí poderemos ser utópicos novamente e defender um novo normal que valorize a vida.

Um bom começo pra construção coletiva deste “novo normal” utópico é, na tragédia da destruição do normal humanitário, se reorientar, ter clareza da conjuntura política e, sobretudo, que os responsáveis pelo elevado número de vidas ceifadas, tem nome e CPF, reorganizar o conjunto da militância, partir pra luta e defenestrar o genocida e aquela horda de criminosos que estão no poder.

Que os intelectuais capachos do sistema opressor, defensores da tese do “novo normal”, peguem a mesma, enrolem bem enroladinho, e…

Fora Bolsonaro!

“Sobre o que é “normal”, e se realmente faz sentido falarmos sobre uma “nova normalidade”, parece mais um desses problemas insolúveis e, como dispomos de pouco tempo (mesmo sem saber se realmente usamos o tempo ou nos usam o tempo todo), não vamos nos deter nessas “especulações” de desocupados improdutivos. Segue a manada, afinal, o “novo normal” exige recuperar o “leite derramado”. O “Novo Normal” é uma Vaca seguindo a manada”. (Sidinei Cruz Sobrinho) Leia mais aqui.

Vacina contra a ignorância

Desconfianças ideológicas,
assentadas apenas sobre a nacionalidade da vacina,
são inoportunas, bem como as disputas políticas internas. 
O que deve prevalecer é a luz da ciência.


A vitória de Bolsonaro foi recebida com justificada  aversão pela inteligência brasileira. Parecia impossível que uma junção do que há de mais deletério em nosso país se reunisse para levar alguém como ele  ao poder.

Mas, como escreveu o jornalista Marcos Coimbra, foi o que aconteceu aqui: juntou-se o pior da população com o pior  do empresariado, da política e da religião, em torno de uma figura  caricata.

Nazistas, supremacistas, terraplanistas, fanáticos, pervertidos, militaristas, adoradores de armas saíram do armário, levando  de  roldão  alguns  incautos.

O resultado é o que temos assistido nestes  últimos meses:  o que  era indigno  tornou-se  repugnante.  As atitudes de um político medíocre  começaram junto  com o governo, quando o presidente, recém eleito, comentou  que um de seus  filhos  poderia  ser o embaixador  em Washington. A partir de   então, os vexames multiplicaram-se.

A última estultice de Bolsonaro foi o cancelamento de forma impulsiva da compra da vacina chinesa para a covid-19, que ecoa  a irracionalidade de quem ocupa  a presidência.

O argumento foi de que a China é uma ditadura. Esquece Bolsonaro que nos primeiros nove meses  do ano, o Brasil vendeu  aos chineses  53,4 bilhões de  dólares  em produtos  nacionais, obtendo um ganho  de  29, 1 bilhões  no comércio com os chineses.  Aí não é ditadura?

A decisão, na verdade, evidencia o desprezo à vida dos brasileiros.  A preocupação de Bolsonaro resume-se na reeleição já que a decisão foi tomada diante da possibilidade de beneficiar João Dória. Assim, irresponsavelmente, Bolsonaro queimou a esperança de  compra de uma  das  vacinas mais  promissoras nos testes.

Desconfianças ideológicas, assentadas apenas sobre a nacionalidade da vacina, são inoportunas, bem como as disputas políticas internas.  O que deve prevalecer é a luz da ciência.

O governo enfatiza também que a imunização  contra  a Covid-19 não  será obrigatória.  Aí surge a questão do princípio do dano, defendido por   John Stuart Mill.  Isto é, se eu não me vacino estarei prejudicando  os  demais.

Em 1904, ocorreu entre nós a Revolta  da Vacina, durante o governo de Rodrigues Alves. A população, diante da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, provocou uma grande rebelião no Rio de Janeiro que acabou em grande violência. No final, a obrigatoriedade prevaleceu.  Vamos ter a repetição do  que houve no século  passado, agora  como farsa?

Diante dos vexames, estultices, da irracionalidade de um presidente que  se mostra um verdadeiro lunático, creio que precisamos urgentemente  de uma vacina  contra a ignorância.

Em 09/05/2020 já escrevíamos sobre como era previsível a situação da pandemia no Brasil com o governo Bolsonaro. Como pedir a uma parcela de 35 milhões de brasileiros que não têm água potável nem sequer  para lavar  as mãos  que se proteja do vírus? Como exigir que 13 milhões que vivem abaixo da extrema pobreza que mantenham padrões de higiene para se prevenir do covid-19? Beira ao deboche. Fica claro quem morrerá: poucos ricos e muitos pobres. E daí, dirá o presidente, cuja política econômica é voltada para os interesses da elite. Leia mais aqui.

A fábrica de embuste

Há uma sequência de propostas bisonhas
intercaladas ao longo do tempo no Governo Bolsonaro
que criaram cortinas de fumaça quando surgem
problemas mais graves no país.


As políticas que se fortaleceram como dever de estado, ao longo dos anos, sofrem estranhos abalos. A forma de ataque a conquistas populares é atropelar tudo com aguilhões de falso comando, como se o povo fosse uma tropa animal, sem dono. Estamos tentando interpretar o modelo insinuante adotado pela gestão federal bolsonarista, visando consolidar medidas administrativas tipo “passar e boiada”.

Alguns súditos são escalados no governo para aplicarem o método de admissibilidade de medidas nitidamente esdrúxulas. Ao presidente é reservado o momento de confirmar, se não houver reação contrária. As tentativas de contrariar o bom senso decorrem periodicamente.

No começo, foi o próprio presidente que se arvorou julgador implacável do papel da imprensa. Saiu chutando o balde tentando impor autoridade de julgador absoluto contra jornalistas que faziam perguntas que julgava intoleráveis. Foram episódios de grosseria, mirados na truculência de Trump, ofendendo o ritual dito liturgia palaciana. Pergunta questionadora era logo fulminada com resposta ou gesto ríspido, aplaudido pelo coreto selecionado previamente de adeptos.

Bolsonaro passou a julgar veículos de comunicação e repórteres visando emplacar estilo de julgador sumário. Depois vieram ministros e assessores dizendo coisas estranhas ao pensamento democrático. Os mais tóxicos, que não resistiram. O propósito era consolidar o dueto “Bolsonaro e Deus”, que foi logo mostrando o lado perverso da modalidade tentada. E se Deus cochilasse ficaria em segundo lugar.

Agora veio a ideia de desmontar o SUS e privatizá-lo. O decreto presidencial foi abortado diante da escancarada temeridade perante a mais concreta organização de estado, o SUS.

O ministro da Fazenda já acenou com a sugestão de formar recursos para o programa Bolsa Família, ou coisa parecida, mediante suspensão de atualização aos rendimentos dos aposentados. Bolsonaro sabia que isso seria dito. Preferiu esperar a repercussão que repeliu a ideia. Então pronunciou-se como quem fora pego de surpresa e disse que não tocaria na renda dos aposentados. Apareceu como o salvador da pátria. Jogada de marketing.

Houve a sequência de propostas bisonhas intercaladas ao longo do tempo que criaram cortinas de fumaça quando surgem problemas mais graves no país. Atualmente, o plantão de asneiras é mantido pelo ministro do Meio Ambiente que claramente desdenha ideais preservacionistas e defende desmatamento. A perspicácia do vice-presidente Mourão consertou em parte o que seria catástrofe ambiental com as queimadas na Amazônia.

Ricardo Sales ocupou-se em criar narrativas absurdas sobre as causas dos sinistros. Assim foi no derramamento de petróleo que danificou nossas águas, e nos incêndios das matas. O ataque foi generalizado às ONGs, à esquerda, aos comunistas, enfim, em formas provocantes e solertes. No mesmo rumo, a propositada omissão diante da escancarada realidade que exige investigação e ação governamental. Leia mais.

Neste momento, o pódio da inconsequência democrática é ostentação para o líder governista Ricardo Barros, que propõe uma nova constituinte. Em sua argumentação alega o direito a pegar carona na luta chilena, ainda sob uma constituição emanada no governo ditatorial de Pinochet. Infeliz comparação.

O Brasil consagrou sua Carta Magna em 88 e vem mantendo este pacto legal, com muita luta. Foi a mais concreta obra democrática para redimir-se dos horrores da ditadura de 64.

O líder governista apresenta seus motivos de desconstituição, apregoando uma nova constituinte, num momento de enorme crise nacional, que não oferece serenidade sequer para discutir a possibilidade de uma nova Constituição. Diz que é preciso reduzir direitos e criar deveres. São meras palavras sem lógica e sem essência, que mais se assemelham ao embuste ideológico.

Um comprimido por dia

Em caso de infelicidade,
tome fluoxetina ou similares.


Vivemos em um mundo obcecado pelo trabalho, no qual o ócio é visto como um inimigo a ser combatido. Deve-se ter vergonha do prazer e da inércia. O simples e tão espontâneo ato de não fazer nada se transforma em motivo de escândalo. Devemos não apenas negar, mas também esconder nossos mais primitivos desejos, mesmo quando eles não fazem mal algum.

A verdadeira ofensa de nosso tempo é não ser “produtivo”, não colaborar, entusiasticamente, com o sistema.

Valorizamos a vontade, o esforço, a energia — tudo que é relacionado ao poder. Para nós, poder e vida são análogos. É preciso ser sempre o melhor, o mais alto, o mais forte, o mais rápido. Se fôssemos deuses, ainda assim não estaríamos contentes.

Em meio a esse jogo fanático, esquecemos os dois principais objetivos existentes por trás de todos os outros: o prazer e a felicidade.

Colocamos um preço — alto! — no amor e em todos os seus derivados. Vendemos a vida a prestações e damos a isso o nome de trabalho. Acreditamo-nos livres, mas, quase todos os dias, somos obrigados a realizar tarefas com as quais não concordamos ou das quais não gostamos.

Somos animais de circo, obrigados não apenas a trabalhar para o divertimento do público, mas a também fingir amor pelo cativeiro. Não se deve criticar, pensar, ver de um modo diferente. É preciso fazer de tudo para não ser “subversivo”.

Ouça as mesmas músicas. Sorria das mesmas coisas. Finja estar contente em seu trabalho. Vista a camisa. Não se queixe e não critique. Sorria. Seja útil. Um imbecil útil, obcecado por uma ilusão de sucesso, hipnotizado por frases de livros de autoajuda.

Em caso de infelicidade, tome fluoxetina ou similares.



Publicado, originalmente, no blog do autor.

Leonardo Boff e Marcelo Barros lançam interessantes livros

​

LEONARDO BOFF

Acaba de ser lançado pela Editora Vozes de Petrópolis o meu livro: “O Covid-19: um contra-ataque da Terra contra a Humanidade”. Trata-se de uma reflexão sobre o significado da irrupção do coronavírus e quais lições devemos tirar dele. Em primeiro lugar procuro contextualizar o Covid-19. Ele não pode ser visto isoladamente nem ser abordado apenas pela medicina, pela técnica, pelo conjunto dos insumos e pela busca desenfreada de uma vacina eficaz.


Ele não irrompeu aleatoriamente. Ele só pode ser adequadamente entendido a partir da sistemática exploração e devastação que as sociedades humanas levaram a efeito nos últimos três séculos contra a natureza e a Mãe Terra. Esta é, segundo um dado científico contemporâneo, é um Super Ente vivo que, de forma sistêmica, organiza todos os elementos e fatores, químicos, físicos, informacionais e energéticos, numa palavra, ecológicos para continuar viva, auto-reproduzir-se como viva e gerar a diversidade de vidas sobre seu solo.

Ora, esse processo natural foi profundamente afetado com a intrusão dos sistemas produtivos de exploração e de produção, visando mais e mais vantagens materiais para os seres humanas. Especialmente ganhou forma, hoje mundializada, pelo modo de produção capitalista. Este trata a Terra de forma meramente utilitarista, sem nenhum respeito a seu valor intrínseco, apenas como uma espécie de baú cheio de recursos (bens e serviços, bondades na linguagem do andinos) à disposição do ser humano. Essa intrusão foi tão violenta e crescente que encostamos nos limites da Mãe Terra.

Como todo organismo vivo que ela é, sente os golpes e começa a se defender. Envia-nos sinais que devem ser interpretados: o aquecimento global, a erosão da biodiversidade, a escassez de água potável, a desertificação  crescente. E já há anos enviou-nos uma gama de vírus, como a zika, o ebola, a chicungunha, os vários tipos do vírus SARS. O Coronavírus é uma derivação do SARS. Pela primeira vez na história, este vírus afetou todo o planeta. E no planeta apenas os seres humanos, não nossos cães e gatos e outros animais domésticos ou da natureza. O Covid-19 está dizimando duramente vidas humanas, passando já de um milhão e no Brasil mais de 140 mil vítimas.

Atrás destes números se esconde uma via-sacra de sofrimento de milhões de pessoas, maridos, esposas, filhos, filhas, parentes, amigos e conhecidos. Somos atualmente uma humanidade crucificada. E devemos baixá-la da cruz e ressuscitá-la.

O livro mostra que se tivéssemos seguido os mantras do sistema dominante, o industrialista devastador: o lucro, a competição, o individualismo, a primazia do mercado, a diminuição do Estado e a completa falta de cuidado das vidas humanas e da natureza, estaríamos agora sob um grande risco acerca de nosso futuro comum. O que nos está salvando são os valores e princípios ausentes no sistema de produção e de cultura que criou: a centralidade da vida em vez do lucro, a solidariedade em vez da competição, a interdependência de todos em vez do individualismo, o cuidado de uns e de  outros, da natureza e da Mãe Terra em vez da exploração,  o Estado adequadamente abastecido para atender demandas humanas e emergências e não  o mercado puro e simples com sua ferocidade.

O livro aborda estas questões e procura enfatizar o significado do confinamento social e da distância de conglomerações. Seria uma espécie de retiro existencial para perguntarmo-nos: afinal o que conta, a vida ou o lucro, a economia ou a salvaguarda da biodiversidade? Nas resposta a estas questões se oculta a exigência de uma mudança de rumo, a inauguração de uma outro paradigma, vale dizer, de um outro modo de habitar a Casa Comum, amigo da vida, cheio de respeito, de solidariedade e de cuidado.

O pior que nos poderia acontecer, seria voltar ao que era antes e reproduzir a taxa de altíssima iniquidade social e ecológica, exatamente esta que ocasionou um contra-ataque da Mãe Terra contra a humanidade. Ou mudamos ou vamos encontro do pior e eventualmente de vírus ainda mais letais que dizimariam profundamente a espécie humana.

O livro será continuado por outro: “As dores do parto da Mãe Terra: as perspectives de um outro tipo de humanidade” a sair pelo final do ano.

Não anunciamos otimismo mas esperança, aquele motor interno a cada pessoa e aos processos sociais e vitais que nos dá coragem para enfrentar crises e emergências planetárias e encontrar saídas salvadoras.

Animam-nos as palavras da Revelação que nos dizem: “Deus criou todas as coisas com amor…pois Ele é o apaixonado amante da vida”. (Sabedoria 11,26). Um Deus assim apaixonado não permitirá que nossa vida humana, já assumida pelo Verbo e pelo Espírito Santo, tenham um fim trágico. Vamos dar um salto para cima e vamos levar avante o nosso penoso e criativo processo civilizatório e vamos ainda brilhar.


MARCELO BARROS

Heloísa Périssé conversa com os autores Henrique Vieira e Marcelo Barros sobre “O monge e o pastor”, que acaba de chegar às livrarias pela editora Objetiva.

No livro, um monge beneditino e um pastor evangélico trocam mensagens durante a quarentena abordando temas como espiritualidade, fé, engajamento político e o medo da morte. Deste fraterno diálogo surgem preciosas reflexões que apontam caminhos para um futuro mais solidário.

Acesse o link para ter acesso ao debate com os autores: ​

Mortes prematuras de jovens abortam sonhos

O tempo da escola é um tempo singular,
justamente pela semeadura dos sonhos e
pela mistura das expectativas juvenis
de um mundo melhor.


Uma triste coincidência deixa em luto uma das maiores escolas de Ensino Médio na cidade de Passo Fundo: o Instituto Estadual Cecy Leite Costa. Em menos de uma semana, 04 jovens morrem, de forma trágica e inesperada, e marcam a todos por sua passagem em razão de suas trajetórias únicas neste educandário. Seus nomes são: Emily, Guilherme, Nicoli e Marco.

A morte de alguém deixa vazios e resgata as mais singelas e importantes lembranças, mesmo que sejam breves. Neste momento, resgatamos as histórias e as trajetórias destes estudantes com os quais compartilhamos dois ou três anos de intensa convivência, seja como colegas ou como professores ou professoras.

Diga-se, de forma oportuna, que a escola é sempre o lugar das memórias mais ricas na vida da gente pela convivência saudável e organizada entre os jovens, tutelados pelos adultos, seus professores e professoras. O tempo da escola é um tempo singular, justamente pela semeadura dos sonhos e pela mistura das expectativas juvenis de um mundo melhor.

Todo o jovem tem este intrínseco desejo de mudança do mundo, o que, às vezes, rotulamos, indevidamente, teimosia, birra ou aborrescência. Na verdade, a rebeldia é a base da transformação do mundo, historicamente impulsionada pelas novas gerações.

A ausência da presença física destes queridos estudantes remete agora para necessárias reflexões em torno do sentido da vida que todos precisamos construir para que as suas e a nossa passagem não sejam em vão. Fazer a memória dos entes queridos é olhar para a história deles e “pinçar” ensinamentos e lições para que continuemos vivendo melhores, aproveitando tudo de bom que a vida pode nos dar.

Coincidência é que estes quatro jovens saíram para se divertir e, no meio do caminho, perderam suas vidas. Fizeram como o fazem milhares de outros, em busca de diversão e alegria, mesmo em tempos que ainda o bom senso cobra cuidados com aglomerações, em função da pandemia. Quiseram tão somente a alegria e a diversão, justamente porque estas promovem a vida mais intensamente.

Estes tristes fatos que chocaram a comunidade escolar do Instituto Estadual Cecy Leite Costa, alertam a todos e todas que a vida, nosso maior e precioso dom, deve sempre ser cuidada, protegida e preservada, na tentativa de minimizar os riscos que atentam contra ela. Afinal, morrer jovem é abortar os sonhos mais precoces.  Apontam como é triste para pais e mães, professores e professoras enterrarem jovens estudantes, pois estes são como uma extensão da vida da gente. Professores e professoras vivem os sonhos com os estudantes, projetam-se também na vida deles.

Quero homenagear a juventude e fazer memória dos jovens que, precocemente, deixaram de sonhar o seu e o nosso mundo, através de uma citação do poeta e músico Gonzaguinha e através de uma breve reflexão sobre as características da juventude, quase sempre incompreendida na sociedade.

“Eu acredito é na rapaziada/ Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada/
Que não foge da fera e enfrenta o leão”. (Gonzaguinha)

“Ao longo dos tempos, os jovens resistem e mantêm acesa a ideia de mudar o mundo. Desejam, profundamente, que ideais e mundo sejam uma nota só. Seus sonhos projetam ideias em teimosia.

Os jovens sempre gostaram de desafiar os adultos, embora nunca tenham dispensado o apoio sincero e franco, a escuta compreensiva e a orientação bem intencionada dos mais velhos. O inconformismo que caracteriza os jovens é a força renovadora que move o mundo, mas também algo que incomoda os já acomodados.

Acomodados, despreparados ou desconhecendo a realidade do universo juvenil, muitos desqualificam a juventude, vendo-a como um incômodo ou como uma fase de passageira rebeldia. Ao invés de emancipar, desejam controlar, dominar, moralizar.

A rebeldia é o sinal de que a juventude continua sadia, cumprindo com o seu papel de provocadora de mudanças. A rebeldia, aos olhos da filosofia, é atitude de quem quer ser sujeito de sua história, não seu coadjuvante. A filosofia, como o inconformismo, motiva cada um na busca de seus próprios caminhos. Se os jovens mantiverem senso de direção, terão o poder de mover mundos.

O fato é que os jovens de hoje vivem o seu tempo a partir de suas percepções, vivências e leituras. Seremos capazes de compreendê-los em nosso momento histórico? Teremos disposição para o diálogo e a escuta, buscando entender os desejos, sonhos, medos e angústias que os movem?”

Lições da Bolívia para a esquerda depressiva

O esquerdista descalibrado,
consumido pela depressão pós-golpe,
não é apenas um chato,
é um dos candidatos a imbecil do século 21.


Uma certa esquerda depressiva brasileira não acreditava na possibilidade de vitória de Luis Arce na Bolívia. Alguns continuam não acreditando.

O Movimento ao Socialismo venceu na Bolívia porque resistiu desde a deflagração do golpe de novembro do ano passado. E não deu ouvidos aos que, ao invés de irem à luta, também lá devem ter feito profundas reflexões sobre o fim da democracia.

A direita mundial conseguiu aperfeiçoar os mecanismos de apropriação da democracia. Desde o processo de representação, até o uso de mordaças nas instituições, quando não do aparelhamento explícito do Estado. E se apoderou de parte das mentes das esquerdas.

O fascismo se deu conta de que não precisa de controles absolutos, pela força, para impor suas vontades. O Brasil é um exemplo.

Mas às vezes os controles falham. E só vacilam porque encontram resistência dentro do próprio jogo da democracia que parte da esquerda subestima.

Na Bolívia, a direita imaginou que o golpe abriria caminho para mais um período de exceção, até que alguém da própria turma alertou: é possível tomar conta de tudo, como a ditadura fez entre 1964 e 1982, e pelo voto.

A direita boliviana achou que manteria o poder numa eleição. Acabou sendo atropelada pelo ritmo imposto pela resistência, que exigiu eleições logo, e perdeu a gestão da crise que havia criado.

A esquerda boliviana venceu a eleição porque tem uma base de insubordinação que não temos. Aqui, nós tombamos resignados com o golpe de agosto de 2016.

Ensaios de reação nas ruas ocorreram por conta das exceções de alguns bravos. O Brasil submergiu ao golpe, ao lavajatismo e, mais tarde, ao bolsonarismo.

O Congresso, com o Supremo e com tudo, se submete aos conchavos e desatinos de Bolsonaro porque não há vozes suficientes para contrariá-lo. O Congresso controlado, mais do que o governo, é a expressão dos feitos perversos do golpe.

Bolsonaro militarizou o governo, blefou com o golpe, recuou, passou a andar de braços dados com os que ameaçava e assumiu com o centrão o controle de quase tudo.

O mais inseguro (porque protegido pelos militares) dos governantes eleitos segue adiante. O mais atrapalhado, o mais incompetente, o mais ressentido é fortalecido pela própria incapacidade de reação.

E aí entra a contribuição dos depressivos. Não são os profissionais da política. São a claque amadora, de soturnas vozes envelhecidas. A mesma que duvidava da soltura de Lula e da sua sobrevivência política.

Eles estão nas redes sociais com o mesmo ímpeto da direita. Mas a direita empurra os seus para cima, e a esquerda depressiva empurra os dela para baixo.

Essa esquerda ataca até candidatos da própria esquerda às prefeituras. Só para parecer inteligente e antenada.

O esquerdista descalibrado, consumido pela depressão pós-golpe, não é apenas um chato, é um dos candidatos a imbecil do século 21.



*Publicado em 23/10/2020, no Blog do Moisés Mendes.

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