A eleição municipal não deu muita chance aos imitadores de Bolsonaro. O truque da alma bolsonarista não funcionou mais.
Nunca antes o Brasil elegeu tantos picaretas quanto em 2018. Antes de serem fascistas, racistas, homofóbicos e ultraconservadores, eles são pilantras. Lula certa vez contou 300 picaretas no Congresso. Hoje devem ser mais, todos eleitos em 2018 em nome de algum apelo moralizante.
Os picaretas prometeram caçar bandidos, enquadrar corruptos e realizar exorcismos. Nada de novo. O Brasil sempre elegeu gente com arma, Bíblia ou relho na mão. Mas desta vez muitos nem sabiam fingir que sabiam fazer o que estavam prometendo. Nem a atirar, nem a exorcizar e nem a surrar com relhaços.
São apenas picaretas. São pilantras que pegaram carona no embalo de Bolsonaro e produziram o que certos cientistas passaram a chamar de ciclo bolsonarista.
Não há ciclo nenhum, ao contrário do que disse há poucos dias Rodrigo Maia. O presidente da Câmara, faceiro com os ventos que empurraram a sua direita fofa para prefeituras e Câmaras, acha que o ciclo que elegeu Bolsonaro está esgotado.
O que se esgotou foi o fenômeno circunstancial que produziu uma extrema direita capaz de obter votos na cacunda de Bolsonaro. Mas isso não é ciclo nenhum.
Não há ciclo político que se encerre em apenas dois anos, nem em grêmio estudantil. Não há nenhum fenômeno de massa que possa ter sido atribuído ao que se chama de bolsonarismo.
O que pode ter chegado ao fim, com o fracasso de Bolsonaro e dos candidatos de extrema direita na eleição municipal, é o espaço para a ostentação de ignorâncias, mais do que para ideologias. Os enganadores, que se elegeram com facilidade em 2018, já não funcionam mais nem como cacarecos. Bateu a exaustão.
Antes dos picaretas de extrema direita de Bolsonaro, a desinformação, o medo e a manipulação se misturavam a outras formas de dominação pela ação de coronéis, de donos de pequenos currais e de especialistas em criar ilusões moralistas. Eram os picaretas paroquiais do tempo de Lula.
O novo picareta da eleição de 2018 sentiu que havia um caminho aberto por Bolsonaro para que se transformassem em figuras nacionais. Muitos se elegeram governadores (alguns com adesão encabulada), senadores e deputados.
A eleição municipal não deu muita chance aos imitadores de Bolsonaro. O truque da alma bolsonarista não funcionou mais. Mas há um cenário preocupante para 2022, em meio à eleição de mulheres e negras de esquerda.
É a possibilidade de ampliação do espaço do que seria o centro de Rodrigo Maia, com a ressurreição do espírito do PFL. A estratégia deles já havia funcionado com algum sucesso em 2018, foi aperfeiçoada em 2020 e deve vir com força em 2022.
Se as esquerdas não souberem reagir, os governos e o Congresso serão transformados em latifúndios dessa gente, que tem o suporte financeiro de milionários e famosos. Sai o picareta criado por Bolsonaro e vem aí a multiplicação de figuras tipo Tabata Amaral.
Desde crianças aprendemos o poder revolucionário do cuidado. Ao ouvirmos o termo cuidado, paramos, repensamos, voltamos atrás, evitamos ir ou, dependendo da situação, saímos em disparada. Ele nos alerta sobre a importância e/ou necessidade de mudar de atitude.
A expressão cuidado é polissêmica, ou seja, carregada de variados significados. Se, por um lado, nos indica um quadro de risco ou perigo, por outro pode retratar práticas e comportamentos de zelo consigo, com os outros e com o meio ambiente no qual nos inserimos.
Eis que de repente, não mais que de repente, um vírus oriundo provavelmente do morcego chega e nos diz: ‘Atenção galera mundial, estou aqui’. E agora, José, Maria, fulano, beltrano e sicrano? O que fazer de modo urgente e amplamente eficiente? O vírus responde: ‘Se não forem prudentes e não usarem os cuidados necessários, faremos uma boa parceria!’ Diálogo inusitado e incômodo que nos obriga a pensar no modo de vida que a sociedade capitalista, consumista, individualista, insensível, odiosa, intoleranteeinsustentável adotou.
Chegamos assim a esta situação limite e a outros limites. O PlanetaTerra está a cada ano entrando mais cedo em déficit com sua capacidade de suportabilidade por conta das interferências humanas. De acordo com a Global Footprint Network, em 2019 o planeta atingiu o esgotamento de recursos naturais que poderiam ser renovados sem custo ao ambiente mais cedo da história, ou seja, em 29 de julho. Em situações limites – sejam pessoais, coletivas ou planetárias (como é o caso) – percebemos quão frágil é nossa vida.
Vemos agora com mais clareza o quanto dependemos uns dos outros e como “tudo está interligado como se fossemos um”!
Enquanto estamos confinados em nossas casas pela ditadura virulenta, temos a oportunidade de refletir sobre o rumo da história humana. A propósito, por esses dias alguém pôs em circulação nas redes sociais uma declaração emblemática: “O mundo ficou doente por causa da baixa humanidade”.
Dias depois um morador em situação de rua no Reino Unido ilustrou a afirmação: “Esse vírus não me preocupa porque ninguém precisa de mim mesmo”. Sociedade, a nossa, que adoeceu também pela sua baixa sustentabilidade.
Agora, além das medidas rigorosas no sentido de cuidar da saúde pessoal e coletiva, é hora de pensar concretamente maneiras de criar um mundo novo, possível e necessário. Isso significa: novas relações sociais, outro sistema econômico, outra forma de produzir, de consumir e de tratar os resíduos. Outra maneira de ver a vida, o meio ambiente e nossa relação com o transcendente. Enfim, fazer “novas todas as coisas”, tal como Joãoouviu do eterno e proferiu no Apocalipse(Ap 21, 5).
Novas relaçõessociais baseadas no respeito ao diferente, na tolerância, no amor ao próximo, na valorização do ser, do saber e do fazer dos outros. Novo sistema econômico, baseado na solidariedade, na justiça distributiva, na equidade, na diminuição das extremas desigualdades de renda e riqueza, no fortalecimento das estruturas de promoção e cuidado da saúde. Nova forma de produzir, com base na agroecologia, na agricultura familiar, orgânica, sintrópica e biodiversa. Nova forma de consumir, evitando o consumismo e priorizando a segurança e a soberania alimentar, etc.
O recado que o vírus nos traz aponta para a necessidade de cuidarmos da CasaComum assim como estamos sendo orientados e obrigados a cuidar (limpar) a nossa própria morada. Porém, não podemos esquecer que muitos não têm casa, nem água, nem cama, nem comida, e até vivem dos/nos lixões. Seres também constituídos de dignidade, mas sem os direitos fundamentais garantidos. Contra esses excluídos, alguns seguem achando que eles não têm direitos porque não os merecem. Todavia, essa forma de pensar não ajuda em nada a mudar a situação da Casa Comum e de seus habitantes.
Associo-me a Eduardo Galeano, que defendeu o direito ao delírio, em texto publicado por ele com esse título na virada do milênio. Entre outros belos delírios/desejos, afirma: “O mundo já não se encontrará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza… e cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro”.
Tal como o sonho não pode ignorar a realidade, não podemos deixar de aprender com as lições extremamente duras e doloridas trazidas pelo coronavírus. É hora de mudar. Depois poderá ser tarde demais. Adiante, pois, com o cuidado coletivo. Ele é revolucionário!
“Desconhecemos sua realidade e não queremos mexer na raiz dos nossos problemas: a nossa forma de organizar o mundo. É muito forte entre a gente a ideia de que pobres são coitados, por isso desprovidos de sorte e de bens. Se não lutam, são preguiçosos. Se lutam e exigem mudanças tornam-se perigosos. Mesmo quando passam fome, insistimos em dizer que eles ainda deveriam ser capazes de sonhar”. (Nei Alberto Pies) Veja mais aqui.
Nenhum argumento justifica a violência, pois ela inviabiliza qualquer possibilidade de reavaliação dos rumos escolhidos. A guerra me causa indignação. A paz me apaixona.
Sou daqueles que acreditam que são as forças opostas que impulsionam a roda d’água do universo. Para mim, continuar vivo é manter verde a árvore do apaixonar-se e ter sempre uma brasa de indignação faiscando. Em outras palavras, cultivar o amor e a repulsa, para não usar a palavra ódio, forte demais para nosso imaginário.
Quem não se apaixona nem sente indignação está morto, ou é medíocre, que é uma forma de estar morto sem passar pelos ritos necessários. O medíocre, fingindo conformidade com o curso das coisas, engana a si mesmo e aos outros. É fácil descobri-lo. É aquela pessoa que, mesmo ante a guerra, proclama o inconsistente mote “faz parte”. Como se fôssemos condenados a um destino inexorável, ditado por algum exótico poder a-histórico.
Além do medíocre, existe também outro tipo de morto-vivo. Chamarei de alienado. É aquele que, embora tenha paixão e indignação, é por causa ou personagem alheios, tomados como seus por falta de coragem, ou para comungar da aparente grandeza dos arautos. O tipo alienado sustenta seu discurso no discurso dos outros.
“Você viu o que o fulano falou?”; “A Revista X defende…”; “A moça do telejornal anunciou…”. Como se o nome de alguém ou de algo, por si só, avalizasse verdades absolutas para todos os cérebros.
Pergunte a alguém sua opinião sobre a violência. Será muito fácil distinguir as pessoas vivas. Há muitas por aí apaixonadas e outras tantas indignadas. Há, também, as medíocres, embora em menor número. A violência é uma situação-limite. Nela, o amor e a indignação podem ser admirados na transparência de suas contraditórias forças.
Na guerra, a vida é a juíza da história, pois fundadora de todas as escolhas, condição sine qua non para todo argumento. Sob seu olhar, como quando ingerimos um líquido contrastivo para radiografias viscerais, podemos enxergar as pessoas de grandes causas e diferenciá-las das medíocres e das alienadas.
Nenhum argumento justifica a violência, pois ela inviabiliza qualquer possibilidade de reavaliação dos rumos escolhidos. A guerra me causa indignação. A paz me apaixona.
Não digam que fiz uma opção por algum povo, por alguma personagem ou por um sistema político-econômico.
Minha declaração também não é mostra de altruísmo nem de grandeza de espírito. Sou é muito egoísta. Só estou defendendo aqui minha vida, com ideias, unhas e dentes, sendo “unhas e dentes” apenas força de expressão.
Quero amanhã de manhã, e nas manhãs que se seguirem, poder estar vivo para apaixonar-me pelas estrelas e indignar-me com as péssimas músicas que fazem sucesso, coisas triviais. Como sei que vou morrer de qualquer jeito, pretendo que seja por causa natural. Causa natural eu chamo aquela que nos incendeia em profunda indignação, contra a qual não há nada a ser feito pelos seres humanos. O que não é, absolutamente, o caso da violência, ou da guerra, sua forma mais infame.
Há urgência em tomarmos atitudes eficazes no combate e na denúncia de qualquer forma de preconceito, sobretudo essa forma que mata negros, de modo banal, como se descartam coisas inúteis.
“Me ajuda, Milena”, foi a última vez que a mulher ouviu a voz suplicante do marido, massacrado no mercado Carrefour, aqui em Porto Alegre. Ontem, dia 19 de novembro de 2020, ao ir às compras, por algum desentendimento, João Alberto foi dominado, espancado e morto, no estacionamento do mercado.
A razão furiosa dos seguranças demonstrou o preconceito, o racismo, a intolerância e a discriminação presentes nessas mentalidades, a serviço da razão branca, dominadora. As lágrimas silenciosas que corriam pela face da mulher nos tocam como sensibilidade e como senso de justiça. Chega desse aparato de igualdade e liberdade para todos.
Temos que fazer cessar o ódio e o racismo, que já sabemos estrutural. Não precisamos mais de explicações de especialistas, nem de estatísticas que mostram os números das desigualdades racial e econômica. Precisamos acabar com as mortes pela decisão dos que se acham superiores, por serem brancos e ricos, ou a serviço deles.
Há urgência em tomarmos atitudes eficazes no combate e na denúncia de qualquer forma de preconceito, sobretudo essa forma que mata negros, de modo banal, como se descartam coisas inúteis.
Esse Brasil de todos nós, mais uma vez vai à cena pública como retrato de vergonha e de discriminação racial. Um país multirracial, caminha perdido em seus rancores, facilitando as ações violentas, estimuladas pelos discursos de ódio e de exclusão.
Ao ouvirmos expressões de que negros são preguiçosos ou medidos em arroubas, temos a exata dimensão de uma razão discriminatória, abusiva, covarde e cruel, própria de inteligências medíocres e opressoras.
As empresas, preocupadas com seu patrimônio, contratam seus guardas e seguranças e os orientam para estarem atentos a qualquer atitude suspeita.
Quem desperta maior cuidado, ao entrar em qualquer estabelecimento comercial? O negro ou o branco? Já sabemos a resposta, porque temos consciência de que a sociedade branca quer garantir sua supremacia e evitar os possíveis prejuízos, que os negros possam produzir. Então, os brancos podem ir às compras e voltarem sossegados para suas casas. Já os negros precisam tomar cuidado, para não despertarem a atenção dos guardas, a serviço de seus senhores. Esse cuidado deve estar nas roupas, nos gestos e até mesmo nas falas, pois, do contrário serão seguidos pelos que vigiam o patrimônio e a ordem.
E assim foi ontem no interior do Carrefour. João Alberto foi retirado do interior do mercado e arrastado para o massacre. A barbárie foi filmada e noticiada. Não há dúvidas, a intenção foi de extermínio. Afinal, era mais um negro perturbando a ordem e o patrimônio. As vozes que pediam para cessarem as agressões, não foram ouvidas.
Os seguranças estavam envolvidos no rito da morte. Precisavam mostrar eficiência. O pedido de ajuda, feito à sua mulher não pode ser atendido. Ela nem conseguiu chegar junto a seu corpo, preso pelas mãos ferozes dos seguranças, que já haviam decretado o fim de sua vida. Ele não deveria viver. A morte lhe fora destinada pela vontade da razão branca.
Milena e João Alberto não voltaram juntos para casa, como pretendiam. Ficou um corpo no estacionamento, expressão de uma razão covarde, fruto de um poder vil, discriminatório, bárbaro. E essa cena de morte foi na véspera do Dia da Consciência Negra.
Lobos em peles de cordeiro humilham o conceito de solidariedade. Não estranhem estranhamente o estranhamento estranho desses tempos de caos…
Adoro quando as brancas cidadãs contribuintes para o belo quadro social deixam seu mínimo lado humano sair da redoma e entram em ação em meio ao conturbado momento por que passamos.
Reunidas em casas confortáveis e luxuosas, as mais ricas repartem o seu patrimônio de forma exemplar. Recolhem ao maior dos cômodos vários donativos para entregar aos mais carentes, incluindo entulhos que transbordam de seus armários, brinquedos quebrados ou descartados por suas “doces crianças” e roupas rotas que já não cabem em seus maridos a cada ano mais física e pecuniariamente avantajados que em anos anteriores.
Ocorre que, no instante tanto e no novo sendo, os menos favorecidos encaram um problema ainda maior que sempre muito, a fome! Quando as mais ricas brancas cidadãs entram em ação para resolver este problema, aí é que eu mais as adoro. Munidas de selecionadas sobras alimentares altamente proteicas e fresquinhas de só dois dias atrás, organizam cuidadosas e teatrais entregas para sanar a fome dos desfavorecidos.
Gosto que recebam estas coisas, mas algo não me faz gostar de quem as doa. Essas cidadãs exemplares nunca esquecem de comunicar fartamente os meios de comunicação e sempre aparecem neles com honestos e angelicais sorrisos. Cada gesto e cada fração de tempo são registrados com esplendor. E ainda fazem discurso, sendo entrevistadas como se fossem chefes de Estado.
E que dizer dos maridos dessas cidadãs? Estes trabalham arduamente em suas cômodas poltronas em ambientes de ar-condicionado enquanto seus “colaboradores” vagabundeiam de baixo de sol escaldante, gastando enormes energias no cumprimento de suas dez, doze horas de labuta diária. Eta, povinho folgado! Mas eles ainda são merecedores de vultosas doações para combater as carestias provocadas pela pandemia, e não são trocados: são milhões e milhões, pelo menos na mídia!
Mas onde está o dinheiro, se para “nóis” nem testagem existe? Queremos saber. E queremos saber logo. É que conforme avança o Coronavírus a paciência vai acabando, se bem que a percepção sobre as coisas vá se aguçando…
É surpreendente como em tempos de pandemia percebem-se coisas que antes passavam despercebidas. A repetitividade de certos fatos sociais nunca foi tão didática: “Os de cima sobem e os de baixo descem”, isto no todo sempre e no tempo muito. Quando não nos dão certeza, dão-nos o beneplácito do estranhamento.
Vocês não acham estranho que as ricas brancas cidadãs tenham interesse súbito em “salvar o mundo”? Eu acho. E, para mim, o mais estranho é que no instante curto que dura sua benevolência consigam ter orgasmos mentais ao iludirem incautas ovelhinhas.
Quando donos das empresas mais fortes, os maridos dessas ricas brancas cidadãs são os que fazem a mediocridade humana atingir graus inimagináveis de insensatez. Muitos sonegam impostos, pegam dinheiro a juros subsidiados pelo governo, recebem incentivos fiscais e ante a primeira pandemia, correm pedir ajuda do Estado para evitar demissões, colapso na economia, crises, etc.
O surreal é que também dizem que o Estado precisa diminuir, que não pode gastar com as necessidades dos mais pobres, nem sequer dar-lhes quaisquer direitos. Muitos estranhamente comemoraram quando as elites abrem seu coração de pedra e tentam fazer o papel do Estado, com sua benévola, solidária e extremamente humana redistribuição de migalhas que já estavam por lhes cair da mesa.
Lobos em peles de cordeiro, humilham o conceito de solidariedade. Não estranhem estranhamente o estranhamento estranho desses tempos de caos… Ou, talvez, o melhor seja estranhar tudo e se perguntar: não estariam fazendo tudo isso para que, ante sufoco muito grande, os desprovidos de tudo não explodam em atitudes radicais e invadam o “sagrado” sossego das suas esposas ricas brancas cidadãs contribuintes para o belo quadro social brasileiro?
Me ajudem a entender isso. O mais estranho estranhamento é que estranhamente há pobres que acham tudo isso lindo, aplaudem e pedem bis.
Alvaro Machado é passofundense, médico oncologista e está, há 30 anos, à frente de uma luta por mais saúde, através de processos de cura de uma das doenças que mais mata no mundo: o câncer. Saiu de Passo Fundo aos 17 anos para iniciar a faculdade de medicina e retornou aos 30. Casado com a médica Mariangela Pecly, carioca, eles tem dois filhos.
O câncer é a segunda doença em incidência e a segunda em mortalidade, com tendência a ser a principal no final desta década.
Conversar de forma aberta, com transparência de informação, com conhecimento de causa desta doença faz-se sempre necessário e urgente. Se não podemos evitar tudo, podemos, ao menos, conviver com esta doença e conhecer caminhos para evitá-la ou minimizá-la.
Conhecer sua trajetória de médico, seu envolvimento com a especialidade da oncologia, avaliar as situações da doença na atualidade, bem como falar e promover prevenção serão os objetivos de nossa entrevista.
Conheçamos Alvaro Machado, por ele mesmo.
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SITE NEIPIES: Doutor Alvaro, como quando e porquê decidiste ser médico?
Dr. ALVARO MACHADO: Não lembro de ser uma decisão ou projeto pensado e trabalhado. Das alternativas que se apresentavam na época de vestibular, a medicina me era mais simpática. Havia o desejo de pai e mãe, não tínhamos médicos na família, tudo era muito idealizado. Eu tinha a imagem, idealizada, do meu pediatra, Dr. Telmo Ilha, e Dr. Firmino Duro, amigo da família. Durante o curso de medicina a realidade é outra: limitações tecnológicas, orçamentárias na saúde, na educação, médicos empregados, mal remunerados, professores dedicados e outros nem tanto, pacientes anônimos. Nesta época, oncologia não era especialidade reconhecida pelo CFM e AMB. Raros programas de residência médica. E os recursos terapêuticos também escassos. Mas algo me atraiu no desafio. Foram 2 anos de Medicina Interna na Santa Casa em Porto Alegre e, na sequência, mais 3 anos de Oncologia no INCA (Instituto Nacional do Câncer) no Rio de Janeiro.
Minha formação foi na rede pública. Depois passei 2 anos no topo do serviço privado brasileiro, Hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, em São Paulo. Tudo mudou frente aquelas duas realidades distintas. Atualmente predomina um intermediário (planos de saúde ou o poder público) na relação médico-paciente. Precisamos de muita atenção e cuidado para não projetar as dificuldades desta situação na figura do paciente.
SITE NEIPIES: O que mais te realiza e o que mais te desafia como profissional da área médica?
Dr. ALVARO MACHADO: A realização é poder ajudar, vencer vários desafios e perder outros, mas sempre solidário e empático, sendo reconhecido por isso. Ao mesmo tempo vejo que a atuação individual é limitada. O cuidado do paciente, principalmente oncológico, demanda atenção multiprofissional e interdisciplinar. Este foi o motivo de levar adiante a ideia do CTCAN, clínica da qual sou sócio e idealizador. Conseguimos, com uma equipe treinada e dedicada, elevar a atenção ao paciente com câncer a outro nível de segurança, conforto e satisfação.
Somos pioneiros na obtenção dos selos de Acreditação da ONA nível 1 e nível 2 Pleno. Mas quando entendemos que a solução dos problemas de saúde, em sua dimensão populacional, é questão de política de estado, políticas públicas, um tanto de frustração acompanha nossa caminhada. Em 2016, o então vice-presidente Biden dos EUA discursou no congresso anual da ASCO (American Society of Clinical Oncology) lançando o programa Moonshot, um enorme investimento governamental para pesquisa do câncer, foi um grande entusiasmo na comunidade médico-científica. É a partir desde tipo de iniciativa que avançamos, pois estas pesquisas irão beneficiar a todos, em algum tempo.
O poder público é fundamental no desenvolvimento de soluções dos problemas da sociedade. Seja câncer, seja pandemia, seja poluição, seja tempo para saúde, lazer e cultura.
SITE NEIPIES: Como és especialista em câncer, comecemos a falar da doença. Por que temos tanta incidência de câncer na vida de homens e mulheres? Aumentaram os fatores de risco?
Dr. ALVARO MACHADO: Primeiro devemos considerar o envelhecimento da população. O tabagismo, apesar de estar diminuindo, ainda é o mais importante fator de risco. Alimentação, sedentarismo, álcool, exposição solar excessiva e muitos outros hábitos de vida, além da poluição do ambiente, ar, água, alimentos, tudo isto colabora em algum grau. Consideramos que 60% dos casos de cânceres são “sorteios da natureza”, ao acaso. Outros 5 a 10% tem forte componente hereditário, que podem ser minorados. Os 30-35% restantes poderiam ser evitados com hábitos e ambiente saudáveis.
SITE NEIPIES: Câncer de mama e câncer de próstata são os mais lembrados nos últimos meses do ano. Por que o Outubro é Rosa e o Novembro é Azul? (Campanhas)
Dr. ALVARO MACHADO: O Outubro Rosa nasceu nos EUA com a primeira caminhada das “vencedoras”, mulheres sobreviventes do câncer de mama, no início dos anos 90, época em que falar a palavra câncer era tabu. Esta campanha cresceu e se tornou modelo para todas as outras que chamam nossa atenção para doenças importantes e passíveis de prevenção ou intervenção precoce. O Novembro Azul veio neste embalo, chamando a atenção para o câncer de próstata e saúde do homem, da mesma forma que o câncer de mama, o mais incidente e que mais mata mulheres, o câncer de próstata é o mais incidente e segundo câncer mais letal entre os homens, perdendo para o câncer de pulmão.
Os números do câncer são impressionantes na população: cerca de 660.000 mil diagnósticos ao ano, 66.000 de câncer de mama e 65.000 de câncer de próstata. Morrem mais de 200.000 brasileiros ao ano pela doença. Um terço de todos os casos são evitáveis. Isto significa que poderíamos evitar cerca de 200.000 casos por ano e 60.000 mortes.
SITE NEIPIES: Quais são as diferenças na percepção das mulheres e dos homens com relação aos seus corpos? Esta diferença interfere na descoberta, tratamento e cura do câncer?
Dr. ALVARO MACHADO: As diferenças são enormes. Fortemente influenciada por fatores culturais, regionais e de condições socioeconômicas. Na clientela privada, as mulheres desenvolvem durante sua vida uma rotina de cuidado médico, pois mal abandonam o pediatra e já estão sendo acompanhadas pelo ginecologista, mesmo sem estarem doentes. O homem não tem isto. Após o pediatra, procura o médico quando fica doentes. Esta mentalidade vem mudando entre os mais esclarecidos e aqueles que tem acesso aos serviços de saúde. Na rede pública isto se acentua de forma dramática. O acesso aos serviços é mais difícil, o acesso à informação também. Afora que boa parte da população menos favorecida está numa luta diária pela sobrevivência, não tem como pensar em prevenção.
A cura depende muito do diagnóstico precoce e do acesso aos tratamentos ideais em tempo hábil. Isto implica em políticas de rastreamento (diagnóstico precoce) e uma rede de atenção com especialistas e tecnologias modernas (tratamento ideal em tempo adequado) capaz de absorver estes pacientes e trata-los o mais breve possível.
SITE NEIPIES: O que é prático, viável e importante na prevenção do câncer?
Dr. ALVARO MACHADO: Podemos resumir em hábitos saudáveis de vida. Não fumar, ter alimentação saudável, praticar exercícios físicos regularmente, reduzir a ingesta de álcool ao mínimo, manter o peso ideal. Parece simples, mas quando pensamos na implementação destas medidas em âmbito populacional, esbarramos em obstáculos dificílimos. Por exemplo: alimentação saudável significa alimentos in natura, orgânicos, de preparo artesanal e exercícios físicos regulares, segundo a ACS (American Cancer Society) significa 1 hora de atividade moderada 5 dias por semana.
Da forma que estamos organizados socialmente, com carga horária de trabalho, tempo gasto em deslocamentos do e para o trabalho e mais o trabalho em casa despendido para a família, vemos que dificilmente conseguiremos implementar estas medidas sem que existam diretrizes e políticas públicas que garantam alimentos de qualidade a custo razoável, jornadas de trabalho que permitam tempo para os cuidados individuais e da família, etc. E estamos falando em manter a saúde. Se estendermos este conceito com a necessidade de lazer e cultura, aí complicou mesmo.
SITE NEIPIES: A pandemia está escondendo, camuflando ou retardando os diagnósticos de câncer? Como o Senhor vê isso?
Dr. ALVARO MACHADO: Sim. A pandemia vai piorar nosso desempenho, que já era sofrível. O número de mamografias realizadas em nossa cidade é um espelho desta realidade. A OMS estima que é necessário pelo menos que 70% das mulheres em idade de rastreamento para o câncer de mama realizem a mamografia anual para termos impacto sobre a mortalidade na população. Em 2017 Passo Fundo realizou cerca de 20% das mamografias necessárias na rede pública, já descontando a população feminina com acesso à rede privada. Este foi nosso melhor desempenho nos últimos muitos anos. Em 2018 fizemos 17% dos exames necessário. Em 2019, 12%. Este ano, 2020, não chegaremos a 10%. Isto é sinônimo de diagnósticos mais tardios e vidas perdidas. Afora isso, nos próximos meses teremos uma avalanche de pessoas, que não procuraram ou não foram atendidas nos meses passados, buscando o sistema público de saúde que já esta saturado, sem condições de absorver esta demanda reprimida pela pandemia. Sempre lembrando que em 2016 foi aprovado, com voto do Bolsonaro, o congelamento dos gastos públicos em saúde.
SITE NEIPIES: Por que as recorrentes dificuldades de acesso aos diagnósticos do câncer ainda não estão resolvidos? Falta o que?
Dr. ALVARO MACHADO: Educação, planejamento e investimento. Mamógrafos temos em excesso no Sudeste e Sul, faltando no Norte e Centro Oeste. Os especialistas se concentram nestas mesmas regiões. Aparelhos de radioterapia também. O poder público deve priorizar e investir nas áreas carentes.
SITE NEIPIES: Já é possível afirmar que os tratamentos (quimioterapia e radioterapia) para controle e cura do câncer já estão mais humanizados?
Dr. ALVARO MACHADO: Os tratamentos todos tem evoluído exponencialmente, tanto a cirurgia, a radioterapia e os medicamentos, não apenas a quimioterapia. As cirurgias tem se tornado menores, menos mutilantes, mais preservadoras de função e com excelentes resultados estéticos, sem perder efetividade. Estamos numa nova era, com tecnologia para entender cada vez em maior detalhes o que está errado na célula do câncer e, assim, desenvolver medicamentos específicos para “corrigir”ou “desligar” esta alteração. Assim como estamos aprendendo os mecanismos de controle do sistema imune e desenvolvendo medicamentos que estimulam, treinam e tornam nossa imunidade mais eficaz e específico contra o câncer. Mas isto tudo tem um custo alto.
Devemos focar na prevenção e diagnóstico precoce. Para queles que precisam, o tratamento atual é muito mais eficaz e muito mais bem tolerado, permitindo um cotidiano normal para muitos.
SITE NEIPIES: Sairemos, sem saber quando, da pandemia e da sua maior consequência: o isolamento físico e social. Sairemos melhores como sociedade? O que estamos aprendendo?
Dr. ALVARO MACHADO: Sou um otimista. Penso que aprendemos que a solidariedade e empatia são vitais para nossa preservação como sociedade e como espécie. Li, recentemente, de uma antropóloga, que o primeiro sinal de civilização foi um fóssil de fêmur quebrado e cicatrizado. Seria impossível, sem cuidado de outro, qualquer animal com fêmur fraturado sobreviver. Seria presa fácil. Então é isso, civilização é solidariedade e cuidado com o outro.
Por outro lado, a humanidade enfrentou a gripe espanhola e duas grandes guerras mundiais. Tragédias imensuráveis. Saímos melhores delas? Acho que em alguns aspectos sim. A história não é linear ou espiral contínua, temos altos e baixos, avanços e retrocessos. Mas me parece que avançamos para melhor.
SITE NEIPIES: Uma frase/ideia ou pensamento que expresse algo significativo e relevante sobre tua vida.
Dr. ALVARO MACHADO: Bah, nunca pensei nisto. Nenhuma e muitas me ocorrem agora. Não saberia qual mais significativa neste momento, pois a vida é multifacetária e se transforma continuamente, podendo não caber em uma frase ou pensamento.
SITE NEIPIES: Uma mensagem aos que te lêem agora.
Dr. ALVARO MACHADO: Mantenham o cuidado, distanciamento social, máscara e higiene. Ano que vem chegam as vacinas e tudo começa a melhorar. Incorporem, na medida do possível, hábitos saudáveis. Sedentarismo e obesidade já são a principal causa de câncer nos EUA, ultrapassando o tabaco.
E não poderia deixar de reforçar: escolham como representantes nas eleições aqueles que apoiam a educação, os professores, a ciência e a pesquisa. Isto pode mudar o mundo.
As eleições municipais são um grande movimento de mobilização social e de discussão dos verdadeiros interesses que movem nosso país, a partir das nossas cidades.
Quem acompanha os movimentos da política local, a partir das nossas cidades, depara-se com um dos maiores dramas dos políticos na atualidade: a autenticidade.
Para se eleger ou para se manter no poder, os políticos usam estratégias e acordos escusos, invisíveis e imperceptíveis à maioria dos cidadãos e cidadãs. Por isso mesmo, a maioria dos políticos falam o que a maioria do povo gostaria de ouvir e age como a maioria gostaria que agissem. Resta saber se há espaço para ser autêntico na política? Ou: como seria viver autenticamente a política?
Vez por outra, conhecemos alguns aspectos mais verdadeiros dos nossos políticos. Como nem sempre estão sob o manto dos estrategistas e assessores, revelam o que são ao falarem e agirem a partir de suas convicções e sua personalidade. Revelam-se como verdadeiramente são. Infelizmente, pesam preconceitos contra aqueles que, na vida pública, dizem o que pensam e agem a partir de suas convicções.
A política é uma atividade de risco, porque impregnada de liberdade. E liberdade sempre é risco. O problema é que, com a profissionalização da política, esta liberdade é cada vez mais calculada e medida. Por isso que o maior temor dos políticos quanto à sua autenticidade tem sido perder votos (quando estão candidatos) ou perder o cargo (quando ocupam cargos de confiança). E então, sofremos (ou votamos ingenuamente) porque não conhecemos quem são e o que de fato defendem muitos dos nossos políticos.
Muitos políticos não conseguem disfarçar o que são e o que pensam. Ainda bem, pois é a chance de conhecermos os mesmos como eles são!
Raramente, vemos um político com a grandeza de reconhecer os seus erros. Os acertos são destacados, os erros são escamoteados. Como esperar autenticidade sem o reconhecimento de erros? Como serão autênticos os políticos se não forem capazes de nos revelar os verdadeiros interesses que os movem?
A arena da política sempre é permeada pela disputa de interesses coletivos ou pessoais. Como disse o imperador Napoleão Bonaparte, “todo homem luta com mais bravura por seus interesses do que por seus direitos”.
A morte da política ocorre quando ela deixa de ser espaço autêntico de disputa de ideias e interesses e se torna lugar de sondagem, de pesquisa de satisfação do eleitor ou do cidadão.
De certo modo, nós cidadãos e cidadãs já matamos a política quando achamos que é perder tempo conversar sobre as questões da coletividade em nossas famílias, em nossas escolas, em nossos condomínios de prédios, em nossos sindicatos, clubes ou associações.
As eleições municipais são um grande movimento de mobilização social e de discussão dos verdadeiros interesses que movem nosso país, a partir das nossas cidades. Em uma democracia representativa, os mais preparados são os mais autênticos e mais fiéis a si e aos interesses que representam. Enganam-se aqueles que tentam enganar a gente.
Se os políticos querem mesmo acabar com a cultura do estupro, deveriam estar discutindo políticas públicas de prevenção e combate à violência de gênero.
Surfando na onda de indignação gerada no país pelo episódio do estupro/gravidez da menina de 10 anos, o deputado Eduardo Bolsonaro, que assim como os demais membros de sua família, nunca esteve preocupado com a defesa dos direitos das mulheres, apresentou um projeto de lei que prevê a castração química como condição para a progressão de pena dos homens condenados por estupro. A castração química consiste em usar métodos hormonais para privar o paciente de impulsos sexuais.
Esse não é um debate novo. Volta e meia surge nas redes e é entendido por alguns como “a salvação para as mulheres” e como uma forma de garantir que estupros não mais aconteçam. Mas essa é uma alternativa muito pouco ou nada eficaz, que por certo não vai acabar com os casos de abuso sexual.
Todo estupro é doloso. Em todo estupro, existe a intenção de cometer aquele crime, diz advogada, referindo-se sobre o julgamento de Mariana Ferrer, o que gerou revolta nas redes sociais após sentença inédita no Código Penal Brasileiro. Leia mais clicando aqui.
Quando tratamos desta “solução” para este problema estamos entendendo que o estupro não é nada mais do que um impulso descontrolado do homem por sexo, uma vontade incontrolável que só pode ser contida quimicamente. Mas na verdade não é bem assim. O estupro está ligado ao desejo de exercer poder sobre outra pessoa.
Estupro não é um impulso sexual. Estupro é uma ferramenta de controle dos corpos. É uma prática implicitamente aceita na sociedade, que estimula e institucionaliza a cultura do estupro sexualizando crianças, encontrando formas de culpar a vítima, sob os argumentos de que ela estava usando roupas curtas ou saiu em horários “inapropriados”, normalizando assédios, considerando as denúncias como “mimimi”.
Mas, principalmente, a castração química entende que o estupro está no pênis, o que absolutamente não é verdade. Isso é reconhecido inclusive pela lei brasileira, que diz com todas as letras que não é necessário haver penetração para a violência ser um estupro.
Há mulheres que são penetradas por objetos.
Há mulheres e crianças que são forçadas a tocar em partes do corpo de outras pessoas.
Há atos violentos que usam outras partes do corpo.
A imensa maioria dos casos de violência sexual contra crianças não deixa marca, pois não acontece com penetração. Meninas e meninos são forçados a ver, tocar ou a serem tocadas.
A castração química não irá impedir que esses casos deixem de ocorrer. A incapacidade de ter ereção ou até mesmo um menor desejo sexual não são a raiz deste tipo de violência. O que realmente causa o estupro é a ideia de superioridade masculina sobre toda e qualquer pessoa e a certeza de que essas valem menos e podem ser controladas.
Se os políticos querem mesmo acabar com a cultura do estupro, deveriam estar discutindo políticas públicas de prevenção e combate à violência de gênero, como a criação de mais delegacias especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência, educação sexual nas escolas para que crianças entendam desde pequenas o que é o assédio, de que maneira ocorre e o que se pode fazer quando esse crime é praticado.
Em reflexão “Estamos falando de estupro mas vocês estão ouvindo”? jornalista Ingra Costa e Silva escreve: “e isso acontece pelo simples fato de que os homens acreditam que podem fazer o que bem entenderem conosco. Quando falamos de estupro temos que ter claro que não estamos falando de sexo: estamos falando de poder. Estamos falando de violência”. Leia mais clicando aqui.
A pandemia veio nos mostrar as desigualdades que, mais do que nunca, gritam de forma aguda e insistente, enfatizando que estão ali, diante dos nossos olhos, que parecem se acostumar a vê-las, deixando de reparar que existem.
O ano de 2020 teve um início como muitos outros: esperança de um tempo melhor, os mais supersticiosos vestindo essa ou aquela cor para dar sorte, lentilha e uvas para ter uma mesa farta no novo ano, “adeus ano velho, feliz ano novo” cantarolado por alguns.
O que não esperávamos, era a chegada de uma pandemia. Com ela, nossa rotina mudou, sentimentos como medo e ansiedade passaram a habitar o espírito, a saudade do abraço divide espaço com o cuidado com aqueles que amamos. Palavras até então desconhecidas ou esquecidas passaram a fazer parte do nosso vocabulário: pandemia, covid-19, home office, ensino remoto, testar positivo.
Foram muitas mudanças em um curto período de tempo, sem dúvida. Mas, ademais das alterações na rotina e no vocabulário, a pandemia veio nos mostrar as desigualdades que, mais do que nunca, gritam de forma aguda e insistente, enfatizando que estão ali, diante dos nossos olhos, que parecem se acostumar a vê-las, deixando de reparar que existem.
As pesquisas nos mostram que quem é mais afetado pela doença são as pessoas mais pobres, que não têm condições de manter o distanciamento social e, muitas vezes, nem mesmo a higiene e os cuidados necessários para manter o coronavírus distante. Nos Estados Unidos, dados mostraram que a população negra foi a mais atingida. Por quê? Porque os negros têm menos condições de acesso aos cuidados necessários e tratamento.
Vemos claramente o fator econômico interferindo quando tratamos da pandemia. Mas, quero chamar atenção aqui para outro aspecto: o de gênero. A desigualdade que ainda temos entre homens e mulheres foi também denunciada pela pandemia.
Com a mudança da rotina, veio a sobrecarga – sim, ela já existia, mas se acentuou. Conciliar o trabalho – seja home office ou presencial – com a organização da casa e o ensino remoto dos filhos tornou-se um grande desafio. Limpar a casa, fazer a comida, lavar, passar, organizar, acompanhar as aulas e tarefas escolares dos filhos e ainda produzir no trabalho. E há divisão dessas tarefas entre o homem e a mulher?
Infelizmente, o que os dados apontam é que não. E é preciso ficar claro que “ajudar” não é o mesmo que “dividir” as tarefas e responsabilidades que são essenciais, mas também não pagas e, por isso, invisíveis.
A divisão sexual do trabalho é historicamente utilizada no processo de subjugação da mulher aos interesses da sociedade com olhar predominantemente masculino. Somos ensinados e condicionados, de geração a geração, a perpetuar a sociedade patriarcal em que as tarefas domésticas e a educação dos filhos é papel exclusivo da mulher. O homem ajuda, mas não compartilha, não divide.
A pandemia veio reforçar esses estigmas historicamente construídos e afirmados por gerações. Segundo Nara Carvalho, vice coordenadora do Centro de Referência em Direitos Humanos e professora do departamento de Direito da UFJF-GV, pela divisão sexual do trabalho, há funções tidas como femininas, especialmente relacionadas a afazeres domésticos (por vezes sequer percebidos socialmente como pertencentes à categoria trabalho), e a profissões voltadas ao cuidado com o outro (num desdobramento das funções supostamente naturais de esposa, mãe e dona de casa). À mulher, cabe servir, devendo ser especialmente devota à família e filhos, em um processo que a aproxima do estatuto de propriedade – mulher é mais objeto dos seus do que sujeito de si mesma. Isso, sem mencionar a violência doméstica contra mulheres, que, conforme apontam as pesquisas, aumentou muito neste período de isolamento social.
É necessário, portanto, ficarmos atentos a essas questões, para uma melhor distribuição das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos, e não somente durante a pandemia. A ONU, no objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5, prevê alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas do mundo até 2030. Mas, como podemos observar, temos, ainda, um longo caminho pela frente.
Dialogar, aproximar-se e colocar-se no lugar do outro,daquele que sofre, é condição indispensável para a construção de uma sociedade mais humanizada!
Com o surgimento da pandemia do novo Coronavírus, passamos a ouvir, reproduzir e praticar várias palavras de ordem. Entre elas a do distanciamento social (físico) como medida de proteção à saúde. Por essa razão e outras associadas, houve (e há) comportamentos nos mais diversos sentidos. Muitos que estavam próximos se distanciaram. Outros que estavam distantes se aproximaram. Em muitos casos. quem já estava próximo se aproximou mais. E outros, que estavam distantes, distanciaram-se mais ainda.
Nesse contexto, podemos nos perguntar: Em que consiste ser/estar distante ou próximo? Quem é o meu próximo ou quem são nossos próximos, sobretudo nas situações adversas? Como ser/estar próximo mesmo à distância? Por que, estando próximos, muitas vezes permanecemos distantes ou até ausentes? Essas e outras questões nos fazem perceber que distância e proximidade não são meros conceitos geográficos. E que estar próximo ou distante, geograficamente falando, não tem o mesmo significado para todas as pessoas.
Sem que esse assunto possa parecer anacrônico e mesmo que pareça a alguns ou a muitos, é pertinente refletir sobre o outro e o próximo. Como distingui-los?
O outro pode comparecer diante de mim como uma ameaça, um inimigo, um ser indiferente e descartável, um concorrente, um objeto, um abjeto, etc. De qualquer forma, a pessoa do outro sempre me desperta, me evoca, me alerta… Também pode me ferir, me provocar ou me inquerir. A maneira como eu reajo às suas evocações ou provocações revela quem eu sou. E posso revelar-me como um outro (apenas) ou como um próximo.
Ser próximo é difícil e, por vezes, extremamente difícil. É mais do que ser o seguinte na fila do supermercado. Exige sair de si, colocar-se no lugar do outro, sem deixar de ser eu. Como ensinou o profeta, poeta, pastor, dom Pedro Casaldáliga (16/02/1928 – 08/08/2020), próximo é aquele de quem eu me aproximo movido pela força da misericórdia e da solidariedade. Esse companheiro de caminhada, cuja memória permanecerá para sempre e cujo exemplo de espiritualidade libertadora nos motiva a seguir, fez da vida uma luta incansável pela humanização da humanidade, pela libertação de todas as formas de violência e de opressão.
De acordo com Paulo Freire, o diálogo é mais que mera interlocução, troca de ideias, de informações e conhecimentos entre duas ou mais pessoas. Para o autor da “Pedagogia do Oprimido”, da “Pedagogia da Esperança” e de outras pedagogias libertadoras, o diálogo é uma categoria ontológica. Significa dizer que é um elemento constitutivo do ser humano.
Pelo diálogo podemos nos libertar e nos humanizar. Se eu dialogo, posso compreender o outro. E, se compreendo, posso me transformar e ajudar a transformar realidades do mundo sólido e/ou da “modernidade líquida”. Dialogar, aproximar-se e colocar-se no lugar do outro, daquele que sofre, é condição indispensável para a construção de uma sociedade mais humanizada!