A elite, do alto de sua superioridade, acha razoável negar comida a quem vive debaixo de um viaduto. Já a classe média, vê como correto humilhar alguém por não ter um diploma superior.
Dois episódios recentes trouxeram à tona a insensibilidade de segmentos de nossa sociedade. Bia Doria, primeira-dama paulista, em vídeo aconselhou os espectadores a não ajudar os sem-teto com comidas e roupas, pois, segundo ela, eles “gostam” de viver nas ruas.
Padre Júlio Renato Lancellotti, com 71 anos, é um grande defensor do povo de rua em São Paulo. Conheça entrevista que o mesmo já concedeu à jornalista Márcia Machado, em nosso site.
Um casal carioca, sem máscara, foi abordado por um fiscal que os alertou de forma educada como “cidadãos”. “Cidadão não!” foi a resposta, “engenheiro civil formado. Melhor do que você”.
Estes episódios não causam espanto para quem conhece nossa elite. É sobejamente conhecida a sua insensibilidade. Seus genes egoístas são bem poderosos. A educação e a cultura travam, há séculos, um combate duro contra eles.
Para Jessé Souza “o desprezo secular e escravocrata pelas classes populares ganha um autoridade inaudita e passa a ser usado com pose de quem sabe muito. Juntas, a demonização da política e do Estado e a estigmatização das classes populares constituem o alfa e o ômega do conservadorismo da sociedade brasileira cevado midiaticamente todos os dias desde então”.
Estes dois revoltantes episódios revelam a opressão que permeia as relações sociais entre nós. É o mesmo descaso devotado aos escravos no espaço de 300 anos. O desprezo e a humilhação que essa classe sofre desde o berço, unindo socialização precária, que é o essencial do seu aspecto de classe, com o preconceito covarde e secular contra o escravo, que é o seu aspecto de raça, a levam a fantasiar sua realidade intolerável.
E aí surge o indivíduo que cai nas drogas, especialmente no álcool. Para se transformar em morador de rua e sem-teto, é um passo. Seria porque “gostam” de tal situação ??
“A elite do dinheiro tende a perceber seu privilégio como decorrente de uma superioridade inata. Já a classe média tende a imitar a elite endinheirada na sua autopercepção de classe como sensível e de bom gosto, mostrando que essa forma é essencial para toda a separação das classes do privilégio em relação às classes populares”, segundo Jessé Souza.
A elite, do alto de sua superioridade, acha razoável negar comida a quem vive debaixo de um viaduto. Já a classe média, vê como correto humilhar alguém por não ter um diploma superior.
É o Brasil mantendo sua tradição de desigualdade, onde a barbárie foi incorporado ao cotidiano.
Em outra publicação neste site, já escrevemos que “nossa sociedade é fruto de um pacto dos donos poder para perpetuar um modelo social cruel forjado na escravidão. A brutal desigualdade de renda continua a ser o traço que nos caracteriza. O atual governo veio para manter e consolidar esta infâmia”.
Gostamos de contar histórias e memórias de vida no site. Histórias verdadeiras, vividas com intensidade, recheadas de desafios e realizações. Algumas histórias mantém cicatrizes de realidades que foram impostas e que resistem ao tempo.
Contaremos a história da professora Elaine Jovita Busch e de sua família, que teve de deixar, ainda criança, às pressas, o lugar onde nasceu e onde viveu parte de sua infância.
Sua família, como a de outros tantos, teve de sair de suas terras para dar lugar a um grande lago no ano de 1970: a Barragem do Passo Real, Salto do Jacuí, RS.
Muitas destas famílias, como a de Elaine, foram reassentadas no município de Pontão-RS, o qual tem uma relação muito forte com os reassentados do Passo Real, conforme apuramos com moradores que conhecem bem esta história.
No ano de 1972, 54 famílias foram reassentadas, estabelecendo-se na Comunidade Sagrisa. Em 1974 e 1975, mais 57 famílias foram reassentadas em em terras da Fazenda Anonni. Em 1985-1986, com a ocupação da Fazenda Anonni, mais 57 famílias se incorporaram na luta por terra e conquistaram seu lote, fixando-se por aqui.
Muitos destes moradores, forçados a sair de sua terra, tiveram muitas dificuldades de adaptação neste novo lugar. Muitos mantiveram desejos de voltar, o que nunca mais se concretizou. Com a enorme seca que assolou o RS em 2020, o grande lago da Barragem do Passo Real quase secou e muitos deles puderam novamente pisar a terra sagrada de onde vieram e matar um pouco de saudades e religar-se às suas origens.
Segue o depoimento de Elaine Jovita Busch.
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O lugar afetivo deu lugar a um grande empreendimento
Por ocasião da estiagem que assolou nosso Estado, uma das mais longas, em 2020, segundo moradores mais antigos do atual município de Quinze de Novembro, pude visitar o lugar onde nasci e vivi os primeiros anos da minha infância.
Sentados em tocos das árvores que permaneceram no local, após mais de 50 anos de inundação nos perguntávamos: era mesmo tão necessário o deslocamento de tantas vidas, tamanha destruição ambiental, a perda de grande área de plantio de alimentos para a geração de energia elétrica?
Em 1968, iniciava a construção do maior lago artificial do Estado do Rio Grande do Sul, fazia parte do plano de desenvolvimento econômico dos governos da época. Parte das metas, a construção de hidrelétricas para o fornecimento de energia. Era o progresso? Mas que progresso é esse que destrói o ambiente, desloca milhares de pessoas? Acaba com sonhos das pessoas? É preciso considerar benefícios da eletricidade, mas são possíveis alternativas de produzir energia.
A construção de hidrelétricas foi incentivada pelos governos brasileiros em toda a história do país, pelo aproveitamento das abundantes águas dos rios.
Nos governos décadas de 60 e 70, pois segundo segundo Martins (2009, p.61), “o caráter centralizador e autoritário assumido pelo Estado, contribuiu para que a expansão do sistema elétrico assumisse uma forma particular, caracterizada pela construção de grandes barragens que pouco considerava questões sociais ligadas às comunidades rurais e aos impactos ambientais associados. Portanto, na maioria dos casos, a construção das usinas e as consequentes inundações acabavam atingindo um significativo número de pessoas que tinham de deixar suas terras sem muita escolha, recebendo pequenas indenizações em dinheiro ou ficando à mercê da incerteza de serem reassentados. (Stefanelo)
Um vídeo que demonstra a grandiosidade do lago do Passo Real, 2016.
A identidade e os hábitos de quem foi forçado a sair
Dentre as consequências para as pessoas que tiveram de deixar este lugar, destacam-se as mudanças que ocorreram nos hábitos e a perda de identidade.
Sobre a perda de identidade, reporto-me à minha infância, pois na época não estavam preocupados com os sentimentos, com os sonhos das pessoas, principalmente das crianças. Mas, eu estava lá e posso afirmar que apesar de ter tido uma infância humilde, devido às precárias condições econômicas de minha família, foi repleta de brincadeiras e de boas convivências com a família, parentes e amigos.
As lembranças que tenho são como feedbacks de acontecimentos, que me vem à memória desde o chiqueirinho, onde ficava dentro de casa para a mãe fazer o trabalho de casa, do trabalho na terra da minha mãe e irmão, do porquinho que eu tinha ganhado de meu pai e que virou carne frita, dos coelhos do meu irmão, que soltei sem querer, porque queria tratá-los, o longo trajeto a pé que fazia para ir à escola. Os Cultos nos domingos de manhã. Ir à igreja era especial, colocar a melhor roupa.
O que mais lembro eram os passeios nas casas das primas, das brincadeiras de casinha e de bonecas.
Os passeios e brincadeiras se estendiam, com as amigas, geralmente filhas das “comadres”, tinha várias madrinhas e padrinhos, como era o costume da época. Debaixo dos pés de mandioca, era nosso lugar preferido, confeccionando cadeirinhas e outros objetos com as folhas e galhos dos pés de mandioca. O nosso mundo imaginário feito com (hoje chamamos de material não estruturado), pedaços de madeira, sabugos de milho e outras coisas, montamos nossas casinhas. Não tínhamos brinquedos comprados.
Tempos bons, nos Natais e Páscoas, não ganhávamos chocolates como hoje, eram pacotinhos de bolacha pintada e pés de moleque de amendoim e no máximo casquinhas de ovos também com amendoim. Tínhamos o costume de ir na casa das madrinhas e padrinhos buscar o nosso “pacotinho”.
Lembro que numa Páscoa minha mãe fez o ninho com barba de pau e colocou nele uma varinha, sinal de que não havia me comportado durante o ano. Nossa aquilo soou muito mal e passei a noite aos prantos. Mas, a surpresa é que no outro dia o ninho de páscoa estava cheio. Teve um natal memorável que passamos na casa de uma madrinha, pela primeira vez vi um papai-noel. (Depois achei a roupa do Papai Noel em casa, era o meu irmão).
Nos sábados pela manhã, era costume do meu pai ir até a venda, que ficava a uns três quilômetros de casa comprar alguns suprimentos, eu não via a hora, imagino como se fosse hoje vê-lo de longe, com uma mala de pano que colocava nos ombros, esperar os caramelos que trazia. Éramos felizes.
A vizinhança entorno do lugar era algo especial, uma grande família, onde a ajuda mútua era considerável, expressando-se por exemplo na forma dos “puxirão” realizados em épocas de plantações e colheitas, feitas manualmente, que às vezes ocorriam também à noite sob a luz da lua. Também nas construções das casas e galpões, nas trocas do pedaço de carne no abate de um animal para o consumo, nas celebrações e muitos tantas outras ocasiões.
O dia da mudança
Até que um dia, alguma coisa estranha acontecia, que eu não conseguia entender. Porque naquela época, criança não participava de conversa de adulto.
Percebi, pela reação dos meus pais, que tínhamos que sair de lá, mas hoje entendo o meu pai, assim como demais moradores.
Eu não acreditava que realmente uma imensidão de água iria inundar tudo. Só fui entender anos depois. Lembro que um dia, fomos num lugar que tinha um prédio enorme, praticamente dentro de um grande buraco e lá dentro tinha umas máquinas que faziam um barulho estarrecedor, não se ouvia o que as pessoas falavam. Eram as turbinas da barragem. Acho que os adultos foram até lá para acreditar no que estava para acontecer.
Dias depois, às pressas carregamos a mudança num caminhão. Morava conosco minha avó paterna, lembro claramente ela subindo no caminhão de mudanças, estava doente, foi a última vez que a vi e logo após veio a falecer.
Foi muito triste. E, da próxima vez que lá voltamos, o inacreditável havia acontecido: estava tudo submerso, as árvores, os pinheiros.
Revendo o lugar onde nasci e vivi parte da minha infância
A impossibilidade de visitar o lugar em que nasci me inquietou por todos esses anos. Frequentes pesadelos com água, a causa pela qual tivemos que deixar o lugar. É literalmente uma perda de identidade.
Mas ao voltar lá, naquele lugar onde nasci e cresci nos primeiros anos de minha vida, o sentimento de vazio não diminuiu e a tristeza tomou conta. Talvez tivesse ainda esperança de encontrar algo a mais do que restou, apenas os tijolos do alicerce da casa, troncos de árvores secos, alguns restos de ferramentas de trabalho, consumidos pela ferrugem. Buscamos em cada objeto um pouco da história das pessoas queridas que já não estão mais entre nós, o pai, a mãe, a avó.
As relações que tínhamos construído com parentes, amigos e vizinhos que não podem ser devolvidos e colados de volta. Veio-me à mente cada pessoa que neste lugar também vivia, pois não se trata só da memória pessoal porque nossa vida não é construída individualmente, a nossa memória é ligada a outras pessoas, somos por natureza seres sociais e vivemos em comunidade, cultuando tradição e costumes que são coletivos.
Não considero somente as saudades das pessoas queridas, mas a falta desta convivência nestes anos. Esta constituição enquanto sujeitos, que é de certa forma quebrada ao termos que mudar de lugar. A falta que faz esses anos de convivência sequestrados à força, é algo doído.
Claro que se constroem novas relações, mas é um processo bem lento, que até mesmo para os adultos é difícil (meus pais por exemplo, nunca se acostumaram no novo local onde residiram, tanto que pediram para serem sepultados no lugar de origem). Não são as mesmas da infância. Porque ser criança é algo especial. Para a criança, o seu mundo é aquele, o qual não cabem muitas coisas, a não ser as do “lugar” onde mora.
Sem dúvida, a energia elétrica trouxe o progresso, mas a um custo social alto, que não pode ser reversível. Fico pensando que hoje deveríamos evitar estes custos e este sofrimento de tanta gente com formas alternativas de geração de energia, que sejam menos agressivas ao meio ambiente e que mantenham relações equilibradas entre as pessoas, suas relações, a flora e a fauna.
Fotos: Arquivo pessoal/dia da visita ao local de moradia da família.
Numa época de mudanças profundas, desafiados a desenvolver nossa resiliência, devemos pensar e ajustar nossa organização em todos os níveis, com disciplina, para que se transforme, a médio prazo, em hábitos sustentáveis.
Ao analisarmos o comportamento individual exigido pelas instituições que administram o sistema social em vigor, identificaremos mentes brilhantes sendo escravizadas pelas imposições do consumismo e do produtivismo ilimitado.
Nesse ativismo exagerado, existem poucos espaços para o autocuidado em todas as suas formas. Numa época de mudanças profundas, desafiados a desenvolver nossa resiliência, devemos pensar e ajustar nossa organização em todos os níveis, com disciplina, para que se transforme, a médio prazo, em hábitos sustentáveis.
A organização, visando a evolução e a sustentabilidade individual, no interior de um grupo familiar ou sistema social geral, é de grande relevância. O ponto de partida é a condição atual de cada pessoa, que consiste, além de outros fatores, da reconstrução da soma de aspectos conscientes, inconscientes, do seu grupo, do sistema social, do sistema familiar atual, bem como do comportamento das gerações familiares passadas.
A partir dessa complexidade de variáveis, na qual cada indivíduo vai se organizar, se faz necessário ressaltar que os espaços na organização pessoal para os procedimentos de autocuidado são atravessados pela lógica social do consumo, da produtividade e do reconhecimento.
A disciplina se apresenta com um histórico de fragilização, em um contexto de desorientação generalizada, de flexibilização das normas, de permissividade, de criatividade e pluralidade de comportamentos.
Existem aspectos positivos na flexibilização para a evolução e sustentabilidade pessoal e social, decorrentes da superação de comportamentos padronizados, uniformizados e repetitivos, dos modelos autoritários e ditatoriais. No entanto, esses aspectos não devem impedir que as relações mais sólidas, com vínculos, entre organização pessoal e a disciplina para a manutenção da mesma, visando o bem estar individual e geral, sejam desenvolvidos.
Ao reconhecer o valor da disciplina, um comportamento consciente substituirá a não realização do autocuidado corporal ou intelectual. Nesta trilogia de aspectos centrais para ampliar os comportamentos conscientes e sustentáveis, os hábitos simbolizam a explicação e o estágio culminante, possibilitando que tarefas especificas deixem de representar um enorme esforço e se tornem prazerosas.
A satisfação em realizar tarefas específicas, como ler, escrever, preparar o próprio alimento, caminhar, andar de bicicleta, correr, levantar da cama para participar de um encontro em uma sala de aula virtual, está estritamente relacionada com a cultura da organização pessoal, a disciplina e os bons hábitos.
A distância entre a necessidade de um grande esforço e a realização confortável ou satisfatória de uma atividade está na opção consciente por rotinas que associem organização pessoal, disciplina e bons hábitos.
Em outra publicação neste site, já escrevemos: “numa sociedade baseada na competição, na exploração implacável de um ser humano por outro, no ato de lucrar com as necessidades alheias e na criação de problemas com o propósito de obter lucro, as referências para o comportamento devem sair das sombras, pois tem suas origens ideologicamente ofuscadas”.
O conjunto dos bens indispensáveis para a vida humana são perfeitamente suficientes para toda a humanidade, mas o egoísmo e a ganância ou falta de consciência solidária, impõem sofrimento e abreviação de vidas.
Pensar e desejar a materialização de uma condição social de abundância, no contexto da pandemia, parece ser contraditório, mas é uma imposição para quem está comprometido com a evolução humana.
A estagnação do comércio, as restrições na circulação de pessoas, as vidas abreviadas e o desemprego, estão aumentado o nível de insegurança, que leva inúmeras pessoas ao desespero e ao adoecimento. Neste contexto, que pode ser descrito como a “culminância de uma transformação profunda”, é valido, ainda, registrar que o ser humano, por meio de uma relação inteligente com a natureza produz muito além do que é necessário para viver em abundância material.
A culminância e o esgotamento deste modelo conhecido como modernidade é simbolizada por pessoas escravas de necessidades artificiais, criadas pelo indústria do consumo, apoiado no individualismo, no produtivismo e na competição ilimitada.
A solidariedade é um tema relevante para a vida social humana. Um dos pensadores contemporâneos, considerados como um clássico da sociologia, Emile Durkheim, esmiuçou o tema, partindo de uma divisão geral, que ele caracteriza com mecânica e orgânica. O ponto de partida da sua teoria é que não existe vida social sem solidariedade, que pode ser mecânica, a exemplo das abelhas e das formigas. Mas o ser humano por meio da inteligência, pode assumir comportamentos conscientes, percebendo que os outros seres vivos dependem dele, do mesmo modo que ele, individualmente, não existiria sem os outros.
Nenhum de nós existiria, como ser vivo, sem nossos antecessores que nos geraram e nos cuidaram. Do mesmo modo, no aspecto da identidade individual, não existira, por exemplo, a figura do professor sem a existência do estudante.
Os tempos de escassez e as ausências momentâneas de bens indispensáveis se apresentam como uma oportunidade para ampliar a consciência humana a respeito da importância dos mesmos para a continuidade da vida. Uma situação fácil de perceber é a seguinte: a natureza disponibiliza, o ser humano com sua criatividade e com os recursos tecnológicos produz e armazena em abundância bens materiais indispensáveis para a vida, como a água, alimentação e a energia, que poderiam ser disponibilizados de forma universal, mas que não são.
Neste sentido, a pandemia de 2020 está sendo uma oportunidade para percebermos que existe água, energia elétrica e toda sorte de recursos financeiros básicos para todos e que comportamentos solidários que possibilitam a universalização do acesso a estes bens abundantes são possíveis e indispensáveis.
Estas condições mínimas de universalização incondicional do acesso a bens indispensáveis para a vida, devem ser acompanhadas de um planejamento institucional, com a adição de condições mínimas de moradia educação e cultura.
É válido registrar que o conjunto dos bens indispensáveis para a vida humana são perfeitamente suficientes para toda a humanidade, mas o egoísmo e a ganância ou falta de consciência solidária, impõem sofrimento e abreviação de vidas. No tema da habitação, por exemplo, é válido registar e refletir que em decorrência da ganância e da especulação imobiliária, na maioria das cidades, temos vazios urbanos e inúmeros imóveis ociosos, ao mesmo tempo existem seres humanos habitando locais insalubres e precários.
Nesse momento de combate ao novo coronavírus, a expansão da consciência solidária que reconhece a abundância de bens indispensáveis, pode se apresentar como um propulsor para evolução humana.
A grande lição que podemos tirar neste momento de pandemia é a de que o professor é de fato insubstituível, seja em sala de aula, seja para um olhar ou palavra que acalenta quando tudo é incerto.
O ano de 2020, sem dúvidas, já deixou sua marca no mundo com o surgimento de um vírus que nos obrigou a repensar a própria existência. Nos colocou diante das mais diversas interrogações em relação à vida e ao nosso modo de viver em sociedade.
O SARS COV 2, também conhecido como Novo Coronavírus, teve suas primeiras notificações na China e tornou o país um vilão mundial, despertando as mais cruéis e irracionais reações diante do desconhecido.
As informações acerca desse vírus ganharam atenção em todos os locais e nos vimos diante de uma realidade jamais pensada outrora: a de ficarmos isolados em nossas casas, cumprindo as determinações de especialistas da área da saúde, bem como voltar nossa atenção aos pesquisadores e à ciência, tão desvalorizada por governantes inaptos ao cargo.
Nesse contexto, a educação e o ensino também precisaram ser repensados de maneira muito rápida para que a aprendizagem continuasse acontecendo, ainda que de uma maneira pouco comum nas escolas brasileiras, o Ensino a distância (EAD).
As diferenças que assolam o ensino público no Brasil ficaram ainda mais evidentes e, especificamente no RS, evidenciaram o descaso que a escola pública está imersa. Enquanto professora da rede estadual de Passo Fundo, me vi tendo que reinventar o modo de dar aula com as ferramentas tecnológicas disponíveis e compartilhar uma angústia coletiva de uma categoria que não tem o devido reconhecimento de grande parte da sociedade e muito menos dos governantes.
Os abismos e a desigualdade acompanham o nosso país e, neste momento, não é diferente, grande parte dos alunos não têm condições de acompanhar o ensino EAD e ficam ainda mais isolados das oportunidades que deveriam ser para todos.
O que gostaríamos que um chefe de estado fizesse num contexto de pandemia é o que gostaríamos que fizessem sempre: consultar quem está na linha de frente das escolas, para que assim as decisões fossem mais condizentes com a realidade dos educandos.
Nós professores queremos sempre o melhor para cada estudante que passa pelas nossas vidas e não é uma tarefa fácil lidar com diferentes tipos de realidades de uma sala de aula, ao mesmo tempo em que é exatamente a singularidade de cada um que torna o ensino um desafio especial e único.
O mundo digital certamente é indispensável para que a aprendizagem aconteça de forma ainda mais completa e democrática, mas sem dúvida, a grande lição que podemos tirar neste momento de pandemia é a de que o professor é de fato insubstituível, seja em sala de aula, seja para um olhar ou palavra que acalenta quando tudo é incerto.
Sérgio Vaz diz que ‘é necessário o coração em chamas para manter os sonhos aquecidos. Acenda fogueiras’’. Nossa missão, em busca de uma educação pública justa e igualitária, passa pelas fogueiras que acendemos em cada aluno que consegue além de aprender, sonhar.
Autora: Eduarda Dal Pozzo, professora de Língua Portuguesa e Literatura, Graduada em Letras na UPF (Universidade de Passo Fundo).
Criamos uma sociedade extremamente consumista, de um materialismo sem nenhuma ética, para depois nos queixarmos da corrupção e da infelicidade.
O sucesso é a sereia do mundo moderno. Com seu canto repleto de promessas, nos atrai para as rochas da ansiedade e da depressão, afunda nosso barco de esperanças e observa enquanto nos afogamos em mágoas. Em seguida, nos devora aos poucos. Engolidos pelo desespero, lamentamos nossos fracassos, o quanto foram em vão os esforços.
O sucesso é um mendigo sonhando ser milionário.
É o pai de família remoendo o fato de não ser rico, ao mesmo tempo em que perde a oportunidade de dar atenção aos filhos. É a dona de casa reclamando por não poder comprar aquele aspirador de pó de última geração, deixando de lado a satisfação por ter uma casa.
É o milionário ressentido por perder alguns milhares, como se já não tivesse milhões – afinal, pouco importa o quanto se tenha, é preciso ter sempre mais.
A felicidade é fruto da aceitação, não de exigências. Não existe felicidade futura. Na verdade, tão pouco o futuro existe. Permanecemos imersos à dimensão absoluta do presente.
No entanto, o mundo nos incentiva, todos os dias, a querer mais, sempre mais. Devemos ser bons em tudo, caso contrário, ninguém nos amará e não seremos felizes.
Para os homens, não basta não ser obeso, é preciso ser musculoso. Ter um emprego do qual se goste é insuficiente, irrisório, a não ser que o salário seja muito bom.
Já as mulheres devem ser magras, sem estrias, celulite ou rugas.
Para a obesidade, há centenas de dietas, produtos milagrosos e academia. As gorduras localizadas podem ser resolvidas com lipoaspiração. Para as estrias, há laser e peeling. A celulite se resolve com cremes e massagens. As rugas, com botox.
Teremos, assim, o ideal “humano” deste tempo: um homem forte e financeiramente bem-sucedido, ao lado de uma mulher atraente. Com um pouco de sorte, eles poderão se casar, ter filhos e formar uma família “tradicional”.
Seria até interessante, se tudo não terminasse por aí. Mas, como já foi dito, o processo nunca tem fim. Depois de entrarmos na dança, somos proibidos de parar.
Não basta ter um veículo, é preciso comprar o carro do ano. Uma casa? Melhor uma mansão, de preferência com piscina. Pouco importa se a família quase nunca usa e o filho, nos fins de semana, cheira cocaína, para fugir do tédio.
Os pobres tão pouco escapam. Como enunciou o filósofo Epicuro, para ser feliz não é preciso muito: amigos, liberdade, reflexão, casa, comida e roupas.
Em todas as classes sociais somos incitados a lutar para ficarmos ricos, ou mais ricos, com o objetivo de consumir, não importando se, para tanto, percamos amigos, vendamos nossa liberdade ou, até, paremos de pensar.
Quanto mais perseguimos o ideal de riqueza da sociedade, mais ficamos pobres. A aparência talvez até vá bem, com suas lipoaspirações e afins. Os músculos talvez até pareçam fortes, talvez a carteira esteja cheia.
A alma, porém, muitas vezes agoniza.
Em seus outdoors gigantescos, o mundo não nos diz: cuide de sua alma, seja feliz, estude para a vida, seja criativo, experimente coisas novas, sorva arte, não tenha preconceitos, respeite as diferenças, seja humano.
Criamos uma sociedade extremamente consumista, de um materialismo sem nenhuma ética, para depois nos queixarmos da corrupção e da infelicidade.
Autor: Aleixo da Rosa
Proposta de atividade pedagógica
Esta sugestão de atividade foi elaborada para Oitavos Anos do Ensino Fundamental e para Ensino Médio.
No Ensino Fundamental, Oitavo Ano, Unidade temática: Ética. Objeto de conhecimento: Ética utilitarista (Maximização da felicidade/benefícios). Habilidades: Refletir filosoficamente situações morais e éticas presentes nas relações do homem em sociedade, para melhor pensar e criar saídas aos problemas cotidianos.
Questões para pensar:
Defina, em poucas palavras, o que é “sucesso”.
Defina, em poucas palavras, o que é “felicidade”.
Cite três principais diferenças entre “sucesso” e “felicidade”.
O texto apresenta uma definição para “sucesso” e uma definição para “felicidade”. Identifique-as e compare-as com as suas definições.
Para ter sucesso, alguém depende unicamente de seu próprio esforço ou há outros fatores envolvidos?
A felicidade depende ou independe do sucesso? Justifique.
Sobre o livro “Desejo de status”, do filósofo Alain de Botton.
Nestes mais 100 dias de pandemia, o nosso rosto humano de professores e professoras se transformou em cara de tela de celular ou de computador. Não saímos mais da frente das telas e entramos no mundo onde vale a imagem.
Há mais de três meses vivemos sob muita tensão, vulnerabilidade, incertezas, medo e insegurança devido a doença da COVID-19. A vida da humanidade mudou. A vida dos professores e das professoras mudou!
A necessidade de ter que se reinventar em sua prática de uma hora para outra, a exigência e urgência de aprender novas metodologias através do uso da tecnologia, o isolamento social que não permite compartilhar planejamentos e dialogar com colegas na escola, a expectativa de ser esteio para estudantes e famílias são algumas das mudanças que vieram sem pedir licença e para as quais precisam ser dadas respostas!
Essas mudanças trouxeram consigo sentimentos talvez nunca sentidos, como ansiedade, stress, exaustão, insônia… estão afetando a saúde socioemocional de docentes.
Buscar um suporte para enfrentar a crise pessoal e social é fundamental! Aí entra a espiritualidade, como uma estratégia de enfrentamento da crise.
A espiritualidade é a busca inerente de cada pessoa por sentido e propósitos para a vida, conectando-se consigo mesma, com os outros e com o que lhe é significativo e sagrado. Esse significado pode ser encontrado na religião, na relação com uma figura divina ou com a transcendência, pode ser encontrado nas relações com as outras pessoas, mas também pode ser encontrada na natureza, na arte e no pensamento racional.
André Droogers – professor de Antropologia da Religião na Universidade Livre de Amsterdam, diz que definir “espiritualidade é como comer sopa com garfo: a gente nunca termina e fica o tempo todo com fome”.
Para Droogers, espiritualidade tem a ver com experiência, atitude, comportamento, e não tem como ser estudada através de métodos e teorias. Espiritualidade é maior que religião, pois religião é cultural, enquanto que a espiritualidade é algo humano.
Há uma grande oferta de espiritualidade fora do campo religioso, como na mídia, ambiente empresarial, movimentos ecológicos, movimentos exotéricos, autoajuda… Isso surgiu com a chamada modernidade líquida, da qual fala muito bem o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Bauman descreve o líquido como algo fluido, que não mantem a sua forma, que se move facilmente, escorre, transborda, vaza. Bauman usa “fluidez” ou “liquidez” como metáforas adequadas para falar da história da modernidade, tanto da vida das pessoas como da vida das instituições. E Bauman explica que a modernidade líquida é o oposto à modernidade sólida.
A modernidade sólida está associada aos conceitos de comunidade e laços de identificação entre as pessoas, dando a ideia de perenidade e sensação de segurança. Na era sólida, os valores se transformavam em ritmo lento e previsível. Isso possibilitava algumas certezas e a sensação de controle sobre o mundo – sobre a natureza, a tecnologia, a economia, por exemplo.
Mas acontecimentos da segunda metade do século XX, como a instabilidade econômica mundial, o surgimento de novas tecnologias e a globalização, contribuíram para a modernidade líquida. A perda da ideia de controle sobre os processos do mundo e a mudanças constantes, trouxeram incertezas quanto a capacidade do ser humano se adequar aos novos padrões sociais, criando relações sociais, econômicas e de produção frágeis, fugazes, líquidas.
Se Bauman vivesse hoje, é provável que acrescentaria a pandemia como mais uma das razões para tornar a sociedade líquida! Pois, com a pandemia, parece que nosso mundo ficou menor, ficou mais conhecido, países ficaram “despidos” em suas realidades humanas, as relações ficaram mais instáveis e voláteis.
Apesar de toda evolução tecnológica e científica, temos dificuldade em nos entendermos, não temos certezas de nada, não conseguimos descobrir uma vacina mais rápido que a doença se modifica e evolui. Continuamos sendo individualistas (cada um reza pedindo que Deus cuide de si e de sua família), sempre temos respostas melhores que o outro, temos uma dificuldade de ouvir, admitir e sentir empatia pela outra pessoa!
Nestes mais 100 dias de pandemia, o nosso rosto humano de professores e professoras se transformou em cara de tela de celular ou de computador. Não saímos mais da frente das telas e entramos no mundo onde vale a imagem.
As aulas precisam ser sempre mais criativas, os noticiários precisam trazer sempre mais imagens sensacionalistas, as pessoas fotografam catástrofes ao invés de ajudar as pessoas que estão nelas. Um exemplo recente é George Floyd – várias pessoas ficaram assistindo e fotografando os policiais ajoelhados sobre o pescoço de George, enquanto este implorava por respirar. Enfim, a imagem é a maior experiência.
E a espiritualidade??? Ela pode nos auxiliar no equilíbrio da nossa vida? Ainda há espaço para a espiritualidade?
Se a espiritualidade significa DAR SENTIDO À VIDA, ela pode ser a aquisição do celular mais caro, do curso de tecnologia que vou fazer, do carro do ano, do guarda roupa repleto das roupas da moda, das viagens para os lugares mais extraordinários do mundo. Que sentido de vida é esse? Um sentido banalizado, de aparência, líquido! Que se pode perder a qualquer instante, como a fumaça se desvanece no ar!
Mas a espiritualidade, como SENTIDO PARA A VIDA, também pode estar presente na simbologia e nos ritos do cotidiano, onde os dois mundos, o espiritual e o material, andam juntos, como por exemplo a formatura em um curso, o casamento, a crisma do filho, o batismo da filha, a gravação de um CD ou participação em um trabalho voluntário.
Nestes exemplos acima citados, os dois mundos, o espiritual e o material, tentam se complementar. Mas também podem entrar em choque, pois os ritos podem significar somente uma catarse, se tornando uma espiritualidade ingênua, efêmera. Pensando nos ritos cristãos, se estes não estabelecerem compromissos, se tornam somente uma fé infantilizada, uma religião mais de direitos do que de deveres.
Na medida em que a nossa vida, no sentido se estar VIVO, entra em crise, como a que estamos passando com esta pandemia, é possível entrarmos num profundo processo de crise espiritual. Por quê? Porque as concepções de espiritualidade que serviam de orientação não servem mais! As certezas se tornaram pó! De nada adianta ter o melhor carro do mundo, estar conectado com o mais potente celular, ter planejado a maior festa de casamento já vista, se nada disso podemos realizar!!!! Estamos confinados! Precisamos cuidar da nossa saúde e da saúde de quem está próximo.
Em qual espiritualidade então devemos nos agarrar?
A teóloga, filósofa e religiosa Agostiniana Ivone Gebara sugere que não há só uma única solução para a crise. Há várias. Tudo depende de quais deuses seguimos, a quais deuses prestamos obediência. Neste tempo da pandemia, a concorrência e a “luta dos deuses” aumentou! Cabe refletir a que Deus queremos seguir. Em que queremos colocar nosso sentido de vida.
A chave da virada, que dá sentido à vida – sua, minha, de nossos estudantes, é a CHAVE das competências, habilidades, atitudes, valores e espiritualidade. É hora de olhar para dentro de si mesmo e rever as principais competências necessárias para este momento, as habilidades que precisa para enfrentar as crises, as atitudes que precisa tomar perante a pandemia, os valores que lhe são fundamentais e a espiritualidade que vai nutrir e dar sentido à sua vida. Para isso, é bom observar algumas dimensões:
Dimensão da Alegria – alegrar-se com as pequenas coisas do dia a dia, com os resultados, com os sorrisos…
Dimensão do Tempo – dar um tempo para si, para refletir, para desenvolver-se como pessoa e profissional.
Dimensão do Cuidado – cuidar de sua saúde, cuidar e amar as pessoas com as quais convivemos, cuidar da natureza, fazer boas ações.
Dimensão da Esperança – o/a professor/a é um ser da esperança, do verbo esperançar, por isso, não deixa de semear.
Milhares de pessoas estão morrendo de COVID-19, mas as que ficam tem a oportunidade de refletir sobre a intensidade com que querem viver enquanto estão aqui! Por isso, conforme as palavras de Martin Lutero, “Se o mundo acabasse amanhã, ainda hoje eu plantaria uma macieira”.
Esta reflexão é fruto de participação em Painel Virtual “Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes, em tempos de pandemia” realizado pelo CONER Passo Fundo, em parceria com a Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo e Sétima Coordenadoria Regional de Educação. Este painel fez parte também da Semana de Formação dos professores da rede municipal de Passo Fundo.
Autora: Profª Ma. Joni Roloff Schneider Licenciatura em Teologia – Educação Cristã (Escola Superior de Teologia – São Leopoldo); Licenciatura em Artes (FEEVALE); Pós-Graduação em Psicopedagogia (FEEVALE), Mestrado em Educação e Religião (Escola Superior de Teologia – São Leopoldo).
Permita-se rir e conhecer outros corações. Aprenda a viver, aprenda a amar as pessoas com solidariedade, aprenda a fazer coisas boas, aprenda a ajudar os outros, aprenda a viver sua própria vida. (Mário Quintana)
Meus Caros, escrever é uma terapia extraordinária. Dispensa terapeuta, e faz bem a todos, de modo especial aos orientados a ficar em casa. Enquanto escrevemos, nos mantemos focados na construção da palavra e do pensamento que se quer comunicar às pessoas, ainda desconhecidas. Quando intercalamos a escrita com outras tarefas do cotidiano, continuamos a pensar qual a palavra adequada para formular o próximo parágrafo.
Vejam bem, nestes estágios de elaboração, as preocupações, angústias, medos, inseguranças não tem espaços, ou são minimizadas porque estamos ocupados com o ato de pensar, criar, bordar as páginas com as letras. Desta forma, ficamos bem ocupados, e intencionalmente focados. Para quem deve e pode manter-se no isolamento, eis uma sugestão, experimentada no exercício da disciplina consciente.
Se esta carta, for útil para os militantes do Movimentos Sociais, cuja tarefa, neste momento, é de organizar a prática de uma solidariedade capaz de tornar-se uma Pedagogia da Solidariedade,que venha configurar o modo humano de ser, movendo-se ao encontro das pessoas que aguardam os alimentos para saciar a fome de pão e de beleza, tanto melhor.
Pleno de sabedoria pedagógica, Paulo Freire prestava muita atenção às intuições. Quando se via movido por elas, escrevia, sem parar, com o próprio punho. Elas são o início do conhecimento que liberta, do pensar certo, dizia ele, porque inspiradas na prática. Neste momento, em que me encontro também “em casa”, sinto o dever de manter-me conectada com os que sofrem, lendo o que ocorre no mundo, construindo arte, ouvindo pessoas, preparando meu próprio alimento, orgânico, recebido dos assentamentos. Por isso também tenho tempo para vos escrever, com o propósito de dar força àqueles que buscam sair de si, da sua zona de conforto, indo ao encontro solidário do outro, porque a fome não espera.
Vamos precisar de todo mundo
Então, nossa intenção aqui é pensar sobre o grande desafio a que somos chamados a dar resposta, neste momento de Pandemia, cuja rapidez alcança 64 mil óbitos no Brasil, fora os subnotificados, deixando rastros de miséria, desemprego, fome e muita dor no mundo inteiro. Precisamos estranhar, mas procurar entender a descrença de pessoas que não entenderam ou negam a gravidade deste momento, e por isso se desobrigam de cuidar de si e dos outros. Lamentamos, no entanto, os maus exemplos vindos de autoridades que autorizam pessoas a mergulhar na descrença, negando a gravidade gerada pela Pandemia.
As pesquisas científicas são evidentes É uma doença, cuja face é desconhecida, porque avança rapidamente para todas as direções, ceifando vidas, nos dando avisos para que repensemos os erros cometidos nas últimas décadas, tais como: Desrespeito total ao meio ambiente, agressão aos diferentes ecossistemas, desmatamento das florestas, envenenamento das águas, dos animais, e especialmente da Mãe Terra. E no meio urbano, admitindo a criação de grandes conglomerados de pessoas, sem as condições mínimas de acesso e vida digna.
Meus caros, temos ouvido falar muito de solidariedade desde que a Pandemia alcançou o mundo, levando vidas de todas as condições sociais, raças e idades, sem nos dar o direito ao menos de nos despedirmos de seus corpos. É tudo muito triste. Contudo, não podemos focar na tristeza e na desesperança. Tudo vai passar.
A vida humana clama por justiça, por solidariedade, por amor ao próximo, valores esquecidos, camuflados pelo capitalismo explorador. Mas de qual solidariedade estamos nos referindo? Obviamente, da solidariedade que brota dos pobres, tanto na capacidade de dar quanto de recebe. Da solidariedade que rompe as cercas e os muros, que abre as portas e supera divisórios entre os que tem e os que não tem.
Vejamos bem, não tratamos aqui das ações feitas por entidades e/ou pessoas físicas, que por décadas, acumularam e exploraram vidas humanas. Ou porque alcançaram profissões e cargos, cujos salários ultrapassam os limites da ética e da justa partilha. Chama nossa atenção como os Meios de Comunicação, anunciam diariamente estes feitos, omitindo ao mesmo tempo belíssimos e verdadeiros exemplos de solidariedade, cuja visibilidade multiplicaria ações semelhantes.
Sabemos, no entanto, o lado dos canais televisivos, por isso, esperam credibilidade e audiência pública, porque comprometidos com a classe dominante à qual servem. Por isso o conceito de solidariedade disputada por eles, se fundamenta na doação que pacifica, levando o outro a dependência, a acomodação, à espera da pura espera vã. Uma solidariedade que desautoriza organizar a luta coletiva, e a construir práticas sociais, conscientes e organizadas. Uma solidariedade que cega as pessoas, sem ver alguma possibilidade de libertação. Sendo assim, os MC são impelidos a dar maior divulgação, a doações e a doadores, cujo interesse subjacente deseja que a mão direita saiba o que faz a esquerda.
Exemplos temos de sobra
A Solidariedade como imensurável valor humano, é recorrente na história da humanidade. Os quatro evangelistas guardam narrativas acerca de milagres feitos por Jesus. Como exemplo trazemos a multiplicação dos pães e peixes, porque ali havia fome entre as pessoas. Assim que atenderam ao apelo de Jesus para que se organizassem em pequenos grupos, tudo mudou. O milagre realizado por Jesus não foi a magia da multiplicação, mas o ter sensibilizado as pessoas a se importarem com a fome do outro e ter desafiado as mesmas a partilhar o pouco que tinham, abençoando esse gesto e fazendo compreender a importância de organizar-se em pequenos grupos para distribuir a todos o pão e o peixe colocados em comum.
A solidariedade humana por excelência encontramos em São Francisco de Assis/Itália, no século XIII. Ainda muito jovem, Francisco, contesta e deixa o conforto, a riqueza da casa paterna, e vai morar/viver, solidariamente com os leprosos, condenados a viver fora dos muros de Assis, porque portadores de uma doença contagiosa e incurável.
Francisco foi solidário com os mais frágeis, sabendo que o “horizonte mais próximo do leproso é a morte”, porque ela se aproxima à medida que assiste a morte do outro. Francisco lhes fazia companhia, tratava suas feridas, conversava, escutava. E de vez em quando voltava rapidamente para casa paterna, ocupando-se de buscar alimentos para levar aos leprosos. Ele mesmo diz em seu Testamento que fez misericórdia com eles, o que pode ser traduzido atualmente por praticar a solidariedade. Para Francisco de Assis, esse gesto solidário trouxe não só conforto e alivio aos leprosos, mas modificou a vida dele. Ele mesmo se tornou mais humano. Olhando hoje para a ações de partilha que os Movimentos Socias estão fazendo, é visível que a solidariedade humaniza quem a pratica e quem a recebe.
Outro exemplo de verdadeira solidariedade encontramos em Che Guevara, argentino de origem, médico de formação, que por um tempo escolheu Cuba para pensar as estratégias da revolução. Colocou sua vida a serviço da luta por justiça e liberdade, alimentou a mística e amor a humanidade de qualquer parte do mundo. Estimulou e deu exemplos de solidariedade, na construção de casas, nas colheitas, em mutirões de limpeza, prestando atenção e medicando os feridos na luta. Seus gestos foram tão fortes, que brigadas de solidariedade são organizadas até hoje no mundo inteiro. Era convicto de que se vive com mais dignidade quando se tem em mente a solidariedade.
É de Che esta frase: “Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um revolucionário”. E a isto eu acrescento: haverá maior injustiça cometida contra um ser humano, do que negar-lhe solidariedade na partilha do pão e no cuidado da vida?
Neste sentido, destacamos a solidariedade dos mais de mil e duzentos médicos cubanos prestando serviço em vinte e um países, buscando salvar vidas alcançadas pela Pandemia. A solidariedade destes médicos permanece ao longo dos anos, porque sua formação leva em conta a vida das pessoas. Não está ligada ao mercado, mas a sentimentos humanos. Se estivessem hoje, no Brasil, quantas vidas poderiam salvar!
Não há formas de mensurar a solidariedade encarnada na missão de Madre Tereza de Calcutá/Indiana, também chamada de Santa das Sarjetas; em Santa Dulce dos Pobres/brasileira, entre outros.
Quanta solidariedade se concretiza no encontro cotidiano de Frei David, do Pe. Júlio Lancellotti com os moradores de rua de São Paulo e Rio de Janeiro, assistindo aos donos dos hotéis se recusarem a acolher este povo em plena Pandemia. E ainda tendo que ouvir Bia Doria, esposa do governador dizer: “não se pode levar marmitas e cobertores aos moradores de rua. Eles precisam assumir alguma responsabilidade, e sair da rua. A vida para eles é cômoda, e sempre querem mais”. Sem dúvida, estas palavras revelam uma mulher de postura perversa, maldosa, que não guarda um fio sequer de compaixão pela humanidade. Pessoas que pensam deste modo, porque sua alma é corrupta, ignoram que os leprosos do século XIII estão de volta às ruas de São Paulo.
Para o capital, o valor está no lucro, como diz Guedes, Ministro da Economia, que ridiculariza a solidariedade e compaixão em suas falácias. Para estes e estas, os pobres podem morrer na rua, de fome, de frio, sem medicamentos, sem poder respirar. Sabem estes homens e mulheres que a partilha é um gesto obrigatório do ser humano e do ser cristão?
Com um olhar focado na atualidade, temos o Papa Francisco, cuja prática evangélica de solidariedade é viva e profundamente coerente, capaz de ser admirado também por alguns poderosos. Um Francisco, que reza sozinho na Basílica de Roma, emocionado, solidário com as famílias dos entes queridos do mundo inteiro, ceifados pela Pandemia.
Com coração solidário e partido de dor, se importa com as famílias amazonenses, em luto, com as vítimas de São Paulo, territórios onde a Pandemia chegou para ceifar muitas vidas, incluindo os povos indígenas, ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, pescadores. Estas são pessoas humanas que vivem do que a floresta e as águas lhes oferecem, sem explorar e envenenar a natureza. Obviamente, é notável que nestes territórios as políticas públicas de saúde e saneamento básico estão ausentes. Por isto também se percebe o avanço rápido da contaminação da doença.
Outra referência neste sentido para nós, é o educador Paulo Freire. Um homem sensível, aberto para o mudo, desde cedo cultivou a solidariedade, distanciada e desatrelada do assistencialismo.
Ao escrever Pedagogia do Oprimido, nos deixou um legado, regado de solidariedade para com os oprimidos, cuja miséria, machuca, fere a dignidade humana. Solidário com dor e humilhação geradas pela opressão, nos alertou para não nos iludirmos de que para sair da condição de opressão basta mover-se para o lugar do opressor. Grande engano. Trocando de papéis, nada muda, ninguém se liberta. Somente a conscientização e a consequente mudança de práxis, sem vingança, nos libertará do vírus do ódio que habita, tanto o opressor quanto o oprimido. Paulo Freire fazia tudo imbuído de amor e teimosa luta pela solidariedade. Há indícios de que a cura e o perdão vêm pelos atos solidários.
Obviamente, exemplos de solidariedade não nos faltam no decorrer de séculos da história. A Pandemia veio para nos fazer lembrar do que nossa memória deixou no esquecimento. E que não pode ser assim entre os humanos. Por isso aqui o desafio é construirmos uma Pedagogia da Solidariedade, que nos liberte da opressão, geradora de outras opressões, fome, desemprego, miséria, preconceito. Sabemos que a fome da pandemia não espera, não deixa dormir aqueles que se importam com as vidas humanas.
Sem dúvida, o medo da Pandemia vivido nos últimos meses, sem alguma certeza do tempo e espaço que vai tomar em nossas vidas, nos provoca a uma solidariedade mais radical, organizada, consciente e responsável. Para fazer frente a esta realidade, vamos precisar de todo mundo, para organizarmos uma Solidariedade fortalecedora, transformadora, de compromisso e empatia com o outro. E que não seja passageira, vulnerável, vivida apenas nestes momentos de desesperos.
Concretamente as partilhas, precisam ser transformadas em práticas sociais permanentes, de forma a evitar as relações de dependência e assistencialismo. Ou seja, uma Solidariedade que venha configurar o modo humano de ser, tal qual a relação de Francisco de Assis com os leprosos do seu tempo histórico.
Já é sabido entre nós, de que o clamor de quem sequer tem sabão para lavar as mãos para evitar o contágio, também não terá comida para saciar a fome, 3 vezes ao dia. E nem água para banhar-se e lavar suas roupas. Acredito que o sábio pensamento pode nos ajudar a avançar na reflexão: “Ninguém é tão pobre que não tenha nada a doar, e ninguém é tão rico que não tenha nada a receber”.
Quem não partilha, não aprendeu a ser cristão
Desde uma prática concreta de partilha dos frutos da terra que plantamos e colhemos em nossos assentamentos da Reforma Agrária, em todas as estações, nos desafiamos a construir uma Pedagogia da Solidariedade, que venha agregar todos aqueles e aquelas que respeitam a vida como valor a ser cuidado. Neste momento precisamos compreender que são os belos gestos de solidariedade que Deus abençoará generosamente. Contudo, o desafio é atual e urgente. De forma alguma podemos esperar para fazer amanhã, tudo aquilo que podemos fazer hoje.
Dado o apelo da realidade emergencial, assustadora, vivenciada por todos nós a cada dia, por conta da Pandemia, é notável os gestos de solidariedade grandiosos. Estes se multiplicam, interligando pessoas que tem para doar e as que tem necessidades de receber.
Por conta da fome que se instala entre as famílias pobres, desprovidas de direitos, sem acesso a políticas públicas, nas comunidades periféricas urbanas, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, criado em 1984, presente em 24 estados do Brasil, com 2 milhões e quinhentos mil pessoas assentadas, está empenhado em ações de solidariedade. De forma organizada, elas incluem a elaboração teórica desta experiência prática que ser quer alimentar e forjar multidões a se engajar neste grande mutirão. Tendo presente esta realidade, alimentos colhidos nos assentamentos, como: feijão, arroz, batata, mandioca, abóbora, banana, café, açúcar, e outras, são levadas às famílias que passam fome, porque não podem sair de casa para trabalhar. Junto levam livros, porque a falta de cultura também provoca fome entre essas pessoas.
O registro em vídeo tem sido um meio de comunicação ao alcance de nossas mãos, embora ainda não ao alcance das famílias carentes. Estes circulam rapidamente, dando visibilidade a diferentes práticas coletivas, ações de solidariedade, que podem ser traduzidas como um curto filme. Um filme colorido, onde podemos ver a quantidade de alimentos coloridos, as casas, a igreja, o pavilhão, a escola, e as pessoas em movimento, colhendo, organizando e entregando as cestas básicas nas periferias. Podemos ouvir ali sua palavra e captamos sua emoção, ao dizer: nós fomos acampados, nós conquistamos a terra, plantamos, e hoje colhemos. E assim temos alimentos para doar.
Num vídeo recente – O que é solidariedade para você, ouvido por mim várias vezes, sintetizei o seguinte: A solidariedade está nos fundamentos da nossa vida social, ela é popular. Nossas ações organizam as doações de alimentos, por isso, em poucos dias, 25 mil litros de leite, 50 mil marmitas e 22 mil cestas básicas foram partilhadas em diferentes estados do Brasil. Nestas cestas também vão livros.
Para quem viveu a morte, o luto e a dor mais profunda, vendo tantos assassinatos no campo, aprendeu a transformar o luto em luta, e fará assim quantos anos forem necessários. Mas não só isso, a luta pela Reforma Agrária Popular, emergencial, incentivando a plantação de alimentos em torno das grandes cidades, é um projeto de curto e médio prazo que o MST está propondo. Pela sua experiência de cultivar a terra para o bem de todos, o Movimento tem método, braços e força humana para fazer acontecer.
Em outro vídeo, revelador da prática da solidariedade, no Paraná, uma assentada nos diz:
Há dois anos atrás, nós fomos despejados do assentamento, perdemos tudo, ficamos sem nada. Fomos morar na casa dos outros. Hoje estamos de volta, reconstruímos nossa casinha, e toda a plantação. Temos o pão de cada dia na mesa. Temos nossa igreja, pavilhão. Por isso eu sempre digo para as autoridades: o agricultor tem que ficar na terra, e daqui tirar o alimento. Não pode ir para a cidade. Tem que ter fé e paciência, agora nós podemos ajudar a quem não tem.
Estes assentados entenderam o valor daquele ato na presença de Jesus, que apelou para a solidariedade da partilha dos pães e peixes. Entenderam como é importante organizar a partilha, para que todos possam se alimentar.
Nesta perspectiva, partindo do pressuposto de que a Partilha vence a avareza daqueles que tem apego excessivo ao dinheiro e a riqueza, com esta experiência de partilha, os assentados abraçaram o leproso, sem medo, com todos protocolos da saúde, porque a solidariedade é maior, e as vidas precisam ser preservadas.
Sou testemunha de que diariamente, os sem-terra, se alimentam bem, com alimentos saudáveis. Muitas vezes sentei à mesa, com famílias assentadas. E tudo ali era farto. E hoje, atendendo ao apelo da fome gerada pela exclusão social, agravada com a Pandemia, seu excedente se transforma em partilha para outras pessoas que não tem. Assim exercitam a fé engajada, concretizada na solidariedade. Exercitam a paciência com os ciclos da natureza, com o tempo para preparar a terra, semear, regar, cultivar e colher. E exercitando a paciência impaciente, no dizer de Freire, pressionando as autoridades, eles reconquistaram o assentamento do qual foram despejados há dois anos atrás. Que lição de vida nos dão estes assentados! Portanto, não surpreende que venha deles estes gestos de solidariedade, porque a doação sempre vem de quem conhece o sofrimento e o valor da partilha. Esta é a matriz da solidariedade humana de que tratamos, solidariedade como princípio, como valor humano e espiritual.
Com certeza, a mulher assentada do depoimento acima, tem plena consciência da solidariedade que vai junto com os alimentos entregues às famílias, e que gestos de partilha como estes mudam o rosto de uma mãe que recebe uma sexta básica para alimentar seus filhos. Quanta alegria no rosto de uma mãe, que pode colocar alguns alimentos na sua dispensa, mesmo depois de ter ficado 24 horas na fila da CAIXA para receber 600,00?
Naturalmente, há uma boniteza implícita nas ações pedagógicas de solidariedade de entrega de alimentos as pessoas das periferias urbanas. Quem dá, dá com alegria, com gratidão de ter colhido aquele alimento da terra conquistada. Ao saciar a fome de pão de tantas pessoas, recuperam a fome de beleza, a dignidade humana, roubada pelo capitalismo. A quem recebe, alimenta um fôlego para enfrentar esse redemoinho de horror e de perversidade governamental, pelo qual passamos neste momento. Atitudes desumanas, sem uma palavra de solidariedade a tantas famílias alcançadas pele luto e pela dor da Pandemia.
Solidariedade faz brotar valores, que o capitalismo não cultiva
Neste sentido, é da natureza dos Movimentos Sociais perceber às injustiças e as desigualdades crescentes que assolam os povos do campo e da cidade, movendo-se em direção deles. Neste caso concreto de Pandemia, a falta das mínimas condições de vida digna, incluindo a ausência de políticas públicas de saúde, educação, moradia e saneamento básico, afetam diretamente as periferias urbanas, porque as pessoas ali são obrigadas a viver em barracos que não comportam vida digna. Por isso, desde o início da Pandemia estes Movimentos Socais do campo organizaram a Campanha PERIFERIA VIVA, que inclui diferentes demandas de atenção a esta periferia dos grandes centros urbanos. Uma iniciativa que vem organizar a solidariedade tão necessária neste momento, e que ser quer consolidar e permanecer como um valor humano entre nós.
Engajados neste projeto solidário, grupos de jovens militantes de vários Movimentos Sociais do Brasil, estão sendo preparados, formados para esta tarefa de solidariedade. Dispostos a colocar-se a caminho, sem grandes pretensões, a não ser, ir conversar com o outro, preparam sua mochila com palavras, comida, livros, expectativas, esperança, solidariedade, sensibilidade para escutar o outro. Estão indo ao encontro, provavelmente de muitas pessoas contaminadas, leprosas de Assis, século XIII, cujo rosto é visto em pleno século XXI, nas vítimas da Pandemia aqui no Brasil.
São estes acontecimentos que voltam a questionar o comportamento do capital, gerador de exclusão social. Tomando todos os cuidados e protocolos de saúde, estes jovens militantes partem ao encontro do outro, porque a vida deste outro, importa. Saber Cuidar de si e dos outros, no aspecto físico e emocional, é condição humana para vivermos longo tempo.
Vejam o desafio desta juventude não é pequeno. Ao final de cada cotidiano, se desafiam ao registro fiel, sem julgamento, acerca do que viram, ouviram e sentiram, identificando os apelos para o dia seguinte. Ressalto aqui com veemência.
Este registro lhes guarda um viável e primoroso processo de sistematização desta experiência, germe de uma Solidariedade que se faz Pedagogia. Portanto, uma solidariedade que vem acompanhada de razões para permanecer, tornando-se uma prática social recorrente. Estas práticas concretizam a ideia de que a terra, se cultivada e cuidada, produzirá os frutos necessários para alimentar as pessoas do campo e da cidade. Por isso a terra, de forma alguma, poderia ser objetivo de comércio e de especulação pelo latifúndio. Se a terra é mãe, mãe não se troca, não se vende. Ela é mãe. Se respeitada, bem cuidada, cultivada, nos dará o alimento de que precisamos para viver.
Queridos jovens militantes. Não temos dúvidas de que vocês farão um trabalho pedagógico, formador, extraordinário. Será uma experiência singular, de aprender a amar as pessoas com solidariedade, colocando-se frente a frente, sentindo o seu cheiro, olhando nos seus olhos, já que a máscara impede de ver o rosto inteiro. Procurem ler o que os olhos deste povo vos dizem.
Escrevam no diário de campo como é olhar para o outro, e como ele olha para vocês. E qual o sentimento brota em vocês pelo fato de estar ali, com o negro, pobre, LGBT, faminto, doente, em nome de uma Organização Social. Podendo, ao final do dia, voltar para casa, sentar-se à mesa, e alimentar-se.
Sem a pretensão de me alongar, esta ida à periferia, ao encontro do outro, será para vocês uma oportunidade de formação humana, não encontrada em nenhuma escola formal, nenhum curso, muito menos a quem alcança a Universidade, ainda tão longe da vida real das pessoas. Estas instituições, viciadas e controladas, se prestam muito mais para a educação e ensino, comprometido com a hegemonia do capital.
O espaço, o lugar em que vocês irão atuar, está livre das cercas, dos muros, do controle, dos preconceitos, de cor, de gênero, de classe social. Deixem-se encharcar de vida humana, de princípios e valores que nenhum vendaval leva. E que a lama de Mariana e de Brumadinho, não enterra.
Cora Coralina, na sua simplicidade e sabedoria nos disse certa vez:
“O saber a gente aprende com os livros. A sabedoria se aprende é com a vida, e com os humildes”.
Grande e fraterno abraço, Porto Alegre, 07 de julho, 2020
Conhecemos religiosos católicos por sua atuação pastoral, com engajamento social. Este engajamento social, que permeia a atuação em temas da sociedade, não significa uma atuação política vinculada a partidos ou organizações da sociedade. A Igreja Católica tem a Doutrina Social, que é fruto de vários documentos e registros que a mesma vem fazendo ao longo da sua história, em especial, em recente período histórico.
Ari Antonio Reis é sacerdote diocesano; já prestou vários serviços de assessoria e acompanhamento de pastorais sociais. Em sua entrevista exclusiva ao site, poderemos conhecer um pouco melhor a concepção e a orientação que a Igreja Católica Apostólica Romana tem para os temas sociais da atualidade.
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SITE NEIPIES: Quando e como surgiu seu desejo de servir a Cristo e a sua Igreja?
PADRE ARI: Sou de uma família católica de profunda vivencia comunitária. Acostumei-me, quando criança e adolescente, a acompanhar minha mãe e irmãos nas missas e atividades comunitárias. Também fui motivado a participar do Grupo de Jovens, muito incentivado na época.
Acredito que estes elementos contribuíram para o nascimento da vocação à vida presbiteral. Outro fato que ajudou foi a existência, na comunidade (São Sebastião – Vila Rica – Carazinho), de um grupo de apoio às vocações chamado “os pescadores”. Ali crianças e adolescentes eram orientados de diferentes maneiras sobre as diversas possibilidades de seguimento de Jesus Cristo.
Naquela época esta atividade comunitária favorecia muito o amadurecimento da fé e também outras possibilidades de serviço à comunidade. Muitas catequistas e lideranças que contribuem na missão evangelizadora foram formadas neste grupo. Minha vocação nasceu do ambiente familiar e também deste apoio comunitário, completado pela atuação no Grupo de Jovens.
SITE NEIPIES: O que mais realiza e desafia como padre, como religioso?
PADRE ARI: Nossa missão é muito bonita. Diria que é o encontro da vontade humana com a graça divina. Somos frágeis e limitados, mas Deus conta conosco na sua obra. Me realizo no acompanhamento da vida da comunidade nos diferentes momentos, ao perceber os passos que são dados.
Gosto muito de dar aulas e esta vocação nasceu junto com o ministério presbiteral. Cada aula, palestra ou assessoria que você prepara, está se enriquecendo antes de partilhar conhecimento com as outras pessoas. Isto é muito bom porque vai abrindo os horizontes. Vivo esta graça de ser responsável por uma comunidade católica de contribuir na Faculdade de Teologia.
Os tempos atuais são desafiadores, mas cada época apresenta ao ser humano desafios próprios do contexto. É importante interpretar estes desafios e trabalhar com eles. Vejo três desafios nestes tempos: o primeiro está no senso comunitário que hoje está tremendamente influenciado pela cultura do individualismo exacerbado; o segundo desafio está na formação de pessoas em nível eclesial com extensão para a sociedade para uma cultura da solidariedade e busca do bem comum; o terceiro está no trabalho com a juventude o que exige que os compreendamos como protagonistas de suas vidas e agir social.
SITE NEIPIES:Padre Zezinho, em suas redes sociais, afirma que a Igreja Católica atua com base em documentos e posicionamentos de sua Doutrina Social, que algumas pessoas confundem com posicionamentos políticos. Qual é a importância da Doutrina Social da Igreja e quais são seus fundamentos?
PADRE ARI: A Doutrina Social explicita o agir político da Igreja. Contudo, a Igreja não é partidária. O seu agir no mundo se dá em vista do bem comum.
Quando a Igreja se manifesta a partir das suas diferentes esferas, o faz pensando no bem da humanidade e em comunhão com a sua auto compreensão como Igreja de Jesus Cristo, aquele que passou no mundo fazendo o bem e quer que façamos o bem.
Partilho aqui alguns princípios que embasam o pensamento social da Igreja: a) a pessoa humana como fim de todo o agir político, econômico e social; b) a solidariedade como marca necessária do agir humano; c) o trabalho como caminho para a realização humana no agir transformador do mundo; e) a economia não é um fim em si mesma, é uma ciência voltada para o cuidado do ser humano; e) a verdadeira política está voltada para o bem comum.
SITE NEIPIES: Já tiveste atuação direta na assessoria e na concepção de algumas ações de pastoral social, como assessor da CNBB. Como a igreja católica organiza suas reflexões e quais ações propõe para abordar as questões sociais mais importantes de cada momento histórico?
PADRE ARI: A Igreja sempre se preocupou com as questões sociais, especialmente no cuidado para com os pobres. No documento de Aparecida está uma expressão que sintetiza o agir da Igreja no aspecto social. Ela compreende-se como advogada a justiça e defensora dos pobres diante das intoleráveis situações de desigualdade (DAp 395). Este compromisso é histórico e pautou, em primeiro lugar, a vida e missão de Jesus. Cuidar dos empobrecidos e fragilizados é essencial na Igreja que se diz seguidora de Jesus.
Na mesma conferência, acima mencionada, o Papa Bento XVI afirmou que a opção pelos pobres é intrínseca a fé cristã. Portanto, não é ação partidária deste ou daquele viés ideológico. É o exercício do essencial da fé cristã. Nesta perspectiva, a Igreja no Brasil tem, através das suas diferentes pastorais sociais, uma forma de agir estando atenta aos grupos mais fragilizados e ameaçados na sua existência e nos seus direitos. Ela é solidária e apoiadora nas suas reinvindicações por vida digna e plena.
SITE NEIPIES:Papa Francisco está afirmando um modo bem diferente de ser e de agir da Igreja, colocando desafios novos para todos os cristãos católicos no mundo. Qual é a importância de seu pontificado, neste momento da história da humanidade?
PADRE ARI: Logo que assumiu o pontificado, dizia-se que estava iniciando a primavera da Igreja. Realmente, viu-se a Igreja sair de uma posição defensiva para uma dimensão propositiva. Compreendo que o Papa Francisco tem mostrado que a Igreja tem algo propor para a humanidade. Faz isso embasada no seu amor pela humanidade.
Temos a graça de ver o Papa afirmando este princípio de diferentes formas e para diferentes públicos. Também lembro que o Papa Francisco tem exercido uma liderança incontestável em um momento em que o mundo está carente de líderes com propostas significativas para o bem da humanidade
Alegra-nos que o Papa é um líder Cristão e que convida a todos se encontrarem com Jesus, mas que acolhe outras experiências religiosas e as considera importantes. Esta tranquilidade em acolher o diferente, sem abrir mão a sua identidade e do que considera importante para a humanidade, é muito importante.
SITE NEIPIES: O que significa “uma Igreja em saída”?
PADRE ARI: A expressão “Igreja em saída” é profunda e têm consequências amplas no agir eclesial. Mas existe o risco de ser interpretada em uma forma muito simplista. Nas diversas vezes que o Papa usa a expressão, o faz no sentido da Igreja superar a auto referencialidade e se abrir para o mundo, na perspectiva do serviço, porque ficando fechada em si mesma corre o risco de adoecer. Na Exortação Evangellii Gaudium, fala em uma Igreja em saída da própria comodidade em direção às periferias que precisam da luz do Evangelho. A atitude de sair é desafiadora, contudo abre novos horizontes e permite olhar o mundo de um jeito diferenciado. Na saída, a Igreja se enriquece porque dá do que tem de melhor, a fé em Jesus Cristo.
SITE NEIPIES: Quais são hoje os maiores desafios da evangelização cristã?
PADRE ARI: A evangelização hoje tem como grande desafio o diálogo com a cultura urbana sem medo e na perspectiva propositiva. Neste sentido, a proposta das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, propostas até o ano 2023, sugerem uma série de iniciativas de encontro dialogando e evangelizadora com a cultura urbana.
Temos outro desafio em nível local, na cidade de Passo Fundo, que é uma presença mais qualificada e intensa nas periferias. Estamos dialogando com os colegas padres e agentes de pastoral sobre este desafio.
Outro desafio mais amplo é a superação de uma cultura de intolerância que nos leva a ver o outro que é diferente e pensa diferente como inimigo. Precisamos como sociedade avançar neste passo.
Lembro ainda, como consequência desta pandemia, a situação social que tende a se agravar. E, diante disso, está o compromisso de assumirmos a solidariedade organizada.
SITE NEIPIES: A Igreja materializa sua ação social por meio de Obras Sociais. Como elas são concebidas e qual é a sua importância para fortalecer os vínculos entre fé, vida e sociedade?
PADRE ARI: O cuidado com os necessitados é compromisso humano. A Igreja se esmera também neste compromisso porque é a sua identidade. A grande questão é como fazer. Tem a ver com o método, o caminho para superar as situações de ameaça a vida. Em alguns casos, precisa realmente assistir. Contudo, não é possível ficar neste nível porque não estaremos realmente contribuindo para que a pessoa necessitada dê um passo significativo na superação da sua condição. Neste caso, entra a dimensão transformadora. Mas não podemos deixar de questionar o fato de vivermos em uma sociedade historicamente injusta e desigual.
SITE NEIPIES: Como ser cristão engajado em causas sociais? Qual a relação entre Fé e Política?
PADRE ARI: Somos naturalmente pessoas políticas. O que fazemos, ou deixamos de fazer, é uma opção política. Contudo, existem diferentes níveis do agir político, que vão desde a articulação em associações até a militância em partidos. Tudo isto é legal e necessário quando se tem como finalidade o bem comum.
O Papa Francisco, replicando o Papa Pio XI, afirma que a política é a forma mais sublime de viver a caridade porque visa o bem comum. Então, o agir político nas diferentes esferas de participação, está em perfeita consonância com a fé cristã. E os cristãos são convidados ao engajamento social com espirito profético, com a prudência das serpentes e a simplicidade das pombas, como afirma Jesus no evangelho de Mateus.
SITE NEIPIES: O Senhor já trabalhou na Pastoral Afro da CNBB. Como a Igreja Católica aborda as questões das minorias étnicas e sociais?
PADRE ARI: Estas questões sempre foram muito caras a CNBB. No tempo que estive trabalhando lá, éramos seguidamente procurados pelos diferentes grupos. Sempre procurou-se trabalhar as mediações segundo as orientações da Doutrina Social da Igreja e em fidelidade ao evangelho. Cito, como exemplo atual, a proposta da 6ª Semana Social Brasileira que vai tratar dos temas: terra, teto e trabalho e como lema: mutirão pela vida: por terra, teto e trabalho. São dimensões estruturantes de uma vida digna e que a Igreja propõe para reflexão.
SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos que lêem esta entrevista.
PADRE ARI: Que possamos continuar buscando um mundo melhor. Nunca deixemos de ter esperança e nos processos de diálogo. Sejamos ousados na proposição, humildes no diálogo e persistentes no processo. Conjuguemos intensamente o verbo esperançar.
Maria Augusta D’Arienzo é professora de educação básica que há vários anos atua e trabalha com o uso de tecnologias na educação, dentro da universidade (UPF –Universidade de Passo Fundo) por meio da pesquisa como aluna do Curso de Doutorado em Educação e no Curso de Pedagogia como formadora de educadores, e na coordenação do PRISMA: Estação Cultural da Gare, espaço que trabalhará com a comunidade de Passo Fundo e região, e, especificamente, com professores e estudantes dos distintos níveis de ensino, promovendo o diálogo entre as distintas áreas do conhecimento, na perspectiva da interdisciplinaridade, ludicidade e do entretenimento, desenvolvendo um conceito amplo de cultura digital sustentado pelo trinômio educação-cultura-tecnologia.
O Brasil, na última década, vem discutindo a importância das redes de ensino fazer maior uso das tecnologias no processo de aprendizagem dos estudantes. O fato é que nem todas as redes de ensino, nem todos os professores e nem todos os estudantes estão vinculados a estas ferramentas ainda. Por que demoramos tanto? Por que ainda não incorporamos, de forma mais efetiva, as ferramentas tecnológicas nas práticas docentes como aliadas ao aprendizado no século XXI?
Maria Augusta é entusiasta da utilização das tecnologias nas salas de sala, sem desconsiderar o papel essencial de professores e educadores. Entende que as tecnologias são importantes ferramentas para facilitar, engajar e motivar nossos estudantes na construção de conhecimentos; tecnologias não são fim em si mesmas. Pela sua experiência e por suas convicções, esperamos que nos ajude a dar pistas para avançarmos, de forma consistente e qualificada, na utilização de tecnologias digitais no processo de ensino e de aprendizagem nas distintas redes de ensino.
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SITE NEIPIES:O que te realiza na profissão docente? O que te fez seguir a profissão professora?
MARIA AUGUSTA: Essa pergunta em final de semestre, certamente me remete a responder de forma emotiva. Final de semestre e de ano letivo é o momento de realização do educador, pois recebemos por parte de nossos estudantes o reconhecimento pelo compartilhamento de conhecimentos, pelos ensinamentos para além do currículo e pela transformação, a partir de nossa ação, em sujeitos capazes de ver o mundo pelos olhos da ciência, mas, também, com um olhar mais humano.
Quando estava na graduação, pasme, mas não sabia que seria professora, pensei que continuaria fazendo o que eu mais amava – jogando vôlei. Logo que me formei, passei no concurso para a rede municipal de ensino de Passo Fundo. Nesse momento, começa a minha transformação como pessoa e a minha construção como educadora. Foi na convivência com os meus estudantes que constitui a educadora que sou hoje, quantas aprendizagens…
A cada brilho nos olhos dos meus alunos, recebo a energia para continuar seguindo a profissão docente e transformando a experiência individual em uma experiência coletiva.
SITE NEIPIES: És uma estudiosa e uma entusiasta do uso de ferramentas tecnológicas na educação. Por quê?
MARIA AUGUSTA: Procuro desempenhar o meu papel como educadora a partir do olhar do educando, por isso sempre procurei acompanhar as transformações pelas quais as gerações foram passando. Estamos vivendo o século XXI, se quero preparar o sujeito para os desafios do futuro, preciso compreender que estamos em tempos de conexão permanente, imersos no mundo digital.
Nesse contexto, é função do educador não apenas utilizar equipamentos tecnológicos para tornar a aula mais atrativa e para esclarecer as exposições orais, mas sim, por meio de recursos digitais, tornar a aprendizagem mais significativa, desenvolvendo competências para a contemporaneidade, permitindo a interatividade, o papel ativo do estudante na construção de conhecimento. Dessa forma, não só inovar, mas criar propostas verdadeiramente relevantes para a aprendizagem e, consequentemente, para a melhoria da sociedade.
SITE NEIPIES: Qual é a importância dos jogos cooperativos e dos games para a aprendizagem nos dias atuais?
MARIA AUGUSTA: Para entender que os jogos tanto analógicos como digitais são importantes para a aprendizagem, é preciso reconhecer, primeiramente, que os jogos podem oferecer uma realidade melhor e mais imersiva, assim como possibilitam a solução real para problemas, além de serem fontes de diversão.
Aprender com os desenvolvedores de games acerca da otimização da experiência humana e da organização de comunidades colaborativas, e trazer esses benefícios para o sistema educacional. Para tanto, é imprescindível superar o preconceito cultural contra os jogos. A partir do reconhecimento do potencial dos jogos, tanto para tornar as pessoas mais felizes quanto para promover mudanças na realidade, o educador estará pronto para usufruir do jogo, do bom jogo para fazer da atividade difícil, que é o aprender, algo mais gratificante.
Os jogos são importantes para a aprendizagem porque aumentam a automotivação, despertam o interesse e a criatividade, trabalham o limite das habilidade, ativa emoções positivas, tornam o trabalho mais gratificante, possibilitam a visão de sucesso, a conectividade social, além de possibilitarem a transformação dos esforços para o aprendizado terem um significado verdadeiro.
SITE NEIPIES: Como explicar a afirmação: “jogos são longos, difíceis e complexos, mas ainda assim divertem”?
MARIA AUGUSTA: Para responder essa questão vou utilizar o que Steven Johnson afirma ao falar sobre o porquê os games cativam. Para compreender essa afirmação é preciso olhar para a cultura dos jogos pela lente da neurociência. Então, o poder dessa assertiva está relacionado à capacidade que os jogos têm de estimular os circuitos naturais do cérebro associados às recompensas. Os jogos oferecem ao jogador uma associação entre recompensa e exploração.
Deve-se observar não o que o jogador está pensando quando joga, mas de que maneira ele pensa. Fazendo um paralelo com a educação, é um engodo pensar que o sujeito aprende alguma coisa em específico em um momento determinado, mais significativo é o aprendizado colateral, isto é, a formação de comportamentos e atitudes constantes, de escolhas e de oposição, que são mais significativas do que um conteúdo de história, geografia, por exemplo. O jogo exige que o sujeito tome decisões, comparar indícios, analisar situações, consultar objetivos de longo prazo e assim decidir.
SITE NEIPIES: Quais são os princípios da aprendizagem que embasam o uso dos jogos e dos games na educação?
MARIA AUGUSTA: O que embasa o uso de jogos na educação é o método científico. Segundo, o pesquisador James Paul Gee, o jogador passa por um ciclo de “sondar, criar hipóteses, sondar de novo, repensar”. Ao explorar o ambiente e clicar em um comando ou executar determinada ação o jogador faz a sondagem do mundo virtual.
Quando o jogador analisa o significado de um texto, objeto, ação ele cria hipóteses. A partir do resultado obtido o jogador realiza a sondagem novamente considerando as hipóteses. Com base no efeito alcançado, o jogador aceita ou repensa sua hipóteses iniciais. Ao interagir com esses ambientes e executar o ciclo, o jogador estará aprendendo o conjunto de regras para desenvolver uma experiência, com o propósito de construir um novo conhecimento, entrando em contato com elementos básicos do método científico.
SITE NEIPIES: Qual é a diferença entre jogos e gamificação?
MARIA AUGUSTA: Os jogos são objetos lúdicos por natureza. A grande diferença entre jogos e gamificação está no local em que eles acontecem. Enquanto os jogos exigem do jogador o cumprimento de metas no mundo virtual, sem relação com o mundo real, a gamificação surge para estimular o engajamento e a motivação de estudantes em atividades escolares, ou seja, em um contexto de não jogo.
Gamificação significa trazer para a atividade da aprendizagem elementos que fazem parte do jogo, tais como: abstrações de conceitos e da realidade; objetivos; regras; conflito; competição e colaboração; tempo; estrutura de recompensa; feedback; níveis; narrativa. A gamificação surge como apropriação dos elementos do jogo, em contextos de não jogo, mas com o objetivo de promover a motivação e estimular o estudante para a resolução de problemas.
SITE NEIPIES: Na sua opinião, por que este momento da pandemia é propício para implantarmos, de vez, o uso das diferentes ferramentas tecnológicas na educação? Por que demoramos tanto no Brasil a assimilarmos esta ideia?
MARIA AUGUSTA: As discussões acerca da inserção da educação na cultura digital acontecem há mais de uma década, porém necessitou-se de um apagão no modelo tradicional de educação para que os profissionais gestores, professores, e, também, pais e alunos vivenciassem experiências educacionais por meio de tecnologias e ferramentas digitais.
Percebe-se que há um equívoco no pensamento quanto ao uso de tecnologias digitais na educação, pois o professor não será substituído por elas, pelo contrário terá elas como aliadas ao trabalho pedagógico para facilitar o desenvolvimento do processo de ensino e de aprendizagem dos sujeitos do século XXI.
Que esse momento de descobrimento e experimentação sirva para mostrar a sociedade que a tecnologia digital pode despertar o interesse e prender a atenção dos estudantes, além de auxiliar na percepção e na solução de problemas reais, inserindo crianças e jovens no debate social contribuindo para a formação do pensamento crítico, por meio do uso responsável da internet e dos recursos digitais. Também, democratiza o acesso ao ensino, oferecendo feedback imediato e constante entre educadores, estudantes e responsáveis, e, por fim, permite personalizar o ensino de acordo com as especificidades da turma e de cada sujeito.
SITE NEIPIES: Percebemos dificuldades dos nossos adolescentes e jovens no acesso aplicado das tecnologias para seus estudos. Por quê? Não foram ensinados? São apenas navegadores digitais?
MARIA AUGUSTA: As tecnologias digitais estão presentes nas vidas dos estudantes desde muito cedo. Tablets e smartphones são utilizados por crianças em idade pré-escolar. Porém, a inserção no contexto escolar propicia o estabelecimento de regras de convivência e segurança nos ambientes virtuais. Também é uma ótima oportunidade para mostrar o potencial educativo das ferramentas digitais, tanto para as tarefas educacionais como para o exercício da cidadania.
SITE NEIPIES: Que orientações daria a professores que nunca utilizaram ferramentas tecnológicas em suas aulas? Devem começar como e por onde?
MARIA AUGUSTA: Acredito que o professor vai precisar cada vez mais se reinventar. Não basta apenas colocar o estudante como protagonista do processo de aprendizagem, o papel do professor é mais importante, mas não mais como um transmissor de conteúdo, porque o estudante pode acessar informações de qualquer lugar.
Porém, o professor precisa ser mediador, facilitador para desenvolver no aluno habilidades para estudar, aprender melhor, buscar informação, como realizar pesquisa, desenvolver o pensamento crítico. Neste aspecto, o professor vai precisar ter ferramentas digitais para desempenhar tais funções em sala de aula. Portanto, comece pelo uso para si, para criar as atividades e, posteriormente, para realizar práticas com os alunos. Dessa forma, apropriado das ferramentas digitais terá mais segurança e aproveitamento funcional e educativo das mesmas.
SITE NEIPIES: Você acha que o uso mais massivo da tecnologia na educação básica pode ajudar a melhorar a aprendizagem de nossos estudantes?
MARIA AUGUSTA: Sou profissional de educação física, então compreendo que fazer exercícios físicos de forma massiva é prejudicial para saúde. Tudo que em excesso traz prejuízos às pessoas e aos processos. Então, é inevitável inserir a educação na cultura digital, mas é importante fazer uma análise crítica quanto ao uso das tecnologias digitais de informação e comunicação para saber o que usar, como usar e quando usar.
SITE NEIPIES: Achas que sairemos melhores a partir da crise e pandemia do Covid 19?
MARIA AUGUSTA: Entendo que o Covid é um momento para refletirmos sobre o “ser” humano, e, por isso, sairemos diferentes, espero que para melhor.
Quanto às questões educacionais, entendo que retornaremos educadores diferentes, reinventados, pois descobrimos outras formas de fazer educação. Não estamos juntos, mas estamos presentes. Nosso futuro, bem próximo, será a inserção do que conhecemos com Ensino Híbrido.
Que nosso distanciamento social sirva para repensarmos novas formas de atuação, planejamento e uso integrado de tecnologias digitais na sala de aula. Descobrindo como desenvolver o processo de ensino e de aprendizagem oferecendo mais de algo sem exigir menos de outro.
SITE NEIPIES: Uma motivação aos professores e estudantes que estão lendo esta entrevista.
MARIA AUGUSTA:“Em uma época de mudanças drásticas, são os que têm capacidade de aprender que herdam o futuro. Quanto aos que já aprenderam, estes descobrem-se equipados para viver em um mundo que não existe mais.”( Eric Hoffer).
As instituições de ensino estão chegando num momento crítico, em uma transformação digital que está mudando a forma como o mundo aprende. Se a sua instituição ainda não foi sacudida, logo será.
Maria Augusta D’Arienzo é Profissional de Educação Física. Professora das redes municipal e estadual de Passo Fundo. Professora do Curso de Pedagogia, da Faculdade de Educação da UPF.Doutoranda em Educação – UPF. Mestre em Educação – UPF. Especialista em Desportos Coletivos – UPF. Especialista em Leitura e Animação Cultural – UPF. Especialista em Gestão Escolar – UFRGS. Especialista em Mídias na Educação – IFSul. Especialista em PROEJA – IFSul. Profissional de Educação Física – UPF