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Desenvolver nossa consciência ética

As ações humanitárias de uma pessoa
revelam a sua consciência ética.
Ela percebe que pode propiciar
felicidade para si e para os outros.

O ser humano é o único “animal ético” que existe. Somente ele pode apresentar a consciência criativa, pensar de forma abstrata, na beleza, na tolerância, na bondade, na esperança, na gratidão, etc. e cultivar pensamentos elevados e nobres.

Ele tem a tendência inata a acreditar em Deus, um ser superior, criador de tudo e no que é belo, bom e verdadeiro.

A consciência ética é inerente ao ser humano, ela está presente no âmago de si, em potencial e precisa ser desenvolvida, estimulada a desabrochar pela educação, no verdadeiro sentido etimológico da palavra: “extrair de dentro”.

O processo de aprendizagem ética ocorre gradativamente com o autodescobrimento.

Em que consiste o autodescobrimento?  É o despertar de si, do self, superando o ego. O despertar da identidade divina que cada um traz em si. É a capacidade de perceber-se um ser único, extraordinário, peculiar, diferente dos outros, com imenso potencial positivo a ser desenvolvido, que vai lhe propiciar a aquisição de valores, o senso de liberdade e de escolha de experiências que lhe cabe vivenciar.

O aluno do Ensino Religioso, no Ensino Fundamental, ainda está dominado pelo egocentrismo da infância, especialmente nos anos iniciais. Isto lhe dificulta o discernimento entre o certo e o errado, o bem e o mal, o bom e o pernicioso.  A linguagem simbólica da Arte – a Literatura, a Pintura, o Desenho, a Música, a Dança, o Teatro – facilita a compreensão e aquisição de valores morais e das atitudes éticas coerentes.

Cabe ao componente curricular do Ensino Religioso ajudá-lo a descortinar as aquisições éticas indispensáveis à afirmação de si mesmo, através da introspecção, que é o processo de conduzir a atenção para dentro de si, para a análise das possibilidades íntimas que ajudam o amadurecimento psicológico.

Aprender a centrar-se em si, cria um clima de segurança emocional para a realização de cada ação proposta pelo professor do Ensino Religioso sobre a questão em pauta, agindo com calma, serenidade, confiança e rigor, percebendo o outro e o respeitando com suas peculiaridades e diferenças.

A reflexão sobre si mesmo ajuda o aluno a assumir sua identidade e humanidade.

As boas ações praticadas pela pessoa revelam o nível de desenvolvimento de sua consciência ética. Ela percebe que a prática do bem lhe dá felicidade, que é um estado de bem-estar que se irradia, alcançando os outros, como se fosse uma luz que se expande em todas as direções, ampliando o senso de responsabilidade pela vida que se expressa na Natureza.

O aluno vai ficar consciente que ser ético é ser agente do progresso, das edificações beneficentes e culturais de seu grupo social, começando pela família, escola e a sociedade.

Entenda neste vídeo explicativo, o que é Ética.



“A consciência ética é a conquista da iluminação, da lucidez intelecto-moral, do dever solidário e humano. Ela proporciona uma criatividade construtiva ilimitada, que conduz a santificação, na fé religiosa; ao heroísmo, na luta cotidiana e nas batalhas profissionais; ao apogeu, na arte, na ciência, na filosofia, pelo empenho que enseja em favor de uma plena identificação com o ideal abraçado”. (O Homem Integral – Divaldo Franco, p. 61)

As ações humanitárias de uma pessoa revelam a sua consciência ética. Ela percebe que pode propiciar felicidade para si e para os outros. Tem muita empatia que é a capacidade de perceber e sentir o que os outros sentem, buscando contribuir para minorar os problemas existenciais do próximo.

Encontram-se, na História da humanidade, inúmeros exemplos de pessoas que desenvolveram em alto grau a consciência ética, deixando, através de suas vidas, registros de obras beneméritas, revelando a capacidade de empatia que elas tinham de perceber os sentimentos dos outros e de buscar ajudar, iluminando suas vidas. Alguns destes personagens históricos: Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, Albert Schweitzer, Allan Kardec, Hans Christian Andersen, João Henrique Bach, Mozart, Villa Lobos, Mari Curie, Monteiro Lobato…


Autora: Gladis Pedersen de Oliveira, Pedagoga – Especialista em Educação (gladispedersen@gmail.com)



Bibliografia consultada

 Oliveira, Gladis Pedersen – Educação: A Arte de Manejar o Caráter – Olsen Editora
 Idem – A Literatura e a Magia da Arte de Contar Histórias – Olsen Editora
 Rodrigues, Miriam – Educação Emocional Positiva – Sinopsys
 Franco, Divaldo Pereira – O Homem Integral – Leal Editora
 Idem – Vida, Desafios e Soluções    – Leal Editora

Glossário

(Contribuições professora Nara Vidal)

Inata: que faz parte do indivíduo desde o seu nascimento; congênito. Que nasce com o indivíduo; inerente: características inatas.
Âmago: a parte que fica no centro de qualquer coisa ou pessoa; parte central. Cerne. Egocentrismo: conjunto de atitudes ou comportamentos indicando que um indivíduo se refere essencialmente a si mesmo. Egoísmo.
Introspecção: reflexão que a pessoa faz sobre o que ocorre no seu íntimo, sobre suas experiências etc. Observação e descrição do conteúdo (pensamentos, sentimentos) da própria mente.
Beneméritas: Que ou quem ajuda ou faz o bem a outrem. = BENFEITOR



Proposta de uma atividade pedagógica

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Sétimos Anos do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio.

No Sétimo Ano, Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida, Objetos de Conhecimento:  Princípios éticos e valores religiosos. Habilidades: (EF07ER06) Identificar princípios éticos em diferentes tradições religiosas e filosofias de vida, discutindo como podem influenciar condutas pessoais e práticas sociais. (EF07ER06RS-5) Identificar criticamente a relação entre fé, razão e ética.

Para  aprofundar os conhecimentos, após leitura do texto:

  1. A autora Gládis Pedersen fala da importância do autodescobrimento. O que é que é autodescobrir-se?
  2. “As boas ações praticadas pela pessoa revelam o nível de desenvolvimento de sua consciência ética. Ela percebe que a prática do bem lhe dá felicidade, que é um estado de bem-estar que se irradia, alcançando os outros, como se fosse uma luz que se expande em todas as direções, ampliando o senso de responsabilidade pela vida que se expressa na Natureza”. Você conhece ou já fez uma boa ação, que te deu grande satisfação e retorno de felicidade? Descreva.
  • A autora cita pessoas com alto grau de consciência ética como Madre Teresa de Calcutá, Mahatma Gandhi, Albert Schweitzer, Allan Kardec, Hans Christian Andersen, João Henrique Bach, Mozart, Villa Lobos, Mari Curie, Monteiro Lobato. Faça pesquisa rápida na internet e escreva quem foram e o que faziam estas pessoas.
  • Crie uma frase, completando a afirmação: Consciência ética é…..

Anacronismos e racismo em Monteiro Lobato?

Discutir o racismo é relevante no nosso tempo histórico.
Somente com análises críticas da formação da
nossa história e do conhecimento da postura de
seus sujeitos influentes é que poderemos compreender
melhor o mundo que somos e o mundo que
desejamos construir no agora, e logo adiante.


Uma boa publicação é aquela que é capaz de gerar grandes debates. Uma publicação nunca abarca a totalidade do pensamento, ainda mais quando é escrita na perspectiva do dialógica das crônicas.

Publicamos o texto Monteiro Lobato seria um racista? no último final de semana. Ao compartilharmos o texto em diferentes grupos nas redes sociais, percebemos o potencial de debate e questionamentos que este suscitou, levantando questões da vida pessoal e de relevância do autor/escritor Monteiro Lobato.

Decidimos, então, continuar conversando com os leitores do site, apresentando algumas repercussões de leitores e da própria autora, abordando as questões polêmicas levantadas. O legal é seguir conversando, levantando proposições, defendendo pontos de vista, que nada mais são do que vistas de um outro ponto. O leitor que nos acompanha tirará as suas próprias conclusões.

Discutir o racismo é relevante em nosso tempo histórico. Somente com análises críticas da formação da nossa história e do conhecimento da postura de seus sujeitos influentes é que poderemos compreender melhor o mundo que somos e o mundo que desejamos construir no agora, e logo adiante.

Somos muito gratos com aqueles e aquelas que se dispõem a um debate democrático e respeitoso, com o necessário respeito a todos os pontos de vista.

***

Pablo Couto, professor de língua portuguesa e Mestre em Análise do Discurso, morador de Canoas, RS, escreve que “Monteiro Lobato era sim racista. Há uma vasta literatura falando sobre isso. O racismo está presente em sua vida pessoal, inclusive com críticas a Machado de Assis apenas pela cor da pele, e também em sua obra.

Não há anacronismo nenhum nessa afirmação, até por que vários intelectuais já rebatiam as suas ideias. Monteiro chegou a elogiar a Ku Klux Klan e lamentar que o Brasil não tivesse algo parecido.

Agora, concordo com você em um ponto: não acredito que ele deva ser silenciado ou excluído dos livros de história e literatura. No entanto, a contextualização do racismo em sua obra deve ser feita quando aparecer na escola. Deve-se abrir também uma discussão sobre as raízes escravagistas e suas consequências em nosso meio social”.

***

Ricardo Jones, 60 anos, morador Porto Alegre, graduado em ginecologia, obstetrícia e homeopatia, ativista da humanização do nascimento, escritor e palestrante, escreve um texto que dividiu com a gente para manifestar seus pontos de vista.

Anacronismos

“Não há dúvida que Monteiro Lobato era racista. Mais ainda, era um eugenista, um entusiasta da KKK e um racista ATIVISTA, mais do que apenas um sujeito com preconceito racial. Foi membro da sociedade paulista de eugenia e divulgador dessas ideias, as quais – no início do século XX – tinham uma aura cientificista.

Todavia, esta não é a mais importante abordagem.

O que me parece urgente debater em tempos de “cancelamentos” a respeito da “questão Monteiro Lobato” é o quanto é possível “separar autor de obra” e se é adequado que sejam feitos julgamentos sobre figuras da literatura fora do devido contexto histórico. Ou seja, separar a obra das questões subjetivas de quem a escreveu e não sucumbir ao anacronismo – o julgamento de um sujeito apartado de seu tempo.

Nem é necessário ir muito longe. Na minha própria experiência pessoal existem claras lembranças de uma época em que tais ideias não recebiam da cultura o adequado contraditório. Ao longo de toda a infância eram comuns as piadas racistas, as quais eram contadas impunemente para qualquer um – inclusive por mim – pois eram tratadas na cultura como “brincadeira”, “chiste”, “jocosidade”, etc.

Não há dúvida, entretanto, do seu conteúdo racista e segregacionista quando exposto às luzes do século XXI. Usava-se da piada para encobrir um conteúdo separatista, um apartheid informal e subliminar, essencial e estrutural, que se expressava em uma forma extremamente potente de coesão cultural: o humor.

O mesmo ocorria com as piadas homofóbicas. Na minha época, um dos humoristas mais celebrados era o “Costinha”, um dos artistas mais engraçados do seu tempo. Entre suas piadas, 90% eram sobre gays, “bichinhas”, como ele dizia, homossexuais com atitudes afetadas. Hoje em dia suas piadas seriam um escândalo, mas apenas 40 anos nos separam do seu auge como piadista. Julgar Costinha – e não suas piadas – seria um anacronismo, assim como julgar Monteiro Lobato sem levar em conta o entorno cultural em que estava envolvido.

Outro aspecto é pensar sobre Monteiro Lobato e esquecer a vida pessoal – e até a obra – de tantos outros escritores. Devemos, por exemplo, esquecer a obra de Heidegger ou Celine por suas vinculações com o nazismo? Seria justo apagar a música de Michael Jackson pelas acusações que recebeu – em vida e depois dela – de abusos sexuais contra menores? É adequado esquecer o racismo explícito de Humberto de Campos e Fernando Pessoa (sim!!!) ou devemos sorver suas obras e descontar os erros de seu tempo?

E a defesa da pedofilia de Simone Beauvoir? Deveríamos relevar estas manchas em sua biografia e continuar aprendendo com seus textos precursores do moderno feminismo? Ou devemos também apagar todos os seus escritos?

E o que fazer com os feitos de médicos brasileiros como Miguel Couto, Roquette Pinto (médico e pai da radiodifusão no Brasil), Renato Ferraz Kehl e tantos outros que participaram da Sociedade Paulista de Eugenia? E quanto a literatura infanto juvenil? Vamos “cancelar” Lewis Carroll pelas acusações de pedofilia que foram feitas contra ele?

Deveriam as crianças todas do mundo ser privadas das aventuras de “Alice no país das Maravilhas” pela suspeita de uma falha ética do seu autor? Pior ainda: devemos destruir a obra de Woody Allen, falsamente acusado de abuso sexual, apenas para agradar a “patrulha”? E o que fazer com a pedofilia de Charles Chaplin?

Se um antropólogo achasse, mas areias da Galileia, um manuscrito essênio que revelasse uma mancha moral gritante de Jesus, seria justo acabar com o cristianismo em nome da purificação necessária para limpar esta mácula?

Há um adágio antigo que nos diz: “As virtudes são dos homens, as falhas são do seu tempo”. Eu li toda a obra de Monteiro Lobato na entrada da adolescência e não percebi nenhum racismo explícito nela. Não que não houvesse; ela estava evidente na topografia dos personagens, mas este racismo sutil ainda era invisível nos anos 70. Somente agora podemos percebê-lo para julgar sob esta nova perspectiva.

O mesmo digo dos outros autores.

Não há mal algum em apontar a pedofilia, o nazismo e o racismo nos autores. Também é justo mostrar estes erros nas obras que escreveram, mas é fundamentar não se deixar levar pelo anacronismo, julgando um sujeito fora do seu tempo e da cultura que o envolvia.

Monteiro Lobato e muitos outros devem ser mantido nas escolas exatamente para que se possa debater com os alunos sobre os valores de meados do século XX. Apagar a história, mesmo em nome de valores nobres, empobrece a cultura.

***

Ipácio Carolino, do Movimento Negro em Passo Fundo, RS, contribui com a discussão posta pela publicação, com o envio desta reflexão que segue.

Dualidade… Ambivalência.

Somos seres compostos de duas metades, duas faces, luz e sombras. Potencializamos um lado, mas não anulamos o outro. Podemos encontrar pitadas de genialidade em alguém que demonstra ser ignorante e também acharmos doses de perversidade em quem se diz bom.

Quanto ao autor em questão, não há dúvidas de que é racista; suas obras e declarações provam isso. Quem o elencou à apreciação literária foi a elite branca. Nós, negros, somos maioria nesse país e nunca nos foi dada a oportunidade de escolher obras e autores que achamos importantes para apresentar à classe estudantil. Lembrem, nossas crianças negras também são estudantes.

A supremacia, ou a superioridade branca, sempre nos foi imposta, sempre nos foi colocada como norma, o que não significa que tenha sido por nós entendida e aceita como tal.

Estamos em tempos de profundas, necessárias e inevitáveis revisões históricas e conceituais. Todas as estruturas estão sendo postas à prova, todos os sistemas, instituições e lideranças, estão sendo questionados; negros não voltarão para a senzala, gays, não retornarão para o armário, a Amélia deixou de ser a mulher de verdade…

Nada será como antes. E não será, porque nós não queremos que seja.

***

Para a escritora e filósofa Rosangela Trajano, a autora do texto “Monteiro Lobato seria um racista?”, “o escritor veste-se de mundos nunca antes visitados por outras pessoas, pois eles são criados entre a imaginação e a realidade vivida ao longo dos seus anos.

O contexto histórico diz à realidade como deve comporta-se e a imaginação usa essas imagens contextualizadas para falar daquilo que se vê, ouve e toca. Não podemos comparar o escritor com o cidadão nunca. Um vive na imaginação e o outro na realidade, os dois encontram-se no momento da inspiração divina dada pelas musas, como assim relata Platão no seu diálogo Íon.

Não foi surpresa a repercussão de tantos comentários e compartilhamentos no meu pequeno ensaio e fico feliz que ele tenha repercutido e criado várias discussões sobre ser Monteiro Lobato um racista ou não.

Na verdade, não quis deixar uma opinião formada, apenas expus o aspecto da sua literatura e ratifico que não vejo racismo nas suas lindas obras. Elas afirmam o conhecimento de mundo adquirido pelo autor ao longo dos seus anos expondo na sua literatura ficção e realidade, quem sabe um pouco mais de realidade seja possível encontrar em Monteiro Lobato. Talvez seja difícil para muitas perceberem isso, mas basta esquecer o cidadão Monteiro Lobato e deliciar-se com a sua obra que tão bem educa crianças e jovens.

Longe de mim defender o racismo, uma vez que sou mulher negra e sofro preconceito em vários lugares onde vou no meu país. Sei a dor que é sentir-se humilhada e tratada pela cor da sua pele.

Ninguém queira passar o que passo nas lojas de grifes, nos restaurantes de luxo ou quando vou comprar um objeto de valor significativo. Outro dia, um colega perguntou-me porque eu não cortava meu cabelo já que estava saindo feia nas fotos e escritor tem que sempre estar bonito.

Vale ressaltar aqui que meu cabelo é cheio de cachinhos. Sou neta de uma indígena e de uma negra que me contavam histórias belíssimas. O meu mundo não é branco com azul, mas negro da cor da noite sem lua.

Já chorei e fui para a delegacia prestar queixa de racismo quando quis comprar um relógio na loja de um grande shopping da minha cidade e o vendedor disse-me que era caro demais para eu comprar, levando-me para uma seção de relógios mais baratos. Disse-lhe que queria o que gostei, e ele insistiu perguntando se eu tinha visto o preço porque a cor da minha pele não combinava com o relógio da vitrine e nem com o seu valor.

A quem pensa que não sei o que é racismo, está enganado. Eu sou vítima desse crime quase todos os dias, basta sair de casa com as minhas sandálias de borracha e minha mochila de pano nas costas. Lá vai a nega amostrada, isso eu ouço “carinhosamente” da minha vizinha do outro lado da rua que já é uma senhora branca e cheia de afeto por mim, mas ela não sabe o mal que me faz todas às vezes que diz isso.

Não julguemos as pessoas pelo que escrevem. O girassol não deve ser julgado quando está recolhido na madrugada fria, mas ao meio-dia quando mostra o seu rosto ao mundo”.

Racismo é crime!



Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Ensino remoto: quando pais estudam com os filhos

Não podemos deixar as crianças sozinhas
com suas dúvidas, como fizemos na tenra idade,
ou seja, tratá-las como depósitos de conhecimentos.
O ensino hoje é reflexivo e exige
interpretação de textos, gráficos e mapas.


Vivemos tempos difíceis no mundo inteiro no que concerne à saúde e à educação dos nossos filhos. Antes éramos sufocados pelo trabalho fora de casa e não tínhamos tempo para cuidar das nossas famílias. Estávamos sendo robotizados, a diferença é que ainda sonhamos, e as máquinas, não.

Como nos falou Zygmunt Bauman, “Amores líquidos e Tempos líquidos”, ou seja, tudo se desfaz rapidamente, tudo cessa com o passar do tempo, nada é para sempre.

No entanto, com o início da pandemia e a recomendação da OMS – Organização Mundial da Saúde – para que fizéssemos o isolamento social, de repente, tudo parou.

As crianças deixaram de ir à escola, e nós começamos a trabalhar “home office”. Adaptar-se a esse novo modelo de trabalho tem sido um desafio para nós adultos, imagine para os jovens e as crianças estudantes do mundo inteiro.

A educação de jovens e crianças foi bruscamente atingida e os pais se vêem às voltas com seus filhos na frente das telas de computadores, muitas vezes compartilhando horários com as suas tarefas. Não para jogar videogame ou para acessar as redes sociais, coisas que eles, os filhos, bem sabem fazer e já virou prática nos seus cotidianos. Não! A coisa agora é outra.

Os pais se viram no dever de estudar junto com seus filhos, tirar as dúvidas deles, ajudar nos exercícios escolares e, dessa vez, sem poderem contar com a ajuda das secretárias do lar ou babás porque elas não podem ir trabalhar para não infectar as famílias ou serem infectadas.

O cuidado é grande. Em casa, apenas a família: pai, mãe e filhos. E agora? O que vamos fazer com os nossos filhos? Como vamos incentivá-los nos estudos se estamos assoberbados de trabalho?

Os pais não têm escolhas. É hora de sentar na frente do computador e assistir à aula online em que professores driblam todas as dificuldades tecnológicas, as distâncias e as metodologias nunca antes aprendidas para dar o melhor de si.

Os pais estão estudando junto com seus filhos, ou seja, reaprendendo o que viram quando mais jovens ou mesmo na infância. Muitos têm falado que é uma experiência incrível poder tirar a dúvida do filho; outros acham complicado porque não conseguem mais se lembrar da lição vista há tantos anos.

Tenho amigos que estão nesse dilema. Nos últimos dias, quando ligo para meus amigos, sempre escuto a mesma conversa de que não podem mais cuidar da casa e trabalhar direito porque estão estudando, junto com seu filho, matemática, a saber, máximo divisor comum e mínimo divisor comum, assunto visto no sexto ano do Ensino Fundamental.

Meu irmão me ligou para saber quem tinha inventado o conceito de habitus na sociologia, pois meu sobrinho de doze anos de idade estava estudando Pierre Bourdieu pela aula de sociologia online, e ele, o pai, nunca tinha ouvido falar sobre esse sociólogo.

Minha amiga com pouco mais de setenta anos, poetisa e cordelista, se viu às voltas com um problema sério outro dia com seu netinho, uma vez que a professora pedira na aula online para ele citar qual a função de uma mitocôndria, organela celular, coisa que ela, a avó, estudou no antigo segundo grau há mais ou menos trinta e cinco anos.

A verdade é que os pais saíram do comodismo e se viram estudando com seus filhos assuntos os mais diversos. Recordaram-se das suas vidas escolares.

Os pais engenheiros que mal sabem rabiscar uma poesia tiveram de estudar Carlos Drummond de Andrade; pais médicos que mal sabem desenhar tiveram de aprender para ajudar o filho no desenho do mapa da América Latina, enquanto pais advogados tiveram de aprender o novo conceito da antropologia “decolonial” para explicar a seus filhos o significado.

Não está sendo fácil essa nova rotina para os pais. Alguns não vêem a hora de ver os filhos voltarem à sala de aula presencial, outros se divertem ligando para os amigos atrás de auxílio. O importante é que a lição ensinada pela aula remota seja aprendida, e os exercícios, resolvidos.

Afinal, não podemos deixar as crianças sozinhas com suas dúvidas, como fizemos na tenra idade, ou seja, tratá-las como depósitos de conhecimentos. O ensino hoje é reflexivo e exige interpretação de textos, gráficos e mapas.

Os pais estão vendo a importância de nunca deixar de rever o que foi estudado na juventude e os saberes interdisciplinares tão importantes nos dias atuais. Não é mais valorizado o especialista em alguma coisa, mas aquele profissional que se destaca em várias áreas do conhecimento, por isso o ensino se dá de forma interdisciplinar com os conhecimentos ligados uns aos outros.

O divertido nisso tudo é que a maioria das crianças e dos jovens acaba ensinando a seus pais coisas que estes não sabiam ou haviam esquecido, como fez a sobrinha de um amigo ao lhe explicar como ocorre o processo de fotossíntese nas plantas.

O ensino remoto tem seus problemas, porém uma coisa podemos afirmar: aproximou pais e filhos.

Em casa, sozinhos, os alunos não têm a quem pedir ajuda senão a eles, os pais, e são estes que ajudarão na escrita da redação para o ENEM, apontando erros de ortografia e gramática. Claro que sempre com a ajuda do professor da escola através da aula online, a questão é que o professor fica apenas cerca de quarenta a cinquenta minutos com o aluno, enquanto os pais têm o dia inteiro para estudar com seus filhos. E quanto maior o tempo de estudo maior será a aprendizagem.

Esperamos que o ensino remoto nos traga boas experiências ou que, pelo menos, solidifique uma proximidade maior entre pais e filhos no ensino-aprendizagem, seja na escola, seja em casa. Os frutos de tudo isso virão em breve. Para a minha surpresa, vi um amigo poeta discutindo química no nosso grupo de poesia, isto é, pelo visto já estamos colhendo os frutos.

Um salve a nossos heróis professores, que estão se desdobrando nesse novo modelo de ensino.

A tarefa dos pais e mães na educação de seus filhos e no seu acompanhamento na escola tornou-se mais complexa e sofisticada. Veja boas dicas desta especialista, Sueli Ghelen Frosi, da Associação dos Pais do Brasil.

Como devem ser educadas as crianças?

Aos professores e professoras,
damos a missão de educar e
instruir as nossas crianças.
É verdade que eles devem instruir
com afeto, mas não sozinhos.


Toda criança precisa de amor. Na minha infância, estudei numa escola onde a criança que não soubesse a tabuada aritmética decorada levaria palmadas nas mãos. Eu morria de medo daquele castigo e aos sete anos já sabia toda a tabuada.

Os castigos antigamente eram comuns na vida das criancinhas. Ficar ajoelhado em cima de vários caroços de milho, ir dormir com fome, dormir no escuro mesmo com medo dos monstros e o pior deles ser trancado num lugar fechado sozinho, como eu fui.

Não se deve bater numa criança ou colocá-la de castigo num canto escuro da casa para aprender a ter bons modos ou a tarefa escolar. O ensino não combina com maus tratos.

Nenhuma criança deve ser chamada de burra porque tem dificuldades de aprender. É inaceitável que os pais ou responsáveis invadam as suas privacidades. Fica proibido assustar crianças dizendo que o homem do lixo vai levá-la embora ou que um monstro irá engoli-la na madrugada.  

Defendo uma educação com afeto, pois o que fazemos com as nossas crianças hoje será refletido na vida adulta amanhã. Tudo o que uma criança vive e ouve ela guarda dentro de si e mais tarde vem à tona seja num sintoma emocional ou agressão física aos coleguinhas e pessoas próximas, por isso vemos alguns morderem os outros sem motivos aparentes. É preciso amar antes de chegar perto de uma criança, conhecer o verdadeiro sentido do amor.

Quando falo de amor refiro-me às emoções e sentimentos bons que devemos guardar na alma, tais como o respeito e o perdão ao próximo. Precisamos aprender o que é o bem na sua mais singela essência para só assim nos aproximarmos das crianças que são pessoas especiais que buscam na gente proteção e carinho.

Em outra publicação no site, já defendemos que “o afeto que o professor dedica a seus pequenos alunos faz com que eles sintam confiança no que está sendo ensinado, despertem para a curiosidade e a admiração”.
Veja mais aqui.



Se não lhes damos isso, onde procurarão? Em estranhos nas redes sociais ou nas portas das escolas, principalmente àqueles que lhes oferecem uma bala ou brinquedo.

Amar é…. amar é ser paciente e buscar sempre compreender o choro da criança, a dificuldade de aprendizagem, a raiva e a timidez. Amar é respeitar a vontade da criança, não falo das birrentas, mas daquelas que desejam coisas possíveis de receberem, que não nos custará quase nada dar-lhes.

Uma das coisas que mais precisam as crianças dos dias atuais é de atenção e confiança nos pais, responsáveis e professores. A confiança é essencial para uma criança aprender tanto as tarefas escolares quanto a tornar-se uma boa pessoa. Confiar que o outro não vai nos deixar cair, que o outro não vai nos abandonar, que o outro vai nos ensinar tudo o que sabe sobre aquele dever de casa difícil de fazer.

Educar uma criança não é nada fácil, pois estamos acostumados a viver correndo, temos pressa para tudo, nunca paramos para um café ou conversa com os amigos, imagine com um ser pequenino.

Entregamos as nossas crianças às escolas e corremos para o trabalho sempre apressados. Não percebemos quando as nossas crianças estão chamando a nossa atenção seja através do recolhimento dentro do quarto e distância dos amiguinhos, seja no pavor de uma pessoa próxima da família. O que mais tarde irá causar doenças psicológicas e físicas.

Aos professores e professoras, damos a missão de educar e instruir as nossas crianças. É verdade que eles devem instruir com afeto, mas não sozinhos.

O tempo que a criança passa na escola é bem pouco em relação ao que ela passa em casa. Assim mesmo os professores esforçam-se para amar os seus alunos contando-lhes histórias, declamando poesias, brincando de ciranda. São os professores que estão salvando a instrução das nossas crianças nesses tempos de isolamento social, inventando-se a cada dia, criando metodologias de ensino nunca antes vistas. Assunto que quero discutir em outro momento.

O importante é saber que o professor precisa amar o seu aluno sem impor-lhe o seu conhecimento goela abaixo, mas fazendo-lhe refletir em cima dos diversos assuntos ensinados sobre a importância da sua aprendizagem.

Para que professores cuidem bem das nossas crianças é preciso que as salas de aulas sejam ventiladas, ou seja, com janelas, vasos de flores, cartazes com imagens alegres e coloridos e limpas.

Há esforços de professores que ensinam em escolas públicas com paredes rachadas e goteiras, apesar de tudo eles amam os seus alunos, mas jamais poderão oferecer um ensino de qualidade, pois lhes falta o básico que é o bem-estar dos seus alunos. Nenhuma criança vai se sentir bem num espaço onde as paredes podem desabar a qualquer momento.

Atualmente, os professores fazem uso da tecnologia para dar aulas e algumas escolas já mantém os professores mais distantes dos alunos. Porém, ainda há escolas onde os professores pegam na mão da criança e a ajuda a cobrir a letrinha, a pintar o desenho do gato e a colar a gravura no papel. É preciso sentir o calor humano. Crianças gostam de proximidade.

Professores sabem o que é amar uma criança. São eles que ensinam, na maioria das vezes, aos pais e responsáveis.

Dêem mais atenção aos nossos professores. Certa vez, um deles me salvou da depressão. O professor pode salvar a sua criança do desânimo, da desistência, da indisciplina e até mesmo de conquistar os seus objetivos. Conheci uma professora que abraçava os seus alunos antes de entrarem em sala de aula todos os dias, e outra que inventou uma fadinha que escrevia cartas para eles todas as semanas.

Professores são criativos. Abro aqui um espaço para abraçar os professores dos lugares mais longínquos do Brasil que sequer têm giz para escreve no quadro-negro e continuam com amor no coração ensinando as nossas crianças. Viva o amor! Viva o professor brasileiro.

Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil, afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.

Genocídio?

Genocídio, classificado por
jurista polonês Raphael Lemkin:
“… destruição de uma nação ou grupo étnico”.
Está acontecendo no Brasil?


A declaração do ministro Gilmar Mendes sobre o envolvimento dos militares no que, a cada nova contagem de mortos pelo coronavírus, mais se parece com um genocídio,  provocou forte reação da  caserna. A verdade, é que o ministério mais parede um quartel, recheado de militares, que, presume-se, pouco entendem do assunto.

Agora, a jurista Deisy Ventura, especialista  entre pandemias  e direito internacional, uma  das maiores autoridades mundiais no assunto, afirma que há todos  os elemento necessários  à tipificação  de crimes  contra  a humanidade  na resposta  do governo brasileiro  à  covid-19: intenção, plano e ataque sistemático.

Para ela “no que se refere  à população  em geral, acredito que há  o crime de  extermínio, artigo sétimo, letra b, do Estatuto de Roma. É também um crime contra a humanidade. E, no caso específico dos povos indígenas, minha opinião é de que pode ser tipificado como genocídio, o mais grave entre os crimes contra a humanidade.(…)

O governo brasileiro assumiu, desde o início da pandemia o comportamento que tem até hoje: de um lado o negacionismo em relação à doença e, de outro, uma ação objetiva contra o governos que tentam dar uma resposta efetiva à doença.”

E ela justifica a política de extermínio: “ todos os estudos  têm nos mostrado que  as populações  mais  atingidas  são  as  populações negras, são as populações  mais  pobres, são  os mais vulneráveis, entre eles  também  os idosos e os que têm comorbidades”.

A jurista cita várias atitudes do Presidente como a de criticar  o fechamento de escolas, a de vetar  o uso de máscaras  e  a obrigação dos  estabelecimentos  comerciais  de  afixar  o número máximo de pessoas  que  deveriam estar lá dentro.  Veta o uso de máscaras no sistema carcerário, nos templos e estabelecimentos de ensino. São vetos contra a saúde pública.

Mais. O atraso na sanção da norma que liberava recursos financeiros para  os  Estados. O Congresso aprovou a ajuda e o presidente retardou o máximo a sanção à lei  que dava  socorro financeiro aos Estados, muitos sem recursos para comprar  sedativos  e respiradores.

Com relação aos povos indígenas o tratamento é criminoso. Só em 7 de julho, sim, 7 de julho (!!??)  foi aprovado  o plano emergencial  para  enfrentar uma emergência que foi declarada  pela OMS  em  30 de janeiro e, pelo  Brasil, em  3 de fevereiro. Se não bastasse, o presidente da República vetou  a garantia de  acesso  à  água potável  aos povos indígenas.

Foi vetada, igualmente, a obrigação de organizar o atendimento de média e alta complexidade  nos centros urbanos, foi vetado o acompanhamento  diferenciado  dos casos que envolvam indígenas, inclusive  foi vetada  a oferta emergencial  de leitos  hospitalares  e  UTI.

Também vetada a inclusão dos índios nos planos emergenciais de  atendimento  dos pacientes  graves  das  secretarias municiais  e estaduais, que inclusive  obrigada  o SUS  a fazer o registro  e  a notificação  de raça e de  cor.  Foi vetada a obrigação de explicar para os indígenas a gravidade  da doença!

“Fica claro o ódio a população que é considerado pelo governo como inferior e subalterna, como indígenas e negros. São aqueles que atrapalham seus interesses e são considerados por eles obstáculo do ponto de vista da racionalidade econômica que defendem”, acrescenta a jurista.

Genocídio, foi classificado em  1943  pelo jurista polonês,  Raphael  Lemkin: “Por  genocídio  entendemos  a destruição  de uma nação  ou grupo étnico”.

É o que está acontecendo entre nós??

Na internet, busca por divórcio cresceu 9900%

Harmonizando nosso Eu,
poderemos acalmar a mente e encontrar
um pouco da Paz de que precisamos.
Depois disto, sim, tome suas decisões.

Vamos com calma, pois dados estatísticos se prestam a interpretações. A verdade é que a procura pelo termo “divórcio online gratuito” cresceu 9900% no período de 13 a 29 de abril e a busca “Como dar entrada em um divórcio” teve aumento de 82% segundo dados divulgados pelo Google Brasil. Isso não quer dizer que o número de divórcios aumentou de forma absurda, mas sim, que há muitos casais insatisfeitos com seus relacionamentos e que tal procura por informações reflete apenas a realidade.

De fato, somente em São Paulo em um escritório especializado em separações de clientes de classe média, durante o mês de abril, houve um aumento em 177% de pedidos de separações.

Tais informações referem-se a um levantamento de dados globalizado, tendo como fator a pandemia. Nele, além do Brasil, países como China, Portugal, EUA, Itália, África e Austrália também tiveram contabilizados aumentos de pedidos de divórcios.

A obviedade é que as rotinas das famílias foram transformadas: com os filhos ficando em casa por não ter escolas ou creches para ir, com muitos profissionais sendo demitidos ou tendo reduzidos seus salários e horários, com todas as atividades profissionais sofrendo implicações – algumas podendo ser realizadas em casa – aumentaram os níveis de estresse, ansiedade e casos de depressão (sem falar de transtornos compulsivos exacerbados nas bebidas, cigarro, comida, gastos online…).

Considerando o exposto, outros estudos apontam para aumento de consumo de medicamentos ansiolíticos, antidepressivos, vitaminas e todos aqueles que alguma fake news “tiver dito” ser eficiente no combate ao covid-19.

Vale lembrar que automedicação é um (infeliz) hábito incrustrado na cultura nacional mesmo antes da pandemia.

Por tudo isso, a saúde emocional pode ser afetada independentemente de faixa etária ou de colocação social, e, no caso de casais, a retomada de equilíbrio não passa necessariamente pelo fim do relacionamento.

O fato é que a pandemia apenas revelou a realidade de algumas famílias que já vinham sofrendo abalos: pais que mal conversavam com os filhos, casais que dedicavam-se até altas horas em seus trabalhos ou estudos, saídas de happy hour com amigos, futebol, academia, tudo o que poderia servir de pretexto para minimizar os contatos dentro de casa parou! Por causa disto, muitas pessoas foram obrigadas a ficar em um lugar onde menos ficavam nas 24 horas: na própria casa.

É possível reverter a situação? Quanto ao Covid-19 sim, é uma questão de tempo, agora, quanto aos danos emocionais, muitas atitudes precipitadas neste momento poderão ser motivos de sofrimento pelos próximos meses ou anos.

É preciso que o “fique em casa” signifique também nos reencontrarmos e abrirmos as portas de nossa casa mental, puxarmos um banquinho, e sentarmos nele para uma reflexão. É harmonizando nosso Eu que poderemos acalmar a mente e encontrar um pouco da Paz de que precisamos. Depois disto, sim, tome suas decisões.

Em outro artigo, publicado no site, escrevemos que “está mais do que na hora de aprendermos a viver pela Lei do Amor. Assim, há que se propor um exercício de reflexão, o de que é sempre melhor estar na condição de quem possa dar do que na daquele que precisa receber. Há uma troca de alegrias na solidariedade – não interessa de que lado estejamos – onde somos contagiados ante tanta felicidade! É a ação do amor”.

A arte como forma de humanização

Acreditamos que o maior desafio humano é a humanização. Entendemos humanização como a possibilidade de nos tornarmos melhores seres humanos. O conhecimento reflexivo, assim como a arte, podem potencializar muito a nossa humanização.

Aline Venturini é filha de mãe professora e pai comerciante. Desde adolescente, jovem, envolveu-se em atividades comunitárias e coletivas. Já foi professora da rede municipal de Passo Fundo, professora universitária e professora de Cursos de línguas. É formada em Letras, pela Universidade de Passo Fundo, e realizou mestrado e doutorado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Sempre acreditou no poder da arte. É artista plástica, gosta de cantar e interpretar, nas horas vagas, músicas de cantores e compositores populares do Brasil. Participa da Confraria das Artes, associação de artistas que agrega os mesmos para manifestações públicas de arte, sobretudo ocupando espaços vazios do mundo urbano para pinturas e representações de desenhos, em forma de arte.

Pela sua experiência e convicções, Aline Venturini, com certeza, nos ajudará a encontrar pistas para compreendermos a importância da arte e da educação como ferramentas de humanização.

***

SITE NEIPIES: O que te realiza na profissão docente? O que te fez professora?

Venturini: Para mim, o que me realiza como professora é o ato de compartilhar conhecimento e de participar do processo de troca mútua. Como afirmava Paulo Freire: “Ninguém educa ninguém.” Então, o processo é mútuo. Aprendemos com o aluno também. A aprendizagem, bem como a avaliação verdadeira, ocorre durante o processo, no fazer. Portanto, a prova é apenas meio de quantificar em números esta avaliação da aprendizagem, porque o sistema exige, porque é durante o processo que avaliamos o aluno verdadeiramente. O processo é que me encantava e ainda encanta.

A minha maior satisfação como professora é constatar quando um aluno aprende de fato ou se envolve mesmo na aula ou na discussão realizada e isso nem sempre é possível mensurar somente com provas. Por exemplo, pode ser uma reação positiva a determinada atividade, ou uma constatação que ele fez em sala de aula, um insight interessante…

SITE NEIPIES: Como foram tuas experiências como professora junto à rede municipal de ensino, no ensino superior e como professora em escolas particulares?

Venturini: Posso adiantar que a escola pública é um grande laboratório e que te forja professor (a). E não é uma trajetória fácil, pois a gente lida com as carências, os problemas, a falta de disciplina e de fé no estudo dos alunos e dos pais, as exigências e as contradições do sistema escolar, muitas vezes, também.

Posso dizer que todas as experiências foram, ao mesmo tempo, árduas, mas muito felizes, ao mesmo tempo. Passei por quase todo o fundamental nas escolas municipais e no estado, em Ernestina e em Passo Fundo, e tive a oportunidade de atender diversos tipos de público, desde crianças até jovens e adultos. Todo o fundamental, incluindo alfabetização, com o currículo por atividades, pois fiz magistério; o ensino médio, dando Língua Portuguesa e Literatura, no Cecy Leite Costa; a Educação de Jovens e Adultos em Ernestina, na Escola Raimundo Corrêa.

Depois, tive ainda a oportunidade de trabalhar com projetos de arte na Secretaria Municipal de Educação, mas nunca saindo da sala de aula: atendia várias escolas, com Coral, com violão e projeto de Artes visuais. Foi nesse tempo que, juntamente com a Lindiara Paz, a Elvira Battisti, o Pablo Morenno, o Paulo Monteiro e a professora Tânia Fornari, montamos o “Eu e os artistas da minha terra”, que funcionou entre 2012 e meados de 2014, com várias parceiras professoras de outras escolas, como a Singraí Stradiotti, atriz também; a Desiré de Meira e Meira, a Sônia Gabin, a Clarice Giacobbo, o professor Carlitos e tantas outras (os), e as escolas que integravam. Perdão se não disse o nome de todos (as), mas sintam-se lembrados todos que participaram. 

Foi muito gratificante! A gente trabalhava as obras do artista local com os alunos na escola, contava a exposição e o convidava. E aí havia uma troca de conhecimento incrível! E tínhamos uma comunidade no face, onde colocávamos as fotos de todas as escolas e seus eventos. A artista Miriam Postal participou e deu seu apoio. Participaram a EMEF Helena Salton, EMEF Lions, EMEF Coronel Lolico, EMEF Benoni Rosado, EMEF Coronel Benoni, EMEF Cohab Sechi, e tantas outras.

Em 2014, contudo, eu já havia terminado o mestrado na UFRGS e estava disposta a tentar a carreira universitária. Trabalhei no curso de Letras Espanhol na Unespar (União da Vitória) entre 2015 e 2016. Retornei a Passo Fundo e fui para o Ifsul, no qual fiquei nos anos de 2017 e 2018. Lá, durante a disciplina de Gêneros Textuais, na Especialização para Professores, fizemos uma aula resgate do projeto “Eu e os artistas da minha Terra” com a presença de Lindiara, do Pablo e do Paulo.

Em 2019, diminuí a carga de trabalho para me dedicar exclusivamente à tese: “Os pressupostos de Miguel de Unamuno na revista Quixote\RS: Leituras e acolhidas de Dom Quixote”, iniciada em 2015 e defendida em Dezembro de 2019, sob a orientação do professor Ruben Daniel Castiglioni, na UFRGS.  Enquanto isso, comecei a dar aulas de Espanhol na rede Wizard, de idiomas, em Casca, outra experiência bem diversa, particular, com roteiro de aula e exigência de seguir um livro específico, da rede.

E agora, com a Pandemia, ingresso nas aulas remotas, via internet, à distância, algo bem diferente do que já experimentei. Acho que este período, para professores de todas áreas e níveis, está sendo desafiante e nova.

Considerando toda a trajetória percorrida até este momento, acredito que o professor é um ser que passa por altos e baixos, por desânimos e ânimos, diante de todo o cenário que precisa enfrentar: desvalorização, desrespeito da sociedade em geral com ele, da violência que sofre, dos alunos, dos pais, do descaso com o seu trabalho, da pesquisa e do estudo, como estamos presenciando nesse o momento, em que uma opinião qualquer é mais valorizada do que pesquisas bem fundamentadas e anos de estudo.

É preciso, urgentemente, resgatar a valorização em todos os sentidos dos professores, principalmente os de Ensino Fundamental e Médio, pois, sim, não se trabalha apenas por “amor à camiseta e à causa”.

Slides de fotos: (Defesa de tese UFRGS, dezembro de 2019/Parede de casa/ Catedral de Passo Fundo/ O orientador queria um quadro/ livro Maria Cleci Venturini)

SITE NEIPIES: Como as diferentes artes passaram a fazer parte de sua vida? O que modificaram em você?

Venturini: Na verdade, convivo com as diferentes áreas artísticas desde de que me conheço por gente. Me considero uma pessoa que precisa se expressar e sempre de formas diferentes. Acredito que a arte me ajudou a olhar as coisas por outras perspectivas e sim, a ser mais empática. Claro, mas isso é para mim. A experiência da arte é particular de cada um.

SITE NEIPIES: Por que as diferentes formas de arte ainda são tão pouco valorizadas, apesar da reconhecida importância para o pleno desenvolvimento do ser humano? A arte é perigosa aos olhos de quem domina o mundo?

Em primeiro lugar, creio que as diferentes formas de arte são desvalorizadas porque ainda vivemos em uma sociedade extremamente tecnicista e focada no que “dá dinheiro logo”.  Podemos ver isso bem nítido no texto “Reinventando as Humanidades”, de Rouanet, que li durante o Mestrado e nunca mais esqueci.

Também é possível constatar na nossa realidade brasileira e nos currículos escolares, no geral. Isso significa que a arte, enquanto pura forma de expressão, não tem uma função ou utilidade específica, uma vez que cada um vê como lhe parece: para uns, é puramente decorativa, a “arte culinária”, como chamam. Para outros, é instrumento de crítica e denúncia social.  Tem o intuito de somente chamar a atenção, chocar ou mesmo mudar a perspectiva. E tem ainda a função “Rivotril”.

Tudo isso as formas de Arte significam, a saber: as artes visuais no geral, a música, a dança, a Literatura, as Artes Cênicas, o Cinema, o Humor, por exemplo, estilo Stand Up. E elas desenvolvem, no ser humano, a capacidade de ver as coisas sob outras perspectivas, de reinventar as situações e de expressar melhor as suas angústias. Enfim, também como autoconhecimento.

Em segundo lugar, acho muito arriscado afirmar esse “poder redentor” da arte de tornar um indivíduo, digamos, mais humano, mais ético, empático aos sofrimentos dos outros.

De um lado, basta ver o exemplo de Hitler, que era cultíssimo, amante das artes e, no entanto, foi um dos maiores tiranos e assassinos da história. E temos uma série de escritores, músicos, dramaturgos, atores, artistas plásticos geniais, porém, cheios de preconceitos e alguns até fascistas. Isso tem sido um assunto muito debatido na rede agora.

O que a gente faz, hoje, por exemplo, com um Monteiro Lobato? E no meu caso, que tive a oportunidade de estudar o grande Jorge Luís Borges e o abordei em minha dissertação, sob a orientação do professor Luís Augusto Fischer? Como lidar com a predileção de Borges por Pinochet? E com o seu racismo?

Pelo outro lado, no mesmo período do Nazismo, nós temos uma menina de treze anos, a Anne Frank, que se refugiou em seu diário, inventou uma personagem, amiga imaginária Kitty, para quem narrava todas as suas impressões e angústias, bem como os sentimentos de empatia pelos prisioneiros levados ao campo de concentração para serem executados. Ela sequer imaginou, antes de morrer, de que sua escrita particular seria lida e significaria tanto para as pessoas, não só as diretamente atingidas pelo horror do Nazismo, mas também por outras do mundo inteiro.

A arte pode, sim, ajudar as pessoas a desenvolverem a sua humanidade, desde que elas assim queiram e sintam empatia pelas situações representadas artisticamente. Vai depender, logicamente, de qual conceito elas têm de arte: se de mera culinária, decorativa e beletrista, ou realmente algo que faça sentido, que as ajude a se expressar e as leve a identificar situações da vida com as quais tenham capacidade de sentir empatia e compaixão. E ainda pode acontecer da pessoa envolver-se profundamente com a ficção, mas não ligar a mínima para uma situação correlata na realidade.

A tese de doutorado que defendi estuda justamente um grupo de jovens intelectuais e artistas da década de 1940 do século XX, “Grupo Quixote”, em Porto Alegre, que desejavam fazer “uma barbaridade”. Essa barbaridade, vale dizer, era justamente a de se expressar, a de opinar, a de dizer a que vieram e a de fazer arte e crítica literária, buscando seu espaço na cena artística e intelectual do Rio Grande do Sul.

A arte, em si, é uma barbaridade. Aí chegamos no terceiro ponto: sim, as formas de arte podem ser perigosas, no momento que questionam os papéis sociais e culturais estabelecidos, quando rompem com os preconceitos e têm coragem de mostrar que existem maneiras de viver e de se expressar diferentes das “grades sociais” pré-determinadas. No entanto, se a não questiona e só mostra mais do mesmo, não será perigosa, ao contrário: pode ajudar a manter as estruturas dominantes e aprisionantes do indivíduo.

SITE NEIPIES: O que te motivou a participar da Confraria de Artes de Passo Fundo? Qual é o objetivo desta associação de artistas?

Venturini: Desde criança, me vejo em torno de tintas, lápis e todo o material que possa servir para pintar e desenhar. Entrei na Confraria quando ainda era a antiga AAPPF (Associação dos Artistas Plásticos de Passo Fundo), coordenada, na época, pela artista Fáthima Rogoloski. Adentrei a associação por meio de Ione Pedro, grande amiga artista, para quem mostrei meus primeiros esboços.  Ela me orientou e somos muito próximas até hoje. Desde aí, comecei a expor, cheguei a ganhar dois prêmios pelo “SESC Descobrindo talentos” pelo quadro “Rio Passo Fundo” e faço parte da atual Confraria das Artes, embora, nos últimos tempos, não tenho conseguido participar muito das atividades, por conta da tese, agora concluída. Participei também, por um período, da AGAPA (Associação Gaúcha de artistas e artesãos plásticos de Porto Alegre), no qual ganhei uma menção honrosa.

Quadro premiado com menção honrosa AGAPA.



O objetivo da Confraria das Artes é propiciar que os artistas locais possam mostrar seus trabalhos à comunidade, que possam contribuir, como fazem no projeto das Intervenções Urbanas na cidade e também de que seus trabalhos tenham visibilidade. Neste momento, continua muito ativa, através das redes sociais, sob a coordenação da artista Lindiara Paz.

SITE NEIPIES: Em tempos de isolamento físico e social, qual é o papel ou a função que a arte pode desempenhar para fortalecer nossas individualidades, nossas relações interpessoais e nosso modo de ver o mundo?

Venturini: Acredito que nunca a arte foi tão necessária quanto agora, nesse período de Pandemia. Vivemos um momento em que milhares de pessoas morrem no Brasil por conta desse vírus e da negligência que a sociedade tem agido em relação ao vírus. Então, a arte é fundamental para que os indivíduos consigam fazer toda a “catarse” do que estão vivendo.

Certamente haverá muitas e muitos “Annes Franks” durante esta pandemia, escrevendo, cantando, dançando, representando, suas angústias e impressões sobre esse período. E nunca as pessoas consumiram tanta música, filmes e séries como agora! Isso só mostra como é falaciosa a expressão tecnicista e dinheirista que ouvimos muito recentemente: “de médicos, engenheiros, já precisei, mas nunca de um artista.” Pois bem, aí está a prova de que precisamos sim!

Os artistas estão sendo fundamentais agora, para que as pessoas consigam lidar com o caos social, econômico e, sobretudo, existencial causado pela Pandemia.

SITE NEIPIES: Que sugestões darias aos teus colegas professores e professoras que, neste momento, estão tendo que se reinventar e reinventar o seu jeito de atuar nas aulas?

Venturini: Tenho a dizer de que compreendo o quanto o trabalho está sendo árduo e difícil e a única coisa que posso sugerir é que, quando estiverem muito estressados e aflitos, tentem respirar fundo, nem que seja por um instante, e tentem recobrar a força, a fé e a vontade, do seu modo particular.

Não sou capaz de dar receitas a ninguém, pois sei o quanto ser professor, e especialmente de escola pública e de ensinos fundamental e médio, é difícil. Também é, salvaguardando as devidas diferenças, para o professor de Ensino Superior. A questão é que este ainda tem mais valorização do que o do Ensino Básico. Os professores, embora a sociedade continue ainda a negar e não valorizar devidamente, são tão importantes agora quanto os artistas.

SITE NEIPIES: Achas que sairemos melhores a partir da crise sanitária e da pandemia?

Venturini: Algumas pessoas certamente sairão melhores. Outras, infelizmente, não. Em questões de soluções tecnológicas, acredito que as videoconferências, as aulas à distância, as consultas online, etc, vieram para ficar.

No que tange ao desenvolvimento ético de cada um, basta vermos como cada um está reagindo durante a pandemia: aqueles que se dispõem a seguir as regras sanitárias, os que se cuidam, mesmo sendo obrigados a trabalhar, posto que estão em serviços essenciais, os que procuram ajudar de alguma forma, em serviços comunitários, parecem que sairão melhores do que entraram.

Agora, não tenho muita esperança com os egoístas e negacionistas que insistem em ignorar o perigo da Pandemia e não se importam nem consigo e nem com os outros. Fazem questão de se reunir para festejar, se aglomeram, não usam máscaras e ainda, quando advertidos, se dão ao impropério de repetir a máxima: “Você sabe com quem está falando?” Quanto a esses, tenho sérias dúvidas se sairão melhores da crise sanitária.

É doloroso ver como algumas pessoas têm mostrado a sua face mais egoísta e má durante a Pandemia. Ao mesmo tempo, também há gente mostrando o seu melhor lado, o que não deixa de ser um alento.

SITE NEIPIES: O uso das diferentes tecnologias na escola, no teu ponto de vista, podem ajudar na melhoria da qualidade da educação?

Venturini: Podem melhorar dependendo de sua viabilidade e da forma como são usadas. Por exemplo, de nada adianta ter um aparato super moderno, com sinal de internet potente e bons computadores, se as aulas vão se resumir a somente o aluno copiar da tela do computador como se fosse o quadro negro. Isso mostra que as Tecnologias de Informação (Tics) podem ser um meio poderoso, mas ainda assim vai depender do conceito de educação que o professor, sua escola e rede possuem.

Estou lendo dois livros bastantes significativos sobre isto neste momento, de Roxane Rojo: “Escola Conectada, os multiletramentos e as Tics” (2013) e “Multiletramentos na escola” (2012). Essas obras compartilham experiências muito interessantes realizadas em sala de aula, que envolvem aplicativos de vídeo, de reescrever textos de outros gêneros, de pensar criticamente e de relacionar diversas artes, inclusive.

Agora, claro que, para fazer tudo isso, como já foi dito, são necessários recursos fundamentais, como bons computadores, sinal de internet potente e comprometimento de ambos os lados do processo de aprendizagem, isto é, professor e aluno.

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos que leem esta entrevista.

Venturini: Obrigada pela oportunidade de poder colocar meus pontos de vista e de compartilhar com vocês as minhas experiências. Desejo a todos coragem e ânimo para enfrentarmos esse momento. Que todos se cuidem e cuidem seus semelhantes. Um dia, toda esta situação vai passar.


Duas músicas interpretadas na minha voz.




Fotos: divulgação/arquivo pessoal
Contatos de Aline Venturini:
Facebook: https://www.facebook.com/aline.venturini.3/
Instagram: vent_aline

Quem somos nós?

Mal sabemos porque somos o que somos,
fazemos o que fazemos, pensamos o
que pensamos e dizemos o que dizemos.


Quem somos nós?

Uma fagulha de pensamento no passatempo divino? Um potencial que jamais se concretiza? A brisa tardia do anoitecer sombrio?

Quiçá, somos tudo aquilo que não gostaríamos de ser ou aquilo que outros desejariam ser?

A dúvida assombra a todos que ousam pensar sobre as questões que nascem ao passar e pesar da vida.

Ignorar é a saída? Talvez.

Somos mera possibilidade, dentre todas as contingências, inclusive a da fatalidade possível de sermos somente aquilo que tiver que ser. –

Quem somos nós? – Não sabemos.


Neste vídeo, Mário Sergio Cortella faz importante relação entre autoconhecimento e felicidade. Confira!



Mal sabemos porque somos o que somos, fazemos o que fazemos, pensamos o que pensamos e dizemos o que dizemos.

Por isso, coloca-te, em tudo, no mistério de ser o que você é.

O sentido há de estar sempre oculto à espera da tua ousadia.

Em tudo, tomamos decisões, apesar das cisões que não esperávamos e as quais não poderão jamais ser emendadas no tecido da vida que se costura a cada dia.

Sou eu. Sou os outros. Sou a vida dos outros. Sou a eternidade dos outros em mim. Sou você. E você talvez possa ser um pouco de mim”. (Laércio Fernandes dos Santos)





Sugestões de uma prática pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do Sexto Ano do Ensino Fundamental.

No Sexto Ano, Unidade temática: Conhecimento. Objeto de Conhecimento: O homem, um ser que pensa. Habilidades: identificar a constituição do eu individual e social, o cuidado de si e do outro, conhecer-se e se relacionar melhor.

Questões para pensar:

  • O que o autor do texto quis refletir? Quais são suas perguntas? (Descreva)
  • “Conhece-te a ti mesmo” é uma frase atribuída ao sábio e filósofo Sócrates. Por que é tão difícil conhecer-se? Argumente.
  • Qual é a relação que o escritor e filósofo Mário Sérgio Cortella faz em seu vídeo? Faça uma breve descrição do que ele falou (5 a 10 linhas).

Amor nos tempos de aplicativos


Engenheiro e professor, Aurélio Salton nutre desejo de comunicar-se através da linguagem escrita sobre os desafios cotidianos. Em tempos em que a tecnologia tornou-se uma grande aliada para a comunicação interpessoal e os relacionamentos, ele escreve para combater a ideia oposta: a de que aplicativos de relacionamento são superficiais e perigosos.

Abordando o interessante tema de “relacionamentos”, Aurélio organizou o livro com crônicas, envolvendo personagens da vida real, na forma fictícia e literária, abordando aspectos pouco reconhecidos sobre relacionamentos que ocorrem e que podem ter muito sentido, por meio virtual. Seu livro tem o título: “Amor nos tempos de aplicativos”.

Saiba mais sobre a obra, clicando aqui.



Conheçamos um pouco mais deste jovem escritor, por ele mesmo, a partir de sua experiência com a escrita, com a literatura e com a proposta de seu primeiro livro.

***

SITE NEIPIES: Quando, como e porquê decidiste escrever?

Aurélio: Tenho passos largos a seguir: meu pai é escritor e sempre serviu de um modelo para que eu também escrevesse. Aliás, este livro em especial, surgiu de discussões que tivemos juntos: ambos curiosos sobre o comportamento humano, tentando desvendar os relacionamentos da era digital. Eu, com a experiência sendo adquirida na prática, ele, através de relatos de pessoas que apresentam dificuldades de entender estes mecanismos modernos. Juntos, vimos a necessidade de divulgar nossas discussões para um público maior, a fim de promover esse assunto de forma aberta e saudável. Talvez este seja o principal objetivo do livro.



SITE NEIPIES: Teu pai, Jorge Alberto Salton, médico psiquiatra e professor, por sua vez foi incentivado pelo seu avô. Essa relação familiar também te permitiu tornar-se um leitor e agora um escritor?

Aurélio: Com certeza. Gosto de imaginar que a tocha literária foi passada do meu bisavô para o meu pai, e, agora, para meu irmão e eu. Todos devemos muito ao Armando Annes, que certamente também teve influências similares, agora já esquecidas pelo tempo.

A literatura, infelizmente, sofre de concorrentes desleais em tempos modernos: as próprias redes sociais, sobre as quais o livro fala tão bem, acabam gerando distrações que afastam alguns de seus usuários de formas mais tradicionais de arte e cultura. A influência familiar e do meio nunca foi tão importante.


SITE NEIPIES: Por que decidiste escrever sobre relacionamentos através de aplicativos?

Aurélio: Porque existe uma imagem muito errada sobre os aplicativos de relacionamento. Várias pessoas se frustram com seu uso e acabam por demonizá-los, perdendo a chance de explorar uma ferramenta incrível para conhecer novas pessoas e aumentar seu círculo social. Ao invés de simplesmente abandoná-los, o livro propõe que os utilizemos de maneira saudável e produtiva.

“Existem outras ilhas por aí que, como nós, estão em busca de uma vida mais rica e interessante. Muitas de suas histórias ainda estão pobres e sem propósito. Elas também querem novas aventuras, querem criar histórias para contar, querem sair e experimentar. Mas isso tudo requer novos personagens e uma disposição ao risco. Se deixar sofrer (algumas rejeições) e se deixar viver também. Se permitir a exposição e “avaliação” dos demais, pois é assim que a história é escrita. Procurar esses personagens que agreguem linhas ao nosso livro requer um pouquinho de trabalho, mas, muitas vezes, nossas vidas só estão amargas porque o açúcar está no fundo: basta uma mexidinha e tudo fica mais doce.” (Citação do livro)



SITE NEIPIES: Por que ainda existe preconceito e desconfiança sobre as possibilidades reais de relacionamentos por aplicativos?

Aurélio: Porque o uso dos aplicativos gera muita frustração nas pessoas. Várias dessas frustrações são intrínsecas à pirâmide dos relacionamentos: as pessoas que queremos não nos querem. Mas várias outras, as mais comuns, são completamente evitáveis.

Um primeiro exemplo acontece com as pessoas que passam uma imagem distorcida no seu perfil, gerando a frustração dos demais quando se encontram pessoalmente. Elas acabam se frustrando também pois, apesar de terem sucesso no aplicativo, não conseguem transpor esse sucesso aos encontros presenciais.  Ambos os casos levam ao desprezo dos aplicativos, mas a culpa não é deles, é de seus usuários. Uma vez, por exemplo, saí com uma mulher muito simpática, inteligente e querida. Ela era bonita também, mas as suas fotos eram de mais de dez anos atrás, como depois me contou. Essa usuária me confessou que seus encontros não iam adiante. As razões eram óbvias, mas ela não conseguia ver o que estava fazendo de errado.

Existem inúmeros outros motivos que levam a mais frustrações, eles também são abordados no livro. Geralmente as discussões são trazidas da mesma forma: histórias pessoais que levam a uma reflexão sobre o comportamento das pessoas nessa nova forma de amar.


SITE NEIPIES: As narrativas do teu livro de crônicas são de pessoas reais, que de uma maneira ou de outra, viveram a experiência de relacionamentos a partir do mundo virtual (aplicativos). Que aprendizagens você, como autor, sistematizou no livro?

Aurélio: Não é simples sistematizar boas maneiras de se relacionar, mas posso dizer que a mensagem do livro é que, acima de tudo, devemos ser sinceros. Esse é o grande trunfo dos aplicativos: lá temos acesso a centenas de milhares de pessoas, na palma de nossas mãos. Não precisamos ser “personagens” pois, dentro de um universo tão grande, iremos com certeza encontrar pessoas que nos querem pelo que somos. Mas essa abordagem franca não é natural, normalmente as pessoas querem esconder seus defeitos e passar imagens distorcidas de si. Os usuários levam muito tempo para perceberem que isso é contra produtivo, e nocivo, para todo mundo.


SITE NEIPIES: É possível fazer alguma relação entre relacionamentos através de aplicativos num tempo de isolamento físico e social?

Aurélio: Hoje, as pessoas estão se vendo obrigadas a prestar mais atenção nos aplicativos de relacionamentos. Afinal de contas, está praticamente impossível conhecer pessoas de outra forma. Vendo por esse lado, o isolamento social é uma oportunidade para que todos levem a sério e se dediquem a aprender como utilizar de forma saudável essas ferramentas. Acho que o livro vem em boa hora para fomentar esse tipo de discussão.


SITE NEIPIES: Para quem, em especial, dirigiste o livro?

Aurélio: Diversos públicos têm demonstrado bastante interesse. Em primeiro lugar, naturalmente, estão os usuários dos aplicativos, que estão tendo mais sucesso em conseguir o que querem: seja sexo, seja encontros casuais, seja relacionamentos duradouros. Em segundo lugar estão as inúmeras pessoas que sempre tiveram curiosidade pelos aplicativos, mas que, por uma ou outra razão, não criavam um perfil. Estas pessoas estão agora tendo novas experiências, algumas muito boas inclusive.

Além dos usuários e possíveis usuários, dois públicos diferentes tem me contatado para conversar sobre o livro. O principal destes é composto por psicólogos(as) que não tiveram experiências pessoais nos aplicativos. Eles(as) estão recomendando os livros para seus pacientes e têm me dado uma série de feedbacks impressionantes, até tocantes: algumas pessoas que nunca conseguiram um relacionamento antes, agora estão felizes com algum crush encontrado no meio digital. Por fim, todas as pessoas que se interessam por comportamento humano vão gostar do livro também. É um universo diferente para vários dos leitores, mesmo os que estão casados e não tem nenhum interesse em experimentar esse meio por conta própria.


SITE NEIPIES: O convívio com a tecnologia já mudou muito a forma de nos relacionar?

Aurélio: Com certeza. Principalmente quando falamos das primeiras impressões. Antes mesmo de perguntarmos a opinião de amigos e conhecidos sobre os possíveis pretendentes, a primeira coisa que fazemos é uma análise dos perfis de redes sociais: Instagram, Facebook, etc. No caso de encontros iniciados pelos aplicativos de relacionamento então, Happn, Tinder, etc., isso é ainda mais evidente. Daí a importância de mantermos uma boa relação com as redes sociais. Elas servem hoje como cartões de apresentação, não devem ser ignoradas nem menosprezadas.



SITE NEIPIES: Qual é, na sua visão, a função da literatura em nosso momento histórico?

Aurélio: A literatura continua sendo uma maneira de compartilharmos experiências. Através dos livros podemos viver não uma, mas várias vidas. Aprendemos com os erros e acertos dos outros, enriquecemos nosso dia a dia e descansamos da realidade que por vezes nos perturba. O distanciamento social está levando as pessoas a reinventarem suas vidas, a se ocuparem com novos hobbies. É uma ótima oportunidade para intensificarmos a literatura na vida das pessoas. 

Monteiro Lobato seria um racista?

Deixar de ler ou de ensinar as obras de
Monteiro Lobato às crianças e aos jovens
seria uma negação da verdadeira história do
nosso país e até mesmo das Américas.


Dias atrás, li um artigo que afirmava ser Monteiro Lobato um racista. Tomei um susto com essa opinião. Creio que não podemos afirmar qual o jeito de ser e agir da vida real de um escritor.

Não estou defendendo Monteiro Lobato, apenas colocando o meu ponto de vista sobre como as pessoas nos veem em relação ao que escrevemos. Às vezes somos confundidos com os nossos personagens. É preciso, pois, diferenciar o escritor do cidadão comum. Um age inspirado no seu mundo da criação e imaginação, o outro vive no mundo real.

Acompanho essa discussão sobre o racismo em Monteiro Lobato há alguns anos. Não sei se merece tanta atenção assim, mas creio ser importante levantar essa questão aos professores, gestores, pais e responsáveis por crianças e jovens.

O racismo é considerado crime no Brasil, atualmente. Porém, no tempo em que Monteiro Lobato viveu, urgiam nas grandes fazendas as senzalas, as amas de leite, os escravos domésticos e aqueles que trabalhavam na plantação de café. É preciso conhecer um pouco da História do Brasil para falar sobre a escravidão no nosso país.

O grande escritor Monteiro Lobato, que publicou livros para crianças e criou a personagem tia Nastácia do Sítio do Pica-Pau Amarelo, talvez não tenha tido a intenção de explorar a escravidão doméstica, mesmo porque tia Nastácia nunca foi tratada como uma escrava, apenas criou a personagem da forma como eram e se caracterizavam as coisas no seu tempo. Nas fazendas, havia muitas mulheres velhas e negras, na maioria das vezes, solteiras e de pouca instrução.

Naquela época, os negros não tinham espaço no mercado de trabalho, a maioria trabalhava em casas de família e, mais precisamente, eram cozinheiros ou cuidavam dos afazeres domésticos. No caso de tia Nastácia, ela é representada como a cozinheira de uma família que a trata com carinho e afeto. Nunca, em nenhuma página dos livros sobre o Sítio do Pica-Pau Amarelo, ela sofre preconceito. Dona Benta nunca aparece como racista, causando-lhe maus-tratos ou coisa parecida.

O problema maior de acusação de racismo em Monteiro Lobato pode ser encontrado na personagem Negrinha, que é maltratada pela sua senhora. O escritor Monteiro Lobato relata a feiura da negrinha, mas isso não quer dizer que ele seja um racista. Não é porque eu acho um negro feio que eu seja racista. Assim, também não posso achar uma pessoa branca ou parda feia? Precisamos parar de acusar as pessoas só porque elas não se encaixam naquilo que consideramos o politicamente correto.

A personagem Negrinha aparece sendo torturada por Dona Inácia, sua senhora, como eram chamadas as madames no tempo da escravidão. Mas quem tortura não é o escritor, ele apenas está relatando um fato que veio à sua imaginação.

Se existiu na vida real uma menina feia chamada Negrinha ou não, isso não ratifica que Monteiro Lobato seja um racista. A obra Negrinha é um convite à leitura em sala de aula para que os alunos reflitam sobre o quanto a escravidão foi dolorosa no nosso país. Não devemos rejeitar tal texto nas escolas, pelo contrário: trata-se de um convite à reflexão do aluno para o respeito às mais diversas raças, etnias e culturas; um respeito ao ser humano e ao próximo.

Também não é porque ele considera as bonecas louras e de olhos azuis das sobrinhas de Dona Inácia bonitas que esteja sendo racista. Naquela época, todo mundo louro e de olhos azuis era considerado alguém belo, imagine uma boneca. É possível que Negrinha só tenha tido contato com bonecas de milho ou de pano, talvez nenhuma boneca tivera antes. De repente, ver aquelas lindas bonecas chama sua atenção.

Nosso amado escritor para crianças, Monteiro Lobato mostra, na sua personagem, que a cultura herdada pelos europeus no nosso país, foi o marco da colonização. E agora desconstruímos essa cultura com a expressão “descolonial”, em que o eurocentrismo perde seu espaço. A descolonização visa à superação das verdades trazidas pelo eurocentrismo e atribui ao negro uma causa maior de expressões e valores humanos, respeitando a cultura dele.

Deixar de ler ou de ensinar as obras de Monteiro Lobato às crianças e aos jovens seria uma negação da verdadeira história do nosso país e até mesmo das Américas. O escritor é múltiplo, como dizia Fernando Pessoa e seus muitos eus, logo, Monteiro Lobato poderia vestir-se de racista nas suas obras de ficção para mostrar a verdadeira história da escravidão e ser um cidadão antirracista na vida real. Ninguém pode afirmar isso com certeza.

Não se analisa uma pessoa só pelo que ela escreve, mas, sim, também pela forma de viver e por seus feitos deixados para o mundo. Com isso, defendo, diante do exposto anteriormente, que a obra de Monteiro Lobato deve ser trabalhada de forma consciente e reflexiva por todos os alunos e professores e não vista como racista. Monteiro Lobato escritor nunca foi um racista, quanto ao cidadão não posso opinar.

O escritor Monteiro Lobato foi, dentre outros escritores e estudiosos, um dos pioneiros no resgate do folclore literário brasileiro.Saci-Pererê, o mais simpático dos mitos brasileiros, surge como contraponto aos monstrengos internacionais, como os contidos no Halloween, tanto é que a cada dia 31 de outubro foi criado o Dia do Saci e seus amigos. Sendo um menino livre da escravidão negra no Brasil, Saci, para ter visibilidade, apronta, como todo garoto, suas artes. No entanto, é especial, pois fruto da brutalidade, perdeu uma perna, significando que e a escravidão foi feroz também com as crianças afrodescendentes. (Eládio Vilmar Weschenfelder).

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