O algoritmo escraviza a massa formada por milhares de profissionais sem qualquer expectativa. São os descartáveis que se submetem, por absoluta falta de opção, a tal situação.
O discurso atual é o mesmo que se apresenta em toda a crise: emprego, só em uma relação próxima da informalidade. É o que está acontecendo. Jovens que, com muita dificuldade conseguiam adiar a entrada no mercado de trabalho para estudar, agora são obrigados a buscar novas alternativas.
Onde elas estão? Em atividades degradantes, na condição de entregadores por aplicativo ou como empregadas domésticas. Aos poucos, estes “empreendedores”, como segmentos da direita insistem em chamar, são empurrados para informalidade.
Hoje, o Brasil tem quase 13 milhões de desempregados. Se somar o contingente daqueles que desejam trabalhar, mas não estão procurando emprego no momento, estamos falando de mais de 30 milhões de brasileiros, segundo o economista e professor da Unicamp, José Dari Krein.
Se isto não bastasse, Paulo Guedes, aposta todas as fichas em uma flexibilização ainda maior da legislação trabalhista. Isto é, nos planos do governo figura até a liberação de contratos por hora, em recolhimento de FGTS nem do INSS. É a precarização total das garantias trabalhistas.
As relações trabalhistas passam por uma total desumanização. Departamento de recursos humanos vai aos poucos desaparecendo. O patrão de carne e osso, idem. Agora, tudo é através de plataformas: Uber, Ifood, Rappi.
O algoritmo escraviza a massa formada por milhares de profissionais sem qualquer expectativa. São os descartáveis que se submetem, por absoluta fata de opção, a tal situação.
Um estudo identificou as jornadas de trabalho maiores e a queda nos rendimentos de 58,9% dos entregadores. Segundo a pesquisa, cerca de metade recebia até 520 reais por semana antes da pandemia.
Depois, 71,9% declararam receber até 520 reais, e 83,7% até 650 reais. O relatório ainda acrescenta que as empresas estão promovendo uma redução do valor da hora de trabalho dos entregadores em plena pandemia.
Na visão de muitos, o entregador é um microempresário, empreendedor. Trata-se de sucesso individual, jamais de pobreza. Os entregadores são “parceiros” das plataformas, não são trabalhadores.
Logo, não precisam de nenhuma garantia, nenhuma cobertura ocial. Fazendo jornadas de mais de dez horas diárias eles se enquadram no discurso da “meritocracia”, embora vítimas da exploração mais descarada que os leva a um tratamento caracterizado pela indignidade.
Enir Tormes é professora de educação infantil na rede municipal de Passo Fundo, trabalha com a turma Pré 2, com crianças da faixa-etária de 5 anos, na Emei Sonho Encantado, em Passo Fundo, RS.
Como professora, sempre priorizou a educação da qualidade, onde muitas vezes teve que utilizar de recursos próprios para qualificar sua prática pedagógica, onde investiu muita na profissão, fazendo formações, comprando livros e materiais para poder ofertar aprendizagens significativas junto às crianças.
Sempre gostou de contar histórias e foi aperfeiçoando as técnicas para envolver, ao máximo, as crianças.
Agora, com o isolamento físico e social, a professora Enir continuou se desafiando e buscando mecanismos de continuar aprimorando seu fazer pedagógico. Como forma de manter vínculos com as crianças, mesmo sem conhecimentos técnicos prévios para gravar, editar e postar vídeos, criou um canal no youtube com o nome “Contando e recontando” Prô Enir. Acesse aqui.
A iniciativa vem contribuindo para o desafio de estar interagindo com alunos via espaços virtuais, nos quais a rede Municipal de ensino vem implementando o uso de da plataforma Google Classroom para envio de materiais e aulas às crianças, o que facilita já ter iniciado este processo via rede social, onde a contação de histórias é um excelente recurso.
Conheça Enir Tormes por ela mesma.
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SITE NEIPIES: O que mais te realiza e o que mais te desafia como professora?
Professora Enir:Nestes trintas anos de profissão docente o que mais me desafia e me motiva é poder acompanhar o desenvolvimento desses pequenos seres durante essa etapa de sua vida. É incrível a capacidade de aprendizado das crianças, sua receptividade, seu carinho e sua pureza. Ver o brilho no olhar dos meus alunos a cada nova descoberta, as conquistas diárias e a superação diante das dificuldades me encanta.
Como profissional, o desejo de buscar novos conhecimentos e experiências sempre me levaram a estar sempre renovando minha ação, onde o tempo de profissão nunca foi um limitador, nunca me acomodei!
Vem sendo uma vida dedicada a profissão docente, sempre priorizei a preparação das minhas aulas, a busca de novos conhecimentos, onde muitas vezes a profissão foi colocada como prioridade na minha vida.
SITE NEIPIES: Qual é, na sua visão, a importância de uma educação infantil de qualidade para o desenvolvimento integral das crianças?
Professora Enir:A Educação Infantil é fundamental e essencial porque desenvolve um papel de relevância na formação humana e social da criança.
É nesta fase que a criança desenvolve-se fisicamente, socialmente, cognitivamente e emocionalmente.
A Educação Infantil é fundamental para demais fases do desenvolvimento que irá influenciar no desempenho escolar futuro das nossas crianças, além de cumprir como base para formação da vida adulta, lembrando que estudos apontam que é por volta dos 5 anos que formamos a nossa personalidade.
Aqui cabe um alerta, pois a escola é o primeiro ambiente que os pequenos têm contato fora de casa e onde irão socializar-se de forma mais intensa e frequente, sendo a porta de entrada de descobertas de um novo mundo, os profissionais da educação infantil tem uma grande responsabilidade em suas mãos.
SITE NEIPIES: Conte-nos um pouco do seu amor à profissão, sobre os investimentos que sempre fizeste para dar o melhor que podes para as aulas com as crianças.
Professora Enir:Como falei anteriormente, sempre investi muito tempo e meus recursos financeiros na compra de equipamentos, livros, materiais pedagógicos, o que me chateia, pois abrimos mão muitas vezes de estar com nossas famílias, no exercício de uma profissão que não é valorizada.
Professor no nosso pais é muito mal remunerado, onde pagamos para trabalhar.
Nesta pandemia, estamos tendo que nos reinventar, no entanto, com recursos próprios.
Na faixa-etária que trabalho tenho feito formações especificas, como musicalização, contação de histórias, psicomotricidade para aperfeiçoar meu trabalho, no entanto, com pouca valorização.
Quando falo que fico chateada é porque não é fácil ser professor, não é fácil ter que se reinventar diariamente, onde se quisermos dar uma boa aula temos que ir atrás da formação, livros, jogos e ainda levar para sala de aula todos os equipamentos.
Eu invisto, mas não acho que é justo, temos que ter investimento na educação, formação de qualidade e professores valorizados.
SITE NEIPIES: Quando, como e porquê decidiste criar um canal no yotube para guardar e depois compartilhar as tuas contações de histórias?
Professora Enir:O canal veio com os novos desafios de estar buscando outras formas de interação com as crianças, compartilhar minhas práticas pedagógicas e contribuir com educação de qualidade.
Nas nossas escolas acontecem muitas coisas boas que muitas vezes ficam restritas às salas de aula, com canal no youtube tenho conseguido compartilhar meu trabalho, interagir com as crianças e desafiar outros professores(as) a revelar sua prática.
Meu canal do youtube reflete o meu fazer pedagógico de forma virtual, diante do que é possível, neste momento de pandemia.
SITE NEIPIES: Que projetos tens para o uso da plataforma digital para as aulas remotas e à distância?
Professora Enir:O desafio de fazer o canal do youtube foi me instrumentalizando a utilizar e explorar as ferramentas digitais, o que vai me ajudar a utilizar de forma mais atraente, interessante e lúdica na plataforma, de forma a atender melhor as especificidades da criança pequena.
Por se tratar de crianças pequenas a metodologia e a abordagem é diferenciada, pois quem irá acessar a plataforma e registrar as atividades serão os pais, que muitas vezes, também terão suas limitações quanto ao uso das ferramentas ou a ter acesso aos recursos necessário como internet e/ou computador. Nem sempre os pais irão conseguir acompanhar ou ter paciência ou disposição para orientar e auxiliar nas tarefas.
Quantos aos projetos pretendo trabalhar de forma criativa, humanizadora e participativa, onde estarei disponibilizando minhas histórias, músicas, sequências didáticas e o meu tempo dentro carga horária para auxiliar as famílias na realização das atividades.
Ainda, tenho disponibilizando para colegas professores as atividades que venho postando no canal e na plataforma, estando à disposição para contribuir com este processo.
SITE NEIPIES: Como sua família vê, colabora e avalia o teu trabalho desde o tempo das aulas presenciais e agora à distância?
Professora Enir:Sempre tive minha família ao meu lado, me apoiando e contribuindo. Agora mais ainda na organização de um espaço adequado para as gravações.
Mas a prática diária vai nos dando experiência e conhecimento o que libera a família de algumas tarefas, como por exemplo, filmar, hoje já consigo fazer sozinha.
Confesso que nem sempre é fácil, pois acaba tomando muito tempo da nossa vida, produzir conteúdo, gravar, editar, baixar, divulgar…
Hoje trabalho muito mais que a minha carga horária, o que gera a nossa falta no ambiente familiar.
SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos pais e mães de crianças que estão na educação infantil?
Professora Enir:É calma! Você não é não precisa ser professor, na sua casa; sejam pais!
De afeto, interaja e se comunique com seus filhos; aproveite para estarem juntos curtam a infância com eles!
SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos colegas professores e professoras?
Professora Enir:Vocês não estão sozinhos, este momento irá nos fortalecer ainda mais, os desafios são para crescermos coletivamente, se permita acreditar que é possível, a tecnologia pode ser uma ótima aliada à nossa prática educacional.
SITE NEIPIES: Como imaginas o futuro da educação no pós pandemia?
Professora Enir: Não será fácil, muitos desafios, pois as dificuldades serão as mesmas, agravadas pela pandemia, mas espero que tudo isso sirva para revermos o que precisa ser mudado, avançar nas possibilidades de interação, que tenhamos mais condições de trabalho, participação das famílias e que a sociedade de o valor a Escola e ao professor!
“Nesse tempo em que estamos em casa, utilizar a internet vai ser o principal recurso de acesso à escola, mas para tudo precisamos ter limites, não podemos sobrecarregar nossas crianças. Tempo para brincar, para ler um livro, para ficar com a família, para jogar. Porque se a gente não medir (e falo isso tanto para pais quanto para professores), em pouco tempo estaremos todos esgotados mentalmente. Deve ser algo leve e prazeroso, a tecnologia é nossa aliada, não vamos virar escravos dela”. (Professora Graziela Bergonsi Tussi) Leia mais clicando aqui.
Naquela tarde, a floresta voltou a ser como antes. Havia espaço pra todos, pequeninos e gigantes.
Eu sou o Grilo Falante, conheço Pinochio e Geppetto.
Num tornado fui a Oz, caí na toca do coelho.
Quatro perguntas respondo, deitado na minha rede: 1) ─ Quando foi que a Dona Aranha quis escalar a parede? Ninguém me havia explicado, e perguntei pra toda gente: 2) ─ Por que a Dona Aranha era teimosa e desobediente? 3) ─ Que parede era aquela? 4) ─ E por que ela subiu?
Deve haver uma razão. Será que ninguém a viu? Foi meu avô quem contou, catando em sua memória. Da heroína Dona Aranha, guardava o resto da história.
Meu avô disse: “─ Eu sei a história inteira da Aranha. Presenciei, inda menino, a sua grande façanha. Foi num tempo muito antigo, em que os grandes animais dividiram a floresta, cortaram as asas da paz.
A onça-pintada e a jiboia queriam tudo pra elas. Fizeram, com os bichos fortes, grande muro sem janelas. A parte onde tinha frutas, água e som de cachoeiras seria só dos bichos grandes e não era brincadeira. ─ Do lado de cá: só os fortões, do lado de lá: os fraquinhos. Exceto Anta e Preguiça, que ficam com os pequeninhos.
Todo os bichos maiores foram construindo o muro. ─ Assim será para sempre desde agora e no futuro. ─ Do lado de lá vão ficar os grilos e as joaninhas, as formigas, caramujos, beija-flores e andorinhas. ─ Cá com os fortes, queremos carcarás e urubus, tamanduás e suçuaranas, cascavéis e urutus.
E assim tudo foi feito, meu avô tudo foi vendo. Bem no meio da floresta, grande muro foi crescendo. Que ninguém cruzasse o muro, o recado estava dado. Quem fosse desobediente seria bem mastigado.
Todos os bichinhos calaram, por um tempo foi assim. Tornou-se a comida escassa, e a água chegou ao fim.
A Dona Aranha pensou, dialogou com a Preguiça. Floresta é coisa de todos, era, o muro, uma injustiça. Mas a ideia foi da Anta, por todos logo aprovada.
Missão para a Dona Aranha, capaz de grande escalada. Chovia torrencialmente. Jiboia e onça dormindo. Pelo muro construído Dona Aranha foi subindo.
Para subir na parede a chuva foi atrapalho. Dona Aranha era teimosa, não largaria o trabalho. Já no alto do muro, bem executou a ideia. Em cada canto de pedra foi prendendo a sua teia. Embora chovesse forte, desceu trazendo as pontas da teia enorme tecida. O muro era uma afronta.
Depois de trazer as pontas de bem alto até o chão, Aranha, Anta e Preguiça chamaram todos à reunião. Cada animal pequeninho a outro daria a mão. Seguindo Anta e Preguiça fariam um grande cordão. E a teia presa ao muro foi sendo puxada aos poucos. E os grandes do outro lado: ─ Os pequenos estão loucos!
O muro foi derrubado por Grilo e Caracol, por Formiga e Abelha, e então surgiu o sol.
Jiboia e onça, nervosas, se engasgaram na verdade: ─ Como é que Anta e Preguiça tinham alguma qualidade?
Naquela tarde, a floresta voltou a ser como antes. Havia espaço pra todos, pequeninos e gigantes. Seu Sabiá compôs a música, olhando do muro a ruína.
Teimosa e desobediente, foi, a Aranha, uma heroína.
Todos os bichos do mato, cantaram até o fim da tarde. A música da Dona Aranha que hoje todo o mundo sabe: “A Dona Aranha subiu pela parede…”
Aproveitemos, ao máximo, o nosso único e maior palco, sem desperdiçar oportunidades de aprendizagem.
Se você já foi meu aluno, quero saber como você está.
Este foi o texto de um post em uma rede social.
Afinal, as últimas semanas deixaram grande vácuo. Causaram ansiedade e decepção a professores, pois não houve condições de medir e mediar a aprendizagem dos estudantes. À distância, sem trocas, ficou quase impossível saber, medir ou dar sentido às aprendizagens e conhecer resultados pelos esforços empenhados. Aí, parece, o trabalho do professor, agora à distância, perde muito em sentido e valor.
Respondendo ao meu pedido, alguns estudantes se manifestaram dizendo que estavam bem, que estão trabalhando, cuidando da sua família, que tem saudades de minhas aulas instigantes e provocativas para o pensar.
Lembraram que é preciso pensar bem, para viver melhor, como ensinaram os sábios gregos. Disseram também como a filosofia é importante para ajudar a refletir as coisas importantes da vida.
Outros destacaram o Ensino Religioso como uma disciplina que ajudou a cultivar o respeito das diferentes religiões, a partir do conhecimento. Disseram ainda que aprendendo os fundamentos de algumas religiões, fica mais fácil respeitar as religiões diferentes daquelas praticadas por cada um.
Mas o inesperado aconteceu. Um amigo, destes de rede social, comentou: “eu não fui seu aluno, mas todos os dias aprendo bastante com o Senhor aqui. Te considero também meu professor, mesmo nunca tendo frequentado tuas aulas”.
Pois é, edito um site, gravo vídeos e sou bem ativo nas redes sociais. Mas qual é o alcance destas ferramentas para a educação? Será que estes conhecimentos possuem também poder de nos humanizar, de nos tornar seres humanos melhores?
Decidido, voltei à rede social e postei: se você é meu aluno e eu ainda não sei, me avise: quero saber como você está”.
Agora, mais do que nunca, quero saber mais sobre esta ideia de ensinar sem saber que se está ensinando. Quero estar disponível para aqueles que ensino, mesmo sem saber.
Já aprendi que educar vai além da escola, pois ela não é o único lugar de aprendizagens significativas. Educar significa entender que sempre é tempo de aprender e de ensinar e que não há idade e nem espaços físicos ou sociais determinados para as aprendizagens relevantes para vida de todos nós.
Alivia saber que há possibilidades de educar fora das salas de aula, nestes tempos de isolamento físico e social. Salas de aula (presenciais ou virtuais) são importantes na vida dos estudantes e professores e jamais podem ser substituídas porque permitem relação direta, relacional e significativa entre estudantes e professores. Mas, …
Compreender as relações de aprendizagem fora das escolas é importante e necessário.
Vida e palco, escola e passagem se fundem na maior arte que é viver. Mas, quem é ligado à educação sabe que nunca sabemos tudo e sempre haverá muito o que aprender. Somos eternos aprendizes.
Assim já escreveu filósofo e professor Sérgio Sardi: “há muito mais entre o aprender e o ensinar que uma relação direta e linear possa dar conta. Há muito mais que as palavras possam dizer. O gesto unilateral que põe, de um lado, o ensinar e, de outro, o aprender, é míope com relação ao que mais importa: o inusitado, o encontro, o prazer que confere sentido humano ao tempo das nossas vidas”.
Aproveitemos, ao máximo, o nosso único e maior palco, sem desperdiçar oportunidades de aprendizagem.
Esta crônica fará parte do Projeto Flores de Quarentena
O projeto “Flores da Quarentena” surgiu em um encontro virtual da SPV – Sociedade dos Poetas Vivos. A ideia foi proposta pelo escritor e editor Pablo Morenno e formatado com a colaboração do escritor Aleixo da Rosa e demais escritores da SPV. O principal objetivo é motivar os escritores do grupo a escrever e postar uma crônica na página homônima no Facebook. A crônica deveria ter até três mil caracteres e mostrar, real ou metaforicamente, uma flor do cotidiano da pandemia da Covid-19. Além da publicação na página da SPV, os autores dos textos se submeteriam à avaliação crítica do grupo, em reunião virtual. Assim, o projeto transformou-se também em uma oficina literária. É intenção do grupo publicar um livro, a princípio em formato de e-book e, posteriormente, em papel. Os autores que desejarem participar também do livro, que sairá sob o selo Trigais, submeterão os textos aos organizadores da antologia, com nova leitura e discussão de formato e linguagem. O projeto é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a vida na pandemia, um exercício de escrita à luz da intersubjetividade, uma valorização dos escritores e da realidade local, e uma motivação à escrita literária. Por fim, o editor Pablo Morenno pretende disponibilizar o livro em projetos de leitura em escolas, tendo jovens alunos como público-alvo.
Sei e conheço professores bem preparados em Tecnologia Inteligente, que fizeram cursos superiores, mestrado e doutorado nessa área e abraçaram essa profissão. Esta não é a realidade da maioria dos educadores públicos. O governo não sabia disso?
O foco principal destas linhas é o sistema EAD aplicado no ensino público brasileiro, durante a Pandemia do Covid 19, tendo por objetivo uma breve, mas necessária análise sobre as condições, tanto para o aluno, quanto para os educadores de como vem ocorrendo essa nova modalidade de ensino, suas facilidades e suas dificuldades.
Inicialmente, fiz uma contextualização do tema, obtidas em fontes confiáveis, da pouca literatura existente, da minha experiência pessoal em estudos não-presenciais, de diálogos com colegas do CPERS/Sindicato, de conversas diretas com professores/as estaduais do RS e de outros estados da Federação, todos/as envolvidos/as, nessa questão.
O EAD no mundo
O ensino remoto começou em 1728, com um curso por correspondência, em Boston, nos Estados Unidos, criado por um professor, de nome Caleb Phillips, o qual ensinava Taquigrafia (técnica de escrever à mão com rapidez) e que até hoje é usado, principalmente em órgão institucionais como Assembleias Legislativas, Câmara e Senado, para registro das sessões. Os correios e telégrafos eram os distribuidores do material.
Em 1833, a universidade de Lund (Suécia), implantou o curso de Composição por correspondência.
Em 1840, o professor Isaac Pitman, na Inglaterra, criou o curso de Taquigrafia de Passagens Bíblicas, também por correspondência.
Em 1856, surgiu, na Alemanha, um curso de conversação em outras línguas.
No Século XIX, o EAD foi tomando corpo e, visando, principalmente, locais de difícil acesso a pessoas que desejavam estudar, foi se expandindo em outros países como França, antiga União Soviética, Japão, Austrália, Noruega, África do Sul, Argentina, Espanha e muitos outros, além de surgirem novos cursos na Alemanha, Suécia e Estados Unidos.
Dessa forma, pode-se dizer que o EAD tem, hoje, aproximadamente, 292 anos de existência, sendo atualizado com frequência, diante das mudanças tecnológicas que surgiam. No início seu foco eram os cursos profissionalizantes, hoje, ele é encontrado e oferecido a todos os níveis de escolaridade, do ensino fundamental até a pós-graduação.
O EAD no Brasil
O registro mais antigo do EAD, ainda somente como ensino remoto, no Brasil, é de 1904 e se tratava de um curso de datilografia.
Em 1920, iniciaram os cursos via rádio, era a tecnologia daquele momento.
Em 1940, indo até 1950 apareceram os cursos mais formais, da área profissionalizante, “liderados pelo Instituto Monitor”, mais tarde, pelo “Instituto Universal Brasileiro” e, ainda, pela Universidade do Ar, do Senac e do Sesc, que permanecem, até hoje com a modalidade, aperfeiçoada às Tecnologias atuais.
Entre 1960 e 1970 surgiram outros cursos na área de educação, com o objetivo de alfabetização e a inclusão social de adultos.
Em 1970, em Brasília, teve início os primeiros cursos em EAD no terceiro grau.
Nos anos 1990, as universidades brasileiras deram seus primeiros passos de ensino, através da internet publicando e interagindo com os alunos. As iniciativas continuaram ocorrendo, o computador já estava incluído na educação a distância, já formalizada, e, em 1996, o MEC (Ministério da Educação) criou e passou a contar com a Secretaria de Educação a Distância (SEED). A legislação foi elaborada e, atualmente, garante a validade de diplomas dos cursos de EAD.
EAD na escola pública – Durante a pandemia
Para desenvolver esta temática, busquei, inicialmente, na Constituição Federal e na LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional -, um caminho que apontasse alguma noção ou orientação legal onde coubesse situações como a que estamos vivenciando, nas escolas públicas, durante a pandemia.
Na Constituição da República Federativa do Brasil (atualizada), encontrei, no Art. 205 – “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade”, para que o estudante se desenvolva adequadamente para exercer a cidadania e “sua qualificação para o trabalho”.
No Art. 206 – consta, entre os princípios dos seus direitos, a “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. Insta, então, não caberia ao Estado ameaçar com o cancelamento de matrículas, alunos que não conseguiram, até o momento se adequar ao sistema à distância, pois, como diz o Art. 208 – é “O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: I – educação básica obrigatória e gratuita dos 4 (quatro) aos 17 (dezessete) anos de idade” e o Parágrafo “VII – atendimento ao educando, em todas as etapas da educação básica, por meio de programas suplementares de material didático-escolar” (grifos nossos), ainda transporte (que não é o caso, neste enfoque, porque as aulas não são presenciais), alimentação e assistência à saúde”.
Encontra-se, ainda, na Carta Magna, o “§ 1º O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo (Redação dada pela EC n. 59/2009)”, o que reforça a obrigatoriedade do ensino, como dever do Poder Público. Além disso, a LDB registra atenção aos estudantes da zona rural e suas “peculiaridades”, assim como aos indígenas e quilombolas, no “TÍTULO I – Da Educação – Art. 28 – […] os sistemas de ensino promoverão as adaptações necessárias à sua adequação às peculiaridades” (grifos nossos) […] e “I – conteúdos curriculares e metodologias apropriadas às reais necessidades e interesses dos alunos (grifos nossos)”; “[…] II – organização escolar própria, incluindo adequação do calendário escolar […] condições climáticas”.
Vejo ainda, que aqui, nesta Carta de 1988, já constava o sistema EAD, como está homologado no “§ 4º O ensino fundamental será presencial, sendo o ensino a distância utilizado como complementação da aprendizagem ou em situações emergenciais.
Então, para recorrer à sua utilização, durante a pandemia, uma situação emergencial, não deveria haver surpresa. No entanto, quando os Estados decidiram pelo ensino em EAD, não consideram a necessidade de preparação docente, nem discente.
Desconhecendo a realidade e apostando na popularidade do telefone celular, entenderam que comprando uma plataforma virtual, todos estariam aptos a ter a continuidade das aulas, por um sistema, que apesar de antigo na legislação federal, nunca havia sido utilizado, nem sequer preparado, para tal momento, como já estava previsto no Art. 80 – O poder público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada. § 1º – A educação a distância, organizada com abertura e regime especiais […]”.
Nada ou muito pouco desta legislação foi cumprida pelo Poder Público. Não houve a devida preparação dos professores e dos alunos para enfrentarem as dificuldades para o desenvolvimento de um processo educacional desconhecido dos estudantes e trabalhadores/as das escolas públicas. Afinal, para tal tarefa, é preciso ações responsáveis e plenas em organização e orientação segura.
Não se faz uma educação de qualidade com improvisação e sem uma coordenação conhecedora do assunto, pois uma coisa é digitar tarefas e receber respostas; outra é a dedicação dos educadores ao interagir fluida, objetiva e até afetivamente.
Será que o governo pensou nos pais, que repentinamente tiveram que acompanhar os filhos nas tarefas educacionais sem nenhum preparo? Que perderam seus empregos? Neste tempo de medo, estresse, pânico, que são semeados, opressivamente, pelas notícias da cotidianas da pandemia, que já levou muitos colegas de profissão? Pela falta de atenção do Poder Público, em situações pontuais, causados por desajustes salariais e de carreira, entre outros.
Sei e conheço professores bem preparados em Tecnologia Inteligente, que fizeram cursos superiores, mestrado e doutorado nessa área e abraçaram essa profissão. Esta não é a realidade da maioria dos educadores públicos. O governo não sabia disso?
Tenho falado com muitos colegas que se queixam dessa situação e buscam o conhecimento com outros colegas ou com os núcleos do CPERS/Sindicato. Com os alunos e pais é a mesma coisa, só não vê quem não quer.
Gostaria muito de saber como é que os trabalhadores da educação do RS vão ser ressarcidos dos gastos de energia, da compra de um celular, que abarque todas as plataformas exigidas para tal excepcionalidade; que comprou um tablet ou mesmo um notebook para atender os alunos; que contratou uma empresa provedora de internet, no mínimo estável, para que as aulas consigam ser completadas. E quais são as providências tomadas em relação à zona rural, indígena e quilombolas?
Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília DF. Senado da República, 1988, atualizada em 2018.
BRASIL. LDB: Lei de diretrizes e bases da educação nacional. – 2. ed. – Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2018. 58 p.
BRASIL. Secretaria de Educação a Distância (SEED). Brasília, MEC – Ministério da Educação.
A mulher negra precisa de mais políticas públicas para alcançar os seus sonhos. Tornar-se reconhecida pelos seus méritos. Poder usar o seu cabelo do jeito que quiser, poder vestir-se do jeito que achar melhor e poder exercer a religião que desejar.
A mulher negra da América Latina é submissa a mulher branca e ao patriarcado ornamentado por um poder de impor regras e condições ao exercício de ser mulher. Geralmente, prefere o batom da mulher branca porque a mulher branca faz propaganda com aquele batom e fica mais bonita com ele.
Para chegar a algum lugar, ela precisa aprender a falar como uma mulher branca, vestir-se como uma mulher branca e pintar a sua alma de branca. Onde quer que vá ela terá sempre a sua frente os costumes e culturas da mulher branca prontos para oprimi-la e descaracterizá-la frente aos seus anseios e vontades.
Essa opressão ocorre nos mais diversos âmbitos da sociedade o que traz uma negação da mulher negra a si própria aceitando o que vem de fora, o que a aflige e, principalmente, o que a submete aos mais diversos desfloresceres da sua alma.
Atualmente, temos visto um movimento dessas mulheres negras no combate a submissão aos costumes da mulher branca, mas ainda é tímido e pouco aceito pela sociedade preconceituosa que ajuda a oprimir cada vez mais essas mulheres seja negando-lhes o direito de buscar o reconhecimento como profissionais valorizadas no mercado de trabalho ou seja como inferiorizando a mulher que vem da favela à procura de novos conhecimentos acadêmicos para instruir-se e conhecer os seus direitos.
Mulher negra não pode ser juíza, advogada, médica, modelo ou até mesmo professora de escola privada. Ela será sempre a negrinha da cozinha como nos tempos das senzalas e dos casarões dos ricos fazendeiros.
O que buscamos nesse ensaio é mostrar que a mulher negra da América Latina tem buscado superar essa opressão apesar da luta ainda ser por demais grande e não ser reconhecida nas esferas político-econômica-sociais dos seus países. Vou deter-me ao Brasil. E mais precisamente ao caso da mulher negra que ficou conhecida no mundo inteiro após o seu frio assassinato, a nossa querida Mariele Franco. Mulher negra, da favela, socióloga que estudou e tornou-se pelo voto popular uma das vereadoras mais votadas do estado do Rio de Janeiro.
A vereadora Mariele Franco tinha um trabalho bonito na sua comunidade e lutava para acabar com a opressão da polícia militar em relação aos pobres e negros das favelas cariocas. Não se sabe o motivo da sua morte. Mas, podemos afirmar que ela era uma mulher negra que incomodava muitas instâncias da sociedade brasileira. Por ser negra não devia estar entre os vereadores de maioria brancos e ricos.
Ela lutava por uma população subalterna à cultura dos brancos que não pode fazer uma festa na laje, ouvir um rap ou sonhar com uma vaga numa universidade pública. Mariele lutava principalmente pelas famílias que tinham seus filhos mortos pela polícia militar nas favelas cariocas. A sua favela, a da Maré, é uma das mais oprimidas do país. O seu trabalho deveras mexia com os costumes dos brancos que nunca precisaram dá explicações do que fazem ou deixam de fazer a um negro, e mais ainda, a uma mulher negra.
Segundo Böschemeier a branquitude impõe a sua voz como um privilégio diante do que afirmamos acima onde a mulher negra silencia-se diante da branca por sentir-se inferior
Assim, estou salientando o fato de que não existe branquitude em si mesma, mas sim há a manifestação social do que é entendido como “ser branco” e que se expressa nas dimensões étnico-raciais — não se restringindo ao aspecto fenotípico — , marcando o lugar ao qual pertencem os privilégios do ser, do dizer, do ocupar, do existir em um mundo que é estruturalmente racista e colonial.[1]
Essa fala do “sou branca” cai numa dimensão preconceituosa e arbitrária diante da mulher negra impondo-lhe obediência e servidão no que diz respeito aos costumes e culturas da sua sociedade. Coloca a mulher negra numa posição de desconforto e submete-a as mais desoladoras ofensas desrespeitando a sua dignidade enquanto cidadã e mulher. Traz uma branquitude opressora e desarrazoada em relação às diferenças que se colocam diante da mulher negra.
Quando do assassinato da vereadora Mariele Franco, muitas pessoas choraram, no entanto a maioria da sociedade brasileira sorriu e debochou do pranto de quem chorava por aquela mulher negra que tanto incomodava, a maior parte das pessoas que fizeram comentários ofensivos nas redes sociais sobre Mariele Franco; esses são homens e mulheres brancas que se sentiam incomodados com os seus projetos sociais voltados para os negros das favelas.
Assim como Mariele conseguiu uma formação acadêmica e o reconhecimento de parte da sociedade carioca que nela votou para vereadora, muitas mulheres negras lutam para alcançar o sonho simples de aprender a ler e a escrever. A maior taxa de analfabetos brasileiros encontra-se na população negra e moradora de favelas.
As jovens negras das favelas brasileiras não têm o direito resguardado de serem princesas num mundo onde essas devem ter olhos azuis, pele branca e cabelos louros. É um sonho que se sonha só, logo não será realizado.
Nas profundezas da caverna, encontramos uma luz no fim do túnel com mulheres como Conceição Evaristo que vêm se destacando num mercado elitizado que é o da literatura. Explicar o motivo por que Conceição Evaristo não foi aceita ano passado na Academia de Letras Brasileira é um mistério, não temos o que dizer. Todos sabem que a sua escrita simboliza a luta da mulher negra no mundo inteiro e independente de ser negra ou não escreve maravilhosamente bem, como indicam as vendas dos seus livros.
Também vemos com muito esforço e pouca divulgação algumas fábricas que produzem bonecas negras para crianças brancas. Bonecas essas que dificilmente serão o brinquedo de uma criança branca que desde cedo aprende a ignorar e menosprezar a criança negra que se senta ao seu lado na escola.
A mulher negra da favela só se torna uma princesa quando é descoberta por algum empresário do mercado da moda que trata de levá-la imediatamente para fora do país e submete-a aos mais diversos costumes europeus para adaptar-se à passarela da moda como as demais modelos brancas. Essa mulher passa a andar, vestir-se e falar como se fosse uma mulher branca. A cor da sua pele é o que chama a atenção na passarela, ela não é bonita pelas suas qualidades, mas pela cor da pele que raramente se destaca no mercado da moda. A cor da sua pele é que diz o valor do contrato. Raras são as modelos negras brasileiras. A mais famosa modelo brasileira é uma branca de olhos azuis que todos nós a conhecemos.
Apesar de sermos um país constituído na sua maior parte de mulheres negras, são as mulheres brancas que alcançam os maiores salários nas passarelas europeias. Diferente do que acontece no relato de Böschemeier, que diz ser bem tratada na universidade onde leciona, apesar de considerar-se uma branca mestiça de origem rural
A branquitude está ali, é lida no meu fenótipo e na minha maneira de usar o corpo, me permitindo falar com mais legitimidade, me alimentando de cortesias, gentilezas e amabilidades que não existem para todo mundo. Me permitindo circular em diversos âmbitos não importando tanto as roupas que eu vista, sem ser questionada — ou sendo infinitamente menos questionada — na maior parte dos territórios sociais que marcam esta sociedade desta América Latina racista e colonial. Devo dizer que ser uma mulher latino-americana nesse mundo não é pertencer a um lugar fácil — e é na luta por essa dignidade que eu me reconheço.[2]
Na verdade, o que relata Böschemeier é uma exceção à parte num local onde a maioria das mulheres brancas são aprovadas e vão estudar. Porém, ela ressalta que esse jeito cortês das mulheres brancas se dirigirem a ela não é dedicado a todo mundo. Apesar de sentir-se bem recebida na sua universidade, a autora ratifica o quanto é difícil ser uma mulher latino-americana, ou seja, a maioria dessas mulheres são negras ou pardas. Logo passam por constrangimentos e situações de opressão e submissão das suas vontades, desejos e pensamentos.
O que pode querer uma mulher negra moradora de uma favela além de ser dona de casa ou empregada doméstica? Muitos quereres carregam essa mulher. Alguns nunca serão conquistados e outros quem sabe com muita luta possam ser alcançados com a sua coragem e força de vontade. Falei acima do exemplo de Mariele Franco, mas agora detenho-me a falar de uma mulher negra anônima na sociedade norte-rio-grandense que veio das favelas cariocas para a cidade do Natal e casou-se com uma mulher branca.
Durante muitos anos da sua vida, foi submetida aos costumes e cultura da sua mulher, as suas vontades e quereres. Nunca buscou seus sonhos que eram muitos porque achava que ser casada com uma mulher branca já era muita coisa para ela. Essa mulher negra sempre gostou de fazer continhas. De repente, ela cismou de cursar matemática numa universidade pública e estudou para conquistar uma vaga. Foi aprovada em primeiro lugar no curso de matemática e alegre foi para a sala de aula. No seu segundo dia de aula, fez uma pergunta ao professor branco e de olhos azuis que a olhou de cima abaixo e disse-lhe mais ou menos o seguinte: matemática não foi feita para mulheres, muito menos para negras. Sem saber o que dizer essa mulher a quem procuro chamá-la de X silenciou-se diante da opressão do seu professor. Mas não desistiu do seu curso.
Seguiu em frente, formou-se e foi a laureada da turma. Achou pouco? Achou! Resolveu cursar direito e também foi aprovada na universidade pública. Vale salientar que na época do seu processo não havia cotas para negros. Ela enfrentou ampla concorrência. No curso de direito a mulher negra X se viu sozinha em meio aos seus colegas de classe ricos e brancos. Não se rendeu a opressão da sua turma. Estudou muito e finalizou seu curso. Hoje essa mulher X é uma brilhante advogada, tem a sua bela casa e vive bem num dos melhores bairros da nossa capital. Ela podia ter se deixado submeter-se as dificuldades que a vida lhe impôs, mas foi à luta e chegou onde queria. Sabemos que essa é uma história muito rara, porque poucas mulheres negras têm a mesma coragem e oportunidades da mulher X. Assim como poucas mulheres negras teriam a coragem de Mariele Franco. Muitas preferem a vidinha sem sonhos vista pela janela do metrô cheio cansadas de um dia de trabalho na casa dos patrões brancos.
A mulher negra precisa de mais políticas públicas para alcançar os seus sonhos. Tornar-se reconhecida pelos seus méritos.
Poder usar o seu cabelo do jeito que quiser, poder vestir-se do jeito que achar melhor e poder exercer a religião que desejar. Para isso, faz-se necessário um grande esforço por parte de cada uma de nós, mulheres negras, que somos vítimas dos mais atrozes preconceitos da sociedade branca. É possível que existam outras Marieles nas favelas do nosso país esperando uma oportunidade de dá o seu grito de luta e negação da opressão.
É possível que existam outras Conceição Evaristo que escrevem bem e podem sim conquistar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. É possível que existam outras mulheres iguais a mulher X que citei como exemplo mais próximo de mim e possam realizar os seus sonhos de chegarem a uma universidade pública.
As portas estão se abrindo aos poucos, conquista de parte das mulheres negras que rebelaram-se contra essa sociedade machista e opressora que só visa o melhor para si própria.
Essa cultura opressora do branco em relação ao negro tem sido estudada mais intensamente nos dias atuais e agora a desconstruímos com a expressão “decolonial”, em que o eurocentrismo perde seu espaço. A decolonização visa à superação das verdades trazidas pelo eurocentrismo e atribui ao negro uma causa maior de expressões e valores humanos, respeitando a cultura dele. O “decolonial” dá ao negro um espaço nunca antes visto, possível de rebelar-se diante de toda a opressão que lhe é atribuída.
A mulher negra, como já foi dito acima, aos poucos vai buscando o seu lugar no mundo. É uma batalha difícil, mas que nunca deve ser deixada para trás. Os obstáculos são enormes. Vencer a superioridade da cultura da mulher europeia branca é um desafio. Devemos começar impondo a história dos nossos antepassados e mostrando que somos mulheres de lutas e corajosas.
O pensamento decolonial amplia a voz da mulher negra na esfera sociocultural onde ela pode expressar os seus sentimentos e vontades sem medo de ser oprimida. Achamos mais uma luz dentro da caverna. É um pensamento que atribui a mulher negra condições de ratificar a sua cultura e costumes dentro de uma sociedade branca que não a enxerga como parte da sua história.
Entendemos também o patriarcado como figura presente nas famílias dessas mulheres brancas que impõem padrões de respeito apenas às pessoas da sua sociedade e da mesma posição social em que se encontram.
O patriarcado demarca o preconceito machista em relação a obediência das mulheres às suas necessidades, promovendo através da sua branquitude a separação étnico-racial das mulheres brancas das negras. São condutas comportamentais que devem ser excluídas do nosso pensamento e da nossa sociedade uma vez que o machismo está perdendo forças diante da nossa luta. A hegemonia que esse patriarcado efetiva objetivando o seu poder frente a dominação mundial faz o ser mulher um território a ser explorado, conforme
Precisamos nos explicar por que tanta violência contra nossos corpos, para saber que não é porque somos morenas, ou por causa das formas e tamanho de nossos corpos, ou pelo idioma que falamos, ou pelos costumes e
culturas que temos. Não somos burros desde o nascimento, não somos sujos, não somos feios. O que aconteceu é que foi imposto um sistema hegemônico que reforçou a discriminação e opressão contra nós, violência que até recebemos de nossos próprios irmãos indígenas. Para nós, a categoria junção patriarcal deixa clara as combinações, alianças, cumplicidades entre homens invasores colonizadores e indígenas originários de nossos povos. Uma articulação desigual entre os homens, mas articulação cúmplice contra as mulheres, que conspiram nova realidade patriarcal que é a que vivemos até hoje. Com dor entendemos que nossos avós traiu nossas avós e até hoje nossos jilatas ou os irmãos também se tornam cúmplices no patriarcado e traem nossas lutas como comunidades e como povos, dos quais as mulheres são metade. (Tradução livre)[3]
Parece que a mulher e mais precisamente a mulher negra não deve sair da sua morada para alcançar novos caminhos segundo a visão que se encontra no patriarcado que a veste com uma roupagem suja e feia aos olhos da sociedade branca. A branquitude dita as vestes da mulher negra sejam elas as do pensar enquanto reflexo de movimentos e revoluções que buscam o reconhecimento da cor da sua pele e do seu pensamento.
O patriarcado acaba desconstruindo a mulher no que ela tem de mais bonito que é o seu corpo, para deixá-la vestida até os pés e sem o direito de expor as suas ideias e contrapontos diante de um machismo que só verbera preconceito e negligência no que diz respeito ao reconhecimento do lugar da mulher, sim, da mulher negra mais precisamente.
Pintemos a América Latina com a nossa negritude, afinal, na noite o brilho das estrelas torna-se mais belo. Sejamos estrelas para um mundo sem opressão. Sejamos uma aquarela à janela da policromia.
Bibliografia
ECHAZÚ, Ana Gretel. “Nesse Feminismo [Branco] Não Nos Reconhecemos”: As Mulheres Indígenas do Arco Íris — Bolívia respondem à antropóloga Rita Segato.
PAREDES, Julieta. El feminismocomunitario: la creación de un pensamiento próprio: Community feminism: the creation of one’s own thinking. Corpus Archivos virtuales de la alteridad americana. Vol. 7, No 1 | 2017, Enero / Junio 2017.
Mulher negra nordestina catadora de caranguejos
Mulher negra tristonha
A menina dos fósforos negra Inspirada no conto de fadas de Hans Christian Andersen
[1] ECHAZÚ, Ana Gretel. “Nesse Feminismo [Branco] Não Nos Reconhecemos”: As Mulheres Indígenas do Arco Íris — Bolívia respondem à antropóloga Rita Segato, pág. 01.
[2] ECHAZÚ, Ana Gretel. “Nesse Feminismo [Branco] Não Nos Reconhecemos”: As Mulheres Indígenas do Arco Íris — Bolívia respondem à antropóloga Rita Segato, pág. 08.
[3] PAREDES, Julieta. El feminismocomunitario: la creación de un pensamiento próprio: Community feminism: the creation of one’s own thinking. Corpus Archivos virtuales de la alteridad americana. Vol. 7, No 1 | 2017, Enero / Junio 2017, pág. 07.
Os exercícios, a vigília e os cuidados para melhorar os nossos pensamentos, dependem da capacidade de interligar os mesmos com a imaginação e com a materialização.
Todo ser humano tem as capacidades de pensar, imaginar e agir. No modo simplista de algumas abordagens conhecidas como “autoajuda”, a orientação central é pensar positivo.
Os exercícios, a vigília e os cuidados para melhorar os nossos pensamentos, dependem da capacidade de interligar os mesmos com a imaginação e com a materialização. Os condicionantes para as boas ações advém da boa energia, que se materializa de inúmeras formas, recebe diversas caracterizações, deve ser identificada e usada de modo apropriado.
Vale registar, ainda, a relevância de estarmos próximos, em sintonia e percebendo a energia abundante que vem da natureza. Para além disto, é valido referenciar as energias que movem as pessoas como a fé, a esperança, a organização, a disciplina, os bons hábitos, a defesa da vida, as palavras, os pensamentos e a imaginação.
A autoconfiança, a segurança pessoal e coletiva, passam pela mente, são representadas na imaginação, no pensamento e são de grande relevância para a materialização de uma realidade.
O neurocientista, Sidarta Ribeiro retoma as descobertas feitas por Sigmund Freud, salientando a importância da imaginação, simbolizada nos sonhos produzidos por nossa mente. Em um dos seus livros “O Oráculo da Noite – A História e a Ciência do Sonho”, defende que imaginação é fonte preciosa de insights para as nossas vidas. Os insights podem ser caracterizados com uma capacidade de criar soluções diante de problemas que que precisam ser resolvidos ou administrados.
As angústias diante das incertezas de uma época de mudanças profundas, ou mais do que isto, em uma mudança de época, devem mover as pessoas para superação das dificuldades e inseguranças.
No histórico do aprendizado humano, simbolizado na educação, seja ela formal ou informal, a segurança material da própria sobrevivência e a autoconfiança são de grande relevância para concretizar realidades específicas.
A revolução industrial e a inteligência artificial construídas pela humanidade permitem que o “básico” seja disponibilizado para todas as pessoas.
Essa realidade, escrita na última frase do parágrafo anterior, é material e deve ocupar a mente do maior número possível de pessoas.
Para que este movimento interligando a realidade material com o pensamento e a imaginação se expanda como ondas, precisamos difundir alguns aprendizados. Um deles é a importância dos encontros e as suas realizações, mesmo estando em diferentes espaços físicos. Outro é que não existiríamos sozinhos, somos dependentes de outros seres humanos e da natureza. Um terceiro, destacado neste texto, deve ser relacionado com a evolução da humanidade, reforçando a necessidade de uma postura ativa e protagonista, diante da necessidade de relacionarmos e interligarmos bons pensamentos, imaginação e materialização.
Em outra publicação no site, já escrevemos que “pensar e desejar a materialização de uma condição social de abundância, no contexto da pandemia, parece ser contraditório, mas é uma imposição para quem está comprometido com a evolução humana”.
Numa conversa com uma pessoa da comunidade ouvi a sugestão de colocar na frente da igreja de uma faixa com os dizeres “tenhamos fé, tudo vai passar”.
Certamente vai. O dizer explicita a esperança que está em nossos corações. Precisamos acreditar nesta superação. É a força que nos faz andar.
Ainda estamos no meio de um momento muito difícil, ainda inseguros e como medo, mas a fé ajudará atravessarmos esta tempestade. Para tanto, nos coloquemos em disposição de acolhida à orientação que Jesus deu ao discipulado na perspectiva das tribulações, “não tenham medo” (Mt 10,31).
Neste percurso, marcado pelo medo e insegurança, reconhecemos que Jesus está conosco e se faz o nosso companheiro, estendendo a mão quando estivermos cansados ou fraquejarmos (Mt 14,31). A fé gera a confiança, também o compromisso de colaborarmos para que tudo se resolva com serenidade.
A tarefa maior, a partir da nossa fé, é preservar a vida humana. A vinda de Jesus ao seio da humanidade estava voltada à preservação da vida como ele falou: “eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
A vida como bem maior, defendida por Jesus, parece algo dado como tranquilo, indiscutível, mas não é bem assim. Além das tantas vidas perdidas por violências, enfermidades e fome, estamos perdendo vidas por causa da COVID 19. Segundo os dados deste final de julho, passamos de noventa mil mortes e daqui alguns dias serão mais de 100 mil. Isto não é bom.
Infelizmente, ainda ouvimos expressões banalizando estas mortes. Recordemos. São vidas que se perdem, são famílias enlutadas, filhos sem pais, pais sem filhos e, em muitos casos, sem um rito de despedida, uma prece de adeus.
Não podemos compreender as mortes como normalidade, porque a vida, segundo a tradição cristã, está acima de todos os processos e deve cumprir seu ciclo deste a concepção até o seu ocaso natural.
O texto da Campanha da Fraternidade deste ano já fazia uma alerta sobre algumas situações envolvendo não só a vida humana, mas a vida do Planeta: percebe-se que não estamos cuidando como deveríamos deste amoroso presente divino.
Nosso Planeta adoeceu pela falta do respeito e cuidado humano. A preocupação chega ao ser humano.
Continua o texto: constata-se que chegamos a um ponto em que até mesmo a nossa condição humana mais profunda esbarra em uma série de angustiantes indagações. Certamente a pandemia aprofunda estas indagações. Nos damos conta da nossa fragilidade e que a pretensa onipotência, aliada à prepotência era vazia.
Lembremos a ideia de que somos um sopro, uma chama de vela vacilante, que pode se apagar a qualquer momento.
Já víamos de uma trajetória de descompromisso social com a vida das pessoas pobres, sustentado na cultura do descarte em vista do bem do mercado financeiro, segundo alerta do Papa Francisco: o ser humano é considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que pode se usar e depois jogar fora. Assim, teve início a cultura do descartável, que aliás chega a ser promovida (…) os excluídos não são explorados, mas resíduos, sobras (EG 53). É um grande pecado que fere a Deus, pois todo o ser humano é criado amorosamente a sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26).
Diante da enfermidade planetária, que tem afetado toda a criação e, de forma direta, a vida humana, temos de recuperarmos a dimensão do cuidado.
Sofremos uma boa chamada de atenção vinda da natureza. Acolhamos com humildade e tenhamos a disposição de nos recuperarmos no mundo criado, começando pelo cuidado com a vida humana. Ela está em primeiro lugar, sobretudo porque neste momento é a mais fragilizada.
Diante de ti ponho a vida e ponho a morte Mas tens que saber escolher Se escolhes matar, também morrerás Se deixas viver, também viverás Então viva e deixa viver (Padre Zezinho)
Autor: Pe. Ari Antônio dos Reis
Questões para aprofundar conhecimentos:
Segundo autor deste texto, qual é a relação que podemos fazer entre a vinda de Jesus Cristo ao mundo e a defesa da vida?
A defesa da vida deveria ser algo natural. Por que, então, ainda existem pessoas que banalizam as mortes de algumas pessoas, seja pela violência, fome, enfermidades ou pela COVID?
Qual é o plano de Deus, na visão dos cristãos, para com a vida do ser humano e a vida no planeta?
O mundo produz mesmo “pessoas descartáveis”? O que você pensa disso?
O empregado não saiu pro seu trabalho pois sabia que o patrão também não tava lá. Dona de casa não saiu pra comprar pão pois sabia que o padeiro também não tava lá E o guarda não saiu para prender pois sabia que o ladrão, também não tava lá E o ladrão não saiu para roubar pois sabia que não ia ter onde gastar. (Raul Seixas)
Nesse tempo de recolhimento compulsório da maioria da população mundial devido à pandemia do novo Coronavírus Covid-19, consolo-me, pois até o momento, ainda não tinha presenciado grandes tragédias que resultaram na morte de milhões de pessoas, como aconteceu nas I e II Guerras Mundiais, por exemplo. Pois é chegado o tempo.
Milhares de pessoas em todo o mundo estão perdendo a vida, levando-as governos à aflição. E o pior é que, por enquanto, ainda não há vacina para contê-la, bem como ninguém sabe ao certo o que virá pela frente sendo que, no Brasil, já há um grande o número de vítimas em apenas 05 meses. Então, o dilema é recolher-se e esperar pela produção de uma vacina salvífica.
Os leitores podem não acreditar, mas como professor de Literatura, tive o privilégio de ler e viver três pandemias, isto é, sentir como três obras ficcionais abordaram as pestes em tempos passados que também vitimaram milhões de pessoas.
A primeira, Decamerão, escrita pelo poeta italiano Boccaccio, em 1350. A segunda, A Peste, de Albert Camus, escrita em 1947; a terceira, o romance Ensaio sobre a Cegueira, escrita em 1995 pelo romancista português José Saramago.
Nas três experiências de leitura pude confirmar a tese de Heráclito de Éfeso de que “a guerra é a mãe de todas as coisas”, pois contém, pelo menos, a duplicidade, isto é, a vida e a morte, a doença e a saúde, o bem e o mal, o trágico e o heroico, o vírus e a vacina, o medo e a coragem, dentre outras antíteses.
Atualmente, em tempos da pandemia Covid-19, estamos em plena guerra, a qual já tem no Brasil, quase 100 mil vítimas. Soma-se a isso o desemprego, a fome, o isolamento social, os hospitais superlotados, as aflições e as doenças de ordem psicológica, dentre outros efeitos que virão num futuro bem próximo.
Se na guerra convencional a espera é pela paz, na pandemia do Coronavírus a espera é pela vacina anti-Covid-19.Nessa busca, há quatro laboratórios na corrida para proteger os humanos contra um vírus tão pequeno, mas tão letal. Isso é a pandemia real. Resta saber se haverá outras guerras pela posse, autoria e distribuição das vacinas.
No que se refere às pandemias ficcionais, digo literárias, Decamerão, de Boccaccio, redigido por volta de 1350, inaugura a prosa de ficção ocidental, sendo o pioneiro a reunir múltiplos contos para tecer uma estrutura complexa na forma de romance e novela. Nesse sentido, funda a tradição romanesca que se estende até os dias atuais e estabelece um modelo para o que viria a ser o conto ficcional e, mais tarde, a novela e o romance.
A obra junta cem narrativas contadas por sete damas e três cavalheiros que, para fugir da peste negra que afligia os habitantes da cidade italiana de Florença, se recolhem para passar o tempo e celebrar a vida, narrando histórias uns aos outros para ganhar tempo e para fugir do isolamento social.
A história parece se repetir com diferenças, sendo que, naquele tempo, a era industrial ainda estava longe da modernidade atual, predominando o mercantilismo. Por seu lado, em tempo de Coronavírus – Covid 19, exatamente na segunda década do Século XXI, mais precisamente entre os 2019 e 2020, explode a pandemia do novo Coronavírus na China, espalhando-se à Itália, Espanha, Inglaterra, EUA, Brasil, dentre outros países. O fato é que foi exatamente na Itália, na Lombardia, cuja capital é Milão, cidade industrial, que, há pouco, seu prefeito menosprezou a expansão da doença para fins de ter o agrado dos empresários. Porém, a doença matou milhares de pessoas. Vê-se claramente o desdobramento da história com suas semelhanças e diferenças.
A obra ficcional A Peste, de Albert Camus, foi publicado em 1947, um pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial. O romance conta a história da chegada de uma epidemia na cidade argelina de Orã. A personagem principal é o médico Rieux, que combate a doença até o momento em que ela se dissipa depois de muitas mortes.
O narrador descreve como a população reage, indo da apatia à ação, bem como alguns profissionais se expõem aos riscos para enfrentar e eliminar a peste. Denuncia também que há oportunistas e aproveitadores, como um personagem que lucra com um mercado paralelo de produtos. Num primeiro momento, as autoridades insistem em esconder a doença, fato que Camus veria de forma crítica, no sentido de sempre nomear as coisas ao público. Por fim, há na obra o cuidado de se mostrar as coisas como elas são de fato. O livro fala que existem problemas de abstração, como a desinformação e a abstração, as quais geram histeria e comportamentos levianos ou xenofóbicos, como temos visto no Brasil.
Em A Peste, o número de mortes é anunciado diariamente numa rádio. Por outro lado, o narrador descreve algumas das mortes, o que faz os leitores senti-las de uma forma mais direta. Por coincidência, o que se verifica na imprensa brasileira é a divulgação do número de óbitos diários, que é informado diariamente pelas redes de televisão, rádios, jornais na forma de gráficos e bandeiras coloridas: branca, preta, azul, laranja e vermelha.
Por seu turno, o romance Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995 pelo escritor português José Saramago, narra a história da epidemia de cegueira branca, a qual se espalha por uma cidade e vai acometendo um por um de seus habitantes, trazendo o caos e abalando as estruturas de uma sociedade civilizada. É um romance que não apela pelo engraçado e nem ao religioso, tanto que não há nele espaço à comicidade e à piedade. É uma obra que, mesmo sendo uma ficção, é bem detalhista e realista.
Contrastando com a cegueira preta, a cegueira branca é de natureza metafórica, pois ironiza a cegueira moderna, a qual não vê o óbvio, isto é, as injustiças, a fome, a corrupção, a falta de ética, a violência contra as mulheres, negros, índios e contra diferentes gêneros. O texto não questiona Deus, nem os governos, mas questiona o sistema de vida que rege as pessoas no cotidiano moderno e urbano que, feitas semáforos, sinalizam quando avançar ou parar, e que, por isso, confina as pessoas nos manicômios dos afetados pela falta de visão, isto é, pela cegueira branca. A obra também foi transposta para o cinema e o autor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Parece que Saramago, alinhando-se aos antecessores Boccaccio e Camus, profetiza a Pandemia do Covid-19 para esse início do Terceiro Milênio.
Como “a guerra é a mãe de todas as coisas”, a pandemia do Covid-19, está deixando suas indeléveis marcas tanto de caráter positivo, quanto negativo. De negativo são, até o momento, as mais de 600 mil mortes no mundo e as quase 100 mil no Brasil; a fome e o desemprego; o isolamento social; a corrução na compra e distribuição das verbas ao combate do Coronavírus; a suspensão das atividades escolares, religiosas, culturais, esportivas e recreativas; as patologias de ordem física e psicológica, dentre outras, que deixarão cicatrizes por décadas.
Por seu turno, a pós-pandemia Covid-19, trará benefícios capazes de qualificar os padrões de higiene, convivência, solidariedade e ética, sem contar com os benefícios de ordem virtual e de enriquecimento linguístico. Mudarão o sistema de moeda corrente, o controle de doenças endêmicas, o sistema de ensino, educação, transporte, saúde, esportes, o emprego, a economia e a segurança.
Durante a Pandemia, por exemplo, já foram incorporadas à Língua Portuguesa inúmeros vocábulos, os quais se tornarão estrangeirismos em pouco tempo, tanto que os brasileiros comuns já sabem o que significam os termos ingleses lockdown, lives, delivery, home office, home school, loungs, drive thru, upgrade, hand over, hand in, e assim por diante. Quem sobrevir ao Covid -19 logo verá!
A guerra contra o novo Coronavírus traz em seu bojo elementos positivos e negativos que, quer queira, quer não, profetizam que a humanidade deverá dar uma guinada extraordinária a partir desse início do Terceiro Milênio, pois um poderoso e pequeno vírus mostrou que há algo muito mais poderoso e amedrontador a se enfrentar: a luta pela vida saudável, deixando-se as injustiças e as guerras convencionais na memória trágica da humanidade.
Graziela Bergonsi Tussi é uma professora que sempre buscou inovar em suas aulas. No tempo que viajava por conta de participar de um grupo de danças e cultura, trazia elementos culturais de países da América Latina para dentro de suas aulas. Participava ativamente da realização do Festival Internacional de Folclore em Passo Fundo.
É também professora de línguas, além de professora de Geografia.
Foi despertando também para a necessidade do uso das tecnologias para facilitar e promover a educação.
Neste momento em que a Pandemia do Covid exige o domínio e o uso das ferramentas digitais na educação, Graziela agora pode contribuir, de maneira solidária, seus conhecimentos para com outros colegas professores e professoras. Pode também apontar os potenciais do uso das tecnologias na educação.
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SITE NEIPIES: O que mais te realiza como professora?
Professora Graziela: Saber que estou fazendo a diferença na vida de alguém, com certeza. Temos a missão de mudar o mundo através do conhecimento, e quando percebemos que nossos alunos estão prontos para o mundo, que olham as experiências de maneira crítica e aprendem a manejar elas, temos nossa missão cumprida.
SITE NEIPIES: Qual a importância de ensinar geografia neste momento histórico (de pandemia)? Professora Graziela: A Geografia está em toda parte, e saber a importância dela para a educação, já é importante. Durante esse tempo de pandemia, mais importante ainda, pois é com essa disciplina que estudamos as Revoluções Tecnológicas e as implicações delas na vida das sociedades, podemos analisar mapas e dados sobre a epidemia, relacionar dados de países. Para nós, professores de Geografia, infelizmente, cada catástrofe é um prato cheio de novas informações e conhecimentos.
SITE NEIPIES: Quando, como e porquê você começou a se qualificar e estudar o uso das tecnologias digitais na educação?
Professora Graziela: Desde que comecei a lecionar, sempre utilizava muito o recurso audiovisual, principalmente a TV, por conta de documentários. Posteriormente, uma amiga minha professora da rede municipal me apresentou as Webquests, que apliquei com meus alunos algumas vezes, e comecei a gostar da ideia de ir além da pesquisa pela pesquisa. Em 2012 comecei a fazer um curso de especialização no Instituto Federal Sul-Riograndense, sobre Mídias na Educação, que aborda todas as tecnologias que podemos utilizar em sala de aula.
Sempre tive muita curiosidade em buscar um curso mais específico e, a partir desse, cursos de menor duração foram complementando meus estudos.
Nunca podemos parar de estudar, as tecnologias estão sempre se atualizando, modificando, e nós precisamos acompanhar, ou pelo menos conhecer. Agora, por exemplo, estou fazendo um curso de Aprendizado de Máquina, que tem relação com programação de computadores (trabalho com Informática Educativa nos Anos Iniciais). Ainda pretendo fazer Mestrado em Educação ou Licenciatura em Computação.
SITE NEIPIES: Como está sendo para você instruir e orientar outros colegas professores no uso de plataformas como ferramentas para aulas remotas e à distância?
Professora Graziela: Maravilhoso! Estamos aprendendo muito juntos, nos aproximando mais, apesar de estarmos distantes. Analisando fora da caixa, é muito parecido com a sala de aula de anos finais, cada um tem um ritmo de aprendizado diferente, alguns são mais focados, outros têm dificuldades, mas todos querem aprender.
Quando fizemos lives para fazer as formações, é muito bom, porque nos encontramos e parece que faz meses que não nos vemos. Para mim é realmente um privilégio poder fazer parte desse momento histórico da nossa rede, da nossa escola. Ao mesmo tempo, a responsabilidade é grande, o cansaço também… mas o resultado vai ser espetacular, com certeza.
SITE NEIPIES: Que mensagem você daria aos estudantes sobre o uso das tecnologias na educação? Professora Graziela: Vocês praticamente nasceram com um celular na mão, então aproveitem essa vantagem para aprimorar o conhecimento de vocês. Tecnologia não é só jogos, apesar de aprendermos muito com eles, há tempo para tudo. Aprendam a dividir o tempo de vocês, busquem em fontes confiáveis, cuidem o que vocês compartilham na rede e com quem vocês se relacionam. A vida era bem mais segura quando a gente só brincava na rua. E por favor, não esqueçam de ler livros.
SITE NEIPIES: Que mensagem você daria aos pais e mães sobre o uso das tecnologias na educação? Professora Graziela: Podemos aprender muito com as tecnologias, não podemos ir do oito ao oitenta. Nem deixar à vontade, nem proibir. Nesse tempo em que estamos em casa, utilizar a internet vai ser o principal recurso de acesso à escola, mas para tudo precisamos ter limites, não podemos sobrecarregar nossas crianças. Tempo para brincar, para ler um livro, para ficar com a família, para jogar. Porque se a gente não medir (e falo isso tanto para pais quanto para professores), em pouco tempo estaremos todos esgotados mentalmente. Deve ser algo leve e prazeroso, a tecnologia é nossa aliada, não vamos virar escravos dela.
SITE NEIPIES: Como imaginas o futuro da educação no pós pandemia?
Professora Graziela: Penso que jamais voltaremos ao que éramos, todos mudamos nosso pensamento sobre o que é educação. Aquilo que há anos lemos sobre o protagonismo do estudante, finalmente está sendo posto em prática. Estamos pensando em novas formas de avaliar, de interagir. E isso, quando voltarmos à forma presencial de aulas, com certeza se manterá, e espero que as atividades à distância se tornem um hábito, e que não precise de outra pandemia para que outra revolução aconteça.
Professora Graziela Bergonsi Tussi em live organizada pela professora Regina Costa dos Santos, falando da temática Plataformas digitais educacionais: impactos e desafios.