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Ensino remoto: falta o calor humano do abraço

A tela do computador só esquenta devido
a energia elétrica, a gente se aquece com o calor
de um abraço afetuoso que só os seres humanos sabem oferecer.


Pela tela do computador abraço os meus alunos, mas um deles me diz que não é a mesma coisa do abraço presencial e manda um emoji triste para mim. Fico a pensar em quantos abraços deixei de dar nesses últimos cinco meses, em quantos desabafos e conselhos ficaram perdidos por trás da tela do meu computador.

Às vezes me veem as lágrimas e eu choro pensando nos meus alunos distantes, bem distantes, que não têm sequer condições técnicas e financeiras de assistirem as minhas aulas. A inclusão digital ainda é um sonho para muitas escolas brasileiras.


Em outra publicação do site, já escrevi que “quem ensina a crianças deve saber o quanto elas gostam de nos abraçar e cheirar. Com essa preocupação, sempre fui às minhas aulas o mais bem vestida possível nas escolas que não exigem fardamento, gastei muitas vezes o meu salário quase todo para comprar um perfume francês que tivesse um cheiro agradável e que ficasse fixo no corpo durante várias horas”. Leia mais aqui.


Os recém-nascidos nos seus primeiros momentos de chegada ao mundo são colocados nos braços da mamãe e recebem o calor do seu abraço. Nos braços da mamãe, o choro logo se abranda para muitos deles. Esse abraço que transmite um calor amoroso e seguro. A mãe busca passar para o filho que ele não precisa se preocupar nos seus braços. Ali ninguém o fará mal nenhum. É assim também quando o professor abraça um aluno, envolvendo-o carinhosamente como se seu corpo fosse um ninho.

O abraço diz sempre o que as palavras não conseguem dizer. Lembro-me de uma canção antiga que diz mais ou menos assim “correndo da chuva, tendo seus braços para me abraçar, eu era tão feliz, feliz…” Como fazer crianças e jovens felizes por meio de uma conexão remota? Como abraçá-los quando correm de problemas, frustrações, pressões e dúvidas do dia a dia se estamos tão distantes? Como salvar os nossos alunos da morte da perseverança?

Mexendo na minha caixa de lembranças escolares, acho a foto de uma aluna abraçando a sua bola. Que foto linda! Quanto carinho ela devia ter por aquela bola! Que abraço gostoso e sorriso largo no seu rosto! Imaginei-me sendo aquela bola e entrei no túnel do tempo para ser abraçada por aquela aluna do jeito que ela abraçava a bola.

Acho que ando necessitando de abraços. Estou mais necessitada do que os meus alunos, eles têm uns aos outros, eu não tenho meus amigos professores por perto.

A maioria dos meus alunos moram perto e muitos são da mesma família ou de famílias próximas. Eles se veem, se abraçam, trocam confidências, conversam. Ainda bem que vivem assim. Penso nas crianças que moram em grandes edifícios e nunca veem seus amigos ou professores com esse distanciamento social. E que distanciamento estamos vivendo! A tela do computador só esquenta devido a energia elétrica, a gente se aquece com o calor de um abraço afetuoso que só os seres humanos sabem oferecer.

Até os animais se abraçam para trocarem afetos e cuidados especiais. Num abraço o calor humano é compartilhado e ninguém sente frio. Os animais se abraçam por uma questão de instinto e sabedoria da natureza. Nós, humanos, abraçamos porque somos emotivos e necessitamos uns dos outros, ou seja, aprendemos a viver em sociedade.

Ninguém é uma ilha. Precisamos do outro para vivermos melhor. O calor de um abraço é poesia que se escreve na alma de quem abraça e de quem é abraçado.

Estão matriculados no meu de curso de filosofia vinte e cinco alunos, mas ontem só tinham três alunos online. Os demais mandaram mensagens depois dizendo que estavam sem dados móveis para acessarem a Internet, pediram desculpas e me abraçaram virtualmente. Antigamente, o emoji do abraço era o seguinte []. Isso mesmo, dois colchetes. Logo no início da internet, nos tempos do ICQ.

Os nossos encontros presenciais eram sempre cheios de abraços, brincadeiras, carinho, aconchego. Qual criança não gosta de abraçar e ser abraçada? Aquela carreira com os braços abertos vestida em sorriso largo pronta para abraçar aquele que espera para instruir e ao mesmo tempo educar, sim porque nesse país os professores fazem as duas coisas ao mesmo tempo.

Ontem descobri, mexendo no meu computador, que ele estava quente por demais, seu cooler está com problemas, disse o técnico. O cooler deve ser o coração do computador com acúmulo de calor porque não aprendeu ainda o que é um abraço. Pensei comigo que talvez ele tivesse recebido o meu calor humano e não soube como transmitir aos alunos… computadores não são inteligentes, mas sim quem os programa.

Nos meus mais diversos estudos sobre a Inteligência Artificial entrei numa área faz alguns poucos anos onde os computadores sentem emoções. Bastante interessante para quem tem curiosidade de saber se é possível fazer uma máquina chorar ou sorrir. Sim! Elas podem ter emoções! Estudei algumas coisas e achei empolgantes na época! Porém, nada substitui o homem!

As máquinas podem até chegar a amar, mas nunca poderão passar esse calor humano que liga professor e aluno. Calor humano que recebe o aluno tristonho na sua sala e ouve, atentamente, os seus problemas.

Alunos que sofrem maus tratos em casa são os mais comuns dos relatos que ouço. Dói no coração saber que damos tanto amor aos nossos alunos enquanto eles estão na escola e quando vão para as suas residências, ao invés de receberem muito mais amor, são obrigados a fazerem coisas que não gostam senão poderão ser vítimas de agressões físicas.

Outro dia, um dos meus alunos chegou com uma mancha roxa no braço direito. Desconfiei logo. No final da aula o chamei e perguntei que mancha era aquela. Ele mentiu dizendo que tinha escorregado no banheiro. Relutou e não me disse a verdade. Passados alguns dias, sem a mancha aparecer mais ele me contou tudo. O seu pai queria que fosse participar de um acerto de contas entre facções, como negou-se a ir o pai puxou-o fortemente pelo braço para fora de casa obrigando-o a ajudar os amigos da tal facção. O restante da nossa conversa deixo guardada dentro de mim. Melhor não contar. É muito dolorida. O fato é que abracei meu aluno com todo o meu amor e chorei junto com ele. Nunca mais soube dele. Tem faltado as aulas remotas. Sempre me falou de que não gosta desse tipo de aula. Acho que ninguém gosta, quis dizer a ele.

O calor humano jamais poderá ser transmitido pela conexão de uma banda larga, coisa difícil no nosso país. Os jovens mal têm acesso a uma conexão em casa. Esse calor que aproxima as pessoas, que passa confiança, que extrapola a distância entre professor e aluno jamais poderá ser transmitido por uma fibra óptica ou conexão sem fio.

Está difícil ficar longe dos meus alunos. Sou mais conselheira do que professora na escola onde leciono. Tenho alunos com os mais diversos tipos de problemas.

No último dia de aula presencial, uma aluna estava para receber o resultado do seu teste de gravidez. Não sabia o que faria se o resultado fosse positivo, pois nem sabia direito quem era o pai da criança e a sua família jamais a aceitaria grávida em casa. Os pais dessa jovem ainda chamam de “mãe solteira” as jovens que têm filhos foram do matrimônio e são muito mal vistas na comunidade. Envergonham a família. Lembro-me que minha aluna estava apreensiva e com cólicas, à espera do resultado. Na minha humildade, falei para ela que encontraríamos uma saída e a abracei.

Eu sempre abraço os meus alunos quando não tenho respostas para eles. Parece-me que o abraço é a melhor resposta que encontro, e como um santo remédio cura as dores e aflições que os trazem até mim.

Conversando com uma professora amiga outro dia, ela me disse que o mais difícil para ela nesse ensino remoto está sendo elaborar aulas para os alunos com necessidades especiais. Ela não tem ideia do que fazer. Sente muitas saudades de um aluno autista e de outro que é portador de uma doença degenerativa e vive em uma cadeira de rodas, esse mal fala.

 O que ensinar a esses alunos através do computador se eles precisam de alguém que pegue nas suas mãos e os ajudem a fazerem as lições? Quem vai pegar nas mãos deles? Se eu costumava cantar e abraçá-los quando ficavam nervosos em sala de aula com o barulho dos demais alunos.

 A professora não sabe o que fazer com os seus alunos. Mas, como todo bom professor, ela reinventou-se e comprou um violão para tocar música para eles, vale salientar que ela não sabe nada de instrumentos musicais. O aluno autista sequer se conecta a internet. Ele não gosta. Ele sente saudades da tia, como é carinhosamente chamada a professora dos primeiros anos escolares, que o ajudava a pintar o desenho, diz a mãe preocupada com o filho.

A gente se abraçava nos corredores da escola, no caminho, na sala dos professores, na biblioteca. A gente se abraçava onde se encontrasse, isso porque somos humanos e necessitamos uns dos outros. Um abraço transmite além de confiança e amor, tranquilidade, aquele vai ficar tudo bem ou vai passar é dito num simples abraço.

Se meus alunos têm sentido falta de um abraço presencial, digo com certeza de que também tenho sentido saudades dos seus abraços que gostavam de sentir a fofura do meu corpo. A gente abraça para sentir calor humano, a gente abraça para aliviar a nossa dor, a gente abraça para compartilhar sentimentos, a gente abraça para agradecer, a gente abraça porque queremos sentir que a pessoa amada está ali pertinho e nunca partirá. Porém, nesses tempos de distanciamento social, já não podemos mais abraçar nem as pessoas de casa imagine nossos alunos que estão bem longe da gente.

A minha maior emoção na penúltima aula foi ver a minha aluna de trezes anos chorar diante da tela do computador dizendo que estava com saudades do meu abraço e que estava precisando muito de um. Fiquei sem palavras. A aula foi interrompida. Todos os outros alunos disseram a mesma coisa.

Por detrás da câmera não é mais fácil segurar as emoções, ao contrário. Você tem que ser forte, buscar coragem nos confins da sua alma para não chorar diante dos seus alunos que estão distantes e poderão sofrer mais ainda com a sua reação. Sorri na tela do computador e lhes mandei um abraço apertado virtualmente. Disse-lhes de que tudo passaria e logo poderíamos nos abraçar presencialmente. A aluna de trezes anos pediu para eu ir à escola pra de longe ela me ver, pra de longe ela poder me abraçar e falou mais “eu só quero ver alguém da escola. Estou com saudades.”

Fui dormir pensando numa forma de abraçar meus alunos mesmo virtualmente de um jeito que eles se sintam mais confortáveis e seguros, como se sentiam nas aulas presenciais. Nas minhas aulas de filosofia, passei a ensinar inteligência emocional para que eles aprendam a lidar com as suas emoções, coisa bastante necessária nos últimos meses.

Tem sido bem difícil para eles aceitarem o ensino remoto, mas é preciso para que as aulas não parem. É a nossa única forma de não ficar mais distante ainda.

Nessa conversa lembrei de uma amiga que tem um filho de dez anos de idade que se nega a assistir as aulas remotamente. O garoto diz que não consegue aprender nada, as suas notas nas avaliações caíram bastante, ele não tem paciência de ficar parado diante da tela do computador duas horas. Seu pensamento se dispersa, quer jogar videogame, quer ir pra rua, inventa mil e uma desculpas para não mais assistir a aula, vai ao banheiro várias vezes, vai tomar água, reclama da vista cansada. Reclama que a conexão está lenta.

O garoto não se adaptou ao ensino remoto, nem eu. Ele costuma dizer para a sua mãe que sente saudades de quando o professor de matemática perdia a paciência diante da gritaria da turma.

Um vídeo de um professor vestido de entregador de pizza tem ganhado visibilidade no WhatsApp nos últimos dias. Ele chega na casa dos seus alunos e entrega a caixa de pizza, depois retira o boné e os óculos e, imediatamente, é reconhecido pelo aluno. A primeira reação dos alunos é correr para abraçar o professor que se afasta para longe porque não pode abraçar para não correr o risco de infectar ou ser infectado pelo vírus que nos separou há alguns meses.

É um vídeo emocionante. Mostra o real sentido do abraço. Aquela vontade de agradecer, de sentir perto, de dizer que você é importante para mim. Um abraço diz tantas coisas que nem sei direito o que falar dele. 



Professor visita seus alunos como entregador de pizza

Nas salas de aulas remotas não temos bolinhas de papel jogadas uns para os outros alunos, até isso está fazendo falta.

A maioria dos meus alunos não gosta de abrir a câmera e preferem mostrar apenas as suas fotos. Eu respeito as suas privacidades. Um deles me disse que não vê a hora de me abraçar novamente porque a tela do seu celular estava quebrada e ele mal me via.

As dificuldades do ensino remoto são muitas no nosso país. Falta tudo aos nossos alunos. Como bons brasileiros que somos, acredito que nunca nos acostumaremos a esse tipo de ensino porque somos um povo alegre e que gosta de abraços e proximidade, calor humano não se transmite em bytes ou ondas magnéticas. Calor humano só se transmite num abraço. Aquele abraço aos meus alunos!

Centenário da imigração russa no sul do Brasil

Este centenário da presença russa no RS
representa muito para os descendentes das
famílias russas que chegaram ao Brasil em
busca de novas e importantes oportunidades
de vida e de trabalho.


Por ocasião das comemorações do centenário da imigração Russa, comemorado em outubro de 2009, no RS, a RBS TV produziu um documentário denominado Nadejda que significa esperança, que foi ao ar durante 4 dias seguidos na abertura do Jornal do Almoço.

Este centenário representa muito para os descendentes das famílias russas que chegaram ao Brasil em busca de novas e importantes oportunidades de vida e de trabalho.

Jacinto Zabolotski, um descendente destas primeiras famílias no RS mora em Campina das Missões, uma pequena cidade do RS que ainda mantém tradições e possui marcos importantes como um grande cemitério, uma Igreja Ortodoxa Russa e uma comunidade que não mede esforços para conectar-se com as suas origens.

Em 2018, entrevistamos Jacinto Zabolotski. Reproduzimos aqui parte da entrevista à época concedida para o site. Matéria completa clicando aqui.

***

Nei Alberto Pies: Jacinto, como descendente de russos que vieram da Sibéria em busca de melhores condições de vida, como avalias o impacto cultural e econômico no desenvolvimento desta região missioneira a partir da imigração russa?

Os imigrantes de todas as etnias tem a sua parcela de contribuição no progresso do estado e da nação, independente da etnia de sua origem. Pois com a força de seu labor mudaram o rosto de Campina das Missões, do Estado e do Brasil, com determinação, garra e coragem em busca de novos horizontes que esta terra tão maravilhosa acolheu a todos a partir de 1909, que aqui plantaram sua história, constituíram as suas famílias, cultura, religiosidade, enfim, o seu legado histórico-cultural-religioso, se tornando o berço da cultura russa. 

Nei Alberto Pies: O que torna esta cultura tão marcada em solo gaúcho? Foi a união, a identidade em torno da igreja e da cruz ortodoxa, do cemitério e das festas anuais que estes imigrantes realizavam por aí? O que mesmo identifica este grupo étnico nesta região do RS?

Assim como o Brasil, a Rússia é um país com dimensões continentais, culturalmente multifacetado e multiétnico. Os dois países são formados por inúmeros povos e culturas que se entrelaçaram ao longo dos séculos entre si, e formam as suas nacionalidades. A identidade do Brasil enquanto povo é formada essencialmente por estas misturas, e aqui no RS, onde vieram inúmeros imigrantes da Europa tal riqueza cultural da nossa identidade se torna ainda mais evidente.

Devido a singularidade do povo russo, ao chegarem ao Brasil trouxeram consigo não só o trabalho para desbravar estas novas terras, mas sobretudo uma série de novos costumes e tradições que não eram praticados pelos imigrantes da Europa Ocidental ou nesta região até aquele momento. Neste sentido, os imigrantes russos ajudaram a formar e enriquecer o mosaico cultural de nosso Estado.

“Uma das principais contribuições deste povo, foi justamente a introdução da fé ortodoxa russa no Brasil, sendo que em Campina das Missões, no ano de 1912 foi inaugurada a primeira Igreja Cristã Ortodoxa Russa em solo brasileiro”.

Tal excepcionalismo é uma marca que os difere da fé católica primordialmente praticada pelos imigrantes de origem europeia ocidental que colonizaram o RS. Para além de inúmeras diferenças culturais, como idioma, culinária, danças etc, se eu pudesse definir o que os identifica enquanto grupo étnico, seria primordialmente a fé ortodoxa, que é preservada até os dias de hoje em nosso município.

Também trouxeram na sua bagagem a determinação para vencer as vicissitudes, tanto é que tinham que desbravar as densas florestas, enfrentar animais selvagens, encontrando aqui índios e a vontade de lutar para melhorar as condições de vida de sua família e não esqueceram a fé, pois na hora das imensas dificuldades, era na fé que encontraram forças para vencer as dificuldades. Foi aqui erigida a primeira Igreja Ortodoxa no Brasil em 1912.

“As festas anuais realizadas cada ano no dia 09 de outubro, ou no domingo mais próximo, são como um encontro de todos e os que se mudaram para outras regiões do Estado e do Brasil. Nesta data é a comemoração em honra ao seu patrono, o Padroeiro Apóstolo São João Evangelista, o Apóstolo do Amor. Nesta data também é comemorado o Dia do Município de Campina das Missões e o Dia da Etnia Russa no Estado (Lei Estadual nº 13.299/2008)”.

Para salvar a história foi erigido um monumento na entrada da cidade, nas margens da RS 307, em homenagem ao Centenário da Imigração comemorado em outubro de 2009. Também, no centro da cidade, encontra-se a Praça Russa São Vladimir, Santo Equiapostólico, batizador da Rússia em 988, cujo busto está no arco, com  a cruz Ortodoxa, com cúpula dourada.

Nei Alberto Pies: Em sua vida cotidiana, estás bastante conectado com a cultura dos teus antepassados da Rússia. O que mais te realiza como cidadão brasileiro, mas com um pezinho na Rússia?

Para iniciar esta resposta, posso dizer que realmente estou conectado, pois possuo dois canais da TV Russa, canal um (pervií canal) e outro, Russia RTR, onde vejo as notícias em tempo real diariamente. Também tenho contato com os primos que residem na Sibéria, em Krasnoyarsk Ainda contatamos com o Pe. Dionisio, que atualmente exerce trabalho pastoral em Rublevo, próximo a Moscou.

Da mesma forma temos congresso anual de médicos, do qual sou o mediador entre Brasil-Rússia, deste projeto. Em meados de 2016 estive 47 dias, para aprimorar o idioma russo no Instituto Pushkin, em Moscou. Sempre que possível, viajo com a família.

Estamos na coordenação, há 26 anos (desde 1992) do Grupo Folclórico Russo TROYKA, que divulga os usos, costumes, tradições e as danças alegres e vibrantes do fascinante folclore russo.

“A preservação do legado histórico-cultural-religioso de meus antepassados no Rio Grande do Sul, é algo que me fortalece enquanto brasileiro, e que fortalece o Brasil enquanto uma nação multiétnica e multicultural. Não esquecer a memória e a vivência de luta dos imigrantes russos que vieram até as longínquas terras de Campina das Missões é sobretudo lembrar e resgatar a história da formação de nosso Estado e de nosso povo”.

***


Conheça esta série, produzida pela RBS TV


Lembranças da Imigração



Imigração russa no RS: religiosidade



Gastronomia e cultura: imigração russa no RS


Com o resgate de parte da  história da imigração russa no RS, estamos abrindo parceria com Jacinto Zabolotski para que o mesmo assuma uma coluna na Seção Convidados do site. Integrará o grupo de mais de 40 Convidados que colaboram, no seu ritmo e no seu tempo, com suas publicações reflexivas. Bem-vindo! Conheça aqui os demais Convidados aqui .

Símbolos Religiosos, Laicidade e Intolerância Religiosa no Brasil

O direito ao uso dos símbolos religiosos
pela pluralidade religiosa, sem recorrer ao
fundamentalismo, pode ser uma ação de política pública.


Como já debatemos nesta coluna, o Brasil tem sérios problemas no tocante em assumir uma posição clara e objetiva acerca da laicidade. Avançamos significativamente na liberdade de culto e de ter ou não uma religião ou religiosidade. Entretanto, o Estado e outras repartições públicas não tratam de forma igualitária as instituições religiosas.

As políticas públicas adotadas de interesses às entidades confessionais beneficiam claramente setores evangélicos e católicos. Tais privilégios podem ser percebidos por meios do tratamento dos símbolos religiosos em espaços públicos.

Antes de falarmos da relação entre símbolos religiosos, laicidade e intolerância religiosa, cabe perguntar: o que são símbolos religiosos?

Cada religião tem seus símbolos. Elementos que expressam o significado a sua fé, cosmovisão, normas, tradições, rituais, esperança, natureza e relação com o mundo. Normalmente os fiéis utilizam os símbolos por entenderem que são meios poderosos para alcançar seus desejos ou reforço de suas vinculações religiosas.

Historicamente o Brasil priorizou a agenda católica no campo político e cultural. Os símbolos católicos reforçavam a ideia que ser brasileiro é também ser católico. Houve financiamento de construção de imagens em espaço públicos, uso de crucifixos em espaços de deliberações politicas, distribuição de bíblias nas escolas, dentre outras iniciativas.

A partir dos anos 1990, com o crescimento dos evangélicos, o Brasil não é mais um país de hegemonia católica e, sim, de pluralismo de expressões cristãs, e os símbolos religiosos pentecostais e neopentecostais são valorizados e financiados pelo Estado. Roupas, templos, bíblias, panfletos, cruz, são utilizados e incentivados como meios religiosos necessários para a vida em sociedade.

Outros exemplos que demostram que símbolos católicos e evangélicos são beneficiados em relação a outros são os crucifixos que permanecem em Câmara dos Deputados e de Vereadores no Brasil. Muitas ações já foram movidas por setores da sociedade civil argumentando que a lógica laica de uma democracia como é a brasileira não pode permitir em uma repartição públicas um único símbolo religioso. Argumentação aponta que as decisões discutidas e deliberadas não podem sofrer interferência direta ou indireta de qualquer confissão religiosa. No entanto, algumas decisões judiciais julgam pertinentes a presença dos crucifixos nas repartições públicas supracitadas. Alegam que o Brasil culturalmente é cristão e que a presença de elementos religiosos em espaços públicos significa o direito pleno do exercício da liberdade religiosa.

O mesmo nem sempre acontece com os símbolos ligados às religiões de matriz africana. Ao falar das oferendas, vestimentas, danças, objetos, comidas, e outros utensílios sempre são associados a questão demoníacas, erradas, desviantes e imorais.

Historicamente, não foram poucos as ações que proibiram terreiros de candomblé ou umbanda (e setores do espiritismo) de praticarem seus rituais em espaços públicos ou usos de seus elementos. Atualmente, fieis afro-brasileiros tem evitado usar o branco nas sextas-feiras e saírem as ruas com medo de serem mortos, ridicularizados ou espancados. Não podemos esquecer que o grupo religioso que mais sofre intolerância religiosa são as religiões de matriz africanas. Seus templos são invadidos e destruídos. Lamentável isto.

O que defendemos é uma democracia que reconheça em termos práticas o direito do outro utilizar seus símbolos religiosos em um contexto que a laicidade é respeitada. O direito ao uso dos símbolos religiosos pela pluralidade religiosa, sem recorrer ao fundamentalismo, pode ser uma ação de política pública. Expressar por meio de elementos religiosos o que aquela experiência de fé significa e o que trouxe para sua vida é natural e fundamental em algumas situações.


Apresentamos aqui uma série de vídeos que podem ser assistidos, tanto para aulas quanto para aprofundamento de conhecimentos, sobre a importância dos símbolos religiosos para as diferentes tradições religiosas. Estes vídeos foram recomendados pelo professor Valdecir João Bianchi, da rede estadual e particular em Passo Fundo, RS.

Série:  “O que é um símbolo religioso” caracterização e implicações

Parte 1 – https://www.youtube.com/watch?v=uyYe1GyEjzg
Parte 2 – https://www.youtube.com/watch?v=aaw3M4yIkhE
Parte 3 – https://www.youtube.com/watch?v=isYGm79aMBg

Imagens e símbolos religiosos – Pe. Fábio de Melo – https://www.youtube.com/watch?v=yRvb-RabqaQ




Sugestões de uma prática pedagógica

Colaboração do professor Alex Rosset

Esta atividade pode ser aplicada a estudantes de Oitavos Anos do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio.

No Oitavo Ano, Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida, Objetos de Conhecimento: Doutrinas religiosas/Crenças, filosofias de vida e esfera pública. Habilidades: EF08ER03RS-03) Conhecer e descrever em que se constitui o sincretismo religioso e as formas de manifestações nas Tradições Religiosas. (EF08ER03RS-04) Observar e comparar como elementos de uma Tradição Religiosa são ressignificados em outra, através do Sincretismo. (Ex.: Nossa Senhora dos Navegantes e Iemanjá).

Para aprofundar conhecimentos:

  1. É possível imaginar, no Brasil, como seria uma democracia e uma pluralidade religiosa?
  2. Qual é a posição do religioso Fábio de Mello sobre adoração de imagens (vídeo https://www.youtube.com/watch?v=yRvb-RabqaQ)
  3. Qual é o problema de um país manter ou retirar símbolos religiosos de lugares ou repartições públicas? (Veja no vídeo  https://www.youtube.com/watch?v=isYGm79aMBg)
  4. O Brasil se constitui culturalmente a partir do sincretismo religioso. Pesquise sobre isso e faça síntese.
  5. Após leitura do texto e acesso aos vídeos, qual é o seu posicionamento pessoal sobre o uso de símbolos religiosos em lugares públicos?



Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis, professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Políticas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Políticas Públicas. E-mail para contato: marcosvinicius5@yahoo.com.br

Estamos longe fisicamente, mas conectados pelo coração

A EMEF Zeferino de Costi, de Passo Fundo, realizou projeto de reconstrução de vínculos com seus estudantes, famílias e professores e professoras, durante a pandemia, durante o mês de julho de 2020. A partir do mês de agosto de 2020, as aulas não presenciais serão a partir da plataforma Google For Education.

Foi uma experiência incrível, cheia de desafios, como forma de superar ou amenizar o distanciamento físico e conectar-se com o coração. A Escola acredita que os laços de afetividade e conexão são fundamentais para que ocorra uma boa aprendizagem.

No mês de julho, ocorreu também o aniversário de 29 anos de existência da Escola. Na sua página do Facebook, houveram muitas e significativas postagens de estudantes, pais, mães e professoras, fazendo o reconhecimento deste espaço educativo para a humanização, através do conhecimento.

Destacamos, nesta publicação, depoimento da professora Elaine dos Santos, sobre uma atividade que foi uma reunião virtual com os estudantes.

***

“Resgatar os vínculos neste tempo de pandemia, foi o tema central do projeto desenvolvido pela escola ZDC e nos oportunizou momentos de grande emoção junto aos colegas, às famílias e, principalmente, aos nossos alunos.

Perceber o envolvimento das pessoas, a preocupação com a escola, com os outros e consigo mesmo foi muito emocionante.

Não imaginei em momento algum de minha vida profissional vivenciar uma experiência de pandemia e agora todos nós estamos vivenciando momentos de incertezas, de ansiedade e muita saudade de tudo e de todos.

Saudades daqueles sorrisos, das gargalhadas, das piadinhas sem graça, dos pedidos inusitados no meio da aula, de compartilhar uma experiência muito legal com a turma, de aprender um conteúdo bem importante… da convivência diária.

Esses momentos de reflexão são importantes para reforçar quanto precisamos uns dos outros para nossa saúde emocional ….

Receber uma visita inesperada da equipe gestora que veio trazer umas gostosuras para acarinhar meu coração tão saudoso foi muito emotivo, porque não existia essa combinação e de repente… que bom poder fazer parte deste grupo.

Em grupo, decidimos retribuir o carinho… nossa, quanta expectativa… que maravilha perceber a emoção e o nascer de um sorriso genuíno de agradecimento. Valeu a pena!!!

E o mais afetivo dos encontros foi com os alunos do 6º ano A e B.  Como eles cresceram, as feições estão em processo de transformação… não são mais tão crianças e a pré-adolescência já começa a demonstrar a nova fase de suas vidas… mas o carinho ainda está ali.

Um pouco tímidos inicialmente, os novos pets que chegaram, muitas novidades para contar. Meu choro naquele momento foi de muita, muita saudade de todos. Ver meus alunos virtualmente, serviu para reforçar nossos vínculos afetivos, nossa identidade de turma e de escola, enfim, nosso pertencimento a essa escola. 

Autora: Elaine dos Santos
Professora de Língua Portuguesa do 6º ano







Recortamos, também, postagens da página do faceboock que se referem a este importante projeto realizado pela EMEF Zeferino de Costi.

Estimadas famílias e comunidade ZDC!

Do dia 06 a 17 de julho a escola estará desenvolvendo o Projeto: “Estamos longe fisicamente, mas conectados pelo coração” buscando resgatar e fortalecer o vínculo entre escola e família para coletivamente enfrentarmos os desafios que o contexto histórico exige, diminuindo o distanciamento através de várias atividades e ações.

Importante a participação das famílias e estudantes, pois estaremos nos preparando para enfrentar novos caminhos e superar as dificuldades coletivamente, pois juntos podemos reinventar este momento de transformação e aprendizagem.

Fiquem atentos e conectados porque será enviado tarefas, informações, vídeos, mensagens… pelos grupos de whats e facebook.

Um abraço a todos!

Professores e equipe gestora

(Postagem no faceboock da escola)




Queridos estudantes do ZDC!

Preparamos com muito carinho um vídeo para expressar nossa saudade, nosso cuidado e para fortalecer nosso vínculo, que mesmo nós estando longe, estamos conectados pelo coração. Veja mais aqui.

A Escola também aposta muito no papel e na função das famílias no atual momento histórico.

Trabalho dos oitavos anos de uma escola para retomar os vínculos afetivos e de aprendizagem para as aulas à distância e de forma remota.

Deixa Morrer!

Não há desculpas. 
O país, favorecido pelo clima e pela
distância de 16 mil quilômetros da China,
teve quase dois meses para se preparar
para enfrentar a ameaça da Covid-19.


Na semana em que o Brasil bateu a marca de  mais  de  100 mil mortes  confirmadas  pelo  Coronavírus,  é obrigatória  uma  reflexão  sobre  as  razões  de tal  tragédia.

Fica notório que muitas mortes poderiam ser evitadas se houvesse uma política  sanitária  e social de combate  à  doença. Basta comparar o impacto  da pandemia  em outros países.  Se a China é a excepcionalidade  do sucesso na condução desta  crise,  a experiência  de nossos  vizinhos, como  Argentina  e  Paraguai, mostra  que o Brasil  é  um grande  fracasso.

Não há desculpas.  O país, favorecido pelo clima e pela distância de  16  mil quilômetros  da  China,  teve  quase  dois meses para  se preparar  para  enfrentar  a ameaça  da  Covid-19. Enquanto o vírus avançava pela  Europa, Bolsonaro e seus seguidores, acometidos  de  aguda  dissonância cognitiva, preferiram ignorar a realidade. 

Osmar Terra, um dos luminares do negacionismo, disse  em abril  que “vai morrer menos gente  de coronavírus  em todo o Brasil do que gente no inverno gaúcho de  gripe sazonal”. Já Edir Macedo asseverou: “não se preocupem com o coronavírus. Porque essa é a tática, de  Satanás”. Olavo de Carvalho, que se diz filósofo, foi taxativo, “essa  epidemia  simplesmente não existe”. Ulala!!

Assim, a  maior  catástrofe  sanitária  da história brasileira  foi ganhando forma, enquanto  o ex-capitão  dedicava  todos  os esforços  para minimizar  a pandemia e  sabotar as medidas de isolamento social. Bolsonaro passou a correr  o país  com uma  caixa de remédio inútil  e naturalizou os milhares de mortos, como se  fosse  algo natural.

Enquanto isso, testes não foram feitos e o monitoramento da doença foi desdenhado.  Um militar sem nenhuma experiência prévia foi colocado no Ministério da Saúde, depois da troca  de dois ministros.

Diante da omissão do governo federal prefeitos e governadores, responsáveis diretos pelos serviços de saúde  pública, assumiram  então a linha  de  frente no enfrentamento à pandemia.

Pressionados por empresários e por fiéis da seita messiânica bolsonarista, muitos  precipitaram a abertura  das  economias locais, agravando o quadro e tornando a pandemia foram de  controle.

A receita necessária para conter  a pandemia  é uma  só:  rígido isolamento social, coordenado   pelo poder  central, com abertura progressiva  e responsável das  atividades  econômicas. Isto é que países civilizados estão fazendo, algo impensável no Brasil de Bolsonaro.

Para o professor de Direito da USP, Conrado Hubner, o único  programa que o governo Bolsonaro se  esforça  em manter  ativo  é o “Deixa Morrer”. E daí??

Meninas negras também são princesas

Direitos iguais para todas as crianças,
independente da cor da pele.
Crianças negras também precisam estudar.
Crianças negras também acordam
com o nascer do som.


Tomaram a boneca de cabelos crespos da menina porque naquela escola não podia se brincar de boneca na hora do recreio, mas a menina viu outras garotas iguais a ela brincando com as suas bonecas e ficou no canto da parede, sozinha, a olhar para o jardim florido no pátio. Todos os dias tomavam uma coisa dela. Todos os dias tomavam a sua criancice e nunca pôde experimentar uma travessura porque a colocavam de castigo.

Que difícil é a infância para uma menina negra, pobre, estrábica e gordinha! Ninguém prestava atenção na sua farda limpinha e nos seus sapatos vermelhos. Tudo o que sempre ouviu era que devia comportar-se como as outras meninas. Era sempre deixada de lado, ninguém a queria ouvir. Não podia falar que seus avós foram escravos de brancos ricos e nem do seu pai que era um negro bonito e salvava vidas todos os dias. Dizia a professora quando ela falava dos avós que nunca ninguém foi escravizado no Brasil e que isso é uma coisa monstruosa. As crianças abriam as bocas, espantadas com a monstruosidade de espancar uma pessoa com um chicote até ela desmaiar, contava ao léu a menina quando podia, escondida da professora.

Certo dia, essa menina brigou com a amiguinha branca mais querida da escola. As duas choravam. As duas ficaram de mal uma da outra. Mas foi a menina branca quem foi acalentada pelas professoras e levada para ver o jardim. A menina negra ficou sozinha com a sua dor. Não havia ninguém para confortá-la. Ninguém para dizer-lhe uma palavra de carinho. Se chegasse em casa e dissesse aquilo para a mamãe era capaz dela vir na escola e aprontar a maior confusão.

A mamãe não gostava que a tratassem diferente. Aquela era a única escola da sua cidade onde os meninos aprendiam outro idioma e seus pais podiam pagar para que estudasse ali. Porém, a menina se via em meio a tantas outras crianças brancas que perdeu a sua identidade e começou a agir como tal, desprezando os seus amiguinhos da rua só porque eram negros iguais a ela e começara a achar no seu pequeno pensamento que negros não são crianças, não são nada. Só dão trabalho. Era melhor ser branco que podia brincar do que quisesse onde quisesse.

Nenhuma outra criança da escola sabia o que era castigo. Só aquela menina negra conhecia a dor de ficar quatro horas presa num banheiro sem luz por ter tomado o lápis do amiguinho branco que não queria emprestar-lhe. A sua primeira travessura na escola. Apesar dos pedidos de desculpas, ninguém a ouviu, e a deixaram sozinha naquele pequeno espaço por quatro horas.

Essa menina cresceu, tornou-se uma mulher, profissional dedicada, mas carrega consigo o medo da noite, ou seja, o medo do escuro. Só dorme com a lâmpada ligada. Agradece sempre aos Orixás quando é noite de lua cheia e o céu fica claro, e assim pode dormir com a janela do seu quarto aberta… a menina foi brutalmente forçada a ter medo da noite. Que triste era não poder contemplar as estrelas!

O que fazem com as nossas crianças negras nas escolas?

Nunca saberemos se elas não nos contarem ou até que aprontem uma travessura e seus pais sejam chamados. De resto só as paredes podem dizer como sofrem com a opressão da branquitude. À criança branca, toda atenção é dedicada. A professora pega na mão da criança branca para ela aprender a escrever, já na mão da criança negra algumas professoras acham que vão se sujar se pegarem em suas mãos. Isso é triste, mas é verdade. Ocorre, principalmente, nas escolas elitizadas do nosso país.  Em Fanon encontramos a expressão sincera que define o que dissemos acima

Eu sou branco, isto é, me pertencem a beleza e a virtude, que nunca foram negras. (tradução livre) [1]

Assim como as crianças brancas, as crianças negras podem ser virtuosas se tiverem uma boa educação em casa. Não se define caráter por cor da pele. O caráter da criança se forma ao longo dos anos baseado nas pessoas ao seu redor e naquilo que vive e experiencia. Também é bela por natureza, igual a toda criança.

Diferente da Menina Bonita do Laço de Fita da escritora Ana Maria Machado, ninguém achava a nossa menina bonita. Ela nunca teve um coelho que a amasse. Só era amada pelos seus familiares. Se chegava na escola com tranças nos cabelos as demais meninas começavam a sorrir dela, dizendo “olha a negrinha de trança”. A sua professora nunca lhe disse que as suas tranças eram bonitas. Ela vestia os vestidos mais bonitos de todas as meninas da escola, mas ninguém nunca viu isso, aliás as pessoas só viam que era preta, a escurinha metida que estudava numa escola de mensalidade cara feita para crianças ricas e brancas que podiam pagar.

A nossa menina tinha o sonho de ser uma princesa, mas como não nascera numa família de reis e rainhas, apesar dos seus pais poderem comprar tudo o que lhes pedia, eles nunca puderam realizar o seu sonho. Contudo, havia a chance de ser a princesa da quadrilha da escola. E a menina vendia todos os caroços de milho que a professora lhe dava numa folha de papel desenhados. Quanto mais vendesse mais aumentavam as suas chances de tornar-se a princesa da quadrilha. Todos os familiares, parentes e amigos compravam. Todos os dias ela trazia uma folha de caroços de milho novos para casa. Na certeza de que seria a princesa mais bonita da escola naquele ano. Só que nunca se procurou saber o motivo da menina jamais chegar a ser princesa e ficar em último lugar na foto das meninas que participaram do evento. O seu sonho nem de brincadeirinha nunca se realizou. As meninas brancas eram sempre as três primeiras princesas ela ficava em quarto lugar.

Nessa escola, era proibido falar de algumas religiões e a menina negra nunca pôde falar dos Orixás que tanto amava, uma vez tentou falar em Iemanjá e foi repreendida com um “Não é a sua vez de falar”. Ela nunca soube quando chegou a sua vez de falar, porque nunca lhe deram voz, era apenas ouvinte do que não gostava. Colocavam à força no pensamento da menina que devia amar a religião católica e todos os dias ela ia junto com as outras crianças rezar na igreja com um terço entre as mãos.

Apesar de não entender muito por que fazia aquilo, aprendera a ser comportada para não chamar mais atenção, bastavam as suas tranças. Ela não compreendia o ensino daquela escola onde as perguntas das crianças brancas eram sempre respondidas, as dela nunca tinham respostas. Sentia-se sozinha dentro daquela sala de aula de vinte e cinco alunos. Todos brancos. Até a professora era branca igual nuvem. A menina era vista como uma coisa feia na escola, uma estranha, algo que nem ela mesmo sabia o que podia ser. É isso o que encontramos em Fanon

Se eu sou negro não é por obra de uma maldição, senão porque havendo afirmado minha pele, posso captar todos os eflúvios cósmicos. Eu sou verdadeiramente uma gota de sol na terra. (tradução livre)[2]

Não era nenhum tipo de monstro ou bicho-papão só porque era negra e de vez em quando deixava seus cabelos crespos crescerem bem muito. Sim, a menininha era uma gota de sol na terra e na sua casa junto com os seus familiares, aquela que era educada e gentil para com as pessoas e costumava dá esmolas aos mais pobres que batiam à sua porta. Aquela que pintava o sol de preto igual a cor da sua pele, para puxá-lo pra dentro de si e acender um dia onde a opressão da branquitude lhe devolvesse a sua infância.

Para não citar apenas a dor e o sofrimento dessa menininha, quero falar de outra que recentemente viveu uma situação constrangedora, porque os brancos gostam de constranger as crianças negras. Essa menininha de quem vou falar agora estudava numa grande e cara escola do nosso país. A grande maioria dos estudantes era de cor branca. Na sua turma só ela era a negrinha metida, como lhe chamavam os maiorzinhos. De repente, foram encontrados piolhos na sua cabeça e aquilo foi um espanto enorme para a escola! Criança com piolho? Falta higiene em casa! É que dá ter um monte de cabelo pixaim que quase não se vê o rosto! Vai passar para as outras crianças! Precisamos fazer algo urgente!

O problema do piolho nas escolas é algo comum para quem conhece a educação infantil. Algumas crianças sofrem mais com piolhos por eles serem endêmicos, ou seja, para medicina é uma doença infecciosa que ocorre habitualmente e em certas regiões apesar dos cuidados dos pais. É só começarmos a falar em piolhos que a nossa cabeça começa a coçar.

O piolho também é uma doença chamada Pediculose provocada pela infestação de Pediculus humanus capitis (piolho) e lêndeas (ovo do piolho) no couro cabeludo, um parasita comum que acomete preferencialmente crianças em idade escolar.[3]

O piolho é um inseto parasita que se alimenta do nosso sangue extraído do couro cabeludo. É um bichinho preto que anda nas cabeças das crianças. O sintoma clássico da Pediculose é o “prurido”, ou seja, a coceira no couro cabeludo. O piolho é transmitido principalmente através das brincadeiras entre crianças e compartilhamento de objetos de uso pessoal, como o pente ou a escova de cabelos. Raramente necessita-se cortar o cabelo. O piolho não pula e nem anda. A sua transmissão maior é pelas brincadeiras entre as crianças. Seu tratamento é o uso de produtos farmacológicos como sabonetes apropriados para a doença.

Essa doença deve ser tratada com cuidado e responsabilidade pela escola. A criança não deve ser isolada completamente das outras. Em primeiro lugar, é preciso que os pais sejam avisados do que está acontecendo e tomem as providências.

A criança não deve sentir-se diferente das demais só porque tem piolhos. Toda criança na idade escolar pode ter piolhos. A cautela se faz necessária nessa hora. Só que com a nossa menininha citada acima a coisa foi diferente. Colocaram-na sentada longe das outras crianças na sala de aula e foi proibida de brincar na hora do recreio. Fazia o seu lanche sozinha. Ninguém chegava perto dela. Quando coçava muito a cabeça, todo mundo se afastava mais ainda com medo dos piolhos saírem voando pela sala de aula. Fez tratamento, mas seu caso era especial. Era uma infecção crônica. Apesar de ser medicada, os piolhos iam e vinham toda hora. Diante disso, a sua mãe que cuida dela sozinha porque o papai sumiu, achou melhor dá um tempo e por obra dos Orixás as aulas começaram a ser remotas, o que a menininha achou maravilhoso. Assim nunca mais ninguém teria medo de ficar perto dela.

O que a mamãe vai fazer quando as aulas presenciais voltarem? A menininha agora estuda numa nova escola. Mas e se tudo for igual?

Há brancos por todos os lados nesse país. Somos a minoria e cada dia estão matando as nossas crianças seja com balas perdidas seja com desprezo. O desprezo é o maior assassino das nossas crianças nos dias atuais, principalmente das negras. A morte não é só a física, mas a espiritual também. Aquela em que a criança é esquecida por todos. Para muitas crianças, o ensino remoto foi a melhor coisa que inventaram, porém isso não é assunto para nosso ensaio.

Nos faltam políticas públicas de respeito e aceitação da criança negra nas escolas elitizadas do nosso país. A maioria delas é oprimida e sofre preconceitos os mais diversos na escola tanto privadas quanto públicas, sendo nessa última menor. Dizem que criança é tudo igual, não é o que me parece. Criança pode ser igual até antes de conhecer os comportamentos e palavras dos adultos, depois passam a agir iguais a eles.

Levamos para a escola o que vemos em casa. Se nossos pais humilham a mulher negra que cuida da casa porque é preta tendemos a humilhar e desprezar todas as outras pessoas de cor preta. Se nos foi ensinado em casa que negros não cagam na entrada, mas podem cagar na saída, também levamos isso para o nosso dia a dia. Se para um adulto negro é difícil conviver com amigos brancos numa universidade privada, imagine para uma criança negra que não sabe ainda como se defender e o seu espírito está em formação. O que levará para a vida adulta essa criança negra? Que lembranças escolares ficarão marcadas na sua pequena alma na idade adulta? A da opressão e do desprezo.

Os direitos universais da criança precisam ser levados à sério no nosso país, principalmente pelas escolas. Direitos iguais para todas as crianças, independente da cor da pele. Crianças negras também precisam estudar. Crianças negras também acordam com o nascer do som.

“Cultura de direitos humanos se tornará uma realidade quando mudarem substancialmente as práticas da educação no Brasil. Todos os envolvidos na educação (gestores, professores, equipes diretivas) devem mudar as suas posturas autoritárias, para promover a democracia, o respeito e a consideração de todos como seres aprendentes”. (Nei Alberto Pies). Veja mais aqui.




Eu sou o sol!



Não me oprimam!



Toda criança tem piolhos!



Referências

FANON, Frantz. Piel Negra, Máscaras Blancas. Editorial Abraxas, Buenos Aires, 1973.
6 recomendações importantes sobre o piolho na escola. Disponível em https://www.crechesegura.com.br/6-recomendacoes-importantes-sobre-piolho-na-escola/.  Acesso em 12 de agosto de 2020.


[1] FANON, Frantz. Piel Negra, Máscaras Blancas. Editorial Abraxas, Buenos Aires, 1973. p. 37.

[2] FANON, Frantz. Piel Negra, Máscaras Blancas. Editorial Abraxas, Buenos Aires, 1973. p. 37.

[3] 6 recomendações importantes sobre o piolho na escola. Disponível em https://www.crechesegura.com.br/6-recomendacoes-importantes-sobre-piolho-na-escola/.  Acesso em 12 de agosto de 2020.

Sobre escritores

Há três tipos de escritores:
os que escrevem para si,
os que escrevem para os outros
e os que escrevem para a História.


Os que escrevem para si desejam, primordialmente, se expressar. Sua escrita está associada ao prazer de escrever. Não costumam atentar para a técnica, praticando uma escrita automática, espontânea. Como seu principal objetivo é se autoexpressar, não têm o hábito de estudar crítica literária e, consequentemente, de criticar seus próprios escritos ou os escritos alheios.

Os que escrevem para os outros desejam ser lidos pelo maior número possível de pessoas. Sua escrita está associada ao aspecto “artesanal” da linguagem, seja esse trabalho prazeroso ou não. Estudam a técnica, como forma de fazer um melhor uso da escrita para cativar o leitor. Sua escrita não é espontânea, mas estudada, pendendo para um fim específico, ou seja: a comercialização do livro, visto como produto, entretenimento.  A autoexpressão, aqui, fica em segundo plano. O importante é escrever para ser lido por alguém e, de preferência, por muitos. 

Os que escrevem para a História desejam realizar uma obra que fique para a posteridade, entre para o cânone literário. O objetivo, não raro, é “se perpetuar através dos tempos por meio da escrita”. O corpo morre, mas a letra permanece. Nem é preciso dizer que, dos três tipos de escritores mencionados aqui, esse é o mais ambicioso, obsessivo. Tanto o prazer quanto o sofrimento estão submetidos a um objetivo transcendente. A técnica é permanentemente desenvolvida, servindo como meio para a criação de formas originais de escrita.

Em pouco mais de uma década estudando literatura e escrita criativa, conheci vários escritores. A partir de minhas leituras e experiências no meio, cheguei a conclusão de que existem, de um modo geral, três tipos de escritores: os que escrevem para si, os que escrevem para os outros e os que escrevem para a História.

O que difere um tipo de escritor do outro é a sua “linha de horizonte”, seu objetivo, sua prioridade.

Nenhum tipo, porém, é puro: mesmo naquele que deseja escrever somente para se autoexpressar, há uma centelha, um mínimo desejo de pelo menos uma vez escrever algo tão bom que mereça permanecer na História. Por outro lado, quem escreve buscando a perfeição, nem que seja por alguns instantes se deixa levar pelo prazer de simplesmente escrever por escrever.

O primeiro traz um pouco da aspiração do terceiro, sem estar apto a realizá-la. O segundo, embora domine a técnica, não aspira fazer voos tão altos a ponto de escrever um clássico. Já o terceiro não pode se contentar em simplesmente escrever por escrever, nem pode se dar por satisfeito com o domínio da técnica: é preciso ir mais longe!

É possível conciliar, em um nicho literário, esses três tipos? Um é prejudicial ao outro? Ou benéfico? Um é melhor que o outro? Em quê? São independentes ou interdependentes?

“Em verdade, a gente escreve para as pessoas com cuja sorte ou má sorte se sente identificado: os que comem mal, os que dormem pouco, os rebeldes e humilhados desta terra: que em geral nem sabem ler”. (Eduardo Galeano. Em defesa da palavra).

Bolsonaro, o pusilânime

O genocida é o
maior covarde do planeta.



Próximo de ter cometido 105.000 assassinatos e, no decorrer da pandemia, ter vilipendiado os vitimados e seus familiares, desdenhado e negado a letalidade do covid-19 desde o início com suas pérolas macabras como: “histórico de atleta; brasileiro se joga no esgoto e não pega nada; vai morrer 800 pessoas; não sou coveiro; e daí? é como chuva todo mundo pega; cloroquina; vermicida; chá de picão; botar um sanfoneiro desafinado que pra ruim precisava aprender o básico sobre tocar sanfona “homenagear” os vitimados; temos que tocar a vida…” e outros vitupérios e, sobretudo, negligenciado ao deixar o Ministério da Saúde jogado as traças nas mãos dum aprendiz de genocida que, em pouco tempo, superou seu mestre, agora apresenta o ranking dos governadores, observem bem, não é do Estado, é dos governadores, onde ocorreram mais mortes.

Uma tentativa insana de se eximir da sua irresponsabilidade e responsabilizar os governadores pelo elevado número de morte. É ou não é um assassino covarde, parasita e sanguessuga?

Todo pusilânime, quando se defronta com um problema, nunca apresenta a solução. A mediocridade de pessoas com esta característica não permite apontar o rumo a ser seguido.

Tendo ciência das suas limitações, o pusilânime sempre sai em busca dum culpado. Característica própria dum sujeito abjeto. Os governadores estaduais tiveram a sua parcela de culpa, sobretudo ao cederem no decorrer da pandemia as vontades dos mercadores da morte e do presidente. Mas a maior parcela de culpa é do genocida.

Mesmo que tente manipular a opinião do conjunto da sociedade, conseguirá, no máximo, a aceitação de suas insanidades junto aos seus [as] energúmenos neófitos do núcleo duro. O que é muito. Jamais imaginei que 25% dos membros da sociedade brasileira fossem proto-fascistas pusilânimes. Mas temos 75% que não são. E serão eles [as] que o farão pagar pelos teus crimes.

Não adianta apostar na falta de memória do povo brasileiro. Nós lembraremos todo dia, como um mantra, que é um genocida covarde, parasita e sanguessuga. Assuma vossa responsabilidade. Você tinha consciência disso quando afirmou, em abril, quando tínhamos 6.000 crimes cometidos, na cerimônia de posse do Taich como Ministro, ao dizer: “abrir o comércio é um risco que eu corro: se agravar [o número de mortos] vai cair no meu colo”.

Caiu no teu colo. Sei que é pedir demais a um psicopata de elevado nível como tu mas não custa tentar: assuma que errou. Reconheça que teu descaso pela vida resultou neste elevado número de mortes. Não negue mais a letalidade do coronavírus.

Faça um pronunciamento público se solidarizando com os familiares dos vitimados [as] e peça desculpas a sociedade brasileira pelo genocídio. Pare de procurar culpados e combata o covid-19 com a política correta.

Ainda dá para salvar umas 80.000 vidas ou mais. Mesmo assim, se me ouvir, adotar a política correta a partir de hoje e estancar a pandemia, por uma questão de sinceridade, antecipo que não descansarei em vida enquanto não vê-lo, junto com sua corja toda, definhando atrás das grades pagando pelo genocídio que cometeram nestes 5 meses com a política errada. FOOOOOOOOORA BOLSONARO E SUA CORJA!

Genocídio, foi classificado em 1943  pelo jurista polonês,  Raphael  Lemkin: “Por  genocídio  entendemos  a destruição  de uma nação  ou grupo étnico”. É o que está acontecendo entre nós?? (José Ernani Almeida). Veja mais aqui.

O exercício de ser pai segundo Deus

Amado pai, cuide da sua criança
para ela se tornar um adulto maravilhoso
seguindo o caminho do Senhor.


Ser pai é uma grande bênção de Deus. Aqueles que se alegram com a notícia de que serão pais são bem-aventurados pelo Senhor, mas aqueles que negam a missão de pai sofrerão no dia do Juízo Final. A missão de ser pai é dada a todo bom e justo homem que constrói uma família e sabe bem cuidar dela. No entanto, nos últimos anos temos visto os pais relaxarem diante dessa missão. Talvez pelos tempos líquidos que estamos vivendo onde tudo tem que ser descartável e rápido ou pela falta de amor a Deus.

Um verdadeiro pai preocupa-se em educar e instruir os seus filhos no caminho do Senhor. Fica contente de poder levá-los à escola sempre que possível, ajuda-lhes a tirar as dúvidas em relação as coisas ao seu redor, conversa com os filhos sobre as coisas que os perturbam o pensamento e mais ainda reza junto com o filho.

A oração no lar é uma importante atividade para a família ratificar os seus laços com Deus todos os dias.

No entanto, poucas são as famílias, atualmente, que costumam agradecer, na mesa, ao Senhor pelo pão de cada dia, pelo alimento que comem. E quando isso é feito, muito raramente, sempre a iniciativa parte da mãe, ou seja, da mulher. É a mulher quem está administrando o lar nos últimos dias. A ela cabe todas as tarefas domésticas, inclusive o culto familiar ao Senhor. Isso porque muitos pais estão perdendo o hábito de falarem com Deus. Alguns só recorrem ao Senhor em momentos de desespero e dor. O que é errado, pois Deus quer que estejamos com Ele na alegria e na tristeza.

Se há um exemplo a ser seguido de pai no mundo, esse é Deus. Ele é bondoso, misericordioso e tem compaixão dos seus filhos.

Criou-nos à sua semelhança, dotando-nos de inteligência e vontades. Deixou-nos o poder de escolhas entre fazer o bem ou o mal. Está sempre a perdoar o filho que erra, tantas vezes forem necessárias. Ouve os nossos clamores. Mas também nos castiga quando não o escutamos ou achamos que somos superiores a Ele. Deus é um bom pai para a humanidade, principalmente para o que crê nEle. Sigamos os seus ensinamentos na Palavra Sagrada e não cairemos em tentações porque Ele nos ensina a como sermos bons cristãos.

E por falar na Palavra Sagrada também temos visto poucos pais preocuparem-se em ensiná-la a seus filhos, em fazerem a leitura dela em comunhão com a família. O livro da Bíblia Sagrada só serve para decorar a estante. Nunca sai do lugar. Um dia, as traças comerão as suas páginas e ninguém verá. Um livro onde podemos educar os nossos filhos para o exercício do bem no caminho do Senhor, eis o melhor livro de todos os tempos. Sua leitura deveria ser tarefa obrigatória no lar. Mas o pai, chefe da família, prefere assistir ao noticiário na televisão e depois ir dormir para trabalhar no dia seguinte.

O bom pai sabe andar por caminhos bons e praticar a justiça com seus filhos, por isso encontramos a seguinte mensagem em Provérbios 20:7 “O homem justo leva uma vida íntegra; como são felizes os seus filhos!” Aquele que honra o seu trabalho, cuida da sua família com amor e responsabilidade e segue o que diz o Senhor é um homem justo para Deus. Esse certamente trará contentamento para os seus filhos, alegrando-nos diante das suas ações e palavras. Ser justo não só com os de casa, mas com os desconhecidos também.

O bom pai que educa os seus filhos para o caminho do bem e os ajuda a fazerem as lições de casa, logo é um homem justo, também. Mas é preciso aprender em tudo isso a temer a Deus, pois quem o teme mostra sinal de respeito ao nosso criador. Por isso em Provérbios 14:26 encontramos “Aquele que teme o Senhor possui uma fortaleza segura, refúgio para os seus filhos.” Sim, irmãos Deus é o nosso refúgio e salvador.

Alguns lares estão passando por diversos problemas porque os pais não se entendem mais com os filhos, há verdadeiras discussões, brigas, intolerâncias, desrespeito. Porém, aquele pai que se fortalece na Palavra, que ensina aos seus filhos a amarem Deus sob todas as coisas, esse sim estará mostrando a sua fortaleza e um refúgio para os seus filhos quando eles pensarem que nada mais no mundo faz sentido.

Conhecer que Deus é o nosso refúgio no caso dos jovens e adolescentes nesse momento pelo qual passamos da humanidade é de necessidade ímpar. Nossos jovens são vítimas de propagandas midiáticas que levam ao consumismo utópico o dia todo, passam horas no celular e nas redes sociais, não têm mais amigos de verdade, seus mundos são os virtuais. Muitos quando não conhecem o refúgio em Deus, passam a usar drogas, abandonam os estudos, deixam de se amar e descuidam da higiene do corpo e ainda há aqueles que desejam tirar as suas vidas. Tudo isso porque o pai fracassou na sua missão de ensinar o caminho de Deus aos seus filhos.

Aleluia – Deus é o nosso pai.



É preciso educar os filhos desde a tenra idade no caminho de Deus. Levando-os aos domingos à igreja ou templo, como desejarem. Ensinando desde cedo a Palavra de Deus. Sendo exemplos de bondade, esperança, fé e coragem para os nossos filhos. É assim que lemos em Provérbios 22:6 “Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles.”

Muitas vezes o pai olha para o seu filhinho a brincar de ser médico e começa a educá-lo pensando em oferecer-lhe uma vida adulta cheia de bens materiais e espirituais para que nunca lhes falte a bonança e a felicidade. Quando lhe perguntam o que será o seu filho responde com altivez a melhor profissão do mundo.

O pai que instruir e educar seu filho com o cuidado que é necessário certamente o verá seguir os seus objetivos traçados lá na infância, porque são espelhos para os filhos. É preciso imaginar junto com a criança. Se ela brinca de ser professor, o pai deve brincar com ela também.

O que me preocupa são aqueles pais que querem impor as suas vontades aos seus filhos arbitrariamente. Quando os mesmos não seguem os seus objetivos nos estudos e escolhem outras profissões, vemos muitos pais desgostosos. Às vezes queremos que o nosso filho seja um astronauta, mas a sua vontade não é a mesma que a nossa e nem tem vocação para isso. Então, precisamos aceitar e respeitar as suas escolhas. Se ele prefere ser um cantor de rock que siga a sua carreira com amor e dedicação desde que não se desvie do caminho de Deus.

Agora quero entrar em uma questão mal compreendida nos dias atuais. O castigo que os pais devem dar aos seus filhos.

Deus não mandou em lugar nenhum na Bíblia Sagrada que uma criancinha apanhasse de vassouradas, palmatórias ou levassem beliscões, puxões de orelhas e ficassem ajoelhadas em cima de caroços de milhos por várias horas. Deus não ensinou isso a ninguém. As palavras encontradas em Provérbios 13:24 nos falam o seguinte “Quem se nega a castigar seu filho não o ama; quem o ama não hesita em discipliná-lo.” Esse castigo que Deus nos chama a atenção é para aqueles pais que os filhos cometem erros e eles passam a mão nas suas cabeças dizendo que está tudo bem, que ele não fez nada de errado. Disso Deus não gosta. Contudo, quando o pai chama a atenção do filho, lhe tira o celular das mãos por algumas semanas, proíbe-o de ir ao shopping por uns dias ou corta a sua mesada por uns tempos esses são exemplos de castigos que Deus gosta e aprova. Deus não incentiva a violência entre pai e filho.

Alguns pais têm gestos que desagradam ao Senhor.

O ato de chamar a atenção do filho em público, humilhá-lo diante dos amigos e familiares não é bom. A criança ou o jovem só ficará com mais raiva ainda. E aquela raiva pode crescer tanto dentro dele que chegará uma hora em que explodirá de alguma forma, razão pela qual temos visto tantos filhos agredirem fisicamente os seus pais. É preciso que o pai chame o garoto num lugar onde os dois estejam a sós e o repreenda com palavras duras, mas ao mesmo tempo afetuosas. Um pai sabe muito bem fazer isso se é com Deus em seu espírito.

E por último, acredito que não menos importante ao Pai é ensinar aos seus filhos a amarem-no e respeitá-lo em todas as ocasiões. Não importa a idade. Mesmo que o filho já tenha completado meio século de vida ele deve respeitar seus pais. Isso é o que encontramos em Êxodo 20:12 “Honra teu pai e tua mãe, a fim de que tenhas vida longa na terra que o Senhor, o teu Deus, te dá.” Então, é preciso que os filhos amem os seus pais para que possam ter uma vida de sabedoria aqui na terra. A vida longa de que nos fala a Palavra Sagrada é aquela que segue o caminho do Senhor e faz tudo conforme o que Ele pede, assim o bom homem terá a felicidade que se tornará infinita em sua vida, ou seja, longa.

Também deve o pai ensinar aos seus filhos a amarem e honrarem o nosso Deus, pai de todas as coisas da terra. É importante que a criança cresça nos ensinamentos do Senhor, lendo a Bíblia para crianças, assistindo desenhos animados sobre a criação do mundo e a vida de Jesus Cristo. O filho deve honrar nosso grande pai que é Deus.

Que os pais possam refletir sobre os ensinamentos acima mencionados e que passem a se dedicarem mais as suas famílias, não se deixando ser consumido pela exaustão do trabalho sem cessar, pois Deus nos pediu para descansarmos no sétimo dia. Amado pai, cuide da sua criança para ela se tornar um adulto maravilhoso seguindo o caminho do Senhor. Seja um bom pai assim como é Deus para todos nós. Amém!




Sugestão de atividade pedagógica – Ensino Religioso

O texto “O exercício de ser pai segundo Deus” é escrito com base na crença no Deus cristão e assim deve ser lido e interpretado. Nem todas as religiões pensam o Transcendente (Ser Superior) do mesmo jeito, mas independentemente dos nomes e das ideias que se tem dele, a busca é muito parecida nas diferentes religiões ou tradições religiosas.

Questões para aprofundar conhecimentos

Esta atividade pode ser aplicada a turmas do nono ano do Ensino Fundamental, seguindo orientações da Nova BNCC no Componente Curricular Ensino Religioso. Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida. Objeto de Conhecimento: Imanência e transcendência. Habilidades: (EF09ER01RS-01) Definir imanência e transcendência expressas pelas Tradições Religiosas em seus livros sagrados. (EF09ER02RS-01) Propor, com base nos escritos sagrados, soluções cotidianas que contemplem a valorização da vida, o respeito, altruísmo.

  1. Após ler o texto, copiar/destacar uma frase ou um pensamento que mais lhe chamou atenção no texto.
  2. A autora Rosângela Trajano escreve: “Se há um exemplo a ser seguido de pai no mundo, esse é Deus”. Explique, a partir do texto, porque Deus é um modelo de pai a ser seguido.
  3. Que gestos dos pais agradam a Deus, na concepção dos cristãos?
  4. Que gestos dos pais desagradam a Deus, na concepção dos cristãos?
  5. Qual é a orientação sobre o uso da Bíblia que a autora sugere na vida das famílias?
  6. Interprete, dizendo o que entendeu,  a letra da música de Gilberto Gil: “O nome de Deus pode ser Oxalá, Jeová, Tupã, Jesus, Maomé. Maomé, Jesus, Tupã, Jeová, Oxalá e tantos mais. Sons diferentes, sim, para sonhos iguais”. Veja mais aqui.

O perfume francês e a aula remota

Amor rima com flor e com professor.
Francês só rima com freguês, do capitalismo
e do consumismo utópico.


Quem ensina a crianças deve saber o quanto elas gostam de nos abraçar e cheirar. Com essa preocupação, sempre fui às minhas aulas o mais bem vestida possível nas escolas que não exigem fardamento, gastei muitas vezes o meu salário quase todo para comprar um perfume francês que tivesse um cheiro agradável e que ficasse fixo no corpo durante várias horas.

Criança gosta de sentir cheiro bom. Aliás, todo mundo gosta.

Pois bem, com o ensino remoto, nada mudou em mim. Continuo me arrumando para dar aulas e o mais engraçado de tudo isso é que uso o meu mais caro e cheiroso perfume antes de começar a dar aula remota. Talvez no meu inconsciente eu pense que os alunos vão sentir meu cheiro e, por isso, devo estar cheirosa e bem arrumada.

Conheço uma amiga que passa o melhor batom nos lábios para dar a sua aula remota. Cada um se reinventa como pode nesse distanciamento social que vivemos, longe dos abraços e cheiros dos nossos alunos.

Tenho um colega professor que coloca gravata e camisa de manga comprida para dar sua aula remota. Ele diz que se sente mais importante com a gravata. É como se ela lhe desse um poder maior diante das câmeras. Na sala de aula, ele tem a lousa para impor o seu poder; no ensino remoto, a gravata. Poder esse não de superioridade ou de se achar o melhor, mas de impor respeito diante dos alunos que estão longe e não sabemos o que estão fazendo.

Durante esses quase cinco meses de aula remota já consumi quatro vidros de perfume francês. Além de lavar bem os cabelos com xampu, secá-los, penteá-los e deixá-los bem arrumados para aparecer no vídeo um pouquinho mais bonita, também tomo um banho de perfume francês para ficar cheirosa. Mamãe vive a me perguntar para que tanto perfume se os alunos não vão me cheirar, se a conexão da internet não transmite ainda o nosso cheiro. Eu fico sem saber o que responder. Só sei dar aulas estando perfumada.

Conheço uma professora que tem uma mania diferente da minha. Cada um do seu jeito, e eu respeito. Ela gosta de calçar belas sandálias para dar aulas remotas, mesmo sem aparecerem nos vídeos. Diz ela que era o costume da sala de aula física. E lá vai de salto alto para frente das câmeras numa elegância que só ela tem.

Os nossos professores são mesmos os melhores do mundo. Não por isso que digo aqui, mas por serem criativos num mundo onde a criatividade está perdendo espaço para o que já está pronto, o que não dá trabalho. Tipo: o material didático para o professor que traz a aula pronta para ser dada. Motivo para outro ensaio literário. Por hoje, quero falar apenas de perfumes, sandálias e criatividade.

Em tempos de pandemia, cada professor do Brasil inteiro, em sua casa, resolveu de um jeito criativo dar a sua aula remota para que o aluno do outro lado da tela não se disperse ou a ache chata.

Sim, porque uma hora de aula remota pode ficar cansativa se o professor não tiver criatividade para fazer com que os seus alunos fiquem sentados de frente para a tela do computador ou smartphone vendo alguém tentar explicar coisas que, para eles, até mesmo pessoalmente, podem ser difíceis de entender. Na aula remota, não há tempo para explicações repetidas.

Neste mundo de perfumes e criatividade, encontrei uma professora amiga minha que me mandou umas fotos das suas belas aulas remotas. Fiquei surpresa! Espantada! Tudo lindo! Vale ressaltar que é uma professora de escola pública, não desmerecendo os professores de escola privada, pois esses podem comprar perfumes franceses. Já os professores de escolas públicas mal podem comprar um batom. Mas essa minha amiga professora é uma artista e tem maquiagem em casa comprada em lojas de importados onde tudo sai pelo preço de R$ 1,99, aqui na minha cidade.

Essa minha amiga já deu aula maquiada de vampiro para uma aula sobre contos de terror, com o rosto maquiado num formato de borboleta, com tranças de algodão enormes na cabeça para falar dos contos de fadas e segurando um guarda-chuva para não se molhar no meio da chuva que caía na sua linda imaginação dentro de casa. Ela me mandou as fotos, as quais salvei no meu celular.

Fiquei deslumbrada com a sua criatividade! Seus alunos amam as suas aulas e alcançaram notas muito boas em suas avaliações. O seu computador ainda é um velho desktop do início do século, que, de vez em quando, trava no meio da aula. Mas ela sabe bem lidar com ele. A sua conexão com a internet é lenta e, às vezes, as suas aulas são interrompidas mesmo no meio da explicação.

O importante nisso tudo é saber reinventar-se. Reinventar é a palavra do momento com o ensino remoto. Descobriram e passaram a valorizar não só o professor de Artes Visuais e Cênicas da escola, mas os professores de todas as disciplinas.

Conheço uma professora de Geografia que desenhou o rostinho de cada aluno seu e colou-o em palitos de churrasco numa mesinha. Fez isso para que, quando a saudade bater, possa ir lá e olhar para eles. Os desenhos são horríveis, mas valeu a sua intenção. Valeu a sua originalidade.

Acredito que cada um de nós, professores, tem o próprio jeito de matar as saudades dos nossos alunos com o distanciamento social devido a essa pandemia.

Voltando aos meus perfumes franceses, eles não são importados, não, viu, gente? São legítimos. E custam os olhos da cara. Vai-se assim embora o meu salário do mês. O que mais sinto falta nos meus alunos nesse ensino remoto é o cheiro no rosto e a seguinte expressão dita com todo o carinho do mundo: “Tia só vive cheirosa.” A tia continua cheirosa mesmo que vocês não consigam sentir o meu cheiro.

Os alunos se espelham nos seus professores, isso é verdade. Sempre gostei de dar aulas com roupas esportivas para incentivar a prática dos esportes nos meus alunos. De repente, eles começaram a me chamar para campeonatos de karatê, futebol de salão e corridas na praia. Eu, com quase metade de um século vivido, não tenho mais fôlego para correr atrás de meninos numa quadra esportiva, apesar de amar os esportes.

O mais interessante é que eles gostam do meu jeito de me vestir. Mas, o perfume francês eles amam muito. Já chegaram a me dizer isto: “Tia, hoje estou cheirosa igual a senhora.” E estava mesmo. Meus olhos encheram de lágrimas porque, num país onde o salário mínimo mal dá para comprar uma cesta básica, como os pais dessas crianças poderão comprar perfumes franceses?

Quem não pode comprar perfume francês compra os da Avon, que são tão cheirosos quanto os meus. Tenho uma amiga que só sente o cheiro de perfume francês quando está perto de mim ou passa de frente a uma loja de perfumes no shopping. Cada um com o seu cheiro. O importante é estar cheiroso diante das câmeras.

Outro dia, brincando com os alunos, eles acharam um furinho no meu sapato e ficaram espantados. Fiz de tudo para esconder deles os furinhos nos meus sapatos e roupas velhinhas que tanto gostavam, mas não teve jeito. Não fizeram nenhum comentário. Ao contrário, sorriram e me mostraram os furinhos dos seus sapatos também. Crianças são mesmo o melhor que há no mundo.

Na minha infância, tive uma professora que cheirava a flores. Era a melhor professora do mundo para mim naquela época! Quando ela ia chegando na escola a gente corria para abraçá-la e cheirá-la. Ela dizia toda sem jeito: “Estou suada, crianças”. Também pudera, já vinha de outra escola num ônibus lotado. Eu me lembro bem do seu cheiro de flores do campo. Talvez eu tenha adquirido esse hábito de dar aulas toda cheirosa dessa professorinha que me ensinou o á-bê-cê com tanto carinho.

Que todos nós, professores e professoras, possamos continuar cheirando a perfumes francês ou a flores. Afinal, amor rima com flor e com professor. Francês só rima com freguês, do capitalismo e do consumismo utópico. Agora vou me perfumar para a minha primeira aula do dia. Bom dia a todos! Boas aulas!



Fotos: arquivo pessoal/divulgação

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