Início Site Página 151

O que causa adoecimento é o descaso

“Para Rogério Giannin, que integra a atual diretoria da Associação
Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), o país vive uma grande tragédia
que vem sendo tratada como se fosse uma ópera bufa. “A dimensão dessa
tragédia precisa ser recuperada como uma possibilidade de cuidar dessa
imensa ferida social”.



Publicado originalmente em Radis.

Como militante do movimento antimanicomial e defensor dos princípios da Reforma Psiquiátrica, o psicólogo Rogerio Giannini tem repetido que é preciso pensar saúde mental fora das caixinhas patologizantes. Para o coordenador da subcomissão de Saúde Mental e Drogas do Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), muitos vêm se aproveitando da covid-19 para ampliar o alcance do poder biomédico. É por isso que se incomoda quando escuta que as pessoas estão adoecendo mentalmente “por causa da pandemia”. “Corremos o risco de voltar a legitimar um discurso medicalizante”, disse, em entrevista à Radis. Rogério parece não ter dúvidas de que nesta pandemia o que tem causado sofrimento é o descaso, o abandono, o desamparo.

No final de agosto, quando participou do 3º Encontro Virtual IdeiaSus sobre enfrentamentos ao sofrimento psíquico, o psicólogo leu um texto vigoroso em que pôs às claras “a máquina de morte que atende pelo nome de pandemia”. Acontece que dito assim, de forma banal, o termo pandemia pode soar como um fenômeno biológico — uma coisa, um conceito neutro. Mas não é. “Quando dizemos pandemia, falamos de como, frente a um determinado vírus que causa uma determinada doença que tem determinadas formas de propagação, as sociedades e governos se organizam para combatê-la. Ou não”.

Dias depois, quando conversou por telefone com a nossa reportagem, Rogério apontou o que mais está em disputa no Brasil com a eclosão da pandemia e aproveitou para saudar as iniciativas que vêm promovendo acolhimento e cuidado em saúde mental em territórios vulnerabilizados — mas demonstrou preocupação sobre como articular essas experiências com as políticas públicas e a defesa do SUS. Para Rogério, que integra a atual diretoria da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), o país vive uma grande tragédia que vem sendo tratada como se fosse uma ópera bufa. “A dimensão dessa tragédia precisa ser recuperada como uma possibilidade de cuidar dessa imensa ferida social”.

Leia aqui a entrevista completa que faz parte de reportagem especial sobre pandemia e saúde mental a ser publicada na edição de novembro da revista Radis.

o Estado brasileiro se desorganizou muito nesses últimos anos e a pandemia escancara isso.



Você já disse que uma pandemia não é um fenômeno biológico em si, neutro ou autoexplicativo, que ela é também um fenômeno social. Pensando no recorte da saúde mental, como o Estado brasileiro se comportou?

Eu tenho a impressão de que a gente está vivendo uma quadra da vida social brasileira muito terrível mesmo. Não por causa da pandemia. Já vínhamos sofrendo uma série de desmontes nas políticas públicas, nos direitos sociais. Tudo isso foi se acumulando e, de alguma forma, a pandemia funcionou como uma espécie de contraste na radiografia, em que cada fissura fica muito mais exacerbada. É quase assim: se você quer conhecer a sociedade brasileira, você olha para a pandemia. Por isso que eu dizia que a pandemia, longe de ser um fenômeno biológico, é sempre um fenômeno da sociedade. De alguma forma, numa pandemia, você pode conhecer como uma sociedade cuida ou não cuida da sua população. Acho importante dizer que o Estado brasileiro se desorganizou muito nesses últimos anos e a pandemia escancara isso.

Mas é possível dizer que aumentou o sofrimento psíquico dos brasileiros durante a pandemia de covid-19?

Eu gosto de pensar as questões de saúde mental a partir de uma outra chave. Não acho que seja o caso de disputar o que seria sofrimento ou não. Mas não adoto uma postura de que as pessoas estão sofrendo mais porque estão isoladas, porque não têm contato ou, por exemplo, que as crianças vão sofrer porque não têm escolas. Quando falamos assim, ao mesmo tempo que parece que estamos falando de direitos sociais, acabamos dando uma certa neutralidade a um fenômeno que não é neutro. Acho que nesta pandemia, fundamentalmente, as pessoas sofrem pelo desamparo. Por acordar todos os dias e saber que ninguém está cuidando delas. Isso é um grande sofrimento. Isso, sim, talvez seja uma forma de produção social de uma angústia. Fazendo uma comparação com as cenas de um terremoto ou de um desmoronamento que mobiliza muita gente, aquelas perdas são muito tristes, mas há também uma comoção, que é uma forma de acolhimento das vítimas e de seus familiares. Isso indica para as pessoas a sua humanidade, inclusive, para aquelas que prestam ajuda. Ou seja, as pessoas são beneficiadas por uma solidariedade, algo que não estamos vendo agora — ou não estamos vendo majoritariamente. Nesse sentido é que acho que esse marcador do sofrimento está ligado muito mais a uma ideia de desamparo e de negligência — uma negligência que é reiterada um dia, dois, três, 10 dias, 30, 60, 90 dias e já estamos há 120 dias no processo de reiteração desse descaso, desse descuido absoluto.

Em relação às políticas de saúde mental, como esse desmonte se materializa? Qual o impacto da pandemia para a saúde mental?

Logo em março, a única regulamentação que sai do Ministério da Cidadania é uma orientação para continuar as internações nas comunidades terapêuticas [Portaria 340, publicada pelo Ministério da Cidadania em 30 de março e que define regras para serem seguidas pelas chamadas comunidades terapêuticas], que diz, com todas as letras, que é necessário dar continuidade aos processos de acolhimento — que, na verdade, são internações. E aí eles criam um conjunto de orientações para que as pessoas continuem internando, o que é um gigantesco absurdo. Com um certo cinismo conceitual, o documento vai dizer que o acolhimento é sempre não obrigatório, a partir da vontade expressa do acolhido, totalmente voluntário. Bom, se é voluntário, não faz sentido você criar uma portaria para manutenção dessas internações. Na verdade, numa pandemia, qualquer política sanitária apontaria, primeiro, a necessidade de acabar com as aglomerações e confinamentos. Nos casos impossíveis de acabar com o confinamento, para um grupo menor de internados, você criaria protocolos rígidos de cuidado. Mas não houve nenhum protocolo, nenhuma medida de segurança, indicando processos de desinternação, de cuidados especiais com essa população. Muito pelo contrário: as internações nas comunidades terapêuticas têm recrudescido. É um quadro infelizmente desalentador. Tudo o que é feito de interessante, de bom, é feito porque alguém resolveu fazer, não porque teve alguma orientação ministerial.

Qual o maior perigo disso?

Se a gente não tomar cuidado, a eclosão da pandemia de certo modo traz para cena outra vez um pouco do poder biomédico e dos discursos terapeutizantes. Tenho uma certa preocupação com essa patologização do fenômeno, que é a transformação de um fenômeno social em biológico, como se fosse um simples adoecimento, através de um agente biológico, no caso o vírus. Quando apenas dizemos que as pessoas estão adoecendo mentalmente por conta da pandemia, que há um risco de suicídio, de crise de angústia, “por causa da pandemia”, corremos o risco de voltar a legitimar um discurso medicalizante em relação à saúde mental e de voltar a tratar a saúde mental a partir da doença e não da promoção. É preciso fazer essa disputa contra os que aproveitam a pandemia para reproduzir e recuperar um status ainda hegemônico, digamos, que é esse do discurso biologizante e patologizante da sociedade. Mas a saúde mental tem, no seu percurso, a ideia de uma experiência que vai ao contrário disso.

E quais os principais desafios que se colocam para a preservação dos princípios da Reforma Psiquiátrica e do movimento antimanicomial?

O que a experiência da luta antimanicomial nos traz é que o que vale é a promoção da saúde, o cuidado, o acolhimento; é o cuidar das pessoas; é a liberdade. Porque os argumentos para manter internado, para manter no hospício, são muitos. Na psiquiatria tradicional, costuma-se usar o argumento de que, se o paciente tem um determinado quadro, comporta-se desse jeito, perde o controle, você o coloca em quadrados para justificar que seja internado. Esse é o movimento do tratamento segregado. E a luta antimanicomial trouxe exatamente o oposto disso: o que cura é o tratamento em liberdade. É importante para as pessoas estar de volta ao seu território e é importante que a própria comunidade e a família se transformem nesse processo. Tem a mesma lógica da pessoa com deficiência: você não fica adaptando a pessoa com deficiência para que fique parecida ao máximo com uma pessoa que não tem deficiência. Você muda o território, a acessibilidade, as tecnologias assistidas e integra essa pessoa a esse novo jeito da sociedade se organizar. É isso o que a luta antimanicomial propõe para a questão da loucura e para a questão do uso de álcool e outras drogas, a partir da política de redução de danos. A gente não parte nem para a medicação como regra universal, nem para abstinência como regra universal, mas pensa a redução de danos. E na questão dos quadros de sofrimento mental intenso, a gente pensa um tratamento em liberdade. Então, talvez a gente tenha um jeito de ler a pandemia que é diferente dos jeitos que uma determinada psiquiatria lê. Essa outra psiquiatria talvez se aproveite do quadro da pandemia para criar uma espécie de lógica em que as coisas acabam num adoecimento. Mas como eu disse no início, acho que o que realmente causa angústia, adoecimento, sofrimento e até o luto é muito mais porque essa experiência atual tem sido entendida na dimensão do desleixo, do abandono, do descaso. Essa, infelizmente, é uma marca muito poderosa que a nossa sociedade está deixando nessa pandemia. Está muito mais nesse registro do que no registro do aumento da compaixão, da solidariedade e do cuidado recíproco.

Por outro lado, temos visto uma série de exemplos de práticas solidárias, promovidas por coletivos, que valorizam o conhecimento produzido nos territórios. Qual a importância dessas experiências nesse momento? Como podemos ler isso?

Sim, aí tem as reações a isso, são reações que eu costumo chamar de “severinas” — no sentido do poema de João Cabral de Melo Neto [“Morte e Vida Severina”]. No finalzinho do poema, há um verso sobre o quanto é justo defender a vida [“E não há melhor resposta / que o espetáculo da vida (…) / mesmo quando é assim pequena / a explosão, como a ocorrida; / mesmo quando é uma explosão / como a de há pouco, franzina; / mesmo quando é a explosão / de uma vida Severina”]. Eu acho que o que a gente está vendo são vidas severinas — que têm a sua beleza e vamos defendê-las. Mas acho que a gente não pode criar a ilusão de que está havendo um movimento em rede que traz a solidariedade para a pauta. Não traz. São experiências bonitas, diferentes, interessantes. É sempre bom a sociedade produzir a sua autodefesa, digamos assim, o seu autocuidado, seu cuidado comunitário. E por isso eu as considero louváveis. Mas apesar de louvar todas essas iniciativas, eu sempre gosto de me fazer uma pergunta: o quanto isso também nos conecta com as políticas públicas ou o quanto as políticas públicas são capazes de identificar essas forças? Porque acho que o objetivo das políticas públicas, principalmente da Atenção Primária, é ser uma força viva nessas comunidades, conhecendo e reconhecendo essas forças. Eu acho que, quando a gente faz esses movimentos, também é preciso conhecer e reconhecer a rede territorial de políticas públicas, numa forma de potencializá-las e desinvisibilizá-las.

De que maneira?

Em um sentido amplo mesmo: como essas experiências estão se articulando com os Centro de Atenção Psicossocial (Caps), com os agentes comunitários de saúde, com as unidades básicas de saúde, mas também com a rede do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), com a delegacia da mulher, enfim, com um número grande de equipamentos sociais e da saúde que é preciso a gente continuar enxergando? Ou seja, como elas se articulam com o território, como identificam no território não só os equipamentos públicos, mas inclusive os outros equipamentos comunitários criados? Então, faço uma saudação a essas experiências que mostram uma sociedade mais viva, mas reforço a importância de fazer esse diálogo no sentido de desinvisibilizar esse SUS profundo, que é o mais poderoso SUS. De qualquer maneira, acho que isso se deve muito ao enfraquecimento do SUS como um todo. E não só do SUS, outras políticas poderiam se integrar em um momento como esse. A Rede do SUAS, por exemplo, poderia ter sido muito bem utilizada. Você poderia ter um grande movimento de mobilização contra a pandemia. Isso não houve e enfraqueceu também as relações da sociedade profundamente dividida pela cisão política que aconteceu no Brasil. É importante dizer que uma parte importante da sociedade se pôs a produzir uma contrainformação, um contracuidado. Então, em vez do cuidado, muita gente saiu na rua para dizer que não existia pandemia, virou uma disputa no seio da sociedade. E isso gerou um problema muito pesado.

Ouviu-se muito que esse é um vírus democrático, pelo fato de atingir todas as classes sociais. Qual o maior equívoco dessa frase?

Muito rapidamente a gente viu que não tinha nenhuma democracia nisso. Na verdade, o vírus em si é só um agente biológico. Mas eu entendo que chamá-lo de democrático significava dar um sentido social a esse fenômeno. Talvez fosse um sentido que a gente gostaria que fosse verdade. Ou melhor, a gente imaginou que, como as pessoas estão morrendo, ricos e pobres, a gente queria que todo mundo se mobilizasse, que fosse a hora das políticas púbicas, de fortalecer o SUS. Mas não foi o que ocorreu. E eu acho que não ocorreu porque, incidentalmente, houve esse atravessamento, a pandemia ocorre em um momento em que parece que ela confirma os últimos desmontes, o descaso, o aumento do fosso social.

É preciso recuperar a dimensão da tragédia.

E como você imagina que vamos sair da pandemia?

Costumo utilizar uma imagem de que a gente vive um grande drama, uma grande catástrofe, uma grande tragédia, mas ela tem sido tratada não como tragédia, mas como se fosse uma ópera bufa. Acho que essa dimensão da tragédia precisa ser recuperada como uma possibilidade de cuidar dessa imensa ferida social. Se a gente sentar em cima dela e simplesmente tentar esquecer essas dezenas de milhares de mortes espalhadas pelo Brasil inteiro e esse descaso todo, a gente não vai criar nada de bom. Vai ser mais um daqueles momentos da história do Brasil que um dia voltam, e voltam como sintoma social, como trauma. Acho que a gente precisa cuidar disso, primeiro resgatando a dimensão da tragédia. É fundamental a gente fazer esse resgate, é fundamental a memória — a gente não pode esquecer o que está acontecendo, a gente não pode acionar uma máquina de esquecimento, porque esse esquecimento vai ser mais trágico ainda do que a própria tragédia. Então, a gente precisa continuar lembrando disso. Não lembrando para remoer; lembrando para elaborar. Não é assim: simplesmente, acabou, amanhã sai a vacina, acabou, todo mundo em festa, como se nada tivesse acontecido. É muito sofrimento, muito descaso. E é uma sinalização para a sociedade, para o imaginário social, de que realmente a gente está desamparado. É uma mensagem poderosa de desamparo e a gente precisa desenvolver mecanismos para recuperar e transformar isso.

Planeta doente, terra cansada

Nas palavras de Rachel Carson (1907-1964):
“Mesmo na vasta e misteriosa extensão do mar,
somos trazidos de volta à verdade fundamental
de que nada vive para si mesmo”.


A conhecida dinâmica específica do modo de produção capitalista, em sua íntima relação com a economia linear (extrair, produzir, consumir, descartar), centrada numa visão egoísta (pois privilegia a acumulação individual) e antropocêntrica, (uma vez que coloca o homem, animal pensante, como “senhor de tudo”, inclusive sobrepujando as leis da natureza), produziu um tipo de crescimento econômico dilapidador (chamemos, assim, de “economia destrutiva”, termo que vem da geografia alemã do século 17) dos sistemas ecológicos da Terra e da biodiversidade, e agressor em potencial dos principais serviços ecossistêmicos (água limpa, ar puro, regulação do clima, polinização das flores, semeação do solo, fotossíntese etc). O que poderia ser um crescimento agregador, não fosse à voracidade mercadológica dominante e impositiva, consubstanciou-se num tipo de economia que, via sistema de preços, acaba por transformar absolutamente tudo em mercadoria, até mesmo o abominável tráfico de pessoas e de órgãos humanos – crime que movimenta anualmente mais de 30 bilhões de dólares segundo a ONU. 

Da tentativa de consolidar um modo global de produzir que não respeita limites, principalmente os ecológicos (matéria e energia), tem resultado, tout court, num intenso foco de tensão entre o sistema econômico (a tecnosfera, produção humana) e o sistema ecológico (a ecosfera, a natureza). 

Não obstante, para validar a ordem que emana do mercado de consumo (teologia do mercado), sempre recomendando políticas de crescimento econômico exponencial, a preocupação em preservar o meio ambiente e a biodiversidade simplesmente é jogada para escanteio, relegada no mais das vezes à condição de insignificância. E tudo isso, quando visto em amplitude, resulta num quadro atual bastante assustador: um planeta doente, uma Terra cansada, uma economia global socialmente desequilibrada, um retrato ecológico desanimador expresso, entre outros, na morte de espécies (assombrosamente é sabido que uma espécie desaparece por dia), e, por último, mas não por fim, uma economia dilapidada do ponto de vista social com taxas de pobreza e miséria que não param de crescer mundo afora – até 2021, 150 milhões de pessoas devem cair na extrema pobreza devido à Covid-19, recessão, conflitos e mudanças climáticas; as economias de médio rendimento terão 82% dos novos pobres do mundo, conclui estudos divulgado pelo Banco Mundial. 

O ponto de conflito aqui que precisa ser devidamente destacado é que o crescimento econômico exponencial – que não será conseguido – não resolve esse conjunto de problemas. 

Conheça algumas ideias de Mujica sobre o nosso modo de viver contemporâneo. Veja mais aqui.

O avanço econômico ininterrupto traz consigo um leque de muito mais desacertos e desequilíbrios, com destaque negativo para o descompasso ambiental, notadamente o excesso de dióxido de carbono (a cada minuto, 10 mil toneladas são lançadas na atmosfera), para citar apenas esse exemplo. Ocorre que o homem-econômico, para ter sua sede material saciada (pilar da ideia de modernidade, espécie de passaporte da civilização moderna), estreita sua relação com a natureza e, sem medir esforços, se entrega abertamente ao modo de consumo vigente nas economias avançadas. A configuração de mundo hoje, pensando na esfera do consumo global, é bem conhecida: 20% da população mundial do Norte global (a parte rica do mundo) consome 76% de toda a produção de riqueza mundial, ao passo que, do lado Sul do globo (a parte pobre), sobra apenas 24% da produção para ser “repartida” por 80% da população mundial.

O curioso é que, de um jeito ou de outro, procura-se ocultar a assertiva de que ao “alimentar” esse superconsumo (do Norte global) abastecido por uma superprodução de mercadorias artificiais (na maioria das vezes fúteis), contribui-se um tanto mais para o processo de esgotamento dos elementares serviços ecossistêmicos que, além de garantir a vida humana, ainda dá suporte à própria economia. Por isso, ousamos assim supor, Ban Ki-moon, então secretário-geral da ONU, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos (em 2011) disparou em tom de alarde ao afirmar que esse “modelo” que acabamos de descrever, na verdade, é um verdadeiro “pacto de suicídio global”. De fato, parece mesmo que estamos todos propensos a esse “suicídio global” uma vez que, dentro da espaçonave Terra, como bem lembrou McLuhan, “somos todos pilotos e passageiros ao mesmo tempo, já que estamos inseridos na natureza”. 

É importante destacar isso porque realça a interligação de todos com tudo. Fato concreto é que nada existe isoladamente, tudo está conectado com tudo. Sendo bem objetivo, precisamos de todos, inclusive para a tarefa maior de erguer um mundo melhor a partir de uma economia também melhor, por isso capaz de aumentar o bem-estar das pessoas, compondo assim, ao fim e ao cabo, uma melhora coletiva. 

Nas palavras da iluminada Rachel Carson (1907-1964): “Mesmo na vasta e misteriosa extensão do mar, somos trazidos de volta à verdade fundamental de que nada vive para si mesmo”. Já na “poesia metafísica” de John Donne (1572-1631) é possível ler que “nenhum homem é uma ilha, isolado em si mesmo; todos são parte do continente, uma parte de um todo”. 

Colocando todo esse rico assunto na primeira linha de debate, nosso sempre estimado Leonardo Boff assevera que “no universo e na natureza, em todas as circunstâncias, tudo tem a ver com tudo, afinal, somos todos feitos do mesmo pó cósmico que se originou com a explosão das grandes estrelas vermelhas”. Da terra tiramos nosso sustento e à terra devolvemos dejetos do processo produtivo (resíduo, poluição, matéria dissipada). É assim, tomando essa última colocação como ilustração, que age o sistema econômico global: usa e explora os limitados recursos naturais (input) e devolve lixo (output) à natureza. 

Portanto, para fazer uso aqui de uma linguagem modesta, é preciso dizer às claras que, quanto mais crescimento (econômico), mais intensa é a agressão (ecológica). E assim, fato concreto, aumenta-se a tensão entre essas duas correntes, a econômica e a ecológica. Esse processo é tão agressivo que, de acordo com estudos recentes, 60% dos serviços ecossistêmicos estão degradados. Daí a ideia corrente de que crescer física e economicamente se converteu, desde há muito, em sinônimo de poluir (no sentido amplo do termo) assoberbadamente. 

Dito de outra maneira: produzir é também sinônimo de destruir. Não existe “produção” sem “destruição”. Não por acaso, a etimologia da palavra “consumir” (a razão maior do processo produtivo) significa “destruir”. 

Ocorre que as economias modernas, do jeito como hoje estão estruturadas, têm aperfeiçoado os mecanismos dessa “destruição”, o que implica no esgotamento em várias frentes do chamado patrimônio natural (biomassa das florestas, solo arável, disponibilidade de água etc). 

Na Carta da Terra, um dos mais importantes e sérios documentos elaborados pela inteligência humana, lê-se que “os padrões dominantes de produção e consumo estão causando devastação ambiental, redução dos recursos e uma massiva extinção de espécies. Comunidades estão sendo arruinadas. Os benefícios do desenvolvimento não estão sendo divididos equitativamente e o fosso entre ricos e pobres está aumentando”. 

Fazendo por fim uma espécie de rápido balanço geral, cabe dizer que no visor do “relógio econômico” os ponteiros marcam um crescimento destruidor da natureza. O momento, portanto, exige uma só saída: abandonar definitivamente esse modelo econômico que transformou tudo em mercadoria, antes que a bomba-relógio acabe conosco. 

DIÁLOGOS ENVOLVERDE – O desrespeito aos limites do planeta.

Presença da religião na política brasileira

O que acontece hoje no Brasil é que a fronteira entre a
religião e a política está comprometida.
As duas esferas se confundem. Resultado disso:
questionamento da laicidade, preconceitos,
intolerância religiosa, racismo religioso, dificuldade
no ecumenismo, não respeito aos direitos humanos
e autoritarismo


Desde a conquista das terras brasileiras pelos portugueses, a variável religião foi determinante para definição das questões políticas. As autoridades politicas necessitavam do apoio da Igreja Católica para justificar suas ações. Isto é, o projeto colonizador teve respaldo institucional da Igreja Católica que, por sua vez, objetivava a expansão dos seus princípios doutrinários as novas terras conquistas. 

Ao longo do período colonial e imperial, o regime de padroado foi importante para manter a aliança entre Igreja e Estado. A construção da identidade brasileira passava pela religiosidade católica que era exercida por quase a totalidade da população que aqui habitava. Aqueles que se recusassem a praticar a fé católica tinham sanções, algumas realidades até a morte. 

Com a proclamação da República e o início do século XX, a Igreja Católica não era mais a religião oficial do estado. Entretanto, isto não quer dizer que não tivesse benefícios. Culturalmente, o brasileiro era católico. Os bispos e os padres tinham muito poder de barganha com o poder executivo, legislativo e judiciário para manter benefícios as instituições católicas, investimentos públicos a hospitais, escolas, e outras obras sociais administradas por organismos católicos, e ainda impedir o avanço de outros credos e instituições religiosas (vale ressaltar que terreiros de umbanda e centros espiritas tinham dificuldades de funcionamento autorizados por serem taxados de curandeiros ou charlatões).

Ao longo do século XX, o perfil religioso do brasileiro modificou. A pluralidade religiosa é a nova realidade do campo religioso nacional. As pessoas optaram por outros credos ou também não terem vínculos institucionais com organizações religiosas. O censo realizado a cada década pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aponta uma queda do número de católicos, aumento dos evangélicos, aumento dos sem religião, e considerável aumento de pessoas que dizem ser não cristãs. O Brasil é um país diverso no tocante a matéria de religião ou religiosidade. 

As relações entre religião e política também acompanharam as mudanças do perfil religioso brasileiro. Não apenas a Igreja Católica participa da política, mas sim diversas instituições religiosas dialogam com o Estado. Cada uma a sua maneira. Destacamos aqui os evangélicos, com a formação das bancadas no poder legislativo, grupos religiosos em seus eventos posicionam abertamente sobre temas nacionais, participação em conselhos, articulação para concessão de rádio e tv, dentre outras formas. Em síntese, dificilmente o Brasil não terá como lidar com o envolvimento dos religiosos na política.

O certo seria religião e política não se misturarem. Religião é assuntos privados e Estado assuntos públicos. O parlamentar que é eleito deve governar para todos e não apenas para sua base religiosa ou a partir de seus princípios religiosos.  O que acontece hoje no Brasil é que a fronteira entre a religião e a política está comprometida. As duas esferas se confundem. Resultado disso: questionamento da laicidade, preconceitos, intolerância religiosa, racismo religioso, dificuldade no ecumenismo, não respeito aos direitos humanos e autoritarismo. 

O que a memória ama, fica eterno

Quanto mais vivemos,
mais eternidades criamos
dentro da gente.



Quando eu era pequeno, não entendia o choro solto de minha mãe ao assistir a um filme, ouvir uma música ou ler um livro.

O que eu não sabia é que minha mãe não chorava pelas coisas visíveis.

Ela chorava pela eternidade que vivia dentro dela e que eu, na minha meninice, era incapaz de compreender.

O tempo passou e hoje me emociono diante das mesmas coisas, tocada por pequenos milagres do cotidiano.

É que a memória é contrária ao tempo.

Nós temos pressa, mas é preciso aprender que a memória obedece ao próprio compasso e traz de volta o que realmente importou, eternizando momentos.

Crianças têm o tempo a seu favor e a memória muito recente. Para elas, um filme é só uma animação; uma música, só uma melodia. Ignoram o quanto a infância é impregnada de eternidade.

Diante do tempo envelhecemos, nossos filhos crescem, muita gente se despede.

Porém, para a memória ainda somos jovens, atletas, amantes insaciáveis.

Nossos filhos são nossas crianças, os amigos estão perto, nossos pais ainda são nossos heróis.

A frase do título é de Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno”.

Quanto mais vivemos, mais eternidades criamos dentro da gente.

Quando nos damos conta, nossos baús secretos – porque a memória é dada a segredos – estão recheados daquilo que amamos, do que deixou saudade, do que doeu além da conta, do que permaneceu além do tempo.

Um dia você liga o rádio do carro e toca uma música qualquer, ninguém nota, mas aquela música já fez parte de você – foi a trilha sonora de um amor, embalou os sonhos de uma época ou selou uma amizade verdadeira – e mesmo que os anos tenham se passado, alguma parte de você se perde no tempo e lembra alguém, um momento ou uma história.

Ao reencontrar Amigos da juventude, do Colégio, nos esquecemos que somos adultos e voltamos a nos comportar como meninos cheios de inocência, amor e coragem.

Do mesmo modo, perto de nossos pais, seremos sempre “As Crianças”, não importa se já temos 30, 40 ou 50 anos.

Para eles, a lembrança da casa cheia, das brigas entre irmãos, das histórias contadas ao cair da noite… serão sempre recentes, pois têm vocação de eternidade.

Por isso é tão difícil despedir-se de um Amor ou alguém especial que por algum motivo deixou de fazer parte de nossas vidas.

Dizem que o tempo cura tudo, mas talvez ele só tire a dor do centro das atenções. Ele acalma os sentidos, apara as arestas, coloca um band-aid na ferida.

Mas aquilo que amamos tem disposição para emergir das profundezas, romper os cadeados e assombrar de vez em quando.

Somos a soma de nossos afetos, e aquilo que nos tocou pode ser facilmente reativado por novos gatilhos – uma canção cala nossos sentidos; um cheiro nos paralisa lembrando alguém; um sabor nos remete à infância.

Assim também permanecemos memórias vivas na vida de nossos filhos, cônjuges, ex amores, amigos, irmãos.

E mesmo que o tempo nos leve daqui, seremos eternamente lembrados por aqueles que um dia nos amaram.”

Ubirajara Picanço | O que a Memória Ama, Fica Eterno | Fabíola Simões

Autora: Fabíola Simões, dentista e escritora, Criadora do blog “A Soma de todos os Afetos” (https://www.asomadetodosafetos.com/)e autora de 3 livros.

FOTO: Divulgação/rede social

Escrita do Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio no RS: experiências dos redatores de Ciências Humanas

O Governo do Estado do RS, através da Secretaria Estadual de Educação, realizou Consulta Pública do Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio durante os dias 30 de novembro e 14 de dezembro de 2020. Para chegar à finalização da escrita deste documento, que pode ser apreciado, criticado e receber contribuições de professores e professoras e da sociedade gaúcha, outros passos importantes foram dados, como o Processo de Escolha de Redatores do Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio.

No dia 21 de setembro de 2020, foi lançado edital de Transferência Temporária para Dedicação Exclusiva à Escrita do Currículo do Novo Ensino Médio do Estado do Rio Grande do Sul. Foram anunciados no dia 30 de outubro os professores e professoras selecionados: 36 professores, sendo 18 titulares e 18 suplentes, conforme a quantidade de vagas por componente curricular e área do conhecimento previstas no edital.

A partir de então, os professores e professoras selecionados/as passaram a vivenciar uma dinâmica que mesclou leitura, formação e atualização de conhecimentos do Novo Ensino Médio com a produção e escrita do Documento. Houveram dinâmicas de escrita pessoal, em duplas ou trios e por áreas de conhecimento.

O grupo de Ciências Humanas e suas tecnologias foi composto pelos educadores/as: Eloenes Silva, Claudionei Vicente Cassol, Cristina Schneider, Giseli Vecchetti e Nei Alberto Pies. Estes professores e professoras, nesta matéria, relatam suas expectativas, suas experiências e suas aprendizagens pessoais e coletivas decorrentes de sua participação na Escrita do Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio.

Seus depoimentos e reflexões retratam o processo intrínseco do desafio pessoal e coletivo da escrita do Referencial, bem como apontam algumas análises da complexa realidade em que se encontra a implantação do Novo Ensino Médio no RS e no Brasil.

***

Um time de professores e professoras engajados/as

“A escolha por me inscrever e concorrer a uma vaga como redatora do Referencial Gaúcho Curricular do RS se deu pela vontade de contribuir ainda mais com a educação e os processos do nosso estado. Ser selecionada foi para mim motivo de muito orgulho, afinal, muitos outros passaram pelo processo, que passou por uma entrevista, com perguntas chaves sobre o olhar sobre a educação, minha prática em sala de aula e a produção acadêmica, além de um grande desafio de elaborar um projeto e enviar nas duas horas seguintes a entrevista, revelando ali que a escrita do referencial precisaria de jogo de cintura quanto aos horários, disponibilidade, agilidade e boas práticas.

O time das humanas sem dúvida foi uma grata surpresa, pessoas com pensamentos distintos, mas muito capacitados, uma troca sensacional, com muito debate, boas risadas, muitas horas de reuniões e alinhamentos, alguns sufocos, algumas leituras de comentários que causaram revolta ao grupo, mas muita humildade para compreender que sim, as demandas eram muitas e ouvir os outros colegas, ouvir a sociedade era essencial para acertar o rumo e tentar incluir o máximo de questões para esse Referencial que busca integrar a todos, analisar as múltiplas juventudes e incluí-las.

É claro que a escrita não começou do zero, muitos caminhos já haviam sido trilhados, muitas pessoas já haviam contribuído e respeitar esse caminho que iniciou com a BNCC e todas as pesquisas e debates realizados pela SEDUC-RS com professores e comunidade escolar das Escolas Piloto. Era, ao mesmo tempo um grande desafio, pois nos limitava em muitos pontos, mas uma tranquilidade de por onde caminhar.

O apoio da Secretaria de Educação e do nosso coordenador Anderson foram essenciais para esta escrita ocorresse da forma que foi e no tempo em que ocorreu (cerca de dois meses de trabalho). Vale ressaltar que sabemos que isso nos impôs limites, até mesmo no pensar mais temáticas, na forma de colocar, na possibilidade de maiores releituras sobre as temáticas e os desafios do Ensino Médio hoje.

O time composto por 18 professores se mostrou um belo exemplo do potencial da educação do RS, com pessoas altamente qualificadas, professores humanos e que buscam o melhor para o ensino médio. Todos muito engajados e participativos, e a parte final de correções e formatações mostrou que todos vestiram a camisa para valer, foi um sufoco, muitas horas de trabalho, algumas horas de atraso, mas no fim o Referencial escrito, formatado e unido entregue ao Conselho Estadual de Educação.

Sem dúvidas, a entrega ao Conselho Estadual de Educação, no dia 18 de dezembro de 2020, foi um misto de alegria por ter vencido, de cansaço pelas longas horas de trabalho, mas de orgulho de ter feito parte desse projeto que nos enriqueceu muito com maior domínio da legislação sobre educação, sobre os desafios que viram, mas a certeza que tudo está sendo pensado para melhorias, para maior integração e maior aprendizado dos nossos jovens.

Que venham novas etapas, novos desafios e uma educação mais plural, integradora e que leve em respeito às diferenças, com mais diálogo entre professores e alunos para um ensino de melhor qualidade e maior abrangência.

(Redatora Giseli Veccetti) gi_giseliv@yahoo.com.br

***

Uma experiência rica e desafiante

Quando chegou a notícia de que haveria uma seleção para redatores do Referencial Curricular do Novo Ensino Médio no RS, confesso que, logo, não me atraiu muito. Depois de certa insistência de uma pessoa que considero muito, a pedagoga e escritora Gládis Pedersen, comecei a refletir. Ela, sim, eu considero uma grande referência de conhecimento do Ensino Religioso, de sua legislação e das nuances do pensar contemporâneo sobre este componente curricular.

Passou um dia. Resolvi conhecer o edital e, como já era o último dia de inscrições, fiz minha inscrição para a seleção de redatores. Não alimentei nenhuma grande expectativa com possibilidades de ser escolhido, mas aguardei o processo.

Quando marcaram a entrevista, pensei comigo: “vou com aquilo que sou e que sei. Se a minha modesta experiência de escritas e de conhecimentos sobre educação e ensino religioso forem úteis, então que sejam”. A entrevista foi uma grande experiência. Durou em torno de duas horas. Achei muito legal e interessante ser inquirido sobre meus conhecimentos e minhas práticas por uma senhora que, de cara, demonstrou empatia e muito conhecimento. A tensão maior foi construir um breve plano de ação, com uma tarefa de aula interdisciplinar, em pouco tempo.

Quando chegou a notícia da aprovação, fiquei estupefato, feliz e atordoado. Afinal, precisava me desligar e desprender do meu serviço de orientação educacional na escola, mesmo que em tempos de pandemia.

A formação que tivemos, no início do nosso trabalho, foi importante, mas sempre parecia insuficiente para dominarmos códigos, referências e conceitos já afirmados pela BNCC e por outros documentos que embasam o Novo Ensino Médio. O entrosamento com os colegas para as primeiras escritas coletivas foi um grande desafio. Aos poucos, fomos nos soltando e conhecendo os colegas redatores e redatoras da área de conhecimentos Ciências Humanas Sociais e Aplicadas.

Constituímos um belo grupo de trabalho, com diferentes personalidades e habilidades. Nos complementamos para a nossa tarefa maior: escrever os fundamentos, a metodologia e os conteúdos e contextos para orientar a implementação do Novo Ensino Médio no RS. Está sendo maravilhoso crescer como grupo, liberar, aos poucos, nossos conceitos e ideologias e, divergir, com respeito e consideração aos outros. Afinal, cada um e cada uma dos redatores e redatoras já tem uma bela história de vida e de estudos, em busca de aperfeiçoamento pessoal e profissional.

Duas coisas me realizam nesta atividade de redator do Referencial Curricular do Novo Ensino Médio do RS: a possibilidade de incorporar os conhecimentos e os objetivos do Ensino Religioso para uma formação integral, também no Ensino Médio, e a construção coletiva de textos, onde fazemos autoria e construção de conhecimentos de forma compartilhada.  

Espero, sinceramente, que as nossas melhores intenções de escrita ajudem a promover uma educação de qualidade social no Novo Ensino Médio. E que inspirem as mudanças na educação, para favorecermos o protagonismo e os sonhos que os jovens desejam sonhar e concretizar neste nosso momento histórico.

Nei Alberto Pies pies.neialberto@gmail.com

***

Que experiência maravilhosa vem sendo esta!

No ano de 2019, tive a grata surpresa de ser convidada para atuar como multiplicadora do Referencial Curricular Gaúcho (RCG) do Ensino Fundamental. Já havia tido contato nos anos anteriores com as consultas públicas, leituras, formações sobre a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), mas o fato de poder me aprofundar mais naquele ano no assunto, debatê-lo e, além disso, auxiliar na divulgação RCG do Ensino Fundamental junto aos demais colegas professores.

Foi uma experiência muito enriquecedora e gratificante, tanto que já naquele período busquei me informar como poderia ser mais atuante no RCG do Ensino Médio que eu saberia que viria. Não consegui as informações no momento, mas fiquei aguardando.

Até que em setembro passado (ano 2020), vi o edital sobre a seleção de redatores para o RCG do Ensino Médio. Me inscrevi, pois penso que se queremos mudanças, devemos agir, atuar para conquistá-las. Mas jamais pensei que seria selecionada. Afinal, o nosso estado é rico em professores com muita capacidade para tal. Para minha surpresa, fui selecionada pra entrevista. E para a surpresa final, fui selecionada como redatora da Geografia. Era muita responsabilidade.

Na primeira reunião com todos os redatores, de todos os componentes curriculares, uma apresentação em Power Point sobre todas as tarefas que teríamos que executar a cada dia. Fiquei em choque: era muita coisa. E desabafei na hora para meus colegas: estou apavorada! Poderia ter desistido, mas não é do meu feitio. Resolvi encarar.

NÃO PODIA TER FEITO ESCOLHA MELHOR! Que experiência maravilhosa vem sendo esta! Que pessoas e profissionais maravilhosos conheci! As reuniões (todas infelizmente por Meet), são excelentes! Anderson, do CONSED, que paciência infinita conosco!

Meus colegas da Área de Humanas então, o que dizer sobre eles? O que já disse uma vez em reunião: gostaria muito de ser aluna de vocês!

É puxado? É.

Temos que fazer muita coisa em espaços curtos de tempo? Sim.

Viramos noites trabalhando? Quantas.

Nos cobramos o tempo todo, com medo de estar fazendo algo errado? Sempre.

Estamos fazendo nosso melhor? Com certeza.

Estamos fazendo nosso melhor, nos doando (refletindo, debatendo, estudando, analisando,…) pelos nossos(as) alunos(as), pelos nossos(as) professores(as), pela nossa Educação no nosso estado. Quem ler esse depoimento, pode ter certeza, que a cada palavra que digitamos nos documentos, a cada reunião que fazemos, sempre vocês – estudantes e professores(as) – estão em primeiro lugar!

Cristina Schneider

***

Compromisso com meu fazer pedagógico

Como Professor da rede estadual do Rio Grande do Sul há 26 anos, aceitei o desafio para pensar a educação básica e especificamente o ensino médio no horizonte do conhecimento para todos e todas, da ciência, da emancipação; assumi a urgência de debater nosso ensino e suas metodologias a partir das juventudes, de suas demandas e de seus contextos.

A vida, a existência dos indivíduos, a sociedade e a solidariedade, bem como a excelência intelectual e sentimental passam pelo protagonismo das/dos professoras/es, de cada indivíduo que vê a escola com desejo de saber.

Me senti comprometido e diretamente implicado em meu fazer pedagógico e com as juventudes, com os rumos e implicações da educação e, especificamente, do ensino e me envolvi nesse grande diálogo que pode salvar indivíduos e a sociedade. Mas que, para isso precisa estar consciente de que, conforme dados do PNAD (2015), somente 61% das juventudes brasileiras e 59% das juventudes gaúchas, concluem o EM; 12%, no Brasil, e 14%, no RS, deveriam estar cursando o EM e estão fora da escola; 24% das juventudes do EM, matriculadas no RS, trabalham durante o dia, enquanto 17% na média brasileira. Daquelas juventudes que não estão na escola, 44% estão trabalhando, no RS, e 33%, na média brasileira. Não bastasse isso, é preciso ainda compreender que 20,1% das juventudes do EM enfrenta a reprovação em escolas públicas, enquanto, apenas 5,1%, na rede privada (INEP, 2018). Mas é preciso pensar, também, que a rede pública acolhe 88% das juventudes das classes trabalhadoras, como explica a Professora Dra. Jaqueline Moll (https://fb.watch/2j1x5pHrJH/ )

As realidades nos fazem pensar, comprometem e impulsionam reflexões e ações. O compromisso ético-político e pedagógico com a educação e, especialmente, a escola básica da rede pública do Rio Grande do Sul, me move para contribuir nas instâncias disponíveis e desenvolver lutas para conquistar novos espaços de colaboração sem abandonar as convicções e o objetivo da qualificada escola pública que acolha a todas e todos com ensino satisfatório e realização pessoal.

Compreendo que o compromisso com a educação não elimina os tensionamentos; antes, tem condições de expor as divergências, as pluralidades e diversidades do debate, das compreensões e, nesse campo, promover o diálogo que faz crescer, aponta limitações, dificuldades, ingerências e, desse modo, visualiza possibilidades propositivas.

Outro problema histórico que tem afetado as construções democráticas no mundo da educação, é referente ao descaso com que professoras/es tratadas/os: mal compreendidas/os, incompreendidas/as, não recebem o reconhecimento merecido e, parecem, inclusive, não serem reconhecidos/as como agentes do Estado; não são incorporadas/os, envolvidas/as, nas processualidades que lhe são próprias. Desse modo uma categoria indispensável na construção social, sofre com a desprofissionalização pois é retirada do seu lugar. É tomada, em contrapartida, da desesperança e do desencantamento. Isso acontece sempre que a discussão educacional, pedagógica, do ensino, se processa distante dos quadros docentes e é delegada a alguns/algumas poucos/as especialistas, experts, como denuncia fartamente, Gaudêncio Frigotto.

A lógica do afastamento docente da centralidade dos debates que envolvem a educação afeta também a formação continuada e a democracia no pensar e decidir sobre os assuntos do ensino. A/O Professora/or perde protagonismo que, neste horizonte, é cidadania, emancipação. Ainda que paire uma concepção paternalista que delega, outorga, na sociedade, a educação precisa aprender novas lições e, o Ensino Médio, inclusive, de uma alfabetização com sentido dialógico, científico e relevante centralidade.

O EM não pode se contentar em ser uma etapa de transição, pois grande parte das juventudes, lamentavelmente, não seguem seus estudos. O grande aprendizado que escapa ao EM e, por isso, sua frequência à sala de recuperações, é se assumir como etapa importante, central, dos processos de ensino. Uma etapa em si, não quer dizer, isolada, mas interrelacionada, especialmente, com as demandas das juventudes para compreender e enfrentar o mundo do trabalho. Isso implica não submissão ao mercado do trabalho e às precarizações decorrentes dos projetos neoliberais. Então surgem as juventudes do Ensino Médio que são caladas pelas estruturas do sistema e imposituras burocráticas.

As vozes precisam ecoar, as demandas expressas, ouvidas e atendidas; as Professoras e os Professores, também. A comunidade, célula do Estado, precisa gritar e instituir canas efetivos, fóruns permanentes de diálogo. É preciso formar cidadãos e cidadãs para que a cidadania aconteça. E desse modo, assumir espaços, assumir a condição de profissionalização, de emancipação, pelos canais pedagógico, político, científico e afetivo.

Professoras e Professores se constituem nos processos, e processos são fronteiras de conhecimento, de autoconhecimento e de possibilidades. Constituir, então, implica consciência de si, do outro/a, do mundo, da contingência/ambivalência e da pluralidade. Me vejo nisso enquanto redator do RCG: uma espécie de Professor que precisa aprender junto com o EM, precisa recuperar junto; mas uma recuperação que opere pedagogicamente para salvar o EM, a escola pública e a educação”.

Autor: Claudionei Vicente Cassol, cassol.cv@gmail.com

***

A redação do Referencial Curricular Gaúcho como experiência micropolítica de construção coletiva

Acredito que a redação coletiva para a elaboração do Referencial Curricular Gaúcho para o Novo Ensino Médio, principalmente junto ao grupo selecionado para a Área de Conhecimento das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas (CHSA), proporcionou outros modos de escrever e de pensar, possibilitou reinvenções e reorientações, indicando outros caminhos para sentir e atuar sobre si, os outros e o mundo.

Uma experiência de reflexão, como um aprendizado de olhar-se no espelho do Eu. Colocar-se na perspectiva de um professor-escritor colaborativo, integrar um grupo cuja construção deve ser conjunta, permitiu percorrer esses locais maleáveis da vida, aventurar-se na fronteira entre a familiaridade das próprias ideias e a experiência do estranhamento.

Nessas poucas linhas, a partir de uma narrativa em primeira pessoa, relato inicialmente como a produção da escrita e do pensamento realizados de forma conjunta possibilitaram experiências individuais. Posteriormente, a segunda experiência destacada descreve minhas impressões a respeito do caráter coletivo do processo de redação. Para tanto, o texto se posiciona a partir de uma perspectiva micropolítica, buscando desterritorializar a discussão a fim de adotar ações plurais e pensar de forma militante o campo da Educação.

A ideia de “experiência” é utilizada aqui a partir de autores como Jorge Larrosa (2002) e sua concepção de experiência como tudo aquilo que atinge nossos sentidos; de John Dewey (1971), para quem a experiência é vital e singular; e, ainda, Donald Winnicott (1972) e sua definição de “experiência cultural” como um espaço potencial, espaço de transição que se abre entre o “Eu” e o “Outro”. Pensadores ligados ao campo da educação que permitem aumentar nossa percepção à determinados acontecimentos que são marcados por atravessamentos, mudanças e afetos, provocando deslocamentos de nós mesmos. Acontecimentos que nos jogam fora do espaço e do tempo comum em que estamos habituados, instigando outras formas de pensar e agir com os outros e com o mundo. Na experiência da alteridade, da discussão coletiva e do diálogo construído conjuntamente, residem as alternativas para outros formatos de Educação.

A primeira experiência foi aquela vivida de forma individual, mas não individualizante, pois se esta remete ao formato do escritor solitário, sem comunicação coletiva, a primeira é marcada pela condição dos contatos, da integração entre os indivíduos de um mesmo grupo.

No início do processo, porém, percebi minha hesitação em rascunhar palavras e frases em frente aos colegas participantes. A condição de trabalhar conjuntamente em um documento digital foi um tanto desafiadora. O termo ato da escrita que compreende a composição do espaço literário, esplendidamente descrito por Maurice Blanchot (2011), reconfigurava outros ambientes para a criação coletiva. A possibilidade de outros formatos para pensar e escrever foi uma das primeiras experiências de estranhamento durante o processo de redação. Ao mesmo tempo em que se perdia o domínio do próprio texto individual, construíam-se vigorosas ideias, fruições compartilhadas em um espaço e tempo imaginativo a partir das conjunções elaboradas pelo grupo de redatores.

O debate durante as reuniões, realizado para a aceitação e/ou rejeição de propostas escritas e de ideias expostas, causou-me desconfortos, já que é possível assumir como pessoais as críticas e sugestões gerais dentro de um processo de construção colaborativa.

O exercício de aceitação, de consentimento, jogou-me em reflexões constantes ao final das reuniões. Os territórios da elaboração conjunta nem sempre são sólidos, e, do mesmo modo que possibilitam forjar outras subjetividades, provocam colisões em nossa constituição de si. É como manter-se em equilíbrio, movimentando-se continuamente durante uma prática de malabarismo. Embora os termos “malabarismo” e “equilíbrio” encontrem alguma sinonímia, enquanto o primeiro busca sensações, o segundo parece procurar sensatez.

A segunda experiência transitou da reflexão individual para o que se tornava cada vez mais significativo durante o processo de redação, pois esteve sempre alinhavada com pensamentos e desejos comuns. Aqui é preciso considerar que o exercício de construção coletiva desenvolvido pelo grupo da CHSA assumiu cada vez mais seu caráter político e ético em se tratando de Educação.

É evidente que as crises e os problemas que assolam a educação brasileira adquirem nuances regionais no estado do Rio Grande do Sul. São diferentes realidades, distintas regiões, suas territorialidades são múltiplas. A análise dos diagnósticos por regiões do RS possibilitou, ainda que de forma parcial, o conhecimento das distintas realidades e pluralidades em seus aspectos econômicos, sociais e culturais.

Movimentar-se no campo da educação a partir da elaboração de um currículo organizado de forma plural, autônoma e flexível é uma tarefa política constante para toda a comunidade atuante nas redes e unidades escolares, possibilitando contornar e problematizar de forma singular, os diferentes aspectos dessa crise.  

Tendo em vista essas questões, ouso afirmar que através das ações, dos exercícios coletivos e colaborativos, adentramos, como grupo de redatores, o âmbito da micropolítica. Adotar uma perspectiva micropolítica converge à produção de multiplicidades de ideias, de pensamentos, de objetivos, de afetos em comum. A micropolítica se distribui e opera de outro modo, não é segmentarizada espacial e socialmente, seja por meio de classes, instituições ou demais organizações sociais; não é centralizada ou unificada como os sistemas políticos modernos; e, nem mesmo é mobilizada a partir de oposições binárias como homem-mulher, como “os de cima e os de baixo”, etc. (DELEUZE & GUATTARI, 2012). Do ponto de vista da micropolítica, salientam os autores (2012), “uma sociedade se define por suas linhas de fuga, que sempre são moleculares. Sempre vaza ou foge alguma coisa que escapa às organizações binárias, ao aparelho de ressonância, à máquina de sobrecodificação[…]” (p. 103).

Atuar em níveis micropolíticos consiste em direcionarmos nossas forças não somente às “massas” ou ao combate do Estado e seus totalitarismos como em uma perspectiva macropolítica tradicional, mas, sim, atingir pluralidades, reconhecer diversidades. Investir em lutas diárias contra todos os tipos de fascismos, racismos, preconceitos, pois seu poder se encontra também no cotidiano, infiltra-se dentro de nós, subjetivando-nos.  As forças micropolíticas são aquelas que escapam entre as fendas do sistema, não em busca de decifrar os códigos que instituem poderes, saberes ou regras, mas sim para criar outros fluxos de vida, outras formas de existência cotidiana para o político. Essas pequenas revoluções, como escreve Félix Guattari (1985), pulsam e impulsionam as políticas de nossos desejos. Enxergar professores e professoras, alunos e alunos e as escolas como máquinas de desejo, potências micropolíticas de mudança, pois, como aponta o mesmo autor (1985), o desejo não é somente do indivíduo, mas de todo um campo social, visando subverter as ordens de poder dominantes.

A perspectiva micropolítica da construção coletiva permite reorientar nossos desejos para uma “educação menor”, como destaca Sílvio Gallo (2002). Uma educação menor possui múltiplas entradas, realiza-se pelos contatos cotidianos em sala de aula e nos demais espaços escolares, foge dos binarismos, experimenta outras linhas de fuga e aposta na possibilidade da diferença, permitindo-nos sermos revolucionários. Uma educação que utilize o desejo como produção da nossa potência. Uma educação que nos constitua como professores-militantes em territórios matizados pela diversidade étnica, social, cultural e econômica, pois como destaca Gallo (2002), a chave da ação militante do professor é “[…]sempre uma construção coletiva”, “[…]nunca é uma ação isolada” (p. 171).

Por fim, resta dizer que a prática do exercício da escrita conjunta possibilitou, além de vivenciar estranhamentos, entender e assumir a construção coletiva durante a redação do Referencial Curricular Gaúcho para o Novo Ensino Médio como uma experiência micropolítica. Ainda que a elaboração de um documento que oficializa a base referencial curricular para o estado do RS possa soar e ser visto como uma forma legalizada da intervenção do poder estatal, a experiência da redação colaborativa promoveu ações significativas pelas quais a educação deixa de ser um conceito abstrato, transformando-se em prática, cada vez mais constituída cotidianamente por meio de aspectos éticos, estéticos e políticos.

Autor: Eloenes Silva, eloenessilva@gmail.com




Referências

BLANCHOT, Maurice. O Espaço Literário. São Paulo : Editora Rocco, 2011

DELEUZE, Gilles; GUATTARI, Félix. Mil Platôs: capitalismo e esquizofrenia 2, vol. 3. Tradução: Aurélio Guerra Neto, Ana Lúcia de Oliveira, Lúcia Cláudia Leão e Suely Rolnik. São Paulo: Editora 34 ,2012 (2ª edição). 144 p. (Coleção TRANS)

DEWEY, John. Experiencia y educacion. Buenos Aires: Editorial Losada. S. A., 1971.

GALLO, Sílvio. Em Torno de Uma Educação Menor. Educação & Realidade. Porto Alegre, 27 (2), p. 169 -178, ju./dez. 2002.

GUATTARI, Félix. Revolução Molecular: Pulsações Políticas do Desejo. Seleção, prefácio e tradução: Suely Belinha Rolnik. São Paulo: Editora Brasiliense, 1985, 2ª edição. 

LARROSA – BONDIA, Jorge. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Revista Brasileira de Educação, Campinas, n. 19, p. 20-28, jan./fev./mar./abr., 2002.

WINNICOTT, Donald Woods. Realidad y Juego. Tradução de Floreal Mazia. 1. ed. Buenos Aires: Granica, 1972. 199 p. (Coleção Psicoteca Mayor).

Publicação atualizada e revisada em 05/02/2021

Vidas negras importam e inspiram lutas

Arthur Bispo é um militante social com atuação destacada na nossa cidade Passo Fundo. Em suas mais recentes atuações políticas, foi candidato a prefeito de nossa cidade e participou, ativamente, das manifestações contra o racismo e pela afirmação dos direitos e da identidade dos negros e negras a partir de nossa cidade, do Estado do RS, do Brasil e do mundo.

Bispo destaca-se pela clareza de suas ideias, pela serenidade e firmeza de suas ideias quando debate questões sociais. É um militante social forjado nas recentes lutas estudantis e sociais que aconteceram com protagonismo coletivo e social em nossa cidade. Atua, profissionalmente, como cobrador de ônibus da Empresa Codepas, em Passo Fundo, RS.

Nesta entrevista exclusiva ao site, Arthur Bispo fala de sua trajetória pessoal e social, fala de sua participação no pleito eleitoral de 2020 e fala do contexto do ano de 2020 com relação aos inúmeros “levantes” e manifestações da comunidade negra com relação ao combate ao racismo e a afirmação da identidade e história dos negros e negras.

***

SITE NEIPIES: Como, quando e porquê surgiu em você o desejo de mudar o mundo através da militância social?

Arthur Bispo: Não recordo o momento em si, mas foi no contexto da minha atuação no movimento estudantil universitário. Em menos de um mês no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas já participava de reuniões estudantis, o pessoal queria formar uma chapa para o Diretório Acadêmico América Latina Livre e eu estava lá só ouvindo, quando foram compor a nominata, faltou alguém que fosse da filosofia e uma companheira que era da UJS na época me convenceu. Não imaginava que aquela decisão teria um impacto tão grande em mim, nos semestres e anos seguintes nós sacudimos a UPF e fomos além dos muros da academia. Quando estoura a luta contra o aumento das passagens em maio e junho de 2013 já me identificava como comunista e havia iniciado a militância no trotskismo, ali foi um momento dessa virada talvez, fui levado pelos acontecimentos a ocupar um espaço político que não almejava e nem me considerava preparado. Erramos muito nesse caminho, mas remamos contra a corrente e cumprimos um papel importante nas lutas da juventude e no combate às opressões.

SITE NEIPIES: Conte-nos um pouco de sua trajetória pessoal e política.

Arthur Bispo: Sou natural de Passo Fundo e filho de trabalhadores, já morei em mais de uma dezena de bairros, nós sempre moramos de aluguel então nunca me fixei muito num lugar. Minha mãe é enfermeira e de uma família de migrantes negros do interior da Bahia, sempre batalhou muito por nós e enfrentou o racismo várias vezes, é a referência pra mim e minha irmã. Havia trancado a faculdade de Filosofia anos atrás e retomei recentemente incentivado pela minha companheira Ana Vitória, é difícil conciliar tudo, mas ninguém disse que seria fácil.

Por muitos anos minha militância foi estritamente estudantil a partir do DAALL no IFCH que, literalmente, mobilizava mais estudantes que qualquer organização da UPF. Fiz parte da direção da Associação Brasileira de Estudantes de Filosofia onde conheci muitas regiões do país e organizamos o Coletivo Nada Será Como Antes que atuou como oposição ao DCE da UPF nas gestões ligadas ao Democratas e depois as do PCdoB.

Nesse meio tempo, tive muito contato com alguns sindicatos e partidos de esquerda. O PCdoB deve ter percebido que eu era trotskista antes de mim, pois questionava muito a militância deles e todo adesismo acrítico às políticas do PT na educação. Participava do Comitê Fora Yeda articulado pelo CPERS, dali discuti com várias das correntes do PSOL – quando o Plínio de Arruda Sampaio concorreu à presidência todos nós que atuávamos juntos fizemos até campanha – mas nas discussões ficava muito frustrado, parecia contraditório um partido socialista que parecia estar numa guerra pública entre si permanente e ninguém me convencia de que aquilo seria passageiro, tanto que segue assim até hoje.

Quando bati na porta do PSTU em 2012, foi tudo muito rápido, percebi logo que tinha que estudar mais o marxismo e que seria muito cobrado. Assumi a responsabilidade de reconstruir a juventude do partido e assim foi, na época, a luta LGBT estava explodindo em Passo Fundo com o Plural e nos pressionava a aprofundar o debate da luta contra a opressão e a exploração. De lá pra cá, houve um salto grande na minha convicção sobre a necessidade da revolução e de um partido de militantes que estejam minimamente preparados para esse momento.

SITE NEIPIES: 2020 foi um ano atípico. Para além do evento Pandemia do novo Coronavírus, que outros desafios foram enfrentados neste ano pelo conjunto dos trabalhadores brasileiros?

Arthur Bispo: Vai ser difícil falar de 2020 sem citarmos a pandemia (estou com a doença nesse momento) e todas as ações absurdas dos governos no nosso país. Essa crise sanitária, combinada com a crise do capitalismo que já se expressava fortemente sobre nós, piorou ainda mais a situação. O grande capital só pensa e age para manter seus lucros, foi assim que cortaram direitos trabalhistas e previdenciários. Nem mesmo os precarizados aguentam essa situação e foram à luta na greve dos aplicativos. Porém, 2020 também foi o ano em que o levante negro repercutiu no mundo, é cruel demais vermos que o genocídio da juventude negra não cessou nem mesmo em meio à pandemia. Desde 2013, em muitos momentos nos levantamos no Brasil contra o racismo e os assassinatos, quantos Amarildos, Claúdias e DGs foram tirados de suas famílias pela violência da criminalidade ou da polícia nesses anos? Os casos do Gustavo Amaral e, especialmente, do João Alberto foram apenas o estopim mais recente que tornou-se conhecido, a semelhança com o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos é simbólica de como o racismo e o capitalismo seguem muito presentes no mundo.

SITE NEIPIES: Qual é sua avaliação da política no atual momento histórico?

Arthur Bispo: Estamos numa conjuntura defensiva da classe trabalhadora, mesmo que a situação seja de muita instabilidade no andar de cima. A esquerda institucional tem encarado a ascensão do bolsonarismo de forma muito superficial e sem reconhecer que a conciliação de classes com partidos burgueses por anos e anos nos governos do PT fortaleceram esses setores que estão no poder. Bolsonaro e todos associados a ele ou às suas políticas não merecem ter trégua alguma, são mais de 185 mil mortos no país e a maioria são de trabalhadores, negros, indígenas e pobres. Nosso desafio é destravar a luta nas ruas, para isso precisamos batalhar por um plano emergencial de vacinação para todos e colocar os interesses de classe trabalhadora acima das diferenças políticas da esquerda, construir a frente única pra lutar é difícil, mas é o único caminho. Quem aposta todas as fichas nas eleições burguesas em 2022 está iludindo-se ou, deliberadamente, iludindo a todos ao seu redor.

SITE NEIPIES: Participas de grupos de discussão e organização de questões étnicas e raciais. Qual é a importância destes grupos para a organização das minorias?

Arthur Bispo: Não somos “minoria” e é importante frisar isso. Toda forma de discriminação tenta deslegitimar o combate às opressões dando a entender que é uma minoria social que estaria tentando suplantar uma maioria, não é assim. Milito do Movimento Nacional Quilombo Raça e Classe, um movimento que retoma às origens da concepção que criou o Movimento Negro Unificado, onde a luta contra o racismo deve ser travada numa perspectiva de raça e de classe, junto aos trabalhadores e trabalhadoras negros e não negros. Na ação direta por Justiça para Gustavo Amaral e João Alberto forjamos um fórum antirracista “Vidas Negras Importam” que tem potencializado o debate em Passo Fundo. Além disso, tenho muito orgulho de ter estado junto com dezenas de ativistas LGBTs que possuem o Plural como referência, aprendi muito com todas e levo isso para qualquer debate sobre opressões.

No PSTU temos uma estrutura de secretarias que pautam junto com os organismos do partido o tema das opressões. Faço parte da equipe da Secretaria Estadual de Negras e Negros do Rio Grande do Sul, tem sido uma forma muito importante para o fortalecimento político da nossa coluna de militantes negros.

SITE NEIPIES: Como foi a sua primeira experiência como candidato a prefeito de nossa cidade, pelo partido do qual és militante, o PSTU?

Arthur Bispo: Foi um desafio que aceitei com certa contrariedade, uma semana depois era o mais animado com a ideia, a parceria com a professora Marli também me deu mais segurança. Nosso objetivo era propagandear o programa socialista e denunciar o regime capitalista, fomos bem nesse sentido, mesmo com todas as restrições impostas pela lei eleitoral. Muitos elogiaram nossas participações nos debates, eram oportunidades para expormos nossas diferenças e onde predominavam uns diálogos sofríveis entre os demais, criei em alguns momentos uma certa expectativa de que nossos adversários poderiam romper com o discurso pronto e falar à sério, mas não foi assim.

Fiquei três meses dedicado exclusivamente a pensar e discutir os problemas de Passo Fundo, isso me permitiu ter contato com muitas pessoas oprimidas e exploradas que vivem em condições indignas nos bairros e nas ocupações. Por mais que tenhamos um programa que expressa suas necessidades, foi impactante vivenciar com tantas trabalhadoras e trabalhadores que reivindicavam nossas ideias como suas, mesmo conscientes das nossas poucas possibilidades eleitorais. Saímos fortalecidos politicamente, com muitas novas parcerias com quem pensa como nós, como no movimento indígena, e com muitas pessoas nos ouvindo com mais seriedade as ideias socialistas. Sabemos que quem nos atacou nas redes são os fanáticos bolsonaristas que tiveram vários motivos para tal, somos aqueles que levaram o Fora Bolsonaro e Mourão para todas as nossas aparições na campanha e com muito orgulho disso.

SITE NEIPIES: Qual é a importância da política na vida de cada cidadão e na afirmação dos direitos de cada um e de todos nós?

Arthur Bispo: A política perpassa a tudo e a todos. Mas a consciência dominante é a consciência da classe dominante, mesmo que a burguesia seja a extrema minoria de milionários desse país. A única forma de virarmos a mesa é ganhando mais e mais trabalhadores que lutam pelos seus interesses de classe a compreenderem que isso é fazer política, a mais importante delas, forjada no calor da ação direta nas ruas. O capital, os burgueses, os patrões são muito organizados para nos retirar direitos e possuem dezenas de partidos para tal. A classe trabalhadora não pode apenas improvisar, temos de nos fortalecer, fortalecer nossas organizações e estar dispostos a elevar a luta concreta como prioridade para transformar radicalmente o mundo.

SITE NEIPIES: “Vidas negras importam”. Por que?

Arthur Bispo: Porque foi ao custo de milhões de vidas negras que o Brasil foi construído, temos tanto direito quanto qualquer outra pessoa a viver dignamente sem nenhuma forma de opressão. O racismo é uma ideologia que submete mais da metade da população brasileira, divide racialmente a classe trabalhadora e perpetua um sistema político baseado na exploração do homem pelo homem. O Estado brasileiro é historicamente racista e nenhum governo de plantão vai mudar isso, a revolução no Brasil será negra ou não será.

SITE NEIPIES: Na tua avaliação, o que acontece no Brasil e no mundo e que ainda revela tanto ódio, preconceito, discriminação e racismo?

Arthur Bispo: Segundo a Oxfam, o Brasil tem 42 bilionários que, juntos, tiveram suas fortunas aumentadas em US$ 34 bilhões. O patrimônio líquido deles subiu de US$ 123,1 bilhões em março para R$ 157,1 bilhões em julho. O imperialismo, fase superior do capitalismo, demonstrou nessa crise mundial devido à pandemia que não tem nenhuma intenção humanitária em resolver os problemas do mundo. A podridão desse sistema político e econômico necessidade do racismo, mas também do machismo, da lgbtfobia e da xenofobia para dividir os explorados e manter-se no poder. É impossível compreender tamanha discriminação sem relacionarmos com os fatos concretos, enquanto nós morremos de coronavírus e pela violência racista em 2020, a burguesia lucrou e muito.

SITE NEIPIES: Por que o racismo estrutural ainda é tão preponderante em nossa sociedade e quais são as saídas para sua superação?

Arthur Bispo: O Brasil não acertou as contas com o seu passado, nossa história é marcada pelo genocídio indígena e pela escravização de povos africanos. Muitos que negam o racismo afirmam que aqui todos são respeitados e que a miscigenação das raças seria resultado disso. Apesar de mais de 60% dos escravizados trazidos para as Américas terem sido homens, as análises genéticas apontam que uma grande parte dos genes de descendência africana vêm das mulheres vítimas de estupro pelos senhores brancos. A ideia de que vivemos numa democracia racial é apenas um mito criada por Giberto Freyre em Casa Grande Senzala, utilizada até os nossos dias para reprimir a afirmação da consciência racial negra de milhões de brasileiros.

Já dizia Malcom X, “não existe capitalismo sem racismo”. Precisamos que negros e negras da classe trabalhadora afirmem cada vez mais a sua consciência negra e de classe, somos a maioria e precisamos tomar o futuro nas nossas mãos, nada cairá do céu. Se para abolirem a escravidão foram necessárias milhares de rebeliões negras e quilombolas no passado, para dar um fim no racismo precisamos combate-lo desde já para termos forças para destruir o capitalismo e forjar uma nova sociedade onde o tom da pele, a identidade de gênero ou a orientação sexual não sejam motivos para a discriminação.

SITE NEIPIES: Uma frase, um pensamento ou uma ideia que inspira tua vida.

Arthur Bispo: “Não acreditamos que a melhor forma de combater o fogo seja com fogo; a melhor forma de combater o fogo é com água. Vamos combater o racismo não com racismo, mas com solidariedade. Dizemos que não vamos lutar contra o capitalismo com capitalismo negro, vamos vencer ele com socialismo. Vamos combater porcos reacionários e procuradores reacionários com todos nós nos unindo e fazendo uma revolução proletária internacional.” (Fred Hampton (Pantera Negra assassinado pela polícia de Chicago/EUA em 1969)

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos militantes sociais que como tu atuam socialmente por um mundo melhor?

Arthur Bispo: Não foi um ano normal para quem tem consciência política de que vivemos uma barbárie cotidiana. Espero que nós tenhamos saúde até que todos e todas estejam vacinados, sigamos vigilantes com a nossa segurança até lá.  Que possamos encher as ruas de Passo Fundo e do mundo em 2021 para afirmar a necessidade de um mundo sem opressão nem exploração, sigamos os passos da juventude chilena, o futuro nos pertence.

A solidariedade e o Natal 2020

 Isabela Camini1

Quando tu mesma, um dia, perguntares diante
de uma criança morta de fome ou de um velho 
abandonado feito trapo, pelas ruas:
“Que fizeste papai?” – poderei responder-te, se estiver vivo:  
“Clamei por toda parte. Agitei, sacudi, dei tudo que tinha de mais caro:
a mocidade, o sossego,  o ócio, os bens materiais e a liberdade,
para ajudar a abolir essa servidão”. Mas, se estiver morto,  
esta carta será a minha resposta à tua pergunta.
Por isso, Isabela, vou te falar agora daquilo que  
busco ser: compreenderás então o meu radicalismo.
E por que vim para o cárcere
(Francisco  Julião, 47)2.  



Meus caros, esta carta se pretende portadora de esperança, ainda que venha, a princípio, denunciar uma realidade dramática, apresentada por Julio Berdegué3e Frei Betto4, conhecedores da avassaladora questão da fome, que ronda o mundo, provocada pela desigualdade econômica e social e agravada sistematicamente pela Pandemia. Sem dúvida, estamos unidos a eles nesta denúncia, porque como nos diz Leonardo Boff, “atrás destes números se esconde uma via-sacra de sofrimento de milhões de pessoas, maridos, esposas, filhos, filhas, parentes, amigos e conhecidos. Somos, atualmente, uma humanidade crucificada. E devemos baixá-la da cruz  e ressuscitá-la”5. 

Contudo, esta carta quer ser anunciadora de gestos de solidariedade capazes de mover o mundo, alcançando uma população sedenta de justiça e de esperança. A carta-testamento de Francisco Julião, escrita no cárcere, à filha, Isabela, é testemunha de que precisamos clamar, agitar, sacudir, dar tudo de si para resolver,  de vez, a fome no mundo, porque ela degrada e machuca a criatura humana. Como poderemos dormir, sabendo  que tem crianças com fome?  

Provavelmente o Natal de 2020 marcará profundamente há milhões de pessoas no mundo inteiro. Algumas, porque têm exageros à sua mesa, e acumulam desenfreadas riquezas, alimentadas pelo consumismo e falsa segurança. Se lhes resta algum fio de humanidade, terão de se envergonhar e pedir perdão. Outras mais, porque nada tem, e podem morrer da doença chamada – fome, cujo único tratamento é comida na mesa.

 Seja como for, o Natal é a celebração de vida nova anunciada há dois mil anos. A Pandemia que alcançou hemisférios deferentes, alertando-nos a redobrar os cuidados, afetou os mais pobres, ceifando vidas  prematuras, e deixando outras vidas em sofrimento e desolação. Por isso, não creio que este Natal de 2020 deva ser de festas desmedias e ostentação de vestes novas e troca de presentes. Talvez o farão deste modo, aquelas pessoas, que veem no Natal a oportunidade de comércio e de lucros, sem se importar com as milhares  de vidas perdidas e os rastros de luto que ficaram. 

Sim, o Natal de 2020 marcará, de modo especial, aos que tem um coração generoso para doar alimentos e esperança, e aos que tem fome de pão e de justiça, e poderão saciar a fome de pão, pelo menos no dia em que a vida se renova. Para estes, será um Natal diferente, regado pela solidariedade, e amor à humanidade. Um Natal a não ser esquecido, porque o período dramático causado pelos problemas sociais, aprofundados pela Pandemia, terá que ser lembrado nos atos de resistência e lutas sociais, até o dia em que possamos cantar a liberdade, junto com os oprimidos. Esse eco deverá alcançar os corredores dos palácios e dos condomínios,  cercados por arames farpados, muros e seguranças humanas, que guardam aqueles/as cujo medo dos pobres  os coloca também em uma prisão, cerceados de liberdade.  

Ainda que a Pandemia tenha assustado o mundo, já havia milhares de pessoas mergulhadas na pura indiferença, no negacionismo, ensaiando a cegueira para não ver a realidade, ostentando a fartura de bens, mas sem a beleza da gratidão. Estes não dormem e nem acordam com fome em nenhum dia do ano. 

Sua insensibilidade os impossibilita de perceber as pessoas vivendo na miséria, nas praças, com fome e frio, maltrapilhos. Ao percebê-los, de longe, lhes causa amargor, raiva, porque julgam: eles não querem trabalhar, são preguiçosos! Se possível, na primeira oportunidade, alteram o trajeto, porque não os ver e negar-lhes um olhar, reafirma sua zona de conforto, Casa Comum dos indiferentes. Alterando o trajeto, adubam e regam essa indiferença, e a sua própria desumanidade. Se comportam deste modo, porque sua mesa é farta, embora não conheçam o significado do trabalho, seus palácios estão aparentemente protegidos. Por isso incapazes de olhar nos olhos daqueles cuja fome lhes dói todas as manhãs, tardes e noites, sentindo frio porque não têm agasalhos, não dormem, porque perseguidos pela polícia. Negados de ter casa, da convivência humana, de sentar-se à mesa, impossibilitados de ler o mundo e dizer a sua palavra.  

Os indiferentes se negam a admitir que a mãe terra, nas mãos de muitos trabalhadores, produz comida,  saúde, bem estar, realização e gratidão. Mas sabem eles, e admitem, que plantar em demasia, e fartar as plantas e as águas de venenos para produzir mais e exportar, é direito assegurado pelo capitalismo explorador. Por isso, não é razoável imaginarmos tantas criaturas com fome num país tão rico, e de pessoas ainda tão generosas. Não é razoável, admitir que a riqueza esteja concentrada nas mãos de menos de 10% de famílias brasileiras.  

Pois bem, disse acima, que essa missiva chegaria a vocês para anunciar, porque sabemos e conhecemos a fonte fecunda, que nos permite fazer esse anúncio. Por isso, não creio ser exageros dizer que o valor da solidariedade e da partilha estão na raiz, no embrião do MST. Quando as primeiras famílias decidiram enfrentar o latifúndio e ir acampar, para manter-se camponeses e cultivar a mãe terra, permanecendo debaixo das lonas em luta, até conquistar um assentamento, prometeram a si mesmas: arar, semear, cultivar, regar, colher, e partilhar os frutos que brotam da terra. 

E este princípio perpassa a luta dos Sem Terra, de uma geração para a outra, cruzando fronteiras, alcançando 24 estados do país. Por isso, hoje, estão indo ao encontro daqueles/as, cujo espaço onde vivem, não lhes permite cultivar sequer algum alimento. Suas moradias, pequenas e precárias dão conta apenas de viver entulhados, sem privacidade alguma, ausentes de dignidade. Vivendo nestas condições, não há como evitar a proliferação do Vírus, a violência, a morte e o luto que rodeia as periferias urbanas. Vendo-se distantes de possibilidades de trabalho e de lazer, com acesso a minguadas políticas públicas de saúde e educação, roubados de direitos e dignidade, afetados ainda mais pela Pandemia que demora passar, ficam à mercê do medo e da insegurança que atravessam suas noites. Seres humanos, invisibilizados, sujeitos a morrer de fome e de frio, de balas perdias, como vemos todos os dias. Quem os vê?  Quem os visita na prisão? 

Solidariedade é partilhar o melhor que temos em nossos assentamentos, alimentação saudável, comida de verdade6. 

O MST, lá da roça, vê essa realidade, ouve seu clamor e se comove. Não porque tem pena, mas porque  está do lado do pobre, com um coração que sangra todos os dias, com um estômago, cuja fome o esmaga e  humilha, levando-o à tristeza e degradação humana. Do lugar distante onde vivem, nos assentamentos e  acampamentos, ouvem seu apelo. Por isso renovam os princípios e valores de solidariedade que lhes deram origem há quatro décadas: conquistar a terra, arar, plantar, regar, admirar a lavoura, e depois, colher os frutos.  E porque a mãe terra não tem dono, mas é de quem nela trabalha e cultiva, os frutos são partilhados solidariamente com os que tem fome nas periferias das cidades. 

Há meses atrás soubemos que MST tomou uma decisão coletiva, de escolher e reservar um pedaço do lote para plantar uma diversidade de alimentos, destinados a doação para famílias carentes, no Natal. Sem dúvida, esta prática, portadora de dignidade humana, falará mais alto que muitas palavras, repetidas e  badaladas nas redes de comunicação social, de propriedade de famílias abastadas, da classe hegemônica. 

Sem dúvida, para estas mulheres e homens, o Natal começou a ser celebrado no momento exato desta decisão. Eles não se programam para doar as sobras, as migalhas que caem de suas mesas, ou esmolas, colocadas à parte, para fartar os mendigos de uma só fez, e despedi-los, rapidamente, de mãos vazias. Assentado da Reforma, Adilson testemunha que as doações feitas são de alimentos, sadios, orgânicos, coloridos, sem veneno, servidos a si mesmos, em suas próprias mesas. Estas pessoas podem celebrar e festejar o nascimento daquele que veio viver por 33 anos entre nós, para que todos tenham vida, e vida em abundância, todos os dias. Aquele que nos deu lições de vida, proferindo palavras que derrubou os poderosos de seus tronos, e exaltou os humildes. 

Gestos de solidariedade brotam das mãos de acampados, de assentados, da grande família Sem Terra. “A solidariedade, essa cadeia misteriosa e invencível que liga os homens entre si não conhece distância nem obstáculos”, nos disse Francisco Julião. 

Por isso, de forma planejada, algumas pessoas trabalham para colher e organizar a produção, outras, carregam as caixas nos caminhões. Os motoristas dirigem e circulam pelas periferias das cidades. Os jovens, com os protocolos de cuidado, entregam as cestas, marmitas e palavras de esperança, amenizando a tristeza da fome nos olhos dos humildes. E não esqueçamos. Enquanto pensam na melhor forma de celebrar o Natal, o Plano Nacional – plantar árvores e produzir alimentos saudáveis, continua seu curso.  Ao decidir plantar 100 milhões de árvores em 10 anos, o MST antecipa sua solidariedade com as crianças que ainda não nasceram. Obviamente, pensando nas novas gerações, é que se justifica plantar.

Diante do que vemos, é preciso nos perguntarmos: Porque o agronegócio, que desmata, que ostenta produção grandiosa, exportações em grande escola, não se propõe a fazer doações, já que seus lucros são exorbitantes? 

Não duvidamos de que seus próprios empregados/trabalhadores também estejam nas fileiras, à espera de uma cesta básica, que venha da pequena produção orgânica, sem venenos! Obviamente, os meios de comunicação social hegemônicos se negam a dar publicidade a gestos de solidariedade que venham deste povo. Se o fizessem, estariam contrariando a sua própria classe social, cuja Pandemia tem provocado entre eles, alguns gestos de assistencialismo relâmpago, despedindo os famintos em seguida, como se a fome fosse resolvida à luz dos holofotes de comunicação, e não retornasse no dia seguinte, e a cada dia novamente.  

Quanto a nós, se tivéssemos penas para escrever sobre os gestos de solidariedade, que trazem o diálogo do MST com o povo através do alimento, teríamos que iniciar o percurso pela nobre decisão de ocupar o latifúndio, pela escolha de roças específicas a serem plantadas, pela alegria das colheitas, e pelos atos de entregas às famílias carentes. Para tudo isso, nos faltaria folhas de papel. E se as tivéssemos, teríamos que juntar muitas penas para este registro. E depois, sentarmos, confortavelmente, para lermos o quanto de humanidade perpassa a solidariedade vinda de um Movimento organizado que luta por uma Reforma Agrária Popular há 36 anos. Uma luta que contraria e confronta diretamente o sistema capitalista, em crise, excludente e desumano.  

Sem dúvida, estes gestos de solidariedade foram aprendidos ainda nos acampamentos, quando eles mesmos recebiam doações, uma condição para continuarem acampados, com identidade camponesa. A gratidão e a solidariedade brotaram e germinaram na gênese do MST. 

Muito cedo, este Movimento entendeu que a solidariedade se faz nas lutas contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, terra e a casa para morar. Gestos de solidariedade que somente os pobres sabem seu gosto e profundo significado, porque orientados pelo Evangelho, pelo Papa Francisco, e por centenas de vidas Sem Terra, retiradas brutalmente de nosso convívio, pelo simples fato de estarem lutando pela terra partilhada, e por mesas fartas, de pão e de beleza, para toda a humanidade. 

Com abraço fraternal, Feliz Natal a quem doar. Feliz Natal a quem receber.  

Em outra publicação, já escrevemos: “com um olhar focado na atualidade, temos o Papa Francisco, cuja prática evangélica de solidariedade é viva e profundamente coerente, capaz de ser admirado também por alguns poderosos. Um Francisco, que reza sozinho na Basílica de Roma, emocionado, solidário com as famílias dos entes queridos do mundo inteiro, ceifados pela Pandemia”. Leia mais aqui.


1 Do Setor de Educação do MST.  

2JULIÃO, Francisco. Até Quarta, Isabela. Carta-Testamento (memórias, 1965). Petrópolis, Vozes, 1986.  

3 Na América Latina, não há fome por falta de alimentos, há fome por falta de renda e pela desigualdade econômica  sofrida por milhões de pessoas – Julio Berdegué, Vice-diretor-geral da FAO e representante regional para a América  Latina e o Caribe, desde 22 de abril de 2017. Revista IHU – ON-LINE, 21 de outubro de 2020 

4 Segundo a Oxfam, 12 mil pessoas podem morrer de fome a cada dia até o final de 2020. Frei Betto é Frade  dominicano, escritor, assessor da FAO e de movimentos sociais. Revista IHU – ON-LINE, 21 de outubro de 2020.  

5 BOFF. Leonardo. C0VID-19 – A Mãe Terra contra-ataca a humanidade: advertências da Pandemia. Petrópolis, Editora Vozes,  2020.

6 Adilson Apiaim, Educador e poeta, no MST/Piauí. Chat TV FONEC, dia 22/10/20 – Educação do Campo e Soberania. 

Um roteiro para professoras e professores neste Natal

Professores e professoras, de todas as redes de ensino, passaram boa parte do ano de 2020 planejando, construindo e enviando os melhores roteiros que conseguiram fazer, com a intenção de propiciar aprendizagens significativas para seus estudantes, através das plataformas digitais.

Foi um ano difícil, diferente, cheio de desafios, um ano que estivemos distantes dos estudantes e das famílias, mas conectados. 2020 foi também um ano de muitas aprendizagens e possibilidades que foram possíveis por meios eletrônicos, digitais e impressos aos estudantes, pais e mães, comunidades escolares e famílias.

Neste Natal, de professor para professor, como uma boa lembrança de seu trabalho remoto, professores e professoras recebem também eles este modesto roteiro pensado para que curtam e vivam, em família, um pouco do espírito do Natal.

Felicidades! Que esta festa luminosa e cheia de significados, ilumine as esperanças e renove os desejos de um mundo mais justo, fraterno e cheio de vida para todos.

TEXTO BASE

O Natal é da família

 Que é o Natal? É a ternura do passado, o valor do presente e a esperança do futuro. É o desejo mais sincero de que cada xícara se encha com bênçãos ricas e eternas, e de que cada caminho nos leve à paz. (Agnes Pharo)

A festa de Natal permite que revivamos os dramas, as alegrias, os encontros e os desencontros familiares. As festas natalinas e de final de ano são um convite para celebrar a mágica dos nascimentos e renascimentos de nossas vidas.

Quantas de nossas famílias, hoje, buscam um novo sentido e uma oportunidade para renovar os laços que as mantém ou as constituem? Quantos lares esperam que a celebração de mais um Natal harmonize as suas relações e renove as esperanças de que a vida pode ser melhor? Quantos filhos, pais e mães não desejariam renovar suas vidas, reinventando os seus papéis e as suas responsabilidades? Quantas coisas, num só Natal, em um único dia do ano.

 Vivemos num tempo em que a afirmação exagerada de nossas individualidades gera vazios existenciais muito grandes, levando à depressão, desgosto e desilusões. Não valorizamos como deveríamos a memória, a coletividade e a convivência.

Conta hoje sermos livres: sem vínculos com nada e com ninguém. Será que vale a pena acreditar nisso? Existe outro caminho?

As famílias são cobradas por uma responsabilidade que nem sempre, sozinhas, conseguem arcar. As relações na família, como na sociedade, estão fragilizadas, exigindo de cada um e cada uma de nós um maior zelo, cuidado e proteção de uns para com os outros. Por isso mesmo nossas famílias serão melhores na medida em que investirem mais tempo, mais amor e mais energia nas suas relações. A experiência das famílias é sempre comunitária, de compartilhamento de sabores e dissabores. As famílias estão desafiadas a fortalecer as relações de convivência por todos os que as compõem.

O Natal, com sua energia e inspiração, pode ser uma grande oportunidade de reconciliação das famílias. A família não é uma ideia e nem uma fórmula para a gente oferecer como solução para os problemas do ser humano e da humanidade, mas ainda revela-se o mais completo “porto seguro” e lugar de intensa convivência e humanização. A família é a maior referência para a vida pessoal e comunitária, portanto, lugar para a realização de nossa felicidade. O amor é a mais revolucionária das armas que a humanidade já construiu para gerar seres humanos livres, solidários, abertos, comprometidos com a permanente defesa e promoção da vida

O amor. precisa ser reinventado, assim como as formas como convivemos e nos promovemos gente/ser humano. Promovamos, neste Natal, as famílias como o melhor lugar para nos fazermos gente. Acreditemos na magia que só o amor é capaz de mudar. O Natal, esta festa cristã, pode comprometer o nosso coração, a nossa alma e as nossas energias para uma vida na dignidade.

O Natal em família não é uma festa de ocasião, mas uma oportunidade para as famílias revisarem as suas relações, projetos e perspectivas. Aproveitemos o Natal para nos humanizar. Humanizar é nosso maior trabalho e desafio como ser humano. Viver sozinho e só não vale a pena! Que o Natal tenha a força para nos inspirar para a vida que se faz sempre solidária.

***

Descrição dos registros:

O espírito natalino sensibiliza para a solidariedade. Por ocasião da pandemia, muitas pessoas ficaram desempregadas, estão passando por dificuldades e deprimidas pelo distanciamento social. Nesse sentido, sugerimos que você organize uma ação solidária junto com sua família. Pode ser doação de alimentos, conversar por telefone com uma pessoa doente, idosa ou enviar uma mensagem de Natal para as pessoas que são importantes para você e sua família. Use a sua criatividade e compartilhe!

OU AINDA: 

Professor ou professora, assista estes três pequenos vídeos e uma música em família. Se puder, reúna todos para compartilhar este conhecimento e conversar um pouco sobre o sentido do Natal.

  1. O primeiro Natal – A história do Natal contada pelas crianças. https://youtu.be/My4oHRn4E-A?t=112
  2. A história da lindíssima canção “NOITE FELIZ”. Você sabe a origem desta música que virou verdadeiro hino mundial, já interpretado em mais de 50 idiomas? https://youtu.be/NapSZdpFgAk?t=5
  3. Vídeo emocionante sobre o Natal: https://youtu.be/lUTagKoAyXE?t=44
  1. Música: “Prometo” de Paula Fernandes: (bem melhor ter paz do que razão/transformar o medo em gratidão): https://youtu.be/GhimHCAQjbw?t=43



Atenção:
Se você chegou até aqui, obrigado. Também não há devolutivas para fazer! Esta atividade não é avaliativa. Curta a vida e o Natal, esta festa tão brilhante e instigadora, junto com sua família. Boas festas!

Ser contra a vacina é ser contra Cristo

Quem entende a lógica do evangelho não terá
qualquer dificuldade em entender a lógica por trás das vacinas.
Graças a elas, moléstias que assolaram a humanidade
por milênios foram banidas. 


Em um tempo marcado pela ignorância e pelo obscurantismo, muitos preferem dar crédito às fake news que se disseminam nas redes sociais do que à própria ciência. Se fossem apenas mentiras que visassem destruir a reputação de adversários políticos não seriam tão nocivas. Mas trata-se de mentiras que põem em risco a vida de milhões de pessoas. Refiro-me ao movimento antivacina que tem contado com a adesão de políticos e líderes religiosos. 

As vacinas têm se revelado no meio mais efetivo e seguro para se combater e erradicar doenças infecciosas. Uma vacina contém um agente que se assemelha ao microrganismo causador da doença que se pretende combater, e geralmente é feita a partir de formas enfraquecidas ou mortas do vírus ou de partes do mesmo. O agente estimula o sistema imunológico do corpo a reconhecê-lo como ameaça, destruí-lo e manter um registro para que possa reconhecer e destruir qualquer um desses microrganismos que eventualmente possa encontrar. 

Para facilitar a compreensão da lógica por trás da vacina, sugiro que recorramos, de maneira análoga, ao Evangelho. 

De acordo com a teologia cristã, a criação como um todo fora infectada por um vírus letal chamado “pecado”. Não se trata, entretanto, de algo restrito ao campo da moralidade, mas de uma condição existencial marcada pela alienação de sua fonte primeva, Deus. Como afirma Paulo, toda a criação ficou sujeita à vaidade. Em outras palavras, o que deveria ser eterno, tornou-se fugaz. 

Somente uma poderosa vacina livraria a criação desse vírus. Paulo escreve: “Aquele que não conheceu pecado, ele o fez pecado por nós” (2 Co.5:21). Sem jamais ter cometido pecado algum, Cristo assume nossa condição existencial. 

Como toda vacina, Cristo teve que entrar no corpo infectado, para que Sua presença despertasse nosso sistema imunológico, e, assim, eliminasse o vírus. O corpo infectado a que me refiro é o Universo. O Deus transcendente, isto é, que vive para além do tempo e do espaço, Se fez imanente, penetrando a Criação, para restaurar sua saúde original.

Por Sua morte, Cristo restaurou a saúde do Universo. O vírus do pecado foi banido! “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo!”, exclamou João Batista. Embora os sintomas pareçam persistir, o vírus já foi eliminado. Paulo nos informa que “Deus, enviando o seu Filho em semelhança da carne do pecado, pelo pecado condenou o pecado na carne” (Rm.8:3b). Entretanto, ainda teremos que conviver com suas sequelas até que o corpo recupere plenamente o seu vigor.

Diferente dos sacrifícios exigidos na Antiga Aliança, que tinham que ser renovado ano após ano, o sacrifício de Cristo foi definitivo. Não se trata de um remédio em doses homeopáticas, mas de uma única dose. “Doutra forma”, declara o escritor sagrado, “necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo. Mas agora, na consumação dos séculos, uma vez por todas se manifestou, para aniquilar o pecado pelo sacrifício de si mesmo” (Hb.9:26).

A vacina foi preparada de antemão, antes mesmo da criação do cosmos. Por isso se diz que o Cordeiro foi morto antes da fundação do mundo. Mas a aplicação dela se deu na plenitude dos tempos, quando Cristo Se humanizou.

Uma vez livres do poder do pecado, somos reintroduzidos no projeto original de Deus: a eternidade. Uma vez vacinados, não há como ser infectados novamente. Nas palavras de Paulo, simplesmente estamos “mortos para o pecado” (Rm.6:11). Ele não exerce mais o mesmo poder que antes tinha sobre nós. “Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna” (Rm.6:22). 

Esse “por fim” não deve ser entendido como sendo algo que só teremos no fim de todas as coisas. Creio que a vida eterna é para ser desfrutada agora. Esse “por fim” significa “por objetivo”. O objetivo de Deus ao nos libertar do poder do pecado é conceder-nos a vida eterna.

O amor de Deus exige que o objeto amado se torne eterno. É porque o “seu amor dura para sempre” (Ed.3:11), que “tudo o que Deus faz durará eternamente” (Ec.3:14). O único empecilho a isso era o pecado. Porém esse foi definitivamente vencido na Cruz.

Quem entende a lógica do evangelho não terá qualquer dificuldade em entender a lógica por trás das vacinas. Graças a elas, moléstias que assolaram a humanidade por milênios foram banidas. 

Dar ouvidos aos que propagam mentiras acerca das vacinas é negar a ciência e contrariar a vontade de Deus que é o bem-estar de Suas criaturas. Por trás do movimento antivacina está o espírito do anticristo. Ser antivida é ser pela morte e contra o espírito do evangelho.

João Batista, a jovem de Nazaré e o carpinteiro José

Com a contribuição humana, nas ações de João Batista,
o precursor e Maria e José, que acolheram Jesus em suas vidas,
Deus pode encarnar-se na nossa caminhada humana
rumo a salvação de todos.


Aproxima-se o Natal do Senhor. Logo mais entraremos da quarta semana do advento e também a semana do Natal. Em um ano muito difícil, fará bem celebrar a decisão de Deus encarnar-se na nossa história na pessoa daquela criança frágil nascida na cidade de Belém. Para os amantes do poder, orgulho e prepotência fica um pouco difícil assimilar que o salvador da humanidade tenha vindo ao mundo dessa forma: no seio de uma família pobre, sem lugar para nascer, acolhido por pastores pobres e aquecido pelo calor dos animais.

A lógica que Deus escolheu para vir ao mundo inquieta muitos, pois Ele não nasceu em berço de ouro. Nasceu em uma manjedoura, em um lugar pouco aprazível. 

Acolhamos esta lógica pela fé e deixemos que Deus continue nos surpreendendo assim como surpreendeu Zacarias e Isabel, Maria e José e o temível rei Herodes. Os primeiros foram surpreendidos pela alegria da escolha, Herodes pelo medo de perder o poder (cf. Mt 2,3). Todavia, Deus, em seu amor sem limites pela humanidade, decidiu contar com a colaboração humana. O projeto salvador seria fruto de uma grande aliança.

Primeiramente com João Batista, o profeta que veio do deserto trazendo uma novidade significativa para toda a humanidade. João Batista, filho de Zacarias e Isabel, se apresentou na região do Rio Jordão pregando a conversão, a mudança de vida a partir da mudança de mentalidade (cf. Mc 1,4). Esta mudança compreenderia certamente o enfrentamento dos pecados, realidade de vida contrária ao desejo de Deus. João Batista convidava as pessoas a prepararem o caminho do Senhor, porque o Reino dos Céus se aproximava (cf. Mt 3,2). Era a preparação sugerida em vista da chegada do enviado de Deus.

João Batista assumiu a responsabilidade compreendendo-se como “testemunho da luz”, convidando todos a crerem em Jesus (cf. Jo 1, 7). Mas havia a necessidade da continuidade da obra anunciada por João. 

Surgiu a segunda contribuição significativa da humanidade, a mediação de Maria e José para que o Filho de Deus tivesse acolhida em uma família. Jesus viria ao mundo através da Família de Nazaré. Tal mediação aconteceu através de dois processos: o de Maria e do de José. Quanto a Maria o evangelista Lucas descreve a visita e o diálogo do mensageiro de Deus com a jovem (Lc 1,26-38). Feitas as perguntas necessárias e obtidos os esclarecimentos, Maria deu o seu sim, mesmo que isto significasse uma mudança radical em sua vida. O Filho que teria não era obra humana, mas fruto da ação do Espírito de Deus (cf. Lc 1,34). A ter a certeza que tinha uma grande missão em suas mãos ela louvou e agradeceu a Deus por tê-la escolhido (cf. Lc 1, 46-55).

Entretanto, a cultura da época não concebia uma mulher grávida sem um esposo. Deu-se o segundo momento do processo de contribuição humana. José futuro, esposo de Maria, soube do fato e cogitava uma saída “honrosa” humanamente (cf. Mt 1,19). Nesse tempo recebeu também uma visita através do sonho. Não questionou mais. Em silêncio acolheu a esposa e o Filho que Deus lhe dera (cf. Mt 124-25). Comumente, refletimos e rezamos o sim de Maria. Ele foi sustentado e completado pelo sim de José, não manifesto em palavras, mas em gestos.

Com a contribuição humana, nas ações de João Batista, o precursor e Maria e José, que acolheram Jesus em suas vidas, Deus pode encarnar-se na nossa caminhada humana rumo a salvação de todos. Foi o caminho possível encontrado pelo Pai. 

O nascimento de Jesus é consequência desta primeira aliança, fruto da iniciativa divina, contudo concretizada pela ação humana. Diante de um processo tão rico cabe a cada um de nós também colaborarmos nesse diálogo amoroso.

Nossa missão é muito simples e foi indicada pelos pastores e magos: acolher o salvador e deixar que ele guie nossas vidas.

Veja também