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O Novo Normal e o Reinventar:Reflexões Desde o Horizonte da Ambivalência

Impera o normal, e não o novo, em sua mais sórdida reinvenção para mascarar as intenções, os mesmos objetivos imperativos do sistema centralista, globalista e renovado/reinventado em sua capacidade, desejo e poder de afirmar-se como mais poder.

As limitações que se impuseram aos indivíduos, às instituições e aos coletivos por força da pandemia desencadeada pela Covid-19, pelas mutações do sagaz vírus, eficiente em sua função embalada pelas irracionais atitudes humanas, pelo retardo da ciência em enfrentar um gigante nanológico, pelas burocracias e necropoderes instalados geopoliticamente, suscitam plurais sentidos que denominamos ambivalentes.

Há quem, mais otimista ou de olhar visionário, consiga situar no horizonte incerto e aleatório do amanhã, grandes mudanças e perspectivas de rupturas com práticas e compreensões sistêmicas e individuais de individualismo, opressão, exploração, concentração de renda, fundamentalismos dogmáticos e dogmatizantes, além de reviravoltas consideráveis nas hegemonias e homogeneizações globais. Também, há os céticos ou, comumente – e problematicamente – denominados, pessimistas.

“Fico me perguntando na leitura que faço dos que se apressam com o “novo normal”, preocupados que estão com a tão “insuportável anormalidade” da pandemia: como será o “novo normal” para os/as desempregados/as, os precarizados/as, os subempregados/as, os/as “sem-direitos”, os/as de sempre, os/as de antes e os/as de agora, ainda mais precarizados em razão do impacto que a crise pandêmica produziu em suas vidas? Haveria “vidas matáveis”, “humanos descartáveis”, “humanos essenciais” no “novo normal”?” (Paulo César Carbonari). Leia mais.

Não são somente estes dois fronts. É possível, sem muito esforço, identificar outras tendências que podem assumir influências maiores ou serem anuladas dadas as condições de considerável irracionalidade e espírito de alienação – termo antigo e, talvez, fora de moda no mundo acadêmico, mas atual no mundo cotidiano – que concorre com o Covid em velocidade de expansão e contágio – ainda, também, sem vacina – por entre instituições, indivíduos, Estados, laboratórios e governos.

Como aconteceu na história da humanidade, especialmente, na dimensão sócio-política, mas igualmente, na científica, na econômica e na legal, a grosso modo, as variantes ideológicas ou de compreensão, reforçam a polarização, principalmente, até não se constituírem em novas teses com expressão.

Entre os objetivos dessa reflexão estão os sentidos dos conceitos – pretensamente inovadores e de amplo uso nesses tempos de distanciamento social ou, como compreende a Professora Maria Cristina Pansera de Araújo, “de distanciamento físico” – que transitam, tem parecido, com disfarces ideológicos, perspectivas corporativistas-personalistas, subsistem com sentidos hegemônicos e, mais grave, estão em uso sem a crítica terminológica, conceitual e de significados.

Nessa direção que se esforça e, também, desafia, a presente reflexão ao pensar o uso dos termos “novo normal” e “reinventar” e os compreende carregado de ambivalências. São termos indiscriminadamente em uso e podem legitimar o status quo, bem como, esconder continuísmos concentradores de renda, messianismos fundamentalistas, doutrinações dogmáticas, recrudescimento de poderes ditatoriais e culturais do ódio, da violência e da destruição.

Nessa compreensão, a presente reflexão, justamente por tratar-se de uma tentativa de filosofar sobre termos com vasto uso comum, parte de obras, pensadores/as e pensamentos de domínio amplo. Tais entendimentos, a característica textual e as remissões a autorias pela veiculação pública que detém, desobriga as referências ao final do texto.

“O que é isso que todos começam a chamar de “Novo Normal”? Qual era mesmo a “velha normalidade”? E a pergunta que mais deve(ria) incomodar: O que é “normal”?” (Sidinei Cruz Sobrinho) Leia mais.

O perigoso “novo normal”

Mesmo que a humanidade tenha atingido o atual estágio tecnológico, de relações e conquistas, via comunicação, muito dificilmente ela, a comunicação, tem se difundido sem um toque de racionalidade, de pensamento. Seja para emitir os sinais ou para interpretá-los, o pensar parece fazer parte desse movimento como elemento indispensável. Ainda que a questão não seja de ordem moral e maniqueísta, como sugere a moda habitual, ou indique opções entre a fronteira do bem e do mal, comunicar sugere ação natural e criadora de cultura e denota esforço, além de o exigir.

Comunicar tem uma dimensão gratuita e outra intencional. A gratuita é espontânea, acontece no cotidiano e tem significados, sentidos, expressos pelo/a emissor/a, são colhidos por quem interpreta. Na dimensão intencional, aquela que é produzida com vontade e determinada por alguma atitude – com a compreensão de ação humana com planejamento, com motivação racional – a parte emissora desenvolve sentidos e os articula num conjunto de signos para expressar a outrem, os seus desejos, demandas e intenções, embora possa ter que repeti-los, ajustá-los, ampliá-los ou simplifica-los, para tornar compreensível suas manifestações.

Essa espécie de preâmbulo, embora pareça deslocado, tem o objetivo de reafirmar o quanto a comunicação tem um horizonte democrático, ao permitir, possibilitar interpretações plurais, e, simultaneamente, apresenta uma necessária e indiscutível proposta de continuidade, de manutenção, de afirmação permanente que indicam a inesgotabilidade de seu valor. É nesta lógica que se apresenta a reflexão acerca do “novo normal”.

Muito embora possa – e deva – ser compreendido na seara da ambivalência, a terminologia novo normal pode esconder perigos como a continuidade e defesa da arqueologia das estruturas de poder historicamente instaladas e vigentes na sociedade humana. Novas adaptações a uma estrutura que, ao contrário da compreensão de vários filósofos e economistas, não cambaleia por ser anciã ou não têm pés de barro. Antes, se fortalece e ganha corpo nutrido nas explorações, dominações e expropriações das camadas de seres humanos e demais seres da rica e ampla natureza ecológica, biológica.

O novo normal pode esconder – e tudo indica para esse rumo – o fortalecimento sagaz e o apossamento de mais controle dos órgãos e instituições e indivíduos já poderosos, tanto a níveis locais, quanto regionais e mundiais. Cabe, para uma prosa ampliada, pensar em torno do que seja o “novo” e do que seja o “normal”.

Na atual conjuntura, o “novo” pode esconder a volatilização das relações, instituições – entre elas o Estado, a legislação – e, desse modo, assume a perspectiva de um engodo macabro que disfarça intenções dominantes e projetos há muito em curso.

O boicote ao Estado – inclusive defendido e tido como a salvação, por porção considerável da população mundial, brasileira e regional – que não consegue, até o momento, compreender o abismo para onde a humanidade caminha. Este “novo” é verniz em madeira carcomida e demonstra a ambivalência das terminologias.

O mundo quer, deseja, anseia e mata ou morre, pelo novo. Mas qual é o sentido que o novo, pós-pandêmico, está disposto a construir? E quem está? Do fato de a humanidade passar por mais um período de distanciamento físico – ou de necessário e científico distanciamento social e/ou físico – não decorre a novidade.

Talvez o novo resida no inusitado, para o avançado século das comunicações ou telecomunicações e era das informações recebidas em avalanches, das restrições para evitar as contaminações há, pelo menos, um ano. O perigo de ufanizar o novo é não compreendê-lo como fantasma do anciènne, da retrotopia (Bauman…), maquiado em novos palácios, laboratórios, estúdios e redes sociais, para continuar sendo o que é: mau, perverso, necrófilo.

Afirmar o novo no pós-pandemia, é antecipar a naturalização do desconhecido, do ainda-não, como compreende Ernest Bloch e não como esperança, mas como certeza. Aí reside o perigo porque a acomodação do pensar, da possibilidade do comunicar dialógico, não tem mais perspectivas. É abortada junto com a concepção.

Esta reflexão não quer explicar o óbvio, tampouco o mundo; pensa, ainda que embrionariamente, atitudes humanas que exigem racionalidade, compreensão, comunicação, implicam escolhas e podem impactar a sociedade. Esta perspectiva sugere que indicar algo novo como acontecimento decorrente – quase obrigatório – dos momentos vivenciados no presente, fragiliza tanto o conceito de novo, quanto o desautoriza enquanto tal, acomoda as expectativas e as necessidades de luta, de envolvimento e de ação dos indivíduos para definições das agendas e persecução das conquistas. Nesse ponto se encontra a normalização que parece querer comunicar com alguma intencionalidade pré-estabelecida que as coisas acontecem como têm que acontecer.

Quanto o novo é ou pode ser normal?

O novo é desconhecido, embora possa ser pré-anunciado; mas é de sua propriedade pré-ocupar e, por vezes, causar expectativa, temores, apreensões. O normal do novo implica espera, inquietude, ansiedade e, por isso, não pode ser aceitável, assimilável, simplesmente. Nem, desse modo, compreensível, porque é somente esperança gestada na ambivalência/plurivalência e exige pensar, esforço. O novo normal pode não ser tão normal como insinuam propagandismos gratuitos, voláteis e arquitetados para fazer ver apenas as certezas elaboradas antecipadamente.

Ao ampliar a reflexão, encontra-se a normalização que é padronização, a institucionalização e modos de ser, compreender e agir. Algo, ao ser padronizado entra no rol das naturalizações e, nessa lógica, sucumbe às necessidades de reflexões e possibilidades de construções.

Nessa linha de pensamento, o novo entre em contradição performática porque apresenta como objetivo último que o qualifica para ser novo a condição de normal. É ser normal, dito de outro modo, que o constitui novo.

Em chave ambivalente, o normal é acontecer o novo porque é próprio da evolução, o acontecimento da mudança, do crescimento, da construção. É normal que o novo se apresente nas experiências e nas vivências dos seres humanos como decorrências de suas iniciativas e como presença constante do aleatório, do inusitado e, também, do incontrolável das naturezas que compõe o mundo. É normal que o novo se apresente, difere em essência, potência e existência do novo como normal.

O normal não é novo e quando tende para essa formatação, já está pré-definido, pré-constituído, pré-concebido e, portanto, já arquitetado, assimilado, conhecido. É da norma do novo ter outro regramento, outro modo e isso é o seu normal até ser estudado, pensado e, de algum modo, controlado. Por isso o novo não pode ser definido aprioristicamente.

Ao ganhar força e ecoar em várias dimensões sócio-culturais e científico-econômicas, o clichê do novo normal arrasta consigo a concepção histórica reprodutivista do resgate, das re-vivências e advoga a própria impossibilidade do novo.

Alimenta-se, o poder hegemonizado, dessa impossibilidade do movimento criativo, da incapacidade humana de criar, produzir, novos caminhos, alternativas e, inclusive de pensar novas relações institucionais e entre as pessoas, de alterar as estruturas sistêmicas há muito emperradas mantenedoras do o olhar fixo no passado como o normal para acolher e seguir o novo.

O novo acaba por reforçar as mesmas estruturas e compreensões viciadas que historicamente forjaram as características, as funções e as estruturas da micros e macros vivências. O mundo – porque as pessoas – acaba por conformar-se com as imposições, com as normalizações instituídas abortivas ou, pelo menos, dificultadoras – porque domina o poder e controla o normal e, com ele, engoma o novo – das possibilidades constituintes das mudanças profundas, das metamorfoses, para pensar com Ulrich Beck.

O novo para ser novo precisa não ser normal; precisa ser pensado, conhecido, controlado/dominado, também, de um modo novo.

O novo é estranho e a estranheza é elemento importante na motivação, no despertar, para a reflexão, para o pensar e abertura para o dialógico pois começa pela provocação comunicativa de querer ser significado, justamente, na sua epifania, no seu aparecer.

A ambivalência, a plurivalência, ensina a abertura, a possibilidade e ensaia o ato criador, desperta para a novidade e estimula a empresa do conhecer, da investigação, que tem condições de descortinar multiplicidade de sentidos.

Veja-se, então, que o novo tem uma dimensão estética, mas ela está na relação com a ética e a política. Diz respeito a cada indivíduo e ao coletivo, mas, também, àquilo que transcende às fronteiras do somente ego ou alter para envolver com mais plenitude um horizonte ainda maior, tanto em amplitude, quanto em profundidade e compromisso.

O professor Mauro Cardoso Simões, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Unicamp, explica neste bate-papo que é uma ilusão pensar que a vida é regular, estável, previsível e que isso é o “normal”. Para ele, a expressão não dá conta da catástrofe que a humanidade está experimentando. O “novo” que estaria por vir é imprevisível e pode conter tanto visões negativas, preconceituosas e segregacionistas, como algo positivo que seria uma maneira mais saudável de pensar na nossa vida em sociedade. Veja: Novo normal para quem?

Reinventar: o ancien com verniz

Inventar é arte; reinventar é adorno, uma espécie de cópia que reproduz e enverniza uma realidade teimosa em prolongar-se em função de algum poder que, de certa forma hegemônico, não quer perder o status. Essa chave sócio-filosófica de compreensão sugere a continuidade ou, de modo mais radical, um continuísmo que esconde objetivos, critérios, interesses dominantes sem uma preocupação de alteração substancial de procedimentos, de estruturas, de compreensões.

Nesse sentido, o reinventar é atualizar algo existente e apresentar como solução. Fazer adaptações. Não contempla mudanças substanciais o que não quer, necessariamente, significar algo ruim, menos valioso. Contudo é revestimento de material, práticas e concepções em uso ou cimentadas. Conota um certo temor, medo, receio, do novo, da mudança, de novas posturas, além de transitar em perigoso lugar-comum e aziado discurso elitista.

Nesse sentido, o reinventar não é profundo, mas superficial e não enfrenta a possibilidade com multiplicidade e pluralidade. Por isso não tem condições de colocar-se no diálogo equânime, além de falhar no compromisso com o espírito criador que avança, em agenda ética, na direção da solidariedade, das pesquisas por alternativas preocupadas com a vida.

Reinventar é tomar o ancien, adornar e apresenta-lo como novidade. Alterar aquilo que já esteve ou ainda está de posse e sob controle e ajeitar para dar conta de suprir os objetivos, as necessidades, do presente.

A ambivalência, nessas cercanias, pode ser vista em confabulação com os poderes antigos. No chá da tarde, são definidos os cardápios para os jantares da ceia nos quais são reapresentados menus com paladares de outrora, elaborados sempre por gourmets protegidos em grandes e poucos palácios.

Reinventar, nesse sentido, parece denotar uma saída tangenciada para não encarar o problema em grave estrutura, peso e consequências. Assim, não contribui para transformar, mudar, a realidade e abrir espaços para a criatividade, a alternativa, a possibilidade; contenta-se em manter a essência da conservação em reacionária marinada, apimentar o futuro da grande maioria massiva da população e despejar sal grosso e ácido nas estruturais chagas que prolongam e aprofundam as diferenças e injustiças. 

Algumas reflexões para continuar a pensar no horizonte da ambivalência

As adaptações, readaptações, mudanças, transformações, as reflexões, provocadas pela pandemia, alterações comportamentais, de hábitos e relações, são fortes em demasia para limitar o novo a reinvenções, apenas e a conformações de um novo normal. Esse novo normal pode ser a reinvenção daquele historicamente constituído e instituído com a supremacia das forças hegemônicas e hegemonizantes, exclusivas nas pretensões de absolutas verdades e definições do bem e do mal.

Reinventar é saudosismo conformador que pode inibir a força da mudança que o momento indica e a necessidade de rupturas que se evidenciam. Algumas já em curso como novas polarizações e contradições.

A afirmação pode ser ilustrada com a elevação da China ao patamar de enfrentamento à grande potência norte-americana, ao pioneirismo dessa mesma China e da Rússia, nos desenvolvimentos dos antídotos à Covid-19 – e, possivelmente, de suas variantes –, a capacidade de regulação social interna da China.

Mas há ainda outras questões que demonstram alguns processos equivocados e assumidos por nações poderosas ou nem tanto: Cuba, a eterna nação relegada pelas centralidades econômico-militares do ocidente, parece não ter enfrentado colapsos hospitalares e faltas de oxigênio. Algumas nações latino-americanas, vizinhas ao Brasil, também indicam enfrentamento racional à pandemia. Entre algumas contradições pode-se ver a Índia com a maior capacidade mundial instalada para produzir vacina enquanto sua população sofre consequências de pesada estrutura cultural.

Incorporar, simplesmente e superficialmente, as ondas modísticas das linguagens clichês, favorece a reprodução de valores fundamentalistas e estranhos ou contraproducentes às possibilidades de aprimoramento humano, das qualificações de relações e alargamento das compreensões que favorecem diálogos, estimulam a solidariedade e gestam novidades, criatividades interessantes para a humanidade em sua caminhada pela harmonia e realização individual e coletiva.

Ao invocar a ambivalência que subsiste na linguagem e nas ações humanas, é possível apresentar a nada normal e nada nova constatação de que as camadas mais empobrecidas da população, com a pandemia, continuarão, ainda, a não participar dos benefícios da ciência, a não usufruir das riquezas acumuladas às custas de suas dificuldades, da miséria, da fome, da exclusão. Por outro lado, as camadas mais enriquecidas não voltarão o olhar e, sequer, os sentidos, para a mudança, a transformação, a metamorfose da estrutura sócio-econômica e histórico-cultural que oprime e desumaniza.

Paira, nesta reflexão, o indicativo da retomada de uma racionalidade não limitada ao estético, mas ao político e ao ético com invenção, pensar, alternativas, novidades, originalidades para além da estrutura solidificada da história do homem branco, rico, autorizado a desenhar os destinos.

Não se trata de jogar fora a tradição mas, também, de não incorporá-la como uma atitude sine qua non. Isto significa que a grande tradição precisa considerar a razoabilidade, na compreensão do Professor Paulo Evaldo Fensterseifer, e uma ponderada racionalidade que não seja dogmaticamente legislativa e alinhada aos ditames do estado jardineiro, temas de Zygmunt Bauman.

Não pode, não tem espaço, por isso, e, tampouco, sentido, um novo normal que não seja aquele do prolongamento das viciadas e retrógradas vicissitudes há muito em curso. Impera, desse modo, o normal, e não o novo, em sua mais sórdida reinvenção para mascarar as intenções, os mesmos objetivos imperativos do sistema centralista, globalista e renovado/reinventado em sua capacidade, desejo e poder de afirmar-se como mais poder.

Autor: Claudionei Vicente Cassol

Edição: Alex Rosset

Desobediência Moral, Intelectual e Religiosa

O niilismo reativo que tomou conta da mentalidade conservadora fascista é autodestrutiva e envenena a todos os que dela se aproximam. O distanciamento moral, intelectual e religioso dos que estão no poder central é a única forma de imunidade para uma vida saudável no Brasil.

“Numerosas são as maravilhas da natureza, mas, de todas, a maior é o Homem’, diz Sófocles em Antígona. Nessa mesma peça trágica de Sófocles, se lê que “ninguém é louco a ponto de desejar a morte”. Esta última frase é proferida pelo Rei Creonte que alimenta a convicção de que suas ordens serão obedecidas e desobedecê-las serio o mesmo que desejar morrer.

Na peça, Antígona desobedece ao Rei que proíbe sepultura de seu irmão Polinices, por este ter lutado contra o seu governo na tentativa de derrubá-lo. Antígona desobedece a lei do Rei invocando uma lei mais alta, a lei divina e da tradição, que garantem o sagrado culto aos mortos e suas devidas cerimônias de despedida e de sepultamento.

Sófocles não conhecia o Brasil, por suposto. Se conhecesse, talvez, refizesse tanto a frase de que somos a quintessência da criação e das maravilhas, a maior, quanto a de que “ninguém é louco a ponto de desejar a morte”.

Que alguns desejam a morte dos outros, ou nada façam para impedi-la, mesmo tendo condições, é por demais sabido e todos os dias há provas disso, mesmo que, falsa ou cinicamente, digam que se preocupam com a vida quando, na verdade, priorizam o capital em detrimento da vida.

Há os que desejam a própria morte desafiando a pandemia ou prescrevendo remédios que a medicina não recomenda. Quanto à ideia de que somos mais maravilhosos do que o conjunto dos outros animais e mais maravilhosos do que o sol, a lua, as estrelas, rios e mares, bom, talvez sejamos mesmo, como espécie, mas como indivíduos, sinceramente eu prefiro o Chico, o Mick e a Preta, de quatro patas.

Mas, o que me interessa mesmo, aqui, da referida tragédia de Sófocles, é a ideia defendida por Antígona, segundo a qual, é imperioso desobedecer às ordens das autoridades políticas, sobretudo quando oriundas de mentecaptos e necrófilos, se essas ordens forem uma afronta a um princípio ou valor mais alto e mais nobre do que o valor e o princípio que baseia a ordem.

Sejamos claros. É imperioso desobedecer, moral, intelectual e religiosamente, o inquilino que se instalou no Planalto Central. A desobediência deve ser de ponta a ponta, em todas as áreas, seja nas suas orientações sobre o meio ambiente, educação e cultura e, sobretudo, em relação à saúde. Um inquilino desastroso, sem compaixão, sem dignidade e sem alma. Urge despejá-lo enquanto há tempo.

Umberto Eco dizia que os homens nunca fazem o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa. Não se iludam, a fachada religiosa do inquilino que ora nos governa é uma máscara que esconde cadáveres atrás de si. Nunca será demais denunciar e marcar posição contra o pior que a história já produziu entre nós. Não se opor, resistir e desobedecer é agir por cumplicidade.

“Na medida em que envelheci, comecei a odiar a humanidade. Portanto, se eu tivesse um poder absoluto, deixaria que ela continuasse em seu caminho de autodestruição. Ela seria destruída e eu ficaria mais feliz. Pessoas como eu são intelectuais: nós fazemos o nosso trabalho, escrevemos artigos, temos maneiras de protestar, mas não podemos mudar o mundo. Tudo o que podemos fazer é apoiar a política de empatia“. Leia mais.

O niilismo reativo que tomou conta da mentalidade conservadora fascista é autodestrutiva e envenena a todos os que dela se aproximam. O distanciamento moral, intelectual e religioso dos que estão no poder central é a única forma de imunidade para uma vida saudável.

Mas, o mais trágico nem é isso. O mais trágico é a morte acompanhada da proibição das sagradas despedidas e rituais de passagens. Isso sim é de doer o coração e de matar! E o pior, não há a quem apelar para reclamar que seja diferente. Se reclamar para o Bispo ele vai pedir para que se vá reclamar ao prefeito ou ao governador. É um destino trágico.

O que faria Antígona nesse caso? Até ela ficaria paralisada. Ou será que ela arriscaria se contaminar e contaminar outros, mas não abriria mão do último adeus com todas as cerimônias que qualquer senso antropológico prescreveria?

 “A gloria de Deus é o homem vivo”, dizia Santo Irineu. Os mortos não louvam a Deus e não dá para louvar a Deus pelos mortos. E, muito menos, louvar a Deus pelos que matam. Se estivermos de acordo com isso, quem sabe se possa chegar a um acordo sobre o que seria o desejo de Deus e nosso, inclusive, quanto o procedimento ritual e litúrgico que marca a despedida de um ente querido, nesse momento de pandemia. 

É doloroso e quase insuportável morrer sem adeus? É. Tem outra forma? Tem algum protocolo que se possa seguir com segurança? Se, sim, então é urgente pensá-lo. Se não há, e se o melhor para a vida dos que ficam é o afastamento físico total, então, em nome da vida e do Deus da vida, que se chorem os mortos mesmo sem as devidas despedidas. E, quem sabe, se pense alguma forma de marcar e tornar célebre a vida que se foi, numa cerimônia doméstica, na comunidade de fé e, futuramente, em praça pública.

Afinal, sem os devidos rituais de despedida, de que nos diferenciamos dos outros animais? 


Desculpe Antígona, mas o teu caso não é o nosso caso. Não há heroísmo nenhum em se arriscar e não há uma lei positiva que possa ser revogada. O que há é um estado da coisa que se impõe, e contra o estado das coisas não há porque desobedecer.

Esta publicação foi originalmente publicada no blog do autor.

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

Memórias de Uma Vivência Franciscana

“Onde há amor e sabedoria, não há medo e nem ignorância”. (Francisco de Assis)

Paz e bem!

Fiz uma breve passagem numa casa de formação franciscana, mais especificamente, dos Freis Capuchinos, que neste ano completam 125 anos de presença no RS. Os primeiros Capuchinhos Franceses chegaram em Garibaldi no ano de 1896. Veja mais aqui.

Esta experiência de formação humana e cristã, de apenas um ano, foi importante para experimentar e vivenciar aspectos da vida e do cotidiano que os irmãos de congregação vivenciam como teoria e como prática.

 Passaram 25 anos desta rica experiência. Na época, tinha 23 anos de idade. Fiz parte de uma pequena comunidade, inserida numa paróquia, com a presença e convivência de dois freis, o que me marcou profundamente até hoje e, talvez, para o resto da minha existência.

Francisco de Assis sempre foi, para mim, uma importante referência de vida e de espiritualidade. Me marcou e ainda marca, profundamente, a sua simplicidade, sua relação de irmandade com os demais seres humanos e a sua relação amorosa com os demais animais.

Uma das coisas que logo incorporei na minha vida é a simplicidade e o uso de sandálias. O uso de sandálias, para além do conforto em dias de calor, representa a humildade de caminhante, a necessidade de se colocar a serviço dos demais e de reconhecer que a sabedoria é um processo que está em curso; jamais está pronto.

Outro hábito que herdei desta breve experiência de formação cristã franciscana foi a apreciação de vinhos. Como descendente de imigrantes alemães, não tinha o hábito de apreciar um bom vinho. O vinho não faz parte da vida e da espiritualidade franciscana, mas é um bom hábito que vem sendo perseguido pelos descendentes dos imigrantes italianos (a maioria, na Ordem dos Frades Menores, OFM). Além de apreciarem bons vinhos, os freis Capuchinhos tornaram-se referência na produção e venda desta bebida no RS e no Brasil. O vinho é uma bebida citada biblicamente, incorporada ao ritual da Santa Ceia e faz parte da cultura dos descendentes de italianos no RS e no Brasil.

“Portanto, vá, coma com prazer a sua comi­da e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz”. (Eclesiastes 9:7)

Guardo também como grande aprendizagem o cuidado recíproco exercido entre os membros desta comunidade franciscana. Num grupo de 7 pessoas, éramos convidados, diariamente, a nos cuidar, a nos fortalecer como irmandade, a nos respeitar, a valorizar os dons e as habilidades individuais e a exercermos a confiança nas nossas capacidades (individuais e coletivas). Não éramos estimulados a disputar com os demais a partir de nossos conceitos e habilidades, mas éramos reconhecidos pelas qualidades e alertados de nossas fragilidades e imperfeições.

A espiritualidade franciscana é muito intensa e rica ao invocar o cuidado de si, o cuidado dos outros, o cuidado com a natureza e o cuidado com a Transcendência. Inspirados em Francisco e Clara de Assis, os confrades vivem uma espiritualidade viva, renovada e cultivada cotidianamente. Renovam sua fé e seus desejos de mudança no mundo, a partir de sua presença e testemunho de vida, todos os dias, em comunhão na oração e na vida fraterna de suas pequenas comunidades.

Vivi, também, o protagonismo da experiência pastoral inserida na comunidade, através da catequese, das visitas às famílias, da inserção e animação das comunidades através de encontros ou celebrações semanais. Foi uma experiência única, exercida com protagonismo pessoal e muita confiança dos freis que conviviam comigo e eram os responsáveis pela formação cristã franciscana.

Sou muito grato pela oportunidade que a vida me propiciou, mesmo que de forma bem breve, de conhecer e viver intensamente o ideário franciscano. Além de admirar, nutro profunda reverência aos irmãos e irmãs que decidiram consagrar sua vida a esta proposta de vida e de humanidade.

“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado…
Resignação para aceitar o que não pode ser mudado…
E sabedoria para distinguir uma coisa da outra”.

(Francisco de Assis)

Passados 25 anos, tive o prazer de reencontrar, em fevereiro de 2021, frei Gilmar Zampieri, responsável pela formação religiosa e espiritual desta breve experiência de formação cristã franciscana. Este reencontro me encorajou para escrever breve memória desta vivência tão marcante em minha vida.

Transcrevo aqui de documento da Ordem dos Frades Menores (2017 algumas das lições aprendidas e vivenciadas nesta breve passagem de formação cristã franciscana.

“Viver o dom do irmão comporta:

>> uma relação com os outros encharcada de humildade, sem procurar ter razão com suas próprias ideias, antes de qualquer coisa, por melhores que sejam, e muito menos impô-las aos outros irmãos. O espírito fraterno pressupõe uma mútua e recíproca acolhida que não se baseia no domínio de um irmão sobre o outro. A humildade nas relações permite que haja uma descentralização de si para dar mais espaço ao Senhor e a uma melhor disposição à acolhida do irmão diferente de mim;

>> o gosto pela escuta recíproca, pela partilha de vida e pelas comunicações fraternas que favorecem o crescimento da comunidade e de cada um dos irmãos. Um desejo de construir junto com os outros, na dinâmica da busca do Reino de Deus que se chega a conhecer no cotidiano. Uma alegria que se reconhece num modo simples de viver relações justas e sadias, consigo mesmo, com os outros e também com os mais pobres. O alegre saborear a beleza do perdão, dado e recebido, através da simples e franca correção fraterna.

Missão evangelizadora

A missão evangelizadora, realizada sempre como Fraternidade e como íntima necessidade de ir e anunciar aos outros tudo o que Senhor nos deu comporta:

 >> o desejo ardente de testemunhar aos nossos irmãos e irmãs do mundo aquilo que nos faz viver, para que possam beber na mesma fonte; uma real disponibilidade de partir em missão; um profundo desejo de anunciar o Evangelho e o apelo para vivencia-lo. É a audácia evangélica que nos impulsiona a viver esta aventura no seguimento de Cristo; uma relação viva com Cristo que se encarna na mútua e benevolente ajuda fraterna;

>> uma adequada preparação antes da missão, assim como uma proveitosa colaboração entre os diversos protagonistas>> a entrega e avaliação regular de nossas jornadas diante de Deus e sob o olhar benévolo dos próprios irmãos. A partilha do Evangelho, depois de um tempo de atividade intensa, é um meio formidável para este restituição; isto permite uma tomada de distância daquilo que é vivido e um recentrar-se em torno da Palavra de Deus, prontos para acolher aquilo que o Senhor diz”. Veja mais direto da fonte.

Atreva-se a ser mais humano. Veja!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Projeto de vida e protagonismo: a justa medida entre o individual e o institucional

Narrativas comprometidas com o liberalismo contemporâneo são indicativos de um individualismo descomprometido e da passividade conformada.

Temos o dever de aprender a reconhecer as vidas e as construções anteriores às nossas que se manifestam em nosso presente e preservam as melhores condições de vida para as gerações futuras. As rupturas, associadas com o antropocentrismo moderno e com a razão científica, devem  ser ressignificadas para  que a construção social consolide uma  fase  mais elevada para a existência humana.

Ao se reconhecer como resultado do conjunto de suas relações, o ser humano assume as condições básicas para se perceber como sujeito de escolhas e do próprio projeto de vida.

Para se diferenciar dos outros animais, pela capacidade de construir relações e planejar sua própria vida, faz-se necessário reorientar compreensões divisionistas e reducionistas. Isto sugere que o divisionismo e o reducionismo, centrado no individual, que não reconhece as relação ou o coletivismo, que anula a singularidade individual, são modelos organizativos insuficientes para orientar o comportamento das pessoas civilizadas.

Ensinar Exige Compreender que a Educação é uma Forma de Intervenção no Mundo. Veja este interessante vídeo!

Uma análise, mesmo sem profundidade ou elaboração profunda, sugere que estamos ligados e somos interdependentes.

As narrativas comprometidas com o liberalismo contemporâneo, são indicativos de um individualismo descomprometido e da passividade conformada.

Ao evidenciar estes modelos de comportamento social, faz-se necessário produzir e comunicar conteúdos que ajudem a vida a se tornar mais humana. Imposições castastróficas como as guerras e as pandemias são indicativos para que as ferramentas construídas pela inteligência humana sejam universalizadas.

O conjuto das ferramentes construidas pela inteligência humana são resultados simultâneos  de regramentos institucinias e protagonismos individuais. Os desiquilíbrios na disponibilização dessas ferramentas, se constituem como uma das varíaveis para explicitar o conjunto das distopias que nos envolvem.

Para além do atendimento universal das necessidades materiais básicas, incluindo habitação, educação e alimentação, o acesso universalizado de internet e das vacinas, devem estar incluídos o conteúdo das narrativas a serem entoadas por todas as pessoas que orientam civilizadamente o próprio comportamento.

Esta é uma reflexão de conteúdo inesgotável, por isto sugiro que você participe, registrando teu ponto de vista no nosso canal em construção, conforme sugere o link a seguir.

Criamos um canal no yotube para produção de conteúdo para evolução humana. Sabemos que a internet se apresenta como um espaço de grande transformação no comportamento humano. Neste vídeo, uma conversa com professor da UPF (Universidade de Passo Fundo) Otávio Klein. Assista e inscreva-se!

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Tempo contado ou tempo bem aproveitado?

Se há o tempo contado (Chronos), o do relógio, que nos impõe prazos que nos cobra e por vezes escraviza, há o tempo da oportunidade (Kairós), o tempo em que desfrutamos de qualidade.

Todo início de novo ano é oportuno que falemos de tempo. Todavia, não pretendo cair na vala comum daqueles que se limitam a queixar-se da falta de tempo, e vou explicar o porquê.

A mitologia influente no ocidente é a Greco-Romana, e é nela que encontramos o mito do deus Chronos, o qual, segundo uma profecia, um dia seria tirado do poder por um de seus filhos. Temendo isso, cada vez que um filho nascia ele o engolia. Quando o sexto filho (Zeus) nasceu a mãe enganou Chronos dando-lhe um pano para que engolisse. Uma vez adulto, Zeus – o sobrevivente –  deu uma poção ao seu pai e este vomitou todos os outros filhos, libertando-os e perdendo seu poder, cumprindo-se assim a profecia. Mais tarde Zeus teve um filho chamado Kairós.

Você já reparou que o instrumento chamado cronômetro (o qual serve para a medição do tempo) tem, na etimologia o nome do deus Chronos? Sempre que falamos em tempo somos compelidos a pensar neste contado em segundos, minutos, horas, dias, anos… como se fosse a única possibilidade.

Pergunto: se Chronos representa o tempo implacável – aquele que não perdoava os próprios filhos- então, por que se compadeceria de nós pobres mortais? É aqui que proponho a reflexão, pois os gregos tinham também outra definição de tempo. Para eles, o tempo Kairós era aquele que referia-se a um momento indeterminado em que algo de especial acontece, o tempo da oportunidade.

Veja a animação: Tempo Kairós x Chronos

Então, se há o tempo contado (Chronos), o do relógio, que nos impõe prazos que nos cobra e por vezes escraviza, há o tempo da oportunidade (Kairós), o tempo em que desfrutamos de qualidade.

Quem já não percebeu que, em situações desconfortáveis, de sofrimento ou de tédio, o tempo parece não passar nunca? E, do contrário, quando estamos em momentos agradáveis tudo parece passar tão rapidamente? O que precisamos aprender é como equilibrá-los, ou, em linguagem burocrática, como administrar o (s) tempo (s).

O homem filosofa sobre o tempo desde a antiguidade, basta lermos Sêneca (4 a.C) em sua obra ‘Sobre a brevidade da vida’ ou Cícero (106 a.C) em ‘Saber envelhecer’ que veremos tamanha sabedoria que parecem ter sido escritas nos dias atuais.

Também da antiguidade temos esta pérola bíblica em Eclesiastes: “Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu: tempo de nascer e tempo de morrer, tempo de plantar e tempo de arrancar o que se plantou, tempo de matar e tempo de curar, tempo de derrubar e tempo de construir, tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar, tempo de espalhar pedras e tempo de ajuntá-las, tempo de abraçar e tempo de se conter,
tempo de procurar e tempo de desistir, tempo de guardar e tempo de lançar fora, tempo de rasgar e tempo de costurar, tempo de calar e tempo de falar, tempo de amar e tempo de odiar, tempo de lutar e tempo de viver em paz”.

É com esta mensagem que deixo meu desejo de que em 2021 possamos valorizar mais nosso tempo e aproveitar as oportunidades que se nos apresentem. Feliz Ano de 2021!

Chronos é o tempo do relógio, linear, que se vive no dia a dia. Kairós é o tempo próprio, totalmente presente, um momento de plenitude. Kairós é o tempo vivido com entrega, que afasta o caos atrai a felicidade. Assista e descubra em qual tempo você vive.

Também pode ver as Três Percepções sobre o Tempo (Cronos, Kairós e Aion)

Autor: César A. R. de Oliveira

Edição: Alex Rosset

O Combate a Intolerância Religiosa no Brasil

O Estado laico não é um estado ateu ou contra as religiões. Pelo contrário. O poder executivo, legislativo e judiciário precisam trabalhar para defender o direito das pessoas terem ou não uma religião, e as instituições religiosas seu direito de culto.

Em todos os anos,  21 de Janeiro é uma data de reflexão e de atividades no combate nacional ao combate a intolerância religiosa no Brasil. A data foi instituída durante o governo petista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi instituído no ano de 2007 pela Lei nº 11.635 em homenagem à mãe Mãe Gilda, Iyalorixá que sofreu intolerância religiosa e racismo religioso.

Assista ao vídeo: Racismo permeia a intolerância religiosa no Brasil

A prática da intolerância religiosa não é exclusiva de um grupo religioso. Historicamente, as ramificações religiosas têm dito dificuldade em exercer a sua liberdade religiosa. Não foram raros os momentos em que terreiros de Candomblé e Umbanda, e Centros Espiritas foram fechados pelo poder público, acusados de charlatões e curandeirismo. Evangélicos têm suas bíblias queimadas ou são apedrejados e os católicos suas imagens quebradas.

Entretanto, sem dúvida nenhuma o grupo que mais sofre discriminação pelo seu credo religioso são as religiões de matriz africana.  As lideranças deste segmento religioso relatam que seus terreiros são invadidos e destruídos, evitam sair de branco pelas ruas para evitar chacotas ou agressões físicas, e muitos vídeos, artigos de jornais e revistas que os associam com práticas demoníacas.

Outro ponto de reflexão do dia 21 de Janeiro é a defesa da laicidade. O Estado laico não é um estado ateu ou contra as religiões. Pelo contrário. O poder executivo, legislativo e judiciário precisam trabalhar para defender o direito das pessoas terem ou não uma religião, e as instituições religiosas seu direito de culto.

De acordo com o artigo quinto da nossa Constituição, o Brasil não possui religião oficial e não pode privilegiar um grupo em relação a outro. É responsabilidade dos políticos brasileiros evitar proselitismo religioso nas repartições públicas.

Contudo, no Brasil, não levamos a sério a questão da laicidade. Temos a formação da bancada evangélica, concessão pública de rádio e tv para grupos religiosos, feriados religiosos, ensino religioso confessional, partidos religiosos, financiamento público em eventos religiosos, projetos de lei de inspiração religiosa, momentos oracionais em escolas públicas, crucifixos nas câmaras dos deputados e no poder judiciário, dentre outros problemas.

Faz-se necessário de mais criação de comitês, secretárias, conselhos com o ajude na formulação de políticas públicas para o combate a intolerância religiosa.

São poucos os estados e municípios que possuem em seu arcabouço institucionais tais estruturas. Dialogar com as lideranças religiosas, centros universitários, e outros segmentos não religiosos é fundamental para vencer está batalha.

Os principais líderes religiosos do país refletem sobre a questão do preconceito. Referências para o budismo, o judaísmo, o protestantismo, o catolicismo e outras religiões compartilham suas visões sobre como enfrentar a intolerância e construir uma sociedade mais pacífica e igualitária. Veja a reportagem: Intolerância e fé no Brasil

Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis

Edição: Alex Rosset

Falta Oxigênio no Pulmão do Planeta

Seria irônico se não fosse trágico: no pico desse flagelo geral que é o novo Coronavírus, falta oxigênio no coração da Amazônia, o pulmão do planeta.

As cenas da pandemia Covid-19, em Manaus e em outras cidades da região norte, lembram os filmes de terror de Alfred Hitchoock ou os livros de suspense de Agatha Christie. O sistema de saúde colapsou: faltam leitos, falta espaço, falta pessoal e falta oxigênio!

Os vivos, familiares, médicos ou enfermeiras, tropeçam com os cadáveres pelos corredores dos hospitais. Os corpos são guardados em contêineres, na fila por sepultamento.

Assista para entender o caos em Manaus.

As agências funerárias e os cemitérios não dão conta desse fluxo sem precedentes de falecimentos. A disputa pelos galões de oxigênio é questão de vida ou morte. Quando aparece um novo carregamento de galões abastecidos, os parentes das vítimas correm com eles às costas, numa desesperada tentativa, quase sempre vã, de chegar antes da “foice” mortal e implacável.

Trava-se outra disputa à porta do hospital, desta vez pelo direito ao atendimento. Boa parte dos contaminados sequer chega a se deslocar para o centro de saúde, vindo a falecer no interior da própria casa. Por outro lado, dezenas de pacientes são transferidos para unidades de saúde de outras capitais.

Ironicamente, a Venezuela, um dos países mais criticados e vilipendiados pela seita fanática do Messias, se oferece para socorrer-nos com o envio de um carregamento de oxigênio.

Clama aos céus o grito silencioso, e por isso mesmo mais estridente, de quem luta por respiro e vida! Seria irônico se não fosse trágico: no pico desse flagelo geral que é o novo coronavírus, falta oxigênio no coração da Amazônia, o pulmão do planeta.

Desnecessário repetir o desfile de erros perversos cometidos pelas autoridades municipais, estaduais e nacionais, entre os quais ganham destaque o deboche e o desdém, a indiferença e o menosprezo ao poder letal da doença.

Desnecessário também lembrar, uma vez mais, que o general Eduardo Pazuello, titular do Ministério da Saúde – cargo que ocupa devido à sua especialidade em logística – em viagem a Manaus simplesmente não levou em conta o fato de que urgia repor os estoques de oxigênio.

Desnecessário, ainda, seguir alertando para outro vírus, o do cinismo quanto às recomendações científicas e quanto à medicação imprópria da cloroquina. O comportamento ostensivo exibido por ninguém menos que o presidente Bolsonaro estimula as pessoas a descumprirem as medidas sanitárias de isolamento social, uso de máscara, etc.

O resultado negativo e nefasto é que Manaus (sem contar as outras cidades do Amazonas e de outros estados da região norte) se converteu numa caricatura macabra do que ocorre no restante do país.

Certo, a vacina já pousou em terras de Santa Cruz, e essa é uma boa notícia. A notícia nada confortadora é que, no que diz respeito aos diversos imunizantes por todo mundo, o Brasil colhe os frutos de uma diplomacia gratuitamente agressiva e desastrosa.

Por uma parte, a única vacina em território brasileiro é CoronaVac, produzida conjuntamente pelos institutos Sinovac, da China, e Butantan, de São Paulo. Mas os insumos para a continuidade da mesma devem ser importados da China. Além disso, a vacina da universidade Oxford, a AstraZeneca, na qual o governo apostou todas as fichas, é produzida no laboratório da Índia.

Por outra parte, enquanto o governo da China vem sendo sistematicamente maltratado por uma diplomacia amadora, ideologizada e irresponsável, o governo da Índia, por sua vez, não contou com o apoio do Brasil justamente sobre uma questão de quebra de patente nessa área da saúde pública.

O clã Bolsonaro e o Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) parecem se divertir em achincalhar os dois países de maior população mundial.

Resulta disso um efeito triplo: do ponto de vista da saúde, agora os brasileiros sofrem atraso na chegada de vacinas e insumos, talvez como consequência de uma relação bilateral marcada por atritos inconsequentes; ainda do ponto de vista sanitário, ambos os países em questão – China e Índia – têm sobre os ombros a imensa tarefa de imunizar suas populações antes de olhar para fora de casa; do ponto de vista da retomada econômica, a administração brasileira compromete desnecessariamente o intercâmbio comercial com dois parceiros de peso incontestável.

Haja paciência e esperança!

Caos no Amazonas: depois de Manaus, interior sofre com a falta de leitos.

Autor: Pe. Alfredo J. Gonçalves

Edição: Alex Rosset

A ciência é um dom de Deus

 O importante é sermos imunizados o quanto antes. Não se pode brincar com a vida.

Finalmente, chegou o grande dia. Duas das vacinas desenvolvidas para o combate ao novo Coronavírus foram aprovadas pela ANVISA. Minutos depois da aprovação, São Paulo saía na frente, vacinando a primeira pessoa no país. Independentemente do marketing político, aquele gesto trouxe esperança a milhões de brasileiros.

No dia seguinte, vacinas foram distribuídas pelo ministério da saúde para todos os estados. E cedendo à pressão dos governadores, o ministro anunciou que a vacinação começaria no mesmo dia e não dois dias depois como havia sido programado.

Era de se esperar que toda a população brasileira celebrasse a chegada das vacinas! Porém, a onda do negacionismo deixou um rastro que impediu que muitos vislumbrassem o valor de tal proeza.

Da parte do governo federal não há qualquer esforço para conscientizar a população a se vacinar. Pelo contrário, além de enfatizar o fato de não ser obrigatório, o presidente ainda faz questão de inculcar dúvidas acerca de supostos efeitos colaterais, incentivando as pessoas a preferirem recorrer a um tratamento precoce com remédios sem qualquer comprovação de eficácia. Não há interesse em vacinar a população, visto que isso representaria um enorme gasto aos cofres públicos.

Fake News se espalham pelas redes sociais, principalmente em grupos de whatsapp. E para completar, pastores que aderiram à onda negacionista e antivacina, usam seus púlpitos e redes sociais para dissuadir os fiéis a tomarem a vacina, alegando, entre outras coisas, que não houve tempo suficiente para as que vacinas comprovassem sua eficácia. Soma-se a isso as teorias da conspiração que dizem que as vacinas vão alterar o DNA humano e associam à marca da besta do Apocalipse.

Como enfrentar esta onda negacionista? Como persuadir as pessoas a serem vacinadas?

Em meio a uma pandemia assassina transmitida pelo contato social, o Brasil acaba gastando tempo precioso para enfrentar o naco de negacionistas que coloca em risco a si mesmos e aos outros. Toda vez que a realidade o desmente, ele se adapta e joga a culpa em outro.

Lembre-se que não se trata apenas de proteger o indivíduo de um eventual contágio pela COVID-19, mas também de proteger toda a sociedade. Se a vacinação não atingir a um percentual significativo da população, sua eficácia não alcançará o resultado esperado, permitindo que a pandemia siga sua marcha destruidora. E aí, os negacionistas tripudiarão, alegando que tinham razão desde o início.

Fico imaginando como foi que Moisés conseguiu convencer a todos os hebreus a espargirem o sangue de um cordeiro nos umbrais de suas portas para que ficassem imunes ao anjo da morte que passaria pelo Egito ceifando a vida de todos os primogênitos (Êxodo 12:1-13). Aquela foi a primeira imunização em massa da história. É claro que não se tratava de uma vacina. Mas o paralelo entre o que ocorreu naquela ocasião e o que está ocorrendo em nossos dias é inevitável.

O anjo da morte que está visitando os lares de toda a população mundial é a COVID-19. E o equivalente ao sangue do cordeiro espargido nos umbrais das portas é a vacina, seja ela qual for. Moisés disse que quem não tivesse um cordeiro, poderia lançar mão de um cabrito. Da mesma forma, se não nos for possível recorrer a uma vacina como a da Pfizer que tem mais de 90% de eficácia, recorramos a uma da Oxford/FioCruz que tem 70% ou a uma CORONAVAC do Butantan/Sinovac que tem pouco mais de 50%.

O importante é sermos imunizados o quanto antes. Não se pode brincar com a vida.

Naquela fatídica noite, o anjo da morte passou, Somente os primogênitos dos hebreus foram poupados. Não por serem hebreus, mas por causa do sangue espargido nos umbrais das portas.

O anjo da morte não faz distinção entre hebreus e egípcios. A única coisa que ele respeita é o sangue do cordeiro. De maneira análoga, o vírus não respeita distinções étnicas, culturais, religiosas, sociais ou de qualquer outra natureza. De acordo com a ciência, só há uma maneira de combate-lo: A VACINA.

Já pensou se algum negacionista da época resolvesse inventar um tratamento precoce? Que trabalheira Moisés teria para desfazer o estrago feito pela disseminação dessa mentira.

Os próprios cientistas, diretores da ANVISA, deixaram claro que não há alternativa terapêutica comprovada pela ciência.

Portanto, só nos resta uma esperança quanto ao fim desta pandemia que já ceifou a vida de mais de dois milhões de pessoas (210 mil somente no Brasil). Esta esperança é a vacina.

Sabemos que os cordeiros sacrificados pelos hebreus eram uma representação do Cordeiro de Deus, o Cristo, Aquele em quem encontramos “todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Colossenses 2:3).

Não tenho qualquer dúvida quanto à inspiração divina por trás da descoberta dessas vacinas.

Não me causa qualquer espanto o fato de terem sido descoberta em tempo recorde.

Conforme previsto nas Escrituras, a ciência está se multiplicando. O espaço entre uma descoberta e outra diminui cada vez mais. Seria devastador se tivéssemos que esperar oito ou dez anos até que a vacina contra o novo coronavírus fosse desenvolvida. Provavelmente teríamos um resultado semelhante ao da gripe espanhola que ceifou a vida de cinquenta milhões de pessoas no século passado.

Por isso, só me resta dizer: louvado seja Deus pela vacina!

E quem negar-se a tomá-la, estará tentando a Deus ao colocar em risco a sua vida e a vida de seus amigos e familiares!

Cientistas ganham espaço nas redes sociais, mas ainda é preciso crescer muito para superar a influência de grupos obscurantistas.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Defasagem do vale-refeição dos servidores gaúchos atinge níveis críticos no governo Leite

Além dos salários congelados desde novembro de 2014 e a consequente redução do perda do poder de compra em 39,53% em seis anos, os educadores(as) gaúchos também amargam um auxílio refeição extremamente defasado, de R$ 10,11.

Estudo do Dieese destaca que, até 2018, o Estado vinha realizando reajustes de acordo com o índice geral da inflação, conforme gráfico abaixo. Nos dois anos do governo Leite, no entanto, nem esta correção ocorreu.

Para compor a inflação do período seria necessário um incremento de pelo menos 8,35%, o que representaria 84 centavos a mais por dia, ou R$ 18,57 ao mês. Vale lembrar que este custo não seria repassado integralmente ao governo uma vez que o servidor(a) paga parte do VR com desconto em folha.

O Dieese também ressalta que o preço médio do almoço em Porto Alegre, de acordo com a Associação das Empresas de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador, é de R$ 34,061 (considerado o custo da refeição, bebida, cafezinho e sobremesa).

Assim, o vale conferido pelo Estado equivale a 29,7% do valor médio de uma refeição.

>> Baixe aqui a íntegra do estudo do Dieese

Enquanto isso, a cesta básica na capital registrou alta de 79,7% desde o último reajuste salarial, em novembro de 2014.

No gráfico abaixo, é possível visualizar a variação no preço de produtos selecionados. Os efeitos da inflação não são iguais para toda a população e os gastos com alimentação acabam pesando mais para os que menos ganham, já que grande parte do orçamento é gasto com alimentos.

O Dieese avalia a combinação da alta de preços, arrocho salarial e congelamento do VR como “catastrófica”, notando que ainda que a inflação fosse zero, a maioria dos trabalhadores(as) continuaria com rendimentos muito baixos para fazer frente ao custo de vida.

Vida na roça

“Minha mãe achava estudo a coisa mais fina do mundo. Não é. A coisa mais fina do mundo é o sentimento. Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:  — Coitado, até essa hora no serviço pesado. Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente. Não me falou em amor. Essa palavra de luxo”. (Poema Ensinamento, Adélia Prado)

Muitos, como eu, nasceram e viveram a infância na roça. Eu sinto orgulho de ser um filho da roça, porque a vida no “interior” me ensinou valores finos e refinados.

Na companhia de árvores frutíferas, animais, nascentes, riachos e lavouras, as pessoas que lá residem formam verdadeira comunidade. Comunidade quer dizer comunhão, integração, relação. Esta comunhão se perdeu na vida urbana atribulada e estressante.

Histórias de famílias que vivem na roça e produzem seus alimentos. Assista aqui: Família que vive no sítio e produz seus alimentos.

O tempo na cidade tem de ser um tempo ocupado. O tempo na roça segue o ritmo da própria natureza. Só agora entendi razões pelas quais meu avô paterno, um agricultor das antigas, quando dizia que, quando fora mais jovem, os anos não tinham pressa para passar e que, de repente, o tempo foi “aligeirado” também na roça. Um tempo ocupado com mais coisas para fazer tem mais pressa. Acontece que nas cidades não temos mais tempo para curtir o próprio ritmo (do tempo) porque temos muitas coisas a fazer, o tempo todo.

Roça é um lugar de fartura, mas também de muito trabalho. Iludem-se aqueles que pensam que uma “chácara” é um lugar maravilhoso sem dar muito trabalho. Para quem não pode oferecer seu trabalho, terá de ofertar dinheiro para que alguém cuide, zele e organize o ambiente, para poder desfrutá-lo lindo, aconchegante e organizado.

Não podemos romantizar o trabalho de quem cuida da terra; é preciso reconhecê-lo e valorizá-lo com a grandeza que ele merece.

Quantos, como eu, matam saudades de sua terra visitando propriedades que ainda resistem em levar adiante um estilo de vida interiorano! Colhem, no inverno abundante das frutas, o sabor de suas saudades e recordações. Visitam, no verão, matas, riachos, casas, salões comunitários, em busca de algo que um dia deixaram para trás: a simplicidade e a compaixão pela terra.

Rafael Duckur, um jovem agricultor, revela lições e aprendizagens generosas que o mesmo obtém na relação e no cultivo da terra, esperando que todos nós possamos encontrar nosso lugar nessa grande ecologia. Confira: Uma Vida Mais Gentil.

Como ilustram os versos no início desta reflexão, os valores da roça confundem-se com as necessidades mais imediatas de quem lá reside e faz de seu trabalho e suor o próprio modo de vida. Os pequenos agricultores ou camponeses ainda preservam os valores da gratuidade e da reciprocidade que aprenderam na relação com os outros, com a natureza e com o mundo.

Nem tudo na roça tem preço, mas tudo na roça tem o seu valor.

As relações com a natureza, particularmente através das semeaduras, reservam ao homem e à mulher do campo a noção do tempo, que é a noção aproximada de paciência. Quem espera colher, precisa saber esperar. Quem espera colher, precisa pacientemente acompanhar a renovação da vida em cada amanhecer e em cada anoitecer. Quem deseja recuperar a terra, precisa investir insumos, cuidados e tempo.

Só podem sentir saudades aqueles e aquelas que já experimentaram a vida da roça. Para estes, são necessárias brechas em sua conturbada agenda urbana para cultivar flores, frutas, hortaliças, chás, verduras. Não há nada mais contagiante e gratificante do que o alvorecer de vidas que dependem de terra, de ar, de água e de cuidados pacientes e permanentes.

A natureza nos permite a compreensão da própria existência. A vida na roça nos fornece importantes aprendizagens sobre os próprios desafios do ser humano. Valorizando a terra, estaremos sempre valorizando a nossa dimensão de humanidade e dignidade.

NOTA DE ADVERTÊNCIA:

“Esta reflexão, uma das primeiras publicações do site (15/08/2015), é
uma das mais acessadas e agora segue revisada, em respeito aos
leitores e leitoras. Confira a primeira versão: https://www.neipies.com/vida-na-roca/

Autor: Nei Alberto Pies

Créditos das fotos e edição: Alex Rosset

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