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O “Novo Normal” é uma Vaca!

O “Novo Normal”
é uma Vaca seguindo
a manada.


O que é isso que todos começam a chamar de “Novo Normal”? Qual era mesmo a “velha normalidade”? E a pergunta que mais deve(ria) incomodar: O que é “normal”?

Poderia destrinchar uma série de teorias que convergem e divergem sobre esse conceito. Tudo, porém, de alguma forma levaria à mesma conclusão que canta Caetano Veloso: “De perto, ninguém é normal / Às vezes, segue em linha reta / A vida, que é ‘meu bem, meu mal”. E ao que parece, a vida, essa “Vaca Profana”, tem seguido a linha e nada há de efetivamente novo na aparente “normalidade”. A não ser que a “normalidade” seja essa absurda indiferença humana, as contradições sociais, culturais, econômicas que apenas se revelam ou permanecem veladas, mas de alguma forma mais provocativas, no contexto de um novo tipo de pandemia mundial.

De toda forma e ao que tudo indica, apesar disso, prevalece o entendimento da vida e da morte, na visão apenas do que é “meu” e não “nosso” bem ou nosso mal.

Ou seja, passado o susto da impotência inicial, prevalecido o contágio da ignorância, da indiferença e “eu” fragmentado e isolado na “bolha comum”, a pandemia começa a se tornar aquilo com a qual e sem a qual tudo continua tal e qual. Esse é o significado e o sentido que consigo entender daquilo que, apesar de ser incomum, caótico e intensificar as mazelas da condição humana, começa a ser entendido como “novo normal”. Ou seja, seria como parafrasear a canção do poeta e dizer: Vaca profana mantém teus cornos para dentro e junto com a manada. “Derrama o leite bom na minha cara / E o leite mau na cara dos caretas”.

Os caretas modernos dos tempos de pandemia que fiquem com o leite mau dessa vida, Vaca Profana das divinas tetas das quais somente os “bons e os justos”, defensores da moral e dos bons costumes, somente aqueles que entendem a vida como a pátria acima de tudo e os privilégios da divina vaca, acima de todos, são dignos de seguir a “vida normal” mesmo que tenham que fingir terem se adaptado à novas necessidades.

Nada vejo muito de “novo” na normalidade que segue. Talvez, novas encenações do cotidiano, mutações superficiais que mal tocam o cerne da existência e perpetuação da negação da dignidade humana em formas atualizadas e adaptadas ao slogan do “Novo Normal”. Vejo apenas as vacas seguindo a manada ao som do mesmo berrante, mesmo que soprado por outro fazendeiro que tão pouco é “novo” e muito menos “normal”.

E por falar em “vaca”, e por apreciar a metáfora da natureza poética, ao rabiscar esses devaneios, flagrei-me diante do livro A Revolução do Bichos, escrito por George Orwell, publicado originalmente em 1945.

Abri o livro exatamente na página na qual meu filho o largou e leio trecho que diz: “Quanto aos outros, sua vida, ao que sabiam, continuava a mesma. Geralmente andavam com fome, dormiam em camas de palhas, bebiam água no açude e trabalhavam no campo; no inverno, sofriam com o frio; no verão, com as moscas. […] não conseguiam lembrar se as coisas tinham sido melhores ou piores que agora. […] Os bichos consideravam o problema insolúvel; de qualquer maneira, dispunham de muito pouco tempo para essas especulações.” (Orwell, ed. 2020, p. 103).

Entendi, assim, porque meu filho- que completa 13 anos neste mês de setembro de 2020 -, antes de ir brincar, fechou o livro e me disse, indignado: “Pai, os porcos são muito filhos da p….”.

Sim, eu sei que nesse momento, alguns dos que me leem, defensores da normalidade, da moral, dos bons costumes e da família “tradicional”, estejam berrando indignados por não ter pedido para meu filho não dizer “palavrão” (embora eu não tenha dito que não o fiz) e pior ainda, por perverter sua educação deixando ler um livro dessa natureza (o qual ele mesmo escolheu sem que tenhamos indicado). Sim, eu sei que isso não é normal e não é novo, seja lá o que você entende por “normalidade”.

Poderia agora retomar uma série de estudos sérios e aprofundados sobre essa complexidade; poderia convidá-lo a refletirmos juntos e apurarmos os nossos argumentos, mesmo que não cheguemos ao mesmo entendimento; poderia convidar você a refletir a respeito do fato de que sob o véu da ideia de um “Novo Normal”, talvez sejamos induzidos a considerar “normal”, comum, aceitável justamente aquilo que deveríamos combater mesmo que tivéssemos que pensar novas formas para isso.

Poderia convidar você ao diálogo que foge dos extremos e a perceber que, talvez, apenas talvez, você e eu pensemos que somos agraciados com o leite bom das divinas tetas, mas não enxergamos que essa Vaca é Profana e nós somos os profanados. Mas, claro, isso exigiria tempo, reflexão, pensamento, e, pior, a coragem de enfrentar a dor que é nos descobrirmos apenas seguindo a manada.

É, sobre o que é “normal”, e se realmente faz sentido falarmos sobre uma “nova normalidade”, parece mais um desses problemas insolúveis e, como dispomos de pouco tempo (mesmo sem saber se realmente usamos o tempo ou nos usam o tempo todo), não vamos nos deter nessas “especulações” de desocupados improdutivos. Segue a manada, afinal, o “novo normal” exige recuperar o “leite derramado”. O “Novo Normal” é uma Vaca seguindo a manada.

Fico me perguntando na leitura que faço dos que se apressam com o “novo normal”, preocupados que estão com a tão “insuportável anormalidade” da pandemia: como será o “novo normal” para os/as desempregados/as, os precarizados/as, os subempregados/as, os/as “sem-direitos”, os/as de sempre, os/as de antes e os/as de agora, ainda mais precarizados em razão do impacto que a crise pandêmica produziu em suas vidas? Haveria “vidas matáveis”, “humanos descartáveis”, “humanos essenciais” no “novo normal”? (Paulo César Carbonari) Leia mais, clicando aqui.



Autor: Sidinei Cruz Sobrinho
Sobre o autor: Um bicho tentando se manter anormal em tempos de “novas normalidades”. Também estudou Direito, Filosofia, é professor, é estudante e você pode criticar ele diretamente a ele pelo e-mail sidineicsobrinho@gmail.com

CEPRES discute religião, religiosidade e políticas públicas em evento virtual

O Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (Cepres), da Universidade Federal do Amapá (Unifap), realizará o I Encontro Internacional em conjunto com o III Evento Cientifico. Os eventos serão entre os dias 21 e 26 de setembro, pela plataforma Google Meet e Youtube, no canal Observatório TV.

Veja mais aqui.

O grupo de pesquisa foi criado em 2013 pelos Docentes Marcos Vinicius de Freitas Reis e Andrius Estevão Noronha nas dependências da Universidade Federal do Amapá com o intuito de estudar as manifestações religiosas no Brasil e no mundo. Inicialmente, as atividades eram reuniões mensais para discussão de textos acadêmicos.

Com o interesse crescente dos alunos pela discussão do tema iniciamos a organização de rodas de conversa, palestras, mesas redondas, eventos científicos, organização de livros, dossiês e cursos de extensão.

Entre os anos de 2016 a 2018, o foco do grupo foi o combate a intolerância religiosa e a defesa da laicidade. Organizamos várias iniciativas para proteção ao direito da liberdade religiosa, sobretudo das religiões de matriz africana. A nossa ideia que políticas públicas no enfrentamento a intolerância religiosa seja realizadas em âmbito local e nacional.

“Para teólogo João Moura, o Brasil ainda tem dificuldade pra efetivar Estado laico. “Por uma série de fatores, a religião foi se apoderando de maneira muito forte e rápida do Estado brasileiro. Hoje temos organizações do governo que dizem que o projeto é a criação de um Brasil terrivelmente evangélico. Pra gente garantir um país em que todas as religiões sejam respeitadas, é preciso garantir que todas as religiões tenham plena liberdade, mas também que o Estado não seja um aparato que uma religião ou outra seja hegemônica”, defendeu Moura. Leia mais aqui.

No ano de 2019 ajudamos na construção do Referencial Curricular Amapaense do Ensino Religioso na Base Nacional Comum Curricular do Amapá (RCA). A ideia é ter um currículo laico, plural e diverso.

Atualmente o grupo reúne mais de 20 pesquisadores e dezenas de estudantes de graduação e pós-graduação.



Sobre os eventos

O I Encontro Internacional e III Evento Cientifico do CEPRES terão 3 minicursos, entre os dias 21 e 25 de setembro, transmitidos pelo Observatório TV:

– A Transposição Didático do Ensino Religioso, ministrado pelo Dr. Sérgio Junqueira, docente da PUC-SP.

– Marabaixo – Cultura Amapaense, ministrado pela Prof.ª Laura Cristina da Silva, vice-presidente da associação cultural Raimundo Ladislau.

– História da Bruxaria, ministrado pelo Prof. Giivago Barbosa de Oliveira, vulgo Álex Hylaios, sacerdote wiccano.

A programação completa pode ser conferida aqui

Submissão de trabalhos

A Comissão Científica do evento recebe submissão de trabalhos entre os dias 31 de agosto até 11 de setembro. Serão aceitos trabalhos de todas as áreas do conhecimento, desde que dialoguem com a temática de religião. 

Podem submeter trabalhos graduandos, graduados, especialistas, mestrandos, mestres, doutorandos e doutores. Estes trabalhos serão apresentados via Google Meet, nos dias do evento no período da tarde, para mais informação confira o edital. As inscrições para participar do evento podem ser feitas aqui.



Tome nota

Além dos minicursos e da apresentação de trabalho, entre os dias 21 e 26 de setembro, acontecem diversas palestras com temáticas voltadas ao estudo da religião, tendo como palestrantes pesquisadores, professores, lideranças religiosas, estudiosos nacionais e internacionais. Veja mais aqui.

Autor: Marcos Vinicius de Freitas Reis, Professor da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP) do Curso de Graduação em Relações Internacionais. Possui graduação em História pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU) e mestrado em Ciência Política pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR). Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Docente do Curso de Pós-Graduação em História Social pela UNIFAP, Docente do Curso de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTORIA). Membro do Observatório da Democracia da Universidade Federal do Amapá. Docente do Curso de Especialização em Estudos Culturais e Politicas Públicas da UNIFAP.  Líder do Centro de Estudos de Religião, Religiosidades e Políticas Públicas (CEPRES-UNIFAP/CNPq). Interesse em temas de pesquisa: Religião e Politicas Públicas. E-mail para contato: marcosvinicius5@yahoo.com.br

Desejos

Como dizia Sêneca,
“a pobreza não vem da escassez
de recursos, mas da
proliferação dos desejos”.


Há muitos anos, depois da aposentadoria, meu pai se deu de presente um carro importado. Bonito e vistoso, mas claramente exagerado para um sujeito de classe média.

Passado um ano da compra, meu irmão viu estacionado perto de sua casa o recém lançado novíssimo modelo desse mesmo carro que meu pai tinha comprado no ano anterior.

Como sempre, as mudanças eram pequenas. Faróis mais redondos, linhas levemente alteradas, alguma inovação tecnológica no painel com desenho diferente, mais “arrojado”. O que conta mesmo – motor, chassis e lataria – ficam iguais de um ano para outro, mas, o que importa é o impacto da aparência gritando na cara dos outros.

Quando viu o carro ficou impressionado com o luxo e a sofisticação. A frase que me disse, entretanto, é que foi curiosa.

– Vi o novo modelo do carro que o pai comprou. Cheguei a ficar com pena dele dirigindo aquele carro velho.

Sim, como dizia Sêneca, “a pobreza não vem da escassez de recursos, mas da proliferação dos desejos”. Toda a riqueza acima do limite das necessidades é governada pelos desejos, e estes são infinitos e incontroláveis.

Um carro importado, lindo e sofisticado, pode virar pó diante da comparação com uma variedade mais nova e mais moderna. Não é a falta de recursos que o torna velho, mas o desejo despertado pela novidade.

Meu irmão nada disse para o meu pai, mas também acho que ele não cairia no truque.

Apesar de ser admirador de carros charmosos, ele não sucumbiria tão facilmente à armadilha da comparação. Curiosamente, esse carro cheio de símbolos de opulência só lhe ofereceu problemas e dores de cabeça, inclusive o desastre de ter o carro roubado em um assalto à mão armada. Eu havia lhe avisado que seu carro era um “chama-ladrão”, mas parece que o desejo de realizar um sonho infantil foi maior que o bom senso.

Depois desse episódio traumático resolveu refrear seus desejos e voltou a ter carros mais simples, como fazem as pessoas de juízo.

“A sociedade organiza seus meios de produção, seguindo uma lógica de consumismo. Produtos são criados e lançados no intuito de nos convencer de que consumi-los é como uma condição de participar da vida em sociedade. Não consumir determinados produtos é como “estar fora de”, não participar da dinâmica da comunidade global. Daí a necessidade das propagandas, sempre bem elaboradas, criativas, dizendo sempre aquilo que desejamos ver, ouvir e saber” (Nei Alberto Pies). Leia mais aqui.



Sugestões de uma atividade pedagógica – Disciplina Filosofia

Esta atividade pode ser trabalhada com estudantes do Oitavo Ano do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio.

No Oitavo Ano, Unidade temática: Ética. Objeto de Conhecimento: Dilemas éticos: cidadania e consumo responsável Habilidades: (EF08FL01PF03) Pensar sobre conceito de identidade e a relação com a sociedade de consumo para compreender-se e agir com responsabilidade e autonomia.

Questões para pensar criticamente:

  1. Reescreva a crônica “Desejos” ou escreva uma nova crônica envolvendo um objeto de seus desejos, ou desejos de alguém da sua família.
  2. Por que “não é a falta de recursos que torna as coisas velhas, mas o desejo despertado pela novidade”? (por exemplo um celular)
  3. Você entendeu a frase do sábio Sêneca: “a pobreza não vem da escassez de recursos, mas da proliferação dos desejos”? Como interpreta esta frase?
  4. Por que é preciso aprender refrear nossos desejos? Por que não dá para viver escravo deles?



Ricardo Herbert Jones, médico.

Experiências educadoras significativas

Contar a história desta educadora é resgatar um pouco do esforço de outras tantas pessoas e movimentos sociais que foram além da crítica à escola formal; foram capazes de realizar e comprovar a importância de experiências metodológicas de educação popular.

Soloá Citolin é educadora, por essência. Na sua formação acadêmica e na sua trajetória de educadora, pode experimentar diferentes experiências que vão desde a sua atuação em escolas particulares, escolas estaduais e também em escolas ou projetos que se propunham a uma educação popular (Projeto Integrar Metalúrgicos, Escola de Braga (ligada aos movimentos sociais) e Escola Josué de Castro do MST que abrange a Via Campesina e Escola Sindical Sul (de formação de lideranças sociais e Ensino Profissionalizante).

Sua formação inicial é em Pedagogia. Suas especializações: Sociologia da Educação, Psicopedagogia e Arteterapia.

Conhecemos Soloá já na sua fase madura, como pessoa e como profissional. Nos anos 1997 a 1999, estivemos juntos na realização do Projeto Integrar dos Metalúrgicos, um projeto de elevação de escolaridade com qualificação profissional. Sempre exigente com seu trabalho pessoal, mas muito empenhada em valorizar os esforços e as habilidades dos jovens educadores e educadoras como a gente.

Contar a história desta educadora é resgatar também um pouco do esforço de outras tantas pessoas e movimentos sociais que foram além da crítica à escola formal; foram capazes de realizar e comprovar a importância de experiências metodológicas de educação popular.

Soloá Citolin, por ela mesma.

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SITE NEIPIES: Como, quando e porquê nasceu a ideia de ser educadora?

Soloá Citolin: Na verdade meu sonho de criança era ser arqueóloga. O Ensino Médio escolhi fazer magistério e acabei gostando e fui ficando.

SITE NEIPIES: Seu pai viajava pelo Estado do RS para ajudar na construção de escolas do campo (as famosas Brizoletas). Esta história de seu pai te inspirou a seguir o caminho da educação?

Soloá Citolin:  Não porque eu era muito pequena. Mas ver minha mãe não medir esforços para assistir comícios do Brizola e falar sobre política a partir das concepções brizolistas acho que criou em mim, em nível de inconsciente, esta busca por mudança e justiça social.

SITE NEIPIES: Desde o início, ainda jovem, já conciliavas família e profissão. Como foi esta experiência?

Soloá Citolin: Bem difícil. Ter filhos pequenos, estudar e trabalhar exigiu muito esforço. Lecionava no interior, voltava e tinha 15 minutos para almoçar e pegar novo ônibus e ir para a faculdade. E a noite com filhos, estudo e preparação de aulas. Geralmente eu preparava minhas aulas no final de semana, mas também fazia o serviço da casa, cuidava os filhos, fazia trabalhos da faculdade e lia os livros que os professores pediam. A maioria das professoras passaram por isso.

SITE NEIPIES: Que lições tiraste a partir de tua atuação em escola particular, escolas estaduais e escolas de movimentos sociais e sindicais?

Soloá Citolin: Sempre digo que tive sorte neste sentido. Foi uma benção ter tido estas experiências. Na escola pública vi como era ter que enfrentar o sistema. De um lado querer colocar em prática a teoria aprendida nos livros de outro a realidade nua e crua, onde a fome, a miséria, a violência contra as crianças e suas mães me colocava na realidade mais dura e sofrida que eu já tinha visto.

Muitas crianças levavam os cadernos para casa e não traziam mais. Eu dava outro que acabava não voltando também. Até que descobri que o caderno servia para fazer fogo ou um irmão pequeno fazia xixi em cima, porque o caderno era guardado embaixo das cobertas onde dormiam. Passei a visitar as casas e foi ai que comecei a ver e entender a realidade e a mudar minha estratégia/planejamento pedagógico. Só aqui poderia escrever um texto sobre minha experiência.

Na escola particular foi excelente porque era de irmãs franciscanas e um grupo estava engajado com a teoria de Paulo Freire. Então aprendi e contribui em muitas construções inovadoras.

Com os Movimentos Sociais foi muito bom porque lá podia colocar as teorias que eu tinha estudado e aprendido na prática. Era uma pedagogia alicerçada na base social que visava e visa até hoje não só a construção do conhecimento, mas a transformação social. Aprendi muito com eles. Ali lecionei e coordenei cursos e participei de uma caminhada histórica. Uma longa história também com muito para contar.

Com o Movimento Sindical foi outra experiência marcante. Construímos uma proposta pedagógica com elevação de escolaridade, mas com uma organização curricular que tinha como mote principal o trabalho como princípio educativo. Aprendi e vivenciei muitas experiências marcantes. Também muita história para contar.



SITE NEIPIES: Qual é a crítica mais contundente que podemos fazer ao Ensino ou Escola regular/formal?

Soloá Citolin:  Penso que é o formato do currículo que me parece desvinculado da realidade da vida. A organização curricular e a organização da escola deveriam, a meu ver, serem repensadas.

SITE NEIPIES: Qual é a contribuição das experiências educativas, gestadas pelos movimentos populares e sociais, para qualificar a educação brasileira, de modo geral?

Soloá Citolin:  Elas tem muito a dizer e ensinar se fossem ouvidas, mas infelizmente não é assim que acontece. Ao longo da história, podemos ver, ler e estudar várias experiências exitosas que poderiam servir de luz, não para copiar, mas para mostrar que é possível uma educação transformadora alicerçada na realidade do sujeito.

SITE NEIPIES: Por que as escolas formais do Brasil ainda têm tanta dificuldade de aceitar ou assimilar metodologias de educação popular?

Soloá Citolin: Penso que tem vários fatores. Um é a concepção de educação que tem cada gestor público. Cada troca de governo muda tudo e as escolas estão em um eterno recomeçar. Também há uma visão conteudista, preparatória para vestibular ou ensino profissionalizante, ou seja, uma visão unilateral, alienada e reificada. Esquece-se que o ser humano é um ser omnilateral, que precisa de um conhecimento teórico/prático a partir da realidade social onde vive, do aqui e agora até o conhecimento mais amplo que permita ler a realidade local e geral. Entre outros.

SITE NEIPIES: Qual foi, desde sempre, a importância da leitura e da literatura na tua formação e atuação como educadora?

Soloá Citolin: De total importância. Sem leitura não há conhecimento. Quem não lê mal, escreve e tem grande dificuldade de refletir, analisar e sintetizar. Eu amo ler. A leitura é o ar que respiro e o alimento para minha mente e minha alma.

SITE NEIPIES: Agora estás distante das salas de aula, mas atenta aos movimentos e desafios da educação. O que dizer sobre a educação no Brasil, em tempos de pandemia e isolamento físico e social?

Soloá Citolin: Vivemos tempos sombrios. Em uma conjuntura onde se jogou toda a responsabilidade educacional em cima do professor que não tem mais horário e nem vida porque deve ficar disponível para os alunos e pais o tempo todo.

O mais surreal que vejo é quando os meios de comunicação falam se devem voltar às aulas presenciais ou não, pedem a opinião de governantes, pais, alunos, jornalistas, representantes de ONGS e nunca para os professores. Quando falam sobre ensino a distância e presencial entrevistam todos, menos os professores. Parece que o professor é um ser invisível na hora de ser ouvido, mas muito visível na hora das cobranças. Penso que desta forma o processo educativo não pode melhorar.

SITE NEIPIES: Uma frase que ajude a definir a sua pessoa e a sua trajetória educadora.

Soloá Citolin: Sou uma eterna aprendiz com uma ânsia infinita para adquirir novos conhecimentos.

SITE NEIPIES: Que mensagem aos teus colegas professores e professoras neste momento histórico?

Soloá Citolin: Não sofra sozinho/a. Lute engajado/a com sua categoria. Com o grupo nos fortalecemos e no grupo nos apoiamos e avançamos. Não há saída individual. A luta pela educação de qualidade, para todos e transformadora passa pela luta social.

Enfermeira: uma profissão de CUIDADO

Nelci Zorzi, 54 anos, é mãe, enfermeira Obstetra e Doula. É Mestre em Enfermagem e professora. Uma profissional dedicada e realizada em sua profissão. Quando fala de enfermagem, é grande entusiasta e defensora destes profissionais que tanto se dedicam ao CUIDADO na área da saúde.

Acompanhando as mulheres durante a gestação e nascimento, pós nascimento como enfermeira obstetra e Doula, revela-se uma grande parceira e um importante suporte para a boa condução deste importante acontecimento (o nascimento) para toda a família.

Realiza atendimento domiciliar e hospitalar, cursos para casais grávidos e assistência de enfermagem obstétrica para gestantes e parturientes na hospitalização e domicílio durante o parto natural humanizado e cesareana humanizada. Cuida da mãe e bebê – família após o nascimento, prestando cuidado ao recém-nascido, consultoria em aleitamento materno entre outros cuidados.

Empreendeu, também, na Bem Acolher, Centro de Atendimento a gestantes.

Conheçamos Nelci Terezinha Zorzi, por ela mesma.

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SITE NEIPIES: Como, quando e porquê decidiste ser enfermeira?

Enfermeira Nelci Zorzi: Meu desejo desde criança era ser enfermeira e trabalhar num hospital. Saí de São João Da Urtiga em 1983, para estudar em Sananduva, num município vizinho de São João da Urtiga. Na época, nosso município era distrito de Paim Filho, município vizinho também. Não tínhamos o “segundo grau” (hoje Ensino Médio) no colégio daí fui em busca do meu sonho de estudar. Meu pai sempre falava pelo menos os três últimos filhos devem estudar, pois somos uma família numerosa de 11, 10 filhos vivos.

Lembro até hoje do dia que meu irmão e minha mãe foram me levar até Sananduva, iria morar em casa de família, trabalhar de doméstica e estudar à noite. Tinha 15 anos, era magrinha, pequena, quando a “Dona Gema Salvador” que era fotógrafa conhecida na cidade me recebeu, olhou pra mim e se surpreendeu. Depois me relatou o que pensou: “O que vou fazer com essa menina magrinha, não vai saber fazer nada em casa, os serviços da casa, comida, cuidar de roupas…. Para sua grata surpresa, fazia tudo… pois minha infância foi de aprender trabalhar desde cedo, com os pais agricultores. Meio turno íamos a escola o outro turno íamos pra roça e ajudávamos nos afazeres de casa… mas brincávamos muito também… fugíamos logo depois do almoço brincar, eu meu irmão mais novo Claudiomiro e minha irmã Nair.

Nossas brincadeiras eram muito diferentes das que temos hoje. Subíamos em arvores, brincávamos no meio dos grãos de soja que tínhamos nos galpões (chamados de Paiol). Fazíamos “casinhas” em baixo das árvores.  E muitas outras brincadeiras com vizinhos, primos, amigos…, cata vagalumes a noite, jogar bola, caçador, espiribol… Mas meu sonho de ser ENFERMEIRA estava guardado em meu coração.

De Sananduva vim a Passo Fundo fazer a prova para Auxiliar de Enfermagem no HSVP (Hospital São Vicente de Paulo) em 1987, com ajuda da família de Dona Ione Chiocheta, onde, naquele momento trabalhava como empregada doméstica. Fui aprovada, cursei Auxiliar de enfermagem, comecei trabalhar no HSVP no mesmo ano (1988), e em 1989, me desafiei a fazer vestibular na UPF e então iniciei a faculdade com turno integral e trabalhando à noite. Foi um grande desafio, mas a determinação para vencer o cansaço físico e dificuldades financeiras para estudar, me sustentar com aluguel, alimentação, transporte etc… Venci um passo de cada vez.  Os acessos a tudo eram muito mais difíceis do que temos hoje.

Mas meu sonho se concretizou, de estar atuando no cuidado das pessoas, atuei por 14 anos no hospital como enfermeira ssistencial, depois segui como docente que já atuava desde 1994 na UPF, no curso Técnico de Enfermagem e, em seguida, na graduação. Como docente por 22 anos! Neste tempo todo estava em contato no ensino da enfermagem e em 1999 junto a empresa SAMUR- Emergências médicas, montamos eu e uma colega enfermeira Maristela Rodrigues a Enfermagem Domiciliar, onde fazíamos desde procedimentos variados a Home Care.

Nesta caminhada, fiz duas especializações, uma delas Enfermagem Obstétrica na UNISINOS, Mestrado na UFRGS e cursos na área da Humanização do nascimento, Parto, Atendimento Obstétrico de Enfermagem à nível domiciliar e curso de Doula, para agregar no meu currículo.

SITE NEIPIES: O que mais realiza e desafia como enfermeira?

Enfermeira Nelci Zorzi: O que mais me realiza é estar junto, na gestação, acolher e acompanhar a mulher no parto, no nascimento. Cada nascimento, para mim, é um Renascimento. Ver a alegria, a emoção do nascer no parto, é algo mágico, emocionante, transformador. Uma renovação, VIDA!

Hoje, meu maior desafio é estar e seguir apoiando, encorajando, empoderando as mulheres, os casais, na busca do parto natural humanizado, que estes sejam respeitados no plano de parto de sua escolha. Que o filho deste casal seja recebido com amorosidade e acolhimento, respeitando a Golden HOUR: hora dourada (contato pele a pele logo após o nascimento, o bebê deve ser entregue à mãe para que tenham contato pele a pele. Deve ser estimulado que o bebê seja amamentado pela mãe o quanto antes).

Sabemos que temos um sistema no Brasil com alto índice de cesareanas eletivas, cesareanas desnecessárias, e estamos sempre levando informações aos casais durante a gestação da importância de se aguardar o bebê sinalizar que está pronto para nascer, de se ter a possibilidade da mulher entrar em trabalho de parto, de ser a protagonista do seu Parto.  E desmistificar o parto, pois temos muitas informações inadequadas sobre o processo de parir. Estamos sempre nos desafiando, pois o sistema vigente nem sempre segue o que é recomendado pelo Ministério da Saúde nos programas de Humanização do Nascimento. Muitas vezes remamos “contra a maré”.

Nosso papel na Assistência em ENFERMAGEM OBSTÉTRICA é primordial para garantirmos uma adequada assistência á mulher na gestação, parto e pós parto. E fazer um trabalho em equipe multidisciplinar, com isso quem sairá ganhando são as mulheres e suas famílias.

SITE NEIPIES: Dentre os profissionais da saúde, os enfermeiros e enfermeiras têm o devido reconhecimento?

Enfermeira Nelci Zorzi: Dedicamos a vida aos pacientes. A Enfermagem é a profissão do cuidado, cuidamos com o coração, olhamos para o ser humano como um todo; eu não consigo ver de outra forma. A enfermagem tem um papel fundamental no cuidado, no ensino de educação ao autocuidado. Somos qualificados pra atuar na assistência de qualidade, nas instituições hospitalares, nas instituições que cuidam de idosos, na atenção básica, no atendimento domiciliar, no ensino, pesquisa, etc.

Infelizmente, temos um estigma de ser uma profissão auxiliar outras categorias de profissionais, mas não somos meros auxiliares. A enfermagem é curso superior como outro, temos nível superior, temos muitos enfermeiros com Mestrado, Doutorado, Pesquisadores, etc.

Muitas pessoas valorizam a Enfermeira(o) quando realmente precisam, vejam agora na Pandemia. O papel fundamental no cuidado que a enfermagem está tendo. E, infelizmente, muitas instituições não reconhecem e não tem um plano de cuidados destes profissionais que estão na frente e adoecendo também. Perdemos muitos colegas de enfermagem no Brasil nesta pandemia.

Mas eu vejo muita mudança nos últimos anos, pois o enfermeiro buscou a autonomia de sua profissão, temos muito espaço ocupado pelo enfermeiro (a) e sendo ocupados lindamente com muita eficiência, liderança e gestão de qualidade.

Vídeo do IbacBrasil – Tecnologias Educacionais, apresenta Enfermagem como profissão do CUIDADO. Veja aqui:



SITE NEIPIES: O que significa Enfermagem, a profissão do Cuidado?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Cuidar vem desde o nascimento, alguém precisa nos cuidar ou morreremos.  E precisamos ser cuidados até o final de nossa vida. Entendo que cuidar é apoio, troca de idéias, ajuda, atenção, solidariedade, tomada de decisões, sempre embasados no conhecimento técnico e cientifico, promovendo e mantendo o bem-estar.

É estar envolvido no processo, cuidar com qualidade, proporcionar o melhor para se obter o melhor resultado, independente se for um simples procedimento ao mais complexo, se envolve equipamentos, monitores, exames ou simplesmente ouvir a pessoa que estamos cuidando.

Cuidar com o coração, com amorosidade, alicerçado no conhecimento cientifico e na compaixão, para que nossos pacientes recuperem o mais rápido possível sua integridade física e moral.

Cuidar é doar, amar, se colocar no lugar do outro.

Quando estou, por exemplo, acompanhando um trabalho de Parto, me entrego totalmente a este processo. A mulher precisa de mim inteira, conectada, apoiando, mostrando confiança. Trabalho para que esta pessoa que estou cuidando tenha um cuidado digno e respeitoso.

SITE NEIPIES: O que significa conciliar o trabalho de Enfermagem Obstétrica e de Doula com o trabalho de ensinar os fundamentos da profissão, como professora?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Incluiria aqui o papel de mãe, que amo e é grandioso. Vejo que tudo tem uma ligação, não tem como desconectar.  Nosso cuidado está sempre ligado ao ensino, emeducação continuada, em promover a saúde e bem estar.

Como enfermeira assistencial, enfermeira obstétrica, professora, doula, minha caminhada também foi e ainda é muito voltada a área materno infantil, sempre no intuito de melhorar a assistência obstétrica e neonatal e iniciativas de resgate e estímulo ao parto natural que vem ao encontro com as ações propostas do Ministério da Saúde e outros órgãos como OMS e OPAS.

Através da enfermagem na defesa da saúde materno-infantil, aleitamento materno e educação permanente. Através da Bem Acolher segui mais focada aos cursos para casais grávidos e capacitação para profissionais que atuam com o atendimento de gestações, parto e pós-parto. Também na assistência de enfermagem obstétrica para gestantes e parturientes na hospitalização e no domicílio, durante o parto natural, cesarianas e período pós nascimento. Sempre estou comprometida com a atuação ética e humanizada. Todos os serviços desenvolvidos respeitam e buscam um equilíbrio com equipe multidisciplinar,

SITE NEIPIES: Durante a pandemia e a crise do isolamento social, qual é a importância do trabalho dos enfermeiros e enfermeiras, sobretudo nos postos de saúde e hospitais?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Vejo que é um grande desafio aos colegas que se encontram nesta linha de frente. Eu, como enfermeira, não atuo mais diretamente como funcionária de instituições hospitalares ou públicas. Como mencionei, sou enfermeira obstetra e hoje desenvolvo meu trabalho atuando num serviço no qual sou idealizadora, que é a BEM ACOLHER- Atendimento obstétrico de enfermagem, diretamente com gestantes, casais grávidos, mães com seus bebês, consultoria em amamentação etc..

Na pandemia, o desafio é estar cuidando destas gestantes no nascimento e pós nascimento. Estamos tendo dificuldades em entrar em algumas instituições, pois o protocolo é apenas um acompanhante por gestante, que no caso será o companheiro (a), esposo.

Mas seguimos realizando partos humanizados onde está sendo possível e amparando estes casais, pois, pelo isolamento social, ficam sem o suporte de suas famílias no auxílio dos cuidados com a mãe e bebê, cuidados domésticos etc, o que acaba sobrecarregando esta mulher que acabou de ter seu filho. Este é um momento de muita necessidade de apoio afetivo, emocional e físico. Então, para nós da enfermagem, se faz necessário seguir com nosso cuidado técnico-científico e amoroso.

Como classe, vale pensarmos em como as autoridades em saúde, as instituições, sindicatos, Conselho de Enfermagem estão pensando no suporte de cuidados a nós profissionais. Que perspectivas, que projetos, o que a legislação está prevendo para cuidar dos profissionais de enfermagem que estão nesta pandemia? 

Como será o cuidado de quem cuida? Que ações estão sendo desenvolvidas dentro do ambiente de trabalho para que promovam a saúde física e mental destas enfermeiras (os)?  Suas famílias estão recebendo apoio psíquico e emocional?

O cuidador enfrenta diversas situações e fatores no ambiente de trabalho que afetam a sua integridade física, psíquica e emocional. Este é um questionamento importante de ser feito: que suporte está recebendo?



SITE NEIPIES: Como imaginas o futuro da enfermagem no pós pandemia?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Sairemos fortalecidos, pois para a classe da Enfermagem, esta pandemia veio a fortalecer nosso compromisso de CUIDAR.

Nossa percursora da enfermagem, criadora da primeira escola de Enfermagem, FLORENCE NITGHALE, se destacou por cuidar de feridos em batalhas, ficando famosa na Guerra da Criméia. Em 1854, durante a Guerra da Crimeia, quando a o Inglaterra, França e Turquia enfrentaram a Rússia, Florence foi levada ao campo de batalha, onde assumiu a chefia do corpo de Enfermagem do exército britânico na Turquia. Alarmada com o alto índice de mortalidade causado pelo tifo e pela cólera, concluiu que as doenças hospitalares estavam matando mais do que os campos de batalha.

Com uma coleta constante de dados e aplicando os métodos de Quetelet, Nightingale organizou registros e estatísticas montando diagramas de área onde visualizou, mês a mês, que o rigor na assepsia fazia decrescer as mortes por infecção. Seu trabalho baseado em evidência foi responsável pela diminuição de mais de 70% das mortes de soldados feridos em batalhas, por decorrências de atendimento médico inadequado da época.  E cá estamos nós, de novo na linha de frente, no enfrentamento de uma pandemia, tratando de doentes desta pandemia, adoecendo também e muitos perdendo a vida nesta caminhada.

Como profissionais de saúde, entendo que situações como esta nos trazem, como classe, muitos questionamentos, amadurecimento, revisões de nossas funções e condutas e, principalmente, novos horizontes no cuidado, incluindo além de cuidar, muito mais espaço para o ensino e pesquisa.

SITE NEIPIES: Na tua visão, como sairemos desta pandemia? Que ensinamentos podemos levar deste período de imposição do isolamento físico e social?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Eu acredito Nei, que depende como a encaramos. Se persistirmos com medo, pensamentos negativos, será mais delicado. O que vejo, é que temos muitas inseguranças quanto a questão de nossa integridade física e mental, quanto a questões financeiras e, principalmente, quando terminará esta Pandemia, se teremos vacina para proteger toda população, etc…

O medo e as impossibilidades de prever o futuro estão permeando nossa sociedade. Não sabemos se estaremos livres de nos contaminarmos com o COVID- 19. É uma guerra de inimigo invisível. Temos amigos, conhecidos, pacientes, adoecendo, morrendo…isto nos deixa instáveis…

Ainda temos como conseqüências da pandemia outras doenças que o isolamento social  e físico  trazem, que podem estar sendo esquecidas: depressões, pânico, abandono etc.. Sairemos desta, quando e como?  Depende como encaramos o medo, as fragilidades e como desenvolvemos a Solidariedade. E, principalmente, como encaramos e nos relacionamos com nosso próprio EU, e nosso próprio lar.

Não entrar no fluxo energético de negativismo e medo e sim do Amor e Perseverança!

SITE NEIPIES: Uma frase que define tua vida.

Enfermeira Nelci Zorzi:  Duas frases: “A paz do mundo começa em mim”! E “Para mudar o mundo, é preciso antes mudar a forma de nascer” (Michel Odent – obstetra Humanista Francês)

SITE NEIPIES: Que mensagem aos que te lêem agora?

Enfermeira Nelci Zorzi:  Dizer que acreditem em seu potencial, busquem seu propósito de vida!  A todos da Enfermagem: acreditem e valorizem sua profissão. Busquem vossa autonomia. Somos e seremos sempre uma profissão do Cuidado. Somos o nosso futuro!

Tomei como minha missão: “promover uma nova forma de nascer através de uma assistência adequada, humanizadora, acolhedora no período da gestação, nascimento e pós-nascimento, valorizando o ser humano em sua totalidade”.

Esta é a BEM ACOLHER, está é a NELCI!

Aula de língua-vida

Por que existe
língua portuguesa na escola?
Esteja certo que não é para
ensinar a língua, pois o aluno já sabe.
Ela deve servir para refletir o seu uso.


Numa tarde ensolarada de quarta-feira, estava eu com uma turma de Primeiro Ano do Ensino Médio trabalhando as convenções da escrita, numa das que considero uma das melhores turmas do Instituto Cecy Leite Costa, depois de algumas aulas anteriores ter discutido e refletido sobre a linguagem oral e a linguagem escrita.

Qual a postura que devemos ter ao usarmos a língua diante de uma linguagem e outra? Elas são diferentes?

Passamos pela reflexão sobre as redes sociais. Nas redes sociais usamos a oralidade, ou a escrita? Se estamos escrevendo, poderemos transcrever a fala, visto que usamos a escrita para a comunicação?

Poderia ser somente mais uma quarta na vida de um professor, que procura sempre trazer a reflexão da língua em uso, porém não foi. Porque nesta aula estava presente o aluno chamado Gustavo da Costa Gil e depois de toda essa sequência didática de reflexões linguísticas, já no final da aula, ele me questionou, através do chat, visto que estávamos numa aula na plataforma Google Classroom: – Professor, o que você acha sobre linguagem neutra.

Eu, sem muito pensar, respondi que linguagem neutra não existe.

Gustavo me interrompeu e tentou explicar: – É que assim professor, na internet e em outros escritos as pessoas usam, exemplo, brasileiro ou brasileiros, você tira o “o” e coloca um “e”, ou um “x” que dá a interpretação que não tem um gênero definido, para uma pessoa “cis” ou não binária, isso é importante. Isso mudaria muito a linguística, no quesito linguagem escrita?

Retomei a palavra e disse que, na verdade, então eu não tinha entendido muito bem o que ele quis dizer com linguagem neutra porque a neutralidade não existe, linguagem neutra não é possível de ser concebida porque qualquer palavra que eu utilizar eu já não estou sendo neutro e eu tinha entendido por esse lado.

Continuei dizendo que na verdade o que ele tinha me perguntado não tem nenhuma neutralidade, aliás, quando você usa na linguagem escrita um “x” você está sendo muito ideológico, porque isso representa uma questão de respeito com as pessoas que não se sentem de dois gêneros, entre o masculino e o feminino. Nesse sentido, a linguagem também vai modificando.

Vocês viram no texto que trabalhamos, de 1500 para cá tudo vai mudando, porque as coisas, as inovações impulsionam a sociedade e a linguagem muda, pois é a língua em uso na sociedade, assim, conforme os costumes, as coisas vão mudando, os valores, a linguagem vai acompanhando. E o que eu, enquanto linguista, posso dizer que isso é uma tentativa de contemplar algumas pessoas, que é legítimo àquelas que não se sentem do gênero binário. Ah, você é mulher, ou não, você é homem. Isso é para considerar.  Porque você sabe que na língua qual gênero predomina nas regras? O masculino. 

Portanto, aquele “x” é para dizer que eu estou abarcando todo gênero possível, é a diversidade de gênero. Isso vai acabar sendo aceito pela convenção de uma comunidade linguística e quando isso acontece a escrita muda. Gustavo, e essa linguagem não é neutra.  Isso demonstra que os jovens estão atentos e eu fico muito feliz, por você me fazer essa pergunta na minha aula de português, na qual estamos trabalhando a reflexão das convenções da escrita. O aluno contribui com minha fala dizendo que ele entendeu e inclusive concordava comigo.

Retomo a fala e digo que ninguém precisava concordar comigo, mas que nós, Gustavo, principalmente, vocês da geração mais jovem, que já têm uma mente mais aberta têm de respeitar essa linguagem e, inclusive, aderir a essa escrita, porque quem somos nós para julgar ou tachar um enquadramento linguístico?

Nada mais justo que colocar um X que respeita todos os gêneros e que essas pessoas se sentem incluídos, num momento que clamamos tanto por inclusão, pois nós já passamos por muita exclusão neste país e no mundo.  Não é possível que a gente continue excluindo?

Gustavo me toma a palavra para me deixar de boca caída: – É professor, como o senhor disse, é possível a mudança das nossas regras e eu acho que seria bem aceito também essa mudança, porque como a nossa língua se utiliza muito de gênero, principalmente, o masculino, coisa que em muitas outras línguas não há, não faz tanta diferença, por isso, a base pode ser desconstruída e pode ser fragmentada em vários horizontes. Isso poderá até facilitar o uso da língua portuguesa.

Com essa lição, reforço, portanto, que essa é uma verdadeira aula de linguagem, língua em uso, língua-vida, pois é aula que ajuda o estudante a refletir sobre sua língua.

Por que existe aula de língua portuguesa na escola? Esteja certo que não é para ensinar a língua, pois o aluno já sabe. Ela deve servir para refletir o seu uso. Poderia ser mais uma quarta, não foi. Foi o inverno que se transformou em primavera.

Penso. Logo, estou enclausurado

2020 ainda será comprido,
mesmo que aparentemente tenha sido
congelado pela clausura.
É possível que 2020 só acabe em 2022,
e pode acabar mal, ou pode não ter fim.


Poucas vezes a humanidade teve tanto tempo para pensar. Mas estamos vivendo um desperdício de tempo.

Tenho pensado que, no meio disso tudo, sempre tem alguém comprando um carro zero ou uma calça ou uma gravata ou indo à Serra ver a neve.

Mas não conheço ninguém que tenha feito nada disso desde março ou abril. Nem sei se ainda vendem carro zero, ou se ainda compram carro.

Tenho certeza de que desde março as pessoas que conheço apenas trocam experiências virtuais e descobertas cotidianas sobre comidas, panelas, artesanato, bichos e plantas.

Ninguém compra nada, só faz descobertas. Acho bom, porque também estou nessa lida. Mas gostaria muito de comprar alguma coisa que não seja comida.

Não compro uma calça há 10 anos e de repente me deu vontade de comprar uma calça.

Não falo de afetos, de saudades, no plural mesmo, mas de adquirir ou ver alguma coisa, sentir falta do banal ou singelo, de algo que antes estava ao alcance de uma caminhada.

Não é o departamento dos filhos, dos netos, dos amigos, dos colegas, nem o do cafezinho, é o do consumo miúdo mesmo, de coisas úteis e inúteis e das paisagens mais distantes. Até do centro de Porto Alegre.

Se pudesse, amanhã eu sairia de casa para ir a uma livraria comprar uma agenda de 2020. Ainda não tenho agenda do ano.

E 2020 ainda será comprido, mesmo que aparentemente tenha sido congelado pela clausura. É possível que 2020 só acabe em 2022, e pode acabar mal, ou pode não ter fim.

Eu sairia e aproveitaria e compraria dois pacotinhos de post-it, um azul e um cor de rosa, e uma caneta preta Faber Castell 1.0.

Paisagem de rua já me consola. Ser atendido por alguém seria o máximo. Ouvir: mais alguma coisa?

Mas neve eu não quero ver. Para não ter que lembrar daqui a algum tempo que o ano da neve foi o ano da peste.

É no que às vezes tenho pensado. Sei que é um desperdício, enquanto tanta gente tenta imaginar como será a humanidade depois disso tudo. Mas é o que penso, é a realidade.

Na contramão deste momento de clausura, imposto pela Pandemia, há o movimento de “Consumir para existir”. Leia mais clicando aqui.


*Esta reflexão foi escrita e postada no perfil do faceboock do autor em 23/08/2020.

Seres humanos e outros animais: uma questão de reverência

Eu prefiro a reverência aos animais,
ou seja, um sentimento de profundo
respeito e consideração por eles.


Sofri duras repreensões de uma colega professora ao afirmar, num pequeno diálogo, que não gosto de conviver com certos animais dentro de casa como cachorros e gatos.  Ao que tenho a dizer: não gostar de conviver com animais não significa maltratá-los ou concordar com sofrimento ou sacrifício dos mesmos. Não gostar de conviver com animais também não significa desrespeitar os sentimentos de quem gosta de conviver com eles.

Eu prefiro a reverência aos animais, ou seja, um sentimento de profundo respeito e consideração por eles. Respeitá-los em seu habitat ou considerar que os mesmos não precisam dividir os mesmos espaços com os humanos, faz parte desta reverência. Ou ainda, manter uma certa distância dos animais para que os animais não substituam os seus instintos pelas características e qualidades humanas.

Conforme dicionário (versão digital), reverência é veneração pelo que se considera sagrado, por extensão, profundo respeito por alguém ou algo, em função das virtudes, qualidades que possui ou parece possuir; consideração; deferência.

Monja Coen, em um belo vídeo, traz uma reflexão bem próxima com esta que faço aqui, com a qual tenho muita concordância, sobretudo quando afirma que os seres humanos não são superiores, mas muito mais complexos e diferentes. Diz ainda: seres humanos são livres e cuidadores e o fato de apreciar outras espécies não nos torna nem superiores e nem inferiores, mas uma condição diferenciada.

Monja Coen: O que diferencia o ser humano dos demais animais?



Subsídios de pequenos vídeos

  1. Conheça também esta matéria onde uma família passou a tratar um cachorro como filho. Veja quais são as consequências para a vida dos animais. Tratar os animais de estimação como ser humano pode ter sérios graves problemas colaterais.
  • Nesta série, Christian Dunker pretende responder a algumas dúvidas frequentes relacionadas à psicanálise. No vídeo-pílula de hoje, ele busca na psicologia algumas considerações sobre a diferença na psicologia entre humanos e animais. Vídeo: qual é a diferença entre humanos e animais?




Proposta de uma atividade pedagógica

Esta atividade pode ser trabalhada com estudantes do Oitavo Ano do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio.

No Oitavo Ano, seguindo as orientações da nova BNCC, Unidade temática: Ética. Objeto de Conhecimento: Virtudes e valores humanos.  Habilidades: (EF08FL01PF05) Entender conceitos de prudência, empatia, coragem, autonomia, responsabilidade.

Questões para pensar:

  1. Por que ainda temos tantas dificuldades em reconhecer que nós, humanos, não somos superiores aos demais animais ou seres vivos?
  • Por que a reverência aos animais é uma atitude mais interessante do que a arrogância da superioridade?
  • Assista ao vídeo da Monja Coen “O que diferencia o ser humano dos demais animais?” (https://youtu.be/vWJabljQkaA?t=127) Após, faça um breve resumo sobre o que ela pensa da relação entre os seres humanos e demais animais?
  • Veja também matéria de família que trata seu cachorro como um filho, um ser humano. (https://youtu.be/YpLQ8QyYCHk?t=79) Após assistir, anote as consequências que este tipo de relação causa aos animais domésticos.

Menina de dez anos

Perdoa-nos a todos e todas, Menina de dez anos,
pelo sofrimento que cedo se abateu sobre teu corpo e tua alma;
há quatro anos, vítima no interior mesmo do “lar sagrado” que a devia proteger,
o que resultaria numa gravidez indesejada, com suas consequências unilaterais.
Não, não queremos saber teu nome, tua família nem teu endereço;
tampouco desejamos chafurdar em teus segredos e mistérios de criança,
precocemente atropelados pela trágica trajetória, em espiral e crescente,
do uso e abuso, estupro e violência contra a mulher – cujo fim é o feminicídio.

Perdoa aos que, moralizantes, insistimos em apontar o dedo em riste,
aos que, em lugar do criminoso, tentamos linchar a vítima inocente e indefesa,
e aos que, de tua infância rota e interrompida, fazemos um espetáculo.
Sentados e protegidos confortavelmente nos sofás de nossas casas,
acostumamo-nos a consumir, através dos jornais, telejornais e Internet,
histórias sinistras e macabras, que tendemos a engolir e naturalizar
como se fossem notícias normais do dia-a-dia, da mesma forma que se consomem
roupas e calçados, bolsas e viagens, gols e futebol, celulares e falsas notícias.

Na pessoa do tio homem, macho e covarde, física e moralmente miserável,
logo medroso e desconhecido, foragido da lei e das responsabilidades;
perdoa-nos o comodismo da banalidade e da impotência, ambas hipócritas.
Perdoa-nos quando, não obstante a clara evidência em contrário,
longe e ao mesmo tempo perto dos acontecimentos que nos circundam,
sentimo-nos e agimos como se fôssemos protagonistas e sujeitos da história,
um tecido social, político e econômico que, à revelia dos “sábios e conscientes”
é costurado diariamente por nomes e rostos invisíveis, “descartáveis” e silenciosos!…

No mapa da existência, seguimos nos achando uma espécie centro ou epicentro
das coisas e dos fatos, das relações e polêmicas, da continuidade e ruptura:
ponto de convergência do cotidiano agitado, voraz e veloz, das vidas frenéticas;
redemoinho sem norte, destino ou direção, girando em falso e em vão,
Sempre em busca de ventos fortes, raios furiosos e chuvas torrenciais.
Novidades febris que venham sacudir a letargia e trazer sentimentos e sensações,
capazes de preencher o vazio inócuo desta ilha do aqui e agora em que nos instalamos,
onde o barco dos “tempos modernos” encalhou num arquipélago de fantasias
de uma geração volátil e virtual, efêmera e transitória, mas em busca de novo rumo,
abandonada, sedenta e solitária no hoje imediato, desligada do passado e do futuro,
sem saber ao certo o que fazer no presente – com seus apelos, clamores e desafios.

Sós e embrutecidos, ébrios ou eufóricos – farejamos e nutrimo-nos de escândalos;
por isso, Menina de dez anos, perdoa-nos por que não sabermos o que fazemos!
Nosso silêncio e indiferença favorecem a ação criminosa dos tios perversos,
e que, perversamente, se ocultam ao abrigo da “inviolabilidade do espaço familiar”;
a apatia parece paralisar nosso cérebro e nossas mãos duras e cerradas;
perdoa-nos e ensina-nos a despertar para a realidade viva, nua e crua
das ruas e becos, dos porões e periferias, dos “infernos humanos” sobre a terra,
em vista de participar na construção de um “céu humano-divino”, onde ninguém será excluído!

Relembre o caso da menina de apenas 10 anos, que foi estuprada pelo tio e que, por força da lei, realizou aborto considerado legal pela legislação brasileira. Leia mais aqui.

Professores e professoras nas Câmaras de Vereadores

Se a educação sozinha não
transforma a sociedade,
sem ela tampouco a
sociedade muda.
(Paulo Freire)


Não vou declarar publicamente meu voto nestas eleições municipais. Um artigo ou crônica não servem para isso.

Vou declarar um conjunto de habilidades e qualidades que subsidiem a escolha dos votos para vereador, sob a ótica dos professores e professoras. Acredito que as reflexões podem colaborar para afirmar a crença na boa política, levada a sério na perspectiva do bem comum, como já aprendemos com os sábios gregos.

Estamos num momento do país em que a educação, novamente, é colocada na pauta política e, desta feita, não pode deixar de fora os principais protagonistas: os professores e as professoras.

Quem não gosta de política sempre é dirigido pelos que gostam dela.

Entendemos que realidade que envolve a educação no país e nos nossos municípios e, sobretudo, os professores e professoras, exige também a representação política a partir das Câmaras de Vereadores.

Chega dos professores e professoras viverem a alienação política. Chega de professores e professoras querendo a neutralidade política, até porque ela nem existe.

A democracia exige a superação da alienação política e o engajamento permanente de todos, sobretudo para dizer que a educação não é a solução para tudo e para todos, mas que, sem ela, nenhuma mudança social significativa acontecerá.

A democracia representativa tem sentido e legitimidade se estiver casada com a democracia participativa. Este “casamento” é a mudança que deveríamos fazer em nossas cidades, empoderando a comunidade também através de seus representantes eleitos.

Todos deveríamos gosto pela política porque a política é da nossa essência humana. Por que ela é decisiva para a promoção da nossa cidadania. Além de votar, deveríamos lutar para que se ampliem as formas de toda sociedade manifestar-se e decidir sobre os rumos de sua cidade, estado e nação.

Por falta de uma reflexão crítica e por medo de mudanças substantivas, uma grande maioria ainda decide pela continuidade, pela mesmice, pela manutenção do mínimo que sempre se apresenta como o máximo do que é possível fazer.

Muitos professores e professoras ainda não votam em candidatos professores por não entenderem a importância de estarem representados no legislativo municipal.


Adotemos um vereador professor

Adotemos um vereador professor em nossa cidade, votando em candidatos e candidatas professores e professoras nesta eleição.

Milton Jung, gaúcho radicado em São Paulo, junto com amigos, tem uma proposta interessante de aproximação com os vereadores. Chama-se “Adote um vereador”. Um vereador é o agente político mais próximo da vida da gente. Deveríamos, sim, acompanhá-lo, cobrá-lo, sugerir pautas, convocar reuniões para esclarecimentos de suas posições. Deveríamos, ainda, cobrar que a participação da comunidade seja mais efetiva na vida da Câmara de Vereadores, com espaços de escuta e reivindicação permanentes, para que não nos iludamos com o slogan “o poder da comunidade”.

Professores vereadores ou vereadoras bem qualificados cumprem com função política de mostrar à sociedade saídas para a sua realidade, a partir da educação. Vereadores professores ou professoras qualificam o debate público dos problemas das cidades, pois os professores de escolas públicas estão imersos e envolvidos com a dura realidade da maioria da população.

Os professores e professoras da rede pública estão vinculados às suas comunidades, o que permite que as suas demandas possam tê-los como porta-vozes.

Espera-se, também, que os vereadores professores exerçam mandatos participativos, que abram os seus gabinetes para acolher e encaminhar as demandas do magistério, que se somem às lutas e exerçam liderança e pressão junto ao executivo por melhorias na educação municipal. Que tenham atitudes que corroboram com a esperança e o exercício na verdadeira política. Que sejam éticos e coerentes com os propósitos e as expectativas de quem os elegeu.

Sofia Cavedon, professora municipal de Porto Alegre, ex-vereadora, ex-secretária municipal de educação e deputada estadual é um exemplo desta construção aqui referida. Sua atuação política e cidadã demonstra que, ocupando espaços políticos, os professores e professoras, através de mandatos parlamentares, podem contribuir para a elaboração de políticas educacionais, para a defesa da educação pública de qualidade e para o resgate da dignidade na profissão docente. Leia mais clicando aqui.

Cavedon lembrou, recentemente, que as lutas pela educação exigem “… compromisso absoluto com a recuperação da dignidade da profissão de professor, de professora, de sua valorização e autonomia pedagógica, de seu salário e condições de trabalho. Renovo a convocação para fazermos uma escola cidadã, que construa homens e mulheres democráticos, igualitários e justos!”

Recolocar a educação, a valorização da dignidade docente e a função social da escola pode ficar um pouco mais fácil a partir de mandatos parlamentares de professores em todas as Câmaras de Vereadores do Brasil.

Não tenhamos medo e nem vergonha de fazer política a partir da educação, da responsabilidade e da justiça social. Nossa responsabilidade pessoal é a de sermos bons profissionais, bons professores e professoras. Nossa responsabilidade coletiva exige posicionamentos de categoria e de representação social. Ou deixaremos, mais uma vez, para os outros, a defesa dos professores, da escola e da nossa dignidade? O desafio está posto! Sejamos sábios!

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