Todos somos resultados de relações anteriores, sejam elas dos nossos pais, de uma grande explosão cósmica ou da criação divina.
Entre as inúmeras formas de compreender a expansão da consciência, se incluem os processos evolutivos aos quais cada ser humano está sujeito.
A última virada de século está marcada pelo individualismo exagerado, advindo do modelo social capitalista na sua versão neoliberal, que expandiu a ideologia centralizada nos méritos individuais, desconectados da história, da natureza e do contexto de vida.
A eminência da morte com a pandemia de 2020, evidencia um aspecto central do ser humano que é a consciência da morte.
Aparentemente, todos sabemos o significado de consciência. Contudo, uma definição conclusiva é uma tarefa em construção para as pessoas que desejarem expandir a própria consciência.
A imposição de um grau elevado de incerteza, salientado na convivência com a morte de inquantificáveis pessoas, contabilizadas em números, possibilita uma aceleração no processo de transformação e evolução. Para que essa transformação seja uma evolução humana, se faz necessário salientar três dimensões da coletividade: a individualidade, a relação e o todo.
Neste desenrolar existencial de cada ser humano, ainda nos primeiros anos de vida, todos devem ser individualmente ensinados, devem ter a oportunidade de aprender em seu núcleo parental, a importância e a imprescindibilidade do outro.
Para continuar vivendo, a pessoa humana ser educada e individualmente responsabilizada em cuidar da principal ferramenta que ele dispõem, o próprio corpo, em suas diversas dimensões.
Ter consciência das necessidade materiais e espirituais individuais é um aprendizado constante, que se apresenta relacionado ao contexto de vida individual. Os cuidados básicos, que devem fazer parte da educação para cada indivíduo, inclui alimentação, atividades físicas, horas de sono, atividades culturais e constituição de hábitos saudáveis.
Nenhum ser humano existiria sozinho. Pode-se dizer que esta regra não tem exceção, seja na visão mitológica, científica ou religiosa. Todos somos resultados de relações anteriores, sejam elas dos nossos pais, de uma grande explosão cósmica ou da criação divina.
Em nossos encontros de produção de conteúdos temos a oportunidade de ultrapassarmos o superficial e percebermos a relevância de aspectos centrais para a evolução humana. Você está convidado a se inscrever no You Tube, canal do Professor Israel Kujawa e acionar as notificações! Clique para se inscrever, participar e contribuir com esta construção.
A crise ambiental global é, antes de tudo, uma crise de valores que afeta sobremaneira a forma de pensar, agir e sentir da humanidade. Qualquer um com um mínimo de inteligência precisa perceber isso.
Restam poucas dúvidas de que é completamente inadequado (para usarmos esse termo brando) o modo pelo qual, hoje, a nossa espécie, Homo, se relaciona com a Natureza (matriz da vida), resultado direto de uma agressão antrópica – homocentrada – sem precedentes.
Fato concreto, estamos fazendo do planeta Terra – a Casa Comum (na boa e feliz expressão do Papa Francisco) de todos os viventes – um local incapaz de sustentar a vida, seja a humana ou a não humana.
Para além de muitas evidências, é pesaroso constatar que, sem muito esforço, nos tornamos, por assim dizer, potenciais destruidores da natureza (ou “agentes transformadores”, na coloquial expressão dos ambientalistas de outrora) e de tudo o que nela habita. Detalhe aparovante e inescapável: isso não é retórica, ou mesmo um mero flerte com o catastrofismo. É a voz da ciência que vem nos dizendo a todo o momento sobre os perigos à vista de todos. “Os impactos humanos estão causando danos alarmantes ao nosso planeta. (…) Predizemos também, com base na melhor informação científica disponível, que, mantida a via atual, a qualidade da vida humana sofrerá substancial degradação por volta de 2050”, assim nos alerta o Scientific Consensus on Maintaining Humanity´s Life Suppport Systems in the 21 st Century, de 2013.
Para onde quer que se lancem olhares, não é difícil observar que a perda de biodiversidade vem se dando de maneira crescente e assustadora. Há em curso um processo de perda de vida selvagem como nunca antes em toda a história da humanidade.
De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza, no mundo, por volta de 11% das espécies de aves, 25% dos mamíferos, 20% dos répteis, 34% dos peixes e 12% das plantas estão ameaçadas de desaparecer para sempre nos próximos cem anos. Isso deixa em clara evidência que alteramos tudo o que encontramos pela frente.
Mexemos na composição do solo, do ar, do sistema de águas, e alteramos quimicamente os alimentos. Nada parece escapar à nossa fúria destrutiva. Diminuímos o mundo verde em diversos fronts. Passam os anos e seguimos destruindo mais de 7 milhões de hectares anualmente. Vários pesqueiros já entraram em colapso, enquanto lençóis freáticos continuam caindo assustadoramente mundo afora. Grandes extensões de solos e pradarias continuam sendo esgotadas. E somente nas últimas duas décadas, 35 por cento dos mangues desapareceram do mundo. As florestas – o nosso ar condicionado gratuito – “sumiram” por completo em 25 países e outros 29 perderam mais de 90 por cento de sua cobertura florestal.
Se os biólogos estiverem certos, o desenho do futuro é assombroso, uma vez que nos próximos cem anos os humanos – a nossa espécie pensante, taxonomicamente chamada de sapiens, vejamos a ironia aí presente – poderão eliminar de 20% a 50% de todas as espécies da Terra.
Para além disso, o que se sabe, desde já, é que quase 90% das espécies de animais vão perder habitat para a agricultura até 2050, quando é estimado o uso de pelo menos 2 milhões de quilômetros quadrados de novas terras agrícolas. De tal modo que, para não perdemos o assunto-central de vista, já se diz que a vida orgânica se esfacela a olhos nus, tanto que, de acordo com o professor Ron Milo e sua equipe de pesquisadores do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, já atingimos um estágio civilizacional em que há mais mundo artificial do que natural.
A massa antropogênica, que é resultado da atividade humana, expressa em prédios, asfalto, automóveis, fios, plástico, ferro, aço, papel processado, celular e assim por diante, representando 1,1 trilhão de toneladas, é, hoje, muito maior que a chamada biomassa (110 bilhões de toneladas a menos que a massa antropogênica). A causa disso, não duvidemos, é a ação humana; essa força antropogênica que já devastou 1 trilhão dos 2 trilhões de toneladas de árvores e plantas que existiam no início do século XX, levando à extinção milhares de espécies animais no processo.
Em entrevista ao jornalista Rodolpho Gamberini, do canal O Planeta Azul, no YouTube, Camila defende que a substituição de energia suja por energia renovável deve ganhar novo impulso a partir da experiência da pandemia. “Já existe tecnologia para que a gente polua menos. Fica muito claro que mudanças rápidas teriam impacto tanto no meio ambiente quanto na saúde humana”, afirma. Assista!
Notemos assim que, para além ainda das percepções claras e visíveis, tudo é demasiadamente assombroso, afinal de contas, dizem os especialistas, e entre eles o notável David Attenborough, que, hoje em dia, “não se trata mais de salvar o planeta, mas de nos salvarmos” (El Mundo, set. 2020). Ao desenvolver esse raciocínio, o próprio Attenborough segue afirmando que “a humanidade está em uma encruzilhada”, uma vez que (…) “o mundo natural está seriamente ameaçado e as consequências podem ser apocalípticas”. Aqui, mais uma vez, é preciso esclarecer que essa narrativa não pode ser vista como mero exagero. Isso é um fato real.
Triste constatação. O poder de destruição do Homo sapiens não tem limites, precisamos admitir essa nossa crassa falha de moral. É aterrador isso. Somos autodestruidores. E estamos fracassando. “O preço do fracasso”, vaticinou tempos atrás Eric Hobsbawn (1917-2012), ainda que dito em outro contexto, (…) “é a escuridão”.
Numa análise fria dos fatos conhecidos até o momento, sabemos que não se trata de mais uma crise qualquer, mas sim de severo descompasso situado no “coração” do meio ambiente.
Um desdobramento dessa perspectiva, por qualquer que seja o campo de visão, permite dizer abertamente que essa crise ecológica (insistindo, pois, no uso desse termo) provocada por nós mesmos, dadas às fissuras impostas ao meio ambiente, se volta contra a nossa própria espécie. Ocorre então que nossa exclusiva atitude exploratória contra a natureza tem mostrado, para além do mais, que temos potencial para desestabilizar inclusive as condições planetárias, desarticular mecanismos do sistema-vida, e, com isso, imprimir consideráveis modificações físico-químicas em nosso meio ambiente.
A configuração de mundo hoje, pensando na esfera do consumo global, é bem conhecida: 20% da população mundial do Norte global (a parte rica do mundo) consome 76% de toda a produção de riqueza mundial, ao passo que, do lado Sul do globo (a parte pobre), sobra apenas 24% da produção para ser “repartida” por 80% da população mundial. Leia mais!
Para cada uma dessas ações deletérias aqui mencionadas, tem-se a constatação (outro pesar) do quão dissociados nos encontramos das questões que envolvem o mundo natural, notadamente o ambiente ecológico (num sentido amplo do termo) e sua rica biodiversidade, do qual o homem moderno possui intrínseca relação, mas, no entanto, prefere se fechar dentro de uma visão estreita, condicionado a olhar quase que exclusivamente – e tão somente – para as coisas materiais, esperançoso assim de que a felicidade (lídimo desejo a que todos devemos nos concentrar) um dia será alcançada à base do acesso e posse material.
Quanto estupidez carregamos conosco. Isso não pssa de um erro palmar que tem nos acompanhado desde há muito em nossa jornada existencial.
Via de regra, envolto na prática do individualismo, parte considerável de nossa comunidade humana não titubeia em abandonar qualquer sentimento de moderação no trato para com o meio ambiente, e esquece, para além do mais, as ricas potencialidades naturais que nos circudam.
Esquecemos que na formação de massa física corporal de cada um de nós há componentes da natureza: 23 por centro de carbono, 2,6 por centro de nitrogênio, 1,4 por cento de cálcio, 1,1 por cento de fósforo e trinta outros elementos em mínimas porções.
A dissociação do ser humano para com a natureza é tão intensa (e grave) que ainda faz o Homem esquecer que possui em seu corpo 61 por cento de oxigênio e 10 por cento de hidrogênio, reunidos numa composição de 71 por cento de água.
Alheio à questão do meio ambiente no que concerne à necessidade da preservação ecológica, o homem moderno sequer dá conta da etimologia do próprio termo “homem”, palavra que vem de húmus (terra firme), evidenciando assim a íntima relação existente com a natureza.
É por isso que se diz que dentro dessa perspectiva nós – e TODOS os outros seres vivos – possuímos algo em comum: um mesmo padrão de organização química, a partir do funcionamento de células de organismos multicelulares e unicelulares.
Não por acaso, para que se esclareça em definitivo esse ponto, dir-se-á que, de um cavalo à um pássaro, de um peixe à uma ameba, de uma minhoca à uma borboleta, somos TODOS formados por 20 aminoácidos e quatro ácidos nucléicos. O que nos diferencia das demais espécies, reza o conhecimento científico, é apenas e tão somente a combinação desse alfabeto genético, nada mais.
TODOS os seres vivos, ao fim e ao cabo, enfatize-se à exaustão, utilizam apenas 20 aminoácidos para fabricarem todos os tipos de proteínas de que necessitam.
Mas, todavia, alheio e completamente míope a isso tudo, o homem moderno segue isolado do amor pela vida que brota de toda essa rica composição ecossistêmica, ignorando, para além do mais, que o futuro dele mesmo depende essencialmente do equilíbrio a ser dado à cadeia ecológica que rege a vida na Terra.
Por isso, defendemos tanto a ideia de que a crise ambiental global é, antes de tudo, fundamentalmente uma crise de valores que afeta sobremaneira a forma de pensar, agir e sentir da humanidade. Qualquer um com um mínimo de inteligência precisa perceber isso.
Sem romantismo algum, resta que precisamos, no mais das vezes, passar a ofertar amor à vida, às coisas da natureza, às relações humanas e sociais. Para além dos resultados econômicos que nos guiam, e que nos deixamos levar, iludidos de que a economia é tudo o que nos resta, a vida (do jeito como a conhecemos) precisa mesmo ser pensada e sentida de diferentes outras maneiras. É isso o que mais importa. Não mais podemos permanecer isolados do amor pela vida.
Mesmo em bandeira preta, as turmas poderão ter lotação máxima. Trata-se de algo inédito no mundo, sem paralelos na irresponsabilidade e no desrespeito à vida.
Não há mais restrições à circulação do vírus nas escolas, de resto já abandonadas à própria sorte pela falta de fiscalização, ausência de testagem, incompetência na entrega de EPIs e graves carências estruturais, financeiras e de recursos humanos.
Também já não temos governador. Inerte diante das imagens da folia macabra no litoral gaúcho, inepto na busca de vacinas e – como disse em dezembro – confiante na “liderança” de Bolsonaro para conduzir a imunização, Eduardo Leite quer presidir o país sem ter governado o próprio estado.
Agora, entrega a gestão da Secretaria da Educação ao sindicato patronal do ensino privado. O Sinepe/RS, autor do pedido esdrúxulo de flexibilização, fará a cogestão da pasta ao lado dos atuais ocupantes: fundações empresariais, traficantes de ensino e picaretas de toda sorte.
Enquanto isso, o principal jornal do estado noticia o fato com a naturalidade de um passeio no parque, reproduzindo a fundamentação kafkiana do procurador-geral do Estado, como quem relata decisão estritamente técnica e alheia à esfera da política. A blindagem ao governador – sequer citado, jamais questionado – impressiona.
Denise Garrett, epidemiologista, resumiu em artigo recente na Folha: a ciência, não a política, deve conduzir as decisões sobre como e quando reabrir escolas. Três dos cinco princípios fundamentais por ela listados já são desrespeitados aqui. A saber; baixa taxa de transmissão na comunidade, programas de testagem regulares e salas de aula bem ventiladas.
Agora, a intenção parece ser acabar com o veto a aglomerações. Em breve, o governador pretenderá terminar com a pandemia por decreto.
Nós, educadores(as), continuaremos lutando pelo direito ao principal bem resguardado pela Constituição: a vida. Exigimos vacinação imediata para todos os profissionais da educação, respeito e condições mínimas de segurança.
Sem vacina, sem testes, sem recursos, sem estrutura, sem profissionais, sem fiscalização, sem protocolos e sem governador – nem que seja para assumir a responsabilidade pelas mortes – não há como voltar.
Para quem vive dentro de uma realidade cultural dualista ou de visões parciais da espiritualidade, de visões que mais dispersam do que unem, é importante recuperar ou buscar a espiritualidade da inteireza, da integração, da visão holística, recuperando um centro que possa nos unir e ser fonte de vida para todos os viventes.
“Que uma das funções da nossa capacidade de compreensão seja esta: uma compreensão simbólica, mística, sapiencial, que entre em comunhão com a sabedoria do cosmos, que cante as estrelas como diz o salmo, escute a mensagem e decifre aquele elo último que tudo amarra, que é o Espírito Criador, que é Deus, entranhado na realidade.” (Leonardo Boff)
Que uma das nossas capacidades seja também, buscar a integração, a centralidade da espiritualidade superando dicotomias e dispersões.
Muitas e muitas vezes eu ouvi: “A gente vive como pensa”, por isso, é importante pensar o quê se pensa para saber por que temos certas práticas? Por exemplo, que compreensão temos da espiritualidade e a que práticas ela nos leva?
A espiritualidade deveria ser fruto da inteireza do ser humano, pois tudo o que é inteiro é belo, é justo, é sagrado. Portanto, a espiritualidade, se quer ser inteira, bela, justa, sagrada, deve contemplar todas as dimensões do ser humano, segundo Jean-Yves Leloup, correspondentes a quatro questões: O quê, Quem, Por quê, Para quem?
É na integração entre a sensação, o sentimento, a razão e a intuição, é na conexão entre estas quatro propriedades, que podemos encontrar a centralidade da espiritualidade.
Para ter uma melhor compreensão, de cada uma dessas propriedades, dou uma rápida explicação de acordo com Jean-Yves Leloup:
a) O quê: A verdadeira espiritualidade não pode ignorar a matéria, a materialidade do corpo, da terra (Nossa Casa Comum) a materialidade do universo. A saúde espiritual, do nosso ser, depende da saúde da matéria, depende da saúde da nossa casa comum, do universo, expressão de toda a matéria.
O ser espiritualizado, no sentido holístico, tem uma profunda preocupação com a ecologia, com a saúde plena do universo.
b) Quem: A espiritualidade da inteireza tem como segunda questão: Quem? Quem convive comigo? Qual a relação que vivo com os outros? Não posso me sentir feliz se os outros não estiverem sentindo a mesma felicidade.
Assim como a minha saúde espiritual está ligada à terra, está ligada ao universo, porque eu sou terra, eu sou universo, assim também a minha saúde espiritual está ligada à saúde psíquica da sociedade, porque eu sou sociedade.
c) Por quê? A espiritualidade holística não deixa de se colocar uma terceira questão: O por quê desta vida? O por quê desta vida jogada dentro de um espaço-tempo? Esta questão ajuda o ser humano a descobrir o sentido da sua existência, a ter consciência sobre tudo o que acontece ao existir humano.
d) Para quem? Por fim, a quarta questão: Para quem nós vivemos? Com esta questão chegamos ao campo das religiões ou das tradições espirituais, cuja finalidade é estabelecer uma profunda conexão com o SER. Uma das maiores angústias do ser humano é não estar conectado à Fonte do Ser.
“Minha alma está inquieta enquanto não repousa em Deus”. Santo Agostinho.
Para quem vive dentro de uma realidade cultural dualista ou de visões parciais da espiritualidade, de visões que mais dispersam do que unem, é importante recuperar ou buscar a espiritualidade da inteireza, da integração, da visão holística, recuperando um centro que possa nos unir e ser fonte de vida para todos os viventes.
Com esta compreensão, certamente cultivaremos um profundo respeito e cuidado ecológico. Com esta compreensão, jamais nos fecharemos numa redoma egoística, pensando exclusivamente na nossa felicidade. Com esta compreensão certamente a justiça social não será apenas uma expressão, tantas vezes repetida, sem maiores consequências, mas um motivo forte para lutar pela causa dos que sofrem injustiças. Com esta compreensão, certamente saber-se-á colocar o Espírito Divino como Elo de integração e como essencial animador da vida, reconhecendo sua beleza, sua sacralidade e seu dinamismo interior e exterior.
Em regiões esvaziadas de manifestações culturais, a escola, como espaço democrático e participativo, deve ser preenchida com música, artes visuais, projetos para cinema, rádio e tv na escola, teatro e outras práticas artísticas e comunicativas.
A convite do colega e amigo Nei Alberto Pies, decidi escrever algumas notas a respeito de minha trajetória como professor da rede pública. Sistematizar as nossas práticas e experiências faz parte do nosso autoreconhecimento e do reconhecimento social, tão importantes na vida de cada educador ou educadora.
Minha trajetória se faz de caminhos profissionais que estão indubitavelmente conectados com minhas participações em projetos socioculturais e artísticos com jovens e adolescentes em contextos urbanos e periféricos. São redações de lembranças, indispensáveis para minha constituição como sujeito que busca, incessantemente, distintos modos de olhar e interagir no mundo e com os outros.
Embora narradas em primeira pessoa, essas são histórias vividas a partir de um “eu” coletivo, povoado pelos afetos, rodeado pelas amizades com profissionais dos campos da Educação e da Cultura e pela inserção às comunidades escolares. Diante disso, não posso esquecer que estas histórias são emaranhadas com as distintas relações de poderes cotidianos e atravessadas pelas forças sociais, políticas e econômicas existentes nos locais em que atuei e ainda exerço minha função como professor.
Pode uma alma-artista se fundir com a de um professor “observador-participante”?
Passados mais de vinte anos atuando no campo da educação pública talvez seja possível vislumbrar algumas considerações a essa questão. Experiências constituídas de práticas, projetos e vivências que permitiram extrapolar as fronteiras entre a educação formal e não formal.
Como destaca Larrosa (2002), cada experiência vivida se constitui como “[…] um encontro ou uma relação com algo que se experimenta ou se prova” (p. 25). Sobretudo, experiências pelas quais aprendi, seguindo Paulo Freire, a praticar uma pedagogia da esperança que vem movimentando-me de forma coletiva e solidária no campo da educação popular. Para que possamos entender a tessitura dessa história é preciso retroceder no tempo…
Durante minha adolescência, iniciada juntamente com o fim da ditadura militar e com o processo político-social de abertura para as liberdades de expressão, flertei com a arte e com a cultura, seja no campo das artes visuais com a produção de fanzines, histórias em quadrinhos e desenhos, na formação e participação em bandas de rock ou com organização de festivais de música.
O legado daquele tempo de investimentos juvenis para transformar artisticamente o lugar onde vivia, foi o entendimento de que a arte pode se misturar com a vida de maneiras distintas.
Em meados dos anos de 1990, já vivendo em Porto Alegre, ingressei no curso de graduação em História, proporcionando-me um estágio no Museu de Porto Alegre Joaquim José Felizardo. No Museu, exerci função em que participava dos processos de pesquisa, concepção e montagem de exposições, além de monitoramento com alunos em visitas guiadas.
Entre 1999 e 2000, organizei, juntamente com a equipe diretiva, a primeira oficina de grafite naquela instituição. A ideia para a oficina surgiu da observação e do registro dos grafites, pichações, stencils, adesivos e outras formas de arte de rua que remodelavam esteticamente os espaços da cidade de Porto Alegre.
O objetivo dessa oficina pretendeu aproximar a comunidade com o museu, visando à apropriação democrática daquele espaço cultural por meio de ações pedagógicas e promovendo a educação patrimonial. O público era composto por adolescentes e moradores do bairro Cidade Baixa, onde fica localizado o museu. Hoje, percebo o quão interessante foi aquela experiência de estágio, pois minha entrada no mundo da Educação iria se articular com os campos da Cultura, da História e das Artes.
Em uma tarde de novembro do ano de 1999, adentrei com minha bicicleta a cidade de Alvorada, RS, na procura da escola onde iria iniciar minhas atividades como professor. Logo percebi que a prática docente em escolas da região metropolitana de Porto Alegre me inseria em outros ambientes multiculturais, onde as experiências e vivências dos alunos estão entrelaçadas com suas distintas condições sociais.
Ao professor, educador ou outro trabalhador da área social, a escuta e o diálogo contínuo, não somente com alunos, mas com a toda a comunidade escolar, é indispensável.
A implantação do programa de Educação de Jovens e Adultos EJA, na escola em que eu atuava à época, proporcionou uma riqueza de experiências. Lecionar nessa modalidade de ensino é entrar em um universo de múltiplas vivências, em que diferentes faixas etárias se encontram, possibilitando profícuos diálogos e atividades entre gerações.
Desde minhas primeiras experiências com educação pública, precisei um olhar atento, investigador, um olhar que pretende adentrar o “universo” dos alunos, pois atuamos em condições, situações e públicos diversos e multifacetados.
Em cada estudante existem mundos onde se misturam conflitos, incertezas e precariedades, mas também desejos e vontades. Muitas vezes, esses mundos são germinados através de diferentes modos de expressão pelos quais representam suas vidas.
O projeto Graffiti na Escola, realizado em 2005 na Escola Estadual João Goulart, nasceu dessa observação às ilustrações e escritas esboçadas nos cadernos dos alunos, alertando-me para o fato de essa linguagem artística fazer parte de seu cotidiano. A metodologia utilizada para execução das oficinas consistia na criação e esboços de desenhos de autoria própria dos alunos, priorizando a criatividade e, posteriormente, o desenvolvimento de técnicas de pintura em painéis, muros e paredes. As oficinas de grafite surgiram da necessidade de outras intervenções didáticas e de conteúdos extracurriculares.
Em seus cadernos, os estudantes podem esboçar medos e vontades, como aquele aluno que somente desenhava personagens com armas nas mãos. Nos muros da escola, outros projetos de vida são matizados, como aquele mesmo aluno, que após algumas oficinas, ao invés de uma arma, grafitou um microfone nas mãos do personagem.
Acredito que a poética da vida pode ser grafitada na existência dos alunos. Onde existe o cinza da realidade, o professor auxilia na mistura das cores para seus sonhos escondidos. Embora olhares de contentamento não possam ser captados em um texto, estas são narrativas de um professor que ao vislumbrar a capacidade de criação dos alunos procura instigar projetos semelhantes para ornamentar as monocromáticas superfícies de concretos das escolas.
Em regiões esvaziadas de manifestações culturais, a escola, como espaço democrático e participativo, deve ser preenchida com música, artes visuais, projetos para cinema, rádio e tv na escola, teatro e outras práticas artísticas e comunicativas.
Essa atuação cultural na educação foi enormemente favorecida pela minha participação, entre os anos de 2006 e 2010, como oficineiro, coordenador pedagógico e membro do Conselho da ONG Movimentação. Fundada no final dos anos de 1970 pelo jornalista e ativista social João Carlos Agostinho Prudêncio, o contato com esta ONG possibilitou, em meados dos anos 2000, a edição da revista escolar Construir União e Cidadania. Embora com publicação restrita, a revista exerceu uma importante função pedagógica, já que desde a captação de notícias à editoração final sua produção era realizada pela atuação conjunta entre professores, alunos e comunidade escolar.
Em 2007, preparando-me para iniciar o mestrado em Educação, participei de uma experiência riquíssima junto ao ponto de cultura De Olho na Cultura, instalado na cidade de Alvorada, RS. Vivíamos, no Brasil, um período de valorização e reconhecimento dos saberes populares, principalmente aqueles oriundos das tradições ancestrais de matriz indígena, afro-brasileira e quilombola. Não por acaso, o lema proposto pelo Programa Cultura Viva do Ministério da Cultura do Brasil era o de “desesconder as culturas populares”.
Nesse contexto, em busca de legitimar as manifestações culturais e artísticas de cada comunidade, as atividades propostas pelo ponto de cultura percorreram regiões periféricas do Município de Alvorada, RS. O De Olho na Cultura desenvolveu ações de apoio a grupos culturais e artistas locais atuando como uma agência de fomento ao fazer artístico. Ao realizar parceria com escolas municipais e estaduais o De Olho na Cultura trabalhou no sentido de consolidar uma ação de organização e construção da memória cultural da cidade. As atividades envolviam a criação e manutenção de oficinas de música, artes visuais, dança, teatro e cineclube.
O Grupo de teatro Terreira da Tribo intensificou as ações do ponto de cultura. Encenada a céu aberto, o espetáculo A Saga de Canudos apresentava uma peça teatral ambulante e diferente das performances cênicas executadas de forma tradicional. Atores e população pareciam se fundir; a rua se transformava em palco. Na interação entre a comunidade e a arte a participação popular era mais que democrática, possuía função libertária, transformando a peça em experimento artístico e público como condição estético-política para outros modos de atuação social e comunitária.
Entre os anos 2013 e 2014, preparando-me para iniciar um doutorado em Educação, assumi a coordenação do PROTEJO, projeto do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania, PRONASCI, do Ministério da Justiça. Como já atuava desde 2010 na função de professor da Rede Municipal de Educação de Alvorada, o convite foi feito pela Prefeitura e Secretaria de Assistência Social daquela cidade, pois minhas experiências em projetos com público juvenil e periférico já eram conhecidas.
O objetivo do PROTEJO visou a formação e inclusão social de jovens e adolescentes expostos à violência doméstica ou urbana nas áreas geográficas de maior risco social. No município de Alvorada, o trabalho abrangeu as regiões conhecidas como Umbu e 11 de Abril. Com duração de um ano, o projeto focou a formação cidadã dos jovens e adolescentes a partir de práticas esportivas, culturais e educacionais, visando o resgate da autoestima por meio da convivência pacífica. Cada jovem inscrito no projeto participava no turno inverso ao escolar, recebendo uma bolsa-auxílio. O projeto foi encerrado em 2014, coincidindo com meu afastamento para dedicar-me ao doutorado.
Os contextos hoje são outros, vivemos tempos pandêmicos entremeados com uma inimaginável situação política, econômica e social caótica e complexa que atravessa o Brasil. Nossas experiências, vividas quase completamente de forma virtual, não são sentidas com intensidade suficiente para atravessar todo nosso corpo e produzir outros sentidos para existir em comum.
Diante de tantas incertezas, as práticas e projetos apresentados neste texto, muitas vezes acusados de se confinar no espaço da utopia, são lembranças de tempos em que outra educação foi possível. Seguindo a consciência biocêntrica de Ailton krenak (2020), considero que as ideias para adiarmos o fim do mundo talvez se encontrem na capacidade de trazermos para a experiência desperta as histórias de nossos sonhos. Assim como esse autor, acredito no sonho como instituição “onde as pessoas aprendem diferentes linguagens, se apropriam de recursos para dar conta de si e do mundo” (p.34).
Ninguém é descartável por ser o que se é. Permitamos que o outro se torne aos nossos olhos como aquele que nos dê prazer. Talvez isso dependa mais de nós mesmos do que dele.
Em meio a declarações românticas recíprocas entre um rei e uma camponesa, surge a inusitada digressão abaixo:
“Temos uma irmã pequena, que ainda não tem seios. O que faremos a essa nossa irmã no dia em que for pedida em casamento? Se ela for um muro, edificaremos sobre ela um palácio de prata. Se ela for uma porta, nós a cercaremos com tábuas de cedro. Eu sou um muro, e os meus seios como as suas torres. Assim tornei-me aos olhos dele como aquela que traz prazer.”
No afã de explicar no que ela mesma havia se tornado, Sulamita recorre à figura de sua irmãzinha. Ninguém é o que é sem que tenha passado por vários estágios. Sulamita percebe em sua pequena irmã potencialidades que havia em si mesma. Porém, tais potencialidades não são sentenças. Ela não poderia esperar que sua irmã a recapitulasse, tornando-se uma mera cópia de si.
O fato de ainda não ter seios significa que ela estava em processo de maturação. Não ter seios hoje não significa que não os terá amanhã. O nome disso é latência. Eles já existem em potencial. Só faltam aflorar, vir à tona. O que hoje é latente, amanhã será patente. Os seios representam o aparato fornecido pela natureza para que a mulher cumprisse o propósito de sua existência, que para as sociedades antigas limitava-se à maternidade. Ela ainda não tem seios, mas um dia os terá. Daí surge a questão: Que faremos no dia em que for pedida em casamento?
Cada estágio da existência humana apresenta suas próprias demandas. Uma criança requer atenção especial, cuidados essenciais. Um pré-adolescente requer disciplina, acompanhamento, instrução. Porém, não se pode perder de vista as demandas que o futuro trará. Quem hoje nem sequer tem seios, amanhã será pedida em casamento. Quem hoje nem sequer tem pelugem na face, amanhã estará pedindo a mão de sua filha em casamento. O pequeno empreendedor de hoje, poderá se tornar no empresário de vulto amanhã. E quando isso ocorrer, as demandas serão outras. Aquele garoto rebelde traz consigo potencialidades que o tornarão um chefe de família responsável e exemplar.
Até que ponto estamos preparados para as demandas futuras? Como reagiremos quando estas se apresentarem? O que requererão de nós? A vida se apresenta imprevisível. Mesmo que não haja tantos cenários possíveis, nossas respostas se incumbirão de estabelecer os rumos que ela seguirá.
Sulamita nos apresenta dois cenários. Sua irmã poderia revelar-se um muro ou uma porta. Ser muro pode expressar uma característica de inacessibilidade. Alguém difícil de lidar, que prefere resguardar-se, sendo seletivo na escolha de seus relacionamentos. Os muros protegem, estabelecem perímetros, mas também aprisionam.
Há pessoas que desenvolveram tal característica depois de terem sofrido alguma decepção. Outras são assim desde que se entendem por gente. Não há qualquer demérito em ser muro. Temos que respeitar a personalidade de cada um. Mesmo porque, o evangelho jamais se propôs a mudar a personalidade, e sim, o caráter. Em vez disso, o Espírito Santo nos aperfeiçoa, reforçando certas características inerentes à nossa personalidade, direcionando-as ao cumprimento de Seu propósito.
Amar é acolher a pessoa tal qual ela é, sem tentar mudá-la, nem impor sobre ela nossas expectativas, sem projetar nela o que somos.
Paulo não deixou de ser colérico após sua conversão. Tampouco Pedro deixou de ser sanguíneo. Porém, ambos tiveram seu caráter transformado. Se Pedro era um muro, Paulo, sem dúvida, era uma porta. Cada um cumpriu o seu papel como apóstolo de Cristo.
Ser porta aponta para acessibilidade. Porta é passagem, entrada, acesso. Se o muro protege, a porta acolhe.
Assim como não há demérito em ser muro, não há mérito em ser porta. Cada qual tem um papel a cumprir. Todavia, devemos cuidar para dispensar a cada um o trato que lhe é devido.
“Se ela for um muro”, conclui Sulamita, “edificaremos sobre ela um palácio de prata.” Coisas de valor inestimável precisam ser cercadas de cuidado. Para isso servem os muros! Ainda que sejam pessoas difíceis de se lidar, com temperamento forte, pouco sociáveis, por vezes, introvertidas, elas servem a um propósito. Geralmente, são absolutamente confiáveis. Sabem guardar segredo. Protegem aquilo que amam. Portanto, vale a pena edificar um palácio de prata sobre elas.
“Se ela for uma porta”, prossegue Sulamita, “cercá-la-emos com tábuas de cedro.” Quem é porta costuma ser muito dado, por isso, carece de ser cercado, não no sentido de tornar-se refém, sendo privado de sua liberdade, mas no sentido de ser protegido. E repare que não se trata de um muro, mas de uma cerca. O muro é algo fixo, permanente, delimitador. A cerca de madeira pode ser removida rapidamente, adaptada, alargada. Quem é porta carece de ser protegido, mas não sufocado; precisa de cuidado, não de controle.
Sulamita termina sua participação no livro de autoria de seu amado afirmando ser ela mesma um muro:
“Eu sou um muro, e os meus seios são como as suas torres. Assim tornei-me aos olhos dele como aquela que traz prazer.”
Imagino que não deva ter sido fácil para Salomão conquistar o coração de Sulamita. Mesmo se apresentando como um muro, Salomão encontrou nela uma porta de acesso. Todo muro possui ao menos uma porta. Assim como toda porta precisa estar devidamente cercada. Toda armadura possui frestas, caso contrário, sufocará aquele que a veste. No final das contas, Sulamita tornou-se aos olhos de seu amado “como aquela que traz prazer.”
Portanto, ser o que se é não se constitui numa sentença.
Há potencialidades latentes que precisam ser descobertas por quem nos enxerga para além das aparências. Todos podemos nos tornar alguém que seja o motivo daquele “frio na barriga” do outro, sem que para isso tenhamos que negar nossa própria essência. Basta que descubra a porta escondida em algum lugar do muro.
Ninguém é descartável por ser o que se é. Permitamos que o outro se torne aos nossos olhos como aquele que nos dê prazer. Talvez isso dependa mais de nós mesmos do que dele. Talvez requeira tão-somente um novo olhar, ou, simplesmente, olhar por outro ângulo, parar de reclamar e aceitar o outro exatamente como ele é.
Isso se aplica não apenas ao campo dos relacionamentos, mas a qualquer outra área. Reconhecemos as potencialidades, preparamo-nos para as possibilidades e buscamos responder às demandas tais como se apresentam.
“O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade existencial” (FREIRE, 1980, p.42).
Janeiro de 2021. Um estudante recém formado no Ensino Médio, me interpelou na fila de uma lotérica. O primeiro estranhamento, da máscara, em função da Pandemia (leia também sobre Pandemia e lições educacionais. O segundo estranhamento, da abordagem.
Este estudante frequentou minhas aulas de Ensino Religioso e Filosofia no primeiro ano. Sua postura, absolutamente fechada ao diálogo, trazia elementos super, hiper e mega conservadores. Ele tinha dificuldades de dialogar e escutar, pois sempre, a todo momento, tinha algo a dizer e sempre se manifestava, sobretudo para destruir as perspectivas críticas do conhecimento e de análise da realidade.
Na turma da escola, poucos dialogavam com este jovem estudante. Ele tinha ideias muito claras e fixas. Ele tinha a solução para todos os problemas. Seus argumentos sempre vinham na perspectiva de manter o “status quo”, afirmar superioridade e justificar o insucesso na vida daqueles que não conseguiam sucesso (parecidas com as ideias defendidas pelo liberalismo). Suas ideias não eram nada complexas, não permitiam novas perguntas e novos questionamentos. As ideias eram demasiadamente simples e de rápida solução, tanto nas saídas como nas perspectivas pessoais ou sociais.
À época, conseguiu desqualificar-me, de forma descontextualizada, numa atividade pública de escola, por conta de minhas posições políticas e ideológicas (o que não vinha ao caso, naquele momento). Mas, eu pensava comigo: este menino não tem a mesma maturidade que eu, por isso, não devo confrontá-lo.
Como professor sempre atuei, e me esforço para exercitar, a perspectiva dialógica do conhecimento, o que nem sempre é fácil. O professor pode e deve ter suas convicções e entendimentos de realidade, mas isto não lhe dá o direito de colocar estes acima da compreensão, maturidade e possibilidade de entendimento dos jovens estudantes. Deve permitir a fala dos estudantes, considerando as contradições, imaturidades e desejos de mudança que lhes são intrínsecos.
Este menino, de forma transparente e sincera, interpelou-me, agora, dizendo que havia mudado o seu jeito de ser e de pensar. Disse-me que revisou os seus posicionamentos e pensamentos conservadores e acríticos. Disse que hoje entende a complexidade da realidade, bem como a amplitude dos conhecimentos que qualquer teoria tenta abarcar.
Detalhe: disse-me que teria feito esta revisão por causa do meu método e meu jeito de abordar os conteúdos e conceitos em sala de aula. Exemplificou: “embora o senhor não concordasse comigo, sempre permitiu que eu falasse e nunca deixou de me ouvir. O senhor é o maior responsável por esta recente mudança que fiz de mim mesmo, e eu lhe agradeço muito”.
Suas afirmações me chocaram, inicialmente, mas também me ensinaram muito. Confirmei, então, acertos de método, sobretudo quando trabalhamos com inexperientes, pensantes mentes brilhantes dos jovens estudantes.
Os jovens, modo geral, gostam do confronto direto, gostam de testar suas inquietudes, incertezas e medos “afrontando” os adultos. Se os adultos respondem com novos afrontes, a tendência é que os jovens se sintam donos da verdade ou seguros de sua razão. Na medida em que os adultos lhes permitem a liberdade da fala sem julgamentos, estes tendem a revisar seus próprios pensamentos, a partir das contradições que os mesmos vão percebendo no seu tempo.
Verdade é que não mudamos as ideias de ninguém, mas podemos, sim, utilizar metodologias dialógicas que levem os outros a darem conta das contradições dos próprios pensamentos, como já nos ensinou Sócrates, com a maiêutica. O sábio Sócrates era especialista em fazer perguntas aos seus jovens interlocutores, fazendo com que os mesmos percebessem a sua ignorância e as contradições do seu pensar.
No horizonte de um ensino cada vez menos reflexivo praticado na maioria das nossas escolas, perde-se o benefício da crítica, ou da criticidade e caminha-se, a largos passos, para a alienação dos sujeitos.
A filosofia é sempre atividade perigosa, porque instiga a pensar. Pensar bem, para viver melhor, era desejo dos gregos. Para alcançar o real desenvolvimento humano, recomendavam a sabedoria, a coragem, a temperança e a justiça. Na Grécia Antiga competia-se em tudo, sobretudo no campo das ideias e dos destinos da cidade (polis), tendo em vista ser cidadão (capaz de governar e ser governado). Neste sentido, herdamos o desafio de formarmos seres humanos preparados para viver a vida e a cidadania.
Como viver? É uma das perguntas mais importantes a serem respondidas nos dias atuais. Se “é preciso saber viver”, as formas de construir nossa vida sempre passam ou pelo individualismo ou pela coletividade.
Sócrates (470-399 a.C.) é o grande marco da filosofia ocidental. Mesmo não sendo o primeiro filósofo ele é conhecido como o “pai da filosofia”. Muito disso se deve à sua busca incansável pelo conhecimento e o desenvolvimento de um método para essa busca, o método socrático. Nele, a dialética socrática tinha como objetivo questionar as crenças habituais de seu interlocutor para posteriormente, assumir sua ignorância e buscar um conhecimento verdadeiro. O método socrático busca afastar a doxa (opinião) e alcançar a episteme (conhecimento). Para Sócrates, somente após a falsidade ser afastada é que a verdade pode emergir.Saiba mais.
O exercício cotidiano do diálogo abre sempre novas possibilidades de construir uma vida mais justa, feita através da liberdade, e considerando a possibilidade da felicidade de todos e todas. Este mesmo diálogo permite transformar a rebeldia saudável dos jovens em atitudes cidadãs, a partir do conhecimento gerado pelo reconhecimento das ideias de todos.
O convite que se faz aos jovens estudantes e a todos nós é que nos superemos a nós mesmos, com novas formas de agir e pensar, num espírito de cooperação e amizade. Se a filosofia é arte de pensar, aproveitemos nossas ideias e nossos pensamentos para conquistar novas amizades e novas percepções de vida e de mundo. A humanidade se faz em movimento, de pessoas e de ideias.
A ironia, o diálogo, a crítica, as perguntas, a dialética são conceitos chaves para um pensar crítico, um pensamento aberto e para o exercício de atitudes dialógicas. São parte do caminho pedagógico daqueles que acreditam no conhecimento como ferramenta de emancipação humana, que torna cada um e a todos sujeitos de sua história e da história no seu conjunto.
À medida que a compreensão comum da realidade se desintegra, a política fascista abre espaço para que crenças perigosas e falsas criem raízes. Então fica fácil entender a razão de acabar com cursos de Filosofia e Sociologia. Estas disciplinas permitem a formação do pensamento crítico, essencial para qualquer sociedade se desenvolver. (José Ernani Almeida) Veja mais sobre o assunto.
A inteligência nos remete a vermos os fatos por dentro, além da exterioridade. Este é o momento em que há necessidade de união entre o raciocínio lógico e o evento narrado. Não pode haver lacunas. A seriedade exige rigor no entendimento lógico dos fatos.
Nos últimos tempos, as mídias começaram a usar a palavra narrativa, como um elo conceitual da notícia com a verdade relatada, sem contestações.
Sabemos que essa forma midiática de usar o vocábulo produziu no imaginário social uma cadeia de compreensões, de tal modo que ao ser usado o termo narrativa, estaria sendo produzida uma verdade incontestável. Esqueceu-se de que a narrativa é tão somente um relato de um fato ou acontecimento, a partir de um ponto de vista. E assim passaram os dias…
Hoje, o Brasil vive a plenitude do espetáculo da narrativa.
No entendimento dos estudiosos, um fato, um acontecimento pode ser relatado, a partir de visões e interpretações do narrador, que interpreta o fato. Isso não significa que seja absolutamente verdadeiro em todas as nuances que se apresenta. No entanto, a população entende que o narrado, o relatado é fundamentalmente o ocorrido, o vivido. Em nenhum momento, analisa-se que uma forma de tomar um conjunto de fatos e construir uma narrativa é a expressão de uma visão, na leitura dos acontecimentos.
Há outras visões.
A inteligência nos remete a vermos os fatos por dentro, além da exterioridade. Este é o momento em que há necessidade de união entre o raciocínio lógico e o evento narrado. Não pode haver lacunas. A seriedade exige rigor no entendimento lógico dos fatos.
Espera-se que a passionalidade dos relatos não obscureça a Inteligência e que, afinal, a narrativa seja construída com transparência inequívoca, de modo que a Justiça se realize.
O desmerecimento desvairado à pesquisa está em fúria, com maldade e mentiras. Então, muito cuidado!
O lado ilegítimo do direito de manifestação e liberdade de imprensa tem degringolado, nos órgãos de divulgação e nos múltiplos meios de comunicação eletrônica. O fanatismo religioso e o fundamentalismo político são vícios que vicejam de forma assustadora.
Os principais prejuízos retornam imediatamente ao todo da sociedade. O desmonte do espírito crítico causa horrores. O problema se agrava progressivamente no momento de tantas incertezas e pavores da pandemia.
Pessoas equilibradas não suportam mais ouvir mensagens prestidigitadas pelos defensores do negacionismo em relação à doença que nos atormenta. As mentiras invadem as mais sagradas instituições sem qualquer piedade.
O próprio presidente vem promovendo irresponsabilidades. Logo ele, que deveria ser o principal agente na orientação social. Piadas sem graça, eivadas pelo cinismo, são ditas pelo principal servidor público que deveria liderar o ânimo dos brasileiros para enfrentar essa difícil fase.
Agora, como foi desmascarado na versão “gripezinha”, desaconselha o povo a vacinar-se, diante da tão esperada oportunidade que chegou a outros povos. Com isso vemos mensagens dolorosas de descrença ditas por pessoas que frequentam os meios de comunicação.
Sem qualquer razão técnica, querem desmoralizar a vacina. Isso tem chegado a importantes meios de comunicação, protagonizado por negações jornalísticas que versam irresponsavelmente sobre o mais grave problema da humanidade, a Covid-19. E faço aqui uma ressalva aos bons comunicadores.
Dia desses ouvia o amigo Regis Leonardo e a Ieda na Uirapuru. A emissora do interior tem sido corajosa e persistentemente séria na divulgação dos fatos sobre a pandemia. O mesmo não acontece em redes de TV que apresentam situações comprometedoras desvirtuando, sem motivo plausível, a seriedade da ciência médica e farmacêutica.
Alguns espalham desconfiança na vacina de modo desvairado, incluindo os arroubos de fanatismo contra pesquisa credenciada, que tem como motivo apenas as ilações ideológicas do país que dá origem à vacina apresentada para o crivo da ANVISA. É certo que são necessários cuidados ente as incertezas que de tudo o que nos chega, do ponto de vista científico. O desmerecimento desvairado à pesquisa está em fúria, com maldade e mentiras. Então, muito cuidado!
Mais pressão pela vacina
As formas de pressão para despertar a atuação mínima do governo no combate à pandemia estão centradas em dois pilares.
O primeiro imperativo imposto à letargia negacionista de gestão foi a sombra partidária de João Dória. O tucano atropelou os supostos brios de Bolsonaro e da influência militar, a partir de sua ação lépida ao plantar no braço da primeira brasileira em situação de risco no fronte de atendimento hospitalar, a vacina contra o vírus maligno.
O gesto, mesmo afrontando a liturgia oficial, tornou-se ato inapagável de socorro e urgência ao tormento do povo. O ato derrubou falácias e conotações dúbias sobre a necessidade, inclusive perante a inconsistente propagação da preterição da primeira vacina – Coronavac. Temos aí o concreto que abala toda a conversa fiado, mediante a indulgente presença da vacina e uma pessoa vacinada.
O segundo fator que pressiona pela solução científica e técnica é a consequência lógica do primeiro momento. O prestígio popular do presidente sofre abalo por omissão. O Planalto sentiu o golpe e passou a reagir imediatamente. O fanatismo político vinha iludindo a comunidade com a versão precária e mesquinha de que tudo o que viesse do ocidente vermelho seria inócuo e comunista.
Na verdade, as insinuações fascistas neste sentido não param de pé por um instante. Os laboratórios farmacêuticos do mundo estão num processo virtuoso de avanços em alta velocidade, sem nada a ver com ideologia.
Hoje o governo que vê pesquisas apontarem queda de apoio nessas teses absurdas, vira o jogo. Oficialmente, com a aprovação da Anvisa, a vacina circula no país sinalizando esperança de cura.
Agora, o próprio presidente que capitaneou a ojeriza à vacina russa, foi a público dizer que a Sputnik –V, tão logo seja aprovada pela agência brasileira, será também adquirida para socorrer o país. Tudo aconteceu repentinamente e inesperadamente, sob pressão do óbvio reconhecido pela ciência e informado ao público.
Assim, não temos tempo para criticar ou analisar o mérito da quebra do ritual, ou da paternidade dos lentos avanços na vacinação, nem mesmo os erros do fanatismo da cloroquina e outros. É preciso concentrar recursos para garantir vacina, venha de onde vier, conquanto tenha bons resultados.
Fake News se espalham pelas redes sociais, principalmente em grupos de whatsapp. E para completar, pastores que aderiram à onda negacionista e antivacina, usam seus púlpitos e redes sociais para dissuadir os fiéis a tomarem a vacina, alegando, entre outras coisas, que não houve tempo suficiente para as que vacinas comprovassem sua eficácia. Soma-se a isso as teorias da conspiração que dizem que as vacinas vão alterar o DNA humano e associam à marca da besta do Apocalipse. Como enfrentar esta onda negacionista? Como persuadir as pessoas a serem vacinadas? (Hermes C. Fernandes) Leia mais.
A liberdade é condição primeira para sonhar e sorrir. Liberdade não combina com exclusão e eliminação. Não combina com cancelamento!
O advento da internet e das redes sociais mudou a forma e o jeito com que vivemos e elaboramos nossas relações interpessoais.
No anonimato, numa guerra por curtidas, likes e por aprovações sem fim e a qualquer custo, vivemos uma guerra temerária de egos, que não se importam em excluir, em difamar e em proclamar a negação da existência daqueles que julgamos “fora da nossa lei”.
É triste e desolador constatar que vivemos tempos loucos, onde somente a loucura dos mais fortes e “inteligentes” tende a se impor, a qualquer custo.
Como falar em reconhecimento social, num mundo que consagrou o primado do interesse individual nas relações sociais e econômicas? Por que temos tantas dificuldades em tolerar diferenças?
O prazer maior passou a ser mitificar ou demonizar os outros, ao invés de reconhecê-los por seus acertos ou méritos, erros ou deméritos. Sim, perdemos a noção de que críticas sempre são bem-vindas, desde que não ataquem as pessoas, e sim, suas posturas.
Somos seres sociais que precisam de reconhecimento, muito antes da efêmera fama.
“A fama é efêmera; quando alcançar um grande sucesso, troque a festa por um momento de silêncio e oração. (Lc 5,12-16) Assista aqui.
Até bem pouco tempo atrás, a maioria das pessoas buscava este reconhecimento através das habilidades e competências que eram geradas pela liderança, pelo trabalho ou pela atuação social. Para tanto, era necessário certo tempo e investimento pessoal nas relações com as outras pessoas. Não era nada instantâneo, como se pretende agora.
Somos, se temos palco ( Texto: Somos se temos palco, em busca de reconhecimento). Este palco agora também virtual (internet e redes sociais) tem peculiaridades que precisamos compreender e reconhecer.
Aprendemos, desde pequenos, a necessidade de socializar, de dividir, de crescer juntos, de compartilhar, de experimentar sentimentos alheios. Na escola, vamos aprendendo a importância da socialização e experimentando a riqueza das trocas, para a nossa humanização.
O conhecimento crítico-reflexivo e a socialização tem o poder de nos tornar pessoas melhores, mais humanizadas.
A qualidade da vida social está intrinsecamente ligada à nossa capacidade de conviver, de associar-se, de mover-se, de construir acordos e consensos, de investir em projetos e ideias coletivas, de agregar-se aos outros para produzir vida de sentido.
Sozinhos, não somos ninguém, e nem haverá felicidade nas vivências solitárias, embora uma multidão gostaria que houvesse.
Os aprendizados são pessoais, mas os processos envolvem diferentes sujeitos que marcam a vida de cada um de nós.
Cada um acumula, constrói e vive determinados papéis sociais, que se traduzem pelas formas de ser, pensar e agir. Estes papéis (ideias que os outros passam a ter da gente) passam pelo crivo permanente da coerência. A coerência é essencial; difícil de ser mantida, mas o grande pêndulo pelo qual somos permanentemente avaliados pelos outros. Os papéis sociais permitem-nos compreender a situação social, pois são referências para a nossa percepção do outro, ao mesmo tempo que são referências para o nosso próprio comportamento (Aprofunde mais).
Está em curso, entre nós, uma cultura do rótulo, uma cultura de rápida identificação do outro como alguém que posso seguir, posso negar ou posso odiar, instantaneamente. Martha Medeiros, em seu livro Non-stop (crônicas do cotidiano). Porto Alegre: L&PM, 2007 (Confira aqui) , já descreveu:
“Simplificações são tentadoras neste mundo onde tudo é bem mais complexo do que parece. É quase um insulto quando encontramos uma morena burra, um português inteligente, um poeta rico, uma celebridade deprimida, um político honesto, um adolescente bem resolvido. Preferimos conviver com estereótipos porque eles facilitam a vida da gente: generaliza-se e fim. Menos uma coisa pra pensar”. (p. 62-3)
Era de cancelamento na internet
A condenação sumária em massa, com apoio da galera, passa a ser a novidade do que descrevemos acima. Ela se traduz no que foi denominado cancelamento.
A internet virou o palco das nossas disputas onde formamos bolhas, onde não interessam mais as contradições e a diversidade dos nossos pensamentos e pontos de vista, sobretudo quando falamos de raça, gênero, discurso político ou aspirações profissionais.
As bolhas nos dão a errada sensação de que, ao pensarmos como todo mundo, viveremos mais confortáveis. Será?
Em entrevista recente (assista a entrevista) , a psicanalista Anna Carolina Lementy, ao falar deste tema, faz importantes afirmações sobre as duras consequências de quem é “cancelado” pelos outros. Veja o que pensa Lementy:
“A gente precisa fazer parte, ter aprovação, isso não é um problema, é inerente à maneira como estamos colocados no mundo hoje. O problema é lidar com essa desaprovação – porque ela virá em algum momento e de alguma forma – e precisamos ter recursos para lidar com isso. Se sentir excluído é problemático e pode causar diversas questões em relação aos vínculos. A pessoa pode acabar, sim, ficando extremamente deprimida se ela faz parte de um grupo e ele a bane. Ela pode questionar a si mesma até que ponto vale como pessoa, principalmente se não tiver recursos para lidar com o que aconteceu”.
Anna Carolina segue:
“Pra mim ainda é um enigma a crueldade das pessoas que promovem esse tipo de ação em relação ao outro. De verdade. É muito difícil uma pessoa não entender a dimensão daquilo que faz. Só que, por incrível que pareça, as pessoas estão cada vez mais desapropriadas do poder da própria palavra, porque é tudo muito rápido, instantâneo, ao alcance do dedo. Se você quiser compartilhar uma fake news hoje em dia, isso se faz com a maior facilidade. E esse tipo de facilidade foi deixando as pessoas alienadas do poder que cada uma delas têm”.
Perguntada sobre se existe algo de bom a partir do cancelamento na internet, a psicanalista e jornalista Anna Carolina Lementy é enfática:
“Eu acho que não. Qualquer ação que não permita o diferente, a discordância, pode ser danosa para a gente em termos de sociedade. É isso que produz discursos violentos. Não creio que qualquer pessoa possa também se colocar no papel de “reprimido”, porque também isso é problemático. Reprimir uma ideia torna ela muito mais potente, já vimos isso acontecer. O debate, o questionamento, é o que nos faz evoluir como sociedade e pensar em caminhos. Silenciar equivale a fermentar uma espécie de ódio que pode ir para caminhos que não conseguimos prever ou controlar. Se a gente para pra pensar o que foi o nazismo chegamos um pouco a esse raciocínio. Então, é preciso poder falar e ouvir o outro – e isso só se dá se todo mundo tiver voz. Não vejo o cancelamento ser benéfico olhando por esse sentido”.
Nem sempre quem grita tem razão
O professor de filosofia Filipe Campello, uma das referências nacionais voltadas à compreensão do fenômeno, explica os mecanismos que movem o linchamento virtual, em matéria publicada na Revista Veja é enfático sobre as características que se assenta a cultura do cancelamento:
“No lugar de uma crítica social, passa a predominar uma lógica de cancelamento dirigida aos próprios indivíduos, em vez do reconhecimento de direitos, o punitivismo baseado numa lógica moralista; e ao contrário da possibilidade de aprendizado e mudança, a pressuposição de uma espécie de essencialismo atemporal”. Em outra passagem, Campello afirma: “Alias, esse é o paradoxo da pós-verdade: não é que haja várias verdades continuamente disputadas, mas a pretensão de uma única verdade que se impõe. E ela pode não passar de um boato (Leia mais).
O cancelamento torna-se perigoso, porque não permite aos outros o contraditório; não permite a quem toma determinadas atitudes defender-se e resolver situações pelo diálogo e/ou recuo de uma das partes envolvidas. Em 2021, no BBB 21, brigas entre dois participantes foram a prova de cancelamento real e virtual (Acesse).
Babu Santana, ex-BBB também se manifesta: “Não devemos cancelar as pessoas, devemos educar” (Para saber mais).
Lucas Penteado, participante do BBB21, deixa a casa de maneira triste, sem direito de se expressar como deveria e tendo de ouvir muitas barbaridades. Esta edição do BBB21 é marcada pelo cancelamento e levanta questões sobre a ética das relações interpessoais, bem como a perversidade do bulliyng e da discriminação, amplamente praticados no cotidiano dos lares, escolas e ruas de nossas cidades brasileiras. Lucas não teve uma crise nervosa à toa. Seus gritos no confessionário, vazados pelo pay-per-view, dão uma boa mostra do tamanho do estrago emocional que o bullying pesado e a falta de respeito lhe provocaram. As marcas desta experiência trágica doerão mais do que qualquer paredão e vão durar por muito tempo. Que vergonha de quem assistiu calado a tudo isso…. (Veja mais).
O reconhecimento social
Todos precisamos de reconhecimento social. Reconhecimento social é uma lacuna que precisamos preencher; faz parte das grandes necessidades humanas, sobretudo da necessidades de sermos cuidados, vistos e reverenciados. Reverência é atenção, consideração, respeito.
Cada fase de nossa vida, exige que sejamos cuidados. Exige que saibamos cuidar, de si mesmos e dos outros. E, somente juntos, promovemos relações que nos integram à sociedade, pois temos, todos e todas, a necessidade de nela sermos aceitos, queridos e promovidos. Como já escrevemos em outra reflexão, “a necessidade do cuidado e as carências afetivas, próprias do ser humano, não significam atestado de fraqueza humana. O que nos torna fortes, capazes de superar as nossas maiores contradições, é a nossa capacidade de encarar nossos limites e carências, pois estas nos despertam para o crescimento e discernimento pessoal, afetivo e social”.
A escola, lugar de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de aprendizagens colaborativas. Cotidianamente, através das relações interpessoais, a escola administra as suas tensões internas, favorecendo o diálogo, o respeito às diferenças, o reconhecimento das alteridades. As escolas deveriam ser espaços de humanização. Humanizar-se é tornar-se melhor ser humano, a partir do conhecimento.
As escolas deveriam cuidar, substancialmente, de duas dimensões inerentes ao ser humano e à própria escola: a integração e socialização das pessoas e a construção de conhecimentos. Se estas dimensões não estiverem bem organizadas nas escolas, elas esvaziam seu sentido e perdem sua importância (Leia mais).
A escola cumpre um papel importante na sociedade na promoção do reconhecimento social. Mas diferentes grupos sociais como família, amigos, colegas de escola, grupos de jovens, clubes, dentre outros, devem também promover o reconhecimento social de cada indivíduo e de todos os indivíduos. Este reconhecimento começa com o respeito às diferentes individualidades e, consequentemente, o reconhecimento das diferentes potencialidades e habilidades que são próprias ou desenvolvidas por treino ou aperfeiçoamento por cada um e por todos.
Cada um tem, na sua individualidade, algo de bom que merece ser visto, conhecido e reconhecido.
Eis um dos desafios maiores dos nossos tempos: promover o reconhecimento social num mundo que cultua o individualismo, promove a intolerância e pratica a exclusão sumária daqueles que, por ventura, não se consideram mais dignos de serem seguidos ou considerados.
Vivemos num tempo em que qualquer “pisada na bola” é motivo de exclusão; não oportunidade de repensar conceitos, atitudes ou valores.
O reconhecimento social é o atestado de consideração e reverência que a sociedade, ou o grupo da nossa maior convivência social, confere a cada indivíduo e a todos os indivíduos. Cada um de nós precisa ser reconhecido em virtudes, habilidades ou conhecimentos.
Cada um precisa ter condições de buscar seu lugar ao Sol e neste grande Universo o Sol brilha para todos. A liberdade é condição primeira para sonhar e sorrir. Liberdade não combina com exclusão e eliminação. Não combina com cancelamento!
Esta atividade pode ser aplicada a estudantes do Nono Ano do Ensino Fundamental ou em turmas do Ensino Médio. No Nono Ano, Unidade temática: Ética. Objeto de Conhecimento: Refletindo sobre temas morais e éticos/Liberdade Habilidades: EF08FL03PF01 Examinar temas e problemas que envolvem a vida cotidiana do adolescente, reconhecendo possibilidade de fazer escolhas e justificá-las.
No Ensino Médio, na àrea de Ciências Humanas, pode ser trabalhado também em aulas de filosofia, sociologia e ensino religioso.
Questões para pensar, refletir e desenvolver:
1. Caro estudante! Já discutiu uma centena de vezes a cultura do cancelamento no Twiter mas não saberia como abordá-la em uma redação? Esse texto é para você! Em meados de 2017, o termo “cancelamento” surgiu para nomear uma prática virtual que já vinha acontecendo: o boicote a personalidades (famosas ou não) que cometeram alguma violência dentro e … (Aqui é o início do texto que os estudantes devem dar seguimento?) (Leia mais).
2. Investigue, na internet, um caso ou dois de pessoas que foram canceladas. Descreva a situação e a sua opinião sobre este cancelamento concreto que você conheceu.
3. A partir da leitura do texto acima e depois de assistir ou acessar textos complementares, responda: Cancelar significa infligir um direito natural, o de existir? O que significa ser humano e livre diante dessa “cultura do cancelamento”? A liberdade exige, requer a negação da alteridade/ do outro?
4. Em grupos, separados por turma, discutir a situação vivida por Lucas Penteado, na edição do BBB21. Problematizar, levantar hipóteses e saídas que poderiam ter evitado o constrangimento e a humilhação do participante. Depois, grupos podem dividir com restante da turma.
4. Depois dos estudos e leituras, organizar debate em sala de aula sobre o tema, escutando todas as posições e opiniões sobre o tema cancelamento com a ideia de aprofundarmos o assunto.