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Mães e pais defendem suspensão de aulas presenciais no pior momento da pandemia

A Associação de Mães e Pais pela Democracia (AMPD), junto com CPERS Sindicato, protagonizou ação judicial (pedido de antecipação de tutela em ação civil pública) que suspendeu aulas presenciais em escolas públicas e particulares em todo os RS.

A presidente Aline Kerber, em entrevista exclusiva ao nosso site, fala das motivações que levaram a AMPD a ingressar com esta ação na Justiça, bem como das repercussões que esta decisão alcançou logo após proferida decisão judicial. Fala também sobre a importância de preservarmos vidas, evitando aglomerações a partir das escolas e dos espaços públicos de convivência.

Em tempos em que o destino das nossas vidas frente à pandemia está politizado, o Brasil agoniza todos os dias com a tragédia de milhares de mortes anunciadas, que poderiam ser evitadas se outros rumos fossem tomados. O Estado do RS, que entra pela terceira semana em bandeira preta, precisa adotar medidas duras para conter o avanço da disseminação, reduzir a mortandade e desafogar os hospitais para que estes possam atender as necessidades dos que se contaminam com o novo vírus.

Entrevista

SITE NEIPIES: Quais são os princípios que organizam a Associação de Mães e Pais pela democracia? Como estes princípios são vivenciados, durante a pandemia?

Aline Kerber: A associação se organiza pelos princípios de direitos humanos e uma educação livre, plural e inclusiva, uma escola pública qualificada para todos e que viva e promova a diversidade. A Associação surgiu a partir de uma mobilização de estudantes, de nossos filhos em escolas privadas de Porto Alegre e que sofreram ataques de membros do Movimento Escola sem Partido. Foi uma forma de organizar a resistência.

Durante a pandemia, passamos ainda mais a defender o direito à educação e também a contestar questões estruturais que impossibilitam uma sala de aula adequada e com protocolos muito frágeis.

Falamos a partir de pesquisa que fizemos Educação na pandemia do Covid 19 da necessidade de superação deste apagão educacional que passa pelas questões estruturais, mas também pelo acesso à tecnologia.

Sabemos que há uma elitização pelo acesso às tecnologias, pois a maioria dos alunos não tem internet ou condições de acesso à plataforma ou aos conteúdos oferecidos e compartilhados pelas escolas, sobretudo as escolas estaduais e municipais. As escolas privadas fazem por meio de live ou de EAD, que está ligado a outro problema que é a overdose das tecnologias e a dificuldade de interação dos nossos filhos com estas plataformas e com esta metodologia e pedagogia adotada.  Sabemos que tudo isso dá conta de manter o contato dos nossos filhos com a escola, com os colegas, com os conteúdos.

O problema grave mesmo é com a educação pública e o descaso com que se reforça a cada nova medida. Por isso, a Associação tem feito vários movimentos para reforçar a escola pública e também a valorização dos professores.

SITE NEIPIES: O que motivou a Ação de Mães e Pais pela Democracia a propor a Ação Civil Pública objetivando a suspensão das aulas presenciais neste momento?

Aline Kerber: O que motivou foi o momento de bandeira preta, cuja previsão era de que, nesta situação, não haveriam aulas presenciais, o que foi modificado.

No nosso entendimento, dado o contexto o aumento de casos de infectados e de pessoas doentes de forma exponencial e o colapso do sistema de saúde e a falta de atendimento com a superlotação, a gente se viu numa escolha de Sofia: sabemos que muitas crianças só tem a escola como forma de sobreviver, sabemos que os profissionais da linha de frente da saúde tem de contar com este apoio, sabemos que a escola é um espaço de aglomeração e que acarretará maior disseminação do vírus, o que precisa ser revertido para sairmos destas curvas que nos levaram à bandeira preta.

Precisamos de protocolos que possam garantir uma volta às aulas presenciais mais segura e mais democrática, principalmente nas escolas públicas.

A maioria das Mães e Pais pela Democracia tem seus filhos em escolas privadas, mas foi um exemplo para mostrar aos nossos filhos que devemos lutar para que todos tenham direito à educação, mas as vidas estão em primeiro lugar.

SITE NEIPIES: Como avalia as reações após a decisão judicial?

Aline Kerber: A reação de muitos foi desesperada, pela surpresa da decisão. Por outro lado, o planejamento dos gestores não fechava com a realidade que estava por vir e que está acontecendo agora. As pessoas se organizaram para levar seus filhos à escola depois de um ano sem aulas, outros tem real necessidade de deixar as crianças pequenas, os filhos nas creches, na educação infantil, mães e pais preocupados com déficit educacional.

Teve uma escola do Município de Farroupilha, RS, que orientou pais a ligarem para nossos telefones, insistentemente, nos constrangendo e responsabilizando pelas decorrências desta decisão liminar. Em função dos ataques pessoais e à Associação, fizemos um Boletim de Ocorrência. Houve também muitos ataques nas redes sociais, diretos e indiretos, dizendo que não éramos democráticos. Na maioria, são questões de cunho pessoal e não coletivo.

Para nossa tristeza, ao invés das pessoas pedirem por medidas governamentais como auxílio emergencial ou garantias de manutenção de emprego, vacinação em massa, só pediram a volta às aulas e sem contextualizar a questão da pandemia.

Defendemos medidas de melhoria do contexto da pandemia, não de agravamento. A maioria das reações foram pouco racionais, mas baseadas em necessidades do sistema e necessidades individuais.

SITE NEIPIES: Qual a importância de manter as escolas fechadas, sem aulas presenciais, neste período de enfrentamento à pandemia?

Aline Kerber: Foi muito importante a decisão, no contexto de bandeira preta, para que não houvesse ainda mais disseminação do vírus e para que os professores, que são obrigados a voltar, mesmo de escola privada, não tenham seus direitos mais básicos também violados, pela questão da sobrevivência. Passamos também a pedir vacinação prioritária para os professores, pois o trabalho da educação é essencial; a educação é essencial para a sociedade e para as famílias.

SITE NEIPIES: As escolas particulares, que mais se incomodaram com esta decisão, têm mesmo condições de atender os estudantes, protegendo as famílias e os professores da disseminação e contágio do vírus?

Aline Kerber: Sim, foram as escolas particulares que mais se incomodaram com a decisão. O SINEP (Sindicatos das Escolas Particulares) disse que as escolas tem condições de atender os alunos, mas vimos, através de muitos vídeos, que mostravam logo que as escolas voltaram que havia descumprimento de protocolos, seja pela faixa etária, seja pela quantidade de alunos por sala, seja porque não houve um treinamento adequado.

Por outro lado, só andar na rua para perceber que as pessoas não usam máscaras, principalmente adultos. A sala de aula, particular ou pública, é um lugar de aglomeração e, consequentemente, de disseminação do vírus. Vejamos o caso de São Paulo, onde, antes de fecharem as escolas, houveram mais de mil contaminados nas salas e 21 mortes até agora.

Há, hoje, um contexto de crescimento de mortalidade de crianças e adolescentes para Covid 19. Este é um componente que precisa ser observado do ponto de vista da saúde coletiva.

Somente o uso dos protocolos, alegados pelas escolas particulares, não garante segurança total porque a estrutura e a abertura das escolas aumenta e potencializa o contágio da Covid e aumenta, neste momento, a situação por conta da bandeira preta e da situação da pandemia no RS, o que exigiria um lockdow de pelo menos 21 dias.

SITE NEIPIES: Como mãe de dois filhos, como vês a educação e o mundo pós pandemia?

Aline Kerber: Estou muito preocupada com o que vem como resposta a este lapso ou apagão educacional que vivenciamos.

No mundo pós pandemia, a educação precisa abrir mais espaço para as competências e habilidades socioemocionais, espaço para tratar estes traumas, esse processo de socialização que a escola possibilita e que foi impossibilitado em decorrência do vírus.

Realmente, espero que educação esteja voltada para a reafirmação dos valores que agregam uma sociedade: empatia, solidariedade, liberdade, de igualdade e fraternidade porque passa por aí a reconstrução da sociedade neste contexto de pós pandemia. Vou estar empenhada para tensionar a educação para que esteja voltada para as pessoas e para formar cidadãos e cidadãs que possam, de forma engajada, transformar o mundo.

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos pais e mães de todo o RS.

Aline Kerber: Quero dizer às Mães e Pais do RS que a melhor coisa que podemos fazer é cuidar dos nossos filhos neste momento e evitando que estejam em circulação nas ruas.

Nossos filhos já são a mudança que nós queremos para o mundo. Então, a gente, agora, enfrenta as dificuldades de acompanhar as aulas e dar suporte necessário. As mães, com tripla jornada de trabalho, acompanham este processo e tem dificuldades de sobrevivência, como também de saúde mental, mas vai passar.

A gente vai conseguir enfrentar isso coletivamente e o que vai restar são os momentos de resistência e resiliência, de afeto e aprendizados grandiosos como se importar com o outro, de entender o que está acontecendo e de trazer segurança e tranquilidade para nossos filhos em relação ao que vem, ao futuro.

O futuro é incerto, nós não sabemos quando voltaremos. A volta depende da redução drástica nas curvas de contágio e mortalidade da Covid, suficiência dos sistemas de saúde e UTIs e da vacinação.

Temos de entender complexidades e desigualdades, de quem tem ou quem não tem os recursos, aumentar ainda mais a solidariedade e pedir o que precisa ser pedido nas nossas redes sociais que hoje são nossas ferramentas e, depois, nas ruas, com carreatas que defendam a vacinação e a vida.

A educação e a escola são fundamentais, mas na bandeira preta não é a escola o lugar dos nossos filhos.  Vidas em primeiro lugar e educação voltada à valorização da vida e não a banalização da vida como vemos por aí.

Para finalizar: não é uma escolha o pai ou a mãe levar seus filhos para escola, o que está em jogo é a vida como o maior dos direitos. O direito à educação, também importante, em tempos de pandemia, de caos e de colapso, é secundário com relação ao direito à vida de todos e todas. Por isso, ingressamos com esta ação, que já foi ratificada na Justiça e no STF, mesmo com SINEP e Governo Estadual que continuam defendendo a volta às aulas presenciais neste contexto e lutando judicialmente para reverter estas decisões judiciais.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Vamos resistir?

“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem?” (Renato Russo)

Nós estamos aqui conscientes, resistentes, organizados e corajosos, exercendo nossa cidadania. Não podemos deixar que nos roubem o que conquistamos a duras penas: nossa liberdade cidadã.

As liberdades conquistadas e exercidas precisam expressar o sentido de uma luta, que não pode ser levada senão em conjunto com os movimentos sociais, sensíveis e comprometidos com a ideia de democracia e emancipação, combatendo qualquer forma de dominação, prepotência e crueldade.

Somos, como sociedade civil, o outro do Estado e temos o direito e o dever de nos contrapormos às decisões estatais, quando essas desconsideram o respeito à vida, sob pena de sucumbirmos.

Estamos, nesse momento, vivendo um caos na saúde pública, com potencial para produzir ainda mais mortes nessa Pandemia. Não podemos aguardar calados até que esse inferno dantesco se espalhe sobre todo o País. Nossa “Pátria Amada” está doente e morrendo dia a dia.

Vamos resistir?

Mais uma vez Bolsonaro despreza a ciência, adota comportamento criminoso, desacreditando os efeitos da vacina e fazendo, novamente, da vida e da saúde um campo de batalha política. Descumpre o papel básico de qualquer Estado e governo:  garantir minimamente o direito à vida e à saúde dos cidadãos. Estamos diante de um governo que as despreza abertamente, sem constrangimentos. Moralmente, é o pior governo da nossa história e mais letal que o vírus! (José Ernani Almeida) Veja mais!

É o que sempre fizemos e continuaremos a fazer, apesar dos abusos de quem gerencia o poder central e se sente senhor da vida e da morte das pessoas, tergiversando e encobrindo sua irresponsabilidade com piadinhas arrogantes e pronunciamentos cruéis.

Pensar e agir é o que nos caracteriza como humanos. Nós, como povo soberano, vivemos nossas contradições e temos que enfrentá-las, como desafio do presente, na preservação da vida de todos.

De nada adianta o Estado aparecer como avalista das relações sociais e políticas, se não tem competência para gerir uma crise sanitária, elaborar um programa nacional de imunização efetiva e compartilhar com os cidadãos a riqueza nacional, fruto do trabalho de todos nós.

Vamos resistir, apesar da pessoa que no momento ocupa o lugar de presidente do país? Ou, vamos permanecer numa atitude de autocomiseração, amedrontados, imóveis, desesperados deixando que nos exterminem?!

Quem avaliza a soberania pública dos governantes somos nós, sociedade civil livre e organizada. Precisamos agir de forma competente, para deliberar sobre os rumos de nosso país. A hora é agora!

Não adianta depois chorarmos sobre uma “Jerusalém destruída”. Façamos algo para interromper essa incúria civil!

Que nossas vozes sejam ouvidas por todo o território nacional e pelos demais territórios do globo, num clamor cívico, ético, político em que proclamaremos nosso senso de justiça, liberdade e cidadania, denunciando o descaso, a arrogância, a crueldade e a irresponsabilidade que está ocorrendo aqui, neste Brasil.

Com a mesma esperança que acreditamos que podíamos mudar o mundo, não deixemos que roubem nossa coragem.

Autora: Cecilia Pires

Edição: Alex Rosset

Psicologia humanista: identificação e reconhecimento de potencialidades

As frustrações e as grandes tragédias que ameaçavam o desenvolvimento humano contribuem, também, para impulsionar o estabelecimento de acordos humanitários entre os quais vale salientar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

De modo semelhante a um grão de feijão que tem a potencialidade de germinar, se transformar em um pé e se multiplicar, nós seres humanos podemos desenvolver nossas potencialidades.

Contudo, o desenvolvimento é dependente de condições específicas. A história humana da primeira metade do Século XX é marcada por frustrações e tragédias humanitárias decorrentes das guerras mundiais, do nazismo e do fascismo. A história da primeira metade do Século XXI está sendo marcada pelo drama das vidas abreviadas pela pandemia.

As frustrações e as grandes tragédias que ameaçavam o desenvolvimento humano contribuem, também, para impulsionar o estabelecimento de acordos humanitários entre os quais vale salientar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O direito de toda pessoa em ter sua dignidade humana, na dimensão psicológica e material, foi regulamentado pela Organização das Nações Unidas, em 1948. O acordo que reconheceu socialmente os Direitos Humanos, contribuiu para que inúmeras iniciativas humanitárias no campo material e psicológico fossem multiplicadas, mas ainda não se apresenta como uma realidade concreta e universal.

Na esfera psicológica, alguns pensadores simbolizam contribuições marcantes para a evolução humana. Um dos precursores principais é Sigmund Freud, identificado como pai da psicanálise. Freud demonstrou vínculos existentes entre a dimensão mental e o comportamento materializado em ações e patologias.

Ao descrever a estrutura psíquica, Freud apresentou a teoria do ID, EGO e SUPEREGO, demonstrando a constituição do pensamento humano e da sua relação com o comportamento, consolidando a importância da análise psicológica e da psicoterapia.

A Psicologia como área do conhecimento e como ciência aplicada pode se adaptar e provocar mudanças significativas na sociedade do século XXI. O avanço desta área deve trazer contribuições para situações conflituosas das dimensões subjetivas e sociais, que se apresentam como problemas para a humanidade. Saiba mais!

Inumeráveis ramificações, frutificadas em abordagens psicológicas específicas, foram disseminadas na segunda metade do século XX. Entre os nomes que se destacam estão, por exemplo, Abraham Maslow, Viktor Frankl  e  Carl Rogers.  São pensadores que consolidaram uma abordagem conhecida como   psicologia humanista, ao defender uma visão integral e integrada do ser humano, incluindo saúde, criatividade e individualidade.

No início deste século XXI, a disseminação de atos terroristas, guerras, tragédias e a pandemia ampliaram o impacto de ações violentas e desumanas, transformando a psicologia em um campo de conhecimento altamente demandado.

A pandemia de 2020, que continua se agravando em 2021, nos força a pensar ações para perpetuar o humano, o humanismo e as potencialidades humanas.

O fascismo mora na simplificação, no ódio baseado em pensamento simplista. Estamos flertando com o agrupamento de ideias e pessoas que abriram mão ou não tiveram acesso ao pensamento complexo e profundo. Combater o fascismo dará muito trabalho. (Sociólogo Ivan Dourado). Veja mais!

Sinta-se convidado a acompanhar as produções do nosso canal do youtube, em especial nosso encontro sobre psicologia humanista. Acesso ao canal.

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Mães solos e educação das crianças em meio à pandemia

As mamães solos estão aprendendo com as suas crianças a cuidarem de si e dos outros a cada dia que passa nesta pandemia pela qual estamos passando.

Ser mãe não é nada fácil, pois exige amor, dedicação, cuidados, entrega ao outro e mudanças repentinas no corpo, de repente. Quando uma mulher descobre que será mãe o seu pensamento, imediato, é de felicidade.

Sim, ela com o seu instinto de maternidade e, desde cedo educada para ser mãe, se vê rodeada de alegrias indefinidas. Prepara-se para comprar roupas para mulheres grávidas, prepara o enxoval do bebê e visita o seu médico que fará o chamado pré-natal, ou seja, o acompanhamento dos primeiros dias de gravidez até o nascimento do bebê por um médico especialista. Tudo é feito com muito carinho por parte da mulher.

Há um adendo em meio a tudo isso, pois essa mulher da qual falo é mãe solo. Ela vai ter que se virar sozinha para cuidar do seu bebê, ir ao médico, conseguir dinheiro para comprar fraldas pro bebê e tantos outros cuidados que são necessários numa gravidez. Mas, ela sabe que vai ser mãe e não importa se o pai está perto ou não.

A alegria da maternidade é maior que tudo e segue em frente nessa gravidez linda já sentindo a criança chutar a barriguinha em algumas horas de tranquilidade.

A maternidade parece um presente a muitas mulheres, noutras muitas vezes, não é bem-vinda por vários motivos que poderemos discutir em outro texto.

Passados nove meses, o bebê nasce. Aos olhos da mãe, uma criança linda que crescerá sob os seus cuidados com saúde e alegria. Mas, a dura e cruel vida começa a cobrar da mãe a presença do pai no registro civil, na pensão alimentícia, pois educar uma criança sozinha quando não se tem um emprego não é nada fácil.

A mulher luta. Não pode trabalhar porque o bebê ainda requer cuidados maternos e não quer deixá-lo nas mãos de pessoas alheias. A mãe solo sabe que terá de matar muitos leões por dia para enfrentar as picuinhas das pessoas próximas a ela em respeito a ter um filho sem a presença de um pai. Porém, ela não se importa. O bebê é mais lindo que todas as picuinhas do mundo!

O bebê cresce e completa seis anos de idade. Vai à escola. Acontece uma pandemia e o mundo fica de pernas pro ar. A mamãe perde o emprego que conquistara há três anos e a sua criança ficava o dia inteiro na escola. Agora, sozinha em casa com a sua criança entra em desespero com a falta de comida, atraso de pagamento das contas de água e luz, aluguel da casa também atrasado e cobradores à porta da sua casa.

A criança brinca o dia todo correndo dentro de casa e pulando na poltrona da sala. Para ela, o mundo ficou melhor. Está ao lado da mamãe o dia inteiro é um grande presente. Mas, alguém fala a todo instante à criança que muitas pessoas estão morrendo e ela começa a ficar com medo de perder a mamãe para esse vírus sobre o qual todo mundo vem falar com a mamãe, que ela vê passar na televisão e escuta no radinho de pilha. Sorte que a criança não encuca com isso e logo está a brincar novamente.

Seguem-se cuidados da mamãe quando sai à rua no uso de máscaras nela e na sua criança que não entende nada do que está acontecendo.

Sozinhos, mãe e filho, vão ao supermercado e para a criança aquilo tudo é uma brincadeira incrível. Poder comprar frutas, biscoitos, leite, pipoca e tantas outras coisas gostosas é maravilhoso! Sair de dentro de casa depois de três meses não tem coisa melhor! A mamãe aproveita as compras para educar a sua criança perguntando-lhe se o feijão está caro, se o açúcar está mais barato do que o feijão, quanto podem gastar naquele dia, como podem fazer para economizar. A criança se diverte sentindo-se importante na vida da mamãe.

Em casa, todos os cuidados são tomados com a criança. Ela não entende por que não pode brincar no parquinho ou na praça. Ela não entende por que as aulas são agora por aquele celular que a mamãe pediu dinheiro emprestado e financiou em trinta e seis parcelas só para que pudesse estudar em casa sem perigos. Mamãe, que perigo estamos correndo? A pergunta que toda criança curiosa ou não já deve ter feito aos seus pais em meio a pandemia.

A mamãe tem uma casa para limpar, roupas para lavar e comida para fazer, mas o filho tem dever de casa que deve ser enviado até às quinze horas daquele mesmo dia, conforme mensagem recebida da professorinha.

A criança diz que sabe fazer sozinha, a mamãe não confia e deixa todos os seus afazeres de lado para acompanhar a tarefa escolar.

O cuidado é grande. Em casa, apenas a família: pai, mãe e filhos. E agora? O que vamos fazer com os nossos filhos? Como vamos incentivá-los nos estudos se estamos assoberbados de trabalho? Veja mais sobre o assunto.

A criança pede ajuda na primeira pergunta. É sobre o papai. Querem que ela desenhe como é o papai. Sem saber o que dizer a mamãe pede para que desenhe um homem de calça, camisa e sapato. Este é o meu papai, mamãe? Não! O papai é uma figura imaginária da mamãe. E, aos seis anos de idade, a criança começa a ficar curiosa para conhecer o seu papai. A mamãe a senta no colo e inventa uma história de contos de fadas, porque a real é muito dolorosa.

A mamãe descobre que a criança gosta da história e descobre junto com ela uma forma de educá-la mais lúdica, ou seja, contando-lhe histórias fantásticas e maravilhosas.

A contação de histórias tornar-se uma arte educativa para aquela mamãe que sozinha precisa educar uma criança de uma forma que lhe cause prazer e felicidade estudar e participar das atividades online da escola.

A criança não gosta de estudar remotamente, mas a mamãe faz de tudo para que ela permaneça concentrada na aula sentando-se com ela para juntos assistirem a aula. A mamãe demonstra interesse e curiosidade pelo que está sendo ensinado à distância.

Em meio a pandemia, a educação da criança não tem sido nada fácil para a mamãe solo. Com mais tempo em casa, a criança começa a ficar inquieta, não quer dormir cedo, não quer mais ver televisão e nem assistir as aulas pelo celular.

Ela quer brincar com os seus amiguinhos e chora o tempo inteiro para ir comer os bolinhos da vovó. É preciso explicar-lhe que a vovó não pode receber visitas no momento e que brincar na rua é perigoso. É preciso explicar-lhe da necessidade de estudar em casa, pelo celular. De nada adianta. A criança está de birra e tristonha. Acha chato tudo o que a mamãe diz.

Sem querer contar-lhe que também está achando chato tudo aquilo, a mamãe sabe o quanto a sua criança está sofrendo com todas as mudanças repentinas que ocorreram na sua vida de uma hora para outra. Ela precisa se reinventar, do nada. Mas, antes que descubra o que fazer para alegrar a sua criança, ela a surpreende desenhando bonecos nas paredes da casa.

A mamãe pensa em reclamar, melhor não. As coisas estão tão difíceis para todos nós. Melhor deixar que a criança faça o que gosta, o que está lhe dando prazer naquele momento de isolamento social, longe dos amiguinhos e de tudo o que lhe faz bem.

As mamães solos estão aprendendo com as suas crianças a cuidarem de si e dos outros a cada dia que passa nesta pandemia pela qual estamos vivendo. As crianças todos os dias ensinam a nos reinventarmos. Elas pedem para aprenderem a cozinhar, lavar roupas, dar banho no cachorro, limpar o cocô do gato.

As crianças gostam das tarefas domésticas. Isso faz com que elas se sintam úteis. E as mamães vão ganhando alegrias ao verem as suas crianças contentes mesmo estando longe do que gostam. Por isso é importante dar liberdade para elas nesse momento tão difícil para todos nós.

Não tem nada demais em ser uma mamãe solo em pleno século vinte e um se não fossem as exigências da sociedade e de algumas escolas da criança pela presença de um homem adulto na família porque as mamães aprendem com as lutas da vida a criarem os seus filhos com sabedoria mesmo enfrentado diversos problemas ao longo das suas infâncias não sentem falta de uma companhia.

Não é nada fácil ser uma mamãe solo, mas muitas mulheres exercem esse amor com a maestria muitas vezes até melhor do que as mamães que têm maridos.

A criança ensina à mamãe não ter medo do vírus com o seu sorriso e brincar o dia inteiro.

Há momentos que as brincadeiras são tantas que ela esquece das milhares de mortes pelo mundo inteiro. Só lembra quando a criança vez por outra pergunta: mamãe, por que todo mundo tá morrendo? Sim, não adianta mentir para uma criança. É preciso falar a verdade com cuidado nas palavras para não causar pânico. Apesar dessa pergunta ser frequente quando a criança escuta um jornal ou sabe que alguém querido morreu, logo esquecerá a dor se a mamãe continuar tranquila e paciente. É difícil agir assim, porém é preciso.

Às mamães solos é dedicada a tarefa de educar as crianças com dupla função: a de mãe e a de pai. As crianças filhas de mães solos não se preocupam com a falta de um pai caso a sociedade não lhes cobre a sua presença. Essas crianças tornam-se mais próximas das suas mães e as ensinam a todo instante uma forma melhor para se viver com os seus jeitinhos de olhar o mundo.

Um mundo que nem sempre olha para elas com carinho, mas com questionamentos: sem pai será que vai dar pra bom menino? Sem pai será que vai dar pra moça recatada? Esse mundo que chora a morte de milhares de mamães solos que morreram vítimas de um vírus que destrói famílias todos os dias.

Que as crianças possam continuar alegres e esquecendo das coisas chatas dos adultos o mais rapidamente possível com as suas brincadeiras e vontades de viverem. Seja pintando ou desenhando em paredes ou papéis. Aprendamos a enfrentar a pandemia com o sorriso de uma criança.

Entrevista com Daniel Cara, professor da USP (Economia da educação) e membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação sobre os desafios da educação em tempos de ensino remoto e/ou híbrido. Assista a entrevista na íntegra.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Escola, pandemia e capacidade de pensar

A escola, com certeza, cumpre papel fundamental na vida dos estudantes, dos professores e professoras, das famílias e das comunidades, mesmo que de forma precária e remota ou no modelo híbrido de educação.

Durante palestra a professores da rede municipal de Passo Fundo, antes do reinício das aulas remotas, professor e psicanalista Prof. Dr. Francisco Santos começou sua participação afirmando que os professores precisam “estar de cabeça erguida”. Sua reflexão foi embasada em poema de Afonso Romano de Sant’anna:

Erguer a cabeça acima do rebanho é um risco que alguns insolentes correm. Mais fácil e costumeiro seria olhar para as gramíneas como a habitudinária manada. Mas alguns erguem a cabeça olham em torno e percebem de onde vem o lobo. O rebanho depende de um olhar”.

Em entrevista exclusiva ao site, Francisco Santos detalha seus entendimentos sobre as complexas relações de ensino aprendizagem, sociedade e escola, neste momento histórico que se apresenta como um tempo de incertezas, polarizações e de necessidade de vínculos e de afetividade para que ocorram aprendizagens significativas. A escola, com certeza, cumpre papel fundamental na vida dos estudantes, dos professores e professoras, das famílias e das comunidades, mesmo que de forma precária e remota ou no modelo híbrido de educação.

Acesse à íntegra da palestra proferida aos professores e professoras da rede municipal de Passo Fundo, RS. Assista!

Entrevista

SITE NEIPIES: O que significa a postura do professor de cabeça erguida diante da vida, da educação e do mundo, neste momento histórico?

Francisco Santos: Aqui cabeça erguida não está proposto no sentido comum, mas no sentido preciso, proposto no poema: aquele de sermos nós, os professores, os responsáveis por erguer a cabeça acima das gramíneas do chão e ver de onde vem o lobo. Precisamos ver mais longe. Nesse sentido, o rebanho depende de um olhar. O professor está entre aqueles que, no papel de cuidadores, assume essa responsabilidade por si e por aqueles de quem cuida.

SITE NEIPIES: Como lidar com os efeitos e com os traumas com os quais convivemos neste contexto pandêmico?

Francisco Santos: Comecei minha conferência alertando que falaria como psicanalista, e que, portanto, de mim não se poderia esperar certezas e nem fórmulas prontas para as situações que vivemos.

O contexto pandêmico é de incertezas, e, como tal, precisamos reconhecer, antes de tudo, essas incertezas. Somente assim é que, a partir delas, construiremos possibilidades de pensamento.

Pensar não é usar fórmulas prontas. Uma atitude exclui a outra. Quem se serve de fórmulas não pensa; quem pensa não se vale delas, mas constrói vias.

A pandemia é um tempo traumático, que nos atinge a todos, embora cada um de nós tenha uma solução singular e lide com o traumático de forma distinta. De repente, fomos desalojados e convidados a desembarcar do mundo em que vivíamos.

Nem o mais inventivo ficcionista poderia prever tudo que vivemos. Cidades paradas, silenciosas, de ruas desertas, artéria urbanas antes lotadas sem um automóvel ou pessoa sequer, o ar de cidades como São Paulo ficando mais puro, um espanto, algo impensável, que não cabe no roteiro das coisas possíveis de acontecer, o impensável, aquilo que não podemos, nem mesmo na imaginação, representar, irrepresentável, portanto. Isso é o traumatismo.

Para enfrentar tudo isso precisamos reconhecer que estamos colocados na posição de restaurar, reinterpretar o mundo juntamente com nossos alunos. Estamos, como propõe o psicanalista Christian Dunker, em estado de cura, de permanente cuidado frente à interrupção da vida que antes havia. E assim seguiremos por um tempo.

SITE NEIPIES: Quais são os limites e os potenciais do uso das tecnologias na educação?

Francisco Santos: As tecnologias digitais foram e tem sido um recurso vital nesse momento, como já eram antes um importante auxiliar da educação, e como seguirão sendo, de forma cada vez mais ampla.

As coisas se passam de modo diferente numa aula presencial e numa aula remota e essa diferença precisa ser reconhecida, não somente para aprendermos as técnicas, mas para compreender seus efeitos.

Estamos todos fazendo o possível dentro deste contexto, e não convém acreditar que está tudo dominado e normalizado porque as aulas ocorrem regularmente numa plataforma digital. São contextos muito diferentes. Falta a profundidade, o burburinho, o aroma, o clima que determina o rumo e o ritmo dos diálogos e das aulas, muitas vezes falta o riso. Falta, enfim, o fator relacional de presença humana que lubrifica a transmissão de todo e qualquer conteúdo.

Fora da sala de aula, a sala pode ser qualquer outra, a sala da casa, um quarto, até mesmo o carro virou sala de aula, ou um lugar cheio de gente onde pulsa a vida doméstica, fazendo as demandas do lar e os atrativos que a casa tem competirem com o dedicado professor que faz de tudo para romper os limites da comunicação não presencial.

Agora já não existe olhos nos olhos, mas olhos na câmera. Se eu olhar para os olhos da imagem de uma dado aluno na tela pareço estar olhando para outro lado. Existe também o incomodo – para alguns irresistivelmente atrativo – espelho digital da tela a nos faz ver a nós mesmos todo o tempo. Isso nunca ocorre numa sala de aula. Eu não me vejo, não me fixo a mim, me guio pelos olhos e respostas dos alunos que me olham. Interação pura.

São parâmetros totalmente distintos onde nada é como antes, embora esse simulacro digital faça parecer que sim.

Quer dizer, não é possível dar essa aula como se fosse aquela outra aula. É outra coisa. Mas, que coisa é essa? O que fazer com ela? Reposicionar-se, reaprender, aceitar mais uma atribuição. A linguagem sem presença se altera radicalmente. Nela estão ausentes elementos fundamentais da complexa operação que a linguagem realiza nas trocas humanas. Essa característica, em função do predomínio das comunicações pela rede, está se tornando cada vez mais frequente nos dias de hoje.

Perdemos a dimensão da gestualidade, o tom da voz, a sutileza das expressões do rosto e do olhar e, junto com eles, os afetos que por aí são transmitidos. Os intervalos de tempo de atenção dedicada são menores no modo remoto do que presencialmente, os movimentos e o caráter de improviso que dá a pauta de cada encontro, verdadeiro diapasão singular de cada aula, não está disponível.

Nessa altura do campeonato todos já sabemos que trabalhar de modo remoto dá muito mais trabalho, cansa muito mais e rende muito menos do que no modo habitual. Passamos muito mais tempo na frente da tela do que já passávamos. Estamos meio como o cantor que precisa cantar uma música que nunca ouviu, que não conhece e que nunca cantou.

Se conseguirmos manter um mínimo de sustentação do cotidiano de ensino nessas condições, ótimo, mas não creio que tenhamos entendido inteiramente o esforço que fazemos para conseguir algo disso numa transmissão remota. Tudo isso afeta, sem que percebamos, profunda e traumaticamente nosso funcionamento psíquico.

SITE NEIPIES: Por que a escola é tão importante na vida de todos nós? Qual é a sua tarefa na formação integral de um ser humano?

Francisco Santos: A escola é a instituição mais importante de nossas vidas, e a educação é nossa tarefa de maior relevância social. As crianças e os jovens necessitam da escola, necessitam do professor. O professor, por sua vez, também precisa de seu ambiente de trabalho, e cabe a ele e à escola, como representantes do adulto nessa relação, dirigir da melhor maneira as condições de retorno, equalizar os riscos para a saúde de todos e saber o que fazer, em aula, com a delicadeza desse momento crítico pelo qual passamos, em que precisamos enfrentar escolhas difíceis, conflitos e crises.

Essa é a receita perfeita para o traumatismo, e por isso a presença do professor e da escola são fundamentais nessa travessia, um professor que tenha sua cabeça íntegra para fazer frente a esse mundo. Mediante essa condição, devemos zelar para que essa contaminação que ora atravessamos não seja do pensamento. Que o isolamento a que fomos – e ainda estamos sendo – obrigados não seja um isolamento do pensamento.

O que não podemos permitir que o pensamento se paralise, esclerosado por falsos dilemas e por posições polarizadas que impedem a circulação das ideias e dos afetos no intercurso humano. Isso por si só indica que teremos muito pela frente no ano que está começando, tanto naquilo que diz respeito à própria contaminação pandêmica, que ainda nos ameaça, como na compreensão dos efeitos que essa mesma pandemia deixou em nós, e que continuarão conosco mesmo depois dessa etapa ser vencida.

Dunker propõe que o oficio de professor possui uma peculiaridade: é que, quando o exercemos, colocamos em cena o nosso desejo. Este traço confere ao trabalho do professor a singularidade de muito querer compartilhar o saber, de desejo em relação à transmissão, sobretudo o desejo de que um outro mundo seja possível.

O professor, que uma vez passou pelo processo educativo como estudante, deseja retornar sempre a ele para – ao invés de apanhar o que recebeu e dar por encerrado o ciclo – reconstruir novamente a experiência, agora do outro lado. Isso se apoia no desejo de tornar ainda melhor aquilo que recebeu.

Carregamos, nessa nossa curiosa atividade, a semente da utopia. Isso nos implica no compromisso de exercê-la a partir de uma ética, uma ética para consigo e uma ética para com o outro, de modo a não cairmos nas armadilhas que todas as utopias possuem, como a armadilha do heroísmo, da hiper-exigência e do sacrifício, que tantas vezes terminam em decepção, desilusão e ressentimento.

Essa ideia de que ser professor recoloca em cena nosso desejo ajuda a compreender também a paixão – incompreensível para muitos, dadas as evidencias de depauperação e perda de prestígio social pela qual ele passa – com que nos dedicamos a esse oficio.

Vale lembrar que nesse momento de nosso país, a ciência e a educação, a cultura e a arte, os direitos humanos e o meio ambiente sofrem ataques desqualificativos violentos e padecem de uma perda de investimentos jamais vistos. Os ministros dessas áreas estão entre as piores pessoas deste governo. É nosso desejo que nos segura e garante; é ele também que pode nos tornar frágeis e expostos. Daí a vital importância de podermos nos conservar pensando.

SITE NEIPIES: O que cura os traumatismos é a memória. Por que a pior coisa que poderemos fazer desde agora é o esquecimento do que estamos vivendo?

Francisco Santos: Sim, a pior coisa que se pode fazer frente a um traumatismo é o esquecimento. O esquecimento leva à impossibilidade de aprender com a experiência e à repetição do mesmo. Aqui é preciso transformar a vivência – que é aquilo que acontece com todos nós, como um trauma coletivo como esse que estamos atravessando, por exemplo – numa experiência.

Walter Benjamin atribui somente à memória, e não à percepção do acontecimento imediato, a capacidade de criar em cada um de nós uma experiência. Então, se a vivência é coletiva, a experiência que cada um de nós leva consigo de um acontecimento traumático, assim como seus efeitos, é absolutamente singular. De toda forma, precisamos ter claro que os efeitos de um traumatismo nunca se resolvem enquanto dura o trauma; o efeito desse traumatismo levará anos para ser elaborado, isso se nós trabalharmos direito sobre ele. E, além disso, que somente a memória e o trabalho de pensamento permite “curar” o trauma.

SITE NEIPIES: Como ficam os conteúdos, o ano letivo?

Francisco Santos: Pois é, questão importante essa. Quantas vezes tivemos de enfrentar questionamentos a respeito das aulas remotas? São aulas de verdade? Como vai ficar o desempenho, a competitividade e a empregabilidade com um ano de aulas desse tipo? O ano valeu ou foi um ano perdido? E os conteúdos que os alunos deviam receber? O que vai acontecer com eles?

A pandemia é o conteúdo, a experiência que todos estamos vivendo é o conteúdo, assim como o são a possibilidade de trabalhar in loco as ideias do espírito coletivo, da compaixão, da humanidade e da solidariedade, para assim criar uma experiência conjunta que é o melhor conteúdo possível que se pode fazer ingressar no interior de qualquer disciplina.

Nesse sentido, indica Dunker, ao invés de nos desmancharmos em recriminações e exigências, fundamental mesmo é conservar a fidelidade ao nosso desejo, ao desejo de transmitir, de partilhar o saber, de estar com e acompanhar os alunos, preocupar-se genuinamente com eles; de poder contar com os colegas, coordenadores, diretores, com a instituição da qual fazemos parte e que nos dá suporte para a tarefa de trabalhar por um mundo diferente e melhor.

SITE NEIPIES: Como o negacionismo e a contrariedade ao bom senso, praticados por alguns governantes ou autoridades de nosso país, afetam o cotidiano e o imaginário de nossa população?

Francisco Santos: Afeta tremendamente, e de forma negativa. O negacionismo, o obscurantismo, o discurso anti-ciência e anti-vacina, o ataque à educação, a cultura, aos direitos humanos e ao meio ambiente são enfermidades sociais, são o sintoma de uma faceta autodestrutiva de uma sociedade enferma que dá lugar a tais discursos.

O resultado é este temos aí, ou seja, a vergonhosa maneira como estamos nos saindo no enfrentamento dessa pandemia.

Se estamos nessa prolongada pandemia é em razão da falta de cuidado de si e do outro, precisamos encontrar uma saída que não seja a de ficar presos nesse circuito de descuido e piora.

Por isso, as crianças precisam ser educadas. Elas precisam ser educadas para possamos nos sair melhor do que hoje estamos nos saindo de crises como essa; precisam ser educadas para que eduquem os adultos negacionistas que as cercam e que querem acelerar processos de retorno à vida normal, mas se negam a usar máscaras, tomar as medidas higiênicas necessárias e não aglomerar; precisam ser educadas para ajudá-los a não louvar governantes desumanos e irresponsáveis.

As crianças e os jovens precisam de nós, precisam de vocês, professores da rede, precisam de vocês, gestores da educação, precisam – como precisamos todos – da escola pública republicana livre e democrática.

SITE NEIPIES: Na sua visão de psicanalista, aprenderemos o suficiente para nos tornarmos melhores seres humanos no pós pandemia?

Francisco Santos: Não tenho coragem e nem indicadores que me permitam responder essa resposta afirmativamente. Temos exemplos de pessoas que aprenderam e exemplos fartos de outras que nada aprenderam. Creio que, justamente por isso, pela tensão social que se cria a partir dessas posições dicotômicas, é que nosso papel de professores, na formação humana de nossas crianças e jovens, ganha o primeiríssimo plano.

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos que leram esta entrevista até aqui.

Francisco Santos: Releiam várias vezes o poema citado no início da nossa entrevista.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Mais letal que o vírus

O caos chegou às estruturas hospitalares, enquanto o país segue sem  rumo definido no enfrentamento do vírus.

Em novembro de 1904, irrompeu no Rio de Janeiro a Revolta  contra  a Vacina que  visava combater   a  varíola. A vacina – já testada com êxito no  exterior – foi  encarada  com desconfiança  pelos brasileiros em geral.

Na verdade,  havia  um clima contra o governo de Rodrigues  Alves  em função da  carestia, inflação, achatamento salarial, aumento de aluguéis, o projeto  excludente e  elitista de   remodelação  do  centro  do Rio.

Passados 116 anos, estamos diante de um contexto parecido. Este, provocado pela irresponsabilidade das autoridades  brasileiras.

É notória a má  vontade  do governo federal  em  relação  à Coronavac. Jair  Bolsonaro alimenta  teorias  conspiratórias  em relação  à “vacina chinesa”, menos  por convicção  e mais por cálculo político.

De  outro lado João Dória, querendo queimar  etapas para aprovação de uma vacina  e vendendo  uma coisa que  ainda não  existe. Assim,a  população fica   à  mercê  de uma  briga  irresponsável  entre  políticos,  que estão preocupados com  as futuras  eleições.

Bolsonaro fez  uma gestão  totalmente  letárgica da pandemia, devastadora, segundo  um representante  da  ONU. “É um crime”, destaca um dos  maiores quadros  do  Estado  em  temas sanitários, Gonçalo Vecina.

Mais uma vez Bolsonaro  despreza  a ciência, adota  comportamento  criminoso, desacreditando  os  efeitos da  vacina  e fazendo, novamente, da vida  e da  saúde um campo de  batalha  política.

Descumpre o papel básico de qualquer Estado e governo:  garantir minimamente o direito à vida e à  saúde dos  cidadãos. Estamos diante de um governo que as despreza abertamente, sem constrangimentos. Moralmente, é o pior  governo  da nossa história  e  mais letal que o vírus!

Negacionismo

O negacionismo do governo Bolsonaro, caracterizado pela defesa  do terraplanismo e da postura  antivacina,  é  estarrecedor.  Há uma verdadeira  campanha  orquestrada contra  a ciência, contra  as  universidades.

No momento  em que o país  vive  o pior  momento da pandemia, assistimos  o  Presidente  se  omitir  de sua  responsabilidade  e  transferi-la  para  um  Ministro da  Saúde inepto  e responsável por propor tratamentos  inadequados  para  a doença. Convenhamos, comandante que não assume  responsabilidade, não tem moral  para  seguir no comando.

A  pandemia, que já foi  considerada  gripezinha  nas palavras  do sr. presidente, continua  sendo negligenciada e matando  centenas  de  brasileiros  todos os  dias.   O caos chegou  às  estruturas  hospitalares,  enquanto  o país  segue  sem  rumo  no enfrentamento   do vírus.

A negação da ciência, o  comportamento  irresponsável  do chefe  da nação, promovendo  aglomerações  e não usando máscara,  em  muito  vem  contribuindo  para  o  agravamento  da  situação  que estamos  vivendo.  Não há como negar.

O curioso é que o  governo culpa  o  STF pelo fracasso de  sua política  de combate  ao  Covid-19, mas  o tribunal  não  o impediu de ter um plano  nacional de testagem  em larga  escala, não proibiu a criação de uma política  de  rastreamento  de  contatos, nem desestimulou  a vacinação. Também, nunca sugeriu que  o Covid-19  fosse uma gripezinha.

Tomo a liberdade de me valer da história para, quem sabe, encontrar  traços  do negacionismo  hoje  tão forte  entre nós,  nas  terras  lusas  no século  XIX.   Por escrúpulos religiosos, a ciência e a medicina eram atrasadas  ou pouco conhecidas  em Portugal.

Dom José, irmão mais velho de dom João VI, morreu de varíola  porque  sua mãe, dona Maria  I,  tinha proibido os médicos  de lhe  aplicar  vacina. O motivo? Religioso. A rainha achava que a decisão entre a vida e a morte  estava nas mãos de  Deus e  que não cabia  à  ciência  interferir nesse processo.

Talvez, no séc. XIX, tal  postura se  explicasse, mas no século XXI  trata-se  ou de projeto político  ou  ignorância  funcional.

“Os principais prejuízos retornam imediatamente ao todo da sociedade. O desmonte do espírito crítico causa horrores. O problema se agrava progressivamente no momento de tantas incertezas e pavores da pandemia”. (Celestino Meneghini) Leia mais!

Autor: José Ernani de Almeida

Edição: Alex Rosset

As professorinhas de reforço de antigamente

Em tempos líquidos como dizia Bauman, os pais não têm mais tempo para ensinar as tarefas de casa aos seus filhos e os entregam aos cuidados dessas professoras de reforço.

Na minha infância, aprendi a ler e a escrever com quatro anos de idade pelos cuidados de dona Marilde, a minha professorinha particular que pegava na minha mão trêmula e me ensinava a cobrir as vogais.

Na casa de dona Marilde, havia um banco de madeira e uma mesa grande com um quadro pequeno a sua frente. A gente aprendia a ler na cartilha do á-bê-cê. Tinha a tabuada também, mas eu sempre fui muito dedicada às letrinhas e dona Marilde sabia bem disso.

Dona Marilde era pedagoga e tinha um carinho enorme por crianças, o que lhe dava autoridade para ser uma belíssima professora de reforço! Com a sua voz mansa, repetia a lição duas, três, quatro ou tantas vezes fossem necessárias para que aprendêssemos de verdade. Ela falava de lugares distantes e nos fazia viajar no mundo da imaginação. Sabia contar histórias lindas e gostava de Monteiro Lobato.

Todo mundo tinha uma professorinha particular naquela época que servia como reforço para o que era ensinado na escola ou no jardim de infância. Essas professorinhas eram cuidadosas e amavam os seus alunos que geralmente era um grupo pequeno e podia receber a sua atenção total.

Dona Marilde, uma mulher negra, educada, gentil, ensinou a muitas crianças o alfabeto e a tabuada. O seu jeito de ensinar era simples e o que mais me tocou foi o seu carinho com as nossas tarefas, pois as suas palavras eram sempre “lindo”, “muito bom”, “parabéns”. Ela nunca dava uma nota zero para um aluno, ela nunca dizia que a gente tinha dificuldade para aprender a ler e a escrever nem mesmo para os nossos pais. Ela sabia que uma hora ou outra a gente ia desabrochar e como se fosse mágica o esperado acontecia.

“Não existe criança que não aprende ou não quer aprender, mas sim crianças que não aprenderam a estabelecer laços de afeto com a família, professores, escola e, consequentemente, com o saber. Por mais precários que eles sejam em casa, a escola pode propiciar uma relação saudável do aluno com a sociedade, na medida em que o trata como um indivíduo e o enxerga como um ser cheio de possibilidades”. (Psicóloga Ana Manoela Detoni) Leia mais!

Nos anos 90, em Natal, o prefeito Marcos Formiga fez uma gestão bonita na educação. Ele criou o programa “Em casa também se aprende a ler” onde qualquer espaço virava uma sala de aula com professoras contratadas para ajudar os alunos a aprenderem a ler e a escrever como o próprio nome do programa já diz.

Eu e meus irmãos participamos desse programa, já alfabetizados por dona Marilde, mas tínhamos ânsia de aprendermos cada vez mais. A gente recebia caderno, lápis e borracha do programa e, também tinha lanche. Foi a aula de reforço mais bonita que já vi de um governo em Natal. Muitas crianças com dificuldades de aprendizagem na escola conseguiam aprender a ler e a escrever no programa “Em casa também se aprende a ler”.

Hoje, está bem difícil encontrar professoras de reforço. E quando as encontramos estão sempre cheias de muitos alunos, a maioria já não ajuda mais a criança a cobrir as letrinhas, outras ensinam por necessidade e esquecem do amor à profissão e ainda há aquelas que mal sabem ler e escrever e mesmo assim se aventuram a ensinar crianças como se elas fossem bobinhas e engolissem tudo goela abaixo.

Não quero generalizar. Sei que existem muitas professoras de reforço boas em Natal, RN, e no nosso país, mas quero dizer do que mais costumeiramente tenho visto, principalmente onde moro.

O desemprego levou muitas mulheres jovens com o ensino médio a se dedicarem na labuta do ensino de reforço às crianças.

Para mim, ensinar vai muito além de uma necessidade financeira. É preciso, no mínimo, um diploma de pedagoga e muito amor pela infância. Compreender como as crianças aprendem, os seus processos de desenvolvimento do pensar e o que é importante para o seu pensamento cognitivo se desenvolver faz-se necessário. E se a professora tiver apenas amor? A criança também vai aprender a ler e a escrever? Se for uma professora que goste de ler, escrever, visitar museus, ir à teatros, ler jornais diários, creio que ela saberá ensinar bem às crianças o que é necessário.

A importância das relações afetivas. Veja vídeo.

Para ser uma boa professora de reforço a pessoa tem que buscar ser melhor do que a professora da escolinha formal onde a criança estuda todos os dias. Essa professora de reforço precisará reinventar-se para criar um jeito mais fácil de fazer aquela criança aprender o que lhe foi ensinado na escola e ela não conseguiu compreender.

Então, daí vem o meu pensamento de que a professora de reforço deve ser alguém culta e inteligente o bastante para saber contar histórias de princesas a como também explicar uma dízima periódica. De tudo um pouco, a professora de reforço necessita saber.

Em tempos líquidos como dizia o sociólogo Bauman, os pais não têm mais tempo para ensinar as tarefas de casa aos seus filhos e os entregam aos cuidados dessas professoras de reforço.

Algumas escolas privadas já sentiram a necessidade desse serviço e estão ofertando-o às crianças no turno em que não têm aula formal. Aquela professora que se dedicar no ensino-aprendizagem através do reforço ganhará muitos alunos, pois há uma carência de bons professores nessa área.

A criança que vai para uma aula de reforço geralmente não é daquelas que gosta da escola. Muitas têm dificuldades no ensino-aprendizagem formal, logo necessitarão de mais cuidados e dedicação por parte da professora de reforço.

À essa criança deverá o ensino ser ministrado de forma prazerosa, ou seja, com ludicidade, musicalidade, poesia. Sim, é possível ensinar através da poesia! Há muitas crianças que necessitam de aulas de reforço espalhadas pela nossa cidade, e se cada um de nós oferecermos um pouco do que sabemos em trabalho voluntário para uma delas quem sabe no nosso país o número de analfabetos funcionais reduza um pouco.

É a professora de reforço que passa a conhecer mais detalhadamente as dificuldades do aluno e, muitas vezes, consegue identificar deficiências físicas e mentais que passam despercebidas pela professora da escola formal indicando aos pais que a criança precisa de cuidados psicológicos, fonoaudiólogos ou até mesmo de outros profissionais. Isso ocorre porque, geralmente, o número de alunos na classe da professora de reforço é bem menor do que o da escola formal. A diferença de poder se dar atenção para cerca de dez alunos para uma turma de trinta e cinco ou quarenta é enorme.

Toda criança deve ter uma professora de reforço não somente para aprender a ler e a escrever, mas para aprender coisas que não são ensinadas na escola por falta de tempo da professora ou por não fazer parte da grade curricular.

Tem tanta coisa que a gente só aprende depois de grande e poderia ter aprendido na infância. O ensino das artes e da geometria fica na superficialidade na escola formal e a professora de reforço pode explorar mais essas disciplinas como outras. Para isso, é preciso escolher uma boa professora de reforço.

Por último, quero dizer que referi-me sempre a professora no feminino porque quis lembrar-me do meu tempo de criança onde somente encontrávamos mulheres desempenhando essa atividade, mas que hoje já é possível vermos muitos homens exercendo o magistério e dando aulas de reforço com qualidade e amor às crianças. Pouco comum sempre será, mas é possível encontrar. Que toda criança tenha um(a) professor(a) de reforço pelo menos nos primeiros anos de escolaridade.

Você sabe o que é um professor de reforço escolar? Descubra!

 Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Vacina e educação

Só com vacina, a volta das aulas presenciais será segura para todas e todos.

A Secretaria Estadual de Saúde escancarou nesta semana o colapso do sistema de saúde: hospitalizados por Covid-19 mais que dobraram de janeiro para fevereiro e que não há como prover leitos de UTI suficientes para atender.

Pressionado por um documento conjunto do Ministério Público Federal, das Defensorias Públicas do Estado e da União, da Associação dos Juízes pela Democracia e por seu Comitê Científico, impuseram-se, enfim, restrições de bandeira preta. Porém, liberou-se a abertura das escolas de Educação Infantil e para os primeiros anos do Ensino Fundamental, em primeiro momento, situação revertida através de Ação Civil Pública encaminhada ao Judiciário pela Associação de Mães e Pais pela Democracia (AMPD) e CPERS Sindicato.

Leia mais sobre trabalho da AMPD!

O apelo das médicas e dos especialistas, de que é preciso conter imediata e urgentemente a transmissão do vírus, não se coaduna com essa liberação.

Nesse momento, a educação e os cuidados com as crianças têm que ter uma solução assumida por toda a sociedade. É o tempo que precisamos para mantermos a vida e buscarmos a vacinação de todos e todas.

Passamos todo 2020 lutando contra o negacionismo, os ataques à ciência, defendendo o distanciamento, os cuidados de higiene, por condições de tecnologia para o ensino remoto, por apoio aos empregos, à renda mínima, cesta básicas, tudo sem a perspectiva de solução para a crise humanitária que vivíamos.

Agora que a vacina já é uma realidade e a possibilidade de restauro da vida livre, do encontro, da atividade laboral plena, é um horizonte próximo, nada justifica acelerarmos a volta a uma normalidade que não é real e empurrarmos à doença e à morte a população obrigada a trabalhar.

Defendemos a economia que garante vida e não o contrário. Por isso, aprovamos recursos no orçamento estadual para que o governo possa comprar vacinas.

Por isso, mobilizamos leis e lutas para que o governo federal assuma sua responsabilidade e vacine o povo brasileiro. Por isso, apresentei projeto de lei colocando as trabalhadoras e os trabalhadores da educação como prioritários para a vacinação, após o primeiro grupo.

Só com vacina, a volta das aulas presenciais será segura para todas e todos. Aos profissionais, às crianças e aos jovens e suas famílias, revertendo o colapso do sistema de saúde e a ampliação das mortes.

#VacinaEducaçãoJá

Autora: Sofia Cavedon

Edição: Alex Rosset

Educação

Pais e Professores são responsáveis pelo educar e pelo ensinar.

Muitos de nós já ouvimos muitas vezes: “educação vem de casa, a escola é responsável por ensinar”. Essa frase foi banalizada ao ponto de seu verdadeiro sentido não ser refletido ou problematizado.

Fizemos uma abordagem interessante desta temática com a professora Cândida Rossetto, com o título: “Educação: um olhar para as pessoas responsáveis pelo educar”.

O propósito é refletir a respeito da condição dos pais e professores, que são as pessoas responsáveis pelo educar e pelo ensinar. Estes dois conceitos são adequadamente compreendidos quando relacionados e vinculados. O ensinar ocorre no limite de contextos históricos gerais e condições de vida particulares.  Educar é uma ação mais intimista, que demanda uma vinculação mais acentuada entre os sujeitos envolvidos.

Como professores, pais ou referências parentais temos o dever de educar e de ensinar, considerando que as ferramentas e os conteúdos utilizados no século passado, por nossos pais e professores, estão obsoletos no século XXI.

Como professor de filosofia, de sociologia ou comportamento humano, devo ensinar/informar quem são os principais pensadores e valores das diversas épocas de nossa história, mas esse conteúdo adquire sentido se estiver vinculado da problemática social e individual do mundo contemporâneo.  Para conferir sentido ao conteúdo ensinado/transmitido, se faz necessário, por exemplo, perceber que os pensadores clássicos, se manifestam sobre o comportamento individual e social, incluindo a política, a economia, a justiça, a filosofia, a sociologia e a psicologia.

Pais e professores, somos responsáveis pelo educar, estamos no centro e na culminância de uma de uma mudança comportamental profunda, de uma mudança de época. Em outras palavras, estamos vivendo mais do que uma época de mudança; estamos vivendo em uma mudança de época. Precisamos assimilar, nos orientar e agir. 

Você está convidado a se inscrever no YouTube, canal do Israel Kujawa Professor e acionar as notificações! Clique aqui para se inscrever, participar e contribuir com esta construção.

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Afetividade e aprendizagens no ensino remoto

Não existe criança que não aprende ou não quer aprender; há crianças que não aprenderam a estabelecer laços de afeto com a família, professores, escola e, consequentemente, com o saber.

Ainda bem que a primeira reunião de retorno ao planejamento escolar na minha escola tratou de coisas do coração.

A educação não é a tecnologia; a tecnologia é apenas mais um meio, um instrumento, pelo qual é possível aprender e educar.

(Nada do que se ensina tem sentido se não tocar o coração das pessoas.)

Em tempos de pandemia, quando as possibilidades de interação entre professores e estudantes estão mais restritas, vale lembrar que aprendizagens significativas não acontecem automaticamente com simples acesso às tecnologias. As aprendizagens significativas são viabilizadas a partir de relações qualificadas, comprometidas e envolventes entre os sujeitos da educação: os estudantes e os professores. Aliás, no ensino remoto, ficam mais difíceis e complexas as vivências de afetividade, por isso da necessidade de pensarmos sobre.

Abordar a inteligência emocional como a principal estratégia, associada a um bom conteúdo, pode evitar o abandono das crianças, adolescentes e jovens da escola. Precisamos de um olhar mais atento às necessidades afetivas do ser humano, que em muito se perdeu sem o contato presencial. Como trabalhar de forma mais ampla e eficaz esses aspectos num convívio semipresencial?

Mais do que nunca, escola e família devem estar juntas para minimizar as perdas e prejuízos das crianças e adolescentes, que são os mais frágeis deste processo.

Acreditamos que o amor e o afeto são componentes indispensáveis para aprendizagens significativas. Queremos aprendizados que tenham valor e sentido de vida. É verdade que também aprendemos na dor, no sofrimento e na desgraça, quando são inevitáveis. Mas, na escola e a partir dela, temos de construir um espaço para trocas e aprendizagens, através de relações que geram prazer e o desejo de estar junto (mesmo que distantes, conectados com o coração).

O filósofo Sérgio Cortella responde: qual é a relação entre afetividade, vínculo e aprendizagem? Assista e reflita!

A psicóloga Ana Manoela Detoni afirma que “a aprendizagem de uma criança acontece quando há desejo de aprender. Quando a família não vê o processo de aprendizagem como algo importante e a escola não faz investimento nesse aluno, fica difícil despertar nas crianças o desejo pelo saber, pois se todos desistiram dela porque ela não desistiria”? Leia mais!

Detoni continua:

“Não existe criança que não aprende ou não quer aprender, mas sim crianças que não aprenderam a estabelecer laços de afeto com a família, professores, escola e, consequentemente, com o saber. Por mais precários que eles sejam em casa, a escola pode propiciar uma relação saudável do aluno com a sociedade, na medida em que o trata como um indivíduo e o enxerga como um ser cheio de possibilidades.

A psicóloga Ana Manoela Detoni conclui: “a afetividade é a via de comunicação mais eficaz entre professor aluno, possibilitando o reconhecimento da capacidade intelectual do educando. Se dizemos que a educação hoje está caótica e difícil, temos o dever de pensar nas causas que a levaram a esta situação, fazendo uma reflexão acerca do comportamento dos pais e do corpo docente, para que possamos encontrar as causas e soluções para os problemas na escola hoje”.

Conheça também este importante vídeo onde o autor fundamenta a educação afetiva.

A filósofa Rosângela Trajano, em entrevista exclusiva ao nosso site, perguntada sobre a influência do afeto e da inteligência emocional na aprendizagem das crianças e adolescentes, assim se posicionou.

“Um professor só deveria ensinar se amasse verdadeiramente a sua profissão e os seus alunos. Sei que é difícil falar de amor nos tempos atuais, mas é necessário e muito. Quem ensina com amor transmite sabedoria para o resto da vida, deixa marcas na alma da criança. Vivemos épocas de ódio em que as pessoas não se preocupam mais umas com as outras; tememos sair das nossas casas, não acreditamos mais nas pessoas, não temos mais amigos verdadeiros. Passamos a confiar mais nas máquinas e estamos presos à tecnologia. Diante de tudo isso, o amor pede passagem para uma nova era. Um amor que cuide do outro, respeite e tenha proximidade do ser amante. Necessitamos falar mais de amor.

A inteligência emocional carece de efetivação nas salas de aulas, principalmente às crianças que são incompreendidas pelos adultos na maioria das suas emoções. Para citar um exemplo simples, uma criança birrenta nem sempre é assim por falta de educação, mas porque quer chamar a atenção de cuidados.

Já não damos atenção às nossas emoções e deixamos de lado os motivos pelos quais estamos crescendo ansiosos e depressivos. Para evitar que esses males se tornem um problema mais grave salvemos as nossas crianças trabalhando as suas emoções. As crianças também têm medo do escuro, de palhaços, de perderem as pessoas que amam e tantos outros medos; logo, precisam saber lidar com esses medos.

Aos Professores também cabe ensinar a criança a lidar com as suas emoções de forma que não sofra tanto, porque a infância é uma fase da vida onde há uma espécie de sofrimento significativo pela falta de respostas às dúvidas não respondidas e não aceitas pelos adultos.

Toda escola deveria adotar a disciplina de inteligência emocional, pois assim as crianças poderiam sair das suas casas na certeza de que encontrariam amor na escola. Tenho dedicado as minhas pesquisas na área da inteligência emocional há cerca de cinco anos, mas só agora venho escrevendo material didático para crianças e disponibilizado em meu site e redes sociais”.

Leia entrevista completa!

O papel da família na educação

Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil, reflete, em vídeo exclusivo ao site, sobre como se tornou mais sofisticado o papel dos pais e das mães na educação. Ela também afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos. Neste vídeo, já visto por aproximadamente 20 mil pessoas, Sueli esclarece o quanto a família é importante na formação educacional das crianças e adolescentes. Assista.

Cláudio Ely, professor de filosofia e Ensino Religioso e Orientador Educacional pondera aos professores e pais sobre o tipo de ser humano que queremos formar (ou estimular a ser) no ambiente educacional:

“No processo educacional humano, o que significa empenhar a inteligência? Podemos seguir os ditames instintivos da natureza e promover a justiça do mais forte, transformando, assim, a convivência social em campo de batalha e gerando o acúmulo de violência (produção de morte) em todas as áreas da atividade humana.

Ao assumirmos a postura do amor, nos descentralizamos do nosso egoísmo e mergulhamos na transcendência que afeta a todos, possibilitando o bem comum. A pergunta na definição do projeto educacional se impõe: que ser humano queremos ajudar a formar e como afetar a todos (muitos) para que se incluam no projeto proposto?

O afeto a ser veiculado pelo testemunho carrega em si os valores universais do respeito à alteridade, da solidariedade aos mais fracos e necessitados, da gratuidade no serviço ao bem comum, do cuidado do patrimônio social, do empenho pessoal pela justiça social.

Uma palavra aos pais de alunos: o testemunho, ou seja, o exemplo, é a maior dádiva para a saúde integral dos filhos, mas também pode se constituir em força desintegradora do caráter e da personalidade deles (dos filhos)”.

Todos sabemos sobre a importância da parceria entre escola e família se desejarmos uma educação de qualidade para que crianças, adolescentes e jovens assumam progressivamente o protagonismo de sua aprendizagem através da aquisição de autonomia no aprender a conhecer, no aprender a fazer, no aprender a conviver e no aprender a ser. (4 pilares da UNESCO). Escola e família precisam estar conectados e conscientes da função de cada um para que a educação de qualidade aconteça.

Conheça a experiência desta Escola da rede municipal de Passo Fundo a partir de uma atividade denominada Festa da Família, no ano de 2019, na qual a diversidade das famílias foi celebrada e respeitada.

Afetividade na educação em tempos de ensino híbrido

Na opinião de especialistas, na medida em que se consolidar o ensino híbrido, os estudantes serão mais protagonistas de sua aprendizagem, terão contato com diferentes fontes de conhecimento, se envolverão com atividades extra-classe e tudo isso é bem-vindo para uma formação mais humana.

Até aí, tudo bem. Mas como fortalecer e construir os laços de afetividade e o conhecimento da realidade e das necessidades dos estudantes sem a sua presença física ou com menor presença? No vídeo a seguir, a autora apresenta pistas para que professores e professoras possam oferecer condições mais favoráveis aos estudantes, despertar a motivação, o empenho e o interesse na sua construção de conhecimento a partir do ensino híbrido. Veja o vídeo!

A pesquisadora Patrícia Ferreira Campos, em artigo “O ensino híbrido e a afetividade no processo de aprendizagem”, apresenta pistas:

“O aluno permanecerá motivado a partir do momento que o conteúdo lhe desperte o gosto e o prazer. As experiências agradáveis vivenciadas numa sala de aula nunca serão esquecidas, a memória consolida os momentos marcantes. A aprendizagem é facilitada quando há envolvimento das partes, ou seja, as relações devem ser acolhedoras, respeitosas com o objetivo de despertar no aluno a confiança e a superação para os desafios. O papel do professor/instrutor é de extrema relevância para a permanência do aluno, especialmente porque tem a função de encantar com o conteúdo apresentado”.

Os aprendizes devem ter novas habilidades para serem capazes de estudar em ambientes informatizados de aprendizagem. Esperam-se novas atitudes e são propostas novas atividades nos ambientes de aprendizagens virtuais, como aprender de modo autônomo, desenvolver estratégias de estudo adequadas, e utilizar e explorar novos recursos de comunicação. Esperam-se ainda insights pedagógicos do aprendiz virtual, confiança no uso da tecnologia e motivação extra para os estudos”. Leia mais!

Como podemos observar, embora haja o amplo reconhecimento de que a afetividade seja um componente importante nas aprendizagens também no mundo virtual e na educação de forma remota/híbrida, há poucas pistas de como fazer com que ela seja uma constante, tanto na abordagem dos conteúdos quanto na relação dos sujeitos aprendentes: estudantes e professores.

Para que aprendizagens significativas ocorram, parece ser importante continuarmos perseguindo a ideia da importância da afetividade na aprendizagem. São os novos desafios que se impõem à educação, em tempos em que pandemia e isolamento social desafiam também as famílias, os sistemas escolares, os estudantes, os professores e as professoras, em todos os aspectos, também naqueles de aprendizagem.

Aprendizagens significativas são as que realmente importam!

Aprendizagem Significativa: do que estamos falando? Assista e descubra!

Sugestões de leitura: Gládis Pedersen, pedagoga e escritora, Convidada do site, editou, em 3 livros, interessantes reflexões sobre habilidades socioemocionais e sobre os desafios de trabalhar com adolescentes e jovens: “Educação, a Arte de Manejar o Caráter”, “Cartilha para os Pais” e “A Vida por um Fio”, sobre a tendência atual de suicídio na infância e juventude. Conheça estas e outras publicações no site.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

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