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Ensino remoto: como os fantoches podem ajudar na educação infantil

Os fantoches atraem a atenção porque conversam com as crianças e lhes dão atenção, tudo o que elas mais querem nessa época de distanciamento social.

Eu tinha apenas quatro anos quando ganhei o meu primeiro fantoche. Fiquei feliz. Muito feliz. Com ele, comecei a fazer os meus primeiros roteiros teatrais. O meu público eram as minhas bonecas de pano, que também são ótimas para o ensino na educação infantil.

 Penso que toda criança deveria ter um fantoche e que o teatro poderia ser estudado desde a educação infantil, pois a gente vê poucos dramaturgos e roteiristas nas periferias brasileiras. Refiro-me às periferias como quem é moradora de uma e sabe bem o que fala quando se refere a um povo esquecido e sofrido.

O fantoche que é colocado na mão para ser manipulado pela criança imitando uma voz conhecida, abrindo e fechando a boca ao partir do movimento de seus dedinhos pode ser um bom elemento nas aulas do ensino remoto na educação infantil.

O imaginário das nossas crianças tem sido tão pouco explorado. Necessitamos fazer com que elas criem novos mundos, novos monstrinhos, novas formas de ver e estar por aqui e que essas formas sejam todas das suas cabecinhas pensantes. Sem o imaginário não sobreviveríamos às dificuldades que o mundo nos coloca todos os dias, todos os momentos.

Um fantoche pode ser feito em casa mesmo com alguns pedaços de tecidos e costurados até mesmo à mão. Quanto mais simples for o fantoche, mais ele chamará a atenção da criançada. Qualquer professor poderá produzir um caso tenha facilidade com artesanato. Hoje temos ao nosso favor a internet que tudo ensina, e podemos aproveitá-la para aprendemos coisas lindas e maravilhosas.

Aprendi a fazer os meus próprios fantoches aos doze anos de idade. Mas, desde os cinco anos, que os manipulo. Sempre inventei personagens, sempre vivi em mundos diferentes do real e sempre fui uma criança feliz com os meus brinquedos fabricados em casa pela minha mamãe ou bisavó.

As professoras e professores podem adaptar as mais diversas histórias dos livros paradidáticos para o teatro. O texto narrativo pode tornar-se um diálogo entre os personagens e as crianças.

Combinado a isso, o professor também pode incluir o assunto da aula no roteiro. Sei que pode parecer difícil, mas não é. Um pouco de força de vontade, dedicação e gosto pelo teatro incentivará no processo dessa nova forma de dar aulas às crianças da educação infantil e, certamente, elas vão adorar. Toda criança gosta de bonecos, de conversar e quem sabe se a professora for mais criativa fazer com que os alunos interajam nos roteiros.

Os fantoches atraem a atenção porque conversam com as crianças e lhes dão atenção, tudo o que elas mais querem nessa época de distanciamento social.

Fazer um teatro com esses bonequinhos pela câmera do celular ou computador será uma forma agradável de se ensinarem às crianças os mais diversos conteúdos, até mesmo a matemática pode ser ensinada dessa forma. Os fantoches também são ótimos para ensinarmos biografias e fazermos com que as crianças imitem pessoas conhecidas usando do lúdico para aprenderem.

Não é somente na escola que é possível aprender brincando. Sim, o ensino remoto também nos traz várias possibilidades de ensino-aprendizagem.

Os fantoches transmitem emoções as mais diversas e as crianças, do outro lado da telinha, podem se sentir bem atraídas por esses bonecos com voz e jeito de ser parecidos ou não com elas, que muitas vezes dão conselhos e noutras contam anedotas.

Não será o fantoche o grande responsável pelo êxito da sua aula, professora ou professor, mas a sua criatividade, o roteiro que você criará para dar a sua aula através desses bonecos.

Sabemos que as crianças estão cansadas das aulas remotas, por isso todos os dias é preciso nos reinventarmos. Não é fácil conseguir atrair uma criança por quarenta a cinquenta minutos. Precisa-se de uma metodologia bastante criativa.

Para manipular um fantoche, não se faz necessário fazer curso nenhum. A sua aula não precisa ser profissional.

Vejo muitos professores que se preocupam e ao me ver gastam dinheiro à toa fazendo cursos sobre temas que poderiam aprender assistindo a vídeos na internet ou fazendo leituras. Podemos poupar o nosso dinheirinho nos esforçando um pouco na autoaprendizagem. Sei que muitos têm dificuldades de aprender sozinhos, porém o resultado é gratificante. Também não fico apenas na teoria, porque na prática já dei muitas aulas com fantoches.

O importante nisso tudo é saber reinventar-se. Reinventar é a palavra do momento com o ensino remoto. Descobriram e passaram a valorizar não só o professor de Artes Visuais e Cênicas da escola, mas os professores de todas as disciplinas. Leia mais!

A minha experiência com os fantoches foi encantadora. As crianças do outro lado da telinha queriam tocar no boneco, se aproximavam da tela, queriam chegar até mim e boquiabertas sorriam quando o boneco lhes contava algo engraçado. Consegui com isso que as minhas crianças aprendessem a fazer continhas sem medo da matemática, também aprenderam a pronunciar palavras corretamente e acabaram perdendo vícios de linguagem difíceis de serem tirados na sala de aula presencial.

Eu fiz um fantoche que recebeu o nome de “Portugol”. O “Portugol” era um fantoche que conhecia as palavras difíceis da língua portuguesa e com isso as crianças aprenderam diversas novas palavras que nunca tinham ouvido antes.

Ensinar também é uma arte. Atualmente, tem sido mais arte do que técnica. Faz-se poesia quando se transmite-se beleza e alegria. As crianças não querem muito para sorrir e também não precisam de muito para aprender coisas novas, porque são por demais curiosas. Elas só querem todos os dias um jeito novo de aprender.

As aulas com os fantoches podem ser uma novidade que apresente ludicidade, poeticidade e, ao mesmo tempo, potencialize o ensino-aprendizagem de forma mais fácil e rápida. Sim, é possível ensinar através do lúdico. Todos nós gostamos de sorrir, as crianças não gostam de pessoas carrancudas. Elas querem aprender sorrindo.

Na minha infância, infelizmente, não fui alfabetizada com fantoches e quase não estudei o teatro. Tive o prazer de ler muitos livros em prosa e muita poesia, também. No entanto, em casa eu estudava com os meus fantoches, e eles eram os companheiros a quem dava vida através das minhas mãozinhas.

A criança quer apenas que lhes passemos um pouco de cuidado, elas não gostam de repetições e nem de ficar longos minutos ouvindo coisas que não são atraentes. Elas querem o susto, o inesperado, a surpresa. De repente, o fantoche que estava vivo ganha vida e diz “olá” surpreendendo a criançada.

Temas como a morte, a saudade, a perda, a dor, a coragem nesses momentos de distanciamento social e pandemia podem ser trabalhados com os fantoches. Tudo pode ser ensinado através dos fantoches, mas, para isso, é preciso que a criatividade da professora seja alimentada com leituras, filmes e música.

Professora, você pode mostrar ao seu aluno que, no mundo dos fantoches, também existem dificuldades e pessoas chatas, para que ele se reconheça no fantoche. Pode até mesmo fazer um roteiro sobre a história de um aluno da sua turma, enfocando sempre o ensino-aprendizagem para que esse aluno diga para si o quanto a história do fantoche é parecida com a sua e passe a imitá-lo uma vez que aprendeu com ele a vencer o obstáculo, a dificuldade, o problema, a dor.

Fantoches despertam interação num ambiente onde o acolhimento com o abraço ainda não é possível.

Fabrique o seu próprio fantoche, professora ou professor. Comece hoje mesmo a fazer os seus roteiros pequeninos. Quem sabe descobrirá o artista que mora dentro de você. Brinque com a sua criança usando o fantoche para fazer perguntas curiosas sobre a sua vida e as suas expectativas em relação as coisas ao seu redor. Saiba que o fantoche é o seu duplo.

Como professora, Enir Tormes sempre priorizou a educação da qualidade, onde muitas vezes teve que utilizar de recursos próprios para qualificar sua prática pedagógica, onde investiu muita na profissão, fazendo formações, comprando livros e materiais para poder ofertar aprendizagens significativas junto às crianças.Sempre gostou de contar histórias e foi aperfeiçoando as técnicas para envolver, ao máximo, as crianças. Conheça história desta professora.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Silêncio dos enterrados

Nem sequer temos o conforto de contar com um velório decente e uma despedida digna. Mortos partem sozinhos, dividindo a tristeza e a solidão com os membros da família enlutada e destroçada.

Silêncio de uma ausência, de um espaço vazio, de um vácuo sem fundo, de um nome e de um rosto que para sempre partiram, de uma história brutal e precocemente interrompida.

Silêncio dolorosamente estridente, quase ensurdecedor, como nos faz recordar a canção em homenagem a Jacob do Bandolim, composta pelo poeta Sérgio Bittencourt e imortalizada na voz de Nelson Gonçalves:

“Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor / Naquela mesa ele juntava gente / E contava contente o que fez de manhã / E nos seus olhos era tanto brilho / Que mais que seu filho / Eu fiquei seu fã /Eu não sabia que doía tanto / Uma mesa num canto, uma casa e um jardim / Se eu soubesse o quanto dói a vida / Essa dor tão doída não doía assim / Agora resta uma mesa na sala /E hoje ninguém mais fala do seu bandolim / Naquela mesa ‘tá faltando ele / E a saudade dele ‘tá doendo em mim”.

Ouça esta bela canção Naquela Mesa – Nelson Gonçalves (Stefano Mota)

Passado mais de um ano desde que o novo Coronavírus desembarcou em território brasileiro, quantas “casas e jardins” desertos, quantas “mesas num canto”, quantos sofás órfãos na sala, quantos “bandolins” abandonados, quanta dor “tão doída”, quantas saudades sem fim?

E que falta fazem aquelas histórias contadas e recontadas na roda íntima da família – gratuitamente, sabiamente, calorosamente – sobretudo quando restou apenas o eco sombrio e desolado das palavras silenciadas! Por que se apagou a luz e o brilho que “nos seus olhos era tanto”, deixando espalhadas ao vento as cinzas invisíveis de uma catástrofe? É como se até mesmo a memória se desvanecesse com a separação do ente querido.

Nem sequer temos o conforto de contar com um velório decente e uma despedida digna. Mortos partem solitários, dividindo a tristeza e a solidão com os membros da família enlutada e destroçada.

Um ano de pandemia. Um ano de intenso combate a esse inimigo silencioso, invisível e letal. Um ano em que um exército inumerável de profissionais de saúde teve que tomar decisões que deixaram esses soldados, a si próprios, com feridas abertas talvez para o resto de suas vidas.

Um ano de convívio diário e impactante com o fim trágico de parentes e amigos. Um ano marcado por mais de 300 mil vítimas fatais.

No fundo, uma batalha tão mortífera como poucas o têm sido ao longo da história humana. Guerra que mata e mutila de forma aleatória e descontrolada, mas, em particular, abrevia a vida de não poucos anciãos ou enfermos mais vulneráveis.

Assim se foram Fulano, Sicrano, Beltrano – nomes que simbolizam a tantos que riram, choraram, trabalharam, lutaram e sonharam nos mesmos caminhos que juntos trilhamos, mas que perderam o combate para o Covid-19. Assim, permaneceram as famílias a quem os falecidos pertenciam.

Um golpe mortal os separou para sempre, povoando os cemitérios com os cenários mais macabros, onde reina o silêncio retumbante dos enterrados.

Junto a esse silêncio – de ausência, vazio e solidão – cresce também uma voz surda e muda, mas nem por isso menos crítica e consciente do desgoverno das autoridades brasileiras.

Desgoverno que não se refere somente à área da saúde. Ao contrário, reflete-se no desmonte sistemático e não raro irreversível de políticas públicas construídas a custo nas últimas décadas.

Nesse desmonte, não seria difícil elencar, por exemplo, a questão do meio ambiente, das relações exteriores, da segurança dos cidadãos, da educação básica e superior, da ciência, cultura e pesquisa… Daí a ira viva, ativa e subterrânea que vai estendendo suas raízes pelo tecido esgarçado de uma sociedade dividida e fragmentada.

Parafraseando o escritor estadunidense John Steinbeck, prêmio Nobel de literatura (1962), na escuridão úmida do solo, a revolta faz florescer e amadurecer com força “as vinhas da ira”, prontas para a vindima. Não importa quando virá a colheita, mas lentamente os brotos vão se multiplicando e de abrindo para o ar livre, o céu azul e a luz do sol.

Se é verdade que as derradeiras décadas do século XX representaram uma época de colheita, e se é verdade que uma geração dificilmente é premiada com mais de uma safra, também é certo que a semeadura prossegue laboriosa e conscientemente.

Autor: Alfredo J. Gonçalves

Edição: Alex Rosset

O novo credo

A imbecilidade é o credo das primeiras décadas do século XXI, nossa nova deusa.

Estamos infectados pelo vírus da imbecilidade. Nunca antes, na história deste país, ser imbecil foi tão “cool”. Na religião, arte, filosofia, ciência e política: quanto mais idiota, melhor, está ok?

Poucos se arriscam a fazer uma ligação entre o péssimo momento da cultura em geral e o recrudescimento de posturas políticas extremistas, sejam de direita ou de esquerda. Existe o medo de represálias, incentivadas pela onda do politicamente correto, ameaçando afogar qualquer um que ouse discordar do “mainstream” pós-moderno.

No entanto, é muito claro que, assim como na arte, filosofia e afins, na política quem comanda o baile é o discurso monossilábico, retrógrado, digno de um pré-adolescente com déficit de aprendizagem.

Vivemos em uma sociedade imbecilizada, voltada para o extremo do consumismo e sem qualquer valor posto acima disso e do bem-estar imediato.

É ensinamento epicurista que, mesmo quando se busca o prazer, é preciso ter cuidado, pois a procura irrestrita pela satisfação de todos os desejos leva, mais cedo ou mais tarde, a dor extrema e, não raro, a autodestruição.

Porém, em uma sociedade imbecil, incapaz de tecer pensamentos mais complexos, de ver e representar distintos pontos de vista, de lidar com a extrema e caduca trama da realidade — viver o presente de forma responsável, sem perder de vista o futuro, é praticamente uma utopia, daquelas mais loucas e inatingíveis.

Tanto faz se o amanhã trará, em função de nossas ações atuais, desconforto, guerra e ruína. O importante é seguirmos o “mito” do momento, o imbecil capaz de canalizar toda nossa estupidez, livrando a todos do fardo de ter que pensar.

Viver na complexidade cansa. Viver com gente complexa cansa. Gênios sempre tiveram fama de chatos, atrapalhados e excêntricos. Imbecis são mais dóceis, em todas as áreas, para todas as tarefas.

Imbecilidade na religião, acaba gerando extremismo; na arte, por meio de um minimalismo tosco e nada original; na filosofia, na forma de jargões vazios de autoajuda; na ciência, na formação de um pensamento acrítico e no corte de investimentos; e, por fim, mas não menos importante, imbecilidade, é claro, na política, esgoto no qual toda essa lama fétida deságua, grande bueiro de nossa terrível incompetência, de nossa demoníaca indigência intelectual.

A imbecilidade é o credo das primeiras décadas do século XXI, nossa nova deusa.

Não raro observamos pessoas usando o seu status social, econômico ou educacional para menosprezar os outros. Isso é sinal de superioridade ou simplesmente de arrogância e idiotice? Tema: imbecilidade arrogante (Sérgio Cortella)

Autor: Aleixo da Rosa

Edição: Alex Rosset

Jesus no caminho da cruz

Muitas pessoas, fazendo a experiência do sofrimento, na proximidade da morte, tem descoberto o verdadeiro sentido para suas vidas. E foram confirmadas na sua esperança.

A nova conjuntura iluminada pela profecia de Isaías, sobre o Servo Sofredor, trouxe para Jesus a certeza que a manifestação do Reino seria diferente do que ele se imaginava inicialmente. A vitória do Servo Sofredor viria pela resistência, condenação e morte.

Em outras palavras, a cruz aparece no horizonte, não mais como uma possibilidade, mas como uma certeza. Contudo, Jesus não muda sua compreensão do Reino, que já está presente, atuando no mundo de forma dinâmica e progressiva. Nem muda sua relação com o Pai, cada vez mais íntima e profunda. E a compreensão que Jesus tem do Pai, é a do salmista (Sl. 144): Misericórdia e piedade é o Senhor, ele é amor, é paciência, é compaixão.

O Senhor é muito bom para com todos, sua ternura abraça toda criatura. De fato, ternura e misericórdia de Deus continuarão sem limites na compreensão de Jesus.

Mas, a nova conjuntura e a compreensão que Jesus passa a ter dela, muda a sua vida e a direção de sua missão, em diversos aspectos: Jesus começa a mudar o jeito de anunciar o Reino.

A partir desse momento, as parábolas se referem mais a essa nova realidade. Elas se direcionam mais para o futuro julgamento e para o fim dos tempos, por exemplo, os vinhateiros homicidas e o devedor implacável, etc. A partir desse momento Jesus já não realiza tantos milagres como vinha realizando. Começa a falar constantemente de sua paixão e morte. Deixa de falar mais para o povo e seu ensinamento se destina mais aos seus discípulos.

No caminho para Jerusalém faz um levantamento: “Quem dizem os homens que eu sou”? Depois de ouvir a resposta, Jesus começou a falar da sua paixão e morte na cruz.

Pela reação de Pedro percebe-se que os discípulos estão longe de compreender a proposta de Jesus e até tentam levá-lo por outro caminho, A partir desse momento uma grande crise começa a ser gerada nos discípulos.

No meio da crise, Jesus mostra com clareza o seu caminho e qual deve ser a disposição de quem quer segui-lo.

“Quem quer ser meu discípulo renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me, pois quem quiser salvar a sua vida vai perdê-la, mas quem perder a sua vida, por causa de mim, vai encontrá-la”.

A partir desse momento, Jesus insiste muito na vigilância e nas exigências do seguimento, com uma nova compreensão da cruz. Tão bem expressa por São Paulo quando fala aos romanos, dizendo: os judeus pedem sinais, os gregos buscam sabedoria, mas nós anunciamos o poder do mistério da cruz, que para os judeus é escândalo e para os gregos é loucura.

O momento da prisão, da paixão e da morte de Jesus na cruz, é o auge da crise dos discípulos: dormem enquanto Jesus está no horto em profunda agonia e dor; Pedro o nega quando é perguntado pelos soldados se ele o conhecia; Judas negocia a vida de Jesus com as autoridades; quase todos eles estão ausentes na hora de sua morte.

Os discípulos revelam a nítida impressão que estavam decepcionados e pensavam ter perdido quase tudo o que tinham buscado até então. A superação da crise somente irá acontecendo com a ressurreição de Jesus.

A crise dos primeiros discípulos continua sendo vivida por muitos cristãos, hoje, por falta de uma compreensão mais profunda do verdadeiro sentido da vida, pela falta de uma compreensão mais evangélica do sofrimento, da cruz, que carregamos no seguimento de Jesus e da compreensão da própria morte, e porque não dizer, por falta de esperança na ressurreição sobre a qual, hoje, temos provas históricas muito convincentes.

Contudo, muitas pessoas, fazendo a experiência do sofrimento, na proximidade da morte, tem descoberto o verdadeiro sentido para suas vidas. E foram confirmadas na sua esperança.

Quem sofre, portanto, tem uma maravilhosa oportunidade de crescer moral e espiritualmente em sua vida, mesmo com essa experiência profundamente dolorida. É claro, que isso depende da capacidade mística de se abandonar, incondicionalmente, nas mãos de Deus.

Autor: Pe. Euclides Benedetti

Edição: Alex Rosset

As mulheres da vida de Jesus

Dentre tantos mestres da época, como Sócrates, Platão e Aristóteles, considerados homens bem à frente de seu tempo, Jesus foi o único a aceitar mulheres como discípulas.

Tempos atrás, em um post em que eu defendia o empoderamento feminino, alguém postou um comentário afirmando que a primeira mulher a se empoderar foi Eva, e deu no que deu.

Como é triste em pleno século XXI alguém insistir em ler a Bíblias com as lentes do seu machismo cafona e mofado.

As Escrituras estão repletas de personagens femininos que se empoderaram, dentre as quais poderíamos destacar Sara, Débora, Ester, Rute, Raabe, Ana e tantas outras. E o que dizer daquelas ilustres anônimas que cruzaram o caminho do Messias nas empoeiradas ruas da Galileia? Eram elas que mantinham o ministério de Jesus.

Mulheres como a Samaritana que mesmo não gozando de uma reputação ilibada, foi capaz de atrair todo o seu vilarejo para ouvir Jesus. Mulheres como a que ungiu os Seus pés com um perfume que lhe custou um ano inteiro de serviços na mais antiga profissão do mundo.

Mulheres como a que sangrou por doze anos seguidos, mas que resolveu enfrentar o preconceito, infiltrando-se entre a multidão para tocar na orla de Suas vestes e ser curada.

Mulheres como as que choravam vendo-o passar pela Via Crucis carregando a cruz dos homens.

Mulheres como a Cananeia, que seguia-o clamando por sua filha enferma, sob o olhar daqueles que consideravam seu povo como meros cães, apesar de serem os habitantes originais daquela terra. Mesmo ouvindo de Jesus a reprodução daquele discurso, ela não titubeou e humildemente argumentou: “Os cachorros também comem das migalhas que caem da mesa de seu senhor.”

Tal resposta a fez ouvir dos lábios do Mestre um elogio que pouquíssimos mortais receberam. Mulheres como Maria Madalena, a primeira a vê-lo ressurreto e a receber a missão de contar aos seus discípulos o que testemunhara.

Mas, sem dúvida, dentre todas as mulheres da vida de Jesus, ninguém foi tão importante quanto Maria, de quem herdou o ímpeto revolucionário tão nítido em sua canção de louvor a Deus (Magnificat).

Jesus empoderava as mulheres quando estas nem sequer eram contadas nos censos. Dentre tantos mestres da época, mesmo alguns como Sócrates, Platão e Aristóteles, considerados homens bem à frente de seu tempo, Jesus foi o único a aceitar mulheres como discípulas.

Pena que dois mil anos depois, muitos dos que se apresentam como seus seguidores emprestem os lábios ao machismo imperante em nossa sociedade, negando à mulher o espaço e a dignidade que lhe são devidos. Temos muito que aprender com Jesus.

Autor:  Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Ideias para incorporar o Ensino Híbrido

Para impulsionar a motivação, o engajamento e a colaboração é preciso agregar estratégias de aprendizagem contextualizadas, significativas e centradas nos estudantes.

A transformação digital em andamento oferece múltiplas oportunidades para ampliar as abordagens na educação. O ensino híbrido emerge como uma alternativa para superar alguns dos desafios associados à incorporação das tecnologias dentro e fora da sala de aula.

Alguns desses desafios estão associados à dificuldade de harmonizar as abordagens pedagógicas e os suportes tecnológicos. Além de promover uma extensão dos momentos e ambientes de aprendizagem. Quando mal gerenciadas elas podem causar baixos níveis de motivação, poucas chances do desenvolvimento de habilidades, pouca colaboração, subutilização de equipamentos, entre outros fatores.

Para impulsionar a motivação, o engajamento e a colaboração é preciso agregar estratégias de aprendizagem contextualizadas, significativas e centradas nos estudantes. Para ajudar na incorporação e harmonização entre o digital e o presencial, compartilharmos a seguir dicas para você incorporar o ensino híbrido à sua prática docente.

Preparar para a mudança

Incorporar experiências de aprendizagem centradas no estudante é um desafio para toda instituição. A resistência à mudança e a quebra de paradigmas pode ser realizada por meio de ações graduais e engajadoras. Abaixo, listamos alguns exemplos de abordagens que podem ser adotadas para facilitar o processo de mudanças para uma aprendizagem centrada no estudante.

1. Hora do gênio

Reserve um período semanal e solicite aos estudantes que estruturem e definam um plano de pesquisa sobre um assunto relacionado ao tema a ser estudado.

2. Momentos e Espaços “Maker“

Elabore momentos dedicados à criação e a criatividade. Utilize materiais e equipamentos que permitam aos estudantes aplicarem os conhecimentos e desenvolverem habilidades relacionadas às áreas estudadas. Caso seja possível, recomende a criação de um espaço destinado à estas atividades. Eles podem ser elaborados com materiais básicos, recicláveis e de baixo custo (maquetes, jogos, eletrônicos, pontes, etc).

Quer criar um espaço maker baratinho? Existem vários kits disponíveis e encorajamos você a fazer uma pesquisa na internet. Nós achamos interessante o RUTE, kits eletrônicos para educação “maker” com opções acessíveis que variam entre R$6 e R$39 reais.

3. Hora do show

Crie projetos de pesquisa orientados. Neles os estudantes oferecerão minicursos sobre temas e/ou habilidades que eles dominam. É possível trabalhar com diferentes níveis educacionais e integrar o ambiente educacional. Por meio dos cursos é possível associar conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas aos temas de estudo.

Fomentar a autonomia e o protagonismo

Para a incorporação do ensino híbrido é preciso incentivar e oferecer aos estudantes mais opções sobre o que eles estudam e diversificar as maneiras como eles produzem o conhecimento.

4. Participação em concursos e olimpíadas do conhecimento

Ofereça aos estudantes desafios estimulantes. Promova a extensão da sala de aula com pesquisas e aplicações de conhecimentos. Harmonize os momentos presenciais e online. Trabalhar com problemas reais do cotidiano, criar planos e projetos, além de refinar as investigações com metas específicas e com entregas, podem ser uma alternativa para explorar os interesses dos estudantes com resultados baseados em padrões.

5. Combinar a aprendizagem personalizada com a baseada em projetos

Ao trabalhar com a aprendizagem baseada em projetos é possível combinar a personalização ao determinar o papel e as metas de cada estudante no desenvolvimento do projeto. Conceitos como gestão do tempo, organização, colaboração e pensamento crítico são estimuladas em atividades como estas.

6. Promover o pensamento de “designer”

Estimular a prática de soluções futuras e imaginar protótipos pode ser uma ótima alternativa para se trabalhar com atividades integradoras e estimulantes. E nesse sentido, as estratégias de pensamento de design, como por exemplo, a metodologia de design thinking, podem ser de grande valia para a orientar essas criações.

Extensões e comunidade

7. Promover o aprendizado baseado em resolução de problemas

Trabalhar com problemas da comunidade do entorno da instituição. Essa pode ser uma alternativa para que os estudantes apliquem o conhecimento de diversas áreas para o desenvolvimento de soluções relacionadas à problemas sociais, econômicos, ambientais e cívicos.

Traçar caminhos em diferentes ritmos

8. Promover a aprendizagem adaptativa

Com o suporte de plataformas adaptativas é possível identificar, através de avaliações e acompanhamento das atividades online dos estudantes, quais assuntos precisam ser revisados por eles. Desse modo, é possível respeitar o tempo de aprendizagem de cada estudante. Acelerando, desse modo, o diagnóstico, acompanhamento do progresso e o trabalho personalizado com a orientação adequada para cada caso.

9. Criar a aprendizagem baseada em lugares

Aproveite a globalização e a geografia para criar uma aprendizagem personalizada autêntica, significativa e atraente para os estudantes. Crie uma experiência de aprendizagem imersiva e incentive-os a pesquisar a história, geografia, culturas, oportunidades e experiências locais. Pode-se usar a saída de campo em sua localidade ou escolher países e regiões de interesse. Todas as informações servirão de base para associar os estudo com todas as áreas de conhecimento.

10. Incentivar a aprendizagem baseada em competências

Crie atividades instigantes que trabalhem os conhecimentos, habilidades, atitudes e valores necessários para o desenvolvimento do estudante. Essa abordagem propõem a reestruturação curricular e a promoção de uma formação integral e transversal. Permitindo ao estudante desenvolver as competências necessárias e úteis para o exercício profissional e de cidadania.

Compartilhando saberes

Todas essas dicas podem ser combinadas e adequadas ao seu contexto. É preciso avaliar com quais você se identifica e convidar os colegas professores para entrar nessa jornada de transformação.

Sabemos que Iniciar um processo de mudança sempre exige um grande esforço inicial. Além de uma análise prévia minuciosa para garantir a escolha certa. Essa mudança paradigmática dos currículos e do processo de ensino e aprendizagem são temas que têm se destacado nas últimas décadas. Preparar os colegas da equipe de professores e planejar as ações de acordo com a realidade da instituição garantem um caminho mais seguro nessa jornada!

Se você conhece alguma iniciativa de sucesso ou já participa de uma, compartilhe conosco sua experiência! Deixe o seu comentário abaixo e ajude os colegas!

Lembre-se:

“Se você continuar a fazer o que sempre fez, vai continuar a conseguir o que sempre conseguiu.” – Tony Robbins (1994)

“O Brasil, na última década, vem discutindo a importância das redes de ensino fazer maior uso das tecnologias no processo de aprendizagem dos estudantes. O fato é que nem todas as redes de ensino, nem todos os professores e nem todos os estudantes estão vinculados a estas ferramentas ainda. Por que demoramos tanto? Por que ainda não incorporamos, de forma mais efetiva, as ferramentas tecnológicas nas práticas docentes como aliadas ao aprendizado no século XXI?. Leia mais aqui!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ROBBINS, T. Passos de Gigante. 1° ed. Best Seller: São Paulo, 1994.

AUTOR: Kamil Giglio

Edição: Alex Rosset

Aprendizagem baseada em competências

Os currículos de educação baseada em competências permitem que os estudantes usem o conhecimento adquirido previamente fora da sala de aula. Ou seja, busca-se valorizar o contexto de cada estudante, bem como utilizá-lo à favor de sua educação.

Você já ouviu falar sobre a aprendizagem baseada em competências? O primeiro passo para entender como funciona é desconstruir a imagem e alguns dos conceitos que temos sobre a educação (tradicional).

Na educação baseada por competências (EBC) o sistema é mais holístico e os créditos não estão fundamentados sobre a carga horária. As disciplinas cedem espaço para abordagens mais interdisciplinares, focadas nos estudantes. Por consequência, o foco muda do conteúdo para o desenvolvimento de habilidades, conhecimento e atitudes. Confira a seguir algumas das principais características e benefícios dessa abordagem.

Fundamentos da Educação Baseada em Competências (EBC)

O termo “competências” começou a ser amplamente utilizado na década de 1970 em ambientes organizacionais. Geralmente associado ao desenvolvimento de habilidades necessárias para o desempenho de uma função por um profissional.
No âmbito da educação, podemos afirmar que ele já existe há séculos. Um singelo exemplo que pode ser citado é o ensino de profissões na idade medieval (carpinteiro, ferreiro, cavaleiro etc.). Contudo, foi somente na década de 1980 que o termo foi incorporado a área. E a partir de 1990 que surgiram as primeiras abordagens incorporando as competências nos diferentes níveis educacionais. Nos últimos anos, a EBC tem ganhado relevância devido ao potencial de transformação e pela eficiência comprovada no processo de ensino e aprendizagem.

Nesse sentido, a abordagem incentiva o desenvolvimento global de competências em todos envolvidos no processo educacional. No que diz respeito aos docentes, constata-se que ele impulsiona a melhoria contínua da equipe ao:

  • Criar novas dinâmicas de comunicação e interação;
  • Estimular o trabalho colaborativo e a criatividade;
  • Compartilhar as melhores práticas;
  • Expandir os ambientes de ensino e aprendizagem;
  • Estimular atitudes e criando uma nova cultura na instituição;
  • Promover a extensão para comunidade.

Isso, consequentemente, acaba refletindo na formação dos estudantes. Pois, através da reestruturação curricular promove-se uma formação integral e transversal. Permitindo ao estudante desenvolver as competências necessárias e úteis para o exercício profissional e de cidadania.

Benefícios DA EBC

1 . Contextualizado para as necessidades da sociedade do mundo e do trabalho

A aprendizagem baseada em competências é focada em conectar formação e aprendizagem dos estudantes, preparando-os para atuar com eficácia no ambiente de trabalho. Além disso, ele busca atender às demandas da sociedade em permanente transformação, bem como as necessidades do setor produtivo (Tuning, 2007)¹.

2. Reconhecimento das experiências prévias de cada estudante 

Os currículos de educação baseada em competências permitem que os estudantes usem o conhecimento adquirido previamente fora da sala de aula. Ou seja, busca-se valorizar o contexto de cada estudante, bem como utilizá-lo à favor de sua educação. Consequentemente, isso permite identificar as lacunas ou áreas que cada estudante precisa melhorar, sem que isso envolva necessariamente um grade rígidas de disciplinas.

3. Flexibilidade e acessibilidade

Como o foco está na aprendizagem e não no tempo necessário para completar os créditos, os estudantes deixam de seguir os currículos com grades rígidas de disciplinas e períodos pré-definidos como bimestres, trimestres e semestres, por exemplo. Eles passam a desenvolver atividades, como projetos ou resolução de problemas, por exemplo, para interiorizar as competências necessárias para desempenhá-las. Essas atividades podem ser acompanhadas e orientadas pelos professores e devem estar dentro de um cronograma estabelecido conjuntamente pelas partes envolvidas.



4. Autogestão do aprendizado

A aprendizagem baseada em competências, segundo Everhart (2014)², permite melhorar a capacidade dos estudantes identificar, gerenciar e construir continuamente as suas próprias competências. Tuning (2007)¹ corrobora afirmando que ela também permite aos estudantes avaliar e melhorar o seu desempenho, interpretar situações, analisar o contexto, resolver problemas e realizar ações inovadoras.

5. Transparências das capacidades para orientação vocacional dos egressos

Por meio da aprendizagem baseada em competências é possível comunicar aos estudantes, com eficácia, o que eles sabem e o que eles podem fazer com isso (Klein-Collins, 2012)³. Com a estruturação de um mecanismo de acompanhamento e avaliação, no momento de ingresso ao mercado de trabalho ou de seleção de um curso universitário, o estudante está mais consciente sobre as suas escolhas.
Paralelamente, ao adentrar no mercado de trabalho, os selecionadores de recursos humanos nas organizações acabam tendo uma compreensão mais ampla sobre os resultados de aprendizagem dos estudantes. Conseguindo alocá-los ou direcioná-los nas funções corretas. Com isso, evita-se problemas decorrentes desse contexto, como insatisfação e desmotivação nos ambientes de trabalho. Ou dedução de competências dos candidatos, por somente possuírem diplomas e/ou certificações.

Compartilhando saberes

Iniciar um processo de mudança sempre exige um grande esforço inicial, bem como uma análise prévia minuciosa para garantir a escolha certa. A mudança paradigmática dos currículos e do processo de ensino e aprendizagem na educação são temas que têm se destacado nas últimas décadas. Você é a favor ou contra? Conhece alguma iniciativa de sucesso? Tem vontade de começar um projeto nesses moldes? Compartilhe conosco sua opinião! Deixe o seu comentário abaixo!
Lembre-se:

“Se você continuar a fazer o que sempre fez, vai continuar a conseguir o que sempre conseguiu.” Tony Robbins (1994)

Ensino Híbrido: conceitos e aplicação | Metodologias Ativas: possibilidades, participação em Formação de professores da rede municipal de Passo Fundo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
¹ TUNING. Reflexiones y perspectivas de la Educación Superior en América Latina – Informe final Proyecto Tuning América Latina 2004-2007. Disponível em: <
http://goo.gl/w7m5ad>. Acesso em: 30 Abr. 2017. 

² EVERHART, D. 3 Key Characteristics of Competency Based Learning. Blackboard Blog, 2014. Disponível em: <http://blog.blackboard.com/3-key-characteristics-of-competency-based-learning/>. Acesso em: 26 Jun. 2017. 

³ KLEIN-COLLINS, R.. Competency-Based Degree Programs in the U.S. Post-secondary Credentials for Measurable Student Learning and Performance. CAEL, 2012. Disponível em: <http://www.cael.org/pdfs/2012_competencybasedprograms>. Acesso em: 13 Jun. 2017. 

ROBBINS, T. Passos de Gigante. 1° ed. Best Seller: São Paulo, 1994.

AUTOR: Kamil Giglio

Edição: Alex Roset

O caso Lula

Lula não está acima da lei. Nunca se opôs a qualquer investigação, desde que realizada com a observância da lei e das garantias constitucionais.

Luiz Inácio Lula da Silva, um torneiro mecânico de baixa escolaridade que, após ser líder sindical, chegou à Presidência, sob sua liderança tirou milhões de pessoas da pobreza e tornou o Brasil uma potência mundial – a primeira letra do prematuro acrônimo: BRIC, é um verdadeiro fenômeno de nossos tempos.

Quando todas as pesquisas passaram a apontá-lo com popularidade suficiente para ser reconduzido à presidência, uma verdadeira cruzada, comandada pelo juiz Sérgio Moro, passou a tê-lo como alvo, apesar da ausência de provas e de tramoias processuais.

O caso Lula – especialmente violação de seus direitos humanos em meio aos esforços de encontrar algum delito – impôs graves problemas ao Estado de Direito: como em uma democracia pode-se combater efetivamente a corrupção se isso não for feito de maneira justa?

São Tomás de Aquino advertiu que os que em caso de necessidade julgam em desacordo com a lei não julgam a própria lei, mas sim o caso singular em que acham que a lei não deve ser aplicada. O caso de necessidade que se refere o grande teólogo dominicano é um conceito amplo e subjetivo, que pode servir aos mais variados propósitos, inclusive ao de fazer o bem através do mal.

Partindo do que disse o teólogo, podemos concluir que se a luta contra a corrupção no Brasil se fizer às custas dos direitos e garantias individuais, colheremos o mesmo tipo de resultado desastroso alcançado por outras sociedades.

Não são poucos os exemplos históricos em que a máxima de que “os fins justificam os meios”, aplaudida pelo povo, gerou consequências nefastas, resultando na piora das liberdades civis ou, como no caso da Alemanha Nazista, na degeneração dessas liberdades.

Precisamos entender que uma sociedade não evolui do dia para a noite – puxando a outra ponta da corda – a natureza humana é pródiga em exigir respostas rápidas. Em períodos de grande comoção, na ânsia de recolocar o trem nos trilhos, o inconsciente coletivo busca socorro em mitos, dando-lhes uma espécie de carta branca para travar a guerra que reputar justa.

A impropriedade dos meios empregados, como no caso Lula, podem criar precedentes que permitam flexibilizar garantias constitucionais que hoje – na visão equivocada daqueles que acreditam que é possível impor pela via judicial um novo padrão moral à sociedade – atrapalhariam o exercício do bem.

No Brasil, a presunção de inocência passou a não ter nenhum significado, pois a imprensa, em colaboração com o então juiz Moro e promotores, assiduamente passou a criar uma expectativa em relação à culpa de Lula.

Direito não é política; não é religião; não é filosofia; e não é moral. Ele bebe de todas estas fontes. Depois de posto, não pode ser alterado por injunções pessoais, subjetivas ou ideológicas. A democracia não pode depender de bons ou maus juízes e procuradores. Muito menos da mídia. E nem do que clamam as maiorias.

Aliás, a democracia tem um lema: ela é protegida pela Constituição, que é um remédio contra maiorias eventuais. No caso Lula, entretanto, algo muito estranho ao Direito foi manifestado pela Operação Lava Jato.

O que é intolerável para a classe dominante é a liderança carismática que Lula irradia, reconhecida mundialmente. O que mais lhes dói é dar-se conta de que ele, Luiz Inácio Lula da Silva, é muito mais inteligente do que eles e que seu governo fez mais transformações do que eles em todo o tempo que estiveram no poder.

Com Lula, o povo ganhou centralidade, algo inaceitável para as oligarquias conservadoras e reacionárias.

Lula não está acima da lei. Nunca se opôs a qualquer investigação, desde que realizada com a observância da lei e das garantias constitucionais. Parece que agora isto começa a ser observado. A decisão do ministro Fachin mostra que sua condenação foi política.

Para concluir, repito um antigo conceito de Ruy Barbosa, “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário”.

Autor: José Ernani Almeida

Edição: Alex Rosset

Escutar mais e falar menos nos faz bem

Escutar não é uma condição passiva, é prática, é exercício, é querer.

Dia desses li um texto de Bruna Lombardi, intitulado A difícil arte de escutar, que permite alguma reflexão. A autora termina, afirmando que escutar é uma forma de amor e uma arte difícil de executar, mas que ajuda a trazer paz em qualquer discussão. Concordo com a definição de que se trata de uma atitude difícil de ser realizada, porém, uma vez atingida, de fato, brinda-nos com uma paz compensadora.

Discutir qualquer relação deixa a gente com os nervos à flor da pele. A ansiedade e a impaciência são as principais inimigas de qualquer diálogo produtivo, e quem briga logo de cara perde a razão. Veja mais!

Na mesma linha, há um livro editado recentemente (2019), intitulado O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas. Nele, a ênfase é para o fato de que saber escutar propicia relacionamentos afetivos com qualidade e duradouros, amizades às claras, rendimento melhor no trabalho e na escola, enfim, o enaltecimento sobre o quanto é importante saber escutar.

Mas o que fazer para aprender a escutarmos melhor?

A arte de não interromper uma conversa exige atenção e respeito. Quando não percebemos que transbordamos argumentos e que somos incapazes de deixar nosso interlocutor concluir sua fala, corremos o risco de querermos impor nossa opinião autoritariamente.

Mas o que fazer para aprender a escutarmos melhor? A arte de não interromper uma conversa exige atenção e respeito. Quando não percebemos que transbordamos argumentos e que somos incapazes de deixar nosso interlocutor concluir sua fala, corremos o risco de querermos impor nossa opinião autoritariamente. Viralizou, nos meios de comunicação, a intervenção do rei espanhol no ano de 2007, ante a verborragia do presidente venezuelano em uma conferência: “Por que não te calas, Chaves?”.

Mas, e quando não conseguimos fazer essa escuta de nós mesmos? Quantos aborrecimentos gerados unicamente por assumirmos o discurso de quem não tem tempo para nada? Exercitar incorretamente o ato da escuta gera mal entendidos, situações constrangedoras evitáveis e, por isso, não há qualquer forma de amor quando o diálogo parte para um contexto de agressividade e competitividade que produzem tristezas e aborrecimentos.

Saber escutar a si e aos outros requer estar harmonizado com a vida, pressupõe um bom estado de saúde, uma vez que a incapacidade de escutar pode estar ligada a transtornos de ansiedade, de falta de atenção/concentração ou a situações estressoras, por exemplo.

Acalme-se. Diz a sabedoria popular que se temos dois ouvidos e apenas uma boca é para que escutemos mais.

A psicoterapia é o espaço dual da fala e da escuta, e é na moderação entre o falar e o ouvir ponderadamente que poderemos encontrar nosso ponto de equilíbrio, nossa harmonização interior, nosso bem-estar.

Escutar não é uma condição passiva, é prática, é exercício, é querer. Escute mais e a vida tornar-se-á melhor.

Ao praticar oratória, aprendo a expressar tudo aquilo que já sei. Porém, ao praticar escutatória, abro-me para novos horizontes. Assista ao vídeo.

Autor: César A R de Oliveira

Edição: Alex Rosset

Fratelli tutti: O bom samaritano

A atitude do samaritano, não sendo judeu, considerado impuro por este, é de um poder simbólico absoluto. Fez o bem sem olhar a quem.

Papa Francisco é um raio de luz no meio da escuridão. Mas, o Papa não se vê assim porque, para ele, a luz é Jesus que, com suas palavras e ações, ilumina a realidade sombria em que vivemos, pelo menos na perspectiva da fé.

Do Evangelho de Jesus, o Papa destaca uma parábola que tem a força e brilho de um raio a iluminar a realidade, tanto para os que creem quanto aos homens e mulheres de boa vontade, mesmo os ateus. A parábola é conhecida como o Bom Samaritano. Pela riqueza de detalhes nela contida e pela interpretação que o Papa faz, é conveniente transcrevê-la integralmente, porque não é possível dizer mais e melhor do que ela mesma em seu conteúdo, estilo, cenário, circunstâncias e personagens.

“E eis que um doutor da Lei se levantou e disse para experimentá-lo: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Ele disse: “Que está escrito na Lei? Como lês”? Ele, então, respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo”. Jesus disse: “Respondeste corretamente; faz isso e viverás“. Ele, porém, querendo se justificar, disse a Jesus: “E quem é meu próximo?” Jesus retomou: “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu. Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo: ‘Cuide dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei’. Qual dos três, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Jesus então lhe disse: “Vai, e também tu, fazes o mesmo” (Lc 10, 26-37).

Parábola é uma figura de linguagem que convoca o ouvinte à ação. Parábolas não são contadas para ensinamento de ordem epistêmico ou intelectivo, mas de ordem prático, ético e político.

Quando Jesus contou a parábola do filho pródigo, por exemplo, o que lhe importava era fazer o ouvinte perceber as posturas práticas dos personagens narrados, colocando o ouvinte diante do espelho, enxergando-se como filho mais novo, filho mais velho ou o pai. Não há como ficar indiferente a uma narrativa dessa ordem.

Na parábola do bom samaritano acontece o mesmo e, para tirar todas as lições práticas que ela se propõe, é importante ter em conta o contexto, o cenário, as circunstâncias e os personagens, pois só assim se capta a mensagem intencionada por Jesus.

O contexto: uma regra básica para ler a Bíblia é ler cada texto em seu contexto para não virar pretexto de justificar ideologias e interesses escusos, descontextualizando-o. Assim, para melhor entender o poder simbólico e evocativo da parábola do bom samaritano, o Papa Francisco remonta às origens da defesa bíblica da fraternidade que, como um “fio de ouro” perpassa a Bíblia do Antigo ao Novo Testamento, iniciando pela narrativa de Caim e Abel.

Conhecemos a história de Caim e Abel. O cerne da narrativa é a pergunta que Deus lança à Caim, depois desse ter matado o irmão Abel. “Onde está Abel, teu irmão”? A resposta que Caim dá é a mesma desculpa de sempre, inclusive a nossa: “Acaso sou guarda do meu irmão?” A pergunta de Deus é incontornável e a interrogação que vem da resposta de Caim já está respondida na pergunta de Deus. Deus não disse, mas fica subentendido: “sim, você é o guarda do seu irmão” e o que você fez não se faz e não há desculpas ou escapatórias.

Nesse contexto a dimensão ética e religiosa que nos convoca a fraternidade recebe um lugar central que será elevado a grau máximo nas palavras de Jesus na parábola do bom samaritano.

Outro lugar de parada obrigatória no chamado à fraternidade, no contexto bíblico, encontra-se em Jó. O livro de Jó postula um mínimo fraterno e de direitos comuns, para além do sangue familiar, fundados no laço de “parentesco espiritual” que nos envolve a todos pelo fato de termos um “criador comum”.

Essa ideia de “criador comum” é um eco da longa tradição judaica que perpassa o Antigo Testamento e que aponta para em direção ao princípio da fraternidade, para além do sangue e para além da nacionalidade, em direção à universalidade. O antigo preceito “amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19,18), vai se afirmando como regra de ouro de não fazer aos outros o que não queremos que nos faça (Tb 4,5) e que, no Novo Testamento, receberá uma fórmula nova, positiva e definitiva, a saber, “tudo, pois, quanto querei que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Essa é a Lei e os profetas (Mt 7,12). Esse apelo é universal e a conclusão não poderia ser outra senão o “sede misericordioso como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

Em São Paulo o princípio de caridade, para com todos, ganha expressão de programa teológico e social (1Ts, 3,12). É nesse arco ampliado da defesa da fraternidade universal que deve ser inserida, para melhor ser compreendida, a parábola do bom samaritano.

O cenário, as circunstâncias e os personagens: Sobre o cenário o que o texto nos informa é que um homem descia de Jerusalém a Jericó e no caminho foi assaltado, espancado, deixando-o semimorto. “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto”. Nada mais. E o texto, ainda, nada diz sobre quais foram as circunstâncias do evento. Não dá detalhes dos assaltantes, nem do homem assaltado e espancado e jogado no caminho. Não diz se foi de dia ou de noite, quantos assaltantes haviam, quem eram, que arma usaram, qual sua etnia, religião, nacionalidade etc.

Nada disso interessa para a moral da parábola. Não faz juízo sobre os salteadores e sua índole. Nem lamenta o fato e muito menos prega vingança que geraria mais violência. Simplesmente toma o fato como ponto de partida já consumado. Mas, se pouco ou nada diz sobre o cenário e as circunstâncias, diz muito sobre os personagens que entram na cena e completa o drama e, por força performativa, nos arrasta, também, para dentro da cena. Se sobre os salteadores e o homem caído e violentado a parábola dá como fato consumado, já não dá para dizer o mesmo dos outros personagens. Estes sim, dão o que pensar.

Os primeiros personagens são os que “passam adiante”. “Casualmente, descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu”. Logo, os que deveriam, por dever de ofício, parar e socorrer, “passam adiante”?

É um paradoxo e o paradoxo faz pensar e, no caso, faz parar para pensar quem são os sacerdotes e os levitas. Não seriam eles os que ensinam o dever de socorrer e amar e praticar a lei? Se pregam uma coisa e fazem outra, então são, além de insensíveis, hipócritas. Diz o Papa: “o fato de crer em Deus e adorá-lo não é garantia de viver como agrada a Deus” (FT 74).

Mas, seria injusto apontar para essas duas personagens como se fossem alguém que não nos diz respeito. Injusto e perigosamente confortável, mas ilusório, acharmo-nos justificados por não pertencermos a essas duas classes. Não se enxergar espelhados na atitude de indiferença pode ser confortável, mas não faz jus à realidade. Quem nunca passou adiante? Esse espelhamento deixa-nos desconfortável e incômodos. Por outro lado, é preciso dizer também que, às vezes, “aqueles que dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que aqueles que creem” (FT 74).

E que dizer do homem ferido e deixado à beira do caminho? O texto nada diz, além do seu lamentável estado, mas faz dizer. E o que faz dizer é que, atualmente, não faltam humanos abandonados, despidos de dignidade e violentados, deixados à margem da sociedade.

Diz o Papa: “Hoje, há cada vez mais feridos. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos econômicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia, enfrentamos a opção de sermos bons samaritanos ou caminhantes indiferentes, que passam ao largo”. (FT 69).

 E o Papa arremata dizendo que diante das pessoas caídas e feridas, há uma redução das possíveis atitudes em apenas duas: “Já não há diferença entre habitante da Judeia e habitante da Samaria, não há sacerdote e nem comerciante; existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo.

De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade” (FT 70). Por fim, e o central, é a atitude do samaritano. O samaritano foi, concretamente, quem se fez próximo do judeu caído. A atitude do samaritano, não sendo judeu, considerado impuro por este, é de um poder simbólico absoluto. Fez o bem sem olhar a quem. Ultrapassou todas as barreiras culturais, religiosas e históricas. Levou o amor ao próximo como a si mesmo ao patamar superior.

Todas as fronteiras foram ultrapassadas, em nome do amor e do cuidado. Ele fez o que não lhe era um dever, fez por amor. Deu de seu tempo, dinheiro, preocupação. Realizou o mandato do amor de uma forma exemplar. No seu gesto está sintetizado o que de melhor se pode dizer sobre o amor ao próximo. Um amor incondicional e universal. Realizou de forma plena a dimensão fraterna de toda a espiritualidade que se queira cristã.

Como conclusão, pode-se dizer duas coisas.

Primeiro que se há alguém caído, ferido, excluído, nele mora Jesus, pelo menos na ótica cristã. Na ótica humanista, aí mora alguém com dignidade que precisa ser resgatada.

Quando se diz que fora de Jesus não há salvação está se dizendo, em outras palavras que fora dos pobres não há salvação. E isso por uma razão simples.

Salvando os pobres, e toma-se, aqui, os pobres como sinônimo de violentados, condenados da terra, os sem terra, sem teto, sem trabalho, os excluídos do mercado, das igrejas e das rodas sociais. Pobres e caídos no caminho são as mulheres que sofrem na cultura do machismo, os negros que enfrentam a cultura do racismo, os doente, velhos, enfim, os que estão fora do sistema de direitos no suposto Estado de Direitos.

Fora deles não há salvação. Isso significa algo muito simples. Se os pobres forem salvos, todos serão, pois os ricos e incluídos, já estão salvos…

Em segundo lugar é preciso que se diga que há uma única forma de mudarmos o estado de coisas: mudarmos de atitudes no cotidiano da opções pessoais, passando da indiferença ao cuidado, da violência à paz, da exclusão à inclusão, do individualismo à solidariedade, realizando assim o mandamento do amor. Além da mudança subjetiva, é imperioso voltarmos a ter esperança na política como a maior forma de caridade, pois dela depende o destino de muitos. “Vai, e também tu, fazes o mesmo” (Lc 10, 26-37).

Conheça outras duas reflexões sobre Fratelli Tutti, publicadas no blog do autor: Uma introdução e As sombras de um mundo fechado.

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

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