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Escolas na pandemia: horizontes de dentro e de fora delas

A escola faz parte da sociedade, é uma organização que compõe a dinâmica social e por isso qualquer saída ou solução sobre retorno às aulas presenciais dependerá do comportamento do vírus e do comportamento da sociedade.

Giane Guerra, jornalista, expôs, de forma brilhante, uma opinião pessoal com refinado trato jornalístico sobre a relação deste momento da pandemia e a volta às aulas presenciais, em rede social sua no dia 06 de março de 2021. Leia na íntegra.

A pressão pela volta às aulas presenciais é justificada por muitas razões mas, principalmente, ocorre pela necessidade que as crianças, adolescentes e jovens têm da socialização, do encontro, do convívio e do prazer em conviver coletivamente.

Após leitura e interpretação desta crônica, construímos convicção de que o seu conteúdo interessa aos leitores do site, aos pais e mães, aos professores e professoras, aos estudantes e à toda comunidade que vive a angústia pela volta às aulas de forma presencial.

Levando em conta a sua forma e seu conteúdo, resolvemos repercuti-la por conta de seus pertinentes argumentos e ponderações sobre tão delicado e controverso tema que vem pressionando a sociedade gaúcha: a abertura das escolas para as aulas presenciais.

Ao analisar a crise pandêmica e as consequências dos filhos estarem em casa há mais de um ano, a jornalista pondera que este momento é o mais crítico para enviá-los à escola, justamente pela agressividade das novas variantes.

Assim escreveu: “não estamos lidando com o mesmo vírus do ano passado. Elas avançam em ambientes onde imunizados e não imunizados convivem e geram os escapes para surgimento das variantes, potencializada pela vacinação no ritmo que temos. Tenho ainda o receio do comportamento das pessoas fora da escola. A situação se agravou porque a população buscou uma “normalização” da vida quando se aplicava ainda meia dúzia de vacinas lá em janeiro. Imagina agora”.

Como a maioria dos pais e mães, a crônica da jornalista aborda que o maior medo dos adultos é mesmo um medo pelas crianças, um medo de fazê-las sofrer, um medo de perdê-las.

Revelando conhecimento das peculiaridades e diferenças entre escolas das redes de ensino privadas e públicas, Giane Guerra se posiciona: “há o abismo entre educação pública e privada, pais que não têm onde deixar os filhos, famílias que não se adaptaram ao homeschooling, mas estamos em um dos piores momentos da pandemia fora da escola e sabemos que o distanciamento entre crianças e adolescentes não acontece de forma tão efetiva para realmente não ocorrer a transmissão”.

De maneira objetiva e jornalística, Guerra acha que é momento, sim, de discutir a volta às aulas, mas levanta questionamentos bem pertinentes: as famílias estão engajadas realmente nos seus protocolos familiares fora da escola? Estamos preparados se as variantes chegarem nelas com mais força? Nosso sistema de saúde está? Nosso coração e mente estão preparados?

Guerra faz menção a consulta que fez a um médico virologista, professor da Feevale e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Virologia.

Em respostas a algumas de suas perguntas, o especialista referiu que, infelizmente, as novas variantes estão associadas a casos mais importantes em adolescentes e que esta questão precisa ser considerada no retorno às aulas. O especialista ainda refere que seria necessário um esforço concentrado da sociedade mais a vacinação para conter novas variantes. “Já vemos bons efeitos nas poucas faixas etárias vacinadas, mas isso pode se perder se continuarmos com novas mutações”.

Sobre a volta às aulas, o consultado explica que a questão central sobre a circulação das crianças nas escolas é que estas acabam conectando famílias que, de outra forma, não estariam ligadas. A volta às aulas deveria ser pensada fora do pico da pandemia. A volta segura às aulas deve ser em período de pouca circulação do vírus.  “Mesmo com a vacinação dos professores, é importante que se considere o contexto de que há uma população da escola em risco do vírus ou de transmitir o vírus. Quer pensar na escola? Tem que pensar o horizonte fora da escola, como está o vírus fora da escola, enquanto a vacinação não estiver universalizada”.

Sobre a educação infantil, a constatação do especialista é de que o distanciamento físico é difícil e que as crianças podem excretar cargas altas de vírus, se tiverem infectadas. Por outro lado, como toda sociedade reconhece, a educação infantil é o setor mais frágil no sentido da sustentabilidade financeira das escolas e da necessidade de trabalho das famílias e pela necessidade de muitas famílias não terem onde deixar os filhos para poder trabalhar.

Como observamos na crônica que estamos analisando, as implicações e a complexidade da volta às aulas presenciais, no pior momento da pandemia no Brasil e no RS, são enormes e de proporções incertas.

A escola faz parte da sociedade, é uma organização que compõe a dinâmica social e por isso qualquer saída ou solução sobre retorno às aulas presenciais dependerá do comportamento do vírus e do comportamento da sociedade.

O retorno às aulas presenciais deverá ser feito de forma segura e no melhor momento de enfrentamento da pandemia. O funcionamento regular das escolas movimenta toda a sociedade, envolve os pais, mães, tios, avôs e avós, professores e professoras, funcionários e funcionárias, gestores e gestoras, podendo irradiar a disseminação do vírus, com consequências em toda sociedade.

Escolas abertas e funcionando regularmente não são a solução para os problemas decorrentes do impacto da pandemia na sociedade, mas podem colaborar, no momento mais apropriado, para a construção de soluções que valorizem a vida e promovam a saúde e o bem-estar de toda sociedade.

As experiências de enfrentamento ao coronavírus mais bem sucedidas no planeta colocaram a vida em primeiro lugar e já estão colhendo os frutos da retomada da economia. Todavia, como uma tática para desagregar ainda mais a população, no Brasil resolveram abrir escolas no pior momento, forçaram as pessoas ao trabalho presencial, mesmo sabendo que logo teriam que fechar e que seriam necessárias medidas mais restritivas, por força das mortes, do colapso da saúde ou de decisão da Justiça.(Aline Kerber) Leia mais!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

A vingança pertence a Deus?

Por mais que soe estranho aos nossos ouvidos, a vingança divina é motivada pelo amor, assim como qualquer outro de Seus atributos morais. A vingança de Deus nada mais é do que a retribuição exigida por Sua justiça, e a Sua justiça é um exigência do Seu amor.

“V de Vingança” é uma adaptação cinematográfica da série de quadrinhos de mesmo nome publicada pela DC Comics sob a sua marca Vertigo. Tendo Londres como cenário, o filme retrata uma sociedade distópica num futuro próximo, regida por um ditador fascista, bem ao estilo de Hitler, que usa e abusa de táticas de repressão como sequestros, torturas e assassinatos de quem se opõe ao regime.

Com a mídia sob o seu controle, a censura impera e se estende por todas as formas de manifestação cultural, desde as artes à religião. É neste cenário caótico que surge a enigmática e carismática figura de V, o mascarado defensor da liberdade, disposto a vingar-se dos que o desfiguraram.

V se dispõe às últimas consequências, inclusive explodir prédios públicos e fazer justiça com as próprias mãos. À serviço do sistema, a polícia empreende uma frenética busca para capturá-lo, antes que se deflagre uma revolução.

O personagem inspirou manifestações ao redor do mundo exigindo a queda de regimes totalitários e a prisão de políticos corruptos.

É raro assistir a uma manifestação popular em que sua máscara não apareça em meio à multidão. De repente, o que era considerado uma vicissitude, passou a ser considerado uma virtude. Mesmo assim, não parece de bom tom atribuir a Deus um ato de vingança, assim como muitos encontram dificuldade em atribuir-lhe ira e castigo.

Todos reclamam em uníssono da impunidade que impera no país, e sentem-se realizados quando veem uma figura importante do cenário político ou empresarial sendo presa, mas insistem na ojeriza à ideia de um Deus que puna. Afinal, dizem eles, como um Deus de amor poderia irar-se? Ou como um Deus misericordioso poderia castigar? Ou como um Deus que nos ensina a perdoar seria capaz de vingar-se?

Mas, fato é que não faltam passagens nas Escrituras que atestam tais atributos. Já houve quem afirmasse, com base em passagens do Antigo Testamento, que o Deus ali revelado não seria o mesmo a quem Jesus chamava de Pai. Entretanto, o Novo Testamento está cheio de passagens que falam de ira divina, bem como de Sua vingança contra toda a injustiça praticada pelos homens.

À luz de uma boa teologia, nenhum desses atributos entra em choque com os atributos do amor, da misericórdia e do perdão. Aliás, eles deveriam nos soar como um incentivo para que fôssemos amorosos, misericordiosos e perdoadores.

Repare, por exemplo, na recomendação de Paulo: “Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor” (Romanos 12:17-19).

Portanto, não nos cabe vingar-nos, mas tão-somente amar e perdoar, deixando que Deus se encarregue de exercer o Seu juízo. Querer vingar-se é tomar o lugar de Deus. Obviamente, a vingança divina não é da mesma natureza da vingança humana, assim como a ira divina nada tem a ver com a ira humana. Nas palavras de Tiago, a ira dos homens não produz a justiça requerida por Deus (Tiago 1:20).

A vingança humana costuma ser desproporcional, pois é motivada pelo ódio, pela mágoa, pelo rancor, bem diferente da vingança divina, motivada pelo amor. Isso mesmo! Por mais que soe estranho aos nossos ouvidos, a vingança divina é motivada pelo amor, assim como qualquer outro de Seus atributos morais. A vingança de Deus nada mais é do que a retribuição exigida por Sua justiça, e a Sua justiça é um exigência do Seu amor.

Quem busca fazer justiça com as próprias mãos nem sempre pretende dar uma punição justa, e sim causar sofrimento ao outro, porque é motivado pelo ódio. Um claro exemplo bíblico disso é o de Sansão que havendo sido trapaceado por alguns homens em uma aposta feita no dia de seu casamento, decidiu vingar-se, destruindo plantações e matando muita gente (Juízes 15:7-8).

Qualquer leitor atento das Escrituras perceberá que o herói hebreu errou na mão. A vingança também pode ser dirigida contra a pessoa errada. Depois que Sansão causou toda aquela confusão, os filisteus resolveram se vingar na sua esposa e no seu sogro, que, definitivamente, não deveriam ser culpabilizados pela situação (Juízes 15:6). Fica claro que o que eles pretendiam era atingir indiretamente a Sansão, causando-lhe dor e prejuízo. Pessoas vingativas não se preocupam com os efeitos colaterais de suas ações, mesmo que inocentes sejam atingidos.

Como seguidores de Cristo, estamos desautorizados a nos vingar a nós mesmos. O máximo a que temos direito é a dar lugar à ira, isto é, à indignação pela injustiça.

Entretanto, mesmo esta santa indignação não nos autoriza a odiar aos que nos injustiçaram. “Não te vingarás nem guardarás ira contra os filhos do teu povo”, diz o Senhor, “mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor” (Levítico 19:18).

A melhor maneira de combater qualquer foco de ódio, rancor ou vingança em nosso coração é cultivando nossa confiança na justiça divina. Mesmo que pareça tardar, ela certamente não falhará. Ela segue sigilosamente, sem alarde, até o momento determinado por Deus para que se manifeste. “Acaso não guardei isso em sigilo? Não o selei em meio aos meus tesouros mais secretos?”, indaga o Senhor, “a mim pertence a vingança e a retribuição (…) Porque o Senhor fará justiça ao seu povo, e se compadecerá de seus servos!”(Deuteronômio 32:34-35a,36a).

De uma coisa podemos estar certos: Deus não está fazendo vista grossa aos desmandos dos que oprimem o Seu povo. Toda injustiça será retribuída. Por isso, Ele ordenou: “Dizei aos turbados de coração: Sede fortes, não temais; eis que o vosso Deus virá com vingança, com recompensa de Deus; ele virá, e vos salvará” (Isaías 35:4).

Somente Deus tem o direito à vingança porque só Ele é justo para dar a punição correta. Quanto a nós, temos que aprender a perdoar e a retribuir o mal com o bem (Romanos 12:17-21). Perdoar não é colocar panos quentes, fazer vista grossa ou dizer que a pessoa não mereça punição, mas deixar de fazer da punição uma exigência que vise saciar nossa sede de vingança. Quando perdoamos deixamos a punição a critério de Deus.

Se quisermos ter a certeza de que perdoamos, teremos que conferir o que desejamos que aconteça a quem nos ofendeu. Não adianta dizer que perdoamos, se, lá no fundo, ainda nutrimos um desejo de vingança.

Perdoar é abrir mão do direito de revanche. Devemos, portanto, seguir as pegadas de Jesus, que “sendo injuriado, não injuriava, padecendo, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente” (1 Pedro 2:23).

Romano Guardini, teólogo italiano, concluiu: “Enquanto você estiver emaranhado no erro e na vingança, golpe e contragolpe, agressão e defesa, você será constantemente atraído para um novo erro […] Apenas o perdão nos liberta da injustiça dos outros.”[1]

De acordo com Lewis Smedes, “a vingança é uma paixão de acerto de contas. É um desejo ardente de devolver tanto sofrimento quanto alguém lhe afligiu […] O problema com ela é que nunca alcança o que deseja; nunca chega ao empate. A justiça nunca acontece.

A reação em cadeia iniciada por cada ato de vingança sempre segue o seu curso desimpedida. Ela amarra ambos, o injuriado e o injuriador, a uma escada rolante de sofrimento. Ambos são impedidos de prosseguir na escada quando se exige paridade, e a escada não para nunca, nunca deixa ninguém descer.”[2]

Só há uma maneira de descer dessa escada rolante: perdoando. Perdoar é permitir que as coisas sigam seu curso natural. É liberar as pessoas que nos magoaram para que sejam felizes, apesar daquilo que nos infligiram.

Quando perdoamos, quebramos um interminável ciclo de ofensas. Por mais que a justiça clame: “Olho por olho, dente por dente”, o amor deve falar mais alto. Ghandi tinha razão ao observar que, se todos exigissem “olho por olho”, no final todos estariam cegos.

Referências:

[1] GUARDINI, Romano. The Lord. Chicago: Regnery Gateway, 1954. p. 302.

[2] SMEDES, Lewis B. Forgive and forget. São Francisco: Harper & Row, 1984. p. 130.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Fratelli tutti: pensar e gerar um mundo aberto

Sem educação para a fraternidade, a igualdade se fecha no “círculo” dos sócios. O bem comum e a sociedade que supere o individualismo que corrói as relações, só se alcança tendo como base a amizade social e a fraternidade em que o outro é visto com uma dignidade, a tal ponto, que a sua vida valha a minha.

No terceiro capítulo da Fratelli Tutti, o Papa Francisco dá um passo a mais em direção ao tema da fraternidade universal e amizade social. Para isso instiga o leitor a sair das bolhas fechadas e pensar e gestar um mundo aberto ao outro, para além dos afetos, do sangue, da nação.

Amar-se é fácil, amar a família é naturalmente fácil, amar os que nos amam é fácil, amar os amigos é fácil, amar e ser amigo dos que tem poder, prestígio, são bem cheirosos e com dinheiro, é fácil.

Difícil e desafiante é amar o diferente, o sujo e mal cheiroso. O Papa não quer pouco, ele nos puxa para a transcendência, desafiando para o sublime, o grandioso, para o excelso. Amar os “não naturalmente amáveis”, os pobres, os estrangeiros, os que não nos amam, eis o grandioso e o sublime.

Há algo em nós que resiste ao outro, mas há algo em nós que nos impulsiona ao amor ao outro. Sem o outro, quem somos? Os outros, no seu encontro e relação, definem a identidade pessoal de cada humano. E, sobretudo, na doação ao outro é que cada um se encontra em sua plena humanidade.

Fora do outro não há salvação. Não há um Robinson Crusoé ontológico. Os individualistas e egoístas estão equivocados. Na geografia constatamos que há ilhas, mas na alma e no corpo humano o que há é relações. Fora das relações não há salvação.

Essa parece ser a síntese desse capítulo da Fratelli Tutti, que o Papa desdobra em seis pontos:

1.Hospitalidade e amor para além da “bolha”. A questão aqui não é teórica ou especulativa. Não há ser humano que não possa testar e atestar em favor da experiência existencial de que “a partir da intimidade de cada coração, o amor cria vínculos e amplia a existência” (FT 88), arrancando a pessoa de si mesmo e projetando-a para o outro. O amor nos puxa para fora da “caverna do eu” e nos conduz para a luz, a beleza, a graça, o dom, a revelação que vem do outro.

O outro não é “um inferno”, como dizia Sartre. Até pode ser, mas não em essência e sempre. Naturalmente, somos o paraíso um do outro. Não é assim com a mãe e o pai? Não é assim com os irmãos de sangue? Não é assim com os amigos? Há coisa melhor do que estar junto aos amigos e familiares e aos que se ama? Contudo, esse círculo ainda é restrito.

A novidade vem do além, da hospitalidade inclusive com o estranho. “Não posso reduzir a minha vida à relação com um pequeno grupo, nem mesmo com minha própria família, porque é impossível compreender a mim mesmo sem uma teia mais ampla de relações” (FT 89). Alguém pode objetar e dizer que o que importa são relações intensas e com poucas pessoas, porém, diz o Papa, as relações intensas de vínculo de casal ou de amigos, podem esconder um egoísmo disfarçado de amor. O amor e as amizades autênticas habitam “corações que se deixam completar”. E o Papa diz mais: “Os grupos fechados e os casais autorreferenciais, que se constituem com um “nós” contrapostos ao mundo inteiro, habitualmente são formas idealizadas, de egoísmo e mera autoproteção”(FT 89).

O Papa, nesse aspecto, é radical, isto é, vai à raiz. Ele diz que as virtudes éticas tais como a fortaleza, temperança, sobriedade, laboriosidade etc, só são tais se forem completadas com a caridade, sem a qual, recordando Santo Tomás de Aquino, o Papa diz que “a temperança de uma pessoa avarenta nem sequer é virtuosa” (FT 91). Em outras palavras, sem a caridade, as outras virtudes não cumprem autenticamente os propósitos de Deus.

Há pessoas que pensam que a sua grandeza está na força de domínio sobre o outro. Enganados estão. A grandeza de uma pessoa é medida pelo amor e pelo bem que faz ao outro “considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas e morais. O amor ao outro por ser quem é impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando essa forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível a amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos”(FT 94).

2.A progressiva abertura do amor. Muros, fronteiras e periferias demarcam o “eu e o outro”, o centro e a margem. O medo e a insensibilidade fecham o humano em si mesmo e, no máximo, com os seus. O amor, contudo, rompe diques, muros, ultrapassa fronteiras e periferias ampliando tanto o círculo de fraternidade quanto ampliando o círculo da formação da subjetividade que constitui a identidade pessoal.

Diz o Papa: “Por sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, uma maior capacidade de acolher os outros, em uma aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença. Disse-nos Jesus: ‘Todos vós sois irmãos’”(Mt 23,8) (FT 95). A progressiva abertura do amor ultrapassa os limites geográficos e também existenciais.

O Papa fala da necessidade de acolhida ao estrangeiro, de outra nacionalidade, de outras culturas, contudo, não se esquece dos “outros” que são periferias existenciais, mesmo fazendo parte da mesma cidade e até mesmo sendo vizinho. Há “exilado ocultos” na própria terra. “Cada irmão que sofre abandonado ou ignorado pela minha sociedade, é um forasteiro existencial, embora tenha nascido no mesmo país”(FT 97). O Papa fala dos idosos e dos deficientes como os mais ocultos e esquecidos pela cultura do descartável e que não promove “a pertença e a participação”, tornando muitos cidadãos sem cidadania plena.

O amor progressivo respeita a diversidade, mas aponta para a universalidade concreta em que a base será o que o Papa chama de “amizade social”, começando pelos últimos. Não se trata, portanto, de um universalismo abstrato ou autoritário. Ambos seriam noções inadequadas de um amor universal.

3.Superar um mundo de sócios. Neste item o Papa retoma, num primeiro momento, a parábola do bom samaritano para dizer que os personagens que passaram ao lado do homem ferido no caminho “não se concentraram no chamado interior de fazer-se próximas”, mas estavam preocupadas e concentradas no seu prestígio e função que exerciam na sociedade. “Sentiam-se importantes para a sociedade de então, e o que mais as preocupava era o papel que deviam desempenhar” (FT 101). Para o papel que exerciam na sociedade, o homem ferido no caminho era um “incômodo”, uma “interrupção” do seu papel, justamente para com alguém que não exercia papel algum dentro da sociedade.

O caído era um “zé ninguém”. É de se notar que justamente um samaritano, um estrangeiro, fora de qualquer categoria social de destaque, um estranho, livre das etiquetas sociais e livre das possíveis “imagem” a preservar, justamente ele se faz próximo do “zé ninguém”. Foi uma relação de “ninguém para ninguém”. Que crítica profunda aos “bem incluídos das rodas sociais e das igrejas”, Jesus não estava fazendo ao contar essa parábola?

Parece que Jesus estava querendo dizer que para a vida em sociedade mais vale ser próximo do que ser sócio. Sócio compartilha papéis e funções e se interessa com os “iguais”, mas não “perde tempo” para com os “outros’, sobretudo os que nada tem a oferecer em troca. Assim não se constrói sociedade.

Só se constrói sociedade na base da fraternidade como horizonte e medida da liberdade e da igualdade. A liberdade e a equidade são duas irmãs da fraternidade, contudo, da liberdade e da igualdade não surge, necessariamente, a fraternidade. Sem fraternidade a liberdade se reduz à autonomia para “pertencer a alguém” ou na capacidade de escolha de objetos de consumo, o que convenhamos, é pouco.

Sem educação para a fraternidade, a igualdade se fecha no “círculo” dos sócios. O bem comum e a sociedade que supere o individualismo que corrói as relações, só se alcança tendo como base a amizade social e a fraternidade em que o outro é visto com uma dignidade, a tal ponto, que a sua vida valha a minha.

4.Amor universal que promove as pessoas. Só há um caminho seguro para caminhar rumo à amizade social e a fraternidade universal. Esse caminho é pavimentado pelo princípio da dignidade humana, única, universal e intransferível.

Nesse aspecto, Papa Francisco faz eco à ideia Kantiana que diz que “as coisas têm preço, os humanos têm dignidade”.

De fato, assim é, pelo menos para Kant. (Kant não postulava direitos dos animais e não lhe passava pela cabeça que, talvez, esses também têm dignidade). Se os humanos tivessem preço, poderiam ser trocados no mercado de valores relativos. As coisas têm preço, os humanos, todos eles, têm dignidade. Isso significa que a escravidão não tem legitimidade moral. Isso significa também que não se pode avaliar uma pessoa pelo que tem, produz ou pela sua utilidade. “Quando não se salvaguarda esse princípio elementar, não há futuro para a fraternidade universal nem para a sobrevivência da humanidade” (FT 107).

O problema está no fato de que há sociedades que acolhem apenas parcialmente esse princípio. Os defensores da meritocracia e do mercado auto regulador, por exemplo, são desse grupo. Estes defendem que as possibilidades existem para todos e que “tudo depende de cada um”.

Segundo essa perspectiva parcial, não faz sentido apostar nos fracos, lentos e menos dotados. Investir em pessoas frágeis e vulneráveis seria, segundo essa concepção, uma injustiça para os que empreendem por conta própria e vencem na vida.

Papa Francisco desmonta a tese da meritocracia e do mercado total de uma forma serena, sutil e definitiva. Diz o Papa: “Alguns nascem em famílias com boas condições econômicas, recebem boa educação, crescem bem alimentados, ou possuem por natureza notáveis capacidades. Seguramente não precisarão de um estado ativo e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra com uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades.

Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficácia, não haverá lugar para tais pessoas e a fraternidade não passará de uma mera palavra romântica” (FT 109). Como dizer mais e melhor? Enquanto o sistema econômico produzir exclusões e vítimas, as palavras como “democracia”, “liberdade” e “fraternidade” esvaziam-se de sentido e longe estará a festa da fraternidade universal.

5.Promover o bem moral. A superação de uma sociedade que proclama o “eu” acima dos “nós” e que tende a se expressar na cultura do egoísmo que funda o capitalismo excludente, tem na defesa da dignidade humana um pilar seguro.

O outro pilar é a educação para os valores morais e bens espirituais mais altos. A família e a escola são os lugares preferenciais para a educação para o bem.

A crise civilizacional se dá, em boa medida, por alimentarmos desejos infinitos de bens materiais e deixarmos em segundo plano os bens de ordem moral e espiritual. Papa Francisco tem clara noção do que está posto quando fala de valores morais e dá um destaque todo especial ao valor da solidariedade que, ao lado da honestidade, bondade e a fé, são um fundamento seguro para a amizade social e a construção da fraternidade universal. “A solidariedade manifesta-se concretamente no serviço, que pode assumir formas muito variadas de cuidar dos outros…

Os menos favorecidos, em geral, praticam aquela solidariedade tão especial que existe os que sofrem…Solidariedade é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos.

É pensar e agir em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, a desigualdade, a falta de trabalho, a terra e a casa, a negação dos direitos sociais e laborais” (FT 115-116).

Só com espírito de solidariedade realizaremos o bem comum que implica em renúncia do interesse próprio em nome de um bem maior e mais excelso. É o caso de alguém que tendo água em abundância, é capaz de poupar em favor da preservação da casa comum e dos interesses da humanidade. Só uma consciência moral elevada que possibilita transcender a si mesmo, como é o caso da solidariedade, será capaz de um ato tão nobre.

6.Função social da propriedade. “O mundo existe para todos, porque todos nós, seres humanos, nascemos nessa terra com a mesma dignidade” (FT 118) diz o Papa Francisco ao se referir ao direito que os humanos têm a uma vida integralmente desenvolvida. Recorda, para tanto, a longa tradição da igreja que defende, intransigentemente, o direito dos pobres e a necessária função social da propriedade.

Papa Francisco recorda São João Crisóstomo, que diz que se alguém não tem o necessário para viver com dignidade é porque outros se apropriaram indevidamente. Nas palavras de Crisóstomo citados pelo Papa Francisco: “‘não fazer os pobres participar dos próprios bens é roubar e tirar-lhe a vida; não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos’”(FT 119).

São Gregório Magno não é menos incisivo. Diz Gregório: “quando damos aos indigentes o que lhes é necessário, não oferecemos o que é nosso; limitando-nos a restituir o que lhe pertence”. (FT 119).

Mais direto e definitivo, impossível. Contudo, o Papa Francisco vai além e repete o que já tinha dito na Laudato si’, a saber: “a tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à propriedade privada e salientou a função social de qualquer forma de propriedade privada” (FT 120).

Papa Francisco encerra a reflexão sobre a função social propriedade, elogiando os empresários que fomentam o desenvolvimento, contudo, chamando-os à responsabilidade para que o desenvolvimento esteja a favor da vida e não para a acumulação do capital. E conclui com a sua tradicional defesa dos direitos humanos para além das fronteiras dizendo: “Se toda pessoa possui uma dignidade inalienável, se todo ser humano é meu irmão ou minha irmã e se, na realidade, o mundo pertence a todos, não importa se nasceu aqui ou vive fora dos limites do seu próprio país. Também minha nação é responsável por se desenvolvimento” (FT 125).

Em conclusão, pensar e gerar um mundo aberto parece ser algo utópico e distante no horizonte da vivência societária, mas não é impossível, desde que as bases da amizade e da fraternidade sejam assentadas na defesa da dignidade e na promoção dos valores morais e espirituais mais nobres. E aqui valem as palavras do Papa Francisco: “Trata-se, sem dúvida, de outra lógica. Se não se fizer esforço para entrar nessa lógica, as minhas palavras parecerão um devaneio” (FT 127).

Somos todos irmãos ou a fraternidade e a amizade social não passam de um devaneio? Dizer que não somos todos irmãos e que somos, antes, inimigos uns dos outros e que deveríamos acentuar e acirrar a inimizade, implodiria a vida societária e só um irresponsável poderia assim pensar. E o Papa não é um irresponsável. Mas também não é um idealista a tal ponto de pensar que já vivemos integralmente a fraternidade. Não. A fraternidade é um ideário e para concretizá-la é indispensável enfrentar alguns desafios. Leia mais!

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

É a luta por uma educação voltada à vida!

Imaginem se as aulas não tivessem sido suspensas, quantas mais seriam as vítimas no RS?

É duro decidir, ainda mais quando envolve tantas pessoas e um contexto complexo e de polarizações acirradas. Poucos se posicionam e decidem. Faltam lideranças e, principalmente, governos responsáveis, mesmo quando tratamos de preservação da vida. Sobram hipócritas! Mas quem fica em cima do muro está sendo injusto com o lado certo ou com o que precisa ser feito.

No caso de decidir pela vida – com tantas dores, renúncias e perdas no caminho, ainda mais em uma situação de calamidade e de ausência de governantes dialógicos, é duríssimo, mas o que há de mais democrático é a luta pela vida!

Muito embora não agrade a todos a decisão de suspensão das aulas em bandeira preta no RS, existe uma minoria barulhenta constituída de egoísmos, ignorância e defensora do estado mínimo. Nos falta escutar as vozes de quem pega ônibus lotado todo dia, das mães das periferias para compreender melhor o cenário.

O mais difícil é que em um contexto de fome, de crescimento exponencial da miséria e das desigualdades sociais, precisamos ainda lutar contra um mentiroso, acéfalo e genocida no poder central, rodeado de cínicos, autoritários e oportunistas.

Essa é a base do negacionismo, uma tecnologia de “governo da morte”, que serve para manter as estruturas desiguais, os privilégios e para matar aceleradamente como política contra aqueles que sempre estiveram na mira e viram os seus morrerem – seja pela violência cotidiana, seja pela violência institucional em razão da insegurança de outros direitos, sobretudo o de existir.

Toda solidariedade e escuta aos que sofrem e estão em luto e luta neste momento que é o pior da pandemia.

Mas há uma distopia muito grande no ar. Tem até Prefeito (Curitiba) proibindo a entrega voluntária de comida aos moradores de rua e uma infecunda discussão na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, com dinheiro público, sobre o “kit covid” – sabidamente ineficaz e que já provou, inclusive, que agrava os quadros de COVID em pacientes que chegam nas UTIs, além de causar outras doenças graves e a necessidade de transplante.

O prefeito Rafael Greca (DEM) encaminhou à Câmara Municipal de Curitiba (CMC) um projeto que prevê multa para quem distribuir comida aos sem-teto sem autorização da prefeitura. Atualmente, são quase 3 mil sem-teto em Curitiba, segundo a prefeitura. Pela proposta, quem “distribuir alimentos em desacordo com os horários, datas e locais autorizados pelo Município de Curitiba”, poderá ser multado de R$ 150 a R$ 550, após advertência. Veja mais!

As evidências estão aí. Caos! Março de 2021 bateu recorde de sepultamentos em Porto Alegre, 2000 enterros/cremações, o Estado do Rio Grande do Sul está sem vagas em UTI’s, profissionais da saúde precisaram escolher quem atender primeiro nas UTIs. Imaginem se as aulas não tivessem sido suspensas, quantas mais seriam as vítimas?  

Quem tem lucidez e dignidade e votou no atual Presidente ou no seu discípulo local prefeito Melo deve estar com algum sentimento bem desconfortável. Mas a vida deve ser sempre para frente! Está mais do que na hora dessas pessoas pedirem desculpas e reverem seus posicionamentos.

Precisamos da união de todos em favor da vida e da ciência. Chega de negar os fatos!

59% da população brasileira reprova o atual Presidente. Será que é pouco? Se cada um fizer a sua parte, que começa com consciência e empatia, logo podemos sair destas trevas. Onde estão as vacinas?

Precisamos acelerar a vacinação urgentemente! Até lá seguir o clamor da voz das ruas que gritaria, se pudesse, #ForaBolsonaroGenocida e fora tudo que ele representa, como vimos nas carreatas pela vida e pela vacina no início do ano, gerando, uma repressão desnecessária através de multas, sobretudo por “buzina em carreata”. Em Porto Alegre, um grupo de mais de 10 pessoas ingressou na justiça com “ação anulatória de multas cumulada com danos morais”. 

Bolsonaro boicotou a compra das vacinas e desestimulou a vacinação, duvidou da eficácia da máscara, aglomerou sem máscara, inclusive, boicotou o distanciamento social e insistiu na falta de auxílio emergencial para garantir isolamento social e o controle da pandemia, trazendo discursivamente uma falsa dualidade: morrer de fome ou morrer do vírus.

“Entregue a sua vida pela economia”, esse foi o lema, declamado pelo Prefeito de Porto Alegre Melo. Nossa cidade virou notícia no mundo, no New York Times, e não foi pelas nossas virtudes: viramos o epicentro do mundo da COVID com um sistema de saúde colapsado, no país que tem mesmo número de mortes pela doença que os 10 países depois do Brasil com mais número de vítimas letais.

Já são mais de 325 mil vidas perdidas porque preferem manter essa falsa dicotomia entre vida x economia x escola e o “salve-se quem puder”.

As experiências de enfrentamento ao coronavírus mais bem sucedidas no planeta colocaram a vida em primeiro lugar e já estão colhendo os frutos da retomada da economia. Todavia, como uma tática para desagregar ainda mais a população, resolveram abrir escolas no pior momento, forçaram as pessoas ao trabalho presencial, mesmo sabendo que logo teriam que fechar e que seriam necessárias medidas mais restritivas, por força das mortes, do colapso da saúde ou de decisão justiça.

Tudo colapsou, mesmo com as aulas suspensas, embora ontem o centro de Porto Alegre estivesse com uma cena lamentável de aglomeração intensa, filas e muitas pessoas sem máscara. A cena da mãe com bebê no colo e com máscara no queixo choca.  Imaginem com escolas abertas neste momento…

No RS, foram 20.063 mil vidas perdidas pela COVID-19, muitas pessoas próximas de quase todos nós, sobretudo em Porto Alegre, e só em março temos 36% dos casos todos, considerando desde o início da pandemia, há 1 ano.

Esse cenário estava claro em fevereiro, os especialistas avisaram, tanto que o Governador Leite suspendeu a cogestão e avançou para a bandeira mais crítica do Modelo de Distanciamento Controlado no Estado.

Infelizmente, fica cada dia mais demonstrável a importância da decretação da bandeira preta no RS, são constantes os aumentos expressivos de contágio e de mortalidade pela COVID-19, batendo recordes diários. Março fechou pior do que iniciou, UTIs ainda mais superlotadas e com centenas em filas de espera, falta de medicamentos, inclusive para intubação e descontrole da pandemia em relação à saúde, proteção social e controle da disseminação do vírus e da fome.

Não é só o arbítrio das pessoas que faz com que muitas não usem máscara ou façam festas. Foi a decisão política de cogestão e corresponsabilidade dos governantes a abertura de comércio, bares e restaurantes, a lotação de ônibus de trabalhadores das periferias da Capital e RMPA porque não foi disponibilizado mais frota ou outros modais para mobilidade urbana.

A quinta-feira Santa, véspera de feriado de Páscoa, tem grande movimentação de pedestres no centro de Porto Alegre. Apesar das restrições impostas pelas autoridades em função da pandemia de coronavírus, a maioria das ruas de comércios na Capital estava cheia. Entre os itens mais procurados, pescados e chocolates. Veja mais.

As escolas fechadas em regime de plantão com altas taxas de contaminação porque não houve protocolos suficientes e principalmente por imperar a negação da importância das medidas restritivas que levaram à suspensão das aulas presenciais no RS.

Por falta de “culhão” político, restou à justiça gaúcha e ao STF que decidissem pela suspensão das aulas presenciais durante a bandeira preta no RS a partir de Ação Civil Pública que envolveu a Associação Mães e Pais pela Democracia, CPERS e SINPRO/RS, com apoio público da Sociedade Brasileira de Pediatria. Decisão dura sim, mas necessária! Vidas estão sendo salvas. Logo saberemos o impacto.

A presidente Aline Kerber, em entrevista exclusiva ao nosso site, fala das motivações que levaram a AMPD a ingressar com esta ação na Justiça, bem como das repercussões que esta decisão alcançou logo após proferida decisão judicial. Fala também sobre a importância de preservarmos vidas, evitando aglomerações a partir das escolas e dos espaços públicos de convivência. Leia mais.

Aguardamos, por um lado, respostas urgentes do Presidente, Governadores e Prefeitos para a evitar a quebradeira das escolas e para o desemprego em massa na educação privada e, de outro, o plano para uma volta às aulas que considere as escolas públicas, além de privilegiar um trabalho educacional voltado aos enormes déficits emocionais e pedagógicos acumulados e os traumas e lutos gerados, sobretudo aos órfãos da COVID.

Não podemos admitir uma volta às aulas só para alguns e precisamos de um ambiente seguro e uma pandemia controlada para isso acontecer. São 779 crianças com até 12 anos que morreram da doença no país. Um estudo de outubro na revista científica The Lancet Infectious Disease aponta que aumenta em 24% a taxa de propagação do coronavírus com a abertura de escola, analisando 28 dias de voltas às aulas em 131 países.

Já vivemos uma desigualdade imensa, não é viável aumentar essa desigualdade pela educação. A educação deve ser pensada por completo, enquanto temos algumas escolas privadas que são ventiladas e com protocolos rígidos, com poucos alunos e que conseguem abrir com condições sanitárias, há tantas outras sem as condições ideais nas redes pública e privada.

Por exemplo, no Estado são 328 escolas públicas estaduais que nem banheiro tem e ainda só 26% das escolas estaduais com água encanada, segundo dados apresentados pelo DIEESE no ano passado. Isso é um escândalo.

A política do Governador Leite na educação é um fracasso. Ele fecha escolas (mais de 60 foram fechadas, inclusive a Escola Rio Grande do Sul), não oferece estrutura para alunos e professores para as aulas online/remotas e reduz matrículas até na EJA como política de educação mínima e se omite na busca por vacinação dos educadores e trabalhadores da educação e testagem, rastreamento e monitoramento dos casos nas escolas e não consegue encontrar soluções aos problemas estruturais mais simples como o das “janelas emperradas” nas salas de aula, sem falar dos principais problemas como citados acima.

Só sairemos desta juntos! Esse é o principal aprendizado da pandemia, mas precisamos que TODOS realmente queiram encontrar saídas para virarmos este jogo. Os Governantes precisam agir, não podem só ficar no discurso, ou como disse o Governador na campanha, “precisa levantar a bunda da cadeira”!

Vivenciamos a cruel pedagogia do vírus, como disse o Boaventura de Sousa Santos, inclusive que nos ensina, embora nem todos queiram ou consigam aprender, e ainda ataquem quem luta em defesa da vida e da vacina, que nada substitui a escola na nossa sociedade para a garantia dos direitos, inclusive para alargarmos a concepção da educação que deve estar voltada à vida, à diversidade e ao pensamento crítico e plural.

Por uma educação libertadora e por isso a luta agora é pela vida, pela redução de danos e pela sobrevivência!

Estou recebendo dezenas de mensagens de pessoas, do Brasil todo, revoltadas com a postura dos professores e, consequentemente criticando minha defesa a essa classe. Dizem que os professores estão dando uma de “deuses do olimpo” se achando melhores do que outras classes profissionais por desejarem receber a vacina prioritariamente.  Então seguem algumas explicações, já que minha função como professor que sou é ensinar. (Marcos Meier). Veja a resposta.

Autora: Aline Kerber

Edição: Alex Rosset

Por uma tecnologia da informação para todos

Todos sabem que há uma carência de programadores no nosso país, mas não é por falta de gente inteligente não, e sim, por falta de valorização da cultura, necessidades comunicacionais e formas de enxergar o mundo daquelas camadas mais pobres.

Sou uma apaixonada pela tecnologia da informação. Adoro as rotinas, procedimentos e funções dos programas que desenvolvo e me tiram o sono devido ao esquecimento de uma vírgula aqui e acolá: coisas de uma programadora desajeitada.

Hoje decidi refletir um pouco sobre a tecnologia da informação e me doeu saber que tantas pessoas estão longe dela, principalmente as chamadas “minorias”, aqueles que são os menos vistos pelas grandes ciências, os que batem às portas das casas fechadas que nunca abrem com medo de encontrarem do outro lado um bandido ou ladrão.

Falo das mulheres pobres, negras, obesas, homossexuais, moradoras de periferias iguais a mim.

A minha luta para entrar no mundo da tecnologia da informação não tem sido nada fácil. É uma batalha atrás da outra para ser reconhecida como uma programadora de computadores. Essa é uma ciência formada pela sua ampla maioria de homens brancos, heteros e de classe média para cima.

Nunca vi em toda a minha vida um programador que se declarasse transsexual. A tecnologia da informação é uma ciência elitizada.

Certa vez, quis trazê-la para a minha comunidade onde moram crianças que correm descalças atrás de caranguejos, mas não encontrei apoio logístico para isso. Como ensinar às crianças a programarem se elas não dispõem de um computador? Se lhes falta comida e brinquedos?

Sim, crianças pobres estão distantes de terem contatos com os bits e bytes da nossa tecnologia. O meu maior desejo é que as linguagens de programação falem o mesmo idioma que o meu, pois isso encurtaria a distância da programação a respeito da população mais pobre.

Vivemos num país de desigualdades de todos os tipos e a que mais mexe comigo é a tecnológica.

Chegará um tempo em que tudo será feito por máquinas. Como as pessoas mais pobres poderão fazer uso dessas máquinas se não sabem como funcionam por dentro? Para muitos, não importa que o usuário comum saiba quais comandos são dados para que aquela máquina funcione, mas apenas que ela dê as respostas solicitadas.

As populações vulneráveis são sempre as que mais sofrem desigualdades neste nosso país de ricos e brancos. Temos tão poucos negros nos cursos de ciências da computação, tão poucos índios, tão poucos ciganos.

Luto pela inclusão da tecnologia da informação nas escolas públicas. Não falo aqui de montar uma sala com cinco ou dez computadores ligados a internet e chamá-la de sala de informática. Não! Isso não é fazer ciência!

Fazer ciência na sala de aula é primeiro nunca faltar a merenda escolar e segundo ensinar às crianças e jovens a programar numa linguagem materna.

Os brancos são tão eficientes no quesito criatividade e ainda não inventaram uma linguagem de programação que converse de igual para igual com uma criança. Por que será? O adultocentrismo se abraça com o classismo e o racismo.

Direitos iguais para todas as crianças, independente da cor da pele. Crianças negras também precisam estudar. Crianças negras também acordam com o nascer do som. Leia mais!

Tenho receio dessa exclusão dos homossexuais do mundo da tecnologia. Claro que há muitos dentro do armário porque se mostrarem a sua orientação sexual poderão sofrer preconceitos dos mais diversos, as empresas do futuro não estão preparadas para lidar com essa gente linda que ama em desassossegos. Conheço alguns amigos que são bons programadores e homossexuais, mas mantém um cuidado exagerado para não terem as suas vidas íntimas expostas aos seus colegas de trabalho.

Continuarei lutando para que a tecnologia da informação possa entrar em cada escola dos mais longínquos locais do Brasil não apenas para que as crianças façam cópias do que encontram navegando pela internet, mas para que elas possam usar do pensamento lógico e crítico criando pequenos códigos executáveis e mergulhando nos vales filosóficos da inteligência artificial.

Comecei a programar com dezoito anos de idade. Talvez cedo demais para uma jovem negra e pobre. Na minha pequena escola nunca vi um computador, só tive acesso a um quando conquistei o meu primeiro emprego.

Não quero que isso aconteça com as pessoas próximas a mim que sofrem com as desigualdades sociais, culturais, econômicas e agora tecnológicas. A minha luta precisa do seu apoio, do seu grito, da sua coragem para junto comigo levar a tecnologia da informação às populações vulnerabilizadas.

Pintam a tecnologia da informação como uma senhora de cara feia e de salto alto que a qualquer momento está pronta para dar uma bronca em alguém teimoso, mas ela não é assim.

Ao contrário de tudo isso, dá até para fazer códigos executáveis de poesia ou outras artes: a liberdade pode ser recitada tanto em códigos como em sonetos ao vento. Um poeta português que morreu recentemente, conhecido como Melo e Castro, já conseguiu provar isso. Ele é o criador da Infopoesia. Nós podemos vestir na tecnologia da informação roupas coloridas que possam alegrar os olhos das crianças, adultos e idosos. Quem disse que um idoso não pode aprender a programar?

O problema maior dos nossos programadores é que eles complicam tanto a tecnologia da informação que o aluno iniciante acaba desistindo de aprender. Barreiras invisíveis se somam, excluindo as mentes dos corpos que não importam.

Esses gurus da frustração colocam exercícios que exigem além do conhecimento da programação o conhecimento da matemática. Todos nós sabemos da precariedade do ensino da matemática nas escolas públicas.

As crianças tendem a ter mais facilidade com as letras nos primeiros anos de estudo, raras são aquelas que preferem os números. Qual criança de oito anos de idade vai saber fazer uma rotina para achar um número primo se a ela nunca foi ensinado o que é um número primo?

Todos sabem que há uma carência de programadores no nosso país, mas não é por falta de gente inteligente não, e sim, por falta de valorização da cultura, necessidades comunicacionais e formas de enxergar o mundo daquelas camadas mais pobres, daqueles esquecidos pela sociedade branca e rica que não se preocupa em oferecer um ensino de qualidade, diverso e múltiplo em códigos de comunicação democrática.

Querem que sejamos depósitos de conhecimentos porque têm medo de que aprendamos a pensar criticamente e logicamente. Esta é a verdade.

Quando um talentoso homossexual negro vai para televisão à procura dos seus direitos, ele assusta à sociedade branca e elitizada, porque jamais se poderia esperar que tal pessoa tivesse um conhecimento diferenciado das demais pessoas ao seu redor.

Continuarei lutando para que a tecnologia da informação chegue às populações mais vulneráveis. Que possamos todos aprender a programar as nossas máquinas para que elas trabalhem conforme as nossas necessidades, entornos culturais e subjetividades. Afinal, um aparelho pessoal deve ter uma alma irmã, compatível com a do seu detentor. Um bit à entrada da periferia vendendo picolé por 1,00. E quem sabe o menino descalço que corre atrás de um caranguejo à tarde inteira possa sentar-se diante de uma tela de computador e escrever um algoritmo que ajude a sua mamãe a preparar a receita do seu bolo preferido.

Eu e mais duas amigas estamos escrevendo um livro que trata mais profundamente do tema deste artigo. Gostaria de saber se você teria interesse de ler um livro assim? A sua opinião, leitor, é muito importante para que continuemos o nosso projeto.

Leia também sobre a minha ideia sobre Inteligência Emocional: (Crianças com inteligência emocional tendem a absorver o ensino-aprendizagem de forma mais rápida e eficiente. Elas não têm medo de errarem por que sabem que todos erramos, logo não ficam tão ansiosas diante das avaliações).

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Em defesa dos professores

Sou a favor de um país que se desenvolve investindo de verdade na Educação. E contra qualquer postura que afete negativamente essa maravilhosa classe: os professores.

Estou recebendo dezenas de mensagens de pessoas, do Brasil todo, revoltadas com a postura dos professores e, consequentemente criticando minha defesa a essa classe. Dizem que os professores estão dando uma de “deuses do olimpo” se achando melhores do que outras classes profissionais por desejarem receber a vacina prioritariamente.

Então seguem algumas explicações, já que minha função como professor que sou é ensinar:

1 – Não queremos ser vacinados antes que ninguém, pois justamente por termos estudado, sabemos ser humildes e reconhecer o valor de todos. O que estamos dizendo é que não queremos ser obrigados a voltar a dar aulas presencialmente sem a vacina.

Podemos esperar sim, basta que o poder público nos vacine antes de nos obrigar a voltar. Querem que as aulas recomecem? Vacinem os professores antes!

2 – Dizer que “os professores são pagos com os nossos impostos” é de uma injustiça ainda maior. Os políticos incompetentes (não são todos, graças a Deus) não agilizaram a vacinação, não conseguiram investir no lugar certo, e agora obrigam os professores a pagar pela falta de planejamento deles. E também os políticos são pagos com os nossos impostos.

Ah, só lembrando, do salário do professor é retirado uma porcentagem (com o nome de impostos) que vai para a Educação, ou seja, os professores também pagam para que seus filhos e os nossos estudem em escolas públicas.

3 – Se um professor for contaminado, ele (como as pesquisas já mostraram) contamina praticamente todos os alunos antes de perceber os sintomas. As crianças contaminam os pais e os avós e um surto aumenta quase imediatamente. Vários países voltaram a cancelar as aulas apenas algumas semanas depois do retorno presencial. Aprendemos com a história? Creio que não.

4 – Acreditar que as crianças vão obedecer aos protocolos de segurança (máscaras trocadas a cada duas horas, álcool em gel sendo utilizado sempre que outra criança tocar em seus pertences, manter a distância interpessoal e lavar com frequência as mãos) é de uma ingenuidade impressionante. Convido essas pessoas a ver como funciona uma escola para que vejam de perto como é. Nem sabão a maioria tem. Bem, não é uma boa ideia, pois essas pessoas podem estar contaminadas.

5 – Sei que as crianças em casa são outro problema, talvez muito grave, mas por que colocá-las numa situação de perigo ainda maior? Se a promessa é de que logo todos estejam vacinados, porque não permanecemos nas aulas virtuais apenas mais um tempo? Está difícil, cansativo, improdutivo em alguns casos, mas é uma solução menos perigosa.

6 – Valorizamos todas as classes profissionais e certamente contribuímos para a formação desses profissionais, mas um empregado numa empresa, isolado numa mesa tomando todas as precauções e com colegas que fazem o mesmo é MUITO diferente de obrigar um professor a dar aulas para crianças que simplesmente não vão obedecer tais regras. A maioria porque são crianças vivas, alegres, animadas e de bem com a vida, mas muitas porque simplesmente não obedecem nem aos pais, imagine obedecer a normas de saúde como essas.

7 – Cuidado para não colocar a sociedade contra os professores. Dar aulas online é chato, amamos dar aulas presenciais. Mas amamos nossa vida e a vida de nossos familiares. Não nos recusamos a educar, muito menos nos consideramos superiores, mas queremos que sejam justos com a gente. E, por incompetência do nosso país que não investiu adequadamente em pesquisa não temos a vacina a tempo (apesar disso parabéns aos pesquisadores brasileiros que estão à frente da maioria dos países) e também por incompetência não compramos as vacinas a tempo. E tendo a vacina estamos vacinando 24 horas por dia para acelerar a vacinação? Duvido que seja realidade.

8 – Dizer que os professores não querem trabalhar é não ter acompanhado nenhuma das aulas dos próprios filhos, pois se tivessem acompanhado teriam visto o enorme esforço dos professores em criar materiais novos, adaptar metodologias e ser criativo em todo o resto. E se a pessoa não tem filhos, poderia ter perguntado antes para então criticar.

9 – E dizer que eu defendo os professores não é crítica, pois eu defendo sim. Amo a classe e sempre defenderei cada professor desse país. Quer saber o valor de um deles?

Quando estivermos vacinados vá assistir uma aula presencial numa escola (a maioria) sem papel higiênico, sem sabão para lavar as mãos, sem materiais adequados e sem manutenção. MUITAS escolas são assaltadas com frequência e seus professores são ameaçados caso chamem a polícia.

Vá lá. Passe uns dias conversando com professores e com alunos. Veja a realidade. E não são só escolas do Rio de Janeiro (como são mais divulgadas pela mídia), mas da quase totalidade das capitais e de uma boa parte das escolas das outras cidades. E se por sorte você visitar uma que tem pelo menos um cafezinho na sala dos professores, pergunte de onde veio o pó. Com certeza de uma vaquinha entre os mestres.

10 – E por último, vamos confrontar NÃO OS PROFESSORES que estão desde o início ao lado da população, mas os responsáveis por nosso país estar assim. E pelo amor de Deus, não estou falando que o problema é só da atual gestão federal, pois há centenas de anos nosso país não tem um plano nacional de valorização da educação (onde os professores fariam parte).

Ou seja, o problema continua sendo de cidadãos que preferem atacar-se uns aos outros que criticar quem realmente merece ser criticado.

Esquerda contra direita deveria ser apenas no campo das ideias, mas pessoas morrem porque a defesa de um ou outro medicamento toma viés político. Meu Deus! Deixem os médicos decidir.

E a ordem de prioridade para a vacinação?

NUNCA deveria ter sido objeto de decisão política, mas de um plano bem fundamentado por uma equipe multidisciplinar da Defesa Civil, dos ministérios de Saúde e de Planejamento, dos especialistas em pandemias, endemias e epidemias e principalmente de profissionais experientes que realmente poderiam ter trazido informações científicas relevantes para a produção de um plano excelente. Essa equipe apresentaria o plano para o governo federal e aí sim teríamos sua execução. Mas, da forma como foi feito, prefeitos e governadores ficam de mãos amarradas por não terem autonomia, mesmo tendo mais competência que muitos “federais”.

E por último, atenção: vou excluir, nem vou comentar, comentários a favor ou contra qualquer partido político. Não sou contra nem a favor a nenhum deles.

Sou a favor de um país que se desenvolve investindo de verdade na Educação. E contra qualquer postura que afete negativamente essa maravilhosa classe: os professores.

Autor: Marcos Meier

Edição: Alex Rosset

Renascer das cinzas

A tristeza tem cheiro de cinza, mas é possível reiniciar um novo momento de vida. Recomeçar o fogo que há dentro do nosso coração e reavivar a alma com o impulso de pessoas que amamos, convivemos e nos querem bem.

A combustão da queima da madeira, usada para muitos fins que se resulta a energia, para aquecer, para gerar movimento, para obter o calor, para cozinhar. Sem esse processo, não há produto.

Nesse processo de produção energética o principal fator é o fogo. É ele que permite a realização do processo. Disso tudo, sobra a cinza. A cinza não é fogo. Ela é passado. A cinza não dá energia, não aquece, não ilumina, tampouco move.

O fogo é movido pelo oxigênio que permite a combustão, já a cinza é um concentrado de gás carbônico, produto morto. Nela não há vida, a morte supera a vida.

Metaforizando o dito, percebemos que, quando encontramos cinza em nossas vidas, ela atrapalha, pois atinge o psicológico. O ser humano começa a morrer.

A pandemia levou muita gente às cinzas. Por quê? Porque a pressão psicológica, o medo de se contaminar, o encarceramento humano, a privação da sociabilidade, a limitação do trabalho foram apagando o fogo que existe em nós e necessita diariamente ser alimentado.

Eu mesmo passei por uma situação cinzenta que, em meus anos de vida, nunca tinha experimentado. Sempre fui muito resolvido naquilo que sonhava, acreditava e persisti até conseguir. Porém, experimentar o gosto da cinza me deixou pensativo em várias questões, nunca antes pensadas. O que fiz de minha vida? As escolhas que fiz foram as melhores? Não tive filhos. Quem irá me cuidar? Quem sou eu? Muitas pessoas próximas me diziam: – Mas você é muito querido e admirado por todos. Mas o que isso me importa?

A cinza não é o que aquece. A cinza é apenas o que sobra do fogo. Não serve pra nada. Tem gosto de morte. A vida fica com um tom cinzento. Nada motiva.

A frase de Camões perde o sentido: “amor é fogo que arde sem se ver”. Não existe amor, muito menos, motivo e alegria. Não nos reconhecemos mais.

É preciso ressurgir das cinzas. O que nos faz ressurgir? Na verdade não existe renascer, ressurgir das cinzas. Cinzas são cinzas, amontoado de carbono. Resíduo de vida. Delas não saem mais nada. Precisamos iniciar novamente o fogo. Colocar lenha, encontrar motivo no oxigênio a respirar.

No meu caso, as pessoas próximas ofereceram combustão e eu, como apaixonado que sou pelo trabalho de mestre educativo, aos poucos fui ressurgindo nesse início de ano letivo, mesmo remoto, a partir de indícios da convivência com os alunos, com os jovens nos permitem iniciar um novo fogo, novas motivações.

Nesta semana, trabalhando com linguagem, muitos alunos me deram motivos para considerar que a vida pode ser bela, sempre, e que são as pessoas que nos ajudam no recomeçar.

Em especial, gostaria de compartilhar com vocês uma reflexão de um aluno, com ênfase na figuração linguística. Ele me alegrou. Uma bela reflexão sobre tristeza, porque a cinza pode ser associada a tristeza em nossa vida, no momento em que ela permeia a maior parte dos dias.

João Lucas Asman de Carvalho, trouxe uma reflexão de um poeta. E ele ainda estava preocupado se o poema estava a altura do solicitado. “Olá professor. Ao invés de usar a temática do amor, usei a temática da tristeza. Tentei usar a maior quantidade possível de figuras de linguagem. Professor, o senhor pode de algum jeito confirmar a veracidade do meu poema? Eu queria que o senhor tivesse certeza de que eu o escrevi”.

 Tristeza
  
 Tristeza é algo passageiro?
 Sim, mas pode não ser.
 Ela pode ser como uma doença
 que nos consome, sem que possamos perceber.
 Seria possível morrer de chorar?
 Talvez algo assim possa existir
 Por que as pessoas não morreriam de tristeza
 Se as pessoas podem “morrer de rir”?
 A tristeza nos faz descer ainda mais para baixo?
 Possivelmente, mas isso é uma incógnita
 Mas chega de fazer perguntas
 Pois sobre a tristeza também tenho respostas.
 Por tristeza eu mataria
 Apenas para preencher um vazio
 Por tristeza eu levaria a você
 O mais gélido frio.
 Assim como a escuridão
 A tristeza me deixa cego
 e nesse momento me pergunto:
 Como farei o certo se tudo parece incerto?
 Em meio a tantos questionamentos
 Tristeza e alegria andam lado a lado
 Uma hora me levanto em alegria
 Na outra me abaixo desolado.
 Talvez seja inútil tentar compreender
 Esses sentimentos, a felicidade e a dor
 Mas penso, sou humano
 e contra isso não posso me opor.
 O que é a tristeza?
 é melhor apenas sentir
 Chorar quando quiser chorar
 e rir quando quiser rir.
 Pois, ser humano é isso, não é?
 rir, chorar, morrer
 no fim é bem simples
 A nós, cabe apenas viver. 

Podemos perceber que a tristeza tem cheiro de cinza, mas é possível reiniciar um novo momento de vida. Recomeçar o fogo que há dentro do nosso coração e reavivar a alma com o impulso de pessoas que amamos, convivemos e nos querem bem. Renascer das cinzas não é possível, mas é possível iniciar um novo fogo, um novo motivo, um novo momento de vida.

Leia também um das reflexões mais acessadas em minha coluna no site: “Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão…” Quando vi médicos que tem a profissão neste mundo para cuidar da saúde dos outros seres humanos. Perguntava-me: Como estão com o cigarro na mão? Que ensinamento pelo exemplo pode dar? Porque não venham me dizer que o exemplo não educa, educa sim. Mais do que as palavras”.

Autor: Laércio Fernandes dos Santos

Edição:Alex Rosset

Inflação para as famílias mais pobres é o dobro daquela enfrentada pelas famílias de maior renda

Informe do Dieese com base em dados divulgados pelo Instituto de
Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que a taxa de inflação
enfrentada pelas famílias mais pobres (6,75%) no Brasil é o dobro em
relação às de maior renda (3,43%). Confira a íntegra da análise.

A diferença se deve à pesada alta nos preços dos alimentos, que impactam mais no orçamento de famílias de menor renda, e à baixa no preço dos serviços, mais consumidos pelas faixas de maior poder aquisitivo.

As famílias mais pobres gastam cerca de 25% do seu orçamento com alimentos, enquanto os mais ricos gastam menos de 10%.

O indicador divulgado pelo Ipea divide as famílias brasileiras em seis
faixas de renda e avalia como a inflação afeta, mês a mês, cada um
desses grupos. Na tabela abaixo a variação dos últimos doze meses fica
evidente.

Setores de renda baixa e de renda média-baixa, onde se enquadra a maior parte dos educadores(as) da rende estadual, também sofrem com taxas de 1,6 a 1,8x maiores do que os setores de renda alta.

Os trabalhadores(as) da educação estão há mais de SEIS ANOS sem qualquer reposição. Somente as perdas inflacionárias já corroeram 40% do poder de compra da categoria.

Os professores(as) e funcionários(as) de escola estão entre os servidores(as) mais mal pagos do Rio Grande do Sul e sentem na pele a combinação de arrocho e alta de preços.

Queremos respeito e salário digno!

ReposiçãoJá!

Esta publicação foi originalmente publicada no site do CPERS.

Autor: CPERS

O conhecimento transdisciplinar e os sentidos da educação

A educação se efetivará, como uma prática com sentido, se considerar e partir dos conteúdos advindos das possibilidades evidenciadas na vida concreta.

Costumamos reproduzir alguns pensamentos como se eles estivessem claros e corretos. No entanto, no momento que exercitamos a reflexão, que é pensar o próprio pensamento, as palavras e os conceitos utilizados demonstram sua obscuridade e sua complexidade.

Quando proferimos ou reproduzimos pensamentos mecanicamente, estamos inconscientemente, reproduzindo conteúdos petrificados de uma cultura específica. Um exemplo ilustrativo, desta reprodução mecânica e irreflexiva, pode ser visualizado no comportamento da educação formal, seja ela de nível básico ou superior.

A opção por enfrentar o debate e a reflexão, com o objetivo de visualizar o sentido da educação, implica explicitar os sujeitos reais da mesma. Ao optar por este comportamento, será possível identificar que os ideais de ser humano e de sociedade podem entrar em contradição e em confronto com os objetivos do mercado.

Ao pensarmos o ser humano, devemos entendê-lo, não apenas como produto, mas também como sujeito construtor da sociedade. Ao explicitar a construção do social e o sentido do mercado, podemos identificar as contradições, disputas e confrontos entre o lucro e os ideais humanos e sociais.

Os permanentes debate sobre a adequada seleção e organização dos conteúdos, para que eles sejam interligados, conectados com o mundo vivido e tenham sentido, passam pela defesa da conexão de áreas do conhecimento e da transdisciplinaridade. No entanto, esta defesa teórica produzida por especialista em educação e formalizada por planos de gestão pedagógica não evolui satisfatoriamente em sua materialização.

As constantes reformas curriculares, agregando ou eliminando disciplinas, não contribuem para efetivar a necessária interligação, conexão e relevância dos conteúdos.

A educação se efetivará, como uma prática com sentido, se considerar e partir dos conteúdos advindos das possibilidades evidenciadas na vida concreta.

Um indicativo metodológico está nas produções de pensadores consolidados, que apesar do  etiquetamento de sociólogo, pedagogo, psicólogo, historiador, físico, químico, economista, desenvolvem conteúdos que partem das pessoas. 

Trata-se de conferir centralidade para os temas basilares, desprestigiados na cultura da educação escolar, que envolvem as relações humanas entre as dimensões físicas, mentais e espirituais.

Ao seguirmos este indicativo, estaremos partindo da vida concreta e de situações problemas, nos distanciando do comportamento orientado pelo reducionismo de uma disciplina,  praticando a transdisciplinaridade e concretizando uma educação com sentido.

Um mundo de especialistas em objetos de estudo cada vez menores. Essa realidade é motivo de reflexão do pensador francês Edgar Morin (1921). Criador de uma teoria do conhecimento que busca se adequar às exigências do mundo contemporâneo, a produção de Morin aponta para a importância de reconectar os saberes, fazendo com que os estudantes sejam capazes de ter acesso aos conhecimentos específicos, mas sem perder de vista o todo. Assista!

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

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