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Entre a pena e a agulha

“O essencial é invisível aos olhos”


Por experiência própria, pena e agulha se afinam e se reconciliam entre si, mesmo tendo funções específicas e singulares. Cada uma tem seus pontos e se fazem ao seu tempo.

Escrever e bordar, são duas tarefas espetaculares, terapêuticas. Cada uma guarda segredos próprios, revelados às mulheres e homens, que souberem desvelar esse segredo. Não se mede, de forma alguma, o trabalho que gratifica e realiza quem o faz, aparentemente oculto ao olhar sem lentes.

Quem não arrisca, não tenta, não exercita dar pontos e juntar letras, dificilmente sentirá gratidão própria deste gesto. Contudo, deveria persegui-lo, procurá-lo, até encontrá-lo. É uma espécie de tesouro, ao alcance de poucas criaturas, cuja busca, não as cansam.  

Vemos que o período de Pandemia tem se prolongado mais do que esperávamos, deixando-nos um tanto ansiosos e preocupados. Por vezes, demais desocupados, ou, ocupados por demais, pelas bolhas do mundo virtual, sujeitos ao esvaziamento. Já sentimos que a Pandemia tem se demorado entre nós, agravando ainda mais os dramas humanos do século XXI.

Ainda que haja várias pesquisas em curso, nada nos assegura, em quanto tempo teremos vacinas, seguras e eficazes, capazes de imunizar a maioria das pessoas. O Vírus alcançou, desta vez, o mundo inteiro, especialmente ceifando vidas e deixando sequelas entre os mais pobres, desprovidos de direitos básicos.

Este mundo, alcançado pela pandemia, está fechado sobre si, cuja luz e caminhos de esperança terão que ser reencontrados. Temos o desafio de refazer, com detalhes, as trilhas para esse reencontro.

O momento ainda é de precaução e pré-ocupação. Esta é a orientação dos pesquisadores/cientistas sérios e éticos: precaução. Evitar aglomerações, lavar as mãos várias vezes ao dia, usar máscaras, e sair de casa somente para o necessário. Medidas básicas como estas, tem nos assegurado menos contaminação, menos mortes, e, por isso menos sofrimentos. Ainda assim, há pessoas descrentes, indiferentes e desligadas do que pode ocorrer com o outro, contaminado por mim, ou eu contaminado por ele.  Precisamos combater a indiferença dos que se importam apenas com si mesmos, sem olhar para aqueles que encontram no caminho. Contudo, neste sentido, não esperemos, na pura espera, bons exemplos do Planalto e nem da Casa Branca.  

Fico muito preocupada com a aparente normalidade, com a reabertura de quase tudo: comércio, casas de festas, igrejas, parques, praças e escolas. As escolas são as que mais nos preocupam, pelo número de pessoas que se envolvem neste retorno e percurso. Há como aceitarmos entre 500, 600 óbitos diuturnamente?

Não quero crer nesta indiferença! A indiferença é o peso morto da história, dizia Gramsci. Não é uma atitude aceitável para nenhum ser humano, frente a qualquer situação de sofrimento do outro. A dor do outro deve nos comover, que significa, nos mover, de alguma forma, na direção deste outro que sofre.

Preocupado com os problemas sociais, ainda mais agravados pela Pandemia no mundo, o Papa nos escreve uma Carta Encíclica, Fratelli Tutti, lançada, a propósito, no 04 de outubro, dia de São Francisco de Assis, Patrono de seu Pontificado. Com o cuidado de quem sabe lidar com a pena, nos exorta ao cuidado da vida, das relações humanas, o jeito de tratarmos a natureza. Como um grande cuidador da alma humana, nos dá o exemplo de um coração aberto ao mundo inteiro, solidário. 

Obviamente que o tempo de pandemia força nossa criatividade. A leitura e a reflexão da Fratelli Tutti nos ajudariam a entender melhor este momento, e como vivermos melhor a vida, daqui para frente, se ainda há tempo para repararmos o que envenenamos e estragamos.

A cada dia temos o desafio de organizar nosso tempo e ocupações, por ordem de prioridade, sem esquecer que somos gente, de carne e osso, e com um coração que sangra todos os dias, nos diz Saramago. Somos seres humanos, embora muitas vezes, nossas atitudes provam o contrário: esquecemos de nossa humanidade. Enlouquecer ninguém quer e não é bom que aceitemos a loucura por algo que vai passar, e passará.

Há quem diga: “de perto ninguém é normal”. Eis a oportunidade extraordinária de ficarmos bem perto de nós mesmos, muitas vezes, somente de nós mesmos. Quem sabe, podemos confirmar e reconhecer nossa própria anormalidade. E assim nos perguntar: como me vejo? Como me trato? Como me escuto? E como ouço a voz de quem não está presente? Se enlouquecermos, teremos duplo trabalho: lutar para voltarmos ao normal da vida, dos pensamentos, dos sentimentos. Quantos desafios o tempo de Pandemia está nos impondo! Tenho pensado que a depender do comportamento de cada um de nós, tudo vai passar, e resultará em um grande aprendizado.

Mas, com o que mesmo ocupamos o nosso tempo, limitados de encontros e abraços? Que experiências, aprendizados recolhemos e partilhamos?

Pois é, eu encontrei um jeito, por ora, bem saudável para conviver e enfrentar o tempo de recolhimento, que demora a passar. Retomei o bordado à mão, iniciado há 4 décadas, deixado um tanto de lado pela labuta do cotidiano. Sem muito pensar, comecei a bordar, a princípio, desinteressadamente. Preparei o tecido, as linhas coloridas, as agulhas, os desenhos e o antigo carbono para passar os desenhos, do papel para o pano.  Bordei um ramalhete, e depois outro. A cada obra, me via admirando o que fazia. Sentia forte alegria e amava o resultado. Olhava, admirava, estranhando o que eu mesma havia feito. Ponto por ponto, bordando o pano, como se plantam flores na terra, combinando umas com as outras. Bordar o tecido e plantar flores guardam relação intima. As flores bordam o chão, e cada estação da natureza, requer qualidades próprias. Ambos precisam de planejamento, combinação, ponto por ponto.

A escrita, aqui batizada de pena, porque em outros tempos, a caneta utilizada para escrever as missivas, única forma de se comunicar à época, era uma pena, banhada na tinta, também têm me ocupado, saudavelmente. Este ano escrevi acima da média dos últimos anos. E por isso posso afirmar, a escrita é uma verdadeira e bem sucedida terapia pedagógica, mais ainda quando se reconcilia com o bordado. As duas atividades combinam, pedagogia e terapia.

Entre a agulha e a pena não há distância. Elas se complementam, sem desconfiança alguma. Há sim, acordos. Quando a pena trabalha, a agulha olha, pensa, se recompõe, descansa. Planeja os próximos pontos, a combinação das cores.

Enquanto a agulha trabalha, é a vez da pena descansar, remoer, matutar, estranhar sua própria escritura. Naturalmente, nenhuma se queixa de estar trabalhando ou estar descansando. Não há sentimento de inveja entre uma e outra. A cada uma, seu tempo. Voluntariamente, sem conflitos, uma dá lugar à outra, sem medo de perder o espaço próprio, seu. O que uma faz, a outra não faz. O que as duas fazem, é encantar-se com os feitos da outra. Contudo, ambas lapidam, falquejando suas próprias, singelas, bonitezas e encantamentos.  Ainda cedo elas compreenderam a lição  nos deixada por Gorki em 1917:  “tão logo comecei a sentir prazer no trabalho – compreendi a decisiva significação cultural do trabalho e entendi que se podia encontrar tanta satisfação em serrar madeira, arar a terra ou amassar pão como em entoar uma canção”.

Sim, a vida neste momento requer ocupação produtiva. Não aquela ocupação do lucro, do capital explorador, que envenena as plantas para produzir mais e ganhar mais. A vida requer ocupação e alimentação, saudável, que inclui o acolhimento de si, do outro, do próprio silêncio. E da valorização do medo da morte e da dor.

O Papa nos orienta à “artesanalidade” da paz, a ser construída, ponto por ponto, um nó depois do outro. Pontos que podem combater as guerras, as discórdias entre povos e nações, a pena de morte, inaceitável e desaprovada em qualquer sociedade e tempo histórico. Com sua sabedoria nos exorta à fraternidade, ao amor fraternal, de abertura a todos. É uma Carta endereçada diretamente a você, a mim, a Tutti Fratelli.

Vejam sua caixa de correio, a Carta deve estar lá, à espera de sua leitura. Vale a pena sentir e experimentar o desejo profundo de Francisco de Assis, vivido com rigor pelo Papa Francisco:  A paz é necessária, porque todos somos irmãos.

Como disse acima, a pena e a agulha caminham de mãos dadas, sem discórdias.

Em outra reflexão, já escrevemos que “com um olhar focado na atualidade, temos o Papa Francisco, cuja prática evangélica de solidariedade é viva e profundamente coerente, capaz de ser admirado também por alguns poderosos. Um Francisco, que reza sozinho na Basílica de Roma, emocionado, solidário com as famílias dos entes queridos do mundo inteiro, ceifados pela Pandemia.  Leia mais aqui.

Outubro Educador: reconhecimento de professores para professores

No Outubro Educador, os professores e professores reverenciam um ao outro, reconhecem a sua importância espelhando-se em outros tantos ou tantas que são suas referências maiores.  Os professores sabem reconhecer e valorizar o seu trabalho e o fazem de forma gratuita, fraterna e solidária.


Abençoada seja a nossa missão de educar. Abençoados sejam nossos propósitos, mesmo nem sempre compreendidos pelos alunos, pais e comunidade. Abençoadas sejam nossas famílias que se geram neste contexto que exige ousadia, paciência, preparo e persistência, em resumo, em doação à vida dos outros. Abençoada seja a nossa saúde física e mental, pois não podemos adoecer e nem desistir. Abençoados sejam todos aqueles e aquelas que, por nossas mãos, mentes e coração aceitaram e aceitam o desafio de fazer-se gente, a partir dos seus potenciais e da superação de seus limites. Abençoados todos aqueles que acreditam e enaltecem o trabalho dos professores e professoras.

Muitos falam de educação, mas não são professores. Arriscam palpites sobre melhorias na educação, mas não perguntam sobre o que a gente tem a dizer. Não se importam com nossos baixos salários, muito menos com nossas dificuldades de lidar com as múltiplas dimensões e necessidades presentes nos nossos alunos. Nestes últimos quesitos, lutamos solitários. Embora não tenha mudado o papel da escola e da educação, mudaram as exigências para que possamos construir uma boa aprendizagem. Temos observado que nem todo aluno e nem todos os pais veem a escola como uma forma de inserção na vida social e científica. Que as necessidades dos nossos alunos estão muito além para aquilo que a escola consegue oferecer. Que escolas e professores nem sempre estão em condições de dar conta de tudo o que está “depositado” neles.

***


A Pedagogia do Mestre dos mestres

No dia 15 de outubro de 1827, Dom Pedro I, decretou a criação de escolas primárias em todas as cidades e povoados. Por isso esta data foi instituída como o dia do professor, da professora. No entanto, não podemos reduzir este dia a meras felicitações e comemorações. Somos todos desafiados a nos engajar, promover e apoiar a luta desta classe, tão desconsiderada em sua dignidade, assaltada em seus direitos, menosprezada na sua vital importância para uma sociedade justa e fraterna, restringida em sua nobre missão facilitar o aprendizado de conhecimentos e valores que edificam as pessoas em todos os sentidos.

Muitas vezes os que se dedicam ao campo do ensino, da educação são tratados como mestres e mestras. Este título no remete ao Mestre dos mestres, o Mestre por excelência, Jesus Cristo. Aliás, a Bíblia insiste que há um só Mestre, e todos nós somos discípulos. Há muitos professores e professoras que, por serem fiéis discípulos do Mestre Jesus, adotaram a sua pedagogia e não transmitem apenas conteúdos programáticos, mas transmitem valores que enobrecem e dignificam a vida.

Da Pedagogia do Mestre Jesus, poderíamos elencar uma infinidade de elementos e características, mas cito apenas algumas que são essenciais e fundamentais. O princípio básico da Pedagogia de Jesus é a vida do ser humano: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo10,10). A vida acontece onde se adota e se vive a pedagogia do Amor, da Ternura que são parte fundamental do ser humano como oferta e como demanda. Estão inscritos no mais profundo de cada ser humano. A Ternura é super-abundância do Amor compartido.

Com carinho, Frei Carlos Raimundo Rockenbach – OFMCap




Mês de comemorar nossa dignidade

Nada disso que não temos o que comemorar. Temos muito, a começar pelo orgulho e honra de sermos Professoras e Professores, de escolhermos uma Profissão que exige acolhida, escuta, troca, consciência crítica, desafios lógicos, desafios cognitivos, desafios políticos e desafios éticos.

Deixemos que os que nos contestam se insurjam contra o nosso saber e contra o sabor do nosso saber. Eles imaginam que não tivemos competência para o desempenho de outras profissões e por isso escolhemos ser professoras e professores. Equívocos de mentes reduzidas ao ódio, a má-fé, a ofensa e a mentira.

Comemoremos, caros colegas, com nossos estudantes a alegria da vida, do conhecimento, da partilha, da coragem e saibamos enfrentar os desacatos contra as nossas produções, nossos cursos, nossas orientações, nossas aulas, porque tudo isso estabelece vínculos sociais e reforça a cidadania coletiva.

Todos os saberes que partilhamos nos permitem o abraço, o encontro, a responsabilidade e a soberania de quem sabe de suas escolhas e as assume com grandeza.

Professoras e Professores, meu abraço solidário pela tarefa de acolher e formar diferentes gerações, sem esquecer da “beleza de ser um eterno aprendiz”.

Autora: Cecília Pires




O bom professor

O bom professor é aquele que consegue fazer com que seus alunos aprendam bem o que precisam aprender, no ritmo correto. A sociedade espera tudo dos professores, os pais transferem a eles muito das suas responsabilidades.

A propósito encontrei uma carta de Abrahan Lincol, enviada ao professor do seu filho, em 1830. Isto é, antes da primeira metade do século 19, já aos professores tudo era atribuído.  

Eis o que pedia Lincoln:

Caro professor, ele terá que aprender que nem todos os homens são justos, nem todos são verdadeiros, mas por favor diga-lhe que, para cada vilão há um herói, que para cada egoísta, há também um líder dedicado, ensine-lhe por favor que para cada inimigo haverá também um amigo, ensine-lhe que mais vale uma moeda ganha que uma moeda encontrada, ensine-o a perder, mas também a saber gozar a vitória, afaste-o da inveja e dê-lhe a conhecer a alegria profunda do sorriso silencioso, faça-o maravilhar-se com os livros, mas deixe-o também perder-se com os pássaros no céu, as flores no campo, os montes e os vales.

Nas brincadeiras com os amigos, explique-lhe que a derrota honrosa vale mais que a vitória vergonhosa, ensine-o a acreditar em si, mesmo sozinha contra todos. Ensine-o a ouvir todos, mas, na hora da verdade, a decidir sozinho, ensine-o a rir quando estiver triste e explique-lhe que por vezes os homens também choram”.

Um grande abraço a todos os colegas professores pela passagem do nosso dia. Vamos continuar lutando pela educação crítica e livre. Jamais evoluiremos como sociedade sem examiná-la com rigor, visando melhorá-la!!

Autor: José Ernani Almeida




Professores inesquecíveis – Educação Transformadora

Professor Ivan Penteado Dourado, professor da UPF (Universidade de Passo Fundo) produziu um vídeo de 07min49s para compartilhar reflexões importantes sobre a nossa profissão. Professores inesquecíveis, e o papel do professor em nossas vidas.

Ivan Dourado mantém Canal SensoComuna. “Um canal de vídeos que faça frente ao senso-comum simplificador, preconceituoso e burro. Que motive a criticidade, autonomia de pensamento e, porque não, posicionamento político? Em um contexto em que se tenta criminalizar uma posição ideológica, o canal com nome provocativo de SensoComuna objetiva oferecer conteúdo crítico e reflexivo, além de dicas de leitura, de filmes, documentários e séries que possam provocar novas percepções da realidade. Um novo senso de percepção, sem grandes pretensões, apenas um espaço de troca franca de ideias, focando principalmente na apresentação do resultado de minhas pesquisas na área de Sociologia e Educação, além de compartilhar minhas experiências como professor e como um ser que busca se consolidar como humano. Um projeto de inúmeras realizações, entre elas, a liberdade de criar e ressignificar o pensamento. Sejam bem-vindos ao canal SensoComuna, pé-na-porta do senso-comum simplificador!

Celebrar a vida dos professores e professoras parece ponto central deste Outubro Educador. Celebrar as vidas que foram preservadas a partir do isolamento físico e social, com a contribuição das aulas remotas, bravamente elaboradas pelos professores e professoras, sim. Cuidar da dignidade da profissão docente, alertar para a pressão desmedida exercida pelos gestores  educacionais sobre os professores e professoras, denunciar as medidas que são tomadas em prejuízo da carreira e dos direitos, isto sim, deve ser o foco das organizações sindicais que representam tão importante profissão. Leia mais aqui.

A paranoia do desconstruir

Brazil's Environment Minister Ricardo Salles gestures during a meeting with a Senate committee in Brasilia, Brazil March 27, 2019. REUTERS/Ueslei Marcelino

A dupla, Ricardo Salles, do Meio Ambiente
e o presidente do Instituto Palmares, Sergio Camargo,
assumem claramente a função de déspotas na destruição de valores.



O primeiro, desde os primeiros episódios que marcaram desastres, ocupou-se em criar narrativas absurdas sobre as causas dos sinistros. Assim foi no derramamento de petróleo que danificou nossas águas, e nos incêndios das matas. O ataque foi generalizado às ONGs, à esquerda, aos comunistas, enfim, em formas provocantes e solertes. No mesmo rumo, a propositada omissão diante da escancarada realidade que exige investigação e ação governamental.

Sergio destila fel sobre as construções históricas da luta pela valorização da cultura negra. Agora se põe como julgador emérito da própria história excluindo sumariamente nomes que se destacam na longa jornada de combate ao racismo. Detonar os sagrados momentos tornou-se obsessão assumindo o que é dito papel de capitão do mato. O método é perverso. A insidiosa campanha visa matar edificação legítima de um alvorecer promissor para a justiça social. Este sadismo explícito pode até parecer ingênuo, mas expõe prepotência e dose de veneno.

Em meio a este pragmatismo esdrúxulo está a paranóia destruidora que visa eliminar avanços do pensamento social democrático e mais justo. Volta e meia irrompe um modo de pensar urdido nos negacionismos e artimanhas para desmotivar a dura jornada da harmonização social. É o falso proceder autocrático pela destruição de valores. Eles surgem como novos bárbaros intermitentes.

O apadrinhamento do governo a estas vilanias que já se torna célebre tenta desestabilizar o senso e o respeito cívico.

Um alerta final · Cuidado, uso de máscara, higiene, água potável, sol e outras prevenções não podem ser dispensadas. Ninguém escapa de estranhas sensações, irritação, e tanta coisa. Por isso é sempre bom avaliar o estado de lucidez. Alguns conselhos devem ser cuidadosamente avaliados. Agora e em toda vida. Até o extraordinário pensador grego – Aristóteles, mesmo devotado a seu mestre Platão advertia sabiamente: “Amicus Plato, sed veritas magis amica” (amigo Platão, mas a verdade é mais amiga)

“Seremos educadores sociais, responsáveis por humanizar, pelo estímulo à capacidade de pensar. Fake News é típico exemplo de pessoas que abandonaram a capacidade de pensar. E essas pessoas estacionaram no pensamento simples e superficial, de frases clichê. De repetir ideias simples para ter alguma vez na “explicação” da realidade. Mas sem ter trabalho nenhum de pensar e refletir. E se formamos pessoas assim, o fascismo mora na simplificação, no ódio baseado em pensamento simplista. Estamos flertando com o agrupamento de ideias e pessoas que abriram mão ou não tiveram acesso ao pensamento complexo e profundo. (Ivan Dourado, 21/10/2018) Leia mais aqui.

Oração de um jovem professor

Bem sabes, Senhor da vida,
que a escola é um espaço democrático,
é a esperança para grande parte da população
que agora sofre tormentos de um poder que não serve,
ao contrário, se serve da fragilidade socioeconômica dos “pequenos”.


A partir deste Quinze de outubro, tenho uma oração especial que nasce do coração humano para o centro do Amor Divino.  

Senhor, Deus de amor e misericórdia, sei que me escutas, que choras minhas angústias e vives as felicidades que nascem da luta cotidiana travada em escolas publicas que se fazem espaços de e para a resistência. Confesso, Senhor, que não foi a profissão que almejei deste a tenra idade, bem sabes que não foi, no entanto, foi o seu amor que me chamou para carregar essa cruz, a cruz da educação foi a que escolhi para significar meus dias.

Tive ao longo da formação inicial e tenho na formação continuada ótimos professores e ótimas professoras, pessoas que apostam na formação humana e humanizadora, que alimentam esperanças e semeiam sonhos em meio aos espinhos de uma sociedade que fomenta o individualismo, infla egos e se organiza em torno do capital e pelo capital neoliberal, o mesmo que ceifa vidas e impede o nascer de jardins.  

Mestre dos Mestres, bem sabes que essa cruz escolhida se opõe a cruz imposta pelos sistemas autoritários, que negam a diferença e a pluralidade para fomentar o espírito acrítico e irreflexivo que mata o pensar e anestesia a consciência.  Bem sabes, Senhor da vida, que a escola é um espaço democrático, é a esperança para grande parte da população que agora sofre tormentos de um poder que não serve, ao contrário, se serve da fragilidade socioeconômica dos “pequenos”.

Mestre dos Mestres, neste dia que muitos celebram, comemoram e parabenizam eu te peço forças para resistir, para carregar a cruz da opção contra a cruz da opressão. Neste ano atípico, no qual se abriram ainda mais os abismos sociais e se mostram teimosas as injustiças te peço resiliência e sabedoria. Resiliência para aprender, reaprender e ressignificar práticas pedagógicas, sabedoria para utilizar o método mais adequado, para elaborar a crítica mais contundente, para transmitir com a vida os conteúdos que ensino.

Mestre dos Mestres, que meu saber produza frutos de justiça e gestos de amor, para que a poesia inexplicável da vida não se perca na racionalidade instrumental que fere e que mata os sentidos paridos na luta cotidiana.

Abençoa, Senhor, o nosso fazer, o trabalho de tantos amigos/ amigas e colegas que não se perdem no meio das tempestades, mas ensinam com o exemplo os mais jovens (como eu) a seguir em frente, a semear esperança do verbo esperançar, a questionar as políticas educacionais, cuja única intenção é manter o Status Quo, do poder que oprime.

Obrigado Senhor, pelos testemunhos que libertam, pelas palavras que confortam, pelos professores e professoras que teimam contra todo desalento, contra toda desesperança. Teimar foi seu testemunho, Mestre dos Mestres; teimaste em semear um reino de justiça e de amor onde prevaleciam privilégios e privilegiados; teimaste em apostar naqueles que outros mestres não apostariam; teimaste em desenhar no olhar dos teus discípulos e no coração de suas ações outra experiência religiosa, outra face de Deus.

A seu exemplo, teimamos em apostar naqueles que o sistema político e econômico exclui, para esses a Escola Pública é a esperança maior, é espaço de resistência e de luta, por isso, teimamos em gritar contra os desmandos dos governos que fazem questão de nos calar. Somos teimosos e não calaremos, aprendemos com o Mestre dos Mestres que a causa da vida, e de toda vida é a mais importante! 

Bem sabemos, Mestre, que somos limitados, humanos em constante formação, mas também sabemos que seu amor acompanha aqueles que decidem servir, sabemos que muitas homenagens deste dia são sinceras, mas reivindicamos espaços de fala, de decisão.

Pedimos aos que “nos governam” que o façam com decência, em espírito colaborativo e responsável, visto que não há direito humano sem democracia e que não há nenhum e nem outro sem formação e valorização humana. 

Professor é parteiro

Professor para nós é parteiro.
Metade parte, metade arteiro.


Estamos num mês festivo para os trabalhadores em educação, ademais vivermos tempos que desafiam até os mais corajosos. Outubro comemoramos o dia das crianças e o dia do professor. As escolas se renovam de alegria, é tempo de comemorar, reconhecer e festejar. Mas como se dá em uma pandemia quando as escolas estão vazias, quando professores e alunos precisam se encontrar de modo remoto?  Estaria sendo o professor substituído pelas novas tecnologias? 

É fato, a pandemia que impactou o mundo em 2020 apenas acelerou transformações históricas programadas para ocorrerem, como a virtualização dos processos de trabalho, ensino e as relações entre as pessoas. Muitos lugares do mundo, já vivem uma democratização da informação, talvez nunca na história o conhecimento esteja tão disponível, literalmente na palma das mãos. Mas informação é conhecimento? E mais, é sabedoria? A informação pode produzir mudanças subjetivas, sociais, culturais? 

Partimos da posição de que informação não é conhecimento, tampouco sabedoria. Uma vez que, estes exigem um processo, uma transformação que precisa ser operada na intimidade de um vínculo humano, num encontro formativo.

Para o educador António Nóvoa, educação é vínculo, é afeto, interação. Educar é construir com o outro experiências que ficarão conosco pela vida. E a experiência é intransferível.  Sabedoria ainda, para além, se dá na experiência da vida, na integração dos conhecimentos. Mas qual é ato que produz essa subversão? Ou melhor, quem pode produzi-la? 

Pode ser um professor. Um professor subverte a lógica do mundo concreto, abre janelas e portas para o mundo das ideias.  Professor para nós é parteiro. Metade parte, metade arteiro.

A metade parte, parte o senso comum, as opiniões e as certezas.  A metade arte, como um artesão, faz nascer, de matérias tão diversas que é a singularidade do aluno, curiosidade, criatividade, conhecimento.

Parte a informação, corta suas camadas, costura, as reorganiza para nascer o saber. Saber que vem da experiência vivida com o aluno, da troca, da intersubjetividade, do afeto. Afeto de quem permite deixar-se afetar pelo outro, permite ser afetado de maneira única por alguém que marcará sua vida. A quem se deixa afetar faz nascer para o conhecimento do mundo, abre as portas para outras dimensões.

No entanto, um parto não é sem dor, não sem dificuldade, não sem atravessar horas de preocupação, dores de abertura, forçagens. Nascer exige esforço do bebê, por que não seria assim também com o aluno? Esforçar a concentração, manter-se consciente, atento, abrir mão de outros interesses, talvez mais prazerosos, menos custosos, porém que o deixariam no mesmo lugar. Exige força também da mãe, às vezes, horas de trabalho duro, dolorido.

Educar, por vezes, é um parto demorado, cercado de sofrimentos e desilusões. É tomar contato com um aluno, que como um bebê não é o ideal, é frágil, inacabado, porém tem dentro de si todo potencial humano. E o professor o conduz a vir ao mundo um sujeito, abre vias para os sonhos, a autonomia, a cidadania.  

Ao dar à luz, uma mulher dá à luz também a uma mãe. Ao educar o professor permite-se renascer, dar à luz ao significado de estar no e com o mundo, com os outros. Ele também se refaz em um cirandar constante, de ver-se em si e ver-se naquele a quem educa.

Todo o professor olha para seu aluno buscando encontrar a si, como uma mãe o faz com seu filho que acaba de chegar. Mesmo sem conseguir estabelecer grandes semelhanças, logo ao nascer, a mãe acredita que com o passar do tempo, os trejeitos, os olhares, o sorriso, a personalidade do filho revelará a continuidade de sua continuidade.

No professor há um constante esperançar de que ao reencontrar seus educandos no futuro, ele reconheça suas palavras, sua mensagem, seu amor naquele a quem ajudou construir, é a identificação da sua arte. 

Ao longo de sua trajetória, o professor é parteiro. Quando (com)parte, compartilha os dias, parte as tristezas, parte o desânimo, pois ele faz de seu trabalho a arte de compartilhar. Compartilhar é não estar sozinho. Partir o que sabe, não é saber menos, é saber mais, o que já sabia com aquilo que pode aprender junto aos outros. Aprender é arte. A arte de viver.  

Em um mundo de divisões, de egos, de incompreensões, o professor é parteiro de novos rumos. Ele não tem medo da desconstrução, parte o que não é da justiça, o que não é ético, o que não valoriza o ser humano, para produzir com seu trabalho a arte da escuta, da cooperação, da empatia, da alteridade. 

Professor é parteiro de vir a ser.


Patrícia Signor, educadora. Doutoranda em Educação pela UFSM, Mestre em Educação. Atua como docente no CESURG de Sarandi e na Escola Santos Anjos de Nova Boa Vista.







Carolina Jainara Lavall Zandoná é Psicóloga, Psicanalista em formação pelo PROJETO – Associação Científica de Psicanálise e Humanidades de Passo Fundo.

Carta ao povo gaúcho sobre a volta às aulas presenciais

Sejamos claros;
não há condições para um retorno seguro.
Anos de descaso deixaram a escola pública despreparada
para enfrentar esta guerra sanitária.


Nós, professores(as) e funcionários(as) de escola da rede estadual do Rio Grande do Sul, pedimos a sua atenção. Dentro de poucos dias o governo Eduardo Leite (PSDB) pretende retomar as aulas presenciais em todo o estado.

Sejamos claros; não há condições para um retorno seguro. Anos de descaso deixaram a escola pública despreparada para enfrentar esta guerra sanitária. Faltam profissionais, faltam recursos físicos e financeiros, faltam equipamentos de proteção, falta organização e capacidade de gestão.

Agora, faltam com as nossas vidas e de todos os gaúchos.
Este não é um governo confiável. Eduardo Leite foi eleito prometendo pagar em dia e valorizar quem trabalha no chão da escola. Jamais honrou a própria palavra. Pelo contrário; cassou direitos, reduziu salários, proibiu matrículas, fechou turnos, turmas e escolas. Sua lógica reside em atender agentes privados que valorizam o lucro acima da vida. Suas promessas e suas palavras são vazias.

Ao contrário do governador, nós temos compromisso e responsabilidade com a educação. Jamais deixamos de cumprir nossas obrigações. Apesar da sobrecarga, da exclusão, do cansaço, dos salários atrasados e cortados, do desrespeito e da falta de reconhecimento, nós preferimos viver. A educação escolhe a vida.

Conhecemos na pele as dificuldades das aulas remotas. Trabalhamos dobrado ao longo desta pandemia, tirando do próprio bolso – já tão saqueado – os recursos para arcar com equipamentos e acesso à Internet, fazendo das tripas coração para atender a comunidade, sem qualquer auxílio do Estado.

Mas, para ensinar e aprender, é necessário, primeiro, viver. E a realidade é que a pandemia da Covid-19 não está sob controle. Não há país no mundo que tenha retomado as atividades presenciais em condições semelhantes.

Conclamamos a sociedade a se manifestar em todos os espaços possíveis, pressionando vereadores e prefeitos, eleitos ou candidatos, em defesa da vida. Pedimos que resistam; não levem seus filhos às escolas, não assinem o termo de responsabilidade exigido pelo governo, não troquem um futuro possível por uma ilusão de normalidade. Não carreguem esta culpa para o resto da vida.

Se você não está seguro para enviar seus filhos, você não está sozinho. Procure o conselho da sua escola, a equipe diretiva e os educadores(as). Decidam, juntos, pelo não retorno nas atuais condições. Lutaremos hoje contra o luto amanhã.

Nós continuaremos fazendo o nosso trabalho, em segurança. Não pagaremos com nosso sangue pela incompetência dos que nos governam. Não seremos cúmplices nem cobaias desta política de morte. Você pode contar conosco. Nós precisamos contar contigo.

Escolas fechadas, vidas preservadas.
#EscolasFechadasVidasPreservadas

Lute hoje contra o luto amanhã
Não troque um futuro seguro por uma ilusão de normalidade no presente. Não carregue esta culpa para o resto da vida.
Lute hoje contra o luto amanhã.

Veja mais aqui.

Processos criativos e inspirações literárias femininas

Luciana Marinho Albrecht é natural da capital Porto Alegre e mora há mais de uma década em Passo Fundo, RS.

Como escritora e contadora de histórias, tem uma atuação e presença importante no mundo cultural e educacional de nossa cidade e na região norte do RS.

Participa de grupos literários, escreve livros, ama literatura e gosta de incentivar iniciativas de outras pessoas, especialmente as mulheres, no protagonismo da escrita e da produção literária, pesquisadora nas áreas de esclarecimento e combate ao bullying e educação para paz.

Conheçamos Luciana Marinho Albrecht por ela mesma.

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SITE NEIPIES: Quando, como e porque você se envolveu com literatura?

Luciana Marinho Albrecht: Acredito não poder traçar uma linha do tempo muito precisa, pois a literatura é minha amiga íntima desde a infância. Era uma criança curiosa, questionadora e inquieta, características que ainda me acompanham na vida adulta, e a literatura me ajudava a encontrar respostas que eu queria muito a respeito da vida, do mundo, a viajar sem sair do lugar, a acalmar a alma.

Como sou filha de professores tive o privilégio de ter um acesso facilitado aos livros. Minha mãe, professora de português foi sempre minha maior incentivadora de leituras e de escrita, uma vez que meu sonho de infância sempre foi ser escritora. Porém na minha época de juventude a escrita era vista mais como um hobby ou uma profissão acessória de jornalistas, advogados e outras profissões mais “badaladas”, então a princípio pensei em cursar jornalismo, plano que foi cancelado após uma gravidez precoce, aos 18 anos.

Pelos caminhos da vida e da necessidade de sustento acabei cursando uma faculdade bem diferente e de forma tardia, a de Administração de empresa, já aos 26 anos e exercendo uma profissão mais técnica por muitos anos.

A literatura e a escrita, porém, nunca me abandonaram, segui estudando de forma auto didata, escrevendo e planejando novos rumos. Aos 39 anos me lancei de forma profissional e independente na literatura infantil com a obra A Estrela Pequenina, ilustrada por Giovani Rodrigues, atualmente em segunda edição. O livro e o meu trabalho foram tão bem acolhidos pelo público, por professores e escolas, que dois anos depois lancei O Procura Encrenca, também infantil, ilustrado por Raíssa Bulhões e não parei mais, tem muita novidade ainda por vir.

SITE NEIPIES: Nasceste e te criaste em Porto Alegre, nossa capital. A capital tem oportunidades artísticas, literárias e culturais bem intensas e diversificadas. Como foi chegar a Passo Fundo? Qual é a diferença cultural mais marcante em relação à Porto Alegre?

Luciana Marinho Albrecht: Sim, é verdade, faz quinze anos que larguei minha terra natal e aqui cheguei. Mesmo não trabalhando com literatura diretamente nos anos em que morei em Porto Alegre, sempre tive muita ligação com a arte de um modo geral, estudei teatro por dois anos e sempre participei de saraus, exposições, etc. Minha adaptação aqui foi difícil, preciso ser sincera, Passo Fundo na época tinha um ritmo bem diferente.

Há quinze anos atrás tudo fechava ao meio dia, não existiam parques, praças, espaços públicos de lazer e cultura de qualidade e o shopping ainda estava se desenvolvendo, o passo-fundense era um pouco reservado, principalmente com gente de fora e eu chegava aqui com um filho pequeno, um segundo casamento, não foi fácil. Mas por outro lado fui bem acolhida, fiz grandes amizades, fui me informando sobre os espaços culturais e fiz parte do movimento escoteiro que ajudou demais a decisão de firmar residência aqui, e foi maravilhoso e espantoso ver o crescimento e o desenvolvimento da cidade, sobretudo nos últimos 8, 9 anos. A acolhida que a comunidade escolar teve para com minhas obras jamais esquecerei.

SITE NEIPIES: O que mais realiza e te desafia como escritora de literatura infantil?

Luciana Marinho Albrecht: Cada olhar de criança e mesmo por parte dos adultos cheio de encantamento, com aquele brilho de quem vê algo especial no livro ou na contação de história me realiza. Quando as pessoas me reportam suas experiências, sentimentos, sensações com meus livros, histórias, textos ou poesias isso me faz querer continuar nessa estrada literária.

Os desafios para quem vive de arte, de literatura e da educação são vários e um tanto dolorosos, pois passam pela falta de investimento público, atualmente um desmonte das conquistas históricas dos artistas e dos educadores, por uma certa desvalorização de uma parte da sociedade que ainda não vê a arte e a literatura como profissões. Especificamente na literatura infantil o que mais me desafia é desmistificar que essa vertente literária é “menor” ou “mais fácil”, estar sempre evoluindo nos textos que levo para as crianças é uma forma de respeitá-las em sua intelectualidade, em suas potências e capacidades leitoras.

SITE NEIPIES: Qual é a relação que deveríamos construir entre educação e literatura?

Luciana Marinho Albrecht: Estamos em um mundo extremamente digital, líquido (como diria certo sociólogo e filósofo). Nunca se teve tanto acesso à informação, textos, notícias, opiniões como agora. Porém se escreve mal, se interpreta pior ainda.

A literatura é um elemento essencial na construção do pensamento crítico, da capacidade interpretativa, vejo que educação e literatura devem andar juntas, aliadas na construção do sujeito social, das liberdades individuais plenas, pois um povo que acredita em tudo que lê, sem criticar, sem refletir, sem duvidar é facilmente manipulado e escravizado. De um modo geral, nós escritores temos um grande respeito pelos professores, nossa luta é similar, e nosso trabalho muito intimamente ligado às escolas, à juventude, mais ainda escritores de literatura infantil, como é o meu caso. Não há porque não desenvolver uma relação construtiva, de parceria.

SITE NEIPIES: Do que é que falam teus dois livros: “A estrela pequenina” e o “Procura Encrenca”?

Luciana Marinho Albrecht: De uma forma geral, em meus livros para infância procuro sempre abordar pontos que são sensíveis a minha própria criança interior que são, a inclusão, o respeito às diferenças, os ritmos pessoais, o amor próprio e ao outro, a questão anti-bullying também está presente. A Estrela Pequenina é sobre uma estrela que não conseguia brilhar, vivia triste e preocupada, mas ao longo da história descobrirá o que precisa para resolver essa questão, é um conto poético sobre alegria e amizade. O Procura Encrenca é a história de Danilo, um menino travesso, que precisa entender algumas questões sobre si e sobre respeito ao próximo e essa obra trás uma surpresa divertida, um breve questionário interativo, divertido, tipo o que atualmente chamam de quiz, para que a criança possa refletir depois da história, essa parte do livro foi desenvolvida em parceria com a psicóloga Jamile Kerber.

SITE NEIPIES: Como é ser artista neste momento histórico?

Luciana Marinho Albrecht: A poesia, a música, a arte em geral têm sido oásis nesse deserto pandêmico, um alento para as angústias e para solidão, mas o momento também é de reflexão, de luta, de pedirmos uma certa valorização do nosso trabalho, que muitas vezes é visto pela sociedade como um bico, ou um dom, algo que deva ser oferecido gratuitamente e não é o caso. O artista, seja ele escritor, pintor, ator, etc, é alguém que se dedica a um ofício, vive dele e espera um retorno seja financeiro, seja no sentido de uma valorização. É um diálogo que precisamos ter.

SITE NEIPIES: Qual é a importância dos grupos de literatura e de poetas, dos quais você participa?

Luciana Marinho Albrecht: Comecei minha trajetória na literatura de forma muito individual, até solitária eu diria (risos), foi uma grata surpresa ser convidada, após 4 anos de estrada literária, pela Sociedade dos Poetas Vivos, através do escritor e professor Aleixo da Rosa e quase um ano depois para o Mulherio das Letras, que inclusive foi uma indicação do escritor Pablo Morenno. Nesses grupos tive a oportunidade de compartilhar textos, experiências, aprendizados, conhecer pessoas incríveis, sem falar na rede de conexões de trabalho e oportunidades artísticas, é gratificante.

SITE NEIPIES: Como a Pandemia atingiu teu trabalho artístico e cultural? O que estás aprendendo com o isolamento físico e social, imposto a todos nós para a preservação de vidas?

Luciana Marinho Albrecht: Foi um verdadeiro tsunami (risos)! Acredito que não só para mim, mas para todos. Meu trabalho era quase que 100% presencial, muito ligado às escolas, aos eventos literários, no RS e no Brasil, parou tudo. Tudo mesmo, escolas fechadas, eventos cancelados, tive que me adaptar às tecnologias rapidamente. Uma coisa positiva disso tudo foi a criação do meu canal no Youtube O Mil e uma Histórias, que foi a forma que encontrei de me manter ativa, fazendo o que amo e ainda apoiar de forma gratuita e abrangente as professoras e professores e pais que me solicitavam alternativas educativas, lúdicas e com  qualidade literária para interagir com as crianças nesse momento delicado.

SITE NEIPIES: Achas que a maioria das pessoas está se tornando melhor com o advento da Pandemia? Sairemos melhores seres humanos?

Luciana Marinho Albrecht: Penso que o momento está atuando como uma espécie de “adubo” ou “fermento” para o que cada um tem no coração. A situação política do nosso país é caótica e removeu algumas máscaras sociais, revelando faces sombrias da sociedade, faces de preconceito, racismo, violência, misoginia, infelizmente. Sou de natureza otimista e espero que haja uma reflexão a ser feita nisso tudo, que nos sirva de aprendizado e crescimento espiritual e moral.

SITE NEIPIES: Quais são seus projetos para o futuro próximo?

Luciana Marinho Albrecht: São tantos!(Risos) Reflexo da mente inquieta. (Risos) Mas o mais recente e já em andamento é a elaboração do meu projeto, Uma apoia a outra com a obra Confidências da Noite – poemas, sonhos e delírios, premiado pelo Funcultura Passo Fundo. O projeto prevê o lançamento do meu primeiro livro de poesias adulto, Confidências da Noite, voltado a uma temática intimista, um olhar feminino e que apoia o projeto social Uma Apoia a Outra (projeto de minha autoria) que consiste em destinar uma parte da venda do livro à instituições de amparo à mulher em situação de risco e vulnerabilidade e na realização de oficinas e saraus literários voltados ao público feminino. Estou feliz por este livro e projeto terem saído da gaveta, ansiosa por ver o resultado. O livro será ilustrado pela artista Giúlia Cittolin e os textos revisados pela Daniela Sinigaglia.  Além desta obra estou preparando um novo livro para o público infantil, mas este ainda vou deixar um mistério. (risos)

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos leitores do site, em especial os que se envolvem com cultura, literatura e educação?

Luciana Marinho Albrecht: Sempre é tempo de ler, de questionar, de produzir, de amar. Aproveito para deixar uma singela sugestão, em versos de minha autoria.

“Se meus ouvidos surdos, foram capazes de ouvir.
Uma mente fechada é capaz de questionar, duvidar.
De se abrir, e aprender.
Evoluímos!
Eu nessas linhas te proponho,
Ousadia!
Feche agora, sem receio,
A tela desse navegador,
E sem pudor,
Vá ler um livro!”
(Luciana Marinho)

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Fotos: divulgação/arquivo pessoal

Nem elogios e nem heroísmo: reconhecimento aos professores e professoras

Estamos em outubro, mês dedicado aos professores e professoras. Parece que 2020 não permite comemorações que não Celebração da Vida, tão ameaçada pela Pandemia que assola gravemente nosso país e o mundo. Estarmos vivos e promovendo a vida é parte da nossa dimensão humanizante de professores e professoras.

Celebrar a vida dos professores e professoras parece ponto central deste Outubro Educador. Celebrar as vidas que foram preservadas a partir do isolamento físico e social, com a contribuição das aulas remotas, bravamente elaboradas pelos professores e professoras, sim.

Cuidar da dignidade da profissão docente, alertar para a pressão desmedida exercida pelos gestores educacionais sobre os professores e professoras, denunciar as medidas que são tomadas em prejuízo da carreira e dos direitos, isto sim, deve ser o foco das organizações sindicais que representam esta tão importante profissão.

Conversamos com dois professores da rede municipal de Passo Fundo, também dirigentes do CMP Sindicato (Sindicato dos professores municipais de Passo Fundo) no intuito de contribuirmos com a reflexão e celebração da vida dos professores e professoras neste Outubro Educador.

Professor Eduardo Albuquerque e professora Débora de Araújo Soares.

***

SITE NEIPIES: Comecemos nossa conversa com este ponto. Como celebrar e o que celebrar neste Outubro Educador?

Professor Eduardo Albuquerque: Nós temos sempre o que celebrar. O Magistério brasileiro é único, pois mesmo que historicamente maltratado, ele mostra capacidade de resiliência e consegue se superar e, mesmo com as precariedades estruturais, oferecer um trabalho de qualidade e de muita dedicação e compromisso. Compare com outras categorias com muito mais estrutura e condições salariais e diga se estou errado.

Professora Débora de Araújo Soares: Celebrar a vida, num contexto desolador como o que temos vivido nos últimos meses. Celebrar a força e a perseverança que nos fizeram passar por esse período tão desafiador buscando novos conhecimentos, aprendendo e ensinando com os recursos disponíveis, sem perder de vista nosso compromisso com os educandos. Celebraremos este Outubro Educador mantendo a união e a luta que sempre fizeram parte da classe do magistério, e que hoje, mais do que nunca, é fundamental para reafirmarmos nosso papel fundamental para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana.

SITE NEIPIES: A pandemia colocou em xeque toda a organização da sociedade, também da educação. Qual é o papel que professores e professoras vem exercendo, não importando os contextos? O que não muda na função e papel do professor?

Professora Débora de Araújo Soares: Diante de tantas mudanças e desafios vivenciados este ano, parece que ficou evidente a importância do papel do professor na sociedade, especificamente na formação das crianças e jovens. Quando as escolas fecharam e as famílias se viram com a difícil tarefar de auxiliar seus filhos na execução das tarefas escolares, muitos foram os relatos sobre as dificuldades encontradas. Por outro lado, os docentes também enfrentaram imensos desafios no encontro com as novas tecnologias e no planejamento de aulas remotas, até mesmo para crianças da Educação Infantil. A plataforma e a metodologia mudaram, mas o que não mudou foi o compromisso do educador com a formação dos seres humanos que lhe foram confiados. A busca pela forma mais adequada de interação com os alunos, mesmo que não seja a ideal, também esteve presente nesse conturbado período que temos vivido.

Professor Eduardo Albuquerque: A pandemia colocou em xeque muitas coisas e uma delas foi o velho, anacrônico e carcomido sistema educacional brasileiro. Um sistema fracassado que, mesmo em uma pandemia sem precedentes, continua a se preocupar em avaliar, em excluir, em medir números e não em educar.

Parece que a pandemia não serviu para aqueles que pensam educação repensar porque fracassamos na educação e tentar algo novo. Os professores foram responsáveis por manter o único elo dos alunos com a educação. Foi seu esforço que não permitiu que tivéssemos um desastre total para toda uma geração.  O que não muda no papel do professor é a sua centralidade e importância compartilhada com o aluno. A pandemia colocou em xeque teorias obscuras como homeschooling e outras que sempre depreciaram o papel do professor. Ele volta fortalecido enquanto autoestima.

SITE NEIPIES: Vínhamos sofrendo, recentemente, ataques duros e questionamentos de nossa função na escola por parte da sociedade brasileira. Com o advento da Pandemia, que resultou na suspensão física das aulas, fortalece-se a importância da nossa profissão?

Professor Eduardo Albuquerque: Como disse, sim. A pandemia tratou de acabar com teorias de caráter obscuro e cerceadores do papel do professor que vinha tomando corpo na sociedade. Teorias estas patrocinadas por grupos extremistas que servem a determinados interesses econômicos e que vinham atacando o papel da escola e dos professores, com discursos falaciosos e ambíguos tais como escola ensina família educa. Mais do que nunca, as famílias precisam e precisarão de que a escola também eduque, como sempre fez e como está na própria constituição. 

Professora Débora de Araújo Soares: Penso que a função do educador é imprescindível, e isso ficou claro nesse período de pandemia. Ainda assim, os ataques não cessaram, tendo até aumentado em alguns casos. Como servidora pública, vivencio constantemente ataques ao serviço público, algo potencializado pelo uso equivocado das redes sociais. A grande polarização política e a disseminação em massa das chamadas fake news contribuíram para que sofrêssemos duros ataques por parte da sociedade, que vê o servidor público como uma pessoa privilegiada. No caso do magistério, em especial durante a pandemia, ouvimos inúmeras atrocidades, como a ideia de que os professores não querem voltar a “dar aula”, pois estão ganhando sem trabalhar, dentre outras.

SITE NEIPIES: A sociedade sabe que foram e são os professores e professoras que estão garantindo as aulas remotas durante a pandemia? E que, quando voltarem as aulas, as escolas públicas estarão na mesma (pouca estrutura, sem internet, sem recursos humanos para o pleno atendimento)?

Professora Débora de Araújo Soares: Parte da sociedade, essa parcela da população que dá crédito a falas tendenciosas que retratam o professor como um profissional acomodado, parece não perceber que a categoria do magistério está garantindo as aulas durante a pandemia. São esses trabalhadores, que tiveram que se reinventar para continuar dando aula, usando os seus próprios recursos para planejar aulas num contexto remoto, que tornaram possível o seguimento do ano letivo.

As pessoas que criticam os docentes, na maioria das vezes, não conhecem o chão da escola, não têm ideia da estrutura precária das escolas públicas e das enormes dificuldades enfrentadas diariamente. Essas condições ditarão o futuro tanto dos profissionais quanto dos alunos, em caso de retorno às aulas presenciais. As escolas que rotineiramente não contam com materiais e suprimentos básicos para seu funcionamento, certamente não disponibilizarão os EPIs necessários para o trabalho seguro. Isso sem falar na falta de recursos humanos, que já prejudica o ensino em época de normalidade, que será crescente devido ao afastamento dos profissionais doentes ou em grupos de risco.

Professor Eduardo Albuquerque:  Parece que isso é evidente. Se alguém está garantido algum vestígio de educação nestes tempos terríveis, este alguém é o professor. Porém, talvez não tenham tanta clareza que vivemos hoje um momento trágico na educação.

O projeto de educação para o Brasil é inexistente. O governo Bolsonaro será conhecido como o grande desastre para educação na história, pois não tem a mínima preocupação com educação básica de qualidade. Ele consegue ser pior que todos os outros governos que já passaram no Brasil. 

Aqui no estado não é diferente. O governo estadual demonstra apreço nenhum por educação pública e por vezes se porta de uma forma quase patológica principalmente quando não hesita em colocar toda a sociedade em risco, ao retornar com aulas presenciais em um contexto ainda complexo sob o ponto de vista pandêmico. Mas, é bom que se diga que ambos, Bolsonaro e Leite, foram muito claros com relação a este tema. Só não entendeu quem não quis entender.

Fotos: Arquivo pessoal/divulgação

SITE NEIPIES: Onde está a maior força e onde está a maior fragilidade dos professores e professoras?

Professor Eduardo Albuquerque: Sem dúvida alguma, a nossa maior força e nossa maior fragilidade estão na nossa capacidade de superar obstáculos, na nossa resiliência. Somos capazes de coisas incríveis, mesmo sendo mal tratados sistematicamente, governo após governo. Mesmo sendo uma qualidade positiva e inegável, esta nossa característica tem sido nosso ponto franco, pois confundimos resiliência com aceitação e, por vezes, conformismo. O professor tem que se dar conta do quanto é forte, do quanto é importante e o quanto é decisivo para a melhoria da sociedade.

SITE NEIPIES: Professor: profissão. Educador: nossa missão. É necessário diferenciar?

Professor Eduardo Albuquerque: Não vejo como necessária e vejo que isso tem sido um problema histórico pois tem a ver como nasce a profissão do professor no Brasil.

Quando falamos em missão somos remetidos a ideias equivocadas no que tange a etimologia da palavra missão: a missão enquanto cunho religioso, a missão enquanto objetivo empresarial, a missão como doação sem a devida recompensa, enfim, há nada de positivo em continuarmos com este discurso de missão.

O professor é um sujeito que estuda muito, que investe muito, que treina muito para um dia ficar na frente de um grupo de alunos. Ninguém é professor porque nasce com este “talento” e também não somos ungidos pelos deuses ou pela natureza para tal atividade.

O bom professor é fruto, de estudo, treinamento, prática, atualização, mais estudo, mais treinamento, mais prática, mais atualização. Não viemos ao mundo cumprir missão alguma. Somos professores porque, em dado momento, optamos por esta profissão e a partir disso nos preparamos para tal. Lembra daquela história do profissional de notório saber? Pois é. Esta ideia de “missão” resulta nisso.

SITE NEIPIES: Por que professores e professoras não precisam de elogios e nem de atitudes heróicas, mas precisam de reconhecimento (em todas as dimensões)?

Professor Eduardo Albuquerque: Porque somos profissionais e dispendemos muito tempo e dinheiro na nossa formação inicial e continuada e porque no final do mês tem a conta da luz, da água, do aluguel. Elogios são bem vindos. O problema é que nos últimos 60 anos só recebemos elogios e eles tem sido usado por governos de os matizes para nos convencer de que temos uma “missão” a cumprir. Reconhecimento é o que mais temos e mais ouvimos, mas que não se concretizam na prática. Determinadas profissões não tem a metade dos discursos elogiosos, mas são altamente prestigiadas na prática. O magistério brasileiro precisa justamente deste reconhecimento prático.

Professora Débora de Araújo Soares: Mais que elogios, o reconhecimento é o maior presente que os professores poderiam ganhar. O discurso é bonito na data que comemora o seu dia, assim como na promessa do político em véspera de eleição. O que precisamos é de condições dignas de trabalho, de respeito aos nossos direitos, de tranquilidade para trabalhar sem ter de se defender de ataques, provar seu valor ou se preocupar com a supressão de direitos já adquiridos. Precisamos de reconhecimento sobre o papel fundamental que desempenhamos na formação e no desenvolvimento de seres humanos.

SITE NEIPIES: Que mensagem deixar aos professores e professoras neste Outubro Educador?

Professor Eduardo Albuquerque: Reconheça-se como sujeito principal no progresso de uma nação. Reconheça-se como pertencente a classe trabalhadora e não a uma elite. Somos parte de uma classe média e como tal somos trabalhadores. Classe média vive do seu trabalho.

Colega professor ou professora, preste atenção na política, nas eleições, nos movimentos da sociedade. Não fique a deriva e a mercê de interesses obscuros. Trate sua profissão com carinho. Aperfeiçoe-se mesmo com todas as dificuldades impostas por governos que governam para meia dúzia de banqueiros e empresários.

Junte-se ao seu Sindicato, mesmo que você discorde dele. Imponha-se diante da sociedade e ande sempre de cabeça erguida. Não dependa de políticos oportunistas e de favores e lembre-se que você está trabalhando em algum lugar é porque ou você foi contratado ou passou em um concurso pelo seu mérito e qualidade profissional e não deve favor algum a quem quer que seja.

Todos os anos, o CMP Sindicato (Sindicato dos Professores Municipais de Passo Fundo) oferece um almoço com confraternização e sorteio de brindes em reconhecimento à dedicação dos professores e professoras. Neste ano de 2020, em função do distanciamento físico e social, o Sindicato promoverá o mesmo reconhecimento a todos os seus associados, mas em forma de Drive-Thru.

Outubro: celebração e alertas na vida das mulheres

Em outubro, por conta do câncer, doença que infelizmente
mata muitas mulheres, contaremos a história de
uma professora municipal de Passo Fundo que,
acometida pelo câncer de mama, encarou o
tratamento médico como um processo de cura,
não de morte.


Contar histórias de superação é uma missão que vem sendo cumprida pelo site.  A superação é uma necessidade humana, quando os desafios se põem, na vida pessoal e na vida coletiva de nossa sociedade.

Em outubro, por conta do câncer, doença que infelizmente mata muitas mulheres, contaremos a história de uma professora municipal de Passo Fundo que, acometida pelo câncer de mama, encarou o tratamento médico como um processo de cura, não de morte.

Tudo ocorreu sem Adriana Severo dos Santos esperar, porque vinha fazendo regularmente os exames de prevenção. Mas, diante do inesperado câncer em 2011, reagiu de forma ativa, confiante e apostando na superação pessoal e na recuperação plena de sua saúde.

Conheça esta história de superação, que será contada por ela mesma.

***

SITE NEIPIES: Como foi receber a informação de que estavas com câncer de mama e que deverias te submeter aos rígidos tratamentos de quimioterapia e radioterapia? O que passou na sua mente neste momento, lá em 2011?

Professora Adriana:Sempre fui cuidadosa com minhas revisões médicas, nunca deixei de realizar exames periódicos e nunca pensei que estaria com alguma coisa errada em meu corpo. Aos 45 anos fui diagnosticada com câncer de mama. A sensação foi terrível, foi assustador, porque a primeira coisa que a gente pensa é que vai morrer e que a tua vida chegou ao fim.

Meu tratamento de cura foi pesado, primeiro passei por uma cirurgia de 10h, com a retirada da mama direita (mastectomia) e colocação da prótese, depois iniciei o processo de quimioterapia, que é outro fator de muito estresse ao paciente.

O caminho é se preparar emocionalmente para esse momento, sempre que possível. A palavra quimioterapia em si, já assusta. Mas com o ajuda do grupo de mulheres e de uma querida (tia que também passou por tratamento) fui encarando e mentalizando que a quimioterapia era minha cura e não meu sofrimento, “gotinhas de cura”. Resolvi encarar a quimioterapia como minha aliada no processo de cura, cada vez que recebia a infusão, agradecia aquele medicamento que estava entrando em minhas veias para me ajudar a vencer a doença. A radioterapia pra mim foi mais tranquila, sendo complemento desse processo de cura, por isso a disciplina em estar todos os dias fazendo a sessão de radio e seguir as orientações dos técnicos é muito importante.

SITE NEIPIES: Qual foi o suporte e o apoio mais importante, além do incondicional apoio da família?

Professora Adriana: Além da família, tive apoio de várias amigas e vizinhas queridas que muitas vezes estiveram comigo. Mas o apoio maior veio do grupo de mulheres que estavam em tratamento ou mesmo que já estavam finalizando e procuravam estar com aquelas que estavam iniciando seu tratamento (que era o meu caso). Sempre que nos encontrávamos, conversávamos muito, sobre nossos medos, sentimentos, futuro, família e principalmente sobre o tratamento que íamos enfrentar, seus principais sintomas e como encarar tudo isso. Nesse sentido, pra mim, foi fundamental esse grupo de mulheres porque tínhamos uma rede de apoio em todos os sentidos, nos fortalecíamos e tornávamos mais fortes.



SITE NEIPIES: Quais foram as aprendizagens durante e depois do tratamento?

Professora Adriana: Foram muitas aprendizagens, poderia citar algumas:

  • que todos nós precisamos uns dos outros;
  •  que a saúde é nosso bem maior;
  •  é fundamental conhecer a doença, entender sua condição e buscar seus direitos como paciente em tratamento, lutando para que eles sejam cumpridos. A Lei nº 12.732 de 23/11/2012 contempla vários direitos que vale a pena conhecer;
  • é importante mudar seu estilo de vida, cuidando de sua alimentação com uma dieta mais equilibrada, praticar exercícios físicos sistematicamente, ter apoio terapêutico, escolher atividades que lhe agradem, que te façam bem são fatores que podem   evitar uma reincidência do tumor ou mesmo prevenir de ficar doente;
  • a autoestima do paciente pode influenciar diretamente na qualidade do seu tratamento. Por isso ame-se e sinta-se à vontade para viver o seu tratamento do jeito que você achar melhor.

SITE NEIPIES: Como foste “paciente”? Tiveste paciência e acreditaste nos profissionais e nos tratamentos para superar teu câncer de mama?

 Professora Adriana:É muito importante confiar nos profissionais que estão tratando de você, porque é tua vida que está em jogo. Desde 2011, estou acompanhada por uma equipe de especialistas, onde procuro seguir todas as orientações médicas. Tenho muito a agradecer, mas gostaria de salientar que a confiança não se estende somente à equipe. É preciso acreditar em você e que é possível vencer a batalha, porque isso faz uma enorme diferença.

SITE NEIPIES: Gostamos de palavras de incentivo, mas também existem palavras de advertência. Quais são as palavras de incentivo e quais as palavras de advertência às mulheres sobre o câncer de mama?

Professora Adriana:Eu diria que é preciso que as mulheres se conscientizem que a prevenção é o caminho, o autocuidado, o conhecer bem o seu corpo.  Fazer exames periódicos pode evitar ou mesmo quando detectar em fase inicial o câncer de mama, aumentando consideravelmente as chances de cura. Para as mulheres que estão enfrentado esse tratamento, procurar não perder a confiança, ter fé, muita força, porque receber um diagnóstico de câncer de mama não é sentença de morte, eu por exemplo estou viva e bem de saúde.

Sei o quanto é difícil para nós mulheres perder o cabelo, cílios, sobrancelhas, mas hoje existem inúmeros recursos para lidar com isso: primeiro você pode ir cortando o cabelo para ir se acostumando com um novo visual (eu fiz isso). Outra opção são os lenços e existe na Internet inúmeros tutoriais ensinando como fazer amarrações. E ainda há as perucas, que atualmente são super confortáveis e podem ser de cabelo natural, inclusive várias ONGs fornecem gratuitamente para pacientes em tratamento. A situação é passageira, mas pode ser contornada. Quando fiquei careca, tentei sempre ter bom humor, procurando acessórios para ajudar a melhorar o meu visual.

SITE NEIPIES: Para você, o Outubro é de alerta e de superação. Por que?

Professora Adriana:De alerta porque é um mês que promove a conscientização sobre a importância do diagnóstico precoce e o gerenciamento adequado do câncer de mama, ampliando assim, as chances de cura e controle da doença.

É um movimento para ouvir e ampliar vozes, compartilhando histórias, ações e iniciativas que transformam a realidade de quem tem câncer de mama, propondo uma reflexão sobre a responsabilidade de cada um de nós no diagnóstico precoce e controle da doença. Para quem não sabe esse movimento internacional de conscientização para o controle do câncer de mama, o Outubro Rosa foi criado no início da década de 1990 pela Fundação Susan G. Komen for the Cure.

De superação porque é um mês de celebração de vida. Gratidão a tudo e a todos. Procuro agradecer e valorizar cada minuto da minha vida (pequenas felicidades), contando minha história de superação e exemplo.

SITE NEIPIES: Você realiza ações e engajamentos em todos OUTUBROS ROSA. Que ações são estas?

Professora Adriana: Durante o ano todo eu procuro estar engajada em grupos de mulheres, conversando até individualmente com quem está em tratamento, passando uma mensagem de otimismo e força. Sempre aproveito os ambientes que convivo, como no meu trabalho, no grupo de amigas, na família, nas redes sociais, ou mesmo em outro espaço que me é oportunizado, para contar a minha história de luta e superação contra o câncer de mama. Participo das caminhadas do Outubro Rosa (quando promovidas) e confecciono (no mês alusivo) os laços rosas (símbolo da campanha) para distribuir e alertar as mulheres.

SITE NEIPIES: De onde vem esta vontade e desejo de “fazer alguma coisa pelas outras mulheres”, seja aquelas que estão em tratamento, seja com aquelas por conta da necessária prevenção?

Professora Adriana:  Por alguns motivos principais:

– primeiro porque quando precisei de apoio durante o tratamento não me faltou ajuda. Foi muito importante as pessoas estarem comigo, me oferecendo um ombro amigo e me ajudando a entender e conviver com o tratamento no caminho da cura.

segundo porque sou grata por estar viva, bem de saúde e acredito que a melhor maneira de agradecer e celebrar a vida é fazendo o bem, é estar ao lado das pessoas que estão enfrentando essa situação tão difícil. Poder contar com a parceria de pessoas queridas é o remédio que ameniza as dores, sejam elas físicas ou emocionais, e não tem efeito colateral.

– terceiro porque sou professora educadora e, como tal, tenho uma missão maior no exercício da minha docência que é orientar as crianças e jovens para a prevenção, para o cuidado com sua  saúde física e mental, valorizando sua  vida, o meio ambiente e se tornando uma pessoa do bem, solidária, sem preconceitos, confiante e  principalmente motivando esse aluno a estudar, se qualificar, buscando ser sempre uma pessoa melhor.

SITE NEIPIES: Escreveste uma bela poesia sobre Outubro Rosa. Compartilha com a gente.

Professora Adriana:

Se toque, se abrace, se ame.
A cor é rosa,
o cheiro é flor!
O mês é outubro,
o ato é de amor!
……..
A campanha alerta,
pra você se cuidar.
Pinta teu mundo de rosa!
Se ame sem parar!
…….
O caminho é prevenção,
um toque simples assim.
Não dói, não machuca,
mas é vida sem fim!
…….
Evite esse mal,
outubro é cuidado.
Mês de celebração.
Que seja rima, verso e prosa,
Que seja rosa!
Seja a causa! Simples! Leve!
Se toque menina, se abrace mulher!
Se ame!
Se outubro rosa!

SITE NEIPIES: Uma frase, um pensamento que diga muito sobre você.

Professora Adriana: “A vida é um constante recomeço. Não se dê por derrotado e siga adiante. As pedras que hoje atrapalham sua caminhada, amanhã enfeitarão a sua estrada.”

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos que te leem agora.

Professora Adriana:Depois que você passa por uma experiência dessa magnitude, a minha maneira de ver as pessoas, de valorizar a vida muda completamente. Entrei uma pessoa e saí outra Adriana. A vida é feita de ciclos. Há tempo para tudo. As dores chegarão ao fim. Confia!

SITE NEIPIES: Considerações finais.

Professora Adriana: Professor Nei, obrigada pela oportunidade de contar a minha história de luta, superação e gratidão. Sobre as fotos:  a primeira representa o bom humor diante do desafio de ficar careca junto com meu filho. A segunda foto o otimismo, a alegria de viver. A terceira representa força, superação. A quarta e quinta participação na caminhada rosa junto com milha filha e uma grande amiga que me ajudou na época. A sexta foto traz o meu trabalho de professora educadora. E a última expressa gratidão e traz a mensagem principal da campanha: PREVENÇÃO!

Ensino remoto: narrativa a ser desconstruída

“A escola invadiu nossas casas, ‘desacomodou’ alguns
‘cômodos’ e espaços; continuamente nos desafia,
nos colocando em crise, mas, dentro de nossa alma
sobrevive questionando e dando
sentido para o existir docente”.



A segunda quinzena de Março deste inusitado 2020 marca a história docente, pois, deu início ao “isolamento” social no Brasil e a diversas iniciativas para manutenção de vínculos entre estudantes e escolas, digo isso entendendo que a prioridade deste tempo não deveria consistir na oferta de conteúdos para vencer planejamentos e “cumprir com a tarefa letiva”.

Quem de nós podia prever os desafios deste tempo?

Não era para ser assim.

Quem se preparou para um ensino remoto via plataforma Google Classroom adotado pela rede estadual? Não prevemos, pois a vida é uma experiência inédita, o que segue é uma tentativa de registro da práxis, cujo objetivo é significar, repensar, redirecionar e compreender as implicâncias políticas que trasbordam desta realidade.

Estando em “isolamento” e impossibilitados de frequentar o espaço geográfico da escola, os estudantes precisaram de meios para manutenção dos vínculos com a instituição e com as aprendizagens próprias de cada componente curricular e de cada segmento.

O uso da tecnologia que até então era “negligenciado” por grande parte das instituições foi proposto como principal alternativa.

Tecnologias são aliadas da educação.

Não demonizamos as tecnologias e ferramentas do mundo digital, mas é nosso dever questionar a eficácia do que se convencionou chamar de ensino remoto.

Observando as porcentagens baixíssimas das devolutivas dos estudantes, precisamos avançar na concepção política que gera e alimenta o ensino remoto na rede estadual de ensino.

Todas as famílias possuem acesso e dominam o uso das ferramentas digitais? Qual é o significado real da exigência desta modalidade de ensino para os professores que precisam aprender em caráter de urgência o uso de diversas ferramentas, a aplicação de metodologias ativas para o meio digital, submissão às burocracias que excedem a carga horária de contratados e concursados? Qual é a concepção de educação que perpassa as ações dos gestores públicos?

Para mencionar um exemplo, em uma turma de 33 alunos, contei o máximo de 7 devolutivas. As participações dos estudantes no Google Meet são desanimadoras, em algumas turmas dou aula para um estudante, em outras dois, quatro, seis.

Em uma das escolas que trabalho fui orientado a, na ausência do estudante, gravar uma vídeo aula e disponibilizar no Google Classroom, então o que deveria ser uma experiência interativa em tempo real “síncrona” converte-se em uma aula “assíncrona” que “talvez” será acessada.

As porcentagens de acesso e devolutiva de atividades são computadas e registradas, o que significa mais um dos muitos trabalhos burocráticos que competem aos docentes, há muito sobrecarregados e silenciados pelo sistema que desconsidera a condição de sujeito dos docentes da rede.

Considerando as porcentagens e a experiência que temos vivenciado, entendemos que o ensino remoto não responde as exigências da equidade no acesso ao ensino público, visto que a inclusão digital deveria anteceder o todo da proposta; também é necessário pensar que essa forma de “fazer docente” compromete a qualidade do ensino/ aprendizagem, o destitui de sua tarefa política que consiste em oferecer uma sólida formação humana e cidadã, esperança que pode transformar a vida de muitos adolescentes e jovens.

“As diferenças que assolam o ensino público no Brasil ficaram ainda mais evidentes e, especificamente no RS, evidenciaram o descaso que a escola pública está imersa. Enquanto professora da rede estadual de Passo Fundo, me vi tendo que reinventar o modo de dar aula com as ferramentas tecnológicas disponíveis e compartilhar uma angústia coletiva de uma categoria que não tem o devido reconhecimento de grande parte da sociedade e muito menos dos governantes”. (Eduarda Dal Pozzo, professora de Língua Portuguesa e Literatura). Leia mais aqui.

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