Início Site Página 145

Vacina contra a ignorância

Desconfianças ideológicas,
assentadas apenas sobre a nacionalidade da vacina,
são inoportunas, bem como as disputas políticas internas. 
O que deve prevalecer é a luz da ciência.


A vitória de Bolsonaro foi recebida com justificada  aversão pela inteligência brasileira. Parecia impossível que uma junção do que há de mais deletério em nosso país se reunisse para levar alguém como ele  ao poder.

Mas, como escreveu o jornalista Marcos Coimbra, foi o que aconteceu aqui: juntou-se o pior da população com o pior  do empresariado, da política e da religião, em torno de uma figura  caricata.

Nazistas, supremacistas, terraplanistas, fanáticos, pervertidos, militaristas, adoradores de armas saíram do armário, levando  de  roldão  alguns  incautos.

O resultado é o que temos assistido nestes  últimos meses:  o que  era indigno  tornou-se  repugnante.  As atitudes de um político medíocre  começaram junto  com o governo, quando o presidente, recém eleito, comentou  que um de seus  filhos  poderia  ser o embaixador  em Washington. A partir de   então, os vexames multiplicaram-se.

A última estultice de Bolsonaro foi o cancelamento de forma impulsiva da compra da vacina chinesa para a covid-19, que ecoa  a irracionalidade de quem ocupa  a presidência.

O argumento foi de que a China é uma ditadura. Esquece Bolsonaro que nos primeiros nove meses  do ano, o Brasil vendeu  aos chineses  53,4 bilhões de  dólares  em produtos  nacionais, obtendo um ganho  de  29, 1 bilhões  no comércio com os chineses.  Aí não é ditadura?

A decisão, na verdade, evidencia o desprezo à vida dos brasileiros.  A preocupação de Bolsonaro resume-se na reeleição já que a decisão foi tomada diante da possibilidade de beneficiar João Dória. Assim, irresponsavelmente, Bolsonaro queimou a esperança de  compra de uma  das  vacinas mais  promissoras nos testes.

Desconfianças ideológicas, assentadas apenas sobre a nacionalidade da vacina, são inoportunas, bem como as disputas políticas internas.  O que deve prevalecer é a luz da ciência.

O governo enfatiza também que a imunização  contra  a Covid-19 não  será obrigatória.  Aí surge a questão do princípio do dano, defendido por   John Stuart Mill.  Isto é, se eu não me vacino estarei prejudicando  os  demais.

Em 1904, ocorreu entre nós a Revolta  da Vacina, durante o governo de Rodrigues Alves. A população, diante da obrigatoriedade da vacinação contra a varíola, provocou uma grande rebelião no Rio de Janeiro que acabou em grande violência. No final, a obrigatoriedade prevaleceu.  Vamos ter a repetição do  que houve no século  passado, agora  como farsa?

Diante dos vexames, estultices, da irracionalidade de um presidente que  se mostra um verdadeiro lunático, creio que precisamos urgentemente  de uma vacina  contra a ignorância.

Em 09/05/2020 já escrevíamos sobre como era previsível a situação da pandemia no Brasil com o governo Bolsonaro. Como pedir a uma parcela de 35 milhões de brasileiros que não têm água potável nem sequer  para lavar  as mãos  que se proteja do vírus? Como exigir que 13 milhões que vivem abaixo da extrema pobreza que mantenham padrões de higiene para se prevenir do covid-19? Beira ao deboche. Fica claro quem morrerá: poucos ricos e muitos pobres. E daí, dirá o presidente, cuja política econômica é voltada para os interesses da elite. Leia mais aqui.

A fábrica de embuste

Há uma sequência de propostas bisonhas
intercaladas ao longo do tempo no Governo Bolsonaro
que criaram cortinas de fumaça quando surgem
problemas mais graves no país.


As políticas que se fortaleceram como dever de estado, ao longo dos anos, sofrem estranhos abalos. A forma de ataque a conquistas populares é atropelar tudo com aguilhões de falso comando, como se o povo fosse uma tropa animal, sem dono. Estamos tentando interpretar o modelo insinuante adotado pela gestão federal bolsonarista, visando consolidar medidas administrativas tipo “passar e boiada”.

Alguns súditos são escalados no governo para aplicarem o método de admissibilidade de medidas nitidamente esdrúxulas. Ao presidente é reservado o momento de confirmar, se não houver reação contrária. As tentativas de contrariar o bom senso decorrem periodicamente.

No começo, foi o próprio presidente que se arvorou julgador implacável do papel da imprensa. Saiu chutando o balde tentando impor autoridade de julgador absoluto contra jornalistas que faziam perguntas que julgava intoleráveis. Foram episódios de grosseria, mirados na truculência de Trump, ofendendo o ritual dito liturgia palaciana. Pergunta questionadora era logo fulminada com resposta ou gesto ríspido, aplaudido pelo coreto selecionado previamente de adeptos.

Bolsonaro passou a julgar veículos de comunicação e repórteres visando emplacar estilo de julgador sumário. Depois vieram ministros e assessores dizendo coisas estranhas ao pensamento democrático. Os mais tóxicos, que não resistiram. O propósito era consolidar o dueto “Bolsonaro e Deus”, que foi logo mostrando o lado perverso da modalidade tentada. E se Deus cochilasse ficaria em segundo lugar.

Agora veio a ideia de desmontar o SUS e privatizá-lo. O decreto presidencial foi abortado diante da escancarada temeridade perante a mais concreta organização de estado, o SUS.

O ministro da Fazenda já acenou com a sugestão de formar recursos para o programa Bolsa Família, ou coisa parecida, mediante suspensão de atualização aos rendimentos dos aposentados. Bolsonaro sabia que isso seria dito. Preferiu esperar a repercussão que repeliu a ideia. Então pronunciou-se como quem fora pego de surpresa e disse que não tocaria na renda dos aposentados. Apareceu como o salvador da pátria. Jogada de marketing.

Houve a sequência de propostas bisonhas intercaladas ao longo do tempo que criaram cortinas de fumaça quando surgem problemas mais graves no país. Atualmente, o plantão de asneiras é mantido pelo ministro do Meio Ambiente que claramente desdenha ideais preservacionistas e defende desmatamento. A perspicácia do vice-presidente Mourão consertou em parte o que seria catástrofe ambiental com as queimadas na Amazônia.

Ricardo Sales ocupou-se em criar narrativas absurdas sobre as causas dos sinistros. Assim foi no derramamento de petróleo que danificou nossas águas, e nos incêndios das matas. O ataque foi generalizado às ONGs, à esquerda, aos comunistas, enfim, em formas provocantes e solertes. No mesmo rumo, a propositada omissão diante da escancarada realidade que exige investigação e ação governamental. Leia mais.

Neste momento, o pódio da inconsequência democrática é ostentação para o líder governista Ricardo Barros, que propõe uma nova constituinte. Em sua argumentação alega o direito a pegar carona na luta chilena, ainda sob uma constituição emanada no governo ditatorial de Pinochet. Infeliz comparação.

O Brasil consagrou sua Carta Magna em 88 e vem mantendo este pacto legal, com muita luta. Foi a mais concreta obra democrática para redimir-se dos horrores da ditadura de 64.

O líder governista apresenta seus motivos de desconstituição, apregoando uma nova constituinte, num momento de enorme crise nacional, que não oferece serenidade sequer para discutir a possibilidade de uma nova Constituição. Diz que é preciso reduzir direitos e criar deveres. São meras palavras sem lógica e sem essência, que mais se assemelham ao embuste ideológico.

Um comprimido por dia

Em caso de infelicidade,
tome fluoxetina ou similares.


Vivemos em um mundo obcecado pelo trabalho, no qual o ócio é visto como um inimigo a ser combatido. Deve-se ter vergonha do prazer e da inércia. O simples e tão espontâneo ato de não fazer nada se transforma em motivo de escândalo. Devemos não apenas negar, mas também esconder nossos mais primitivos desejos, mesmo quando eles não fazem mal algum.

A verdadeira ofensa de nosso tempo é não ser “produtivo”, não colaborar, entusiasticamente, com o sistema.

Valorizamos a vontade, o esforço, a energia — tudo que é relacionado ao poder. Para nós, poder e vida são análogos. É preciso ser sempre o melhor, o mais alto, o mais forte, o mais rápido. Se fôssemos deuses, ainda assim não estaríamos contentes.

Em meio a esse jogo fanático, esquecemos os dois principais objetivos existentes por trás de todos os outros: o prazer e a felicidade.

Colocamos um preço — alto! — no amor e em todos os seus derivados. Vendemos a vida a prestações e damos a isso o nome de trabalho. Acreditamo-nos livres, mas, quase todos os dias, somos obrigados a realizar tarefas com as quais não concordamos ou das quais não gostamos.

Somos animais de circo, obrigados não apenas a trabalhar para o divertimento do público, mas a também fingir amor pelo cativeiro. Não se deve criticar, pensar, ver de um modo diferente. É preciso fazer de tudo para não ser “subversivo”.

Ouça as mesmas músicas. Sorria das mesmas coisas. Finja estar contente em seu trabalho. Vista a camisa. Não se queixe e não critique. Sorria. Seja útil. Um imbecil útil, obcecado por uma ilusão de sucesso, hipnotizado por frases de livros de autoajuda.

Em caso de infelicidade, tome fluoxetina ou similares.



Publicado, originalmente, no blog do autor.

Leonardo Boff e Marcelo Barros lançam interessantes livros

LEONARDO BOFF

Acaba de ser lançado pela Editora Vozes de Petrópolis o meu livro: “O Covid-19: um contra-ataque da Terra contra a Humanidade”. Trata-se de uma reflexão sobre o significado da irrupção do coronavírus e quais lições devemos tirar dele. Em primeiro lugar procuro contextualizar o Covid-19. Ele não pode ser visto isoladamente nem ser abordado apenas pela medicina, pela técnica, pelo conjunto dos insumos e pela busca desenfreada de uma vacina eficaz.


Ele não irrompeu aleatoriamente. Ele só pode ser adequadamente entendido a partir da sistemática exploração e devastação que as sociedades humanas levaram a efeito nos últimos três séculos contra a natureza e a Mãe Terra. Esta é, segundo um dado científico contemporâneo, é um Super Ente vivo que, de forma sistêmica, organiza todos os elementos e fatores, químicos, físicos, informacionais e energéticos, numa palavra, ecológicos para continuar viva, auto-reproduzir-se como viva e gerar a diversidade de vidas sobre seu solo.

Ora, esse processo natural foi profundamente afetado com a intrusão dos sistemas produtivos de exploração e de produção, visando mais e mais vantagens materiais para os seres humanas. Especialmente ganhou forma, hoje mundializada, pelo modo de produção capitalista. Este trata a Terra de forma meramente utilitarista, sem nenhum respeito a seu valor intrínseco, apenas como uma espécie de baú cheio de recursos (bens e serviços, bondades na linguagem do andinos) à disposição do ser humano. Essa intrusão foi tão violenta e crescente que encostamos nos limites da Mãe Terra.

Como todo organismo vivo que ela é, sente os golpes e começa a se defender. Envia-nos sinais que devem ser interpretados: o aquecimento global, a erosão da biodiversidade, a escassez de água potável, a desertificação  crescente. E já há anos enviou-nos uma gama de vírus, como a zika, o ebola, a chicungunha, os vários tipos do vírus SARS. O Coronavírus é uma derivação do SARS. Pela primeira vez na história, este vírus afetou todo o planeta. E no planeta apenas os seres humanos, não nossos cães e gatos e outros animais domésticos ou da natureza. O Covid-19 está dizimando duramente vidas humanas, passando já de um milhão e no Brasil mais de 140 mil vítimas.

Atrás destes números se esconde uma via-sacra de sofrimento de milhões de pessoas, maridos, esposas, filhos, filhas, parentes, amigos e conhecidos. Somos atualmente uma humanidade crucificada. E devemos baixá-la da cruz e ressuscitá-la.

O livro mostra que se tivéssemos seguido os mantras do sistema dominante, o industrialista devastador: o lucro, a competição, o individualismo, a primazia do mercado, a diminuição do Estado e a completa falta de cuidado das vidas humanas e da natureza, estaríamos agora sob um grande risco acerca de nosso futuro comum. O que nos está salvando são os valores e princípios ausentes no sistema de produção e de cultura que criou: a centralidade da vida em vez do lucro, a solidariedade em vez da competição, a interdependência de todos em vez do individualismo, o cuidado de uns e de  outros, da natureza e da Mãe Terra em vez da exploração,  o Estado adequadamente abastecido para atender demandas humanas e emergências e não  o mercado puro e simples com sua ferocidade.

O livro aborda estas questões e procura enfatizar o significado do confinamento social e da distância de conglomerações. Seria uma espécie de retiro existencial para perguntarmo-nos: afinal o que conta, a vida ou o lucro, a economia ou a salvaguarda da biodiversidade? Nas resposta a estas questões se oculta a exigência de uma mudança de rumo, a inauguração de uma outro paradigma, vale dizer, de um outro modo de habitar a Casa Comum, amigo da vida, cheio de respeito, de solidariedade e de cuidado.

O pior que nos poderia acontecer, seria voltar ao que era antes e reproduzir a taxa de altíssima iniquidade social e ecológica, exatamente esta que ocasionou um contra-ataque da Mãe Terra contra a humanidade. Ou mudamos ou vamos encontro do pior e eventualmente de vírus ainda mais letais que dizimariam profundamente a espécie humana.

O livro será continuado por outro: “As dores do parto da Mãe Terra: as perspectives de um outro tipo de humanidade” a sair pelo final do ano.

Não anunciamos otimismo mas esperança, aquele motor interno a cada pessoa e aos processos sociais e vitais que nos dá coragem para enfrentar crises e emergências planetárias e encontrar saídas salvadoras.

Animam-nos as palavras da Revelação que nos dizem: “Deus criou todas as coisas com amor…pois Ele é o apaixonado amante da vida”. (Sabedoria 11,26). Um Deus assim apaixonado não permitirá que nossa vida humana, já assumida pelo Verbo e pelo Espírito Santo, tenham um fim trágico. Vamos dar um salto para cima e vamos levar avante o nosso penoso e criativo processo civilizatório e vamos ainda brilhar.


MARCELO BARROS

Heloísa Périssé conversa com os autores Henrique Vieira e Marcelo Barros sobre “O monge e o pastor”, que acaba de chegar às livrarias pela editora Objetiva.

No livro, um monge beneditino e um pastor evangélico trocam mensagens durante a quarentena abordando temas como espiritualidade, fé, engajamento político e o medo da morte. Deste fraterno diálogo surgem preciosas reflexões que apontam caminhos para um futuro mais solidário.

Acesse o link para ter acesso ao debate com os autores:

Mortes prematuras de jovens abortam sonhos

O tempo da escola é um tempo singular,
justamente pela semeadura dos sonhos e
pela mistura das expectativas juvenis
de um mundo melhor.


Uma triste coincidência deixa em luto uma das maiores escolas de Ensino Médio na cidade de Passo Fundo: o Instituto Estadual Cecy Leite Costa. Em menos de uma semana, 04 jovens morrem, de forma trágica e inesperada, e marcam a todos por sua passagem em razão de suas trajetórias únicas neste educandário. Seus nomes são: Emily, Guilherme, Nicoli e Marco.

A morte de alguém deixa vazios e resgata as mais singelas e importantes lembranças, mesmo que sejam breves. Neste momento, resgatamos as histórias e as trajetórias destes estudantes com os quais compartilhamos dois ou três anos de intensa convivência, seja como colegas ou como professores ou professoras.

Diga-se, de forma oportuna, que a escola é sempre o lugar das memórias mais ricas na vida da gente pela convivência saudável e organizada entre os jovens, tutelados pelos adultos, seus professores e professoras. O tempo da escola é um tempo singular, justamente pela semeadura dos sonhos e pela mistura das expectativas juvenis de um mundo melhor.

Todo o jovem tem este intrínseco desejo de mudança do mundo, o que, às vezes, rotulamos, indevidamente, teimosia, birra ou aborrescência. Na verdade, a rebeldia é a base da transformação do mundo, historicamente impulsionada pelas novas gerações.

A ausência da presença física destes queridos estudantes remete agora para necessárias reflexões em torno do sentido da vida que todos precisamos construir para que as suas e a nossa passagem não sejam em vão. Fazer a memória dos entes queridos é olhar para a história deles e “pinçar” ensinamentos e lições para que continuemos vivendo melhores, aproveitando tudo de bom que a vida pode nos dar.

Coincidência é que estes quatro jovens saíram para se divertir e, no meio do caminho, perderam suas vidas. Fizeram como o fazem milhares de outros, em busca de diversão e alegria, mesmo em tempos que ainda o bom senso cobra cuidados com aglomerações, em função da pandemia. Quiseram tão somente a alegria e a diversão, justamente porque estas promovem a vida mais intensamente.

Estes tristes fatos que chocaram a comunidade escolar do Instituto Estadual Cecy Leite Costa, alertam a todos e todas que a vida, nosso maior e precioso dom, deve sempre ser cuidada, protegida e preservada, na tentativa de minimizar os riscos que atentam contra ela. Afinal, morrer jovem é abortar os sonhos mais precoces.  Apontam como é triste para pais e mães, professores e professoras enterrarem jovens estudantes, pois estes são como uma extensão da vida da gente. Professores e professoras vivem os sonhos com os estudantes, projetam-se também na vida deles.

Quero homenagear a juventude e fazer memória dos jovens que, precocemente, deixaram de sonhar o seu e o nosso mundo, através de uma citação do poeta e músico Gonzaguinha e através de uma breve reflexão sobre as características da juventude, quase sempre incompreendida na sociedade.

“Eu acredito é na rapaziada/ Que segue em frente e segura o rojão
Eu ponho fé é na fé da moçada/
Que não foge da fera e enfrenta o leão”. (Gonzaguinha)

“Ao longo dos tempos, os jovens resistem e mantêm acesa a ideia de mudar o mundo. Desejam, profundamente, que ideais e mundo sejam uma nota só. Seus sonhos projetam ideias em teimosia.

Os jovens sempre gostaram de desafiar os adultos, embora nunca tenham dispensado o apoio sincero e franco, a escuta compreensiva e a orientação bem intencionada dos mais velhos. O inconformismo que caracteriza os jovens é a força renovadora que move o mundo, mas também algo que incomoda os já acomodados.

Acomodados, despreparados ou desconhecendo a realidade do universo juvenil, muitos desqualificam a juventude, vendo-a como um incômodo ou como uma fase de passageira rebeldia. Ao invés de emancipar, desejam controlar, dominar, moralizar.

A rebeldia é o sinal de que a juventude continua sadia, cumprindo com o seu papel de provocadora de mudanças. A rebeldia, aos olhos da filosofia, é atitude de quem quer ser sujeito de sua história, não seu coadjuvante. A filosofia, como o inconformismo, motiva cada um na busca de seus próprios caminhos. Se os jovens mantiverem senso de direção, terão o poder de mover mundos.

O fato é que os jovens de hoje vivem o seu tempo a partir de suas percepções, vivências e leituras. Seremos capazes de compreendê-los em nosso momento histórico? Teremos disposição para o diálogo e a escuta, buscando entender os desejos, sonhos, medos e angústias que os movem?”

Lições da Bolívia para a esquerda depressiva

O esquerdista descalibrado,
consumido pela depressão pós-golpe,
não é apenas um chato,
é um dos candidatos a imbecil do século 21.


Uma certa esquerda depressiva brasileira não acreditava na possibilidade de vitória de Luis Arce na Bolívia. Alguns continuam não acreditando.

O Movimento ao Socialismo venceu na Bolívia porque resistiu desde a deflagração do golpe de novembro do ano passado. E não deu ouvidos aos que, ao invés de irem à luta, também lá devem ter feito profundas reflexões sobre o fim da democracia.

A direita mundial conseguiu aperfeiçoar os mecanismos de apropriação da democracia. Desde o processo de representação, até o uso de mordaças nas instituições, quando não do aparelhamento explícito do Estado. E se apoderou de parte das mentes das esquerdas.

O fascismo se deu conta de que não precisa de controles absolutos, pela força, para impor suas vontades. O Brasil é um exemplo.

Mas às vezes os controles falham. E só vacilam porque encontram resistência dentro do próprio jogo da democracia que parte da esquerda subestima.

Na Bolívia, a direita imaginou que o golpe abriria caminho para mais um período de exceção, até que alguém da própria turma alertou: é possível tomar conta de tudo, como a ditadura fez entre 1964 e 1982, e pelo voto.

A direita boliviana achou que manteria o poder numa eleição. Acabou sendo atropelada pelo ritmo imposto pela resistência, que exigiu eleições logo, e perdeu a gestão da crise que havia criado.

A esquerda boliviana venceu a eleição porque tem uma base de insubordinação que não temos. Aqui, nós tombamos resignados com o golpe de agosto de 2016.

Ensaios de reação nas ruas ocorreram por conta das exceções de alguns bravos. O Brasil submergiu ao golpe, ao lavajatismo e, mais tarde, ao bolsonarismo.

O Congresso, com o Supremo e com tudo, se submete aos conchavos e desatinos de Bolsonaro porque não há vozes suficientes para contrariá-lo. O Congresso controlado, mais do que o governo, é a expressão dos feitos perversos do golpe.

Bolsonaro militarizou o governo, blefou com o golpe, recuou, passou a andar de braços dados com os que ameaçava e assumiu com o centrão o controle de quase tudo.

O mais inseguro (porque protegido pelos militares) dos governantes eleitos segue adiante. O mais atrapalhado, o mais incompetente, o mais ressentido é fortalecido pela própria incapacidade de reação.

E aí entra a contribuição dos depressivos. Não são os profissionais da política. São a claque amadora, de soturnas vozes envelhecidas. A mesma que duvidava da soltura de Lula e da sua sobrevivência política.

Eles estão nas redes sociais com o mesmo ímpeto da direita. Mas a direita empurra os seus para cima, e a esquerda depressiva empurra os dela para baixo.

Essa esquerda ataca até candidatos da própria esquerda às prefeituras. Só para parecer inteligente e antenada.

O esquerdista descalibrado, consumido pela depressão pós-golpe, não é apenas um chato, é um dos candidatos a imbecil do século 21.



*Publicado em 23/10/2020, no Blog do Moisés Mendes.

Tempo de refletir e discutir política

Enquanto nos omitimos em participar
(tomar parte) na política, outros o fazem por nós.


Estamos em campanha eleitoral e, a partir da nossa fé e compromisso de cidadãos, devemos nos envolver neste processo, mesmo não sendo candidatos a cargos eletivos, exercendo o direito de todo o cidadão domiciliado no Brasil.

Nosso envolvimento será profundo através da escuta, discernimento e escolha dos representantes, uma vez que o voto é uma forma de promover o bem comum, finalidade da política. Desta campanha depende o futuro legislativo e executivo dos municípios que terão em 2021 novos vereadores e prefeitos.

Lembremos que é um debate importante pelo momento decisório que se avizinha. Entretanto, não está desconectado da necessidade de constante discussão política, o que foi marcante na sociedade grega, de onde se origina o termo (pólis – cidade), que diz respeito à arte de governar a cidade. Infelizmente, ainda reduzimos a política apenas ao período pré-eleitoral. Seu sentido é mais amplo e profundo.

A política está em tudo e muitas coisas dependem da política. Diz respeito ao cuidado e proteção da vida de todos. Logo, não podemos nos omitir em participar da política.

O fundamento dessa participação é uma expressão sugerida pelo Papa Pio XI (1857-1939), referenciada tanto pelo Papa São Paulo VI (1897-1978) e, também, pelo Papa Francisco que define a política como “a forma mais sublime de caridade porque busca o bem comum” (EG 174).

Infelizmente, por parte de muitos cristãos e a partir de um escrúpulo equivocado, buscou-se fugir do debate e da participação política. Afirma-se de forma errada que o “bom cristão” não deve se envolver com política. Está no senso comum das pessoas a desculpa que “não se metem em política porque ela é suja”. Contudo, isto é um equívoco ainda não superado e que traz muitos malefícios. Enquanto nos omitimos em participar (tomar parte) na política, outros o fazem por nós.

A política, como tema de debate e de ação, precisa fazer parte do nosso cotidiano. É responsabilidade maior dos cristãos que seguem o homem de Nazaré, o Filho de Deus. Ele, politicamente, começou a sua missão na Galileia, contexto de periferia, e não em Jerusalém, centro político, religioso e econômico da Palestina. Ali estava uma decisão política de Jesus a qual ele assumiu até as últimas consequências, assim como os seus desdobramentos. Politicamente, Ele se pôs em diálogo com os diferentes grupos sociais, contudo, a partir de um critério: o Reino de Deus e sua justiça (Mt 3,15; 4,17).

Em fidelidade a Jesus e ao Reino por Ele anunciado a Igreja compreende a necessidade do agir político.

Fundamenta este princípio no Compêndio de Doutrina Social publicado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz (2004) e, anteriormente, nas diversas manifestações dos Papas em exortações e encíclicas.

Contudo, é consenso a orientação para o não envolvimento, especialmente, dos ministros ordenados em cargos de poder nas diferentes esferas de Estado. O agir da Igreja em sociedade, na qual atua a partir do princípio da fé cristã, se dá na esfera civil.

A Constituição Pastoral Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, sustenta este princípio ao afirmar: “A Igreja em razão da sua finalidade e competência, de modo algum se confunde com a comunidade política e nem está ligada a nenhum sistema político, é ao mesmo tempo sinal e salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana” (GS 76).

A Igreja também defende a necessidade do fortalecimento da educação civil e política, para que todos possam desempenhar o seu papel na vida da comunidade política (cf. GS 75).

O agir político do cristão compreende a luta contra a injustiça, a intolerância ou a opressão; volta-se ao bem de todos com sinceridade e retidão e jamais em vista de benefícios particulares ou grupais.

A política é um instrumento importante do agir cristão. Devemos compreender este exercício como direito e dever. É um processo permanente de participação em vista do bem comum, que adquire especial relevância nestes tempos de tomada de decisões.

 

O ensino remoto e os alunos especiais

Se as pesquisas apontam que o ensino remoto
está prejudicando a forma como os alunos compreendem
os conteúdos didáticos, imagine aqueles alunos especiais
que não ouvem, não veem e nem conseguem
aprender sem o auxílio do professor presencialmente.


Desde o início da pandemia, nosso ensino tem passado por grandes transformações. São professores se esforçando para aprenderem a dominar as novas tecnologias, são alunos de um lado procurando se concentrar diante das telas dos computadores durante quase cinco horas ininterruptas e são escolas fazendo de tudo para oferecerem o melhor possível à comunidade escolar. No entanto, uma parcela dessa comunidade tem sido parcialmente esquecida: os alunos especiais. Sim, são eles os mais prejudicados com o ensino remoto.

A distância por si só já nos traz sérios problemas de comunicação, imagine um deficiente auditivo assistir as aulas pelo computador sem intérprete e mesmo que haja o intérprete, o que na maioria das escolas do Brasil quase não existe muitas vezes a conexão da internet atrapalha essa comunicação com travamentos, luminosidade e tantos outros problemas que acarretam na dificuldade cada vez maior do deficiente auditivo ter o seu ensino-aprendizagem garantido. Ele até se esforça e muito para compreender o que está sendo ensinado, mas nem sempre consegue.

Necessitamos olhar com mais cuidado para as diversas deficiências que têm os nossos alunos. Aqui, refiro-me ao deficiente auditivo, mas também temos aqueles alunos com déficit de atenção, autistas, deficientes visuais e tantas outras deficiências que já conseguem ser bem cuidadas nas salas de aulas presenciais, mas no ensino remoto como tudo foi nos colocado de forma rápida e sem tempo para elaboração de planejamento parece que esquecemos dessas pessoas especiais que tanto necessitam de cuidados.

 Quando falo de cuidados, não me refiro somente aos que vão dar condições de um ensino-aprendizagem adequado, mas cuidados também com as suas emoções, pois esses têm sempre mais dificuldades para se acostumarem com o novo. Se o novo nos afeta de maneira tal que chegamos a pensar em desistir de tudo, como vemos muitos alunos trancarem disciplinas porque não conseguem se adaptar ao ensino remoto, imagine para aquele aluno que não consegue acompanhar a aula porque a tela do computador trava e o intérprete fica congelado por minutos.

Devemos imediatamente nos preocuparmos com um ensino remoto que se preocupe com as pessoas especiais ou estaremos fadados a perdermos muitos alunos. A oferta de mais intérpretes às escolas, conexões com a internet mais velozes e computadores mais modernos poderia ser o caminho. Mas, também não adianta ter nada disso se os nossos professores não souberem o que vão ensinar a esses alunos remotamente. É preciso um plano de aula que consiga abranger a todos os alunos.

A deficiência física não deve em momento algum ser um empecilho para o ensino-aprendizagem, porém é o que estamos observando no ensino remoto. Alunos sendo desafiado pela distância com o professor, numa sala de aula virtual, onde o ensino tenta por várias formas se aproximar do real, mas falha e falha porque não temos tido um cuidado com esses alunos que tanto precisam de nós.

Conheço uma professora que tem um aluno com uma rara deficiência mental e física que mal consegue compreender o que é ensinado em sala de aula, esse aluno vai à escola para se socializar com os demais, porque assim estará exercitando o seu direito garantido por lei de estudar. A sua professora me contou que as aulas dele são diferentes das dos demais alunos. Ela não pode mandar vídeos para ele ver porque não entenderia nada. Então, ela prepara atividades por escrito e envia para escola que chama os pais ou responsáveis para levarem a atividade até o aluno. O problema é que na escola, a professora tem a didática e o cuidado de como ensinar a esse aluno, porém em casa ninguém sabe ou tem jeito de ensinar-lhe. Para os seus familiares ele só vai à escola para ficar junto das outras crianças, nunca aprenderá nada. Mas, para a professora dedicada ela sabe que, de uma certa forma, ele aprende quando ela o ajuda a fazer as tarefas mesmo com todas as dificuldades de movimentos físicos que ele tem devido a sua deficiência.

Vemos os nossos professores se reinventarem todos os dias para atenderem as necessidades dos seus mais diversos alunos, os cuidados sempre atentos ao ensino-aprendizagem, contudo nada pode ser feito se não tiverem apoio das coordenações e direções escolares. Tudo tem sido muito difícil para todos nós, e isso precisa ser entendido pelas autoridades educacionais. Não está sendo fácil se adaptar a um tipo de ensino que exige o tempo todo uma reinvenção de outros eus que nem sabíamos que existiam em nós.

De certa forma, conheço vários professores que estão se deslocando até as escolas para entregarem as atividades dos alunos especiais pessoalmente aos pais ou responsáveis, pois chegou-se a conclusão que o ensino remoto não consegue alcançar esses alunos no que diz respeito a aprendizagem.

Quando o professor mora perto da escola, não é do grupo de risco da covid-19 e pode se deslocar da sua casa com o mínimo de risco de ser infectado, ele faz isso para atender ao seu aluno especial que não consegue acompanhar o ensino remoto, ou seja, temos visto esforços por parte dos nossos professores e não são poucos desde que começamos nesse tipo de ensino, mas chegou um momento que exige maiores cuidados por parte dos gestores educacionais porque os alunos especiais estão ficando para trás no que diz respeito ao ensino-aprendizagem.

Se as pesquisas apontam que o ensino remoto está prejudicando a forma como os alunos compreendem os conteúdos didáticos, imagine aqueles alunos especiais que não ouvem, não veem e nem conseguem aprender sem o auxílio do professor presencialmente.

O cuidado à distância é completamente diferente do cuidado presencial. Se o aluno começar a chorar em sala de aula o professor poderá abraçar-lhe e acalmá-lo dizendo que logo tudo vai ficar bem, mas no ensino remoto ele só poderá dizer palavras que serão transformadas em bytes e viajarão por fibras ópticas.

As palavras nem sempre chegam com o mesmo carinho das palavras presenciais. Afinal, nós brasileiros gostamos de calor humano. E estamos acostumados a receber cuidados que ultrapassam conexões de alta velocidade, telas de computadores e sistemas de ensino que por mais bem elaborados que possam ser não nos tirarão nunca o desejo de sentir a presença do professor ao nosso lado.

Vamos criar um jeito de cuidar dos nossos alunos especiais com mais amor e mais respeito às suas dificuldades. Infelizmente, da minha turma de vinte alunos do curso de Inteligência Emocional que eu ministrava remotamente no início da pandemia, restam apenas três porque os demais não têm conexão wi-fi em casa, todos acessam pelos dados móveis dos seus aparelhos telefônicos sendo que um deles ficou de fora do curso porque é deficiente auditivo e não há intérprete para o curso. Eu perdi a minha turma no meio do curso. Sinto que perdi um pouco de mim em meio a tudo isso porque esforcei-me para oferecer esse curso aos meus alunos que tanto necessitam de cuidados emocionais.

Peço aos meus amigos professores que não desistam nunca dos seus alunos especiais e que busquem junto aos seus gestores e coordenadores uma forma de incluir esses mesmos alunos nas aulas remotas, apesar de todas as dificuldades que nós enfrentamos. Somos nós que salvamos todos os sonhos das nossas crianças e jovens. Continuemos salvando!

“Pela tela do computador abraço os meus alunos, mas um deles me diz que não é a mesma coisa do abraço presencial e manda um emoji triste para mim. Fico a pensar em quantos abraços deixei de dar nesses últimos cinco meses, em quantos desabafos e conselhos ficaram perdidos por trás da tela do meu computador”. Leia mais aqui.

O professor e a educação: olhares



“Vivemos tempos de grande ignorância, como um sintoma da falta de valorização da escola. Ademais, há a romantização e idealização do professor como alguém capaz de sacrifícios enormes para cumprir seu “ideal”. Essa visão romântica da educação aparece sobretudo nos meios de comunicação, mas é reflexo do pensamento de uma sociedade na qual o valor do professor não é o mesmo de outros profissionais.
(Valquiria Ponciano, arte-educadora e arteterapeuta)




“Há carência de momentos e espaços para escuta do professor. Somos professores por profissão e educadores por missão, mas, sobretudo, somos pessoas, gente. Se faz necessário que o professor assuma um protagonismo para além do espaço escolar. A educação constrói conhecimento, mas, também, socialização. O conto “O Mundo” de Eduardo Galeano ajuda a entender a humanidade dos professores e o reconhecimento das humanidades que existem em cada um de nós e em cada pessoa”.
(Nei Alberto Pies, professor e escritor).



Conheça o conto

“Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

— O mundo é isso — revelou — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo”.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio.
Publicado no Livro dos Abraços, editora LPM, 1991. Leia mais aqui.



“É necessária a politização do professor, entendendo a política como um exercício de cidadania. Não é aceitável vermos o Brasil com tantas riquezas sendo apropriadas por poucos e expropriadas por outros países do mundo. Fico preocupado com o futuro da profissão, uma vez que os jovens já não demonstram muito interesse em ser professores.  Isso é resultado de anos sem investimento, cuja relevância aparece apenas em véspera de eleições. O discurso da “escola sem partido” é, na verdade, o desejo de uma escola “sem consciência”.
(Mauro João Calliari, professor aposentado e membro da direção do CPERS).



“Educar é, sobretudo, ampliar a consciência da própria realidade e do mundo. A escola deve ser espaço de formação humana, de promoção de aprendizados, mas, sobretudo, fomentadora de autonomia e consciência de classe visando ao protagonismo do aluno como sujeito da história. Se o aluno tiver acesso à consciência de sua realidade política e social, ele saberá agir para a mudança da realidade. Esse papel não se efetiva sem a participação das famílias. As aulas à distância, durante a pandemia, relevaram como o meio familiar se reflete no aluno. É na família, onde a falta de políticas públicas revela suas consequências”.  
(Renata Piasentini da Rocha, professora de História na rede estadual).

***

O que os professores relatam em seus olhares, é o lado sensível da visão utilitarista e economicista da educação, em que o professor passa a ser apenas uma engrenagem da máquina, exigindo-se dele resultados quantificáveis, e onde os alunos são vistos como produtos de uma fábrica. A desvalorização da educação e do professor é uma estratégia do projeto neoliberal do mundo.

Os estados e os governos preferem investir na produção de conhecimentos úteis e determinados, reduzindo o papel da arte e das humanidades, seja porque não geram lucro aparente, seja porque promovem a consciência e o questionamento do status quo vigente.

Por isso, nestes tempos de escolhas políticas para a cidade, é necessário votarmos naqueles que se comprometem em ouvir e ser voz dos educadores, em partidos cujos princípios sejam comprometidos com as pessoas, com mudanças sociais, com igualdade e respeito à diversidade.

Prefeitos e vereadores devem estar comprometidos na implementação de políticas públicas amplas, as quais, de modo direto ou indireto, promovem a vida digna das famílias, refletindo na valorização dos docentes e no protagonismo dos alunos.

Não vote em quem não acredita na educação, na ciência, e quem acha que os educadores tem privilégios e são vagabundos. Um pouco de amor próprio e caldo de galinha só nos fortalecem!

O sonho em meu caminho: sou Daniel

Chegamos ao novo país!
A primeira expressão escutada
pela primeira vez na vida:
“Bem-vindos! Vocês estão salvos!”

“Sou Daniel, um anjo de nome. O anjo que auxilia a obter a misericórdia de Deus. Foi o que eu fiz quando minha mãezinha recebeu o diagnóstico de câncer, foi um dia de tempestade com sol brilhando. No lugar onde morávamos, não havia recurso. Larguei tudo e viajei em busca de solução. Minha mãe lutou bravamente, mas infelizmente ela partiu tão cedo. O céu se abriu para recebê-la. O céu rasgou o manto num vazio profundo. Meu coração se partiu aos pedaços. Acordei de um pesadelo, mas continuo nele.

O país, num ato paradoxal, sucumbiu. Rico, mas destruído. As dificuldades aumentaram. Não havia mais como ficar remando contra uma maré que não passava. O jeito era tentar acordar do pesadelo, pois ninguém espera que seu país vai falir. Devemos desbravar um sonho de uma vida melhor. Chile? Colômbia? Peru? Talvez pudesse ser a escolha correta já que a facilidade do idioma era um ponto positivo. Não! O meu sonho vai trilhar o caminho da Língua Portuguesa, um desafio maior.

Muitos dias percorremos, noites dormidas no mato, enfrentando os impropérios temporais e humanos para vislumbrar uma nova possibilidade. Dormimos eu e uma amiga Betsimel, na fronteira.  A voz já não saia mais, o cansaço era maior que a alma, maior que o sonho, a esperança era única no olhar. Trazíamos alguns pertences, porém foram deixados para trás, não havia mais força que permitisse carregar. Voltar não era mais possível, em virtude da distância e o momento passado pelo país. Um país onde a fome e o desespero imperavam.

Chegamos ao novo país! A primeira expressão escutada pela primeira vez na vida: “Bem-vindos! Vocês estão salvos!”. Isso deu um grande alívio, porém o desafio começava ali. Sobreviver! Como?

Dormi muitos dias num quarto com muitas pessoas na cidade de Boa Vista. Precisava fazer alguma coisa para tirar o sustento. Minha mente dizia: “Sei que sou formado Engenheiro Eletricista, porém o que me derem para fazer, eu faço. Era carnaval, aliás, a única coisa que sabia sobre o Brasil. Que festa linda!  Conheci uma amiga especial chamada Rosa Angélica. Eu e ela vendíamos doces que minha amiga Betcimel, venezuelana, fazia. Muitas vezes, saíamos nós três. Éramos inseparáveis: eu, Betcimel e Rosa. 

Num determinado dia, saímos para vender sonho. O sonho que sonhei. O sonho que eu vendo. O sonho de uma vida melhor. A festa glamorosa estava acontecendo. Parei com uma bandeja cheia de sonho, em frente uma grande televisão, pois me encantei com a beleza da festa que estava passando.  Logo, observo um homem que vinha em minha direção, parecia mais um gigante do que homem normal. Pronunciou uma expressão em forma de palavras que não entendi nada. Para mim estava tudo bem! “Sai daí seu venezuelano filha da puta! Aqui não é lugar de vender essas porcarias, saia daí”. Como não entendi nada, continuei onde estava. Foi quando um policial me chamou, fazendo sinal para que eu viesse até ele. Você sabe o que ele te disse? Não, eu não entendi. Ele disse que é pra você ir vender em outro lugar. Olhou-me com um ar de pena e disse: me dá todos esses sonhos que vou comprar de ti. E ainda disse para eu ficar com o troco. Meu coração não resistiu a emoção”.

***

Eu, Laercio, estou escrevendo através de um deslocamento que faço por meio das palavras que brotam de meu coração. Sou autor-mensageiro. Coração de irmão. Deslocamento de empatia. Não há como não verter lágrimas dos olhos, sangrar o coração e a alma. Posso dizer que uso uma técnica literária “life writing” originado do inglês, mas meus dedos digitam o que minha alma dita um esboço passado triste em português, para imaginar que isso possa ser ficção, mas é verossímil.

Muitas vezes, parece-me ouvir em espanhol, as palavras contadas por Daniel. Escrita de vida, vidas sofridas. Vidas marcadas por sonhos destruídos e reconstruídos. Life writing, escritas de vidas que buscam representar múltiplas vidas, muitos Danieis, muitas Rosas. Vidas que se cruzam. Como receber as pessoas em nossas vidas? Como perceber vidas que se cruzam? Por que há divisões territoriais? Por que a sociedade é assim? Quem tem essa propriedade pra dizer a outro ser humano que neste espaço ele não pode conviver? Para amenizar essas duras perguntas, escrevo sobre Daniel, que representa muitas histórias de vidas, que está no corpo, no coração, no sofrimento, no preconceito sofrido, na alma de muitas outros e que, muitas vezes, ninguém percebe os sons silenciosos que ecoam da alma sofrida. Eu tentei perceber.

Encarno novamente Daniel. Minha voz de escritor assume a empatia…

***

“Muitas dificuldades enfrentei em Boa Vista. Sempre passava por um mercado, vendendo sonho. Eu fiz amizade muito forte com Rosa Angélica e Bectimel, saímos vender juntos. O namorado de Bectimel sempre dizia para eu procurar trabalho no mercado onde ele trabalhava. Ofereci-me para trabalhar então, foi quando Cristian Fernandes, dono do mercado, me deu a oportunidade para trabalhar.

E, quando quebramos uma asa, quem poderá nos ajudar a voar? Sem dúvida, um anjo como Marília Azevedo. Que quando fiquei doente dos pulmões ela me levantou com duas asas e me levou ao hospital. Cuidou de mim como se cuida de um filho. Fiquei internado por quase 30 dias. Meu diagnóstico era complicado, pois tinha líquido em um dos pulmões. Marília era esposa de Cristian.

Eu sou anjo, porém preciso nominar que conheci os primeiros anjos brasileiros em Boa Vista. Eu fazia um curso de Português e a Professora me convidou, dizendo que num determinado dia haveria uma integração de culturas brasileiras e venezuelanas e era para ir participar porque nesse dia arrecadariam donativos para depois distribuir. Eu fui.

Num determinado momento lá na praça. Entrou na minha vida um clarão. Observei que as portas do universo se abriram. Escutei a música que me comoveu, era salsa. Meu corpo não se conteve. A bailar ele começou. Eu fui tomado pela música.  Nesse momento meus olhos focaram em duas gurias lindas. Acerquei-me e perguntei se uma delas não era a miss Venezuela. Era encantadora. Uma delas me disse que era Jô Oliveira, brasileira e a outra era Tati e que inclusive nem conhecia quem era a miss Venezuela. Ela era Jô, mas tinha o sobrenome de anjo. Um anjo que entrou na minha vida. Ajudou-me a tirar todos os meus documentos. Ela foi meu anjo. Anjos, muitas vezes, não têm asas, mas têm um coração enorme. Não obstante, ela foi e falou para Cristian para que me aceitasse para trabalhar. Eu disse que eu faria qualquer coisa. Disse que eu sabia limpar muito bem o chão. Aprendi muito. Fiquei um ano e pouco trabalhando no mercado. Neste local, inclusive, vivi uma aventura de um assalto.

Os anjos estavam por toda a parte. Parecia que minha vida se cercou de uma legião de anjos. Anjos que me pegaram pela mão e me ensinaram voar. Jhom e Maria foram alguns desses. Venezuelanos. Nunca tiveram carteira assinada. Viviam em Boa Vista. Sobreviviam. Vendiam picolé e brigadeiro, porém a vida estava difícil. E um dia me falaram. Nós precisamos ir embora, aqui não tem vida. Eu fiquei um pouco preocupado, pois para onde iriam? Jhom me respondeu dizendo que não sabia, mas ali não ficariam mais. “Olha, há um cadastro da ONU e igreja, para ajudar aos venezuelanos irem mais para dentro do Brasil. É para onde tem vaga. Pode ser para São Paulo, pode ser para Bahia, Mato Grosso, pode ser para qualquer estado. Tem mais uma coisa, Daniel. Nós vamos embora em 06 de novembro para o Rio Grande do Sul. Uma cidade Chamada Carazinho”.

A despedida foi dura. O coração chorava apertado. Os olhos emaranhados de lágrimas. Pois os meus amigos, meus anjos se foram”.

O tempo passou. Jhom e Maria foram os pioneiros a descobrir um mundo diferente do Sul do Brasil. Inclusive, tiveram uma bebê. A primeira Carazinhense. Eles sempre insistiam para que eu viesse para Carazinho. Nesse meio tempo, Cristian Fernandes vendeu o mercado e outros assumiram, que mais se configuraram uns exploradores de funcionários. Foi aí que me decidi mudar e arriscar. Quando eu pensava isso, começava a chorar, pois sabia que a distância dos meus parentes, do meu país ficava ainda maior.

O dia de dizer tchau a Boa vista chegou. Primeira parada do avião foi no Pará. Nesse lugar estavam muitos venezuelanos que não havia outra feição no olhar, senão a esperança de um porvir. Alegria era grande, porém muita nostalgia por deixarem muitos irmãos lutando naquela terra de meu Deus. O avião decola novamente. Nesse momento bateu o desespero. As nuvens que passavam pela asa do avião, eram parecidas com as lembranças das vivências. Os parentes que muito mais longe ficaram na Venezuela. Eu só chorava. Com 3 horas de voo chegamos a Brasília. Os comissários do avião foram muito amáveis com todos. Fizeram um banquete para receber-nos. Não precisamos comprar nem uma água. Confesso que passei meio tonto porque o avião era da aeronáutica e o piloto fazia manobras muito bruscas.

Brasília a Porto Alegre. Ao passo que aumentava a distância, meu coração exalava mais ainda uma saudade que doía, pois tinha plena certeza que para voltar era mais difícil. Naquele tempo minhas lágrimas já não escorriam mais, apenas meu coração doía, sabendo que meus parentes ficaram na Venezuela. Eu estava sozinho. Na chegada a Porto Alegre o Piloto disse: – Bem-vindo ao estado do melhor churrasco do mundo! Os repórteres cercaram. Muitas entrevistas. Um padre falou, não entendi nada. Separaram as mulheres e crianças num ônibus e homens em outro. Noutro dia partiria para a cidade que seria meu novo lar, Carazinho.

No dia seguinte, cheguei em Carazinho. Assim que cheguei, meu amigo Jhom ligou para o Jornal Diário da Manhã que fez uma entrevista comigo. A primeira impressão foi das melhores. Eu tinha na mente uma impressão não tão boa dos brasileiros, pois em Roraima as pessoas eram muito preconceituosas, algumas, nem todo mundo. Mas eu sentia. Aqui em Carazinho as pessoas são muito carinhosas.

Agradeço muito meus amigos Jhom e Maria que saíram de Roraima primeiro, fazendo o caminho e graças a eles eu estou aqui nesta cidade. Chegando na cidade, aproximaram-se mais dois anjos: Lorena e Sandra. Pois ouviram na rádio e logo deram jeito de cobertores, alimentos e casa para alugar. Elas sempre estão ao redor nos dando suporte. São como mães.

A abordagem é bem diferente e permite que a gente se sinta acolhido: “Tu é venezuelano? Que bom!” “A tua língua é muito linda!” Fomos até em uma festa gaúcha. “Ah, você é estrangeiro? Que bom!” Seja bem-vindo! E ainda continua sendo muito acolhedora.

E eu sou Daniel Vargas. Sou venezuelano. Sou engenheiro eletricista. Trabalho em Não-Me-Toque, na empresa Stara. Sou anjo que encontrei muitos anjos. Fiz o mesmo processo com outros conterrâneos meus. Sou anjo, mas muitas vezes nossas asas enfraquecem e precisamos que outros anjos nos ajudem a voar”.

“Yo soy  Laercio. Soy brasilero. Soy profesor.  No soy angel de nombre, pero ya fui angel para alguién. Ya tuve mi alas sin fuerzas para volar, fue por eso que he recebido muchos impulsos en mi vida de otros angeles. En este texto, he prestado mis alas, mi inteligencia, mi mente para organizar la historia del angel llamado Daniel. Me gustaría que esta historia fuera solo una ficción inventada por mi capacidad linguistica y literaria.  Que lástima! No es! Vidas que se cruzan. ¿Cómo recibimos las personas en nuestras vidas? ¿Cómo percibir cuando vidas se cruzan? La mia se cruzó con a la de Daniel. Muchas personas pasan por nuestras vidas y no dejan nada. Otras pasan por nuestras vidas y dejan lecciones de vida, que sirven para quedarnos más fuertes”.



Fotos: Arquivo pessoal/divulgação

Veja também