Início Site Página 145

O que o mangue pode ensinar às crianças?

No mangue, e a partir dele, as crianças podem aprender muitas coisas bacanas e serem instigadas a pensar de forma reflexiva sobre o cuidado com o planeta e a natureza.

Moro perto de um mangue bonito, desde minha infância. Foi nele onde aprendi a tornar-me mulher, sim, porque como disse a nossa filósofa Simone de Beauvoir, ninguém nasce mulher: é preciso uma força exterior, algo além de si, algo que vem do desconhecido, algo que surge do inquieto para tornar-se mulher além do que está escrito no registro civil.

O mangue me fez ser assim meio mulher desobediente às regras de uma sociedade que todos os dias me cobrava uma beleza física da qual eu não dispunha. Nunca aprendi a andar de salto alto porque meus pés cheios de calos e cortes se acostumaram a pisar na lama do mangue.

O meu mangue ainda resiste às ações humanas. Apesar das construções desenfreadas, do desmatamento, do aterramento e do lixo jogado todos os dias nas suas águas, ele resiste e me proporciona horinhas felizes onde eu posso poetizar vendo um caranguejo passear pelas suas raízes vermelhas, um chama-maré vir me desejar boa sorte ou um peixinho vir brincar comigo.

O meu mangue ainda tem vida e é nele onde renasço todos os dias quando o sol surge e corro para vê-lo se ainda está feliz, sim, porque ser feliz hoje em dia para o meu mangue é uma questão externa e vai além do que ele sente. O homem tem a felicidade do meu mangue nas suas mãos.

No mangue, as crianças podem aprender muitas coisas bacanas e serem instigadas a pensar de forma reflexiva sobre o cuidado com o planeta e a natureza. É preciso uma educação de respeito ao meio ambiente.

A educação ambiental inicia como educação da uma interioridade que gesta a sua comunhão com a exterioridade. E se faz consciência da pertença à teia da vida, em conduta amorosa e ativa, religando o cuidado de si ao cuidado com o derredor. Quem ama, cuida. Não porque necessita cuidar, mas porque deseja”. (Sérgio Augusto Sardi) Leia mais!

As nossas crianças precisam, urgentemente, saber que não se deve jogar lixo nas ruas e nem poluir os rios e mares com garrafas plásticas. Fico triste quando preciso entrar no meu mangue para tirar tanto lixo que as pessoas da minha comunidade jogam dentro dele. Tiro sacos e mais sacos de lixo todos os dias.

Vejo o mangue chorar com tanto lixo. Vejo a vida dos bichinhos serem perdidas por causa da poluição do lixo. Não podemos permitir que continuem invadindo o mangue dessa forma.

É importante que professores, pais e responsáveis ensinem às suas crianças que os mangues são ecossistemas que trazem muitas vidas frágeis. A fauna e a flora do mangue são importantes para a sustentabilidade da natureza.

Devemos educar desde cedo às crianças que moram próximas do mangue a não pescarem caranguejos fêmeas, também, pois poderemos contribuir para a extinção desses bichinhos. Também devemos ensinar às crianças que moram longe do mangue e até mesmo para aquelas que nunca conheceram um sobre a sua importância para as populações que moram em seu entorno de onde retiram os seus alimentos todos os dias.

Chamo atenção dos professores para conscientizarem os seus alunos a preservarem os mangues, pois são lugares onde existem muitas vidas e que se houver um desiquilíbrio ambiental corremos o risco de nunca mais vermos esses bichinhos passeando pela lama que hoje é suja e fétida devido a poluição que se instalou nesses locais onde antes eu podia passear de canoa com os meus pés descalços sem me preocupar de que me cortaria num caco de vidro.

Sim, o mangue está cheio de garrafas de vidro, de vasos sanitários velhos, de escombros e restos de materiais de construções. Quem está sujando o mangue? Nós, os humanos que reclamamos do calor, do tempo que ora esquenta ora esfria e nunca sabemos direito como vai ficar o dia. Por quê? Porque mexemos desenfreadamente na natureza.

Na infância, quando saía da escola a primeira coisa que eu fazia era correr para o meu mangue junto com o meu tio amado que me levava para passear de canoa. Havia muitos caranguejos naquele tempo no meu mangue, muitos camarões, muitos gaviões e urubus, alguns guaxinins e dezenas de chama-marés, lembro-me bem do tesoureiro que cortava as folhas do mangue para se alimentar.

Naquela época o mangue era enorme, parecia um outro mundo. Era um mundo só meu onde eu podia ser a sua princesinha. A coisa que eu mais gostava de fazer naquele passeio com o meu tio era cuidar dos caranguejos pequenos que não conseguiam subir nas raízes das plantas e eu, cuidadosamente, os ajudava a chegar lá no alto perto dos seus pais. Eu era a menina mais feliz do mundo no meu mangue.

Os professores podem ensinar aos seus alunos a como cuidarem do mangue através de vídeos, aulas passeio, ilustrações, poesias e tantos outros materiais que podem se tornar didáticos e ensinarem de uma forma lúdica a preservação desse ecossistema tão importante ao meio ambiente.

Sei que tem poucas poesias sobre o mangue para as criancinhas poderem assimilar com mais facilidade esse conhecimento, mas podemos mostrar para elas através de figuras dos bichinhos que vivem no mangue o quanto eles são importantes às nossas vidas. Do mangue muitas pessoas tiram os seus alimentos, e isso deve ser mostrado às crianças através da contação de histórias que envolvam marisqueiras e catadoras de caranguejos.

Tudo o que tem vida merece respeito. No mangue há uma diversidade de vidas. Os professores podem ensinar aos seus alunos através de vídeos como essas vidas surgem no mangue e o que elas significam para as nossas vivências.

Muitas vezes, a criança não sabe que o camarão que ela come nasceu num mangue ou que um bom goiamum comido numa barraca de praia veio do mangue também. É preciso educar a criança para preservar o mangue das ações humanas que cada vez mais estão o afetando. Se a criança puder fazer algo em prol da sua preservação já estará contribuindo para um mundo melhor e todos nós queremos que o mundo se torne melhor mesmo aqueles que acham fazerem algo quando na verdade só nos causam problemas desflorestando os nossos mangues para construírem casas dentro deles.

Na minha meninice, eu tinha um lugar na canoa do meu tio e um pequeno remo. Eu remava a canoa com os meus bracinhos frágeis e ia entrando mangue adentro à procura de dragões e unicórnios, mas me dava conta que ali existiam bichinhos mais especiais que precisavam da minha ajuda.

Vi, certa vez, um cardume de Tainhas pularem à frente da nossa canoa e quis pegar umas para mim. Eu sentia fome naqueles tempos, pois não tinha comida em casa. E o meu tio muito gentil pegou três Tainhas para eu almoçar naquele dia maravilhoso. Depois daquele dia, descobri que podia trazer comida para casa e alimentar a minha mãe e os meus três irmãozinhos menores. Eu tinha apenas oito anos e uma responsabilidade enorme pela frente.

No mangue, as crianças aprendem que se sujar faz bem à saúde. Aquela criança que vive presa dentro de casa e nunca brinca na areia corre sérios riscos de ter a sua imunidade baixa, ao contrário da criança que mora perto do mangue e se suja de lama, nada nas águas do rio, enfrenta o sol e a chuva para catar os seus caranguejos que se escondem dentro de buracos profundos. A mãozinha vai lá dentro do buraco e com jeito traz o bichinho para fora que servirá para o alimento do dia.

Não estou dizendo aqui que toda criança deva se sujar de lama para ser saudável, mas que um pouco de contato com a natureza propicia o desenvolvimento de um sistema imunológico muito mais forte para o corpo.

Crianças devem conhecer de perto a natureza. Se, desde cedo as crianças aprenderem que os mangues são locais de onde muitas famílias tiram os seus alimentos e precisam deles para continuarem vivendo, claro que elas terão cuidado de os preservarem, porque é desde a tenra idade que formamos o nosso espírito para o bem, ou seja, atentamos para as coisas que precisam de nós, da nossa compreensão e respeito.

Respeitar o mangue é uma questão de ética e não só ambiental, por isso esse respeito deve ser trabalhado de forma interdisciplinar.

Os professores que adotam nas suas aulas materiais didáticos de preservação ao meio ambiente também podem incluir nesses materiais novas formas de ensino-aprendizagem sobre a preservação dos nossos mangues e a importância dos mesmos para o meio ambiente. É o que peço. É o que espero de um ensino muitas vezes que é pautado em currículos que nunca servirão à vida prática da criança e até mesmo da sua vida adulta.

Muitas vezes vi o sol de pôr no mangue. Eu sabia que era hora de voltar para casa, mas queria colocar o mangue para dormir antes de deixá-lo sozinho. Depois de amarrar a canoa junto com o meu tio num tronco de árvore, sempre dava um último olhar para o mangue para saber se ele estava dormindo mesmo e como via os caranguejos, siris, ostras, chama-marés e goiamuns tudo quietos sabia que podia ir pra casa feliz.

Ah! Se toda criança tivesse um mangue pertinho da sua casa assim como eu tenho. Àquelas que vivem em prédios e condomínios fechados podem ser presenteadas pelos seus professores, pais ou responsáveis com um passeio por esse ecossistema maravilhoso com tanta coisa linda para se conhecer!

Vale a pena conferir o que o mangue tem de bonito pra nos mostrar! Eu sou a princesinha do meu mangue… você, professor, não quer tornar os seus alunos príncipes e princesas de um mangue também?

Vamos incentivar as crianças a adotarem um pedaço da natureza para que possam ter responsabilidades e cuidados para com ela, pois cada um de nós devemos desde cedo aprendermos a cuidar das coisas ao nosso redor e termos deveres para com o nosso planeta.

A vida nos mangues pede passagem. Eu cresci, mas nem por isso deixei de ser a princesa do meu mangue. Seja você, o príncipe ou princesa da natureza mesmo que ela só possa ser vista pela tela do computador. Há formas de transformarmos bits e bytes em grama verde e lama de mangue. Tente descobrir uma. Ame o mangue!

Em outra reflexão publicada no site, escrevemos: “A natureza tem uma alma pura, mas que se amedronta diante do olhar do homem, e reage como o tigre em ameaça. Não duvidemos da bravura da natureza. Duvidemos da sua ação”. Leia mais!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Trilha Formativa Ensino Religioso e Escola Pública

O Ensino Religioso é uma das ciências de conhecimento que faz parte do processo de formação humana integral e que precisa ser entendida, conhecida, respeitada e abordada no contexto escolar com a propriedade que merece, diante do todo que a mesma representa.

A SME (Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo) está organizando, para o ano de 2021, um conjunto de Trilhas Formativas para os seus professores e professoras.

O objetivo da formação é o oportunizar aos professores da Rede Municipal de Ensino de Passo Fundo suporte pedagógico, por meio de percurso formativo que seja flexível, auxiliando o professor a realizar sua atualização profissional a partir de seus interesses e necessidades, contribuindo em seu planejamento e no desenvolvimento de habilidades e competências essenciais que visam a constituição de cidadãos críticos, inovadores e capazes de impactar positivamente à sociedade.

Nesta direção, foi organizado o primeiro encontro desta trilha com o tema “Religiosidade e fé na Pandemia”, que ocorreu neste último dia 20 de abril de 2021, com a presença de 06 entidades religiosas que congregam o CONER (Conselho do Ensino Religioso) – Seccional Passo Fundo.

O encontro teve por objetivos:

  1. Aproximar as entidades religiosas do CONER Seccional Passo Fundo com professores e professoras da rede municipal;
  2. Buscar entendimentos sobre religiosidade e fé na pandemia;
  3. Construir pontes para que professores e professoras, escolas e estudantes possam realizar atividades de conhecimento não presenciais.

Apresentamos, brevemente, uma ideia das falas dos participantes deste importante encontro virtual, através da trilha formativa.

Assista ao vídeo, na íntegra: https://youtu.be/eH9N-gQpsY0?t=792

Muhammad Nivaldo Lucena representou a Comunidade islâmica de Passo Fundo. Expressou profundo respeito com os professores e sua missão honrada de levar informações e orientar os estudantes sem tomar uma religião melhor ou maior do que outra. Lembrou a importância de falar de Deus e que isto é de suma importância para todas as religiões e para a formação das crianças.

Pastora Roseli Buchmeier, representou a Igreja de Confissão Luterana do Brasil (IECLB). Em suas palavras, referenciou a vida e a prática de Jesus, relacionando-as com as nossas práticas cotidianas. Neste sentido, apontou para a construção do reino de Deus desde agora, na nossa passagem terrena. Destacou a importância da cultura de paz como uma das tarefas da escola e da sociedade, através do respeito e da solidariedade.

Paulo Eberhardt, representando o Centro Espírita Dias da Cruz, refletiu sobre o sofrimento, as dores e dificuldades que nos afetam no plano moral e material. Falou da importância de sermos testemunhos de resignação e esperança. A pandemia, o vírus, na sua visão, nos igualou, nos colocou todos na mesma posição, independente de posição ou classe social. “A melhor coisa a fazer é termos fé, resignação e esperança porque Deus não brinca com nossas vidas”.

Berel Natan Engelmann, líder religioso da comunidade judaica, destacou, em sua participação, que os desafios que o mundo judaico enfrenta é o mesmo que todo mundo teve de enfrentar. Destacou iniciativas pessoais e comunitárias para buscar o equilíbrio e as adaptações que o momento exige. Destacou, ainda, que precisamos renovar as nossas crenças e construir senso de responsabilidade pessoal e coletiva. Destacou também o papel dos profissionais da saúde e a busca por vacinas em todo mundo. Finalizou, dizendo, em hebraico, expressões Fé, saúde e paz!

Ipácio Carolino, representando a Umbanda, abordou na sua exposição sobre a importância da fé e da necessidade de ressignificar a mesma neste momento tão difícil. “A vida é finita, nós somos frágeis”. Nos fortalecemos na espiritualidade, mas temos de cumprir com nossa responsabilidade por este momento que estamos passando aqui na terra. A sua proposta é que professores trabalhem nas salas de aula temas fé e religiosidade com questionamentos e reflexões abrangentes, além das crenças e das religiões.

Leonardo Maria Foschiera, professor da rede municipal e estadual, atual presidente do CONER Seccional Passo Fundo, abordou o papel e o esforço do CONER em contribuir com a formação de professores na perspectiva da formação integral dos estudantes. Reportou sobre a liderança do Papa Francisco que aponta para o conjunto das dificuldades que operam no mundo, mesmo antes da pandemia, como a desigualdade econômica e social. Neste aspecto, apontou na sua reflexão de que o mundo deve voltar diferente de como era antes, colocando as pessoas e suas necessidades em primeiro lugar.

Para Angelita Scottá, Coordenadora Pedagógica da Secretaria Municipal de Passo Fundo (SME Passo Fundo), a formação dos professores, neste caso de professores que atuam no Ensino Religioso na rede municipal, desde a Educação Infantil até os anos finais, é de extrema importância. O espaço da escola envolve o desenvolvimento de habilidades e competências que são essenciais para o aprendizado. O Ensino Religioso é uma das ciências de conhecimento que faz parte deste processo e que precisa ser entendida, conhecida, respeitada e abordada no contexto escolar com a propriedade que merece, diante do todo que a mesma representa.

 Segundo Scottá, as formações vem ao encontro dessa necessidade, auxiliando o professor em seu fazer pedagógico, dando a oportunidade de repensar sua prática, o seu planejamento, dando suporte pedagógico para qualificar ainda o ensino e aprendizagem.

No dia 25 de junho de 2020 a SME Passo Fundo, em parceria com CONER Seccional Passo Fundo, também organizou atividade formativa com o tema Espiritualidade e sentido de vida nas práticas docentes, em tempos de pandemia! Este evento teve a presença de dois professores: Joni Roloff Schneider e Vilson Francisco Selch.

Joni Roloff Schneider lembrou de dimensões importantes como Alegria – alegrar-se com as pequenas coisas do dia a dia, com os resultados, com os sorriso. Tempo – dar um tempo para si, para refletir, para desenvolver-se como pessoa e profissional. Cuidado – cuidar de sua saúde, cuidar e amar as pessoas com as quais convivemos, cuidar da natureza, fazer boas ações. Esperança – o/a professor/a é um ser da esperança, do verbo esperançar, por isso, não deixa de semear. Leia mais!

Vilson Francisco Selch lembrou que é por meio das práticas pedagógicas empregadas em seu trabalho que o professor pode contribuir para afirmar e reconhecer a sua espiritualidade, inspiradas nas seguintes perspectivas: Criatividade é manifestação de um impulso que mora na alma humana. Mudanças. Os animais estão felizes no mundo, do jeito como ele é. Albert Camus disse que somos os únicos animais que se recusam a ser o que são. A gente quer mudar tudo. Adaptações. Mudanças geram sentimentos de sofrimento e frustração para alcançarmos metas e objetivos. Pensar. O sofrimento nos faz pensar. O pensamento se faz com algo que não existe: ideias. Ideias são entidades espirituais. O espiritual é um espaço dentro do corpo onde coisas que não existem, existem. Leia mais!

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

As escolas sob alta tensão nesta pandemia

A construção do conhecimento e a convivência social são os dois maiores pilares a partir dos quais se assenta a educação contemporânea.

Uma das coisas mais evidentes que se desnudou durante a pandemia, a partir do ano de 2020, foi a desigualdade no acesso aos meios para uma boa educação, como também no acesso aos meios tecnológicos. Esta desigualdade revela o grande abismo social e econômico que existe na população brasileira.

Enquanto uma maioria luta bravamente para garantir sobrevivência, apenas uma pequena parte da população tem condições de garantir estudo e disponibilidade plena das crianças e adolescentes aos estudos.

Outra questão, igualmente importante, é a expectativa imensa que a sociedade alimenta sobre a volta das aulas presenciais. Mas não vemos nenhum grande movimento, nem das escolas e nem da sociedade, para ressignificar esta volta presencial de aulas. Queremos voltar, sim. Mas voltar para quê? Que mudanças e que novos significados vamos incorporar na volta às aulas?

Diante de realidades tão diferentes, as escolhas das redes de ensino (públicas e particulares) em muito se assemelham através das aulas remotas.

Pensar a escola de agora, neste momento pandêmico, com seus limites e potencialidades e com a possibilidade de maior uso das tecnologias e das plataformas educacionais, parece ser o caminho para melhorá-la. Fora disso, nossa tentação será repeti-la como mera reprodutora de conteúdos e sem diálogo com a vida e com as maiores necessidades humanas.

“Mas com ensino remoto tudo fica mais difícil. Estou tentando fazer algo com a mesma essência que fazia presencialmente: incentivo pelo trabalho coletivo, pela pesquisa e pela criatividade. Não encontrei ainda um caminho. Enquanto isso, aposto no velho e poderoso diálogo. Sobre aulas, precisamos urgentemente melhorar a qualidade do ensino remoto dando condições para que crianças e jovens tenham boa internet em casa e equipamento adequado para isso. E, antes de um tablet, que tenha comida dentro de casa porque com fome ninguém faz nada, muito menos tarefas assíncronas”. (Elika Takimoto) Leia mais!

Seguem questões, que remetemos à breves reflexões.

Qual foi a escolha dos sistemas de ensino? Em grande medida, foi transformar os professores em meros entregadores de conteúdos, planilhas, relatórios, devolutivas. Nada, ou muito pouco, de relação, de diálogo, de trocas, de conversas sobre a vida e a pandemia.

Neste quesito, há poucas diferenças entre o ensino público e privado. Resta perguntar: a escola sempre foi assim? Onde ficou e onde fica a dimensão relacional, mesmo que de forma remota e precária? Ou ela nunca contou nas relações de ensino-aprendizagem?

Parece que a escolha unânime das redes de ensino é pela validação do ano escolar, através da burocracia.

Qual vem sendo a relação de Afetividade e aprendizagem na pandemia? Percebe-se pouca preocupação com esta questão, embora sempre tenha sido relevante, para muitos estudiosos da educação.

“Abordar a inteligência emocional como a principal estratégia, associada a um bom conteúdo, pode evitar o abandono das crianças, adolescentes e jovens da escola. Precisamos de um olhar mais atento às necessidades afetivas do ser humano, que em muito se perdeu sem o contato presencial. Como trabalhar de forma mais ampla e eficaz esses aspectos num convívio semipresencial? Mais do que nunca, escola e família devem estar juntas para minimizar as perdas e prejuízos das crianças e adolescentes, que são os mais frágeis deste processo” Leia mais!

A preocupação com a aprendizagem? Os professores e professoras trabalham muito, mais do que nunca estão atarefados, mas com poucas iniciativas que foquem aprendizagens significativas (aquelas que tenham sentido e valor para a vida dos estudantes e a vida das famílias).

Mas aí alguém poderá dizer que as aprendizagens significativas se constroem com metodologias ativas ou invertidas. Pode ser que estas ajudem, mas a mudança mais importante parece ser mudar o foco e o sentido da escola e da aprendizagem. Reduzir as soluções tão complexas de sentido e significado das aprendizagens para aplicações ou abordagens metodológicas, não é o caminho.

Paulo César Carbonari, em reflexão publicada no site, escreve: “É difícil dizer o que significa aprender! E o que é ensinar, então? Aprendemos que ensinar e aprender são dois verbos que se conjugam na transitividade da relação de presença entre sujeitos. Ensinamos que aprender e ensinar encontram sua síntese e finalidade nos sujeitos e sua mediação nos múltiplos liames da vida e nas diversas formas de fazer o viver. Sendo assim, que sentido tem a transitividade entre sujeitos e as mediações numa época cada vez mais “digital”? Leia mais!

Quem está ouvindo as nossas crianças, adolescentes e jovens? Quem está dialogando com as famílias? Qual é o espaço que as escolas estão oportunizando, a partir das Aulas e reuniões Meet para os estudantes vivenciarem uma socialização tutelada pelos professores?

Como estão os prédios e estruturas físicas das escolas públicas? Estão inutilizados e fechados, em compasso de espera pela volta das aulas presenciais. Poderiam e deveriam ser uma referência na vida das comunidades como um Centro de Informações sobre saúde, pandemia e educação, distribuição de alimentos (a partir da merenda escolar).

Os prédios poderiam estar recebendo algumas reformas e adequações, bem como poderiam estar sendo preparados para o retorno presencial dos estudantes, equipados com boa internet e estruturas digitais. As estruturas e prédios poderiam estar sendo ressignificadas em seu papel social nas comunidades.

E o conteúdo da pandemia? E os conteúdos que os alunos deveriam receber? O que vai acontecer com eles? O psiquiatra e professor da UPF (Universidade de Passo Fundo), Francisco Carlos dos Santos Filho, em evento para professores no início do ano letivo em Passo Fundo, RS, afirmou: “A pandemia é o conteúdo, a experiência que todos estamos vivendo é o conteúdo, assim como o são a possibilidade de trabalhar in loco as ideias do espírito coletivo, da compaixão, da humanidade e da solidariedade, para assim criar uma experiência conjunta que é o melhor conteúdo possível que se pode fazer ingressar no interior de qualquer disciplina”. Veja mais sobre a capacidade de pensar.

Por que então este conteúdo e este contexto não é objeto de estudo proposto pelas escolas aos estudantes? O que poderia ser mais relevante do que o conteúdo da dura realidade social, econômica e sanitária a que todos estamos submetidos nesta pandemia?

Como pensamos os traumas que a pandemia está causando em todos nós? Parece que a sociedade, assim como o conjunto das redes de ensino, tentam lidar com os traumas a partir do esquecimento, mesmo na contramão do que afirmam os especialistas. “Então, se a vivência é coletiva, a experiência que cada um de nós leva consigo de um acontecimento traumático, assim como seus efeitos, é absolutamente singular. De toda forma, precisamos ter claro que os efeitos de um traumatismo nunca se resolvem enquanto dura o trauma; o efeito desse traumatismo levará anos para ser elaborado, isso se nós trabalharmos direito sobre ele. E, além disso, somente a memória e o trabalho de pensamento permite “curar” o trauma”. (Francisco Carlos dos Santos Filho, psiquiatra)

Como voltaremos às nossas escolas físicas? Voltaremos às aulas presenciais no modelo híbrido? Qual é o suporte que daremos aos estudantes para que ressignifiquem a presencialidade? Qual é o suporte pedagógico e psicológico que daremos aos professores e professoras? Será uma volta com ou sem vacinas? Ainda usaremos máscaras? Teremos protocolos seguros de distanciamento e salas de aula com ventilação?

Crédito: Getty Images

Como será a escola do futuro?

Deveríamos aproveitar o advento da pandemia e os questionamentos sobre a escola neste momento histórico para ressignificar o sentido e o papel da escola na perspectiva humanizante, onde a centralidade da mesma seja a construção permanente de conhecimentos, envolvendo os sujeitos aprendentes: professores e estudantes. Uma escola onde a socialização seja uma dimensão que se incorpora às práticas educativas, de forma permanente, de maneira intencionada e valorizada pedagogicamente.

O que podemos conjugar nas mudanças que operam na escola?

Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. Vejamos o papel da escola neste contexto: Assista ao vídeo.

Como já escrevemos em outra publicação: “O fato de vivermos na era da tecnologia e da informação não quer dizer que podemos suprimir a importância da oralidade, da escrita e outras formas de comunicação como a arte, a linguagem corporal, a linguagem simbólica e religiosa, o audiovisual, dentre tantas outras. Afinal, o ser humano é um ser integral e as suas diferentes dimensões (características) devem ser desenvolvidas e articuladas no seu processo de ensino-aprendizagem”.

A construção do conhecimento e a convivência social são os dois maiores pilares a partir dos quais se assenta a educação contemporânea. Fazer educação, nos dias atuais, significa compreender o sentido da escola, do mundo e do ser humano, contemplando a diversidade e a complexidade social que construímos até aqui como humanidade.

A sociedade, sobretudo os pais e as mães, está descobrindo o potencial e a riqueza que é a convivência e a integração social a partir do distanciamento físico e social dos estudantes. A cobrança pela volta das aulas presenciais revela justamente esta necessidade das crianças, adolescentes e jovens conviverem coletivamente no ambiente escolar, tutelados pela presença e pelo olhar dos adultos.

Marcos Piangers, apresentador, locutor de rádio e escritor, sintetiza, de forma interessante, a relação das novas tecnologias educacionais na educação e a formação integral das nossas crianças, adolescentes e jovens. Suas ideias estão em sintonia com o que pensamos como escola e como educação.

Crédito foto: Giselle Sauer

“Considero minhas filhas felizes quando estão interagindo com amigos com ferramentas tecnológicas, mas nunca as vi mais alegres do que quando estão correndo em um parque ou na praia ou na escola. Antes de andar, a criança dança; antes de falar, ela canta; antes de escrever, ela desenha. A arte, o brincar e o interagir são chamas fortes dentro da fogueira humana. Sonho com a escola como um ponto de encontro onde imperam o contato com o outro e com a natureza. Uma escola que interage com a comunidade, que conduz as crianças ao voluntariado, que ensina sustentabilidade, generosidade, equidade. Uma escola que é laboratório de experiência, de aprendizado pelo erro. Uma escola que considera o aprendizado técnico importante, mas menos importante do que todas as outras coisas mais importantes. Uma escola que ri de si mesma. Uma escola terapêutica, que cuida da saúde mental de pais e filhos e seja iluminação e conforto para as famílias. Uma escola para todos, ricos e pobres”. A escola na pandemia.

 Acesse a entrevista: https://youtu.be/M8jmOi3wYDE?t=66

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Das inquietudes dos estudos de ciência, tecnologia e sociedade – CTS na educação fundamental

É possível pensar num ensino de ciência, tecnologia e sociedade voltado para os anseios das crianças? Por que não temos uma literatura sobre ciência, tecnologia e sociedade para crianças?

A Ciência, Tecnologia e Sociedade – CTS aborda assuntos que podem ser adaptados às crianças e vamos discorrer o quanto é fundamental à educação fundamental.

São conceitos que estão cada vez mais próximos do mundo da criança e do pré-adolescente envolvidos com as ciências e a tecnologia, seja na escola ou em casa, mas ausentes de uma teoria mais elaborada de conscientização e criticidade.

Tendo por base a relação que as crianças nessas séries entram em contato com a ciência e a tecnologia muito mais rapidamente do que antigamente, e precisam saber viver em uma sociedade que exige delas cada vez mais, principalmente nas escolhas que poderão influenciar na vida adulta.

Tomando por referência os argumentos citados acima, perguntamos: é possível pensar num ensino de ciência, tecnologia e sociedade voltado para os anseios das crianças? Por que não temos uma literatura sobre ciência, tecnologia e sociedade para crianças?

Como poderíamos ensinar ciência, tecnologia e sociedade às crianças? Quais contribuições poderíamos oferecer aos infantes com a introdução da ciência, da tecnologia e dos ensinamentos da dinâmica da sociedade?

A disciplina de ciências é lecionada sem que os alunos tenham noções teóricas do que é ciência e suas bases epistemológicas, qual sua importância no dia a dia, para que serve, o que podemos fazer com ela, quais benefícios nos oferece. As crianças vão para sala de aula cheias de curiosidade, anseios, vontades. É nesse momento que a ciência propriamente dita poderia explorar todos esses sentimentos para mostrar a sua importância no mundo.

Parece-nos haver uma lacuna entre o processo de conhecimento do aluno não só no ensino de ciências, mas das outras disciplinas também. Essa lacuna se dá quando o aluno recebe o conhecimento e não sabe o que fazer com ele, o que ele é ou pode vir a ser. O aluno passa a usar palavras que nem mesmo sabe seus significados.

Esse uso das palavras, sem conhecer o significado, não permite que as crianças possam avaliar as representações reais das do seu entorno. Como exemplo, podemos citar o uso da palavra tecnologia, que todos associam a qualquer produto eletrônico moderno capaz de processar informações rápidas. Fica o conceito criado pelas grandes empresas ou pela mídia que não interage com o processo cognitivo da criança, alienando-a e prendendo-a num casulo.   

“Podemos aprender muito com as tecnologias, não podemos ir do oito ao oitenta. Nem deixar à vontade, nem proibir. Nesse tempo em que estamos em casa, utilizar a internet vai ser o principal recurso de acesso à escola, mas para tudo precisamos ter limites, não podemos sobrecarregar nossas crianças. Tempo para brincar, para ler um livro, para ficar com a família, para jogar. Porque se a gente não medir (e falo isso tanto para pais quanto para professores), em pouco tempo estaremos todos esgotados mentalmente. Deve ser algo leve e prazeroso, a tecnologia é nossa aliada, não vamos virar escravos dela”. (Professora Graziela Bergonsi Tussi). Leia mais!

Nos PCN´s do ensino fundamental, a disciplina de ciências deve ensinar o corpo humano, a alimentação, o meio ambiente, etc., mas não se preocupa com o mundo ao redor do aluno cheio de perguntas e inquietações, ou seja, o que é ciência, para que serve, que importância terá na minha vida, que posso fazer com ela. É como se pulássemos essa etapa do conhecimento prejulgando que o aluno já conhece tudo isso.

Estamos numa era na qual as crianças e os pré-adolescentes adquirem contatos com as ciências e a tecnologia muito cedo, na prática, sabem utilizar os aparatos tecnológicos que lhes são oferecidos, mas quando questionados no como ou no porquê eles não sabem responder ou, mais grave ainda, não pensam essas questões como importantes para a elaboração e representação do conhecimento. 

Um outro problema que constatamos é que as ciências ficam distantes da tecnologia nos materiais didáticos do ensino fundamental como se as duas não estivessem próximas uma da outra. Fala-se muito em vacinas, higiene, bactérias, fungos, fauna e flora, mas esquecem de ensinar o que tudo isso representa para o planeta e quais os substratos teóricos que afirmam, para que esses conhecimentos nos servirão além de aprender a viver bem, ao invés de ensinar o que é o viver e o que é o bem-estar no âmbito das ciências.

Cremos que a ciência está no mundo para melhorar a vida das pessoas, por isso deve haver uma preocupação maior ao falarmos dela para os alunos. Sempre devemos procurar mostrar que a ciência é de suma importância na vida de todos.

Alguns professores se detêm no óbvio, mas não levam o aluno a pensar cientificamente, ou seja, a investigar através de métodos ou que validade o conhecimento passado tem verdadeiramente para o homem. 

Estamos ensinando ciências não com a preocupação de criar pensamentos críticos e reflexivos diante das coisas ao nosso redor, mas oferecendo conhecimento que não se permite ser aberto para investigação, isto é, para ficar apenas em um exemplo, dizemos que as mãos devem ser lavadas antes das refeições, para evitar as doenças, mas não dizemos por exemplo, o ser das doenças, a unidade de estar saudável e adoecer, as ideias por trás de um bem-estar ou as questões que surgem com as doenças.

A verdade é que ensinamos conhecimentos desnecessários ao viver da criança e do adolescente, pois no seu grandioso mundo não cabem tais saberes. E aprender algo que não nos interessa não causa prazer. Surge, então, o desconforto e o desânimo.

É difícil apaixonar-se pelo que não nos é apresentado como belo, ou seja, com amor e paixão por parte de quem está ensinando. A simples tarefa de transmitir conhecimento já não tem mais espaço nas salas de aula, atualmente há uma troca de saberes entre professores e alunos. Ninguém pode ser baú de conhecimentos, mas questionador do que lhe é ensinado.

Podemos adiar os conceitos das coisas para depois, ao longo dos anos os alunos aprenderão, hoje é desnecessário, não compreenderão mesmo. Pensamento errado esse. Ou se aprende desde cedo o conceito de algo corretamente ou mais tarde teremos vários conceitos de uma coisa só sem sabermos quais deles é o certo. Ensinar o que é o conhecimento deveria ser tarefa de todo professor.

Assim, caímos no dilema de como ensinar o conhecimento e mais ainda como ensinar o conhecimento da ciência sem ser através de explicações elaboradas com palavras que muitas vezes não dizem nada para o aluno, porque o que dizemos não chega ao seu conhecimento de mundo, as suas vivências e experiências adquiridas. É preciso que todo conhecimento ensinado seja antes ligado a um pertencimento do aluno.

Parece-nos que no ensino de ciências da educação fundamental tudo está pronto para o aluno que copia, faz os exercícios, recebe as notas das avaliações e pronto. É uma disciplina com um currículo sem ritmo ou melodia para os professores ousarem novos desafios em sala de aula, porque seu ensino-aprendizagem detêm-se também aos cartazes, as colagens, vez ou outra a uma aula de campo para diversão de todos.

Apenas isso. Mas isso é pouco. O material didático está pronto, os alunos recebem as aulas, depois todos vão para casa. Como se o mundo fora dos muros da escola não exigisse desse aluno mais do que o conhecimento dos livros didáticos. 

O ensino de ciências na educação fundamental apresenta bons conteúdos que preenchem quase todas as necessidades do aluno, porém é um currículo que exige revisão.

O mundo vive hoje a grande revolução das ciências e da tecnologia ultrapassando fronteiras e diminuindo distâncias, com isso os alunos precisam ficar mais próximos desse novo universo, procurando compreender essas mudanças e no que elas afetam a nossa existência e a sobrevivência do planeta.

É como se precisássemos ensinar o que está na camada mais inferior da ciência, ou seja, seu alicerce. No que ela se constitui e como podemos fazer dela um instrumento que vai além do conhecer e chega a investigar as suas causas e consequências no que concerne ao conhecimento de mundo e para o mundo.

Talvez, se começássemos pelo tripé ciências, tecnologia e sociedade para que, porquê e como, para depois explorarmos questões mais complexas dentro de cada uma dessas três grandes áreas, fosse uma oportunidade de oferecer um ensino-aprendizagem completo.

Antes do aluno ter aulas de robótica, ele precisa saber o que é uma sociedade, as suas regras, os seus costumes e tradições; precisa, ainda, aprender o significado de ciência, sua importância, sua criação, quando o homem começou a fazer ciência. Mais importante do que o robô é a pessoa que o criou. São questões como essas que estão faltando aos nossos alunos do ensino fundamental.

Não há um incentivo nas escolas para filmes de ficção científica. É consabido que a curiosidade precisa de um estímulo. Nesses filmes o que parece impossível torna-se realidade, é com esse pensamento que o aluno vai para o laboratório pesquisar e buscar soluções para os problemas do mundo.

Acompanhamos as aulas de ciências de várias escolas onde as crianças aprendem a não poluir o meio ambiente e preservar as florestas elaborando cartazes, desenhando, criando redações ou participando de concursos de fotografias.

Claro que está aí um grande estímulo para um mundo melhor, se levássemos essas crianças a pensar como verdadeiros cientistas, ou seja, pesquisando as áreas atingidas pelo desflorestamento, como eram antes como são hoje, o que acontecerá no futuro, seus impactos para a sociedade, e ficcionalmente ou virtualmente criando alternativas para melhorias desses problemas.

Vivemos uma época em que os valores humanos estão se perdendo e que os laços familiares estão sendo substituídas por máquinas. Precisamos resgatar urgentemente esses valores, para isso faz-se necessário que o aluno da educação fundamental aprenda a importância da família, dos amigos, dos parentes, do vizinho. A sociedade está cada vez mais individual, violenta, egoísta. Sentimentos de posse doentia são demonstrados todos os dias.

Urge o ensino dos bons modos de se viver em uma sociedade com harmonia e paz. O homem criou sistemas e máquinas que possibilitaram um bem-estar fabuloso à sociedade, como o avião, o metrô e o navio.

Ao mesmo tempo que o avião reduz a distância entre as pessoas também destrói vidas, sendo utilizado em guerras. Como usarmos a tecnologia para fazer o bem à sociedade é uma grande questão. Quantas câmeras de segurança têm desvendado crimes e salvado vidas nos últimos anos! São coisas assim que precisamos questionar junto aos alunos.

Não é possível mais vivermos sem os benefícios da ciência e da tecnologia. Vivemos a era das redes sociais e das amizades virtuais. Temos milhões de amigos que não conhecemos, mas que sabemos tudo sobre eles. Que sociedade é essa? Que laços são possíveis criar em uma rede social?

As crianças são pequenas demais para entenderem tudo isso, mas já estão todas em rede conversando umas com as outras e querem privacidade das suas conversas com os amigos virtuais, para isso é necessário que essas crianças saibam os valores morais que regem uma sociedade para poderem criar as suas regras no mundo virtual.

Nas escolas há as constantes feiras de ciências, onde os alunos preocupam-se em criar robôs ou fazer experimentos químicos, mas pensamos que antes de fazer tudo isso é preciso que se conheça o que e para que está se estudando tal coisa. Não adianta ensinar robótica se não ensinar o que é tecnologia, não adianta ensinar um experimento químico se não ensinar o que é a química, cada coisa tem a sua necessidade de apresentar-se antes de ser utilizada. Os alunos usam a tecnologia nos computadores que lhes são entregues atualmente nas escolas, contudo não sabem o porquê desse uso.

Temos visto uma grande evasão nas escolas principalmente de pré-adolescentes e adolescentes que estão cansados de um ensinamento que não acrescenta nada aos seus mundos. O ensino precisa acompanhar o ritmo do discente, pois ele está ávido para conhecer aquilo que faz parte do seu mundo, mas ele não entende por que gosta tanto de algo que não sabe que tipo de bem-estar vai proporcionar-lhe.

Faz uso por fazer, porque a mídia incentiva ou por que vê todos os outros amigos fazerem, mas logo cai no desânimo e na troca por outro que preencha seus vazios. As crianças e os jovens estão a todo tempo buscando questões que expliquem esse aparato de conhecimento que recebem nas escolas e não sabem o que fazer com ele.

O ensino não pode mais se deter a simples decoreba. O aluno que decora esquece tudo, muitas vezes, antes da prova. Chegou o momento de ensinarmos ciências e tecnologia para aproveitar essa bolha gigantesca que envolve os alunos em meio a tantas questões cruciais sobre o mundo.

Na disciplina de ciências não há uma preocupação maior em mostrar aos alunos a importância da ciência como criadora e renovadora de ideias, das coisas ao nosso redor no mundo atual, o uso da tecnologia, como viver em harmonia na sociedade.

Sentimos uma distância muito grande da realidade com o material didático dos alunos das séries iniciais do ensino fundamental I e II. Tampouco, temos professores preparados para falar sobre esse tema que, de certa forma, é o que move as relações humanas no mundo contemporâneo.

No que diz respeito às ciências e a tecnologia o importante é que fixemos conteúdos teóricos de um pensar reflexivo e que se crie uma postura crítica diante das coisas. Sabemos que o progresso da ciência e da tecnologia é muito rápido, por isso precisamos informar aos nossos alunos o porquê dessa rapidez, suas astúcias e sua relevância.

Para sanar os problemas mencionados acima vividos pelos jovens alunos é que propomos ser acrescentada a disciplina de Ciências e Tecnologia como tema transversal nos PCN’s – Parâmetros Curriculares Nacionais.

Autora:Rosângela Trajano.

Edição: Alex Rosset

Referências Bibliográficas:

ALMEIDA, Maria da Conceição. Complexidade, saberes científicos, saberes da tradição. São Paulo: Livraria da Física, 2010.

ALVES, Rubem. A alegria de ensinar.Campinas: Papirus, 1994.

______. Entre a ciência e a sapiência. São Paulo, Loyola, 1999.

______. Filosofia da ciência: introdução ao jogo e suas regras. São Paulo, Loyola, 2005.

______. Tecnologia e humanização. In: O enigma da religião. São Paulo: Papirus, 1984.

ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

BALANDIER, Georges. A desordem: elogio do movimento. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997.

BAZZO, Walter A (Org.). Caderno de Ibero-américa: introdução aos estudos CTS (ciência, tecnologia e sociedade).Madri: Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), 2003. 

BENJAMIN, Walter. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Summus, 1984.

______. O narrador. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994.

______. Experiência e pobreza. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. 

DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo: Martin Claret, 2000.

FREIRE, Paulo. Educação como prática de liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

______. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996.

______. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

HOFFMAN, Wanda Aparecida Machado. Ciência, tecnologia e sociedade – desafios da construção do conhecimento 2011.São Carlos-SP: 2011.

JAEGER, Werner. Paidéia. A formação do homem grego. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

KANT, Immanuel. Sobre a pedagogia. Piracicaba: Editora Unimep, 1996

KERBAUY, Maria  Teresa Miceli; ANDRADE, Thales Haddad Novaes de; HAYASHI, Carlos Roberto Massao (Orgs.). Ciência, tecnologia e sociedade no Brasil. Campinas: Alínea, 2012.

KORCZAK, Janusg. Como amar uma criança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.

LEMARCHAND, Guillermo A. Sistemas nacionales de ciencia, tecnología, e innovación en América Latina y el Caribe. Montevideo: UNESCO, 2010.

MIRANDA, Angela Luzia. La analfabetización tecnológica

______. Aspectos ontológicos de la tecnología moderna

______.  Comunicação e complexidade: um diálogo possível?

______.  Harry Potter e as relíquias da indústria cultural

______. A técnica como pergunta filósofica.

MORIN, Edgar. A cabeça bem-feita: repensar a reforma, reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.

______. Ciência com consciência. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

______. Os sete saberes necessários a educação do futuro. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/EdgarMorin.pd – Acesso: 03.12.2013 às 11h26min.

______. Para onde vai o mundo. Petrópolis-RJ: Vozes, 2010.

MICHEL, Montaigne de. Da educação das crianças. In: Ensaios. Porto Alegre: Globo, 1972.

PIAGET, Jean. A construção do real na criança.Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

______. A linguagem e o pensamento da criança.São Paulo: Martins Fontes, 1989.

______. Aprendizagem e conhecimento. Rio de Janeiro: F. Bastos, 1974.

______. A Representação do Mundo na Criança. Rio de Janeiro: Distribuidora Record, [s.d.]

RODARI, Gianni. Gramática da fantasia. São Paulo: Summus, 1982.

SANTOS, Dos Lucy Woellner. Ciência, tecnologia e sociedade – o desafio da interação.Londrina-PR: IAPAR, 2004.

Covid-19 e a produção da ignorância

Assim como o conhecimento, a ignorância é uma construção. Ignorância não é simplesmente falta de conhecimento.

O primeiro ano da pandemia covid-19 nos ensinou muitas lições no campo da saúde coletiva. Uma das mais importantes, contudo, talvez tenha recebido menos atenção: a questão da ignorância.

Assim como o conhecimento, a ignorância é uma construção. Ignorância não é simplesmente falta de conhecimento. Pelo contrário, a ignorância tem sido ativamente construída e produzida socialmente dentro de determinados contextos e processos políticos. Compreender a produção da ignorância é essencial para saber como enfrentá-la com conhecimento e informação.

A importância de observar mais criticamente a ignorância tem sido evidente em quase todos os lugares que olhamos neste primeiro ano da covid-19 — especialmente, mas não somente, no Brasil.

“Quando a ignorância desafia a verdade, abrem-se as portas para as mentiras. Quando a ignorância desdenha da ciência, a evolução dá com a cara na porta da insensatez. Quando há portas abertas para a discriminação, a ignorância se esbalda. Quando a ignorância passa pela porta, surge o inconsciente coletivo. Quando a ignorância bate à porta, acaba a inteligência e a civilidade. Então, feche as portas para a ignorância!” (Luiz Carlos Schneider) Leia mais!

É evidente, por exemplo, na falta geral de compreensão dos mecanismos básicos de infecção com SARS-CoV-2. Também está presente na confusão sobre a epidemiologia social da covid-19 — com destaque para as formas que a pandemia afeta comunidades e populações distintas com base em classe, raça e etnia, gênero e outros marcadores de diferença social. É visível na conturbada e traumática polarização ideológica em torno das práticas de prevenção e promoção da saúde e das alternativas e opções de tratamento.

É possível ainda percebê-la nas formas pelas quais esses debates criam cortinas de fumaça artificiais que escondem e mistificam não apenas informações científicas básicas, mas também as relações subjacentes dos sistemas de produção capitalista, relações comerciais e direitos de propriedade intelectual, e estruturas políticas e econômicas que operam para disfarçar iniquidades sociais — que a pandemia poderia, de outra forma, torná-las óbvias. E é quase surpreendentemente vívida na discussão estreita sobre produtos e políticas de vacinas, questões de acesso, e iniquidades globais que fazem com que as afirmações sobre a governança efetiva da saúde global pareçam quase cômicas — se não fossem tão trágicas.

O desafio de enfrentar a extensão e as dimensões da ignorância em relação a esta pandemia torna-se ainda mais difícil porque historicamente o campo da saúde coletiva tem dado pouca atenção à produção da ignorância. Isso é especialmente irônico porque este campo vem enfrentando níveis significativos de ignorância ao longo de sua história.

No entanto, talvez porque as demandas de implementação de programas e enfrentamento de emergências em saúde tenham sido tão grandes, tenhamos feito pouco na busca de compreender os fatores e forças responsáveis pela produção da ignorância.

O tamanho expressivo da ignorância em todos os lugares em relação à covid-19 — junto com as contribuições quase obscenas vindas de políticos, formuladores de políticas e líderes de opinião — nos exige dar um passo atrás e desenvolver uma análise crítica mais cuidadosa dos desafios que enfrentamos nesta era da ignorância — mesmo que pareça que estejamos abrindo uma nova área para investigação sem as ferramentas conceituais e teóricas que poderiam nos ajudar a avançar adequadamente com este projeto.

Felizmente, não temos que começar do zero. Há uma história de investigação sobre a ignorância em outros campos e áreas que são relevantes para observar as formas de ignorância que se apresentam no campo da saúde coletiva.

Creio ser possível destacar três questões-chave, especialmente úteis para entender diferentes dimensões da ignorância que a covid-19 parece ter descoberto — e quero, de fato, argumentar que ela desencadeou e estimulou o que podemos descrever como: (1) a construção social da ignorância; (2) a epistemologia crítica da ignorância; e (3) o uso da ignorância para fins estratégicos.

Forças sociais e políticas e interesses econômicos têm construído ativamente a ignorância de forma altamente complexa — e em contextos sociais e culturais muito específicos demarcando esse modo de construção social da ignorância. Há ainda complexos processos sociais e culturais de exclusão que fundamentam a epidemiologia social da covid-19 e nos estimulam a refletir sobre o papel que a ignorância desempenha na formação da pandemia.

Isso nos ajuda a entender, por exemplo, as razões pelas quais tal ignorância parece ser tão difícil de ser desalojada do que acreditamos ser conhecimento científico “correto” —e ainda porque pedagogias acríticas são destinadas a não oferecer respostas efetivas à pandemia.

E, por fim, há as investigações sobre a ignorância para fins estratégicos que demonstram o uso de afirmações de ignorância para justificar a tomada de posições (de outro modo, questionáveis) por parte de políticos ou gestores e graves falhas feitas nos processos de governança em campos como as políticas econômicas, o desenvolvimento sustentável e mudança climática, e a saúde global.

Tudo isso nos revela alguns dos impedimentos mais fortes relacionados à necessidade de organizar planos concretos e exequíveis para garantir acesso às vacinas contra a covid-19 para a maioria das populações em países mais pobres — além da produção e promoção de medicamentos e tratamentos promovidos irresponsavelmente por lideranças políticas e gestores públicos em diversos países.

Autor: Richard Parker, Diretor-Presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) e professor visitante sênior do IESC/UFRJ

Fonte:https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/opiniao/pos-tudo/covid-19-e-a-producao-da-ignorancia

Edição: Alex Rosset

Da doença à desordem!

 Corrijam os que não fazem nada, encorajem os tímidos, sustentem os fracos e sejam pacientes com todos (1Ts 5,14).

Este é parte do título de um livro de autoria da pesquisadora Paula Montero que retrata a leitura da doença a partir de uma religião de matriz africana. Na interpretação da autora, a situação de doença não é apenas um problema físico. Retrata também uma situação de desordem existencial, a ser sanada, da qual a enfermidade física é um sinal visível.

Junto com a cura física faz-se necessário operar a cura existencial, uma tarefa mais complexa que envolve não apenas o aparado dos fármacos. Segundo ela a cura se dá também pela via religiosa que vai harmonizando a vida da pessoa e consequentemente operando a cura. É possível acrescentar um adendo nessa reflexão.

A enfermidade física ou existencial não se refere apenas à pessoa. Diz respeito ao grupo maior, primeiramente a família, àqueles mais próximos, fisicamente e afetivamente. E pode estender-se para a sociedade. Já tem passado um ano que vivemos marcados pela enfermidade. O corona vírus se manifestou e espalhou-se pelo mundo.

Estamos ainda condicionados por uma enfermidade globalizada, que tem atingido, de forma diferenciada, as diferentes regiões do mundo. Por isso, classificação como pandemia.

A forma como cada país se organizou para enfrentar esta enfermidade indica maior ou menor eficácia no combate.

No caso do Brasil enfrentamos a irresponsabilidade e desorganização governamental no enfrentamento, somado à resistência de parte da população em adotar medidas de prevenção e o desrespeito às orientações quanto à segurança sobretudo no que se refere a evitar eventos que gerem aglomerações.

Certamente muitas contaminações, internações e mortes poderiam ser evitadas. A enfermidade gerada pela contaminação da Covid 19 apresenta características especiais que interferem no tratamento dos doentes.

Devido ao alto grau de contaminação recomenda-se o isolamento da pessoa e, quando é internada, fica difícil o contato com familiares pelos riscos que apresenta.

O enfrentamento acontece em muitos momentos sem o contato com os familiares. É ruim para o doente e também para a família. Junto a enfermidade, enfrentamos a realidade de luto e também em um contexto especial.

O isolamento não permite o processo de despedida da pessoa ainda com vida, o que seria muito importante. Também não há velório pela necessidade de cuidado com as possíveis contaminações. Costuma-se dizer da necessidade de ritualizar as passagens da vida. E a passagem da morte também precisa de rito: último olhar, lágrimas, despedida, prece, consolo mútuo. Infelizmente não acontece.

Vivemos um contexto de enfermidade e luto. Estas situações fazem parte da trajetória humana. Todavia agora acontecem com grande rapidez e impacto em nossas vidas.

Repentinamente, as pessoas adoecem e partem ficando um grande vazio. A desordem acontece também na economia das famílias. O desemprego chegou a muitos lares. Os pequenos empregadores não têm fôlego para ficarem tantos dias fechados. Alguns estão sucumbindo.

O despreparo e omissão do governo em organizar um amparo para os setores mais fragilizados têm gerado muita insegurança para os pequenos empreendedores.

O horizonte não parece muito promissor. Tal situação de desordem pode ser combatida primeiramente pela responsabilidade em contribuir com as iniciativas que podem frear o ritmo das contaminações.

Enquanto cidadãos temos responsabilidades também. Não basta cobrar dos governos se não fizermos a nossa parte.

Em segundo lugar, a atitude de cuidar dos que estão caindo à beira do caminho, como fez o samaritano. Ele não hesitou em adiar a viagem, aproximar-se e cuidar da pessoa com a vida ameaçada (Lc 10, 34ss).

Podemos fazer o que é possível. Aquela explosão de solidariedade do início da pandemia precisa continuar com ações organizadas, porque para muitos a realidade difícil ainda persiste e começa a faltar o básico para a sobrevivência. Lembremos o pedido de Jesus aos discípulos diante da multidão com fome: Dai-lhes vos mesmo de comer (Lc 9,13)

O terceiro compromisso diz respeito ao consolo. A insegurança, a enfermidade e o luto têm trazido muito sofrimento para as pessoas. Muitos estão precisando de consolo, de um apoio.

Cabe assumir esta iniciativa junto aos que estão mais marcados pelas perdas. Lembremos do que pede Paulo à comunidade dos Tessalonicenses: corrijam os que não fazem nada, encorajem os tímidos, sustentem os fracos e sejam pacientes com todos (1Ts 5,14).

 Em tempos de desordem existencial e insegurança, próprios dessa pandemia, cabe assumir o compromisso curativo e de consolo. Este está ao nosso alcance.

Como sairemos desta pandemia? Médico Arnaldo Porto responde: “gostaria que saíssemos melhores, mas temo que não aprendamos muito. Que no futuro próximo esqueçamos tudo o que estamos vivendo hoje. O exemplo das ruas cheias, logo após a abertura do comércio nas cidades, comprova que, talvez, não aprendamos a conviver de um jeito novo, aproveitando os aprendizados que estamos tendo com a pandemia. Leia mais:!

Autor: Pe. Ari Antonio dos Reis

Edição: Alex Rosset

A humanidade se acostumou com a morte?

Não podemos ficar indiferentes diante da morte produzida pelo coronário de vírus, bactérias, fome, desigualdades e injustiças. 

O filósofo Friedrich Nietzsche (1844 – 1900) disse que Deus morreu. Não pode ser verdade, em hipótese alguma. Independente do nome que se lhe atribua, Ele está vivo. Muito vivo e presente. Assim creio. – Você tem provas disso, indagou o matemático? – Sim, respondi. – Quais? – Todas aquelas que não podem ser refutadas pela fé e mais todas as que se pode associar pela razão. Então, o antropólogo emendou: – Sim, Ele está presente para vigiar e punir.

Essa pandemia é a prova concreta do castigo de Deus sobre a humanidade por causa do pecado. Bem, aí o assunto fica bastante delicado: Será Deus um “vigilante castigador”? Se não o for, por que permite as tragédias, as pandemias e a morte?

Não pretendo refletir aqui sobre as questões acima. Elas são muito complexas e esse texto é muito breve. Ademais, é extremamente difícil tentar explicar a existência, a essência e a atuação de Deus com nossas categorias humanas e científicas.

De minha parte, creio que, em essência, Deus é uma profusão de amor; uma fusão de misericórdia com justiça; um misto de cuidado com liberdade. E nisso reside o mistério diante do qual uns duvidam, outros ignoram; uns se amedrontam e outros o buscam e a Ele se entregam.

Se misteriosa é a existência e presença de Deus entre nós, igualmente o é a origem, a consistência, a duração, o trépido fim ou a continuidade da nossa vida. E com a morte em eminência, atacando toda a humanidade de muitos modos e há um bom tempo também de forma persistente, aguda, grave, global e insólita por meio no “novo” (já nem tanto) coronavírus, tais questões emergem ainda mais retumbantes em nós.

Neste cenário de morte por atacado, estará a humanidade se acostumando com ela? A pergunta parece mal formulada. Como pode alguém se acostumar ou ficar tranquilo diante da morte, da sua e da dos demais?

Depois de um ano de incômoda (trágica, para um grande número de pessoas) convivência com o Covid-19, entre muitos a solidariedade se fortaleceu, o cuidado consigo e com os outros se ampliou; a dedicação e a abnegação de inúmeros profissionais na linha de frente foi e está sendo algo emocionante. Esse é um lado da história, que precisa sempre ser ressaltado e aplaudido.

Entretanto, há outro lado que é o da banalização da doença, do sofrimento humano e da morte. É o lado na negação da importância, do empenho e dos alcances da ciência. Soma-se a isso, o fundamentalismo político, religioso, étnico e de gênero, que produz a cegueira, o fanatismo e, no limite, o patrocínio da barbárie e da morte.

As bandeiras sobem e descem. Depois voltam a subir no campeonato brasileiro (e mundial) da morte. Elas têm cores convencionadas por gravidade de perigo que vão do amarelo ao preto.

Neste triste campeonato em que a bandeira preta está hasteada em muitos lugares, precisamos garantir a vitória da vida e da saúde, o que é possível com os cuidados redobrados e vacina para todos, urgentemente! Mas, é indispensável também vencer os negacionismos, o individualismo pessoal e familiar, a cultura do ódio, as guerras mudas sobre assuntos essenciais.

Não podemos ficar indiferentes diante da morte produzida pelo coronário de vírus, bactérias, fome, desigualdades e injustiças. Dar ouvidos a quem grita, estender a mão a quem precisa, superar preconceitos e discriminações, aprender com o sofrimento próprio e alheio, cultivar o diálogo com todos, produzir unidade na diversidade sempre é tempo. E agora é mais necessário do que nunca!

Autor: Dirceu Benincá

Edição: Alex Rosset

Três pandemias virtuais e uma real

Um poderoso e pequeno vírus mostrou que há algo muito mais poderoso e amedrontador a se enfrentar: a luta pela vida saudável, tão medonho como as injustiças sociais e as guerras convencionais.

O empregado não saiu pro seu trabalho
pois sabia que o patrão também não tava lá.
Dona de casa não saiu pra comprar pão
pois sabia que o padeiro também não tava lá
E o guarda não saiu para prender
pois sabia que o ladrão, também não tava lá
E o ladrão não saiu para roubar
pois sabia que não ia ter onde gastar
. (Raul Seixas)

Nesse tempo de recolhimento compulsório da maioria da população mundial devido à pandemia do novo Coronavírus Covid-19, consolo-me, pois até o momento, ainda não tinha presenciado grandes tragédias que resultaram na morte de milhões de pessoas, como aconteceu nas I e II Guerras Mundiais, por exemplo. Pois é chegado o tempo.

Milhares de pessoas em todo o mundo estão perdendo a vida, levando-as a desejar ardentemente uma vacina salvadora. E o pior é que, por enquanto, ainda não há vacinas suficientes para contê-la o mais cedo possível, bem como ninguém sabe ao certo o que virá pela frente sendo que, no Brasil, já há quase 400 mil vítimas fatais (e sem previsão de número de vítimas até o final da pandemia) e outros tantos sequelados.

Pergunta-se então quais serão as consequências futuras da pandemia da Covid-19 no âmbito da saúde pública, da economia e principalmente no comportamento social?   

Os leitores podem não acreditar, mas como professor de Literatura, tive o privilégio de ler e viver três pandemias, isto é, sentir como três obras ficcionais abordaram as pestes em tempos passados, as quais também vitimaram milhões de pessoas.

A primeira, Decamerão, escrita pelo poeta italiano Boccaccio, em 1350. A segunda, A Peste, de Albert Camus, escrita em 1947; a terceira, o romance Ensaio sobre a Cegueira, escrita em 1995 pelo romancista português José Saramago.

Nas três experiências de leitura pude confirmar a tese de Heráclito de Éfeso de que “a guerra é a mãe de todas as coisas”, pois contém, pelo menos, a duplicidade, isto é, a vida e a morte, a doença e a saúde, o bem e o mal, o trágico e o heroico, o vírus e a ciência, o medo e a coragem, dentre outras antíteses.

Atualmente, em tempos da pandemia Covid-19, estamos em plena guerra, pois a letalidade poderá chegar a centenas de milhares de vítimas. Soma-se a isso o desemprego, a fome, o isolamento social, os hospitais superlotados, as aflições e as doenças de ordem psicológica, dentre outros efeitos maléficos que virão num futuro bem próximo.

Se na guerra convencional a espera é pela paz, na pandemia do Coronavírus a espera é pelas vacinas salvíficas, que já se constituem outra guerra de ordem política e econômica.   

Nessa busca, há muitos laboratórios na corrida para proteger os humanos contra um vírus tão pequeno, mas tão letal. Isso é a pandemia real. Resta saber quando terminarão as outras guerras pela posse, autoria e distribuição das vacinas.    

No que se refere às pandemias ficcionais, digo literárias, a obra Decamerão, de Boccaccio, redigido por volta de 1350, inaugura a prosa de ficção ocidental, sendo a pioneiro a reunir múltiplos contos para tecer uma estrutura complexa na forma de romance e novela. Nesse sentido, funda a tradição romanesca que se estende até os dias atuais e estabelece um modelo para o que viria a ser o conto ficcional e, mais tarde, a novela e o romance.

A obra junta cem narrativas contadas por sete damas e três cavalheiros que, para fugir da peste negra, que afligia os habitantes da cidade italiana de Florença, recolhem-se para passar o tempo e celebrar a vida, narrando histórias uns aos outros para ganhar tempo e para fugir do isolamento social. A história parece se repetir com diferenças, sendo que, naquele tempo, a era industrial ainda estava longe da modernidade atual, predominando o mercantilismo. 

Por seu lado, em tempo de Coronavírus – Covid 19, exatamente na segunda década do Século XXI, mais precisamente entre os 2019 e 2020, explode a pandemia na China, espalhando-se à Itália, Espanha, Inglaterra, EUA, Portugal, Brasil, dentre outros países. O fato é que na Itália, novamente na Lombardia, cuja capital é Milão, cidade industrial, que, há pouco, a doença vitimou milhares, pois seu prefeito menosprezou a expansão da doença para ter o agrado dos empresários. Porém, a doença matou milhares de pessoas. Vê-se claramente o desdobramento da história com suas semelhanças e diferenças. 

A obra ficcional A Peste, de Albert Camus, foi publicada em 1947, um pouco após o fim da Segunda Guerra Mundial.

O romance conta a história da chegada de uma epidemia na cidade argelina de Orã. A personagem principal é o médico Rieux, que combate a doença até o momento em que ela se dissipa ceifando a vida de muita gente.

O narrador descreve como a população reage, indo da apatia à ação, bem como alguns profissionais se expõem na linha de frente para enfrentar e eliminar a peste. Denuncia também que há oportunistas e aproveitadores, como um personagem que lucra com um mercado paralelo de produtos. Num primeiro momento, as autoridades insistem em esconder a doença, fato que Camus veria de forma crítica, no sentido de sempre nomear as coisas ao público. Por fim, há na obra o cuidado de se mostrar as coisas como elas são de fato. O livro fala que existem problemas de abstração, como a desinformação e a abstração, as quais geram histeria e comportamentos levianos ou xenofóbicos, como temos visto no Brasil.

 Em A Peste, o número de mortes é anunciado diariamente numa rádio. Por outro lado, o narrador descreve algumas das mortes, o que faz os leitores senti-las de uma forma mais direta. Por coincidência, o que se verifica na imprensa brasileira é a divulgação do número de óbitos diários, que é informado diariamente pelos consórcios de televisão, rádios, jornais na forma de gráficos e bandeiras coloridas: branca, preta, azul, laranja e vermelha.   

Por seu turno, o romance Ensaio sobre a Cegueira, publicado em 1995 pelo escritor português José Saramago, narra a história da epidemia de cegueira branca, a qual se espalha por uma cidade e vai acometendo um por um de seus habitantes, trazendo o caos e abalando as estruturas de uma sociedade civilizada. É um romance que não apela pelo engraçado e nem ao religioso, tanto que não há nele espaço à comicidade e à piedade. É uma obra que, mesmo sendo uma ficção, é bem detalhista e realista.

Contrastando com a cegueira preta, a cegueira branca é de natureza metafórica, pois ironiza a cegueira moderna, a qual não vê o óbvio, isto é, as injustiças, a fome, a corrupção, a falta de ética, a violência contra as mulheres, negros, índios e contra diferentes gêneros. O texto não questiona Deus, nem os governos, mas questiona o sistema de vida que rege as pessoas no cotidiano moderno e urbano que, feitas semáforos, sinalizam quando avançar ou parar, e que, por isso, confina as pessoas nos manicômios dos afetados pela falta de visão daquela visão, isto é, pela cegueira branca.  A obra também foi transposta para o cinema e o autor ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1998.

Parece que Saramago, alinhando-se aos antecessores Boccaccio e Camus, profetiza a Pandemia do Covid-19 para esse início do Terceiro Milênio.Como “a guerra é a mãe de todas as coisas”, a pandemia do Covid-19, está deixando suas indeléveis marcas tanto de caráter positivo, quanto negativo.

De negativo são, até o momento, as mais de 02 milhões de óbitos no mundo e as quase 250 mil no Brasil; a fome e o desemprego; o isolamento social; a corrução na compra e distribuição das verbas ao combate do Coronavírus; a suspensão das atividades escolares, religiosas, culturais, esportivas e recreativas; as patologias de ordem física e psicológica, dentre outras, que deixarão cicatrizes por décadas.

Por seu turno, a pós-pandemia Covid-19, trará benefícios capazes de qualificar os padrões de higiene, a convivência, a solidariedade e a ética, sem contar com os benefícios de ordem virtual e de enriquecimento linguístico. Mudarão o sistema de moeda corrente, o controle de doenças endêmicas, o sistema de ensino, educação, transporte, saúde, esportes, o emprego, a economia e a segurança.

Durante a Pandemia, por exemplo, já foram incorporadas à Língua Portuguesa inúmeros vocábulos, os quais se tornarão estrangeirismos em pouco tempo, tanto que os brasileiros comuns já sabem o que significam os termos ingleses lockdown, lives, delivery, home office, home school, loungs, drive thru, upgrade, hand over, hand in, e assim por diante.  Quem sobrevir ao Covid-19 logo verá!

Enfim, a guerra contra a Covid-19, ou Coronavírus, traz em seu bojo, elementos positivos e negativos que, quer queira, quer não, profetizam que a humanidade deverá dar uma guinada extraordinária a partir desse início do Terceiro Milênio.

Um poderoso e pequeno vírus mostrou que há algo muito mais poderoso e amedrontador a se enfrentar: a luta pela vida saudável. Este vírus é tão medonho como as injustiças sociais e as guerras convencionais.

Ah, se pudéssemos escolher as vacinas contra a Covid-19! Que tal Sinovac? AstraZeneca?  Coronavac?  Pfizer-BioNTech?  Oxford?  Sputinik 5?

Uni, Duni, Tê…

Esta é uma edição revisada de publicação originalmente publicada em 01/08/2020. Link da versão inicial.

Autor: Eládio Weschenfelder     

Edição: Alex Rosset  

Educação e atuação social de professores e professoras

Nelso dos Santos mora e atua no município de Nonoai, interior do RS. Nelso tem uma trajetória que conjuga atuação profissional como professor em sala de aula e atuação social, a partir de lutas sindicais e partidárias, buscando melhorias sociais para a comunidade.

De fala mansa, Nelso dos Santos transpõe seus conhecimentos para a sabedoria, que adquiriu depois de muitas experiências coletivas e muita disposição pelo trabalho social. Sereno, mas firme e convicto em seus ideais, é uma referência para muitos e muitas de seus pares, professores e professoras que, no Estado do RS, vivem tempos difíceis por falta de reconhecimento e valorização profissional.

Entrevistar professor Nelso é reafirmar os compromissos que a educação exerce junto às comunidades de nosso estado. Nelso representa uma geração de professores e professoras que souberam interpretar a importância da educação como ferramenta de transformação social.SITE NEIPIES: Como, quando e porquê decidiu empreender sua vida como professor? Quais foram suas motivações?

NELSO DOS SANTOS: No início, tudo parecia muito caótico e confuso. Recém havia concluído o 2º Grau na CNEC, em NonoaI, e não tinha clareza do rumo a seguir.

Sou o mais jovem de cinco irmãos de uma família de pequenos agricultores. Desde muito cedo meus pais me incentivaram a estudar. Embora também trabalhasse na terra e compreendesse bem a importância e o sacrifício do pequeno agricultor, dividir uma colônia de terra em três irmãos não me parecia razoável.

Em meados de 1982 recebi o convite para substituir dois professores em duas escolas isoladas no interior do então distrito de Rio dos Índios. Uma delas, multisseriada, anos iniciais, e a outra, na comunidade onde eu morava com ensino fundamental incompleto, hoje desativada. Nesta última, trabalhei com as disciplinas de Língua Portuguesa, Educação Artística, Educação Física e Ensino Religioso para 5ª e 6ª séries onde também fui diretor, posteriormente. Lembro que as condições de trabalho, material didático e a estrutura física destas escolas eram precárias.

A gente precisava improvisar em quase tudo. Nesta época, Rio dos Índios contava com trinta escolas – muitas brizoletas – e só havia ensino fundamental completo na sede distrital – Escola Estadual Romano Padoan.

Eu tinha pouco mais de dezoito anos e liderava o grupo de jovens da PJ na minha comunidade – Bom Retiro – o JUCC. A PJ era muito bem estruturada e em cada comunidade, à época, havia um bom grupo de jovens.

Contávamos com o apoio e a assessoria dos Irmãos Maristas que por muitos anos trabalharam em Nonoai. Queria muito prestar vestibular, mas só fui receber meu primeiro salário como professor, alguns meses depois de iniciado o trabalho. Ainda naquele ano (1982) houve eleição municipal e a primeira para governador já no final da Ditadura Militar. Como eu era apenas contratado e por não admitir cerceamento de opinião política, fui demitido junto com outros professores. Porém, em função da mobilização e do vínculo construído junto àquela comunidade fui recontratado no início do ano seguinte.

Foi aí então que comecei a entender melhor o meu papel, a importância do professor e da educação numa comunidade interiorana, onde viviam mais de cento e cinquenta famílias. No nosso pequeno grupo de professores, todos jovens, tínhamos sonhos e histórias em comum.

Em poucos anos, com o apoio dos pais e estudantes, aquela escola havia sido transformada. Em 1984, finalmente, pude começar minha primeira graduação em Chapecó-SC, onde também militei no movimento estudantil. Aqui já não tinha mais dúvidas de que este era o caminho: a educação como profissão e compromisso com a vida. Permaneci por dez anos consecutivos na rede municipal exercendo diferentes funções até 1992, quando em definitivo, assumi a rede pública estadual permanecendo até hoje.

SITE NEIPIES: A política, como busca do bem comum, sempre cruzou a sua vida. Como conciliastes a profissão docente com a política? Qual é a importância de professores e professoras politizados?

NELSO DOS SANTOS: A política, na verdade, veio como consequência dos compromissos que fui assumindo ao longo da militância social ainda na juventude. Em 1986 fomos encorajados a participar do debate sobre o processo constituinte em nossa Diocese e isso nos permitiu atuar depois em outras frentes, espaços de lutas e participação além da PJ: oposição sindical STR e a luta pela terra, sendo que Nonoai tem uma grande história relacionada à origem do MST no RS, assim como a própria fundação do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais em 1990.

A luta sindical, nesse período, foi marcada por grandes mobilizações que visavam a garantia de direitos que ainda eram negados aos trabalhadores do serviço público municipal. Foi a partir desse engajamento social que inicia a minha participação no campo da política partidária.

Em 1996, fui eleito vereador pelo Partido dos Trabalhadores-PT.

Desde muito cedo, portanto, compreendi que precisamos ter posição e lado na história. Não existe neutralidade. Assumir um posicionamento tem custo e risco, mas é imprescindível.  É na política que as grandes decisões são tomadas em todos os níveis de governança. Posso ser apático à política, não participar, ficar indiferente a tudo, mas não me livrarei jamais das suas consequências. Pois ela impacta decisiva e diretamente as nossas vidas.

Vivíamos um momento de ascensão, de fortes mobilizações regionais e aquilo tudo contribuiu significativamente com a vitória de um projeto de governo democrático e popular no Rio Grande do Sul em 1988 e, mais tarde, à Presidência da República em 2002. Com o grupo de apoio que construímos, conseguíamos conciliar nosso trabalho no magistério e a atividade parlamentar. Em 2005 optei pela licença do magistério para exercer o mandato de vice-prefeito até 2008.

Atualmente, concilio o mandato de vereador com o trabalho administrativo na escola. Entendo que a interação, a liberdade de organização e expressão em todos os espaços é fundamental. Mas ela requer muita responsabilidade, coerência, exemplo e disciplina, sobretudo. Não dá pra levar de qualquer jeito.

É preciso, paciência, prudência, fazer o bom debate, sem perder o foco e ter presente que o mandato é passageiro, que vivemos do nosso trabalho e não da política. Terminado o mandato, a vida profissional segue. Daí a importância da nossa profissão. O mandato precisa estar a serviço da comunidade, não o contrário.

SITE NEIPIES: Conte-nos como é hoje ser vereador e professor, servindo sua comunidade de Nonoai?

NELSO DOS SANTOS: É uma bela oportunidade, um espaço conquistado coletivamente onde é possível dar visibilidade às angústias, aos apelos e as demandas dos mais variados segmentos sociais.

Embora tenha sido eleito dialogando mais diretamente com as questões sociais, educação e agroecologia, a função e o papel do vereador é muito ampla. Você se depara na Câmara com uma série de rituais, burocracia, demandas acumuladas, contradições, reinvindicações antigas não ou mal resolvidas, leis que não são cumpridas, sem nexo, e no dia a dia sempre vão surgindo novas demandas. Cabe ao vereador, portanto, cobrar, propor, representar, fiscalizar e denunciar, quando necessário, e é nessa perspectiva que atuamos.

O fato de ser professor permite e contribui, no campo político, para a construção de um olhar atento e sensível sobre as diferentes interfaces que permeiam a vida em sociedade.

SITE NEIPIES: Que boas lembranças o senhor carrega do período em que exerceu a função de Coordenador Pedagógico na Coordenadoria Regional de Educação de Passo Fundo? Que políticas educacionais marcaram o RS naquela época?

NELSO DOS SANTOS: O período ali vivenciado, de fato, foi muito valioso e um grande desafio. Recentemente havia concluído o mandato de vice-prefeito que me permitiu coordenar em nível local a implementação de uma série de programas e políticas na área educacional e agricultura familiar. Todavia, conhecer e trabalhar com colegas, equipes diretivas e lideranças de 120 escolas distribuídas entre os trinta munícipios que integram a 7ª CRE foi algo extraordinário.

A complexidade das tarefas e a infinidade de programas e demandas cotidianas a responder, se apresentam como uma importante lacuna a ser superada. Todavia, aos poucos, fomos conquistando confiança, construindo novas relações de amizade e respeito que até hoje me orgulham muito.

Foi um tempo de intensa mobilização pela reestruturação curricular do ensino médio e pelos processos de formação que realizamos em grupos de escola em todas as regiões. Os conflitos afloravam em acalorados debates, mas não fugíamos deles. Estudávamos muito e esperança não faltava. Tínhamos um projeto e perspectivas de futuro com os processos formativos, com a valorização da carreira, do concurso, das promoções e da modernização das nossas escolas.

Lembro-me do Mais Educação, do Proemi, Pronatec, do Pacto pelo Ensino Médio entre outros programas federais que ajudamos a desenvolver neste período, marcas profundas que permanecem vivas em nossas escolas. Mesmo com todas as limitações e contradições, as políticas e programas desenvolvidas naquele momento fizeram toda a diferença em nossas vidas profissionais, escolas e comunidades. Lamentavelmente, não tiveram continuidade no período seguinte.

Tão significativa e marcante foi à questão curricular do ensino médio no Rio Grande do Sul entre 2011 a 2014 que nos motivamos a resgatá-la como tema da dissertação de mestrado concluída e aprovada pela UFFS – Chapecó/SC em 2017: “Implementação do Ensino Médio Politécnico no Rio Grande do Sul: concepções, desenvolvimento e Gestão.” Guardo boas lembranças deste período e quiçá, possamos, em breve, retomar as nossas mobilizações e acender outra vez a centelha da esperança que mantínhamos viva naquele momento.

SITE NEIPIES: A educação está passando por profundas mudanças, através da Nova BNCC e da reforma do Novo Ensino Médio. Como o senhor vê estas mudanças?

NELSO DOS SANTOS: Sempre me questionei porque alguns têm uma educação integral, de qualidade social, que trabalha e aprofunda o tempo todo o que de melhor nossa civilização acumulou e construiu ao longo da história em termos de conhecimentos gerais à luz da ciência, da cultura, do mundo do trabalho e das diferentes tecnologias. Enquanto a absoluta maioria dos nossos jovens precisam conciliar seus estudos com a questão do trabalho na perspectiva primeira da sua própria sobrevivência.

A “simples” ampliação e permanência do jovem no ensino médio na rede pública de ensino do RS a partir de 2012, como sabemos, de 800 para 1000 horas foi e tem sido uma equação bem difícil.

Mais do que inovar o currículo, é preciso, de fato, torná-lo, atraente, dinâmico sob todos os aspectos, que possibilite de fato aprendizagens significativas para os jovens, que amplie seus horizontes, que sinalize para um projeto de vida em sociedade, onde ele seja protagonista das suas escolhas.

Contudo, precisamos pensar nas condições reais, nos meios para que possamos, na prática, tornar tudo isso uma realidade possível no chão da escola. A experiência de EMTI feita pela Escola Maria Dulcina em 2019, como escola indicada pela 7ª CRE, ficou aquém das expectativas, pois a promessa de suporte técnico, pedagógico e estrutural, praticamente em nada se materializou, em que pese não tenha faltado recursos para a alimentação dos estudantes.

Precisaremos rever ainda uma série de questões que passam pelo espaço físico, pela formação dos professores, funcionários, recursos para manutenção, material didático e novas tecnologias, recuperação dos salários e valorização da carreira, pela questão de direitos que nos foram subtraídos recentemente, entre outras. Sem dúvidas, a nova tarefa será desafiadora.

Embora as condições socioeconômicas e a brutal desigualdade que vivenciamos hoje sejam o principal entrave para a permanência dos nossos jovens da escola, isso não pode ser motivo para desistirmos do sonho e do projeto de construirmos uma escola pública boa e uma educação de qualidade social que inclua a todos (as) e faça a diferença na vida dos nossos jovens e adolescentes.

SITE NEIPIES: A BNCC propõe a flexibilização curricular e o protagonismo juvenil como estratégias para atrair e vincular os jovens com a escola para o término do Ensino Médio, a partir de 2022. O que a comunidade Escolar Maria Dulcina, uma das maiores escolas da região próxima de Passo Fundo, espera das mudanças que vem sendo anunciadas?

NELSO DOS SANTOS: Desde 1989, a Escola Maria Dulcina oferta ensino médio nos três turnos além da EJA a partir de 2003. Para milhares de jovens esta escola tem sido à porta de entrada e de acesso a uma oportunidade no mundo da vida e do trabalho. Possui uma estrutura invejável sob todos os aspectos construída ao longo das últimas décadas mantendo cerca de 1000 estudantes matriculados atualmente.

 A construção da EJA e a implementação do Ensino Médio Politécnico foram experiências marcantes para a escola que, articuladas com programas nacionais como o Proemi, Mais educação e o Pacto pelo Ensino Médio, dinamizaram e potencializaram o currículo escolar, tornando-se referências de bons exemplos que deram certo e fizeram a diferença na vida de tantos estudantes e professores.

Conhecendo o grupo de professores, o acúmulo de experiências nos seus 91 anos de história, somados ao compromisso e participação da comunidade no cotidiano da escolar, acredito que se houver suporte técnico, financeiro e pedagógico, além de respeito e valorização dos profissionais, as mudanças anunciadas podem sim fazer a diferença no atual contexto de crises e incertezas.

Todavia, um dos grandes problemas que enfrentamos em nível de estado e de país, é que a maioria dos programas sociais e/ou educacionais não tem continuidade com a alternância de governo, especialmente no Rio Grande do Sul que até então nunca reelegeu governador desde a primeira eleição pós-período ditatorial.

SITE NEIPIES: Uma das ações recentes do governo Estadual do RS é fechamento de turmas EJA (Educação de Jovens e Adultos). Como esta ação está afetando Nonoai e as cidades próximas?

NELSO DOS SANTOS: A Educação de Jovens e Adultos – EJA está presente na Escola Maria Dulcina desde 2003. Foi ainda no contexto da Constituinte Escolar, à época no Governo Olívio Dutra (1999/2002) que construímos esta modalidade de ensino na escola começando pelos anos iniciais e depois consolidamos a proposta até o Ensino Médio.

Nestes dezoito anos mais de oitocentos jovens e adultos da cidade, interior de Nonoai, comunidade indígena e munícipios vizinhos puderam concluir o ensino médio através da EJA/Emadu. 

O nosso município oferece matrícula no ensino fundamental e a Escola Maria Dulcina no Ensino Médio. São mais de quarenta estudantes matriculados na T8 e T9 em 2021, sendo que outros 28 jovens aguardam autorização de abertura da T7 para efetivar matrícula e iniciar seus estudos. A demanda continua grande, mas a escola dispõe de estrutura física e humana para atendê-la. Aguarda apenas a autorização para as novas matrículas.

Nonoai tem recebido nos últimos meses dezenas de migrantes que procuram trabalho nos frigoríficos na região e, também por isso, se justifica a continuidade desta modalidade de ensino.

 Por isso, enquanto vereador, também tenho cobrado dos órgãos oficiais e competentes ações efetivas no sentido de impedir que a EJA seja extinta até o final deste ano letivo na escola, bem como em toda a rede pública de ensino do RS. Isso representaria um enorme prejuízo e um grande retrocesso à comunidade escolar.

Trata-se de uma ação política nefasta do Governo Leite (PSDB) que tem a ver com a lógica perversa do Estado Mínimo, onde as questões sociais e a educação em particular, tem sido relegada em segundo plano. Cortar, enxugar, privatizar, municipalizar e extinguir, tem sido verbos prioritários que este governo sabe conjugar e articular em favor do Mercado, a quem serve e representa com maestria.

SITE NEIPIES: Os professores e professoras do magistério estadual vivem dias difíceis no que tange à valorização profissional e financeira e ao reconhecimento do trabalho docente. Com a pandemia, o trabalho dos professores ficou mais difícil ainda, quando estes, a partir de suas casas, garantem o estudo remoto durante a pandemia. Como o senhor percebe os professores e professoras diante deste contexto?

NELSO DOS SANTOS: Há seis anos consecutivos, lamentavelmente, nos encontramos com salários congelados. O custo da cesta básica vem aumentando constantemente também nas pequenas cidades, e o cenário com que nos deparamos enquanto categoria, a partir do início da pandemia, sobretudo, é muito preocupante. É desolador em muitos aspectos, pra dizer como.

Olhando a partir do setor administrativo da escola onde atuo, sinto também a angústia dos colegas professores que precisaram no curto prazo se reinventar, se reorganizar para enfrentar os novos tempos e desafios da profissão em plena pandemia.

Foi preciso conciliar a luta cotidiana em defesa da saúde, da vida, da sobrevivência, e focar no atendimento aos estudantes de forma remota como continua sendo feito em 2021. Mesmo diante de tanto esforço, não faltaram, ao longo de 2020, crítica ao funcionalismo em geral, no sentido de desqualificar e por em xeque o trabalho desenvolvido.

Não há dúvida de que além da pressão, da angústia, aumentou também, neste período, a demanda de trabalho dos professores e equipes diretivas que a partir da escola, de forma presencial, continuam garantindo suporte aos pais e alunos, face à todas as fragilidades decorrentes do contexto atual.

O cansaço é visível. Muitos adoeceram e outros, inclusive, perderam familiares para a Covid19. Embora acredite que nada substitui a presença e a interação direta professor/aluno em sala de aula, creio sim, que a coragem, o desejo de acertar e a capacidade de resiliência em tempos de incerteza e dor, podem potencializar a construção de novos e múltiplos saberes.

SITE NEIPIES: Qual é, hoje o papel e a função de um Sindicato como o CPERS na representação e na luta dos professores/as pela manutenção de direitos?

NELSO DOS SANTOS: Um sindicato como uma entidade de classe ou uma ferramenta a serviço de uma determinada categoria profissional, para defendê-la de forma mais eficiente, precisa em primeira mão estar sempre “afiado”, como nos ensinava o saudoso amigo e Dep. Federal Adão Preto-PT/RS. A ferrugem impede que a ferramenta corte e o roçado renda.

Partindo desta pequena metáfora, acredito que renovação sindical no CPERS está mais que na hora de acontecer. A oxigenação é necessária, e apesar do momento difícil de pandemia, haveremos de mobilizar um grande número de colegas em torno do processo eleitoral que se avizinha.

Além da luta em defesa da urgente reposição salarial, da luta para impedir ainda mais retrocessos às nossas categorias (magistério e servidores de escola), acredito que outra tarefa urgente e necessária para o próximo período seja mobilizar e investir mais na formação sindical, na organização de base a partir das escolas, ampliando o número de associados e construindo novas lideranças.

Precisamos, acima de tudo, defender com clareza a necessidade e a importância de construirmos um novo projeto de educação e de humanidade, inclusivo e transformador. Por fim, acredito que uma direção, por mais segura que esteja, por prudência, não poderia e não poderá tomar decisões extremamente difíceis e comprometedoras sem ouvir as bases da categoria, mesmo que o processo possa ser mais penoso e demorado.

SITE NEIPIES: Na sua visão e na sua sabedoria, o que estamos aprendendo, como sociedade, a partir da pandemia?

NELSO DOS SANTOS: Primeiro, estamos confirmando que a história de fato se repete. A civilização ocidental, sobretudo, de onde temos mais conhecimento, já viveu em diferentes momentos situações semelhantes. A peste negra e a gripe espanhola são dois exemplos para serem reestudados.

Em que contextos estas pandemias ocorreram? Que consequências trouxeram para a humanidade? Que mudanças culturais, políticas e econômicas provocaram? E assim poderíamos já escrever para as futuras gerações como enfrentamos a pandemia do Novo Coronavírus: as contradições do nosso tempo, as questões ideológicas em disputa, o negacionismo científico.

É nessa direção que Boaventura de Souza Santos nos ensina: “estamos impondo a vida humana à Terra. “O vírus nos diz: ‘se os humanos continuarem a destruir o planeta da forma como estão destruindo, não é [apenas] esta pandemia, são muitas outras que virão.”  Em outra análise, afirma se tratar de uma reação do planeta frente às ações violentas e egoístas, pautadas pela lógica do consumo desenfreado, ambição e ignorância.

O momento atual é oportuno para a reflexão, para conhecer a nós mesmos, nossas potências e fragilidades. Precisamos aprender a valorizar e defender as nossas conquistas no campo das políticas públicas hoje consolidadas a exemplo do SUS, a valorizar o poder da ação consciente e coletiva em favor da vida.

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos que leram até aqui.

NELSO DOS SANTOS:Mesmo diante da tragédia humana, como nos ensina Mia Couto, “é preciso falar de esperança todos os dias só para que ninguém esqueça que ela existe.” Externo aqui minha solidariedade às famílias de tantas vítimas.

Basta de negacionismo! Não podemos permitir que a dor do outro, o sofrimento e a morte sejam banalizados e naturalizados entre nós. Este genocídio precisa ter fim. O SUS é nosso, a ciência e as nossas instituições de pesquisa, bem como os profissionais da saúde precisam ser respeitados e valorizados. Vacina para todos e auxílio emergencial decente para socorrer que mais precisa. A vida acima de tudo! Abraço à todos! (Nelso dos Santos, Professor e Vereador (PT), Mestre em Educação – UFFS/Chapecó.)

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

A filosofia e a literatura criando florestas de sabedoria

A natureza tem uma alma pura, mas que se amedronta diante do olhar do homem, e reage como o tigre em ameaça. Não duvidemos da bravura da natureza. Duvidemos da sua ação.

Saudações, ó senhora Natureza! Tu que és beleza e mistério, sorriso aos nossos olhos, espanto ao nosso ente. Invocamos as ninfas, estas mulheres que embelezam os campos, para abraçar o homem moderno à sua sapiência. 

Saint-Exupéry passando por Natal se espantou diante de uma árvore de tamanho gigantesco: o baobá.

Dizem que Saint-Exupéry se inspirou no nosso baobá para ilustrá-lo no seu livro: O Pequeno Príncipe. Mas o nosso baobá, não é mais nosso. É propriedade privada, e alguém tinha que comprar o baobá para que ele recebesse os cuidados de uma criança. Esse menino que apareceu no deserto querendo o desenho de um carneiro para salvar a sua rosa, sua única amiga em todo o Universo. Eis que alguns poucos homens, ainda, tomam a natureza como amiga. Bom seria que fôssemos todos príncipes e princesas como nos contos de fadas. 

Há crianças que brincam no meio da floresta, de tomar banho de rio, de contar as estrelas, de ver São Jorge na lua, de querer passar embaixo do arco-íris. Ah! Essa vida cheia de brincadeiras, de sorrisos, de comer as goiabas do vizinho e sujar a camisa com nódoa de caju.

Assim são os homens, cheios de mimos, de espanto, de curiosidade. Homens que investigam a natureza à procura de respostas às suas indagações. Afinal, já perguntava Sócrates: “Quem sou eu?” Esta pergunta nos leva a indagar sobre o futuro da humanidade e quem seremos nós daqui a alguns anos com esse crescimento desenfreado.

Ah! As gaivotas azuis estão no pantanal seguras, eu vi, eu vi, eu vi ontem na televisão. E como fiquei feliz ao saber que uma pesquisadora olhou-as com os olhos de espanto e das mil encontradas, hoje temos quatro mil. As gaivotas azuis estão em extinção…que pena! que pena! a vida parece ter se tornado tão pequena.

Em contrapartida, estão matando as nossas baleias! Que fazermos agora? Dizem que a baleia orca é a baleia assassina, será mesma? Ou assassinos somos nós, sim, nós que invadimos os oceanos sem pedir permissão a natureza. Paz nos oceanos eu suplico!

As baleias são mamíferos e têm direitos iguais aos homens. Salvem as baleias! Salvem as baleias! Que vêm de lugares distantes, que viajam mares adentro…que vêm de algum lugar muito longe neste mundo que ainda tem muita água…ainda…

De onde vêm as coisas? Foi esta pergunta que intrigou os nossos primeiros filósofos que buscaram respostas na natureza. Tales de Mileto disse que o princípio das coisas está na água, que a chuva dá esse movimento de criação das coisas.

Como é bom tomar banho de chuva, se meter embaixo da biqueira e ficar lá deixando a água cair em cima da nossa cabeça, molhando o nosso corpo. Mas as biqueiras estão desaparecendo e com elas as brincadeiras. E a chuva? Poderá desaparecer, também?!

A água, este elemento primordial à vida do homem. Princípio de todas as coisas. Mas os rios choram lágrimas de tristeza, nas suas águas correntes. Gritam as ondas do mar, no seu movimento de levar e trazer os objetos que jogamos no chão. O mar, ainda, tem forças para expulsar do seu corpo aquilo que não lhe pertence. Mas os mangues não têm esta força. Nas suas mais diversas espécies de plantas ficam presos restos de lixo que jogamos no meio da rua, e acabam correndo para os rios.

Como sustentar a teoria de Tales daqui a alguns anos? Poderá esta água poluída ser princípio das coisas? Para dar vida é preciso estar sadio. A saúde da água depende tão-somente da nossa consciência. Conscientizar o homem da importância da água é nosso objetivo. Que procurem outro lugar para a saída dos esgotos. Sim, nós queremos água limpa e pura. Do jeitinho que a natureza nos deu.

Andersen, o maior escritor infantil de contos de fadas, escreveu A Pequena Sereia. O conto faz um elogio à água, ao oceano. Vejamos nas suas palavras:

“Ninguém pensa que lá embaixo só há um solo de areia branca. Lá crescem árvores e plantas, das mais esquisitas, de hastes e folhas tão flexíveis que ao menor movimento da água se movem como se tivessem vida.”

A Pequena Sereia é uma das diversas histórias que podemos contar às crianças, enfatizando a importância da água, a beleza do oceano, falando da vida que há lá embaixo, deixando-as soltar a imaginação com as sereias e outros bichos do mar.

Devemos tomar este caminho para chamar atenção das crianças da importância que o meio ambiente tem para o homem. Se, de repente, o oceano começar a ficar cheio de lixo, com certeza desaparecerá a beleza do conto, e chegará um dia que não poderemos mais contá-lo, porque a realidade corromperá a imaginação.

Voltando ao conto de Andersen, quando uma das sereias sobe à terra ela se depara com uma cena linda aos seus olhos como podemos ver nas suas palavras:

“Ficaram-lhe, porém, gravadas na memória, as belas florestas, as colinas verdes, e as lindas crianças que nadavam na água…”

Sim, são estas florestas e crianças que queremos conservar no amanhã. Nós somos responsáveis por isso. Podemos e devemos contribuir para a preservação do meio ambiente.

Não adianta aulas de campo, filmes, fotos, se não as situarmos dentro do mundo imaginário que se liga à realidade. O imaginário de alguma forma está presente no pensamento da criança, e é através dele que conseguimos apresentar a realidade.

Devemos abordar o imaginário, seja através da contação de histórias, do desenho, da escrita, da encenação. As histórias estão escritas, e têm vida eterna. Da mesma forma, temos os rios, as florestas, os animais, enfim uma natureza que é real e que faz parte do imaginário da criança. Fazer uma ponte entre esses dois mundos, com o objetivo de uma educação para o pensar é transmitir o “ar” da sabedoria ao vento que desalinha os cabelos desses meninos e meninas que correm, suam, sujam suas roupas e se metem mata adentro atrás de um coelho.

Imaginem, vocês, como poderemos contar a história de Chapeuzinho Vermelho se daqui a alguns anos não existirem mais florestas? A bondade e a perversidade podem ser exploradas nesta história, mas também podemos abordar o desmatamento, as queimadas. A floresta e as flores de Chapeuzinho Vermelho nos mostram a beleza e a magnitude da natureza para a escrita de uma história infantil.

Se não desligarmos as serras elétricas e não quebrarmos os machados, estaremos fadados a dar um fim aos nossos próprios sonhos.

Dito de outra maneira: produzir é também sinônimo de destruir. Não existe “produção” sem “destruição”. Não por acaso, a etimologia da palavra “consumir” (a razão maior do processo produtivo) significa “destruir”.(Marcus Eduardo de Oliveira) Leia mais!

Pegue o desenho de uma criança e você sempre se deparará com o sol, a lua, as estrelas, uma árvore, uma flor, uma pedra, uma montanha, um homem, enfim…tudo é natureza. Mesmo aquelas crianças que moram em cidades grandes têm predisposição para colocar nos seus desenhos algum elemento da natureza. Mas, se não abraçarmos esta causa e colocá-la no colo dando-lhe mimos e carinhos, criaremos nas nossas crianças mundos imaginários cheios de pedra, cimento, tijolo e ferro.

Anaximandro, outro filósofo da natureza, disse que o princípio das coisas está no apeíron (ilimitado). Este princípio nada mais é do que o movimento de separação e segregação dos corpos. Os corpos ao se separarem constituem novas vidas, o mesmo ocorre quando segregam. Mas para que este movimento continue é preciso o equilíbrio da natureza.

Para Anaximandro a terra é um disco suspenso no ar. O ar se movimenta, a terra também. Desse movimento os corpos se separam, se encontram, segregam. Com a natureza em desequilíbrio esses corpos podem sofrer influências e perderem este princípio ilimitado.

O conto de fada Branca de Neve faz parte desse movimento. Branca de Neve chega à casa dos sete anões, e adormece. O tempo que ela leva dormindo, o mundo gira suspenso no ar. Os corpos se encontram, se extinguem, se separam. Coisas acontecem, como a bruxa preparando a maçã enfeitiçada para Cinderela adormecer e a produção do trabalho dos sete anões.

A realização do feitiço pode criar novos corpos, novas vidas; o labor dos sete anões, também. Este é um conto aonde podemos usar esse movimento ilimitado do mundo, mostrando às crianças que este movimento está em harmonia e é preciso que a natureza também esteja, ao contrário essas formas de vida começarão a desaparecer.

Em Branca de Neve pode ser trabalhado o passar do tempo e como as coisas ocorrem neste período. Este tempo que passa trás as estações do ano, os dias, as noites, o vento, e se este tempo não estiver em equilíbrio a natureza sentirá a terrível dor de uma pancada que pode provocar os desastres naturais, tais como: furacões, terremotos, relâmpagos e etc.

Outra história que pode abordar este princípio ilimitado é a de Dom Quixote de la Mancha, escrita por Miguel de Cervantes. Enquanto Dom Quixote vive no seu mundo de fantasia e pureza querendo combater a injustiça, a sua criada e sobrinha destroem seus livros e vão dando novas formas de vida às coisas. É o apeíron responsável por este movimento. Dom Quixote sai pelo mundo afora e se depara com diversos corpos da natureza: pedras, rios, vento, florestas. Nada para, tudo está em constante movimento.

A construção de grandes edifícios, a poluição do ar e dos rios, o desmatamento, as queimadas, podem influenciar no apeíron. E este movimento ilimitado poderá sofrer alterações. Precisamos conscientizar as crianças que este é o tempo de agir, que a natureza é ilimitada, que seu movimento é eterno, que enquanto brincamos o frio unido ao quente proporciona novas formas de vida.

Respiremos e deixemos o ar entrar no nosso corpo e bailar na melodia desta tarde colorida com o verde das nossas matas. Sim, eis o ar. Este elemento da natureza do qual Anaxímenes criou a sua teoria sobre a origem das coisas. Tudo provém do ar. Tudo se origina no ar.

E agora? Como poderemos daqui há alguns anos termos vida na terra se estamos poluindo o nosso ar? E a proposição de Anaxímenes, como poderá se sustentar com toda esta ingratidão que temos oferecido à natureza? 

O conto de fadas A bela Adormecida pode nos mostrar que mesmo dormindo continuamos respirando. E esta respiração nos proporciona vida, do mesmo jeito que através do ar fazemos o fogo, as pedras se formam da transformação do ar. Quanto ao ar temos muitas histórias na nossa literatura infantil que podemos abordar: O Pequeno Polegar, o Gato de Botas e Cinderela. É só mostrarmos às crianças que todos eles precisam do ar para viver, que os demais elementos da natureza existentes na história provém do ar.

Uma aula de química pode se tornar belíssima com esta proposição de Anaxímenes. Como também uma aula de geografia, história, língua portuguesa. Sim, língua portuguesa! Não se espantem! A língua portuguesa pode ensinar às crianças a criarem textos, a buscarem nos dicionários o significado de palavras que se relacionam com o ar. Só para uma ilustração seguem as palavras: cosmologia, rarefeito, condensação e etc. Escrever uma redação falando da importância do ar à natureza, do desmatamento, das queimadas, da poluição dos rios.

A geografia pode explicar como ocorre o movimento do vento, qual a importância do ar para a formação das rochas e pedras.

A filosofia especula, ela cria a teoria, e coloca nas mãos das outras ciências o direito de explicar as suas suposições. O filósofo não é o dono da certeza, porque nem sabemos se a certeza existe. Há sempre dúvida em tudo. E tudo é investigado, tudo se desassossega no pensamento do filósofo, porque ele é um oceano com barcos naufragados cheios de tesouros valiosos como assim também são as crianças. Tesouros que podemos chamá-los de: porquês.

Nós queremos criar florestas de sabedoria. É preciso plantar. Plantemos sabedoria…a terra é boa, as sementes estão prontas, o imaginário infantil precisa ser plantado quando ainda tem curiosidade, quando ainda nenhum adulto encheu o baú do pensar da criança de conhecimentos. É preciso permitir que a criança descubra as coisas por si mesma, nós somos apenas mestres e o papel do mestre é ensinar o caminho e não seguir com a criança.

A educação ambiental que se faz por uma pedagogia do amor exigirá, então, mais que informações sobre espécies, ciclos e processos vitais, a vivência da natureza. Conhecer para amar, e amar para conhecer: eis o círculo do sentido humano do conhecimento. De um conhecimento que é prazer, pois confere valor àquilo que assim reconheceu como significativo. (Sérgio Augusto Sardi) Leia mais!

Do mesmo jeito que o ar pode ser explorado pelas demais disciplinas a água, e o fogo, também. Na cidade de Éfeso, perto da colônia jônica pertencente à Grécia, nasceu um filósofo chamado Heráclito. Para Heráclito tudo provém do fogo. O elemento que dá origem às coisas provém do fogo. E aqui imaginamos ficar sentados à beira-mar, meia-noite, diante de uma fogueira. As cinzas e a fumaça dando origem a novas formas de vida, nem damos conta disso.

Dos contos de fadas mais interessantes para se abordar sobre o fogo nada mais interessante do que o conto do Soldadinho de Chumbo, de Andersen. No final do conto, ele prova a teoria de Heráclito quando nos diz:

“O soldadinho derreteu, transformou-se numa bolinha de chumbo, e quando, no dia seguinte, a criada tirou as cinzas, viu que a bolinha tinha a forma de um coraçãozinho de chumbo. Da bailarina só restava a lantejoula queimada, preta como carvão.”

Do mesmo jeito que o Soldadinho de Chumbo se transformou numa bolinha de chumbo, as coisas podem se transformar em outras, dando novas formas de vida à natureza.

Um dos maiores filósofos, Platão, nos presenteou o mito da caverna no seu livro A República, onde nos apresenta os elementos da natureza: fogo, ar, sol e água. Claro que a água e o ar estão invisíveis na escrita do mito, mas com certeza existiam, pois se havia vida naquela caverna, e se como nos diz Platão moravam homens acorrentados imaginemos que de alguma forma eles precisavam respirar e beber água para viver. Lá fora, os dois últimos elementos: o fogo e o sol. Mas é o sol, o grande responsável pela sabedoria do homem.

Só aquele que enxerga o sol na sua excelência pode se tornar um sábio. O sol que na nossa região Nordeste, é tão apreciado pelas crianças e pelos adultos. Pois, que tomemos o sol como o mestre dos mestres e apresentemos as nossas dúvidas no caminhar dos dias, pois ao anoitecer a lua que recebe luz do sol pode nos auxiliar na compreensão do que antes era incompreensível.

Já dizia o filósofo Kant: “As crianças devem ser abertas e de olhar tão sereno como o sol.”

Os primeiros filósofos amavam e respeitavam a natureza. Alguns deles deixaram escritos belíssimos sobre a natureza. Eles não mexeram aqui e acolá, eles apenas investigaram e apreciaram tudo o que a natureza faz. O homem pode construir represas, prédios, fábricas, abrir estradas, mas não pode destruir a natureza para satisfazer seus desejos. Não pensem que ela não fala. Fala, sim.

Ela não tem um dono, todos somos donos da natureza. A natureza tem uma alma pura, mas que se amedronta diante do olhar do homem, e reage como o tigre em ameaça. Não duvidemos da bravura da natureza. Duvidemos da sua ação. Vocês estão convidados a plantar, plantar sementes de sabedoria nos canteiros das grandes avenidas e das praças públicas com grades de ferro.

Para nossas últimas palavras deixamos cócegas no pensamento de vocês, e que possam sair daqui com a consciência de que somos capazes de parar esta história que estão construindo da natureza. A história da natureza foi escrita pelo bem-supremo, não há que se construir outra, muito menos modificá-la. Ao homem foi dada a razão, que esta razão seja utilizada em prol da preservação do meio ambiente.

Se os biólogos estiverem certos, o desenho do futuro é assombroso, uma vez que nos próximos cem anos os humanos – a nossa espécie pensante, taxonomicamente chamada de sapiens, vejamos a ironia aí presente – poderão eliminar de 20% a 50% de todas as espécies da Terra. (Marcus Eduardo de Oliveira) Leia mais!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Veja também