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Crianças nas escolas quando for seguro para todos!

Vejo um monte de pessoas reclamando que as escolas não estão abertas, mas não vejo essas pessoas lutando pela vacinação dos profissionais da escola, todos os profissionais de uma instituição de ensino. Porque escola não é só professores e direção.

“Cansada de ver postagens do tipo “as crianças estão ficando doentes em casa”, ” lugar de criança é na escola”, “nesse momento a escola é o lugar mais seguro”, “as crianças estão traumatizadas”, e assim vão outras falas.

A criança precisa de um lugar seguro, de cuidado, de carinho, de amor, de saúde, de brincar, de correr, e muito mais.

Algo está errado se a criança está ficando doente e deprimida em casa.

A casa é o espaço de referência da criança, é lá que ela aprende a ser educada, gentil, ser amorosa, a se alimentar, a se higienizar, a falar, a andar, conquista a sua autonomia, aprende amar e ser amada.

É no seio da família que a criança aprende as melhores histórias, as melhores brincadeiras, dá as melhores gargalhadas, anda de bicicleta, cai e aprende a levantar, é em casa que aprende a ouvir e obedecer, a ter a suas responsabilidades, mesmo que seja com seus brinquedos ou com o seu chinelo.

A escola é lugar de EDUCAÇÃO CIENTÍFICA e FORMAL, escola não é a salvação dos filhos. Escola não é a salvação dos filhos de ninguém. Os/As mestres ensinam brilhantemente os filhos de outros, contudo a sua missão acaba ali.

Os filhos voltam para casa, porque filho é eterno e aluno é transitório.

Lugar de criança é na escola sim! Jogar com os amigos, frequentar a biblioteca, SOCIALIZAR, (tá na moda né?), brincar no parque, no intervalo, andar em grupinhos (Ô tempo bom!). As pessoas têm um pensamento utópico de que a escola voltará a funcionar como antes, de antemão já aviso: NÃO IRÁ!

Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. (Nei Alberto Pies) Veja vídeo.

Eu sei como é a realidade de uma escola, de uma sala de aula, dos alunos.

Por muito tempo, a escola não será como antes.

As famílias precisam parar de usar a escola como responsável por fazer por seus filhos o que a família não faz, em poucas palavras: ser tapa-buraco.

Pega a sua criança e conte uma história, faça um cinema em casa, brinque de carrinho, boneca, faça de conta, brinque com seus filhos, jogue com seus filhos, role no chão com seus filhos, dê atenção!

Filho não é status, não é foto nas redes sociais, não é brinquedo.

“Ah, mas eu trabalho e não tenho tempo! Ah, eu chego cansado! Ah, eu estou estressada! SE VIRA!

Quando decidiu ter filhos já sabia como seria.

Não jogue a responsabilidade da vida da sua criança para a escola, não é função da escola criar ninguém, suprir carência de ninguém, ser babá de ninguém. Essa função é única e exclusiva da Família.

Vejo um monte de pessoas reclamando que as escolas não estão abertas, mas não vejo essas pessoas lutando pela vacinação dos profissionais da escola, todos os profissionais de uma instituição de ensino. Porque escola não é só professores e direção.

Por fim, faça a sua parte como instituição familiar e aguarde a pandemia desacelerar para que a instituição escolar volte a funcionar para levar o conhecimento formal e científico para os vossos filhos.

Enquanto isso, ame a sua criança e não faça dela um fardo prestes a ser dispensado com urgência em uma instituição de ensino.

“Nenhum deles está preocupado de verdade com saúde, alimentação ou educação das crianças. Tudo isso é mentira e eu tenho pena de quem acredita nessa mentira. Quem está de verdade preocupado com os alunos, fazendo “vaquinha” para dar cestas básicas para as famílias e se esgotando de tanto trabalhar é o professor”! (Camila de Freitas) Leia mais!

(Autoria Desconhecida)

Sobre a foto: Artista Eduardo Kobra “Coexistência”, que mostra crianças usando máscaras faciais devido ao novo coronavírus, Covid-19, portando símbolos de diferentes religiões (da esquerda para a direita) Islã, budismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP) Conheça mais sobre o projeto.

Vista do trabalho recente do artista Eduardo Kobra “Coexistência”, que mostra crianças usando máscaras faciais devido ao novo Coronavírus, Covid-19, portando símbolos de diferentes religiões (da esquerda para a direita) Islã, budismo, cristianismo, judaísmo e hinduísmo (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP).

Edição: Alex Rosset

Narrar e amar: a importância estruturante do ato de contar histórias às criancinhas

Mais importante do que aquilo que se conta é a maneira de contar. O contador de histórias enquanto amante do belo deve amar a criancinha. Quem conta histórias não ama somente as histórias, mas ama, principalmente, quem as ouve.

Este ensaio é uma indagação a respeito da seguinte questão: onde reside a força da contação de histórias para o desenvolvimento da fantasia infantil?

A partir da observação de que as criancinhas sentem a carência de afetividade, ou seja, de amor propriamente dito – e vendo que isso as motiva a juntar-se em grupos para ouvir histórias -, levanto a hipótese de trabalho de que, para a criancinha, o importante não é a história em si, mas a forma como ela é contada, ou seja, os gestos e voz do contador, que contagiam de amor o ambiente e cativa o espírito delas.

Em outra reflexão neste site, já escrevemos: não é preciso ter curso para contar histórias, pois todos nós contamos histórias o dia todo das nossas vidas, das vidas dos nossos filhos, vizinhos e amigos. O importante e o cuidado que se deve ter é conhecer a história que se vai contar para não gaguejar na hora ou esquecer algumas partes, por isso faz-se necessário que o bom contador saiba improvisar, também. Leia mais!

A criancinha ouvinte de histórias ama e é amada. Ao abrir o coração e a fantasia, ela deixa-se envolver pelo momento em que está ouvindo a história, aprendendo tanto com o conteúdo da história quanto pela forma pela qual é narrada, que é a grande arte do contador de histórias que seria o amante principal.

A criancinha se sente hoje muito isolada e sozinha no mundo, não consegue sentir-se amada. Abandonada ao rádio ou a televisão e sem contato mediador com o livro, sente-se desmotivada, desorientada, apática e destituída da capacidade de pensar e fantasiar, o que lhe acarreta sérios problemas existenciais.

Sem amor, se sente desprotegida para lidar de forma mais segura e criativa com os problemas e as dificuldades que o mundo oferece.

Winnicott defende o ato de amparar e cuidar naquilo que denomina holding. Platão também fala desse amor no seu diálogo “O Banquete” em que Eros aparece através do diálogo e busca compreender o amor através do filosofar e do saber. O amor em Platão está entre a pobreza e a riqueza, a ignorância e sabedoria, o mortal e o imortal, logo o amor também está entre o contador de histórias e a criança.

O contador é o elemento conectivo entre a criança e o livro. É preciso que o contador de histórias saiba narrar com amor criando um vínculo da criancinha com o saber virtuoso.

Platão enquanto contador de histórias narra seus mitos afirmando ser possível através deles levar a verdade às criancinhas mesmo que seja em forma de metáforas. Verdade essa constituída de ensinamentos de valores e virtudes. Enquanto contador de histórias Platão procura despertar o amor no seu ouvinte. Aquele que busca o saber também busca o amor, pois Eros como já disse Platão é amor.

Logo, as criancinhas buscam no saber não só contadores que instruam e divirtam, mas que as amem contando histórias com o coração e com palavras que permeiem o espírito infantil. O contador deve ser sábio no que concerne ao cuidado e zelo com a criancinha.

A mãe é a responsável por esse cuidado e zelo da criancinha, mas atualmente os pais não têm tempo para essa dedicação exclusiva e entrega o filho a uma vida solitária e difícil quando outras pessoas são pagas para cuidar delas e não para amá-las. Muitas vezes a criancinha se entrega a pessoa que está ao seu lado e quando seu amor não é correspondido a incompreensão diante do mundo assusta e causa traumas insuportáveis.

O contador de histórias vai amparar e cuidar dessa criancinha cheia de medos e temores em relação à vida e as pessoas que a cerca. Zeloso com os seus gestos e carinhos, sua maneira de narrar busca o sorriso e a alegria de viver na criancinha perturbada por um mundo violento e desumanizado. Através do contador de histórias a criancinha percebe que ainda é possível amar e ser amada, principalmente nas situações mais difíceis da vida em que ouvir uma história acalenta a dor e alimenta o coração.

Além de Platão e Winnicott, também explorarei esse zelo e amor do contador de histórias fazendo uma comparação com os mitos de Narciso e de Édipo.

Sendo Narciso um jovem belo, como toda criança ele necessita do amor de um bom contador de história para aprender a amar-se logo esse contador de histórias seria Eco. Já o espelho que na psicanálise é visto como a visão da nossa alma, a visão que temos de nós, seriam as histórias contadas.

Sendo o contador de histórias visto como Eco ele poderá ensinar aos vários Narcisos-crianças ouvidoras de histórias que o mundo é belo e elas não estão condenadas à morte devido essa beleza, pois o amor de Eco (contador de histórias) que deixará de evocar ecos e transmitir-lhes a palavra, ou seja, aqui trabalharemos com a possibilidade de Narciso mesmo tendo sido condenado à morte não morrerá porque tem um espelho que lhe ensina a beleza da compreensão e assimilação da história e tem Eco que lhe conta histórias belas.

Eco será amada por Narciso porque sabe como amá-lo a partir do zelo e cuidado estudado através do conceito de holding, de Winnicott, e o espelho será esse mundo de histórias belas que são apresentadas às crianças pelo contador de histórias.

Da mesma forma que ocorre com Narciso, também encontraremos em Édipo a condenação à morte, mas esse será zelado e receberá cuidados e amor da esfinge que, de uma certa forma, é uma contadora de histórias astuta e sábia com os seus enigmas. Aqui, tratamos de uma questão importante no que diz respeito aos contadores de histórias para criancinhas com câncer, vítimas do vírus da AIDS ou de alguma doença incurável em que estando praticamente perto da morte poderão prolongar suas vidas ou transformar a dor num sorriso através das histórias contadas pela esfinge.

Assim, nem Narciso e nem Édipo morrerão por falta de amor e zelo, mas estarão fortes o suficiente para escapar dos seus destinos através das histórias que lhes foram contadas pelo bom contador de histórias.

Usarei uma metáfora para apresentar os vários Narcisos e Édipos que existem no mundo necessitando do amor de uma Eco ou de uma Esfinge, para que as suas vidas tomem rumos de um bom pensar, de um caminhar firme em relação ao futuro, de um olhar cheio de esperança para o amanhã e o que é mais importante liberto de medos e traumas que tanto sufocam os adultos trazidos de uma infância descuidada.

Quantos meninos e meninas passam por nós todos os dias necessitando ouvir uma história, com medo de se olhar no espelho da vida ou de encontrar-se com uma esfinge e não saber quem são ou o que dizer. É preciso amar as criancinhas, ter paixão como Eros para ser um bom contador de histórias.

Não adianta pintar-se, fazer cursos de performance, fazer teatro, ler livros sobre técnicas de contar histórias se você não tem o dom da história dentro de você, aliás, se você não tem o amor para oferecer a uma criancinha através da sua fala, da sua palavra, do som maravilhoso que sai da sua boca.

Este ensaio se propõe a investigar o papel e a importância do amor na constituição do imaginário infantil, tomando por base as teorias de Winnicott, o amor de Eros segundo Platão, o mito de Narciso e Édipo como elementos para construção do contador de histórias que tem amor pela sua arte e o encontro com o dom de contar histórias.

Mais importante do que aquilo que se conta é a maneira de contar. O contador de histórias enquanto amante do belo deve amar a criancinha. Quem conta histórias não ama somente as histórias, mas ama, principalmente, quem as ouve.

É preciso que o contador de histórias seja um amante do tipo Eros, segundo Platão no seu diálogo O Banquete, quando nos diz: “e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio, enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou ofício, é um artesão.” Todo artesão faz seu trabalho com amor, logo o contador de histórias também narra com amor.

A criancinha que ouve histórias com contadores amantes está mais propícia a enfrentar a vida e os seus obstáculos de forma a não se machucar nem se sentir sozinha no mundo. O contato da criancinha com o contador de histórias pode criar vários vínculos afetivos, tais como: amizade, carinho, afeição, companheirismo, coragem, esperança, paciência, prudência, temperança e sabedoria.

O contador de histórias, ao mesmo tempo, que narra também transmite valores e virtudes para uma vida melhor, proporcionando à criancinha a ideia de que é amada do jeito que é, sem querer mudar ou ser igual ao amiguinho que todos gostam.

A criancinha deve se sentir amada sem precisar mudar. Por isso, o contador de histórias precisa amar e zelar essas crianças como se elas fossem Narciso ou Édipo.

O contador precisa fazer das histórias contadas um espelho magnífico, real, encantador, porém que possibilite a criancinha enxergar-se dentro dessas histórias utilizando seu imaginário infantil para isso. É importante alimentar o imaginário sempre, para que a criança possa assim poder brincar com a dura realidade que a acompanha todos os dias.

Para Winnicott, a criança precisa de amparo e cuidados. A criancinha cria seu mundo baseada no mundo das pessoas que estão ao seu redor, primeiro com os pais depois com os mestres. Sendo os pais seus primeiros contadores de histórias ela se sente protegida e amada. Sabe que nada lhe faltará. Ouvir histórias na hora de dormir é um momento grandioso e gratificante à criancinha. No entanto, muitos pais não têm mais tempo para fazer isso. Essa tarefa passou para o contador de histórias.

É importante que o contador olhe com atenção para cada criancinha que está lhe ouvindo e não dê preferência a uma ou a outra. A narrativa deve ser branda e suave e a voz só deve ser exaltada quando a história pedir, mesmo assim com o cuidado que se faz preciso.

O contador deve criar um ambiente de magia e encanto onde tudo se identifique com o amor.

Na obra de Winnicott percebo que no conceito de holding, as mães dedicam carinho, atenção, zelo, cuidam da alimentação e da higiene da criancinha, das suas necessidades primeiras quando não podem resolver sozinhas. É essa dedicação das mães que as criancinhas conseguem perceber nos contadores de histórias que narram com amor.

É preciso antes de tudo cuidar do espírito da criança e não se deter apenas na narrativa. Antes e depois de contar a história o contador estará vivo na criancinha por um determinado tempo, e esse tempo pode ser definido por ele a partir da forma que expressar seu amor. Quanto maior for o amor do contador de histórias mais tempo permanecerá vivo no pensamento da criancinha.

Através do conceito de holding mostro como mudar a vida de várias crianças baseadas em Narciso e Édipo que sofreram com a falta de amor e cuidado.

Muitas criancinhas têm passado por tratamentos médicos e psicopedagógicos com traumas e medos, hiperativas, mentirosas, tímidas, baixa capacidade de concentração, redução da aprendizagem e o que é pior, vítimas da incompreensão dos adultos.

O mundo moderno disponibiliza à criança os brinquedos eletrônicos, o videogame e a Internet. O isolamento se torna cada vez mais frequente. A criancinha moradora de condomínios fica presa aos muros altos e cheios de proteção. A criancinha moradora de bairros da periferia se tranca dentro de casa com medo da violência.

Nas escolas, os professores não se preocupam em dar-lhes amor demasiado amor, mas em ensinar as matérias básicas para a aprendizagem. Quando chegam a casa, diversas tarefas lhes esperam.

Assim, embaralhada com um mundo que só exige de si a criança começa a achar a vida difícil e as pessoas não se diferenciam umas das outras, sendo sempre vistas como adultas que só sabem mandar. Para essas crianças o mundo cobra demais e nada lhes oferece.

Logo, suas emoções serão terrivelmente prejudicadas e pedirão ajuda num grito com o professor, numa briga com o colega da turma, na quebra do vaso mais querido da mãe. A criancinha nessa fase está pedindo para ser ouvida. É aqui que entra a responsabilidade de amparo e zelo dos pais e daqueles que cuidam da formação do espírito da criança. 

Narrar com amor é doar um pouco de si ao outro. O contador de histórias doa o seu amor à criança mostrando-lhe a vida que parece só existir nos sonhos. Através da forma como o contador narra as histórias, a criancinha pode criar uma ponte entre o mundo imaginário e o real, comparando o amor que há num e no outro. Trazendo o amor do imaginário para o real, possibilitando um viver mais feliz e sábio.

O caminho que pretendo percorrer consistirá na comparação do conceito de amor no Banquete, no conceito de holding, de Winnicott e nos mitos de Narciso e Édipo como criadores de crianças “brincantes”, ou seja, crianças que sabem brincar com as coisas mais simples do mundo fazendo da vida uma gostosa brincadeira por mais difícil que ela seja.

Nesta comparação buscarei analisar qual a relação existente entre os Eros, Narciso, Eco e o conceito de holding, detendo-me na maneira de contar histórias encontrada nas diversas partes do mundo, seja em escolas, hospitais, asilos, abrigos, shopping centers, livrarias, festas e eventos.

Analiso aqui a forma como as criancinhas das mais diversas classes socais se sentem ao ouvir histórias comparando a vida dessas crianças com a vida daquelas que não escutam através da teoria e prática.

Busco mostrar que a forma de narrar do contador de histórias é imensamente importante para transmitir o amor à criança. Indago se a forma de narrar é uma arte que se adquire com a técnica, o dom e ou a experiência? Mais ainda: se somos inspirados pelos deuses para contar histórias.

Além de apresentar também as necessidades das criancinhas, seja em momentos de raiva e abandono, no ato de ouvir histórias para aprenderem a lidar com as próprias emoções. A criancinha abandonada pelas ruas de uma cidade grande ou um beco sujo de lama preferirá uma história contada por um Eco (contador amante) ou trocará esse por um ato de violência ou delinquência? Fica a questão. 

Esse movimento da arte chama atenção por onde passa, pois a literatura passa a ser vista com outros olhos, e, acima de tudo, sentida. Assim, percebe-se, por parte dos espectadores, que a literatura mexe com as emoções e sentimentos de cada ser humano. Coisa que é inerente à arte no sentido amplo. (Laércio Fernandes dos Santos) Leia mais!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

FRATELLI TUTTI: as religiões a serviço da fraternidade no mundo

As religiões têm a nobre missão de conduzir o humano ao transcendente, mas cumprem, igualmente, a não menos nobre missão de conduzir o humano ao humano, colaborando para a fraternidade universal e a defesa da justiça.

A religião cristã fala a partir de Jesus Cristo, mas reconhece a legitimidade de outros pontos de vista e de experiências religiosas e, em diálogo, sonha com um mundo onde reine a paz. Essa parece ser a síntese do oitavo e último capítulo da Encíclica que o Papa elabora dois momentos.

O fundamento último

Poderá haver razões sólidas e seguras para a fraternidade universal sem a “abertura ao Pai de todos”?

Para o Papa Francisco essa é a questão de fundo a ser respondida e a sua resposta é “não”. Sem uma referência última a Deus, diz o Papa, não há como fundamentar uma convivência fraterna.

A Razão, diz o Papa, não é capaz, por si só, de fundar a fraternidade. No máximo, é capaz de fundar a igualdade e a liberdade cívica, porém, a fraternidade só é possível se houver reconhecimento da transcendência amorosa de Deus.

A afirmação do Papa parece apologética, dogmática e acrítica, afinal, a razão humana não pode ser descartada como formuladora de princípios últimos e de valores universais capazes de estabelecer acordos em torno de direitos humanos, por exemplo, que faculte a vivência da fraternidade e da paz.

Contudo, o Papa Francisco insiste que sem o postulado de Deus, a razão será sempre parcial e ideológica, levando, cedo ou tarde para totalitarismos e triunfos da força do poder que oprime e cultua ídolos. E diz mais, sem a religião o mundo entra em crise, perde a esperança, e os ideais de paz, justiça e fraternidade se esfumaçam. Só pela afirmação da transcendência pode o humano se libertar do individualismo e materialismo a que fomos conduzidos pela modernidade.

O Papa Francisco reivindica o direito de recolocar a religião no patamar que nunca deveria ter perdido no debate público e na formulação de políticas e ações efetivas que “promovam o homem e a fraternidade universal”.

Com isso não está querendo desconhecer a autonomia da política e, muito menos pretende “disputar poderes terrenos”, mas oferecer o que a religião tem de sabedoria acumulada na história e que pode ajudar para recuperar a esperança num mundo melhor (FT 172-276).

O Papa Francisco fala a partir da religião cristã, contudo reconhece o valor das outras religiões e com elas cria pontes de diálogo e reconhecimento, sabedor de que não há paz entre os povos e culturas sem paz entre as religiões.

O que une as religiões é muito maior e mais importante do que as dividem e por isso, convoca a todas as religiões a se congregarem em torno da paz, fraternidade e justiça a serviço da humanidade (FT 277- 280).


Religião e violência

“Entre as religiões, é possível um caminho de paz!” (FR 281). O ponto de partida e horizonte comum, para tanto, deve ser o olhar de Deus. E o olhar de Deus é o olhar com o coração que ama, tanto o crente quanto o ateu.

O amor de Deus a todos e a tudo alcança e nele não há espaço para violência e vinganças. Se alguém, em nome de Deus, se vale do recurso da violência, saiba, diz o Papa, que está interpretando equivocadamente a Deus e interpretando erradamente as fontes das religiões. “A verdade é que a violência não encontra fundamento algum nas convicções religiosas fundamentais, mas nas suas deformações” (FR 282).

Nesse sentido, o terrorismo é um desvio, um erro, um ato execrável e sua origem não se deve à religião, embora os terroristas a instrumentalizem, mas tem “origem em interpretações erradas de textos religiosos, nas políticas de fome, de pobreza, injustiças, de opressão e arrogâncias” (FT 283).

Por isso diz o Papa, é preciso parar de financiar o terrorismo e denunciar quem patrocina, pois são tão criminosos quanto quem o pratica. E faz uma afirmação e um apelo final. Às vezes, diz o Papa, as violências em nome da religião são devido a imprudência dos seus líderes que deixam de ser o que deveriam ser, a saber, mediadores dialogantes da paz. O apelo é de que as religiões nunca incitem à violência ou ao derramamento de sangue e não reivindiquem para si sentimentos de ódio e de extremismos, mas sejam um caminho de paz, justiça e fraternidade.

O Papa é ou não é um oásis no deserto e uma luz que brilha na escuridão?

Leia também um trabalho mais aprofundado da estrutura do Documento FRATELLI TUTTI, na forma de um roteiro ou guia para a leitura.

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

O Jesus Cristo da história

Se nos comprometermos a colocar Jesus firmemente dentro do contexto social, religioso e político a época em que ele viveu – uma época marcada por uma perspectiva de revolta contra Roma que iria transformar para sempre a fé e a prática do judaísmo -, então, de certa forma, sua biografia se escreve por si própria.

ZELOTA: A Vida e a Época de Jesus de Nazaré

Este livro, escrito por iraniano-americano Reza Aslan, procura recuperar o Jesus histórico e o cotidiano político e religioso da Palestina de 2.000 anos atrás.A partir da leitura de vários artigos sobre a obra, ofereço esta análise.

O livro de Aslan é uma tentativa de recuperar, tanto quanto possível, o Jesus da história, o Jesus antes do cristianismo: o revolucionário judeu politicamente consciente que, há 2 mil anos, atravessou o campo galileu reunindo seguidores para um movimento messiânico com o objetivo de estabelecer o Reino de Deus, mas cuja missão fracassou.

Depois de uma entrada provocadora em Jerusalém e um audacioso ataque ao Templo – ele foi preso e executado por Roma pelo crime de sedição. É também sobre como, após Jesus ter fracassado em estabelecer o Reino de Deus na terra, seus seguidores reinterpretaram não só a missão e a identidade de Jesus, mas também a própria natureza e definição do messias judeu.

Para muitos, descobrir a verdadeira identidade de Jesus seria possível via as ferramentas científicas modernas e a pesquisa histórica que nos permitiriam descobrir sua verdadeira identidade. Para outros esta tentativa é perda de tempo. O verdadeiro Jesus já não importa. Devemos concentrar-nos no único Jesus que é acessível para nós: Jesus, o Cristo.

O grande teólogo cristão Rufolf Bultman gostava de dizer que a busca pelo Jesus histórico é, no fim das contas, uma busca interna. Os estudiosos tendem a ver o Jesus que eles querem ver. Muitas vezes eles veem a si próprios, seu próprio reflexo na imagem que construíram de Jesus.

Mesmo assim, essa melhor e mais bem-informada hipótese pode ser suficiente para, no mínimo, questionar nossas suposições básicas a respeito de Jesus de Nazaré.

Se expusermos as reivindicações dos evangelhos ao calor da análise histórica, podemos limpar as escrituras de seus floreios literários e teológicos e forjar uma imagem muito mais precisa do Jesus histórico.

De fato, se nos comprometermos a colocar Jesus firmemente dentro do contexto social, religioso e político a época em que ele viveu – uma época marcada por uma perspectiva de revolta contra Roma que iria transformar para sempre a fé e a prática do judaísmo -, então, de certa forma, sua biografia se escreve por si própria.

O Jesus que é revelado nesse processo pode ser o Jesus que esperamos, e ele, certamente, não será o Jesus que os cristãos mais modernos reconheceriam. Mas, no final, ele é o único Jesus que podemos acessar por meios históricos.

Todo o resto é uma questão de fé.

Autor: José Ernani de Almeida

Edição: Alex Rosset

Não à Lei do Talião

Se adolescer é nascer para a sociedade, há que se ter um controle nas explosões, entendendo-se que conviver socialmente implica respeito aos regramentos elaborados pelas instituições, como o resguardo à vida.

O termo Talião deriva do latim Lex Talionis, isto é, lei de tal tipo, condizendo com a ação na devida proporção da agressão, quer dizer a justa reciprocidade da pena de acordo com o crime praticado. Há indícios da Lei no antigo Código de Hamurabi (1780 a.C.) nos tempos do antigo reino da Babilônia.  

Hoje, em pleno início do Terceiro Milênio, no Facebook, ainda há aqueles apressadinhos que invocam a Lei do Talião com frases sentenciais do tipo “… tem que castrar, tem que enforcar, tem que matar”, especialmente quando ocorre um crime hediondo, contra a vida humana e contra o patrimônio.

Como querer aplicar a ultrapassada Lei do Talião, se nem pena de morte temos no Brasil?

Esse é apenas um pretexto para discutir os atos praticados por dois jovens que praticaram atos de vandalismo, estilhaçando mais de 60 vidraças com uma arma de pressão. 

O fato aconteceu em meados de abril/2021, quando um jovem de 21 anos, na carona de um caminhão-baú, juntamente com seu motorista de 31 anos, percorreram as cidades de Porto Alegre, Viamão e Gravataí, estourando as vidraças de bancos, revendas de automóveis, lojas e repartições públicas, além de danificar os carros novos expostos nas revendas.

A Brigada Militar (BM) registrou uma série de ocorrências de vandalismo em dezenas de estabelecimentos da Região Metropolitana de Porto Alegre entre a terça-feira (13) e esta quarta (14). Pequenas esferas de metal foram disparadas contra vidraças, provocando destruição em bancos, restaurantes, lojas, clínicas, automóveis e prédios. Leia mais!

Devidamente identificados pelas câmeras de vídeo, os dois jovens confessaram à Polícia Civil que cometeram os atos de depredação por mera diversão tendo, para tanto, três razões: sensação de poder, liberdade e prazer.  

Enfim, que tudo teria sido uma brincadeira de mau gosto imposta pelo filho do proprietário do veículo, hoje com 21 anos. O pai, 43 anos tem o caminhão como fonte de renda, com o qual sobrevive mediante fretes. Confessou que presenteou o filho depressivo com uma inocente arma de pressão.  No entanto, como tem problemas de érnia de disco, contratou um conhecido motorista, frequentador de igreja, para dirigir o veículo na companhia do filho, que não tem CNH.

Jamais imaginou que os dois fariam um ato de tamanhas proporções e repercussões e, que o filho autor dos disparos, nunca teve vida pregressa. E o pior, que seu filho vem sendo medicado por apresentar crises depressivos.

Pelo exposto acima, é fácil depreender que o pai foi ingênuo e um tanto irresponsável ao presentear o filho com uma arma de pressão. Assim, o filho ficou capacitado a causar sérios danos, caso usasse, inadequadamente e irresponsavelmente, a arma contra si, contra as pessoas e contra o patrimônio.

Em segundo, o motorista do caminhão, com 35 anos, mesmo pressionado pelo filho do patrão, não foi capaz de impedir que tantos tiros fossem disparados contra o patrimônio público. Ou foi ameaçado de perder o emprego, ou desconhecia a gravidade dos atos praticados pelo livre e poderoso passageiro. Portanto, é cumplice, tendo que ser responsabilizado pelo ato de omissão.  

Ser jovem em tempos de pandemia, não é moleza! O distanciamento, com lockdown, a liberdade fica prejudicada, pois a vida em grupos fica emudecida, ainda mais para os adolescentes.

 Para Mário Corso, ZH, 28.04.21, “a adolescência sabe ser sombria e, quando emudecida, tende a ser pior. Atuações perigosas são as mais comuns em quem sente-se a ocultar o que sente e pensa. Quem trabalha e convive com adolescentes sabe que, nesses casos são mais frequentes os comportamentos agressivos, toxicômanos, destrutivos, automutilações e até risco ao suicídio”.

A vida humana é constituída de várias explosões: explosão à vida, explosão à morte, explosão de raiva, explosão de alegria, explosão de prazer, explosão ao adolescer.

A escritora Clarice Lispector, no livro A Hora da Estrela, através da personagem Macabea, revela as múltiplas explosões a que somos submetidos vida afora, especialmente no processo de adolescer em sociedade.

Saindo do resguardo dos pais, os jovens buscam na sociedade a liberdade, o prazer e o poder, exatamente como manifestaram os infratores à polícia.

No entanto, se adolescer é nascer para a sociedade, há que se ter um controle nas explosões, entendendo-se que conviver socialmente implica respeito aos regramentos elaborados pelas instituições, como o resguardo à vida, deixando a César o que é de César intacto.

Quando os meios de comunicação noticiaram os atos de vandalismo, buscando identificar os infratores e suas causas, imediatamente associei que fossem atos explosivos contra o racismo, contra a falta de vacinas, contra a inoperância do governo. Nada disso!  

A tendência é que o pai seja condenado a pagar os prejuízos causados pelo filho que provou, equivocadamente, o prazer, a liberdade e o poder ao usar irresponsavelmente as explosões de vento de uma inocente arma de pressão. Portanto, longe de se aplicar aos vândalos a Lei do Talião. Se assim o fosse, sem saber os motivos pelos quais, estaríamos cometendo outro crime contra a vida. Tudo o que se faz ou se deixa de fazer tem suas consequências. Que a justiça faça a justiça na medida certa!

Autor: Eladio Vilmar Weschenfelder

Edição: Alex Rosset

Investimentos em educação no RS sofrem corte de 46% em cinco anos

Se os patamares de investimentos fossem ao menos mantidos, o crescimento esperado deveria ser compatível com a inflação do período, acumulada em 36,96% (IPCA/IBGE).

De acordo dados do portal da transparência do Estado, analisados pelo Dieese, áreas prioritárias registraram significativa redução de investimentos nos últimos anos.

Na comparação entre 2015 e 2020, a educação sofreu retração de 46% (36,4 milhões a menos). Proporcionalmente ao total de investimentos, a fatia do setor foi reduzida de 13,7% para 7,5%.

Na Saúde, a redução foi ainda mais drástica; entre 2015 e 2019, o arrocho ceifou 97% dos investimentos, que caíram R$ 18,8 milhões. No entanto, com os aportes especiais devido à pandemia, o ano de 2020 registrou um aumento de 39% em comparação com 2015.

Também chama atenção a queda da participação dos investimentos na área, que desabaram de 3,4% em 2015 para 0,1% em 2019 do total investido pelo Estado.

Os investimentos consideram gastos com planejamento e execução de obras, incluindo aquisição de imóveis, instalações, equipamentos e material permanente.

As variações são em termos nominais. Se os patamares de investimentos fossem ao menos mantidos, o crescimento esperado deveria ser compatível com a inflação do período, acumulada em 36,96% (IPCA/IBGE).

Ler na íntegra a análise do Dieese

Autor: CPERS

Edição: Alex Rosset

Não estão preocupados com a educação

Por que os professores estão tão irritados, magoados e ansiosos? Porque nós estamos sendo atacados por todos os lados.

A preocupação é ter onde deixar o filho do pobre para esse pobre poder trabalhar (lembrando que todos nós, assalariados, somos pobres). Mentir em lives e mandar as aulas presenciais voltarem em uma entrevista pela internet, é muito fácil.

Quando defendem que a criança precisa ir para a escola para ter onde se alimentar estão confirmando que o papel da escola é cuidar e alimentar, não ensinar e educar. Eles não estão preocupados com a educação.

Quando dizem que os alunos precisam voltar porque precisam se alimentar estão confirmando que todo o sistema está errado, que todo o resto deu errado, que não tem emprego, que não tem auxílio, que não tem distribuição de renda, que não tem assistência social que dê conta (toda a minha solidariedade aos profissionais dessa área), então resolveram colocar mais essa responsabilidade nas costas das escolas e dos educadores.

É muito fácil o jornalista famoso defender a volta às aulas presenciais quando está trabalhando em casa e seus filhos estão tendo aula online na escola particular.

É muito fácil o deputado (do partido mais corrupto do Brasil) falar que o professor não quer trabalhar sabendo que para ele vai ter hospital, mas para os professores e para as famílias desses alunos pode não ter.

Nenhum deles está preocupado de verdade com saúde, alimentação ou educação das crianças. Tudo isso é mentira e eu tenho pena de quem acredita nessa mentira. Quem está de verdade preocupado com os alunos, fazendo “vaquinha” para dar cestas básicas para as famílias e se esgotando de tanto trabalhar é o professor!

Em nenhum momento nós, professores, paramos de trabalhar. Em nenhum momento eu parei de me preocupar com a alfabetização dos meus alunos.

Se depender de nós, vagabundos, o ano não vai ser perdido, porque improvisamos, com o que temos, em nossa casa. Do governo, só cobrança, sem contrapartida. Aliás, faz muitos anos que isso ocorre. Mas continuamos sendo atacados por não trabalharmos. (Laércio Fernandes dos Santos) Leia mais!

Estamos trabalhando muito mais, fazemos vídeos, atendemos ao vivo em grupos, individualmente, respondemos whatsap, preparamos aulas para turma e para as particularidades de cada aluno e ainda damos conta da burocracia.

Em nenhum momento postei qualquer reclamação sobre o excesso de trabalho, apesar de todo o cansaço e a ansiedade.

Me preocupo com a minha saúde e com a saúde das pessoas que eu mais amo nesse mundo. Minha esposa e minha mãe são professoras e nem consigo pensar na possibilidade de acontecer algo com elas, pois meu mundo desabaria.

Se algo acontecer comigo, o mundo delas que desaba. Já nas escolas alguns dias depois alguém estaria no nosso lugar.

Por que os professores estão tão irritados, magoados e ansiosos? Porque nós estamos sendo atacados por todos os lados. Eu tenho sorte porque os pais dos meus alunos são empáticos e nunca foram grosseiros comigo ou me xingaram, mas cada xingamento para colegas nas redes sociais corta o meu coração.

Por que estamos nos defendendo tanto? Porque nenhum outro setor da sociedade defende os professores. Somos nós por nós e nós pelos nossos alunos!

Enquanto uma maioria luta bravamente para garantir sobrevivência, apenas pequena parte da população tem condições de garantir estudo e disponibilidade plena das crianças e adolescentes aos estudos. Outra questão, igualmente importante, é a expectativa imensa que a sociedade alimenta sobre a volta das aulas presenciais. Mas não vemos nenhum grande movimento, nem das escolas e nem da sociedade, para ressignificar esta volta presencial de aulas. Queremos voltar, sim. Mas voltar para quê? Que mudanças e que novos significados vamos incorporar na volta às aulas? Leia mais!

Autora: Camila de Freitas, professora rede Municipal de Charqueadas.

Edição: Alex Rosset

Escola boa é a escola onde professores estudam

Altair Fávero é Coordenador do PPG-EDU, Programa de Pós Graduação da UPF (Universidade de Passo Fundo). Atua e atou de maneira intensa em formação de professores, sobretudo de formação de professores da educação básica.

Nesta entrevista exclusiva ao site, Altair vai abordar a importância da formação dos professores e professoras, bem como a importância da atualização e aperfeiçoamento de estudos através de Mestrado e Doutorado. Fávero revela, ainda, a importância de algumas pessoas e de alguns estudos e experiências que consolidaram a sua atuação como docente no Ensino Superior e na sua trajetória na formação de professores e professoras.

Fávero vai ainda explicitar a forma com que a UPF (Universidade de Passo Fundo) vai colocar à disposição dos professores e professoras da educação básica, sobretudo os da rede municipal de Passo Fundo, a sua estrutura e as possibilidades de aperfeiçoamento profissional.

Conheçamos a história deste professor por ele mesmo.

SITE NEIPIES: Professor Altair, quando, como e porquê decidiu ser professor?

Altair Fávero: Fui alfabetizado pela minha mãe, Leontina Bissani Fávero, que completou 88 anos de idade neste ano de 2021. Ela alfabetizou por 31 anos toda uma geração de pessoas no comunidade de Santo Agostinho, interior de Vila Maria/Marau. Sempre digo a ela, que na sua simplicidade de uma professora alfabetizadora que aprendeu a ser professora pela experiência e pela dedicação foi uma excelente educadora.

Me lembro que nos idos da década de 1970 preparava seus diários de classe à luz de vela, pois nem sequer tinha luz elétrica. Tinha numa mesma sala alunos da primeira até a quarta série e mesmo assim conseguiu contornar os desafios de alfabetizar toda uma geração. Ainda hoje é chamada de professora na comunidade. Duas das minhas irmãs (Marilene Fávero Turra e Zenaide Fávero Marini) também se tornaram professoras e dedicaram sua vida a levar adiante o legado da mãe. Pensando agora, retrospectivamente, talvez a dedicação de minha mãe e o zelo de minhas irmãs também me impulsionaram para ser professor.

Os primeiros 4 anos de minha escolarização (1975-1978), conforme mencionei acima, estudei com minha mãe na Escola Municipal Santos Dumont. Eram tempos difíceis, de poucos recursos e nas comunidades do interior a vida escolar terminava na quarta série. Como desde pequeno fui instigado a seguir a vida religiosa, em 1979 ingressei como interno no Colégio Gabriel Taborin de Vila Maria e lá permanecei até a oitava série. O Colégio era mantido pelos irmãos da Sagrada Família e nesses quatro anos, certamente, deve ter tido o auge do número de alunos. Me lembro que no ano que ingressei havia quase 120 alunos internos, além dos alunos externos que somente frequentavam as aulas. Entre 1983 a 1985 cursei o Ensino Médio no Seminário Nossa Senhora Aparecida em Passo Fundo. Foi um tempo precioso, pois tive a oportunidade de ter bons professores, uma vasta biblioteca e principalmente a sistemática de estudo que carrego comigo até hoje. Tínhamos aula de segunda à sábado das 7h20 até 12h15, estudos a tarde e à noite. Além das disciplinas tradicionais do ensino médio, tive o privilégio de estudar latim, inglês e francês. Foi um tempo muito especial, pois os padres que na época acompanhavam os seminaristas tinham uma significativa trajetória de envolvimento pastoral.

De 1986 até 1989, realizei o Curso de Licenciatura em Filosofia na UPF e certamente foi um dos momentos mais importantes de minha vida que se tornaram decisivos para ser professor, pois além do aprendizado realizado na Universidade, também tive um intenso envolvimento com a Pastoral da Juventude (PJ). Na Universidade, tive a oportunidade de estudar as grandes tradições filosóficas com excelentes professores que marcaram minha vida como o professor Elli Benincá, Gilvan Hansen, Luiz Carlos Luckmann, Eldon Henrique Mühl, Jaime Giolo, dentre outros.

Além dos professores, tínhamos um grupo de colegas altamente engajados em conhecer a filosofia e suas tradições. Organizamos desde os primeiros semestres grupos de estudos e usávamos parte das férias para aprofundar temáticas que não tinham sido suficientemente abordadas nas aulas.

Com o professor Benincá nos envolvemos em projetos de pesquisa, como trabalho voluntário, e posso dizer com toda segurança que foram estes engajamentos que se tornaram o diferencial em minha formação e também dos colegas. Concomitante, a formação acadêmica também tinha o engajamento pastoral, principalmente no trabalho com os jovens. Foram anos intensos de estudos, de assessorias e aposta num projeto de mudança, de democratização do conhecimento e de compromisso com a mudança social. Foram incontáveis os finais de semana que assessorei grupos de jovens nas comunidades do interior e nas paróquias da Diocese de Passo Fundo.

No segundo semestre de 1989, fiz meu estágio numa turma de segundo ano de Ensino Médio do Menino Deus. A experiência de estágio foi tão significativa e me senti tão realizado que decidi desistir da vida religiosa e me tornar professor. Em fevereiro de 1990 fui contratado como professor de Filosofia e Sociologia no Colégio Notre Dame e como professor de Ensino Religioso no Colégio Bom Conselho. Aí se iniciou uma caminhada que já completa 31 anos.

Difícil dizer em poucas palavras porquê me tornei professor, mas posso dizer retrospectivamente que foram 3 grandes motivos: a) por sentir que a sala de aula é o melhor espaço para compartilhar conhecimentos e socializar as aprendizagens; b) por acreditar que a educação transforma pessoas, estruturas e realidades; c) por perceber que nas crianças e na juventude está a esperança de construir um país decente para se viver.

SITE NEIPIES: Quais são, na sua visão, os maiores desafios e as maiores realizações da profissão docente?

Altair Fávero: Ser professor não é tarefa fácil, pois implica defrontar-se com a complexidade do processo educativo. Os que dizem que ser educador é tarefa simples e qualquer um é capaz de fazer, ou não sabe o que está dizendo ou simplesmente banaliza aquilo que que há de mais importante no ser humano, sua formação.

Em seus escritos Sobre Pedagogia, o filósofo Immanuel Kant (1724-1804) dizia que a Educação é uma arte, cuja prática necessita ser aperfeiçoada por várias gerações.

Cada geração, de posse dos conhecimentos das gerações anteriores, tem a possibilidade de estar melhor aparelhada para exercer uma educação que desenvolva melhor as aptidões de cada um, e assim poder melhorar a própria espécie.

Nós não nascemos prontos, nascemos com potencialidades que podem ou não ser desenvolvidas. Por isso que a educação talvez seja o maior e o mais árduo problema que a humanidade precisa enfrentar. Por isso, sabiamente, Kant diz que “não se deve educar as crianças segundo o presente estado da espécie humana, mas segundo um estado melhor, possível no futuro, isto é, segundo uma ideia de humanidade e de sua inteira destinação”.

É nesse sentido que acredito que a educação pode fazer a diferença não só para a vida individual das pessoas, mas para sociedade como um todo.

Não é possível construir uma grande nação ou um lugar mais decente para viver sem a educação. No entanto, isso está completamente esquecido na realidade brasileira, nos discursos e práticas de muitos governantes e no entendimento de um grupo expressivo de pessoas influentes que compreendem a educação como um negócio para ganhar dinheiro e com isso mercantilizaram os processos formativos. Temos realizados muitos estudos junto ao Gepes nessa direção.

Em 2019, nos debruçamos longamente sobre o livro A escola não é uma empresado pesquisador francês Christian Laval (2004). Desses estudos produzimos diversos artigos dentre eles destaco: “A subjetivação capitalista enquanto mecanismo de precarização do trabalho docente na educação superior” (Fávero; Bechi, 2020), “Escola conveniada ou charter school? Uma abordagem sobre termo de colaboração entre a prefeitura e o terceiro setor para oferta da educação básica em Porto Alegre” (Fávero; Consaltér e Pires, 2020), “O Neoliberalismo Pedagógico como Produto do Sujeito Empresarial: ameaças à democracia educacional” (Fávero; Tonieto e Consaltér, 2020), “Quando a educação se torna um negócio: ideologia neoliberal na educação e a cristalização do novo senso comum pedagógico” (Fávero e Trevisol, 2020); “A lógica do mercado e suas implicações nas políticas e processos de avaliação da Educação superior” (Fávero; Consaltér e Tonieto, 2020) e “Os impactos da globalização sobre a Educação do Campo: políticas públicas de resistência” (Stefanello e Fávero, 2020). Além de todos estes artigos o Gepes também produziu a volumosa coletânea Leituras sobre Educação e Neoliberalismo (Fávero; Tonieto e Consaltér, 2020), composta de 22 capítulos, publicada pela editora CRV de Curitiba.

Esse cenário desanimador e cruel de mercantilização da educação pode ser enfrentado se tivermos a capacidade de pensar em outras perspectivas. O próprio Gepes caminhou nessa direção em 2020, quando se debruçou sobre os estudos da filósofa Martha Nussabaum que pensa a educação a ideia de sociedade e de educação para além da limitada perspectiva econômica. Estuados diversas obras de Nussbaum dentre as quais destaco Sem fins lucrativos (Nussbaum, 2017), Fronteiras da Justiça (Nussbaum, 2013), El cultivo de la humanidade (Nussbaum, 2005), Educação e Justiça Social (Nussbaum, 2014), Crear capacidades (Nussbaum, 2012) dentre outras.

Os intensos estudos realizados durante o ano de renderam a publicação da coletânea Leituras sobre Marta Nussbaum e a educação (Fávero; Toneito; Consaltér e Centenaro, 2021), também publicada pela CRV/Curitiva e um conjunto de artigos, alguns dos quais já estão publicados: “Reforma do Ensino Médio no Brasil e crise mundial da educação: uma análise reflexiva da flexibilização das humanidades na educação básica” (Fávero; Centenaro e Costa, 2019) e “Reformas curriculares e o ataque ao pensamento reflexivo: o sutil desaparecimento da filosofia no currículo da Educação Básica no Brasil” (Fávero; Centenaro e Santos, 2020).

Tentando ser objetivo, pois a pergunta renderia um livro, penso que são muitos os desafios nos dias atuais para a profissão docente.

Me atrevo a elencar alguns: a) tornar a educação o centro das atenções de governantes e da sociedade de modo geral; b) fortalecer e qualificar a escola pública; c) aproximar a universidade da educação básica; d) qualificar e vitalizar a profissão docente; e) combater o pensamento autoritário/fascista que tem tomado conta do cenário político e nas redes sociais; f) reabilitar certos valores fundamentais para a educação como solidariedade, diálogo e justiça social; g) defender a ciência como ferramenta imprescindível para exercer a educação e combater o obscurantismo; h) aproximar a escola da comunidade onde está inserida; i) formar novas lideranças políticas que possam colocar de volta a sociedade nos eixos (talvez seja importante adjetivar); j) qualificar o debate sobre educação nos meios de comunicação e nas redes sociais; l) tornar a profissão docente tão interessante e valorizada que as crianças e os jovens queiram ser professores.

Me considero muito realizado como professor e se tivesse uma outra vida, certamente gostaria de ser professor novamente. Nestes mais de 30 anos de profissão, tive a oportunidade de ser professor de muitos alunos. Certamente minha atuação não influenciou positivamente em todos eles. Certamente, muitos dos milhares que passaram pelas minhas aulas nem sequer lembram que fui seu professor. Mas um grupo significativo de bons profissionais de distintas áreas do conhecimento eu acredito ter feito a diferença em sua formação.

Guimarães Rosa já dizia que o professor é aquele que escreve na rocha, pois sua atuação deixa registros profundos na vida de seus alunos. Acredito nisso, e talvez seja exatamente essa crença que me leva todos os dias a tentar ser um pouco melhor e fazer com que outros também sejam bons professores.

SITE NEIPIES: Desde quando trabalha com formação de professores? O que lhe encanta nesta tarefa de formar educadores?

Altair Fávero: Sou professor da UPF desde 1992. Todos estes anos sempre trabalhei nos cursos de licenciatura. Em todos estes anos tive a oportunidade de trabalhar com muitos alunos que se tornaram professores.

Além de trabalhar com as licenciaturas, ministrei muitas aulas em Cursos de Especialização lato sensu e muitos deles eram voltados para a formação de professores. Além disse atuei em muitos cursos de formação continuada. Durante mais de uma década estive a frente com alguns colegas no belo e exitoso projeto Educação para o Pensar – Filosofia com Crianças e Jovens. Por meio deste projeto realizamos mais de 300 cursos em centenas de escolas do Rio Grande do Sul e em outros estados. Ao todo foram mais de 2 mil professores que realizaram algum dos módulos de formação ligado a esse projeto. O combustível que sempre me moveu em atuar na formação de professores é atualizar a ideia de que não se zela bem da educação se não houver um processo cuidadoso de formação dos seus educadores. Educar o Educador foi o título de um livro que escrevi em parceria com a professora Carina Tonieto, publicado em 2010 pela editora Mercado de Letras que aborda algumas reflexões sobre a formação docente. Penso que é nessa direção que deveríamos pensar as políticas educacionais em seus diversos âmbitos. Não podemos falar em educação de qualidade sem cuidar da formação docente.

No entanto, não se pode confundir formação com treinamento ou com titulação. Há muitos treinamentos que podem ser qualquer coisa, menos formação. Há treinamentos que deformam, que imbecilizam e que prestam um desserviço à educação. Há treinamentos realizados por certas instituições que estão mais preocupadas em ganhar dinheiro do que em oportunizar formação para os professores.

Escrevi com a pesquisadora Rosimar Esquinsani (2011), o artigo “Me ame, me abrace e me acolha! Saberes docentes e políticas de formação continuada” onde analisamos e denunciamos a profusão de cursos e eventos que apelam para a afetividade como argumento de metabolismo para o cotidiano dos professores. Também com meu orientando de doutorado Evandro Consaltér (2018) escrevi o artigo “Pedagogia do afeto e a banalização da formação continuada de professores: uma análise da literatura de autoajuda nos processos formativos”, onde analisamos a banalização dos processos de formação continuada de professores a partir da pedagogia do afeto que se materializa por meio da literatura de autoajuda para professores. 

Na mesma direção também escrevi com Carina Tonieto e Evandro Consaltér (2019) o artigo “Relaxar ou Refletir? um Ensaio sobre a Formação Continuada de Professores em Escolas Públicas do Rio Grande do Sul”, onde analisamos 11 projetos de formação continuada executadas por 11 escolas estaduais da região Norte do Rio Grande do Sul. No artigo mostramos que tais projetos indicam que a formação continuada de professores nem sempre prima por um processo reflexivo e que muitas vezes acaba caindo na banalização da literatura deauto-ajuda  e de alguns momentos de relax diante do estressante exercício da profissão.

A distinção entre titulação e formação também é importante de ser esclarecida, pois muitos acreditam que ter em mãos um diploma ou um certificado é suficiente para ser professor. Assim, temos hoje muitas instituições com credibilidade duvidosa que literalmente vendem diplomas. Por conta disso, muitos tem tomado o caminho mais fácil para serem professores. Realizam cursos de curta duração, muitos deles à distância, e em pouco tempo tem em mãos o título de graduado em pedagogia ou em qualquer outra licenciatura.

Muitos destes “titulados”, realizaram o “curso” de qualquer jeito, mandando fazer trabalhos, cumprindo protocolos para ter aprovação das disciplinas, nem sequer fizeram estágio, tem dificuldade de leitura e interpretação, muitos com muita dificuldade de escrita e elaboração e se tornam professores. Que tipo de professores? O que tem a oferecer a seus alunos? Que visão de ciência, de conhecimento, de sociedade, de cultura carregam em sua bagagem formativa? Certamente, uma forma muito reduzida de compreender o mundo e o universo educacional.

Não se resolve o problema da educação com titulação, nem com compra de “pacotes formativos”, muito menos com discursos vazios e boas intenções. Educação exige planejamento, investimento, escola pública de qualidade, formação de professores e políticas públicas articuladas.

SITE NEIPIES: Qual é a importância a formação continuada e permanente de professores?

Altair Fávero: Em nosso tempo, toda e qualquer profissão exige atualização, formação continuada, aprendizagem em exercício.  São muitos os nomes e não tenho espaço aqui para fazer as distinções. Talvez, em tempos mais antigos, tal exigência não seria uma obrigação tão rigorosa, mas hoje isso é condição de sobrevivência, de dignidade da própria profissão. Na educação escolar não poderia ser diferente. No entanto, o que se vê é que muitos professores ainda não entenderam essa exigência.

Em minhas andanças pelas escolas, ouvindo o depoimento de alunos que recentemente saíram da educação básica, ou tomando contato com as pesquisas que se debruçam sobre a problemática, há narrativas assustadoras de “professores” (coloco entre aspas, porque talvez não deveriam ter esse título) que cometem verdadeiro epistemicídio pedagógico em suas práticas. São professores que estão na escola, mas não deveriam estar; são professores que até podem ter uma titulação, mas não deveriam estar exercendo a profissão; são pessoas que pararam no tempo, que não estudam, não lêem, não problematizam suas práticas, geralmente tem uma postura autoritária ou fazem o jogo dos “coitadinhos”; acreditam erroneamente que o magistério é uma “vocação” ou que escolheram errado sua profissão; reclamam do salário, da falta de respeito dos alunos, da má qualidade da escola pública, das condições de trabalho e da vida infeliz. São poucos, mas estão presentes em muitas escolas.

Minha hipótese é de que muitos destes agiriam de forma diferente se houvesse autênticos e democráticos processos de formação continuada nas escolas. O professor não está pronto no dia da formatura e não são seus 10 ou 20 anos de experiência que o tornam melhor ou pior professor.

O professor se torna melhor quando consegue pensar sobre sua própria condição profissional.

Nesse sentido, concordo com António Nóvoa quando diz que “a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal” (1995, p. 25).

SITE NEIPIES: “Uma escola boa é a escola onde os professores estudam”. Por quê?

Altair Fávero: Gosto muito dessa frase, que não é minha, mas do saudoso Gilberto Dimenstein, jornalista educador, falecido recentemente vítima de um câncer. Ouvi essa frase na conferência “O aprendiz do futuro” proferida pelo próprio Dimenstein em agosto de 2000 num evento em Porto Alegre. Desde então tenho incorporado essa frase com um princípio pedagógico fundamental para pensar a educação de qualidade. Essa frase também tem relação com a ideia de Paulo Freire que que o ser humano é um ser inacabado.

Eu diria que o professor é um ser inacabado e quem consegue compreender isso percebe que o SER PROFESSOR é um processo continuo de construção. Essa construção se dá por meio do estudo, de vivência, de práticas e do exercício permanente de reflexividade crítica de sua própria ação. Só consegue fazer isso o professor que pensa, que ama o que faz, que sistematiza sua prática, que tem um referencial teórico para analisar sua ação e, principalmente, que tem na profissão um projeto de vida. Essa é a diferença entre um autêntico professor e um simples técnico/instrutor que faz da profissão uma ocupação para sobreviver.

SITE NEIPIES: Uma das formas de mudar as práticas pedagógicas é através da sistematização. Por que esta prática, embora reconhecida como exitosa, ainda é pouco praticada pelo conjunto de professores e redes de ensino?

Altair Fávero: Um dos meus grandes mestres foi o saudoso professor Elli Benincá, falecido recentemente. Como poucos, Benincá foi um mestre no profundo sentido do termo. Foi com ele que aprendi muito do que sou como professor e pesquisador. Ainda no final dos anos de 1980 quando fui seu aluno, aprendi que a melhor forma de compreender algo é sistematizar em forma de registro, de preferência por meio da escrita. Isso serve para uma aula, uma prática, uma pesquisa ou mesmo por meio da vivência.

Padre Elli Benincá, em entrevista à UPF (Universidade de Passo Fundo).

Me recordo até hoje de um dos seus depoimentos em uma de suas aulas de Filosofia da Educação quando falava da importância do registro como forma de reflexão da ação. Contava ele sobre a situação de uma senhora viúva que numa determinada ocasião foi procurá-lo para buscar conselhos para contornar os conflitos diários que tinha com a filha adolescente.

A indicação do Mestre Benincá foi simples: “pegue um caderno ou qualquer papel que possibilite você registrar teus sentimentos, o que te incomoda todas as vezes que vocês tem conflitos; faça isso sempre que possível, até diariamente se for necessário; faça seus registros sem que sua filha perceba; daqui a um mês você retorna para conversarmos novamente”. Passaram-se duas semanas a senhora retornou dizendo: “teve uma transformação profunda; depois de uma semana que comecei a fazer registro minha filha me perguntou: ‘o que está acontecendo contigo mãe? Você está diferente, está mudada, não briga mais comigo, não me julga, está interessada no que eu faço, no que eu penso, no que estou sentido”.

Esse sábio ensinamento do mestre Benincá é uma ferramenta poderosa de reflexividade da própria prática. Quando me tornei professor, incorporei boa parte desses ensinamento “benincanianos” nas minhas práticas.

Me recordo, por exemplo, que quando atuei como professor na Escola Menino Jesus e fiz parte da equipe de coordenação pedagógica da escola, incorporamos essa prática de registro nos conselhos de classe. Cada professor fazia seu registro do semestre e no conselho fazia a leitura do mesmo. É interessante porque os professores se transformavam. Aquele espaço tenso de deliberação, de queixas, de conflitos, se tornava um lugar de compartilhamento de experiência, de proposições, de possibilidades.

Foi a prática de registro que me tornou pesquisador. A pesquisa é exatamente isso: a capacidade de sistematizar o estudo, as investigações, o exercício de síntese das problemáticas investigadas.

Infelizmente, são poucos os professores que realizam o trabalho de registrar suas próprias práticas, até porque escrever leva tempo, exige rigor, disciplina, disposição. Nem todos gostam de se defrontar com seus próprios dilemas e dificuldades que a prática da escrita revela. E talvez esse seja o desafio te tornar a escola um espaço em que o professor estuda. A dinâmica escolar tem sido “exageradamente tarefeira”.

Vivemos, nos últimos anos, e agora mais do que nunca, um intenso e perverso processo de precarização do trabalho docente que se traduz na regressão dos direitos do professores, no aumento da carga horário de trabalho, na atuação em duas ou até quatro escolas, na agressão de pais e alunos, nos julgamentos irresponsáveis da grande mídia que criminaliza o professor.

Se faz muitas coisas na escola e muitas vezes a sociedade delega funções à escola que não deveriam ser sua tarefa. Às vezes são atividades desconexas e muitas vezes vazias ou interesseiras que se esgotam na própria atividade. O espaço escolar deveria ser o espaço do conhecimento, do estudo, da vivência, também do professor. Está posto o desafio para gestores pensar carinhosamente nesta direção.

SITE NEIPIES: Qual é a importância de um professor qualificado, que busca pós-graduações, mestrado ou doutorado?

Altair Fávero: Desde 2008, sou pesquisador e docente permanente no Programa de Pós-Graduação em Educação (Mestrado e Doutorado) da UPF, atuo no alinha de Pesquisa em Políticas Educacionais e, nos últimos três anos, excerço a função de coordenador do Programa.

O Mestrado e o Doutorado até pouco tempo eram realidades distantes para muitos professores da educação básica, mas hoje pode ser uma realidade bem próxima para muitos que estiverem interessados em fazer a diferença nos seus espaços de trabalho.

Temos hoje muitos mestrandos e doutorandos que são professores da educação básica e certamente farão a diferença em sua atuação na escola e na sala de aula se tornarem as problemáticas da prática objeto de investigação. Mas para isso é necessário realizar um processo de planejamento conjunto entre secretarias de educação, escolas e universidade para que os professores possam ter as condições para realizar adequadamente o processo de formação e que suas pesquisas possam estar focadas nas problemáticas das escolas. Para os professores que tem a oportunidade de realizar um mestrado ou doutorado num bom programa de pós-graduação a formação pode se revelar uma poderosa ferramenta para autoavaliar sua trajetória profissional. Escrevi sobre isso um artigo com Aline Silva e Aline Bordin (2019) um artigo intitulado “Autoavaliação como Recurso Formativo e Formador: da Educação Superior ao Contexto Escolar” no qual discutimos a importância dos processos de autoavaliação e de reflexão que podem se fazer presentes na formação e atuação docente. O artigo problematiza o papel da educação superior no trabalho com o tema no contexto da formação inicial e continuada de professores, bem como no enfrentamento dos desafios de se consolidar como espaço de construção de saberes indispensáveis à profissionalização docente.

SITE NEIPIES: O que o PPG-EDU (Programa de Pós-graduação) da UPF tem a oferecer ao conjunto dos docentes neste momento histórico?

Altair Fávero: Nosso programa tem avançado na direção de um diálogo com a Educação Básica. Há diversos projetos que estão focados em problemáticas da Educação Básica. Eu mesmo coordeno um projeto sobre Políticas Curriculares para o Ensino Médio que tem por escopo acompanhar o processo de implantação do Novo Ensino Médio nas 10 escolas piloto da 7ª Coordenadoria de Educação. Com a indicação do Dr. Adriano Teixeira para a Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo estão se abrindo diversas possibilidades de parcerias que vai da formação de professores a realização de convênios para oportunizar que professores da rede possam fazer mestrado e doutorado na UPF.

De certa forma, a preocupação com a Educação Básica tem sido uma das metas do PPGEdu. A título de exemplificação, das 82 dissertações defendidas nos últimos 4 anos, 39 delas dialogam diretamente com a educação básica; e das 38 teses defendidas no mesmo período, 6 delas estão focadas na educação básica. Somando temos um percentual de 45% das teses e dissertações focadas na educação básica. Penso que nos próximos anos podemos avançar muito nessa direção.

Eu não tenho dúvidas que a presença comprometida de mestres e doutores nas escolas melhora a qualidade formativa. Mas para isso é necessário planejamento e transformar a própria escola e as salas de aula, em comunidades de investigação.

Infelizmente, nem todas as gestões municipais tem compreensão, conhecimento ou vontade política do potencial que existe na Universidade para qualificar os processos formativos das escolas. Não se trata de dizer que a Universidade e a Pós-graduação tem as respostas ou as “receitas” para solucionar as problemáticas do cotidiano das escolas. Isso seria ilusório e cair na mesma vala que a “mercantilização dos pacotes formativos” oferecem e que muitos municípios acabam “comprando”.

Realizar um mestrado ou doutorado tendo como objeto de pesquisa as problemáticas da escola, pode aprimorar ferramentas metodológicas e referenciais teóricos que nos possibilitam “ver” e compreender de forma mais alargada as próprias problemáticas e assim enfrentá-los com mais sabedoria e discernimento.

SITE NEIPIES: Por que os docentes, historicamente, manifestam-se muito pouco acerca das questões educacionais, sendo eles os sujeitos que operam a educação, na prática cotidiana?

Altair Fávero: Infelizmente, nossos processos educativos primam pouco pela escrita. Se copia muito e se escreve pouco. Copiar não é escrever. Encher um caderno ouelaborar gigantescos relatórios mecânicos do “cópia e cola” não é escrever, muito menos estudar. A escrita exige pensamento, ideias, reflexões, conhecimentos, interpretações, elaborações. Escrever é um exercício intelectual exigente, pois implica em colocar no papel um conjunto de proposições que precisam ter coerência, consistência e validade.

Escrever é um ato de compromisso com o que está sendo escrito, com a divulgação de ideias, com o posicionamento sobre algo. Escrever exige tempo, maturidade, ousadia, sutileza, sensibilidade. O ato de escrita mobiliza um conjunto de habilidades, competências e capacidades que extrapola o ato mecânico de juntar palavras. Digo tudo isso para considerar algumas das razões pelas quais os professores, infelizmente escrevem pouco e quando escrevem, dificilmente escrevem sobre suas práticas.

Alguns podem objetar dizendo que hoje em dia as coisas são diferentes, que as redes sociais estimularam a escrita, que qualquer um emite mensagens no Facebook, no Instagram ou no Twitter. No entanto, se prestarmos atenção, veremos que há muita cópia e imagem, mas pouca escrita.

As pessoas se limitam a compartilhar, comentar atropelando a gramática e ortografia, apoiando ou condenando certas polarizações, mas dificilmente escrevendo. Num mundo sem lei das redes sociais, as fakes news se tornaram a ordem do dia. Penso que a escola e a sala de aula, também deveriam ser um espaço e um tempo importante para auxiliar os próprios professores e os alunos para não embarcarem em qualquer compartilhamento e para distinguir uma fake news de um fato. Para isso é necessário reflexão, pensamento crítico, capacidade de interpretação, sensibilidade ao contexto, exercício de escrita, comunicação clara. 

SITE NEIPIES: O que a pandemia acrescenta como desafios da educação?

Altair Fávero: Existem algumas pautas da educação que são perenes, que precisam ser permanentemente propostas e revistadas, que não envelhecem enquanto temática de discussão e investigação. Dentre elas destacam a questão da formação continuada, o problema da relação teoria e prática, o papel das tecnologias da educação.

O pesadelo da pandemia que atinge o mundo recoloca estas pautas em outras trilhas que precisam e, portanto, precisam ser repensadas a partir de outras bases e em outras direções. A forma abrupta com que se instauram os efeitos da pandemia para a sociedade e de forma pontual para a escola, a decretação do isolamento social, os conflitos ideológicos e sanitários que se estabeleceram exigem uma profunda e cuidadosa reflexão que não pode ser terceirizada e nem adiada.

Não resta dúvida que a pandemia está mudando as relações pedagógicas e que, possivelmente, irá afetar a organização escolar no cenário pós-pandemia. Isso significa que está em curso uma ressignificação da relação teoria e prática e mesmo a forma como a escola se relaciona com a sociedade e com o mundo das tecnologias.

Por seu turno, a formação de professores também está sendo profundamente afetada e passará por diversas mudanças a curto e médio prazo. Como os professores irão enfrentar seus próprios medos e inseguranças de um mundo em transformação, que exige todo um cuidado de higiene e distanciamento? Como não se deixar seduzir por soluções fáceis que reduzem a educação a uma simples instrumentalização por plataformas digitais? De que forma enfrentar os traumas ocasionados pela própria pandemia?

Que estratégias mobilizar para combater ou neutralizar o obscurantismo ou o fanatismo religioso que tomou conta da vida de muitas pessoas e que coloca em risco certas conquistas fundamentais para a existência de uma sociedade democrática? Como ajudar os alunos para que saibam distinguir notícias falsas (fakes news) que circulam nas redes sociais, em sites criminosos de notícias baseadas em fatos de um bom jornalismo?

Como evitar que o terrorismo virtual dissemine o ódio, a violência e as mais variadas formas de perversão?  São questões complexas, problemáticas e de difícil solução. No entanto precisam ser apresentadas como pautas importantes para o debate educacional do presente e do futuro.

SITE NEIPIES: Que mensagem deixa para os que leram entrevista até aqui.

Altair Fávero: Me agrada pensar com Anísio Teixeira que a educação não é privilégio e sim direito.Talvez uma das lutas mais importantes que precisam ser enfrentadas por todos é justamente a defesa desta bandeira: A educação é um direito de todos.

Mas tal bandeira não pode ser apenas um discurso retórico ou uma frase pronta para ser dita num palanque eleitoral. Ela deve estar na plataforma de cada cidadão, de cada brasileiro, de cada profissional que quer um país decente para viver. Sua materialidade, no entanto, depende de políticas públicas bem articuladas, de investimentos robustos e de uma escola pública fortalecida e qualificada.

Somo minha convicção às vozes de Jan Masschelein e Maarten Simons, dois pesquisadores da Universidade de Louvain (Bélgica), que estarão no PPGEdu no dia 10 de novembro, participando da IV Mostra de Educação organizada pelos mestrandos, doutorandos e egressos do PPGEdu da UPF (todos estão convidados à participar). Em 2013 os referidos pesquisadores publicaram o livro Em defesa da escola: uma questão pública, traduzido para o português em 2017.

Me somo a eles quando dizem que “exatamente hoje – numa época em que muitos condenam a escola como desajeitada frente à realidade moderna e outros até mesmo parecem querer abandoná-la completamente – que o que a escola é e o que ela faz se torna claro: a escola oferece um tempo livre e transforma o conhecimento e as habilidades em ‘bens comuns’, e, portanto, tem o potencial para dar a todos, independentemente de antecedentes, talento natural ou aptidão, o tempo e o espaço para sair de seu ambiente conhecido, para se superar e renovar o mundo”. É em defesa dessa escola que mobilizo minhas energias que me fazem acreditar na educação.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Referências mencionadas na entrevista:

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina. Educar o educador: reflexões sobre formação docente. Campinas: Mercado de Letras, 2010.

FÁVERO, Altair Alberto; ESQUINSANI, Rosimar Serena Siqueira. Me Ame, Me Abrace, Me Acolha! Saberes Docentes E Políticas De Formação Continuada. Contrapontos (UNIVALI), v. 11, p. 1-8, 2011. Disponível em: https://siaiap32.univali.br/seer/index.php/rc/article/view/2430

FÁVERO, Altair Alberto; CONSALTÉR, Evandro. Pedagogia do Afeto e a Banalização da Formação Continuada de Professores: uma Análise da Literatura de Autoajuda nos Processos Formativos. Atos de Pesquisa em Educação (FURB), v. 13, p. 394-411, 2018. Disponível em: https://proxy.furb.br/ojs/index.php/atosdepesquisa/article/view/6292

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro. Relaxar ou Refletir? um Ensaio sobre a Formação Continuada de Professores em Escolas Públicas do Rio Grande do Sul. Imagens Da Educação, v. 9, p. 95-112, 2019. Disponível em: https://periodicos.uem.br/ojs/index.php/ImagensEduc/article/view/45420

FÁVERO, Altair Alberto; BECHI, Diego. A subjetivação capitalista enquanto mecanismo de precarização do trabalho docente na educação superior. Archivos Analíticos de Políticas Educativas / Education Policy Analysis Archives, v. 28, p. 13-24, 2020. Disponível em: https://epaa.asu.edu/ojs/article/view/4891

FÁVERO, Altair Alberto; CONSALTÉR, Evandro ; PIRES, Daniela de Oliveira. Escola conveniada ou charter school? Uma abordagem sobre termo de colaboração entre a prefeitura e o terceiro setor para oferta da educação básica em Porto Alegre. Revista Espaço Pedagógico, v. 27, p. 110-130, 2020. Disponível em: http://seer.upf.br/index.php/rep/article/view/10577

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro. O Neoliberalismo Pedagógico como Produto do Sujeito Empresarial: ameaças à democracia educacional. Currículo Sem Fronteiras, v. 20, p. 233-250, 2020. Disponível em: http://curriculosemfronteiras.org/vol20iss1articles/favero-tonieto-consalter.pdf

FÁVERO, Altair Alberto; TREVISOL, Marcio Giusti. Quando a educação se torna um negócio: ideologia neoliberal na educação e a cristalização do novo senso comum pedagógico. Educacão Unisinos (ONLINE), v. 24, p. 1-19, 2020. Dipsonível em: http://revistas.unisinos.br/index.php/educacao/article/view/edu.2020.241.18

FÁVERO, Altair Alberto; CENTENARO, Junior Bufon; SANTOS, Antonio Pereira dos. Reformas curriculares e o ataque ao pensamento reflexivo: o sutil desaparecimento da filosofia no currículo da Educação Básica no Brasil. Revista Digital de Ensino de Filosofia, v. 6, p. 1-17, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/refilo/article/view/42599

FÁVERO, Altair Alberto; CONSALTÉR, Evandro ; TONIETO, Carina. A lógica do mercado e suas implicações nas políticas e processos de avaliação da Educação superior. Educar Em Revista, v. 36, p. 1-20, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-40602020000100145&tlng=pt

FÁVERO, Altair Alberto; COSTA, Daiana Rodrigues; CENTENARO, Junior Bufon. Reforma do Ensino Médio no Brasil e crise mundial da educação: uma análise reflexiva da flexibilização das humanidades na educação básica. Ensino Em Re-Vista, v. 26, p. 656-676, 2019. Disponível em: http://www.seer.ufu.br/index.php/emrevista/article/view/50979

LAVAL, Christian. A escola não é uma empresa. Londrina: Planta, 2004.

KANT, Immanuel. Sobre a Pedagogia. Piracicaba: Editora Unimep, 1999.

MASSCHELEIN, Jan; SIMONS, Maarten. Em defesa da escola: uma questão pública. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

NUSSBAUM, Martha. Crear Capacidades: propuesta para el desarrollo humano. Barcelona: Paidós, 2012.

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015.

NUSSBAUM, Martha. Educação e Justiça Social.Trad. de Graça Lami. Ramada: Lisboa: Pedago, 2014.

NUSSBAUM, Martha. El cultivo de la humanidade:  uma defensa clásica de la reforma em la educación liberal. Barcelona: Paidós, 2005.

NUSSBAUM, Martha. Fronteiras da Justiça: deficiência, nacionalidade, pertencimento à espécie. Tradução de Susana de Castro. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

SILVA, Ivone Maria Mendes; BORDIN, Aline Paula Pochmann; FÁVERO, Altair Alberto. Autoavaliação como Recurso Formativo e Formador: da Educação Superior ao Contexto Escolar. REVISTA FAEEBA, v. 28, p. 70-88, 2019. Disponível em: https://revistas.uneb.br/index.php/faeeba/article/view/7169

STEFANELLO, Flavia; FÁVERO, Altair Alberto. Os impactos da globalização sobre a Educação do Campo: políticas públicas de resistência. Revista Brasileira de Educação do Campo, v. 5, p. 1-21, 2020. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/campo/article/view/10846

FOTOS: Divulgação/arquivo pessoal

Educação e escolarização na era digital

De que forma nossas crianças podem fazer uso das tecnologias sem que se tornem escravos e dependentes delas? Existe uma idade certa para colocar a criança em contato com as tecnologias?

Quando se trata da comunicação, não estamos limitados por fronteiras geográficas como há séculos atrás. A internet revolucionou os relacionamentos, bem como a produção e divulgação de conteúdos que ganhou o reforço e a velocidade que nunca imaginaram nossos pais e avós.

A espera por informações que chegavam em uma carta enviada pelos correios cedeu lugar a segundos de um clique no WatsApp ou no Messenger, a própria escrita cedeu lugar a mensagens de voz motivadas pela pressa do emissor.  A educação e a escolarização de nossas crianças e adolescentes não fica de fora dessa realidade marcada pela facilidade, velocidade e fluidez. 

Ano passado, a pandemia da Covid 19 escancarou, dentre outras situações, a necessidade de pensarmos no uso das tecnologias para a educação e escolarização de crianças, adolescentes, jovens e adultos. Entendemos, para fins deste escrito, que a educação acontece no seio familiar e é reforçada pela escola que oferece acesso a ampla cultura produzida pela humanidade, neste sentido professores reforçam através do ensino de conteúdos valores já presentes, e por vez assimilados desde a tenra idade dos educandos.

Como fazer o uso equilibrado das ferramentas tecnológicas, como não desvalorizar o essencial dos processos formativos, a interação humana que ocorre no contato, no encontro de olhares que se compreendem em suas necessidades, ânsias, angústias e esperanças?  

De que forma nossas crianças podem fazer uso das tecnologias sem que se tornem escravos e dependentes delas? Existe uma idade certa para colocar a criança em contato com as ferramentas do” mundo digital”?

Antes de ensaiar algumas respostas para essas problemáticas quero evidenciar que esse texto é desprovido de intenções doutas, mas tem como objetivo partilhar ” dicas” para a educação e escolarização.

É importante ressaltar que esse olhar indutivo pode destoar de conceitos da psicologia infantil e da experiência daqueles que vivem a missão de paternar e ou maternar.  Desejo que após sua leitura revisite suas vivências, suas concepções de formação humana e as teorias que fundamentam suas práticas, para então, elaborar seu parecer e enriquecer essa partilha.   

O contexto que estamos vivendo há mais de um ano, nos apresenta inúmeros desafios para a educação tanto no âmbito familiar quanto no âmbito escolar.  Sem a pretensão de esgotar o assunto interrogado acima expomos a seguir o que vai fundamentar a exposição do que convencionamos chamar de ” dicas” para bem educar.

“O ensino remoto tem seus problemas, porém uma coisa podemos afirmar: aproximou pais e filhos”. (Rosângela Trajano) Leia mais!

Entende-se por educação um processo que se inicia desde o ventre materno, segundo teorias da ciência o bebê escuta desde a 20º semana de gestação e já cria vínculos com o som da voz de seus pais, sendo assim o que escutamos antes do nascimento, pode interferir em nossos gostos e comportamentos, segundo o canal Danone Nutrícia:

“Mesmo antes de as crianças falarem as primeiras palavras, a escuta da linguagem altera a percepção dos sons da fala. Embora no nascimento os efeitos sejam pequenos e sutis, após os seis meses os bebês começam a mostrar clara preferência pela linguagem. No entanto, o aprendizado de um idioma começa muito antes. Durante o desenvolvimento no útero, o cérebro sofre alterações que podem ser influenciadas em algum grau pela fala a que estão expostas. O bebê não apenas começa a aprender um idioma e suas nuances, mas aprende as características específicas da voz da mãe[1]”.

Deste ponto de vista ouvir boas músicas, ler histórias para o bebê ainda no ventre, pode ser, mesmo que de forma sutil, útil para o desenvolvimento de crianças apaixonadas pelo mundo da leitura, com habilidades e competências que contribuem na escolarização dos pequenos. Para bem educar seu filho (a) apresente-o (a) para os livros, leia para eles e com eles, incentive com seu exemplo. Opte por contos de fada, histórias que contemplem a magia, visto que precisamos acreditar em um outro mundo possível, desenvolver mística e espiritualidade que nos ajudem suportar as agruras da realidade.

Para essa primeira dica tomamos como significado para magia o que nos informa o dicionário Aurélio, segundo esse “magia é a arte, ciência ou prática baseada na crença de ser possível influenciar o curso dos acontecimentos e produzir efeitos não naturais, valendo-se da intervenção de seres fantásticos e da manipulação de algum princípio oculto supostamente presente na natureza, seja por meio de fórmulas rituais ou de ações simbólicas”. 

A humanidade carece dessas leituras, a natureza “geme em dores de parto (Rm 8,22) aguardando o nascimento de uma nova consciência. Essa novidade depende também da educação familiar e escolar, de atitudes pautadas na admiração e no respeito por todas as formas de vida.

Essa formação que julgamos iniciar no ventre materno, não se conclui com a alfabetização, nem com o final da educação básica e ou escolha de uma profissão. Ao contrário, entendemos que o ser humano está aberto a múltiplas possibilidades que se apresentam ao seu ser, como já defendiam alguns filósofos existencialistas, dentre os quais salientamos Kierkegaard, Heidegger. 

Essa concepção de formação também está em sintonia como o filósofo, pedagogo e sociólogo Paulo Freire que costumava dizer “Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele[2]”.  Essa ideia da inconclusão deve permear nossa formação desde a socialização primária, que ocorre no seio da família e se estende para as outras instituições tornando-se secundária, e terciaria se levarmos em conta os espaços virtuais de encontro.

Falando em espaços virtuais de encontro e vivendo uma escolarização que tem perpassado o uso das tecnologias precisamos pensar, repensar e reelaborar a compreensão que temos dessas, como já enunciamos aqui são ferramentas e precisam ser utilizadas como tal, não substituem o diálogo face a face, não tomam o lugar da atenção e do cuidado que precisa ser dado por pais e professores. Um celular e ou tablet não deve ser usado como consolo para lágrima, nem como anestésico para crises infanto juvenis, pelo contrário tal uso deve ser evitado, visto que não traz benefícios nem para a saúde e nem para a socialização indispensável na educação e escolarização.

A esse respeito existem algumas divergências. Não negamos a importância das tecnologias nos processos de ensino aprendizagem, mas questionamos a intensidade e a intencionalidade do uso das ferramentas.

No âmbito familiar é comum que alguns pais presenteiem seus filhos com celulares e tabletes, por vezes a intenção é inserir a criança no contexto de alfabetização digital, ou ainda, igualar o filho a colegas de escola, a outros pares. Infelizmente, na educação familiar, há mãe e pais que usam os equipamentos eletrônicos como distração, consolo diante do choro da criança, em alguns casos isso ocorre ainda na primeira infância. Andrea Ramal falando a redação do G1 enfatiza que:

“Há quem defenda que celulares são objetos só para maiores – é o caso, por exemplo, do filósofo espanhol Enric Puig Punyet, que acredita que os dispositivos digitais não são tão inofensivos como parecem e não deveriam ser usados antes dos 18 anos. Ele próprio integra a tribo crescente dos “desconectados”, pessoas que decidiram apagar seus perfis em redes sociais e desligar a internet. Mesmo sem ir tão longe, cada vez mais estudiosos alertam sobre os riscos envolvidos no uso de celulares por crianças e adolescentes”.

O uso inadequado de celulares, tablets, jogos de entretenimento e de interação online, especialmente por parte das crianças é altamente prejudicial para a educação e escolarização das mesmas; o tempo prolongado em telas causa dependência psicológica, diminui a atenção, em alguns casos reduz o apetite, enfraquece a reação aos estímulos do ambiente, inviabiliza a socialização primaria e secundária o que é altamente prejudicial para o desenvolvimento cognitivo dos estudantes. Isto se torna ainda mais grave considerando que na primeira infância ocorre o desenvolvimento do cérebro, para que ocorra de forma saudável e traga benefícios para a escolarização e formação humana é preciso desplugar das tecnologias, dos jogos e das redes sociais. 

A quem realiza a missão de paternar e maternar é aconselhável brincar com as crianças, conversar com elas sobre trivialidades, fazer perguntas, questionar respostas. Que tal brincar com sua filha e com seu filho de pega –pega, de esconde esconde, amarelinha, resta um? 

A melhor coisa é que as crianças tenham contato com mais brinquedos e brincadeiras que desenvolvam a mente e o corpo, pois é preciso um equilíbrio entre os dois. E que não seja permitido a nenhuma criancinha ficar sentada por horas diante de um aparelho eletrônico sem experimentar o correr, pular e brincar vivendo a sensação maravilhosa de espalhar os brinquedos pela casa toda até se cansar. (Rosângela Trajano) Leia mais!

Que tal recuperar os jogos de tabuleiro, de trilha?  Vocês ainda podem ousar e correr na chuva, fazer bonecos com argila.  No ato de brincar a criança vai descobrindo o mundo, criando laços que fortalecem relacionamentos saudáveis, geram confiança e real desenvolvimento cognitivo. Desconectar pode se converter em um ato revolucionário que trava a aceleração de um vício, visto que para o filósofo espanhol Enric Puig Punyet, “A hiperconectividade é prejudicial à saúde, como o tabaco”[3].  Tendo presente o exposto até o momento concordamos com Andrea Ramal:

“Por tudo isso, vale refletir bastante antes de entregar um celular a uma criança antes dos 12 anos de idade. Isso não significa que crianças de 6 ou 7 anos não tenham grandes competências tecnológicas e que não possam usá-las em atividades de lazer ou de aprendizagem, em casa ou na escola. Mas para ter o próprio aparelho eletrônico, com conexão à web e autonomia de uso, é necessário ter a suficiente maturidade intelectual e emocional. O problema não é a tecnologia – que, em si, não é boa nem má -, mas sim o risco de que a internet se torne o único ambiente a partir do qual se vê o mundo. Moderação, equilíbrio e monitoramento são fundamentais”.

 A escolarização, que nesse momento não ocorre sem o uso das tecnologias precisa utilizar do potencial das ferramentas online, usá-las para colocar estudantes em contato com informações e conhecimentos uteis para a vida. Cabe aos professores priorizarem atividades que possam ser realizadas na presença dos familiares, sugerir atividades de criação, produções artísticas desenvolvem a sensibilidade para lermos o mundo com coerência e de forma amorosa, despertando sonhos de uma outra realidade possível, mobilizando esforços humanizadores. 

Por fim, mas sem a pretensão de encerrar o assunto entendemos que a educação iniciada no ventre materno se estende por toda vida, carece de contatos humanos, de intencionalidade formativa. A escola na sua prática pedagógica fortalece a educação que se recebe em casa, daí a importância do diálogo entre as instituições em que ocorre a socialização da criança. Em alguns casos, podemos afirmar com certeza que se faz necessária a reeducação dos pais para que utilizem de forma adequada as tecnologias e ensinem através da palavra e do exemplo a importância das relações e contatos humanos.

Pistas para aprofundar o tema:

  1. Música Desconecta: https://www.youtube.com/watch?v=3ykXuF9Gz7s
  2. Dicas para departamento infantil: https://www.youtube.com/channel/UC89Ayccl0wJeccKDNFhZTnA
  3. Blogspot: https://ministerioinfantiltiaquelly.blogspot.com/

Então, nesse momento você pode estar se perguntando: como fazer ensino remoto então? Será que é retrógrado manter os pequenos longe das telas? 

Autor: Marciano Pereira

Edição: Alex Rosset

[1] https://www.danonenutricia.com.br/infantil/gravidez/desenvolvimento/vinculo-com-o-bebe-na-barriga-ajuda-na-cognicao Acesso 16/04/2021

[2] Paulo Freire, Pedagogia da Autonomia, 1997.

3. http://g1.globo.com/educacao/blog/andrea-ramal/post/celular-para-criancas-partir-de-que-idade.html

[3] https://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/24/tecnologia/1487959523_030409.html

A sublime arte de envelhecer

Envelhecer com arte exige a sabedoria dos agradecidos que reconhecem ser tudo graça de Deus, que tudo depende da solidariedade humana, pois sozinhos não somos ninguém, principalmente, na velhice.

Roubei o título do monge beneditino, Anselm Grün, pois fiquei encantado com esse título, que diz mais da metade daquilo que tenho a pretensão de dizer com este artigo.

É sumamente importante saber que se pode viver com arte, mesmo na velhice, e que essa é, uma forma sublime de viver. Pelo que percebo na minha própria vida, o envelhecimento vai chegando de mansinho, como algo que chega, dando mil avisos prévios, que não podem ser ignorados por quem os recebe.

A arte de envelhecer bem, é uma construção que vem de longa data e à medida que a idade chega, exige do construtor redobrada atenção.

Envelhecer com arte supõe que se tenha aprendido a viver, já que a vida é uma longa escola de infinitas oportunidades de aprendizagem. A velhice, pode até não ter mais tantos encantamentos, mas com certeza, nos ensina a ver além das aparências e tem a oportunidade de revelar segredos, que guardou ao longo do tempo, e que ainda podem fazer suspirar profundamente o coração.

Envelhecer com arte, não supõe tanta ciência, mas não dispensa, de forma nenhuma, a sabedoria, principalmente, a sabedoria dos humildes para aceitar que seus passos sejam mais lentos, que seus joelhos já não se dobrem com tanta facilidade e não sejam mais tão firmes.

Não dispensa a sabedoria dos humildes para aceitar as incertezas como companheiras do cotidiano da vida, para aceitar que o olhar esteja constantemente mergulhado no infinito, que os desassossegos sejam companheiros das mateadas no entardecer e que a saudade goste de matear com mil lembranças que ficaram de outros tempos.

Envelhecer com arte é ter a sabedoria dos humildes que aceitam que a mente pode estar dando sinais de esquecimento, que a finitude insista em nos dizer, que o fim pode estar   próximo e que numa busca de consolo e segurança, dizer, como vi escrito na porta do quarto de uma irmã velhinha do Colégio Rosário de Rio Pardo: “Fica conosco, Senhor, pois já é tarde”.

Envelhecer com arte exige a sabedoria dos agradecidos que reconhecem ser tudo graça de Deus, que tudo depende da solidariedade humana, pois sozinhos não somos ninguém, principalmente, na velhice.

É no entardecer da vida que os agradecidos deixam aflorar hinos e cânticos de ação de graças, que os agradecidos deixam brotar preces de gratidão por mil palavras que soaram como se fossem melodias em seus ouvidos e até chegaram ao coração, quem sabe, sofrido pelos desencantos e infortúnios do tempo.

Envelhecer com arte é reconhecer mil gestos de pessoas que, no caminho da vida, se associaram a nós e foram tomando parte da nossa história, gratuitamente, como pessoas amigas.

Envelhecer com arte é manter a alegria que as limitações da vida tentam roubar, é conformar-se por não ter mais os impulsos inovadores da juventude, é não criar perigos imaginários, “sabendo que muitos temores nascem do cansaço e da imaginação”.

Envelhecer com arte é elaborar, ao longo do tempo, uma imagem bonita de Deus, um Deus companheiro que com sua misericórdia torna os nossos pecados pequenos, como nos disse o Papa Francisco, um Deus que protela o castigo que merecemos pelas nossas faltas, até que perca a validade, um Deus que faz abundantes semeaduras no campo da vida, apesar de conhecer, muito bem, a aridez do solo, um Deus que ama, acima de tudo, a justiça e o direito, um Deus que nos enche de bênçãos e de graças diariamente, um Deus que é novo em cada manhã, por isso, supera o prognóstico dos sociólogos.

Quem quer envelhecer com arte, terá que ter também a compreensão que nos relacionamentos, nesta idade, se pode ter decepções com as pessoas que, nos buscavam por utilidade. Mais do que nunca, nesta idade, quem quer ter saúde de alma e de corpo deve selecionar as fontes de abastecimento.

Alguém disse ao ser perguntado pela idade que tinha: “Não pergunte pela minha idade, pergunte pelo que eu ainda posso fazer.”  É uma ótima resposta de alguém que, mesmo sentindo a idade chegando, não se deixa abater por ela e se mantém na ativa e feliz com aquilo que ainda pode fazer.

A arte de viver, que torna a vida sublime, mesmo na velhice, certamente está ao alcance de todos, mas não acontece por acaso. É construção de cada um de nós que reconhece ter se tornado responsável por este dom maravilhoso que é a vida e se tornou um sublime construtor.

Para Iltomar Siviero, “as condições de vida são importantes porque interferem no envelhecimento tardio e até em evitar que certas doenças e demências se manifestem. Mas, por melhor que sejam as condições de vida, elas não atrasam os anos e, com o avanço da idade surgem, gradualmente, dificuldades e lentidão física, afetando diversos órgãos que desafiam as pessoas a buscar novos interesses e formas de relacionamento, impactando, de algum modo, na dimensão pessoal, social e mental/espiritual”. Leia mais!

 Autor: Pe. Euclides Benedetti

Edição: Alex Rosset

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