Início Site Página 144

Estranhamente estranhamento estranho…

Lobos em peles de cordeiro humilham
o conceito de solidariedade.
Não estranhem estranhamente
o estranhamento estranho
desses tempos de caos…


Adoro quando as brancas cidadãs contribuintes para o belo quadro social deixam seu mínimo lado humano sair da redoma e entram em ação em meio ao conturbado momento por que passamos. 

Reunidas em casas confortáveis e luxuosas, as mais ricas repartem o seu patrimônio de forma exemplar. Recolhem ao maior dos cômodos vários donativos para entregar aos mais carentes, incluindo entulhos que transbordam de seus armários, brinquedos quebrados ou descartados por suas “doces crianças” e roupas rotas que já não cabem em seus maridos a cada ano mais física e pecuniariamente avantajados que em anos anteriores.

Ocorre que, no instante tanto e no novo sendo, os menos favorecidos encaram um problema ainda maior que sempre muito, a fome! Quando as mais ricas brancas cidadãs entram em ação para resolver este problema, aí é que eu mais as adoro. Munidas de selecionadas sobras alimentares altamente proteicas e fresquinhas de só dois dias atrás, organizam cuidadosas e teatrais entregas para sanar a fome dos desfavorecidos. 

Gosto que recebam estas coisas, mas algo não me faz gostar de quem as doa. Essas cidadãs exemplares nunca esquecem de comunicar fartamente os meios de comunicação e sempre aparecem neles com honestos e angelicais sorrisos. Cada gesto e cada fração de tempo são registrados com esplendor. E ainda fazem discurso, sendo entrevistadas como se fossem chefes de Estado.

E que dizer dos maridos dessas cidadãs? Estes trabalham arduamente em suas cômodas poltronas em ambientes de ar-condicionado enquanto seus “colaboradores” vagabundeiam de baixo de sol escaldante, gastando enormes energias no cumprimento de suas dez, doze horas de labuta diária. Eta, povinho folgado! Mas eles ainda são merecedores de vultosas doações para combater as carestias provocadas pela pandemia, e não são trocados: são milhões e milhões, pelo menos na mídia! 

Mas onde está o dinheiro, se para “nóis” nem testagem existe? Queremos saber. E queremos saber logo. É que conforme avança o Coronavírus a paciência vai acabando, se bem que a percepção sobre as coisas vá se aguçando… 

É surpreendente como em tempos de pandemia percebem-se coisas que antes passavam despercebidas. A repetitividade de certos fatos sociais nunca foi tão didática: “Os de cima sobem e os de baixo descem”, isto no todo sempre e no tempo muito. Quando não nos dão certeza, dão-nos o beneplácito do estranhamento. 

Vocês não acham estranho que as ricas brancas cidadãs tenham interesse súbito em “salvar o mundo”? Eu acho. E, para mim, o mais estranho é que no instante curto que dura sua benevolência consigam ter orgasmos mentais ao iludirem incautas ovelhinhas. 

Quando donos das empresas mais fortes, os maridos dessas ricas brancas cidadãs são os que fazem a mediocridade humana atingir graus inimagináveis de insensatez. Muitos sonegam impostos, pegam dinheiro a juros subsidiados pelo governo, recebem incentivos fiscais e ante a primeira pandemia, correm pedir ajuda do Estado para evitar demissões, colapso na economia, crises, etc. 

O surreal é que também dizem que o Estado precisa diminuir, que não pode gastar com as necessidades dos mais pobres, nem sequer dar-lhes quaisquer direitos. Muitos estranhamente comemoraram quando as elites abrem seu coração de pedra e tentam fazer o papel do Estado, com sua benévola, solidária e extremamente humana redistribuição de migalhas que já estavam por lhes cair da mesa. 

Lobos em peles de cordeiro, humilham o conceito de solidariedade. Não estranhem estranhamente o estranhamento estranho desses tempos de caos… Ou, talvez, o melhor seja estranhar tudo e se perguntar: não estariam fazendo tudo isso para que, ante sufoco muito grande, os desprovidos de tudo não explodam em atitudes radicais e invadam o “sagrado” sossego das suas esposas ricas brancas cidadãs contribuintes para o belo quadro social brasileiro? 

Me ajudem a entender isso. O mais estranho estranhamento é que estranhamente há pobres que acham tudo isso lindo, aplaudem e pedem bis. 

Câncer: o que podemos saber para evitar

Alvaro Machado é passofundense, médico oncologista e está, há 30 anos, à frente de uma luta por mais saúde, através de processos de cura de uma das doenças que mais mata no mundo: o câncer. Saiu de Passo Fundo aos 17 anos para iniciar a faculdade de medicina e retornou aos 30. Casado com a médica Mariangela Pecly, carioca, eles tem dois filhos. 

O câncer é a segunda doença em incidência e a segunda em mortalidade, com tendência a ser a principal no final desta década. 

Conversar de forma aberta, com transparência de informação, com conhecimento de causa desta doença faz-se sempre necessário e urgente. Se não podemos evitar tudo, podemos, ao menos, conviver com esta doença e conhecer caminhos para evitá-la ou minimizá-la.

Conhecer sua trajetória de médico, seu envolvimento com a especialidade da oncologia, avaliar as situações da doença na atualidade, bem como falar e promover prevenção serão os objetivos de nossa entrevista.

Conheçamos Alvaro Machado, por ele mesmo.

***

SITE NEIPIES: Doutor Alvaro, como quando e porquê decidiste ser médico?

Dr. ALVARO MACHADO: Não lembro de ser uma decisão ou projeto pensado e trabalhado. Das alternativas que se apresentavam na época de vestibular, a medicina me era mais simpática. Havia o desejo de pai e mãe, não tínhamos médicos na família, tudo era muito idealizado. Eu tinha a imagem, idealizada, do meu pediatra, Dr. Telmo Ilha, e Dr. Firmino Duro, amigo da família. Durante o curso de medicina a realidade é outra: limitações tecnológicas, orçamentárias na saúde, na educação, médicos empregados, mal remunerados, professores dedicados e outros nem tanto, pacientes anônimos. Nesta época, oncologia não era especialidade reconhecida pelo CFM e AMB. Raros programas de residência médica. E os recursos terapêuticos também escassos. Mas algo me atraiu no desafio. Foram 2 anos de Medicina Interna na Santa Casa em Porto Alegre e, na sequência, mais 3 anos de Oncologia no INCA (Instituto Nacional do Câncer) no Rio de Janeiro. 

Minha formação foi na rede pública. Depois passei 2 anos no topo do serviço privado brasileiro, Hospitais Albert Einstein e Sírio-Libanês, em São Paulo. Tudo mudou frente aquelas duas realidades distintas. Atualmente predomina um intermediário (planos de saúde ou o poder público) na relação médico-paciente. Precisamos de muita atenção e cuidado para não projetar as dificuldades desta situação na figura do paciente.

SITE NEIPIES: O que mais te realiza e o que mais te desafia como profissional da área médica?

Dr. ALVARO MACHADO: A realização é poder ajudar, vencer vários desafios e perder outros, mas sempre solidário e empático, sendo reconhecido por isso. Ao mesmo tempo vejo que a atuação individual é limitada. O cuidado do paciente, principalmente oncológico, demanda atenção multiprofissional e interdisciplinar. Este foi o motivo de levar adiante a ideia do CTCAN, clínica da qual sou sócio e idealizador. Conseguimos, com uma equipe treinada e dedicada, elevar a atenção ao paciente com câncer a outro nível de segurança, conforto e satisfação.

Somos pioneiros na obtenção dos selos de Acreditação da ONA nível 1 e nível 2 Pleno. Mas quando entendemos que a solução dos problemas de saúde, em sua dimensão populacional, é questão de política de estado, políticas públicas, um tanto de frustração acompanha nossa caminhada. Em 2016, o então vice-presidente Biden dos EUA discursou no congresso anual da ASCO (American Society of Clinical Oncology) lançando o programa Moonshot, um enorme investimento governamental para pesquisa do câncer, foi um grande entusiasmo na comunidade médico-científica. É a partir desde tipo de iniciativa que avançamos, pois estas pesquisas irão beneficiar a todos, em algum tempo. 

O poder público é fundamental no desenvolvimento de soluções dos problemas da sociedade. Seja câncer, seja pandemia, seja poluição, seja tempo para saúde, lazer e cultura.

SITE NEIPIES: Como és especialista em câncer, comecemos a falar da doença. Por que temos tanta incidência de câncer na vida de homens e mulheres? Aumentaram os fatores de risco?

Dr. ALVARO MACHADO: Primeiro devemos considerar o envelhecimento da população. O tabagismo, apesar de estar diminuindo, ainda é o mais importante fator de risco. Alimentação, sedentarismo, álcool, exposição solar excessiva e muitos outros hábitos de vida, além da poluição do ambiente, ar, água, alimentos, tudo isto colabora em algum grau. Consideramos que 60% dos casos de cânceres são “sorteios da natureza”, ao acaso. Outros 5 a 10% tem forte componente hereditário, que podem ser minorados. Os 30-35% restantes poderiam ser evitados com hábitos e ambiente saudáveis.

SITE NEIPIES: Câncer de mama e câncer de próstata são os mais lembrados nos últimos meses do ano. Por que o Outubro é Rosa e o Novembro é Azul? (Campanhas)

Dr. ALVARO MACHADO: O Outubro Rosa nasceu nos EUA com a primeira caminhada das “vencedoras”, mulheres sobreviventes do câncer de mama, no início dos anos 90, época em que falar a palavra câncer   era tabu. Esta campanha cresceu e se tornou modelo para todas as outras que chamam nossa atenção para doenças importantes e passíveis de prevenção ou intervenção precoce. O Novembro Azul veio neste embalo, chamando a atenção para o câncer de próstata e saúde do homem, da mesma forma que o câncer de mama, o mais incidente e que mais mata mulheres, o câncer de próstata é o mais incidente e segundo câncer mais letal entre os homens, perdendo para o câncer de pulmão.

Os números do câncer são impressionantes na população: cerca de 660.000 mil diagnósticos ao ano, 66.000 de câncer de mama e 65.000 de câncer de próstata. Morrem mais de 200.000 brasileiros ao ano pela doença. Um terço de todos os casos são evitáveis. Isto significa que poderíamos evitar cerca de 200.000 casos por ano e 60.000 mortes.

SITE NEIPIES: Quais são as diferenças na percepção das mulheres e dos homens com relação aos seus corpos? Esta diferença interfere na descoberta, tratamento e cura do câncer?

Dr. ALVARO MACHADO: As diferenças são enormes. Fortemente influenciada por fatores culturais, regionais e de condições socioeconômicas. Na clientela privada, as mulheres desenvolvem durante sua vida uma rotina de cuidado médico, pois mal abandonam o pediatra e já estão sendo acompanhadas pelo ginecologista, mesmo sem estarem doentes. O homem não tem isto. Após o pediatra, procura o médico quando fica doentes. Esta mentalidade vem mudando entre os mais esclarecidos e aqueles que tem acesso aos serviços de saúde. Na rede pública isto se acentua de forma dramática. O acesso aos serviços é mais difícil, o acesso à informação também. Afora que boa parte da população menos favorecida está numa luta diária pela sobrevivência, não tem como pensar em prevenção.

A cura depende muito do diagnóstico precoce e do acesso aos tratamentos ideais em tempo hábil. Isto implica em políticas de rastreamento (diagnóstico precoce) e uma rede de atenção com especialistas e tecnologias modernas (tratamento ideal em tempo adequado) capaz de absorver estes pacientes e trata-los o mais breve possível. 

SITE NEIPIES: O que é prático, viável e importante na prevenção do câncer?

Dr. ALVARO MACHADO: Podemos resumir em hábitos saudáveis de vida. Não fumar, ter alimentação saudável, praticar exercícios físicos regularmente, reduzir a ingesta de álcool ao mínimo, manter o peso ideal. Parece simples, mas quando pensamos na implementação destas medidas em âmbito populacional, esbarramos em obstáculos dificílimos. Por exemplo: alimentação saudável significa alimentos in natura, orgânicos, de preparo artesanal e exercícios físicos regulares, segundo a ACS (American Cancer Society) significa 1 hora de atividade moderada 5 dias por semana. 

Da forma que estamos organizados socialmente, com carga horária de trabalho, tempo gasto em deslocamentos do e para o trabalho e mais o trabalho em casa despendido para a família, vemos que dificilmente conseguiremos implementar estas medidas sem que existam diretrizes e políticas públicas que garantam alimentos de qualidade a custo razoável, jornadas de trabalho que permitam tempo para os cuidados individuais e da família, etc. E estamos falando em manter a saúde. Se estendermos este conceito com a necessidade de lazer e cultura, aí complicou mesmo.

SITE NEIPIES: A pandemia está escondendo, camuflando ou retardando os diagnósticos de câncer? Como o Senhor vê isso?

Dr. ALVARO MACHADO: Sim. A pandemia vai piorar nosso desempenho, que já era sofrível. O número de mamografias realizadas em nossa cidade é um espelho desta realidade. A OMS estima que é necessário pelo menos que 70% das mulheres em idade de rastreamento para o câncer de mama realizem a mamografia anual para termos impacto sobre a mortalidade na população. Em 2017 Passo Fundo realizou cerca de 20% das mamografias necessárias na rede pública, já descontando a população feminina com acesso à rede privada. Este foi nosso melhor desempenho nos últimos muitos anos. Em 2018 fizemos 17% dos exames necessário. Em 2019, 12%. Este ano, 2020, não chegaremos a 10%. Isto é sinônimo de diagnósticos mais tardios e vidas perdidas. Afora isso, nos próximos meses teremos uma avalanche de pessoas, que não  procuraram ou não foram atendidas nos meses passados, buscando o sistema público de saúde que já esta saturado, sem condições de absorver esta demanda reprimida pela pandemia. Sempre lembrando que em 2016 foi aprovado, com voto do Bolsonaro, o congelamento dos gastos públicos em saúde.

SITE NEIPIES: Por que as recorrentes dificuldades de acesso aos diagnósticos do câncer ainda não estão resolvidos? Falta o que?

Dr. ALVARO MACHADO: Educação, planejamento e investimento. Mamógrafos temos em excesso no Sudeste e Sul, faltando no Norte e Centro Oeste. Os especialistas se concentram nestas mesmas regiões. Aparelhos de radioterapia também. O poder público deve priorizar e investir nas áreas carentes.

SITE NEIPIES: Já é possível afirmar que os tratamentos (quimioterapia e radioterapia) para controle e cura do câncer já estão mais humanizados? 

Dr. ALVARO MACHADO: Os tratamentos todos tem evoluído exponencialmente, tanto a cirurgia, a radioterapia e os medicamentos, não apenas a quimioterapia. As cirurgias tem se tornado menores, menos mutilantes, mais preservadoras de função e com excelentes resultados estéticos, sem perder efetividade. Estamos numa nova era, com tecnologia para entender cada vez em maior detalhes o que está errado na célula do câncer e, assim, desenvolver medicamentos específicos para “corrigir”ou “desligar” esta alteração. Assim como estamos aprendendo os mecanismos de controle do sistema imune e desenvolvendo medicamentos que estimulam, treinam e tornam nossa imunidade mais eficaz e específico contra o câncer. Mas isto tudo tem um custo alto. 

Devemos focar na prevenção e diagnóstico precoce. Para queles que precisam, o tratamento atual é muito mais eficaz e muito mais bem tolerado, permitindo um cotidiano normal para muitos.

SITE NEIPIES: Sairemos, sem saber quando, da pandemia e da sua maior consequência: o isolamento físico e social. Sairemos melhores como sociedade? O que estamos aprendendo?

Dr. ALVARO MACHADO: Sou um otimista. Penso que aprendemos que a solidariedade e empatia são vitais para nossa preservação como sociedade e como espécie. Li, recentemente, de uma antropóloga, que o primeiro sinal de civilização foi um fóssil de fêmur quebrado e cicatrizado. Seria impossível, sem cuidado de outro, qualquer animal com fêmur fraturado sobreviver. Seria presa fácil. Então é isso, civilização é solidariedade e cuidado com o outro.

Por outro lado, a humanidade enfrentou a gripe espanhola e duas grandes guerras mundiais. Tragédias imensuráveis. Saímos melhores delas? Acho que em alguns aspectos sim. A história não é linear ou espiral contínua, temos altos e baixos, avanços e retrocessos. Mas me parece que avançamos para melhor.

SITE NEIPIES: Uma frase/ideia ou pensamento que expresse algo significativo e relevante sobre tua vida.

Dr. ALVARO MACHADO: Bah, nunca pensei nisto. Nenhuma e muitas me ocorrem agora. Não saberia qual mais significativa neste momento, pois a vida é multifacetária e se transforma continuamente, podendo não caber em uma frase ou pensamento.

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos que te lêem agora.

Dr. ALVARO MACHADO: Mantenham o cuidado, distanciamento social, máscara e higiene. Ano que vem chegam as vacinas e tudo começa a melhorar. Incorporem, na medida do possível, hábitos saudáveis. Sedentarismo e obesidade já são a principal causa de câncer nos EUA, ultrapassando o tabaco. 

E não poderia deixar de reforçar: escolham como representantes nas eleições aqueles que apoiam a educação, os professores, a ciência e a pesquisa. Isto pode mudar o mundo.



Conheça o CTCAN: https://ctcan.com.br/



Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação

Eleições municipais discutem rumos do país

As eleições municipais são um grande movimento
de mobilização social e de discussão dos
verdadeiros interesses que movem nosso país,
a partir das nossas cidades.


Quem acompanha os movimentos da política local, a partir das nossas cidades, depara-se com um dos maiores dramas dos políticos na atualidade: a autenticidade. 

Para se eleger ou para se manter no poder, os políticos usam estratégias e acordos escusos, invisíveis e imperceptíveis à maioria dos cidadãos e cidadãs. Por isso mesmo, a maioria dos políticos falam o que a maioria do povo gostaria de ouvir e age como a maioria gostaria que agissem. Resta saber se há espaço para ser autêntico na política? Ou: como seria viver autenticamente a política?

Vez por outra, conhecemos alguns aspectos mais verdadeiros dos nossos políticos. Como nem sempre estão sob o manto dos estrategistas e assessores, revelam o que são ao falarem e agirem a partir de suas convicções e sua personalidade. Revelam-se como verdadeiramente são. Infelizmente, pesam preconceitos contra aqueles que, na vida pública, dizem o que pensam e agem a partir de suas convicções. 

A política é uma atividade de risco, porque impregnada de liberdade. E liberdade sempre é risco. O problema é que, com a profissionalização da política, esta liberdade é cada vez mais calculada e medida. Por isso que o maior temor dos políticos quanto à sua autenticidade tem sido perder votos (quando estão candidatos) ou perder o cargo (quando ocupam cargos de confiança). E então, sofremos (ou votamos ingenuamente) porque não conhecemos quem são e o que de fato defendem muitos dos nossos políticos. 

Muitos políticos não conseguem disfarçar o que são e o que pensam. Ainda bem, pois é a chance de conhecermos os mesmos como eles são!

Raramente, vemos um político com a grandeza de reconhecer os seus erros. Os acertos são destacados, os erros são escamoteados. Como esperar autenticidade sem o reconhecimento de erros? Como serão autênticos os políticos se não forem capazes de nos revelar os verdadeiros interesses que os movem?

A arena da política sempre é permeada pela disputa de interesses coletivos ou pessoais. Como disse o imperador Napoleão Bonaparte, “todo homem luta com mais bravura por seus interesses do que por seus direitos”. 

A morte da política ocorre quando ela deixa de ser espaço autêntico de disputa de ideias e interesses e se torna lugar de sondagem, de pesquisa de satisfação do eleitor ou do cidadão. 

De certo modo, nós cidadãos e cidadãs já matamos a política quando achamos que é perder tempo conversar sobre as questões da coletividade em nossas famílias, em nossas escolas, em nossos condomínios de prédios, em nossos sindicatos, clubes ou associações.

As eleições municipais são um grande movimento de mobilização social e de discussão dos verdadeiros interesses que movem nosso país, a partir das nossas cidades. Em uma democracia representativa, os mais preparados são os mais autênticos e mais fiéis a si e aos interesses que representam. Enganam-se aqueles que tentam enganar a gente.

Uma boa eleição a todos e todas!

Castração química não acabará com estupros

Se os políticos querem mesmo acabar
com a cultura do estupro, deveriam estar
discutindo políticas públicas de prevenção
e combate à violência de gênero.


Surfando na onda de indignação gerada no país pelo episódio do estupro/gravidez da menina de 10 anos, o deputado Eduardo Bolsonaro, que assim como os demais membros de sua família, nunca esteve preocupado com a defesa dos direitos das mulheres, apresentou um projeto de lei que prevê a castração química como condição para a progressão de pena dos homens condenados por estupro. A castração química consiste em usar métodos hormonais para privar o paciente de impulsos sexuais.

Esse não é um debate novo. Volta e meia surge nas redes e é entendido por alguns como “a salvação para as mulheres” e como uma forma de garantir que estupros não mais aconteçam. Mas essa é uma alternativa muito pouco ou nada eficaz, que por certo não vai acabar com os casos de abuso sexual. 

Todo estupro é doloso. Em todo estupro, existe a intenção de cometer aquele crime, diz advogada, referindo-se sobre o julgamento de Mariana Ferrer, o que gerou revolta nas redes sociais após sentença inédita no Código Penal Brasileiro. Leia mais clicando aqui.

Quando tratamos desta “solução” para este problema estamos entendendo que o estupro não é nada mais do que um impulso descontrolado do homem por sexo, uma vontade incontrolável que só pode ser contida quimicamente. Mas na verdade não é bem assim. O estupro está ligado ao desejo de exercer poder sobre outra pessoa.

Estupro não é um impulso sexual. Estupro é uma ferramenta de controle dos corpos. É uma prática implicitamente aceita na sociedade, que estimula e institucionaliza a cultura do estupro sexualizando crianças, encontrando formas de culpar a vítima, sob os argumentos de que ela estava usando roupas curtas ou saiu em horários “inapropriados”, normalizando assédios, considerando as denúncias como “mimimi”.

Mas, principalmente, a castração química entende que o estupro está no pênis, o que absolutamente não é verdade. Isso é reconhecido inclusive pela lei brasileira, que diz com todas as letras que não é necessário haver penetração para a violência ser um estupro.

Há mulheres que são penetradas por objetos.

Há mulheres e crianças que são forçadas a tocar em partes do corpo de outras pessoas.

Há atos violentos que usam outras partes do corpo.

A imensa maioria dos casos de violência sexual contra crianças não deixa marca, pois não acontece com penetração. Meninas e meninos são forçados a ver, tocar ou a serem tocadas.

A castração química não irá impedir que esses casos deixem de ocorrer. A incapacidade de ter ereção ou até mesmo um menor desejo sexual não são a raiz deste tipo de violência. O que realmente causa o estupro é a ideia de superioridade masculina sobre toda e qualquer pessoa e a certeza de que essas valem menos e podem ser controladas.

Se os políticos querem mesmo acabar com a cultura do estupro, deveriam estar discutindo políticas públicas de prevenção e combate à violência de gênero, como a criação de mais delegacias especializadas no atendimento a mulheres vítimas de violência, educação sexual nas escolas para que crianças entendam desde pequenas o que é o assédio, de que maneira ocorre e o que se pode fazer quando esse crime é praticado.

Em reflexão “Estamos falando de estupro mas vocês estão ouvindo”? jornalista Ingra Costa e Silva escreve: “e isso acontece pelo simples fato de que os homens acreditam que podem fazer o que bem entenderem conosco. Quando falamos de estupro temos que ter claro que não estamos falando de sexo: estamos falando de poder. Estamos falando de violência”.
Leia mais clicando aqui.

Mulheres e Pandemia

A pandemia veio nos mostrar as desigualdades que,
mais do que nunca, gritam de forma aguda e insistente,
enfatizando que estão ali, diante dos nossos olhos,
que parecem se acostumar a vê-las,
deixando de reparar que existem.


O ano de 2020 teve um início como muitos outros: esperança de um tempo melhor, os mais supersticiosos vestindo essa ou aquela cor para dar sorte, lentilha e uvas para ter uma mesa farta no novo ano, “adeus ano velho, feliz ano novo” cantarolado por alguns.

O que não esperávamos, era a chegada de uma pandemia. Com ela, nossa rotina mudou, sentimentos como medo e ansiedade passaram a habitar o espírito, a saudade do abraço divide espaço com o cuidado com aqueles que amamos. Palavras até então   desconhecidas ou esquecidas passaram a fazer parte do nosso vocabulário: pandemia, covid-19, home office, ensino remoto, testar positivo.

Foram muitas mudanças em um curto período de tempo, sem dúvida. Mas, ademais das alterações na rotina e no vocabulário, a pandemia veio nos mostrar as desigualdades que, mais do que nunca, gritam de forma aguda e insistente, enfatizando que estão ali, diante dos nossos olhos, que parecem se acostumar a vê-las, deixando de reparar que existem.

As pesquisas nos mostram que quem é mais afetado pela doença são as pessoas mais pobres, que não têm condições de manter o distanciamento social e, muitas vezes, nem mesmo a higiene e os cuidados necessários para manter o coronavírus distante. Nos Estados Unidos, dados mostraram que a população negra foi a mais atingida. Por quê? Porque os negros têm menos condições de acesso aos cuidados necessários e tratamento.

Vemos claramente o fator econômico interferindo quando tratamos da pandemia. Mas, quero chamar atenção aqui para outro aspecto: o de gênero. A desigualdade que ainda temos entre homens e mulheres foi também denunciada pela pandemia.

Com a mudança da rotina, veio a sobrecarga – sim, ela já existia, mas se acentuou. Conciliar o trabalho – seja home office ou presencial – com a organização da casa e o ensino remoto dos filhos tornou-se um grande desafio. Limpar a casa, fazer a comida, lavar, passar, organizar, acompanhar as aulas e tarefas escolares dos filhos e ainda produzir no trabalho. E há divisão dessas tarefas entre o homem e a mulher?

Infelizmente, o que os dados apontam é que não. E é preciso ficar claro que “ajudar” não é o mesmo que “dividir” as tarefas e responsabilidades que são essenciais, mas também não pagas e, por isso, invisíveis. 

A divisão sexual do trabalho é historicamente utilizada no processo de subjugação da mulher aos interesses da sociedade com olhar predominantemente masculino. Somos ensinados e condicionados, de geração a geração, a perpetuar a sociedade patriarcal em que as tarefas domésticas e a educação dos filhos é papel exclusivo da mulher. O homem ajuda, mas não compartilha, não divide.

A pandemia veio reforçar esses estigmas historicamente construídos e afirmados por gerações. Segundo Nara Carvalho, vice coordenadora do Centro de Referência em Direitos Humanos e professora do departamento de Direito da UFJF-GV, pela divisão sexual do trabalho, há funções tidas como femininas, especialmente relacionadas a afazeres domésticos (por vezes sequer percebidos socialmente como pertencentes à categoria trabalho), e a profissões voltadas ao cuidado com o outro (num desdobramento das funções supostamente naturais de esposa, mãe e dona de casa). À mulher, cabe servir, devendo ser especialmente devota à família e filhos, em um processo que a aproxima do estatuto de propriedade – mulher é mais objeto dos seus do que sujeito de si mesma. Isso, sem mencionar a violência doméstica contra mulheres, que, conforme apontam as pesquisas, aumentou muito neste período de isolamento social.

É necessário, portanto, ficarmos atentos a essas questões, para uma melhor distribuição das tarefas domésticas e do cuidado com os filhos, e não somente durante a pandemia. A ONU, no objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 5, prevê alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas do mundo até 2030. Mas, como podemos observar, temos, ainda, um longo caminho pela frente.

Fonte: Revista Missões
Autora: Deisily de Quadros, professora da área de Linguagens e Sociedade da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.

O outro e o próximo

Dialogar, aproximar-se e colocar-se
no lugar do outro, daquele que sofre,
é condição indispensável para a construção de
uma sociedade mais humanizada!


Com o surgimento da pandemia do novo Coronavírus, passamos a ouvir, reproduzir e praticar várias palavras de ordem. Entre elas a do distanciamento social (físico) como medida de proteção à saúde. Por essa razão e outras associadas, houve (e há) comportamentos nos mais diversos sentidos. Muitos que estavam próximos se distanciaram. Outros que estavam distantes se aproximaram. Em muitos casos. quem já estava próximo se aproximou mais. E outros, que estavam distantes, distanciaram-se mais ainda.

Nesse contexto, podemos nos perguntar: Em que consiste ser/estar distante ou próximo? Quem é o meu próximo ou quem são nossos próximos, sobretudo nas situações adversas? Como ser/estar próximo mesmo à distância? Por que, estando próximos, muitas vezes permanecemos distantes ou até ausentes? Essas e outras questões nos fazem perceber que distância e proximidade não são meros conceitos geográficos. E que estar próximo ou distante, geograficamente falando, não tem o mesmo significado para todas as pessoas.

Sem que esse assunto possa parecer anacrônico e mesmo que pareça a alguns ou a muitos, é pertinente refletir sobre o outro e o próximo. Como distingui-los? 

O outro pode comparecer diante de mim como uma ameaça, um inimigo, um ser indiferente e descartável, um concorrente, um objeto, um abjeto, etc. De qualquer forma, a pessoa do outro sempre me desperta, me evoca, me alerta… Também pode me ferir, me provocar ou me inquerir. A maneira como eu reajo às suas evocações ou provocações revela quem eu sou. E posso revelar-me como um outro (apenas) ou como um próximo.

Ser próximo é difícil e, por vezes, extremamente difícil. É mais do que ser o seguinte na fila do supermercado. Exige sair de si, colocar-se no lugar do outro, sem deixar de ser eu. Como ensinou o profeta, poeta, pastor, dom Pedro Casaldáliga (16/02/1928 – 08/08/2020), próximo é aquele de quem eu me aproximo movido pela força da misericórdia e da solidariedade. Esse companheiro de caminhada, cuja memória permanecerá para sempre e cujo exemplo de espiritualidade libertadora nos motiva a seguir, fez da vida uma luta incansável pela humanização da humanidade, pela libertação de todas as formas de violência e de opressão.

De acordo com Paulo Freire, o diálogo é mais que mera interlocução, troca de ideias, de informações e conhecimentos entre duas ou mais pessoas. Para o autor da “Pedagogia do Oprimido”, da “Pedagogia da Esperança” e de outras pedagogias libertadoras, o diálogo é uma categoria ontológica. Significa dizer que é um elemento constitutivo do ser humano. 

Pelo diálogo podemos nos libertar e nos humanizar. Se eu dialogo, posso compreender o outro. E, se compreendo, posso me transformar e ajudar a transformar realidades do mundo sólido e/ou da “modernidade líquida”.  Dialogar, aproximar-se e colocar-se no lugar do outro, daquele que sofre, é condição indispensável para a construção de uma sociedade mais humanizada!

Às muitas Anitas!

Obras belas devem circular, serem lidas, contadas, debatidas entre nós. Cartas podem ser este registro. E no futuro, servir de documentários precisos a suscitar a curiosidade e as atenções dos literatos.


Estas cartas, geralmente escritas a punho e à tinta, com letra compreensível, continham os traços de emoção e dos sentimentos que o escritor carregava no momento de sua redação. Para escrevê-las dedicava-se um tempo, um cuidado com a escolha das palavras, e com o tipo de papel e caneta. Somente após este processo, relida algumas vezes, a carta era selada, postada no correio e enviada ao destinatário. Quando recebidas, eram lidas por aquele membro da família que havia se alfabetizado e, por esta condição sabia decifrar as letras (Camini, 2012, p. 23-24)




Prezados/as, por inspiração do encontro de literatura, dia 28 de outubro, decidi vos escrever esta missiva. A tradição de escrever cartas vem desde os tempos bíblicos, entre os apóstolos. Este modo de comunicação, cruzou fronteiras e períodos históricos. 

Cartas foram escritas por Eduardo e Eloisa, séc.XII, por Francisco de Assis, séc. XII, por Rosa Luxemburgo, Fernando Pessoa e Ofélia Queiroz, Antônio Gramsci, Che Guevara, Olga Benário, Francisco Julião, Isabel Allende, Paulo Freire e Anita. Nas condições em que viviam, na prisão ou exílio, ou contidos de liberdade plena, era o único meio de dar notícias à família, amigos, companheiros. 

Alguns escreviam em minguadas folhas de papel, sem óculos e não lhe doía a vista. Ter um lápis/caneta era um privilégio. “Não poderás nunca medir a emoção que senti quando tive em minhas mãos as primeiras folhas de papel e os dois lápis esferográficas com que te escrevo”, disse Francisco Julião à sua filha. Se lermos essas cartas, seremos contagiados pela sensibilidade, características próprias daqueles que não soltaram a mão da humanidade, mesmo encarcerados e separados das pessoas que amavam. No seu conjunto, são verdadeiros romances de formação humana.

Em suas cartas encontramos literatura, filosofia, sociologia, história, psicologia, e muito amor. Partilhavam profundas reflexões de vida, porque separados por proibições que não guardavam sentido. Por isso, escrever cartas e trocá-las entre si era o único meio de alimentar a esperança de um dia poder reencontrar-se. Contudo, torcendo para que os proibidores destas relações, não impedissem de as cartas alcançar o seu destino. 

Não por acaso, crianças das Escolas Itinerantes, escreviam cartas ao Ministério Público, ao Presidente Lula e ao INCRA. As cartas, eram portadoras de reivindicações e denúncias. Contavam os aprendizados construídos na sua escola, conectada com a vida. Em períodos de marchas, destacavam as cidades por onde passavam, as plantações, as pessoas, os conteúdos que estudavam. E porque sua escola foi batizada com o nome de Paulo Freire, seu inspirador. 

Vejam, pela sua forma escolar, essa escola, incomodou o Estado. Por isso a serpente do latifúndio, que envenena terras e águas, reagiu rapidamente, e o Governo se moveu para negá-la aos Sem Terra, após 12 anos de uma linda experiência em curso. Esse latifúndio “entulha os cemitérios e as encruzilhadas dos caminhos de milhares de crianças que tinham o direito de viver”, nos diz Francisco Julião. 

Recentemente nos alcançou uma obra encantadora, cujas cartas, nos levam às lágrimas – A Revolução de Anita. Soube nesse dia, que centenas de militantes sentiram profunda emoção ao lê-la, e por isso a sugeriram a alguém amigo/a. Esse amigo, não poderia, de forma alguma, eximir-se dessa leitura, tão prazerosa e significativa. Quem não a leu ainda, se quer imagina a beleza nela contida. 

O mundo e a realidade que Anita descreve, com rigor e paixão, porque conviveu com camponeses dos quais nos fala, é também a realidade e o nosso mundo há quatro décadas. O que foi feito em Cuba, em 1961, está sendo feito no MST desde 1982. De lá para cá, iniciativas ousadas, em condições desfavoráveis, muitas vezes, milhares de pessoas foram alfabetizadas. Outras, estão se alfabetizando. E, muitas mais, esperam pela oportunidade de aprender a ler o mundo e poder dizer a sua palavra. E estas têm pressa. A diferença é que Cuba, forjada pela revolução, ainda contrariada pelo capitalismo, alcançou a todas as pessoas da Ilha, com planejamento, determinação e formação de brigadas de alfabetizadores, cuja dedicação e amor à Pátria, ajudaram plantar as raízes da revolução. Assim, acenderam a chama redentora na consciência do povo.

Entretanto, é preciso entender.  Vivemos num sistema capitalista, gerador de exclusão. A fábrica, produtora do analfabetismo é eficaz e eficiente. Por isso, nosso trabalho deverá ser bem programado e perseverante. Cada um de nós, tem o dever de prestar atenção ao seu entorno. 

Enquanto houver um analfabetizado, nossa tarefa não estará concluída. Diferente de Cuba, que havia conquistado o Estado, e por isso em condições favoráveis de construir a revolução, nós temos o Estado contra nós, produtor da desigualdade Social, de homens estraçalhados e com fome. 

Por isso mesmo, o MST rema contra a maré, contra a morte, em condições desiguais, com minguados recursos para agir. Ao desenvolver projetos de alfabetização, geralmente tem pouco apoio dos governos. E quando tem, é por tempo limitado, rompendo processos e desmotivando as pessoas. Para nós, a alfabetização tem significado maior – aprender a ler, escrever e interpretar. Estudar é para a vida inteira. Nossa inspiração vem de Martí: “Só o conhecimento liberta”!  

E nós, já escrevemos cartas aos nossos amigos, companheiros de jornadas, de escola, de universidade, contando qual é o nosso trabalho, militância, no MST? Como nos organizamos no trabalho de base, de alfabetização, nas escolas, nas cooperativas? Contamos o que lemos, estudamos, o que tratam as obras lidas em tempo de pandemia? Eis o desafio sugerido para enfrentarmos com mais leveza e atenção redobrada, com a nossa e a saúde dos outros. Ainda mais que não sabemos por quanto tempo o Vírus será o empecilho para darmos o voo dos pássaros. 

Quando lemos algo que nos inspira e move nossas ações, não devemos aprisionar a obra em nós, deixando-a nas prateleiras, esquecida, à disposição das traças. Obras belas devem circular, serem lidas, contadas, debatidas entre nós. Cartas podem ser este registro. 

E no futuro, servir de documentários precisos a suscitar a curiosidade e as atenções dos literatos. Por que não? Cartas precisam ser escritas, comunicadas, guardadas, relidas. Somente cartas, podem contrapor as palavras, mal escritas, esquecidas, tão logo chegam às telas de nossos celulares. 

Fico a imaginar o conteúdo das cartas, vindas da juventude militante que carrega sua mochila nas ações de solidariedade, com o povo nas periferias. Com certeza, eu e vocês, seremos seus fiéis leitores/as. Por isso, sintam-se desafiadas a acrescentar pequenos blocos de papel e caneta nessa mochila. Anotem tudo: emoções, lágrimas, sorrisos, e palavras ouvidas de idosos, adultos e crianças. Aliás, prestem atenção maior no olhar das crianças. São elas que estão à frente, com seus olhos brilhando de felicidade ao receber a comida que esperavam. Elas esperam vocês, a fome não! Elas são criaturas merecedoras de nossa atenção redobrada, porque indefesas, vulneráveis, e, neste período, sem escola, expostas à violência que as ronda, sem lhe dar o direito de respirar sua própria infância.  Esse registro em pequenos pedaços de papel, serão imprescindíveis para dar conteúdo e emoção às cartas que irão escrever. Debruçados sobre a mesa, pensem, rascunhem, reescrevam. A carta endereçada ao Antônio, Matilde, José, Pedro, Edgar, Isabela, Maria Cristina e Miguel, precisa comunicar a palavra, como se estivesse conversando, pessoalmente.  Decidam a quem enviar. A pessoa que a receber, ficará imensamente feliz, e grata. A abrirá, a lerá, mais de uma vez. A carta precisa ser bem escrita, se for com o próprio punho, deve ser legível. Para ser uma carta pedagógica, nome que Paulo Freire batizara seus últimos escritos, precisa estar encharcada de pedagogia, isto é, portadora de aprendizados que comunicam, sensibilizam. 

Sim, as cartas podem ter diferentes sentidos. Por isso a minha quer incentivar a escritura de cartas, e contar a vocês, um fato marcante. Em 1990 houve um grande movimento de alfabetização no RS, que se estendeu pelo Brasil. E no dia 25 de maio de 1991, tivemos a alegria de ter Paulo Freire no ato de lançamento. Dia inesquecível. Esta data demarca a primeira e única vez em que o MST se encontrou, pessoalmente com Paulo Freire, porque em 02 de maio de 1997 ele fechou os olhos para ver melhor. Em sua humildade pedagógica, se emocionou ao saber que o MST iniciava um trabalho de alfabetização nos acampamentos e assentamentos, 26 anos depois de ter sido preso e exilado por esta mesma causa, pelas mãos da ditadura. Ouviu com profundo respeito, a intenção do MST, de alfabetizar seus companheiros, e de não se dar por satisfeito até que tenha um só ser humano que não saiba ler, escrever e interpretar.  

Pois bem, se esta tarefa fosse fácil, não seria para nós executá-la. O desafio é construímos possibilidades e pontes que elevem a consciência e autoestima de nosso povo. Que possam ter liberdade de pensamento e ação. E nas mãos, livros, sentir seu cheiro, abraçá-los e levá-los para casa! 

Por fim camaradas, me despeço, com forte abraço a vocês, lembrando do apelo de um jovem Sem Terra/1990: “Os companheiros que não sabem ler, sofrem muito, tem limitações”. E juntos, abracemos a Anita, ouvindo sua voz: “Outro dia, o meu pai disse algo maravilhoso quando falávamos sobre a campanha. Ele disse que durante a campanha, os camponeses descobriram o mundo das palavras e os brigadistas descobriram o povo esquecido de Cuba”.

Um gênio chamado Beethoven

É comum ouvir muitas histórias (verdadeiras ou não)
sobre indivíduos cuja genialidade rompe limites,
cujo interesse pela vida privada ultrapassa séculos
e cuja obra perdura para todo o sempre.
Com Beethoven, claro, não é diferente.


Ludwig van Beethoven (1770-1827) é talvez o compositor mais influente na história da música, com a proeza de definir nosso vínculo com a arte. De longe, não obstante haja alguns outros espíritos musicais de incomensurável grandeza e magnitude, ele é um dos compositores clássicos mais escutados do mundo; e também um dos embaixadores da cultura europeia. Simplesmente, é o compositor mais cultuado de todos os tempos. 

Não por mero acaso, assim assinalam quase todos os seus biógrafos: a música de Beethoven é o apogeu de uma evolução iniciada no Renascimento e reúne qualidades excepcionais que perduram dois séculos após sua morte. Para falar de modo bastante objetivo, ele foi um gênio da música!

Certo mesmo é que seu trabalho pertence à herança cultural de toda a humanidade. Beethoven é onipresente e eternamente moderno. Seu nome é conhecido muito além do mundo da música: ele fascina até mesmo movimentos e une pessoas em diversos outros ambientes: da publicidade, do cinema, dos esportes e da política. Chega a ser autoexplicativo, para não dizer redundante, que sua genialidade reinventou a noção de música e revelou novas possibilidades para o piano, o violino e o violoncelo. 

Beethoven deixou cerca de duzentas e quarenta obras, entre as quais sinfonias, concertos, quartetos de cordas e outras peças de câmara, como lieder (tipo de arranjo de origem alemã feito para piano e cantor solo e que expressa os sentimentos da música através dos sons) e uma ópera. Um gênio na acepção do termo, vale assim reiterar incontáveis vezes. Há quem afirme que, ao ouvir Beethoven, ninguém menos que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791) teria dito: “Esse jovem conquistará o mundo”.

Note, assim, que apenas por essas breves credenciais, poder-se-á dizer euforicamente que dezembro de 2020 marcará um momento único, sublime, especial: a comemoração dos 250 anos de nascimento de um gênio – uma alma predestinada pela beleza musical e divinamente orientada a encantar gerações após gerações. Merecidas homenagens serão realizadas em palcos do mundo inteiro. Em todos os recantos do planeta, cabe sublinhar, festividades diversas vão fazer ecoar o nome, a música, a beleza, a genialidade de Beethoven, especialmente em toda a Alemanha e, claro, em sua cidade natal, a renana Bonn, no oeste do país. Só o parlamento alemão tem intenção de investir 37 milhões de euros na celebração.

É preciso compreender o homem para depois entender a obra

Beethoven começou a compor na infância. Aos 12 anos já escrevia. Avesso tanto às pessoas quanto aos cuidados básicos de higiene (a ponto de ir sujo à escola), ele dedicou a vida a desafiar os limites de sua arte. Influenciado por Mozart, com quem se encontrou ainda adolescente numa viagem a Viena, foi um prodígio na infância e um compositor obstinado até a morte. (Conforme consta em “Beethoven: Angústia e Triunfo”, biografia de quase 1.000 páginas escritas por Jan Swafford). Sua vida foi marcada por diversos problemas de saúde, indo desde a varíola até a febre tifóide, que deixaria o compositor surdo anos mais tarde. Maynard Solomon, biógrafo de Beethoven, escreve que eram poucos os dias em que o compositor não apanhava do pai, que o forçava a estudar o piano, chegando a trancá-lo por horas na sala em que ficava o instrumento. Johann Beethoven, o pai, era alcóolatra, o que deixaria marcas profundas no filho. A mãe, Maria Magdalena Keverich – filha do chefe de cozinha do príncipe da Renânia –  era turberculosa. 

Num belíssimo e completo artigo sobre a vida do compositor, escrito por João Luiz Sampaio, lê-se que, em 1802, quando se deu conta de que a surdez era irreversível, a primeira atitude tomada foi escrever um documento, “O Testamento de Heiligenstadt”, a seus irmãos Carl e Johann falando de sua condição. Esse documento somente foi encontrado após a sua morte. Na verdade, tem sido dito que esse “Testamento” é uma espécie de mergulho profundo no íntimo de Beethoven, principalmente devido à menção à possibilidade do suicídio ao se dar conta de que ficaria completamente surdo. Na vida adulta, Beethoven era conhecido como alguém rabugento e de pouco humor. Ele mesmo teria reconhecido isso nesse “Testamento”. 

De acordo com um de seus biógrafos, Bernard Fauconnier, os primeiros sinais de problemas na audição, de fato, apareceram quando ele tinha 27 anos. No entanto, à medida em que o quadro ia se agravando, o compositor foi desenvolvendo a habilidade de escutar mentalmente as notas e suas combinações. As biografias – quase todas – dão conta do perfeccionismo dele. Vários biógrafos dizem que ele revisava e corrigia as partituras madrugada adentro. Ao todo, Beethoven deixou 240 peças, entre sinfonias, concertos, quartetos de cordas e etc. Fez apenas uma ópera, Fidélio, encomendada pelo Barão Peter Von Braun. Como não teve boas críticas na estreia, fez inúmeras correções até chegar à definitiva versão (a terceira).

Interessa muito observar o que escreve, também em artigo, Guilherme de Alencar Pinto, Presidente da Associação de Críticos Cinematográficos do Uruguai: Beethoven era um homem com uma personalidade impulsiva, consciente da sua própria grandeza e em eterno conflito com as circunstâncias; desarranjado e descortês, porque a sua concentração e inspiração não lhe deixavam tempo para ninharias prosaicas. Em vez de se curvar perante a dificuldade da surdez, respondeu compondo monumentos de uma magnitude sem precedentes, como se estivesse a mostrar a língua ao destino, num estilo que por vezes poderia ser esmagadoramente furioso. 

Cabe sublinhar por último, mas não por fim, que é unanimidade entre maestros, especialistas e biógrafos o quanto as composições de Beethoven foram importantes inclusive para demarcação de fases na história da música erudita. Críticos do período avaliam, por exemplo, que entre 1792 e 1800 foi notória a evolução da música de Beethoven. Por certo, a experimentação se tornou uma máxima na vida dele.

Curiosidades

É bastante comum ouvir muitas histórias (verdadeiras ou não) sobre indivíduos cuja genialidade rompe limites, cujo interesse pela vida privada (ou pública) ultrapassa séculos e cuja obra (tenha ela a natureza que tiver) perdura para todo o sempre. Com Beethoven, claro, não é diferente.

Separamos, dentre tantas existentes, algumas curiosidades desse gênio. Vejamos a primeira dessas curiosidades em tom de pergunta: é correto afirmar que Beethoven deixou instruções para que todas as suas posses fossem para uma mulher misteriosa, à qual se referia como sua “amada imortal”? 

Respondendo: Sim, é correto. Ao menos é o que se passa no célebre filme “Amada Imortal”, de Bernard Rose. O compositor até fala, em uma carta de 1812, de sua relação com uma “amada imortal”, cujo nome ele não revela – durante muito tempo especulou-se o nome de Antonie Brentano, uma mulher casada e patrona das artes com quem teria se envolvido. Mas não há, todavia, nenhum indício de que no final da vida o compositor, que teve dezenas de casos, ainda estivesse ligado a ela.

Outra curiosidade muito difundida em torno de Beethoven se refere ao fato de ele haver dedicado sua terceira sinfonia à Napoleão, celebrando os ideais iluministas, embora, mais tarde, o compositor acabou se decepcionando ao vê-lo coroando a si mesmo como rei e, nesse caso, teria arrancado a página com a dedicatória da partitura. Mas isso, repare bem, não é totalmente verdadeira, e até os dias de hoje parece residir certa controvérsia. Quem conta a história com um pouco mais de detalhe é um amigo de Beethoven e seu primeiro biógrafo, Ferdinand Ries. Segundo ele, Beethoven teria sim ficado transtornado ao saber que Napoleão havia traído seus ideais. A partir dali, portanto, a sinfonia, que, em princípio, seria chamada de Sinfonia Bonaparte, passou a se chamar Sinfonia Eroica

Mas há ainda outra história envolvendo nomes dados às suas composições que merece ser destacada. Por exemplo: “A Sonata ao Luar” teria recebido este nome porque foi escrita em um momento no qual, já acometido pela surdez, o compositor vagava pelas noites em Viena, contemplando o céu. Mas isso, porém, não passa de informação falsa. Ocorre que o nome “Sonata ao Luar” não foi dado por Beethoven, que chamou a peça de Sonata quasi una fantasia. Quem a batizou desta forma foi o crítico Ludwig Rellstab, cinco anos após a morte do compositor, estabelecendo, pois, uma reação entre a música do primeiro movimento da peça com o efeito da luz da lua iluminando o Lago Lucerna.

*

Por fim, queremos apenas observar um ponto derradeiro. Colocado ainda em vida sobre um pedestal de semideus do qual jamais sairia, antes de morrer Beethoven tinha preocupações bem mais humanas: seu próximo trabalho, a doença, o dinheiro. Contudo, a implacável passagem do tempo chegou ao compositor, silenciando-o. Ludwig van Beethoven morreu num estado de saúde tão precário que a causa jamais foi esclarecida (havia suspeitas de cirrose, sífilis e até envenenamento). A mais brilhante das luzes da música clássica saia de cena, sem jamais se apagar. E como pouquíssimos, ele pode ser chamado de gênio. Talvez o maior da música. Beethoven vive! E viverá para sempre.

Ludwig van Beethoven ícone supremo da música ocidental. Por Franz Ventura. Tudo sobre Beethoven conta a história de uma forma divertida a biografia do compositor alemão mais respeitado da humanidade.

2020: marcado pela pandemia e pela resistência dos professores da rede estadual do RS

Contar histórias de pessoas que marcam a história de nossa educação, em especial, a educação pública, é uma escolha editorial que fazemos reiteradamente no site. Nosso compromisso é com aqueles e aquelas que sonham, lutam e promovem a educação de qualidade social.

Em novembro de 2020, quando nos aproximamos de mais um final de ano, com poucas previsões e muitas dúvidas sobre o término do ano letivo, entrevistamos Helenir Schurer, presidente do CPERS Sindicato.

O Centro dos Professores do Estado do Rio Grande do Sul em Sindicato é o sindicato dos professores do ensino público do Rio Grande do Sul, com sede em Porto Alegre. É filiado à Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação. Foi fundado em 21 de abril de 1945, com o nome de Centro dos Professores Primários do Estado do Rio Grande do Sul (CPPE). Atualmente reúne mais de oitenta mil filiados. 

Conheça a história desta professora e líder sindical que se entrelaça com a história do CPERS Sindicato, por dela mesma.

***

SITE NEIPIES: Quando, como e porque a senhora decidiu ser professora?

PROFESSORA HELENIR: Decidi ser professora desde a terceira série, quando tive uma professora maravilhosa. Foi ali que me encantei com a profissão. Depois a vida seguiu, eu trabalhava na iniciativa privada e um dia resolvi largar tudo e fazer o magistério. A partir dali me apaixonei pela educação e nunca mais saí dela.

SITE NEIPIES: Como a luta por educação pública de qualidade foi se entrelaçando com a sua história profissional?

PROFESSORA HELENIR: Minha vida profissional e a nossa luta pela educação pública de qualidade foram se entrelaçando no fazer pedagógico e na importância que eu senti quando trabalhei, principalmente, alfabetizando, num momento, e no outro, trabalhando com o Supletivo. Na alfabetização, quando as crianças aprendem a ler e na busca de alternativas mais apropriadas para fazer o desenvolvimento das crianças na aprendizagem de maneira mais profunda e no Supletivo quando pude ver a alfabetização política das pessoas. Não consigo entender educação que não seja libertadora e no Supletivo pude perceber isso mais fortemente em minha vida.

SITE NEIPIES: O que mais a desafia e o que mais a realiza como dirigente do CPERS Sindicato, um dos maiores sindicatos de professores da América Latina?

PROFESSORA HELENIR: O que mais me desafia a frente do Sindicato é buscar garantias de conquistas para nossa categoria. Estamos vivendo num segundo governo estadual extremamente neoliberal, onde se busca retirada de direitos e isso nos desafia muito. 

O que mais me realiza é o contato com a categoria, é o diálogo com a categoria e, principalmente, saber que a gente conseguiu nestes 06 anos de direção fazer com que a categoria novamente acreditasse no Sindicato e as grandes mobilizações que fizemos. Isso me realiza enquanto professora e me honra muito estar à frente de um Sindicato, de uma categoria tão guerreira, tão batalhadora e com tanta fibra.

SITE NEIPIES: Qual é a importância do sindicalismo neste momento histórico pelo qual passa o Brasil e o RS?

PROFESSORA HELENIR: Estamos vivendo num momento, no mundo inteiro, de ataques aos direitos dos trabalhadores. Nesta conjuntura, o papel do Sindicato se torna fundamental. Sindicatos continuam sendo uma ferramenta de busca de direitos e de resistência, mais de resistência, atualmente, pelos governos neoliberais que temos tanto no país como no Estado. A importância é essa, de estar ao lado dos seus sócios e dos trabalhadores. Não somente dos sócios, porque o movimento sindical tem de saber que todos os trabalhadores tem de ser motivo para nossa luta. O papel dos sindicatos hoje é essa, não só a luta corporativa, mas também a luta pela democracia.

SITE NEIPIES: O CPERS Sindicato é conhecido por demarcar posições políticas significativas com relação aos governos estaduais. É conhecido pela combatividade e pela mobilização contra os reiterados ataques pelos quais vem passando a categoria no RS. Qual é a diferença neste enfrentamento nos últimos 3 governos (Governos de Tarso Genro, José Ivo Sartori e Eduardo Leite)?

PROFESSORA HELENIR: Olha, tem pessoas que dizem que todos os políticos são iguais e é uma despolitização dizer isso. Porque nós temos diferenças e as pessoas tem de entender que tem projetos diferentes. Tarso Genro tinha um tipo de projeto, um projeto diferente de Sartori e de Leite. Apesar de termos feito muita luta no governo Tarso Genro, é importante ressaltar que não tivemos, em momento nenhum, o fantasma da perda de direitos. Conseguimos avanços importantes, principalmente os reajustes dos nossos salários. No Governo Sartori e Eduardo Leite foram somente perdas. Sartori foi reajuste zero, Leite ainda reajuste zero. São governos que privatizaram e que retiraram direitos fundamentais da nossa categoria, com maioria absoluta na Assembléia Legislativa e que lhes dão e deram sustentação.

SITE NEIPIES: Como a Pandemia marca os professores e professoras da rede estadual de ensino em 2020 e o que ela mostra a toda sociedade gaúcha?

PROFESSORA HELENIR: A pandemia tem todo seu lado triste, das milhares de mortes que infelizmente marcam o nosso país, mas na vida dos professores e professoras da rede estadual, eu tenho pensado muito sobre isso. 

O que a pandemia fez com nossos professores e com toda sociedade gaúcha foi demonstrar, primeiro, uma mudança de discurso. Devemos lembrar que antes da pandemia, o grande discurso era homeschooling, era educação à distância, como se isso fosse a salvação da educação. Com a pandemia, quando estamos vivenciando estas duas questões, acho que escola pública sai muito fortalecida. Hoje temos muito mais reconhecimento dos pais da importância da escola pública, da importância do professor, do que tínhamos antes. Se tem alguma coisa desta pandemia, foi este reconhecimento da profissão docente que estava tão desgastada e desvalorizada e que parece foi agora redescoberta pela sociedade gaúcha.

SITE NEIPIES: Por que a educação é o setor da sociedade mais vulnerável e mais oprimido também nesta Pandemia?

PROFESSORA HELENIR: Na pandemia ficou explicitado o grande apartheid que temos na sociedade. Temos pessoas que conseguiram passar pela pandemia com seus estudos tranquilamente, porque tinham todas as ferramentas disponíveis, mas ao mesmo tempo a gente vivencia crianças que não tem sequer um celular para poder acessar as aulas remotas e outros sequer tem o sinal de internet. As diferenças sociais e abismais que temos no nosso país ficaram muito explícitas durante esta pandemia. Por isso é importante a sociedade se mobilizar para termos um plano para no próximo ano recuperarmos as crianças que ficaram à margem de todo este processo educacional.

SITE NEIPIES: Qual é, ou continua sendo, o maior desafio para tornar a educação pública com qualidade social?

PROFESSORA HELENIR: O grande desafio para tornar a educação pública com qualidade social é investimento, investimento não só financeiro, mas também investimento nas pessoas, investimento na formação dos professores (formação continuada), investimento nas políticas sociais para que as diferenças existentes entre aqueles alunos que vão para escola também para garantir sua alimentação e aqueles outros que tem absolutamente tudo. 

Uma educação de qualidade se faz com investimentos sim nos professores e na formação, mas investimento social para que as famílias que fazem parte da comunidade das escolas públicas deixem de ser esquecidas pelos governos e muitas vezes sejam vistos como párias, como se não fizessem parte da sociedade. Tem que se ter este olhar. Com alunos com fome não há como ter uma escola com qualidade social. Um aluno com preconceitos, ou afastado por preconceitos, também não cabe numa escola de qualidade social. Então, temos muito a caminhar, muito a fazer, sendo que um dos grandes desafios da escola, dos professores, da comunidade escolar, em conjunto com a sociedade.

SITE NEIPIES: Por que, muitas vezes, as ações do CPERS Sindicato parecem estar tão distantes da realidade dos colegas professores e professoras, bem como também da situação das escolas?

PROFESSORA HELENIR: Nestes seis anos, o que mais temos buscado é aproximar esta categoria do Sindicato. O Sindicato estava muito distante. Temos feito muitas, muitas Caravanas, muitas ações de ir para a base com a categoria, muitas ações para trazer os aposentados para próximo do Sindicato. Acho que já conseguimos um bom intento, mas ainda temos de continuar trabalhando para que, cada vez mais, as pessoas se sintam o Sindicato. O Sindicato deixa de ser aquela entidade tão distante onde os sócios não se reconhecem como trabalhadores, como parte do Sindicato.

SITE NEIPIES: O que mais marca a atuação do CPERS neste ano de 2020?

PROFESSORA HELENIR: O que mais marcou a atuação do CPERS este ano foi a RESISTÊNCIA. Sofremos ataques terríveis desde o início do ano com a retirada de direitos. Estamos agora numa pandemia, onde o governo, de forma irresponsável, tenta nos fazer voltar às aulas presenciais mesmo sabendo que as condições sanitárias não estão dadas e nós temos resistido. A categoria tem resistido e isso nos dá muito orgulho. Nossa maior marca deste ano é a Resistência.

SITE NEIPIES: Qual é a expectativa do CPERS Sindicato com a implantação do Novo Ensino Médio?

PROFESSORA HELENIR: A implantação do Novo Ensino Médio é um dos grandes desafios que temos pela frente. No Novo Ensino Médio, o governo vai tentar implantar o EAD, mesmo com todos os problemas que a pandemia já demonstrou com relação a isso. Precisaremos fazer grandes debates com a comunidade escolar para continuarmos resistindo. O Novo Ensino Médio retira dos alunos a possibilidade de conhecimento pleno, portanto não serve e deve ser rechaçado.

SITE NEIPIES: Como motivar professores e professoras que, além de seus salários parcelados, convivem com a desconfiança de parcela da sociedade e a imposição de mais precarização no seu trabalho pelo governo estadual?

PROFESSORA HELENIR:  Os professores e professoras, apesar de tudo que passamos, com salários parcelados, há seis anos sem reajuste, e muitas vezes questionados em seu trabalho, esses professores tem resistido. Sempre digo que nossa categoria tem esta característica de “não vergar a coluna”. A gente sofre ataques e parece que quanto mais batem, mais a gente se fortalece. Mas também é verdade que temos de trabalhar como um todo: aqueles que convivem com o Sindicato, que vivem o Sindicato, a gente percebe que conseguem entender a situação, enquanto outros que estão mais afastados realmente ficam mais fragilizados. Então, neste momento que eu falava que a pandemia ajudou a fortalecer a escola pública aos olhos dos pais, vejo que este é um bom momento para nós nos levantarmos e construirmos juntos com a sociedade e a comunidade escolar resistências contra as precarizações. A gente sabe que este governo tem no seu planejamento fechar escolas, principalmente escolas do campo, e temos de fazer muitas lutas para que este projeto não se concretize.

SITE NEIPIES: Qual é o segredo seu para o entusiasmo e sua liderança perene diante de tantos desafios da realidade educacional no RS?

PROFESSORA HELENIR: O segredo para meu entusiasmo é a grande admiração que eu tenho pela nossa categoria. É uma categoria que vale a pena a gente lutar. Uma categoria que temos de abraçar e, quando a gente abraça, a gente caminha junto. Meu entusiasmo é justamente por isso: nunca me sentir só. A gente sempre construiu a luta e a categoria respondeu, o que me deixa muito feliz e muito orgulhosa. Não tenho orgulho de ser presidente, mas de estar presidente do Sindicato desta categoria, eleita por ela, uma categoria tão grandiosa como a do CPERS Sindicato.

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos leitores deste site, em especial, os professores e professoras estaduais do RS?

PROFESSORA HELENIR: A mensagem que eu gostaria de deixar, primeiro, é pela importância do voto. Temos que começar cada vez mais nos preocupar com eleições, nos preocupar com projetos, estudarmos os projetos, fiscalizarmos as ações de todos os partidos políticos, porque só assim vamos poder detectar quais projetos eles defendem. Por exemplo, uma maior fiscalização da Assembleia Legislativa e do Congresso Nacional. Ver como votam os partidos que atacam e retiram os direitos dos trabalhadores. Quando entendermos isso, perceberemos que estes defendem o projeto do Estado Mínimo, de políticas neoliberais. Enquanto aqueles que nos defendem, que estão juntos e caminham conosco defendem outro projeto. Um projeto de um Estado protetor dos direitos, um Estado com desenvolvimento social, e esses fazem a diferença. 

Neste ano de eleições municipais, deveríamos dar respostas a todos os partidos que nos tiraram direitos, porque votar nestes partidos é fortalecer este projeto. E fortalecer este projeto nos exigirá muito mais lutas, lutas difíceis de serem ganhas em relação às nossas conquistas. Para voltarmos a conquistar, é importante termos esta leitura de projetos que estão em jogo na sociedade. Os projetos que nos defendem são daqueles que sempre votaram a favor de nós. Cada voto tem uma consequência e estamos vivendo estas consequências de votos errados que foram dados para Sartori ou Eduardo Leite e a grande maioria da Assembleia Legislativa onde tem 40 deputados que apoiam estas políticas. 

Um grande abraço!



Fotos: CPERS Sindicato

Longe de mim o “novo normal”!

Precisamos nos contrapor com toda
nossa energia a esta tese do “novo normal”.
Não queremos e não aceitamos a
banalização da morte com naturalidade.


Ainda ouvimos falar do tal do “novo normal” que somente banalizou assassinatos. A burguesia criou esta tese para entorpecer o povo sofrido com a tragédia do genocídio consentido pelo governo criminoso. Tem “intelectual”, tanto da direita, centro, social democracia e esquerda, dando cursos, fazendo palestras, conferências, lives, o diabo a quatro, sobre. Nenhum deles [as] discute que com o genocida e sua corja no poder não voltaremos sequer ao normal.

O normal humanitário antes dos assassinos estarem no poder era a sociedade brasileira se comover e se solidarizar com os 71 familiares que perderam os seus na tragédia da Chape. Com os 19 familiares que perderam os seus na tragédia em Mariana. Com os 270 familiares que perderam os seus na tragédia em Brumadinho. O genocida transformou o normal humanitário em novo normal insensível a assassinatos em larga escala.

Salvo raras exceções, os membros da sociedade brasileira enxergam os assassinatos com os insensíveis olhos do coveiro. Já chegamos a quase 160 mil pessoas vitimadas pelo Covid, maior parte devido ao negacionismo dos assassinos que estão no poder e nem sentimos mais. 

“Afinal, esse seria um “novo normal” para quem? Qual seria o nosso coeficiente de “normalidade”? E qual a régua que mede e distingue o que é “normal” do que é “anormal”, ou, ainda, um “novo normal”? […] A pergunta, mais uma vez, é a seguinte: “novo normal” para quem? […] (Paulo César Carbonari) Leia mais aqui.

Nenhum dos intelectuais orgânicos do sistema que organizam as imaginárias realidades da tese do “novo normal” está acreditando em seus próprios discursos orientadores proferidos. Eles tem ciência que o “novo normal” de seus cursos, palestras, conferências, lives, o diabo a quatro, se materializará somente nas calendas gregas!

Não bastasse o macabro genocídio, deliberadamente cometido pelo presidente e seus criminosos asseclas ministeriais, pipocam, por todos os rincões do país, charlatões que se auto definem com nomes pomposos, a serviço do mundo do capital, cimentando a fórceps na consciência coletiva da sociedade brasileira a macabra tese do “novo normal” que na prática é a materialização da barbárie social. 

Precisamos nos contrapor com toda nossa energia a esta tese do “novo normal”. Não queremos e não aceitamos a banalização da morte com naturalidade. Sigamos rumo ao resgate do normal humanitário.

Vamos recuperar nossa humanidade que está sendo assassinada junto com a tragédia pandêmica. Feito isso, poderemos avançar objetivando transformar a realidade social que estamos inseridos em um mundo economicamente viável, ecologicamente sustentável e socialmente justo. Aí poderemos ser utópicos novamente e defender um novo normal que valorize a vida.

Um bom começo pra construção coletiva deste “novo normal” utópico é, na tragédia da destruição do normal humanitário, se reorientar, ter clareza da conjuntura política e, sobretudo, que os responsáveis pelo elevado número de vidas ceifadas, tem nome e CPF, reorganizar o conjunto da militância, partir pra luta e defenestrar o genocida e aquela horda de criminosos que estão no poder.

Que os intelectuais capachos do sistema opressor, defensores da tese do “novo normal”, peguem a mesma, enrolem bem enroladinho, e…

Fora Bolsonaro!

“Sobre o que é “normal”, e se realmente faz sentido falarmos sobre uma “nova normalidade”, parece mais um desses problemas insolúveis e, como dispomos de pouco tempo (mesmo sem saber se realmente usamos o tempo ou nos usam o tempo todo), não vamos nos deter nessas “especulações” de desocupados improdutivos. Segue a manada, afinal, o “novo normal” exige recuperar o “leite derramado”. O “Novo Normal” é uma Vaca seguindo a manada”. (Sidinei Cruz Sobrinho) Leia mais aqui.

Veja também