Renovar também significa destruir uma rotina cansativa e devolver ao processo uma luz permeia em cada ser, para que não se perca a alegria de ensinar, no mais profundo holocausto.
“Os alunos estão desanimados!”, “Ninguém entra na aula do Meet.”, “Nós professores estamos cansados, desanimados e desmotivados!” Essas falas representam o processo dolorido vivenciado num período difícil de renovação e despendimento de tudo o que julgávamos que sabíamos e tínhamos como ferramenta para educar.
Nesta atmosfera real atual surge brilhantemente e apropriadamente uma excelente ideia por parte da coordenação do Instituto Estadual Cecy Leite Costa, O DESAFIO VIRTUAL CECY, na tentativa de descontruir a rotina mecanizada pela inevitável única arma que nos restou: a tecnologia. Postar atividades, dar aula no meet, sentado numa cadeira esperando em frente uma tela a participação dos estudantes e a devolutiva das atividades, que muitas vezes não ocorria.
Lembro o dia que a Coordenadora Tatiane falou empolgada sobre a ideia de fazer um desafio virtual. Percebi nos seus olhos a motivação e o crédito que apresentava a cada palavra emitida convencendo que seria bom para renovar, mexer as estruturas educacionais esfaceladas por uma pandemia. Ela deixou claro que o objetivo geral era animar tanto alunos quanto professores.
A emissão de desconfiança e descrédito de que isso pudesse dar certo estava presente nos olhares dos presentes. Eu, inclusive, até pensei e duvidei comigo mesmo. Será que isso vai funcionar? Pois sei que gincana, sei que dá certo de forma presencialmente, mas será que virtualmente terá sucesso? Tenho certeza que outros colegas até pensaram: “mais uma “atividadezinha”.
Como funcionaria: teríamos uma semana inteira para coordenar através do meet essa atividade. Soubemos que a coordenação nas pessoas das professoras Eliane, Tatiane e Gabriela e do professor Douglas trabalharam muito. A ideia era que as turmas se organizassem para cumprir tarefas, usando tecnologia aliada ao entrelaçar das disciplinas. Essas tarefas iam de criação de avatares individuais a adivinhar quem era o mestre mascarado. Numa semana anterior os professores pensaram e prepararam essas atividades. Claro tudo isso, com a orientação da coordenação.
O Desafio Virtual transcorreu, mas qual foi a surpresa? Os alunos se envolveram tanto que possibilitou, inclusive, a união da turma, além de motivar, trazer um alento para um processo rotineiro. Isso é tão verdadeiro que podemos observar no depoimento de professores e alunos. Trago a seguir esses depoimentos que enunciam dizeres de positividade de uma ideia que se configurou na renovação educacional no meio cenário desgastado.
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“Quando falaram da atividade, a primeira coisa que me veio na cabeça: ah! Vão fazer uma gincaninha! Talvez minha cabeça seja uma cabeça de “velho” e não fiz ideia que os alunos iriam receber tão bem. A intenção brilhante que a escola teve e os alunos captaram a sensibilidade da escola em quebrar isso de trabalho, trabalho e aula e aula. Os alunos compraram a ideia. Parabéns a coordenação por essa iniciativa louvável”. (Professor Roberto Paranhos)
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“Uma coisa que eu achei muito legal que a escola fez essa semana foi o Desafio Virtual, de certa forma, isso acabou unindo a nossa turma novamente, porque a gente acordava de manhã e ficava todo mundo conversando no grupo da turma. Esse está sendo um momento único, porque está marcando o nosso terceirão, mesmo com uma pandemia, esses são momentos que acabam marcando. Assim vou olhar para trás e vou lembrar que mesmo me meio a pandemia, eu tive amigos de verdade, que além de professores, eu tive pais (mães) que estavam ali para me escutar. O momento não deve ser apenas de tristeza. Os professores e alunos estão sobrecarregados, está sendo estressante para as duas partes, então o Desafio Virtual renovou as relações”. (Estudante Émerson Ryan Silva)
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“Nessa semana do Desafio Virtual nós revivemos o espírito de equipe da nossa turma que estava meio deserta, muitos alunos não ajudava mais nas atividades, não participavam mais das aulas e nessa semana acabaram interagindo bastante, muitos colaboraram para que tudo dessa certo. Antes da gincana, ninguém mais participava das aulas a gente até se sentia triste, porque pensar que falta pouco para o término e os colegas desmotivados e desistirem. O desafio de descobrir quem era o mestre eu acho que foi o dia mais difícil, porque muitos professores a gente não conhecia muito bem, aí a gente foi investigar nas redes sociais para desvendar. Foi muito divertido. Houve até uma discussão: “Não, mas é muito magro para ser o fulano”. “Não, mas é muito diferente.” (Estudante Luana Cenci)
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Boas ideias nascem de pessoas que querem motivar as outras. Pessoas com espírito de liderança, de empreendedorismo educacional transformam o ambiente em conhecimento instigante às outras pessoas. Renovar também significa destruir uma rotina cansativa e devolver ao processo uma luz permeia em cada ser, para que não se perca a alegria de ensinar, no mais profundo holocausto. A humanidade se cura com pensamentos que trazem soluções.
Nosso agradecimento, aplauso e reconhecimento a todos professores do Cecy que toparam participar dessa grande brincadeira que foi o #DesafioCecy. Obrigado pela dedicação, pelo empenho em fazer a foto, em buscar referências na sua área. Que nossas loucuras pela educação sejam sempre abençoadas.
EXPLICANDO
A gente pediu para os professores que quisessem, se disfarçassem. As turmas precisavam adivinhar quem era o mestre. Tudo isso dentro de uma semana de gincana virtual.
Acabou a eleição! Eleição sempre é um tempo onde são renovadas as ideias para melhor gerir e organizar as nossas cidades. Os vereadores e vereadoras cumprem papel de porta-vozes dos anseios e necessidades da comunidade. Os eleitos e eleitas agora nos representam.
As convenções partidárias aprovaram 352 candidatos e candidatas que disputaram 21 cadeiras de vereadores em nossa cidade.
A nova composição da Câmara de Vereadores de Passo Fundo, com 21 vereadores, pode ser analisada sob vários aspectos, que vão desde a representatividade dos eleitos, como a multiplicidade de partidos e ideologias que compõem o universo dos que foram eleitos (15 partidos elegeram representantes).
A renovação é um dos aspectos que podemos destacar. Dos atuais 21 vereadores, apenas 07 foram reeleitos.
Nesta matéria, destacaremos as trajetórias de 02 vereadores e 02 vereadoras eleitos/as vinculadas a bandeiras ou causas para seus mandatos. Alberi Grando, médico, defende a bandeira da Saúde e do SUS. Eva Valéria Lorenzato, agricultora e advogada, defende a representatividade das mulheres e a defesa da vida e dos direitos. Michel S. Oliveira defende as juventudes e vai pautar ações de afirmação e valorização dos jovens. Regina Costa dos Santos, professora municipal, defende as causas da educação pública, de qualidade social.
Conheçamos um ponto mais destes vereadores e vereadoras eleitos/as para a gestão 2021-2024 por eles mesmos/as.
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SITE NEIPIES: Vereador Alberi Grando, como avalia o pleito eleitoral de 2020?
Doutor Alberi: Com certeza, foi um pleito atípico. É a quinta vez que participo, e nunca tinha me sentido tão perdido para fazer um prognóstico. Uma certeza eu tinha, pois como médico, via o medo e a insegurança das pessoas, isso por culpa da pandemia. Todo mundo estava assustado. Pessoas que manifestavam o desejo de votar, depois voltavam atrás. Soma-se isso, o descontentamento da população com nossos políticos. Então, não foi difícil avaliar que teríamos muitas abstenções. Foram mais de 45.000 votantes que não compareceram, votaram em branco ou anularam o voto. Isso é mais dos que votaram no Prefeito eleito.
SITE NEIPIES: Como pretende trabalhar, na Câmara, as bandeiras e as causas defendidas na campanha eleitoral?
Doutor Alberi: Não é difícil defender minhas bandeiras. Minha principal bandeira, de maneira bem genérica, foi prometer uma atuação com ética e transparência, ouvindo as pessoas na atuação de fiscalização e elaboração de leis. A velha política é receber o voto e desaparecer. Não é sempre assim? Pois, proponho fazer diferente, como já fiz nas outras legislaturas em que participei. Ouvir as pessoas. Democracia não é governo do povo? Como o povo vai governar se você não ouve para saber o que ele, povo, quer em termos de gestão! Parece simples assim. E é simples mesmo. Ouvir. E traduzir isso nas tuas ações. Buscar se aproximar das pessoas, fazer pedidos de informações e de providências, que são prerrogativas únicas do vereador, marcar audiências públicas, enfim, dar voz a quem está pedindo. E um pedido já veio das urnas: muda isso!
Mas, quem sabe, sendo mais objetivo, posso dizer que uma bandeira que sempre defendi, e vou continuar defendendo, é a defesa do SUS, Sistema Único de Saúde. A montagem dessa lei, em 1990, foi perfeita. Mas agora, depois de 30 anos, já carece de algumas revisões. E, os Municípios, a quem cabe praticamente tudo na execução da política de saúde, tem que pressionar o Congresso Nacional, através das Câmaras de Vereadores, para fazer as devidas correções. Há que se discutir as diretrizes, como integralidade e participação da comunidade, além do financiamento, da forma de contratação dos profissionais, da competência de cada esfera de governo, a equidade, etc.
SITE NEIPIES: Qual a importância de implantarmos políticas públicas para elevar nossa qualidade de vida e a nossa cidadania?
Doutor Alberi: Quando se busca o cidadão, se conhece a realidade. Infelizmente, carecemos de educação e de cultura. Há justificativa para o progresso se a população se mantém nas trevas da ignorância? Penso que não. Há justificativa uns terem tanto e muitos terem pouco? Penso que não. Há justificativa para pessoas morrerem de fome quando produzimos alimentos suficientes para todos? Penso que não. É dever do Estado corrigir essas distorções. O investimento em emprego e renda, educação, esclarecer os direitos e deveres, é o caminho para a cidadania. Não se fala de tomar de quem tem, para dar para quem não tem, mas fazer políticas públicas com equidade. E, com base ideológica. Defendo o trabalhismo de Alberto Pasqualini.
SITE NEIPIES: Como seu mandato contribuirá para reverter a descrença na política?
Doutor Alberi: As pessoas tem toda a razão em descrer nos políticos. Quem detém o poder de criar leis, o faz em benefício próprio. Exemplos: porque não se impede legalmente a reeleição, se sabemos que a reeleição é a fábrica do político profissional? Não vejo uma só justificativa para um parlamentar, seja vereador, deputado, senador, ter a prerrogativa de se reeleger quantas vezes quiser. O argumento de que é um direito do cidadão conduzir novamente o seu político para o cargo, cai por terra quando vemos que essa recondução é feita através de compra de votos, doações e promessas inviáveis. Mais uma vez vimos isso nessas eleições, agora.
Depois do cumprimento de um mandato, ou quem sabe, até dois, o político deve voltar para sua profissão de origem, seja médico, agricultor, operário, professor ou outra. Mas, a lei permite a eternização na função de político. E é conveniente para o político, pois aprende como usufruir bem e mal do seu mandato. E, é de se pensar, porque o Congresso Nacional estabeleceu uma única reeleição para o Executivo mas não fez isso com o Parlamento?
Outra aberração são as tais de emendas parlamentares. Se destina uma enormidade de recursos para os parlamentares distribuírem para quem bem quiser. Mas, é função do parlamentar mexer com recursos financeiros? Não, parlamentar fiscaliza e faz leis! Mas, distribuir recursos forma o curral eleitoral, que é conveniente para a próxima reeleição.
Como meu mandato pode contribuir para as pessoas começarem a acreditar nos políticos? Como essas mudanças não são competências do Vereador, vou contribuir denunciando isso, como faço há muito tempo! E, certamente que agindo com ética, transparência e respeito pela diversidade de pensamento, tento ser um bom exemplo. Afinal, como um ente público, sou visto e copiado.
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SITE NEIPIES: Vereadora Eva Valéria Lorenzato, como avalia o pleito eleitoral de 2020?
Eva Valéria: O processo eleitoral desse ano foi um tanto atípico, em função da pandemia. Reduzimos muito o número de visitas e todas as que fizemos seguiram o protocolo de segurança, mantendo o distanciamento, usando máscara e álcool gel. Por outro lado, as redes sociais e as plataformas eletrônicas possibilitaram muitos encontros e levaram nossas propostas para diferentes pessoas que no modo físico possivelmente não conseguiríamos chegar.
De um modo geral, acredito que foi um bom pleito, de bastante aprendizado sobre o uso de novas ferramentas, de fortalecimento das ideias, de acolhida e de construção coletiva.
SITE NEIPIES: Como pretende trabalhar, na Câmara de Vereadores, as bandeiras e as causas defendidas em sua campanha eleitoral e que permitiram a sua eleição?
Eva Valéria: No período eleitoral, propus diversas bandeiras que seriam defendidas por mim, caso fosse eleita. Com a confiança do povo em meu nome, essas bandeiras serão os eixos de atuação que irão nortear o meu mandato como vereadora. São elas: apoio ao protagonismo das mulheres; fortalecimento da agricultura familiar; defesa da saúde e da educação pública; valorização da classe trabalhadora; Direitos Humanos para todas e todos; cuidado com o meio ambiente; cidade justa, democrática e sustentável.
Esses eixos são temas a partir dos quais iremos propor projetos e convidar a comunidade e as/os colegas do Legislativo para debater.
Vou trabalhar, entre outros projetos, pela qualificação e fortalecimento da Rede de Apoio e Proteção à Mulher Vítima de Violência; pela qualificação da mobilidade (estradas) no meio rural, incluindo pavimentação asfáltica e o acesso à comunicação (em especial internet); pela ampliação e fortalecimento da Estratégia da Saúde da Família com o máximo de cobertura na cidade e no meio rural; pela promoção da economia solidária, do micro empreendimento e das pequenas empresas; pela universalização de acesso à água potável e ampliação da rede de saneamento básico.
SITE NEIPIES: No seu entendimento, qual é a importância de implantarmos políticas públicas para elevar nossa qualidade de vida e a nossa cidadania?
Eva Valéria: As políticas públicas mediam as relações entre o Poder Público e a sociedade. É através delas que o município chega nas pessoas e impacta em diferentes áreas de sua vida, como a saúde, a educação, o emprego e renda.
É justamente por isso que as políticas públicas são fundamentais para o desenvolvimento de uma cidade mais justa e igualitária, especialmente quando são destinadas a atender as necessidades das comunidades que vivem em maior situação de vulnerabilidade. Uma política pública que dá incentivos à uma mãe chefe de família que precisa empreender para alimentar seus filhos, por exemplo, contribui para que aquela família tenha uma vida digna.
A tarefa das vereadoras e dos vereadores é atuar no planejamento e na criação de políticas públicas que melhorem as condições de vida da comunidade.
SITE NEIPIES: Como seu mandato parlamentar contribuirá para reverter a descrença na política, algo tão disseminado na nossa sociedade?
Eva Valéria: Eu acredito que a descrença na política não é algo natural, mas algo que vem sendo induzido, muitas vezes por quem está no poder, para que as pessoas deixem de ter interesse em aprender, participar e se envolver com a política e, consequentemente, não questionem o que os políticos fazem de certo ou de errado.
O propósito do meu mandato será estimular a participação popular e levar as pessoas para dentro da Câmara de Vereadores, para que juntos tenhamos força para encaminhar projetos de lei que beneficiem a população. Vamos apostar na ampliação das Leis de Iniciativa Popular, a exemplo da Lei do Passe Livre, que construímos em 2009 quando o Rui era vereador. Queremos que as pessoas se tornem protagonistas e atuantes nas decisões sobre as políticas públicas da cidade.
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SITE NEIPIES: Vereador Michel Oliveira, como avalia o pleito eleitoral de 2020?
Michel Oliveira: Eleição atípica, o contato com o eleitor teve que ser pensado de forma estratégica, marcado pela utilização da redes sociais e das mídias digitais. A legislação eleitoral formulou uma campanha equilibrada entre os candidatos, diminuição das propagandas de forma visual e sonora também, fazendo com que os candidatos criassem maneiras criativas de apresentas suas propostas e que as mesmas chegassem a seus eleitores. Quem soube trabalhar dessa forma inovadora, de forma produtiva, no meu ponto de vista teve êxito em seu pleito.
SITE NEIPIES: Como pretende trabalhar, na Câmara de Vereadores, as bandeiras e as causas defendidas em sua campanha eleitoral e que permitiram a sua eleição?
Michel Oliveira: Tenho como propósito respeitar e representar o povo passofundense, zelando sobre seus direitos e deveres, cumprir e fazer cumprir a Legislação Municipal, utilizando a política como ferramenta para promoção de cidadania, geração de oportunidades e transformação de vidas.
Principais bandeiras defendidas serão: Educação, Fomento ao Trabalho, Qualificação e Renda, Juventude, Movimentos Populares e Entidades Sociais.
Na Câmara de Vereadores, quero ser o porta-voz do povo passofundense perante o Legislativo e Executivo Municipal e órgãos públicos e, através das ações realizadas, criar mecanismos para solução de demandas, respeitando as diferenças, valorizando a vida e o ser humano, com dignidade e tratamento igual para todos.
SITE NEIPIES: No seu entendimento, qual é a importância de implantarmos políticas públicas para elevar nossa qualidade de vida e a nossa cidadania?
Michel Oliveira: As políticas públicas só tem efetividade quando se tornam políticas sociais e estas atingem as necessidades da nossa comunidade.
É importante termos consciência de que os projetos e ações devem ser discutidos diretamente com a comunidade e também com as entidades representativas. Precisamos estar atentos isso para de fato construir ações que irão atender as necessidades e os anseios da nossa comunidade. Eu particularmente Trabalho desta forma. Quero também trazer o entendimento de que as pessoas precisam deixar de ser habitantes de passo fundo e se tornarem cidadãos de fato, através da pratica dos seus direitos e deveres.
SITE NEIPIES: Como seu mandato parlamentar contribuirá para reverter a descrença na política, algo tão disseminado na nossa sociedade?
Michel Oliveira: Eu represento uma renovação jovem que possui conhecimento, trajetória e, principalmente, propostas de trabalho que se transformarão em projetos através da atuação como Vereador eleito. Serei efetivo nas ações, participativo na comunidade irei honrar o compromisso e a oportunidade que a comunidade me confiou com muito trabalho e dedicação na Câmara Municipal de Vereadores.
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SITE NEIPIES: Vereadora Regina, como avalia o pleito eleitoral de 2020?
Professora Regina: Avalio que o pleito eleitoral de 2020 foi muito diferente e desafiador.Diferente porque estamos vivendo um período excepcional com a pandemia do Covid 19 que assola o mundo, logo a campanha teve que ter muitos cuidados, responsabilidade e compromisso com a vida do(a) outro(a).
Segundo, porque fui candidata pela primeira vez, o que não foi fácil, pois já era difícil fazer campanha em situações normais, imaginem estrear em plena à uma pandemia.
Desafiador, pois fazer campanha com poucos recursos, sendo mulher, rompendo com os vícios da velha política. Apostamos em uma campanha coletiva, pedagógica, responsável e propositiva, o que nos manteve com esperança e nos levou a conquistar uma cadeira no legislativo e provamos que tínhamos capacidade coletiva de eleger uma mulher, uma professora, uma lutadora para dar voz.
A conquista desta cadeira na Câmara de Vereadores foi da Educação, mulheres, jovens, da classe trabalhadora, sobretudo dos professores e professoras. Fui eleita com 1904 votos, fiquei entre os vereadores(as) mais votados do pleito e fui a mulher mais votada da Câmara de Vereadores; sem dúvida essa eleição foi um marco histórico para Câmara de Vereadores de Passo Fundo.
SITE NEIPIES: Como pretende trabalhar, na Câmara de Vereadores, as bandeiras e as causas defendidas em sua campanha eleitoral e que permitiram a sua eleição?
Professora Regina: Nosso mandato estará a serviço dos(as) passofundenses. Nossa primeira ação será implementar o mandato coletivo e participativo, instituindo o Conselho do mandato da vereadora e o gabinete itinerante para ouvir e encaminhar as demandas da população.
No legislativo Municipal vamos lutar por um mandato que seja coletivo, transparente e propositivo em políticas públicas para melhorar a qualidade de vida de todas e todos.
SITE NEIPIES: No seu entendimento, qual é a importância de implantarmos políticas públicas para elevar nossa qualidade de vida e a nossa cidadania?
Professora Regina: É fundamental e urgente, como exemplo, políticas públicas de combate a violência contra mulher, nossa cidade está entre as mais violentas do Estado, a Câmara Municipal precisa olhar para essa triste realidade, assim como muitas outras demandas que precisam de respostas.
Entendo que o vereador(a) é o agente político mais próximo da comunidade e tem por obrigação ter um olhar diferenciado, onde a política pública só faz sentido quando responde a realidade. Mais do que sair inventado projetos mirabolantes, temos que olhar para as necessidades do nosso povo, fiscalizar a aplicação das leis que já existem e propor novas políticas públicas que venham a ressignificar o papel do legislativo municipal, que vai muito além de fazer homenagens, dar nomes para ruas…
SITE NEIPIES: Como seu mandato parlamentar contribuirá para reverter a descrença na política, algo tão disseminado na nossa sociedade?
Professora Regina: Na contramão dos velhos vícios da política, trabalhando muito, não fazendo conchavos, não apoiando projetos que venham a prejudicar a classe trabalhadora, fazendo um mandato que represente os anseios da população da nossa cidade, tendo como pilares a coletividade, a participação popular, a transparência e sendo um mandato propositivo.
Foto de capa: Comunicação Câmara de Vereadores de Passo Fundo
De acordo com nossa compreensão sobre o significado da existência humana, podemos buscar ser mais ou ter mais; ser mais individualistas ou mais solidários; promover a vida ou instigar a morte.
Nascemos suficientemente velhos para morrer e abundantemente novos para viver. Somos constituídos como seres de mil e uma possibilidades. Vivemos em contextos com um milhão de influências. Morremos todos os dias um pouco e uma vez como derradeira por milhões de motivos.
Esses números são apenas simbólicos; querem transmitir a ideia de que somos um mistério em andamento. E enquanto nos é permitido seguir andando conscientes, também nos é dada a oportunidade de refletir acerca do ser, da morte e da vida.
Nossa vida humana está atravessada por duas linhas existenciais que se orientam em sentido inversamente proporcional. Isso, ao menos, como grande possibilidade. Uma é a linha biológica; a outra é espiritual. Na perspectiva da primeira linha, nascemos carregados de vida e vamos, a cada dia que passa, subtraindo de seu saldo, até acabar de morrer. Na orientação da linha espiritual, nascemos habitados por um potencial incalculável de vida e podemos caminhar de tal modo até viver plenamente, eternamente, felizmente, conforme assegura a nossa fé.
A vida nunca se deixa inscrever e nem descrever de modo satisfatório. Ela sempre nos foge, nunca nos basta. Mesmo quando parecemos fartos de viver, a vida vai mais além. Ela não é só o que parece e também não é apenas o que desaparece. Embora envolta em mil dores ela quer viver. Ainda que rodeada por um milhão de amores, ela teme morrer.
Feitos à imagem e semelhança do Todo Poderoso, o Ser infinito de muitos nomes, somos constituídos com o desejo e a esperança de eternidade. Somos insaciáveis, insatisfeitos, inacabados, em processo. Buscamos sempre mais. De acordo com nossa compreensão sobre o significado da existência humana, podemos buscar ser mais ou ter mais; ser mais individualistas ou mais solidários; promover a vida ou instigar a morte.
Somos vocacionados para a vida. Não deixemos que a morte nos recolha de uma vida sem sentido. Não deixemos que outras forças nos retirem o sentido de uma existência verdadeiramente humana, solidária, comprometida com todas as formas de vida. A curva biológica da nossa existência é muito curta para ser pequena.
Façamos de nossa vida um instrumento de promoção da vida mais plena e feliz. Embora nas turbulências, caminhemos firmes e esperançosos, pois não estamos destinados ao nada. Embora nem sempre pareça, nossa vida tem futuro. O futuro de um porto muito mais seguro! Homenageemos os nossos entes queridos segundo nossas crenças e com nossos rituais na certeza de que, quem busca a vida, não morre jamais!
Autor:Dirceu Benincá, Doutor em Sociologia, pós-doutor em Educação e professor da Universidade Federal do Sul da Bahia.
SUGESTÕES PARA UMA ATIVIDADE PEDAGÓGICA
Esta atividade pode ser trabalhada com turmas do nono ano do Ensino Fundamental, seguindo orientações da Nova BNCC no Componente Curricular Ensino Religioso. Unidade temática: Crenças religiosas e filosofias de vida. Objeto de Conhecimento: Vida e morte. Habilidades: (EF09ER03) Identificar sentidos do viver e do morrer em diferentes tradições religiosas, através do estudo de mitos fundantes. (EF09ER03RS-01) Compreender o sentido de vida e morte em diferentes Tradições Religiosas.
Este conhecimento sobre Sentido de Vida e de morte pode ser também trabalhado no Ensino Médio, articulado com Projetos de Vida.
QUESTÕES PARA APROFUNDAR CONHECIMENTOS: (Elaboradas pelo professor Alex Rosset, professor de Ensino Religioso da rede municipal de Passo Fundo, RS)
O que o autor do texto quer transmitir com a seguinte metáfora: “Somos constituídos como seres de mil e uma possibilidades. Vivemos em contextos com um milhão de influências. Morremos todos os dias um pouco e uma vez como derradeira por milhões de motivos.”
Quais são as duas linhas existenciais que estamos passando no momento atual? Explique cada uma delas com suas palavras.
Com ajuda da leitura do texto e a observação da charge abaixo elabore quais devem ser nossas principais motivações para seguir acreditando que a vida vale a pena.
Na igreja ou denominação religiosa que você ou alguém da sua família participa, como se faz a relação da vida com a morte? Pesquise para apresentar em sala de aula.
Segundo o espírito de Ubuntu, as pessoas não devem buscar levar vantagem pessoal em detrimento do bem-estar do grupo. A felicidade de um não pode custar a infelicidade dos demais.
Ubuntu é uma filosofia de origem africana que expressa a consciência da relação entre o indivíduo e a comunidade. Trata-se de um conceito amplo sobre a essência do ser humano e a maneira como deve se comportar em sociedade.
Este conceito foi uma importante ferramenta na luta contra o regime Apartheid na África do Sul. Nelson Mandela inspirou-se nele para conduzir a política de reconciliação nacional, que uniu várias etnias em torno de um projeto que visava transformar aquele país num exemplo de superação de conflitos étnicos.
De acordo com o manifesto do movimento criado por Mandela em 1944, “o africano quer o universo como um todo orgânico que tende à harmonia e no qual as partes individuais existem somente como aspectos da unidade universal.”
De acordo com o arcebispo anglicano Desmond Tutu, autor de uma teologia ubuntu “a minha humanidade está inextricavelmente ligada à sua humanidade.” Em seu livro “No Future Without Forgiveness” (em português: “Sem perdão não há futuro”), Tutu explica: “Uma pessoa com Ubuntu está aberta e disponível para as outras, apoia as outras, não se sente ameaçada quando outras pessoas são capazes e boas, com base em uma autoconfiança que vem do conhecimento de que ele ou ela pertence a algo maior que é diminuído quando outras pessoas são humilhadas ou diminuídas, quando são torturadas ou oprimidas.” Tudo isso, porque, “uma pessoa é uma pessoa por intermédio de outras pessoas,” O ser humano solitário é uma contradição.
Diferente da lógica cartesiana que tem conduzido o Ocidente por séculos, em vez de “penso, logo existo”, a filosofia africana Ubuntu diz: “Existo porque pertenço.” Ubuntu, portanto, implica compaixão, comunhão e abertura de espírito ao outro, opondo-se ao narcisismo e ao individualismo tão predominante nas sociedades ocidentais.
A educadora sul-africana Dalene Swanson, professora da University of British Columbia, em Vancouver, Canadá, fala o seguinte a respeito do ubuntu:
“Diferentemente da filosofia ocidental derivada do racionalismo iluminista, o ubuntu não coloca o indivíduo no centro de uma concepção do ser humano. Este é todo o sentido do ubuntu e do humanismo africano. A pessoa só é humana por meio de sua pertença a um coletivo humano; a humanidade de uma pessoa é definida por meio de sua humanidade para com os outros: (…) o valor de sua humanidade está diretamente relacionado à forma como ela apoia ativamente a humanidade e a dignidade dos outros; a humanidade de uma pessoa é definida por seu compromisso ético com sua irmã e seu irmão.”
Há uma história que circula na internet atribuída a filosofa e jornalista Lia Diskin, que teria sido contada durante o Festival Mundial da Paz ocorrido em Florianópolis em 2006, e que exemplifica eloquentemente o sentido da filosofia Ubuntu:
“Um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta pra casa. Como tinha muito tempo ainda até o embarque, ele então propôs uma brincadeira para as crianças, que achou ser inofensiva. Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, botou tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí, ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse “já!”, elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro. As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse “Já!”, imediatamente, todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e os comerem felizes. O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou por que elas tinham ido todas juntas, se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: “Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?” Ele ficou pasmo. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo…”
Ubuntu Todos Os Dias, Ame Todos Os Dias! “Ubuntu” é uma palavra que representa uma filosofia e uma ética antiga africana que significa: “Sou quem sou, porque somos todos nós”. (Thiago Rodrigo)
Como é difícil para alguém acostumado ao espírito competitivo que rege as culturas consideradas mais avançadas do mundo, pelo menos do ponto de vista econômico, entender este tipo de comportamento baseado na cooperação, em que ninguém precisa perder para que outro ganhe. Segundo o espírito de Ubuntu, as pessoas não devem buscar levar vantagem pessoal em detrimento do bem-estar do grupo. A felicidade de um não pode custar a infelicidade dos demais. Para que uma pessoa seja plenamente feliz será preciso que todas do grupo se sintam igualmente felizes.
E não é isso que dizem as Escrituras? O apóstolo João afirma que nossa alegria só será completa num ambiente de comunhão, onde a alegria de um completa a alegria do outro. Ninguém é feliz sozinho. Por isso, Paulo não se incomodou em suplicar: “Completem a minha alegria, tendo o mesmo sentimento, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.”
Estamos conectados uns com os outros e essa relação estende-se aos que vieram antes de nós e aos que ainda hão de nascer. Fomos convidados por Jesus a tomar assento à mesa do reino de Deus, ao lado de Abraão, Isaque e Jacó e de toda a sua descendência espiritual. Formamos todos uma única família, a família humana, reconciliados com Deus e uns com os outros por meio de Seu Filho Jesus Cristo.
Vemos, então, que o legado que recebemos dos povos africanos vai muito além da música, da comida, das crenças, do folclore. Fomos agraciados com conceitos desta envergadura, capazes de demolir estruturas injustas como a do Apartheid.
Não é muito pensar que, na desigual sociedade brasileira, aos negros é dado o papel subalterno. “Isso precisa ser desconstruído”, defende Thula de Oliveira Pires, professora de direito constitucional da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).
A cor da pele marca as distâncias e a forma como o Estado lida com seus cidadãos e estabelece uma hierarquia racial. Mesmo que ascenda e ocupe espaços de privilégio e poder, como o Supremo Tribunal Federal, a mais alta Corte de Justiça do País, o negro é visto como exceção à regra e ponto fora da curva. Não é muito pensar que, na desigual sociedade brasileira, aos negros é dado o papel subalterno. “Isso precisa ser desconstruído”, defende Thula de Oliveira Pires, professora de direito constitucional da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Com mestrado e doutorado na área, e estudando a interface entre direito e racismo, Thula é mulher negra, criada em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, onde mora até hoje, mãe de Dandara, como assim se definiu em conversa com a reportagem da Radis, em junho. Para a pesquisadora, o racismo histórico brasileiro é uma questão de direitos humanos, e, enquanto esses não contemplarem as demandas e especificidades da população negra, servirão somente para poucos. Thula acredita que, para mudar esse quadro, é preciso pensar sobre como os códigos do racismo operam — e buscar estratégias eficazes para lidar com ele.
Em sua tese de doutorado você tratou da criminalização do racismo na Justiça. O que concluiu?
Temos dificuldade em pensar racismo institucional no Brasil dentro de uma perspectiva estrutural. Junto com alunos, levantei, de 1989 a 2011, todos os casos que envolviam questões raciais julgadas pelo Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro. O que vimos é uma vergonha. Os juízes não interpretam fatos explícitos de racismo como racismo. Algumas decisões são bizarras. Em um caso o juiz estava tão mal informado que não viu racismo no black face [maquiagem teatral na qual pessoas brancas são pintadas de negras para imitá-las de forma caricata], que marcou um dos maiores episódios de racismo dos Estados Unidos. Isso é ignorância e cinismo. Na decisão que condenou Rafael Braga [preso nas manifestações de junho de 2013 por portar uma garrafa de desinfetante e condenado a 11 anos e três meses de prisão], o juiz diz que próprio réu deu provas significativas de que estava envolvido e que apresentava “marcas” de crime. A imagem é evidente: o corpo do Rafael era a prova gritante do tráfico. Mas, no depoimento, Rafael negou o cometimento do crime. Então, como ele mesmo pode ser a prova cabal de que o crime aconteceu?
A marca é seu corpo negro?
Só dá para entender essa sentença usando um marca-texto na expressãozinha que fala dessa marca. É o corpo que está sendo usado como prova mais bem-acabada de tráfico de drogas. A pesquisa investigou a questão do racismo institucional e mostrou as entrelinhas dos processos. Um dos grandes problemas é que os juízes sequer se dão ao trabalho de argumentar, de explicitar ou não o racismo — o que não ocorre em casos envolvendo judeus, quando boa parte dos casos são considerados racismo e há uma argumentação tratando o caso. Não peço que um juiz faça uma tese sobre a questão racial, mas apenas que ele dê conta do que está no processo
Como você encara as acusações de que há “vitimismo” e “racismo reverso” nas ações do movimento negro?
A inserção do negro nos espaços sempre é vista como a conquista de alguém que honra por ser a exceção, por ser de primeira linha, por ter estudado em Paris. Mas o racismo nem sempre é explícito, então há um esforço para tentar demonstrá-lo. É daí que surgem as acusações de “vitimismo” ou “mimimi”. Quando a pessoa assume o discurso do racismo reverso, eu uso um raciocínio lógico dedutivo que desmonta seu argumento. Se alguém disser “me chamou de branquela e fui discriminada”, pergunto: no que chamar de “branquela” inviabilizou sua trajetória numa sociedade como a brasileira? Qual é o seu prejuízo por ser “branquelo”? Você perdeu a oportunidade de emprego ou de acesso a algo? Conotação de respeito? Não! Então fica mais fácil para a gente discutir.
Recentemente, o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal, se referiu ao ex-colega Joaquim Barbosa como “negro de primeira linha”. O episódio ilustra esta situação?
O episódio explicita a maneira pela qual o racismo também opera nos lugares privilegiados. A possibilidade de o negro estar num local de poder está condicionada a sua aproximação com o padrão branco e masculino. A fala do ministro denuncia muita coisa, mas nada traz de novo. E o pedido de desculpas também. É sempre “uma piada”, um “mal- -entendido”, um “eu não quis fazer assim” ou “eu queria ter aprendido a falar em outros termos, mas é o inconsciente”. Eu prefiro tratar a questão racial a partir das estruturas: não personalizo os episódios ou busco intenções particulares. Se há efeitos desproporcionais de violência, de não acesso e desrespeito em relação à população negra, há racismo. Pelas repercussões desse episódio, há caminho para alguma repactuação. O ministro não é algoz, apenas verbalizou a maneira pela qual os códigos do racismo operam no Brasil. É por isso que a intenção não importa. Nós temos que pensar como esses códigos operam para entender o mundo que herdamos e buscar ferramentas que sejam eficazes contra eles.
Há uma naturalização deste “mal-entendido”?
Não é confortável para ninguém se defrontar com imagens construídas a vida inteira. Uma pessoa comprometida com os direitos humanos só se dá conta do seu nível de racismo quando discute branquitude. E é natural que a primeira reação seja de resistência: “não é nada disso, eu sempre me coloquei ao lado de vocês”. É por isso que prefiro quando botam o capuz. E também entendo que num determinado momento não ter conversa é do jogo. Mas se existe alguma potência nesse estado de absoluto retrocesso que vivemos, é a de instaurar um conflito real. Acho que a população negra tem recursos escassos e vai continuar disputando permanentemente, porque sempre vai ter gente de fora. E enquanto tiver gente de fora, tem que ter disputa.
De que modo o racismo afeta a saúde da população negra?
O povo negro está adoecendo de tudo e o genocídio é a chave para entender essa situação. Genocídio não é só extermínio. Ele também se manifesta nas estruturas do Estado, no cárcere, na escola e no sistema público de saúde. O racismo acontece no sistema de saúde quando a pessoa não tem acesso, não é reconhecida como sujeito ou demora a receber atendimento — o que nem sempre está relacionado à enfermidade que carrega. Há um arquétipo sobre o corpo negro de que ele aguenta dor e é mais forte, e que pode ser atendido num segundo momento. A precarização do SUS também afeta a saúde. Ainda que os profissionais de saúde queiram oferecer o melhor tratamento possível, ele é inviabilizado devido às condições, medicamentos, falta de materiais e acesso às cirurgias que são necessárias.
Como é possível mudar esse cenário?
O racismo se reinventa e se readequa. Eu acho que a formação profissional é um momento em que é possível perceber como operam as estruturas do racismo. Não creio que ela consiga alterar o racismo nesses grupos, mas pode indicar que o exercício da função pública exige algumas condutas. Ainda que seja racista, o agente do Estado é obrigado, pelo menos, a obedecer à impessoalidade e à moralidade administrativa. Mas eu não tenho a esperança de que é possível sensibilizar essas pessoas para que um dia venham a olhar o outro de maneira não hierárquica. Por isso acho necessário investir na formação permanente como um todo, nas faculdades de Medicina e Enfermagem, nos cursos de técnico de Enfermagem, dos profissionais que atuam dentro do hospital.
A formação mais humanista daria conta de mudar essa concepção?
Esse humanismo hegemônico não nos humaniza. Só um outro humanismo que atribua humanidade a todos os corpos humanos. O pensamento pós-colonial e decolonial ajuda a entender esse novo humanismo. Entendo que a formação vai além do caminho instrumental do direito. Uma saída é fomentar modelos distintos de atuação do direito com modelos alternativos de justiça restaurativa, modelos autônomos de mediação de conflito, longe de um direito técnico-formal, institucional.
Você tem usado em artigos e palestras o conceito de “amefricanidade”. Você poderia explicar do que se trata?
Essa categoria político-cultural foi cunhada pela historiadora Lélia Gonzalez [1935/1994], uma das principais articuladoras do movimento negro. Ela quis pensar os reflexos do projeto colonial escravista sobre a vida de uma mulher negra no Brasil. Lélia entendia que, apesar das especificidades e de contextos que forjam diferenças entre populações afrodescendentes na América Latina, existe uma unidade marcada pela experiência da escravidão e que permite pensá-la em termos diaspóricos [deslocamento normalmente forçado ou incentivado]. É uma categoria que inclui a experiência ameríndia, mas que não pretende determinar tudo aconteceu com esta população. Lélia falava em primeira pessoa e não tinha a pretensão de falar em nome da mulher afroboliviana ou afroperuana, por exemplo. Eu vejo o pensamento de Lélia reverberando nos processos recentes de articulação e de ação política das mulheres.
Qual a contribuição que este conceito traz para o momento atual?
A de que temos que pensar em ferramentas que deem conta do que nós, mulheres negras brasileiras ou latinoamericanas, herdamos desse legado. Não temos que tentar adaptar uma solução pensada para outra realidade. Não dá para achar que na rubrica dos direitos humanos, por exemplo, será produzido algum resultado mais interessante. Se vamos falar sobre a violência obstétrica, temos de observar nossas especificidades. Não dá para ficar discutindo se a anestesia dificulta ou não o parto natural, se a nossa principal demanda talvez seja o acesso à anestesia. Não dá para continuar a sermos vistas como aquelas que aguentam dor. Temos que disputar e repactuar nos nossos termos.
Por que falar de direitos humanos em um contexto de desmonte de tantos direitos?
Esse momento é uma oportunidade política para a gente disputar um lugar. Nós sempre estivemos excluídos do acesso aos direitos. Agora, que a ameaça de corte é para muitos, é possível colocar os nossos termos à mesa para dar conta da nossa realidade. Creio que tem que haver uma repactuação ou os direitos humanos vão continuar disponíveis para poucos. No Brasil, os direitos humanos sempre foram tratados de maneira não racializada. Quando a realidade de pessoas negras emerge, somos obrigados a disputar categorias que determinam sua subalternização ou sua precariedade. Não creio que teremos uma organização política de massa se não permitirmos que a articulação pelos direitos envolva todos os que são diretamente afetados.
Qual o papel da comunicação na mudança deste cenário? Você vê algum impacto positivo no uso das novas tecnologias pelos movimentos sociais?
Acho esses movimentos impactam nos lugares onde se constituem. O corpo negro esteve sempre muito isolado. Sempre foi visto como um que fura o funil, e é difícil produzir uma articulação de fôlego sozinho, ou com poucos. Quando juntos, eles se fortalecem, conseguem se articular e se capacitar. A conversa fica maior. Em boa parte desses coletivos há um compromisso histórico das articulações negras no Brasil de unir teoria e prática. Mas não dá para saber o que podem atingir e até onde podem ir. Eu vejo que há uma geração em que alguns têm se articulado por vias tradicionais, e outros optam por formas mais alternativas, digo, autônomas. É essa pluralidade de articulação que vai produzir uma disputa política nova. A luta dos negros sempre foi imbricada e geralmente tem um compromisso que vai além da questão racial e de gênero. Há sempre uma luta contra o legado colonial escravista. São movimentos decoloniais, pós-coloniais. A comunicação pode reverberar outras possibilidades. Nessas experiências alternativas as próprias pessoas produzem e reproduzem suas narrativas. Só que essas experiências não aparecem ou aparecem de maneira deturpada e hierarquizada na mídia. É importante informar e trazer à luz essas experiências nos termos daqueles que as experimentam.
O que você prevê para o futuro?
Luta. Luta. Eu não tenho otimismo nas lutas internas do direito. Mas se eu não tivesse otimismo, eu estaria deprimida. Tem que ter algum grau de otimismo para manter a chama da luta acessa. A população preta não tem outra alternativa: ou luta ou sucumbe. O otimismo serve para levantar e botar a armadura antes de sair de casa. A saída é a luta, o conflito, a disputa. Não vejo outro caminho ou perspectiva.
Enfatizar o que dá certo significa deslocar o olhar do problema para a solução, e tentar encontrar nos exemplos de sucesso a força e a inspiração para transformar o que não funciona e superar nossos problemas.
O Brasil é um país extremamente desigual. Milhares de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza. Em pleno século XXI, ainda não superamos o racismo. Assistimos estarrecidos a crimes ambientais e à degradação da natureza. Há crianças sem acesso à escola e criminalidade descontrolada em grandes cidades. Minorias são desrespeitadas, mulheres são alvo fácil de discriminação e violência.
Nossa democracia é jovem, e muitas vezes parece que está em risco. Temos um sistema tributário complexo e instável, juros altos e uma burocracia enorme que atrapalha investimentos e dificulta a vida de quem quer empreender.
Vivemos em um país continental que consegue unir sua população com a mesma língua e com uma cultura rica que, mesmo em suas diferenças, nos faz sentir pertencentes à mesma nação. O Brasil tem o maior e mais inclusivo sistema de saúde pública do mundo, o SUS. Não há nenhuma experiência parecida num país com população semelhante à nossa. O sistema eleitoral brasileiro é mais ágil e seguro que o da maioria dos outros países.
Temos aqui algumas das empresas mais lucrativas, inovadoras e eficientes do planeta. Para ficar em apenas três exemplos: é daqui a Klabin, produtora e exportadora de papéis, empresa com menor custo mundial de produção, com projeto de manejo ambiental e proteção à fauna silvestre reconhecido internacionalmente. Temos a Marcopolo, maior fabricante de carrocerias para ônibus do mundo, que durante a pandemia criou um sistema inovador de desinfecção de veículos em tempo recorde. Temos a WEG, multinacional brasileira de equipamentos eletroeletrônicos, atuando em 36 países, mundialmente reconhecida por sua capacidade de inovação e lucratividade crescente e consistente.
Os dois parágrafos anteriores contêm informações verdadeiras. São duas formas de contar a mesma história. Podemos optar pela narrativa do sucesso ou do fracasso. Enfatizar o que dá certo não significa ignorarmos nossos pontos fracos, as injustiças sociais ou os problemas políticos e econômicos que enfrentamos. Significa deslocar o olhar do problema para a solução, e tentar encontrar nos exemplos de sucesso a força e a inspiração para transformar o que não funciona e superar nossos problemas.
A eleição municipal não deu muita chance aos imitadores de Bolsonaro. O truque da alma bolsonarista não funcionou mais.
Nunca antes o Brasil elegeu tantos picaretas quanto em 2018. Antes de serem fascistas, racistas, homofóbicos e ultraconservadores, eles são pilantras. Lula certa vez contou 300 picaretas no Congresso. Hoje devem ser mais, todos eleitos em 2018 em nome de algum apelo moralizante.
Os picaretas prometeram caçar bandidos, enquadrar corruptos e realizar exorcismos. Nada de novo. O Brasil sempre elegeu gente com arma, Bíblia ou relho na mão. Mas desta vez muitos nem sabiam fingir que sabiam fazer o que estavam prometendo. Nem a atirar, nem a exorcizar e nem a surrar com relhaços.
São apenas picaretas. São pilantras que pegaram carona no embalo de Bolsonaro e produziram o que certos cientistas passaram a chamar de ciclo bolsonarista.
Não há ciclo nenhum, ao contrário do que disse há poucos dias Rodrigo Maia. O presidente da Câmara, faceiro com os ventos que empurraram a sua direita fofa para prefeituras e Câmaras, acha que o ciclo que elegeu Bolsonaro está esgotado.
O que se esgotou foi o fenômeno circunstancial que produziu uma extrema direita capaz de obter votos na cacunda de Bolsonaro. Mas isso não é ciclo nenhum.
Não há ciclo político que se encerre em apenas dois anos, nem em grêmio estudantil. Não há nenhum fenômeno de massa que possa ter sido atribuído ao que se chama de bolsonarismo.
O que pode ter chegado ao fim, com o fracasso de Bolsonaro e dos candidatos de extrema direita na eleição municipal, é o espaço para a ostentação de ignorâncias, mais do que para ideologias. Os enganadores, que se elegeram com facilidade em 2018, já não funcionam mais nem como cacarecos. Bateu a exaustão.
Antes dos picaretas de extrema direita de Bolsonaro, a desinformação, o medo e a manipulação se misturavam a outras formas de dominação pela ação de coronéis, de donos de pequenos currais e de especialistas em criar ilusões moralistas. Eram os picaretas paroquiais do tempo de Lula.
O novo picareta da eleição de 2018 sentiu que havia um caminho aberto por Bolsonaro para que se transformassem em figuras nacionais. Muitos se elegeram governadores (alguns com adesão encabulada), senadores e deputados.
A eleição municipal não deu muita chance aos imitadores de Bolsonaro. O truque da alma bolsonarista não funcionou mais. Mas há um cenário preocupante para 2022, em meio à eleição de mulheres e negras de esquerda.
É a possibilidade de ampliação do espaço do que seria o centro de Rodrigo Maia, com a ressurreição do espírito do PFL. A estratégia deles já havia funcionado com algum sucesso em 2018, foi aperfeiçoada em 2020 e deve vir com força em 2022.
Se as esquerdas não souberem reagir, os governos e o Congresso serão transformados em latifúndios dessa gente, que tem o suporte financeiro de milionários e famosos. Sai o picareta criado por Bolsonaro e vem aí a multiplicação de figuras tipo Tabata Amaral.
Desde crianças aprendemos o poder revolucionário do cuidado. Ao ouvirmos o termo cuidado, paramos, repensamos, voltamos atrás, evitamos ir ou, dependendo da situação, saímos em disparada. Ele nos alerta sobre a importância e/ou necessidade de mudar de atitude.
A expressão cuidado é polissêmica, ou seja, carregada de variados significados. Se, por um lado, nos indica um quadro de risco ou perigo, por outro pode retratar práticas e comportamentos de zelo consigo, com os outros e com o meio ambiente no qual nos inserimos.
Eis que de repente, não mais que de repente, um vírus oriundo provavelmente do morcego chega e nos diz: ‘Atenção galera mundial, estou aqui’. E agora, José, Maria, fulano, beltrano e sicrano? O que fazer de modo urgente e amplamente eficiente? O vírus responde: ‘Se não forem prudentes e não usarem os cuidados necessários, faremos uma boa parceria!’ Diálogo inusitado e incômodo que nos obriga a pensar no modo de vida que a sociedade capitalista, consumista, individualista, insensível, odiosa, intoleranteeinsustentável adotou.
Chegamos assim a esta situação limite e a outros limites. O PlanetaTerra está a cada ano entrando mais cedo em déficit com sua capacidade de suportabilidade por conta das interferências humanas. De acordo com a Global Footprint Network, em 2019 o planeta atingiu o esgotamento de recursos naturais que poderiam ser renovados sem custo ao ambiente mais cedo da história, ou seja, em 29 de julho. Em situações limites – sejam pessoais, coletivas ou planetárias (como é o caso) – percebemos quão frágil é nossa vida.
Vemos agora com mais clareza o quanto dependemos uns dos outros e como “tudo está interligado como se fossemos um”!
Enquanto estamos confinados em nossas casas pela ditadura virulenta, temos a oportunidade de refletir sobre o rumo da história humana. A propósito, por esses dias alguém pôs em circulação nas redes sociais uma declaração emblemática: “O mundo ficou doente por causa da baixa humanidade”.
Dias depois um morador em situação de rua no Reino Unido ilustrou a afirmação: “Esse vírus não me preocupa porque ninguém precisa de mim mesmo”. Sociedade, a nossa, que adoeceu também pela sua baixa sustentabilidade.
Agora, além das medidas rigorosas no sentido de cuidar da saúde pessoal e coletiva, é hora de pensar concretamente maneiras de criar um mundo novo, possível e necessário. Isso significa: novas relações sociais, outro sistema econômico, outra forma de produzir, de consumir e de tratar os resíduos. Outra maneira de ver a vida, o meio ambiente e nossa relação com o transcendente. Enfim, fazer “novas todas as coisas”, tal como Joãoouviu do eterno e proferiu no Apocalipse(Ap 21, 5).
Novas relaçõessociais baseadas no respeito ao diferente, na tolerância, no amor ao próximo, na valorização do ser, do saber e do fazer dos outros. Novo sistema econômico, baseado na solidariedade, na justiça distributiva, na equidade, na diminuição das extremas desigualdades de renda e riqueza, no fortalecimento das estruturas de promoção e cuidado da saúde. Nova forma de produzir, com base na agroecologia, na agricultura familiar, orgânica, sintrópica e biodiversa. Nova forma de consumir, evitando o consumismo e priorizando a segurança e a soberania alimentar, etc.
O recado que o vírus nos traz aponta para a necessidade de cuidarmos da CasaComum assim como estamos sendo orientados e obrigados a cuidar (limpar) a nossa própria morada. Porém, não podemos esquecer que muitos não têm casa, nem água, nem cama, nem comida, e até vivem dos/nos lixões. Seres também constituídos de dignidade, mas sem os direitos fundamentais garantidos. Contra esses excluídos, alguns seguem achando que eles não têm direitos porque não os merecem. Todavia, essa forma de pensar não ajuda em nada a mudar a situação da Casa Comum e de seus habitantes.
Associo-me a Eduardo Galeano, que defendeu o direito ao delírio, em texto publicado por ele com esse título na virada do milênio. Entre outros belos delírios/desejos, afirma: “O mundo já não se encontrará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza… e cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro”.
Tal como o sonho não pode ignorar a realidade, não podemos deixar de aprender com as lições extremamente duras e doloridas trazidas pelo coronavírus. É hora de mudar. Depois poderá ser tarde demais. Adiante, pois, com o cuidado coletivo. Ele é revolucionário!
“Desconhecemos sua realidade e não queremos mexer na raiz dos nossos problemas: a nossa forma de organizar o mundo. É muito forte entre a gente a ideia de que pobres são coitados, por isso desprovidos de sorte e de bens. Se não lutam, são preguiçosos. Se lutam e exigem mudanças tornam-se perigosos. Mesmo quando passam fome, insistimos em dizer que eles ainda deveriam ser capazes de sonhar”. (Nei Alberto Pies) Veja mais aqui.
Nenhum argumento justifica a violência, pois ela inviabiliza qualquer possibilidade de reavaliação dos rumos escolhidos. A guerra me causa indignação. A paz me apaixona.
Sou daqueles que acreditam que são as forças opostas que impulsionam a roda d’água do universo. Para mim, continuar vivo é manter verde a árvore do apaixonar-se e ter sempre uma brasa de indignação faiscando. Em outras palavras, cultivar o amor e a repulsa, para não usar a palavra ódio, forte demais para nosso imaginário.
Quem não se apaixona nem sente indignação está morto, ou é medíocre, que é uma forma de estar morto sem passar pelos ritos necessários. O medíocre, fingindo conformidade com o curso das coisas, engana a si mesmo e aos outros. É fácil descobri-lo. É aquela pessoa que, mesmo ante a guerra, proclama o inconsistente mote “faz parte”. Como se fôssemos condenados a um destino inexorável, ditado por algum exótico poder a-histórico.
Além do medíocre, existe também outro tipo de morto-vivo. Chamarei de alienado. É aquele que, embora tenha paixão e indignação, é por causa ou personagem alheios, tomados como seus por falta de coragem, ou para comungar da aparente grandeza dos arautos. O tipo alienado sustenta seu discurso no discurso dos outros.
“Você viu o que o fulano falou?”; “A Revista X defende…”; “A moça do telejornal anunciou…”. Como se o nome de alguém ou de algo, por si só, avalizasse verdades absolutas para todos os cérebros.
Pergunte a alguém sua opinião sobre a violência. Será muito fácil distinguir as pessoas vivas. Há muitas por aí apaixonadas e outras tantas indignadas. Há, também, as medíocres, embora em menor número. A violência é uma situação-limite. Nela, o amor e a indignação podem ser admirados na transparência de suas contraditórias forças.
Na guerra, a vida é a juíza da história, pois fundadora de todas as escolhas, condição sine qua non para todo argumento. Sob seu olhar, como quando ingerimos um líquido contrastivo para radiografias viscerais, podemos enxergar as pessoas de grandes causas e diferenciá-las das medíocres e das alienadas.
Nenhum argumento justifica a violência, pois ela inviabiliza qualquer possibilidade de reavaliação dos rumos escolhidos. A guerra me causa indignação. A paz me apaixona.
Não digam que fiz uma opção por algum povo, por alguma personagem ou por um sistema político-econômico.
Minha declaração também não é mostra de altruísmo nem de grandeza de espírito. Sou é muito egoísta. Só estou defendendo aqui minha vida, com ideias, unhas e dentes, sendo “unhas e dentes” apenas força de expressão.
Quero amanhã de manhã, e nas manhãs que se seguirem, poder estar vivo para apaixonar-me pelas estrelas e indignar-me com as péssimas músicas que fazem sucesso, coisas triviais. Como sei que vou morrer de qualquer jeito, pretendo que seja por causa natural. Causa natural eu chamo aquela que nos incendeia em profunda indignação, contra a qual não há nada a ser feito pelos seres humanos. O que não é, absolutamente, o caso da violência, ou da guerra, sua forma mais infame.
Há urgência em tomarmos atitudes eficazes no combate e na denúncia de qualquer forma de preconceito, sobretudo essa forma que mata negros, de modo banal, como se descartam coisas inúteis.
“Me ajuda, Milena”, foi a última vez que a mulher ouviu a voz suplicante do marido, massacrado no mercado Carrefour, aqui em Porto Alegre. Ontem, dia 19 de novembro de 2020, ao ir às compras, por algum desentendimento, João Alberto foi dominado, espancado e morto, no estacionamento do mercado.
A razão furiosa dos seguranças demonstrou o preconceito, o racismo, a intolerância e a discriminação presentes nessas mentalidades, a serviço da razão branca, dominadora. As lágrimas silenciosas que corriam pela face da mulher nos tocam como sensibilidade e como senso de justiça. Chega desse aparato de igualdade e liberdade para todos.
Temos que fazer cessar o ódio e o racismo, que já sabemos estrutural. Não precisamos mais de explicações de especialistas, nem de estatísticas que mostram os números das desigualdades racial e econômica. Precisamos acabar com as mortes pela decisão dos que se acham superiores, por serem brancos e ricos, ou a serviço deles.
Há urgência em tomarmos atitudes eficazes no combate e na denúncia de qualquer forma de preconceito, sobretudo essa forma que mata negros, de modo banal, como se descartam coisas inúteis.
Esse Brasil de todos nós, mais uma vez vai à cena pública como retrato de vergonha e de discriminação racial. Um país multirracial, caminha perdido em seus rancores, facilitando as ações violentas, estimuladas pelos discursos de ódio e de exclusão.
Ao ouvirmos expressões de que negros são preguiçosos ou medidos em arroubas, temos a exata dimensão de uma razão discriminatória, abusiva, covarde e cruel, própria de inteligências medíocres e opressoras.
As empresas, preocupadas com seu patrimônio, contratam seus guardas e seguranças e os orientam para estarem atentos a qualquer atitude suspeita.
Quem desperta maior cuidado, ao entrar em qualquer estabelecimento comercial? O negro ou o branco? Já sabemos a resposta, porque temos consciência de que a sociedade branca quer garantir sua supremacia e evitar os possíveis prejuízos, que os negros possam produzir. Então, os brancos podem ir às compras e voltarem sossegados para suas casas. Já os negros precisam tomar cuidado, para não despertarem a atenção dos guardas, a serviço de seus senhores. Esse cuidado deve estar nas roupas, nos gestos e até mesmo nas falas, pois, do contrário serão seguidos pelos que vigiam o patrimônio e a ordem.
E assim foi ontem no interior do Carrefour. João Alberto foi retirado do interior do mercado e arrastado para o massacre. A barbárie foi filmada e noticiada. Não há dúvidas, a intenção foi de extermínio. Afinal, era mais um negro perturbando a ordem e o patrimônio. As vozes que pediam para cessarem as agressões, não foram ouvidas.
Os seguranças estavam envolvidos no rito da morte. Precisavam mostrar eficiência. O pedido de ajuda, feito à sua mulher não pode ser atendido. Ela nem conseguiu chegar junto a seu corpo, preso pelas mãos ferozes dos seguranças, que já haviam decretado o fim de sua vida. Ele não deveria viver. A morte lhe fora destinada pela vontade da razão branca.
Milena e João Alberto não voltaram juntos para casa, como pretendiam. Ficou um corpo no estacionamento, expressão de uma razão covarde, fruto de um poder vil, discriminatório, bárbaro. E essa cena de morte foi na véspera do Dia da Consciência Negra.