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Vitória da luta: Ministério da Saúde antecipa vacina para trabalhadores da educação

Após intensa pressão da categoria em todo o país, os trabalhadores(as) da educação – incluindo professores(as) e funcionários(as) – poderão se vacinar a partir da próxima remessa de imunizantes.

A notícia foi veiculada pelo Estadão na quinta-feira (27), com base em relato da governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT). Já nesta sexta, o Ministério da Saúde publicou uma nota técnica confirmando a informação.

O porcentual disponível dependerá do quantitativo de vacinas entregues. A luta dos educadores(as) também levou governadores a pressionarem o governo federal pela mudança no Plano Nacional de Imunização.

No Rio Grande do Sul, diante da imobilidade do governo Leite (PSDB), a ação judicial do CPERS pela manutenção das aulas remotas originou um processo de mediação no Judiciário, forçando o governador a se movimentar em defesa da vacina .

Estão no PNI profissionais do Ensino Básico, creche, pré-escola, Ensino Fundamental, Ensino Médio, ensino profissionalizante, EJA (jovens adultos), Ensino Superior público e privado.

Desde o início da vacinação, o CPERS defende prioridade aos educadores(as) e a definição de um calendário de imunização, considerando as condições precárias das escolas da rede estadual e o descaso do Estado com a segurança sanitária da comunidade escolar.

O Sindicato continua na luta pela suspensão das aulas presenciais neste momento dramático da pandemia, testagem, mais recursos, EPIs decentes e manutenção das aulas remotas.

Autor: CPERS Sindicato

Edição: Alex Rosset

O genocídio e o saber

Reacionários que hoje estão próximos da extrema direita amam romanticamente os professores da sua infância. Mas detestam os professores do século 21 e suas demandas por condições de trabalho, respeito, equipamentos e vencimentos dignos.

Uma retórica cínica, que se repete em poemas, crônicas, discursos, memórias e relatos de todo tipo, exalta o professor como herói, desde que seja resignado e passivo.

Em quase todas as narrativas, nesses casos, o professor é um herói particular, da memória afetiva de alguém, com suas singularidades e seus afetos. E essa exaltação do mestre conformado é uma farsa.

Porque esse professor herói quase não existe nesses relatos como figura crítica, de ação, de fala e de bravuras coletivas, no contexto em que atua, com as dificuldades que enfrenta.

Sempre foi assim. Reacionários que hoje estão próximos da extrema direita amam romanticamente os professores da sua infância. Mas detestam os professores do século 21 e suas demandas por condições de trabalho, respeito, equipamentos e vencimentos dignos.

A pandemia só exacerbou esse conflito. Querem, a todo custo, que o professor-herói volte a trabalhar em aulas presenciais, mas sem o direito preferencial de ser vacinado.

Vacinaram os professores, em grupos prioritários, na maioria dos Estados americanos e em muitos países da Europa. Também vacinaram os mestres nos primeiros grupos preferenciais no Uruguai.

O Chile começou a vacinação de professores em fevereiro. Os professores estão sendo vacinados em São Paulo e na Bahia.

Mas na maior parte do Brasil querem apenas que os professores voltem a dar aulas presenciais. Porque os governadores não definiram prioridades com um mínimo de racionalidade, não compraram vacinas (como muitos ameaçaram fazer, apenas como blefe) e porque há pais exigindo os filhos nas escolas.

A Unesco fez um apelo, no final do ano passado, para que os professores fossem parte dos grupos prioritários. ONGs, sindicatos, entidades ligadas à educação, pais e avós de estudantes querem ver os professores de volta às salas de aula. Mas desde que vacinados.

Sabe-se que os próprios professores, estressados pelas demandas e dificuldades das aulas remotas, que exigem muito mais paciência e controle quase absoluto de equipamentos, métodos e tecnologias, querem retornar às aulas presenciais. Desde que vacinados.

O mundo está há mais de um ano numa situação esdrúxula em que muitos adolescentes, mais do que as crianças, fingem que estão estudando. No Brasil e em qualquer parte.

Os professores sabem disso. Os especialistas em educação acompanham tudo e também sabem. Um ano, para uma criança ou um jovem em aprendizado intenso e permanente, é uma década para um adulto.

Milhões de crianças em todo o mundo tiveram um aprendizado precário nesse período. Porque estão fora das aulas presenciais. Por falta de vacinas.

Enquanto não há imunizantes para os professores, o Brasil chega ao acinte do debate sobre a possibilidade de vacinação de jogadores de futebol. Porque eles se abraçam a cada gol. Empresários não desistem de furar a fila. Policiais conseguiram, em muitos Estados, a vacina que os professores não têm.

A pandemia escancarou verdades antes insinuadas ou sugeridas. Para o contingente terraplanista, negacionista ou simplesmente reacionário, a educação é um estorvo, principalmente a educação pública, e a educação do setor privado passou a ser apenas um negócio.

É mais do que aderir à estratégia deliberada do governo Bolsonaro de aniquilamento da educação, do ensino básico à universidade. É uma prática generalizada de depreciação cotidiana do ensino, em todos os níveis, em todas as esferas do poder executivo, de Brasília e dos Estados aos municípios.

O professor sem vacina é, entre todos os profissionais de atividades essenciais, aquele que o setor público considera menos essencial. É ele quem encaminha a formação do filho de quem o deprecia.

Mas o ultraconservador não está tão preocupado como parece com o aprendizado dos filhos. Ele quer guerra contra quem considera inimigo. E o saber é o adversário que o confronta com seus preconceitos e suas ignorâncias.

Para governantes e para muitos pais, o professor já não tem mesmo quase nada do que deveria ter, por direito e por merecimento, e por isso pode ficar sem vacina. O genocídio é um projeto que subjuga pelo alheamento e pela destruição de vidas. E que só estará completo se também destruir o saber.

FONTE: Esta reflexão foi originalmente publicada em : https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2021/04/o-genocidio-e-o-saber/

Deveríamos, neste momento histórico, ressignificar o sentido e o papel da escola na perspectiva humanizante, onde a centralidade da mesma seja a construção permanente de conhecimentos, envolvendo os sujeitos aprendentes: professores e estudantes. Uma escola onde a socialização seja uma dimensão que se incorpora às práticas educativas, de forma permanente, de maneira intencionada e valorizada pedagogicamente. Leia mais!

Autor: Moisés Mendes

Edição: Alex Rosset

Diferente: respeitar ou caçoar?

O diferente não deve ser encarado como algo pejorativo, principalmente, na linguagem. O diferente deve ser encarado como algo que traz a alma, a riqueza popular através da língua.

A língua ao longo da história foi usada como ferramenta para excluir e para dar prestígio e continua sendo um mecanismo que permite refletir os aspectos linguísticos na sociedade e como eles são encarados. Fazemos uma distinção entre língua e linguagem para sermos fiéis aos estudos linguísticos.

Dessa forma, trataremos de LÍNGUA quando fazemos referência ao código linguístico convencionado por uma comunidade de falantes, ou seja, sistema de representação e de LINGUAGEM quando nos referimos à língua em uso, ou seja, a efetivação da língua, quando colocamos o sistema em prática através de arranjos individuais[1]. Ou podemos tratar a linguagem como atividade humana que resulta em experiências significativas na e pela linguagem.

Nos estudos linguísticos, encontramos ancoragem para a discussão que trazemos. A Sociolinguística entende que a efetivação da língua se dá através de variações linguísticas, pois não há como estabelecer um padrão único, porém essas variantes que resultam de privação de acesso à escolarização, gênero, faixa etária e regionalismo, que podem causar estranhamento por partes de alguns falantes que elegem como padrão uma variante linguística, inclusive acarretando na discriminação.

Assim, SANTANA, 2018, p.39[2], afirma que esses falantes e ouvintes têm na sua perspectiva e visão de mundo a base para os julgamentos e usos que fazem em relação às variantes linguísticas. Esse autor que citei anteriormente é meu amigo e é com ele que travamos diversas discussões sobre linguagem.

Em se tratando em linguagem, o que incomoda é o diferente, como bem fala meu amigo, Wenderson Phelipe da Silva Santana, brasileiro, linguista, Programador de Linguagem da Google na Inglaterra: “Qualquer pessoa que sai do seu ambiente, da sua comunidade de prática da língua e entra numa outra diferente, vai sofrer o preconceito por ser diferente”. Isso é tão verdadeiro porque se olharmos ao redor teremos fatos relacionados a isso para contar.

Ele enfatiza mais, dizendo: “Mesmo a pessoa que migra de uma região que usa uma variante considerada padrão da língua, ela também vai sofrer se ela for para um lugar diferente daquele”.  Nessa declaração podemos perceber como a linguagem é em diferentes contextos passível de discriminação.

SANTANA, como grande estudioso e conhecedor da linguagem que tem se dedicado ao trabalho com a linguagem, traz um exemplo: “uma pessoa que sai de uma cidade grande, São Paulo, e vai para o interior do Rio Grande do Sul. Essa pessoa  nasceu e cresceu lá, mas por motivos familiares veio para  Marau, por exemplo, cidade que predomina a colonização italiana, ela também sofre por falar leiti quenti e pensar que essa forma é “a mais padrão do português do Brasil”.

O exemplo que Santana nos traz é o que chamamos na Sociolinguística de juízo de valor social distinto que os falantes fazem do seu próprio comportamento linguístico e sobre o dos outros. E esse comportamento pode acarretar numa discriminação linguística.  SANTANA,  argumenta a respeito disso: “se você olhar na TV, é imposta uma variante tida como a forma padrão aceita no país, considerando outras variantes como pejorativas. E no exemplo acima, mesmo a pessoa que tinha no seu vernáculo essa forma mais prestigiosa, saiu daquele lugar, ainda assim, foi caçoada porque era diferente”.

Nós, que estudamos a língua, sabemos que não há padrão e que na língua em uso teremos muitas variantes e elas devem ser aceitas e respeitadas, porém, infelizmente, a linguagem serve para provocar muitas humilhações.

Eu mesmo quando saí da comunidade do interior e comecei meus estudos com muita dificuldade na Escola Estadual São José de Constantina, enfrentei na pele isso por falar mio, foia, fumo e vortemo. Isso é tão traumático para um adolescente que a cada dia brotava dentro de mim a vontade de estudar muito para alcançar uma “fala correta”.  É claro que o próprio estudo em minha vida fez com que eu entendesse muito mais das variações linguísticas percebendo que o meu falar era apenas uma variante da língua portuguesa, marcando a identidade de uma comunidade retirada de tudo, inclusive privado de acesso economicamente. 

Na minha dissertação de mestrado fui orientado pela banca para clarear o termo “fala correta”, porque hoje também como estudioso da língua sei que isso não existe, que todas as variantes devem ser respeitadas.

Sabemos que na língua há duas relações principais que são estabelecidas: falante-língua e falante-outro. A relação falante-língua constitui-se dos dizeres dos outros na experiência significativa na e pela linguagem que, neste caso poderá ser positiva ou traumática, com isso, o falante vivencia e se constitui enquanto sujeito por essa experiência.

Na relação falante-outro remete a inter-relação de um eu e um tu, condição essencial para que a língua se efetive numa atmosfera linguística. Esse tu trazemos aqui como outro, que sem ele não há possibilidade de efetivação da língua, que resulta dessa relação significativa do falante-outro que fala/emite/ouve/percebe. E é nessa relação que poderá surgir o preconceito linguístico.

No caso de um menino que nasceu no interior, de uma comunidade pobre, num lugar onde as dificuldades financeiras imperavam, a sua variante linguística, por certo, não será de “prestígio” ao sair deste ambiente e migrar para uma escola maior, sofrerá retaliações por ser um falar diferente, porque como diz meu Santana, “o que incomoda é o diferente”, e ele vai querer abortar sua variante para não vivenciar essa experiência traumática na e pela linguagem.

No mês de junho, tradicionalmente, as escolas enfatizam nas comemorações juninas a linguagem caipira e acabam por produzir o preconceito de uma variante linguística tida como desprestigiada, faz-se chacotas de um falar existente encontrado nas comunidades retiradas, como se esses falantes não dominassem o “vernáculo padrão”.

No mês de junho, escolas e alunos reúnem-se para fazer apresentações para a comunidade escolar. Realizam-se apresentações como teatros e danças “típicas”. Se olharmos pelo lado da expressão corporal, até isso colaborará para o desenvolvimento intelectual, corporal e linguístico. Agora se pergunta: como são feitas estas expressões? A que se refere à vestimenta? A vestimenta é tipicamente remendada, rasgada e “fora de moda”. Na cabeça usa-se um chapéu grande, e, na maioria das vezes, rasgado. Leia mais!

O agravante dessas “comemorações” está na brincadeira discriminatória da linguagem, porém o que mais impressiona que isso tudo é associado a uma vestimenta rasgada, remendada, chapéu de palha, que incentiva o preconceito de uma classe social que está à margem da sociedade sem acesso digno.

São essas pessoas que produzem o alimento na agricultura familiar e são tidas como motivo para risos. E por que se pinta o dente para dizer que está cariado? Essas atitudes deveriam ser banidas, principalmente, das escolas, onde são tidas como lugar para respeitar e acolher os diferentes, acabam enfatizando a distinção entre seres sociais. Os dentes cariados representam um constitutivo da linguagem preconceituosa usada, pois está a prova que muitas pessoas não têm o mínimo direito numa sociedade desigual, enquanto uns colocam lentes de porcelanas, muitos trabalhadores tisnados do sol, perdem seus dentes por não ter acesso ao básico para sua saúde.

As escolas deveriam enfatizar nas danças, nas quadrilhas regionais e banir este “estilo”, “mania” de deboche advindo da linguagem e que traz um conjunto de discriminação sociolinguística.

Portanto, a linguagem não pode servir como pretexto para excluir. Não podemos admitir que o diferente linguístico sofra discriminação, tendo a linguagem como veículo do preconceito linguístico. Essa relação falante-língua, falante-outro tem de resultar uma experiência significativa do ponto de vista positivo na e pela linguagem, pois os falares  representam a cultura de um povo, as variantes linguísticas trazem um histórico que devem ser respeitadas.

O diferente não deve ser encarado como algo pejorativo, principalmente, na linguagem. O diferente deve ser encarado como algo que traz a alma, a riqueza popular através da língua.

Referências Bibliográficas

DIEDRICH, Marlete Sandra. Aquisição da linguagem: o aspecto vocal da enunciação na experiência da criança na linguagem. 2015. 148f. Tese (Doutorado em Estudos da Linguagem) – Programa de Pós-graduação em Letras, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.

______. A criança e sua relação com a interdição: a mobilização de arranjos discursivos particulares. Revista Desenredo, 2018, Passo Fundo, v. 14, n. 3.

______. O poético que se instaura no vocal: a experiência da criança na linguagem. Revista Desenredo, 2020, Passo Fundo, v.16, n. 1, p. 114-126, jan./abr. 2020.

SANTANA, Wenderson Phelipe da Silva. Variação de gênero gramatical
como indexador de identidade gay. Dissertação de Mestrado, Orientadora Edair Maria Gorsky. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2018.

[1] Conceito usado pela linguista da Universidade de Passo Fundo, Professora Dra. Marlete Sandra Diedrich

[2] Citação tirada da Dissertação de Mestrado Variação de gênero gramatical
como indexador de identidade gay. SANTANA, 2018, p.39.

Autor: Laércio Fernandes dos Santos

Edição: Alex Rosset

Imunizar a educação é o caminho!

O grande consenso da importância da educação e do prejuízo que vivem nossos estudantes não pode resultar em volta às aulas presenciais sem segurança.

Leite não se dispõe a desobedecer ao Plano Nacional da Vacinação para imunizar trabalhadores e trabalhadoras da educação, mas determina que esses arrisquem suas vidas para retomar presencialmente as aulas. Estranho critério de ponderação: uma atitude que, no máximo, vai gerar uma advertência ou multa, a outra pode resultar em adoecimento e em óbito de quem sofre suas consequências.

De outro lado, comprometidos de fato com a viabilização da volta às aulas presenciais, vários prefeitos iniciaram a vacinação desses profissionais, usando o excedente da vacinação diária ou até reservando um percentual para essa área; outros decretaram prudencialmente que as escolas não abrem até o final de maio, na expectativa do avanço da imunização e da garantia da proteção da vida.

Nossa convicção de que só a imunização da educação vai nos dar condições de retomada do ensino presencial, recuperando aprendizagens e desenvolvimentos, lacunas e abandonos que, mesmo com o maior esforço e empenho dos profissionais nas aulas remotas, nos levou à Brasília, em Jornada pela Educação, a apresentar projeto de lei priorizando essa área também levando a proposta aos órgãos de controle e defesa dos direitos.

A tensão para a volta ao ensino presencial, feita por setores da área privada, não incorporou essa demanda, levou a juízo o debate e à alteração casuística do sistema de distanciamento.

São os municípios, mais uma vez, que se sensibilizam, assumem inteiramente as responsabilidades pela pandemia no território, e avançam na vacinação para esse setor.

Os municípios que, pela pretensão do governo estadual, assumirão a responsabilidade pelo sistema de distanciamento, segundo o novo modelo em apresentação pelo governo do Estado, contam, no entanto, com as mesmas orientações/protocolos para o retorno das aulas presenciais de junho de 2020, sem considerar nem a evolução do vírus e da pandemia, nem o conhecimento de sua forma de transmissão e necessidades de organização dos espaços escolares, das máscaras e ventilação. Estão certos então em avançar na vacinação. Têm todo nosso apoio político!

O grande consenso da importância da educação e do prejuízo que vivem nossos estudantes não pode resultar em volta às aulas presenciais sem segurança. Queremos que resulte em verdadeira priorização da educação: vacina, tecnologia, investimento, democracia!

Vejo um monte de pessoas reclamando que as escolas não estão abertas, mas não vejo essas pessoas lutando pela vacinação dos profissionais da escola, todos os profissionais de uma instituição de ensino. Porque escola não é só professores e direção. Leia mais!

Autora: Sofia Cavedon

Edição: Alex Rosset

Civilização insustentável – a difusão do mal-estar

O que mais queremos é ter a possibilidade de construir oportunidades e meios de reorientar os rumos do planeta para igualmente levantar uma nova economia devidamente combinada à conscientização ecológica, isto é, a base para se chegar numa civilização verdadeiramente humana.

O filósofo social espanhol Daniel Innerarity, ao caracterizar o momento atual como uma época de incerteza, diz que, “hoje em dia, entender o que está acontecendo é uma tarefa mais revolucionária do que criar agitação improdutiva, cometer erros de crítica ou manter expectativas irracionais”. Seguindo a linha de raciocínio do filósofo, mais revolucionária ainda, em particular, parece ser a tentativa de entender a crise ambiental em toda sua extensão.

Sendo ou não revolucionária essa tarefa, vale o esforço de começar observando a configuração da crise ambiental ora em curso. Sob esse sentimento, e já pisando logo de saída no arenoso terreno da economia, é certo começar dizendo que há impossibilidade de incorporar a todos no universo de consumo em função da finitude dos sistemas naturais. O que, convenhamos, não é difícil de entender uma vez que nosso planeta é limitado.

Qualquer expansão ilimitada – e principalmente a economia do crescimento, o ponto medular da macroeconomia moderna – se torna inviável, impraticável e contraproducente. Em notação científica, significa dizer que a pressão exercida pela antroposfera sobre a biosfera põe em evidência que o estilo de vida do mundo moderno, também chamado de a razão ocidental, é incompatível com o processo de regeneração do meio ambiente.

Para onde quer que se lancem olhares, não é difícil observar que a perda de biodiversidade vem se dando de maneira crescente e assustadora. Há em curso um processo de perda de vida selvagem como nunca antes em toda a história da humanidade. Leia mais!

O problema central, todavia, é que a regeneração do meio ambiente – isto é, o fato de deixarmos a natureza respirar, por assim dizer – não goza de nenhuma importância junto ao mainstream. Desde há muito, mais vale aos mandatários da ordem econômica mundial – que somente olham e dão primazia à economia de curto prazo – aumentar a capacidade de produção que capacitar o planeta de alguma boa e eficaz proteção.

No jogo econômico, em meio à sociedade acelerada dos dias de hoje, prevalece o poder do mercado. Por sinal, esse “poder” sempre é muito bem identificado com o universo da força política. Colocado assim, aqui se inscreve, a rigor, uma clara percepção: mercado é sinônimo de poder político. Logo, não é de surpreender a existência de múltiplos interesses delineados exclusivamente pelos atores políticos que sempre procuram se colocar acima de tudo o mais.

Mas temos agora de levar em conta que há ainda outro problema enraizado que pertence ao nosso jeito de estar no mundo e, verdade seja dita, do qual não conseguimos nos desvencilhar: o nosso modo de viver (espécie de razão que nos guia, para ser taxativo) está em profunda crise.

No fim das contas, simplificando o assunto, o nosso modo de viver é ao mesmo tempo tanto a causa quanto o sintoma de uma crise de característica conjuntural e estrutural que toca todos os sentidos da vida. Os motivos são conhecidos. Invoquemos, para tanto, alguns dados que orientam o nosso debate contemporâneo e que podem nos ajudar no entendimento de mais essa complexidade: no começo dos anos 1960, para satisfazer a demanda de toda a família humana, era preciso não mais que 60% dos recursos da Terra.

Todavia, na já mencionada fase dessa sociedade acelerada, bastou pouco menos de quatro décadas (meados dos anos 1990) para que se ultrapassasse a marca dos 100%. Vale dizer: foi atingido o overshoot, a chamada sobrecarga ecológica. Não satisfeitos, desde então continuamos abusando de todas as consequências possíveis, tanto que a humanidade está consumindo 30% mais do que aquilo que a Terra pode repor, sem se dar conta (santa ignorância a nossa) que aí está um dos vetores (tornando válido esse termo) da difusão do mal-estar.

Quanto maior, melhor…será?

Convém deixar claro: por trás disso tudo, como se sabe, está à tresloucada ideia de que a economia global não pode parar de crescer. Repare com atenção que isso pode ser bem ilustrado na noção (nonsense) de que um PIB maior nos proporcionará, em fatias iguais para todos, mais prosperidade. Não à toa, obcecados pela conquista material e adeptos da noção do “quanto maior, melhor”, uma multidão de atores sociais, cada vez mais perdida nesses tempos de incertezas, segue acreditando que tudo somente funciona à base do crescimento, ou seja, a medida de prosperidade inventada pelos homens modernos.

Reforçando o tom, tudo indica que os homens da atualidade se sentem confortáveis somente a partir da expectativa do avanço do mercado (do crescimento do PIB, sejamos claros). Não é por outra razão, assim reza o senso comum, que o crescimento se converteu na palavra de ordem.

Aos fatos: nossa relação com o crescimento econômico

Como uma coisa está ligada a outra, nota-se fortalecer a ideia-corrente (peça-chave) de que, se a economia global se tornar cada vez maior, a sociedade contemporânea estará melhor. E isso, grosso modo, permite abrir um pouco mais essa análise observando-se ao menos dois pontos elementares.

Primeiro: não se trata, em hipótese alguma, de demonizar o crescimento, até mesmo porque seria imperdoável ingenuidade de nossa parte não reconhecer a importância do avanço produtivo (espécie de bússola da modernidade) para algumas grandezas macroeconômicas. No mais das vezes, o crescimento, sob essa direção, deve ser entendido como uma das maiores conquistas da comunidade humana. No entanto, isso não exime a possibilidade de se fazer severas críticas à economia convencional.

Contas feitas, o que precisa ficar límpido é o seguinte: por razões óbvias de finitude dos recursos planetários (ou de escassez ecológica, para usar uma expressão de fácil aceitação), o crescimento, notadamente nas economias mais avançadas do capitalismo global, deve necessariamente ter limites. Aliás, ainda que venha a soar banal, convém dizer que tudo o que é físico não pode crescer indefinidamente. Nessa toada, o crescimento, um “movimento físico” da economia, não pode escapar dessa regra primária.

Segundo: como não existe atividade humana sem (vale o gripo para os dois casos) o uso de recursos naturais e energia, é de bom senso não perder de vista que a atividade de produção econômica é dependente dos serviços ecossistêmicos. O que significa dizer taxativamente que a economia, do jeito como a conhecemos, é subsidiária de algo maior, o meio ambiente. Numa expressão definitiva, dir-se-á que tudo está dentro da biosfera. Logo, não dá para fugir da assertiva de que o crescimento econômico afeta (seja na extração de recursos, na devolução dos dejetos ou mesmo na emissão de gases de efeito estufa) a Natureza – a matriz de tudo e a parceira da vida.

E tem mais: como o crescimento econômico pauta o estilo de vida ocidental, não há dúvida (ao menos em relação às mais consistentes) de que o alcance de “progresso” via aceleração econômica promove impactantes “custos ambientais” que comprometem sobremaneira os ecossistemas, diminui a biodiversidade e esgota biomas, deixando assim, de modo próprio, resolutamente por conta do desmonte ambiental, a civilização insustentável.

No fundo, isso permite que o mal-estar se propague. Desnecessário dizer, pois, que tudo isso, a rigor, termina por “produzir” certa perplexidade. Voltando ao pensamento de Daniel Innerarity, “perplexidade é uma situação típica das sociedades em que o horizonte do possível se abriu de tal maneira que os cálculos sobre o futuro são especialmente incertos”. (Ver desse autor Politica para perplejos).

Manifestadamente, nesse momento, devemos convir que o ponto de conflito aí resultante está bem claro: como a expansão econômica não ocorre com a finalidade de atender exclusivamente as ilimitadas necessidades da comunidade humana, mas sim para continuar “alimentando” a lógica capitalista (o acúmulo de capital e do consumo), aos poucos se cristaliza a falsa promessa de que a conquista material, per si, cumpre o papel de facilitar a ascensão social de toda a comunidade humana. Para que fique bem claro: o problema assim colocado cria uma situação embaraçosa.

Vejamos. Para começo de conversa, aceitar que é possível crescer exponencialmente sem afetar ou comprometer (em grande extensão) a base de recursos da natureza, significa ignorar que a economia (atividade de transformação/produção) é um subsistemada biosfera. Falando por outros termos: insistir na crença de um crescimento econômico contínuo (ideologia dominante) significa menosprezar a maior causa ecológica, o equilíbrio planetário – ou o outro nome da ideia de sustentabilidade.

Dito de outra maneira: produzir é também sinônimo de destruir. Não existe “produção” sem “destruição”. Não por acaso, a etimologia da palavra “consumir” (a razão maior do processo produtivo) significa “destruir”. Leia mais!

E como a tônica do crescimento predomina (obviamente ignorando o fato de que a atividade econômica é limitada pela capacidade de carga dos diferentes ecossistemas da Terra), tão logo três fundamentais esferas passam a sofrer severos arranhões, dificultando na base e no todo o alcance de: (1) uma economia eficiente; (2) um padrão social includente; e, por fim, (3) uma visão de mundo ecologicamente equilibrada.

Fazer o PIB crescer ou melhorar a vida das pessoas?

Uma vez alcançado esse ponto, importa lembrar que a economia é um sistema aberto inserido num sistema finito e materialmente fechado (a Terra) que somente se “abre” para a energia solar. A Terra, para falar de forma simples, é um “corpo” finito e não crescente que recebe um fluxo de energia (luz solar) e devolve calor dissipado. Sendo assim, diante do que já foi anunciado aqui mesmo, é lícito acreditar que o crescimento ininterrupto de um subsistema (a economia) dentro de um “corpo” (sistema maior, porém finito) é uma impossibilidade.

Detalhe preocupante: cada vez que a busca pelo crescimento econômico se aproxima dos limites planetários, aumenta-se o custo ambiental decorrente de a economia ser um sistema dissipativo sustentado por um fluxo metabólico, como tão bem esclarecem José Eli da Veiga e Andrei Cechin. (1) E ainda assim, à luz de refinada análise, cabe aqui o esforço da boa explicação: metabolismo social (ou metabolismo socioambiental) deve ser descrito como a troca energética e de material entre os seres humanos e seu meio ambiente natural, aproximando-se do nível de esgotamento do capital natural e devolvendo ao mundo vivo todas as formas de poluição. Veja bem. Todo esse processo de fluxo metabólico, além do mais, se inicia com a utilização e consequente escasseamento dos recursos naturais, e, como é fácil presumir, termina devolvendo à natureza de mais poluição (entropia).

Mas não estranhe: tudo isso ainda é um assunto nevrálgico que permanece quase ignorado pela economia convencional que “observa” a biosfera apenas como “partes” da macroeconomia. Mas em nenhum momento essas perguntas a seguir aparecem: (1) qual ritmo de crescimento é possível?; (2) quanto se pode tirar de recursos da natureza?; (3) quanto se pode devolver de resíduos ao ambiente natural via atividade econômico-produtiva?

Ora, sejamos mais uma vez claros e transparentes: às forças políticas interessa muito afiançar a política de crescimento, e ponto final. Se haverá ou não alguma significativa deterioração ecológica pouco importa. Dito isso, e para resumir toda essa barafunda, o problema central é facilmente localizado: o crescimento é concebido para aumentar o tamanho da economia, e nem tanto em melhorar essa economia. Essa última tarefa, aliás, fica a cargo do desenvolvimento. Contudo, esse último tem sido preterido em prol dos incentivos voltado ao crescimento (sempre a ideia dominante, como já mencionado).

Sendo a ideia dominante, tudo é pesando em termos de crescimento. Mas vale aqui, notemos com a atenção, à provocadora pergunta lançada pelo mundialmente aclamado Joseph Stiglitz (prêmio Nobel de Economia): de que vale o PIB estar crescendo, se a maior parte dos cidadãos está pior? (2)

Nessa mesma direção, espera-se que os fervorosos devotos da política de crescimento não esqueçam que foi o próprio Simon Kuznets (1901-1985), criador do PIB, no começo dos anos 1960, que taxativamente afirmou que é (…) preciso levar em conta distinções entre quantidade e qualidade de crescimento, entre custos e rendimentos, entre curto e longo prazo. Para tirar de uma vez por todas o véu desse assunto, foi Kuznets que didaticamente assim escreveu: “metas de crescimento devem especificar o que deve crescer e para qual fim”. (3)

Construir oportunidades

À luz de razoável bom senso parece mesmo que o jornalista econômico David Pilling tem toda a razão: “só na economia a expansão interminável é vista como virtude. Em biologia, isso se chama câncer”. (4)No mais das vezes, como tudo é mercantilizável (razão pela qual o PIB mede somente a parte da economia que é mercantilizada), e enquanto se avança no erro de confiar ao mercado o cuidado geral de toda a sociedade, mais se consolida um erro palmar: sempre exigir crescimento exponencial num planeta finito.

Objetivamente falando, acreditar nessa possibilidade (que não faz sentido, insistamos nisso) é cair na estupidez de conjecturar que a economia acontece no vazio, sem fazer uso de matéria e energia vindas da natureza. E mais: significa ainda ignorar com todas as forças a possibilidade de que em alguns casos pode ocorrer aquilo que Herman Daly, melhor que ninguém, soube chamar de “crescimento antieconômico”. O significado? Quando o custo costuma ser maior que o benefício. Definitivamente, ninguém quer isso.

O que mais queremos é ter a possibilidade de construir oportunidades e meios de reorientar os rumos do planeta para igualmente levantar uma nova economia devidamente combinada à conscientização ecológica, isto é, a base para se chegar numa civilização verdadeiramente humana.

Marcus Eduardo de Oliveira participa, com um artigo, de uma publicação recentemente editada, O Salto do Sapo: A difícil corrida brasileira rumo ao desenvolvimento econômico. Link para aquisição direto com a editora.

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira

Ediação: Alex Rosset

Referências

(1) A. CECHIN & J. E. VEIGA. “O fundamento central da Economia Ecológica”, in PETER H. MAY (Org.), “Economia do Meio Ambiente: Teoria e Prática”, 2° edição, Ed. Elsevier, 2010.

(2) J. STIGLITZ. “People, Power and Profits – Progressive Capitalism for an Age of Discontent”. Nova York: W. W. Norton & Company, 2019.

(3) S. KUZNETS. “How to Judge Quality”, The New Republic, (October 1962).        

(4) D. PILLING. “A ilusão do crescimento”, São Paulo: Alta Books Editora, 2019, (p.14).

As crianças com altas habilidades

Na infância, tendemos a não valorizar o pensamento das crianças e isso pode ocasionar numa perda de talentos. Aquilo que não é exercitado, acaba morrendo.

Somos humanos porque usamos da razão. O que nos torna diferentes dos outros animais é o fato de pensar e poder tomar decisões. Com as crianças, do mesmo jeito. Todavia, com alguns adultos e/ou crianças, esse pensar seja mais apurado, mais intenso, mais forte, mais especial. Sim, especial! Especial é tudo aquilo que se destaca do óbvio, do comum, dos demais!

Uma mente que consegue produzir pensamentos diferentes de todos os demais é capaz de mudar mundos, melhorar vidas, tornar-se melhor para si mesmo ou quem sabe inventar uma nova forma de olhar ao nosso redor.

Hoje venho falar de crianças com altas habilidades/superdotação. Não! Eu não vou falar daquelas crianças com um QI alto. Essas todas já conhecem. Também não vou falar de inteligência medida através de testes padrão que já não fazem mais sentido nos dias atuais.

Quero falar daquelas crianças que se destacam das demais pelo seu pensamento precoce. Aquelas que aos três anos de idade já podem tocar um piano ou fazer a leitura de um livro sem nunca ter estudado isso antes, mais detalhadamente as crianças que são criativas.

Sim! A criatividade também anda junto com a inteligência e devemos saber que uma não existe sem a outra. Por longos anos, se pensava que somente crianças com alto QI eram inteligentes, porém os psicólogos trouxeram novos estudos e testes que agora incluem a criatividade das crianças em tomar decisões, em resolver problemas, em criar histórias, em inventar brincadeiras.

Somos sempre levados ao espanto ao vermos uma criança tocar piano perfeitamente na tenra idade, mas não nos espantamos ao ver uma criança inventar o seu próprio brinquedo porque achamos comum esse tipo de invenção. Precisamos urgente valorizar a criatividade das nossas crianças para que elas possam cada vez mais desenvolverem as suas habilidades e se tornarem melhores a cada dia.

Uma criança que tem um poder de criatividade aguçado pode ser considerada com altas habilidades/superdotação. Ela não precisa ser boa em matemática ou linguagem apenas, ela tem que ter um conjunto de pensamentos que abordem as áreas artísticas também. A música, a dança, a literatura e tantas outras artes fazem parte do mundo da criança desde a tenra idade.

O que ocorre é que crianças cujos os pais têm maior poder aquisitivo são estimuladas logo cedo a desenvolverem a sua criatividade e as moradoras de periferias são ignoradas e, talvez, nunca alguém descubra o quanto são habilidosas em quase tudo.

Ter altas habilidades/superdotação para uma criança exige muito cuidado dos pais e professores. Na infância, tendemos a não valorizar o pensamento das crianças e isso pode ocasionar numa perda de talentos. Aquilo que não é exercitado, acaba morrendo.

Toda criança deve ter a sua criatividade incentivada, valorizada e absorvida por todos os que convivem com ela. Não são apenas joguinhos e exercícios de lógica ou matemática que vão desenvolver na criança as altas habilidades/superdotação, mas a pintura, a poesia, a fotografia, a dança, a música e tantas outras artes que ela venha a gostar e fazer com maestria.

Uma criança com altas habilidades/superdotação inventa os seus próprios brinquedos, dá vida às pedras, inventa as suas próprias histórias, consegue ensinar o que aprendeu na escola aos seus pais, é atenciosa e cuidadosa com as suas coisas. Não gosta que mexam no seu pequeno mundo e muito menos que invadam a sua privacidade. É sempre chamada para brincar com os amiguinhos e lembrada nas festas de aniversário. Desde cedo tem poder de liderança e é ela quem comanda o trenzinho de brincadeira.

Desde cedo, começa a fazer coisas diferentes das demais crianças e até mesmo de alguns adultos. A sua criatividade se destaca das demais. Vive a inventar. O seu pequeno pensamento nunca para. Tem capacidade para inventar brincadeiras mesmo estando sozinha.

No entanto, se essas altas habilidades/superdotação não forem observadas na tenra idade, perderemos talentos ao longo dos anos que talvez fiquem escondidos pelo resto da vida.

Cabe aos pais e professores observarem esses pequenos detalhes de criatividade existentes nas suas crianças. Uma criança que consegue desenhar perfeitamente aos dois anos de idade tendo o seu traço delicado riscado na folha de papel com a destreza de um adulto pode ser considerada com altas habilidades/superdotação. O fundamental para ser inteligente é fazer uso da criatividade que muitas vezes é confundida pelos adultos como uso do imaginário. Duas coisas que são completamente diferentes.

Uma criança pode fazer uso do imaginário e ser criativa ao mesmo tempo. Ela pode ouvir uma história sobre um elefante e imaginar como ele é, pôr seu pensamento em prática e com uma massinha de modelar criar um elefante com três pernas, duas cabeças, seis trombas e depois dizer que o elefante está feliz. Sim, ela usou a criatividade para modelar o seu próprio elefante. Não lhe deram nenhum elefante de brinquedo de presente. Do mesmo jeito, a criança que usa da criatividade para não se sentir sozinha e mesmo sem saber ler ainda escreve no seu amassado caderninho lindas poesias que ela mesma faz questão de ler em voz alta. Tudo de mentirinha.

O poder da criatividade da criança deve ser levado a sério por pais e professores. Descoberto desde cedo por psicólogos, essa criança necessita de um ensino e cuidados diferenciados. Para ela, as aulas da escola podem se tornar chatas e cansativas se forem apenas para copiar do quadro o que a professora escreveu.

Fazer cópias de tarefas e exercícios que não exigem da sua criatividade podem levá-las ao fracasso nos estudos e até mesmo passarem a ser vistas como alunas de fraco rendimento, preguiçosas, cansadas. Na verdade, é a forma como está sendo passado o ensino que não alcança o pensamento divergente da criança que necessita a todo tempo fazer uso da sua criatividade.

Não é fácil ser uma criança com altas habilidades/superdotação num mundo onde as pessoas não têm mais tempo para nada.

Geralmente, passam despercebidas essas habilidades. Ninguém vê que aquela criança tem algo diferente e que precisa de cuidados para desenvolver-se. Nas escolas, quando isso é observado, tendem a acelerar a criança de ano letivo, mas não existe um currículo preparado para atendê-la no ano seguinte. Simplesmente terminará os seus estudos primeiro que as demais crianças da sua idade.

A criança com pais letrados tem mais chance de ter a sua criatividade reconhecida e investigada, pois esses entregam os seus filhos desde cedo aos cuidados de professores particulares que são pagos para cuidarem da educação das suas crianças. Esses professores, em grande parte, tendem a descobrir talentos porque como têm apenas aquela criança como único aluno dispõem de tempo para observá-las com detalhes e acabam descobrindo que elas são diferentes das outras na forma de pensar e agir.

Já as crianças de periferias e muitas delas são talentosas e têm altas habilidades/superdotação são esquecidas nos becos e ladeiras a empinarem as suas pipas feitas com uma criatividade nunca vista.

Que possamos ter mais tempo para observar as nossas crianças, como elas agem e criam coisas para tornar o mundo melhor, pois são elas as que mais se preocupam com a melhoria do que está ao seu redor.

Os adultos deveriam se espelhar nas crianças para criarem novas formas de cuidar do mundo.

Ser uma criança criativa é ter altas habilidades/superdotação. 

Em outra das minhas 42 publicações do site, defendi também uma educação com afeto, pois o que fazemos com as nossas crianças hoje será refletido na vida adulta amanhã. Tudo o que uma criança vive e ouve ela guarda dentro de si e mais tarde vem à tona seja num sintoma emocional ou agressão física aos coleguinhas e pessoas próximas, por isso vemos alguns morderem os outros sem motivos aparentes. É preciso amar antes de chegar perto de uma criança, conhecer o verdadeiro sentido do amor. Leia mais!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

Gênero, palavra proibida

Para os reacionários, o termo carrega um caráter ideológico. Falar em gênero, para essas pessoas, equivale a incentivar o fim da família tradicional, pois reforçaria a ideia de que cada sujeito pode ser o que quiser, independentemente do seu sexo biológico – este sim, um desígnio divino.

“Bom dia e sejam todxs bem-vindxs”. Esta saudação da Escola St. Patrick, em nossa cidade Passo Fundo, RS, a seus alunos e alunas foi o que bastou para desencadear uma avalanche de críticas ligadas a uma pretensa pregação de gênero. Coisa que passou longe da direção do educandário. Mas, aproveitando o gancho, vamos ao tema.

A medicina, na verdade, já considerou a homossexualidade uma patologia. Entretanto, o último capítulo da estigmatização dos gays pelo discurso médico viria em 17 maio de 1990, quando a Organização Mundial da Saúde retirou o “homossexualismo” da lista de patologias relacionadas na Classificação Internacional de Doenças.

A partir de então, na data passou a ser celebrado o Dia Internacional contra a Homobofia. Me parece que muitos, cegados por seu conservadorismo, desconhecem tal fato.

A bandeira do moralismo passou a ser adotada por políticos, pois tem muito mais eco do que o neoliberalismo de gabinete.

Você sempre vai encontrar setores muito grandes da sociedade que te apoiam quando o foco passa a ser a sexualidade, porque são pautas que ainda têm questões transversais de racismo e classismo que são complicadas de vencer. É o marketing do moralismo.

É preciso entender que tratar da questão de gênero na escola é tratar da diferença. Professores e funcionários podem possibilitar espaços de experiência para alunas e alunos, ou reproduzir situações de violência e discriminação. Eis a escolha!

Para os reacionários, o termo carrega um caráter ideológico. Falar em gênero, para essas pessoas, equivale a incentivar o fim da família tradicional, pois reforçaria a ideia de que cada sujeito pode ser o que quiser, independentemente do seu sexo biológico – este sim, um desígnio divino.

Tal raciocínio, pautado na defesa de uma família específica e das regras de gênero, ignora que ele próprio está imerso em uma ideologia, ou seja, carrega valores social e historicamente construídos. O ato de nomear está imerso nas relações de poder: implica hierarquias que sustentam relações de discriminação com tudo o que difere dos nossos pressupostos.

Aí está a importância de tratar desta temática na escola, em um contexto tão hostil às questões de gênero e às múltiplas formas de entendimento da sexualidade.

A escola não é um espaço neutro. Toda a comunidade escolar estimula determinadas práticas, reforça discursos, fala de sexualidades, desejos e afetos.

A vida escolar referenda o nosso agir no mundo. É fundamental para a consolidação das nossas personalidades, identidade e subjetividade. É imprescindível que este exercício seja o de conviver com a diversidade e com as diferenças.

É preciso considerar que nem todos se reconhecem na anatomia de nascimento nem se sentem atraídos pelo diferente. Simone de Beauvoir escreveu, em 1949, que não se nasce mulher. Torna-se. Falava Simone dos papéis sociais.

A escola pode se consolidar como um lugar acolhedor, ou pode se converter em um ambiente onde se reproduzem preconceitos, silêncios e formas de discriminação. A escola não deve servir somente para ensinar línguas, geografia, história e matemática!

A “ideologia de gênero”, inventada pelo catolicismo neoconservador nos 1990-2000, não só faz eco a discursos dos anos 1920-1930 na Europa, como, sobretudo, foi habilmente enxertada sobre os extratos recentes de repúdio ao chamado marxismo cultural. (Sônia Corrêa) Leia mais!

Autor José Ernani de Almeida

Edição: Alex Rosset

Fome: caminho de desumanização

Josué de Castro defendia a adoção de um modelo de desenvolvimento econômico capaz de solucionar o dilema da fome e da miséria. Como médico, sabia muito bem que da fome decorre uma série de doenças.

A fome não é uma ideia, nem uma falsa notícia. É uma triste realidade. Não é uma situação momentânea como a vontade de comer, que desaparece depois de ingerir algum alimento. Também não é mera ideologia, embora tenha tudo a ver com ela. Nesse caso, com a ideologia da concentração dos bens e das riquezas, à custa da exclusão de muitos das mínimas condições para uma vida digna. A fome é um atentado à dignidade humana, um escândalo ético.

 No Brasil, a fome é um problema histórico e estrutural que se acentua e se atenua de acordo com diversas variáveis, entre elas, com o maior ou menor investimento em políticas públicas.

Para o geógrafo, cientista e ativista social Josué de Castro (1908 – 1973), a fome tem causas e efeitos muito definidos. Em sua obra clássica “Geografia da Fome”, publicada em 1946, no contexto da Segunda Guerra Mundial, o autor faz um mapeamento das carências alimentares e nutricionais no Brasil. Castro defendia a adoção de um modelo de desenvolvimento econômico capaz de solucionar o dilema da fome e da miséria. Como médico, sabia muito bem que da fome decorre uma série de doenças. E pôs toda a sua ciência e vontade na luta pelo combate a esses problemas de ordem econômica, social e sanitária.

Nos anos 1990, quando o espectro da fome se mostrou mais uma vez muito acentuado no Brasil, surgiram outras abordagens práticas para enfrentar o problema. Entre elas, destacou-se a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, criada em 1993 sob a coordenação do sociólogo e ativista dos direitos humanos Herbert de Souza, o Betinho (1935 – 1997). Acontece que cerca de 32 milhões de brasileiros, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), estavam abaixo da linha da pobreza. O tema impunha e sempre impõe urgência, pois, como dizia Betinho, “quem tem fome, tem pressa”!

Os primeiros anos do novo milênio foram marcados por políticas de significativo impacto no enfrentamento à fome. Conforme o relatório global da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil reduziu em 82% a população em situação de subalimentação entre os anos 2002 e 2013.

Em 2014, o país diminuiu para menos de 5% da população nesta condição. Foi quando conseguiu sair do chamado mapa mundial da fome. De acordo com o Centre for Economics and Business Research (CEBR), em 2011 o Brasil chegou a ser a 6ª economia mundial. Em dezembro de 2012, segundo o IBGE, o desemprego brasileiro caiu para 4,6%, o menor nível histórico.

Agora as coisas estão mudadas. Os índices nefastos subiram brutalmente. De acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), em 2020 o Brasil caiu três posições no ranking das maiores economias do mundo e em 2021 deverá cair mais uma posição, quando, então, passaremos a ser a 13ª economia mundial. Segundo o IBGE, no trimestre encerrado em janeiro de 2021, a taxa de desocupação chegou a 14,2%, atingindo um recorde de 14,3 milhões de pessoas desempregadas.

Ainda em 2018, conforme o IBGE, retornamos ao mapa da fome. E ela vem tomando proporções cada vez mais dramáticas nos tempos atuais. Conforme a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional, nos últimos meses de 2020, cerca de 19 milhões de brasileiros passavam fome.

Soma-se a isso, os mais de 400 mil mortos pelo Coronavírus, sem contar os que são vitimados por doenças ocasionadas pela carência alimentar num país que tem supersafras de grãos. A fome, a carência e a insegurança alimentar são resultados diretos da desigualdade e da inequidade socioeconômica.

Tanto a fome, quanto a pandemia foram potencializadas exponencialmente pela má condução de políticas econômicas e sanitárias. Sob a alegação de ter de salvar a economia para salvar as pessoas, não se salvou nem as pessoas e nem a economia voltada para salvar as pessoas. E, muitas vezes, ainda utilizando o nome de Deus para tentar justificar essa ideologia.

A fome é também um assunto de fé. Padre Valter Girelli, reitor do Seminário de Fátima de Erechim/RS, no último dia 16 de março, refletindo sobre a passagem bíblica da partilha dos pães e dos peixes (Jo 6, 1-15), afirmou que Jesus sempre se preocupou muito com a fome do povo. Diante dela, não deu espetáculo da multiplicação mágica da comida, mas realizou o grande ensinamento da distribuição dos alimentos disponíveis.

Aquilo foi considerado um milagre (miraculum = gesto maravilhoso) que requer de quem se pretende humano e cristão a incansável prática deste ensinamento. Ao defender a necessidade de taxar as grandes fortunas, Girelli disse que “enquanto não for resolvido o problema da distribuição da renda no mundo não vamos superar o problema da fome”.

O aumento da fome em qualquer sociedade é também a medida do aumento da pobreza e da miséria. A propósito, a teologia cristã ensina que o fundamento ético da conduta humana e social está na relação com os famintos e marginalizados em geral. Em Mt 25, 35 lemos acerca do juízo final, ocasião em que o Filho do Homem dirá: “… eu estava com fome e me destes de comer”. Entretanto, na sociedade capitalista, a defesa dos pobres não é matéria pacífica.

Por esta razão, dom Hélder Câmara (1990 – 1999) expressou em certa ocasião: “Quando dou comida aos pobres, me chama de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista”. Por sua vez, o profético bispo dom Pedro Casaldáliga (1928 – 2020), defensor incondicional da vida e do direito dos pobres e marginalizados afirmou: “Na dúvida, fique ao lado dos pobres”.

A fome é um fator que atenta à integridade humana. Ela desfigura e desumaniza os que a sofrem e também torna desumano quem a produz. Impor a fome a alguém ou a muitos é a completa desumanização! Ocorre que “quem inventou a fome são os que comem”, afirmou acertadamente a escritora e poetisa brasileira Carolina Maria de Jesus (1914 – 1977). E quem a padece, raramente o faz por vontade própria, ou seja, duramente a experimenta por imposição alheia.

Ao par da fome, há o grave problema da insegurança alimentar decorrente, em grande medida, do elevado uso de agrotóxicos – somos campeões mundiais também nesse quesito. Portanto, nossos desafios são gigantescos e de diversas ordens. Enfrentá-los de forma unificada e efetiva é urgentíssimo, sob pena de seguirmos produzindo o genocídio, o homicídio coletivo, a indiferença e a insensibilidade, demonstrações mais cabais de uma sociedade doente em avançado processo de desumanização.

A vida e a dignidade em todos os tempos, lugares e circunstâncias precisam estar em primeiro lugar!

Só a compaixão se reveste de libertação. A compaixão não é sofrer pelos outros, mas sofrer com eles. O sofrer com os outros permite colocarmo-nos no seu lugar. Ver a partir dos seus pontos de vista e das suas realidades. É também deixar-se transformar, permitindo que os nossos mais nobres sentimentos se traduzam em ações concretas a favor dos pobres, fracos e marginalizados. (Nei Alberto Pies) Leia mais!

Fonte: Originalmente publicado em http://www.ihu.unisinos.br/608490-fome-caminho-de-desumanizacao

Autor: Dirceu Benincá

Edição: Alex Rosset

Viva a pedagogia libertadora!

Eu não comecei na Pedagogia amando o curso, pelo contrário, a decisão em cursar no primeiro momento foi pura e concretamente influenciada pelo fato de no ano anterior, ter ouvido falar que o salário de uma Pedagoga seria de 3 mil reais. Foi isso: uma menina do interior, sonhando em cursar faculdade que ouviu que talvez pudesse receber uma quantia que jamais fez parte da renda da sua família.

Essa é a minha história inicial com a Pedagogia, pouco glamourosa, tampouco com pretensão de vocação mas carregado da realidade que vivia. É mais ou menos esse o sonho do pobre, uma ousadia em querer estar na academia mas nunca esquecendo do que a vida toda sempre tinha presente: saco vazio não para em pé, tampouco estuda.

Me apaixonei pela Pedagogia tardiamente e acho que foi um processo de descoberta bonito de quem começa a entender que tem voz e pode dizê-la no mundo. Acho que isso foi uma das coisas que me transformou imensamente: ser escutada e, no acolhimento da palavra, poder me fazer cidadã nesse mundo.

A minha língua pouco formal – e com poucas travas em alguns momentos – me fez ter a possibilidade de questionar o que antes era pouco claro pra mim. De cara, já um outro fato: eu não cabia numa pedagogia de hierarquias, numa cultura escolar que não compreende o exercício da palavra, da escuta e da acolhida como fundamentais para qualquer processo educativo e, assim, nascia alguém apaixonada pela Pedagogia Social.

Nesses seis anos passei por escolas, Ongs, clínicas, prefeituras e prisões. E em cada lugar me construía um pouco mais gente. Acho que, também, um pouco mais escutadora e admiradora da vida de cada pessoa junto a possibilidade de ouvi-las ou, como disse Edivânia (uma Pedagoga incrível), de “pisar o solo sagrado do outro”.

Há dias que me sinto uma fraude de Pedagoga, dias que se Paulo Freire me visse só ia baixar a cabeça e a balançar negativa e levemente enquanto coçava sua barba branca e me julgava interiormente. E isso é parte do processo eu acho, poder me olhar e ver o quanto ainda preciso aprender e melhorar.

Hoje carrego certeza de que a Pedagogia não é neutra e, se assim o dizem, falam sem o mínimo de conhecimento das pessoas que vivem nesse Brasil, sem o mínimo conhecimento do quanto a educação é essencial e transformadora na vida de tantas pessoas.

O desmonte que vivemos, da educação básica ao ensino superior, diz sobre isso. Precarizar a educação é um projeto político muito bem situado e com intenções bastante claras.

Essa foto eu tirei num dia de formação sobre mulheres na política do Política por.de.para Mulheres, lá em Curitiba. Penso que foi quando assumi pra mim mesma esse compromisso com a política que sempre atravessou minha vida e que permitiu que eu me sonhasse acadêmica e formada. Isso é simbólico dado a atual conjuntura desse país que caminha a cada dia para a impossibilidade de sonhos.

Nesse dia (20 de maio – Dia do Pedagogo/a), eu queria é dar um chamego em todas as colegas de profissão que diariamente e apesar de todas as intempéries tentam construir perspectivas e caminhos coletivos em que a voz, a dignidade e o sonho de cada criança, adolescente e jovem é acolhido e escutado.

Viva a Pedagogia Libertadora!

Autora: Helena Schimitz

Edição: Alex Rosset

7 dicas para incorporar a aprendizagem por pares a sua aula

A necessária mudança do modelo educacional surge diante de um mundo em constantes (e rápidas) transformações. Consequentemente, a aprendizagem por pares integra os estudantes.

“Ensinar é aprender duas vezes”. E que tal utilizar esse pressuposto para tornar o estudante mais ativo na construção do conhecimento? Que tal incentivar a aprendizagem por meio do protagonismo dos estudantes?

Vários autores defendem a cooperação, ou seja, o trabalho em grupo como parte fundamental de um bom aprendizado. Vygotsky (1896-1934), por exemplo, já chamava a atenção para a importância da interação entre o estudante e o docente e entre os próprios estudantes em situações de aprendizagem.

Nesse sentido, a aprendizagem por pares é um termo usado para descrever uma grande variedade de acordos de tutoria. No entanto, ela pode ser resumida, grosso modo, como uma abordagem onde os estudantes trabalham em pares para ajudar uns aos outros a aprender sobre conceitos ou desenvolver uma atividade acadêmica. Nesse contexto, o professor torna-se mediador desse processo. Acompanha, avalia e orienta de modo personalizado o desenvolvimento de cada estudante.

Se você está em busca de dicas sobre como incorporar essa abordagem em sua prática docente, compartilhamos a seguir 6 boas práticas para você se inspirar, adaptar e incorporar às suas aulas. Confira:

Como posso incorporar a aprendizagem por pares?

1. Enfatizar a importância da aprendizagem ativa

Parece óbvio! Mas, a inclusão e explicação aos estudantes sobre o funcionamento deve ser bem elaborada. Recomendamos a criação de um documento onde estejam explicitadas as regras, informações importantes e os estudantes possam consultar, em caso de dúvidas.

Atualmente, muitas instituições estão buscando promover métodos de ensino que envolvam o aprendizado “ativo”. Contudo, essa mudança de paradigma é delicada e complexa para todos os envolvidos. Portanto, além de todo o planejamento e capacitação é preciso também explicar, ouvir e incluir os estudantes para que o processo seja implantado dentro do contexto de atuação da instituição. Mitigando com isso os riscos e problemas já diagnosticados.

Esses métodos e abordagens apresentam oportunidades para que os estudantes formulem suas próprias questões, debatam e expliquem seus pontos de vista. É preciso enfatizar como será a rotina de trabalho e quais benefícios serão alcançados (aulas mais dinâmicas, jogos, resolução de problemas, desafios interdisciplinares etc.).

O trabalho em grupo também transforma o papel do professor. Que passa a criar as condições para que os estudantes tomem decisões e resolvam as situações-problema sem ter o processo todo dirigido. Nesse contexto, o docente define a atividade, orienta e corrige as rotas, indica materiais e explica regras.

Essas atitudes permitem que os estudantes se envolvam na aprendizagem colaborativa. Trabalhem em equipes, com resolução de problemas ou por projetos. A inversão de papéis, os estudos de caso e os projetos integrados são outras estratégias de ensino significativos e eficazes que estimulam e incentivam a aprendizagem entre pares.


2. Escolher a atividade e a mídia apropriada 

Adotar uma abordagem didática para uma aula requer planejamento. Colocar simplesmente os estudantes em grupos ou pares e delegar qualquer atividade para “trabalhar em conjunto” não surtirá, provavelmente, resultados significativos.

É preciso, portanto, pensar no conteúdo a ser ensinado. E a partir daí adaptar ou elaborar uma atividade com o(s) objetivo(s) de aprendizagem bem delimitado(s). Em seguida, deve-se escolher o suporte/mídia adequada para tal atividade (papel, cartolina, celulares, tablets, livros etc.). A escolha da mídia pode determinar maior ou menor engajamento por partes dos estudantes.

Por fim, com o planejamento detalhado da aula, os estudantes compreenderão a finalidade da atividade e se envolverão, obtendo os benefícios da aprendizagem por pares.

3. Diagnosticar antes de agrupar

Com o objetivo de aprendizagem definido, o seguinte passo é conhecer bem as características dos estudantes. Saber suas preferências, dificuldades e nível de domínio do conteúdo é importante para iniciar uma abordagem de aprendizagem por pares. Portanto, recomendamos a aplicação de avaliações diagnósticas (formais ou informais) para, somente então, planejar as atividades que serão trabalhadas.

Uma maneira de realizar esse diagnóstico pode ser através de propostas de trabalho individual. Com base nos resultados analisados é possível formar duplas ou grupos cujas ideias, estratégias de resolução ou nível educacional sejam diferentes. Em seguida, duplas ou grupos com estratégias diferentes apresentam ao outro seu pensamento e em conjunto, todos elegem o caminho menos trabalhoso.

4. Criação de grupos

No processo de aprendizagem por pares a divisão do grupo vai variar de acordo com a finalidade da atividade. Entretanto, para fins de aprendizagem é recomendado fazê-lo com base nos diagnósticos. Colocando juntos os estudantes que têm saberes diferentes. Desse modo, todos aprendem, engajam-se e as atividades tornam-se mais produtivas.

Portanto, recomendamos que antes de pensar nos grupos seja considerado os níveis de conhecimento, habilidades e atitudes dos estudantes elencados nos diagnósticos.
Confira a seguir alguns exemplos de agrupamentos:

  • Duplas, Trios, Quartetos ou Quintetos: Os estudantes podem possuir nível de conhecimento similar, mas habilidades diferentes. Nesse caso, eles podem se ajudar, ao trabalhar em conjunto ou podem avaliar um ao outro. Em casos de estudantes com níveis diferentes, um dos estudantes pode assumir o papel de tutor em determinada área de conhecimento.
  • Grupos aleatórios: Geralmente destinados à promover a interação. Pode-se separar por cores ou números escolhidos na entrada da sala. Apresente as questões ou atividades aos grupos. Após cerca de 20 minutos de discussão, os grupos ou um membro de cada grupo apresenta as descobertas a todo o grupo.
  • Grupos por afinidade: Grupos com conhecimentos heterogêneos recebem tarefas específicas para serem realizadas dentro ou fora do tempo formal de aula. Cada estudante deve ter sua atuação definida pelo professor e o trabalho deve ser em conjunto e colaborativo. Após o tempo estimado para a atividade, os grupos apresentam as descobertas para toda a turma.
  • Solução para grupos críticos: Um grupo recebe um tópico para apresentação de seminário ou desenvolvimento de tutorial. O grupo desenvolve sua solução e apresenta os resultados para todos. Os outros grupos “críticos” observam, fazem comentários e avaliam a apresentação do grupo.

5. Simulação de papéis para boas práticas

Além do documento com regras e boas práticas, aconselhamos a criação de simulações durante a semana prévia à atividade em pares para estimular um comportamento com atitudes construtivas e produtivas. Nessas simulações são compartilhados os procedimentos, regras, a função de cada papel existente e as maneiras de fornecer feedback positivo.

Nesse sentido, você pode solicitar aos estudantes que criem uma lista de declarações com reforços positivos padronizados para serem usados no feedback. Eles também precisam ser orientados com relação ao tempo de resposta. Em casos de inconsistências ou erros, a resposta deve ser sem crítica e focada na correção.

Em resumo, a orientação deve ser voltada para que o processo seja pautado em confidencialidade, reforço positivo e tempo de resposta adequado.


6. Programa de tutoria

Comum em algumas universidades, o programa de tutoria é composto por estudantes reconhecidos com nível avançado em determinada área de conhecimento. Ele pode ser uma alternativa para promover a aprendizagem por pares, bem como para incentivar valores e atitudes positivas.

Com a orientação e acompanhamento de professores, os estudantes podem solicitar ajuda sobre temas nos quais eles precisam de reforço. Em um quadro ao lado, os estudantes-tutores podem disponibilizar horários e assuntos no qual podem ajudar. Cabe ressaltar a importância dos tutores receberem orientações sobre como atuar de maneira eficaz.

A incorporação do programa de tutoria geralmente melhora o índice de desempenho dos estudantes, além de fomentar o senso de responsabilidade, coletividade e competência colaborativa.

7. Sistema de recompensa

Toda atividade desempenhada com sucesso deve ser recompensada! Contudo, ressaltamos que recompensa não é somente sinônimo de ganhar coisas materiais ou acréscimos associadas à nota. Ela pode ser expressa de variadas formas e deve servir para engajar e reconhecer uma boa prática.

Nesse sentido, uma abordagem que pode ser adotada para essa finalidade é a aprendizagem baseada em jogos. Mais especificamente a gamificação que já possui regras e sistemas de recompensas que podem ser adaptados e incorporados à sua prática docente.

Para incentivar a participação dos estudante na aprendizagem por pares é preciso deixar claro quais benefícios eles obterão e criar um sistema de recompensa adequado ao contexto institucional. Por exemplo, pode ser um componente curricular (créditos) onde todos os estudantes de determinado nível educacional devem atuar no papel de tutoria ou pode-se oferecer cursos específicos, como robótica, agroecologia ou programação para os que desenvolverem a função com reconhecido louvor.

Professor-mediador-facilitador

Facilitar a aprendizagem dos estudantes exige acompanhamento personalizado, significação e contextualização. A necessária mudança do modelo educacional surge diante de um mundo em constantes (e rápidas) transformações. Consequentemente, a aprendizagem por pares integra os estudantes. Além de promover o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, atitudes e valores condizentes com o mundo contemporâneo.

Leia também artigo de minha autoria sobre ensino por competências. “Os currículos de educação baseada em competências permitem que os estudantes usem o conhecimento adquirido previamente fora da sala de aula. Ou seja, busca-se valorizar o contexto de cada estudante, bem como utilizá-lo à favor de sua educação”.


Autor: Kamil Giglio

Edição: Alex Rosset

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