Início Site Página 68

(Pseudo)Humanismo e educação: das históricas centelhas humanistas à ressignificação das práticas cotidianas contemporâneas

A educação pode reconquistar seu propósito e ser mobilizada na formação de um ser humano comprometido não com sua lucratividade futura (poder), mas com o sentido lato de sua existência. E, como Klein (2020) invoca, precisa-se começar agora, com a formação de professores sendo talvez a principal frente para essa (re)construção, oportunidade vigorosa de mobilização para a humanização.

Discursos humanistas são rotineiramente proferidos nos diferentes espaços da vida em sociedade, com agremiações (tanto laborais, quanto recreativas) sendo recorrentemente mencionadas como famílias. As redes sociais disseminam mensagens de apoio à saúde mental, evocando autocuidado e empatia. Nos ambientes corporativos, colaboração e parceria naturalizaram-se no léxico daqueles que, agora, não são mais citados como funcionários, mas como colaboradores. Coaches se tornam referência para a formação em serviço com suas mensagens de apoio e de motivação.

Em contrapartida, episódios envolvendo agressões físicas e psicológicas diariamente são publicizados, incongruentes ao vocabulário humanista empregado. Discordâncias em redes sociais levam a intermináveis debates que não agregam novas percepções sobre um tema, mas distribuem ofensas e inverdades. Disputas por posições no trabalho e atitudes entrelaçadas com autoritarismo resultam em trapaças e intrigas, que contrariam a lógica familiar e colaborativa tão apregoada. As mensagens motivadoras, ao invés de incentivarem o trabalho coletivo, apenas intensificam a preocupação individualizada sobre si.

Em escolas e universidades, rankings sintetizam a educação que se almeja alcançar, colocando a concorrência como prerrogativa para as relações e para as práticas pedagógicas; pais, alunos e professores se envolvem em embates corriqueiros; e projetos educativos são avaliados a partir compreensões reduzidas e, ainda, se estivem ligadas a uma lucratividade futura.

No cotidiano das escolas e universidades, a defesa de relações horizontais e harmoniosas está presente na documentação pedagógica, no entanto perpetuam-se as condutas de violência emocional. Mantidas por estruturas hierárquicas e que tendem a valorizar formas específicas de saber, bem como linhas e perspectivas epistemológicas rígidas, em muitos contextos naturalizam-se cenários opressivos (herança da educação tradicional, ancorada na metafísica medieval). O diálogo e a cooperação costumam se restringir aos Projetos Político-Pedagógicos arquivados, sem alcançar a esfera do cotidiano.

Tais contradições esboçam apenas um recorte de um contexto em que a humanização denota um viés transmutado, se não fake – em alusão à perspectiva na qual tem se pautado a disseminação de boa parte das informações hodiernamente.

Aproximando esse tema do campo educativo, questionamos: a que formação os espaços escolares e acadêmicos têm se dedicado? Quais propósitos têm sido constituídos na/pela escolarização? Quais teorias do conhecimento dominam e amparam as práticas? Como o rigor científico e intelectual perpetuou, em muitos contextos, vínculos impessoais, destituídos de afeto e empatia, e que não vinculam as experiências cognitivas a sensações de contentamento, solidariedade e coletividade?

Conjecturando acerca de explicações que possam vir a colaborar com o entendimento acerca das questões que inspiram esta escrita, recorremos a Charlot (2019), que indica estarmos vivendo uma crise antropológica. Para além do progresso civilizatório e da incorporação de direitos humanos ao longo das últimas décadas, o autor argumenta que há um espectro de barbárie que permanece nas relações sociais e irrompe a partir do nazismo, do fascismo e da intolerância, por exemplo. Ao mesmo tempo, o pesquisador argumenta que animais e robôs são humanizados, o que configura um cenário de indeterminação do humano, que reverbera em um silêncio da teoria educacional quanto à pedagogia contemporânea a ser construída.

No recente período de pandemia de Covid-19, a humanização parecia, em certos momentos ao menos, ser invocada e praticada socialmente, seja com a sensibilização a partir das mais de cinco milhões1 de vítimas em todo o mundo ou a partir da intensificação da precariedade laboral, que aprofundou a miséria e amplificou as distâncias entre os mais ricos e os mais pobres. Esse espaço-tempo singular conformou uma crise civilizatória, como argumenta Klein (2020), já que à crise sanitária somou-se a social, a econômica e também a ambiental, forjadas através de séculos de dominação branca, cristã e masculina amparada em uma concepção de progresso violenta e excludente. A autora canadense, frente ao exposto, defendeu que, mobilizados pela fratura que demonstrou como o mundo estava quebrado deveria ocorrer a imediata reparação.

Nesse sentido, seria necessário ressignificar a vida e pensar em uma forma na qual todos pudessem vivê-la bem, reformulando a ideia de progresso que, até hoje, somente destruiu e segregou, e que, com o aumento da utilização de meios tecnológicos nas indústrias, torna seres humanos inúteis, já que não são exigidos como mão de obra e, assim, também não usufruem de bens de consumo.

Para Klein (2020), se algo não for feito (ou refeito), chegaremos mais rápido para a extinção. Aproveitar-se da sensibilização constituída durante a pandemia seria o modo de iniciar o processo de reconstrução civilizatória, antes que algo pior acontecesse. E, de fato ocorreu: todos nós acompanhamos estarrecidos as guerras! O que será da humanidade?

Embora nosso percurso esteja nebuloso, insistimos na frágil possibilidade de cultivo da centelha humanista, herança da Antiguidade, na cultura grega, por Sócrates (469-399 a.C.), filósofo e educador, considerado o representante de maior notoriedade nesse período. Seu método formativo pretendia que o discípulo alcançasse a verdade, o conhecimento e o governo de si, estando apto, a partir de então, a bem governar o outro e a pólis (Goergen apud Dalbosco; Flickinger; Muhl, 2019).

Ainda na Antiguidade, os romanos também pensaram elementos constitutivos para a educação humanista e pretendiam sua universalização. O modelo de formação denominado Humanitas foi alicerçado pela sociedade romana. Nessa perspectiva, segundo Bombassaro, “o ser humano possui uma força criativa autônoma que o torna capaz de formar livremente a si e de atingir o mais alto nível de excelência” (2009, p. 199). Dentre os seus representantes, destacou-se Sêneca (por volta de 4 a.C. – 65), que prosseguiu com a ideia de educação para a vida, na qual o objetivo do homem seria aprender a viver de acordo com a palavra, dizendo o que sente e sentindo o que diz (Sêneca, 2018).

Mesmo que na Idade Média, outras vertentes tenham se destacado, prococando quase que o apagamento das centelhas da educação humanista, ela ainda assim resistiu, por isso acreditamos que ainda resistirá. Destacamos alguns representantes que trouxeram ampla contribuição e, por essa razão, devem ser nosso suporte atualmente: Comenius (1592-1670), Locke (1632-1740), Rousseau (1712-1778), Kant (1724-1804), Pestalozzi (1746-1827), Herbart (1776-1841), Humboldt (1767-1835), Froebel (1782-1852), Dewey (1859-1952), Carl Ransom Rogers (1902-1987). Todos, de alguma forma se tornaram referência por terem lançado ideias e teorias educacionais ancoradas no pensamento humanista, contrariando o modelo de educação vigente. Procuraram, construir um olhar diferenciado à educação, com a percepção refinada sobre o fato de o aprendiz ser ativo e capaz, com direitos de participação na própria formação. As ideias inovadoras desenvolvidas por estes autores romperam com os dogmas da educação conservadora, que recusava a existência de capacidades do ser.

São autores clássicos, como os mensionados, que nos ajudarão na tão urgente e necessária reestruturação de processos educacionais, para se tornem menos excludentes; para que nos indiquem uma forma de se repensar a sociabilidade e de se buscar a constituição de modos de vida mais igualitários, democráticos e sustentáveis, salvando-nos.

A educação, nessa perspectiva, pode reconquistar seu propósito e ser mobilizada na formação de um ser humano comprometido não com sua lucratividade futura (poder), mas com o sentido lato de sua existência. E, como Klein (2020) invoca, precisa-se começar agora, com a formação de professores sendo talvez a principal frente para essa (re)construção, oportunidade vigorosa de mobilização para a humanização.

Endereço do texto completo (para quem quiser conferir)

https://periodicos.uepa.br/index.php/cocar/article/view/7248

1 Este número, contudo, pode chegar a quinze milhões, como disponibilizado em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-61332581. Acesso em: 29 mai. 2023.

Autoras:

Ana Lúcia Vieira

Doutoranda em Educação pela Universidade de Passo Fundo (UPF).  Professora da rede municipal de ensino de Passo Fundo, Rio Grande do Sul, Brasil. Integrante do Grupo de Estudos Formação Humana (UPF), do Núcleo de Pesquisas em Filosofia e Educação (NUPEFE-UPF) e do Grupo de Pesquisa em Educação, Filosofia e Sociedade (Universidade Federal da Fronteira Sul – UFFS).

Renata Cecilia Estormovski

Doutoranda em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS), Rio Grande do Sul, Brasil. Professora da rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul, Brasil. Integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Currículo, Ensino Médio e Juventudes (GEPCEM Unisinos/CNPq)

Edição: A. R.

Por quem os sabiás cantam?

Nos prenúncios da primavera, mesmo no centro de Passo Fundo, pouco antes do amanhecer, é possível ouvir o cantar dos sabiás. Afinal, por quem os sabiás cantam?

Na falta de uma resposta melhor, eu diria que, representando todos os pássaros do mundo, eles cantam em memória de Rachel Carson, a escritora e bióloga americana que, em 1962, com o lançamento do livro Silent Spring (Primavera Silenciosa), desencadeou toda uma discussão sobre o uso indiscriminado de pesticidas no mundo. Essas breves notas são sobre Rachel Carson e o contexto das discussões que sobrevieram à publicação de Silent Spring.

Rachel Louise Carson nasceu em Springdale, Pensilvânia, no dia 27 de maio de 1907. Foi uma criança tímida, relativamente solitária, que adorava ler e demonstrava talento para a escrita. Aprendeu, com a mãe, desde cedo, a respeitar a natureza, nutrindo especial admiração por pássaros e pela vida marinha.

Após o ensino médio (high-school), com o desejo de seguir a carreira de escritora, entrou para o Pennsylvania College for Women, onde começou estudando letras e acabaria, em 1929, se formando em biologia. Pela Johns Hopkins University obteve o grau de Mestre em Zoologia, em 1932. Em tempos de poucas oportunidades de emprego, valendo-se do seu talento de escritora, passou a produzir artigos para jornais e revistas sobre história natural. Em 1936 ingressou nos quadros do U.S Bureau of Fisheries, que seria sucedido pelo U.S. Fish and Wildlife Service em 1939. Neste órgão, assumiu o posto de editora-chefe, sendo responsável pelas publicações institucionais sobre o papel da ciência e da tecnologia na natureza.

Rachel Carson alcançou fama como escritora a partir de artigos publicados em jornais e três livros de sucesso: Under the Sea-Wind (1941), The Sea Around Us (1951) e The Edge of the Sea (1955). Com o êxito do livro The Sea Around Us, ela, em 1952, pediu demissão do cargo que ocupava no Fish and Wildlife Service, passando a dedicar-se exclusivamente à literatura.

Primavera Silenciosa foi publicado, inicialmente, na forma de artigos no jornal The New York Times, em junho de 1962. O livro saiu em setembro daquele ano, transformando-se imediatamente em sucesso de vendas. O grande mérito foi abrir o debate público sobre o uso indiscriminado de pesticidas químicos, a responsabilidade da ciência e os limites do progresso tecnológico, dando início à formação da consciência ambientalista no mundo.

Rachel Carson recusou-se a uma cruzada emocional em defesa do ambiente. A sua posição sempre foi de questionar o uso indiscriminado de pesticidas (inseticidas, particularmente) e não de proibição de uso.

Defendia a tese de que fazemos parte do mundo natural e envenenando a natureza, em essência, estamos envenenando a nós mesmos. Afirmou que os venenos da época (destinado a matar insetos) não deveriam ser chamados de inseticidas e sim de biocidas. Defendeu o direito das pessoas se sentirem seguras e não sofrerem as consequências (desconhecidas) de venenos aplicados por terceiros. Numa das partes mais controvertidas do livro, Carson apresentou evidências que alguns tipos de câncer em humanos seriam causados pela exposição aos venenos químicos.

Desnecessário lembrar que Silent Spring angariou inimigos fervorosos, tanto nos meios acadêmicos quanto na indústria química. O DDT, de grande aliado da agricultura na luta contra os insetos pragas, passou a ser visto como vilão. Rachel Carson foi atacada de diferentes formas, na tentava de desacreditar o seu trabalho. Houve quem a acusasse de alarmista, que seu livro não tinha base científica, que ela não integrava nenhuma instituição acadêmica, que não possuía um título de Ph.D.; em resumo, que não tinha credenciais científicas para merecer credibilidade.

Não satisfeitos, alguns passaram a atacar a sua vida pessoal. Diziam que era uma mulher histérica, uma solteirona que criava gatos e amava pássaros, inclusive, rotularam-na de lésbica, em função da sua amizade com Dorothy Freeman, e, sendo relativamente bonita e solteira, só podia ser comunista (uma acusação forte em tempos de Guerra Fria).

Enquanto se debatia com os seus detratores, RacheL lutava contra um câncer no seio esquerdo, descoberto próximo do lançamento de Silent Spring, que viria causar a sua morte, aos 56 anos de idade, no dia 14 de abril de 1964. Não obstante o silêncio daquele dia de primavera de 1964, ela viveu tempo suficiente para ver iniciadas as discussões que baniriam o DDT e resultariam, alguns anos depois, na criação da Agência de Proteção Ambiental (EPA) nos USA.

Em tempo, a Ernest Hemingway o pedido de escusas pela (quase) indevida apropriação do título “Por quem os sinos dobram” (For Whom the Bell Tolls).

Tem gente preparada para inventar nomes, sobrenomes e propagandas sofisticadas, capazes de iludir gente humilde de nossa terra que planta. E tem gente que usa sofisticados meios para convencer quem compra os produtos que resultam desta engenhosa produção (de alimentos e de valores agregados). (Autor Nei Alberto Pies) Leia mais: https://www.neipies.com/remedio-para-as-daninhas/

(Do livro A ciência como ela é…, 2011.)

Autor: Gilberto Cunha

Edição: A. R.

Encontrei a resposta

Se o pão for repartido, se a solidariedade for multiplicada, se as guerras forem subtraídas e se a justiça social for somada com a paz e o respeito entre todos, estaremos construindo as melhores respostas para as perguntas mais cruciais!

O fato se deu na fila da padaria do supermercado. Enquanto fazia meu pedido, lancei uma pergunta despretensiosa, daquelas que nos vem espontaneamente e que a gente emite, muitas vezes, sem pensar no seu teor e na sua amplitude. A tal pergunta foi: tudo bem? Com um sorriso largo, enquanto ia providenciando a encomenda, a atendente respondeu de forma inusitada: “Acho que sim”. Minha reação foi de um certo espanto. Como alguém pode não saber se está bem! Olhamo-nos e rimos juntos. Eu lhe disse: nossa, que resposta inteligente!

Perguntar se tudo está bem é uma forma cordial de tratar as pessoas. Porém, embora pareça simples, a questão é muito abrangente e pode ser bastante complexa. O que significa mesmo estar bem? E como saber, de fato, se tudo está bem? E mais: como garantir que tudo e todos estejam bem? Estar bem pode não significar exatamente viver bem consigo mesmo e com os outros.

Além do bem estar é importante perguntar-se pelo bem viver, como fazem os povos indígenas andinos. Estar bem pode representar apenas uma sensação ou situação momentânea e individual, ao passo que bem viver implica uma condição coletiva e duradoura. Envolve questões de diversas ordens e de âmbito individual, familiar, comunitário e societário.

Como dizer que tudo está bem quando há várias guerras em pleno andamento ao redor do mundo? Guerras de grande e de pequeno porte, aquelas barulhentas e outras tantas silenciosas, porém todas destrutivas. É forçoso dizer que tudo vai bem e que tudo está certo quando os extremos climáticos produzem tantas tragédias sociais, ambientais e econômicas. De que maneira afirmar que tudo corre normalmente quando há tantas pessoas desempregadas, subempregadas, com fome, morando mal, conflituadas, violentadas, excluídas, deprimidas e adoecidas?

Muitas vezes é difícil saber se nós mesmos estamos bem. Ocorre que há aspectos mais íntimos a nós do que nossa consciência ou capacidade de identificar e tratar alcança. É por isso que perguntamos ao psicólogo: como eu estou? Outras vezes indagamos do médico: como estou eu? Ou ao conselheiro espiritual: pode me ajudar a organizar as desordens que me povoam? E muito desejamos que as respostas dadas por esses e outros profissionais da saúde física, psíquica e espiritual nos sejam boas. Que tudo esteja bem é, sim, nosso desejo mais radical.

O que fazer para ficar bem ou para melhorar das situações e realidades que nos afligem, aterrorizam, aprisionam e destroem enquanto seres humanos e seres sociais?

Em tudo, vale lutar de forma decisiva para mudar o que é possível fazê-lo ou, de outra parte, buscar maneiras de administrar o que é ou se torna impossível de modificar. A sabedoria consiste precisamente em distinguir uma coisa da outra.

No meio das dúvidas, dos conflitos e das turbulências, sempre encontramos respostas. Umas são satisfatórias, outras nem tanto. Quando obtemos respostas como essa dada pela mulher da padaria do supermercado, podemos concluir que somos ilustres desconhecidos de nós mesmos. Há respostas que vêm recobertas de outras dúvidas ou de novas perguntas. Muitas vezes, quando encontramos as respostas, mudam as perguntas. Assim, somos eternos buscadores de respostas para perguntas infinitas, seres sempre incompletos e em permanente processo de construção. Darmo-nos conta disso já é uma grande conclusão.

Há perguntas feitas por multidões na fila da padaria e do supermercado. Elas emergem da exigência vital de satisfazer as necessidades básicas e essenciais de todos os dias. Mas, nem sempre as melhores respostas são aquelas dadas pelo modo capitalista de ser, em que o dinheiro se torna a condição obrigatória e exclusiva para ter o direito de comer e de viver bem.

Para que tudo possa estar bem, há um longo caminho a percorrer. Mas, se o pão for repartido, se a solidariedade for multiplicada, se as guerras forem subtraídas e se a justiça social for somada com a paz e o respeito entre todos, estaremos construindo as melhores respostas para as perguntas mais cruciais!

Viver para pensar ou pensar para viver? Apenas viver por viver ou tão somente pensar por pensar? Se pensar, refletir e imaginar é bom, viver bem é ainda mais importante. Mas, se conseguirmos pensar para viver melhor, será bem mais interessante. Leia mais: https://www.neipies.com/o-bem-viver-depende-do-bem-pensar/

Autor: Dirceu Benincá

Edição: A. R.

Saci-Pererê & Halloween: contrapontos e consensos

As lendas do Saci-Pererê e do Halloween constituem, respectivamente, parte do folclore
brasileiro e, de outra do folclore irlandês e norte-americano. Ultimamente a festa do
Halloween é celebrada mundo afora, especialmente nos EUA, bem como no Brasil.

As lendas compõem partes fundamentais do folclore linguístico e literário dos povos.
Comemorá-las e estudá-las em suas múltiplas significações é fundamental ao
entendimento da História e da identidade das nações. Por coincidência ou não, a data
das duas lendas é comemorada no mesmo dia e mês, isto é, 31 de outubro.

Estudiosos sugerem que uma constitui contrapontos e o consensos de outra. O mais
certo é que os mitos têm dimensão universal e a lenda regional. Sob essa ótica, ambas
são lendas (legendas) e mitos (mentiras bem contadas). Dizem que a mentira é a
verdade disfarçada, espraiando-se mais rápida da frágil verdade. As Fake News estão aí
como provas contundentes.

O escritor Monteiro Lobato, em 1917 fez uma consulta popular através de cartas,
solicitando aos leitores do jornal O Estado de São Paulo, relatos e experiências
relativas ao simpático, travesso e moleque menino de uma só perna. Assim, diante
da riqueza das informações recebidas, publicou a obra O Saci-Pererê: Resultado de
um Inquérito.

Pronto! Lá consta o registro escrito do que circulava oralmente nos quadrantes do rico
folclore brasileiro. Há que se observar que a história do Saci remonta ao tempo da
escravidão negra havida no Brasil em seus primórdios.

Fisicamente, o menino Saci é um genuíno tipo que reúne as características dos
afrodescendentes, europeus e de brasileiros típicos. Vê-se nele que só tem uma perna,
uma carapuça vermelha, um cachimbo na boca e um furo na mão. Psicologicamente,
percebe-se que é um ente livre que vive fazendo artes: azeda o leite, quebra a ponta das
agulhas, embaraça os carretéis de linhas, esconde as tesouras, gora os ovos, coloca
sujeirinhas na comida, atropela as galinhas, vira os pregos para cima, espanta os cavalos
e tantas outras peraltices de menino travesso. Segundo o que testemunha o Tio Barnabé:
“O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade que não faça”

O menino Saci, agora livre da escravidão, para chamar atenção, apronta, como todo
garoto, as artes dos guris. É especial, pois resultado da maldade escravagista, perdeu
uma perna, mostrando que a escravidão foi terrível também com as crianças. Seu
cachimbo incorpora dos povos originários do Brasil, lembrando que os caciques
selavam acordos de guerra ao fumarem o cachimbo da paz. Usa a carapuça vermelha,
revelando que assimilou a cultura europeia. Enfim, carrega o gorro adotado pelos
camponeses ibéricos e republicanos após a Revolução Francesa em 1789. Saci tem um
furo na mão para fazer mágicas com as brasinhas acesas, que servem também para acender o cachimbo da paz. Originário de três povos, Saci-Pererê representa muito bem
a folclórica e controvertida História do Brasil.
Por outro lado, há a lenda da Halloween. Cada vez mais adotada pelos diferentes povos
ocidentais, crianças e jovens celebram o Dia das Bruxas, vestindo máscaras espantosas e
roupas extravagantes, ao que se pode designar como carnavalização, pois de forma
lúdica, fazem alegorias ao feio mais bonito e interessante, ao mundo das sombras, dos
espíritos, da morte e das almas.

O festival da lenda Halloween é originário da Irlanda, tendo inicialmente o nome
Samhain. Surgida no Século VIII, comemorava as colheitas, o fim do verão e o
início do novo ano celta.

A celebração do Dia das Bruxas (Halloween) é observada no dia 31 de outubro, isto é,
na noite anterior (véspera) do Dia de Todos os Santos. Nela estão presentes bruxas,
fogueiras, caveiras, túmulos, dráculas, vampiros…Enfim, tudo ligado à escuridão e à
morte. No fundo, uma leve fusão das tradições pagãs com as tradições católicas, ou
vice-versa.

Portanto, a lenda do Saci-Pererê, representa o espírito de liberdade, paz, respeito à
natureza e espontaneidade do povo brasileiro. A personagem simboliza a fantasia e o
bom espírito da criançada brasileira. Por outro lado, Halloween celebra a eterna
dualidade contraditória da alma humana: alma & corpo; vida & morte; dia & noite;
bonito & feio; o sagrado & profano; tradições cristãs & tradições pagãs, dentro outras
antíteses.

Parafraseando Machado de Assis, pode-se deduzir que nem tudo têm os cristãos e nem
tudo têm os pagãos. Com os haveres de uns e de outros há de se estabelecer mais
consensos do que contrapontos.


Autor: Eládio Vilmar Weschenfelder

Edição: A. R.

Um contrato social em defesa do bem comum

Vivemos um tempo em que soa estranho defender um contrato social que prime pelo bem comum. Nosso cenário é marcado pelo individualismo, pela competitividade, pela ganância, pelo desejo insaciável de poder e de dinheiro que caracteriza o modo de vida da grande maioria das pessoas.

Sabemos que não é possível a vida individual sem o contato com os outros, mas esquecemos que viver com os outros implica em reciprocidade, escuta, respeito, honestidade, compaixão e tantas outras virtudes que frequentemente são invocadas, mas pouquíssimas vezes são vividas e praticadas. Nossas relações com os outros, consciente ou inconscientemente, frequentemente são mercantilizadas, e quando isso acontece, tratamos os outros como objetos e não como sujeitos que precisam ser reconhecidos pelas suas singularidades. Talvez por isso seja tão estranho defender um pacto social que defenda o bem comum.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), foi um dos filósofos que se debruçou sobre estas questão. Nascido em Genebra, foi um dos mais influentes e importantes pensadores franceses do Século XVIII no campo da política, da filosofia moral e da educação. Suas ideias foram centrais para o desenvolvimento do pensamento iluminista e para a Revolução Francesa que introduziu mudanças radicais na sociedade da época e cujas repercussões chegam até os dias atuais na forma como é compreendido o poder, as relações sociais, a infância, a desigualdade e a própria natureza humana. Rousseau foi um leitor de Locke, e como este desenvolveu uma teoria sobre a origem da sociedade a partir da ideia do contrato social.

Escreveu diversas obras dentre as quais destacam-se Discurso sobre a desigualdade entre os homens, Emílio ou da Educação, Contrato social e Confissões.  Também colaborou, elaborando o verbete “Economia Política”, com a Enciclopédia, um famoso compêndio editado em 1755 por Diderot que marcou o pensamento iluminista em diversos aspectos. Se correspondeu por diversos anos com importantes pensadores da época tais como Voltaire, D’Alembert, David Hume dentre outros. Compôs peças musicais e, quase no final da vida, dedicou-se aos estudos de botânica.

Devido as críticas que fazia à sociedade da época, foi perseguido e teve de viver por longo tempo no exílio onde pode conhecer outras culturas e difundir seu pensamento.

Ao contrário de Hobbes, que dizia que o homem por natureza é mau (“o homem é lobo do próprio homem”), o ponto de partida da filosofia de Rousseau é de que “o homem nasce bom, a sociedade o corrompe”. Inicia seu livro Contrato Social com o seguinte dizer: “o homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se acorrentado. O que se crê senhor dos demais, não deixa de ser mais escravo do que eles”. É essa escravidão que impede o ser humano de desenvolver suas potencialidades e viver uma vida digna.

A grande questão para Rousseau consiste em saber como preservar a liberdade natural do homem e ao mesmo tempo garantir as segurança e o bem-estar que a vida em sociedade pode lhe dar. Sua resposta se encontra justamente no Contrato Social.

Podemos dizer que temos em Rousseau os fundamentos das democracias modernas, pois na sua teoria do contrato social, a soberania política pertence ao conjunto dos membros da sociedade, tendo seu fundamento na vontade geral que não resulta apenas na soma da vontade de cada um.

A vontade particular e individual de cada um diz respeito a seus interesses específicos, porém, enquanto membro cidadão e membro e de uma comunidade, o indivíduo deve possuir também uma vontade que se caracteriza pela defesa do interesse coletivo, do bem comum. A educação, por sua vez, possui o papel insubstituível de constituir a formação dessa vontade geral, transformando assim o indivíduo em cidadão, membro de uma comunidade.

A valorização da experiência individual, o culto à natureza, a importância dos sentimentos e das emoções, a relação entre arte e a filosofia, a necessidade de cuidar da infância, o desafio de formar cidadãos educados para compor uma sociedade justa, a luta para superar a escravidão e a corrupção dos costumes, os pressupostos para construir um contrato social que viabilize uma sociedade decente são temáticas que compõe a extensa obra de Rousseau.

Mais de 250 anos nos separam da época em que ele viveu. Muitas transformações ocorreram na forma como se organizou a sociedade e suas distintas instituições. Ideias que eram consideradas impossíveis em sua época se tornaram realidade na sociedade contemporânea. No entanto, ainda estamos longe de construir uma sociedade, bem como estamos ainda distantes de um processo educativo compatível com os ideais propostos por Rousseau de formar um cidadão comprometido com o bem comum e a vontade geral.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: A. R.

Vamos convidar nossos adolescentes a trocar empatia? Somos exemplos?

Vamos falar sobre rejeição, empatia e superação com nossos adolescentes?  Ainda haverá tempo para ajudá-los?

A empatia é o sentimento e a ação que devem ocupar todos os vazios na escola, originadas em dias de incompreensão, discriminação e desrespeito, a uma multidão de alunos.

O bullying e as demais agressões que assistimos são o gatilho comportamental de relacionamentos desajustados e intolerantes, muitas vezes vivenciados em famílias disfuncionais, nos pátios escolares ou até nas salas de aula.  E que são alimentados pelos anos, em mágoas e frustrações, manifestando-se no ritual de preparação para a vingança.

Na base desta violência, encontramos os seus motivos prováveis, as rejeições e hostilizações silenciosas, sofridas em corredores e afins, e que, em alguma manhã, farão retornar ao colégio o aluno, agora o próprio algoz, para extravasar seu ódio incontido.

Junto às famílias, o alcance sempre será limitado mas, através escolas, poderemos prevenir?

Ainda haverá tempo para semear empatia?

Todos os caminhos da infância e da pré-adolescência conduzem para o fim de um mundo de imaginação e fantasia. Ao terminar esta passagem, enfrentam, finalmente, os contos e as histórias reais de seus adultos.

Os adultos somos nós que, normalmente submersos e comprometidos em todas as nossas realidades, não percebemos que os jovens precisam muito pouco, mas do que nos é mais caro nestes dias de carga emocional intensa:  nosso tempo.

Alguns adolescentes demoram para despertar em sua caminhada, à maturidade, à responsabilidade e as contradições da vida adulta. E acontece em uma velocidade tal que a eles não é permitido o tempo necessário, para lhes explicar que a vida que os chama, de fato, pode ser uma jornada de mais cores e menos dores.

Há um desamparo que os aguarda, contudo. Um vazio que deve ser discutido com seus presentes, ou, ausentes. 

Estes jovens, que vivem a transformação de seus sonhos pelas primeiras experiências, têm que ser ouvidos.  Não será apenas um moletom a abraçá-los, mas que todos em seu entorno os ouçam, vejam-nos e os acolham. Em seus delírios aparentes e em suas soluções descabidas, há planos, desejos e inconformidades. 

Dos dias de juventude, com a sua impetuosidade e sua percepção aguçada, de quem tem de mudar este mundo de incompreensões, pode lhes restar somente a fantasia, de que nada nessa vida, até agora, fez sentido. Isso se não os ouvirmos e se a eles não forem estendidas algumas frações de horas, pelo menos as que dispomos ao final do dia, cansados, para ouvir suas primeiras batalhas.

Senão, forma-se o vazio do desamparo, porque no tempo lúdico e no hiato de quaisquer compromissos, seus pensamentos se inclinam a todas as promessas de um mundo utópico, mais justo, em sua opinião, este mundo fácil que os vendedores de sonhos têm a oferecer.

É o tempo de uma passagem rápida, onde passeiam na ponte da imaginação, entre os suportes e pesadelos dos adultos, que ora os aplaudem, ora os censuram.  No desconforto de sua família ou de professores exaustos, na convivência com as rejeições silenciosas, bullyings de todas as dimensões, forma-se o vácuo de desamparo, onde sempre se acha uma porta de saída, para o prazer e a vertigem que as drogas se prestam a prometer.

Livrar ou resgatar os jovens de promessas de uma vida surreal, depois de iniciados no caminho de morte da alienação, é muito mais difícil do que acolhê-los, enquanto há tempo.  Não é uma tarefa fácil, entretanto, a sua prevenção.

Por esse motivo, antes que um vendedor de utopias venha a adotar um jovem já cansado, de sonhar e sofrer, e a ele ofereça a viagem lúdica e enganosa, em uma trouxa de drogas qualquer, é preciso conversar, ouvir, pensar ou até chorar ao seu lado.

Porque o acolhimento de uma pessoa que não tem o seu interior consolidado e desenvolvido com as sementes da esperança, resta a desilusão de uma vida sem rumo e amarga, pois muitas vezes veem espelhadas em outros adultos, igualmente perdidos e sem auxílio a lhes oferecer.

Que tal falarmos sobre empatia com nossos jovens?  A atitude de colocar-se no lugar do outro, não somente lembrar, mas ver e sentir sua dor, enfim, ajudar.  Porque não há antídoto melhor para a aparente falta de sentido na vida e seu propósito, do que acolher o nosso igual, ou, desigual, colocando-se ao seu lado e participando no resgate de sua angústia.  Não há vazio que resista à nossa escolha, em salvar da aflição e da solidão, quem está crescendo em seu abandono.

Trocar cadernos e livros, borrachas e lápis, trocar horas de conversas e risos, segredos, compartilhar nossa caminhada com o colega mais próximo, fazer o bem, enfim, pode se constituir em uma barreira repelente a pensamentos tóxicos, individualistas, e que acham que a alegria ou a felicidade genuína, dependem de uma dose de qualquer promessa de alucinação, em uma viagem, sem destino e sem volta.

Descobrindo que mãos que se estendem e se doam à sua família, amigos e colegas, crescendo juntos, em alegria e cumplicidade, pode-se alcançar a felicidade possível, a plenitude do gosto pela vida mais cedo e dela nunca mais afastar-se.

Autor: Nelceu A. Zanatta

Edição: A. R.

Uma feira de livros sob o olhar e as lentes do fotógrafo

Os leitores e leitoras, os escritores e escritoras, os visitantes e a comunidade em geral tem diferentes percepções sobre um evento como uma Feira de Leitura, 35ª Feira de Livros de Passo Fundo, realizada no mês de outubro de 2023. Geralmente quem registra as atividades através de fotografias não é lembrado nem mencionado pelas repercussões dos eventos culturais que estão sob o crivo de suas lentes.

A Prefeitura Municipal de Passo Fundo juntamente com a APLetras, retomaram e promoveram a Feira do Livro de 12 a 22 de outubro no Espaço Roseli Doleski Preto, envolvendo os participantes e comunidade passofundense em atividades entre os prédios do Teatro Múcio de Castro, Academia de Letras, Instituto Histórico de Passo Fundo e Biblioteca Pública Municipal.

Entrevistamos Augusto Albuquerque, fotógrafo que registrou e documentou, através de suas lentes, os momentos mais importantes e peculiares da 35ª Feira do Livro de Passo Fundo.

Como foi receber o convite para ser o fotógrafo oficial da Feira do Livro de Passo Fundo?

O convite surgiu através da minha ex-professora e amiga que havia falado com a Secretária de Cultura e ficou sabendo que estavam precisando de um fotógrafo para a Feira do Livro. Como já havia fotografado outros eventos culturais, aceitei na hora. 

Quais foram seus maiores desafios e suas maiores realizações na cobertura deste importante evento cultural de nossa cidade?

Confesso que não foi fácil. A programação era bem grande e eu cobri toda a feira sozinho. Tinha que fazer os registros, descarregar os arquivos no computador e tratar as fotos. Isso tudo durante 8 dias, todas as manhãs, tardes e noites.

Foram mais de 1300 registros de toda a programação em que fotografei, creio eu, todos os artistas e escritores que participaram dessa edição da feira. Esses registros foram enviados para eles e ficarão armazenados em uma pasta que ficará à disposição da Secretaria de Cultura.

Não podia deixar de fora a questão do mau tempo. A chuva atrapalhou um pouco, mas felizmente, não comprometeu o resultado final.

Na sua visão, o que representa a retomada da Feira do Livro num lugar aberto, público, de tanta importância na história da cidade como é o Espaço Cultural Roseli Doleski Preto?

Creio que o espaço foi uma das melhores novidades da Feira. A estrutura, contando com o Teatro Múcio de Castro, Academia de Letras, Biblioteca Municipal e Instituto Histórico, possibilitou que todas as atividades da programação fossem realizadas sem comprometer o andamento da Feira, mesmo com a forte chuva que tivemos ao longo da semana.

Detalhe: auditório da APLetras, um dos locais utilizados para realização de atividades.

Como vês a fotografia? Como um registro ou como uma arte?

Uma coisa não isenta a outra. Pode-se fazer registros com um olhar mais artístico do ponto de vista da estética. Como sou Jornalista, minha preferência sempre será por fotografar os fatos e acontecimentos da nossa sociedade/cidade. Entretanto, não deixo de lado a parte que se deve pensar em como deixar a fotografia mais atrativa, acredito que isso vai muito da vivência e da carga cultural que cada um carrega.

Como é fotografar nesta era do photoshop, dos filtros, das redes sociais, do instantâneo, num tempo em que todos podemos registrar, produzir e reproduzir imagens?

Do ponto de vista técnico, o fotojornalismo exige uma agilidade maior para fazer os registros. Não é qualquer celular que vai dar conta de fotografar certos acontecimentos, pois na maioria das vezes os movimentos rápidos do que é fotografado e a principalmente a luz do ambiente não nos dão as melhores condições de fotografar. Logo, um bom equipamento faz bastante diferença e se faz extremamente necessário se você quiser ter um resultado acima da média. Por enquanto, quando o assunto é fotojornalismo, acredito que um celular ainda não tem a melhor capacidade técnica de substituir uma boa câmera fotográfica, mas vale salientar em certas situações, principalmente quando o objeto a ser fotografado está estático, os celulares de última geração podem quebrar um bom galho.

Qual foi a imagem da Feira do Livro que mais o marcou?

Acho que nessa Feira as imagens que mais me marcaram não foram aquelas em que havia uma estética melhor e bem pensada, e sim aquelas imagens que apresentaram os resultados de uma Feira do Livro que superou as expectativas devido às novas iniciativas. Como por exemplo, o novo espaço em que foi realizado, muito mais acessível para a comunidade. Outra iniciativa que achei interessante fotografar foram as crianças utilizando o passaporte literário, que foi uma iniciativa da Prefeitura Municipal para incentivá-las a lerem cada vez mais. Do ponto de vista artístico e simbólico é extremamente difícil escolher uma, pois foram muitas apresentações realizadas nesta feira e acredito que em cada uma deve ter tranquilamente umas 5 fotos que podem representar muito bem a 35ª Feira do Livro de Passo Fundo.

Uma frase sobre fotografia.

“Você deve exigir o melhor de si. Você deve procurar por imagens que ninguém mais possa fazer. Você deve aproveitar as ferramentas que tem de maneira cada vez mais profunda” (Willian Albert Allard)

Fotos: Augusto Albuquerque

Edição: A. R.

Os limites do barulho

Helena é uma mulher doce, com alma de menina. Ou melhor dizendo, podemos defini-la como de sabor caramelo salgado ou agridoce. Isso porque, a sua compaixão se altera entre críticas fundamentadas que, por vezes, podem soar nem um pouco agradáveis aos paladares do senso comum. Com vocês, apresento uma nova personagem de minhas narrativas: Helena!

Fazia um bom tempo que Helena desejava refletir sobre o barulho, ou melhor, sobre os seus limites, aliás sobre a falta deles, e até mesmo significados. Na verdade, ela se “inspirava” toda vez que:

  1. Helena se emputecia com um vizinho infeliz acordando cedo e se sentindo no direito de colocar uma música para todo o prédio ouvir, e acordar também;
  • Quando aquele carro rebaixado com som alto passava, e fazia os vidros da sua casa tremer, enquanto ele achava que estava arrasando, Helena pensava que o tempo daria um jeito de deixá-lo surdo!
  • Quando a seita religiosa de “sei lá o que desta vez” considerava que sua fé era superior a qualquer bem-estar coletivo e gritava EM NOME DE JESUS!!! Fora quando eles não tentavam exorcizar alguém;
  • Quando os sinos da igreja tocavam tipo tele-cena, de hora em hora, para nos situar no tempo, sem ninguém solicitar essa “gentileza” barulhenta;
  • Quando as lojas próximas à casa de Helena resolviam enfiar a caixa de som para fora, e considerar que era seu direito colocar o volume no máximo porque era dia de promoção;

Foi justamente em um belo dia desses, enquanto era dia de promoção, que Helena, trancafiada em seu quarto, como de costume, ao som de uma música ensurdecedora,  começou milagrosamente a divagar sobre o barulho (acho até mesmo que foi uma estratégia de sobrevivência do seu cérebro, sabe, quando a pessoa sai do seu corpo? No caso de Helena ela se escondeu no corpo mesmo, ou na mente).

Bem, podemos pensar que um barulho ou uma frequência de sons indesejada e relativamente alta, existe na humanidade desde que os nossos ouvidos foram capacitados a captar o som. Podemos alegar que ele até mesmo deva ter a sua relação com o processo evolutivo. Por exemplo, um rugido de um leão pode ser ouvido a 8Km de distância e esse som pode ter vários sentidos, desde comunicação, demarcação de território e até mesmo acasalamento.

Na verdade, muitos humanos ainda utilizam um tom de voz elevado para impor medo, ameaçar e demarcar certa superioridade. Inclusive, a voz masculina possui mais propriedades de robustez que a feminina, e talvez, em função disso, uma certa propensão a utilizar mais esse recurso. O único, porém, é que, em uma sociedade adaptada ao complexo jogo das relações sociais, com o mínimo de respeito, já aprendemos que falar alto pode amedrontar, mas, não vai resolver os nossos problemas, não de forma inteligente ou efetiva. O mesmo vale para a violência, pensou Helena.

E é curioso traçar um paralelo também com a questão do acasalamento. Por exemplo, na cidade onde Helena mora, havia um evento, em que um bando de adolescente se reúne, estacionam os carros, aumentam o som, e bebem ao redor daquele barulho infernal. Mais infernal ainda, porque, você não sabe nem o que está ouvindo, porque aquilo vira uma competição de quem tem o som mais potente. Então, podemos dizer que as pessoas também não conversam por lá, porque conversar, requer que você não só ouça, como também entenda o que o outro está dizendo!

O ponto que Helena observou é que talvez, quanto mais potente for o seu som, mais gente ele atraia. Geralmente, quem possui os carros são os meninos, e quem é atraído pelos carros com sons potentes? As meninas. Então, sim, talvez, esse caos seja uma reflexão entre a relação de barulho e acasalamento influenciando a sociedade contemporânea.

Mas, até o momento, Helena refletia apenas sobre o som alto, no entanto, como ela alegou anteriormente, o barulho também se constitui como uma frequência de sons indesejados. Ou seja, podemos refletir que dependendo do ponto de vista, um barulho pode não ser um barulho. Por exemplo, a caixa de som da loja projetada para fora no dia de promoção, não era um barulho para os funcionários da loja, que pareciam estar curtindo aquele “som”.

Por outro lado, pra Helena, em casa, que tentava esperançosamente ter paz, era um barulho. Era um intruso indesejado na harmonia de sua atmosfera. Por vezes, Helena até mesmo tentava se convencer que aquele poderia ser um desafio para conseguir aprimorar o seu foco. Na verdade, isso funciona para muitas contrariedades que ela encontrava por aí, que também as ajudam a expandir os seus limites de paciência. No, entanto, ela também constatou que tudo tem limite, até mesmo, a sua paciência!

Falando em limites, Helena refletia que um dos principais problemas do barulho, é que a gente não consegue ver ele. Isso porque a nossa ideia de limites parece estar estritamente relacionada a visão. Ou seja, parece ser infinitamente mais fácil dizer os limites de algo, quando conseguimos visualizar ou ter uma noção espacial. Por exemplo, Helena imaginou aquele barulho transformado em uma bola gigante arrebentando a sua parede. Bem, nesse caso ficaria muito mais fácil alegar que alguém estava passando dos limites, não é mesmo?

Eu lembro que uma das coisas que ajudava Helena a se acalmar era o fato de pensar que aquele barulho infernal daquela maldita loja seria apenas um dia – o dia de promoção.

Apesar disso, Helena se assustava ao observar o seu corpo reagindo àquele barulho, ela se sentia incomodada, desnorteada e exausta ao mesmo tempo. Isso talvez, seja em função de sua hipersensibilidade, mas, talvez, seja só pelo fato de Helena ser humana e ter bom senso?

Por outro lado, não saber quando o barulho irá acabar pode mesmo ser enlouquecedor. Helena alega isso com muita propriedade, porque, essa mesma loja, há um tempo, projetava todo o santo dia a caixa de som para fora. Até que depois de várias tentativas de conversa, eles resolveram deixar ela dentro da loja. O irônico mesmo foi o fato de que, quando Helena conseguiu isso, uma outra loja abriu com o mesmo “sistema”. Quando Helena foi conversar, ela recebeu a seguinte resposta: são ordens superiores.

Aqui entramos com uma observação interessante que Helena intitula como hierarquia engessada. Ou seja, a ideia de que aquele funcionário era peça de um mecanismo maior, e simplesmente executava ordens. Com isso ficava até mais fácil de não se responsabilizar pelos seus atos, como acontece com muita gente alienada. A culpa era de seus superiores, e ele nada tinha a fazer. Será mesmo?

Helena refletia: e se o seu chefe mandar matar o gato que entra todo dia na sua loja sem pedir, você vai matar também? E também não vai se sentir culpado, pois, quem mandou matar foi o seu chefe? (Se você não gosta de gatos, pode substituir por cachorro ou até mesmo uma pessoa).

Naquele momento o cérebro de Helena foi longe, ao observar que aqueles modelos de funcionários são ótimos para sistemas fordistas, em que ele precisa executar um trabalho repetitivo sem precisar raciocinar o que está fazendo. Também são eficazmente substituídos por robôs. Se você chefe, quiser ter controle total da sua empresa, contrate-os. Por outro lado, não se sinta exausto ou até mesmo indignado quando você precisar falar para ele fazer tudo, ao invés de promover o pensamento crítico e a autonomia.

O mais trágico de observar é que Helena refletia o quanto esse sistema contaminava desde a educação brasileira, até mesmo o sistema político. E eu compreendo a tamanha preocupação na contemporaneidade, onde estamos eficazmente sendo substituídos por máquinas, e projetamos um futuro de muitos desempregados. De fato, se algo aqui não mudar, serão muitos desempregados. O ponto de discussão é: impedimos a ascensão das máquinas, ou alteramos o sistema para que essas pessoas sejam capacitadas a não agirem mais como uma? Mas, talvez, isso será tema para outra reflexão, voltemos ao barulho.

O porém é que, em amplo espectro, Helena observava que todos os exemplos citados giravam em torno de uma visão individualista. Seja pelo fato do vizinho colocar a música alta e achar que todo mundo quer ou deve ouvir, ou seja, que ele é o centro do universo e que talvez o mundo deveria pensar e ter os mesmos gostos musicais que ele, seja pelos interesses privados das lojas que se sobrepõem ao bem-estar coletivo.

A conversa acaba ganhando ainda mais profundidade, quando entramos no domínio religioso. Ou seja, Helena tinha parado para se dar conta no quanto parecia absurdo questionar uma passeata religiosa, em que eles buzinavam ininterruptamente por 8h seguidas, ou criticar o sino da catedral, que faz barulho de hora em hora, ou até mesmo o barulho que aquele determinado culto faz e que incomoda o quarteirão inteiro. Em nome de Deus, ou de algo “maior” tudo parece ser permitido ou até mesmo justificado!

Apavorada, Helena se deu conta de quanto essa visão poderia ser perigosa. Isso porque, uma visão egocêntrica de mundo, que considera que a nossa forma de ver, a nossa religião, os nossos hábitos e costumes, são os verdadeiros (e a história está aí para comprovar o quanto a verdade financia atrocidades), parece fazer desmerecer e se impor a qualquer opinião contrária.

O único porém, é que Helena considerava não haver maior desrespeito divino do que quebrar a harmonia, do que desrespeitar a pluralidade, considerando que a sua fé é superior a de outro. Se colocando acima de alguém. E é isso que fizemos toda vez que nos sentimos no direito de fazer barulho, sem considerar o bem-estar coletivo. 

Helena deu risada, com essa reflexão ela havia lembrado de sua avó, que gritava toda vez que falava ao telefone. Helena imaginava que sua avó acreditava que o som precisava chegar até o outro lado do mundo, era instintivo. Ela considerou que algo parecido acontecia com os eventos religiosos que faziam muito barulho. Parece que para Deus ouvir a gente precisa gritar, ou buzinar bem alto, até o som chegar lá em cima! É um contrassenso quando paramos para refletir que o maior exemplo de espiritualidade ou conexão que temos com o divino acontece no silêncio.

Então, a sugestão seria repensarmos conscientemente essas manifestações de fé. Por exemplo, não estaria muito mais de acordo com os preceitos religiosos, ao invés de buzinar para comemorar o dia de um santo, fazer uma campanha de arrecadação de alimentos e ajudar a quem precisa? Fazer um mutirão para restabelecer a beleza em alguma praça da cidade? E que tal um levantamento dos pontos críticos do trânsito e um movimento popular para reivindicar melhoras nisso e prevenir acidentes?

Helena acreditava que São Cristóvão ficaria orgulhoso da gente, além de não precisar utilizar o seu protetor auricular nas comemorações! Se vocês considerarem que não é uma boa ideia, tudo bem, acho que o importante aqui é refletir sobre e aprender a fundamentar a sua opinião.

Mas, como Helena já havia refletido, o barulho também tem o papel de informação. Um evento bem alto, pode fazer com que nos perguntamos o que está acontecendo, e fazer com que participemos. Uma sirene pode alertar para o perigo.

Já o barulho de uma passeata para comemorar um campeonato pode significar alívio, isso porque gritar, colocar para fora toda a tensão, acalma mesmo, e podemos fazer isso por uma extensão que chamamos de buzina. Também pode significar um certo tipo de provocação. Fazemos barulho para incomodar o lado adversário e lembrar que eles foram derrotados. E sim, não há nada pior que além de perder um campeonato, ainda sermos obrigados a ficar ouvindo o barulho dos outros. Falando nisso, aqui entram os foguetes.

Que também podem ter o objetivo informar, provocar ou comemorar. Quando Helena lembrava dos foguetes, ela sentia que ainda havia esperança para a humanidade (não a entendam mal). Isso porque ela observava que a quantidade de pessoas que andam se organizando contra aquele barulho que parece tiro ou explosão é significativa. Eis um reflexo que as pessoas estão questionando os seus hábitos corriqueiros com consciência e refletindo sobre formas de comemorações mais pacíficas.

Falando em tais organizações, chegamos a uma área em que Helena tinha paixão. A qual intitularei como gerenciamento político.

Helena costuma definir “Evolução moral” como uma certa tendência a buscarmos por melhores condições de vida, reduzindo o sofrimento. Exemplos que ela vê tal qual, talvez, no sentido Darwiniano, é a busca por igualdade ou melhor, equilíbrio de gênero, compreender como insano ou desumano escravizar alguém na atualidade, utilizar a violência para resolver os nossos problemas, dentre outras questões que eram “normais” em tempos remotos e que hoje não são tão bem vistas.

Mas, o que tudo isso tem a ver com barulho? Pensava Helena. Digamos que esse movimento basicamente identifica o que causa sofrimento e propõe soluções políticas a fim de reduzi-lo. Sofrimento pode ser compreendido também como quebra de harmonia, ou um espectro com vários graus de incômodos. Falando especificamente sobre moral, que pode ser compreendido como um conjunto de ações norteadoras, Helena lembrava que Kant nos lembrava o seguinte:

“Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal”. Vamos a um exemplo. Imagine que todo o dia eu projeto a caixa de som para fora, na loja que eu trabalho, fazendo muito barulho. Como julgar se essa ação é moral? Simples, imagine se todo mundo resolvesse fazer o mesmo. Iria ficar insuportável, você não concorda? De tal modo que teríamos que fazer alguma coisa.

     

É por essas que Helena considerava que precisamos fazer alguma coisa. Porque isso é respeitar o bem-estar do outro, é pensar no coletivo, é colocar limites, é se organizar. Você já ouviu falar da Suíça? Ela é considerada um dos melhores países para se viver. Sabe por quê? Porque, ao menos pelo que Helena havia lido a respeito, eles parecem ser um país extremamente organizado, com intensa participação popular, conduzidos por uma democracia direta (nem presidente eles têm). Eu não vou me ater a esses detalhes, porque pretendo fazer uma outra reflexão especificamente sobre organização política.

O que para nós é importante evidenciar, é o mecanismo de participação popular, os Suíços vão para as urnas em média quatro vezes por ano, para se posicionar sobre questões com implicância direta na vida da comunidade. Isso repercute em exercitar o pensamento coletivo, além de financiar aquela sensação gostosa de que o seu voto importa e realmente faz a diferença, fazendo-nos sentir ainda mais parte de uma comunidade.

Tá e o barulho, Helena? O silêncio é bastante valorizado na Suíça e sim, para mim isso é um exemplo do bom senso e dessa visão de comunidade. Nos finais de semana impera a lei do silêncio, ou seja, ligar aquele som para limpar o seu carro ou até mesmo cortar a grama, são motivos suficientes para a polícia bater a sua porta. Porque lá o limite do som, é o ouvido do outro. A mesma regra vale para todos os dias das 22h às 6h.

E acho que nem precisamos comentar se existe algo na Suíça do tipo sinos badalando, comemorações religiosas com buzinas, foguetes, lojas com caixas de som projetadas para fora, carros com som alto, ou até mesmo eventos como rodeios ou carnaval.

Falando nesses dois últimos, Helena refletiu que eles se enquadram em uma categoria que talvez não ela ainda não havia refletido! Os eventos, incluso as comemorações religiosas, festas junina, carnaval, rodeio e tudo mais parecido, também são demonstrações culturais da comunidade, e eles têm a sua importância, com certeza!  

O que Helena considerava é que às vezes nos faltava, sair um pouco do piloto automático, e nos questionar sobre a necessidade de fazer tanto barulho para comemorar algo. Será que precisamos gritar, colocar um som ensurdecedor para podermos nos divertir? Tudo bem, esses eventos são de vez em quando, e não costumam durar muito. Mas, não é sobre isso, é sobre tudo o que conversamos até aqui.

Para finalizar, eu e Helena convidamos você a fazer um minuto de silêncio. Mas, calma! Ninguém morreu, e você não precisa associar negativamente o silêncio. Ele pode ser a paz que você procura em um mundo frenético, ele também é a base de um estado meditativo, que traz vários benefícios a saúde mental.

Inclusive, no youtube eu tenho um vídeo sobre como a meditação mudou a minha vida, fica dica:

https://www.youtube.com/watch?v=OtuX5tcujOE

Autora: Ana P. Scheffer

Edição: A. R.

Do apagão à esperança. Viva as Professoras e os Professores!

Se resta esperança na educação é porque professores resistem e existem, inventam e reinventam a luta e a pedagogia, carregam sonhos e movem-se pela utopia do direito de todos e todas as crianças, adolescentes e jovens à educação de qualidade, à aprendizagem e desenvolvimento integrais para uma vida de direitos, sem violência.

O iminente apagão de professores é título das reportagens retratando pesquisa recente que mostra a diminuição drástica de ingressantes e formandos nos cursos de licenciatura no Estado do Rio Grande do Sul. Já há evidências dessa falta em todas as escolas estaduais e municipais de Porto Alegre, por exemplo. Muitos e muitas dos formados não se dispõem mais a ocupar vagas temporárias e precárias – que são práticas recorrentes desses gestores.

A baixa atratividade das carreiras e salários somados à complexidade crescente da atividade de educar, às cobranças frequentes por resultado e a imposição de métodos e rotinas pedagógicas, têm desestimulado até os e as formados/as, que dirá os que olham seu futuro no momento de optar por seu curso e área de atuação profissional.

As notícias da educação são majoritariamente ruins: aulas no escuro, salas com goteiras, prédio interditado de escola interrompe aulas; a internet não é suficiente, a biblioteca está fechada; mães e pais se queixam que estudantes saem mais cedo todo o dia – faltam professores; só servem lanches simples na escola – a fome atrapalha a sala de aula; os salários estão congelados e todos que trabalham com educação estão endividados;  a aposentadoria minguou e tirou esperanças de uma vida digna depois dos anos de trabalho e no cotidiano as tarefas só aumentam.

Hoje a profissão de professor e professora faz sucesso como conteúdo cômico de stand up, nas plataformas virtuais e teatros, onde o talento de artistas promove diversão e gargalhadas ao relatar as inúmeras mazelas de seu cotidiano.

As mudanças educacionais sem diálogo nenhum desrespeitam a autonomia e autoria intelectual das professoras e professores, esvaziam o Planejamento Político Pedagógico das Instituições Escolares, resultando em improviso, fragmentação e desestímulo generalizado. “Temos que dar conta dos “Projetos de Vida, sem poder projetar as próprias vidas”, afirmam.

Nenhum governante vai melhorar os indicadores educacionais agindo desse modo. Por isso, nossa denúncia, mobilização e defesa da gestão democrática são formas de homenagear as professoras e os professores.

Acreditamos que, se resta esperança na educação é porque professores resistem e existem, inventam e reinventam a luta e a pedagogia, carregam sonhos e movem-se pela utopia do direito de todos e todas as crianças, adolescentes e jovens à educação de qualidade, à aprendizagem e desenvolvimento integrais para uma vida de direitos, sem violência. A eles, a elas, nosso respeito, apoio e parceria!


Autora: Sofia Cavedon

Edição: A. R.

Ler, escrever e publicar

O tema da leitura, da escritura, da publicação tem sido colocado por mim em vários meios, pois acredito que é uma das mais importantes discussões no momento. Com o tal “novo ensino médio”, com tanta gente sem terminá-lo, com tão poucos chegando à Universidade, é preciso repensar muitas coisas.

Antes de tudo, o que é ser escritor/a? Qualquer dicionário dirá mais ou menos isso:

Escritor/a é um/a profissional que redija textos e obras literárias (ficcionais) ou de cunho científico, pesquisas, história            e correlatos. Sua carreira envolve a elaboração de livros,   artigos, críticas, resenhas, crônicas, entre diversos outros gêneros textuais.

Qual sua leitura? Qual sua visão? O que é ser escritor/a?

Ninguém nasce escritor/a. Quem escreve lê antes de escrever. Quem não lê não escreve. Um não leitor ao colocar algo no papel será precário e de duvidoso valor.

Se no Brasil temos tantos/as analfabetos/as, que nem o nome desenham, outros/as tantos/as analfabetos/as funcionais, afora os/as digitais, quem lê de fato?

Muitos que “sabem ler” dizem que não leram qualquer livro no último ano.

Permitam-me fazer esta citação longa, redigida por Cristiano Heredia – fotógrafo e escritor:

            “(…) Já são 300 petabytes de dados armazenados, o que torna o Facebook o maior e mais poderoso banco de dados da vida alheia do mundo. Uma espécie de “CRM pós-moderno” (Customer Relationship Management – em português, Gerenciamento de Relacionamento com o Cliente).

É claro que a vaidade não é a única mola propulsora desta gigantesca engrenagem. Mas é um dos mais importantes combustíveis que alimenta todo este Sistema. A ponto de muitos criminosos tornarem-se réus confessos por serem vítimas da sua própria vaidade. Quantas ostentações – outro codinome da vaidade – são diariamente flagradas nas redes sociais? A questão é que a nossa Cultura, de um modo geral, legitima e incentiva todas as manifestações de Vaidade e Ostentação como uma necessidade de autoafirmação. E batiza esse costume com o carinhoso conceito de “Amor Próprio”.

O tema da leitura, da escritura, da publicação tem sido colocado por mim em vários meios, pois acredito que é uma das mais importantes discussões no momento. Com o tal “novo ensino médio”, com tanta gente sem terminá-lo, com tão poucos chegando à Universidade, é preciso repensar muitas coisas.

Quanta gente escreveu de tudo sobre o governo do Inominável. Teses, textos, textinhos, textões. E depois veio de tudo no 8 de janeiro. De um lado e de outro. É claro que a fascistada faz elogios à burrice. Por isso, estes dados alarmantes que o Cristiano Heredia nos apresenta devem ser levados em conta.

Tem gente no Facebook, o centro de todas as vaidades, que escreve sem nada ler. Nem lê o que seus malucos iguais escrevem, quando muito a manchete ou parte de um vídeo ou áudio. E saem disparando.

Todos tem pressa de falar, de escrever “daquele (seu) jeito”.

Creio que muitos dos que não lêem já sabiam um pouco disso.

Tem gente que começou a escrever no Facebook. Tinham jeito e acabaram publicando. Eu mesmo incentivei alguns e deu certo. Sabem escrever. Tem conteúdo a nos dar. E todo o bom conteúdo deve achar um/a leitor/a.

Erros elementares de escrita e dados errôneos

Por melhor que a pessoa possa escrever, vai cometer alguns erros. Por isso, antes de publicar, o/a bom/boa autor/a faz a sua revisão, passa seus escritos a um/a bom (boa) revisor/a. Isto é essencial.

E, mesmo assim, com os corretores automáticos, com nossos teclados malucos, pode sair algum errinho.

Na semana li dois livros que me chamaram a atenção pelos títulos, tratavam de questões de Porto Alegre, tema que pesquiso e estudo. Que decepção!

No primeiro, encontrei erros variados não de escrita, pois a autoria era de uma jornalista. Mas dados históricos errados. No segundo, fui á loucura, porque não havia revisão, o portuguêscastigado por todos os cantos. Alguém que escreve Memórias ou algum texto histórico tem que verificar nomes citados. Imagina citar um prefeito numa data na qual ele nem estava nas lides políticas.

Por isso, achei legal que uma pessoa que prepara um romance histórico, que se passa em Porto Alegre, queria de mim dados sobre o Café Colombo. Quando alguém escreve sobre o passado tem que cuidar para saber qual era o nome daquela via X no ano Y.

Mas trocar “a” por “há” aí não dá mesmo. Perde toda a credibilidade.

Amadurecer

Creio que uma boa ideia seja deixar os escritos amadurecerem. Até mesmo um artigo a ser publicado no dia seguinte, se possível, deve permanecer como rascunho uma noite, para uma adequada releitura na manhã seguinte e as necessárias correções.     

Sempre soube que os grandes poetas escrevem, reescrevem, jogam fora poemas completos e voltam à dura labuta com a palavra.

Já viram os originais de alguns escritores? O Érico escrevia às margens, riscava, escrevia acima.

No escrever tem uma dose de inspiração, com muito suor, traquejo, arruma daqui e dali para dar forma ao que se quer expressar.

Não vejo com bons olhos publicações de “toque de caixa”. Não estamos postando no LinkedIn, nem gravando um micro vídeo no Tik Tok.  

Quando e onde publicar

Há poucas grandes editoras no Brasil. Nem se pode imaginar aqui no Rio Grande do Sul uma empresa da era da Livraria e Editora Globo. Nem tenho uma dimensão do que é nos dias atuais uma Companhia das Letras.

O que estas grandes editoras publicam? Grandes autores; em geral alguém já publicado em editora menor, em editora regional, até mesmo um autor que fez sua própria publicação para entrar neste difícil mercado.

Com o quase sumiço das distribuidoras, as coisas se tornam mais difíceis. Em Porto Alegre temos poucas distribuidoras, sendo que boas editoras não tem distribuição no Rio Grande do Sul. Ficamos nas mãos da Amazon. Hoje, a Estante Virtual cumpre um papel importante, porque muitos sebos dependem dela para vender. E ali achamos muito dos que procuramos.

Há muitas editoras, com louvável trabalho, porém há no mercado editorial um bando de caça-níqueis, que inventam “concursos”, “seleções”, “antologias” ou ficam mandando recados para que mandemos nossos escritos para análise. Vários destes oportunistas cobram “o olho da cara” do autor, não tem distribuição, não tem como ajudar na divulgação, deixando de publicar com editoras locais, de qualidade, podendo rodar em boas gráficas, como temos por aqui.

Como vender?

Como vender, se fecham tantas livrarias? Como vender se muitas têm pouco espaço, muitas vezes ocupados por autores tipo “best seller”, autoajuda e quetais, sem uma estante, um espaço, para “autores/as locais”.

Literatura rio-grandense está no meio da Brasileira e História do Rio Grande do Sul está em História Geral.

Já fui livreiro. Já tive sebo em local minúsculo, mas sempre cuidei de dar destaque adequado para as “cores locais”.

Nós temos anualmente em Porto Alegre, desde 1955, nossa Feira do Livro por duas semanas em espaço público, em pleno Centro Histórico, na Praça da Alfândega. Neste ano, serão 600 autores/as dando autógrafos. Haverá uma banca especial para os autores/as independentes.

Há saraus, lançamentos em botecos e cafés. A Feira do Chalé chega a sua 12ª edição. Foi importante a Feira de três dias dentro do Hospital Conceição.

Há feiras em quase todas as cidades do interior o Estado. Cresce o número de grupos literários, de academias de todos os tipos. Temos o “Banco do Livro” que repassa livros usados doados.

Afinal, como estamos, como andamos? As queixas de que lemos pouco é real? Estamos melhorando, começando a ler mais?

E a qualidade?

Em parte, já está respondida a questão. Temos problemas com gente escrevendo e publicando qualquer coisa, a começar pelas redes sociais. Há outros problemas de má qualidade saindo por aí.

Mas, enquanto se escreve, enquanto se publicam livros, ideias vão surgindo, críticas podem ser feitas, bons autores serão conhecidos. Logo, é nosso dever debater mais e mais o que se escreve.

Por que sumiram os espaços de críticas e resenhas nas grandes mídias, em especial nos jornais diários e de grande circulação?

Em seu lugar surgiram publicações importantes, como o Matinal e seu Parêntese, Literatura RS, Paranhana Literário.

O Paranhana Literário é um dos melhores exemplos do que se pode fazer pela escrita em nosso país. Surgiu fora da capital, em Igrejinha.

Queria ainda dar destaque aos vários grupos literários que surgiram pelo RS afora.

Tudo indica que a nossa AGES fará um grande encontro de escritores em 2024. Já estamos perfilados para ajudar.

E você, caro/a leitor/a?

Autor: Adeli Sell

Edição: A. R.

Veja também