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Os jovens ainda gostam de religiões

Deus é amor. Para nos ensinar a amar, Ele inspirou o aparecimento das religiões. Deus mesmo não tem religião e Ele pode ser encontrado através de todas elas. (Frei Betto, em Religião é motivo de briga?)

Fui convidado pelo IHR (Instituto Histórico Regional) para uma conversa na arena principal da Feira do Livro de Passo Fundo em 20 de outubro de 2023, dentro da programação oficial. Era uma sexta-feira à noite e a atividade começou às 20 horas (detalhe que a feira fechava às 21 horas). Preparei-me para uma pequena/grande conversa sobre o tema “Religiosidades nas diferentes culturas”.

O assunto da fala, que chamei bate-papo, foi extremamente relevante; afinal, a diversidade religiosa no Brasil é parte da riqueza cultural e constitui nossa brasilidade e identidade. Pensando nas diferentes formas de expressão e em saudações religiosas, expressei-me dizendo Axé, Hare Krishna, Shalom, A Paz de Cristo, Salaam Aleikum/ Aalaikum As-Salaam, Namastê, Aleluia, irmão, Saravá.

Apresentei-me como professor de Ensino Religioso das redes públicas municipal e estadual e como estudioso das religiões. Com orgulho adotei este componente curricular como preferencial, apesar da minha formação ser da Filosofia.

Mais de 30 pessoas que sentaram na arquibancada ouviam-me atentamente. Falei que sigo a religião Católica Apostólica Romana. Contei, também, da minha relação e convivência de quase 20 anos com pessoas de diferentes credos em nossa cidade, através de formação e encontros de professores e de uma entidade que congrega religiões chamada CONER (Conselho do Ensino Religioso Seccional Passo Fundo).  Disse, ainda, que conhecimentos das diferentes religiões não afetaram em nada minha fé pessoal. Falei, brevemente, das diferenças entre fé, religião e espiritualidade.

Com bastante ênfase, ponderei sobre a importância de estarmos, naquele momento, falando sobre religiosidades, sobretudo em tempos em que o mundo convive com diversos radicalismos e guerras. Disse, também, que era extremamente importante uma Feira do Livro estar trazendo as temáticas da religiosidade e da espiritualidade para o debate público, na perspectiva do Estado laico. Afinal, uma Feira do Livro é realizada em espaço público, promovendo a diversidade dos gêneros literários e dos conhecimentos que nos constituem humanos, inclusive, os conhecimentos religiosos. Sugeri, então, que as edições das próximas feiras dialoguem mais com os atores e sujeitos da cidade que queiram promover, com maior fôlego, conversas e debates sobre os conhecimentos religiosos e a necessidade da tolerância religiosa e cultura de paz.

Destaquei, ainda, a importância da formação dos professores e professoras que atuam no Ensino Religioso das escolas da rede pública municipal e estadual. Reafirmei que estes devem ser bem preparados e devem contar com o apoio que precisam para tratarem os conhecimentos religiosos na pluralidade e no diálogo, sem proselitismos e/ou ensino de moralismos. Afirmei, como aprendi há bom tempo, que conhecer diferentes religiões tem o propósito de aprender a respeitá-las.

Disse também que nossa cidade Passo Fundo possui importantes referências religiosas, templos e diferentes atividades públicas de manifestação das principais religiões mas que, também, ainda convivemos com bastante preconceito e discriminação, especialmente para com as religiões de matriz africana e matriz indígena.

Casos de intolerância religiosa causam preocupação em Passo Fundo. 16/03/2023. Município tem registrado ataques contra religiosos. Religiões de matriz africana são o principal alvo dos criminosos. Assista: https://globoplay.globo.com/v/11454744/

Chamou-me atenção que na plateia que me assistia haviam professoras e alguns estudantes. Estavam bem atentos e acompanhavam todas as minhas falas.

Quando abri o microfone para o diálogo, oito pessoas perguntaram e interrogaram sobre diversos aspectos do que eu havia dito. Dentre estes, dois jovens estudantes perguntaram se eu acreditava no meu trabalho e se o ensino das religiões contribuía para a construção de uma sociedade mais humana e fraterna?

Respondi a todos os questionamentos, alguns até um pouco embaraçosos e complexos. Há sempre que se entender a complexidade do universo das religiões e dos seus conhecimentos e práticas. Minha formação, estudos e convivência com diferentes religiosidades recomendam evitar, sempre que puder, o proselitismo e as comparações.

Por fim, depois desta breve atividade de 45 minutos, despedi-me da Feira mas, sem antes perguntar ao senhor que cuidava do som da arena, sobre a atividade transcorrida. Ele me respondeu:

-O senhor foi bem, mas deixa eu lhe dizer uma coisa: eu gostei mesmo foi dos dois jovens que lhe pediram sobre religião. Eu achei que os jovens não tinham mais interesse em religião.

Jovens não desperdiçam oportunidades para manifestar seu interesse pelas religiões, pois estão em busca de respostas e de vivências de espiritualidade. Os jovens não vivem sem fé e nem estão perdidos como muita gente supõe; eles estão em busca, abertos e ávidos por diálogos que valorizem as suas dúvidas, os seus argumentos e as suas inquietações. Vale ainda lembrar que nossos jovens são a primeira geração que tem condições históricas, à luz de informações e conhecimentos, para escolher suas religiões (mesmo que seja a mesma de seus pais) ou mesmo escolher viver sem.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: A. R.

As mulheres vão embora

Cute family in a autumn park. Happy mother with two children. Family in the courtyard near the house.

Toda mulher tem um homem que se foi”. Assim começa um poema que escrevi cerca de 20 anos atrás, reforçando a ideia de que eles saem para comprar cigarro e esquecem de voltar.

A sociedade sempre aceitou como natural a figura do homem que um dia se enrabicha por outra e abandona a família, ou, dizendo de forma menos cafajeste, a do homem que deixa de amar a esposa e reconstrói sua vida. Pertencia só a eles a liberdade de ir e vir. Tinham dinheiro no bolso e eram donos de seus narizes: às mulheres restavam as lágrimas e uma pensão para os filhos, tivessem um bom advogado.

Hoje, as mulheres também vão embora. Não precisam alegar que irão comprar cigarro na esquina, a sinceridade é mais saudável: elas se vão porque a relação se desgastou, se vão para escapar de um parceiro agressivo, se vão porque se apaixonaram por outro, se vão porque evoluíram profissionalmente e novas oportunidades surgiram. Se vão porque assim decidiram.

Diante da secular hegemonia masculina, nossa independência ainda é uma novidade, nem todos se acostumaram. Mas homens esclarecidos e sagazes nos respeitam. Sofrem, como nós sofremos com a partida deles. Choram. A dor da perda é a mesma.

Vez que outra, os mais inconsoláveis rogam praga: “você vai ficar sozinha para o resto da vida!”. Cuidado.

Em vez de inibi-la, a ameaça poderá entusiasmá-la: o que não falta é mulher sonhando em sair de uma relação para viver só para seus livros, filmes e amigos, livre como o vento soprando nas montanhas. Pena que não há poesia na ignorância.

Uma mulher que se vai, para muitos, é uma afronta. Homens mal preparados para a igualdade não sabem lidar com a rejeição.

Em vez de buscarem uma terapia para ajudar, eles buscam a arma que escondem em cima do armário, buscam uma faca na gaveta da cozinha e aumentam os índices de feminicídio. É só ler os jornais, acompanhar as estatísticas. É sempre a mesma razão banal: matou porque ela teve a audácia de largá-lo.

Extra, extra! As mulheres vão embora. Ganham o próprio salário e vão embora. Leem, se informam, se unem, se reconhecem em outras mulheres, e se for necessário, vão embora. São mães e vão embora sem fugir de suas responsabilidades: estão protegendo os filhos de um ambiente hostil. Amaram seus homens, foram felizes com eles, e quando deixaram de ser, foram embora.

Nada de novo, é o que os homens sempre fizeram. Novidade seria se eles fossem assassinados por causa disso. Eduquemos bem nossos meninos de 8, de 10, de 15 anos: mulheres não são propriedade alheia, elas vão embora. Cientes dessa realidade, quando adultos eles se tornarão os melhores companheiros, os mais inteligentes, os mais amorosos, aqueles que darão a suas parceiras todos os motivos para ficar.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas. Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo. Leia mais: https://www.neipies.com/o-tamanho-das-pessoas/

FONTE: https://www.nsctotal.com.br/colunistas/martha-medeiros/as-mulheres-vao-embora

Autora: Martha Medeiros, autora da crônica “O mundo não é maternal”: https://www.neipies.com/o-mundo-nao-e-maternal/

Edição: A. R.

Cartas Pedagógicas como prática de ensino e pesquisa

Por estas Cartas queremos nos comunicar com educadores/as, estudantes, militantes e todos os leitores, desejosos por conhecer um pouco mais a caminhada que fizemos para assegurar e recriar o legado de Paulo Freire em nossas lutas concretas.

Cartas Pedagógicas como prática de ensino e pesquisa é uma obra coletiva, produzida em tempo real, no processo do curso com o mesmo nome, ministrado em 12 aulas, online. Com o alcance da tecnologia, chegamos em 16 estados da Federação.

As Cartas Pedagógicas aqui encontradas resultaram de muito estudo, pesquisas e escrevivências desde as realidades vividas pelos educadores/as participantes do curso. 

Todas as Cartas foram lidas nas aulas, avaliadas e aprovados pelos educadores/as, visando o conjunto deste livro. Elas constroem fio a fio a história de uma experiência educativa em diferentes espaços de lutas por uma educação humana, emancipatória e libertadora.

Por estas Cartas queremos nos comunicar com educadores/as, estudantes, militantes e todos os leitores, desejosos por conhecer um pouco mais a caminhada que fizemos para assegurar e recriar o legado de Paulo Freire em nossas lutas concretas.

Escrever e bordar, são duas tarefas espetaculares, terapêuticas. Cada uma guarda segredos próprios, revelados às mulheres e homens, que souberem desvelar esse segredo. Não se mede, de forma alguma, o trabalho que gratifica e realiza quem o faz, aparentemente oculto ao olhar sem lentes. Leia mais: https://www.neipies.com/entre-a-pena-e-a-agulha/

Contatos para adquirir o livro: Isabela Camini – whatsapp: 51-99281-5114

Autora: Isabela Camini, autora da crônica “Qualidades necessárias ao educador revolucionário”: https://www.neipies.com/qualidades-necessarias-ao-educador-revolucionario/

Edição: A. R.

MARIA PEQUENA

(Homenagem a Maria Meirelles Trindade, a Maria Pequena, morta em 28/11/1894, durante a Revolução Federalista, em Passo Fundo/RS)

Para e contempla

o que se apresenta:

é o vulto de uma santa?

A imagem de uma besta?

Não, é o espírito da Maria Pequena

que a tradição

chamou de santa

que outros

difamaram-na de puta.

Sina da mulher

da mãe

da esposa

que nos idos da Revolução Federalista

em 1894

teve a vida degolada

da maneira mais torta

da forma mais bruta:

como uma ovelha.

E tal como uma

aquela índia se portou

na defesa do filho e do marido

pica-pau

quando o piquete maragato

lhe assediou

às margens do Arroio Raquel:

não deu um pio

do que eles queriam ouvir.

E nem depois de morta

a deixaram descansar

pois seus restos mortais

foram removidos

pelo temor

do que pudessem representar:

a imagem de uma santa

– do cordeiro imolado –

na defesa dos seus.

E, assim, seus ossos

do cemitério dos anjinhos

onde as mães enterravam seus pequeninhos

junto à sepultura azul

foram removidos

de lá para cá.

Até uma alma “piedosa”

a emparedar

sob o altar

da catedral

de forma que culto

só pudessem dar

depois de o autorizar

o clero local.

Mas não puderam apagar

da memória do povo

aquela que até hoje

é considerada

a primeira santa popular

de Passo Fundo.

Quer conhecer mais, acesse: https://www.upf.br/ahr/memorias-do-ahr/2019/28-de-novembro-dias-das-milagreiras

Foto: Arquivo Histórico Regional (AHR)

Autor: Julio Perez, Do livro Agreste Avena/www.julioperezescritor.com Autor da poesia “Ser poeta”: https://www.neipies.com/ser-poeta/

Edição: A. R.

O que nos impacta ao vermos uma mulher idosa revirando lixo?

Não pude andar mais, nem cair ao chão me dei a oferta, vendo a senhorinha com seu passado exposto em frente a um fruto amargo, como se teimasse em continuar viva, mesmo que para estar viva precisasse viver dos mortos.

É noite no Alto da XV. A noite cinzenta de todas as noites em Curitiba. Uma garoa miúda e sem vontade de cair castiga as poucas cabeças que passam apressadas, rumo a suas casas, penso, porque a noite chegando, torna as pessoas mais escorregadias.

Caminho a esmo, tentando recuperar o fôlego de um dia que não termina mais; somente há esquinas de desassossego e perguntas úmidas a fazer. 

O que é isso meu Deus?

Não fosse uma chuvinha fina, que quase transpassa o guarda-chuva, daria para contar os motivos que me levam até as ruas do bairro de nome charmoso e fácil de escrever.

Ele tem o nome do charme…de algum luxo, e, sem mais escolhas para os olhos, vejo uma mulher revirando o lixo, na esquina, a minha frente, à frente do nada, melhor. À frente do luxo.

O que é isso meu Deus?

Uma mulher franzina, de roupas encharcadas e chinelos rotos, revira o lixo, em uma lata inerte e abandonada. Sem sorte, será, esta mulherzinha da minha noite de chuva, revirando a procura de algo, em um latão velho e abandonado na melhor esquina, sabe-se lá o que persegue.

E encontra ela. Saca rapidamente com sua mão e cheira a surpresa. Leva à boca, talvez uma maçã e num gesto relâmpago lhe morde o lado. Mas não dura o prazer e eis que numa cusparada ligeira livra-se da incômoda mordida, precipitada. Não deu gosto, certamente.

Um laranja azeda? Uma maçã traçada? Uma pera moída? Não pode disfarçar sua fome à fruta podre, certamente, que a arremeteu à boca em um gesto pouco pensado, como quem não pode perder nada, pois já que não tem nada e que nada vai lhe restar do dia.

Sua mão lépida lembra uma pessoa desperta e que à noite, o chuvisco vai dificultando tudo. E estragou tudo. Fosse ao dia, poderia ver o torpor no que metia em sua boca e escolheria melhor o resto que foi separado a ela. Quem sabe…refugá-lo com mais elegância.

Está longe de casa e, ao mesmo tempo, muito perto porque leva consigo a sua casa, em um carrinho mambembe, de tábuas tortas e vazantes, que entre pingos e lufadas, fazem-se balançar pedaços de papéis e cartões rejeitados no seu trajeto. Lançados fora pela fúria dos consumidores conscientes, seu carrinho é a mais tênue lembrança do que há de pior a ser inventado para uma mulherzinha fazer abrigo nestas horas.

Nem cachorros andavam no seu entorno, que se comparassem a ela, assim, solto na rua, errante, como seus pares sem rumo andam, sempre apressados, vindo do nada, e indo a lugar algum. Estava pronto a compará-la a qualquer um destes, mas não os via. Iria falar: pelo menos ela ainda é humana e então haveria uma réstia de esperança.

Mas concluí, dentro da lata de lixo em que me encontrava, ser ela mesma o cão perdido numa noite fria e espúria. Sim, ela que nos procurava com alguma mão trêmula, que nos buscava neste latão imundo, chamava-nos no breu da noite, nós que a negamos pelo dia.

Quem dera fosse a minha mão puxada, ao invés de uma fruta podre. Quem dera me subisse deste latão, eu que me encontrava assim que a vi, em meio às coisas abandonadas e desprezadas. Quem dera me estendesse a mão e salvasse para si.

E não pude andar mais, nem cair ao chão me dei a oferta, vendo a senhorinha com seu passado exposto em frente a um fruto amargo, como se teimasse em continuar viva, mesmo que para estar viva precisasse viver dos mortos.

Nossos lixos não mais a sustentam. Sua fome continua, mesmo que se alimente do que mais encontre nesta esquina, com o charme do abandono e dá má sorte: o nada.

Por um momento pensei em trocarmos os papéis, permanecendo imerso de chuva e fome, lodacento com o cinismo de um pobre observador e, ela, embora magra, mas pelo menos com uma refeição a ruminar nestas últimas 24h. Sabe-se lá se passaria por mais esta noite.

Que mundo é este que abandona uma frágil mulherzinha? Idosa, e solitária com seus muitos anos de calçadas e abandonos.

– Estamos nós, ambos abandonados, minha senhora, não se engane! Você que já não encontra nada neste lixo inútil, esbarrando hoje, em um lixo errante.

Nossos olhares se cruzaram por um instante, fartos que estamos de ausências. Eu, com meu vazio temporal e, ela, em sua eterna falta de tudo.

O bem maior que poderia lhe dar seria este: a minha esperança em respirar ainda, por sua promessa de amanhã estar viva. O meu futuro incerto, por um naco de maçã limpa. Deveria propor, pois sua fome poderia salvar a todos.

Mas não foi desta vez. Será preciso sofrer muito, os dois, deverá ter pensado Deus. Nesta noite, pelo menos nesta, que ninguém durma em paz nesta esquina de Curitiba.

Autor: Nelceu A. Zanatta, autor da crônica “Arvores não conversam? Sinos não falam? Nos jardins das rejeições, tudo é possível”: https://www.neipies.com/arvores-nao-conversam-sinos-nao-falam-no-jardins-das-rejeicoes-tudo-e-possivel/

Edição: A. R.

A imagem, a verdade e o eu

Para os adolescentes, o sentido das coisas é dado através da imagética. É a partir dela, mais do que das palavras, que eles organizam suas histórias.

Toda a imagem é o fragmento de uma história. Traz, em si, a potencialidade para uma narrativa. Uma sucessão de imagens forma um enredo e permite a construção do eu, tanto para o sujeito retratado quanto para os que o observam. No entrelaçamento das imagens, funde-se um olhar inusitado.

A imagem, na vida digital, tem valor de verdade. É instrumento para a constituição do eu. Percebe-se isso, principalmente, em relação às gerações mais novas. Para os adolescentes, o sentido das coisas é dado através da imagética. É a partir dela, mais do que das palavras, que eles organizam suas histórias.

Como exemplo, relato a experiência a seguir.

Quando iniciei a dar aulas na EMEF Daniel Dipp, ao deparar-me com uma aluna lendo, fotografei-a com seu livro e postei a foto em minhas redes sociais como forma de valorizar o ato da leitura. Na semana seguinte, vários outros alunos apareceram com obras literárias, exibindo-as.

A intenção era clara: eles também desejavam ser fotografados.

Desde então, quando encontro algum aluno lendo, convido-o para tirar uma foto. Alguns são tímidos e não aceitam. Notei, no entanto, que, após alguns estudantes terem aceitado, outros passaram, inclusive, a pedir para serem fotografados.

Não basta, assim, ler; é preciso que esse momento torne-se um fragmento imagético, postado nas redes. Visto pelos demais, ele é autenticado e passa a ter um status de “verdadeiro”.

É função da escola direcionar os alunos para formas saudáveis de uso das redes, bem como para a criação de bons espaços virtuais. Isso passa pelo correto direcionamento das imagens como forma de criação de relações assertivas.

Na vida digital, uma foto nunca é apenas uma foto. É uma afirmação do eu, algo essencial para qualquer um e, ainda mais, para um adolescente. Uma fotografia, quando postada, pode ser curtida, compartilhada, comentada ou ignorada — formas de acolhimento.

Os mais velhos, talvez, achem tudo isso estranho. Entretanto, em uma vida digital, as coisas funcionam assim.

Sorria para a foto, portanto.

Autor: Aleixo da Rosa, autor da crônica “Apenas dou aulas”: https://www.neipies.com/apenas-dou-aulas/

Edição: A. R.

Filme funde vida e poesia

Esta matéria objetiva despertar em mais professores, professoras e estudantes o desejo de conhecer este importante filme e sugerir que, a partir do mesmo, ocorram novas aprendizagens sobre a importância da escola e a valorização dos sonhos e dos desejos dos jovens estudantes.

O filme Sociedade dos Poetas Mortos marcou gerações que buscavam democratizar o ambiente escolar e trazer para a realidade dos estudantes questões existenciais mais reais e próximas. Conhecemos este filme, recém-lançado, quando estudávamos no antigo Segundo Grau, hoje, Ensino Médio.

Não imaginávamos, no entanto, que, depois de mais de 30 anos, este filme ainda fosse interessar aos jovens estudantes de nosso tempo. Foi quando descobrimos que o professor de literatura da rede estadual, em Passo Fundo, RS, Douglas Pereto, ainda trabalha com este filme em aulas de literatura e que, inclusive, a história nele retratada é parte da sua inspiração na profissão docente.

Com esta descoberta, programamos assistí-lo e trabalhá-lo em sala de aula junto a estudantes do primeiro ano do Ensino Médio, Componente Curricular Projeto de Vida, Instituto Estadual Cecy Leite Costa. Este filme colabora muito para diferentes análises e conhecimentos sobre a importância dos jovens buscarem o seu autoconhecimento, como um dos fundamentos mais importantes para organizarem seus projetos de vida.Após, foram realizadas sinopses e resenhas sobre o filme como uma forma de retomar e ressignificar as aprendizagens nele contidas. Decidiu-se, também, pela produção desta matéria, compondo diferentes percepções dos estudantes sobre os conhecimentos do filme, em forma de pequenas resenhas. Esta matéria objetiva despertar em mais professores, professoras e estudantes o desejo de conhecer este importante filme e sugerir que, a partir do mesmo, ocorram novas aprendizagens sobre a importância da metodologia da escola e da valorização dos sonhos e dos desejos dos jovens estudantes.

Havia assistido a Sociedade dos poetas mortos ainda na década de 1990. Mas foi apenas em meados do ano 2000, quando fui nomeado para Rede Estadual de Ensino que visitei novamente a obra, juntamente com “Sarafina”, protagonizado por Whoopy Goldberg, versando sobre as dificuldades de uma professora em meio ao apartheid sul-africano.

Ambas películas inspiraram em mim um modo talvez quixotesco na percepção literária.  Sociedade ditava o caminho da essência literária: mensagem, recriação da realidade, mimese, sonho. O filme vai além da estrutura poética, narrativa, gramatical.

De lá pra cá adotei como lema que a literatura que fica nos livros não serve para nada. Ela precisa inspirar a vida, estar relacionada ao cotidiano.

Valer-se do carpe diem, da curiosidade natural dos adolescentes, é um prato cheio para a exibição do filme. Assistir, debater, comentar, tornam-se pontos de partida para a leitura de obras e da vida. (Professor Douglas Pereto)

O filme “Sociedade Dos Poetas Mortos” retrata a vida de estudantes em um internato, onde ambos aprendem coisas da vida especialmente com seu professor de literatura. Em geral, é baseado em poetas e poesias que contagiam os alunos com sua beleza. O filme é uma ótima escolha para quem quer refletir sobre os ensinamentos da vida, pois mostra os mais variados assuntos da adolescência de forma trágica, assim como na vida real. A frase mais marcante do filme é “Carpe Diem”, que significa: aproveite o dia; viva intensamente. Recomendo esse filme a qualquer um, é um patrimônio cultural que deve ser explorado, a fim de transmitir demasiado conhecimento para os telespectadores de maneira curiosa. (estudante Camila)

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Bom, assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” e achei maravilhoso, um ótimo filme de drama, com vários momentos de tensão. Este filme nos proporciona muitos momentos de reflexão e nos deixa várias lições. É uma longa metragem(filme) emocionante e inspirador que destaca a importância da educação, que vai além do acadêmico, encorajando os jovens a serem pensadores, críticos e a abraçarem a beleza da poesia e da vida. (estudante Maiara)

Eu assisti ao filme “Sociedade dos poetas mortos” por 2 vezes. É um filme que inspira jovens a seguirem seus sonhos e não desistirem e acreditarem nos seus potenciais. Esses jovens têm uma mente brilhante. É um filme ótimo para ser visto em sala de aula. O diretor do filme soube abordar um tema que na época era uma coisa normal. O filme é muito bom. Na minha opinião, o final do filme deveria ter uma continuação, os jovens deveriam ter se manifestado antes da morte do seu amigo e da demissão do professor; mas, assim mesmo, o filme é maravilhoso do começo ao fim. Assistiria novamente. Por que é maravilhoso e aborda temas incríveis sobre a luta desses meninos para terem suas escolhas de vida respeitadas. (Estudante Giana)

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Sociedade dos Poetas Mortos é um filme inspirador que questiona as normas sociais e destaca a importância da liberdade de expressão e do pensamento crítico. Além disso, o conceito de ‘Carpe diem’ presente no filme serve como um lembrete constante da importância de apreciar o presente e abraçar o momento, enfatizando que a vida é preciosa e deve ser vivida com paixão e autenticidade. Sua mensagem é atemporal, tornando-o altamente recomendado, mesmo nos tempos atuais. Recomendo a qualquer um que busque inspiração, pois este filme não apenas o entreterá, mas também o fará refletir sobre a importância de seguir seu próprio caminho. (estudante Luís Fernando)

O filme se passa em uma escola preparatória para meninos, tradicional e conservadora, onde o professor John Keating chega com uma abordagem pedagógica única. Ele inspirou seus alunos a questionar as autoridades, a pensarem por si mesmo e a apreciarem poesia. O lema “Carpe Diem” torna-se o mantra dos estudantes, que começam a explorar seus desejos e sonhos, desafiando as expectativas da sociedade. Sociedade dos poetas mortos lida com questões como a pressão e expectativas familiares e sociais, o medo de ser diferente e a busca pela autenticidade. A obra demonstra como a educação pode ser uma força transformadora na vida dos jovens. No filme é notável pela a atuação de Robin Williams que dá a vida para fazer o papel do professor. Também a performance dos jovens atores que também é impressionante, a medida em que os personagens enfrentam dilemas pessoais e sociais. O filme é uma homenagem para a importância da poesia na compreensão da vida e no estímulo a reflexão. (Estudante Sayuri)

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O filme é bastante interessante, falando sobre alguns assuntos mais filosóficos e poéticos, tratados pelo professor de literatura John Keating. O professor usa métodos de ensino não tradicionais, deixando seus alunos assustados e curiosos na sua primeira aula. A primeira parte do filme se torna mais cansativa e entediante, mostrando o jeito de cada personagem e suas personalidades, mas do meio até o final começa um drama com o personagem principal, onde sua família quer escolher seu futuro ao invés de deixá-lo seguir seu próprio caminho. A cena final e chocante da morte do personagem é emocionante, deixando claro o quanto ele estava sofrendo sobre tudo isso. (estudante Pietro)

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O filme “Sociedade dos poetas mortos” passa uma mensagem de busca pela liberdade, a importância da arte e a quebra de padrões sociais. O professor de literatura traz uma abordagem única e inspiradora para seus alunos que acabam descobrindo suas vozes individuais. Com isso, os alunos formam uma sociedade secreta chamada “Sociedade dos poetas mortos”, onde se reúnem para ler, discutir e escrever poesias. Acho o filme muito bom e recomendo. Vemos que, se muitas vezes os pais prendem os filhos de fazerem o que amam, pode levá-los a tomar decisões erradas.

O personagem principal tinha tanta devoção pela arte, que acabava passando por cima das regras dos pais e o estudante mais quieto da turma foi o primeiro a subir na mesa para demonstrar o respeito pelo professor (na cena da despedida deste na escola). Uma cena que mais me marcou foi a parte que o professor pediu para o aluno mais acanhado ler na frente de toda turma; mas acaba travando e não consegue falar nada, mas o professor ajuda ele. E ele consegue falar o que está sentindo, depois de muito tempo com o sentimento guardado dentro de si. (estudante Elizandra)

Edição: A. R.

De que lado estou, afinal?

Meu amor ao opressor não se traduz em torcida pela sua vitória, mas no desejo de que se arrependa da opressão perpetrada. Meu amor ao oprimido se traduz no desejo pela sua libertação e reivindicação de sua causa.

Se alguém acha que ao postar denúncias da violência praticada pelo estado de Israel aos palestinos, meu propósito seja instigar o ódio a Israel, está completamente equivocado. O alvo de nosso amor não é o estado de Israel, mas o seu nome povo. Assim como o alvo de nosso amor não é o Hamas, mas o povo palestino. Semelhantemente, o alvo de nossa indignação não são os judeus, mas o estado sionista, tampouco deveria ser os palestinos, mas o grupo extremista Hamas.

Não se atreva a usar sua fé para legitimar o ódio e o preconceito contra quem quer que seja. Cristo jamais abonaria tal conduta.

O que poderia legitimar o ódio cristão a Judeus ou a Palestinos? O fato de não reconhecerem Jesus como Filho de Deus? Tal justificativa se assemelha a usada pelos nazistas para perseguir e matar os judeus. Eles os responsabilizavam não apenas por rejeitarem o Messias, mas também por tê-lo matado. Quem crucificou Jesus foi o império romano.

Não importa o que ambos os povos pensem acerca de Jesus, e sim o que Ele diz acerca do nosso dever em amar, perdoar, acolher, bendizer indistintamente a todos.

Apesar de Jesus ter sido judeu, há mais pontos convergentes entre a fé cristã e o islamismo no que diz respeito à pessoa e a obra de Cristo, do que entre a fé cristã e o judaísmo. Cristãos e judeus têm um livro em comum: A Bíblia Judaica (Torá para os judeus / Antigo Testamento para os cristãos).

Cristãos e Muçulmanos têm em comum algumas opiniões sobre o próprio Cristo. Para os muçulmanos (religião professada pelos palestinos), Jesus é o Messias, nascido da Virgem Maria, e vai voltar no fim dos tempos para o Juízo Final. Entretanto, eles não creem em sua crucificação. Já os judeus nem sequer o veem como um possível Messias. Seria isso motivo para odiá-los e desejar o seu mal? Se fosse, Jesus teria entrado na pilha de Tiago e João e atendido o seu inusitado pedido para que fosse enviado fogo do céu para exterminar os samaritanos, desafetos dos judeus à época.

Jesus não nos ofereceu a opção de amar a uns e odiar a outros. Pelo contrário: “Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus; porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons, e a chuva desça sobre justos e injustos” (Mateus 5:43-45).

Amar os israelenses não implica odiar os palestinos, nem vice-versa.

Meu amor ao opressor não se traduz em torcida pela sua vitória, mas no desejo de que se arrependa da opressão perpetrada.

Meu amor ao oprimido se traduz no desejo pela sua libertação e reivindicação de sua causa.

Apelar a passagens bíblicas para justificar uma predileção, enquanto recorre a imagens que desumanizem o lado oposto, é tomar a contramão do evangelho, rendendo-se a um ódio gratuito e absolutamente injustificável. Voltemos para Jesus. Retomemos o caminho de volta ao amor.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: A. R.

ESCOLA 29 DE OUTUBRO: uma escola do campo, em tempo integral

No último dia 28 de outubro de 2023, a comunidade escolar da Escola Estadual 29 de Outubro, do interior de Pontão, realizou festa de aniversário dos seus 36 anos de existência.

Esta é uma escola referência na modalidade Escolas do Campo, que atende estudantes do interior do município, oriundos de comunidades próximas. A sua história sempre esteve vinculada à luta e conquista da terra, pois localiza-se em Assentamento da Reforma Agrária neste município.

As apresentações de atividades e projetos desenvolvidos pela escola, por ocasião das comemorações, reforçam o protagonismo das crianças e adolescentes de turmas da pré-escola até os anos finais do ensino fundamental.

Repercutimos aqui a importância deste educandário, que faz parte da Sétima Coordenadoria Regional de Educação de Passo Fundo e é uma referência estadual, com a entrevista do coordenador pedagógico Munir Lauer.

Um pouco da história da Escola 29 de Outubro

A Escola Estadual de Ensino Fundamental 29 de Outubro, localiza-se no Assentamento 16 de março, (área 01) município de Pontão/RS. Sua história é inerente a história da ocupação da Fazenda Annoni, da organização das famílias assentadas e do prelúdio do Setor de Educação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A conquista e a implantação da escola foi uma das iniciativas primeiras em educação do MST em acampamentos, em 1986/1987.

A Escola 29 de Outubro foi concebida num espaço de luta para atender uma demanda real dos camponeses acampados, isto é, o acesso ao conhecimento como mecanismo de luta pela terra e maximização dos direitos sociais. A ideia de Escola, nasce do contexto – o que fazer com as crianças? – num espaço de acampamento de adultos.

A constituição da escola em si, enquanto instituição educativa, perpassa o caminho da escola embaixo de uma árvore, da escola em um barracão de lona, da escola em um galpão de madeira, e finalmente, da escola em um prédio em alvenaria (ampliado gradativamente, durante os anos).

No âmbito pedagógico, a construção histórica da Escola 29 de Outubro deriva de experiências aglutinadas e refletidas (mesmo com suas contradições) ao logo da história do MST e da Articulação Nacional Por Uma Educação do Campo.

A trajetória pedagógica da escola pode ser marcada por momentos importantes. O primeiro momento foi assinalado pela conquista e implantação da Escola, entre 1986/87 a 1990. Nesse espaço de tempo não havia ainda, de modo claro, princípios pedagógicos do Movimento. Eram desenvolvidas as primeiras experiências, num processo de síntese, avaliação e reavaliação do antigo ideário de educação articulado com a nova forma de educar, a partir das concepções do MST e demais movimentos populares.

O segundo momento, de 1990 a 1998, registra a ampliação da Escola, em razão da organização e consolidação do Assentamento 16 de Março e dos demais assentamentos da Fazenda Annoni. Sendo que a Escola, mediante processo de nucleação das escolas do Campo, passou a atender também educandos dos anos finais, oriundos de escolas de outros assentamentos próximos. Esse período foi caracterizado pela elaboração e organização coletiva do MST em função das questões pedagógicas. Através de suas experiências pedagógicas, de suas educadoras, educandos(as) e comunidade escolar, a Escola 29 de Outubro atuou diretamente neste processo de elaboração nacional, auxiliando na apresentação e debate de sugestões ao Movimento.

Caracterizado pela consolidação da proposta pedagógica do MST e da Articulação Nacional Por Uma Educação do Campo, o terceiro momento, a partir de 1999, são efetivadas na Escola, práticas educativas construídas historicamente mediante aprendizagem desses movimentos sociais. Nesse período novos conceitos e concepções são assumidos. Como a reconstrução do Projeto Político-Pedagógico, a forma de avaliação dos educandos, o processo de formação dos educandos, a elaboração dos projetos de pesquisa, a estruturação da escola em si.

Como a comunidade participa da vida escolar?

A Escola 29 de Outubro compreende que a comunidade deve estar dentro da escola, e a escola deve estar dentro da comunidade. Numa relação extremamente próxima, de ajuda mútua. Há o entendimento claro que escolas do Campo somente permanecerão em funcionamento se as mesmas contarem com o apoio da comunidade, não somente escolar, mas de todo o contexto comunitário/local. É uma troca, escolas fortes, precisam de comunidades fortes, e vice-versa. Ambas em funcionamento, são a garantia da vida no campo e a manutenção dos jovens no campo.

Há também, a compreensão que os gestores da escola e o máximo possível de educadores(as), devam participar ativamente das instâncias organizativas da comunidade. Como: sendo sócios ativos, assumindo tarefas internas, participando/organizando eventos festivos, esportivos e culturais. Estes, enxergando-se enquanto pertencentes à comunidade, propiciam à escola o sentido de identidade, de pertencimento; que é a concepção principal da Educação do Campo. Campo este, escrito com “C”, maiúsculo, justamente para deixar claro, sua identidade e pertença aquele território.

Nesse ideário, a participação da comunidade na escola é extremamente intensa: nas reuniões, nas falas individuais sobre particularidades de estudantes, na resolução de problemas, na doação de alimentos, na manutenção das estruturas físicas, no apoio a organização de eventos festivos e culturais. É uma participação de mão dupla, cotidiana e permanente.

Que metodologia torna estas crianças e adolescentes tão atuantes e partícipes de sua aprendizagem e com tanta desenvoltura para as diferentes práticas sociais, como se pode facilmente observar?

A Escola 29 de Outubro, como uma Escola do Campo (com identidade e pertencimento), e não rural (no sentido, apenas geográfico, de lugar), adota em seu trabalho metodológico, como não poderia ser diferente, concepções inerentes à Educação do Campo. Em síntese, pode-se definir o trabalho da escola, em cinco princípios filosóficos e treze princípios pedagógicos, que são a base dos processos de ensino/aprendizagem, do currículo desenvolvido, e da formação dos sujeitos envolvidos no processo (tanto estudantes, quanto educadores/as).

Quanto aos princípios filosóficos: 1- Educação para a transformação social; 2- Educação para o trabalho e a cooperação; 3- Educação voltada para as várias dimensões da pessoa humana; 4- Educação com/para valores humanistas; 5- Educação como um processo permanente de formação e transformação humana.

E os princípios pedagógicos: 1- Relação entre prática e teoria; 2- Combinação metodológica entre processos de ensino e de capacitação; 3- A realidade como base da produção do conhecimento; 4- Conteúdos formativos socialmente úteis; 5- Educação para o trabalho e pelo trabalho; 6- Vínculo orgânico entre processos educativos e processos políticos; 7- Vínculo orgânico entre processos educativos e processos econômicos; 8- Vínculo orgânico entre educação e cultura; 9- Gestão democrática; 10- Auto-organização dos/das estudantes; 11- Criação de coletivos pedagógicos e formação permanente dos educadores/das educadoras; 12- Atitudes e habilidades de pesquisa; 13- Combinação entre processos pedagógicos coletivos e individuais.

A partir disto, as intencionalidades formativas/educativas se constituem em: promover a formação de sujeitos críticos e autônomos; com ideários de pertencimento ao contexto social em que vivem, ou seja, cidadãos do campo (com um olhar do local para o global). Assentados em um tripé de intencionalidades: permanência dos jovens no campo, com possibilidades reais de trabalho e renda, e principalmente, estudando/qualificando-se profissionalmente. Numa relação próxima entre teoria e prática.

Qual é a concepção de escola do campo e de escola em tempo integral?

Como já mencionado anteriormente, a Educação do Campo, na sua grafia, se expressa com “C” maiúsculo. Com o intuito de deixar transparecer claramente, o sentido de pertencimento, de identidade de seus sujeitos aos territórios. Possuindo estreita relação com formação e emancipação humana.

A Educação do Campo surge como um contraponto à educação rural. Compreendida esta (a educação rural), como uma extensão da escola urbana. Tanto a escola rural, quanto a urbana, situadas no interior das conexões sociais de produção capitalista, de acordo com autores como Arroyo, Caldart e Molina (2004), Ribeiro (2012), tem seus objetivos, programas, conjunto de conceitos e procedimentos estabelecidos pelo setor industrial; e pelas exigências de formação para o trabalho nesta esfera, além das linguagens e costumes inerentes a esse setor.

A escola nesse contexto, não incorpora princípios vinculados ao trabalho produtivo, porque, por um lado, o trabalho agrícola é suprimido de suas preocupações, em razão de que sua natureza não é formar com a finalidade de um trabalho concreto. E por outro lado, a desvalorização da agricultura, visto que, o camponês é concebido como um produtor arcaico e desprovido de conhecimentos. A educação rural no Brasil, nessa perspectiva, apresenta um ponto de vista preconceituoso com o camponês, desconsiderando os saberes inerentes ao trabalho dos mesmos.

Neste sentido, se induz também, a concepção de que a escola do meio urbano é melhor que a da zona rural. Tal pensamento, novamente, situa o determinismo geográfico, como mecanismo regulador da qualidade da educação, sendo este, um critério falseado para a efetivação da política de investimentos. Trata-se de uma ideia errônea. A questão que se coloca, é que, um projeto de escola, tenha singularidades vinculadas à histórica luta de persistência e tenacidade camponesa, indígena e negra. E não a desqualificação do campo, como ambiente que desmerece prioridades para políticas públicas.

Em enfrentamento a educação rural negada, a Educação do Campo, oriunda dos movimentos populares camponeses de luta pela terra, se posta contrária a modelos externos, insere-se em um projeto popular de sociedade, pautado na solidariedade e dignidade dos camponeses.

A Educação do Campo, como prática social, inclusa em um processo de construção histórica, conforme ressalta Caldart (2012), possui algumas características que destacam-se, em resumo, a identificação de sua expressão: concebe-se como luta social pelo acesso dos trabalhadores do campo à uma educação constituída por eles próprios, e não em nome deles; posiciona-se como mecanismo de pressão coletiva em políticas públicas, na esfera educacional; compatibiliza a luta pela educação com a luta pela terra, pela Reforma Agrária, ao direito ao trabalho, à cultura, à soberania alimentar; faz a defesa das especificidades dessa luta e de suas práticas, entretanto, não em caráter unicamente particular, mas no conjunto amplo das contradições da sociedade; suas práticas identificam e buscam ocupar-se da riqueza social e humana da heterogeneidade de seus sujeitos; suas práticas e lutas contra hegemônicos, exigem teoria, numa perspectiva de concepção emancipatória; a escola é objeto fundamental das lutas e reflexões pedagógicas; busca conciliar a luta ao acesso à educação pública, e a oposição, à subordinação política e pedagógica do Estado; os educadores são sujeitos imprescindíveis, da concepção pedagógica e das transformações da escola.

O turno integral, por sua vez, adotado desde 2013, possui o entendimento na Escola 29 de Outubro, de que, a função da educação integral nas escolas, passa necessariamente, pela compreensão conceitual da própria terminologia – educação integral. Essa compreensão é fundamental, no sentido de que, direcionará todas as ações políticas pedagógicas da gestão escolar, e também, especificamente, a postura do(a) professor(a) quanto as metodologias de aulas e os conteúdos abordados.

Pode-se dizer, de modo simplista e reduzido, que as escolas de tempo integral, são vistas como espaços, onde as famílias deixam seus filhos para poderem trabalhar, uma espécie de “depósito”. Espaço este, em que as crianças veem seu tempo ocupado, justamente, nessa ideia de preenchimento de ações escolares; enquanto outras ações, do mundo do trabalho adulto acontecem.

Por sua vez, as escolas em tempo integral (que é o caso da Escola 29 de Outubro), possuem outra lógica de funcionalidade. Parte-se do pressuposto da educação omnilateral. A ideia de acompanhamento pedagógico, de formação do ser humano em todas as dimensões, espaço de aprendizagens organizados, de vivências culturais/esportivas/recreativas planejadas – permeiam todo o ambiente escolar. Ocorre uma aproximação entre a prática e o projeto político pedagógico. A escola em tempo integral, é o espaço educativo por excelência.

Mas essa conceituação de ou em tempo integral acarreta posicionamentos ao professor(a), de cunho ético, moral e pedagógico. Na educação em tempo integral, o professor(a) deve ser mais que um(a) professor(a), o ambiente lhe exige que seja um(a) educador(a). Mas nada impede, e cremos ser aceitável (mas não unanime entre os profissionais da educação), que se possa ser professor(a) e educador(a) simultaneamente.

A concepção de ser educador(a), situa-se no âmbito de que, devemos avançar para além do domínio das áreas de conhecimentos específicas ou conteúdos formais (que é a base da autoridade intelectual do professor(a)); mas também preocuparmos com questões políticas, sociais, econômicas e culturais, que englobam o contexto de vida dos estudantes. Questões estas, que estão imbricadas no processo formativo.

Quais são os principais projetos desenvolvidos na escola?

A proposta política pedagógica da escola, vem sempre acompanhada de projetos. Estes dinamizam o trabalho pedagógico e colocam a escola em movimento. Aliás a filosofia principal da escola é – Da terra brota uma escola em movimento – perspectiva esta, justamente, de fazer do movimento, e do movimentar-se, uma ferramenta pedagógica. Nesta perspectiva, os projetos/ações desenvolvidos estão em constante aplicação e avaliação, alguns de caráter permanente, como marca da escola; outros em caráter experimentais e esporádicos, conforme definições coletivas internas.

Pode-se listar: Núcleos de pesquisa – que resulta em Seminário anual da escola; Núcleos de trabalho – vinculado à manutenção e limpeza dos espaços da escola; Robótica Educacional; Ciranda literária; Autor presente; Jogos das escolas do Campo (a nível regional); Jergs (nível municipal, regional e estadual); Campanha nacional de plantio de árvores (distribuição e plantio de mudas e sementes); Parcerias em trabalhos específicos sobre agricultura familiar (Emater, Secretaria Municipal de Agricultura, Universidades, agricultores familiares); Participação em Coletivo Estadual de Educação do Campo; Recepção à visitantes: universidades, acadêmicos, professores/pesquisadores, escolas, entidades sindicais; Viagens de estudos e formações; Caminhadas/trilhas ecológicas/práticas corporais de aventura na natureza; Almoço colonial – com produtos da agricultura familiar; Horta e estufa – produção interna de alimentos; entre outros.

Qual a importância da escola participar de eventos com apresentação de trabalhos em nível regional e estadual?

Uma das preocupações principais da Escola 29 de Outubro, durante seus processos educativos, é que seus estudantes possam conhecer o seu entorno local, sua realidade; e se reconhecer nesse ambiente. Ou seja, aprender com a realidade – com o local, com o território, e serem sujeitos deste processo de aprendizagem. Mas ao mesmo tempo, entende-se da necessidade, deste conhecimento local, ser maximizado, ampliado. Partindo, intencionalmente de uma visão do local para o global. Estabelecendo no processo educativo/formativo a concepção do sujeito/estudante do Campo como um cidadão do mundo.

Em razão do exposto, apresentações de trabalho em nível regional e estadual, tanto como viagens de estudos, sinalizam essa intencionalidade – de romper cercas e muros. Infelizmente, ainda há, ideários ultrapassados, de preconceito com os sujeitos do Campo. Muitos ainda vem o campo como local de atraso, de “jecas-tatus”; e difundir/divulgar o trabalho da escola, nada mais é, do que, demonstrar que o campo é espaço de produção e elaboração de conhecimento. E este Campo (com identidade), possui educação de qualidade.

Como a escola pensa qualidade da educação?

Quando trata-se sobre avaliação, a Escola possui um processo avaliativo interno consolidado. Assentado essencialmente nas ideias de Paulo Freire, de que outra educação fosse possível, desde 2007, adota-se como instrumento principal de avaliação dos educandos, a memória reflexiva – avaliação emancipatória.

A memória reflexiva, é um diário pessoal, em que os educandos, descrevem após cada período de aula a sua aprendizagem, de maneira conceitual. A avaliação (e a auto avalição) são constantes, permitindo reflexões sobre as temáticas abordadas. A avaliação torna-se assim, mais um elemento no processo de ensino-aprendizagem. Não um fim em si mesma, não buscando resultados classificatórios. As reflexões dos educandos sobre os conteúdos abordados, são posteriormente transformadas em pareceres e notas, construídos/elaborados coletivamente/individualmente pelos professores(as). A avalição mediante memória reflexiva serve como contraponto aos ideários da avaliação punitiva e alheia à realidade sociocultural dos educandos.

A partir de 2019, em virtude das exigências legais atribuídas pela Secretaria Estadual de Educação (que exigiu notas), a memória reflexiva é transformada/traduzida em notas. Tal “transformação/tradução”, é no sentido de não se afastar da concepção emancipatória de avaliação.

Esse contexto expressa que a qualidade da educação, para a escola, leva em consideração o saber conceitual – sobre as coisas, sobre o mundo e suas (re)leituras. Sobre a capacidade de – saber fazer – ter capacidade/competência. E sobre saber ser – referente a formação e vivências subjetivas/coletivas em sociedade.

Porém, devido à influência das ideias do capital financeiro na educação, ou seja, a educação compreendida como – mercadoria –  algo que pode ser comprado, vendido, medido, visto numa relação custo/benefício; as avaliações externas avançam no contexto escolar. Avaliações estas, alvos de fortes críticas tanto nas escolas, quanto nas universidades.

Uma das preocupações do momento da escola, é justamente compreender, nos seus processos internos de formação (dos professores(as)), o que são essas avaliações externas e suas intencionalidades, e a que interesses servem (pois estão embasadas em habilidades e competências). E ao mesmo, que a escola possa atender essa demanda momentânea, do atual governo estadual, de apresentar resultados estatísticos satisfatórios; há a inquietação de não deixar que as avaliações externas “atrapalhem” o trabalho da escola. Isto significa, que atualmente, a escola possui claramente a seguinte percepção: atender as avaliações externas, mas sem perder a sua essência enquanto Escola do Campo. E até o presente momento, a Escola está conseguindo dar conta das duas demandas. Com boas notas nas avaliações externas, e consolidado nas suas premissas filosóficas e pedagógicas.

Sobre isto há uma mescla de sentimentos. A Escola apresenta uma educação de qualidade – uma Educação do Campo de qualidade; com respaldo da comunidade escolar e dos munícipes em geral; como referência regional, estadual e nacional na Educação do Campo; e requerendo atender satisfatoriamente demandas externas de avaliação. E neste meio termo, estão contidos os processos de ensino e aprendizagem, que são as centralidades de qualquer proposição educativa. Tais exigências requerem do corpo docente, planejamento, ações coletivas e formação (tanto profissional, quanto subjetiva).

Mensagem que comunidade escolar 29 de Outubro gostaria de deixar aos professores e professoras, gestores e gestoras que atuam na educação básica?

Duas palavras estão em destaque, neste momento, na Educação do Campo, e também, na educação em geral – resistência e esperança. Ambas fazem parte do cotidiano das escolas de educação básica. Resistir, no sentido de continuar teimando pedagogicamente, de não permitir que interesses alheios à educação, interfiram no fazer pedagógico diário. Que os projetos das escolas não sucumbam a mercantilização e ao gerencialismo do mercado empresarial. Não se pode deixar que o deus-mercado, transforme os processos de ensino e aprendizagem, em meros dados estatísticos, desprovidos de humanidade. Por isso é preciso resistir.

E ter esperança, no sentido de visualizar novas formas de pensar a educação, de novos caminhos, de novas proposições. Mas este visualizar, não de modo passivo, esperando algo de fora, mas de dentro, de cada realidade escolar. Esperança, no sentido de estar em movimento, de criar fatos, iniciativas, propósitos, de lutar por uma escola pública e de qualidade. Esperança, de esperançar, de Paulo Freire, de fazer diferente, junto a outros e outras.

Nunca foi tão necessário investir na formação de professores(as). Mas professores(as) educadores(as), comprometidos com a causa da escola, e da comunidade local. Muitas destas formações devem ser internas, organizadas pela escola, pensadas pelos próprios gestores e gestoras, pelo coletivo da escola; não esperar algo dado (externo), é preciso se antecipar, ter visão estratégica, de futuro. É preciso romper com a ideia da escola como espaço de emprego, de esperar paulatinamente a aposentadoria, de apenas receber salário, chama-se a isso, de – prostituição pedagógica.

E somado a isso, se requer um cuidado muito especial com o currículo da escola. E aqui currículo, se entende por tudo o que acontece na escola, com o mundo real, em especial, o currículo oculto, aquilo está para além dos conteúdos, e apresenta relação direta com as relações humanas, e as emoções destes.

Foto com Coordenadora Regional de Educação, Carina Imperator Weber, diretora da Escola Adriana Piovesan, Coordenador Pedagógico Munir Lauer e Nei Alberto Pies.

Fotos: Divulgação Escola 29 de Outubro/ arquivo pessoal Munir Lauer

Edição: A. R.

Sociedade do cansaço: reflexões sobre as mídias digitais

Arrastamo-nos atrás da mídia digital, que, aquém da decisão consciente, transforma decisivamente nosso comportamento, nossa percepção, nossa sensação, nosso pensamento, nossa vida em conjunto. Embriagamo-nos hoje em dia da mídia digital, sem que possamos avaliar inteiramente as consequências dessa embriaguez. Essa cegueira e a estupidez simultânea a ela constituem a crise atual. (HAN, 2018, p. 10)

Byung-Chul Han nasceu em Seul, Correia do Sul, em 1959. Migrou para a Alemanha em 1985 onde graduou-se em Filosofia, em Literatura Alemã e em Teologia. Posteriormente, doutorou-se em Filosofia e, atualmente, atua como professor de Filosofia e Estudos Culturais na Universidade de Berlin. É autor de várias obras, mas, para a presente reflexão serão utilizadas três: Sociedade do Cansaço (2017a); Sociedade da transparência (2017b); No enxame: perspectivas do digital (2018). A epigrafe do livro No enxame pauta o problema de fundo que é objeto das reflexões de Han nessas três obras: os impactos das tecnologias nas subjetividades e nas interações sociais.

Na obra No enxame (2018) ele diagnostica um dos problemas gerados pelas mídias (tecnologias) de comunicação digitais que é o excesso de informação. Consequentemente, desaparece o respeito que pressupõe um olhar distanciado. Han contrapõe o respeito, derivado de spectare, que implica em distância epistêmica, ao espetáculo derivado de respectare que é um ver sem distância. “A comunicação digital desconstrói a distância de modo generalizado” (2018, p. 12). Daí decorrem problemas como a mistura entre o espaço público e o privado e a ruptura com hierarquias entre remetente e destinatário: “todos são simultaneamente remetentes e destinatários, consumidores e produtores” (2018, p. 16). Ele vai discutir essas ideias mais detalhadamente na obra Sociedade da transparência (2017a). Uma das consequências da transparência excessiva é a eliminação da ambivalência. “O tempo transparente é um tempo sem destino e sem evento” (2017a, p. 10). Tudo isso gera uma sociedade cansada (2017b).

Han observa que vivemos numa sociedade com um excesso de positividade. Qual o fundamento dessa crítica?

Ele parte do princípio e do papel da negatividade na dialética hegeliana de que nos movemos pela negatividade, ou seja, é a negação que nos faz avançar. A negação, numa perspectiva dialética, é fundamental porque é ela que nos move a sair do lugar, da mesmice. Em palavras mais simples, a positividade acomoda porque traz respostas e não indaga e nem estranha, condições que nos fazem sair do lugar e pensar em utopias, ou seja, em outras possibilidades.

Como observa Han, “transparência e verdade não são idênticas. A verdade é uma negatividade na medida em que se põe e impõe, declarando tudo o mais com falso”. Nessa perspectiva, não é o acúmulo de informação em si que produz verdade. “A hiperinformação e a hipercomunicação gera precisamente a falta de verdade, sim, a falta de ser. Mais informação e mais comunicação não afastam a fundamental falta de precisão do todo, pelo contrário, intensifica-a ainda mais” (2017a, p. 24-25. Grifos do autor).

O excesso de exposição e de positividade paralisa a capacidade humana de criar. Tudo isso tem implicações profundas na vida das pessoas e nas novas formas de sociabilidade.

Em Sociedade do Cansaço Han diagnostica um problema crucial no século XXI: “visto a partir da perspectiva patológica, o começo do século XXI não é definido como bacteriológico nem viral, mas neuronal” (2017b, p. 7). Isso quer dizer que estamos diante de situações novas, distintas daquelas dos séculos precedentes quando as doenças provocadas por bactérias ou vírus que, por serem negativas, exigiam reações dos corpos humanos quando atacados.[1] No contexto atual, ao contrário, “não são infecções, mas enfartos, provocados não pela negatividade de algo imunologicamente diverso, mas pelo excesso de positividade” (2017b, p. 8. Grifos do autor). O autor não está negando a ação de vírus ou bactérias, mas focando no que há de novo: doenças de outras naturezas que são mais complexas na medida em que não provocam o sujeito a reagir. Ao contrário, ele aponta para duas consequências que são características do século XXI: ansiedade e depressão.

As reflexões de Han ajudam a compreender o paradoxo que vivemos: de um lado, a fartura de possibilidades de acesso às informações, muito além de qualquer capacidade humana individualmente, e, de outro, a angústia crescente pelas dificuldades de assumirmos a condição de sujeitos criativos frente a tudo o que é disponibilizado. Não apenas há um excesso de possibilidades, mas elas apassivam as pessoas devido ao excesso de positividade, ou seja, da ausência de reflexividade.

Em síntese, para o autor as mídias atuais produzem muito barulho, mas poucas mobilizações que de fato tenham consistência. Daí sua avaliação de que o enxame digital consiste em indivíduos atomizados. “Uma alma de massa ou um espírito de massa falta inteiramente ao enxame digital. Os indivíduos que se juntam em um enxame não desenvolvem nenhum Nós” (2018, p. 27).

Frente a esse diagnóstico quais as perspectivas possíveis? É fundamental, diz Han (2017b, p. 74), transformar o cansaço do esgotamento em um cansaço translúcido que “permite acesso a uma atenção totalmente distinta, acesso àquelas formas longas e lentas que escapam à hiper atenção curta e rápida” (2017b, p. 74).

A superação do cansaço depende de experiências formativas, de reflexões, autorreflexões e reelaborações. Daí a necessidade dos processos educativos e comunicativos dialógicos pautarem novos pressupostos que afrontem a economia da eficiência e da aceleração, geradores do cansaço do esgotamento. Daí o desafio de trazer de volta “ao mundo a admiração” (2017b, p. 74).

Han (2017b) opõe o cansaço-eu ao cansaço-nós. O cansaço-eu é fruto do esgotamento de excesso e saturação da sociedade ativa e do desempenho. É um cansaço que atua individualizando e isolando. Provoca a incapacidade de ver (contemplação sensível e reflexiva) e mudez (capacidade de expressar, contrapor e comunicar). Interrompe o diálogo porque é incapaz tanto de ouvir/ver, como de se expressar. A hiperatividade dos fluxos, da recepção e do consumo de informação e suas restrições de participação limitam a ação livre. A violência do cansaço-eu reside, segundo Han (2017b, p. 71), na capacidade de destruir a ideia de comunidade, o elemento comum, a proximidade e a própria linguagem e o político como espaço público.

Referências

HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2017a.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 2017b.

HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectiva do digital. Petrópolis: Vozes, 2018.

Autor: Telmo Marcon, Doutor em História Social pela PUC de São Paulo, pós-doutorado em Educação intercultural pela Universidade de Santa Catarina. Professor na graduação e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Educação (mestrado e doutorado) do Instituto de Humanidades, ciências, Educação e Criatividade (IHCEC).


[1] Essa obra de Han foi publicada na Alemanha em 2010, antes da pandemia quando o vírus voltou a atacar e foi necessário que os corpos humanos, com ajuda das vacinas, reagissem ao vírus. Hoje, 2023, o vírus da Covid-19 está relativamente sob controle, mas isso deve-se, em parte, a reação dos corpos à negatividade do vírus. O mesmo não ocorre com os problemas neurológicos.

Edição: A. R.

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