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Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública do RS ganha Livro e Exposição


Caderno: No link: https://bit.ly/3rSp0QS  a íntegra do livro Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul.

Durante a homenagem aos professores e professoras pela passagem do seu dia, a Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, presidida pela deputada Sofia Cavedon, lançou o Caderno e a Exposição: Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul. A cerimônia contou com a palestra do professor e biólogo Paulo Brack sobre Educação, a biodiversidade e os desafios atuais; de distribuição de mudas do Centro Agrícola Demonstrativo de Porto Alegre e apresentação musical com o grupo de professores Teachers Trio do Colégio Estadual Ildo Meneguetti.


A publicação traz 69 projetos de trabalho, selecionados para a 1ª Mostra das Boas Práticas da Escola Pública do RS realizada em 2019 pela Comissão de Educação, na época também presidida pela deputada Sofia Cavedon que teve como tema: A Escola Pública e seu compromisso com o conhecimento, a cultura, a inclusão, a cidadania e a democracia.


A Exposição, que será instalada no dia 23 de outubro e irá até o dia 27, no espaço Deputado Carlos Santos no térreo da Assembleia Legislativa apresenta, em dez banners, o protagonismo de professores, alunos e comunidades escolares, com os projetos que desenvolvem com temas nos campos da aprendizagem, gestão, formação, diversidade, cultura e tecnologia. “Queremos dar visibilidade às boas práticas pedagógicas que muitas vezes ficam restritas ao âmbito da escola onde são desenvolvidas e melhorar a sintonia da Assembleia Legislativa com as comunidades escolares do Estado, a fim de avaliar e propor iniciativas legislativas, bem como acompanhar a execução destas políticas na área da educação” afirma a presidente da Comissão.

Mais do que se imagina, são muitas escolas que desenvolvem projetos de sucesso, no sentido de resultarem em felicidade e aprendizagem em sala de aula.

Atividades aparentemente comuns são criadas, reinventadas e adaptadas, com um toque especial, que se modifica e faz a diferença, evidenciando a boniteza de ensinar e de aprender, como diz Paulo Freire”, enfatiza a parlamentar.

As notícias da educação são majoritariamente ruins: aulas no escuro, salas com goteiras, prédio interditado de escola interrompe aulas; a internet não é suficiente, a biblioteca está fechada; mães e pais se queixam que estudantes saem mais cedo todo o dia – faltam professores; só servem lanches simples na escola – a fome atrapalha a sala de aula; os salários estão congelados e todos que trabalham com educação estão endividados; a aposentadoria minguou e tirou esperanças de uma vida digna depois dos anos de trabalho e no cotidiano as tarefas só aumentam.

As mudanças educacionais sem diálogo nenhum desrespeitam a autonomia e autoria intelectual das professoras e professores, esvaziam o Planejamento Político Pedagógico das Instituições Escolares, resultando em improviso, fragmentação e desestímulo generalizado. Nenhum governante vai melhorar os indicadores educacionais agindo desse modo. Por isso, nossa denúncia, mobilização e defesa da gestão democrática são formas de homenagear as professoras e os professores.

Os registros foram selecionados por uma comissão e trazem diferentes olhares que pudessem perceber e identificar a diversidade de abordagens e caminhos pedagógicos, além de características culturais das diferentes regiões do nosso Estado. “É um espaço de registro da qualidade da Escola Pública e muito nos honra a confiança depositada na Comissão de Educação pelos professores que aqui partilharam como ensinam e como aprendem no processo de formação integral dos seus estudantes com seriedade, engajamento e compromisso”.


Representando as escolas, a professora Adriana Titol Balatin e o professor Kleiton Muller falaram sobre o imenso prazer de participar da atividade destacando a sua importância especialmente neste momento em que a Educação é tão fragilizada e sem investimentos. “Essa homenagem nos dá ânimo de levar para a escola que nossas iniciativas valem à pena”, frisaram.


Exposição:
A Mostra apresentará dez projetos extraídos do livro Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul, sendo eles:


– Alternativas Viáveis de Desenvolvimento de Caixa Entomológica Sem Crueldade, da
EEEM São José, de Constantina


– Horta Orgânica escolar: Meu pedacinho de chão, da EEEF Tomé de Souza, de Alpestre
– Feirão do João: Conectando Escola e Comunidade, da EEEM João Przyczynski, de Guarani das Missões


– Sacola Ecológica: Ajude a Natureza, da EEEF Dr. Jorge Guilherme Moojen, de Montenegro


– Bicelétrica: Transformando Energia Corporal em Eletricidade, da EEEF Aurélio Reis, de Porto Alegre


– Alimentação Saudável: Um dos Tesouros da Vida, da EMEF Lauro Rodrigues, de Porto Alegre


– Aproveitar e Produzir Alimentos de Forma Sustentável, do Colégio Estadual Monsenhor Assis, de Santiago


– O Gosto e o Encantamento Pelas Lidas do Campo, da EEEM São José do Maratá, de São José do Sul


– Trilha Interpretativa no Parque Estadual de Itapeva: Uma Verdadeira  Aula de Valorização Ambiental, da EEEF Justino Alberto Tietboehl, de Torres
– Eco Saberes As Panc na Merenda Escolar, da EMEF Guerreiro Lima, de Viamão

FOTOS: Fotos: Debora Beina (lançamento com público) Lua Kliar (Sofia Cavedon)


Autora: Sofia Cavedon, autora da crônica: A educação de volta para a democracia: https://www.neipies.com/a-educacao-de-volta-para-a-democracia/

Edição: A. R.

A inteligência de Valentine seduziu

Gostamos de saber de pequenas (grandes) coisas da vida. E é fato: pessoas com alta inteligência emocional nos seduzem e nos levam a “voar” com elas.

O terminal antigo do aeroporto da nossa cidade era pequeno. Antes da entrada do prédio principal, havia uma praça redonda com bancos curvos, de onde se viam ao longe campos e campos, e, mais longe ainda, os edifícios da cidade. E o silêncio! Aquele silêncio absoluto.

Quando soa forte a turbina de um avião, eu me levanto. Estou aguardando a chegada de um familiar. Associo viagem a alegria, nunca a tristeza. Ainda criança, meu coração batia mais forte ao imaginar que um dia, quem sabe, poderia entrar em um dos aviões que passavam por cima da nossa casa.

— Professor! – ouço uma voz feminina me chamar.

Valentine e Rosária me contam que completaram cinco dias na nossa cidade, visitando Diego, primo de Rosária, e outros familiares. Seus nomes são outros e, na verdade, não tenho certeza se me lembro deles. Foram tantos os alunos que tive… Iniciavam viagem de retorno ao México, onde vivem há vários anos. Sempre simpatizei com elas e creio que elas também comigo. Por isso não nos esquecemos.

Diego se junta a nós. Ficamos os quatro a lembrar das aulas na faculdade.

Valentine tem uma inteligência emocional acima da média. Percebe fácil os sentimentos do outro e sabe colocar as palavras na medida e no tom certos. Nas aulas, fazia colocações a partir de um ângulo novo. Me surpreendia.

Valentine nos conta que foi um ato falho de Rosária que a fez perceber que havia reciprocidade em seu amor.

Lembra a nós do ano em que o fundador da psicanálise escreveu “A psicopatologia da vida cotidiana”: 1901. Freud, disse ela, certa vez, atraído por uma jovem, cometeu o seguinte ato falho: em vez de agarrar uma cadeira para alcançar a quem chegava, agarrou “as cadeiras” da jovem. E o que ele fez? O que todos faríamos: retirou as mãos o mais rápido que pôde e disfarçou.

A chamada para o embarque fez com que nos despedíssemos.

Qual ato falho de Rosária teria feito com que Valentine percebesse a reciprocidade do amor por ela? Perguntei ao Diego, que ficou ao meu lado, aguardando o avião levantar voo.

— Professor, não sei. Mas sei o que fez minha prima se apaixonar por Valentine: sua inteligência muito acima da média. Inteligência emocional. Ela consegue nunca magoar.

— E rapidamente torna a conversa em uma conversa íntima.

— Retira o outro da solidão existencial.

 — Diego, quando descobrir qual o ato falho de Rosária que atraiu Valentine… Me conte!

Pois é, gostamos de saber dessas pequenas (grandes) coisas da vida. E é fato: pessoas com alta inteligência emocional nos seduzem e nos levam a “voar” com elas.

Autor: Jorge Alberto Salton, autor da crônica: A culpa não serve para nada: https://www.neipies.com/a-culpa-nao-serve-para-nada/

Edição: A. R.

Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e ONGs empresariais que disputam recursos públicos

O grande empresariado brasileiro traz para o ambiente escolar as ideias de modificações que são implementadas nos âmbitos da produção, reorganizando o processo educativo “de maneira a torná-lo objetivo e operacional” (Dermeval Saviani), planejando a educação para ser eficiente, neutra e produtiva, caracterizando deste modo, uma pedagogia das competência e tecnicista que coloca tanto o professor quanto o alunado em segundo plano.

Na terceira década do século 21, já em tempos de Inteligência Artificial (IA) e controverso ChatGPT, após uma pandemia que evidenciou e aprofundou as desigualdades tecnológicas de quase metade dos estudantes das escolas públicas brasileiras, entra na pauta e na disputa a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, iniciativa do Ministério da Educação (MEC), prevendo investimentos de 8,8 bilhões de reais, para universalizar a conectividade das escolas públicas de educação básica até 2026.

Ancorada em alguns eixos, como: garantir energia elétrica com fontes renováveis; expandir a qualidade do acesso à internet com rede de fibra ótica e outras soluções; disponibilizar Wi-Fi para garantir conexão a turmas inteiras em conjunto com equipes pedagógicas; e comprar equipamentos e dispositivos eletrônicos portáteis de acesso à interneta estratégia prevê beneficiar 138,3 mil instituições em todo o país.

Cabe relembrar que cerca de 3,4 mil escolas no País não tinham acesso à rede de energia elétrica até o fim de 2022, segundo dados da Anatel. Outras 9,5 mil não dispunham de acesso à internet e 46,1 mil não possuíam laboratórios de informática. Estudos e diagnósticos do Censo da educação Básica (Inep/MEC) e da Associação dos Tribunais de Conta (TC) evidenciam e comprovam a falta de equipamentos, rede de internet, laboratórios, professores formados e monitores na maioria das escolas públicas dos diversos estados e municípios brasileiros.

“Estratégia Nacional de Escolas Conectadas” tem reservados em recursos para investimentos entre R$ 7 a 8 bilhões. Os identificáveis serão recursos provenientes de R$ 3,2 bilhões do Leilão do 5G sob gestão da Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (Eace) e, do financiamento de novas redes de telecomunicações através do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que disponibiliza R$ 2,1 bilhões geridos pelo BNDES. Outros R$ 1,7 bilhões de recursos advirão da Lei 14.172/2021; mais R$ 350 milhões da PIEC (Política de Inovação Educação Conectada) e R$ 250 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

O Fundo de Universalização dos Serviços de telecomunicações (Fust) -, foi instituído pela Lei nº 9.998/2000 cujas finalidades preveem estimular a expansão, o uso e a melhora da qualidade das redes e dos serviços de telecomunicações, reduzir as desigualdades regionais e estimular o uso e desenvolvimento de novas tecnologias de conectividade para a promoção do desenvolvimento econômico e social. Portanto, este fundo existe há quase 24 anos, é resultado de contribuições da sociedade quando do pagamento de serviços de telecomunicações e energia. Este fundo prevê que um percentual seria aplicado na melhoria de conectividade das redes de serviços da saúde e educação (unidades básicas, escolas, centros comunitários e outros), porém, tais recursos têm despertado a cobiça e a disputa por grupos econômicos e fundações empresariais.

Por exemplo, no ato de lançamento desta estratégia dia 26 de setembro, marcou presença a MegaEdu, uma coalização que envolve 14 ONGS interessadas em ditar a política educacional digital do Brasil, que contam com o apoio institucional e financeiro de empresários como Abílio Diniz, Moreira Salles, Pedro Passos, Luiz Trajano, além de fundos americanos. A MegaEdu é comandada por Cristieni Silva de Castilhos, com assento no Conselho Gestor do FUST, órgão que investirá R$ 2,1 bulhões neste programa. Esta vaga no Conselho foi conquista com apoio da “Coalizão de Tecnologia na Educação”, entidade formada pelo Conselho de Inovação pra Educação Brasileira (CIEB), da Fundação Lemann e o Instituto natura. Os 14 ONGs ratificaram o nome dela para o referido Conselho.

As entidades que apoiam a MegaEdu são: Instituto Península (Carrefour, de Abílio Diniz); Instituo Natura (empresário Pedro Passos); Fundação Lemann (Jorge Pedro Lemannn); Ensina Brasil (maior empresa bio-farmacêutica); Nova Escola (criada em 2015 com apoio Lemann); Instituto Gesto (organização que tem como parceiros Fundação Lemann e Instituto Natura);  Reuna (parceria com Fundação Leman e Itaú Social e apoio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) e “Movimento pela Base”, que se empenharam na construção desta BNCC vigente e a reforma no Novo Ensino Médio; Vector Brasil; Instituto Singularidade e Fundação Itaú Social (ligado a família Moreira Salles).

Uma estratégia por trás da estratégia

O movimento empresarial atua de forma organizada e institucionalizada há bastante tempo. Desde 2013, por meio do “Movimento pela BNCC”, grupos vem influenciando as políticas educacionais no Brasil, justificando suas intervenções como forma de tirar a educação deste quadro de caos que compromete a competitividade do país no cenário internacional e pautam uma educação baseada em resultados.

O grande empresariado brasileiro traz para o ambiente escolar as ideias de modificações que são implementadas nos âmbitos da produção, reorganizando o processo educativo “de maneira a torná-lo objetivo e operacional” (Dermeval Saviani), planejando a educação para ser eficiente, neutra e produtiva, caracterizando deste modo, uma pedagogia das competência e tecnicista que coloca tanto o professor quanto o alunado em segundo plano.

A pandemia do Covid-19 deu um grande impulso a expansão sem precedentes de uma “indústria global da educação” fortemente assentada no digital, com ofertas privadas, mas interessada sobretudo na produção de conteúdos, materiais e instrumentos de gestão para a educação pública.

Vários entes da federação (estados e cidades grandes) estão formando parcerias com as ONGs citadas e ignoram as potenciais contribuições e parcerias com as Universidades que se dedicam a formação de profissionais e pesquisas de alta qualidade.

No livro Escolas e Professores: proteger, transformar, valorizar, António Nóvoa, com a colaboração de Yara Alvim, apontam como o grande “mercado global da educação” vai continuar a crescer nos próximos anos.

O que fazer? Pela nossa parte, afirmam os pesquisadores, o mais importante é reforçar a esfera pública digital, desenvolver respostas públicas na organização e “curadoria” do digital, criar alternativas sólidas ao “modelo de negócios” que domina a internet, promover formas de acesso aberto e de uso colaborativo. É com base nestes princípios que podemos imaginar uma apropriação do digital nos espaços educativos e a sua utilização pelos professores, sem cairmos no disparate de reproduzir “à distância” as aulas habituais ou na ilusão de que as tecnologias são neutras e nos trazem soluções “prontas-a-usar”.

Outra obra, de Christian Laval, “A Escola não é uma empresa. O neoliberalismo em ataque ao ensino público”, demonstra a forte intervenção das organizações internacionais (OMC, OCDE, Banco Mundial, FMI) na conformação da ideia das contratações de pessoal na educação. Esse fenômeno, que aqui no Brasil se reflete no número excessivo de contratações temporárias em nossas redes de ensino, burla a determinação constitucional que indica a exclusividade do concurso público para ingresso no serviço público.

Segundo Laval, esses organismos internacionais também atuam no processo de comparações, especialmente através do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), realizado com aplicação de provas de Matemática, Ciência e a disciplina da Língua local. Essa avaliação internacional promove comparações de países com situações econômicas e sociais diversas. Para impulsionar estas medidas em cada país, estes organismos internacionais em muitas ocasiões fabricam um discurso global que tira a força ou autonomia das políticas educacionais específicas de cada país.

Trabalhar com educação e produção de conhecimento, com as atuais gerações da era digital, implicam acolher as novas tecnologias e inovações no campo educativo. Não importa quantos dispositivos existem ou que serão lançados, o importante é termos as diversas ferramentais como aliadas e educar as pessoas para seu uso.

Pierre Lévy, em As Tecnologias da Inteligência, propõe o fim da pretensa oposição entre o homem e a técnica. Critica o mito da “técnica neutra”, nem boa, nem má. Demonstra que ela está sempre associada a um contexto mais amplo e precisa estar vinculado a um projeto social coletivo. As sociedades ditas democráticas, se merecem seu nome, devem ter o interesse e o compromisso em reconhecer nos processos sociotécnicos fatos políticos relevantes.

A partir desta perspectiva, é preciso que as diversas tecnologias e plataformas, estejam a serviço de um projeto educacional e pedagógico qualificado, ampliando as condições de aprendizagem de todos, especialmente estudantes e professores, sob gestão e coordenação da esfera pública, em detrimento dos interesses econômicos e ideológicos das ONGs empresariais.

A previsão de Giles Deleuze de 1990 faz muito sentido no contexto atual brasileiro:

“Pode-se prever que a educação será, cada vez menos, um meio fechado, que se distingue do meio profissional como olho meio fechado, mas que todos os dois desaparecerão, em proveito de uma terrível formação permanente, de um controle contínuo exercido sobre o operário-aluno ou sobre os dirigentes da universidade”.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/10/estrategia-nacional-de-escolas-conectadas-e-ongs-empresariais-que-disputam-recursos-publicos/

Autor: Gabriel Grabowski, professor, pesquisador. Autor da crônica: Unesco alerta sobre o uso excessivo da tecnologias educacionais: https://www.neipies.com/unesco-alerta-sobre-uso-excessivo-das-tecnologias-educacionais/

Edição: A. R.

Aretê/virtude/excelência

Pela paz. Fim das guerras. Trata-se de sermos solidários com os povos em geral, vivendo em território israelense, vivendo na Faixa de Gaza ou nos países vizinhos atingidos, com mortes que se contam às milhares.

“Aretê” era um conceito grego usado nas guerras, era ser forte e astuto para vencer, mas tendo respeito ao vencido. Era um estado de excelência.

Garibaldi foi um lutador aqui na Guerra dos Farrapos, lutou no Uruguai, como foi o lutador da unificação da Itália. Aqui, num confronto em São José do Norte, não deixou que degolassem um jovem, pois ainda poderia lutar por sua pátria. Bento não deixou que queimassem a mesma vila neste confronto, para não matar civis. Estes foram dois exemplos de aretê.

Outro caso de aretê foi-nos dado pelo General Netto, depois de Porongos, largando seu “inimigo” interno Canabarro, vai com seus adeptos, inclusive negros sobreviventes ao Uruguai. Netto teve a excelência de não compactuar com Canabarro.

Nem Putin, nem Zelensky, nem Netanyahu, nem o Hamas tem aretê. Nem o presidente Biden.

São velhos guerreiros que querem sangue, mortes, ranger de dentes.

Querem poder e glória, mesmo tendo a morte de seus irmãos a lhes perturbar suas almas pela eternidade afora.

Veja que há quase 200 anos atrás havia, numa guerra de degolas, momentos de aretê, o que não tem nas guerras atuais.

Virtude é resgatar nossos compatriotas, sem pedir reconhecimento. Até porque os fascistas que também estavam entre os mais de 1 mil resgatados dão reconhecimento a quem nada fez. É a aretê fake.

Vivemos um mundo da Banalidade do Mal. Leia: https://www.neipies.com/a-banalidade-do-mal/

Vivemos a modernidade líquida das coisas “fake”.

Que sirvam as façanhas de excelência de modelo a toda terra!

Pela paz. Fim das guerras. Trata-se de sermos solidários com os povos em geral, vivendo em território israelense, vivendo na Faixa de Gaza ou nos países vizinhos atingidos, com mortes que se contam às milhares. Leia mais: https://www.neipies.com/a-guerra-chegou-aqui/

Autor: Adeli Sell

Edição: A. R.

Reencontro

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Quando à noite chega em tons crepusculares/Eu me volto para mim/Sou meu próprio refúgio/Na minha sacada voltada para o poente.

De dia faço a arte da escuta.

A arte de interpretar

Ouço as dores que atormentam as pessoas.

Sinto que há muita necessidade de acolhimento

Serem entendidas em seu sofrimento psíquico

Ajudo quem sofre para que possa orientar sua angústia em outra direção.

Muitas vezes, nem preciso dizer nada

Só meu olhar perscrutador

Meu ouvido atento, já são o suficiente

São as coisas que estão por trás do que trazem na queixa

Que mais machucam.

” A psicoterapia não é só para tratar as feridas

Ela, também, nos ensina a nos conhecermos melhor”

Mudamos comportamentos inadequados

Os relacionamentos ficam menos prejudicados.

Quando à noite chega em tons crepusculares

Eu me volto para mim

Sou meu próprio refúgio

Na minha sacada voltada para o poente.

Vou me refazendo da dor do outro

Me deparo com minha solidão

Sinto um vazio dentro de mim…

Tanta vida para viver

Tantos caminhos à minha frente

Não ouso percorrê-los

Tenho uma sensação de dormência.

-Mas, afinal, o que faz sentido para mim?

Autora: Elenir Souza, autora da crônica: A quem um dia amou: https://www.neipies.com/a-quem-um-dia-amei/

Edição: A. R.

Protagonismo da Academia de Letras na 35ª Feira do Livro de Passo Fundo

A Prefeitura Municipal de Passo Fundo juntamente com a APLetras, retomam e promovem a Feira do Livro de 12 a 22 de outubro no Espaço Roseli Doleski Preto, envolvendo os participantes e comunidade passofundense em atividades entre os prédios do Teatro Múcio de Castro, Academia de Letras, Instituto Histórico de Passo Fundo e Biblioteca Pública Municipal.

A 35ª Feira do Livro de nossa cidade foi lançada na terça-feira (26.9) na Academia Passo-Fundense de Letras com o auditório lotado de autoridades, professores, alunos e acadêmicos, evidenciando a expectativa positiva e a alegria de todos, com o retorno desse importante acontecimento cultural.

A Academia Passo-Fundense de Letras é a entidade que exerce importante protagonismo pela cultura da leitura, dos livros, da literatura aos longo de seus 85 anos de existência e, neste momento histórico, exerce também este importante papel na parceria para a realização desta feira do Livro.

Segue entrevista exclusiva da presidente da Academia Passo-Fundense de Letras, Marilise Brockstedt Lech, ao site.

Qual é a importância da Academia de letras receber convite para ajudar na organização e promoção desta 35ª Feira do Livro de Passo Fundo?

Marilise: No Estatuto Social da Academia Passo-Fundense de Letras consta que, dentre as suas finalidades primordiais, está o cultivo da literatura em língua portuguesa, o congraçamento entre escritores, o estímulo à leitura e o incentivo à arte da produção literária, em todos os seus gêneros. Receber o convite para sermos os proponentes da 35ª Feira do Livro, pelo Prefeito Pedro Almeida e os secretários municipais de Cultura – Miriê Tedesco, e da Educação – Adriano Canabarro, foi uma feliz surpresa e uma bela forma de comemorarmos os 85 anos de existência do nosso sodalício, levando à risca alguns dos nossos propósitos.

Aprovado entre os pares, aceitamos com muito compromisso e disponibilidade e damos início aos trabalhos junto à Prefeitura Municipal, que não está medindo esforços para esta realização. A responsabilidade está sendo muito grande e o desafio, maior ainda, visto que não tínhamos experiência com a realização de eventos desta magnitude.

Em seus 85 anos de existência, 2023 está sendo marcado por comemorações e por reconhecimentos da Academia Passo-Fundense de Letras em prol da cultura, da literatura, da leitura e dos livros. O que isto significa para a Academia?

Marilise: 2023 ficará marcado na história da academia, não só pela realização dos 12 projetos literários que estamos desenvolvendo, mas pelo grande reconhecimento que estamos tendo da comunidade. Recebemos homenagens do Poder Legislativo, na Câmara de Vereadores, do Poder Executivo, da 7a Região do Movimento Tradicionalista Gaúcho, dentre outras. Ao passo que nos sentimos gratos, isso faz com que a nossa responsabilidade aumente ainda mais. Temos um estatuto a cumprir e não serão nossas lindas paredes e a porta mais alta do RS que farão isso por nós. Ser acadêmico não é somente um título, uma honraria, um status. É, sim, uma função.

A APLetras, como carinhosamente chamamos, sempre teve protagonismo no mundo cultural de Passo Fundo. Vários acadêmicos, ao longo destes 85 anos, foram pessoas de grande destaque na comunidade como políticos, jornalistas, educadores, advogados,… muitos dos quais ajudaram a construir e registrar a história da nossa cidade por meio das suas publicações.

No entanto, o trabalho de escrever é silencioso e solitário. Ao unirmos nossos esforços em prol da comunidade, nos potencializamos e aumentamos a visibilidade, mostrando a importância da literatura como meio de expansão cultural e da própria consciência humana.

Por que o sonho de realizar esta feira no Espaço Roseli Doleski Pretto?

Marilise: Desde que foi promovido a Espaço Cultural Roseli Doleski Pretto, o que até 2003 era um simples estacionamento do Centro Histórico, houveram vários movimentos para transformar esse espaço em sede de eventos ao ar livre. Contudo, somente depois da construção da Arena do Instituto Histórico, em 2017, que algumas atividades culturais passaram a ser realizadas. Inclusive a APLetras realizou grande parte da programação da V Semana das Letras, em 2018, neste lindo espaço. A partir daí passamos a imaginar a realização da Feira do Livro, tendo em vista que todos os espaços das seis entidades que compõem esse complexo têm estreita relação com a cultura e a literatura.

Além disso, a localização, no coração da cidade, é excelente, pois facilita o acesso e possui várias garagens de estacionamento nos quarteirões, ao seu redor. O quesito segurança também deve ser considerado, já que o espaço tem um grande portão e já possui serviço de vigilância.

Como fomentar e alimentar o amor pelos livros e o prazer pela leitura?

Marilise: Todos sabem que a melhor forma de fomentar o amor pelos livros se dá pelo exemplo dos educadores, sejam pais/avós/irmãos ou professores/colegas/amigos. Mas, tanto quanto dar um bom exemplo, é preciso também criar as oportunidades levando as crianças em bibliotecas, em Feiras do Livro e, na medida do possível, comprando livros para elas.

Hoje em dia temos a facilidade dos e-books, mas este passará a ser valorizado depois que o hábito já está formado, assim como o prazer por ler livros também vem depois que a criança já aprendeu a gostar de escutar histórias contadas a elas, oralmente, antes mesmo de saber ler. Nesse sentido, o trabalho do contador de histórias torna-se de extrema relevância, pois ele dá a vida e a emoção que nem sempre, sozinhas, as letras carregam, em especial, quando o processo de encantamento pela leitura está começando.

O que a comunidade pode esperar de diferente e de inovador nesta 35ª Feira do Livro de nossa cidade?

Marilise: A maior novidade desta 35a Feira do Livro será a localização. Os participantes vão respirar cultura por todos os lados, em um espaço com um lindo paisagismo. Outro ponto inédito, é o “Passaporte da Leitura”, que faz parte do programa “Cidade Educadora”, da Secretaria da Educação, que está distribuindo 18.000 cheques-livro de R$ 40,00 para todos os alunos da rede municipal. Isso vai movimentar muito a Feira, valorizando o trabalho dos nove livreiros que estarão participando deste grande evento e dando oportunidade para aqueles que, antes, iam só passear na Feira, mas não podiam adquirir seus livros. A escolha dos autores que abrilhantarão este evento também segue a ideia da importância de se dar vida aos livros, honrando o lema desta Feira: FESTIVAL DA LEITURA: LER, CONTAR E TRANSFORMAR.  Teremos muitos contadores de histórias que trarão muita emoção para os participantes de todas as idades.

A diversidade da programação que acontecerá, concomitantemente, nos espaços envolvidos, também dará ao público o poder de escolha do que vai querer visitar,  conhecer, explorar,…Teremos exposições, debates, mesas redondas, bate-papos, palestras, visitas guiadas,… A diversidade também vai aparecer na valorização de trabalhos literários que abordam as questões indígenas e raciais. 

Uma ideia, uma opinião sobre a importância dos livros e da literatura na vida da gente.

Marilise: Aprendi na família e na escola, que é por meio dos livros e da literatura que podemos ampliar o nosso mundo interno. Como dizia Rubem Alves, “lendo, ficamos mais ricos internamente”. Ao conhecermos outras realidades, outras culturas, outras formas de viver, podemos ir desenvolvendo a capacidade de refletir, de aumentar nossa curiosidade, de melhorar nossos filtros, de despertar novas ideias, de ficarmos mais interessantes, ao passo que nos revelamos mais interessados nas coisas do mundo.

A leitura pode tornar o nosso “eu maior” e nos conduzir à sabedoria, pois nos mostra o quanto podemos ser grandes, na mesma medida que nos faz perceber a nossa pequenez diante deste vasto mundo. E é isso que nos mantém humildes, já que quanto mais a gente lê, mais se dá conta do quanto pouco sabe.

Sua mensagem aos leitores do site.

Marilise: Aos leitores desse site, quero sugerir que se mantenham sempre bem informados, melhorando a sua formação, em especial pela escuta dos “contadores de histórias” e por meio da literatura, seja a dos livros físicos, dos e-books, ou de canais excelentes como este.

Quero parabenizar e agradecer o querido confrade Nei Alberto Pies por ser esta linda pessoa/fonte/ponte que liga os ávidos leitores a tantos conteúdos de boa qualidade aqui reunidos. Parabéns pela escolha dos convidados, os quais nos trazem “riqueza interna”.

Por meio destas leituras poderemos nos tornar pessoas com maior discernimento, entusiasmo pela vida e por tudo que a cerca, além de expandirmos a nossa consciência sobre o mundo, sobre o quanto ele é grande e rico e sobre o quanto podemos fazer para que ele se torne um lugar cada vez melhor para se viver. Sim, a leitura humaniza.

Fotos: Divulgação APLetras/arquivo pessoal da entrevistada.

Edição: A. R.

O que Rubem Alves veio fazer em Passo Fundo, em uma fria tarde de abril?

Rubem Alves, abandonando o púlpito, caiu na educação. Salvou-se a si mesmo, salvou a milhares.

Dos preparativos para sua vinda à Passo Fundo

O telefone tocou na Secretaria da Faculdade de Educação e, para surpresa de todos, era o professor Rubem Alves.  A sua ligação, histórica, para confirmar presença em um pequeno encontro sobre os rumos da educação, sobretudo nas séries iniciais. Mas o projeto era mais pomposo, chamado “Seminário Regional de Filosofia da Educação”.

Rumos?  Será que os tomamos por certos?  Bem, isso foi em 1985. Ainda poderemos revê-los, os rumos, todos eles, apesar de a educação continuar nesses 40 anos, em caminhos retorcidos.

Estávamos em abril e fomos ao Salgado Filho recebê-lo. Os plátanos do aeroporto cobriam as calçadas com suas folhas, logo à saída, o que chamou a sua atenção, pois havia mais folhas dispersas ao chão do que suspensas em seus galhos.  E ele ficou maravilhado!

O seu olhar e sua percepção já o distinguiam, mas só depois de todo esse tempo, vimos publicado em suas “Melhores Crônicas”.  Ao contrário de quem reclama de folhas caídas, lemos:  _ que educação perversa fez com que as pessoas se tornassem cegas para a beleza generosa das árvores, tratando suas flores como se fossem sujeira…Amanhã, suas calçadas estarão de novo cobertas de ouro. 

Quanta sabedoria! E nós, vivendo intensamente a partir de então, Rubem Alves, por uns instantes apenas, exatamente no momento que construía mundos ainda não descritos. Ou escritos. Confirmando-se a seguir.

E, em uma fria tarde de abril, estávamos ao lado de quem viria ser um dos maiores expoentes da educação brasileira. Um gigante próximo, nós, que queríamos a revolução, primeiro na educação, para transformar um país, e que nestes anos nos devolvia aos poucos, a liberdade tomada décadas atrás.

E ele mesmo, um exilado por vontade própria, passando os anos de chumbo fazendo o seu doutorado em Nova Jersey, no que viria ser um dos mais didáticos tratados teológicos dos anos 70 e 80. Quanta pretensão a nossa!  Saídos há poucos anos do “2º grau”, querendo mudar o mundo, atirando para todos os lados do céu, acertamos em sua maior constelação. Estávamos, enfim, com Rubem Alves!

A sua simplicidade franciscana nos alertava, contudo, quando enviou uma carta ao Diretório Acadêmico, falando o seguinte:

mas acho que, se o Paulo Freire vai à Passo Fundo, eu não deveria ir.  Somos amigos, iremos dizer coisas parecidas, haverá divisão de auditórios e uma duplicação de gastos. Por favor, escreva-me dizendo de sua preferência”. 

-Como assim, escrever? Gostaria de ter lhe respondido… “Nossa preferência é que você more aqui, Professor, e fique conosco pelo menos um semestre no prédio da Faculdade de Educação. Tire-nos deste túnel de discussões sem fim a que nos submetemos e nos ensine uma grande lição, a do pintassilgo que seja, aquele mesmo que fora julgado e condenado, quando caíra em um poço de sapos”. E que mais tarde, fora condenado pois falara em um mundo de sol e chuva, de gramas e árvores, de cores e de tantas alegrias, coisas que os sapos julgavam delírio de um pássaro perdido.

Nós, iniciantes, não queríamos ser condenados, pois acreditávamos, deveria haver um caminho melhor para a construção de uma educação mais lúdica, solidária, inclusiva.

Da sua participação no Encontro de Formação

O auditório da UPF estava tomado. O Pe Elli Benincá, avalista pedagógico nesta quadra de abril, eufórico. Alguns alunos sentados no chão. Vários professores boquiabertos, constrangidos com o que ouviam, donos que eram de conceitos sobre estruturas educacionais ultrapassadas, resistindo a um tipo de saber sobre quaisquer mudanças, em um novo modelo na arte de educar.  A sua desconstrução sobre o que se pensava em ensinar, caiu como toneladas às cabeças presentes, acostumadas à temperatura morna dos temas que estendiam aos seus alunos.

– Sem sabor não há saber, iniciou sua fala. O aprendizado se dá neste espaço de prazer, onde todos os sentidos são convidados para a ceia do aprendizado. Foi o suficiente!  O dia estava ganho!

O grande imã para que Rubem Alves fosse aplaudido demoradamente, por seus utópicos seguidores, em parte, devia-se ao lançamento de seus últimos dois livros, e que chegara à cidade, há um ano, talvez, e que pelos quais, alunos e professores da área consideravam um marco: “Conversas com gosta de ensinar” e “Estórias de quem gosta de ensinar”. Foi suficiente para ele cair no gosto (e desgosto) de quem estava com a enxada nas mãos para começar a ‘lecionar’. Uma divisão, nas águas turvas do debate burocrático sobre educação, e que, seguramente, nunca mais fora o mesmo para os presentes.

Porque o destino pregara uma peça ao professor, ele mesmo reconhece, quando disse que chegou aonde chegou, porque tudo dera errado em sua vida. Benditos sejam os erros aos quais nos submetemos, sem entender, tentando, experimentando, para depois ouvir o que ouvimos do Pastor Rubem Alves, que abandonara seu rebanho por vontade própria, para se livrar dos lobos da burocracia nas Instituições religiosas, que há muito esqueceram sua vocação original e agora vivem somente para auto manter-se.

Modelos de organizações que perdem sua essência na origem, transformam-se em estruturas rígidas, autorreguláveis, com um fim em si mesmas, muito organizadas, limpas, mas com pequenos sinais de mofo que crescem em suas quinas.

Rubem Alves, abandonando o púlpito, entregou-se à educação. Salvou-se a si mesmo, salvou a milhares.

De sua volta à Campinas e dos nossos outros encontros

Voltando à capital, com ele muito feliz, paramos em Bento para um café. Presenteou-nos com uma garrafa de vinho que, seguramente, ficou fechada por anos.

Em 1986, em sua sala de estar em Campinas, e servidos com um café de gosto mineiro, discutimos uma tarde inteira, em como apresentar uma proposta de mestrado à Unicamp, sobre uma ideia extravagante: ensinar filosofia às turmas iniciais do ensino médio…através do teatro.  Quanta ousadia!

– Mas isso faz todo sentido, falou!  Se grande parte de nosso dia a dia se dá sobre uma plataforma de encenação, cabe ao teatro formar os melhores professores e diretores.  E, ao invés de mestres com cabelos brancos, perderem turnos para explicar uma afirmação de Paul Valèry: “o que seria dos homens, sem a ajuda das coisas que não existem,” não seria melhor montarmos uma peça para entendermos sua afirmação? Um diálogo no teatro poderia condensar, reduzir e iluminar seus conceitos, dramatizá-los, atraindo a muitos. Pois esta afirmação, por si só, tem o valor de um livro inteiro.

Então, aprendemos que é no riso e no prazer em que se dá o verdadeiro saber.  E, se o nosso corpo é a extensão de nossos sonhos e vontades, será pelo sabor, gostando, desejando, respondendo ao mesmo corpo, em seu anseio por aprendizagem genuína.  Afinal, que conhecimento permanecerá se não fizer sentido ao nosso corpo, ou, qual a lição que permanece em nossa mente, se dela nunca fizermos uso? Mas isso é conversa para outro dia.

A saudades nos invade ao falarmos de Rubem Alves, que pensava, Deus escolheria morar em jardins, não nas igrejas. Aos templos, Deus iria visitar seus vitrais, mosaicos de vida em distorção de cores, que lembravam matizes de galáxias em formação, o que entendia muito bem. Mas morar mesmo, Deus o faria em Jardins, quaisquer deles, porque os lembraria do paraíso em que criara, onde realmente o sabor e o saber aconteciam, na sua explosão de sentidos. Como no Jardim das Delícias, do pintor Bosch, várias vezes lembrado.  E em como deveria ser nosso aprendizado em espaços floridos, debaixo de jequitibás, não em bancos gelados, de escolas avinagradas, ouvindo professores zangados…  Mas isso foi nos anos 80!

Bem, de Passo Fundo ele partiu emocionado.  Tanto foi o carinho e acolhimento. 

Mutuamente, prometemos um novo encontro, amplo, cheio de desafios. E ele voltaria sim, pois sentira uma vocação imensa no desejo de aprender com aqueles que aqui conhecera. Seu espelho, um ator religioso de passagem para sujeito na educação, fora refletido em grande parte do auditório.

Despedindo-nos em Campinas, e já na tristeza da partida, ouvimos, quando falou:

-Bem, agora vou andar por um jardim aqui próximo e levar meus olhos pra passear.

Que falta você nos faz Rubem Alves!

Referências de livros:

  1. As melhores crônicas de Rubem Alves –  Papirus
  2. Transparências da Eternidade –  Verus
  3. Na morada das Palavras –  Papirus
  4. Fomos maus alunos (Com Gilberto Dimenstein) –  Papirus
  5. Por uma Teologia da Libertação
  6. Conversas sobre política –  Verus

Autor: Nelceu Alberto Zanatta, autor da crônica: “Árvores não conversam? Sinos não falam? Nos jardins das rejeições, tudo é possível!”: https://www.neipies.com/arvores-nao-conversam-sinos-nao-falam-no-jardins-das-rejeicoes-tudo-e-possivel/

Edição: A. R.

A guerra chegou aqui

Pela paz. Fim das guerras. Trata-se de sermos solidários com os povos em geral, vivendo em território israelense, vivendo na Faixa de Gaza ou nos países vizinhos atingidos, com mortes que se contam às milhares.

Já na Guerra da Rússia e Ucrânia sofremos respingos por aqui. Quando se exigia coro uníssono pela PAZ, abriu-se uma disputa política e ideológica para saber quem tinha mais ou menos razão. Nas guerras ninguém tem razão. 

Neste momento, a Guerra já existia, quando os ataques do Hamas aconteceram. Condenamos cada ato deste grupo, pois não representa uma saída. A saída é a paz. Seria a sábia e justa convivência entre um Estado de Israel e outro Palestino –  o caminho que se aguarda há 75 anos.

A guerra chegou aqui. Na véspera do dia de Nossa Senhora Aparecida, a Câmara Municipal de Porto Alegre não aprovou uma simples moção de “solidariedade às vítimas do conflito instalado na Faixa de Gaza, em defesa da paz”. Fosse uma alegação de “problemas de redação” da mesma, poder-se-ia ter feito uma emenda. Não. O dia foi de “guerra” de palavras, de versões, de narrativas, de uso de vídeos e fotos de outros tristes episódios, todos eles repudiáveis. Era uma moção “da esquerda”. A maioria tinha que derrotar a minoria.

Esquecem-se dos apelos do Presidente Lula pela libertação de crianças, dos seus reiterados apelos pela Paz. No momento em que o Brasil está com papel proeminente na ONU, a Câmara local nega uma Moção.

Nos milhões de textos, vídeos que aparecem, sobram não só o horror da guerra, das mortes de inocentes, como sobre a desinformação e a má-fé.

Por isso, em se tratando de questões de conflitos religiosos, na verdade não se trata essencialmente disso, me socorro do teólogo luterano, conhecedor do Antigo Testamento, Sílvio Meincke.

Diz ele numa mensagem a mim descrita:

“Penso que se deva fazer uma clara distinção: o Estado de Israel que está em guerra, não é idêntico ao Povo Judeu Bíblico. Ser um judeu significa professar a religião judaica, baseada no Antigo Testamento. Esses judeus encontram-se em todo mundo e não precisam estar morando no Estado de Israel. Ser judeu não significa pertencer a determinada etnia, a determinado grupo racial, porque há judeus árabes, alemães, brasileiros, espanhóis, etíopes, russos, holandeses e por aí vai, assim como existem cristãos de todas as etnias. RESUMINDO: O povo judeu é um grupo religioso espalhado pelo mundo”

Já os ISRAELI, os cidadãos e as cidadãs do atual Estado de Israel, que está em guerra, são pessoas de inúmeras origens e etnias, que decidiram morar naquela região. Há muitos brasileiros entre eles e muitíssimos alemães, ao lado de holandeses, russos, africanos, americanos, ibéricos, britânicos e outros. Muitos deles não professam a religião judaica bíblica, mas tem outra religião ou nenhuma, são agnósticos, ateus. RESUMINDO: o povo que mora no atual Estado de Israel são os ISRAELI e não os JUDEUS.”

Esclarecido, portanto, o tema da “religião”, distinguindo-se do que é uma “etnia”. Estas coisas estão sendo confundidas por desinformação, por ignorância mesmo do tema, quando noutros casos é má-fé mesmo.

Porém, temos que atentar para os temas como a economia da região. Não se trata de um “deserto”. Vejam o que me diz ainda Sílvio Meincke:

Sobre o atual chanceler Netanyahu pesam muitas acusações de corrupção. Temendo processos e uma provável condenação, ele se refugiou na imunidade parlamentar. A única possibilidade de ser eleito e ter imunidade foi seu partido LIKUD fazer alianças com os partidos ultra ortodoxos, que representam os religiosos da extrema direita, que fazem uma leitura bíblica literal e fundamentalista. Eles querem restaurar o antigo Estado Judeu Bíblico, que foi destruído no ano 70, pelo Império de Roma, quando o povo judeu se revoltou contra a opressão. Hoje, o Povo Palestino se revolta contra a opressão que sofre há 75 anos do Estado de Israel. O Estado de Israel atual foi criado pela ONU, em 1948, depois da Segunda Guerra Mundial.”

Disto tudo acima descrito, concluo que não se trata de orar por Israel como pedem algumas correntes. Israel é um Estado, tem governo, tem parlamento, apesar dos ataques de Netanyahu ao Judiciário, ainda tem um Judiciário; trata-se de rezar pelos mortos dos dois lados.

Trata-se de sermos solidários com os povos em geral, vivendo em território israelense, vivendo na Faixa de Gaza ou nos países vizinhos atingidos, com mortes que se contam às milhares.

Nos somamos ao governo brasileiro em sua luta pela paz na Ucrânia e no Oriente Médio. Estamos com Lula quando condena as mortes, quando busca acordos através da ONU, maior autoridade mundial para solução de conflitos.

O debate que a Direita trava é insano, como vimos aqui com quatro anos de um governo genocida, fascista. Como vimos com a tentativa fascista de golpe em 8 de janeiro.

A Esquerda não pode entrar nas provocações que jogam a cada segundo na Internet. Devemos responder de outra forma, esclarecendo, sem entrar num confronto com adversários desqualificados, pois eles necessitam de interlocutores. Não podemos ser interlocutores de fascistas ou gente ignóbil que se faz de pacifista.

Temos que ter mote próprio, por isso me vali dos ensinamentos do Sílvio Meincke para poder esclarecer do que estamos falando, do que de fato está acontecendo.

Pela paz.

Fim das guerras.

Autor: Adeli Sell, professor, escritor e bacharel em Direito. Autor da crônica: Os gaúchos: https://www.neipies.com/os-gauchos/

Edição: A. R.

O sentimento moral como virtude

Para filósofo Hume, cultivar bons sentimentos de simpatia, amizade, honestidade, benevolência, misericórdia, tolerância, humildade, compaixão e principalmente amor, nos possibilita uma aproximação do bem e de uma vida moral correta. Sentimentos opostos como antipatia, inimizade, desonestidade, avareza, preguiça, intolerância, prepotência e principalmente ódio nos aproximam do mal e de uma vida moral incorreta e destrutiva.

Conviver com os outros, principalmente com quem possui outros costumes e experiências, professa outra religião, possui outra cultura, cultiva outras crenças, compartilha outra ideologia tornou-se um dos maiores desafios da atualidade. Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros constitui um dos quatro pilares do famoso relatório da Unesco para a educação do século XXI.

Quando acompanhamos os acontecimentos da terrível guerra entre Ucrânia e Rússia, ou mais recentemente o conflito entre israelenses e palestinos, para além das motivações econômicas, religiosas ou políticas está o terrível problema da intolerância e da dificuldade de conviver com o diferente.

Talvez nos falte o sentimento moral que seja capaz de nos tornar mais humanos e menos desumanos. Um dos pensadores que se debruçou sobre a teoria dos sentimentos morais foi o filósofo David Hume (1711-1776). Reconhecido por muitos como um dos maiores filósofos britânicos do século XVIII, um dos mais radicais empiristas e um dos grandes expoentes do iluminismo moderno.

Embora tenha se tornado célebre por sua filosofia, Hume foi também historiador e economista, deixando para estas áreas escritos importantes, dentre eles História da Inglaterra, considerado um clássico sobre o assunto. Também escreveu sobre política e religião, tendo oferecido inúmeras contribuições relevantes à compreensão desse tema.

No que diz respeito ao conhecimento, o ponto de partida de Hume, seguindo a tradição empirista, é a tese segundo a qual nossas ideias sobre o real se originam de nossa experiência sensível. A percepção é considerada como critério que dá validade, que dá origem a nossas ideias e quanto mais próximas estiverem da percepção que as originou, serão mais nítidas e fortes, ao passo que quanto mais abstratas e remotas, serão menos nítidas e se tornarão mais pálidas perdendo sua força.

Para Hume, as ideias são sempre de natureza particular, pois a origem das ideias simples vem da nossa experiência perceptiva. Quando associamos as ideias simples entre si por meio de palavras (linguagem), passamos a generalizar as coisas a partir de suas semelhanças, criando dessa forma ideias complexas. Dessa forma, Hume explica o processo do conhecimento e porque a imaginação humana é capaz de criar ideias que não existem no mundo real. É pela associação de ideias simples, pelo exercício da reflexão e da imaginação que são criadas na mente humana ideias complexas.

O ponto central da filosofia de Hume é compreender a natureza humana, tanto é que uma das suas mais importantes obras tem por título Tratado da Natureza Humana.

Nesta obra Hume declara que “o único meio de obter de nossas investigações filosóficas o êxito que delas esperamos é abandonar o tedioso e extenuante método seguido até hoje e, ao invés de nos apossarmos, de quando em vez, de um castelo ou um povoado de fronteira, rumamos diretamente para a capital, para o centro dessas ciências, ou seja para a própria natureza humana: senhores desse centro, podemos esperar alcançar uma fácil vitória por toda parte”.

Saber sobre a natureza humana significa perguntar sobre quem é o ser humano, como ele pensa, como se dá o conhecimento, como realiza os juízos morais e estéticos, de que forma é possível cultivar a virtude e evitar os vícios. Em síntese, qual a origem e constituição do humano?

Para responder a essa questão, Hume analisa duas esferas fundamentais que definem a condição do homem: o entendimento e a sensibilidade. Estas duas esferas fundamentais possibilitam ao ser humano tanto a possibilidade do conhecimento quanto a capacidade de julgar moralmente e esteticamente.

Uma parte importante da obra de Hume dedica-se a Investigação sobre os princípios da moral. Para ele, as distinções morais não tratam do verdadeiro e do falso, mas do bem e do mal. Com isso ele defende que o fundamento da moralidade não pode se basear em um princípio da razão, pois “a moralidade é mais propriamente sentida que julgada”. Sendo assim, a percepção que temos das ações morais, sejam as nossas ou de outrem, decorre do nosso sentimento de aprovação ou reprovação.

O sentimento moral, portanto, nasce em nós de uma impressão original própria da natureza humana que é “a possibilidade de sentir prazer ou dor”. Dessa forma, o senso de virtude constitui-se pela capacidade de sentir satisfação de um determinado tipo pela contemplação do caráter.

Para nosso filósofo, cultivar bons sentimentos de simpatia, amizade, honestidade, benevolência, misericórdia, tolerância, humildade, compaixão e principalmente amor, nos possibilita uma aproximação do bem e de uma vida moral correta. Sentimentos opostos como antipatia, inimizade, desonestidade, avareza, preguiça, intolerância, prepotência e principalmente ódio nos aproximam do mal e de uma vida moral incorreta e destrutiva.

Algum indicativo importante para os dias de hoje?

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: A. R.

Carta aos professores e professoras

Um livro, uma caneta, uma criança e um professor podem mudar o mundo. (Malala Yousafzai)

Pessoas como você merecem olhar de atenção e demonstração de carinho todos os dias do ano. A importância da sua profissão precisa ser celebrada sempre. Lembrar quem somos, o que escolhemos e reconhecer o valor social do nosso fazer nos motiva a seguir em frente remando contra a maré de um sistema político que vilipendia nossos direitos.

Sabemos dos limites que se colocam a sua frente e dos desafios impostos pelos estudantes, suas famílias e a sociedade que pouco reconhece a grandiosidade do seu trabalho. No entanto, a qualidade do seu fazer tem o poder de transformar a vida das pessoas e influenciar na configuração da sociedade.

Os estudantes que agora são atendidos por você tomam decisões, constroem suas vidas imbuídos de conhecimentos, valores, competências e habilidades que podem fazer grande diferença na vida profissional de cada um, visto que, como diz a composição de Max Haetinger:

“A base de toda conquista é o professor

A fonte de sabedoria, um bom professor

Em cada descoberta, cada invenção

Todo bom começo tem um bom professor”

Enquanto tento escrever essa carta, reconheço que faltam palavras para agradecer seu compromisso, companheirismo e parceria de todos os dias. Na falta de palavras, a memória auxilia, lembro que tive professores importantes na minha caminhada, pessoas que apontaram minhas qualidades e lapidaram minha personalidade.

Foi na escola que aprendi alguns conteúdos importantes para o vestibular e para o mercado de trabalho, mas de forma muito especial foi nessa instituição que compreendi ética, atitudes de responsabilidade, respeito, democracia e humanidade, lições de vida para a vida toda:

“Uma lição de vida, uma lição de amor

Na nota de uma partitura, no projeto de arquitetura

Em toda teoria, tudo que se inicia

Todo bom começo tem um bom professor”.

Verdade que nossos estudantes são frutos de uma sociedade que pouco valoriza a cultura e sofre com o excesso de inteligência artificial, porém não existe ferramenta no mundo capaz de substituir o seu trabalho. A inteligência artificial não tem respostas para muitas das perguntas essenciais da vida, nós também não temos, porém possuímos habilidade de refletir, de despertar naqueles que atendemos essa capacidade que embora nata, vem sendo intencionalmente esquecida por muitos.

Ao celebrar essa data especial, expressamos nosso descontentamento com as políticas que pouco valorizam os profissionais da educação, reivindicamos remuneração digna da função que realizamos e das implicâncias sociais da mesma. 

Mas também queremos convidar todos e cada um a renovarem o compromisso com a educação. Não é por amor que renovamos a esperança, mas é com amor por si mesmo e pelos outros que convidamos você a reviver com gratidão os sentidos de sua opção. Sinta-se especialmente amado/a hoje e todos os dias!

Você é importante demais para ceder ao esgotamento e ao estresse de cada dia!  O trabalho que realizas não pode ser avaliado com precisão nas turbulências do agora, mas poderá ser visualizado na qualidade do amanhã, nos ex alunos que você encontrar vida a fora. Certamente muitos irão demonstrar saudades, e muita gratidão! Todo afeto de agora gera frutos que se estendem no tempo!

Sinta –se afetado pela nossa gratidão, estima, carinho e reconhecimento!  

Autor: Marciano Pereira, autor do texto “A planta, suas folhas e um sino: atividades em sala”.https://www.neipies.com/a-planta-as-folhas-e-um-sino-atividades-em-sala-de-aula

Edição: A. R.

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