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Teologia para um cristianismo libertador

Variados conceitos e temas se sobressaem no livro: as expressões de transreligiosidade, a perspectiva ecumênica, o aprendizado com o outro, o amor incondicional de Deus, a mística ecológica libertadora, a relação complexa entre alteridade e liberdade, entre outros desafiadores aspectos.

A obra Teología por um cristianismo libertador (Editora Senso, agosto 2021) que o teólogo uruguaio Diego Pereira Ríos nos oferece, representa uma contribuição de muita boa qualidade e de enorme importância para o cenário teológico latino-americano. Ela, muito bem-vinda em terras brasileiras, responde com maestria à uma demanda de se pensar teologicamente o pluralismo, em especial a partir das visões e experiências ecumênicas intra e inter-religiosas e da prioridade evangélica que deve ser dada às famílias e grupos de pessoas pobres.

Com esta base, variados conceitos e temas se sobressaem no livro: as expressões de transreligiosidade, a perspectiva ecumênica, o aprendizado com o outro, o amor incondicional de Deus, a mística ecológica libertadora, a relação complexa entre alteridade e liberdade, entre outros desafiadores aspectos. Expressamos nossa gratidão ao Diego, por ele nos trazer nesta obra tão preciosas visões.

Os conteúdos tratados no livro nos chamam a atenção para o fato de que as expressões religiosas e as compreensões sobre a vida e a fé, quando estão preocupadas com a cooperação, a paz, o diálogo e o compromisso social, é porque nutrem, em suas respectivas bases teológicas e práticas, ainda que de forma parcial e fragmentária, bases para se refletir sobre a experiência do outro e vislumbrar novos horizontes de respeito, aproximação, justiça, cooperação prática e diálogo.

Diego, em seu livro, realça estas bases, sobretudo as que advém das fontes mais substantivas da fé e da teologia cristãs. Desta forma, as pessoas e os grupos religiosos podem buscar melhor conhecimento de si mesmas e possibilidades de alteridade, assim como podem também interagir colaborativamente com o outro em questões prementes que envolvam a vida, como a justiça, a paz e a integridade da criação.

Os cinco capítulos do livro são, ao mesmo tempo, uma peça harmoniosa, considerando os desafios da valorização do pluralismo, e um conjunto de textos com autonomia, que podem, inclusive, serem lidos separadamente, uma vez que Diego apresenta diferentes temáticas e realidades que, em sua trajetória acadêmica e de militância, ele pode acumular…

Eu sou grato por ter a oportunidade de apresentar esta obra que Diego Pereira Ríos nos presenteia e ela, com certeza, despertará em outras pessoas e grupos o desejo por uma visão de fé e de vida centrada nos dons das dimensões plurais, ecumênicas e compromissada com a paz, a justiça e a integridade da criação.

Algo valioso e necessário para “este século”, tão marcado por fundamentalismos, obscurantismos, autoritarismos e violência. Portanto, Diego, com as concepções contidas neste livro, nos convida para, mais do que “interpretar o mundo”, contribuir para “transformá-lo”, como já diziam meus grandes mestres da utopia, que moldaram minha maneira de ser e de agir na igreja e no mundo.

Para adquirir seu exemplar entre no site da Editora Senso:https://loja.revistasenso.com.br/produto/teologia-para-um-cristianismo-libertador/

(Trecho de Prólogo escrito por Claudio de Oliveira Ribeiro, PPG-CR/UFJF)

Edição: Alex Rosset

Sobre desumanizar-se durante a luta

Há quem prefira esconder-se por trás da maldade do mundo para dar asas à sua própria perversão. Entretanto, os atos alheios jamais devem justificar os nossos.

Quem luta do lado oposto da trincheira é tão humano quanto quem luta ao nosso lado. Sem as devidas precauções, seremos reduzidos a monstros, desprovidos de qualquer traço de humanidade.

Ainda que o outro lado já tenha se desumanizado, lançando mão de procedimentos cruéis, devemos nos manter leais à nossa consciência, preservando assim a nossa essência. Como disse Nietzsche, “aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

 Para o filósofo alemão, as dificuldades da vida são como uma escola que pode nos endurecer e até nos transformar em pessoas cruéis, todavia, no final, essa será uma opção pessoal.

Como dizia Sartre, “não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.” Cada um responde de acordo com que tem dentro de si.

Viktor Frankl comenta em seu livro “Em busca de sentido” que, até nas circunstâncias mais adversas, o ser humano tem o direito de decidir qual será sua postura diante do mundo. Sobre sua passagem pelo campo de concentração em Auschwitz, Viktor relatou que alguns prisioneiros se embruteciam e colaboravam em atos de tortura, agindo contra os próprios companheiros, ao passo que outros consolavam os doentes acamados e dividiam com eles seu último pedaço de pão. “Mesmo que não esteja em suas mãos mudar uma situação dolorosa, é sempre possível escolher a forma de lidar com o sofrimento”, afirmou.

Há quem prefira esconder-se por trás da maldade do mundo para dar asas à sua própria perversão. Entretanto, os atos alheios jamais devem justificar os nossos.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Resistir a quê?

MANAUS - AM 02/06/2020 - MANIFESTAÇÃO CONTRA O FACISMO E O GOVERNO BOLSONARO, REALIZADA NA AVENIDA DJALMA BATISTA. FOTO: EUZIVALDO QUEIROZ/ACRÍTICA

Hoje, não parar é um movimento bastante ousado na luta contra o obscurantismo. Não parar! Não calar quando a tristeza diante da barbárie tenta nos paralisar!

Aceitei o convite do Professor Nei Alberto Pies para escrever neste importante espaço, em um momento de cansaço. Há muito tempo não escrevo. A necessidade de repetir obviedades me cansou. A falta de escuta e empatia me cansaram. A banalização das violências me cansou. Calei.

Me perdoem, mas este primeiro texto que escrevo para este espaço tende a ser triste; vai dizer da minha vida pessoal. Não parem de ler aqui.

A minha vida pessoal diz muito mais sobre coletividade do que sobre os caprichos que tenho, e que não serão abordados aqui porque ainda me resta noção.

Tem uma tristeza que parece gasosa, diluída no ar. Eu encho os pulmões dela, os esvazio, mas ela volta a entrar. Esse sentimento me vem como prova do meu caráter. Afinal, quem não tem se sentido triste ou não tem se angustiado, boa gente não deve de ser. Preciso falar não só da tristeza por mais de 550 mil mortes evitáveis em meio a esta pandemia, mas da tristeza que já tentava me engolir nos últimos anos, e me ensinava o significado da palavra “resistência”.

Escalou, ano após ano, por sobre os degraus que levavam à presidência da república, o homem que simbolizava todo o ódio a quem eu sou. Pior do que isso, seus degraus eram, muitas vezes, a minha cabeça e a de meus semelhantes. Sim, o militar reformado, deputado improdutivo por três décadas, ganhou grande parte da visibilidade que hoje tem às custas do discurso de ódio contra pessoas não heterossexuais e não cisgêneras.

Vidas desprezíveis as nossas, foi o que disseram muitas das nossas famílias ao erguerem a mão em apoio a um projeto de morte como o que está em curso hoje no executivo federal. “Ah, mas vai brigar por política?” – “Nossa! Tu leva política muito a sério!” – “Tudo pra ti é política!”.

É, tudo para mim é política, e que privilégio não perceber isso. Que privilégio não precisar se preocupar com o conteúdo de projetos de lei em tramitação, ou com a orientação política do tio, ou com olhares tortos na rua por exercer afeto, andar de mãos dadas, ou ainda com agressões verbais e físicas apenas por conta da sua performance de gênero. Que privilégio poder se dar ao luxo de não levar a política tão a sério.

Dissidentes não têm essa possibilidade de escolha. Viver e sobreviver é um ato político.

Muito me dói que tantas pessoas que eu considerava até 2018, tenham acreditado, apesar de tudo o que se anunciava, que um voto era apenas um voto. De maio para cá, apesar da pandemia e de todos os riscos, me reencontrei nas ruas com milhares de pessoas dispostas a derrubar o fascismo e todas as ameaças à democracia que temos visto. São milhares de pessoas nas ruas a cada dia de mobilização nacional, gritando contra tudo o que não aguentam mais.

É engraçado dizer que não se aguenta mais, porque dia após dia, a gente segue aguentando. Acho que “resistência” é isso: o sentimento de não aguentar mais tanta barbárie, mas continuar aguentando, se opondo, marcando posição, denunciando. Nunca estamos parados, estamos sempre resistindo e isso é um movimento forte o bastante para não deixar que o fascismo prevaleça.

Produzimos, durante as últimas décadas, bases teóricas sobre gêneros e sexualidades, além de metodologias para levar essas bases teóricas à educação básica e ao ensino superior, acreditando no poder desse movimento como transformação social.

Hoje, a ofensiva antigênero, patrocinada e fomentada pelo executivo federal e por grande parte do legislativo, promove um grande retrocesso de pautas tão importantes.

É muita angústia pensar no que fazer para barrar os retrocessos que nos têm sido impostos, mas acredito que, por hoje, não parar é um movimento bastante ousado na luta contra o obscurantismo. Não parar! Não calar quando a tristeza diante da barbárie tenta nos paralisar! Não parar, não calar, aguentar mesmo quando o grito é de “não aguento mais” – e resistir!

Autor: Oscar de Souza

Edição: Alex Rosset

Crianças que crescem próximas a áreas verdes são mais saudáveis e inteligentes

As crianças aprendem com as árvores a serem vaidosas. Sim, porque as árvores gostam de se mostrarem bonitas e elegantes nos seus bailados de folhas ao vento, nos movimentos dos seus galhos, nas belezas dos seus frutos.

Estamos vivendo um tempo em que as áreas verdes estão ficando cada vez mais difíceis de serem encontradas nas cidades que se escondem através de muros de concretos. Nesses locais, encontrar uma árvore ou plantinha pelas ruas é uma raridade. Tudo é prédio e asfalto. O calor é enorme.

As crianças ficam sufocadas sem ter onde brincar e passam a maior parte do tempo dentro das suas casas. Nos escondemos atrás dos nossos muros e portões de grades com medo da violência que toma o país.

Nessas cidades de poucas áreas verdes, temos muita poluição. As fumaças das indústrias, a combustão dos automóveis sem contar com as poluições visuais e sonoras. Vivemos em um mundo louco. Ter um cantinho para sentar e respirar um ar limpo é difícil. Com isso, crianças vão crescendo em um mundo onde sem contato com a natureza o pensamento se detém a coisas que não ofertam o despertar de emoções capazes de auxiliarem no ensino-aprendizagem.

É sabido que as crianças que têm contato maior com a natureza, ou seja, que moram próximas de áreas verdes sentem-se mais livres, conseguem brincar mais, se divertem muito mais e com isso estão sempre preparadas para aprenderem as lições da escola porque seus espíritos esvaziados de tensões e perturbações alheias aos seus pequenos mundos conseguem acessar mais rapidamente o conhecimento escolar. Perturbações essas que chegam de diversas maneiras, tais quais o barulho das cidades, a falta de uma paisagem onde a criança possa imaginar outros mundos mais fascinantes, um ar poluído que prejudica a boa respiração e a preocupação constante com o tempo da família em relação ao seu tempo.

Não é à toa que nos contos de fadas encontramos sempre crianças em volta de áreas verdes. Morar perto de áreas verdes deixa as crianças mais ágeis e espertas porque elas aprendem a subir nas árvores, a comerem seus frutos que elas mesmas pegam com as mãos, a pularem de galhos em galhos brincando e mesmo se caírem de um deles vão rapidamente se limpar e voltar a brincadeira. Elas nunca se cansam de correr no meio das árvores e se jogarem no chão de areia ou de grama. Uma criança que se suja muito tem menos probabilidade de adoecer do que aquela criança que vive sempre limpinha e nunca brinca na areia ou toma banho de chuva. Toda criança tem que ter contato com a natureza.

A criança que vive perto de áreas verdes sabe o quão aquelas árvores são importantes para o seu bom viver criando um laço afetivo com elas que substitue muitas vezes um brinquedo de plástico.

O contato com a natureza proporciona um bem-estar enorme ao corpinho das crianças permitindo que elas estejam sempre bem diante de todos e de qualquer situação inesperada que venha a acontecer em suas vidas. Observando a forma como as plantas crescem, o curto período de vida de algumas flores, convivendo de perto com alguns insetos presentes nas plantas e ouvindo o canto dos pássaros essas crianças conseguem um equilíbrio emocional capaz de curar doenças e evitar traumas, pois a natureza oferece oportunidades de um viver em que a liberdade de poder ser o que quiser é possível.

No meio da pequena floresta a criança corre de encontro a árvore mais próxima. O seu sorriso é grandioso. Os braços abertos estão prontos para abraçar aquele tronco grosso. Não há nada melhor nessa vida do que abraçar uma árvore e sentir a sua grandiosidade. Para uma criança quanto maior a árvore maior parece ser a sua coragem de viver. E essa coragem é recebida de forma a fazer dela uma imitadora do ser árvore além da natureza, mas no seu mundo imaginário.

Se a árvore consegue ser grande e corajosa, a criança também poderá tornar-se forte diante dos obstáculos da vida. Se a árvore está sempre ali com as suas folhas e frutos apesar da chuva e do sol, apesar das noites escuras, a criança também saberá enfrentar as mais diversas adversidades porque se baseia naquele objeto da natureza que tanto ama.

O bom seria que toda criança tivesse uma amiga árvore assim como teve o nosso escritor pernambucano conhecido por Luis Jardim que teve como melhor amigo na infância o seu velho cajueiro. Aqui recomendo a leitura desse escritor maravilhoso que escreveu a sua autobiografia intitulada “Meu pequeno mundo”.

Na minha infância eu também tive uma árvore como amiga e também foi um velho cajueiro. A minha vó costumava dizer que as árvores guardam segredos e eu confiava muito no meu cajueiro contando-lhe os meus mais diversos problemas de criança incompreendida pelos adultos. A minha árvore morreu com todos os meus segredos dentro dela.

Eu não poderia deixar de falar do poeta da natureza brasileiro Manoel de Barros que tão bem trouxe as árvores e os bichos para a sua obra infantil.

Todos os seus poemas me encantam, mas tem um deles que acredito ser importante para este nosso ensaio intitulado “Árvore” que diz em seus versos “No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo mais do que os padres lhes ensinavam no internato. / Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.” Vejam que metáfora bonita a de Manoel de Barros que nos traz um estágio de ser árvore que creio toda criança deveria exercitar. Esse perfume de Deus que pode entrar no corpinho e espírito da criança proporcionando-lhe coisas boas, bons sonhos, esperança, disposição para enfrentar os seus medos e aflições.

As crianças aprendem com as árvores a serem vaidosas. Sim, porque as árvores gostam de se mostrarem bonitas e elegantes nos seus bailados de folhas ao vento, nos movimentos dos seus galhos, nas belezas dos seus frutos. As crianças tendem a observar essas vaidades e querem imitá-las, de certa forma, e assim conseguem levar essa vaidade para a escola se esforçando para aprender as lições que lhes são ensinadas para conseguir êxito de aprovação. Toda criança vaidosa também desenvolve habilidades cognitivas possíveis de serem trabalhadas em sala de aula de uma forma que o raciocínio lógico possa ser explorado nos seus mais diversos aspectos.

Assim é que as crianças com problemas de deficiências mentais que convivem perto de áreas verdes recuperam-se mais rapidamente dos seus sofrimentos e conseguem apesar das deficiências alguns êxitos no ensino-aprendizagem seja talvez por observarem bastante o voo das borboletas frágeis pelas flores, seja por perceberem os beija-flores se alimentarem ou seja por estarem em contato com as joaninhas tão belas a povoarem os jardins. Esses insetos conseguem mostrar às crianças que apesar de serem frágeis diante dos humanos podem sobreviver num mundo difícil.

Quando as crianças entendem que na natureza existem os animais predadores e que se alimentam de outros animais elas percebem que precisam de autocuidados para escaparem das armadilhas que a vida lhes prega e dos predadores internos e externos que costumam aparecer nos seus pequenos mundos.

Esses predadores internos, dos quais falamos acima, para as crianças podem aparecer para as crianças no medo de fazer uma avaliação e tirar uma nota baixa, numa competição esportiva que corre o risco de não ser vitorioso, na disputa do amor dos pais com o irmão mais novo e tantos outros predadores que aparecem ao longo da infância da criança que costumam atormentá-la e se ela não tiver como exemplos essa natureza que tudo vence não conseguirá ser forte o suficiente para suportá-los permitindo assim adoecer emocionalmente e fisicamente.

O certo é, que mesmo as crianças que moram em edifícios cheios de grades e muros pudessem nos fins de semana estar perto da natureza. Seria muito bom para elas esse contato mesmo que por pouco tempo.

Já os predadores externos costumam ser identificados pelas incompreensões que os adultos tendem a apresentar aos pensamentos e indagações das crianças, ao seu jeito de ser e lidar com o mundo real, as suas emoções que muitas vezes são confundidas com birras e são largadas no meio do corredor de um shopping a chorarem os seus medos. Também são predadores externos todos aqueles que não conseguem cuidar das crianças com carinho e afeto, mostrando para elas respeito nos seus comportamentos e modos de falar e agir.

Cada criancinha é um mundo à parte desse mundo real e, muitas vezes, para algumas delas compreender esse mundo pode ser muito difícil sem o auxílio de um adulto que tenha por ela afeto e cuidado.

Assim é que na obra infantil “A árvore generosa” de Shel Silverstein a relação de amizade do menino para com a sua árvore que tudo lhe dar ocorre de uma forma sincera e afetuosa. A árvore ama tanto o menino que não mede esforços para satisfazer todos os seus pedidos assim como o menino também a ama por ser tão generosa para com ele. É dessa generosidade que as crianças precisam para crescerem felizes e emocionalmente fortes. Claro que não lhes daremos tudo o que pedirem, mas que possamos fazer por elas um pouco do que nos pedem como a simples atenção que muitas vezes esquecemos de dedicar-lhes no fim do dia ou na hora de ir para a cama.

O menino da “Árvore generosa” deitava-se à sua sombra e gostava de comer os seus frutos, ele sabia que nela podia confiar e assim as crianças aprendem a gostar da gente e a nos dar carinho quando descobrem que podem confiar em nós.

Nas minhas andanças pelo Brasil, já conheci meninos que moram perto de áreas verdes e meninos que moram em grandes condomínios cercados de muros e câmeras de segurança. Os dois meninos são felizes, cada um do seu jeito. Porém, os meninos das áreas verdes não têm medo de se pendurar numa árvore e sair de galho em galho caminhando sobre ela, de ficar conversando com a árvore por horas só para ver se ela lhe fala alguma coisa de volta.

São esses meninos das áreas verdes mais saudáveis e mais cheios de imaginação. Seus mundos são povoados por elementos da natureza e conseguem dormir bem e sonhar com coisas bonitas. Muitos meninos dos condomínios que conheci necessitam de profissionais da alma para cuidarem das suas emoções. Talvez o diferencial esteja na amizade sincera que as árvores oferecem e que essas crianças de condomínios não conseguem encontrar onde moram.

Sem contar que as brincadeiras ao ar livre, diante de uma floresta ajudam a gastar energia e a estimular os sentidos humanos. Toda criança gosta de correr e pular. Quando essa brincadeira é vivida com os familiares, se torna mais agradável ainda porque os seus laços se fortalecem. Correr com os amiguinhos também faz um bem maravilhoso porque as crianças fazem amizades. Brincar de esconde-esconde atrás das árvores ou em cima dos seus galhos é uma boa brincadeira.

A criança que mora perto de áreas verdes tem os seus sentidos mais aguçados porque escutam o canto dos pássaros, veem as belezas das flores, tocam nos galhos das árvores e sentem o cheiro do mato molhado pela chuva que é delicioso. Tudo isso proporciona à criança um bem-estar encantador.

A criança, depois de um dia de correria no meio da floresta, vai dormir cansada e consegue assim ter uma boa noite de sono. O bom sono faz com que a criança possa aprender as tarefas escolares de uma forma mais rápida, por isso é recomendável que as criancinhas estudem pela manhã quando os seus pensamentos estão livres e abertos a tudo o que lhe for agradável.

A criança que tem em casa um quintal para poder brincar também é mais feliz, pois pode jogar futebol ali mesmo sem ter que se deslocar para a quadra mais próxima, pode plantar uma árvore que goste e até mesmo ter a sua própria horta. Você já imaginou o quanto era bom na sua infância passear de bicicleta pelo seu bairro? Ou subir na árvore e ficar lá em cima chamando pelos seus pais? São coisas como essas que agradam as crianças.

Infelizmente, ter um quintal em casa é coisa difícil atualmente, porque a maioria das crianças mora em condomínios. Alguns pais tendem a se preocupar apenas com as doenças do corpo esquecendo das doenças da alma que as crianças apresentam e quando as levam a um profissional querem uma solução rápida aceitando qualquer tratamento até mesmo o uso de medicamentos quando o tratamento poderia ser efetuado com brincadeiras ao ar livre e próximas da natureza onde árvores e bichos tornam a vida da criança mais agradável.

Também temos as crianças que ficam trancadas nos seus quartos o dia inteiro plugadas em aparelhos eletrônicos e comendo enlatados e guloseimas. Essas crianças que não correm e não pulam são sedentárias e se cansam facilmente nas aulas de campo quando são exigidas a fazerem trilhas ou passeios que sobem e descem ladeiras. A obesidade infantil só cresce no mundo inteiro porque as crianças não estão mais correndo e brincando como deveriam, por isso é importante que elas tenham essa proximidade com as áreas verdes onde possam brincar na grama rolando seus corpinhos por ela, correndo entre as árvores, subindo e descendo os seus galhos.

A conexão com a natureza traz muitos benefícios à criança. Deixe que ela experimente essa conexão e possa compartilhar momentos divertidos ao seu lado. Leve sempre que puder a sua criança para brincar num parque se na sua casa não tem um quintal com plantas e jardins.

Para finalizar o texto, gostaria de deixar a indicação de leitura do livro de José Saramago intitulado “A maior flor do mundo” onde um menino é capaz de fazer uma flor dar sombra e o povo da sua aldeia diz que ele vai sair por aí capaz de fazer uma coisa muito maior do que o seu tamanho, do que todos os tamanhos.

Veja o vídeo A maior flor do mundo: https://youtu.be/tLjToQkTLks?t=29

Eis o que penso das crianças que brincam ao ar livre, diante da natureza, perto das árvores, são capazes de imitá-las e tentar ser bonitos e fortes iguais a elas capazes de criar raízes profundas que vão buscar felicidades em terras alheias, mas cheias de afeto. Para uma criancinha dar os primeiros passos com os pés descalços não tem coisa melhor, pois desde pequenina vai saber o quanto a terra é uma mãe que merece respeito e cuidados da sua parte.

Que toda criança possa desfrutar de uma área verde para poder brincar, correr, pular até se cansar. Esquecendo, assim, os seus medos e ansiedades diante dos problemas da vida moderna. E que todo ensino possa ser ministrado diante da natureza e não em salas de aulas fechadas e sem janelas.

Fiquemos com a bela música de Benito Di Paula intitulada “Amigo do sol, amigo da lua” que nos diz “Vem amigo, nadar nos rios / Vem amigo, plantar mais lírios /
No vale, no mato e no mundo / Vamos brincar”. Que todas as crianças possam convidar umas as outras para nadarem nos rios e plantar lírios onde tem concreto, pois no mundo do faz de conta nascem flores até mesmo nas cabeças mais confusas do homem moderno. Vamos brincar!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

A democracia ameaçada pela irracionalidade

Nossa jovem e frágil democracia está com seus pilares comprometidos. O povo brasileiro precisa sair das bolhas das redes sociais e dar-se conta que muita coisa está em risco. Não só a sobrevivência da democracia, mas a sobrevivência da própria vida.

O ser humano é um animal racional, ao menos essa é a definição clássica defendida pela filosofia e pela ciência. Essa racionalidade historicamente constitui as civilizações, as culturas, os “progressos”, os domínios da natureza. Mulheres e homens por meio de atos racionais produziram conhecimentos, formas de vida, ferramentas, produtos, tecnologias…

A longínqua história civilizacional nos mostra com detalhes quantas invenções tornaram melhor a vida humana por conta de conhecimentos e saberes que possibilitaram enfrentar doenças terríveis, melhorar a produção de alimentos, sofisticar os transportes, possibilitar mais conforto para nossa vida diária.

No Brasil, chegamos ao século XXI com a promissora possibilidade de erradicar certos problemas históricos e constituir uma vida melhor não só para alguns privilegiados mas para todos. A fome, o analfabetismo, a violência, o feminicídio, a homofobia, o racismo e tantos outros males e “doenças” que sempre “ceifaram vidas” poderiam ser uma página virada no século XXI. No entanto, o que vemos é um retrocesso civilizacional, uma volta ao que se teve de pior no passado.

Pode parecer um exagero, mas observamos alguns acontecimentos como ilustração.

Nas últimas três décadas, o Brasil tinha conseguido controlar a inflação, enfrentar o analfabetismo, sair do mapa da fome, constituir um conjunto de políticas públicas, possibilitar o acesso à Educação Superior de jovens e adultos de baixa renda, criar empregos, movimentar a economia, se tornar um país respeitado no cenário internacional, se livrar da dívida externa, melhorar seus índices de desenvolvimento e a lista poderia ser bem longa. Mas todos estes avanços não agradaram a todos.

Uma “elite do atraso”, para usar uma expressão do reconhecido e respeitado Jessé Souza (2017) se sentiu incomodada ou até mesmo ameaçada de perder seus privilégios, sua exclusividade ao bem estar, seu pleno e confortável domínio sobre tudo e sobre todos.

Ver filhas e filhos de trabalhadores chegarem ao ensino superior (na maioria das vezes os primeiros de toda árvore genealógica da família), ver pobre tendo a possibilidade de viajar de avião, ver faxineiras conseguirem abrir seu próprio negócio, ver trabalhadores conseguirem comprar carro zero, ver assalariados adquirir casa própria, ver pequenos empresários criarem seu próprio  negócio sem os impagáveis e absurdos juros bancários, ver pequenos agricultores comprarem maquinários para inovar e ampliar a produção de grãos e tantos outros benefício que vêm da agricultura familiar (e a lista poderiam ser bem grande), desagradou quem sempre dominou e “usou” esse país. Para evitar que o avanço de políticas sociais pudesse sair do controle era necessário um “novo pacto”.

Em seu livro A Elite do Atraso, Jessé Souza (2017) mostra o pacto construído e sedimentado pelos donos do poder para perpetuar uma sociedade excludente e perversa, forjada ainda na escravidão.

Para que tal pacto pudesse ser aceito, tacitamente era necessário criar uma narrativa, um bode expiatório, algo para “diabolizar”. A corrupção canalizada em certas lideranças foi a bola da vez e o “golpe midiático parlamentar” foi o veículo para impedir que um projeto democrático de inclusão social pudesse prosseguir. Sérgio Moro e sua turma de Curitiba se encarregaram de fazer o jogo sujo (agora já desmascarado) de impedir que as urnas de 2018 pudessem trazer de volta a continuidade de um projeto de inclusão.

As redes sociais, as “velhas raposas” da política e as fakes news se encarregaram de fazer a lavagem cerebral até mesmo daqueles que se beneficiaram das políticas sociais.

Não custa lembrar de que um contingente expressivo dos eleitores que deram a vitória a Bolsonaro em 2018 conseguiram seu diploma de ensino superior graças ao Prouni ou Fies, que muitos pequenos empresários conseguiram abrir seu negócio por conta de empréstimos a juros baratos subsidiados por recursos públicos, que muitos trabalhadores conseguiram sua casa própria graças ao projeto “Minha Casa, Minha Vida”, que um enorme contingente de agricultores conseguiram fazer prosperar sua propriedade por conta do “Programa Mais Alimentos”. E a lista poderia ser bem longa.

Bolsonaro se elegeu com uma narrativa de ódio contra as esquerdas, contra as políticas sociais, contra a ideia democrática de inclusão. Seus mais de dois anos de governo mostraram que o Brasil só regrediu em termos de ser um país mais decente para viver. Nossa tão almejada soberania nacional que nos tornaria uma nação forte frente ao mundo está completamente jogada no lixo.

Nossas grandes riquezas (petróleo, minérios, água, madeira etc) estão sendo entregadas de bandeja para grupos internacionais; nosso sistema educacional está sendo entregue aos empresários da educação que o transformaram em um promissor negócio para ganhar dinheiro e com isso a educação deixa de ser “direito” para se transformar “privilégio” de quem pode pagar; as universidades públicas, lugar onde se construiu historicamente as melhores pesquisas, estão sendo sucateadas e perseguidas por supostas “questões ideológicas”; boas universidades comunitárias estão sendo destruídas por conta da concorrência desleal de instituições empresarias que só querem ganhar dinheiro com a educação; questões ambientais de altíssima grandeza estão sendo negligenciadas pelo próprio ministro da meio ambiente e o Brasil corre o risco de perder sua soberania da Amazônia; as forças armadas que deveriam zelar pela soberania nacional e cumprir o que está estabelecido na constituição, estão se tornando cada vez mais coniventes com o governo e alguns de seus generais estão envolvidos em operações suspeitas de corrupção e passam a ameaçar os processos democráticos; a violência aumenta a cada dia que passa, alimentada pela indústria de armamentos que com uma narrativa de proteger o cidadão, arma cada vez mais o mundo do crime; a inflação que tinha sido controlada por mais de duas décadas, volta a se tornar um fantasma na vida de todo brasileiro.

Alguns poderão dizer que isso tudo é consequência da pandemia e de que tudo seria diferente se não tivesse existindo a Covid-19 e suas variantes. No entanto, a forma como foi enfrentada a própria pandemia por parte do governo apresenta evidências de irracionalidade e de destruição da democracia.

Senão vejamos: Primeiro a negação do problema (“é só uma gripezinha); depois o suposto tratamento preventivo ineficiente (uso de cloroquina e derivados) e negacionismo da vacina (“se vacinar vai virar jacaré”); agora o escândalo da corrupção, as negociatas com o Centrão para evitar o impeachment e as cotidianas ameaças de intervenção militar se não tiver voto impresso.

Nossa jovem e frágil democracia está com seus pilares comprometidos. O povo brasileiro precisa sair das bolhas das redes sociais e dar-se conta que muita coisa está em risco. Não só a sobrevivência da democracia, mas a sobrevivência da própria vida.

Conheça outras publicações no site: A mixofobia da cidade; Quanto vale um professor?; O mal-estar na civilização; Educar o educador. https://www.neipies.com/author/altair/

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

Biblioteca: espaço de livros e de formação de leitores

Uma biblioteca pública não é apenas um lugar para guardar e organizar os livros, para disponibilizá-los para toda comunidade, especialmente para aqueles que desejam ler. Uma biblioteca pode ser também um lugar de vivências e de experiências leitoras que envolva os autores de livros, os artistas, os contadores de histórias e os livros.

Passo Fundo, capital Nacional da Literatura, tem uma biblioteca assim, com livros e com atividades leitoras e literárias. Esta biblioteca está hoje sob a Coordenação de Vanessa Hickmann, uma professora da rede municipal muito envolvida com atividades de leitura e literatura.

Nesta entrevista, em Seção Protagonistas da Educação (https://www.neipies.com/protagonistas-da-educacao/ ) vamos destacar um pouco da história pessoal da professora Vanessa, da história da biblioteca Municipal Arno Viuniski e da sua importância para difundir e promover o prazer da leitura.SITE NEIPIES: Vanessa, como, quando e porquê nasceu em você o desejo de trabalhar profissionalmente, como professora, na área de leitura e literatura?

Professora Vanessa: Desde criança me senti encantada pelas histórias. Minha família tinha a cantina de uma escola particular e lembro que, quando a professora do jardim de infância reunia seus aluninhos para a hora do conto, eu ia me aproximando da sala e ficava espiando, até que a professora me colocava para dentro da roda e eu me divertia com o mundo literário que ela apresentava. Depois de um bom tempo, no mestrado, essa mesma professora se tornou minha colega.

Confesso que sonhava em ser jornalista, mas a paixão pela palavra e o sábio conselho de uma escritora a qual convivi na minha adolescência me fez escolher pelo curso de Letras. Meu amor pelas artes e, sobretudo, pela Literatura demonstram que fiz a melhor opção.

SITE NEIPIES: Na sua visão, como uma sala de aula, uma escola, podem tornar-se lugares de leitura e promoção de literatura?

Professora Vanessa: Na minha opinião, a escola é um dos melhores lugares para encantar leitores a partir de práticas que despertem o interesse das crianças e dos jovens pela literatura. Isso fica mais fácil se encontrarmos dentro desse lugar sagrado, uma equipe de professores que também sejam leitores e amem a arte da palavra. Como já mencionei, as palavras conduzem, mas os exemplos arrastam.

SITE NEIPIES: Conte-nos de uma experiência marcante de leitura/literatura vivenciada com estudantes do Ensino Fundamental na rede municipal de Passo Fundo?

Professora Vanessa: Difícil escolher uma experiência somente, mas eu sempre acreditei no poder do exemplo na formação de leitores. Por isso, além de praticar constantemente a leitura, eu procuro realizar projetos, movimentar as prateleiras de livros das bibliotecas escolares, levar os alunos até os livros e vice-versa. No ano de 2018, por exemplo, fui agente de leitura dentro de uma ação da Jornada de Literatura chamada Estação de Leitura, junto à EMEF São Luiz Gonzaga. A movimentação foi grande, muitos livros, debates, exposição de trabalhos e produções artísticas. Acredito que aquele momento ainda é lembrado por toda a comunidade escolar.

SITE NEIPIES: Professora Vanessa, como nasce um leitor?

Professora Vanessa: Um leitor pode nascer de diferentes formas: a partir do contato com alguém que conte histórias, ou de um professor que transmita o amor pela literatura, pode nascer do interesse da pessoa em ampliar conhecimento e cultura. Depende da sorte e da história de cada um.

SITE NEIPIES: Como está sendo para você, hoje, o desafio de dirigir a Biblioteca Municipal Arno Viuniski?

Professora Vanessa: Dirigir a biblioteca é bastante desafiador, mas também bem divertido. Sinto-me honrada em fazer parte de uma equipe que atua como verdadeiros guardiões de conhecimento, literatura, história, arte. Nesta época, em que a tecnologia está cada vez mais presente na vida das pessoas, aproximá-las dos livros é uma tarefa necessária e, sobretudo, para mim, que traz bastante alegria. 

SITE NEIPIES: Qual é a concepção, a ideia que orienta a existência da Biblioteca Municipal mais recentemente?

Professora Vanessa: Nós, da Biblioteca Municipal, acreditamos que a biblioteca é um espaço diferente daquele que conhecíamos há muito tempo, como um lugar de silêncio. Aqui, além de estudar e pesquisar, os usuários podem participar de atividades culturais, vivenciar momentos de alegria e de contato com as mais diferentes artes que dialogam com a literatura na busca de um mesmo objetivo: mediar leitura e sensibilizar e formar leitores.

SITE NEIPIES: Que projetos e que atividades foram realizadas recentemente pela Biblioteca e quais os projetos que serão realizados agora depois da reabertura da biblioteca ao público?

Professora Vanessa: A pandemia realmente mudou a rotina da biblioteca. Para não ficar totalmente alheia ao cotidiano da comunidade, resolvemos criar possibilidades online. Assim, iniciamos a Contação de Histórias e o Bate-papo com os adolescentes transmitidos pela sala do Google Meet das escolas.

Além disso, criamos o Projeto RECREativo. Uma espécie de recreio, transmitido pelo canal do youtube da SME Passo Fundo, nas segundas-feiras, às 10h, para os adolescentes e, às 15:30h, para as crianças. O objetivo é proporcionar um momento cultural para a galera e também uma oportunidade para os artistas divulgarem seus trabalhos. A experiência tem sido bem positiva, sugiro ao pessoal que está lendo esta entrevista, que acessem o canal e confiram alguns desses momentos.

Recentemente, a biblioteca reabriu as portas para o empréstimo de livros. Estamos bem felizes de poder reaproximar a comunidade das obras literárias. Afinal, nos últimos tempos, o livro foi uma grande companhia, principalmente por causa da pandemia. Aos poucos, queremos voltar com as atividades de contação de histórias e debates literários no modo presencial. Mas, divulgaremos pelas nossas redes sociais, como o Instagram (@bibliotecaviuniski) e Facebook (Biblioteca Municipal de Passo Fundo).

SITE NEIPIES: Como surgiu a ideia de fazer, em 2021, uma Maratona de Histórias, contadas virtualmente através do yotube? Qual é a avaliação sua desta atividade que envolveu número expressivo de escritores e leitores?

Professora Vanessa: A Biblioteca Municipal sempre atuou na Semana do Município. Em 2019, por exemplo, participou do Conexão Cultural, com 12 horas de atividades distribuídas no espaço Roseli Doleski Pretto, em parceria com as outras instituições que o compõem.

Agora, em 2021, devido à necessidade de distanciamento, resolvemos criar um cronograma que pudesse ser transmitido online. Graças à riqueza de artistas passo-fundenses que contam histórias, sejam escritores, professores ou amantes da literatura, vimos a possibilidade de trazer a Maratona de Histórias. Foi um momento bem especial e rico em diversidade, quando descobrimos inúmeros talentos. Sentimos que tanto os contadores, quanto o público se divertiu bastante e até se emocionou. Para nós, foi desafiador, pois tínhamos que encaixar mais de 50 histórias e 30 contadores. Mas, sobretudo, foi uma experiência apaixonante e enriquecedora. Quem sabe, nos 165 anos de Passo Fundo, uma segunda edição da maratona?

SITE NEIPIES: Conte-nos também do espaço na Biblioteca reservado aos livros dos escritores locais de Passo Fundo.

Professora Vanessa: A seção dos Escritores Passo-fundenses foi criada em agosto de 2013, pela Academia Passo-fundense de Letras, estreitando os laços entre a Biblioteca Municipal Arno Viuniski e a instituição que abrigou os primeiros anos da biblioteca (fundada em 1940, na sede do Grêmio Passo-fundense). Nela, os leitores encontram obras que narram a história de Passo fundo e também outras obras de membros da Academia, ou não. Como é o caso de tantos outros escritores que contribuem para o incentivo à leitura e à produção literária em nosso município.

SITE NEIPIES: Como e quando a comunidade passofundense pode acessar e usufruir do acervo de livros e das atividades que são desenvolvidas na Biblioteca?

Professora Vanessa: A comunidade passo-fundense está convidada a vir até a biblioteca conhecer e usufruir de nosso acervo. Temos aproximadamente 15.000 títulos, organizados em literatura estrangeira, brasileira, infantil e juvenil, auto-ajuda, espírita, biografia e, é claro, os autores passo-fundenses. Para ser um usuário, basta apresentar o RG, o CPF, um comprovante de residência e fornecer alguns telefones de contato. O cadastro é gratuito e a biblioteca está aberta de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h e das 13h às 17h.   

SITE NEIPIES: Um pensamento, uma frase, para aqueles que já lêem. Um pensamento, uma frase, para aqueles que ainda não são leitores.

Professora Vanessa: Para aqueles que já leem, posso dizer, é isso aí, vamos em frente que este é o caminho. Já, para os que ainda não lêem, prefiro trazer um conselho: arrisquem-se, experimentem, só conhece a boa ou a má leitura quem lê. E entre tantas possibilidades, com certeza há algum livro que vai encantar você.

SAIBA MAIS BIBLIOTECA MUNICIPAL ARNO VIUNISKI

Desde 2013, a Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski apresenta um novo conceito de biblioteca, com um espaço dedicado às crianças e formação de novos leitores, ao aprendizado de novas linguagens e à percepção audiovisual.

Uma área com espaço ao ar livre foi incorporada à redefinição das salas com o intuito de favorecer a leitura. Além disso, todas as estantes têm dicas de leitura, juntamente com a reposição de novos livros, obras de arte expostas, contação de histórias e palco para apresentações.

Além de contar com um acervo entre os diferentes gêneros da literatura, a biblioteca oferece o Espaço Autor Passo-fundense, com a intenção de valorizar a produção intelectual local.

A Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski foi criada através do decreto de lei federal nº 1.939, pelo então prefeito Arthur Ferreira Filho. Foi inaugurada no dia 02 de abril de 1940, na Sede do Grêmio Passo-fundense de Letras.

O espaço fica localizado na Rua Morom, 2019, no centro da cidade. O horário de atendimento ao público é de segunda a sexta-feira, das 8h às 12h na parte da manhã e das 13h às 17h na parte da tarde.

Quem foi Arno Viuniski?
Arno Viuniski, filho do casal Moyses e Rachel Viuniski, nasceu em Passo Fundo, no dia 11 de novembro de 1949, e faleceu prematuramente aos 30 anos.

Estudou até o Ensino Médio no Instituto Educacional, cursou a Faculdade de Arquitetura e Comunicação Social, ambas na Universidade Unisinos de São Leopoldo. Estagiou na Secretaria de Obras e Viação da Prefeitura de Passo Fundo, sendo o autor do projeto arquitetônico da Biblioteca Municipal de Passo Fundo, no período de 1976, hoje, chamada Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski. O projeto contemplava uma arquitetura arrojada para época,com seu formato hexagonal.(Fonte: http://www.pmpf.rs.gov.br/secao.php?t=11&p=661)

Edição: Alex Rosset

Criticidade: tão almejada e tão controlada. Por quê?

Pretendo chamar a atenção para possíveis contrastes, pois se o propósito da educação é formar sujeitos ativos e críticos, capazes de perceber as incoerências e pensar estratégias para superá-las, como pode haver um movimento que se opõe à crítica?

Circulam nas diferentes mídias muitos textos e expressões de leitura rápida, que acabam por chamar a atenção do leitor. Ele verifica sua condição emocional do momento e com um clic, pronto! Está selecionada a postagem do instante. Sim, porque é possível, em cada espiadela nas redes, encontrar várias “mensagens” para “abrilhantar” os diferentes períodos do dia.

Tomamos como ponto de partida, duas frases famosas nas redes sociais para nos ajudar a pensar sobre a educação crítica: “Seja um incentivador de pessoas, o mundo já tem críticos demais” e “Educação sem pensamento crítico não é educação, é adestramento.”

Com a exposição frequente, a oscilação do pensamento e as contradições podem ser observadas sem muito esforço, tamanha a mistura/diversidade de conceitos e concepções postadas. O que chama a atenção é o fato de os temas/assuntos serem divergentes em muitas ocasiões, reflexo da ausência de filtro, de um crivo reflexivo-crítico-consciente.

Durante a manhã, por exemplo, pode ser publicada uma citação impactante da artista Frida Kahlo e mais tarde, outra postagem contra a classe artística ou contra a luta feminina em busca de direitos.

Outra expressão bastante famosa é aquela que professa “pais educam e escola ensina”, como se fosse possível fragmentar a educação do ser humano.

Até é possível, mas a fragmentação da instrução, com métodos que visam a aquisição de habilidades separadas por disciplinas, não alcançam com eficiência nem a apropriação das habilidades, nem o conhecimento de natureza informativa e tampouco o pensamento reflexivo e crítico. Mas, por ora, deixemos este assunto para uma outra oportunidade.

A expressão “Seja um incentivador de pessoas, o mundo já tem críticos demais”, não se sustenta, pois o que temos em nosso cenário é justamente o contrário. Os poucos que se arriscam ao trabalho crítico, na tentativa de chamar a atenção para as discrepâncias da sociedade, muitas vezes são considerados como os oponentes, os adversos, os daninhos que não precisam ser considerados.

O ponto central da discussão é sobre o papel da educação na formação crítica. Tomamos como referência outra frase de impacto, muito compartilhada nas redes sociais: “Educação sem pensamento crítico não é educação, é adestramento”. Esta expressão nos leva a pensar no tipo de educação que está sendo ofertada às gerações, incluindo à infância.

Muitos educadores renomados, propõem o desenvolvimento da criticidade, o que só é possível mediante a participação ativa dos alunos. Nossa base legal confere discurso efervescente em favor da curiosidade, do espírito investigador, da criatividade e criticidade. Inclusive, a educação crítica é elemento central de qualquer Projeto Político Pedagógico escolar. Em maioria, as escolas se revelam bastante contrárias ao ensino verticalizado.

Pretendo chamar a atenção para possíveis contrastes, pois se o propósito da educação é formar sujeitos ativos e críticos, capazes de perceber as incoerências e pensar estratégias para superá-las, como pode haver um movimento que se opõe à crítica? Como ocorre o processo educativo que pretende formar o perfil crítico?

O que temos em nossas escolas é o excesso ou a falta de crítica? O tipo de formação que ocorre é com base na reflexão ou no adestramento?

Muitas vezes, é o estudante quietinho, meigo e passivo considerado como exemplo, enquanto o que tenta qualquer ação ativa e crítica é incompreendido, ou visto como problema. Essa é uma dissonância grave, pois ao mesmo tempo que se tem a pretensão pela crítica, ela não é bem-vinda, porque incomoda e desestabiliza. 

Num contexto tão “emburrecido”, ao ponto de se considerar “inimigo” aquele que pensa criticamente e faz proposições com o intuito de contribuir e não prejudicar, não é surpresa nos depararmos com uma crítica direcionada ao excesso de crítica. A expressão “Seja um incentivador de pessoas, o mundo já tem críticos demais” é uma grande ironia, reflexo de fragilidade formativa.

O mais intrigante e perigoso de nossa cultura de não-reflexão é que abrimos mão das responsabilidades para com a gente e para com o mundo. Sem reflexão, não geramos conhecimentos. Já sem os conhecimentos, gerados pela reflexão, não temos maiores compromissos senão com a nossa própria ignorância. (Nei Alberto Pies) Leia mais: https://www.revistamissoes.org.br/2015/10/a-cultura-da-nao-reflexao/

O que é importante referir sobre o pensamento crítico é que ele não implica pensar exclusivamente de forma negativa, embora sejam as situações de um certo contexto que chamam a atenção ao ponto de se elaborar uma crítica. Em contextos problemáticos, há muito o que se criticar. Como ignorar, deixar passar despercebido o que nos afeta?  

A crítica também não se reduz a encontrar defeitos e falhas, já que coloca em questão a realidade e analisa situações e cenários. Também não pretende mudar a forma de pensar das pessoas ou substituir os sentimentos e as emoções dos outros, mas isso pode acontecer na medida que se tem o conhecimento da crítica construída sobre determinado aspecto.

O pensamento crítico, princípio em falta atualmente, consiste em analisar e avaliar a consistência dos raciocínios, em especial as afirmações que a sociedade considera verdadeiras no contexto da vida cotidiana, ação que coloca as crenças em questão e análise constantes.

Com a crítica todos aprendem. Sem ela, tenho dúvidas! Aceito críticas.

A filosofia é um conhecimento rebelde na sua essência e supõe seguidores apaixonados por jogar-se por um mundo mais justo, livre do conformismo, da apatia e da mediocridade. A filosofia procura dar à luz os rebeldes que pensam num mundo melhor e transformá-lo com ações concretas. E nisto, estamos juntos, caros amigos dos “Filósofos da Vida”. (Diego Pereira Ríos) Leia mais: https://www.neipies.com/a-rebeldia-do-filosofar/

Autora: Ana Lúcia Vieira

Edição: Alex Rosset

O Fim do Serviço Público!?

Com o fim da estabilidade do servidor, podemos afirmar que o prejuízo maior será de toda sociedade. Teremos uma brutal diminuição na capacidade fiscalizadora do Estado, uma vez que, os responsáveis por tal terão seus empregos posto em cheque por muitos daqueles que eles auditam.

Lá se vão mais de cinco anos das grandes manifestações contra a Presidenta eleita democraticamente, Dilma Rousseff. As maiores e mais contundes manifestações, que levaram a queda daquele governo, se observaram em março de 2016, muito embora, a partir de junho de 2013 já era possível perceber certa inquietação de parcela da população, que acabou sendo canalizada por grupos de direita e extrema-direita, para chegar ao poder por vias pouco democráticas.

As manifestações iniciais traziam bandeiras populares e legitimas, como: passe livre nos transportes públicos; combate a corrupção; emprego; educação e saúde pública de qualidade…

Na sequência, grupos alheios a esses interesses, com forte apoio econômico de grandes industriais (FIESP) e participação de governos estrangeiros (EUA), patrocinaram o surgimento de entidades como MBL, Vem Pra Rua, entre outras, que cooptaram as insatisfações populares de 2013, desvirtuando os objetivos iniciais e pautando apenas dois objetivos: a derrubada de um governo e legitimamente eleito e um série de reformas estruturais, de cunho neoliberal, do Estado brasileiro.

A partir de então, tivemos uma verdadeira “onda verde amarela” em nossas cidades, patrocinada com dinheiro da elite nacional e países estrangeiros, com forte discurso conservador, militarista e evangélico (sobretudo neopentecostal).

Este movimento, impulsionado ainda pela grande mídia, avançou de forma avassaladora. Ainda em 2016, com o impeachment da Dilma, chegaram ao poder e atingiram o primeiro dos objetivos. Faltava agora, entregar a contrapartida aos financistas nacionais e internacionais deste projeto, por meio de reformas liberais, que viriam com ataques aos direitos dos trabalhadores e privatizações.

Nesse contexto, tivemos as reformas trabalhista e previdenciária, a Lei Complementar 173 (que congelou os gastos do governo por 18 meses). Além dos projetos da reforma administrativa e privatizações dos Correios, Eletrobrás e subsidiarias da Petrobrás. Mesmo que tudo isso significasse um ataque aos trabalhadores do regime da CLT e aos servidores públicos e a consequente precarização do serviço público fornecido a população, havia uma conta a ser paga.

Com a Reforma trabalhista (2017), tivemos a flexibilização das regras da CLT, que trouxe por exemplo, a ampliação das terceirizações para praticamente todas as atividades, bem como, o surgimento da aberração do “regime de trabalho intermitente”, que possibilita que o trabalhador receba menos que um salário mínimo ao mês.

No mesmo ano (2017), tivemos o fim da política de valorização do salário mínimo, que significou uma grande perda do poder de compra do nosso povo. Na sequência, na forma de Emenda Constitucional, ocorreu a Reforma Previdenciária (2019), que, entre outras coisas, trouxe o aumento da alíquota previdenciária paga pelo trabalhador da ativa, ao passo que instituiu significativo aumento de tempo de serviço e sensível diminuição das aposentadorias pagas. Ou seja, com a PEC da Reforma Previdenciária, o trabalhador passou a pagar mais, trabalhar muito mais e receber muito menos!

Neste bojo, em maio de 2020, foi aprovada a Lei Complementar 173, que cortou, por dezoito meses, as despesas dos governos federais, estaduais e municipais, impossibilitando reajuste de servidores e investimento em políticas públicas no período de vigência da Lei.

Não bastasse todos estes ataques observados ao longo dos últimos quatro anos, o Congresso Nacional passa a discutir abertamente, no segundo semestre deste ano, a verdadeira “Bala de Prata” aos servidores e serviços públicos de nosso país, a Proposta de Emenda Constitucional 32, que versa sobre a Reforma Administrativa.

O superlativo utilizado para caracterizar a PEC, não foi escolhido por acaso, pois de fato, a mesma possui potencial para representar o fim dos servidores públicos brasileiros e como consequência, a precarização total dos serviços públicos prestados ao nosso povo. Na medida em que ela recepciona possibilidades incompatíveis com a existência de um serviço público de qualidade, a de se destacar: fim do concurso público; fim da estabilidade do servidor; congelamento de salários por anos; avaliação externa dos servidores efetivos por agentes políticos.

É importantíssimo esmiuçarmos aqui, as consequências práticas de algumas dessas alterações propostas pela PEC 32.

Constitucionalmente, a forma mais republicana para o preenchimento de cargos públicos é através de concurso público, pois assim se premia o merecimento ao passo em que se blinda as indicações políticas, que sabidamente são uma forma de institucionalizar o apadrinhamento político do serviço público e a corrupção.

PEC 32 – Reforma Administrativa – Mitos e Verdades. https://youtu.be/Dsqbkg-9Fak?t=431

Cabe lembrar que é extremamente comum os agentes políticos, responsáveis por essas indicações de cargos em confiança, ficarem com parte desses salários, as famosas “rachadinhas”. Para além disso, concursados sendo substituídos por indicações e/ou contratos temporários, que temos em larga escala no estado, abrirá a possibilidade de os professores terem seus regimes de trabalho assegurados apenas durante o ano letivo, e que implica numa perda financeira, insegurança profissional e uma perda significativa com relação ao aspecto pedagógico, pois teremos constante substituições de professores.

Com relação ao fim da estabilidade do servidor, podemos afirmar que o prejuízo maior será de toda sociedade. Efetivamente, teremos uma brutal diminuição na capacidade fiscalizadora do Estado, uma vez que, os responsáveis por tal terão seus empregos posto em cheque por muitos daqueles que eles auditam. As mais diferentes formas de desvios e corrupção, pode se quer chegar ao conhecimento dos órgãos responsáveis por evitar esse tipo de atividade criminal.

Para facilitar sua aprovação, muito se argumenta que as novas regras passarão a valer apenas para os novos contratados, os antigos permanecem nas regras atuais. Essa afirmação não se sustenta para justificá-la, uma vez que as alterações propostas, mesmo que para os novos, tornam insustentáveis a maioria dos serviços públicos. Além da falácia que não prejudicará os atuais servidores. Para justificar essa afirmação, basta fazer uma leitura mais avançada das consequências desta PEC, inclusive para os servidores antigos.

Vale lembrar que esses milhões de servidores estarão ocupando cargos extintos, logo nenhum tipo de avanço nas carreiras será possível. Sempre que as entidades classistas, representantes desse grupo, pautarem a revisão dos estatutos, receberam um sonoro NÃO de seus patrões, uma vez que essas carreiras não existirão mais. Esse é um exemplo dentre outros vários, de como essa emenda pode ser extremamente danosa também aos atuais servidores.

Diante de tudo que foi posto, nos resta apenas a união e a organização, baseadas nas verdadeiras informações do que está em jogo nesta PEC, avaliando os prejuízos que a PEC 32 trará a todos, para que possamos barrar essa “Bala de Prata” ao servidor público e a comunidade em geral.

Você sabe como a reforma administrativa pode afetar os servidores públicos e professores(as)? A PEC 32/20, do Poder Executivo, inviabiliza o aperfeiçoamento técnico e profissional da administração pública, e concentra poderes nos agentes políticos. Live contou com a participação do professor de história e diretor colegiado Tiago Machado e do advogado sindical Henrique Cullmann. A mediação é realizada pelo diretor Eduardo Albuquerque. https://www.facebook.com/cmpsindicatopf/videos/243316810844403

Autor: Tiago Machado

Edição: Alex Rosset

A polarização política que o Brasil precisa

Será que a polarização política só tem seu lado ruim? Sem polarização, teremos clareza dos projetos de nação que estão em disputa nas próximas eleições?

Chegamos onde poucos de nós imaginávamos um dia chegar. Depois da temporada da caça indiscriminada e insana aos políticos (por conta de suposta corrupção), desgraçamos toda a forma de política como busca do bem-comum, como forma de mediar os conflitos e interesses, seguindo padrões de respeito e civilidade. Construímos a ideia da não-política, da política como uma grande negação, um grande mal.

Vivemos num Brasil dividido politicamente, entre ser a favor ou ser contra, entre ser do bem ou ser do mal. Esta divisão é parte da vivência democrática, em que duelam diferentes formas de pensar e organizar o nosso país. Quem se apavora ou se assusta parece esqueceu que democracia não se faz na inércia, que democracia é, na essência, feita a partir de disputas e conflitos que permeiam o tecido social.

A supressão ou a morte da política fez parte das intencionalidades de despolitizar o povo brasileiro. Mas, não é o caminho para salvaguardarmos a dignidade humana, os direitos individuais e os direitos sociais e a cidadania. Muito antes, pelo contrário, devemos ressignificar a política democrática sem qualquer pretensão de afastar contradições e seus eternos conflitos (de interesses).

É momento de afirmarmos a política como a única saída para os grandes problemas do país, neste momento histórico. Ari dos Reis, Convidado do site, manifestou-se em reflexão Tempo de refletir e discutir política: “O agir político do cristão compreende a luta contra a injustiça, a intolerância ou a opressão; volta-se ao bem de todos com sinceridade e retidão e jamais em vista de benefícios particulares ou grupais. A política é um instrumento importante do agir cristão. Devemos compreender este exercício como direito e dever. É um processo permanente de participação em vista do bem comum, que adquire especial relevância nestes tempos de tomada de decisões”. Leia mais!

Uma sociedade moderna deveria investir mais na proximidade, na interação e nas relações interpessoais para superar estranhamentos, característicos de nosso momento histórico. Vivemos tempos onde alguns não apostam mais na convivência, na escuta, na tolerância e nas suas capacidades criativas e argumentativas como as melhores formas para resolver problemas da humanidade. 

Mas o tempo urge! A defesa intransigente da democracia, neste momento histórico, é urgente. Quem flerta com o totalitarismo e com formas arbitrárias de exercício do poder não deve ser tolerado. É necessário conhecer e reconhecer os democratas, pois se estes não defenderem a democracia como valor maior de convivência humana e social, quem o fará?

Como problematizou Cristina Schnorr, Convidada do site:

“eu gosto de política, a boa política.  Penso ser a política a maior expressão de interesse e inteligência de um povo. Em minhas veias não corre nenhum desejo de destruí-la, mas de aperfeiçoá-la, aprendê-la, respeitá-la, porque pela política e pelos políticos que nos representam, quando válidos, vocacionados e bons, posso me sentir representada pela voz e pela atuação parlamentar. Um povo que induzido ou deliberadamente decidido à preguiça política, é um povo pobre e desvalido que, ao invés de ajudar a política a ser o que deve ser, tenta desqualificá-la e destruí-la por puro desinteresse e preguiça de pensá-la, consumá-la em projetos resolutórios, é um povo estúpido.É um povo autofágico, que auto sabota o próprio bem e se consome em ignorância, superficialidade e demagogia, é um povo fadado a sempre ser dependente, colonizado e paralisado na inteligência capaz de evolução e autonomia”. Leia mais!

Neste contexto descrito acima, surgem questionamentos sobre a suposta polarização da próxima disputa eleitoral no Brasil ser muito prejudicial para a democracia.

Mas será que a polarização política só tem seu lado ruim? Sem uma eleição polarizada, teremos clareza dos projetos de nação que estão em disputa em 2022? Por que não acreditarmos e construirmos uma polarização saudável da democracia como nos tempos em que dois grandes partidos, ao duelarem pelo poder no Brasil, o faziam com base na civilidade, no respeito e na disputa política?

Pelas nossas análises e leituras, um dos novos elementos, neste momento histórico, é que os representantes do conservadorismo e da moral, que se sentem representados pelo presidente Bolsonaro, agora advogam a sua representação. Nada mal, mas que o façam testando a representação de suas ideias na urna, através da eleição, que é o instrumento da democracia. Outro elemento é uma vontade de um grupo significativo de pessoas apostando numa “terceira via”, revelando certo temor por uma disputa que aponte para os principais antagonismos e dilemas da realidade brasileira que precisam ser enfrentados, urgentemente.

Estamos em busca de algumas respostas, mesmo que incipientes.

Um dos problemas que está na gênese da formulação da suposta nocividade da polarização para a democracia é afirmar e acreditar que a disputa se dará entre dois extremos, entre forças tresloucadas ou malévolas para a nação.

Quem conhece o histórico do ex-presidente Lula, por exemplo, sabe que ele nunca esteve posicionado em extremos e demonstrou isso durante os seus governos. Quem conhece e acompanha o histórico do Presidente Bolsonaro sabe que ele flerta com posições mais radicais e conservadoras, que agora advogam seu espaço de poder.

Quem garante que a disputa se dará entre Lula e Bolsonaro, mas talvez entre um representante da direita e outro da esquerda? Não seria interessante ao país, neste momento histórico, se brasileiros e brasileiras tivessem de fazer uma escolha entre duas visões de mundo e sociedade: uma que prega maior poder do estado e que promove maior inserção para a cidadania e outra que reduz o poder do Estado e a consequente encolhimento de políticas públicas e sociais?

Acreditamos que a maturidade das instituições políticas e republicanas, dos grandes partidos e das grandes lideranças políticas serão capazes de conduzir o Brasil na superação deste momento que preservarmos e promovermos democracia. Acreditamos, igualmente, que estas mesmas instituições, com a firmeza que delas se espera, podem influenciar os cidadãos e cidadãs na superação da irracionalidade do cotidiano, representada no ambiente de xingamentos, gritaria, ataques pessoais e baixaria, principalmente, nas redes sociais.

Guilherme Simões Reis e Sérgio Schargel escreveram em publicação Não há nada mais democrático do que a polarização, “a polarização não apenas existe, como não é um problema. Pelo contrário, é fundamental para qualquer democracia saudável. Como mostra a noção de democracia agonística proposta por Chantal Mouffe, a polarização, desde que baseada em respeito mútuo pelas regras do jogo democrático, é o que faz a roda da democracia girar. Em outras palavras: para a democracia funcionar, é o dissenso, e não o consenso, que é imprescindível. Faz ainda menos sentido, portanto, que se almeje um “consenso para o bem da nação”, para repetir um mantra que sempre reaparece. O consenso somente pode existir sob um governo autoritário. Em uma democracia, o único consenso que se precisa ter é aquilo que John Rawls definiu por consenso sobreposto: concordância sobre direitos mútuos básicos como liberdade de expressão e de associação, desde que não firam os direitos básicos alheios. Ou seja, nem mesmo a liberdade de expressão deve ser absoluta, mas essa é outra extensa discussão. Leia mais!

A polarização que o Brasil precisa é aquela que permita um confronto saudável, democrático e civilizado, onde a discussão seja qual é o nosso projeto de nação, seja a articulação dos sujeitos e atores que gestarão uma política mais coesa e articulada e seja também a escolha de políticas que provam a cidadania, a justiça e a equidade social.

A polarização que estamos propondo enfrenta o “mito da imparcialidade”, fazendo com que todo mundo tenha uma posição mais definida sobre os rumos da política brasileira.

Acreditamos ser possível, para o bem do Brasil e para a sobrevivência da política. E você?

A filosofia não é uma retórica furiosa, diz Mário Sergio Cortella.Assista: https://youtu.be/pE3eNQTVQio?t=70

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

As crianças e os animais: uma relação de afeto

As crianças nunca devem perder o afeto pelos bichos e para isso os pais e professores precisam ensinar-lhes a amá-los incondicionalmente. Para isso é bom que desde cedo a criança tenha em casa um animalzinho doméstico seja gato ou cachorro.

O poeta Vinícius de Moraes na sua obra “A arca de Noé” nos deixou um grande ensinamento de como ensinar as crianças a amar os animais. Nos seus mais diversos poemas dessa obra tão maravilhosa, podemos encontrar um poeta que procura passar para as crianças o amor e cuidado que devemos ter para com os animais não somente os domésticos, mas todos eles.

Muitas vezes as crianças são levadas a um pensamento errado de que apenas aqueles animais com os quais convivemos devem ser amados e os que vivem nas florestas são perigosos e não merecem os nossos cuidados. Este ensinamento não deve ser passado para nenhuma criança. Todo animal merece amor e respeito independente da espécie.

Parece que quanto mais feio for o animal, mais dizemos às crianças que não devemos amá-los. Isso ocorre com os emboás, as cobras, os ratos e, principalmente, as baratas e os ratos. Claro que não queremos esses bichos dentro das nossas casas, mas isso não é motivo para ensinarmos as nossas crianças a odiá-los. Vemos tantos filmes com ratinhos e tantas músicas bonitinhas com baratas que muitas vezes nem percebemos os males que lhes fazemos quando nos pegamos cantarolando uma dessas canções.

O filme “O pequeno Stuart Little” traz o personagem “Stuart” um ratinho extremamente carinhoso que não tem nada de nojento assim como podemos ver também no desenho animado Tom & Jerry que animaram muitas crianças nas décadas de 70 e 80.

Temos também os ratinhos preferidos da Disney que toda criança e adulto amam Mickey e Minie Mouse. Acredito que todos estes personagens tentam buscar nas crianças a inocência do amor pelos animais e despertá-las para um cuidado sem pré-conceitos estabelecidos pelos adultos de que este ou aquele animal não deve ser amado por transmitir doenças ou por nos fazer mal.

Para alguns adultos que produzem filmes, esses animais são os mais amados pelas crianças e os que mais aparecem nas telas de cinema e televisão. Isso porque eles precisam ser respeitados e amados.

Todo ser vivo necessita de amor. Deus criou todas as coisas. Se amamos a Deus devemos amar todas as coisas que foram criadas por Ele independente de feio ou bonito. A mesma coisa ocorre com as baratas. Temos tanto pavor às baratas que acabamos passando esse medo para as crianças, muitas vezes causando-lhes pânico e traumas para a vida adulta.

A música “A baratinha” da Galinha Pintadinha é a coisa mais linda do mundo para animar a criançada. Já pensou em como a sua criança vai gostar de uma música que fala de baratas se ela tem pânico delas?

A Baratinha – Galinha Pintadinha 1 – OFICIAL

O problema dos adultos é que eles não percebem o mal que fazem quando passam para as crianças todos os seus problemas, traumas e medos. As crianças, em fase de aprendizagem e imitação do que veem, tendem a receber todas essas informações e guardam dentro dos seus pensamentos para mais tarde colocarem para fora seja através de um pesadelo ou de um xixi inesperado na cama.

Toda criança ama animais. Elas não fazem distinção de que bicho faz mal para elas ou não. Elas nascem inocentes e só perdem essa inocência por nossa causa, ou seja, porque existem adultos que vão sorrir delas se continuarem inocentes quando crescerem.

Certa vez, presenciei na casa da minha tia o meu priminho de dois anos de idade a brincar com um emboá na palma da sua mão. Ele apertou tanto o bichinho que acabou o matando. Depois nos disse que só queria cuidar dele e apertou com força para que ele não caísse no chão e morresse. O garoto não teve um pingo de medo do emboá enquanto a mãe, minha tia, fez o maior espanto. Assim somos nós, adultos, nos espantamos com tudo que é diferente e estranho.

As crianças nas suas inocências não acham nada diferente e tendem a não criar categorias sobre as coisas. Tudo é igual para elas. Tudo merece amor e cuidado. Tudo é lindo aos seus olhos de descobertas e curiosidades. Era para gente ser assim, mas não somos. Acho que nunca mais seremos assim. A gente até esquece que foi assim na infância. Todo bicho da natureza deve ser respeitado como se fosse um ser único com vida própria, costumes e habitats diferentes. As crianças devem aprender sobre essas características em casa e na escola. É preciso que as ensinemos que há animais domésticos e selvagens, e que também há aqueles que entram nas nossas casas sem serem convidados e por diversos motivos.

As baratas, os ratos, os escorpiões são perigosos para a nossa saúde isso todos nós sabemos. Mas, se ensinarmos as crianças que não devemos nos aproximar desses bichos e que elas precisam chamar imediatamente o papai ou a mamãe caso vejam alguns deles em casa e nunca se aproximar elas terão cuidados e saberão agir no momento necessário. Nada de chineladas, vassouradas, cadeiradas ou coisa parecida, isso só demonstra a nossa violência em relação ao mundo animal. O ideal é que matemos esses bichos longe das crianças.

Algumas pessoas em bairros mais pobres tendem a colocar ratoeiras, armadilhas para matarem ratos, em alguns locais da casa. Isso é muito perigoso tanto para a criança quanto para o próprio adulto. Armar uma ratoeira exige cuidados e muitas vezes acabamos nos machucando. Também exige cuidados o local onde as vamos colocá-las, pois devem estar longe do alcance das crianças. Já vi criança com dedos quebrados por causa de ratoeiras. Isso é muito sério. A pobre criança ainda teve que ouvir que foi mexer onde não devia.

Da mesma forma é quando colocamos veneno para matar ratos, baratas e até mesmo os famosos cupins. Todo cuidado é pouco no manuseio de venenos. Na verdade, nem devíamos usá-los nas nossas casas, principalmente, aquelas que têm crianças e idosos. Até mesmo os adultos acabam se atrapalhando muitas vezes com os rótulos e ingerindo-os sem querer.

Não estou querendo dizer aqui que devemos deixar as nossas casas cheias de ratos e baratas, longe de mim tal coisa, mas que devemos manter a higiene e o cuidado necessários para que eles nem cheguem até os nossos lares. Se limparmos as nossas casas diariamente, mantermos os lixos em locais seguros, e tivermos bons vizinhos que pratiquem esses mesmos hábitos nunca precisaremos de venenos ou de ratoeiras.

Tudo é questão de conscientização e harmonia entre as pessoas que moram próximas. Saber que tais animais são prejudiciais à saúde todos nós sabemos, e as crianças também precisam saber disso, mas espalhar pânico nunca.

Sobre os animais selvagens também devemos mostrar as crianças que são belos e merecem o nosso amor e cuidado. Alguns animais estão em extinção no mundo devido, principalmente, a caça predatória. Elefantes, zebras, hipopótamos, leões, onças são os que mais os caçadores gostam. É necessário dizer as crianças que muitos animais não podem ser caçados e que esse tipo de lazer não é legal, pois matar animais nunca é uma coisa boa mesmo que seja de forma esportiva e que eles não sirvam para quase nada além de habitarem as nossas florestas.

O homem é o maior predador dos animais do planeta. Se ele não mata diretamente consegue matar de forma indireta com queimadas e desmatamentos das florestas onde centenas de animais são mortos pelas fumaças e fogo.

Ainda bem que atualmente não vemos mais animais em circos como acontecia antes, na minha infância era comum ver elefantes, macacos e leões participando de espetáculos nesses locais. As autoridades perceberam que lugar de animal selvagem é na floresta e, em alguns casos, nos abrigos com profissionais preparados para cuidarem desses bichinhos. Dois desses profissionais são veterinários e biólogos. O médico veterinário é quem deve medicar os animais selvagens e mais ninguém.

Todo bichinho selvagem é predador de um outro bichinho e isso faz parte da cadeia alimentar, por isso é importante ensinar as crianças para não deixarem de gostar de um leão porque ele come coelhinhos, por exemplo. São coisas da natureza. Faz parte da sobrevivência de cada bichinho e também é importante ensinar as crianças que todo animal sabe se proteger dos seus predadores, mas muitas vezes não resistem e acabam sendo comidos por eles.

No Brasil temos a nossa famosa onça pintada, que corre risco de extinção. Com o desmatamento e as queimadas das florestas, temos visto nos noticiários esse animal passeando pelas avenidas de algumas cidades e invadindo casas que ficam próximas de matas atrás de comida e proteção. As pessoas ficam apavoradas, mas isso é fruto da própria ação do homem.

Sem florestas, os animais tendem a ir para as cidades, ficam desorientados, famintos e acabam atacando as pessoas. O mico-leão-dourado também corre risco de extinção, este animal tão importante à natureza, pois se alimenta geralmente de frutos e joga as suas sementes pela terra contribuindo assim para o florestamento. Perto da minha casa tinha uma florestinha cheia desses bichinhos, mas a floresta foi queimada e muitos deles morreram no incêndio.

Eu gostaria de abrir um parêntese para falar de dois animais que são abatidos de forma violenta em muitas casas do nosso país na frente das crianças: os porcos e as galinhas. É muito triste ver um animalzinho ser morto. É algo que a gente guarda na alma e mesmo depois de adulto nunca esquece. Os adultos devem abandonar esse hábito e matar os seus animais longe das crianças, o melhor mesmo era que não os matasse.

Se todo mundo pudesse virar vegano assim como eu seria maravilhoso. Na minha infância vi muitas galinhas serem mortas e trago essa lembrança até hoje. Alguém pode dizer que galinha é para ser morta mesmo, que alguns bichos a gente cria para comer, mas não é esse o meu pensamento. Acho que as galinhas são animais maravilhosos no terreiro de uma casa, pois elas põem ovos e nos protegem de outros animais que podem nos machucar como os escorpiões.

Já que muitas pessoas não conseguem viver sem comer carne de bicho, quem sabe tirar um dia na semana para evitar esse costume seja bom para o mundo animal e para a natureza. Um dia apenas. Trocar a carne do bicho pelos legumes e verduras ou para quem não resiste, comer carne de soja com os mesmos temperos da carne comum. Quem come muita carne de gado corre o risco de ter sérias doenças cardíacas, ainda mais aqueles que comem a carne cheia de gordura como é a de porco.

Tem pessoas que não perdem um churrasco e se empanturram de carne sem se dar conta do sofrimento que aquele animal passou na hora da sua morte. Sei que hoje alguns abatedouros se preocupam com a forma como abatem os animais para que eles sofram menos na hora da morte, mas são poucos no Brasil que pensam assim. O ideal era que não tivéssemos abatedouros em lugar nenhum do mundo e que ninguém comesse carne de animal.

Tem tanto livro infantil com personagens que são bichos escritos pelos mais diversos autores nacionais e internacionais que a gente levaria anos para contar todas as histórias existentes às nossas crianças. As fábulas de Esopo são um exemplo disso. Sem contar que elas ainda trazem um ensinamento moral à criança. Alguns professores não gostam do ensinamento moral, não tem problema, melhor ainda que a criança possa refletir e tirar a sua própria aprendizagem.

Uma das histórias mais belas que já li em toda a minha vida traz dois coelhos como personagens sendo intitulada “Adivinha quanto eu te amo” de Sam McBratney. Conta a história do coelho pai com o coelho filho dizendo o quanto um ama o outro. Acho que todo mundo devia ler esse livro para refletir sobre o amor entre os povos e os bichos. Os coelhos que os homens adoram caçar no nordeste brasileiro.

Preciso falar um pouco das aves, esses animaizinhos que são tão perseguidos pelas crianças e presos pelos adultos em gaiolas. As crianças das regiões mais interioranas aprendem desde cedo a como criarem um alçapão e armarem em locais onde os pássaros gostam de pousar para os prenderem neles. Muitos adultos têm viveiros de pássaros nas suas casas para comercialização em feiras livres e na internet, o que é considerado crime ambiental. As crianças não são ensinadas que não devem jogar pedras nos ninhos das aves e que não devem maltratá-las. Alguns homens ainda caçam arribaçãs com espingardas.

Os homens vivem infringindo as leis ambientais. É muito triste tudo isso. Mais triste ainda é ver uma criança com um estilingue pronto para abater um passarinho que não faz mal a ninguém e vermos esses mesmos estilingues serem vendidos em feiras livres e lojas comuns de mercados locais. A criança que faz isso tem por detrás dela um adulto sem noção do que é uma vida animal. Os pombos têm as suas asas cortadas para não poderem voar.

Os pardais não podem mais procurar comidas nas ruas porque correm o risco de serem machucados por uma pedra. Lembro-me de quando era criança e a minha vó cantava para mim a linda canção que dizia mais ou menos assim “Passarinho lá na gaiola voou, voou, voou / E a menina que gostava tanto do bichinho chorou, chorou, chorou…” Eu ficava na torcida para que o passarinho nunca mais fosse pego pela menina e nunca que quis ser essa menina.

O nosso Deus misterioso e cristão, antes do dilúvio, pediu para que Noé juntasse um casal de animais na sua arca de forma que assim conseguiu salvar de extinção cada espécie de bicho depois que as águas tomaram conta do planeta terra. O homem devia temer a Deus e nunca afrontá-lo matando e maltratando os animais.

As crianças nunca devem perder o afeto pelos bichos e para isso os pais e professores precisam ensinar-lhes a amá-los incondicionalmente. Para isso é bom que desde cedo a criança tenha em casa um animalzinho doméstico seja gato ou cachorro.

Assim, aprenderá, logo na tenra infância, a cuidar e respeitar os bichinhos. É sabido que crianças que têm contato com animais conseguem se recuperar mais rapidamente de doenças, como podemos ver tratamentos médicos que usam cavalos e outros animais.

Tem um poeta que foi pastor de ovelhas e amou a natureza chamado Alberto Caeiro heterônimo de Fernando Pessoa. Os seus poemas sobre a natureza são belíssimos. Deixo vocês com o meu poeta predileto nesta manhã onde escuto lá longe um pássaro cantar e aqui perto o meu cachorro late me chamando para brincar. Assim diz Alberto Caeiro “Eu nunca guardei rebanhos, / Mas é como se os guardasse. / Minha alma é como um pastor, / Conhece o vento e o sol…” Que todas vocês possam guardar rebanhos dentro dos vossos corações, crianças.  

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

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