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A cultura do encontro!

Como irmãos, somos vocacionados a trilhar um caminho de vida marcado pela cultura do encontro como via para se construir a civilização do amor.

Tive a oportunidade de acompanhar apresentação de um artigo que tinha como tema a cultura do encontro. O texto tratava de como os negros escravizados, através de diversos expedientes, foram ao longo dos anos promovendo a cultura do encontro como forma de enfrentar o flagelo da escravidão, assim como o racismo a ele correlato. Não desconheçamos a força histórica desse processo, pois permitiu que os negros resistissem, continuassem vivendo e assumissem pautas sociais e políticas hoje extremamente necessárias para viver com dignidade.

Tomo a liberdade de ampliar a dimensão da cultura de encontro para as relações estabelecidas em sociedade, hoje marcadas por sinais visíveis de desencontro.  E o desencontro é prejudicial ao ser humano tanto no aspecto individual como coletivo. Os processos de desencontro não permitem que o ser humano se auto construa e contribua para a formação de uma sociedade fraterna, justa e solidária.

O texto de Gênesis, ao apresentar a história de Caim e Abel provoca a reflexão sobre o quanto a cultura do desencontro pode ser maléfica para o ser humano. No caso chegou ao ponto de um atentar contra a vida do outro, justamente a vida, o dom mais precioso, dádiva divina (cf. Gn 4,1-16).

É possível guiar-se através do ideal da cultura do encontro. As possibilidades são muitas. São pontes que levam ao encontro do outro em vista do bem dele e do bem de cada pessoa.

Uma primeira ponte é a palavra. Deus deu ao ser humano a capacidade de comunicar-se pela palavra. E a palavra tem um grande potencial de aproximar as pessoas. Mas estejamos atentos de que a palavra pode, ao invés de ser ponte, transformar-se em muro ou abismo. Depende de como usamos a palavra.

Cabe atenção especial àqueles que têm na palavra o fundamento do exercício profissional. É palavra tornada pública, por isso repleta de responsabilidade social. Pela palavra é possível potencializar a cultura do encontro. E exercitemos o que sugere a canção: “dai-me a palavra certa, na hora certa e do jeito certo; e para pessoa certa”.

Um segundo movimento potencializador da cultura do encontro é o gesto. Assim como a palavra, o gesto pode construir muros ou pontes com o outro. Optemos pela construção de pontes. No gesto manifestamos o que não conseguimos, não podemos e não queremos manifestar pela palavra. O ser humano é pródigo em fazer gestos, alguns simples outros densos.

Imaginemos a força de um abraço, o potencial de um afago, de um carinho. A pandemia impediu-nos de fazer gestos em nossos entes queridos. Isto fez muita falta. Tornou ainda mais árida aquela travessia. Evitemos os gestos de afastamento ou de agressão. Aprofundemos os gestos de aproximação, tão necessários à cultura do encontro.

Outra dimensão que favorece a cultura do encontro é a busca do bem comum. O ser humano também se move e articula através da luta por causas significativas. Tal processo permite que supere uma conduta de vida centrada no individualismo. A busca do bem comum é uma causa significativa e favorece a cultura do encontro.

Por bem comum compreende-se, segundo a Doutrina Social da Igreja, “o conjunto daquelas condições da vida social que permitem aos grupos e a cada um dos seus membros atingirem de maneira mais completa e desembaraçadamente a própria perfeição” (CDSI n. 164) Traduz-se em uma vida digna, justa e feliz para toda a humanidade. Buscar o bem comum enquanto processo e enquanto finalidade favorece a cultura do encontro porque vê-se caminhando lado a lado pessoas com os mesmos objetivos.

Muito bom encontrar-se com pessoas envolvidas nas boas causas, que buscam o bem comum. E sempre temos boas referências de pessoas que trabalharam e trabalham pela cultura do encontro.

Sem dúvida, a grande referência é Jesus Cristo e sua missão, assumida no seio da humanidade como desígnio divino. A prática de Jesus foi marcada pelo encontro com as pessoas sem reservas ou discriminação. Tal encontro visava um bem maior, a salvação de todos. Foi explicitando isso na sua prática diária como costumamos rezar quando celebramos a Sagrada Eucaristia: “Ele sempre se mostrou cheio de misericórdia pelos pequenos e pobres, pelos doentes e pecadores, colocando-se ao lado dos perseguidos e marginalizados.

Com a vida e a palavra anunciou ao mundo que sois Pai e cuidais de todos como filhos e filhas (MR p. 860). Ele também inspira seus seguidores as mesmas atitudes. É o que também pedimos a partir da nossa fé: “dai-nos olhos para ver as necessidades e os sofrimentos dos nossos irmãos e irmãs; inspirai-nos palavras e ações para confortar os desanimados e oprimidos; fazei que, a exemplo de Cristo, e seguindo o seu mandamento, nos empenhemos lealmente no serviço a eles. Vossa Igreja seja testemunha viva da verdade e da liberdade, da justiça e da paz, para que toda a humanidade se abra à esperança de um mundo novo (MR 864).

Uma outra referência contemporânea é o Papa Francisco. Nos vários documentos publicados, o Papa insiste no caminho de encontro com o outro. Entre eles, a Exortação Fratelli Tutti, cujo título é de uma profundidade ímpar: somos todos irmãos.

Assista:  Recomeçar é a palavra chave para a Fratelli Tutti: https://youtu.be/oygid7y5dR0?t=38

Escreve o Papa: “desejo ardentemente que, neste tempo que nos cabe viver, reconhecendo a dignidade de cada pessoa humana, possamos fazer renascer, entre todos, um anseio mundial de fraternidade” (FT 8). Convida sonhar com uma nova humanidade marcada pela vida fraterna, pelo sentido do comunitário, porque sozinha a pessoa corre o risco de ter miragens, vendo aquilo que não existe; é juntos que se constroem os sonhos. Sonhemos como uma única humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos (cf. FT n. 8).

Como irmãos, somos vocacionados a trilhar um caminho de vida marcado pela cultura do encontro como via para se construir a civilização do amor.

Autor: Pe. Ari Antônio dos Reis

SUGESTÃO DE ATIVIDADE PEDAGÓGICA

Professor Marciano Pereira

Componente Ensino Religioso. Fundamental anos finais. 9º Ano

Objeto do conhecimento: Princípios e valores éticos.

Habilidades:

(EF09ER06) Reconhecer a coexistência como uma atitude ética de respeito à vida e à dignidade humana.

(EF09ER07) Identificar princípios éticos (familiares, religiosos e culturais) que possam alicerçar a construção de projetos de vida.

Competência

Reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza, enquanto expressão de valor da vida.

Compreender o texto.

1) Localize no caça palavras os conceitos chave apresentados no texto, em seguida escolha um deles, leia novamente o texto e escreva o que entendeu por ele.

2) Por que a cultura do encontro é uma forma de resistência? Cite exemplos.

3) Por que é importante construir uma cultura do encontro e o que é necessário fazer para que ela aconteça?

4) Mencione exemplo de pessoas que contribuem com a cultura do encontro. Pense também em alguém que você conhece. Justifique.

Que violência é esta contra as escolas?

Estamos disputando uma escola voltada à vida, que supere a banalização da morte. Isso que vai prevenir essas atrocidades.

A violência na e contra as escolas com atentados acontece há 23 anos no Brasil. São pelo menos 23 atentados, incluindo o último de Blumenau, considerando o estudo da UNICAMP (2023), conduzido por Telma Vinha, incluindo algumas chacinas covardemente marcadas na nossa história como a de Realengo e Suzano. São 40 vítimas fatais. Até uma professora de 71 anos.

Em geral, envolve autores alunos e ex-alunos das escolas atingidas nos atentados. Eles expressam ter vivido bullying na escola e tem entre 10 e 25 anos de idade, são homens, brancos e jovens e atacam preferencialmente mulheres, meninas e até mesmo bebês e pessoas com deficiência (caso Barreiras/BA).

De acordo com o relatório “O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental”, desde o início dos anos 2000 ocorreram 16 agressões armadas, das quais quatro no segundo semestre de 2022. Ao todo, 35 pessoas morreram e 72 sofreram ferimentos. Esse é o novo fenômeno de violência contra as escolas. É um fenômeno complexo e multifatorial.

Nas redes, no submundo digital (na “machosfera”) e na superfície os autores destes crimes expressam ódio, cultuam símbolos supremacistas, armas letais, armas brancas e tem sido seduzidos por aliciadores digitais que só os aceitam com o código da misoginia. Eles passam a ser percebidos, valorizados e estimulados a atacarem escolas nestes fóruns e jogos online.

O caso de Realengo (2011) que vitimou 12 pessoas, 9 meninas, por exemplo, é tido como o símbolo maior da misoginia que eles são capazes de fazer e do que estimulam que seja feito. Misogonia é bastante relata por pesquisadoras como a Adriana Dias, Lola Aronovich, Marie Declercq, Nina Santos, Manuela DÁvila. Isso precisa ser barrado já!

São aproximadamente 500 células extremistas identificadas, 10.000 pessoas aproximadamente em todo país, conforme matéria do Fantástico de 16 de abril de 2023. O problema é que em redes – sem nenhum tipo de restrição e filtro de palavras, tudo pode ser dito, eles se multiplicam, se potencializam e organizam esses ataques absurdos, inclusive com anúncios prévios.

Todavia, as respostas às ameaças e aos atentados estão sendo dadas e a prevenção social e a repressão qualificada garantindo uma série de medidas como o canal de denúncias Escola Segura e a qualificação da investigação e esclarecimento de redes de aliciadores digitais.

Mais de 300 prisões e mais de 1000 pessoas conduzidas a delegacias em face de investigações no período de 5 a 20 de abril de 2023 a partir do protagonismo do Governo Federal e da Polícia Federal. Foram ainda mais de 2.593 BOs lavrados; 270 buscas e apreensões de armamentos letais e não letais, de material de apologia ao Nazismo; 1.738 casos em investigação, com identificação de grupos neonazistas; 812 solicitações feitas por autoridades policiais às redes sociais para manutenção de conteúdos, para investigações, ou de remoção.

O que se viu é que as plataformas hoje colaboram muito mais que há duas ou três semanas atrás. Isso é resultado da Portaria 351/2023, do Ministério da Justiça, que fixou regras no âmbito da Internet sobre a operação Escola Segura. E há inúmeras decisões judiciais em andamento de investigação de redes sociais, conforme coletiva de imprensa do Ministro Flávio Dino no dia 20 de abril.

No RS, Governador anunciou um aumento de 2000 policiais militares para a ronda escolar no estado. E há várias prisões significativas das polícias civis como a de Maquiné (símbolos supremacistas cultuados por família de jovem envolvido com possível ameaça de atentado) e de Montenegro (compartilhamento de fake news).

A FGV alerta que os discursos de ódio nas redes começaram a ter uma linguagem bem mais jovem, com gírias de jovens com menos idade e dizem que houve aumento de perfis, mais recentemente, o que também preocupa em relação ao alcance e violação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

Dia 20 de abril parece ter virado uma lenda urbana graças a essas ações articuladas de denúncia, informação, inteligência policial nas redes, policiamento ostensivo em áreas de mais medo por parte da população e ações governamentais mais bem articuladas e integradas. Medidas que deram resultado, pois não houve atentados em escolas, com flagrantes riscos e anúncios localizados.

Mas, muitas crianças e adolescentes deixaram de ir à escola, não puderam ir à escola por conta do medo, seus e das suas mães e pais, da sociedade. Outras levaram facas, canivetes para se defender. Direito à educação violado pelo medo e pela insegurança pública.

O medo é o pior dos conselheiros, mas foi legitimo não levar o filho na escola com tamanha propagação de fake news e discursos de ódio que acompanhamos e vimos sendo compartilhados. A impressão era de que na escola de todo mundo iria acontecer um atentado. Era a mesma figura do pinterest divulgada em todos os lugares do país, mas vinha como se fosse acontecer um atentado na escola do meu filho, na escola ao lado, na cidade vizinha. Tudo anunciado!

Medidas como botão do pânico, escolha de Porto Alegre/RS, evidenciando pouco o trabalho da Guarda Municipal que ficou invisibilizada, apesar de feito o seu trabalho, caem na questão de somente responder ao medo, a sensação de insegurança que está elevada. Na minha opinião, é uma perspectiva reducionista, que reforça essa lógica de armamento, de violência, de soluções simplistas.

As tecnologias podem é compor um conjunto de medidas, uma abordagem mais ampla, integrada com segurança pública voltada para resultados. Mas não são a solução em si mesma.

Igualmente, temos um cenário de desqualificação dos professores, de perseguição, de patrulhamento ideológico em uma ideia delirante de que existiria uma ideologia de gênero. Aí entra o ´escola sem partido`, escola cívico-militar, homescholling. E o cenário é de estimulo à cultura bélica, que é uma marca do último governo, onde tivemos o aumento de mais de 500% na população CAC (caçadores, atiradores e colecionadores) autorizada a usar armas de 2018 para 2022.

Percebo que violência contra as crianças e adolescentes no país é uma situação presente e grave, mas pouco evidenciada. De acordo com a última edição do Anuário de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apenas entre 2016 e 2020, 35 mil crianças e adolescentes de até 19 anos foram mortos de forma violenta no país. Pela pesquisa PENSE, IBGE, 2019, 14% dos estudantes deixaram de ir para a escola por medo no trajeto. Vítimas pela insegurança dos seus direitos.

Do ponto de vista da segurança pública voltada para a prevenção social e situacional das violências, é trabalhar com gestão da informação, com policiamento e ações baseados em evidências. E por isso eu tenho sugerido a criação de observatórios da segurança escolar, que poderia ter um em cada escola junto a um núcleo de mediação de conflitos ou de práticas restaurativas.

Esse observatório que pode ser da escola, mas também do município, pode construir essa política e induzir um policiamento baseado em evidências, cruzando indicadores criminais, indicadores de violência, trabalhando riscos reais e ampliando essa noção do que seria violência na escola.

Acredito muito em projetos de educomunicação e direitos humanos.

Fundamental a busca ativa dos alunos com baixa frequência ou evadidos, a articulação com o sistema de proteção social, conselho tutelar, ministério público, defensorias, guarda municipal, etc. Todos envolvidos numa estratégia articulada, integrada, integral, ajudando a prevenir essas situações e compartilhando informações e ações em prol do direito à educação de todos.

Uniforme é uma medida básica de proteção e pode ajudar nesse controle de acessos, assim como garantir estrutura física das escolas, mas o problema é grande: 95% das escolas estaduais gaúchas, por exemplo, tem algum tipo de problema estrutural, como denúncia feita ontem nos meios de comunicação. Investimento já!

A implantação de uma educação crítica voltada aos direitos humanos, tema proibido nos últimos quatro anos, e distante desse patrulhamento ideológico e desse modelo da pedagogia do quartel imposta pelas escolas cívico-militares, escola-sem-partido é o caminho para construirmos um caminho de mediação, de cidadania e paz nas escolas.

Estamos disputando uma escola voltada à vida, que supere a banalização da morte. Isso que vai prevenir essas atrocidades. Uma escola aberta, que tenha clima, gestão democrática, diálogo, escuta e empatia.

A violência na escola nasce do emparedamento do gesto, da palavra, como explicou o sociólogo José Vicente Tavares dos Santos. Quando não é possível falar, quando não se é visto, quando não se pertence… É daí que nasce a violência e também a criminalidade. 40% dos que praticam bullying nas escolas podem se envolver com a criminalidade na vida adulta. É na escola que se previne violência e crime!

Columbine e Blumenau nunca mais!

Autora: Aline Kerber, Mãe. Socióloga. Conselheira CME de PoA. PresidentA de Honra da AMPD. Vereadora Suplente pelo PSOL PoA.

A vida em crise: quando a existência não encontra seu lugar. Questões antropológicas do tráfico de pessoas – parte 2.

Não podemos mais permitir a violência da morte que ignora a face humana do inimigo ou do concorrente que tira os direitos de nossos cidadãos através do tráfico e do contrabando.

Em 15/04/2023, editamos, neste site, reflexão sobre a qual segue esta continuidade – Parte 2. Leia também: https://www.neipies.com/a-vida-em-crise-quando-a-existencia-nao-encontra-seu-lugar-questoes-antropologicas-do-trafico-de-pessoas-parte-1/

Tráfico de pessoas: a experiência de não poder existir

No início dos anos 1900, o mundo já era percebido como estando no meio de um absurdo geral produzido pelo avanço de uma ciência que prometia que a tecnologia proporcionaria todo o prazer necessário que os seres humanos necessitavam.

Não era novidade que este não era o caso, pois uma ilusão baseada no controle não poderia se concretizar. Acima de tudo porque o controle da produção através de maquinário tirou o lugar do ser humano que, a partir daquele momento, deixaria de dar o toque pessoal à criação, disfarçando-a em um terno de metal frio e escuro. Desta insatisfação, a parte poderosa da humanidade seguiria seu curso na ânsia de poder e na subjugação de seus semelhantes.

Esta atmosfera enrarecida na qual o ser humano é reduzido a um “nada”, se reflete nos escritos de vários filósofos e escritores que, com seus pensamentos, foram capazes de dizer o que o mundo inteiro está experimentando até hoje. O escritor e filósofo Miguel de Unamuno, em uma das páginas magistral de sua grande obra Niebla, descreveu o diálogo entre o escritor e seu personagem, Augusto, como segue:

“-Não, homem, não! -Eu respondi-. Eu lhe disse antes que você não estava acordado nem dormindo, e agora eu lhe digo que você não está nem morto nem vivo.

-Você se explica imediatamente, pelo amor de Deus, explique-se! -me implorou com consternação. Pois tais são as coisas que estou vendo e ouvindo esta tarde, que temo estar ficando louco.

-Bem, a verdade é, meu caro Augusto”, eu disse em minha mais doce voz, “que você não pode se matar porque não está vivo, e não está vivo, e não está morto, porque não existe….”[1].

E esta é a experiência daqueles que sofrem em suas vidas o desprezo de não serem respeitados -e pior- de não serem protegidos por aqueles que têm o dever de fazê-lo. As vítimas de vários abusos tentam ser convencidas de que eles não existem, que são apenas uma ficção na mente daqueles que os produzem.

E esta é uma realidade patente no trabalho escravo, no tráfico de pessoas, no tráfico de crianças, na prostituição infantil e em todas as ações onde a sede de egoísmo supera a racionalidade humana e é capaz de dilacerar a vida de outros seres humanos. Os homens e mulheres de nosso tempo são desafiados a cultivar um sentimento de fraternidade com a dor dos outros, para que possamos reverter esta situação que traz tanta exclusão de mulheres e crianças, adolescentes e jovens, idosos e deficientes.

Exploração humana: seres humanos contra si mesmos

Sem um horizonte esperançoso, com tantas ameaças que dobram as ilusões da humanidade, ela é envenenada desde suas próprias raízes, provocando um fluxo contínuo de destruição e auto-contestado.

Nestes tempos em que o jogo político nos faz sentir dentro de uma maré tão grande onde tememos estar cobertos por uma onda de infortúnios, é difícil para nós olhar além destas situações e acreditar que podemos sair – e acima de tudo tirar os outros – de situações de violência e exploração. Aqueles de nós que vivem do nosso trabalho têm que crescer na consciência de que muitos morrem porque não o têm, e que outros lucram com isso fazendo deles seus escravos em situações sub-humanas.

Em questões de defesa de nossos direitos, a filósofa americana Martha Nussbaum tem feito um grande trabalho sobre as possibilidades de desenvolvimento humano no mundo de hoje. Referindo-se às mulheres, ela argumenta que elas têm sido as eternas vítimas de um machismo e patriarcalismo que as trata como um objeto ou como uma coisa a ser possuída, com os homens acreditando que têm o direito de fazer com elas o que quiserem.

Em sua proposta filosófico-política, ela tenta aprofundar a necessidade de um feminismo que defenda os direitos da mulher de acordo com suas capacidades.

Relendo Marx sobre o valor de cada pessoa, ela diz: “Marx, como seus predecessores burgueses, sustenta que é profundamente errado subordinar os fins de alguns indivíduos aos fins de outros. Isto está no cerne do que constitui exploração: tratar uma pessoa como um mero objeto para o uso dos outros”[2].

Embora proponha um feminismo em defesa da mulher em primeiro lugar, estas palavras se estendem a todos os seres humanos, especialmente aqueles mais desprotegidos da gestão diabólica do mercado. Neste sentido, estando claro que o capitalismo gera mercados (de escravos, tráfico, prostituição, pornografia, tráfico, etc.), o que devemos continuar a promover é uma proposta política que atravessa não apenas todos os sistemas atuais de governo, mas todas as culturas, tradições, religiões e sistemas éticos. Isto é o que Nussbaum – junto com Rawls – chamará de consenso sobreposto, que inclui todas as pessoas e suas ideias, mas defende a vida humana como uma revelação da natureza humana única.

Para concluir, faço notar que, entre as capacidades centrais para o funcionamento humano, Nussbaum coloca ao lado da vida e da saúde, a integridade corporal como a capacidade de mover-se de um lugar para outro, “onde os limites do próprio corpo são tratados como soberanos, ou seja, capazes de segurança contra agressões, incluindo agressões sexuais, abuso infantil e violência doméstica; tendo oportunidades para a realização sexual e para a escolha reprodutiva”[3].

Este é um ponto-chave para reflexão adicional: não podemos mais permitir a violência da morte que ignora a face humana do inimigo ou do concorrente que tira os direitos de nossos cidadãos através do tráfico e do contrabando. Devemos propor uma violência da vida “porque requer fazer violência a si mesmo, deixando a segurança acima de tudo, deixando a passividade e a inibição para não entrar em conflito…”[4].

Defender a própria vida e a vida dos outros implica exigir que deixemos nosso conforto e nossa aparente segurança para arriscar nossas vidas, para que todos possamos existir.

Autor: Diego Pereira Ríos

*Imagem  tomada de: https://www.observador.com.py/el-2022-cerro-con-mas-de-200-causas-por-trata-de-personas/


[1] Unamuno, Miguel, Niebla, Cátedra, Madrid, 2007, pp. 278-279.

[2] Nussbaum, Martha C., Las mujeres y el desarrollo humano, Herder, Barcelona, 2002, p. 115.

[3] Ibidem, p. 118.

[4] Trigo, Pedro, Relaciones humanizadoras, Universidad Alberto Hurtado, Santiago de Chile, 2013, p. 203.

A riqueza de poucos beneficia a todos nós?

Resta saber como essa riqueza é produzida, como ela é administrada, nas mãos de quem ela está, a serviço de quê e de quem ela é utilizada, e principalmente, como ela é utilizada nas relações sociais que compõem uma sociedade.

A riqueza em todos os tempos foi alvo de uma das mais cobiçadas ambições humanas e responsável pelas piores e mais sangrentas catástrofes. De fato, por um olhar retrospectivo dos primórdios da humanidade e até os dias atuais, percebe-se que a busca pela riqueza mobilizou os homens primitivos para os conflitos entre clãs, o domínio de técnicas, o desenvolvimento de ferramentas, o conhecimento, a violência, a corrupção, a mentira, a degradação da natureza, o desenvolvimento do pensamento, as grandes navegações, as guerras, a espionagem, a manipulação das opiniões … e a lista poderia ser imensa.

A riqueza foi materializada de diversas formas: ouro, prata, propriedades, patrimônio, dinheiro, obras de arte, ostentação, poder, produção, patentes, cultura, educação, conhecimento, desenvolvimento de tecnologias, domínio da informação.

Não há dúvidas de que a grandeza de um país passa pelo grau de riqueza que ele possui.

Resta saber como essa riqueza é produzida, como ela é administrada, nas mãos de quem ela está, a serviço de quê e de quem ela é utilizada, e principalmente, como ela é utilizada nas relações sociais que compõem uma sociedade. Em outras palavras, um país pode ser detentor de uma imensa riqueza de produção, de recursos naturais, de capital, de indústrias e ter uma imensa pobreza populacional, sofrer imensos problemas decorrentes dessa pobreza e ser avaliado internacionalmente como um país pobre, subdesenvolvido, atrasado.

Talvez uma das falácias mais perversas que historicamente foi instituída é a de que “a riqueza de poucos beneficia a todos”.

A história perpetuou essa falácia e ela continua sendo compartilhada em nossos dias por governantes, economistas e formadores de opinião; e assimilada pela população iludida pelo fundamentalismo religiosos e pelo populismo político. É essa falácia que produz cada vez mais a desigualdade social, o aumento da pobreza e todos os males que ela representa.

O sociólogo Zygmunt Bauman num livro que tem o mesmo título deste escrito, baseado num estudo do Instituto Mundial para a pesquisa do desenvolvimento Econômico da Universidade das Nações Unidas, relata: “1% dos adultos mais ricos possuía 40% dos bens globais em 2000, e os 10% mais ricos respondiam por 85% do total da riqueza do mundo. De outra parte, 50% da população mundial adulta tem de sobreviver com 1% da riqueza.

Nos últimos 20 anos, essa desigualdade só aumentou, principalmente em países como o Brasil e em países subdesenvolvidos, com seus governos autoritários que representam ideologicamente as elites da riqueza e que adotaram o receituário neoliberal para conduzir as reformas econômicas e destruir os direitos sociais.

A competição tem sido um dos preceitos do receituário neoliberal amplamente aceito no senso comum e lamentavelmente incorporado nas narrativas empresariais da educação. Seguindo esse preceito, os processos educativos ao invés de se tornarem um tempo e um espaço produtivo de cooperação e formação humana, estão se tornando um coliseu de luta entre estudantes, professores, áreas do conhecimento e narrativas entre o que é relevante ou irrelevante.

Como bem ressaltou o escritor sul-africano John Maxwell Coetzee (Nobel em Literatura em 2003),

“é forçada a afirmação de que nosso mundo deve ser dividido em entidades econômicas competitivas porque isso é o que sua natureza exige. Economias competitivas surgiram porque nós decidimos dar a elas essa configuração. A competição é um exercício sublimado, voltado para a guerra. A guerra não é um caminho inevitável. Se quisermos guerra, devemos escolher a guerra, mas se quisermos a paz, podemos igualmente escolher a paz. Se desejamos rivalidade, podemos escolher rivalidade. Não obstante, em vez disso, podemos decidir pela cooperação amigável”.

Certamente, palavras sábias e dignas de uma profunda reflexão para pensarmos o futuro da humanidade: que tipo de sociedade queremos deixar para as futuras gerações? Um país marcado pelo ódio, competição, ganância, prepotência de uma elite concentradora de riqueza que destrói os recursos naturais e o meio ambiente, que humilha os pobres, que instrumentaliza a política, o Estado e a própria educação? Ou uma sociedade solidária, pautada pelos princípios da cooperação, da justiça social, do respeito à dignidade humana e o meio ambiente?

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Sobre a inversão dos sentidos

Ainda somos os mesmos, embora não o somos do mesmo jeito, mesmo porque não se pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, como dizia Heráclito de Éfeso.

O olho que foi feito para enxergar bem, já não vê. O ouvido criado para ouvir cuidadosamente e com atenção a todos, escuta só o que e a quem convém. A boca que deveria falar palavras respeitosas, verdadeiras e construtivas, já não se abre para comunicar. A cabeça colocada sobre o corpo para pensar, já não pensa de acordo com a razão.

O coração onde deveriam residir sentimentos de amor, já não é capaz de amar. O corpo inteiro que se queria saudável, está doente. A doença que se resolvia com remédio ou bênção parece que já não tem cura.

O médico que se preparou com muita dedicação para tratar dos pacientes, está ele mesmo doente. O psicólogo que se formou para cuidar da psique ferida e traumatizada, está também ele transtornado. O professor que se esmerou nos estudos por longos anos para ensinar, foi agora desprezado em seu saber. O político que foi eleito para promover o bem comum, acabou por incitar a nação ao ódio. O juiz que foi escolhido para praticar a justiça, passou a cometer crimes contra a democracia.

A escola que tinha por finalidade desenvolver uma educação humanizadora, com visão crítica e compromisso social passou a vender uma espécie de mercadoria de baixa qualidade. A família que foi criada para ser ambiente de afeto e aconchego, tornou-se espaço de difícil convivência e de relações conflituosas.

Assista também conteúdo sobre a mudança do papel dos pais na educação de seus filhos e filhas: https://youtu.be/LJTBoRNPkBU?list=PLDwf2YrZZoEeucIGZqaoL85hi78NKncC2&t=101

A religião que acompanha a trajetória humana desde a sua origem e que visa o amor, a paz e a vida, encheu-se também ela de sinais de violência e dominação.

A política que, conforme Aristóteles, tem por finalidade primeira garantir a felicidade das pessoas em sociedade, converteu-se em pesadelo só de falar nela, porquanto induz à intolerância agressiva.

Os meios de comunicação e, mais recentemente, as redes sociais que foram inventados para comunicar, estabelecer conexões e facilitar a nossa vida em todos os aspectos, transformaram-se em canais propagadores de mensagens falseadas ou falseantes, intoleráveis e intolerantes.

A sociedade que se pretendia caminhava num processo evolutivo, parece estar em franca decadência.

O planeta que se almejava fosse a Casa Comum, bem cuidada por todos, dá sinais de cansaço e pedidos de socorro devido à sanha privatista, consumista e inconsequente de muitos. O céu parece ter se rebaixado e as utopias terem se encolhido no tamanho e diminuído de intensidade.

Porém, ainda somos os mesmos, embora não o somos do mesmo jeito, mesmo porque não se pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, como dizia Heráclito de Éfeso. Sentimos em nós as metamorfoses, enquanto a vida passa. Metamorfoses nem sempre evolutivas.

Na medida em que o corpo de cada ser individual se modifica em sintonia ou dessintonia com o corpo social, nossa alma ainda pode sonhar. Nosso espírito ainda pode ressurgir. Nosso sonho ainda pode se alçar. Nossa esperança ainda pode se esperançar.  Enquanto a vida pulsa, é possível mudar a direção dos sentidos e dar aos sentidos nova direção!

Autor: Dirceu Benincá

Entre Deus e o Macaco

“Nossa meta é nossa origem”, a clássica sentença antropológica de Karl Kraus, continua mais atual do que nunca. Para chegarmos a ela, talvez tenhamos de deixar de lado as preocupações com o umbigo de Adão e as certezas do macaco.

Não sabemos de muitas coisas e, dentre elas, uma que (ainda) não sabemos mesmo é esta: de onde viemos? Especula-se entre dois extremos, buscando-se respostas. Um que pressupõe uma origem divina para o homem. E outro, menos nobre, que admite uma raiz zoológica. O primeiro carece de significação filosófica, por isso não se discute. É uma questão de crença religiosa e ponto final. Por ele, fomos criados por Deus à sua imagem e semelhança, só que com menos poderes. O segundo, mais ao gosto dos adeptos do evolucionismo, também tem os seus pontos frágeis.

O evidente, em ambos, é que o homem parece buscar uma explicação, para a sua origem, externa a si próprio. Por essa razão, talvez seja mais interessante preocupar-nos com o princípio da humanidade (desde quando homem se entende como tal) e não com a origem da vida.

De fato, o que define o homem é a práxis. Significa dizer que o homem é um ser que atua. E, por atuar, entenda-se que estamos nos referindo a um ser que quer fazer coisas. E ainda: que faz as coisas que quer, e quando quer. Atuar é mais que se alimentar, se reproduzir, buscar abrigo, se movimentar apenas para satisfazer a um instinto.

A ação humana é completamente diferente do instinto animalesco. Isso não implica que seja necessariamente boa. Ela é delineada a partir de situações virtuais, com base em registros simbólicos, sendo capaz de modificar e, inclusive, criar o futuro. Uma rosa e um leão são “programados” para ser o que são, fazer o que fazem e viver como vivem. Os seres humanos, em certo sentido, são “programados” também, porém de forma diferente. Nossa estrutura biológica é uma coisa e nossa capacidade simbólica (dela depende as nossas ações) é outra. Pode-se dizer que somos programados “enquanto seres”, mas não “enquanto humanos”.

Mesmo que a diferença genética que nos separa de um chimpanzé seja mínima, não sendo muito maior a que nos distancia de um porco ou de uma lagarta, de qualquer forma, qualitativamente, somos muito diferentes.

A similaridade genética entre o homem e os outros animais não explica nada. Apenas mostra, e reforça, que a dotação genética não é decisiva na definição da condição humana. Fica óbvio que a ação humana provém de outros elementos não identificáveis no DNA. Nisso reside o grande enigma humano e o paradoxo da teoria da evolução.

A diferença fundamental entre o homem e os outros animais é a quase que absoluta ausência de especialização de qualquer tipo, no homem.

Os animais, pelo contrário, alcançam níveis de especialização para fazer algumas coisas (saltar, morder, agarrar, etc.), viver em determinados ambientes (suportar temperaturas extremas, alimentar-se de resíduos, procriar, etc.), que são inimagináveis para nós. Os membros, órgãos, sentidos dos animais são instrumentos de alta precisão. Compare a sua capacidade de morder com a de um Pitbull, para ter certeza disso. Ou a sua mão com os tentáculos de um polvo ou a pinça de um caranguejo.  Mas, no entanto, como tudo que é ultra-especializado, servem muito bem para o que servem, e para nada mais.

A não especialização dos seres humanos contradiz a visão popular de evolução das espécies. Em geral, se imagina que o homem provenha, por sucessivos refinamentos, de uma espécie animal mais tosca. Tem aquela clássica ilustração que mostra um quadrúmano, depois um chimpanzé, a seguir um antropóide, continuando com um primo neandhertal até chegar, por último, à imagem de um autêntico lorde inglês.

Pelo que vimos até aqui, parece que o caminho evolutivo seguiu um rumo oposto ao dessa figura. Os seres humanos, por qualquer categoria, são menos definidos que o chimpanzé da ilustração. Se a evolução for do indeterminado para a especialização, o chimpanzé é mais evoluído que um ser humano, e não menos.

Então, cabe perguntar: de onde vem a nossa hegemonia sobre os demais seres naturais?

Resposta elementar: de um órgão muito evoluído e sofisticado, que nos torna os mais aptos, chamado cérebro. O nosso cérebro, como o órgão da ação, é o que está no comando e faz a diferença. Não temos um ambiente natural específico como certos animais. O nosso ambiente natural é a sociedade. Graças à ação cerebral, o homem faz coisas (boas e ruins) que nenhum outro animal é capaz de fazer.

“Nossa meta é nossa origem”, a clássica sentença antropológica de Karl Kraus, continua mais atual do que nunca. Para chegarmos a ela, talvez tenhamos de deixar de lado as preocupações com o umbigo de Adão e as certezas do macaco.

Finalmente, cabe dizer que essas idéias não me pertencem. São de Fernando Savater, e podem ser encontradas no livro “El valor de elegir” (Editorial Ariel, 2003). Recomenda-se. Afinal, não fazemos outra coisa na vida que não sejam escolhas (elegir).

(Do livro Cientistas no Divã, 2007)

Esta é a minha quarta publicação neste site. Confira as demais publicações: https://www.neipies.com/author/gilberto-cunha/

Autor: Gilberto Cunha

A criança do século XXI no divã psicanalítico

Este é um estudo introdutório ao mundo da psicanálise infantil. Nada aqui dito se confirma em afirmações, mas reflexões acerca de um texto que nos motivou a registrar a sua boniteza enquanto iniciantes de uma ciência se preocupa com as pulsões do sujeito, aqui representado na infância.

Começo este pequeno ensaio relatando as minhas impressões do texto de Esthela Solano-Suárez intitulado “A criança em questão no final do século”. Antes de introduzir-me nas reflexões que Suárez nos traz, gostaria de dizer que foi uma grande experiência ler e reler o seu texto e poder pensar na criança não somente como uma educadora, mas como uma estudante de psicanálise que se vê rodeada de conceitos e simbolismos desconhecidos da sua experiência literária.

Espero poder trazer contribuições aos amigos e amigas leitores e continuar estudando a psicanálise com crianças, pois nas diversas repetições de leituras do texto mencionado acima tenho a certeza de que as experiências somadas ao meu pequeno mundo como já se referia o escritor pernambucano Luís Jardim ele se tornou enorme diante das reflexões que vieram se somar aos cajus ainda por amadurecerem.

Sigamos!

Com efeito, o texto fez-me refletir sobre esta criança que pode sentar-se no divã psicanalítico e ser vista como sujeito que traz o sintoma e precisa com isso de receber cuidados que não a rotulem, mas de uma análise que vai fazer do seu sintoma a busca da compreensão e do compreender-se a si mesmo através de associações livres deste inconsciente que se revela a todo instante através das neuroses e psicoses.

O sujeito deixa de ser subdesenvolvido para Lacan porque expressa o sintoma que o afeta, ou seja, sofrimento que vem em forma de gozo esse usufruto que o inconsciente faz daquilo que o sujeito sente e exerce buscando uma certa realização ao seu desejo. Como se a criança que sente, que tem o sintoma, que sofre, estivesse a todo tempo necessitada de uma realização que pode ser encontrada nos seus mais diversos sofrimentos. É aquele que busca saciar-se com algo a partir da sua dor, sendo esse algo o seu próprio desejo.

Aí me vêm a seguinte pergunta: o que seria esse algo? Há idade para o sintoma? A idade do sintoma na psicanálise se difere da psicologia, pois ela não é cronológica, mas lógica. Este sujeito pode até na idade adulta trazer recordações do seu tempo da infância.

Entendo este solidário de Suárez como se a criança também sofresse as suas neuroses e psicoses iguais aos adultos. No inconsciente não se tem idade para vivenciar o sintoma. Ele vai aparecer igual aparece no adulto, por isso a criança não é subdesenvolvida. Ao contrário, o seu inconsciente parece formado tal qual o do adulto apresentando uma linguagem que vem através da imagem porque muitas vezes a criança ainda está na tenra idade e ainda não conhece a linguagem oral se debruçando sobre o que o inconsciente constrói e o que ela vivencia no seu dia a dia, processo este chamado por Freud de condensação e por Lacan de metáfora.

Quando Suárez nos diz que é do significante que depende a produção da significação, penso como se este significante fossem aquelas impressões subjetivas formadas no inconsciente e que a criança apresenta através das suas birras, choro, dor ou emoções que não sabe revelar.

O sintoma define a criança assim como nós adultos.

Ele se apresenta nas mesmas características do dos adultos, por isso pode ser tratado pela psicanálise. Características essas não terminantemente iguais, mas parecidas nas neuroses e psicoses que muitas vezes deixa o adulto sempre na infância. Assim, o gozo que a criança vive é o mesmo do adulto, ele busca saciar-se no sintoma que pode ser neurótico ou psicótico.

É através do sintoma que o analista passa a conhecer a criança, pois à medida que a análise vai ocorrendo ao passar do tempo, descobre-se um pouco mais da subjetividade dessa criança podendo ajudá-la no encontro da descoberta de si enquanto sujeito que se encontrava incompleto e poderá achar no seu gozo uma quase completude porque para mim sempre existirá um pouco de castração no sujeito que sente e o sentir aqui refere-se ao sintoma de Lacan.

Na metáfora, eu tenho experiências vivenciadas que se misturam com outras que não conheço dando lugar a novas impressões subjetivas em relação ao que o meu inconsciente esboça como sintoma exterior. A criança que sabe algo junta a isso outras coisas que ela não conhece e cria a partir daí suas próprias impressões que podem vir em forma de neurose ou psicose porque está a afetando de forma que ela não consegue lidar com o sofrimento desconhecido.

A mensagem é opaca para a criança porque ela não a conhece ainda, ela não sabe expressar de onde vem o seu sintoma ou por que ele está ocorrendo. Dá-se daí o encontro com a realidade que se satisfaz ao ser descoberta a sua causa? Ou seja, uma realidade que sente o gozo a partir de se extravasar no sintoma?

Não se pode buscar encontrar apenas a mensagem que o sintoma tenta passar, mas como ele se apresenta no gozo tentando se estabilizar no usufruto de algo que o sujeito neste caso a criança sente e não sabe como lidar ou por que sente aquilo, sonha com aquilo, imagina aquilo, vive aquilo.

A mensagem que se encontra no inconsciente e tenta se realizar no sentimento através do gozo. Seria como se a criança estivesse sofrendo de terrível febre e ninguém soubesse de onde ela vem. Ou até mesmo que a criança desenhasse monstros para apresentar o seu sintoma ao analista e a partir desses desenhos o analista junto com ela pudessem encontrar um caminho para uma análise cada vez mais necessária e afetiva.

O falo não sendo o pênis é o que a criança tem em si, próprio do seu eu, que se caracteriza por uma falta a partir da castração. Como ocorreria esta simbolização? Por que o falo é imaginário? Seria ele algo que a criança faz de conta que existe, mas não pode tocá-lo ou senti-lo? Penso que este falo se movimenta no inconsciente da criança como o ciúme por um irmão mais novo ou um apego a algum brinquedo ou parente próximo.

Mesmo na presença do filho, a mulher não se sente completa, ou seja, vai sempre lhe faltar algo, quer seja isso imaginário ou não. Ela toma posse dessa incompletude e segue necessitando da presença do pai e do filho menino para sentir-se realizada. É essa mãe que necessita traz a criança para análise e chega cheia de dúvidas querendo que o analista resolva o sintoma do seu filho, quando na verdade ela precisa desse encontrar o seu falo antes mesmo do que a sua própria criança.

Ademais, gostaria de deter-me um pouco no mito que a criança cria para aliviar o seu sintoma.

O mito é necessário para fugir daquilo que os homens costumam chamar de real, ou seja, do que se apresenta para gente através dos sentidos. A criança cria este mito para dá uma resposta ao seu sintoma, para aliviar a sua dor, para fugir do real e passar a conviver a partir do seu mito lugar confortável que faz parte do sujeito analisando. Enquanto o mito não é substituído por algo melhor a análise tende a continuar, pois ela é o elemento essencial que traduz a criança ao estar no divã.

Como exemplo de mito, eu simbolizaria a criança que cria faz do seu mundo imaginário uma fuga desse real que tanto a assusta apresentando-o através das brincadeiras, do desenho ou até mesmo da invenção de historinhas que tanto lhe agrada.

Este é um estudo introdutório ao mundo da psicanálise infantil. Nada aqui dito se confirma em afirmações, mas reflexões acerca de um texto que nos motivou a registrar a sua boniteza enquanto iniciantes de uma ciência se preocupa com as pulsões do sujeito, aqui representado na infância.

 Autora: Rosângela Trajano

A vida em crise: quando a existência não encontra seu lugar. Questões antropológicas do tráfico de pessoas – parte 1

A existência insatisfeita

Uma das características do ser humano é sua contínua insatisfação, o que o leva a sentir-se inacabado e até mesmo desafiado pela imensidão das coisas novas que conhece. Mas isto indica que todo prazer, alegria ou objetivo procurado vem de dentro de seu ser mais íntimo. E é por isso que toda ação externa -como expressão do caminho da realização- de procurar satisfazer as próprias necessidades se baseia em decisões que tocam o próprio núcleo da existência humana. Portanto, cada ação implica uma decisão na qual a mente, o coração, a alma e o corpo de cada mulher e de cada homem estão em jogo. Uma decisão de ser feliz ou não, de ser livre ou não, de viver ou não viver.

Na cultura individualista em que vivemos, cometemos o erro de ver a autodeterminação como o único valor. É um erro que leva a perder a riqueza da comunidade, do bem-estar coletivo. Neste sentido, o homo eligens (homem eleitor), antes de escolher por todos, decide escolher por si mesmo, dissociando-se de todos os laços com seus semelhantes, mesmo que ele aparentemente viva junto com eles. Tudo se torna pouco, limitado, líquido: “…a vida líquida se alimenta da insatisfação do eu com si mesmo…”[1]. E se as necessidades pessoais não são combinadas com as necessidades comunitárias, os horizontes se tornam mais estreitos e a existência perde seu sabor, torna-se insustentável. As maiores perversões humanas nascem desse vazio.

Existir em liberdade é pertencer a um lugar

Existir significa estar em pé hoje, mas com uma projeção para o amanhã. Existir vem do latim e significa “sair de, ser orientado para fora, aberto para”[2]. Portanto, existir significa viver, mas viver nem sempre é existir. Estar vivo não é necessariamente ser existente. Existir é viver em liberdade. A liberdade é a capacidade de viver de acordo com a existência.

Ser livre é ser dono das próprias decisões e realizar ações que nos constroem como pessoas e que colaboram na construção de um ambiente favorável a todas as criaturas. Esta liberdade é educada dentro da pessoa, é vivenciada, amadurece e é posta em ação em atos externos, mas que também têm a ver com a construção da consciência interior dos outros.

Neste sentido, ser livre implica estar enraizado no lugar que ocupamos no mundo, e este lugar não é apenas um espaço hipotético ou espacial, mas também tem a ver com um espaço físico concreto, o lugar onde vivemos. Tem a ver com o chão que pisamos, com a paisagem onde nascemos, com as pessoas ao nosso redor. Tudo isso compõe a cultura. Para sermos livres, devemos reconhecer a cultura da qual fazemos parte e com ela o solo que a constitui. O solo é o lugar onde pisamos, onde aprendemos a nos mover e de onde nos impulsionamos para o futuro. É o domicílio seguro que temos no mundo, como diz Kusch: “…não devemos realmente entender as transformações, exceto neste sentido único que a cultura proporciona, como algo que aponta apenas para minha vida aqui e agora”[3]. E o aqui é o meu terreno, o meu lugar.

Da privação ao não-lugar

O que acontece quando uma pessoa é violentamente arrancada de seu lugar, do espaço vital do qual faz parte, sendo privada de sua liberdade? Quem não puder ser o dono de suas ações, poderá tornar-se o dono de seus pensamentos. Mas isto é muito difícil, especialmente quando se é vítima de uma situação de total falta de escolha. Quem é forçado a deixar seu habitat vital, cai em uma situação de privação. Esta privação implica inação, a impossibilidade de reagir para se libertar. A tática a que se está sujeito é o isolamento, onde “…estar isolado é o mesmo que não ter capacidade de agir…”[4].

Aqueles que são obrigados a ir onde não querem ir sofrem uma contradição com sua própria natureza, porque ser livre é uma condição fundamentalmente humana, mas este direito nem sempre pode ser exercido.

A maior dor daqueles que estão sujeitos a esta situação é a sensação de estar fora de seu próprio lugar, o lugar onde realmente pertencem. É um não-lugar: a própria negação do ser, pois estar é estar em um lugar escolhido, amado, cuidado. Não-lugar implica a rebeldia do coração, do corpo e da alma para estar onde não se quer estar e onde não se está. É a sensação de viver, mas não existir, de respirar, mas não estar consciente do ser.

Martin Bubber disse: “O destino e a liberdade são solenemente prometidos um ao outro. Somente o homem (e a mulher) que torna a liberdade real para si mesmo, encontra o destino”[5]. E nesta situação, como o destino e a liberdade podem ser unidos? Quando a liberdade é tirada, o destino se perde, se esbate, deixa de existir. A única maneira de superá-lo é o caminho para a própria casa: voltar à terra do próprio nascimento.

O medo como fonte de tanta violência

Ao longo da história as grandes revoltas revolucionárias tiveram que superar o maior dos inimigos humanos: o medo; mas dentro do medo há uma que é a grande causa de todas as outras: o medo que sentimos de nós mesmos[6], dos sentimentos que nos causam dor e angústia e que é a causa de ações posteriores. Mas enquanto os povos nativos educaram gradualmente este medo em uma força de resistência e luta contra tudo o que os oprime, as sociedades modernas transformam o medo em violência. Violência que dá livre curso aos sentimentos mais sombrios do ser humano, daí os maus-tratos de outros vistos como um inimigo a ser subjugado e -se isto não puder ser feito- eliminado.

A violência pode ser analisada de três maneiras[7]: em nível pessoal, pelos próprios sujeitos, um contra o outro; em nível estrutural ou social e também por uma racionalidade como fruto da cumplicidade com o sistema que maltrata e mata indiscriminadamente tantos irmãos e irmãs em todo o mundo. Este sistema exclui aqueles que não entram na cadeia do consumismo, na qual as próprias pessoas são objetos de consumo.

A violência contra cada ser que é maltratado e arrancado de seu lugar implica sempre sua objetivação e de não ser admitido como igual, mas como um produto. Esta apropriação do outro como algo que eu posso lidar de acordo com minha vontade revela o grau de violência no trabalho na consciência de muitos de nós que, sem ir tão longe quanto a violência física, basta apertar uma tecla de computador para decidir sobre a vida de nossos semelhantes.

Autor: Diego Pereira Ríos

*Imagem tomada de: http://isabelborrego.com/archivos/720


[1] Bauman, Zigmunt, Vida Líquida, Buenos Aires, Paidós, 2012, p. 158.

[2] Boff,  Leonardo, La experiencia de Dios, CLAR, Bogotá, 1975, p. 23.

[3] Kusch, Rodolfo, Geocultura del hombre americano, Obras Completas Tomo III, Ross, 1975, p. 110.

[4] Arendt, Hannah, La condición humana, Paidós, Buenos Aires, 2013, p. 211.

[5] Bubber, Martin, Yo y tú, Galatea Nueva Visión, Argentina, 1960, p. 53.

[6] Russel, Beltrand, Nuevas esperanzas para un mundo en transformación, Hermes, Buenos Aires, 1964, p. 217.

[7] Richard, Pablo, Racionalidad perversa de la violencia, en http://www.amerindiaenlared.org/noticia/765/racionalidad-perversa-de-la-violencia/, 25 de enero, 2017

O tamanho das pessoas…

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas. Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

Os tamanhos variam conforme o grau de envolvimento…

 Uma pessoa é enorme para ti, quando fala do que leu e viveu, quando te trata com carinho e respeito, quando te olha nos olhos e sorri. É pequena para ti quando só pensa em si mesma, quando se comporta de uma maneira pouco gentil, quando fracassa justamente no momento em que teria que demonstrar o que há de mais importante entre duas pessoas: a amizade, o carinho, o respeito, o zelo e até mesmo o amor.

Uma pessoa é gigante para ti quando se interessa pela tua vida, quando procura alternativas para o seu crescimento, quando sonha junto contigo. E pequena quando se desvia do assunto.

Uma pessoa é grande quando perdoa, quando compreende, quando se coloca no lugar do outro, quando age não de acordo com o que esperam dela, mas de acordo com o que espera de si mesma. Uma pessoa é pequena quando se deixa reger por comportamentos da moda.

Uma mesma pessoa pode aparentar grandeza ou miudeza dentro de um relacionamento, pode crescer ou decrescer num espaço de poucas semanas. Uma decepção pode diminuir o tamanho de um amor que parecia ser grande. Uma ausência pode aumentar o tamanho de um amor que parecia ser ínfimo.

É difícil conviver com esta elasticidade: as pessoas se agigantam e se encolhem aos nossos olhos. O nosso julgamento é feito não através de centímetros e metros, mas de ações e reações, de expectativas e frustrações.

Uma pessoa é única ao estender a mão e, ao recolhê-la inesperadamente, torna-se mais uma.

O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande… é a sua sensibilidade, sem tamanho…

Ouça também este texto em vídeo: https://youtu.be/zhZTLIkdeU0?t=3

Autora: Martha Medeiros, é escritora, jornalista e cronista brasileira. É colaboradora do jornal Zero Hora e da revista Época. Entre outros trabalhos, publicou: “Divã”, (2002) romance que originou um filme e uma série de TV, estrelado pela atriz Lília Cabral, “Coisas da Vida” (2003), “Selma e Sinatra” (2005), “Tudo Que Eu Queria Te Dizer” (2007), “Doidas e Santas” (2008), “Fora de Mim” (2010), “Noite em Claro” (2012), “Um Lugar na Janela” (2012) e “A Graça da Coisa” (2013).

Afeto não fere

Cabe ao estado, em todas as suas expressões, criar espaços para a expressão das emoções, para a sublimação do ódio, para que crianças, adolescentes e jovens sejam ouvidos e não tornem suas dores e frustrações anteriores em atos violentos.

Ninguém acolhe os meninos e meninas tristes, frustrados, com ódio no coração. Crianças e adolescentes que passam o dia na internet, sentem-se sozinhos, e a mãe e o pai não sabem onde eles andam. O corpo está ali no quarto. Mas o coração e a mente está muito longe, na web, em algum lugar onde alguém o acolhe, alguém o compreende, alguém lhe dá atenção e o torna importante.

Já temos crianças e adolescentes envolvidos pelo tráfico, lugar onde se tornam importantes e valorizados. Nem as famílias, nem as escolas, abrem-se para ouvir. Famílias e escolas ditam regras, ordens, punem, disciplinam, mas não acolhem, não dão afeto, não compreendem, não possibilitam a fala, o diálogo.

Assassinatos nas escolas são sintomas, ao meu ver, de três causas: uma sociedade que depreciou a escola e os professores, discursos de violência e falta de acolhimento dos adultos às crianças e adolescentes sem rumos. Detenho-me nessa última que, me parece, poderia minimizar as outras. Parece.

Logo vem as soluções simples e erradas: subir os muros das escolas, colocar policiais armados, revistar mochilas e sacolas. Não se resolve o problema das doenças fechando os hospitais. Não se resolve um incêndio escondendo a fumaça. Não se para um vulcão tapando sua cratera. Não se extirpará a violência, com a simples aplicação das leis penais às crianças e adolescentes que cometem erros, ou criando penas mais duras.

Como formiguinhas que saem de um grande formigueiro, prender uma, sairá outra, e depois outra… E o jardineiro senta-se debaixo da árvore matando cada formiguinha que sobe para cortar folhas. Como evitar as doenças? Como prevenir incêndios? Como saber onde, no fundo da terra, os vulcões começam a se formar? Onde moram e se reproduzem as formigas? Como criar crianças amorosas e empáticas?

O poder transfigurador da arte há muito vem sendo experimentado na psiquiatria, e também em favelas e em comunidades com problemas de violência e marginalização.

Ao contrário da religião e da política, que acirram diferenças e divisões de todas as espécies, a arte consegue, pela sensibilização profunda do espírito, enredar as pessoas em seus sonhos mais profundos, embora nem sempre conhecidos.

A arte, que não possui utilidade prática, tem uma mágica que aflora e purifica afetos, sentimentos, sonhos, medos. A arte – cinema ou literatura, pintura ou música, escultura ou dança –, ao mexer com o imaginário, pode tornar homens e mulheres de um grupo, cúmplices de seus projetos mais íntimos.

Crianças e adolescentes têm direito a serem ouvidos, a terem afeto e amor, a serem acolhidos em seus medos e horrores, em suas dores e seus ódios.

Cabe ao estado, em todas as suas expressões, criar espaços para a expressão das emoções, para a sublimação do ódio, para que crianças, adolescentes e jovens sejam ouvidos e não tornem suas dores e frustrações anteriores em atos violentos.

Falar, dizer, contar, é o modo mais simples de se evitar que violências contidas aflorem em facas, revólveres, e outros tipos de vingança. Recordo Yolanda Reyes em seu livro “A Casa Imaginária: leitura e literatura na primeira infância”: que a arte permite à criança, pela arte, como a literatura, exteriorizar seus monstros interiores, para que sejam domados.

Crianças e adolescentes não precisam ser domados. Seus monstros, sim. Com afeto, escuta, empatia e um ambiente amoroso.

Nos Estados Unidos, onde as escolas são as mais vigiadas do mundo, e há pena de morte em alguns estados, os ataques em massa continuam sendo os maiores do mundo. Faz bem aprender com erros dos outros.

Autor: Pablo Morenno

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