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Trabalho, oportunidade e meritocracia: Não confunda alhos com bugalhos!

Graça e trabalho não são antagônicos. O que confunde a muitos é a conexão equivocada entre trabalho e mérito.

Foram quarenta anos de peregrinação pelo deserto. Naquele ambiente inóspito, Israel teve que aprender a depender de Deus como um filho depende de seu pai. Sob um sol escaldante, não havia a menor chance de que eles plantassem e colhessem. O ambiente lhes era totalmente hostil. Por isso, Deus toma para Si a responsabilidade, alimentando-os com o maná que do céu caía todos os dias e com as aves que voavam ao alcance de suas mãos, e saciando-os com a água que da rocha jorrava.

Além do alimento, Deus lhes protegia do calor abrasador, proporcionando-lhes sombra com a nuvem que os acompanhavam, e lhes protegia do frio à noite transformando a mesma nuvem numa coluna de fogo. Sua única preocupação deveria seguir aquela nuvem que os guiava deserto afora, e submeter-se à liderança de Moisés.

Ninguém precisava se preocupar em trabalhar, em correr atrás do pão de cada dia. Tudo vinha de mão beijada diretamente do Pai Provedor. Mas, de repente, o inusitado aconteceu. Aquele que os guiara desde o Egito partiu sem deixar vestígio. E como se não bastasse, Deus lhes deixou de sobreaviso: tão logo atravessassem o Jordão, o maná diário cessaria, a rocha deixaria de verter água, as codornizes desapareceriam de seu cardápio. A partir daí, eles teriam que arregaçar as mangas e trabalhar. Afinal de contas, Deus os teria introduzido numa terra que manava leite e mel, a tão sonhada Terra Prometida (Josué 5:12).

Meritocracia? Negativo. A mesma graça que os sustentou pelo deserto, agora seria responsável por cada chuva, por cada estação, por cada colheita (Atos 14:17). Entretanto, caberia a eles não receber tal graça em vão, mas trabalhar com afinco a fim de não desperdiçá-la.

Era de se esperar que a morte de Moisés os deixasse com aquele sentimento de orfandade que poderia desanimá-los e distraí-los do foco. Por isso, Deus incube a Josué de lidera-los na nova etapa que se iniciava. “Moisés, meu servo, é morto. Levanta-te agora, passa este Jordão, tu e todo este povo, à terra que eu dou aos filhos de Israel. Todo o lugar que pisar a planta do vosso pé, eu o tenho dado a vós, como prometi a Moisés” (Josué 1:2-3).

Em outras palavras, Moisés tinha prazo de validade, mas a promessa de Deus não. Esta jamais caducaria! Moisés era apenas um canal através do qual Deus guiava Seu povo. Mas eles teriam que reconhecer que, apesar de os canais variarem, a fonte segue sendo a mesma de sempre: DEUS! Josué seria o novo canal que os conduziria à terra com a qual sonharam desde que deixaram a terra dos faraós.

Durante a travessia no deserto, Israel sentia saudade do Egito, de suas cebolas, de seus alhos, de seus melões e peixes (Números 11:5). Apesar do trabalho forçado, da escravidão, dos açoites, eles tinham a garantia de que não lhes faltariam mantimentos. O período no deserto serviu para desintoxicá-los.

Tirá-los do Egito foi bem mais fácil do que tirar o Egito deles. Agora, contudo, eles teriam que voltar a trabalhar, não mais sob a tirania e a exploração de Faraó, mas sob os cuidados amorosos do Pai Celestial. Um Deus que é Pai não oprime a Seus filhos, mas também não os mima. Pelo contrário, Ele os disciplina para que cresçam, amadureçam, frutifiquem, e ainda assim, sigam dependentes de Sua Graça e Amor.

Graça e trabalho não são antagônicos. O que confunde a muitos é a conexão equivocada entre trabalho e mérito.

Na mesma passagem em que Paulo encomenda os discípulos “a Deus e à palavra da sua graça”, ele também diz: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é necessário auxiliar os enfermos, e recordar as palavras do Senhor Jesus, que disse: Mais bem-aventurada coisa é dar do que receber” (Atos 20:32,35).

Ninguém falou mais da graça do que Paulo. Porém, ele jamais a usou como subterfúgio, desculpa ou justificativa para a ociosidade. Pelo contrário, ele a enxergava como uma força motivadora para o trabalho, e diz que toma-la como desculpa para cruzar os braços é o mesmo que recebê-la em vão. Ou não isso que ele diz?: “Mas pela graça de Deus sou o que sou; e a sua graça para comigo não foi vã, antes trabalhei muito mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus, que está comigo.” 1 Coríntios 15:10

O que a travessia do Jordão foi para os Israelitas, o Dia de Pentecostes foi para os cristãos.

Jesus já havia alimentado a multidão que o seguia pelo deserto, multiplicando pães e peixes por mais de uma vez. Ele também prometera aos Seus discípulos que os que n’Ele cressem fariam as mesmas obras que fez, e ainda faria obras maiores. Entretanto, não flagramos os discípulos protagonizando milagres de multiplicação após a descida do Espírito Santo em Pentecostes.

O episódio da multiplicação foi paradigmático, não por causa do milagre em si, mas pelo fato de que um menino se dispôs a compartilhar seu próprio lanche com a multidão. E foi assim, calcados neste exemplo, que as primeiras comunidades cristãs desenvolveram o hábito da partilha, razão pela qual, não havia entre elas nenhum necessitado.

O maior milagre é o que ocorre no interior do coração humano, transformando opressores e exploradores em potencial em seres generosos, cheios de amor pelos seus semelhantes.

Obviamente que alguns aproveitadores se infiltraram nas igrejas para obter alguma vantagem em cima do espírito solidário dos cristãos. Eles queriam uma fatia do bolo, sem, porém, cooperar para que este bolo crescesse e pudesse alimentar a tantos outros.

Para corrigir isso, o apóstolo Paulo nos deixou uma severa advertência: “Irmãos, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que receberam de nós. Pois vocês mesmos sabem como devem seguir o nosso exemplo, porque não vivemos ociosamente quando estivemos entre vocês, nem comemos coisa alguma à custa de ninguém. Pelo contrário, trabalhamos arduamente e com fadiga, dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vocês, não por que não tivéssemos tal direito, mas para que nos tornássemos um modelo para ser imitado por vocês. Quando ainda estávamos com vocês, nós lhes ordenamos isto: se alguém não quiser trabalhar, também não coma. Pois ouvimos que alguns de vocês estão ociosos; não trabalham, mas andam se intrometendo na vida alheia. A tais pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e comam o seu próprio pão.” 2 Tessalonicenses 3:6-12

Não creio em meritocracia, pois entendo que nem todos desfrutam da mesma oportunidade de crescer, desenvolver-se e produzir.

Uma coisa é não ter oportunidade, outra é tê-la, mas negligenciá-la. A orientação apostólica é clara: “Trabalhe, fazendo com as mãos o que é bom, para que tenha o que repartir com o necessitado (…) aproveitando bem cada oportunidade, porque os dias são maus” (Efésios 4:28b; 5:16b).

Se teve a oportunidade de se aperfeiçoar em alguma tarefa, não a desperdice! Se teve a chance de ser bênção na vida de outros, e, de quebra, garantir sua própria subsistência, não a negligencie.

Como já dizia meu velho e sábio pai: o que tinha que vir do céu já veio: Jesus para morrer por nós e o Espírito Santo para nos capacitar. Agora, só nos resta correr atrás, na certeza que as bênçãos de Deus nos acompanharão em tudo o que fizermos.

Que nosso objetivo seja o mesmo de Paulo e dos demais apóstolos: Não sermos pesados a ninguém! Nem que para isso tenhamos que trabalhar dia e noite sem parar: “Porque bem vos lembrais, irmãos, do nosso trabalho e fadiga; pois, trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o evangelho de Deus” (1 Tessalonicenses 2:9).

Que nossa dependência de Deus não seja desculpa para o ócio, mas estímulo para o trabalho digno, honesto e honroso.

Autor: Hermes C. Fernandes

Crianças degustam alimentos que elas mesmas plantam

As crianças de uma escola infantil da cidade de Passo Fundo, EMEI Rita Sirotsky, se envolvem num projeto de horta escolar, com o intuito de aprender, através de práticas, sobre nutrição e alimentação saudável. Elas vivenciam desde sua tenra idade a importância de cuidar do solo, de cultivar hortaliças e colher alimentos saudáveis para manter boa saúde, no prato de comida que é servido em sua alimentação.

Cultivar alimentos é uma forma de educar na perspectiva da formação integral do ser humano, educando para a necessidade e importância de uma boa alimentação. O ser humano deve ser pensado em sua totalidade, contemplando todas as suas dimensões que fazem parte da sua essência e existência.

Este projeto iniciou em agosto de 2019, a partir de uma palestra de outro projeto – Escola de Pais – sobre nutrição junto à comunidade escolar. Escola de Pais é um projeto onde a Escola forma os pais, com palestras sobre temas de importância para os pais, como limites na educação infantil, alimentação, auto estima, o olhar do adulto para a criança.

Como na escola havia uma área de terra com uma horta abandonada, um pai se dispôs a fazer uma primeira limpeza e também o primeiro plantio de mudinhas para as crianças. De lá para cá, esta horta escolar vem sendo importante referência para outras escolas e para outras iniciativas de alimentação escolar, envolvendo crianças e adolescentes. Esta importância é demonstrada através de uma matéria feita pela UPF TV no ano de 2020. 

Confira! https://fb.watch/khgc5releG/?mibextid=2Rb1fB

Rudimar Gomes, diretor da Escola, fala um pouco mais para a gente sobre esta iniciativa que revolucionou a educação infantil e a relação de toda comunidade escolar (pais e mães, crianças, funcionárias e professoras).

Professor Rudimar, como, ao longo dos últimos anos, a Horta escolar se integrou ao Projeto Político e Pedagógico deste educandário de Educação Infantil?

Rudimar: A horta nasceu naturalmente, não foi pensada como um grande projeto, ela simplesmente nasceu aos poucos. E, como tudo que nasce naturalmente, sem ser imposto, ela se integrou ao projeto da escola, onde as atividades começaram a se integrar com o fazer pedagógico. Muitas aprendizagens são vivenciadas na horta escolar, formas, cores, tamanhos, sabores, enfim um universo de descobertas.

Vejam o antes e o depois do terreno onde foi implantada a horta.

Qual é a finalidade deste tipo de projeto numa escola de ensino fundamental, a partir da educação infantil?

Rudimar: O projeto horta no Ensino Fundamental visa uma continuidade dessa vivência e das aprendizagens que as crianças têm também em contato com natureza. O produzir não está somente ligado a tecnologias e outros projetos impostos, mas pode-se e deve-se produzir a partir da natureza, produzir e poder experimentar o resultado dessa produção.

Além disso, cria-se a prática das hortas nas casas, onde um simples projeto tem resultados econômicos, didáticos e inspirando uma alimentação saudável em nossos alunos.

Como a comunidade escolar, sobretudo os pais e mães, estão envolvidos na horta escolar?

Rudimar: Quem cuida de nossa horta escolar é um pai da escola, ele ajuda as crianças no plantio, a regar as plantas e também na colheita dos produtos. Importante lembrar que a criança, filha desse pai, já não faz mais parte da nossa escola, mas, mesmo assim, o seu amor pelas crianças e pela escola faz com que ele dê continuidade a esse projeto. As mudinhas que são plantadas, vem em forma de doação da Strapasson Comércio de Mudas, uma empresa parceira de nossa escola desde o início da horta.

Estudos apontam a necessidade de relacionarmos formação integral às crianças a partir da relação delas com a natureza. Quais são os indicativos que esta experiência que relaciona educação e natureza já suscita com as crianças atendidas nesta escola?

Rudimar: As crianças começam a compreender de onde vem as coisas, muitas delas não imaginavam que a terra era a responsável por produzir os alimentos. Além disso, é comum o relato dos pais informando o desejo das crianças em criar uma horta em casa. Elas começam a compreender a importância da natureza, o cuidado ao plantar, o compromisso em regar todos os dias e por fim o sabor da colheita dos resultados.

A natureza não é vista como algo distante, até então presente apenas nas florestas e filmes, mas a percepção de que ela está ali, bem próxima e que precisa ser cuidada e protegida é apenas um dos diversos fatores interiorizados.

Quais as orientações ou os cuidados que o senhor recomendaria para escolas que queiram iniciar uma horta escolar?

Rudimar: O cuidado em qualquer projeto a ser iniciado em uma escola é a realidade da escola e o desejo da mesma ante o desafio. Ou seja, tem que ser algo prazeroso, algo que nasce espontaneamente e que não uma obrigação imposta ou uma competição a ser vencida, pois logo ali na frente, se for imposto, as pessoas cansarão e ele se tornará um fardo e, se for uma competição, assim que terminar o jogo, projeto será abandonado.

Quando as coisas surgem naturalmente, elas não são abortadas pelo tempo. Esse projeto nasceu de uma simples palestra, não foi algo criado na cabeça de um e imposto a outros, foi do coletivo e quando o “filho é seu, você cuida”.

Projetos que nascem querendo enaltecer o próprio ego à custas de outros, estão destinados ao fracasso. O projeto deve nascer de uma necessidade, de um momento de reflexão, onde todas as pessoas tenham voz e vez de decidir quando e como fazer.

Qual sua mensagem final aos educadores e educadoras, pais e mães, professores e professoras?

Rudimar: Minha mensagem que fica é que projetos grandiosos nascem da simplicidade. As obras faraônicas do Egito, erigidas para mostrar o poder do líder que se achava um deus, estão lá simplesmente como ruínas de um poder passageiro, pois foram impostas, não houve diálogo e nem empatia com os envolvidos.

Já a democracia dos gregos permanece até hoje, pois foi algo construído em conjunto, que tem como objetivo principal a participação de todos e não apenas o enaltecimento de uma pessoa. Aquilo que é construído por muitas mãos, permanece por mais tempo.

Que todos os envolvidos na educação saibam da minha admiração e respeito, pois são eles que estão todos os dias com a mão na massa, mudando vidas, ampliando horizontes e escrevendo novas histórias através da educação. São eles os protagonistas, são eles os verdadeiros pensadores da era atual.

Conheça também a experiência associativa de dois vizinhos que juntos trabalham uma horta domiciliar. https://www.neipies.com/uma-experiencia-associativa-de-horta-domiciliar-na-cidade/

Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal Rudimar Gomes

As origens do preconceito

Você já parou para pensar sobre as origens do preconceito? Será que ele tem alguma função ou algum motivo de ser?

Começando pelo começo (aha!), etimologicamente falando, a palavra preconceito por si já revela muito de si, ela é constituída por dois componentes: o pré, que significa algo como vir antes, e o conceito, ou aquilo que se compreende em respeito de algo, segundo o dicionário. De certo modo, podemos dizer que a palavra preconceito é uma conceituação que vem antes. Mas, antes de quê? Antes de conhecer ou de se chegar as vias de fato.

Eu gosto muito de procurar respostas do entendimento das características humanas em nosso processo evolutivo, e meus amigos, a biologia é algo incrível, e por mais que o preconceito seja muito malvisto nos dias atuais, ele tem, ou teve? O seu valor.

– Explica melhor isso, Ana!

Na verdade, o preconceito pode ser visto como uma ferramenta humana que visa prever o que poderá acontecer com base em experiências passadas. Por exemplo, imagine que você, ser humano, nômade e pelado na selva, foi picado por uma cobra, passou muito mal, mas, graças aos Deuses da época, você sobreviveu. Depois desse evento, você passou a odiar tudo que rasteja sem patas e parece ser geladinho, com aqueles olhos que o pavor não nos deixa nem descrever. E o pior, ou melhor? Você não só passou a odiar as cobras, como passou a matar desesperadamente todas, sem exceções.

A isso chamamos de generalização, que basicamente é o ato de utilizar uma experiência para definir todas as outras experiências parecidas. Como o seu cérebro age buscando sempre a sobrevivência, e você passou muito mal ao ser picado por uma única cobra de uma única espécie, o que ele vai fazer é concluir que tudo que se enquadre nas características citadas acima deve ser visto como uma ameaça. Ele vai compreender que não vale a pena ficar investigando, porque o risco é muito alto. O problema é que existem cobras que nem veneno possuem, e que matar todas elas poderia gerar um desequilíbrio ecológico tremendo.

Retomando o exemplo, além de passar a exterminar todas as cobras, seu ímpeto de sobrevivência lhe deu um novo propósito de vida, você passou a difundir a informação de que todas as cobras eram venenosas e precisavam ser exterminadas, seus filhos nunca foram picados por uma cobra, mas eles mesmos já mataram várias e fizeram questão de repassar o costume para as futuras gerações… até que um dia uma cabeça pensante perceba que a cultura de matar todas as cobras está equivocada e resolva lançar um olhar mais curioso e consciente diante da situação e mudar esse paradigma.  

O preconceito reside justamente entre a sua experiência ou memória passada e como ela influencia o seu modo de agir e de pensar. Olhando a fundo, de fato ele tem o seu valor e pode mesmo nos poupar de enrascadas.

Mas, não, eu não vim aqui defender o preconceito, o meu interesse por aqui é tentar fazer refletir sobre um modo mais equilibrado de utilizar essa ferramenta da natureza. Agora apresentamos a outra face da moeda.

O ser humano é um animal social, inundado diariamente por uma complexa rede de conceitos pré-estabelecidos em que absorvemos sem, na grande maioria das vezes, nos darmos conta de sua influência sobre os nossos pensamentos e ações.

Em outras palavras, isso significa dizer que podemos formular certas visões, com base nas estórias que nos contaram, de coisas que ouvimos ou vemos, sem nos dar conta de que aquilo é apenas algo que aconteceu com alguém ou alguma coisa e não deve ser aplicado a todo o contexto parecido, sem um olhar consciente, caso contrário ele poderá prejudicar, e muito a nossa convivência e a ferramenta da natureza se torna uma cilada.

Aplicando-a em um contexto atual, digamos que você assiste o noticiário diariamente, e eu não preciso nem descrever o quanto só tem tragédia naquele negócio, não é mesmo?!. Na segunda você viu uma reportagem que uma pessoa de cor lilás (cor inventiva justamente para não ser seletiva) foi presa por tráfico de drogas. Na quinta você viu outra reportagem que outra pessoa de cor lilás foi presa por homicídio e assim sucessivamente.

O que o seu cérebro deverá fazer?

 Primeiramente ele vai identificar uma espécie de padrão (ou o conjunto de ações que se repete com frequência), e isso pode acontecer de modo inconsciente. Ou seja, com base na sua experiência no noticiário: pessoas lilás cometem crimes. Após identificado tal padrão, a tendência é a generalização, ou seja, como pessoas que cometem crimes de alguma forma são uma ameaça a nossa vida, e pessoas lilases cometem crimes, é interessante para a nossa sobrevivência que construamos uma narrativa que busque se afastar dessa ameaça.

O que fazemos? Também de forma inconsciente? Evitamos nos relacionar com pessoas lilases e muitas vezes as difamamos, sem as conhecer, adotando como base as associações inconscientes que criamos. Eu sei que isso parece um exagero, mas, acontece e muito.

Como se não bastasse, há um outro fator agravante que é: não nos damos bem com o desconhecido. O nosso cérebro gosta de sentir que está no controle da situação e isso significa que ele vai se sentir mais confortável com aquilo que conhecemos, pois, conseguimos identificar os padrões e prever o que poderá acontecer, diminuindo, portanto, a chance de ameaças. É por essas que religiões diferentes, pessoas diferentes, opções sexuais diferentes, escolhas políticas diferentes, ou seja, lá o que for diferente de nós ou da nossa visão de mundo também nos causará desconforto, e poderá até mesmo ser visto pelo seu cérebro como uma ameaça, e de fato, essas eleições são a prova que essa teoria parece mesmo funcionar!!!

Então, se o preconceito parece até mesmo ser algo natural, como seria possível extingui-lo? Eis o ponto “x” da questão, a gente não precisa acabar com ele, até porque eu não sei exatamente se isso seria possível, ao menos a curto prazo. E aqui vai uma dica valiosa: toda vez que você não conseguir acabar com alguma coisa, faça um esforço para aceitar e olhar de uma perspectiva diferente.

Isso significa dizer que você pode perceber o preconceito como um subterfúgio (credo, nem sei o que isso significa) da natureza, que tem ou teve o seu valor em nosso processo evolutivo. Com isso, não iremos negar as informações que a nossa experiência está nos transmitindo, mas sim, lançar um olhar consciente sobre elas que compreende os seus motivos de ser, e utilizá-las com sabedoria.

O preconceito pode evitar que você se meta em enrascadas, como também pode tornar a sua convivência um caos, repleto de comentários maldosos e injustos, originários de uma narrativa que criamos para fundamentar o nosso lado instintivo.

Antes mesmo de pensar e agir com base nele, depois do que compreendemos por aqui, você pode desenvolver um olhar consciente sobre os seus pensamentos e quando algum comentário maldoso, geralmente relacionado a algo novo ou diferente dos nossos costumes, surgir, observe ele mentalmente e se questione se você não está empregando o preconceito de maneira equivocada e até mesmo machucando ou ferindo alguém com isso, de forma descaradamente injusta, ou seja, sem realmente conhecer.

Agora vem a parte difícil, que pode ser resumida como a busca pelo equilíbrio.

Isso significa dizer que você não vai sair por aí confiando em todo mundo e nem mesmo vai ignorar o seu lado mais instintivo. Há situações de grandes ameaças que precisaremos pensar pouco e fazer o que o nosso corpo está mandando, mas, elas são raras; e infinitamente desproporcionais a forma como utilizamos o preconceito em nosso dia-a-dia. Portanto, aos poucos, busque encontrar oportunidades de dar uma chance para escutar e buscar compreender as pessoas, outras culturas, escolhas e tudo mais diferente que em um primeiro momento possa lhe causar algum desconforto.

Eu preciso te avisar que em função desse exercício, poderemos nos machucar de vez em quando, poderemos até mesmo validar a nossa experiência passada e ouvir da nossa própria cabeça “viu só, eu te avisei para não confiar nele”. Mas, em troca de algumas ciladas, acumulamos aprendizado, potencializaremos o nosso autoconhecimento, em busca de um exercício constante de equilíbrio entre o nosso lado instintivo e o nosso lado racional.

A parte nobre de tudo isso, é que minimizamos o impacto negativo que uma forma preconceituosa de agir tem sobre os outros. Ampliamos a nossa visão de mundo, favorecendo a nossa criatividade, passamos a nos sentir menos ameaçados e mais conectados, novas amizades irão surgir, além do verdadeiro respeito.

Se isso não for o suficiente, já temos estudos comprovando que um grupo diversificado, diferente, composto por diferentes gêneros, inclusive, de etnias distintas, possui mais efetividade no gerenciamento dos problemas e na criação de soluções inovadoras. Por quê? Porque o diferente nos faz olhar para além de nosso umbigo, além de nossa visão limitada de mundo e com isso conseguimos atingir públicos que não atingiríamos se o nosso grupo fosse composto de pessoas que agem e pensam de modo muito semelhante. 

A Filosofa Marta Nussbaum em seu livro “Educação sem fins lucrativos” aborda muito bem a questão do diferente, e orienta que exercitamos a nossa consciência além da coragem, a fim de que tenhamos abertura suficiente para conhecer o diferente e se familiarizar com ele, como uma das principais estratégias para superar o preconceito nocivo. Ela ainda sugere o teatro como uma das principais ferramentas, justamente, pois, ao assumir um papel, e se colocar no lugar de determinada pessoa, passamos a olhar o outro com menos julgamento e mais compreensão e acolhimento.

Autora: Ana P. Scheffer

Que é um intelectual?

O grande dilema do homem é não empobrecer a autocrítica e saber evitar o egocentrismo intelectual.

Não é o exercício de profissões (aparentemente) eruditas, nem o privilégio de usufruir de titulações acadêmicas elevadas (ou cargos), que asseguram a um indivíduo o grau de intelectual. Tampouco servem os estereótipos dos bancos escolares (óculos fundo de garrafa e ares de c.d.f.). E muito menos as definições dicionarizadas: “pessoa que tem gosto predominante ou inclinação pelas coisas do espírito, da inteligência”.

Em tempos de criticismo à intelectualidade brasileira, cabe a indagação: afinal, que é um intelectual? Quem é esse raro espécime?

Talvez só não menos raro que um Oryx leucoryx (antílope do deserto que inspirou o mito do unicórnio e que se tornou virtualmente extinto no começo dos anos 1960).

Não sou eu quem afirma, e sim Edgar Morin (em Meus Demônios), que um indivíduo só se torna um intelectual a partir do momento em que é capaz de tratar, de maneira não especializada e além do seu campo profissional restrito, por meio de ensaios (gênero híbrido entre filosofia, literatura, jornalismo e sociologia), textos em revistas ou artigos de opinião em jornais, dos problemas humanos, morais, filosóficos e políticos.

Ou seja: os rótulos de “professor”, “pesquisador”, “sociólogo”, “cientista político”, “escritor”, “crítico literário”, “juiz de direito”, “procurador”, “advogado”, “médico”, etc., que costumam estar apensos aos nomes de pessoas, geralmente acompanhados de titulações acadêmicas adicionais, não dizem absolutamente nada quanto ao exercício da intelectualidade. Dizem meramente o que representam: o exercício de funções. Há que superar a profissão nas ideias, para alguém ser merecedor da designação de intelectual.

A missão do intelectual é trazer à tona reflexões sobre o mundo, a vida, o ser humano e a sociedade de modo geral. Servindo quase como uma espécie de consciência da humanidade (mas sem exageros).

O seu principal papel é combater as forças que prejudicam a reflexão, a análise crítica dos fatos e levam ao erro. E a grande ameaça ao exercício da intelectualidade é a especialização, o tecnicismo e a profissionalização (também muito necessários), que não raro, quando fora dos seus domínios, grassam na cabeça de técnicos e cientistas não mais que ideias vazias e superficiais, em se tratando de pensar abstratamente a sociedade (especialmente no diagnóstico político).

Mas, o pior de tudo é o espírito de corpo que costuma reinar absoluto no seio das disciplinas científicas, em que o especialista (ou pretenso) se julga proprietário do domínio (físico, técnico, ético e cultural), acreditando ocupar o centro do mundo, e passando a atacar aqueles que imagina como competidores, à semelhança do instinto territorial dos animais irracionais. Sintetiza assim o mito do perseguidor-perseguido.

Ninguém ignora que há também a casta dos intelectuais, cuja corporação, em nome do espírito de grupo, costuma manifestar o seu próprio conformismo, defendendo idéias ou fatos que, em essência, podem não ser totalmente defensáveis. Existe neste caso uma competição não-confessa em busca da glória e do reconhecimento dos pares, uma espécie de obsessão pela admiração da crítica, que, a exemplo da seleção darwiniana, tende a reduzir a biodiversidade intelectual.

Há ainda aqueles que, na dependência do sistema de produção cultural vigente, professam apenas ideias de consumo de massa. Ou os que se julgam o soberano juiz de todas as coisas, não prestando atenção nos discursos alheios ou sendo incapazes de ouvir um argumento sem deformá-lo, considerando ignorantes todos os que não possuem a sua cultura. Portanto, não se trata, de maneira alguma, de uma comunidade que esteja imune a críticas (e a erros também). Acima de tudo, porque é indiscutível que o erro é o risco permanente do conhecimento e do pensamento.

O grande dilema do homem é não empobrecer a autocrítica e saber evitar o egocentrismo intelectual.

Eu, por exemplo, tenho muito claras minhas carências intelectuais. Como oriundo das ciências agrárias, nas quais, sem que muitos (e importantes atores) se dêem conta, triunfou (e insiste em persistir) o pensamento do paradigma científico positivista, cotidianamente, luto para “matar” Auguste Comte.

(Do livro Cientistas no Divã, 2007.)

Autor: Gilberto Cunha

Ele era valente de alma

Não havia até então me dado conta: meu pai era um valente! Que façanha difícil a dele. Sim, meu pai era um valente!

Para mim, quando menino, meu tio João era um valente. Já adulto, ao contar as façanhas que a mim justificavam o título que outorgara a ele, surpreendi-me ao incluir o tango.

Era valente por tomar mate fervendo, por dormir com revólver embaixo do travesseiro, por ser indigenista, por ter tido um negócio que o obrigava a dirigir um moderno caminhão em altíssima velocidade, ida e volta São Paulo/Buenos Aires.

E qual era o vínculo dele com o tango e o do tango com a valentia?

Bem, diziam que tio João dançava tango como um argentino e que tinha um caso com uma dançarina de Buenos Aires. Lembrei que na minha infância o tango era coisa muito séria, o escutávamos nas ondas curtas das rádios portenhas, e entendi um pouco mais ao ler Borges explicar a missão do tango: “Dar aos argentinos a certeza de terem sido valentes, de terem já cumprido com as exigências da valentia e da honra”.

Já com meu pai, Wolmar Salton, a surpresa que tive foi outra.

Não o via como valente. Simplesmente não o avaliava nesse quesito. Mas, numa noite em que eu, menino de uns oito ou nove anos, assisti assustado a meus familiares próximos e não tão próximos em desavença, fui levado a avaliá-lo. Parecia que todos tinham perdido a razão: acusações gritadas, choros raivosos… Tentei me desangustiar indo a uma janela. A noite era muito escura. Felizmente, como na foto de Jussara Gomez, algumas luzes (ou lucidezes) surgiram em meio ao tumulto.

Meu pai. Sim, meu pai manteve-se calmo e sereno. Ouviu a todos e, com poucas palavras (e acredito hoje que mais com sua postura), conseguiu que o ambiente sossegasse. A paz voltou, todos foram para seus cantos e com eles o meu medo. Como se luzes tivessem acendido na escuridão.

Puxa! Como ele conseguiu não se deixar abalar e conseguiu manter-se equilibrado? Não vacilou em momento algum, apenas algumas vezes assobiou baixinho. Fiquei impressionado ao perceber nele uma fortaleza, um homem “homem”!

Não havia até então me dado conta: meu pai era um valente! Que façanha difícil a dele. Sim, meu pai era um valente! Só quando adulto consegui definir sua valentia. E achei-a – até hoje acho – a de maior valor. Ele era valente de alma!

Autor: Jorge Alberto Salton

Passo-Fundense divulga dois importantes livros

Rubens Mário dos Santos Franken, advogado e professor lança e apresenta dois importantes livros: Problemas emergentes, Soluções juridicas, Direito & Filosofia e Família Franken: histórias em dois continentes.

Conhecimentos sobre o autor:

Rubens Mário dos Santos Franken, Advogado pós-graduado em Direito Contemporâneo do Trabalho e Processo do Trabalho (UPF), Especialista em Direitos Humanos (IFIBE), professor licenciado em Filosofia e Sociologia (UPF). Foi um dos criadores e atuou do Balcão do Trabalhador da UPF. Foi Diretor Administrativo e Financeiro da Leão XIII, por 26 anos. Presidiu por duas gestões o Conselho Municipal de Assistencial Social CMAS de Passo Fundo.

Foi Coordenador da Comissão de Direitos Humanos da OAB – Passo Fundo. É pesquisador e escritor. Atualmente vive no Balneário Cassino, em Rio Grande – RS.

SOBRE AS OBRAS:

Problemas emergentes, Soluções juridicas, Direito & Filosofia.

O livro é uma coletânea de obras do autor composta por 5 artigos.

O primeiro artigo trata de direito material e processual do trabalho, NO TEMA: “Discriminação no ambiente doe trabalho e a prova diabólica, nas despedidas discriminatórias. O segundo trata do “Transconstitucionalismo: uma reflexão sobre a internacionalização dos direitos fundamentais / direitos humanos”, assim como define Marcelo Neves, em suas obras.

O terceiro é “Robert Alexy e a máxima da proporcionalidade no julgamento do HC 108872 pelo STF.” Demonstrando a falácia do uso da máxima da proporcionalidade. O quarto é “A afirmação dos Direitos Humanos através da Justiça Restaurativa,” que traz a questão da justiça restaurativa e sua intenção de não judicialização de pequenos problemas que sobrecarregam a justiça e que podem ter uma solução mais rápida e pacifica, através da JR.

E, por fim, o atualíssimo tema da jurisdição constitucional e a homossexualidade, através do artigo “Jurisdição Constitucional brasileira: homoafetividade e cidadania”. As análises dispostas na obra, evidenciam uma preocupação central no pensamento do autor, qual seja, o conteúdo dos Direitos Humanos e o seu embate histórico contra a barbárie.

Família Franken: histórias em dois continentes

As curiosidades do autor, transformaram-se em pesquisa e depois em um livro. Com o intuito de pesquisar sobre o sobrenome alemão Franken, a imigração alemã no Brasil e a vinda de sua família da Alemanha para o Brasil, levou o autor a pesquisar no Brasil e na Alemanha em diversas fontes.

A história da vinda do tronco familiar para o Brasil, descortinou a amizade entre o empresário alemão Alfred Krupp e o imperador Brasileiro Pedro II. Assim, a família imperial brasileira entra na história da família Franken e o autor aproveitou para escrever também sobre o II império e a sua figura principal: o Imperador Pedro de Alcântara.

A segunda parte é toda dedicada para as pesquisas feitas sobre o sobrenome Franken.

Na terceira parte, conta pequenas histórias dos Franken e seus descendentes já no Brasil. Para que houvesse uma integração maior entre os membros da família, abriu espaço para todos os seus membros, interessados em identificar-se com nome e fotos.

O livro quebra o paradigma da figura do imigrante europeu semianalfabeto que vinha para o Brasil, fugindo da fome e em busca de terras para cultivar.

Visita à Academia PassoFundense de Letras

No dia 13 de maio de 2023, das 11 às 11:45 hs, Rubens Mário dos Santos Franken fará uma visita às dependências da APLetras para a apresentação de seus livros para os acadêmicos e acadêmicas, bem como para pessoas convidadas que estejam presentes.

O professor refém

Para quem vive e convive com o cotidiano da escola sabe o quanto essa condição de refém é prejudicial à saúde e ao bem estar do professor. Não se faz educação de qualidade sem que o professor tenha condições dignas de exercer seu trabalho.

Em tempos de crise na educação, de ataque às escolas, de aulas remotas, de obscurantismo tomando conta das redes sociais, dos discursos de ódio contra pessoas que pensam diferente, na eminência de um novo surto de doenças consideradas extintas, a identidade e importância do professor se faz sentir com toda força intensidade.

O professor é um sujeito social milenar que precisa ser compreendido dentro dos diversos tempos e espaços que ocupa. Não há dúvida de sua importância histórica, de seu papel na consolidação de uma sociedade democrática e de sua relevância na formação das novas gerações.

A experiência traumática da pandemia vivida recentemente, reacendeu um debate fundamental sobre o papel do professor nos dias atuais. Pais que defendiam educação domiciliar ou homeschooling para ficar numa expressão americanizada, entusiastas da Educação à Distância, pessoas e que aplaudiram propostas de políticos que almejam transformar tudo em educação a distância, com a recente experiência da pandemia se sentem retraídos, desconfortáveis e se dão conta que a escola presencial e o professor são imprescindíveis.

Retomei recentemente a leitura do livro O professor refém (Editora Record, 2006), da filósofa e educadora carioca Tania Zagury. Trata-se da publicação de uma importante pesquisa realizada por Zagury com 1.172 professores de educação básica em escolas públicas e privadas de todo o país. Dentre as perguntas de pesquisa exploradas por Zagury destacam-se as seguintes: o que pensam os professores que atuam com nossos filhos na salas de aula? Quais são suas maiores dificuldades? Como veem a educação que os pais dão hoje às crianças? Que avaliação fazem das recentes mudanças educacionais?

A pauta desenvolvida por Zagury no livro não é pequena – progressão automática, (in) disciplina, dificuldades em sala de aula, temas transversais, avaliação, recuperação paralela, condições de trabalho -, enfim, todos os elementos que habitam – e muitas vezes atormentam – o cotidiano dos professores.  Os professores que tiverem a possibilidade de ler a pesquisa sistematizada no livro irão reconhecer sua própria vida na maior parte das respostas compiladas pela pesquisadora.

Mas afinal, de quem o professor hoje é refém?

De forma resumida, a partir da pesquisa realizada, Tânia Zagury responde: refém da má qualidade de ensino que ele mesmo teve; refém do tempo que necessita, mas de que não dispõe; refém das pressões internas que sofre do sistema; refém da própria consciência, que lhe revela sua impotência; refém dos alunos, que o enfrentam em muitos casos; refém da família, que perdeu a autoridade sobre os filhos; refém da sociedade, que surpreende professores e gestores com medidas cautelares, mandados de segurança e processos …

Apesar de ser uma pesquisa realizada há quase vinte anos, sua atualidade salta aos olhos.

Gostaria de acrescentar alguns itens à lista compilada por Zagury: o professor é refém de um salário cada vem mais reduzido que o obriga a uma sobrecarga de trabalho para garantir sua subsistência; refém da cegueira de certos políticos que tratam a educação como prioridade apenas no palanque eleitoral, mas que esquecem da educação no dia seguinte das eleições; é refém de certos pais ignorantes que veem a escola como a creche gratuita que cuida de seus filhos durante boa parte da semana e principalmente agora em tempos de pandemia; refém da falta de esperança para projetar um futuro melhor de autorealização profissional; refém de uma sociedade consumista que acredita que a função da escola é instrumentalizar pessoas para o trabalho e preparar cidadãos para serem consumistas alienados.

Para quem vive e convive com o cotidiano da escola sabe o quanto essa condição de refém é prejudicial à saúde e ao bem estar do professor. Não se faz educação de qualidade sem que o professor tenha condições dignas de exercer seu trabalho.

A condição de refém faz com que o professor se torne vítima do medo, da insegurança, da frustração, da falta de perspectivas.

Pesquisas mostram que nossos professores estão adoecendo, que nossos jovens não querem ser professores e que o futuro educacional está ameaçado. Se é correto o dito popular de que “a grandeza de uma nação se mede para qualidade da educação do seu povo”, então teremos muito a lamentar num futuro próximo se continuarmos mantendo nossos professores reféns.

Valorizar o trabalho do professor, reconhecer sua importância, participar das atividades da escola, ser uma presença ativa na educação dos filhos, conhecer a forma como os professores realizam o seu trabalho, tornar a educação dos filhos o centro de nossa atenção são alguns indicativos para que a educação ocupe o lugar que ela merece no mundo em que vivemos. Leia mais: https://www.neipies.com/quanto-vale-um-professor/

Autor: Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com

Uma mulher poeta na Academia Rio-Grandense de Letras

Marli Silveira é uma mulher poeta e professora escolhida para integrar a Academia Rio-Grandense de Letras, eleita no dia 09 de março e empossada no dia 20 de abril de 2023.

É motivo de orgulho contarmos com a participação de uma professora engajada em causas literárias e uma mulher poeta. Tem formação em Letras e Filosofia. Ingressou na literatura através da poesia e, mais tarde, avançou para ensaios através de projetos acadêmicos e de extensão.

Perguntada sobre o papel da literatura na sociedade, respondeu: “tem uma frase de Montaigne, nos seus Ensaios, que é “Filosofar é aprender a morrer”. Spinoza também vai nos dizer que o “sábio morre menos que o tolo”. Na chave da interpretação que utilizo, penso que ambos estão dizendo que quanto mais nós aprendemos a lidar com o modo de ser que é o nosso, reconhecendo nossas precariedades e limites, mais compreendemos os sentidos que alargam a nossa existência, conquistando uma espécie de “imortalidade” repercutida na e da tensão do lembrar/esquecer. E acredito que a literatura tem um papel importante nas implicações que podem traduzir a existência por caminhos menos desavisados, repactuando a vida em particular aos sentidos que se apresentam na horizontal. A filósofa Martha Nussbaum, por exemplo, não apenas reconhece o papel das humanidades na formação humana, como o quanto a literatura, em particular, pode contribuir para nos colocarmos na proximidade do outro, tornando mais porosa nossa disposição existencial”.

Com sua permissão e com sua companhia humana e intelectual, publicaremos discurso proferido no dia de sua posse, 20/04/2023.

***

“Tenho me perguntado, inclusive e principalmente, pelas inúmeras interpelações e reconhecimentos, o que significa entrar para a Academia Rio-Grandense de Letras, nossa mais antiga instituição/entidade cultural e referência representativa da literatura do Estado.

Creio que ainda não tenho uma resposta definitiva, até porque a contínua participação e vivência com as demais acadêmicas e acadêmicos, apontará novos desdobramentos e alargamento do que representa ser uma “imortal”. Considero dois aspectos fundamentais: o do reconhecimento da minha trajetória e obra, e a responsabilidade inerente a minha acolhida na Academia Rio-Grandense de Letras.

Quando se é eleita para uma cadeira na Academia de Letras, no meu caso, confirma-se a obra e a trajetória da escritora, pois é improvável que alguém que não reúna ainda implicações literárias e culturais importantes, seja eleito pelos seus pares. O que não significa, é claro, que somente escritores que integrem a ARL tenham conquistado projeção e o reconhecimento pelas suas obras e vida literária. Especificamente, quando há uma disposição para ingressar na Academia, leva-se em conta a produção e reverberações do processo singular a partir do qual cada escritora/escritor se afirma no cenário estadual.

Se de um lado se apresenta como um reconhecimento, de outro, uma responsabilidade, pois também se espera de uma acadêmica, de um acadêmico, que contribuam por meio da sua produção intelectual/cultural com o desenvolvimento e a promoção da literatura, do conhecimento e da arte. Portanto, recebo minha eleição com satisfação e com compromisso, principalmente por acreditar que muitas pessoas, entre leitores, admiradores, amigos, colegas, se fazem representar pelo e no fazer literário.

Também não considero inexpressivo o fato de ser a primeira mulher da região a fazer parte da Academia, ampliando a participação feminina, como a inscrição da poesia da nossa região na ARL. Embora minha obra não se vincule a um único gênero literário, é a poeta que foi eleita para a ARL. É o sentido poético que guardo como o mais significativo de tudo aquilo que vivo e sinto hoje após a confirmação da minha literatura no cenário estadual.

Realmente é muito importante que as escritoras e escritores da nossa região, que cotidianamente afirmam a expressividade da produção literária regional, sejam considerados pelos leitores e comunidades em que vivem e escrevem, pois não devemos ignorar as implicações de termos na ARL quatro representantes do Vale do Rio Pardo. O que também nos coloca na responsabilidade reiterada de continuarmos fazendo literaturas de qualidade.

Deleuze, alinhavando seu pensamento filosófico à estética, nos faz reconhecer a importância do artista e da arte para curar a sociedade. O artista seria uma espécie de médico capaz de diagnosticar os males culturais e propor caminhos. Criar. Podemos desdobrar o conceito de criar e se ainda poderíamos falar de criação no mundo em que vivemos.

No fundo, quando recorremos à história da arte ou da produção própria da sensibilidade, percebemos que a ideia de criação é moderna, sendo pouco provável que um grego antigo chamasse de gênio um escultor (Claro que devemos lembrar que para os gregos a gênese do mundo vem do caos, não do nada). Na contínua separação com a natureza e diante da insinuação da subjetividade, transparece com mais clareza a ideia do talento, da criação humana. Independente da percepção atual do que se trata a obra de arte, e sem aprofundar a discussão, cultivamos certa esperança de que a produção da sensibilidade lide com aspectos e sentidos que não são/estão subsumidos a uma razão asséptica. Em grande medida, afirmar o gesto criador é uma forma de esticar a implicação humana para além do seu bairrismo exploratório do mundo e da vida.

Lembrando Bachelard, para quem os poetas nos fazem acreditar que os devaneios de criança devem/merecem ser recomeçados, acompanho alguns autores que assumem a importância da Literatura não apenas no que se refere ao que eu chamaria de uma gramática sentida do tempo presentificado na pronúncia do mundo, como sua condição de dispor o indivíduo na proximidade com tudo aquilo que não é ele mesmo.

A Literatura é mobilizadora de mundos, de sentidos e possibilidades. Reconheço que há limites, que há diferenças radicais inscritas nas distintas culturas, como e fundamentalmente, modos de acesso diferenciados e que implicam a experiência social. Contudo, por força da humanidade que cultivo, preciso acreditar que podemos tentar e construir caminhos mais solidários também por obra da poesia e da Literatura”.

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

A não aprendizagem – violência instituída

Indiscutivelmente, proporcionar mais segurança externa nos locais de ensino não chega nem perto da alternativa que verdadeiramente produziria o prazer de aprender e não proporcionaria espaço para a violência.

Esse é o título da Revista número 7 do Geempa, publicada em julho de 1999, portanto editada há 24 anos.

Estamos todos aterrorizados com as violências que tem ocorrido em escolas tanto do Brasil, como dos Estados Unidos. ​Várias vezes essas violências são praticadas por alunos ou ex-alunos, provavelmente vingando a violência da qual eles foram vítimas, não aprendendo na mesma escola.

Segundo Freud, o prazer de aprender é maior do que o do orgasmo. Só que prazer de aprender não é o de simplesmente memorizar, o que as escolas tem como objetivo de ensino.

As escolas ainda estão longe de se atualizar cientificamente sobre o que é aprender de verdade. Elas se satisfazem com a fixação temporária na memória, em imediata avaliação do que é apresentado pronto pelo professor em aulas expositivas, nas quais não acontece a indispensável troca entre alunos, sentados rigidamente um atrás do outro. Ora, tal fixação na memória é transitória, de curta duração, e não produz, nem de longe, o famoso prazer de aprender ao qual se refere Freud.

O prazer de aprender vem de uma conquista que resulta de um processo pessoal lindo, mas exigente e trabalhoso. Esse prazer se assenta sobre genuínas experiências de pensar. Pensar não é ficar sabendo de cor algo recebido pronto de fora, pela explicação de alguém. Pensar só acontece quando se formula pergunta e se constrói pessoalmente a resposta. Para que isso aconteça o papel do professor é completamente diferente do que até hoje ele exerce tanto no ensino fundamental, como no ensino médio, no ensino universitário ou nas pós-graduações.

O professor, para exercer efetivamente o seu papel, como tão bem assinala Sara Pain, precisa ter dois saberes – o da sua disciplina e o da didática dessa disciplina. E a didática é uma nova ciência, que tem hoje o suporte precioso da Teoria dos Campos Conceituais e da quarta teoria sobre o aprender que é o Pósconstrutivismo, na sequência histórica do Inatismo, do Empirismo e do Construtivismo, para a qual é preciso também formação universitária atualizada.

Não basta aos professores terem conhecimento do conteúdo das suas disciplinas. Precisam eles se apropriarem de outro campo científico – o de como se as ensina. E esse outro campo científico compreende elementos radicalmente diferentes do que até hoje prevalece nas salas de aula.

Escrevo-lhes sobre esse tema, no qual tive a sorte de muito me aprofundar, porque, indiscutivelmente, proporcionar mais segurança externa nos locais de ensino não chega nem perto da alternativa que verdadeiramente produziria o prazer de aprender e não proporcionaria espaço para a violência.

Autora: Esther Pillar Grossi

POA, 13/04/2023.

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

A busca da vida ética

A vida vivida autenticamente é uma vida de busca do sentido, que é o objetivo maior do dom da vida gerando vida. Viver não é um destino, mas uma escolha ética.

Da vida e na vida nascem muitos discursos e propósitos. Há áreas do saber humano dizendo que a vida é uma vibração cósmica. A afirmação primordial é que a Vida é um valor absoluto donde brota a ética e toda hierarquia de responsabilidade e de respeito mútuo, estabelecendo assim, uma escala axiológica.

Temos e carregamos a vida, mas não somos a vida. De onde viemos e para onde vamos são as perguntas da mente inteligente. De onde viemos só pode ser da vida, porque não há salto de qualidade que não seja da própria vida. E para onde vamos só pode ser para vida novamente.

Assim, pode-se concluir que a vida gera a vida. Se da morte sai a vida é porque no começo tudo era vida. Então, a morte é o intervalo entre vidas. A vida é anterior e posterior à morte. A vida se torna dessa maneira um imperativo ético, porque ela é a última e a única palavra e não a morte.

A vida, além de ser um valor ético, dá muito que pensar e nos ensina como devemos viver. A dimensão ética da vida está justamente neste preceito de que não basta só ter a vida, mas como se dá sentido a ela. Viver a vida é o chamamento para o discernimento ético.

O viver intencionalmente é a busca de sentido para vida. Vida e sentido são as constantes de discernimento do ser humano. O ser humano tem a vida, mas para dar sentido a ela necessita criar muitos ritos e ritmos para continuar vivendo e saboreando a vida. Da natureza para a cultura há um salto de qualidade.

O sentido da vida não é natural, mas simbólico/cultural; pois, é uma criação humana o sentido da vida. Os símbolos da vida não vêm juntos com a natalidade nem se encerram com a mortalidade. Há algo para além da vida? Ou a vida é uma constante continuidade? Se há algo para além da vida, mesmo passando pela morte, a vida vale a pena ser vivida.

A consciência ética é saber que a vida é um aviso de que nós seres humanos não estamos prontos, somos um projeto sempre aberto e o viver é uma projeção.

Neste projeto existencial há pessoas que nascem e morrem piores do que nasceram, são as pessoas degeneradas. Também há as pessoas que nascem e morrem como nasceram, são as pessoas que mantiveram a saúde e se cuidaram bio-fisico-psiquicamente. E há outras pessoas que nascem e se tornam o que elas são atualmente, assim como uma flor se torna uma flor, uma mangueira se torna uma mangueira. São as pessoas que aceitaram o desafio dos reveses da vida.

A ética nasce dessa percepção de que ainda não estamos prontos. Somos seres inacabados. Esta busca pelo nosso acabamento é o espaço do prazer e da dor. Sem dor e prazer, sem morte e vida, a ética torna-se uma busca vazia e sem sentido. O viver se faz de dor e de prazer, como também de vida e de morte. O viver é a concretização da eticidade.

Assista também vídeo “Por que ser ético”?: https://youtu.be/TrCvhx4-UyI?list=PLDwf2YrZZoEeucIGZqaoL85hi78NKncC2&t=50

A práxis originária do ser humano é uma invenção da vida gerando vida, numa permanente descoberta do mundo, como uma estrutura prévia de sentido.

O mal é a perturbação dessa trajetória, desvio da vida. Isto pode resultar em vidas desregradas do ponto de vista ético e do ponto de vista econômico, em vidas desperdiçadas. E, ainda do ponto de vista biológico, em vida adoecida. A vida vivida autenticamente é uma vida de busca do sentido, que é o objetivo maior do dom da vida gerando vida.

Viver não é um destino, mas uma escolha ética.

Este é a sexta publicação neste site. Conheça as demais publicações de nossa autoria: https://www.neipies.com/author/jose/

Autor: José André da Costa, msf .

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