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Revolução pela Educação – urgência de uma nova consciência

A chave para que o processo de humanização pela educação aconteça está nas pessoas e nas trocas que acontecem entre elas. Estas trocas acontecem por meio de um “fio invisível” que se forma na medida que existe uma boa comunicação, respeito e aceitação das diferenças, alegria pelo encontro e confiança no vir a ser de si e do/no outro.

A história da humanidade mostra o quanto as revoluções são necessárias para que hajam saltos no desenvolvimento humano. Passados os períodos da pré-história, o período clássico da Grécia e Roma antigas, a Idade Média, a Renascença – revolução das artes, a revoluções da ciência, da indústria e da tecnologia, faz-se urgente que a revolução da consciência humana se intensifique, caso contrário, tudo que se criou até aqui, pode voltar-se contra nós.

As tecnologias podem nos ensinar, mas não são capazes de nos educar. Nos tornam sujeitos mais informados, mas não sujeitos mais humanos, no sentido de sentir-se integrado a uma comunidade humana que se solidariza com “seus outros”.

A chave para que o processo de humanização pela educação aconteça está nas pessoas e nas trocas que acontecem entre elas. Estas trocas acontecem por meio de um “fio invisível” que se forma na medida que existe uma boa comunicação, respeito e aceitação das diferenças, alegria pelo encontro e confiança no vir a ser de si e do/no outro.

Para sermos humanos, não basta nascermos com a mesma fisiologia do homo sapiens. Precisamos nos desenvolver na maneira de viver em uma comunidade humana. Assim, a educação é o processo de transformação que acontece a partir da convivência, que nos leva a nos reconhecermos, também, no outro. É esta “ecologia” que forma, em nós, a capacidade de justiça, empatia e amor. Para Maturana (2014) é o amor que cria os “fios invisíveis”, pelos quais “desliza” a educação humana entre as pessoas.

Em tempos de alto desenvolvimento tecnológico, de conhecimentos prontos e de fácil acesso, as instituições de ensino de todos os níveis buscam se reinventar.

O momento de transição que vivemos requer o estabelecimento de novos paradigmas que tenham base em concepções mais integrativas, interdisciplinares e complexas – tecidas em rede, em contrapartida ao pensamento fragmentado e até mesmo descontextualizado que caracterizou o último século.

Não cabe mais a transmissão de conteúdos com ênfase na memorização sendo apresentados a estudantes enfileirados, debruçados sobre suas classes. O desafio é que os professores façam tudo aquilo que as máquinas não conseguem fazer, tal como dar sentido ao conhecimento, gerar emoção, ser exemplo de profissional comprometido, criar engajamento, etc… ou, seja, a pessoa que ele é, conta tanto quanto os conhecimentos que ele tem.

Além de ser um provocador e de instigar a curiosidade e a capacidade crítica dos estudantes, a fim de que eles sejam ativos nestes processos de mudança, o professor precisa estar consciente do quanto influencia seus alunos a serem boas pessoas e bons profissionais. Assim, o processo educacional não ocorre apenas no nível do saber, mas como defende Delors (1999), ocorre também com base nos pilares do fazer, conviver e ser.

A era digital chegou para facilitar a comunicação e ampliar a difusão de informações. Contudo, isso não significa que vai favorecer o desenvolvimento humano. O que temos em mãos só ganha sentido quando sabemos utilizar na direção do bem e do bem-estar das pessoas, conduzindo-as, como diz Cortella (2014) a um “Eu maior”, que ultrapassa o individualismo e enxerga o mundo ao redor como uma extensão de si mesmo, a partir da empatia e da sinergia que deve harmonizar as relações entre as pessoas, as coisas e o mundo.

Leia também minha primeira coluna publicada neste site: https://www.neipies.com/sobre-reflexao-empatia-consciencia-e-humanidade/

* Esta reflexão  foi publicada na Revista Água da fonte, revista da Academia Passo-Fundense de Letras, ano 17, Número 20, Dezembro de 2021.

Autora: Marilise Brockstedt Lech, Psicóloga Educacional, Doutora em Educação, Cadeira 39 da APLetras

O elo perdido

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo.

Há tempos a ci­ência in­ves­tiga o elo per­dido entre o ma­caco e o homem. Já há con­senso de que Darwin tinha razão. Até o papa João Paulo II, que não era de dar o braço a torcer, ad­mitiu a per­ti­nência do darwi­nismo. O que obrigou os bispos da Ar­gen­tina, adeptos fun­da­men­ta­listas do cri­a­ci­o­nismo, a sus­pender, nas es­colas ca­tó­licas, o en­sino de que entre Deus e nós não houve outros in­ter­me­diários senão AdãoEva.

Os cri­a­ci­o­nistas não podem ir além da ideia de um deus oleiro que, tendo brin­cado com ar­gila e so­prado o barro, deu vida às maquetes hu­manas. Se dessem um passo a mais na ge­ne­a­logia do pri­meiro casal fi­ca­riam en­ca­la­crados. Se Adão e Eva ti­veram apenas fi­lhos ma­chos, CaimAbel e Seth, como se ex­plica essa vasta des­cen­dência da qual fa­zemos parte? Se­ríamos todos fi­lhos e filhas de um pa­ra­di­síaco in­cesto?

Como os an­tigos he­breus não frequen­taram a uni­ver­si­dade e, por­tanto, es­tavam isentos da lin­guagem aca­dê­mica, abs­trata, em toda a Bí­blia não há uma só aula de dou­trina ou te­o­logia. Sua lin­guagem é a do mi­neiro, à base de “causos“. Vê-se o que se lê.

lin­guagem figurativa, própria dos povos semitas, trans­forma con­ceitos em ima­gens. O vo­cá­bulo he­braico ‘terra’ deu origem a Adão, e ‘vida’ a Eva, numa configuração plástica da noção de que Deus criou o mundo e a humanidade. O curioso é que o autor bíblico sugere que a vida veio da terra, o que só foi constatado pela ciência no século XIX, quando foram descobertas as leis da evolução do Universo.

A Bí­blia quer en­sinar apenas que Deus é o cri­ador do Uni­verso, in­cluídos os hu­manos que, em­bora obra di­vina, pa­decem de duas li­mi­tações in­trans­po­ní­veis: têm prazo de va­li­dade e de­feito de fa­bri­cação. O que a dou­trina cristã chama de pe­cado ori­ginal.

Isto é óbvio: todos morrem um dia, mal­grado as aca­de­mias de le­tras re­pletas de imor­tais, e não são poucos os que de­mons­tram grandes de­feitos de fa­bri­cação – ao longo da vida tornam-se cor­ruptos, men­ti­rosos, criminosos, opor­tu­nistas, se­gre­ga­dores, ma­chistas, homofóbicos, cí­nicos. Em suma, ho­mens sem qua­li­dade, diria Musil. E muitos com uma cu­riosa ten­dência para a po­lí­tica.

Quando teria se dado o salto do símio ao hu­mano? No dia em que um ma­caco uti­lizou um pe­daço de pau como ex­tensão das mãos, como mostra Stanley Ku­brick, no filme “2001, uma odis­seia no es­paço“? Ou no dia em que o oran­go­tango de­cidiu, ao con­trário de toda a fa­mília zo­o­ló­gica, deixar de comer quando tem fome e marcar hora para as re­fei­ções? Teria sido na­quela tarde de sá­bado em que o ma­caco tem­perou a caça com pi­menta e assou na brasa que res­tara de uma quei­mada pro­du­zida pelo re­lâm­pago, sem saber que in­ven­tava o chur­rasco?

Um ver­da­deiro hu­mano seria uma pessoa do­tada de cri­a­ti­vi­dade. Quem já viu uma casa de joão-de-barro com uma va­ran­dinha ou um pu­xa­dinho para abrigar o filho recém-ca­sado? Ocorre que a cri­a­ti­vi­dade é também um atri­buto dos ban­didos. Talvez seja me­lhor ca­rac­te­rizar o hu­mano por suas vir­tudes: uma pessoa ge­ne­rosa, al­truísta, ética, so­li­dária, amo­rosa, capaz de par­ti­lhar seus bens e dons. Isso existe?

Se es­ti­vermos de acordo que isso ainda é um pro­jeto, uma pers­pec­tiva, um sonho, então há que aceitar: o elo per­dido entre o ma­caco e o homem somos nós, essa ca­deia de ma­mí­feros que co­meça com a cu­ri­o­si­dade de Adão e Eva, que foram meter o nariz onde não eram cha­mados, à ge­ração atual con­tem­po­rânea de Biden e Putin! Aliás, dois bons exem­plos da es­pécie pré-hu­mana que tem o rabo preso; onde mete os pés cria uma ba­na­nosa e vive in­va­dindo o es­paço alheio.

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo. Caso con­trário, o pró­prio elo ha­verá de se romper e o pro­jeto hu­mano que­dará como uma utopia. Talvez re­a­li­zável em algum outro planeta onde haja abun­dância disto que tanto falta por aqui: vida in­te­li­gente.

Ou quem sabe o Cri­ador de­cida passar a limpo sua cri­ação pela se­gunda vez. Du­vido que vá des­truí-la com um novo di­lúvio. A água é, hoje, um bem es­casso. Deus é ge­ne­roso, não per­du­lário. Talvez o aque­ci­mento global seja o pri­meiro in­dício de que tudo ha­verá de virar cinza. Ou, quem sabe, nós mesmos apressaremos o apocalipse desencadeando uma guerra nuclear. Então um novo Gê­nesis terá início.

Des­confio que, no sexto dia, Deus criará ani­mais inaptos a de­sen­volver uma ca­deia evo­lu­tiva. E, no sé­timo, se re­cos­tará em sua rede no Jardim do Éden, porque nin­guém é de ferro, e con­tem­plará a be­leza do Uni­verso – agora livre da ameaça de um pe­ri­goso pre­dador descendente dos ma­cacos, o elo entre o que já não é e o que nunca foi.

“Nossa meta é nossa origem”, a clássica sentença antropológica de Karl Kraus, continua mais atual do que nunca. Para chegarmos a ela, talvez tenhamos de deixar de lado as preocupações com o umbigo de Adão e as certezas do macaco”.(autor Gilberto Cunha) Leia mais: https://www.neipies.com/entre-deus-e-o-macaco/

Autor: Frei Betto

FONTE:https://www.ihu.unisinos.br/628048-o-elo-perdido-artigo-de-frei-betto?fbclid=IwAR1S_1wVLdLabaxSF6votu30GbtoAuLRRtASnxsZCyBpo-uF7n4n-ScYLKM

Educar para a emancipação ou para reprodução das desigualdades?

O paradoxo da educação é que se ela acaba por reproduzir desigualdades, sem ela não há a menor esperança. Políticas públicas é que podem e devem tornar a corrida mais igualitária.

Educar para quê? O tema é clássico. Emancipação ou reprodução das desigualdades vigentes?

 Odiado pela direita, Paulo Freire apostava todas as suas fichas na emancipação. Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron também trataram disso, em “A reprodução” (1970). De lá para cá, tudo mudou? Não. Basta ler os jornais para saber que tudo muda para não mudar tanto assim.

Os adeptos da ideologia tecnicista acreditam que basta a tecnologia mudar para que tudo mude, surgindo democracia virtual e educação igualitária. Triste ilusão.

Um título da Folha de S.Paulo do último domingo joga uma pá de cal em cima do otimismo de muita gente desinformada ou cruel: “Elite brasileira capturou até 65% dos ganhos com educação nos últimos 40 anos”.

Em poucas palavras, um mesmo diploma premia de modo diferente os mais pobres e os mais ricos, os homens e as mulheres, os brancos e os não brancos. Resumo da tragédia: os 10% mais ricos ganham 50% mais do que os mais pobres mesmo com a mesma formação.

Quem quiser saber mais sobre isso, que dê um Google e procure a pesquisa de Guilherme Lichand e Maria Eduarda Perpétuo, da Universidade de Zurique (Suíça) e Priscila Soares, da Universidade de São Paulo. Está tudo lá.

Acesse aqui: https://politicalivre.com.br/2022/11/elite-brasileira-capturou-ate-65-dos-ganhos-com-educacao-nos-ultimos-40-anos/

Houve um tempo em que se podia sonhar com um efeito quase automático da educação para gerar igualdade. Uma declaração de Guilherme Lichand, destacada pela Folha de S.Paulo, dá o tom: “Pelos resultados, podemos observar que, se duas pessoas conseguem um diploma de ensino médio, ambas vão ter recompensas pelo investimento de tempo e dedicação, mas essa diferença é 50% maior se uma delas for da elite”.

Como dizia Pierre Bourdieu, nas suas aulas no Collège de France, para desespero de muitos: “O dinheiro costuma procurar o dinheiro, a elite tende a se reproduzir”.

Parece, de certo modo, a corrida entre a lebre e a tartaruga no sentido inverso ao abordado pelo escritor argentino Jorge Luis Borges: a tartaruga corre um centímetro, a lebre salta um metro.

Lichand faz a demonstração: “De 1980 até 2021, vimos saltos nos anos de estudo. Uma fatia maior da população em idade produtiva concluiu o ensino fundamental (passando de cerca de 20% para 80%), médio (de 15% para 65%) e superior (de perto de zero para cerca de um quinto). Como mais gente começou a se escolarizar, o prêmio pela formação diminuiu na média”.

Na fábula hiperlógica de Borges, era a tartaruga que, por ter largado na frente, ganhava. Se a lebre corria um metro, a tartaruga movia-se um centímetro e continuava levando a melhor. Na dita vida real, as lebres da elite, mesmo quando carregam o mesmo diploma na pasta, correm sempre bem na frente. É o que se chama de vantagem estrutural.

O sistema privilegia os donos do sistema por mecanismos de transferência oficiosa de vantagens. Ainda bem que existem brechas.

O paradoxo da educação é que, se ela acaba por reproduzir desigualdades, sem ela não há a menor esperança. Políticas públicas é que podem e devem tornar a corrida mais igualitária.

Não é suficiente fazer discurso sobre a política e a democracia, não é o bastante deixar registrado em projetos educativos a exaltação da política para que, de fato, a instituição de ensino atinja este objetivo.  É preciso eliminar a diferença e a distância entre a intenção e a ação. (Autor José André da Costa) Leia mais: https://www.neipies.com/a-dimensao-politica-da-educacao/

Autor: Juremir Machado da Silva

FONTE: https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-educar-para-emancipar-ou-reproduzir-as-desigualdades/

O homem que plantava árvores

Em tempos de negacionismos e de certa desesperança ambientalista, vale a releitura do texto de Giono ou assistir a história em vídeo.

Um dos textos ícones do movimento ambientalista mundial é o clássico “O homem que plantava árvores”. Nessa obra, de 1953, originalmente intitulada “L’homme qui plantait des arbres”, o romancista francês Jean Giono (1895-1970) retratou, por intermédio do trabalho do personagem Elzéard Bouffier, a recuperação ambiental, via florestamento, da região de Provença, que não por acaso é a terra natal do escritor.

A força do texto de Jean Giono, que foi internacionalmente divulgado por grupos ambientalistas nos anos 1970, ganhando traduções para vários idiomas, fez com que muita gente, ainda hoje, pense que o pastor Elzéard Bouffier, vivendo isolado nas montanhas após a morte da mulher e do único filho, em meio a cabras e colmeias de abelhas, selecionando sementes e plantando árvores sem qualquer preocupação de quem eram aquelas terras, na primeira metade do século XX até a sua morte, aos 87 anos, em um asilo, em 1947, realmente existiu.

Giono, que se traveste de narrador da história, inúmeras vezes teve de publicamente esclarecer que Elzéard Bouffier nunca passou de um personagem criado por ele. Mas, em tempos de negacionismos e de (certa) desesperança ambientalista, vale a releitura do texto de Giono ou assistir a história em vídeo.

O filme a que me refiro, com narração em francês e legendas em português, pode ser livremente acessado no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=cLajBygxwOk) e, tanto pela plástica das imagens quanto pela qualidade da mensagem, é considerado por muitos, em todos os sentidos, como uma verdadeira obra-prima.

A história de Elzéard Bouffier pode ser encontrada em livro, no Brasil, entre outras edições de “O homem que plantava árvores”, no lançamento de 2018, pela Editora 34, com tradução de Cecília Ciscato e Samuel Titan Jr.

Jean Giono, na minha visão, foi muito feliz ao retratar, pelo caminho da literatura, o funcionamento do sistema climático, antes mesmo deste conceito ter sido criado. Tratou, indiretamente ou nem tanto, da intervenção humana, para o bem e para o mal, na mudança do espaço físico, a influência do comportamento das pessoas, o papel da preservação/recuperação ambiental na regulação do clima e as possibilidades de exploração econômica das paisagens, passando pela história europeia dos primeiros 50 anos do século XX, e sem deixar de lado as duas Grandes Guerras.

No final dos anos 1980, mais do que o conceito convencional de clima, definido pela geografia como o conjunto das variáveis meteorológicas que caracteriza o estado médio da atmosfera em um determinado ponto da superfície terrestre, ganhou força o conceito de sistema climático global, que envolve, além da atmosfera, também os oceanos e a superfície das terras e o seu uso.

Indubitavelmente, a interação entre os processos que acontecem na atmosfera, nos oceanos e na superfície da terra causa impactos no clima global.

Entender a mudança e a variabilidade do clima global e suas interações com a atividade humana não prescinde da compreensão do sistema climático global e suas funcionalidades. E, para esse entendimento, a ficção de Giono pode ser um bom começo.

Discutir criticamente esse filme (30 minutos de duração), em sala de aula ou em qualquer outro espaço, embora ciente de que se trata de uma peça de ficção, não creio que seja apenas uma sugestão desmesurada do autor. Assista ao vídeo, pelo menos, antes de tecer qualquer juízo de valor!

(Do livro Ah! Essa estranha instituição chamada ciência, 2021.)

Autor: Gilberto Cunha

O que faremos com toda essa solidão nas redes sociais?

Em quem ou no que pensamos quando postamos um texto no Facebook, uma frase no Twitter, uma imagem no Instagram, um vídeo no YouTube ou no TikTok?

Quem, supostamente, verá esses conteúdos? E como nós somos afetados pelos incontáveis vestígios deixados por outras pessoas todos os dias nas redes sociais, com os quais nos deparamos por acaso ou segundo os cálculos dos algoritmos?

Essas perguntas constituem um dos fios condutores da série Infernet, apresentada pelo jornalista francês Pacôme Tiellement, no canal Blast – Le souffle de l’info, site francês independente de notícias e Web TV.

Em uma série de doze episódios, o jornalista mostra histórias reais de pessoas envolvidas em realidades paralelas nas redes sociais com desfechos, não raras vezes, trágicos.

Disponível no site do Blast e em seu canal no YouTube, a série Infernet traz alguns elementos que podem contribuir para o debate que ocorre neste momento no Brasil a respeito dos fenômenos das fake news e da criação e alimentação de realidades paralelas que vão da terra plana à suposta influência de alienígenas na política nacional. Fenômenos, como a série aponta, que viraram uma espécie de pandemia global.

Para além da dimensão dos conteúdos que alimentam essas patologias informativas e sociais, os produtores da série recomendam um olhar especial para a própria natureza e lógica de funcionamento das redes sociais e de como elas podem afetar sentimentos como tristeza, solidão e infelicidade, ou enfermidades mentais que nos acompanham desde o início dos tempos.

O que fazer com todos esses signos que vemos cintilar diariamente diante de nós como estrelas frágeis no céu obscuro de uma tela? – pergunta Pacôme Tiellement na abertura do 11º episódio da série, Teleka Patrick: o que virá de toda essa tristeza?, que conta a incrível e triste história da filha mais nova de uma enfermeira e de um pastor da Igreja dos Adventistas do Sétimo Dia.

Estudante destacada, leitora voraz e talentosa, Teleka sonhava em ser psiquiatra de crianças. E seu sonho torna-se realidade. Ela se torna uma médica brilhante, descrita por seus colegas como “luminosa, alegre, inteligente, gentil e incrivelmente talentosa em sua profissão”.

Até que, um dia, a vida de Teleka Patrick começa a colapsar, como “do nada”, e uma dimensão oculta de sua vida acaba vindo à tona por meio da investigação de suas postagens em redes sociais. Investigação provocada pelo final trágico da vida da jovem.

A escolha das histórias contadas na série é acompanhada por uma tese forte a respeito das redes sociais, a saber: se elas, ao longo de seu desenvolvimento, assumiram o objetivo de conter a progressão da incomunicabilidade entre os seres humanos, até aqui fracassaram e contribuíram para tornar ainda mais complexo o problema que se propuseram resolver.

As redes sociais, assinala Tiellement, acompanharam e talvez tenham intensificado a progressão da incomunicabilidade. O jornalista lembra a pergunta feita por James Baldwin, no livro A próxima vez, o fogo, que trata dos movimentos de emancipação dos negros norte-americanos: “O que surgirá de toda essa beleza?”.

E propõe uma adaptação à pergunta.

Para ele, a questão colocada pela realidade engendrada pelas redes sociais é: “O que virá de toda essa tristeza? O que faremos com toda essa solidão?”.

Os episódios da série Infernet são como ilustrações a essas perguntas, todas elas retiradas de vidas reais que, por diferentes motivos, se mesclaram com realidades paralelas, de modo que a fronteira entre “real” e “irreal” tornou-se extremamente tênue.

A humanidade futura, questionam os produtores da série, perceberá ainda as redes sociais como espaços de troca, compartilhamento e de livre socialização? Ou verá essa promessa de felicidade como uma promessa que não pode ser cumprida? Seremos capazes de ler o que os seres humanos tentam desesperadamente dizer uns aos outros por meio de suas publicações no Twitter, Facebook, Instagram, TikTok, YouTube e outras plataformas digitais?

Para tentar responder a tais questões, a série lembra que algumas coisas são muito mais antigas do que as redes sociais e estão sendo profundamente impactadas por elas.

A história de nossas patologias, nota Pacôme Tiellement, está intimamente ligada à história de nossas práticas sociais.

A internet não inventou a loucura, a solidão ou a infelicidade, mas as redes sociais deram a elas um nutriente que parece inesgotável: uma emissão quase permanente de signos de natureza ambígua, capazes de alimentar tanto nossas alegrias e euforias, quanto nossos medos, delírios e tristezas.

Adoecer por manipulação só é factível a quem estiver cego para a realidade, e a cura lhes custará um alto preço. Mantenha-se saudável, converse mais e pessoalmente, brinque, caminhe, desligue-se um pouco da tecnologia. (Autor: César A. R de Oliveira) Leia mais: https://www.neipies.com/somos-manipulados-nas-redes-sociais/

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/03/o-que-faremos-com-toda-essa-solidao-nas-redes-sociais/

Autor: Marco Weissheimer

Sobre reflexão, empatia, consciência e humanidade

Qual a profundidade e a extensão do seu olhar para o outro?

Você consegue enxergar para além da pele e seus infinitos tons? Para além da roupa que o outro usa e para além do peso que tem? Para além de seu gênero e orientação sexual?

Em que parte começa a pessoa com o “jeito” que ela tem?

Você “enxerga” o que ela pensa e percebe o que ela sente?

Como está a sua visão? É curta e tão superficial quanto a pele no corpo humano, ou você é capaz de enxergar além, com a consciência e o coração, aquilo que os olhos não veem?

Você já estudou a história da humanidade?

Sabia que cada nova geração carrega os erros e os acertos dos seus antepassados e pode ajudar a curar as feridas que foram deixadas?

Você sabia que quem você é não nasce no dia da concepção ou do parto? Que você nasce como sujeito psíquico a partir dos paradigmas e preconceitos, ou dos princípios e valores que seus pais, avós e bisavós cultivaram e cultivam? Sabia?

Você já tinha parado para pensar sobre isso? Já se deu conta de algo que não devemos repetir?

Você tem espírito crítico, consciência e conhecimentos suficientes para se libertar dos erros dos seus antepassados e não ficar amarrado, repetindo e repetindo sem se dar conta?

Em caso afirmativo… Parabéns!

Liberte-se dos erros tentando corrigi-los, e seja mais humano. Seja bem-vindo à Revolução da Consciência Humana! Se não acontecer agora, tudo o que se criou até aqui vai voltar-se contra nós mesmos!

Vamos juntos corrigir os erros dos nossos antepassados, tais como a escravidão, a segregação e a exclusão (para exemplificar) e construir uma nova mentalidade mais humana, empática, proativa, agregadora, acolhedora, positiva, leve e inclusiva. Vamos?

É por meio dos nossos pequenos atos do dia a dia que mudamos a nossa vida e a dos que estão à nossa volta. Será que assim seremos mais felizes?

Os caminhos para a mudança “não escutam gritos”. É na aceitação das diferenças e na suavidade das vozes que nos tornamos mais congruentes em nossos modos de ser e, assim, mais empáticos e humanos.

Manifesto minha alegria em fazer parte deste grupo de Convidados do site. Sou Marilise Brockstedt  Lech, doutora em Educação pela PUCRS e Mestre em Educação pela UPF – Universidade de Passo Fundo. Especialista em Educação Infantil, em Psicologia da Educação e Psicologia Positiva, Ciência do Bem-Estar e Autorrealização. Graduada em Educação Física e Psicologia, ambas pela Universidade de Passo Fundo.

Professora por 37 anos da rede estadual e privada, sendo 24 anos na Universidade de Passo Fundo, onde desenvolvi atividades como docente dos cursos de Educação Física e Psicologia, coordenação adjunta de graduação e coordenadora de pós-graduação, supervisão de estágios e assessoria pedagógica.

Autora, coautora e organizadora de onze livros, dentre os quais “Agressão na escola: como entender e lidar com esta questão” e “Educação pelo movimento na infância: reflexões e ações humanizadoras” e ” Humanização pela Educação: a influência da pessoa do professor”, capítulos de livros e de artigos publicados em revistas científicas. Autora de crônicas e poemas, ocupa a cadeira 39 da Academia Passo-Fundense de Letras, entidade esta que, atualmente, está presidindo (gestão 2022-2023).

Autora: Marilise Brockstedt Lech

As mães são mãos que cuidam

Essas mulheres que decidiram ser mães estão no início do processo do viver, unificam o amor e o cuidado, como mãos que se cruzam e se tocam para sustentarem a continuidade de pessoas no mundo. São mãos que cuidam.

Pensemos na rima da emoção, a que vincula māe e cuidado. Não dá para imaginar de outra forma. Pensar em māe e nas diferentes formas de maternidade é trazer à cena a palavra cuidado. Isto se explica, porque amar é cuidar e o amor de māe é incondicional, tal como a palavra cuidado. São sentimentos sem limites objetivos. Eles dançam juntos, no coração das mães.

Amar é cuidar, síntese de maternar.

O cenário do mundo, as fases da história, os tempos do cotidiano expressam, de várias formas, o amor de mãe como amor de cuidado. Ainda que as mulheres vivessem inúmeros anos de forma submissa, nas famílias e sociedades ancestrais, não deixavam de expressar os ritos do amor e do cuidado com sua prole.

Seja em cenários de guerra, no palco da festa ou na despedida dos filhos que partem em busca de seus projetos, as mães são a presença de cuidado. Partilham seus conselhos, seus alertas, seus abraços, suas lágrimas, seus sorrisos, suas preces. Apresentam-se no palco do mundo, nessa valsa da vida, que dança em seus corações como seres de cuidado. Esse cuidado exige resistência, carinho, serenidade, firmeza, paixão e compaixão com todas as nuanças que aparecem no limiar dessas emoções e atitudes.

A mãe não é uma super mulher, nem pode ser, pois sua humanidade é plena. Ela é uma pessoa com todos os limites e grandezas, como todos os humanos. Sua singularidade é o fato de acolher no seu corpo a vida em gestação, vidas que saltam de seu ventre para viverem a própria vida, construindo suas histórias.

As mães são desafiadas a navegar na direção de seus medos com resistência, ousadia e serenidade. Desafio de uma maternidade lúcida e louca, em tempos convulsionados até mesmo pelas novas versões da inteligência artificial, mais artificial que inteligente.

Essas mulheres que decidiram ser mães estão no início do processo do viver, unificam o amor e o cuidado, como mãos que se cruzam e se tocam para sustentarem a continuidade de pessoas no mundo. São mãos que cuidam.

Autora: Cecília Pires

Ciência e Desenvolvimento

Desenvolvimento talvez seja uma das palavras que mais vem na nossa mente quando pensamos em progresso, em crescimento econômico ou em inovação científica e tecnológica.

Em tempos de pandemia, vivenciados recentemente, todos os países estiveram empenhados em desenvolver uma vacina que pudesse pôr fim a esse terrível pesadelo que se abateu sobre o planeta. No entanto, é necessário problematizar o próprio conceito de desenvolvimento, seus pressupostos, suas finalidades, seus efeitos colaterais.

Em seu livro Ciência e Desenvolvimento, o epistemólogo argentino naturalizado canadense Mario Bunge desenvolve um conjunto de ensaios sobre o assunto que nos fazem pensar e nos instigam a sermos mais cautelosos e prudentes para não abraçar qualquer concepção de desenvolvimento sem avaliar as consequências de seus desdobramentos. Em um dos seus ensaios Bunge fala de quatro aspectos do desenvolvimento e como todos eles podem se tornar limitados quando pensados isoladamente. Trata-se do aspecto biológico, econômico, político e cultural.

Vejamos brevemente cada um deles seguindo os passos do próprio Mário Bunge.

A concepção biológica de desenvolvimento defende que ele ocorrerá se houver um aumento do bem-estar das pessoas, uma melhora da saúde de todos decorrente da melhoria da nutrição, da moradia, da vestimenta, dos hábitos alimentares, na prevenção das doenças etc. Certamente é a concepção de desenvolvimento preferida dos médicos higienistas e de todos aqueles que acreditam de que o país será desenvolvido quando todos os recursos forem canalizados para a saúde.

Por mais louvável que seja, pode se tornar uma concepção utópica e irrealizável porque não se preocupa com os meios necessários para alcançar o desenvolvimento biológico.

A desnutrição crônica, por exemplo que afeta de forma agressiva um país como o Brasil, dificilmente será superada se não houver uma mudança de mentalidade sobre o problema das desigualdades sociais, na injusta distribuição de renda, da forma como os governantes conduzem suas políticas e da falta de conhecimento das pessoas que se alimentam mal e desperdiçam dinheiro consumido alimentos de baixo teor nutritivo ou alimentando a indústria de bebidas alcoólicas.

Não se corrige o subdesenvolvimento biológico com medidas puramente sanitárias, tais como aumentar o número de médicos, de hospitais ou de campanhas de vacinação sem levar em conta outros fatores de desenvolvimento.

O desenvolvimento econômico defende que uma nação será desenvolvida se tiver uma forte indústria, o aumento das exportações e um elevando Produto Interno Bruto (PIB). Essa é a concepção preferida de empresários, economistas medíocres e políticos adeptos do desenvolvimentismo. É enganosa, pois pode produzir ainda mais a desigualdade social, o aumento da miséria, da violência e da competição destrutiva entre as pessoas.

A economia que deveria ser compreendida como meio para as condições de qualidade de vida das pessoas de um país se torna fim em si mesma e passa a beneficiar um grupo limitado de pessoas que se apossam das riquezas, do poder e da cultura em detrimento da grande maioria que é jogada na marginalidade e na pobreza.

A concepção política de desenvolvimento defende de que ele acontece quando ocorre uma expansão da liberdade, o aumento e segurança dos direitos humanos e políticos. É a concepção predileta dos políticos liberais. Também é limitada, pois de nada adianta ter os direitos políticos se faltam os meios econômicos e culturais para exercê-los. Não se tem democracia real quando em eleições os eleitores vendem seu voto para políticos corruptos que nunca entenderam o que é política no sentido profundo do termo.

A concepção de desenvolvimento cultural defende que este acontece quando ocorre um enriquecimento da cultura e à difusão da educação. Esta é a posição predileta dos intelectuais e dos educadores. Ela também não é suficiente, pois um estudante mal alimentado e contaminado por certas ideologias que desprezam a cultura letrada dificilmente aprende; um desempregado dificilmente se interessa por conhecimento ou por cultura, pois lhe falta condições básicas de vida. O desenvolvimento cultural não se realiza se não estiver acompanhado de um desenvolvimento biológico, econômico e político.

Por fim, talvez deveríamos investir na ideia de um desenvolvimento integral que olhasse para as quatro concepções com a mesma atenção e com os mesmos investimentos.

Uma nação será desenvolvida quando as quatro dimensões forem igualmente contempladas. E todas elas tem por base uma educação para todos, com escolas públicas de qualidade, professores bem formados e bem remunerados e um projeto de nação que prioriza vida digna para todos, com justiça social e equidade.

Para muitos, isso não passa de uma utopia ou uma ilusão irrealizável; para outros um projeto possível que se concretiza quando somos capazes de pensar a sociedade de forma coletiva que coloca as pessoas e o meio ambiente como centro das atenções. A isso poderíamos dar o nome de DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Até onde pode ir a arte urbana? Da ilegalidade à espetacularização

Quais são os  caminhos, os desvios e as transformações que a arte produzida em ambientes urbanos está  adquirindo em função das constantes mudanças sociais? E por que essas questões se tornam relevantes para entender essa expressão visual contemporânea?

Em janeiro de 2023, o artista internacionalmente conhecido, Eduardo Kobra, pintou mais um de seus característicos murais em Porto Alegre, RS. A obra, intitulada “Estado de Paixão”, homenageia o folclorista Paixão Cortes, adicionando ao mural a já icônica figura do “laçador”, além da “chama crioula”, considerada um dos simbolismos do tradicionalismo gaúcho. A pintura foi realizada na região da cidade conhecida como “Quarto Distrito” .

Também no início de 2023, no mês de fevereiro, foi inaugurada no Shooping Eldorado, na cidade de São Paulo, a exposição “The Art of Banksy. Without Limits”, do artista Banksy. O artista produz obras críticas à sociedade contemporânea e sua estratégia é quase sempre a de surpreender, pois não informa onde suas pinturas irão aparecer, surgindo em várias cidades do mundo.

Uma característica que adiciona uma aura de mistério a esse artista é que mesmo sendo mundialmente famoso, sua identidade nunca foi reconhecida. Suas obras, valiosíssimas, encontram-se em diversas galerias, museus e de posse de colecionadores particulares. Detalhe: o valor médio do ingresso para a exposição de Banksy em São Paulo custa $130 reais. 

O que esses dois exemplos podem nos mostrar sobre a atual situação e condição da “arte urbana”? Quais são os  caminhos, os desvios e as transformações que a arte produzida em ambientes urbanos está  adquirindo em função das constantes mudanças sociais? E por que essas questões se tornam relevantes para entender essa expressão visual contemporânea?

Saliento que a intenção deste texto não é de esgotar o debate sobre o assunto, mas também de não expor opiniões ligeiras sobre o tema, pois há mais de dez anos estudo a temática das artes urbanas.

Em minha pesquisa de mestrado, acompanhei grupos de grafiteiros e pichadores da região periférica de Porto Alegre, resultando em diversos artigos publicados em revistas científicas e capítulos de livros que divulgam a pesquisa e ampliam o debate sobre o tema. Além do trabalho acadêmico, realizo oficinas de grafite em escolas e outros locais, participando esporadicamente de eventos de pinturas artísticas de rua.

Na primeira parte do texto, abordarei, de forma breve, a importância da cultura juvenil contemporânea para o desenvolvimento das artes urbanas, também conhecidas como “arte de rua”. Na segunda parte, exponho reflexões sobre o problema principal exposto nestes escritos: para onde a arte urbana está se encaminhado no atual cenário contemporâneo?

Grafites, pichações, muralismos: manifestação artística como cultura contemporânea e juvenil   

A juventude, tanto como conceito quanto manifestação social e cultural desponta após a Segunda Guerra Mundial. Os jovens passaram a ocupar as ruas, os espaços urbanos públicos e privados, produzindo uma cultura própria, a música com o rock and roll, os protestos estudantis, a dança, roupas, acessórios e, claro, uma expressão plástica e visual características com os grafites e demais inscrições nos muros. Impossível não lembrar de James Dean, “rebelde sem causa”, ao falarmos da juventude desse período histórico. 

Embora existam diversos estilos de arte urbana, o mais conhecido são os grafites compostos de letras gigantes e coloridas e também desenhos representando personagens. Surgem inicialmente em comunidades de bairros com populações negras e latinas dos EUA, em meados dos anos de 1970, principalmente na cidade de Nova York. Essas produções estão ligadas, indubitavelmente, às culturas juvenis contemporâneas e fazem parte de um processo de emancipação social em que a juventude se liberta da tutela paterna e passa ocupar espaços que antes lhes eram negados (FEIXA, 1999).

Os jovens encontravam nas ruas a possibilidade de uma forma de expressão mais livre, colorida, coletiva e democrática, pois de fácil acesso. Os muros, paredes se transformam em telas a céu aberto. O filme The Warriors, Selvagens da Noite, de 1972, cujo enredo envolve disputa de territórios por gangues juvenis na cidade de Nova York, destaca os grafites nos vagões do metrô como símbolos que identificam toda uma cultura daquele contexto.  

No Brasil, o movimento hippie dos anos de 1960 dá lugar ao movimento punk e ao hip-hop, expressões juvenis que surgem no final dos de 1970, fortalecendo-se após a abertura democrática como fim da ditadura militar em 1985. Os grafites ainda eram poucos e tímidos, mas surgiam em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro.

“ A rainha do frango Frito”, obra do artista Alex Valauri aparecia nos muros de São Paulo. Em Porto Alegre, impossível não lembrar do nome de “Toniolo” nas ruas da cidade. Notadamente, manifestações da mesma ordem surgem em diversas cidades do Brasil. Época em que essas ações não eram entendidas como expressões juvenis e muito menos como arte.

Outra forma de atuar nos espaços urbanos diz respeito à pichação. Considerada ilegal, esta grafia urbana é considerada sujeira ou vandalismo. A pichação pode ser utilizada como protesto, lembremos das frases que marcaram os movimentos estudantis em maio de 1968, ou no Brasil, com a escrita “Abaixo a ditadura!”. Vale lembrar que no Brasil a pichação é considerada crime ambiental e deterioração do patrimônio público nos termos do artigo 65 da Lei 9.605/98, a prática da pichação tipifica pena de detenção de 03 meses a 01 ano e multa.

Em diversos países, quaisquer inscrições realizadas em espaços urbanos são identificadas como graffiti, pois devido ao fato de utilizarem o mesmo suporte – paredes, muros, portas etc., usarem o mesmo material – spray, tintas, rolos e pincéis. Autores como Valenzuela, 1999; Garcia Canclini, 1989; Marques, Almeida e Antunes, 1999; Aguiar, 2007; Feixa, 1999, afirmam que são culturas juvenis envolvidas em práticas territoriais que se valem dos espaços públicos de forma semelhante.

De minha parte, sustento que enquanto a pichação utiliza a rua como território, o grafite utiliza a rua como ambiente para a expressão visual ( SILVA, 2010). O grafite apropria-se dos espaços com o objetivo de transformá-los em “telas” urbanas, a pichação utiliza as superfícies da cidade visando a demarcação de territórios por meio da ação de grupos ou indivíduos específicos dessa cultura juvenil contemporânea (SILVA, 2010). 

Como toda atividade humana, a arte urbana, em todos seus segmentos,  está em constante movimento e transformação, é uma prática cultural que não está dissociada do tempo, do espaço, dos discursos e ações de poder que estão em circulação no mundo .      

Arte urbana valoriza seu imóvel! Arte de rua vende em galerias de arte!  

De fato, podemos observar que o grafite invade as mídias, as redes sociais virtuais e ocupa já há bastante tempo os museus e as galerias de arte. A arte de rua se transformou em um lucrativo mercado, está cada vez mais voltada para uma elite consumidora e ávida por novas estéticas visuais.

Em artigo publicado no ano de 2022[1], destaquei como as recentes produções de murais gigantes realizados em empenas de prédios no centro histórico da cidade de São Paulo estão indiretamente envoltos em processos de revitalização urbana e interesses imobiliários.

Seguindo essa perspectiva de valorização urbana, o mural realizado pelo artista Kobra está localizado no Quarto Distrito, em Porto Alegre. Uma região cujos investimentos comerciais e residenciais têm sido cada vez mais intensos. A pintura do artista foi produzida em uma antiga fábrica de vidro construída em meados do século XX e agora abriga uma loja de materiais para decoração.

A despeito da qualidade da obra e reconhecimento internacional do artista em questão, é inevitável não deixar de perceber nessas ações distintos interesses, sejam eles econômicos ou políticos.

Mural realizado pelo artista Kobra. Fonte: Jornal Matinal[1]

Embora de forma sutil, a presença da arte urbana em materiais de divulgação de empreendimentos imobiliários e comerciais é outro exemplo que evidencia o seu uso em processos imobiliários e comerciais.  Os grafites atuam como uma expressão visual que torna os locais mais, “modernos”, “boêmios”, “artísticos” ou quaisquer outros aparatos que possam ser usados tanto para vendas de apartamentos em condomínios “descolados” ou que buscam atrair uma população juvenil para bairros e regiões revitalizadas com bares e casas noturnas.

Segundo Sorbo (2019), “a presença da arte de rua pode criar a ilusão de insurgência e rebelião, embora seja criada apenas à mercê de desenvolvedores e planejadores urbanos”. Ao ser construída como moderna e boêmia, ela se separa de suas raízes que já existem, cada uma com seus significados históricos e culturais (SORBO,2019)

Em uma situação distinta, mas ainda na esteira dessa discussão, a exposição do artista Banksy, citado na abertura deste texto, ajuda-nos a refletirmos sobre a condição atual da arte de rua. Um acontecimento, durante essa mesma exposição, tornou-se crucial para problematizar até que ponto a arte de rua como expressão urbana e pública atinge na atualidade.

O artista de rua paulista conhecido como NEGRO M.I.A. realizou uma intervenção, pichando em uma obra de Banksy, a frase “Distanciamento social sempre existiu”. Bem vindos ao Brazil”. Uma crítica, segundo ele, à elitização da arte de rua, transformada em um produto rentável. A imagem abaixo, retirada da página Vogue Arte[3] mostra a intervenção na obra.

O que essa intervenção pode nos mostrar sobre a atual condição da arte de rua? O artista paulistano atingiu seu propósito de crítica e protesto contra a “elitização” da arte de rua? Ainda que a intervenção tenha sido válida, o que se apresenta a partir desse acontecimento é mais amplo e paradoxal, possibilitando-nos reflexões a respeito do atual sistema mercadológico que engole e rentabiliza quase todas as práticas sociais e artísticas.

Uma problematização: o fato de um artista contestador como Banksy estar em uma exposição já é por si só perturbador. Vendeu-se ao circuito econômico da arte? Continuarão surgindo grafites seus pelos muros e paredes do mundo?

Um paradoxo: não estariam as obras desse artista sendo ainda mais valorizadas a partir da intervenção realizada em uma delas? O protesto de NEGRO M.I.A também teria um efeito ainda mais espetacular já que foi executado na obra de um artista, do mesmo modo contestador? São indagações que surgem e podem nos apontar para os muitos caminhos que essas intervenções podem se direcionar.    

De fora para dentro, de dentro para fora  

A crescente utilização e espetacularização das artes urbanas, especificamente o grafite, pode servir como controle de uma arte que sempre foi gestada em espaços de contestação? Encastelá-la em galerias ou exposições, ou ainda torná-la como um veículo estético para propagandear a revitalização e a especulação imobiliária é mais um dos caminhos que essas expressões trilharam desde seu surgimento?

Retorno à minha dissertação de mestrado, finalizada no ano de 2010, onde destaquei as possíveis transformações e transferências que esses deslocamentos da arte de rua para galerias de arte e museus poderiam provocar.

Primeiramente, é preciso entender que encontrar tais produções em ambientes institucionais constitui-se em uma experiência estética completamente diversa daquela vista nas ruas, proporcionando outros pontos de vista, suscita novas observações, interferindo na forma como são descritas e analisadas (SILVA, 2010). É por isso que assistimos a transformação de um “grafite vândalo” para um “grafite arte” vinculados às condições contemporâneas cada vez mais híbridas que borram as fronteiras entre o poder econômico e o consumo cultural.

Por fim, fica o questionamento: é possível controlar ou criticar tais movimentos e transformações, já que essas são expressões visuais que sempre se caracterizam pela sua natureza libertária, seu domínio é público? Quem pode direcionar os rumos da arte de rua?

Autor: Eloenes Lima da Silva

REFERÊNCIAS

AGUIAR, C. S. D. Risco e Identidade de Gênero no Universo do Graffiti. Lisboa: Ed. Colibri; Soc. Nova Lisboa, 2007.

FEIXA, Carles. De Jovenes, Bandas e Tribos. Barcelona: Ariel, 1999.

GARCIA CANCLINI, N. Culturas Híbridas: estratégias para entrar e sair de la modernidade. México: Ed. Grijalbo, 1989.

MARQUES, F.; ALMEIDA, R.; ANTUNES, P. Traços Falantes (A cultura dos jovens graffiters). In: PAIS, José Machado. Traços e Riscos de Vida: uma abordagem qualitativa de modos de vida juvenis. Porto: Âmbar, 1999. Pp. 173-211.

SORBO, Claire del. The Changes of Street Art in the Face of Gentrification. 2019. Disponível: <https://frescocollective.org/articles/2019/1/11/changes-street-art-gentrification

Acesso em: 05 de maio de 2021.

SILVA, Eloenes Lima da. A gente chega e se apropria do espaço! Graffiti e Pichações

demarcando espaços urbanos em Porto Alegre. Porto Alegre: UFRGS, 2010, 180f.

Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.

Disponível: < http://hdl.handle.net/10183/27057> . Acesso em: 06 de nov. 2021

SILVA, Eloenes Lima da. Pedagogias das Artes Urbanas – Encontrando Murais Gigantes na Cidade de São Paulo. Educação Pública – Divulgação Científica e Ensino de Ciências • v2, nº1, maio/2022. p. 1-17.

VALENZUELA, J. M. A. Vida de Barro Duro: cultura popular juvenil e grafite. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999.


[1] Pedagogias das Artes Urbanas – Encontrando Murais Gigantes na Cidade de São Paulo. Educação Pública -Divulgação Científica e Ensino de Ciências. v1,  nº2,  junho/2022.

[2]https://www.matinaljornalismo.com.br/rogerlerina/notas/estado-de-paixao-e-o-nome-do-mural-de-kobra-em-porto-alegre/

[3]https://vogue.globo.com/cultura/arte/noticia/2023/02/artista-negro-mia-faz-intervencao-em-mostra-sobre-banks-e-questiona-elitizacao-da-arte-de-rua.ghtml

Todo racismo é abominável

Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. Não é suficiente não ser violento. É necessário lutar pela construção da paz como sinônimo de justiça e equidade social.

O racismo é histórico e vigora intenso na sociedade brasileira. Ele se multiplica de muitas formas, desde as mais veladas e dissimuladas até as mais escancaradas e violentas, que asfixiam, sufocam e matam. Nos últimos anos, esta prática parece ter se evidenciado ainda mais. O racismo é um vírus perigoso e abominável que precisa ser estudado com profundidade e combatido pela raiz. 

A pessoa racista discrimina, segrega, exclui e barbariza as relações sociais. Ela vê o diferente como ameaça ou incômodo, como incapaz, sem valor, sem direito ou sem dignidade. O racismo faz mal não só para quem é atingido por ele, mas também para quem o pratica, embora o racista nem sempre o perceba. Toda expressão de racismo vem acompanhada de algum grau de perversidade.

Segundo Jessé Souza, “o aspecto principal de todo racismo é a separação ontológica entre seres humanos de primeira classe e seres humanos de segunda classe”[1]. Para o autor, no Brasil o racismo está associado à escravidão, questão essa que nos caracteriza enquanto nação e explica a existência de muitas mazelas, desigualdades e violências. Escravidão e racismo são dois lados da mesma moeda que ainda seguem impactando diretamente no funcionamento da nossa sociedade.

O racismo nega a identidade e fere a integridade do outro e o seu direito de ser do jeito que é. Não se trata de um acontecimento ocasional, mas de um fenômeno estrutural. É um problema social que se manifesta também por meio da indiferença diante do sofrimento do outro, da naturalização da miséria e da exclusão pelo fato desse outro ser de outra cor ou de outra origem étnica.

Não há racismo ingênuo ou de brincadeira. O que efetivamente acontece é que, muitas vezes, pela via da brincadeira ele também se consolida como se fosse algo natural. O racismo se sustenta na ideologia da supremacia racial, no mito da raça pura, nas tendências nazistas e neonazistas, na política de branqueamento e em outras expressões higienistas.

Existe o racismo ambiental, científico, cultural, institucional, pré-moderno, pós-moderno, neoliberal e com várias outras configurações. 

O racismo não é um assunto a ser tratado de forma isolada, mas como um problema sistêmico. Não adianta usar máscara e fazer isolamento social para enfrentar o racismo. Igualmente, não há medida mágica ou vacina pronta para imunizar-se contra ele. A questão é muito mais complexa.

Não basta não ser racista. É preciso ser antirracista. Não é suficiente não ser violento. É necessário lutar pela construção da paz como sinônimo de justiça e equidade social. A luta para superar o racismo precisa ser diária por parte de todas as culturas, etnias, credos, idades, gêneros, línguas, classes, enfim da sociedade em geral.

O avanço para um estágio em que haja respeito efetivo às diversidades identitárias requer o combate constante ao racismo e a promoção das políticas de igualdade racial. Para tanto, a educação é o principal caminho. As Leis nº 10.639/03 e 11.645/08 assim o exigem, estabelecendo diretrizes de uma educação para o respeito às relações étnico-raciais.

Ademais, é preciso também garantir que os racistas sejam responsabilizados por suas práticas, segundo a lei, em qualquer situação que o racismo venha a ocorrer. Se é possível aprender a ser racista, pode-se do mesmo modo aprender a ser antirracista. Mais que uma possibilidade, esta é uma necessidade, pois o racismo é abominável sob todos os aspectos!

A sociedade racista desenvolve mecanismos diversos – uns mais sutis, outros nem tanto – de restrição, limitação e exclusão social. Sujeita o indivíduo negro a barreiras que limitam ou bloqueiam suas condições de mobilidade social. Leia mais: https://www.neipies.com/racismo/

Autor: Dirceu Benincá


[1]. SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão a Bolsonaro. Rio de Janeiro: Estação Brasil, 2019, p. 19.

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