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Cartas de liberdades: obra que reflete existência e encarceramento

Repercutimos a singularidade e a especificidade da obra Cartas de Liberdades escrita pela Acadêmica da Academia Riograndense de Letras, empossada em 2023, Marli Silveira. Recomendamos leitura!

“Nos últimos anos tenho procurado compreender, tematizar as experiências-limite, que seria também, segundo penso, o caso da privação da liberdade. O que as experiências-limite, ou seja, de finitude, podem explicitar do nosso modo de ser.

A privação de liberdade, sendo uma experiência fundamental, poderia nos ajudar a compreender aspectos da condição humana, de modo especial, evocar uma experiência de liberdade que chamaria de existencial.

Creio que, diante de determinadas situações, o indivíduo humano é colocado diante de si mesmo, devendo fazer algo com o que lhe acontece. O desamparo e a indeterminação, a vulnerabilidade, são trazidos para um encontro destituído de determinações e desobrigados do “passado”, podendo implicar uma liberdade própria a contextos inóspitos.

Claro que as condições materiais e históricas não podem ser desconsideradas, os processos constitutivos e os atravessamentos, mas tenho tentado oferecer um novo recorte para se pensar a condição humana reverberada do tensionamento de experiências de finitude.

A aproximação com uma situação concreta, como é o caso desdobrado pelas cartas, não tem como propósito deslegitimar discussões fundamentais no contexto brasileiro, como a política de encarceramento, talvez pudéssemos dizer, projeto de encarceramento. Prendemos muito e mal, sem mencionar as idiossincrasias do encarceramento feminino e juvenil nesse país.

Também não visamos romantizar a concretude da experiência da reclusão. Sim, podemos nos perguntar se somos livres (quem não está preso), ou o que é a liberdade? Podemos discutir conceitos de liberdade e o próprio tema da “natureza humana”, contudo, estar preso é absolutamente diverso de estar solto.

Nossa questão é aproximar contextos experienciais tensionados pelas implicações do limite ontológico, reverberando uma possibilidade de explicitar experiências de si, de ser livre. Muitas vezes me faço a pergunta: tudo isso não seria uma maneira de me salvar, tirar a minha responsabilidade sobre o que acontece, sobre os sobressaltos desumanos que vivemos nos mais variados âmbitos sociais e culturais? A pergunta me ajuda a jamais esquecer dos meus compromissos como cidadã e pesquisadora das humanidades. De outro, meu ponto de inflexão é outro, mas permaneço atenta aos queixumes do mundo, da vida.

Cartas de Liberdades é um convite para que coloquemos em xeque certos marcadores, de modo especial, para que consideremos que nosso modo de ser é aberto e acontecimental, que não respondemos nem apenas pelo meio ou por/como modos volitivos, mas lançados na direção de. Desdobramos nosso existir. Respondemos por um modo situado, mas também possível.

Estranha performance de um modo de ser sempre às voltas consigo mesmo.

Podemos falar de “liberdades”?”

FOTOS DO LANÇAMENTO DO LIVRO EM SANTA CRUZ, RS, DIA 27/05/2023

O livro pode ser adquirido na Livraria Iluminura e na página da Editora Bestiario: https://bestiario.com.br/

Autora do livro: Marli Silveira

Aprender com a pedagogia de Jesus

 “Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles (Lc 24,15)

A palavra pedagogia tem origem na Grécia, deriva de paidós que significa criança e agodé que se traduz por direção, deste modo cabe ao pedagogo e à pedagoga caminhar com o educando possibilitando aprendizagens. É tarefa desse profissional ajudar o estudante a vislumbrar direções, a extrair sentidos do seu existir no e com o mundo.

Dentre as muitas opções pedagógicas, este breve ensaio se propõe a iniciar uma reflexão sobre a pedagogia de Jesus, tal como se encontra em Lucas capítulo vinte e quatro, versículos de treze a trinta e cinco, trata-se de uma pedagogia na qual o ensino e aprendizagem ocorrem no caminho, a exemplo do que já faziam os peripatéticos antes de cristo.

Da etimologia grega do termo pedagogia se desdobra uma concepção bem desafiadora para o fazer educativo que se realiza nos espaços escolares e fora deles, isto porque a existência humana acontece em um mundo com diversas opções de caminhos, alguns íngremes, barrentos, espinhosos demais para serem trilhados sem que a dignidade seja estilhaçada.

Dentre os muitos caminhos que se apresentam à nossa vista, se encontra a opção por uma educação calcada nos valores do neoliberalismo, na formação de mão de obra barata para um mercado de trabalho que deseja espezinhar, escravizar ao invés de oportunizar renda e condições para que a vida seja humana; outras opções metodológicas fundadas em visões autoritárias fortalecem a violência e desmobilizam a cultura da paz.  

Essas constatações e críticas são temas de conversas, de pesquisas, de buscas que enquanto humanidade fazemos. Também andamos como aqueles dois discípulos de Emaús, cabisbaixos a caminho de nossas casas, de nossos locais de trabalho, especialmente quando se trata dos espaços onde a educação ocorre, ali onde a vida deveria ser tematizada e fluir na alegria da descoberta, reinam práticas, por vezes autoritárias, violentas, desprovidas da intenção humanizadora. 

O clima é de desesperança e de tristeza diante do mercado que vende uma falsa ideia de felicidade, diante de concepções e métodos distorcidos que não educam para a liberdade e autonomia.  

Cléofas e o outro discípulo, (sem nome, porque figura cada um de nós) são, para fins dessa reflexão, professores, educadores, gestores, pessoas que perderam a referência do Mestre, que deixaram de acreditar e apostar na força transformadora do seu fazer.

O caminho de Emaús acontece aqui, onde o sistema sufoca a vida, onde as políticas educacionais são pensadas desde um poder que se serve ao invés de servir. Neste cenário caótico que se insere a pedagogia da pergunta, recurso filosófico que serve para desestabilizar, colocar em crise as certezas e dar à luz a estratégias que reascendam a esperança.

há que se pensar no caminhar pensante, alternativas para se evitar o choque com as pedras, pois são mais duras do que o frágil ser humano. Levanta hipóteses: saltar sobre elas, passar por baixo ou, simplesmente, buscar um suave desvio. (Eladio Vilmar Weschenfelder) Leia mais: https://www.neipies.com/eureca-no-caminhar-pensante/

“O que vocês andam conversando pelo caminho?”, é a pergunta do Mestre aos discípulos de ontem e de hoje, e como dito acima o tema da conversa é a esperança que se perdeu, havia tanta potência naqueles estudos que realizávamos, naqueles grupos de pesquisa que frequentávamos, porém os tempos mudaram e a liquidez da vida tapa nossos olhos para o essencial do fazer pedagógico, para a fé no ser humano e na transcendência, o amor – caridade que se traduz em ações geradoras de vida, a esperança do verbo esperançar como arguia o pedagogo e filosofo Paulo Freire.

O objetivo da pergunta de Jesus é provocar a reflexão dos seus discípulos para que se lembrem do essencial, da palavra das escrituras e dos fatos que fazem arder o coração.

No caso dos profissionais da educação é preciso recordar as teorias que fundamentam a prática e superar a dicotomia entre uma e outra, como argumenta Freire “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática” (FREIRE, 2003, p. 61).

Um educador freiriano e discípulo de Jesus precisa buscar através da sua práxis coerência para que seu fazer nunca perca de vista a humanidade e não sirva a outras pedagogias que favoreçam o mercado alimentando o sistema neoliberal.

É urgente apostar cada vez mais num fazer pedagógico inclusivo e dialógico, reunir-se com os pares e partilhar as angústias enfrentadas no caminho é condição para formar comunidade educativa.

É preciso como fez Jesus com aqueles discípulos recordar as razões da fé, os motivos da escolha pela docência e os compromissos assumidos nas relações de ensino aprendizagem. Para tanto, é necessário que a educação seja concebida como processo no qual todos se humanizam, é sempre ponto de partida que não se conclui com o encerramento de uma etapa, de um ciclo.

Por vezes, somos lentos demais para perceber que o fazer pedagógico, embora nem sempre se realize nas condições ideais, faz grande diferença na vida das pessoas.

É pela educação que se pode romper ciclos de vulnerabilidade, de violência e de injustiça. É na escuta atenta da palavra, na aprendizagem de conteúdo específicos que se pode desenvolver habilidades provocadoras da mudança. É preciso prestar atenção nos sinais e dar ouvido ao que parece absurdo, ou seja, as pessoas que anunciam a possibilidade do novo, que nutrem grandes esperanças, e por vezes, são desacreditadas devido ao pessimismo e ou descrença daqueles que o sistema conseguiu dominar.

Ao chegar no destino, pequeno povoado de Emaús, aquele homem, até então estrangeiro, fez menção de seguir adiante, porém foi convidado à ficar, porque já era tarde. Foi então que os olhos dos dois se abriram quando sentados à mesa Jesus abençoou e partiu o pão, nesse momento eles entenderam porque durante a caminhada, processo de aprendizagem muito usado pelo evangelista Lucas, os corações deles ardiam.

Assista e escute também: https://youtu.be/wXTDU2UHG-4?t=75

O momento da partilha do pão aqui é figura da vida partilhada entre docentes e discentes, das reuniões pedagógicas onde a experiência dos colegas pode iluminar as diferentes práticas possibilitando esperançar. Sentar-se à mesa, quando se trata de educação, significa alimentar-se dos fundamentos que movem as ações pedagógicas, e festejar as conquistas que ocorrem durante a caminhada.

Um educador cristão não é um apologista e ou doutrinador, pelo contrário é um ser humano que, por convicção, entende as implicâncias éticas do seu agir e assume, assim como Jesus, a árdua missão, de questionar, provocar e mobilizar esforços em prol da vida, inclusive quando entende as consequências de remar contra a maré de um sistema inumano desde as suas origens. Sistema que impede a festa da páscoa sempre que provoca a fome, a miséria e as situações de não vida. 

Um educador cristão sempre será um discípulo que opta pelo diálogo, pela pedagogia da pergunta se importando e se colocando a serviço da vida.  Quando os profissionais da educação entendem a grandiosidade da tarefa que realizam, eles não ficam parados resmungando, murmurando contra o sistema, eles se mobilizam para construir sentido e elaborar significados diferentes dos ditados pela pedagogia neoliberal.

Educadores que não perdem de vista os motivos principais do fazer que realizam partilham vivências, elaboram e efetivam planos que corroboram com a formação integral de sujeitos. Essas atitudes figuram o corajoso retorno à Jerusalém, outrora lugar da derrota. Era noite, mas o medo foi vencido, visto que notícia feliz não pode ser guardada, precisa ser partilhada e dar sentido a existência de outras pessoas, fomentar outras práticas geradoras de vida.

Que cada instituição se constitua nesse lugar de encontro e da partilha que gera a vida.

Autor: Marciano Pereira

REFERENCIAS:

BÍBLIA DE JERUSALEM. Bíblia sagrada.  Paulus – 2008 (Lc 24, 13- 35).

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 27ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.                         

A linguagem simbólica das parábolas de Jesus

Jesus explorava a imaginação de seus ouvintes pois, cada um, com a plasticidade de seu pensamento, criava mentalmente a cena dos episódios narrados na história, que sempre envolvia situações cotidianas, comuns à compreensão de todos.

Jesus, o maior pedagogo da História, ao passar seus ensinamentos, seu evangelho de luz e libertação pelo conhecimento da verdade relativa à nossa compreensão, na época, não procurou homens eruditos, cheios de títulos e detentores de poderes governamentais ou religiosos, pois sua doutrina jamais poderia ficar na dependência de ideias conflitantes, de homens falíveis, cheios de tendências personalistas.

Jesus procurou as pessoas simples do povo, cheias de sofrimentos e necessidades, exploradas pelo domínio romano e por religiosos judaicos. Ele as escolhia com amor, irradiando seu magnetismo curador, curando-as das doenças do corpo e dos conflitos da alma.

A magnitude de seus ensinos não poderia ser comunicada em linguagem rebuscada, racional, convencional ou filosófica, de difícil entendimento. As expressões utilizadas eram conhecidas de todos, tinham sentido e significado para o povo e faziam parte do cotidiano das pessoas. Atualmente, as parábolas, ao serem analisadas, são lições antigas, mas sempre com ensinamento novo. Apresentam novos caminhos que expõem verdades e mostram a escala de valores a ser conquistada na busca da felicidade real.

Nelas destacam-se o sentimento do amor, da compaixão, da empatia, da caridade, do autoconhecimento e da necessidade do esforço próprio para reencontrarmos o caminho de volta para Deus, nosso Pai. Jesus era sempre seguido pela multidão que encontrava nele o alimento da alma e do corpo.

Muitos de seus ensinos eram verbalizados através da parábola. A singeleza das narrativas de Jesus envolve a semente, o solo, o semeador, as redes, os peixes, as moedas, as pérolas, o fermento, a massa do pão, as relações familiares e sociais, a simbologia do Pai, do Senhor da vinha, representando a presença Divina e encantava a todos.

A parábola apresenta método de narrativa oral, muito utilizado na antiguidade. São informações simbólicas, transmitidas de uma geração a outra, através do tempo, sem nunca perder a atualidade, podendo ser interpretadas conforme as circunstâncias e características culturais da época. Ao usar esse recurso didático, Jesus estimulava o despertar dos potenciais divinos inerentes ao ser humano e no seu desenvolvimento sócio, psicológico e espiritual.

A palavra parábola origina-se do latim parabola e do grego parabole,  que significam COMPARAÇÃO entre duas ou mais situações da história com a vida real. É uma história fictícia que transmite mensagem indireta utilizando a comparação, a analogia com a atitude desejada. Oculta sempre uma grande verdade. Ela revela mensagens profundas que devem ser refletidas. É uma narrativa cheia de simplicidade e beleza que penetra na mente humana, despertando emoções e sentimentos nobres, que dão sentido ético à vida.

Jesus narrou mais de 40 parábolas, que estão registradas no Novo Testamento.

Através desse método pedagógico, são estimuladas as dimensões emocionais, a atenção, a inter-relação, a convivência pacífica com os outros, as questões morais e espirituais dos ouvintes, induzindo à reflexão de seus próprios atos e convivência na família e na sociedade.

Jesus explorava a imaginação de seus ouvintes pois, cada um, com a plasticidade de seu pensamento, criava mentalmente a cena dos episódios narrados na história, que sempre envolvia situações cotidianas, comuns à compreensão de todos.

Outro aspecto importante desse processo educativo é o desenvolvimento da capacidade intrapessoal, de autoconhecimento, de ter compreensão de suas próprias condições e despertamento do potencial adormecido em si, apto a se desenvolver e a aprender a utilizar este modelo de conduta para agir melhor em suas vidas.

Jesus utiliza a didática do exemplo, explorando a observação crítica do ouvinte através da conversa amiga, livre, espontânea, sem imposições, comprovando a importância do afeto recíproco entre mestre e discípulo.

As atitudes de Jesus na convivência com as pessoas, mostram o bom exemplo que Ele dá sobre o que Ele ensina, este procedimento é fator importante para desenvolvimento da dimensão moral da inteligência humana. Ele não utilizava a linguagem abstrata, trazia fatos concretos, focalizando os atos, os procedimentos, as condutas dos personagens, propiciando a autocrítica sobre a maneira pessoal de agir em relação aos outros, visando melhorar os relacionamentos na vida particular de cada um e na vida comunitária.

As histórias contadas por Jesus estimulam a reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida e a percepção de que ninguém está sozinho no mundo e que cada um faz parte de um todo, despertando a habilidade de lidar com os problemas existenciais, como os fracassos, sofrimentos, prejuízos. Este aprendizado capacita o ouvinte ou leitor a buscar situações novas que promovam o equilíbrio, o torne mais flexível e disposto a não causar dano aos outros, compreendendo Deus como Pai que oferece novas oportunidades de melhoramento, extremamente misericordioso e justo e que o aguarda amoroso quando tomar a decisão de se corrigir e de começar a trilhar o caminho de volta para Ele.

A leitura atenta, por exemplo, da Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15, 11-31), possibilita a compreensão da infinita misericórdia de Deus para conosco. Ele sempre nos aguarda quando decidimos retomar o caminho de volta para a Casa do Pai, quando aprendemos a nos autoconhecer, reconhecer nossas escolhas equivocadas e mudar de conduta.  A análise detalhadas dos fatos relatados na narrativa do Mestre, desde a introdução do assunto, acompanhando a sucessão dos eventos, no desenvolvimento da história, até chegar ao ponto culminante, quando o filho rebelde, reconhecendo seu equívoco e sofrendo as consequências de suas atitudes, decide, humildemente, retornar à Casa do Pai e pedir perdão pela sua atitude insensata. O Pai o recebe de braços abertos, porque o aguardava!

A narrativa podia encerrar neste ponto,  mas eram dois irmãos…O outro, aparentemente fiel ao Pai, era extremamente egoísta e se rebela com a atitude do Pai em relação ao irmão. O Pai vai em busca deste filho também explicando o motivo do acolhimento e de Sua alegria com o retorno do Filho Pródigo.

A mesma reflexão nos provoca a leitura das narrativas do Bom Samaritano (Lucas 10, 23-27), do Semeador (Lucas 8, 4-15) e demais parábolas. O momento atual nos requisita a atitude sensata, silenciosa, de paramos um pouco, nos desligarmos das distrações virtuais, e buscarmos estas diretrizes tão claras ofertadas por Jesus.

Precisamos, urgentemente, voltar a ser humanos, simplesmente humanos, filhos de Deus, convivendo como irmãos uns dos outros, cada um com as suas características próprias, tendo a certeza que Deus nos aguarda de braços abertos.

Como educadores, tendo a nossa frente e ao nosso lado nossos alunos, não podemos nos furtar de lhes contar estas lindas e elucidativas histórias.

Parabéns Nei, pela tua coragem em divulgar o que é bom para a educação. Jesus te ampare e inspire. No teu site temos precioso espaço para divulgar nossas boas mensagens.

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira

O debate ciência versus religião

No debate entre ciência e religião, em geral, sobressaem-se posições antagônicas, a favor ou contra, especialmente quando, no centro das discussões, está o confronto evolucionistas versus criacionistas, que, ao fim e ao cabo, tudo parece se resumir.

O assunto, por mais apaixonante que possa parecer, não dispensa a necessidade de reflexões um pouco mais aprofundadas, quer seja em manifestações de concordância ou de discordância, em favor de um lado ou de outro.

Afinal, é possível conciliar a prática científica com a fé religiosa?

Uns dizem que sim e outros, obviamente, que não. No grupo dos cientistas que trabalharam no mapeamento do genoma humano, por exemplo, Francis Collins é, declaradamente, um cristão fervoroso, e Craig Venter é taxativo em afirmar que não é possível alguém ser um cientista de verdade e acreditar em Deus. Quando um cientista passa a acreditar em Deus ele deixa de fazer a pergunta certa, segundo ele. Creig Venter diz que não acredita em Deus, mas tem fé em Darwin.

O caso Galileu Galilei e, aos olhos de hoje, a abominável condenação que sofreu dos tribunais da Inquisição, no século XVII, que o obrigava, inclusive, a recitar sete salmos penitenciais uma vez por semana durante três anos, é interpretado, por muitos, como exemplo de que o conflito entre ciência e religião é inevitável. Esses, em maioria, costumam rotular a comunidade científica como de mentalidade aberta e a comunidade religiosa como de mentalidade fechada. Nada mais falso que isso. Há exemplares destes espécimes tanto na comunidade científica quanto na religiosa.

Quem conhece a comunidade científica de perto, talvez até concorde que o conservadorismo na ciência é um lugar mais comum do que se pensa, especialmente nos chamados colégios invisíveis, cujos membros, apegados a visões disciplinares, não medem esforços para aniquilar quem pensa ou age diferente das suas (deles) visões corporativas.

O conflito entre ciência e religião, certamente, não é inevitável, até porque quem está em ascensão no mundo contemporâneo é a ciência e não a Igreja de Roma, apenas para confrontar com os tempos áureos da Inquisição.

Também é falsa a crença de que a prática científica é baseada exclusivamente em experiências e testes envolvendo o mundo natural. Fique certo que apenas uma pequena fração daquilo que você conhece depende de observações próprias, quer seja um cientista ou exerça qualquer outra atividade.

A aprendizagem dá-se de muitas maneiras e o papel da ciência, que trata da sistematização do conhecimento, é mostrar que as coisas nem sempre são como parecem. É preciso acreditar, sem ver, em algo que é, aparentemente, implausível.

Tomemos como exemplos a teoria da evolução e a mecânica quântica (dualismo onda e partícula). A ancestralidade comum parece correta? Que teríamos eu e você em comum com aquele cãozinho que nos espreita sorrateiramente ou com aquela planta em cujo caule desce mansamente um caracol? De fato, cientificamente, as coisas não são como parecem.

Não lhe parece mais sensato aceitar o Gênesis e a criação do mundo e de toda a vida em alguns poucos dias de 24 horas cada um? Mais sensato e mais cômodo, acrescento eu.

Aceitar Darwin é tirar do homem o privilégio de ter sido especialmente criado, relegando-o a um mero descendente do mundo animal. Algo, para muitos, inaceitável diante do tamanho do nosso egoísmo.

A evolução não é um progresso previsível, que atua em prol de grupos e comunidades, avançando teleologicamente em direção a fins desejados. Ao contrário, lamento pela decepção, a evolução busca beneficiar o indivíduo (luta pelo sucesso reprodutivo, deixando maior descendência). É uma teoria clara do individualismo levado ao extremo, que nos mesmos moldes da “mão invisível do mercado”, na expressão clássica de Adam Smith, que acaba beneficiando toda a economia, também, biologicamente, a espécie, a partir dos indivíduos, acaba sendo privilegiada.

Deus, segundo dizem, escreveu dois livros. O livro da natureza, em que nos inserimos, e o livro das escrituras ditas sagradas. Pare e olhe para o céu, de preferência numa noite de Lua cheia. Depois de alguns minutos, é bem provável que você se conscientize da sua insignificância diante do cosmos e isso sirva para renovar a sua fé. Ou, alternativamente, procure o Dr. Freud para, em definitivo, romper com Deus.

(Do livro A ciência como ela é…, 2011)

Autor: Gilberto Cunha

Aprender a desaprender: construindo a esperança

Fomos ensinados a competir e a rastrear, sem descanso, uma via que nos leve a uma história que, na maioria das vezes, nem nossa é. Dificilmente nos perguntamos sobre sermos “vencedores em que”, de que parte da história…

Nossos tempos parecem nos conduzir a uma quase completa desesperança; e isso em nível mundial, eu diria. E não somente por causa de uma pandemia assoladora, recém abrandada, das guerras internas em tantos países, entre outras grandes mazelas.

No nosso eixo do mundo, apesar de uma mudança nos rumos políticos da nação, os respingos da morte e da fome ainda são evidentes.  Como construir esperança, então?

Há um claro esforço de determinados segmentos da composição da sociedade, empreendidos para criar situações de desespero, fragilizar ainda mais os empobrecidos e os miseráveis e desestabilizar as instituições que estão ao lado desses.

Há uma contra-história que vem sendo concebida justamente para matar uma possível esperança movente no nascedouro. E ela conta com uma aliada incontestável: a linguagem. 

Na redes sociais nos deparamos com xingamentos, com artimanhas e armadilhas discursivas, com uso de palavras inadequadas até mesmo em reuniões do alto escalão do governo federal (como se viu no governo passado); uma parafernália de modos de se comunicar que beira ao ridículo.

Rubem Alves, na obra “Da Esperança”, já dizia que a linguagem de uma comunidade de fé “deve (…) expressar o espírito de liberdade para a história, o gosto pelo futuro, a abertura para o provisório (…),deixando o velho e rumando em direção ao novo”. A partir daí, segundo ele, se pode pensar em construir Esperança.

Talvez se possa estender o que é aplicado ao termo “comunidade de fé” para “todos nós”, independentemente de professarmos uma religião ou não!

Então, enquanto humanidade, podemos nos perguntar: cultivamos a esperança? Em que esperamos? O que esperamos? Como vemos as possibilidades e suas manifestações em nossa existência tão precária e fugaz? Quem supostamente não tem religião pode ter esperança? Movimentamo-nos para um “desaprender” que nos conduza a novas alternativas?

Para construir a esperança é necessário desaprender! É claro, se pensamos em “desaprender” parece que caminhamos para trás, mas não se trata disso! Desaprender, aqui, quer dizer desvincular-se do que destrói, levando à promoção da vida, a um incessante olhar para a justiça e à revolucionária igualdade de oportunidades, já proposta por Jesus de Nazaré tanto tempo atrás. Significa reconhecer e desligar-se de “linguagens” envelhecidas, que impedem a paixão de instalar-se – a paixão que conduz a transformações às vezes jamais pensadas!

Mas como se pode pensar em “desaprender”, quando o que todos querem é “aprender”?

Trata-se de um remar ao contrário. É uma história às avessas desta que está por aí.  Isso, porém, só pode acontecer se entendermos que somos fruto dessa época, que fomos ensinados. Ensinados no preconceito (“bandido bom é bandido morto”), no desânimo (“pau que nasce torto morre torto”), na obstinada busca do sucesso a qualquer custo (“Deus ajuda a quem cedo madruga”), no estigma de “vencedores” (“Atirei o pau no gato”).

É a linguagem… Fomos ensinados a competir e a rastrear, sem descanso, uma via que nos leve a uma história que, na maioria das vezes, nem nossa é. Dificilmente nos perguntamos sobre sermos “vencedores em que”, de que parte da história…

Construir esperança é, pois, aprender a desaprender, mudar a linguagem! O desaprendizado, porém, implica compromisso com a insegurança, o desconforto, a desinstalação… pois linguagem nova, linguagem outra, faz-nos revirar nosso eu, em primeiro lugar. E aí, bom, aí possivelmente, temos o “homem e a mulher novos”, edificadores da Esperança construtora.

Autora: Ir. Marta Maria Godoy, graduada e pós-graduada em Letras, pós graduanda em Teologia

O ser humano light

O ser humano light potencializa o consumismo, o interesse efêmero pelas futilidades, o desinteresse pela cultura mais elaborada e absorção imediata do lixo cultural.

Reli recentemente o livro O Homem Moderno, do reconhecido e prestigiado Psiquiatra espanhol Enrique Rojas. Apesar de ser um livro escrito nos anos de 1990, sua atualidade e a forma como Rojas analisa o perfil psicológico do ser humano atual, é visivelmente surpreendente.

Originalmente o livro foi publicado em Madrid/Espanha com o título El hombre Light. Na análise de Rojas, assim como nos últimos anos entraram em moda certos produtos light (cigarros, algumas bebidas ou certos alimentos), também foi sendo gerado um tipo de ser humano que poderia ser qualificado de ser humano light.

Mas qual é o perfil psicológico deste ser humano? Como ele poderia ser definido?

Para Rojas, trata-se de um ser humano relativamente bem informado, mas de escassa educação humanista; um ser humano que tudo lhe interessa, mas de forma superficial. Viu tantas transformações nos últimos anos que começa a não saber a que se agarrar ou, o que dá no mesmo, a fazer afirmações do tipo “vale tudo”, “não me interessa”, “as coisas são assim mesmo”.

Encontramos “um bom profissional” em seu campo específico de trabalho, que conhece bem suas tarefas, mas que fora deste contexto, fica perdido, sem ideias claras, num mundo repleto de informações, que o distrai, mas que pouco a pouco o converte num homem superficial, indiferente, permissivo, que vive um “enorme vazio moral”.

As análises do Psiquiatra Espanhol são oportunas e importantes, porque a descrição que ele faz do ser humano light nos ajudam a perceber o quanto estamos sendo influenciados e contaminados por esse perfil psicológico que toma conta de adultos, jovens e crianças.

A superficialidade e o vazio existencial se fazem sentir nas relações cotidianas entre pessoas próximas e até mesmo nas relações familiares. No âmbito escolar esse perfil psicológico se faz presente nas manifestações de apatia pelos estudos, no pensamento fraco, nas convicções sem firmeza, na violência tácita ou explícita.

No cenário social e econômico, o ser humano light potencializa o consumismo, o interesse efêmero pelas futilidades, o desinteresse pela cultura mais elaborada e absorção imediata do lixo cultural. Por essa análise se entende porque certos “cidadãos de bem” defendem ideias fascistas, idolatram posturas autoritárias, negam a ciência e os fatos e acreditam cegamente e fake news que circulam livremente pelas redes sociais.

Em termos educacionais, nosso grande desafio é compreender o perfil psicológico do ser humano light que vem se constituindo nos últimos tempos.

Nosso compromisso de educadores (pais e professores) é possibilitar que as novas gerações não sejam tragadas por esse perfil psicológico que está na raiz de grande parte dos processos depressivos que atinge cada vez mais nossa juventude e que produz a cultura do vazio, uma geração de fanáticos e a morte dos sonhos.

A luta contra o vazio se torna um desafio e compromisso educacional no sentido de que precisamos, urgentemente, construir em nosso fazer pedagógico, espaços de formação solidária, pautados pelo compromisso social que nasce dos projetos de futuro e que são alimentados pelos sonhos de uma sociedade melhor.

Como nos diz o saudoso poeta gaúcho Mário Quintana: “Os sonhos são como as estrelas. Não podemos alcança-las. Mas, sem elas, não temos orientação”.

Autor: Altair Alberto Fávero

O mundo não é maternal

Sem a mãe, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente, a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de avaliação. Mãe é bom em qualquer idade.

Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se viramos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos.

O mundo quer defender o seu, não o nosso.

O mundo quer que a gente torre nossa grana, que a gente compre um apartamento que vai nos deixar endividados, que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito.

Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, nossos dentes, nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.

O mundo nos olha superficialmente.

Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, magros e vitoriosos para enfeitar a ele próprio, como se fossemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.

O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui.

O mundo não tem doçura, não tem paciência, não nos escuta.

O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego.

Mãe é de outro mundo.

É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo nos exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo.

Mãe é da graça.

“O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande… é a sua sensibilidade, sem tamanho…” Leia mais: https://www.neipies.com/o-tamanho-das-pessoas/

Autora: Martha Medeiros (reflexão escrita em maio de 2017)

“1905” chegou

São doze contos com histórias que se passam no ano de 1905, ano miraculoso para Einstein e para todos nós. Os personagens convivem intimamente com pessoas que eram ou se tornaram importantes para a história da humanidade.

Assim lembramos que enquanto Cixi, a mulher mais poderosa que já existiu, via seu domínio de quase meio século sobre a China aproximar-se do fim, Euclides da Cunha, mergulhado quase sem recursos na Floresta Amazonica, tentava demarcar a fronteira Brasil-Peru, Thomas Álvaro Edson acabara de eletrocutar a elefanta Topsy. Osvaldo Cruz, Santos Dumont, Karl May, Freud, Koch, Trotsky, Pio X, Eistein, Eduardo VI e outros são revelados em suas intimidades pelo olhar próximo de personagens ficcionais que criei.

Através dos olhos deles “enxergamos” essas figuras da história humana e revivemos o “clima” predominante em 1905.

O livro está a disposição no site da Physalis Editora (https://encr.pw/physalis-Salton-1905) e nas livrarias Delta Passo Fundo Shopping, Companhia da Leitura do Shopping Bella Cita e Delta Paissandu.

Gostei muito de escrever “1905” e torço que sua leitura seja do agrado dos meus amigos que seguidamente me presenteiam com o carinho de me ler.

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Brindo os leitores e leitoras do site com um resumo de uma das histórias do livro.

Suzanne pergunta a Freud com quem deve casar

No conto 03 do livro “1905” inovadores reúnem-se em Viena no Café Landtmann que, por sinal, segue funcionando até hoje.

Suzanne representa a entrada da mulher na profissão médica, algo raro na época. Uma inovação. Aliás, como professor de medicina há mais de quarenta anos, só nos últimos vi o número de mulheres se sobrepor ao número de homens nos bancos acadêmicos.

Suzanne encontra no Café Koch e Freud. Koch foi quem pela primeira vez na história conseguiu descobrir um microrganismo patológico: a bactéria da tuberculose. Todos sabemos a devastação provocada por essa doença. Merecidamente, recebeu o Nobel de Medicina naquele ano de 1905. Não morava em Viena, mas seguidamente ia até lá para proferir palestras.

Freud, no conto, representa o pesquisador que abandona pesquisas por não serem promissoras. No caso, a sinceridade de Freud ao comentar a expectativa infundada que teve com a cocaína. No ano de 1905, Freud publicou uma de suas obras mais marcantes: “Três ensaios sobre a sexualidade”. Entre um café e outro, Suzane pede um conselho muito especial a Freud. Vou parar por aqui para não provocar spoiler.

Esse é um dos contos que inspiraram o filme “A história de nós três e de nós quatro” do diretor Jaime Lerner.

1905” será lançado por ocasião da palestra – todos estão convidados – que darei na Academia Passofundense de Letras às 20 horas do dia 15 de junho, uma quinta. Mas o livro já pode ser adquirido pelo site da Physalis Editora e nas livrarias Delta do Passo Fundo Shopping, Companhia Da Leitura do Bella Citta Shopping, Delta Paissandú, Sebo Café e Sebo Papirando.

Autor: Jorge Alberto Salton

A indignação do atleta Vinicius Junior

A indignação de Vinicius Jr empresta voz a tantas outras vozes caladas pelo medo, submissão, pela dor e sofrimento devido ao racismo.

O Brasil tem vários atletas construindo suas carreiras no futebol Europeu. A Espanha tem sido, ao longo de muitos anos, o destino dos promissores atletas, alguns ainda muito jovens, mas com grande talento. Vinicius Junior seria mais um atleta a trilhar esse caminho aparentemente glamoroso se não pairasse sobre ele a ameaça do racismo que pode ameaçar a sua presença naquele país.

Os fatos presenciados no domingo passado (21 de maio) explicitam o que acontece há anos nos estádios de futebol do mundo todo, nos quais a rivalidade futebolística esconde uma prática profundamente enraizada no inconsciente coletivo da maioria da população mundial.

O racismo tem se explicitado de diferentes formas, não só nos estádios estrangeiros, mas também nos estádios brasileiros. Vivemos em sociedades racistas e isto tem se explicitado.

Disse o Papa Francisco: “o racismo é um vírus que se transforma facilmente e, em vez de desaparecer, se esconde, mas está sempre à espreita”. As manifestações de racismo renovam em nós a vergonha, demonstrando que os progressos da sociedade não estão assegurados de uma vez por todas.

Esperamos que a indignação de Vinicius Junior incida em um processo de superação dessa prática perniciosa. E, tal indignação é fruto de várias atitudes negadores da sua dignidade. Parece-nos que o copo transbordou. 

O atleta Vinicius Junior, na sua indignação, agiu de duas formas pontuais e extremamente consistentes. Ainda no campo de futebol, no decorrer da partida, ele mostrou ao juiz de futebol, autoridade competente, ao torcedor que o agredira com gestos racistas. Aparentemente não foi ouvido e ainda durante o jogo foi expulso da partida pelo mesmo juiz. Parece ironia. Um atleta em pleno exercício do seu ofício profissional é agredido e ferido em sua dignidade. Minutos depois esse mesmo atleta é declarado, pela autoridade competente com a expulsão, sem condições de continuar na partida. Para os que o poderiam acusá-lo de estar se “vitimizando” sugiro que revejam as imagens do episódio. Devemos louvar o jovem atleta pela atitude corajosa. 

A segunda atitude de Vinicius Jr, circulou nas redes sociais. Esta com dois elementos extremamente potentes escritos por ele. Primeiro acusou o presidente da Liga Espanhola de Futebol (La liga) de conivência e omissão.

Em outras palavras, afirmou que a situação chegou àquele ponto devido às atitudes coniventes do dirigente com práticas racistas, já denunciadas pelo mesmo atleta e por outros desportistas. Denunciou-o por omissão pelo fato de não ter tomado nenhuma atitude contra os atos, o que seria próprio do cargo assumido. Quem deveria ter tomado uma atitude em tempo não o fez. O atleta deu nome aos responsáveis ao afirmar: sei exatamente quem é quem. Em seguida manifestou sua convicção quanto à importância da luta assumida com brio e que seja exemplo a tantos outros em semelhantes situações.

Vinicius Junior disse: tenho um propósito na vida e, se eu tiver que sofrer mais e mais para que futuras gerações não passem por situações parecidas, estou pronto e preparado.  

O jovem que encantou o mundo com o bom futebol testemunha agora a força e a coragem de enfrentar uma chaga presente em todo o mundo, o racismo estrutural. Este precisa ser descontruído porque, além de ferir a dignidade dos homens e mulheres negros, ameaça o seu futuro.

O racismo estrutural tem sido a causa das mortes violentas de jovens negros, da miséria da população negra, da morte prematura de crianças negras e tantos outros males. O que se afirma não são frases soltas no ar. Pesquisas corroboram esta afirmação.

A indignação de Vinicius Jr empresta voz a tantas outras vozes caladas pelo medo, submissão, pela dor e sofrimento devido ao racismo. Sua voz e a voz do sofrimento por uma perseguição vil e covarde. Quantas crianças e adolescentes negros são prejudicados na escola devido ao racismo entranhado nos espaços escolares.

O bullying, expressão em inglês que significa humilhar, perseguir, assediar moralmente, de forma constante e intensa sobre uma pessoa, é sentido secularmente em forma de racismo pelas crianças e adolescentes negros.

O grito de Vinicius Jr, é o grito da indignação. Não toleraria mais tais atos. Um jovem de 22 anos ensina-nos a lutar e deixa-nos um testemunho valioso. Através de seus pés vemos o bom futebol. Através de sua voz ouvimos: basta de racismo. 

Que o clamor indignado do jovem Vinicius Jr, reforce os clamores de tantas outras pessoas e fortaleça a corrente antirracista do mundo todo.

No século passado uma costureira norte-americana chamada Rosa Parker se indignou por ter que ceder lugar a uma pessoa branca como prescrevia a lei. A sua atitude corajosa gerou grande consternação. Ela sofreu pelo ato corajoso. Entretanto, seu gestou gerou uma grande mudança na lei norte americana. 

Que a atitude de Vinicius Junior além de gerar comoção no mundo todo, gere também mudanças, começando por atitudes decisivas de punição para quem é racista. Não possível tolerar tais atitudes em estádios de futebol e em qualquer outro lugar. 

Lembremos o preceito bíblico. Deus nos criou a sua imagem e semelhança (Gn 1,26). Ofender ao semelhante é ofender a Deus. Os bispos latino-americanos e caribenhos reunidos na cidade de Aparecida – SP manifestaram o compromisso da Igreja na superação do racismo. Escreveram: a Igreja denuncia a prática da discriminação e do racismo em suas diferentes expressões, pois ofende no mais profundo a dignidade humana criada à imagem e semelhança de Deus (DAp 533), uma verdade irrenunciável.

A gravidade da situação lembra a todos que não basta não ser racista. Cabe ser antirracista.  

O racismo é histórico e vigora intenso na sociedade brasileira. Ele se multiplica de muitas formas, desde as mais veladas e dissimuladas até as mais escancaradas e violentas, que asfixiam, sufocam e matam. (Autor Dirceu Benincá) Leia mais: https://www.neipies.com/todo-racismo-e-abominavel/


Autor: Ari Antonio dos Reis

(Grupo de Estudos Negritude e Teologia – Itepa Faculdades)

Da miséria ao dano ambiental

A miséria é fruto da incapacidade do Estado em oferecer as mínimas condições dignas de vida para a sua população. A cidade está sob uma constante cortina de fumaça e de falta de interesse das autoridades.

É evidente que a quantidade de pessoas em situação de vulnerabilidade social em Passo Fundo e em médias e grandes cidades aumentou e a situação foi agravada por conta da pandemia e pelo desgoverno Bolsonaro.

A fome está por todos lados, em muitos lares e destrói famílias afundadas na miséria e na fome. O desemprego e a falta de perspectiva levam milhares de pessoas à depressão, ao submundo das drogas, ao vício em álcool e nas mais variadas formas de violência, o que é especialmente grave quando trata-se de danos contra mulheres e crianças.

Trago este relato para discutir a problemática ambiental causada por estas condicionantes citadas e, infelizmente, invisíveis aos olhares das autoridades. A fome aguda leva ao subemprego, ao furto, ao roubo, a dor, ao sofrimento, a miséria e ao dano ambiental.

Empresas especializadas no ramo da reciclagem e de sucatas compram vários tipos de resíduos: plástico, papelão, vidro, latas de alumínio e o vilão da poluição ambiental: o COBRE. Este item possui valor agregado e isso gera muitos furtos ao patrimônio público e privado para que seja revertido em fonte de renda para pessoas que em último recurso contra a fome e a miséria, usam deste artifício para conseguir uma mínima renda capaz de financiar um prato de comida ou algumas pedras de crack.

O cobre está presente em fios de luz, nos hidrantes e na fiação de telecomunicações. Depois de receptado em ferros-velhos, o cobre acaba indo para fundições, onde é transformado em pequenos fragmentos – grãos -, para facilitar o transporte. Em alguns casos, vira matéria-prima para peças feitas em metalúrgicas locais e até fora do país.

A grande questão ambiental é que os compradores não aceitam o fio encapado, com aquela camada plástica comum nestes produtos cuja finalidade é oferecer segurança contra os choques elétricos. Diante desta condição os vendedores de cobre queimam o plástico para poder vender e acabam cometendo mais um crime, o crime ambiental.

Diariamente em todas as comunidades da cidade é possível identificar a presença de queimadas de fio de cobre, principalmente à noite e nos finais de semana, quando não há fiscalização. A fumaça deste plástico é tóxica e pode causar graves problemas à saúde e ao meio ambiente.

A miséria é fruto da incapacidade do Estado em oferecer as mínimas condições dignas de vida para a sua população. A cidade está sob uma constante cortina de fumaça e de falta de interesse das autoridades.

Autor: Wagner Pacheco – publicitário e membro do Instituto Democracia e Cidadania

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