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Trabalho Infantil

Explorar o trabalho infantil é impedir a emancipação do gênero humano em sua totalidade.

O trabalho infantil fere a dignidade humana e exige uma atitude ética de respeito. É comum encontrar em páginas dos jornais e em noticiários da TV e da internet estatísticas escandalosas sobre a exploração da mão-de-obra infantil. Isso denota que o sistema econômico vigente é o capitalismo selvagem que põe o lucro acima do valor da pessoa humana.

Explorar o trabalho infantil é impedir a legitimidade da cidadania, é macular a emancipação humana.

Afinal, ser criança é, acima de tudo, um direito garantido e reconhecido universalmente em qualquer estado democrático de direito. Então, explorar o trabalho infantil é um crime que exige reparo do Estado de direito.

A legitimidade política de uma sociedade passa pela maneira de como ela investe e cuida de suas crianças.

O desenvolvimento econômico, para ser correto, do ponto de vista ético e político, tem que primeiro garantir a qualidade de vida das pessoas, começando pelas crianças. Isso significa que a principal prioridade do Estado, em sua ação política, deve ser a infra-estrutura básica. Essa infra-estrutura é a mediação para que cada pessoa adquira o acúmulo material de sua existência no mundo. Esse acúmulo significa: moradia, trabalho digno, salário justo, saúde, educação, lazer. Neste sentido, a ética não precisa consultar a política para garantir sua legitimidade racional, mas a política para ser correta precisa da legitimidade ética.

A exploração da mão-de-obra infantil é um escândalo moral que entrava a cidadania e macula a dignidade do ser humano.

Explorar o trabalho infantil é impedir a emancipação do gênero humano em sua totalidade.

Uma sociedade que se pensa emancipada não pode matar o sentido horizonte de uma criança. Isso seria antecipar o seu futuro precocemente, impedindo seu direito de ser criança, através do trabalho. É um imperativo ético consagrado que o direito da criança é crescer brincado. Daí, com certeza, nascerá o cidadão (ã) condutor das liberdades públicas e privadas.

Eliminar o trabalho infantil é, acima de tudo, uma exigência ética e uma postura política correta de respeito aos direitos humanos fundamentais. Outrossim, não se faz desenvolvimento sustentável e responsável, impedindo as crianças de viverem sua dimensão lúdica infantil.

Pôr fim ao trabalho infantil é postular uma outra lógica de desenvolvimento que não seja a lógica do lucro pelo lucro, mas a lógica do desenvolvimento solidário, que garanta o direito infantil das crianças.

As crianças precisam ser estimuladas a brincar, jogar, praticar o lúdico.  Etimologicamente, brincar significa criar vínculos, socializar-se, conviver com o outro de forma prazerosa, de trocas e formação de regras que surgem naturalmente e que ajudam a consolidar a personalidade a em formação de maneira positiva. (Autora Rosangela Trajano) Leia mais: https://www.neipies.com/as-criancas-precisam-voltar-a-brincar-e-aprender-a-descontrair/

Autor: José André da Costa

O que mais José Maria poderia fazer pelo sucesso das pessoas que amava?

Quantas rezas deve ter feito ali naquela capela pela vida do menino que falecera de câncer ósseo? Bem sabemos que as práticas religiosas consistem em tentativas de se obter sucesso quando já se esgotaram todos os recursos que existem para tanto.

Certa vez, levei uma equipe infantojuvenil do S.C. Gaúcho a participar de um campeonato de futebol em La Rioja, Norte da Argentina.

No Estádio Rioja Júnior, numa manhã fria, o argentino José Maria contou-me do garoto que sentira dor no joelho após um jogo de futebol infantil e, meses depois, consciente de tudo, morrera com câncer ósseo. Homem inteligente e afetivo, as feições de José Maria, meu amigo recente, se pintadas ou fotografadas, dariam a imagem exata da eterna indagação: “Há sentido na vida?”

José Maria levou nossa delegação a passar um dia no Lago del Dique (foto acima). A água da cidade vem desse reservatório situado no alto, por entre as montanhas, e alimentado por riachos dos degelos andinos.

La Rioja situa-se no final de um grande deserto e há sete meses não recebia um pingo de chuva. Para chegarmos lá, rodamos seis horas por uma imensa planície de areia, cactos, pontes sobre o leito de rios secos, sem povoação e nada ao longo da rodovia. Um deserto “deserto”. Encontramos uma cidade de pouco mais de cem mil habitantes com raros edifícios devido à possibilidade de terremotos, situada no final desse deserto e no início das montanhas pré-Andinas.

Guiados pelo amigo argentino, subimos em uma elevação em que havia uma pequena capela, local para socorro e consolação.

O curioso é que lá do alto quando se olhava o deserto sem fim ele mais parecia um oceano.

José Maria, católico de família – havia me dito que, para ele, Evita Perón fora uma santa -, ajoelhou-se em frente à capela e rezou pelos filhos que, naquela mesma noite, tentavam a sorte em um programa de calouros na TV em Buenos Aires como cantores juvenis.

Quantas rezas deve ter feito ali naquela capela pela vida do menino que falecera de câncer ósseo? Bem sabemos que as práticas religiosas consistem em tentativas de se obter sucesso quando já se esgotaram todos os recursos que existem para tanto.

José Maria, ajoelhado, continuava a rezar.

O que mais ele poderia fazer pelo sucesso das pessoas que amava?

Autor: Jorge Alberto Salton

Sobre o Amor

Amar é derramar a alma em sua exuberância. É por isso que o amor é uma celebração que acontece além de determinações. É força vital.

O amor não precisa de um dia especial. Ele é celebrado na vida, enquanto ela acontecer. Amar é conferir sentido ao mundo que compreendemos e construímos. É por isso que o amor traz à tona significados ainda não presentes.

Na experiência do amor, não há lugar para preconceitos. As atitudes discriminatórias funcionam com uma espécie de caixas em que as pessoas são colocadas, ou como um coador em que são retidos os elementos que não interessam aos preconceituosos.

Há momentos em que se faz necessário exercitar a rebeldia, para afirmar o lugar do amor e descontinuar entendimentos corrosivos entre os humanos. O amor busca como meta a felicidade que se associa à liberdade, na afirmação da experiência amorosa.

Nem sempre em nossas contingências conseguimos o tempo suficiente para nos entendermos como seres do amor. Até porque o amor não é tangível, não é tátil, não é uma coisa a ser adquirida. Ele é experienciado no mundo dos afetos, como um sentimento que nos toca na interioridade mais profunda. Este é o sentido de transformação que o amor produz na vida das pessoas.

E, sobretudo pela sua gratuidade, a celebração do amor requer quase uma liturgia própria, uma ritualização compreensiva de sonhos, desejos, projetos, cuidados, saberes e acolhida. Amar é cuidar de modo singular. É por isso que amamos com muita intensidade e generosidade.

Somos sujeitos que temos capacidade de amar, porque construímos significados na vivência do amor. Não amamos por recursos à retórica, ou por dedução lógica, nem por ritos programados, mas porque somos inclinados a captar a essência do amor como um ato humano de dignidade e de liberdade.

Conseguimos, portanto, dimensionar a amplitude do amor, que não se reduz simplesmente a uma troca de emoções entusiasmadas, mas porque reconhecemos no conforto que o amor produz entre os humanos, a solenidade de uma proteção efetiva, uma proteção de alma, tal como a pele protege os ossos.

Essa proteção é experimentada pelos que aceitam viver a experiência de acolhida e de cuidado, em que o amor realiza sua celebração de forma ímpar. Amar é derramar a alma em sua exuberância. É por isso que o amor é uma celebração que acontece além de determinações. É força vital.

Assista e ouça: canção Amar, Roupa Nova. https://youtu.be/8A67cyyJAkk?t=127

Autora: Cecilia Pires

Quando o homem se torna lobo do próprio homem

A possibilidade do “homem ser lobo do próprio homem” é um perigo que espreita quando não há instituições suficientes para evitar esta possibilidade. Nesse sentido, a instituição escolar fortalecida, que promove a formação de seres humanos conscientes da importância do bem comum, é essencial para a natureza egoísta selvagem dos gananciosos não se sobreponha ao coletivo.

O filósofo britânico Thomas Hobbes (1588-1679), embora não possa ser considerado um pensador liberal, teve uma importante influência na fundamentação do individualismo moderno.

A obra de Hobbes composta por diversos livros dentre os quais destacam-se Do cidadão (publicado em 1642), Elementos do direito natural e político (1650) e o Leviatã (1651), este último considerado um clássico da teoria política moderna, que chegou a ser censurado pelo Parlamento inglês, teve uma influência marcante no desenvolvimento da discussão sobre as relações entre indivíduo e Estado em todo o período moderno. Suas ideias ainda hoje são estudadas no campo do direito, filosofia, sociologia, antropologia e filosofia política. Mesmo sendo um pensador que escreveu no século XVII, suas ideias continuam sendo instigantes para entender o tempo presente.

Hobbes tem uma concepção negativa e pessimista da natureza humana, pois considera o homem um ser naturalmente agressivo e propenso a violência. O “estado de natureza ou natural” em que o homem se encontraria fora da sociedade organizada e sem a presença de um governo, seria um “estado de guerra de todos contra todos”.

O homem, diz Hobbes, é “o lobo do próprio homem”, pois é movido por paixões e desejos que o levam a matar e destruir seu semelhante quando se sente ameaçado. O estado de natureza na análise de Hobbes não descreve o homem primitivo, ou o homem anteriormente a qualquer organização social, mas sim como o homem se comportaria, dada a natureza humana, caso não houvesse a obrigação de cumprir as leis e contratos impostos pela sociedade. Sem leis e contratos viveríamos uma luta incessante entre os indivíduos, um tentando destruir o outro.

Na interpretação de Hobbes, os homens são essencialmente iguais e as diferenças entre os indivíduos são consideradas irrelevantes, pois mesmo o mais fraco tem o poder de matar o mais forte. Por isso, para o pensador inglês, é fundamental a criação do Estado ou do Poder Soberano. O poder soberano existe para impedir o estado de natureza e permitir a coexistência entre os homens, já que nesse estado os indivíduos tenderiam a se exterminarem uns aos outros.

A criação da sociedade, com suas leis e contratos, pressupõem que os indivíduos cedam uma parte dos seus direitos e os transfiram para um soberano. Essa concessão e transferência de direitos e poderes consiste em um contrato social, por meio do qual se institui a sociedade civil organizada e se evita “a guerra de todos contra todos”. Com isso Hobbes justifica a existência do Estado em suas distintas formas de organização.

Hobbes pode ser considerado um “contratualista”, pois sua teorização sobre o poder ressalta que a sociedade civil organizada resulta de um pacto entre os indivíduos. No entanto, historicamente ele foi acusado de absolutista, por defender que o poder absoluto deve ser considerado legítimo enquanto assegura a paz civil.

A complexidade social que vivemos hoje certamente é muito diferente daquela teorizada por Hobbes. No entanto, a legitimidade de um poder só se justifica quando suas ações congregam, de alguma forma, os interesses de todos. Para que a paz civil seja possível, é necessário que os indivíduos acreditam nas instituições que os representam. Quando isso é arruinado, temos a convulsão social, o rompimento do pacto e a instabilidade social.

Um olhar cuidadoso sobre as teorizações de Hobbes nos permitem perceber o quanto estão enganados aqueles que acreditam que é necessário enfraquecer o Estado (estado mínimo como gostam de dizer os neoliberais). Sem o Estado estaríamos entregues a própria a sorte e a força cruel dos abastados economicamente que na ânsia de terem cada vez mais seriam capazes de utilizar as estratégias mais sórdidas para dominar a maioria. Sem o Estado e suas instituições teríamos de volta a escravidão e a lei do mais forte.

A possibilidade do “homem ser lobo do próprio homem” é um perigo que espreita quando não há instituições suficientes para evitar esta possibilidade. Nesse sentido, a instituição escolar fortalecida, que promove a formação de seres humanos conscientes da importância do bem comum, é essencial para a natureza egoísta selvagem dos gananciosos não se sobreponha ao coletivo.

A solidariedade comunitária, própria de uma sociedade democrática, se torna um princípio educativo fundamental para constituir um modo decente de se viver.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Fundeb: a usurpação dos recursos continua

Por conter as provas de um jogo injusto é que o orçamento
é tão complicado, técnico, oculto, disfarçado, arredio.
Herbert de Souza, sociólogo mineiro.

A educação brasileira, da educação infantil até a pós-graduação, possui desafios gigantescos – desigualdades educacionais, tecnológicas, regionais, raciais, de gênero, de classe e destruição da carreira docência, escancarados e agravados pela pandemia da covid-19.

Corre-se sério risco ainda de ter redução de recursos financeiros imprescindíveis do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) devido uma emenda do relator no novo ‘arcabouço fiscal” em discussão no Congresso Nacional.

A tentativa de utilizar e/ou acessar tal fundo público não é nova.

As brechas da lei, o jabuti e os recursos do Fundeb

Na aprovação da PEC do Novo Fundeb, em 2020, a disputa pelos recursos foi muito intensa e a lei que o regulamentou posteriormente, em 2021, abria brechas para repasse de seus recursos para entidades e grupos empresariais, conforme já abordado no artigo A usurpação dos recursos do Fundeb.

O relator e deputado Cláudio Cajado (PP-BA) introduziu uma emenda no texto do “Arcabouço fiscal”, enviado pelo executivo, incluindo o Fundeb nas novas regras fiscais considerando que as complementações à educação passam a constituir-se em despesas obrigatórias da União – tais como saúde, pessoal, previdência, assistência e outras – englobando, consequentemente, o Fundeb nos limites de gastos do novo arcabouço.

A Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados aponta que a medida, se aprovada pelo Senado, obrigará a redução de outras despesas, “inclusive em programas educacionais, como os da merenda e do transporte escolar, além do livro didático”.

Mesmo que a iniciativa de incluir estes gastos no arcabouço não tenha partido do governo atual, este apresenta uma postura ambígua.

Técnicos do Tesouro Nacional e, mesmo o Ministro da Educação, Camilo Santana, afirmam que ““Por todos os cálculos que nós fizemos, os cálculos que a Fazenda fez, isso não terá impacto no orçamento geral do Ministério”.

Técnicos da Consultoria da Câmara afirmam que o Fundeb não constar no teto de gastos que permitiu mais de R$ 39 bilhões para a educação, que na nova regra não seriam possíveis.

Reação das entidades e instituições educacionais

O “jabuti” inserido pelo relator teve reação imediata de entidades e instituições educacionais, como A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que divulgou uma moção de repúdio, chamando de ‘precipitada’ a forma como a matéria foi pautada e votada na Câmara dos Deputados e solicitando sua reversão no Senado.

Campanha Nacional pelo Direito à Educação e a Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), adoram, posição igualmente contrárias à proposta.

A Fineduca se pronunciou contrária à proposta contida no Projeto de Lei n° 1049/2023 por considerar que a vinculação de recursos oriundos da receita de impostos a serem aplicados em despesas com Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE).

A entidade lembra que a matéria foi definida pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 212, foi uma conquista dos movimentos e entidades que atuam na defesa da educação pública e percorreu um longo caminho de avanços e retrocessos, até chegar à definição que se tem atualmente.

A desigualdade social precisa ser combatida sem retirar recursos do ensino brasileiro: os programas de assistência social devem ser financiados com recursos suplementares à MDE.

O Fórum Nacional Popular de Educação (FNPE), que reúne 45 entidades representativas do campo educacional, emitiu nota pela preservação das despesas com investimentos públicos em educação pública, afirmando que as entidades defenderão, em todo país e junto ao Congresso Nacional, que não deve haver qualquer constrangimento ao financiamento da educação pública em nosso país. Desta forma, é central que as despesas com investimentos públicos em educação pública não devem ser penalizadas no diploma legal a ser aprovado.

As entidades supra citadas e o FNPE requerem que o relator do PLP nº 93/2023, bem como o conjunto dos/as parlamentares, que mantenham as exceções de despesas no arcabouço fiscal, tal como consta no projeto original do Poder Executivo, uma vez que representam salvaguardas mínimas a setores vulneráveis da sociedade.

Já a análise do economista David Deccache, assessor econômico na Câmara dos Deputados, é a de que a melhora da Educação – e da Saúde, também incluída nas novas regras fiscais –, são incompatíveis com o novo arcabouço, pois, conforme a Constituição, Educação e Saúde crescem com base em 100% da receita, e o teto geral limita todas as despesas a 70%. Neste sentido, algumas entidades e especialistas consideram esta iniciativa do relator inconstitucional.

Esta iniciativa da Câmara dos Deputados reafirma que a disputa pelos fundos públicos inviabiliza avanços na educação básica como tem sido historicamente no Brasil.

Modelo de financiamento e recursos

A maioria das Metas do PNE (2014-2024) foram inviabilizadas por esta razão e, principalmente, pelo descumprimento total da Meta 20 que previa ampliar os recursos para a educação, passando de 5% para 10% do PIB.

Na sequência, a PEC 95/2016 e opção política dos governos Temer e Bolsonaro de reduzir os gastos e investimentos com as políticas sociais e educacionais evidenciam o ataque ao ensino público.

Em 2021, novamente, forças comprometidas com os interesses mercado financista, derrotados na aprovação do Novo Fundeb em dezembro de 2020, voltaram a carga na discussão do da regulamentação do Fundeb flexibilizando recursos públicos para entidades privadas e mesmo o Sistema S.

Como demonstra ampla literatura, uma ampliação da oferta de educação com qualidade implica, imediatamente, a revisão, pela sociedade e pelo Estado brasileiro, de sua posição e relação com o financiamento da educação.

Temos um modelo de financiamento que é a expressão da estrutura social e econômica do país, injusto, desigual e, predominantemente, privado.

Historicamente, desde quando o Estado financiou a formação das elites, fê-lo com recursos públicos e, quando o povo começou a acessar a escola, o mesmo Estado incentivou a expansão da escola e de instituições de Ensino Superior (IES) privadas.

Portanto, como aponta Tadeu Silva, pesquisador em educação da Ufrgs, a educação pública não se encontra no presente e deplorável estado principalmente por causa de uma má gestão […], mas sim, sobretudo porque há um conflito na presente crise fiscal entre propósitos imediatos de acumulação e propósitos de legitimação (os governos estaduais não remuneram mal seus professores porque os governadores são maus, ou pouco iluminados, mas porque isto compete com os objetivos do financiamento – necessários ao processo de acumulação – mais imediatos).

As escolas privadas não são mais eficientes que as (…) públicas por causa de alguma qualidade inerente e transcendental da natureza da iniciativa privada (…), mas porque um grupo privilegiado (…) pode financiar, privadamente, uma forma privada de educação […]. As escolas públicas não estão no estado em que estão simplesmente porque gerenciam mal seus recursos ou porque seus métodos ou currículos são inadequados. Elas não têm os recursos que deveriam ter porque a população a que servem está colocada numa situação de subordinação (…) às relações dominantes de poder.

A título de exemplo recente, em 2022, os gastos do governo federal com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública somaram R$ 1,879 trilhão, o que representou 46,3% do Orçamento Federal Executado (pago), consumindo, portanto, a maior fatia de todos os recursos públicos federais, conforme relatório elaborado pela Auditoria Cidadã da Dívida (ACD).

Os gastos com educação no mesmo período foram de apenas 2,70%.

Qual é a prioridade nacional estratégica da nação brasileira no presente e no futuro?

De acordo com nossa Constituição, a educação é dever o Estado, das famílias e da sociedade. Portanto, esta mesma sociedade que elege um congresso tão diverso e conservador, majoritariamente elitista e comprometido com os interesses do capital e do mercado, tem o dever ético e político de exigir a preservação dos recursos para a educação e para as demais áreas sociais, exigindo que não sejam incorporadas no atual arcabouço fiscal.

Por fim, como adverte o professor e pesquisador Valdemar Sguissardi (UFSCar e Unimep), analisar as políticas públicas de educação pela ótica do financiamento contribui para compreender os estreitos caminhos de nosso (sub)desenvolvimento econômico e social e dos seus grandes e inarredáveis desafios presentes e futuros.

E o financiamento, como sinalizava também o educador Dias Sobrinho (Unicamp, falecido recentemente, é uma questão crucial no quadro de mudanças de relação entre o Estado e as instituições educacionais, especialmente as públicas.

Precisamos menos de um Estado Avaliador – submetendo estudantes trabalhadores e pobres a inúmeros testes de desempenho, e mais um Estado Financiador da educação, da ciência e da cultura, para todos estudantes, da educação infantil a pós-graduação.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/06/fundeb-a-usurpacao-dos-recursos-continua/

Autor: Gabriel Grabowski

Onde mora a felicidade?

E a sua felicidade onde mora? Saiba que você é livre para escolher e, então, correr atrás dela ou agir de tal forma que ela venha ao seu encontro.

Hei, você, que anda procurando a felicidade… Será que ela tem um endereço próprio? Será que existe uma categoria de pessoas que são felizes e outra das que consideram que só existem momentos felizes?  Mas afinal, o que significa felicidade? 

Encontrar conceitos para definir esta bela palavra até nem é difícil, mas senti-la em sua plenitude e ainda por cima saber onde ela mora, aí já é trabalho para Sêneca, o filósofo da felicidade.

Sêneca descreve que ser feliz é saber equilibrar a razão com a emoção. Para ele é isto que traz a serenidade, qualidade esta que ele considera como sinônimo de felicidade. Diz também que a felicidade não mora sempre no mesmo lugar. Assim, o primeiro preceito para esta busca seria procurá-la em caminhos diferentes das outras pessoas e dos seus próprios já traçados. Muitas vezes olhamos para a vida dos outros e buscamos compreender o porquê parecem ser tão felizes. Contudo, este mesmo filósofo alerta que, se quisermos olhar para as outras pessoas e compreender o porquê de sua felicidade, devemos procurar olhar primeiro para suas almas e não para suas aparências.

Mas, dentre tudo que este sábio romano nos deixou de legado, desde a o período clássico, o que mais me chama a atenção é o que ele refere sobre a importância de vivermos em comunhão com a natureza. Desde então, estamos nos distanciando, cada vez mais, da fonte da nossa vida e, como tal, da própria felicidade.

Nos dias de hoje, precisamos de mais e mais “coisas” para sermos felizes, o que tem tornado esta busca mais difícil. Nem bem sabemos que nossa felicidade depende muito mais do que fazemos com o que temos do que com o que, exatamente, nós temos. Temos deixado de lado o nosso potencial criativo e buscado tudo pronto.

Afinal, temos pressa! Não dá mais tempo de cultivarmos um hobby, de tocarmos um instrumento musical, de praticarmos um esporte coletivo, de brincarmos, especialmente junto à natureza. Não estamos tendo tempo de vivermos em grupo, o que poderia nos proporcionar a suave alegria do pertencimento e das trocas humanas.

Nossa felicidade também depende da possibilidade de ajudarmos os outros a serem mais felizes. Alguém que vive egoisticamente, muitas vezes às custas do sofrimento do outro, não deve conhecer a verdadeira sensação da felicidade. Da mesma forma, a pessoa que apenas cumpre com suas obrigações, deixando de lado sua espontaneidade, o que na filosofia do Taoísmo significa a essência da felicidade, vai continuar procurando-a por muito tempo e por muitos lugares e dificilmente a encontrará.

Em seu livro “Feliz por nada” Martha Medeiros defende, e eu assino embaixo, que felicidade não tem a ver com oba-oba, riso frouxo ou com vida ganha. Para ela, isso representa alegria, o que também é muito bom, mas não é suficiente para abarcar toda a essência da verdadeira felicidade, a qual também pode incluir momentos de tristeza e, eu diria ainda, de dúvidas e preocupações.

Esta já consagrada escritora gaúcha defende que precisamos evitar a sensação de amortecimento, buscando extrair das miudezas o mesmo feitiço que as grandezas proporcionam. Além disso, é pertinente que corramos atrás do que queremos, prestando homenagens a nossa própria biografia.

Complemento estas ideias com o entendimento de que a felicidade não vem por conta própria, já, as dificuldades, estas vão chegando sem pedir licença. Contudo, as pessoas felizes as percebem não como obstáculos mas, sim, como desafios, motivando-se para enfrentá-los. Elas vêem a dor como passageira e determinam seu grau de ambição de acordo com as possibilidades de realização.

Ah, felicidade… Mas afinal, onde mora você? Caetano Veloso entoa uma canção que diz que ela mora onde a falsidade não vigora, e isso faz muito sentido… Baseada nesta ideia e muitas das anteriores, decidi que a minha felicidade fará sempre morada na minha alma e, assim, onde quer que eu esteja ela estará sempre me acompanhando, mesmo nos momentos mais difíceis que todos nós enfrentamos ou, mais cedo ou mais tarde, enfrentaremos.

E a sua felicidade onde mora? Saiba que você é livre para escolher e, então, correr atrás dela ou agir de tal forma que ela venha ao seu encontro,… Mas não fique aí, parado, esperando, pois ela não vem por inércia.

Ser feliz dá um pouco de trabalho. E, ao procurá-la, não o faça em lugares muito distantes, pois tanto faz se você está em Paris ou em um pequeno sítio interiorano, em uma praça ou em um caloroso abraço. Procure-a com as lentes do amor e você vai encontrá-la. Porém, cuide para que na pressa não passe desapercebido por ela, entremeada que está nas coisas simples da vida.

Que lindo o trabalho que fazes! Acho tão legal o jeito e a forma com que valorizas os textos dos teus convidados. Leia também: https://www.neipies.com/revolucao-pela-educacao-urgencia-de-uma-nova-consciencia/

Autora: Marilise Brockstedt Lech

Não está tudo bem!

“O Juca era da categoria das chamadas pessoas sensíveis, dessas que tudo lhes toca e tange. Se a gente lhe perguntasse: “Como vais, Juca?”, ao que qualquer pessoa normal responderia “Bem, Obrigado!” – com o Juca a coisa não era assim tão simples.” (Mario Quintana, Caderno H, p. 73)

Eu não sei você, caro leitor, mas eu sou um tipo explícito de Juca, eu nem ao menos tento esconder, na verdade, eu nem mesmo consigo. E perguntar se está tudo bem, pra mim, é como abrir um portal.

A primeira parada, para o meu interior. Assustador, incomoda-me o fato de me incomodar ao ter receio de olhar para dentro e correr o risco de me deparar com emoções incômodas. Mas, não é só isso, a segunda parada é para fora. Incomoda-me mais ainda aquela sensação de não poder expressar as minhas emoções, ou pior ter que menti-las!

Eu sempre engasgo com essas perguntas. Na verdade, achei até uma forma mais confortável e autentica de responder: Oi, tudo bem? Bem, na medida do possível. Seria um modo mais popular de adaptar a frase “dentro das minhas condições de possibilidade” (para ser mais Kantiana). Percebam, é genuíno!

No entanto, aqui entra aquela história do copo meio cheio ou meio vazio.

Para algumas pessoas, essa resposta pode parecer pessimista, além de estranha aos ouvidos. Algumas pessoas, realmente preocupadas comigo, por vezes, até perguntam: o que houve? E isso me assusta. Assusta porque involuntariamente e diariamente somos forçados a encaixar a vida em uma métrica ilusória de felicidade: está tudo bem!

Sendo um pouco mais otimista, soletrar esse mantra pode até mesmo esconder uma tentativa de aceitar que as coisas não estão bem, mas elas vão ficar caso você pensar positivo. Não há nenhum problema em ver as coisas dessa forma, desde que você faça alguma coisa para melhorar. Sejamos sinceros, não é o caso, se tratando de emoções, principalmente as negativas. E ouso dizer que a maioria de nós nunca parou nem ao menos para refletir sobre isso…

Segundo Brackeet (2021), a mensagem clara é que devemos esconder os sentimentos negativos – não apenas escondê-los, mas usar uma máscara para dizer ao mundo o oposto da verdade. Está tudo bem!

“Por mais estranho que isso pareça, há algo profundamente comovente nesse sentimento. Ficamos comovidos com a ideia de mascarar emoções negativas por trás de uma manifestação de alegria. Em algum nível achamos estranhamente enobrecedor quando alguém esconde sua infelicidade. (…) Mas, por quê? Para encobrir as emoções que associamos com vulnerabilidade e perda e mostrar ao mundo que não somos afetados pelo menos na superfície.” (Brackeet, p.141, 2021).

Bem, isso explica um pouco do meu engasgo ao não querer acessá-las. Isso explica também como a gente implode, um pouquinho por vez, todos os dias.

Eu sei, talvez seja um preciosismo meu ou até um exagero atucanado com as palavras.

Talvez, isso tudo não passe de uma mera convenção social que não deveria ser levada tão a sério. Eu compreendo que dizer que está tudo bem não é o mesmo que dizer que está TUDO bem (alguém me responde porque é que a gente faz isso, por favor?!). Até porque isso é impossível, sejamos francos, alguma coisa está bem outra nem tanto (a não ser que você esteja embriagado por altas doses de positividade tóxica ou álcool mesmo). Mas, tudo, tudo mesmo seria possível?

Analisando a fundo, é uma forma de quebrar o gelo ao iniciar a conversa, criando uma conexão de forma gentil, ao demonstrar que você se importa (por mais que muita gente não tenha a mínima noção disso e esteja pouco se lixando para você). O resto é teatro.

Ninguém diz o que realmente sente, e nem ao menos podemos levar essa pergunta a sério, pois tiraria todo o foco do que vem na sequência (a não ser que você esteja em terapia ou desabafando, é claro).

Já imaginou?! Chegando no trabalho…oi, tudo bem? Não, sinto-me triste, meu gato foi atropelado, comi um ovo estragado e você vai sentir isso antes mesmo que essa frase chegue aos seus ouvidos. Dois segundos depois que você estilhaçou o clima, ela com certeza esqueceu o que realmente gostaria de perguntar (sorte a sua se fosse para fazer algo que você não queira, azar se fosse para oferecer um café).  

O mais contraditório ainda é perceber que se você não iniciar uma conversa perguntando se está tudo bem, a pessoa pode até mesmo lhe considerar um insensível mal-educado. Mesmo sabendo que você nunca falaria a verdade – mesmo sabendo que, às vezes, nem ela se importa com o que realmente está sentindo.

O maior problema mesmo é que com esse costume, acabamos por banalizar o sentido de uma pergunta importante. Muito perigoso principalmente quando a pergunta se reporta aos nossos sentimentos. Perceba, dia após dia somos ensinados a atropelá-los com um rolo compactador.

Funcionaria, se as emoções não fossem “descartadas” em uma panela de pressão.

Mas, nem só de reclamações vive este texto, pois, além de cair em crise existencial com a pergunta, eu também me ocupo encontrando formas mais sensíveis de não deturpar a nossa sensibilidade.

E a primeira regra é: não banalize o sentido das palavras. Ou seja, não pergunte se está tudo bem, quando você não deseja saber, não tem intimidade ou não possui tempo para escutar genuinamente aquela pessoa. Ok, mas, o que fazer para não parecer um mal-educado?

A primeira resposta é minimalista. Diga “bom dia”, e em seguida coloque a questão de foco. É simples e generoso, pois demonstra que você deseja que o dia daquela pessoa seja bom. Mas, eu tenho um problema com o bom dia, principalmente, quando eu digo ele de tarde e sempre existe aquele infeliz ser humano que vai me corrigir: não almoçou hoje? Boa tarde?!

Como disse, a questão é minimalista e bom dia deveria servir para o dia – que tem 24h. Caso você for Cartesiano e desejar fragmentá-lo, sejamos mais coerentes, passemos a utilizar boa manhã, boa tarde e boa noite.

Se a estratégia minimalista lhe pareceu seca demais, você pode dizer: Bom dia, desejo que você esteja bem! Eu considero uma maneira objetiva e genuína de desejar o bem para aquela pessoa, sem ser inadequado e teatral. É o mesmo que dizer, este não é o momento de falar de emoções, mas, seja lá pelo que você estiver passando eu desejo fique bem. Fica tudo nas entrelinhas, mas, a gente entende.

Por mais que às vezes eu sinta que algumas pessoas realmente acham que, ao dizer “desejo que você esteja bem”, eu pense ou saiba que aconteceu algo de errado com elas. Isso acontece principalmente em cidade pequena, em que todo mundo sabe da vida de todo mundo, sabe?! Muitas inclusive respondem sem eu perguntar: estou bem e você?! Quase que como um descargo de consciência que diz, não há nada de errado comigo (não?!).

E existe aquela que para mim é implacável, mas eu confesso que se as pessoas não entenderem o significado, elas vão debochar da sua cara e é por essas que eu não uso muita ele aqui no Brasil (como se eu já tivesse saído do país). Que seria o Namastê! Aquele gesto das mãozinhas unidas, como em oração, que expressa um grande sentimento de respeito pelo outro, algo que em si faz invocar o interesse em ouvir, porque nem se quer a gente fala! 

E por fim, possuímos também a versão reflexiva, ou seja, aquela que faz as pessoas pensarem no que eventualmente significa tudo: Oi, tudo bem? Não está tudo bem, mas, nem por isso quer dizer que está tudo mal. Eu gosto dessa, pois parece aceitar a vida como ela é, e assim, como diria alguns Estoicos, fica mais fácil de se preparar para as adversidades.

Antes de finalizar, gostaria de deixar algumas coisas claras. Eu realmente compreendo a riqueza da linguagem e que a mesma palavra pode ter sentidos completamente diferentes. Nesse caso, um tudo bem também pode indicar concordância e aceitação (está tudo bem não estar tudo bem). Pode até mesmo ser um código que te libera a continuar a conversa e apenas isso, sem drama!

Mas, desafiei-me a escrever este texto com o intuito de demonstrar como algumas palavras ingênuas podem surtir efeitos, principalmente, em pessoas altamente sensíveis, e óbvio, também foi uma busca pessoal para tentar resolver esse incômodo.

Palavras diferentes, sentidos diferentes para a mesma palavra, “tudo” serve desde que pensemos a respeito. E esse é um ponto importante, refletir, principalmente naquele modo corriqueiro e automático de lidarmos com as nossas emoções, tudo bem?!

Bem pessoal, chegamos ao final de mais um texto reflexivo! Espero que essa reflexão possa ter contribuído, de algum modo, com a sua vida.

Se possuir interesse em conferir mais deste conteúdo, você pode clicar nos meus textos aqui em baixo ou conferindo os meus vídeos pelo youtube, procurando pelo canal Diálogos da Ana! https://www.youtube.com/channel/UC0_oBeGUwF2ce2YdL9-1GSQ

Autora: Ana P. Scheffer

Fome!

Há grupos organizados que definem quem come e quem não come, quem pode ter casa para morar e quem não pode, já que a carência alimentar do corpo é cruel e seletiva e a moradia é um privilégio!

Dia desses, rolando os posts no FB, passei por um anúncio que dizia: “descubra como é morar em uma obra de arte”. E discorria sobre um lindo prédio de apartamentos à venda. Aí pensei: quem não gostaria de morar em uma obra de arte? Até imaginei alguém morando em uma casa pintada por Monet, Van Gogh ou Munch…

Mas esse pensamento foi breve. Logo outro se agigantaria, num inevitável contraponto, porque ver é sempre ir além do que se enxerga.

Surgia, assim, o Invisível, as imagens das pessoas que vivem nas ruas, as crianças, os cães e os parcos pertences, amarradinhos em sacos plásticos, lotando praças e chãos gelados sob marquises – o frio e a fome assolando suas almas e corpos, em tantos lugares, grandes ou pequenos, perto ou longe de mim.

E pensei, num pensamento sólido, nelas e neles, e a bruma de seres humanos invisíveis foi se formando. Era possível, no entanto, ver o apagamento deliberado, tornando esse povo um fio de quase nada, sem identidade no complicado tecido social, varridos decididamente das possibilidades que a própria existência teria de lhes garantir, nesta sociedade dita democrática…

Foi quando um outro pensamento insistiu em esvoaçar sobre meu coração: como pessoa que vive na mesma “casa comum”, respira na mesma atmosfera, preciso urgentemente ver! Mas como ver o Invisível?

Não vou discorrer aqui sobre a forma através da qual a Filosofia e seus estudos fenomenológicos tratam a questão do “invisível”, embora esse recorte seja fascinante, porque meu fascínio repousa na praça e nas ruas, na concretude da pedra, donde também vem minha fome. (Apenas aproveito um pouco do que Agostinho de Hipona diz quando sugere que, para ver, é preciso mediações. Dessa forma, Agostinho louvava insistentemente a criação e as criaturas, como a louvar o próprio Deus, através dessas mediações d’Ele!)

A partir daí, para ver o Invisível, vou em busca de algumas mediações que sangram a nossa realidade: higienização social e preconceito; desigualdade de oportunidades, descaso para com as/os mais vulneráveis; sistema prisional dissipado por uma sociedade cega para essa realidade;  escola, enquanto instituição segregadora e seletiva, haja vista o obsoleto sistema de avaliação, presentificando ainda  a “promoção” (passar de ano/rodar- suposta seleção epistemológica); sistema de saúde pública, a par de seu modelo exemplar, (e embora heroico na Pandemia), com adversidades crônicas que atingem sempre os pobres; a terra nas mãos de pouquíssimos!

O que tudo isso tem a ver com quem vive nas ruas? Tudo, já que há grupos organizados que definem quem come e quem não come, quem pode ter casa para morar e quem não pode, já que a carência alimentar do corpo é cruel e seletiva e a moradia é um privilégio!

Então me deparo com meu construto de vida: quero ter fome, sim, de luta para poder ver o invisível! E então fico com a Adélia Prado: “Não quero a faca nem o queijo, quero a fome”! E sigo.

Agradeço a oportunidade de escrever neste sentido e somar-me aos esforços de outros tantos e tantas pela humanização, através do conhecimento. Leia também:https://www.neipies.com/aprender-a-desaprender-construindo-a-esperanca/

Autora: Ir. Marta Maria Godoy

“A culpa que tu carrega não é tua”: reflexões sobre a violência contra a mulher em projeto de enfrentamento

A partir desta experiência é possível demonstrar o necessário debate sobre o papel social da mulher na luta por direitos sociais, pela equidade de gênero, no âmbito da sociedade civil e domínios institucionais e especialmente na escola.

Instituída em 2006, a Lei Maria da Penha, que trouxe maior rigidez na punição contra crimes de violência doméstica no Brasil, é considerada pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher uma das leis mais avançadas do mundo, produzida e pensada junto da sociedade civil e dos movimentos sociais que já trabalhavam com o enfrentamento à esse tipo de violência.

Ao mesmo tempo, o Brasil produz dados expressivos relacionados à violência contra a mulher: tem a quinta maior taxa de feminicídio no mundo, e, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 4,8 a cada 100 mulheres são vítimas de violência.

O tema exige uma luta coletiva: é um grande desafio articular as políticas diversas que estão relacionadas ao combate a violência de gênero sob uma perspectiva educativa e formativa, especialmente sob a égide das novas organizações curriculares, em que as disciplinas em que há espaço para a discussão do tema têm pouco espaço.

O projeto “A culpa que tu carrega não é tua: relatos de violência e práticas de sororidade”, realizado durante o ano letivo de 2022 no Instituto Estadual Cecy Leite Costa, foi pensado como uma atividade de enfrentamento a esse contexto. Partimos da ideia da existência da naturalização da violência contra a mulher na sociedade, que se mostra tanto na banalização do tema quanto das próprias práticas de violência.

O projeto foi concebido igualmente como um espaço de resistência e produção de sentido, docente e discente. Em espaços exclusivos para o corpo discente feminino, propomos uma introdução ao tema por meio de diferentes ferramentas, como dados estatísticos e evidências presentes cotidianamente, a exemplo de notícias publicadas nas redes sociais de dois dos maiores veículos de comunicação de Passo Fundo e do Rio Grande do Sul e os comentários deixados por algumas pessoas nas postagens.

Na discussão com as estudantes, foi possível relacionar os dados estatísticos às evidências – tanto as apresentadas quanto casos trazidos pelas estudantes – que mostram um discurso perene de culpabilização das mulheres por violências que sofrem, bem como a disseminação de discurso de ódio às mulheres, de forma geral.

A intenção em tematizarmos a violência presente no dia-a-dia configurou-se como forma de introduzirmos as estudantes nas discussões do tema de forma de reforçar a presença das ideias de dominação, exploração e práticas violentas contra à mulher naturalizadas na sociedade, na perspectiva de que agem na produção, corroboração e reprodução de desigualdades, e resultam na manutenção das estruturas sociais e culturais ao longo do tempo.

A partir deste movimento inicial, os encontros focaram na viabilização de conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, suas implicações e todas as formas de violência previstas no texto da lei; exposição e diálogo sobre experiências cotidianas, auxílio e elaboração de relatos de violência naturalizadas e direcionadas às meninas e por fim uma comparação entre os dados da violência contra a mulher, os relatos produzidos pelas estudantes e a perspectiva do corpo discente masculino a respeito do tema (que recebeu um questionário de participação voluntária).

O trabalho educativo, por meio do projeto, se caracterizou como uma atividade dialética, exigindo das professoras articulação entre a realidade, expressa não apenas nos dados estatísticos, mas nas falas das estudantes, junto da identificação dos elementos culturais e sociais que pudessem encontrar sentido junto das estudantes e colaborar na promoção de mudanças no ambiente escolar e fora dele. 

Entendemos o projeto como o início de um movimento que propõe uma cultura de responsabilidade ética, profissional e política para a formação e capacitação de meninas por professores da Educação Básica, cujo resultado seja um corpo discente capaz de compreender a realidade em que está inserido e relacionar as práticas de violência descritas na lei Maria da Penha às suas vidas e relações pessoais.

A partir dos encontros do projeto, as estudantes puderam relatar suas experiências de violência, sofridas por elas ou por mulheres de seu entorno, que nem sempre se configuram como crime, mas que estão enraizadas em uma cultura machista e misógina e as atingem por meio de discursos cotidianos. A referência para a produção dos relatos foi a hashtag “#MeuAmigoSecreto”, ação desenvolvida nas redes sociais em 2015 e que repercutiu largamente naquele contexto. Cada estudante pôde registrar sua experiência de forma anônima, com a possibilidade ou não de dividi-la com as outras participantes em voz alta, por intermédio das professoras.

A experiência possibilitou a construção de um espaço de exposição, no dia 30 de novembro, Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher, com todos os relatos, que foram digitalizados, impressos e expostos em uma sala temática no contexto de um evento de mostra escolar. A exposição foi construída pelas próprias participantes, que puderam ver seus relatos divididos com toda a comunidade escolar e após replicados em outras duas exposições, em outros espaços.

A produção e exposição dos relatos ajudou no cumprimento de um dos objetivos do projeto: auxiliar na compreensão de que a violência contra as mulheres, naturalizada em discurso, é cotidiana e, infelizmente, trata-se de uma experiência que todas temos em comum.

Como contraponto, os relatos do questionário respondido pelos meninos apresentou uma perspectiva interessante. Quando questionados sobre como o machismo influenciava ou afetava suas vidas, os estudantes responderam majoritariamente que não os afetava em nada, e muitos expressaram não considerar o tema como um assunto pertinente de ser discutido.

A opressão da mulher reúne um conjunto de práticas e discursos que puderam ser observados com a experiência deste projeto, que ofereceu um ambiente de construção de instrumentos de resistência junto das estudantes. Enfatizamos, a partir desta experiência, que é possível e necessário o debate sobre o papel social da mulher na luta por direitos sociais, pela equidade de gênero, no âmbito da sociedade civil e domínios institucionais e especialmente na escola.

Não há como pensarmos em uma promover uma cultura de crítica que alcance a mudança das práticas culturais e sociais sem considerarmos a escola como um dos espaços em que a reprodução das práticas de violência contra a mulher está em plena atividade.

Conheça esta experiência também através deste vídeo postado no Instagram: https://www.instagram.com/reel/ClZ6_t-j_KH/?igshid=NDk5N2NlZjQ%3D&fbclid=IwAR3NGHH94UxzQHIDmA3YvgJhKXt4_SB15gSWsVluN9PmS5-ryCt1L9Jx7UY

Autoras: Letícia Mistura (Mestra em Educação)

Thainá Battesini Teixeira  (Mestranda em História), professoras coordenadoras do projeto.

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