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Nos limites da biosfera

Deixa o mato crescer em paz
Deixa o mato crescer
Deixa o mato

Não quero fogo, quero água (Deixa o mato crescer em paz)
Não quero fogo, quero água (Deixa o mato crescer)

(…)

Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar
Deixa a anta cruzar o ribeirão
Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio

(…)

Deixa a onça viva na floresta
Deixa o peixe n’água que é uma festa
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa (Deixa)

(Tom Jobim, Borzeguim)

Nosso antropocentrismo dominador, cada um sabe, tem um jeito próprio: o planeta já aqueceu 1,1°C desde a era pré-industrial (1850-1900), dos quais 0,2°C ocorreu no último quinquênio, entre 2011 e 2015 (Organização Meteorológica Mundial – OMM, 2019); desde 1990, aponta um amplo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), a Terra perdeu 28,7 milhões de hectares de florestas que ajudam a absorver as emissões nocivas de dióxido de carbono da atmosfera; e, agora mesmo, 1 milhão de espécies de plantas e animais estão em risco de extinção.

Claramente determinada pela ação antrópica, não há como negar: seguimos produzindo uma lista de riscos ecológicos já extensa e em avançado curso. E para começo de conversa, vale lembrar: extinção em massa de espécies, erosão de biodiversidade, fragmentação de habitats (especialmente em zonas tropicais), poluição químico-industrial1, aniquilação biológica, destruição da camada de ozônio, emissões de carbono, atmosfera poluída, ciclo de chuvas irregulares, crescimento do consumo e da descartabilidade, planeta plastificado2.

Num termo mais decisivo, sejamos francos: distante de tornar o nosso modo de vida sustentável, e com claras dificuldades de atingirmos uma vivência socioambiental segura, tentamos nos adaptar diante de um grave colapso sistêmico global. Mais concretamente, o agir humano sem compromisso ambiental, herança da modernidade, elimina qualquer dúvida consistente: em toda a nossa história, nunca havíamos provocado significativas alterações do ecossistema, tampouco havíamos agredido a natureza com agrotóxicos e com uma agricultura industrial poluidora.

Ponto de partida, agora mesmo, diante de um meio ambiente empobrecido biologicamente falando e de ciclos ecológicos do planeta (o ciclo da água, do carbono, do oxigênio, do nitrogênio) cada vez mais afrontados pelo antropocentrismo dominador, estamos batendo no teto da capacidade biofísica do sistema terrestre, próximos de exceder os limites da natureza.

De toda forma, convém esclarecer: nunca, antes, estivemos tão perto de matar as zonas oceânicas por excesso de nitrogênio3. Com efeito, jamais havíamos abalado os alicerces de todo o sistema vida; e nem mesmo destruído espaços vitais da natureza, como estamos fazendo agora, a ponto de transformar boa parte da estrutura geológica (a face) da Terra. Nesse contexto, um terço das terras aráveis do mundo estão improdutivas. Foi constatado: três quartos do ambiente terrestre e 66% do ambiente marinho sofreram severas modificações, quer dizer, consolidou-se, na prática, enorme déficit ecológico global.

Serve de exemplo: de 1980 para cá, metade da vida selvagem4 já morreu. De forma ilegal e criminosa – e o caso da Amazônia, a maior fronteira de recursos naturais que o planeta concebeu, é altamente significativo -, mais de 80 mil quilômetros quadrados de floresta desaparecerem de nosso campo de visão.

Seja como for, isso nos ajuda a entender o momento atual. No ponto ecologicamente insustentável que nos encontramos, em meio às acirradas mudanças climáticas e a mais gritante perda de biodiversidade, “maldições gêmeas”, como gosta de dizer a consagrada primatologista britânica Jane Goodall, pesa-nos admitir que nunca derrubamos tantas árvores e queimamos tantas áreas florestais (onde vivem 80% de todos os animais, plantas e insetos, e a maior parte encontra-se ameaçada) como nesse momento.

Triste constatação, parece mesmo, de facto, que nos especializamos em invadir os hospedeiros naturais e em acumular destruição das coisas naturais. Nossos mares continuam sobreexplorados pela sobrepesca que, agora mesmo, comprometem agora mesmo 55% dos recifes do mundo. Também em estado crítico, os mananciais da Terra (superficiais e subterrâneas), num nível cada vez mais degradado, secam em velocidade assustadora. Desde os anos 1960, o número de áreas marinhas pobres em oxigênio, segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (Unep, na sigla em inglês), vem dobrando a cada década5.

De modo próprio, fazendo breve resumo, seja no mundo das águas ou no ambiente terrestre, nenhuma área conhecida está a salvo das consequências de nossas ações produtoras de complexos problemas de degradação do planeta.

Resultado: pela primeira vez estamos nos limites da biosfera.

*

E tem mais: Nessa sociedade de dominação, a esta altura, estamos conscientes – ou ao menos deveríamos estar – de que o ar que respiramos6 (muito mais tóxico) e as nascentes, devido à falta de práticas agrícolas conservacionistas, continuam bastante poluídos e contaminadas. Especialmente no mundo das águas, não é segredo, diante de muitos outros problemas contemporâneos, formamos agora imensas ilhas de plástico. São enormes bolsões de lixo antropogênico no mar. A maior delas, e de longe a mais assustadora, é a Grande Ilha de Lixo do Pacífico, localizada na parte norte do Oceano Pacífico, aproximadamente uma área de 1,6 milhões de quilômetros quadrados.

Água poluída, resumindo em termos bastante óbvios, é reconhecido sinônimo de morte precoce. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), apontam que 1 em cada 3 pessoas no mundo não tem acesso à água potável; na verdade, nem chegam perto da possibilidade de consumir água tratada.

Moral da história: nos países pobres, a ONU estima que o não acesso à água potável, notadamente em ambientes insalubres, responde por 80% das mortes.

Em todo caso, falamos aqui de modo direto sobre riscos e ameaças cada vez mais insustentáveis que abalam a saúde e a segurança humanas. Esses riscos e ameaças, cabe breve esclarecimento, não são de agora, vem de longe.

Desde 1970 para cá, os cientistas confirmam, dobramos nossa pegada ecológica. Isso quer dizer que a quantidade de natureza que a humanidade faz uso para manter seu próprio (e insustentável) estilo de vida já excede em 50% a capacidade de regeneração e absorção do planeta. Na esteira desse referenciado problema estrutural, asemissões de gases de efeito estufa saíram de 1,28 ppm (partes por milhão), em 1970, para 2,4 ppm, na última década.

Igualmente crítico, nunca havíamos emitido tantos gases de efeito estufa num ritmo tão declaradamente acelerado.7 Nunca, antes, havíamos gerado os mais variados problemas e descompassos socioambientais que indubitavelmente recaem sobre nós mesmos. A começar pela informação relevante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, IPCC, destacando que, desde a metade do século passado, 1950, os eventos extremos (fenômenos climáticos e/ou meteorológicos fora dos níveis considerados normais) aumentaram de frequência na maioria das áreas terrestres conhecidas do planeta.

Essencialmente, a questão de fundo, para todos os efeitos, está cada vez mais clara: as marcas humanas, ou reflexos de nossas atividades econômicas produtivas, incluindo, é claro, o uso irresponsável de recursos hídricos e a agricultura insustentável dos últimos séculos, contadas desde o início da Revolução Industrial, 1750, até os dias de hoje, nos levam ao impasse, ao limiar do perigo, uma vez que impactam tanto no seio da vida moderna quanto no oikos (ambiente habitado)que nos abriga.

E isso tudo, a rigor, precisa ficar muito claro: pela ação antrópica, passamos a pressionar com muito mais intensidade os recursos naturais, afetando diretamente a vida de plantas, animais e vegetais. Razão pela qual, o que temos feito até aqui, em detrimento da biodiversidade, deixa em evidência a nossa completa falta de responsabilidade socioambiental, referência característica do antropocentrismo dominador.

Tempos sombrios em termos de futuro ecológico, a poluição do ar (quinto fator principal de risco de morte no mundo), sempre um problema global que tantas doenças lega à humanidade, responde atualmente por 16% das mortes no mundo todo. E para continuar falando aqui de outros tipos de poluição, vale saber que, desse momento atual até por volta de 2050, se não mudarmos nosso insustentável estilo de vida consumista, muito provavelmente haverá mais lixo plástico do que peixes em nossos oceanos.

Todavia, certo mesmo é que os oceanos, os maiores ecossistemas conhecidos, além de receberem todos os anos mais de 8 milhões de toneladas de plásticos, num nível de poluição marinha jamais visto antes, ainda seguem sobrecarregados de carbono, poluição bastante danosa que ameaça o equilíbrio trófico.

Estimativas indicam que todos os anos, em várias partes do mundo, geramos uma montanha de resíduos sólidos urbanos. Uma parte vai para o lixo e aterros, outra parte termina no mundo das águas. Em geral, fala-se em mais de 1,2 quilos per capita ao dia, em média, ou mais de 2 bilhões de toneladas de lixo por ano, em todo o mundo.

Em geral, enquanto a tríade petróleo-carvão-gás mantém de pé o atual e nocivo padrão energético e faz a economia global rodar sempre com mais força e dinamismo, ainda mais longe nos encontramos de equilibrar as três dimensões que andam juntas: ambiental, econômica, social.

Situação em clara evidência, agora mesmo está em avançado curso uma gravíssima crise de recursos hídricos – a crise da água no planeta, ou, didaticamente falando, o problema da escassez de água potável, um entre os dez maiores impactos que o planeta enfrenta.

Nesse pormenor, enquanto a ONU alerta que 25% da população mundial não tem condições mínimas de beber água potável, estudo publicado em Science Avances deixa claro que 71% da população mundial sofre por um mês a cada ano com a falta de acesso à água potável.

Triste constatação, lembremos que, no mundo todo, mais de 2 bilhões de indivíduos sequer consome água potável, faz higiene adequada ou ingere alimentos saudáveis, livres de agrotóxicos.

Em última análise, num levantamento global, 4,4 bilhões de pessoas não conseguem alcançar diariamente saneamento básico gerido de forma segura. Desses, seguindo dados apontados pelo Fundo de Emergência Internacional para Crianças das Nações Unidas (UNICEF), 892 milhões defecam ao ar livre. Em face de tais circunstâncias, a mesma Unicef, em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS), aponta que mais de 1 milhão de crianças menores de cinco anos morrem, todos os anos, devido a diarreia, a segunda doença que mais faz vítimas entre as crianças, perdendo apenas para a pneumonia.

De toda sorte, se estamos longe de pensar na desejada possibilidade de equilíbrio planetário, estamos perto, bem perto, de observar o agravamento das condições socioambientais do mundo que habitamos e que seguimos marcando a tragédia ecológica desses tempos de incertezas.

Em uma primeira aproximação, sempre a partir do agir humano, há quem afirme que, à luz do avanço do capitalismo moderno, o quadro de adversidades ambientais está bem definido. “No Antropoceno”, escreve John Bellamy Foster, “o capitalismo está criando fissuras antropogênicas nas espécies, nos ecossistemas e na atmosfera, gerando uma crise socioecológica”.

Realidade inquestionável, onde o homem consegue marcar presença, os ambientes físico, químico e biológico tem sido severamente modificados. De igual forma, ao justificar-se o desempenho da economia de produção em detrimento da preservação ecológica e da proteção ambiental, o resultado está à vista de todos: profunda alteração no âmbito do meio ambiente, seja no rico mundo das águas, seja no mundo das terras e solos conhecidos. Sendo curto na resposta final, isso implica dizer que estamos deixando às próximas gerações um planeta vulnerável do ponto de vista socioambiental.

Notas:

(1) Vale notar: especialmente a produção de produtos químicos, seguindo de perto à análise do Centro de Resiliência de Estocolmo, aumentou 50 vezes, desde a metade exata do século passado.

(2) Desde meados do século passado, estima-se que tenha sido produzido 8,9 bilhões de toneladas de plástico, sendo que dois terços desse total, 6,3 bilhões de toneladas, viraram lixo.

(3) Estima-se, para todos os efeitos, que em todo o mundo sejam usadas, a cada ano, 120 milhões de toneladas de nitrogênio.

(4) No detalhe: não se trata apenas dos animais não domesticados, mas também das plantas e de outros organismos que crescem e vivem em ambientes dito selvagens.

(5) Os especialistas falam em, pelo menos, 700 áreas em todo o mundo em que o oxigênio está em níveis declaradamente perigosos.

(6) O alerta da OMS causa perplexidade: cerca de 99% da população mundial respira ar de má qualidade. Foram observados 6 mil pontos ao redor do mundo. Regiões como leste do Mediterrâneo e do Sudeste asiático, seguidas pelo continente africano, apresentaram níveis da qualidade do ar mais comprometidos. Conforme voltaremos a mencionar, 7 milhões de mortes evitáveis, todos os anos, são devidos à poluição do ar.

(7) A saber: em nosso caso em particular, já no final da década de 1980, o Brasil aparece no ranking das nações que mais emitem gases de efeito estufa.

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira

Autor de Civilização em Desajuste com os Limites Planetários, (CRV, 2018), entre outros.prof.marcuseduardo@bol.com.br

Depois daquele olhar

Nosso conhecimento científico, que nos permite usar informação de forma discriminada, é um conhecimento humano de mundo. Formatamos mentalmente um universo humanizado.

A cena emblemática é descrita pelo professor de psicologia da Universidade de Chicago, Eugene T. Gendlin, em artigo que assina no Journal of Consciousness Studies, v.6, n.2-3, 1999, p. 232-237: A new model. Um cientista chega à casa e olha nos olhos do filho pequeno, que lhe retribui o olhar. Não dizem nada. Imagino que, pelo menos interiormente, tenham sorrido um para o outro. E o cientista pensa: que triste que você é apenas uma máquina! (Isn’t it sad that you are really just a machine!)

O exemplo não faria tanto sentido, caso o modelo de prática científica mais bem sucedido, até agora, não fosse exatamente o de universo visto como uma máquina, tal qual preconizou René Descartes. Em que imaginamos ou admitimos conhecer algo apenas quando depois de separado em suas partes fundamentais (unidades componentes) conseguimos reconstruir o todo. É o reinado absoluto das disciplinas na ciência e das especializações nas áreas técnicas.

Não obstante todo o mérito e as contribuições deixadas pelo pensamento cartesiano na ciência, esse é apenas um método. Felizmente, há outros.

Muitas propriedades desaparecem (e outras surgem), quando um sistema é reduzido às suas partes componentes para depois ser reconstruído como se fosse uma máquina. O modelo ecológico tem uma visão oposta: tudo faz parte do todo. Por isso é ilusório pensar que é possível conhecer plenamente uma parte isolada do todo ao qual pertence.

O modelo ecológico (holístico) de ver as coisas não substitui o anterior; antes, interage com o método analítico, ampliando seu alcance. Todavia, também esse modelo tem suas limitações, especialmente quando precisamos incluir a nós, os seres humanos, no contexto. Assim, nem as unidades fundamentais e nem o todo parecem ser suficiente.

Um terceiro modelo, baseado em processos, tem sido visto como solução alternativa. Processos podem criar novos todos e, fundamentalmente, são processos que estão por trás da base de funcionamento de qualquer todo.

O uso do método científico, entendido como um conjunto de procedimentos que obedece a regras definidas, é que permite a formação de um corpo de conhecimento possível de ser partilhado entre indivíduos de uma mesma sociedade. Esse corpo de conhecimento é tanto objetivo quanto subjetivo. A subjetividade, nesse caso, reside no fato de depender de observações e experiências individuais. Portanto, na ciência, embora haja quem negue, a subjetividade está sempre implícita na chamada objetividade.

A perspectiva de uma ciência praticada essencialmente na terceira pessoa é falsa. E aqui não se trata de uma mera questão de pessoalidade no sentido gramatical (1ª e 3ª pessoas: Eu e Ele). São muitas as controvérsias filosóficas (e epistemológicas) que não nos permitem ignorar a importância da primeira pessoa (o Eu), especialmente com o sentido de consciência.

Não obstante, seja lugar-comum a crença na impessoalidade da ciência, há, no caso dos sistemas vivos, experiências que não podem ser derivadas meramente a partir da perspectiva da terceira pessoa (externa ao indivíduo). A visão interna é um componente ativo e manifesto na prática científica.

Lamentavelmente, a subjetividade na ciência tem sido deixada de fora ou, no mínimo, não adequadamente considerada. Também não pode ser ignorado que qualquer experiência científica envolve o risco de deformar a realidade simulada pelo método ou até mesmo de aquilo que está sendo objeto de experiência não passar de uma criação do próprio método. Esta é uma dimensão oculta, mas nunca totalmente ausente. Por isso, o que hoje é considerado aceito pela boa teoria, amanhã pode ser falso. A inclinação natural da ciência é testar teorias.

Nosso conhecimento científico, que nos permite usar informação de forma discriminada, é um conhecimento humano de mundo. Formatamos mentalmente um universo humanizado.

Não sabemos como pensa e que é ser um sapo ou um ipê amarelo. E, mesmo assim, a ciência busca (e parece ter) poder para redesenhar plantas, animais e até nós mesmos.

A longevidade humana (uma espécie de imortalidade) pode ser substancialmente elevada, caso sejam silenciados os genes responsáveis pelo envelhecimento. A grande questão é: alcançado esse fim, em que nos transformaremos? Há dúvida se devemos ir adiante nessa empreitada, antes de nos redescobrimos como seres humanos.

O único acesso epistêmico que temos ao mundo é por meio de nossa consciência. Difícil mesmo é saber que é um homem consciente.

(Do livro Galileu é meu pesadelo, 2009)

Autor: Gilberto Cunha

A criatividade nos torna humanos

Revelamos e promovemos, com alegria e muita satisfação, histórias de vida que estão imbricadas com a humanização, seja através da arte ou da educação.

O entrevistado desta matéria é professor e ilustrador Lucas Chaves. Ele já viveu várias experiências com a arte mas, atualmente, foca mais nos desenhos e nas ilustrações que complementam obras como livros, apostilas, dentre outros.

Chaves é destes profissionais da arte empenhados e envolvidos com muita intensidade, interesse e responsabilidade. Conviver com ele, conhecer sua história e reconhecer o seu trabalho é uma missão e uma tarefa que apreciamos muito neste site.

Conheça Lucas Chaves por ele mesmo.

Como, quando e porque surgiu teu envolvimento com a arte?

Meu envolvimento com a arte surgiu desde criança, sempre estive neste ambiente. Meu pai e mãe são pessoas que trabalharam muito com a criatividade e gostavam de músicas e leituras diversas. Tudo isso foi também uma herança de meus avós. Por parte de meu pai, meu avô era poeta e minha avó pintora. Já minha mãe cresceu em uma família de mulheres que produziam muitas costuras.

Então, minha conexão com a arte sempre existiu. Meu irmão e irmã mais velhos consumiam diversas linguagens artísticas e, claro, me influenciaram também.

Com tudo isso, fui uma criança que desenhava e pintava muito. Consumia desde histórias em quadrinhos, animes, desenhos animados até jogos de computadores e videogames.

Na adolescência, participei de bandas de rock na cidade como baterista; cerca de cinco anos envolvido mais com a música. Porém, mais tarde, percebi que me interessava mais pela criação de imagens, elas me permitiam ter uma expressão mais legítima de minhas ideias. Assim, no momento de escolher uma faculdade, revisitei meus desenhos de quando era criança e percebi que deveria estudar Artes Visuais. Por sorte, na época só existia faculdade de licenciatura, isso me abriu a possibilidade de produzir e ensinar através da arte.

Além de professor do componente curricular Arte, és ilustrador. Existe alguma relação entre ser professor e ser ilustrador?

Existe sim. Uma das coisas que mais me mostram essa relação é quando alguns estudantes não conseguem resolver suas produções. Como tenho essa prática com a ilustração, consigo auxiliar melhor na solução de seus problemas nos trabalhos artísticos. Isso estimula bastante a criatividade. Quanto mais criativos, melhor solucionamos problemas e melhor nos expressamos. Acredito que na vida vale muito aprendermos sobre arte, seja qual for, nossa auto expressão contribui para nos conhecermos nesse mundo.

Outro aspecto é a influência da educação na ilustração, já percebi que minhas ideias como ilustrador algumas vezes mudaram a partir de aulas com exercícios criativos ou experimentação de materiais diversos. É uma relação mútua, as duas áreas podem se complementar de diversas formas.

Vês alguma relação entre a arte e a humanização?

Com certeza. A criatividade é o que nos torna humanos. Não lembro de ouvir falar tanto em saúde mental quanto no período da pandemia. Uma das coisas que contribuiu para isso foi o fato de algumas pessoas passarem a dedicar certo tempo para alguma criação artística.

Outra questão é nossa imersão no mundo digital. Ela apresenta muitos benefícios, porém ainda vejo que o excesso nos tira ainda mais a vivência no tempo presente. Em relação a isso, produzir algo artístico nos reconecta com nossa natureza e nos afasta um pouco da enchente de informações que chegam no celular, trazendo ao menos um pouco de fruição na vida.

Existe ainda o fato da apreciação de arte, ressaltando que visualizar muitas imagens e vídeos em uma tela pode ser bom, porém não podemos esquecer de apreciar a paisagem fora de nossa janela, aquela que está presente naquele momento.

Falo isso porque acredito que nossa humanização se faz muito sabendo equilibrar nossa vida presente com sistemas frenéticos de trabalho e de consumo de entretenimento.


Quais são suas maiores realizações e também seus maiores desafios no trabalho com arte?

Dentre as maiores realizações estão as publicações que pude fazer. Minha esposa escreveu dois livros infantis e um e-book dos quais ilustrei, são eles: A Mamãe que Pintava o Mundo, Contando a História da Arte e A História Acabou?

Com isso, pude produzir ilustrações para outros livros de autores independentes da cidade e da região, sendo: Poesias de Cantar História (Giancarlo Camargo) apostila ArqueoLogando / ArqueoLógicas (André M. Piasson – Ed. Acervus), dentre outros projetos em andamento.

Além do trabalho como ilustrador, sou professor no Habemus Ateliê, uma iniciativa da Cris, minha esposa, onde podemos ensinar arte para crianças, livres de muitas amarras do sistema de ensino regular nas escolas.

Dentre os desafios, acredito que o principal na ilustração é trabalhar com toda a parte burocrática e organizacional, afinal esta profissão não consiste em apenas desenhar. As etapas do trabalho para além da criação artística são pouco faladas e tão importantes quanto fazer uma boa arte.

Em relação ao ensino da arte poderia listar muitos desafios, mas penso que o maior de todos é o embate contra essa vida agitada e extremamente rápida que as crianças e jovens estão inseridos, muitas vezes sem nenhuma orientação.

Como o pessoal pode conhecer o teu trabalho como ilustrador?

Atualmente tenho dois portfólios, um de ilustração infantil, outro ainda em construção para o mercado da arte editorial e publicitária, aqui os links respectivamente:

https://lucaschaves.myportfolio.com/work; https://www.behance.net/johnlucasc.

Também tenho um Instagram onde posto alguns trabalhos em andamento ou fragmentos de projetos maiores: @lucas_chaves_ilustra. Além do Instagram do Habemus Ateliê: @habemusatelie.

Uma frase, um pensamento que diga algo sobre você.

“[…]apenas na liberdade pode haver criatividade. E só pode haver criatividade por meio do autoconhecimento.” (Jiddu Krishnamurti, em O Livro da Vida)

Uma potente pegada por empatia em livro

“Viva suas amizades mais improváveis. Ao final, ninguém sabe onde começa ou termina um ato de amor”. (N. A. Zanatta)

Nelceu Alberto Zanatta é formado em Pedagogia pela UPF, possui um curso de Teologia, SP, Faculdade Teológica Batista de SP e MBA pela Fundação Getúlio Vargas, em gestão de equipes.

Publicou e lançou, em Passo Fundo, neste dia 22 de junho de 2023, no espaço da Livraria Delta, Shopping Passo Fundo, o livro A planta, suas folhas e um sino.

Zanatta também é autor de várias crônicas, uma peça para teatro, um livro de poesias e crônicas em processo de impressão e um romance em fase inicial.

Desde adolescente, a escrita é um convite que se apresenta a ele de forma contundente e apaixonante. Sua vida tomou outros rumos, mas sua formação humanística o habilitou a retornar ao mundo dos livros, da criatividade e da imaginação literária.

Esta obra A planta, suas folhas e um sino trata de empatia e amizade, como também do descaso com a natureza, com as coisas da vida, com sua essência e propósito. Trata-se de um conto infanto-juvenil que tem por objetivo estimular a leitura, a interpretação de texto, provocar o debate em sala de aula, promover empatia…

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As mudas que trazemos em nós, da infância ou de outros tempos, nem sempre são bem compreendidas.

Se, para uma plantinha que não se conteve em um vaso, ser aceita em jardim estranho somou sorte e oportunidade, para uma criança, nem sempre rejeição pode resultar em crescimento.

Há um propósito em tudo, ouvimos, mas dependemos de olhos que nos observem, de mãos que nos acolham e nos ajudam a crescer.

Há sinos abandonados e mudos em todos os lugares neste mundo de rejeições e solidões. Precisamos fazê-los tocar.

Da exclusão para um ato de amizade ou amor, a estrada não precisa ser longa. Basta crescer. Mas, cuidado com as rejeições em seu jardim, porque um grande amor inesperado pode nascer em sua sombra, sem que você perceba.

Boa leitura!

Contato do autor: 55 41 9984-0057

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Registros do evento e do encontro amistoso com autor em Passo Fundo, RS.

Créditos fotos: Diogo Zanatta

As loucuras de nosso tempo

Se Erasmo de Rotterdam vivesse nos dias de hoje e visitasse nosso país, certamente iria escrever Elogio da Loucura II para satirizar a forma como estão sendo conduzidas as decisões fundamentais da vida de todos nós.

Reli recentemente algumas partes do livro Elogio da Loucura do humanista Erasmo de Rotterdam. Destaquei como emblemático para essa reflexão o seguinte trecho: “É a loucura que forma as cidades; graças a ela é que subsistem os governos, a religião, os conselhos, os tribunais; e é mesmo lícito asseverar que a vida humana não passa, afinal, de uma espécie de divertimento da Loucura”.

Erasmo de Rotterdam (1469-1536) foi um dos grandes renascentistas dos Países Baixos (atual Holanda) e ficou conhecido como o príncipe dos humanistas europeus.  Em sua obra Elogio da Loucura, escrita em latim, Erasmo fez uma crítica satírica da sociedade da época, atacando principalmente as deformações da Igreja Católica. Ao propor a renovação da Igreja e a volta aos ideais simples e nobres dos primeiros cristãos, tornou-se um representante do humanismo cristão e um dos grandes autores que promoveram o renascimento cultural na Europa do século XVI.

O termo humanismo é derivado do termo latino humanitas, que designa a educação do homem enquanto considerado em sua condição propriamente humana. A autonomia do ser humano é buscada pelos humanistas da Renascença por meio de uma volta à Antiguidade, a seus modelos e a suas diretrizes pedagógicas.

As chamadas “humanidades” (poética, retórica, história, ética e política) passam desse modo a constituir, sob a inspiração dos antigos, a base de uma educação destinada a preparar o homem para o exercício de sua liberdade. A liberdade, a tolerância religiosa, a capacidade humana de atuar sobre o mundo, a convicção de que o mundo natural é o reino do homem, são os fundamentos principais do humanismo renascentista.

A vida de Erasmo foi marcada por muitos percalços: apesar de ter convivido num ambiente onde se respirava a atmosfera humanística que imperava na Renascença, depois da morte dos pais foi enviado para receber uma formação religiosa que cerceava sua liberdade. Mesmo quando mudou-se para Paris, no Colégio Montaigu, para obter o título de doutor em Teologia, não conseguiu suportar a “prisão espiritual” que o afligia ao ponto de adoecer. Ao libertar-se das amarras eclesiais, passou a condição de escritor e mestre, viajando para muitas cidades e atraindo diversos alunos ricos que tinham condições de pagar por seus ensinamentos.

Na obra Elogio da Loucura, Erasmo faz a Loucura subir ao púlpito e de lá pronunciar uma crítica impiedosa aos juristas, aos filósofos escolásticos, aos nobres arrogantes, aos bispos luxuriosos, aos negociantes sórdidos e estúpidos, aos militares que julgavam ser suficiente atirar uma moeda numa bandeja para adquirir a indulgência que os deixaria puros e limpos como quando nasceram.

Elogio da Loucura foi uma das obras que mais abalaram seu tempo, funcionando como um verdadeiro panfleto revolucionário. Em pouco tempo tornou-se uma das obras mais consumidas por aqueles que voltavam de Roma indignados com os desregramentos dos papas e cardeais que viviam uma vida luxuosa numa visível contradição com os preceitos do cristianismo original.

Se Erasmo de Rotterdam vivesse nos dias de hoje e visitasse nosso país, certamente iria escrever Elogio da Loucura II para satirizar a forma como estão sendo conduzidas as decisões fundamentais da vida de todos nós.  Não faltariam elementos para denunciar a forma perversa com que “os representantes do povo” articulam para se autobeneficiar de maneira sórdida do dinheiro público.

A sátira se tornaria uma contundente denúncia a forma como certas religiões se apoderaram da ingenuidade do povo para promover o enriquecimento ilícito de “falsos pregadores”. Juízes, ministros, governadores, deputados, senadores, prefeitos, vereadores, empresários, policiais, professores, médicos, jogadores de futebol, celebridades e tantos outros estariam retratados nas distintas cenas que compõem as loucuras de nossa tempo.

Para aprofundar obra de Erasmo de Rotterdam, assista vídeo: https://youtu.be/s5gVcB2mY-I?t=41

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Por que escrevemos? O que nos torna escritores?

Escrever é uma arte, que pode ser aperfeiçoada para nos comunicarmos mais e melhor com os outros. Exige paciência, ambiente e concentração. Escrever é um trabalho e uma inspiração.

No dia 13 de julho de 2023, numa tarde de muito frio, num casarão que abriga as Letras, como acadêmico, realizei uma oficina com a temática Por que escrevemos? O que nos torna escritores? Comigo estavam 15 adolescentes/jovens, de diferentes escolas da rede pública municipal e a coordenadora do Projeto Identificando talentos, Dilse Corteze, confreira da Academia Passo-Fundense de Letras.

Foi uma alegria encontrar neste ambiente estudantes da rede municipal ávidos por conhecimento envolvendo leitura, escrita e literatura. É sempre uma grande motivação para um professor encontrar jovens leitores e escritores dispostos a encarar os desafios das letras e das palavras.

Como a metodologia proposta foi uma oficina, houve momentos de conversa e diálogo, intercalando as experiências do proponente com as experiências dos participantes. Houve registros e construção textual dos estudantes, conforme roteiro que segue. Houve também um combinado com eles, no sentido de que esta atividade resultaria na escrita de uma crônica (no caso, esta que você está lendo!)

Seguem reflexões que nortearam as provocações que fizeram a oficina acontecer, abordando o gênero literário crônica.

Por que escrevemos?

Acredito que escrevemos para nos humanizar, para nos tornarmos melhores seres humanos através da literatura. Mas a escrita também é prática social, quando reflete o cotidiano das nossas ações e nossas vidas; nos permite desvelar e revelar a realidade como ela é. Pode ser terapia, possibilitando que sentimentos e sofrimentos sejam melhor elaborados.

Escrever é uma arte, que pode ser aperfeiçoada para nos comunicarmos mais e melhor com os outros. Exige paciência, ambiente e concentração. Escrever é um trabalho e uma inspiração.

Quem escreve, pensa melhor, comunica com mais clareza e intensidade.

Escrevemos para mostrar aos outros que existimos, que estamos nos fazendo, nos construindo, nos conhecendo como seres humanos.

Como lembra Eduardo Galeano, “em realidade, a gente escreve para as pessoas com cuja sorte ou má sorte se sente identificado: os que comem mal, os que dormem pouco, os rebeldes e humilhados desta terra: que em geral nem saber ler”.

FRAGMENTOS DE ESCRITOS DOS ESTUDANTES:

“Depende de quem escreve, é algo bem pessoal: por amor, dinheiro ou fama. O meu motivo é terapia, no caos da minha vida, a escrita foi a solução”. (Estudante L. C., EMEF Georgina Rosado)

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“Eu escrevo para expressar e mostrar meus sentimentos, pois sem as poesias eu me sentia sozinha, sem utilidade, eu não me conhecia, não me entendia, não sentia nada”. (Estudante A. M., EMEF Arlindo Luís Osório)

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“Na minha opinião, queremos reconhecimento, precisamos mostrar que temos habilidades para os outros verem que somos capazes. Quando alguém não consegue expor sua ideia ou opinião por insegurança, ele costuma escrever para se libertar daquilo, seja um assunto crítico ou social ou pessoal”. (Estudante I. de M., EMEF Georgina Rosado)

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‘Escrevo por raiva, minha vontade de escrever vem pela raiva que a injustiça me causa. Eu quero que as pessoas entendam a minha raiva e eu faço isso escrevendo”. (Estudante T. L., EMEF Eloy Pinheiro Machado)

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“Escrevemos para contar algo, para julgar algo ou alguém, para falar o que sentimos, falar sobre sentimentos. Escrevemos para soltar a mente e expressar o que pensamos”. (Estudante N., EMEF Antonino Xavier)

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“Eu escrevo para organizar meus pensamentos. Escrever é meu universo pessoal, de conforto. Escrevo para ser feliz”. (Estudante L. B. R., EMEF Daniel Dipp)

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“Escrevo para transmitir amor para as pessoas, para aliviar minha mente das preocupações. Para as pessoas se identificar e ver que não é somente elas que sentem determinadas coisas”. (Estudante A. B., EMEF Santo Agostinho)

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“Escrevo para o leitor se emocionar, julgar, para as pessoas criarem sentimentos sobre o que estou escrevendo e para falar com todos”. (Estudante G., EMEF Padre José de Anchieta)

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“Para poder me encontrar na vida e para pôr o que sinto para fora sem ter que falar com outras pessoas. Para contar o que sinto, sem ser julgada e criticada por isso”. (Estudante I. T., EMEF EMEF Georgina Rosado)

As histórias dos escritores e escritoras

Cada participante escreveu, em breve texto, as motivações que o fizeram despertar e aperfeiçoar a escrita.

FRAGMENTOS DE ESCRITOS DOS ESTUDANTES:

“Eu iniciei no mundo da escrita produzindo histórias fictícias, partindo para a poesia logo em seguida, abordando temas sociais que já aconteceram ou estão acontecendo. Comecei a escrever para conhecer o mundo e descobrir até onde eu posso chegar e tudo o que eu posso conhecer, desde pequenas até grandes coisas”. (Estudante N. M. Z., EMEF EMEF Georgina Rosado)

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“Meu interesse pela escrita começou porque eu ia bem na escola, sobretudo em Língua Portuguesa, o que me trouxe a oportunidade de vir até a Academia Passo-Fundense de Letras. Aqui estou, tendo ótimas aulas e aprendendo cada vez mais. Espero ter um futuro digno de uma escritora’’. (Estudante L. G. C., EMEF Eloy Pinheiro Machado)

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“Iniciei minha escrita quando tinha nove anos. Foi um período complicado na minha vida, com muitas mudanças. No meio daquela confusão, comecei a escrever textos informativos, sobre o corpo humano, histórias, lendas e mitos. Depois, escrevi histórias de romance e fantasia. Hoje, gosto de histórias de fantasia, filosofia e poemas”. (Estudante B. F. L, EMEF Georgina Rosado)

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“Minha história como escritor começa quando eu era criança, quando pequeno escrevia pequenas histórias e fábulas também. Hoje em dia não escrevo muito, seria pela falta de criatividade ou não sei mais escrever? Acho que para escrever, precisaria de inspiração, precisaria ler mais”. (Estudante P. S. R., EMEF Arlindo Luis Osório)

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“Eu comecei a escrever para me expressar, já que muitas vezes eu não tive coragem de falar sobre meus sentimentos, medos e problemas. Então, escrever se tornou meu refúgio, meu modo de botar para fora tudo que sinto com lindas palavras”. (Estudante E. R. da S., EMEF Daniel Dipp)

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“Ano passado me descobri de várias maneiras e uma dessas descobertas foi a paixão de escrever. Desde então, escrever tem sido para mim o melhor meio de me expressar”. (Estudante L. B., EMEF Santo Agostinho)

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“Minha história começa em 2020 quando passei a ficar mais tempo sozinha. Logo, comecei a pensar mais também. Com a vinda de novos sentimentos, sentia que precisava conversar com alguém. Porém, me sentia deslocada e, então, comecei a escrever. A escrita me fez bem e comecei a pegar gosto por ela e hoje escrevo por hobby”. (Estudante L. C., EMEF Georgina Rosado)

O que nos torna escritores?

Um escritor ou uma escritora é, antes de mais nada, um grande leitor ou leitora.

Quando alguém decide ser escritor ou escritora, é preciso que tenha muita persistência, crença no ofício da escrita e dedicação. É preciso também manter uma mente aberta à pluralidade dos mundos e das ideias que nos cercam. É preciso suportar críticas dos leitores e leitoras, sempre valorizando aquelas que vem para nos desafiar ao invés daquelas que vem nos desacreditar.

Um escritor ou escritora relaciona-se de forma direta com seus potenciais leitores ou leitoras, sempre oferecendo-lhes a melhor escrita, o melhor texto que puder construir (mesmo sabendo de que nunca somos, sempre estamos sendo).

Não existimos como escritores ou escritoras se não tivermos “lugar” ou “espaço” para publicar. Por isso mesmo, precisamos viabilizar parcerias para fazer publicações, participar de eventos literários, conhecer bibliotecas, conversar com escritores, procurar aprender sobre o que as pessoas mais gostam de ler.

Somos reconhecidos escritores ou escritoras na medida em que nossas publicações revelam uma identidade, um jeito nosso e genuíno de escrever. Este reconhecimento pode ser consolidado através do lançamento de um livro, da estruturação de um site próprio (personalizado) ou através da escrita e publicação sobre temas sobre os quais adquirimos credibilidade, notoriedade, admiração, seguidores e críticos.

Vale a pena escrever para a gente se tornar um ser humano melhor, apostando que nossos escritos podem contribuir para que vivamos uma sociedade mais humanizada, mais igualitária e mais fraterna. Eu creio que as palavras e as letras tenham este poder.

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor site www.neipies.com

A nova face do Ensino Religioso nas escolas

BNCC explicita dois aspectos importantes e interligados que são o reconhecimento das alteridades e o respeito a diversidade cultural e religiosa que configura a relação com o sagrado no Brasil.

O Ensino Religioso na educação brasileira passou por significativas mudanças teórico-metodológicas ao longo das últimas quatro décadas. A transformação mais significativa veio com a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que referendou o Ensino Religioso como área do conhecimento e, ao mesmo tempo, sistematizou-o como um componente curricular.

Com o status de área, o Ensino Religioso tem definido como objeto o conhecimento religioso produzido pelas áreas das ciências humanas e sociais, principalmente as Ciências da Religião que se ocupa em investigar os fenômenos religiosos que se manifestam em todas as culturas e povos. Assim, o Ensino Religioso migra de uma concepção catequética/confessional para uma configuração de unidade plural, como um componente que se detém em estudar os aspectos comuns a todas as tradições religiosas, a saber, os símbolos, os ritos, os mitos, as crenças, os textos, os princípios éticos e outros.

Pela primeira vez está posta uma base curricular comum para o Ensino Religioso em qualquer escola do nosso país, uma espinha dorsal composta por unidades temáticas e objetos de conhecimento que ajudam a desenvolver habilidades e competências específicas nas crianças e nos jovens.

Essa mudança proposta na BNCC para o Ensino Religioso tem um grande impacto nas metodologias, nas práticas pedagógicas, no planejamento anual, no plano de aula, nos projetos, na formação de professores. Algumas reflexões, conexões e possibilidades.

Reconhecimento das alteridades e respeito a diversidade

Ao colocar as diretrizes para o Ensino Religioso, a BNCC explicita dois aspectos importantes e interligados que são o reconhecimento das alteridades e o respeito a diversidade cultural e religiosa que configura a relação com o sagrado no Brasil. Nosso país é um verdadeiro mosaico composto por uma diversidade de tradições religiosas e filosofias de vida. Uma cultura mesclada e marcada pelas crenças de povos originários e pela fé religiosa dos imigrantes que aqui se fixaram.

Nesse contexto, o Ensino Religioso assume o papel de ser instrumento na educação de crianças e jovens para o conhecimento e a vivência da “ética da alteridade” cujos princípios norteiam a convivência acolhedora e dialógica com pessoas que cultivam ideias, visões de mundo e crenças diferentes.

Ao contrário do que muitos pensam, reconhecer as alteridades e respeitar a diversidade existente na sociedade é uma atitude que contribui para valorizar e aprofundar a própria identidade. Hans Kung, teólogo suíço, deixa claro em seus escritos que abrir os ouvidos e os corações para conhecer a diversidade de experiências espirituais e tradições religiosas não exclui o conhecimento e o envolvimento com a própria religião, suas crenças ou sua filosofia de vida.

Aquele que tem como propósito dialogar e entrar em comunhão com os outros sem conhecer suas próprias convicções e crenças, com seus limites e possibilidades, constrói mais muros do que pontes, aumenta mais a distância entre as pessoas do que as aproxima.

Conhecer-se com profundidade é o princípio fundamental para o conhecimento dos outros. Quem não se conhece e não tem clareza de seus limites e de suas convicções e crenças, assenta sua vida nas incertezas e inseguranças e assim é movido pelo medo de abrir-se aos outros nas suas diferenças. A identidade não exclui a alteridade e vice-versa. Elas se complementam.

Uma perspectiva interdisciplinar 

Assim como não há espaço para fechar-se numa identidade, o Ensino Religioso não pode isolar-se de outras áreas do conhecimento, mas, tendo clareza de seu fundamento, de seu objeto, de sua epistemologia e de seu escopo, precisa abrir-se ao diálogo e à comunhão com outros saberes, práticas pedagógicas e componentes curriculares com a consciência de que nenhum saber por si só é suficiente para apreender a realidade que o ser humano busca compreender.

Assim sendo, um Ensino Religioso que pretende formar pessoas em todas as suas dimensões, deve propiciar um processo de ensino e aprendizagem interdisciplinar, sabendo que o sagrado está presente na natureza, na música, na dança, na literatura, na história, no tempo, no espaço, enfim em tudo o que nasce da razão, da intuição, do encantamento com a riqueza da vida, do indizível que de alguma maneira se concretiza na obra humana. Assim torna-se possível dar mais profundidade e sentido ao conhecimento religioso que, conectado com outras áreas e saberes, possibilitará a formação integral de crianças e jovens nas escolas do Brasil.

O Ensino Religioso e sua interrelação com os ODS

Na mesma linha da interdisciplinaridade, está a importante conexão do Ensino Religioso com iniciativas e projetos propostos por pessoas, países, instituições e organismos locais e globais. Uma dessas iniciativas são os “Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” (ODS) da Agenda 2030, da ONU. Alguns desses objetivos podem ser trabalhados numa interrelação com os objetos de conhecimento, habilidades e competências no Ensino Religioso.

Como proposto na BNCC, o Ensino Religioso oferece aos estudantes a possibilidade de refletir sobre temas atuais e agir como pessoas e cidadãos para a transformação das realidades sociais, econômicas, políticas e ambientais, tais como os explicitados nos seguintes ODS:

“Objetivo 1. Acabar com a pobreza em todas as suas formas, em todos os lugares; (…) Objetivo 3. Assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos, em todas as idades; Objetivo 4. Assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos; (…) Objetivo 11. Tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis; (…) Objetivo 15. Proteger, recuperar e promover o uso sustentável dos ecossistemas terrestres, gerir de forma sustentável as florestas, combater a desertificação, deter e reverter a degradação da terra e deter a perda de biodiversidade; Objetivo 16. Promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, proporcionar o acesso à justiça para todos e construir instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis.(…)”.

Ensino Religioso e Pacto Educativo Global

Assim como as ODS, o Ensino Religioso proposto e sistematizado na BNCC, pode contribuir com o Pacto Educativo Global, proposto pelo Papa Francisco em 2020.

Tanto um quanto outro têm como objetivo formar e convocar pessoas, tradições religiosas e instituições educativas a se unirem num compromisso pelo desenvolvimento integral de crianças e jovens para que se engajem no projeto de construção de um novo mundo cujos principais fundamentos são: o  serviço gratuito e desinteressado às pessoas, principalmente as mais vulneráveis como os pobres, as crianças e os idosos que estão imersos na cultura do descarte da sociedade atual; o cuidado e responsabilidade com o meio ambiente e toda a sua biodiversidade através de atitudes simples e sustentáveis; o desenvolvimento de uma cultura do encontro, do diálogo e da convivência harmoniosa com os outros; a adoção de gestos mais humanos, inclusivos, fraternos, justos e pacíficos; o discernimento diante das possibilidades e dos desafios que a internet e as relações virtuais apresentam às novas gerações; a atenção e o cultivo da interioridade nas crianças e nos jovens para que possam parar, silenciar, refletir, ouvir, escutar-se e “sentir” a transcendência; o desejo e a esperança das crianças e dos jovens de que o mundo pode mudar para melhor através de uma revolução da ternura que destrua a globalização da indiferença, da discriminação, do preconceito e da intolerância religiosa.

Autor: Renan Nascimento

Licenciado em Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque (1995) e em Pedagogia pela Faculdade Claretiano (2016); bacharel em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (2001), pós-graduado em Psicopedagogia pela Universidade Estadual de Minas Gerais (1997) e em Ensino Religioso pela Universidade Católica de Brasília (2008); músico; leitor técnico e elaborador de conteúdo para livros didáticos; orientador educacional e coordenador da área de Ensino Religioso do Colégio São Luís, em São Paulo, desde 2002.

FONTE: https://www.saoluis.org/2021/11/08/a-nova-face-do-ensino-religioso-nas-escolas/

Construindo contos e romances: personagem, conflito e espaço

Em geral os iniciantes dizem que “eu escrevo para mim, como eu gosto, como eu quero e pronto”, e não há nada de errado nisso, desde que o objetivo desse autor seja guardar sua história apenas para si. Agora, um autor que pretende ver seu livro publicado precisa pensar no leitor.

Todos temos a capacidade de sermos escritores, pois já possuímos, natas, as ferramentas do contar. Antes mesmo de poder falar ou escrever, nós já contamos histórias. Nós podemos imaginar um homem das cavernas que, se saía para caçar e enfrentava algum perigo, alertava seu grupo através de gestos e pinturas nas paredes, sem auxílio de um vocabulário complexo, apenas evocando suas memórias, observações e, quem sabe, até mesmo sua imaginação.

Pedro Gonzaga e Jane Tutikian descrevem em seu livro “Escreva! Guia de escrita criativa” que essas são, de fato, as 3 ferramentas básicas que todos nós temos e que são imprescindíveis para a escrita.

1. A memória: seja mental ou física, a memória diz respeito às sensações, como a memória de caminhar, de sentir um cheiro ou gosto. Como são muito pessoais, a memória é uma ferramenta capaz de particularizar e transformar um texto abstrato em um texto concreto, cheio de sensações que são percebidas e envolvem o leitor.

2. A observação: de gestos, de imagens, de ações e expressões. Para contar uma história e acessar as nossas memórias de forma sensível a ponto de tocar as sensações do leitor, nós precisamos nos atentar às pequenas expressões dos acontecimentos. Pedro Gonzaga e Jane Tutikian apresentam, para isso, um bom exercício: tentar observar as coisas, as pessoas ou as situações como se víssemos aquilo pela primeira vez. Observar mais de perto ou mais de longe, observar por mais tempo, até aquilo gerar um estranhamento e consigamos fugir dos olhos do senso comum. E, a partir daí, tentar perceber o quão carregada de conflito e significado é aquela coisa, pessoa ou situação aparentemente comum. Fazer anotações durante o dia sobre coisas que vemos, percebemos ou simplesmente achamos interessante também é um bom exercício e que contribui, inclusive, para aumentar a nossa produtividade, agilidade e fluência na escrita.

3. A imaginação: apenas a memória e a observação já são úteis para a comunicação, mas a imaginação é imprescindível para a criação de um texto ficcional. O autor precisa ter a capacidade de criar e até de pensar no absurdo a partir daquilo que foi memorizado e observado. E é importante aqui diferenciar a imaginação daquela inspiração que bate sem querer num dia qualquer, oferece-nos uma história quase pronta e muito ânimo para sentar e escrever. Essa inspiração miraculosa até acontece, mas é rara, enquanto que a imaginação todos nós temos todos os dias. É muito mais seguro, então, confiar na imaginação para escrever do que nessa inspiração errática.

O que o autor iniciante, principalmente, precisa entender, é que a imaginação e a criatividade também são trabalhos que advém da concentração, da tentativa e de exercícios. Um bom exercício é tentar pensar em um novo final para uma história simples e bem conhecida, e ir voltando na narrativa e imaginando o que precisa acontecer ao longo desse texto para que seja possível chegar ao novo final proposto.

Utilizar essas 3 ferramentas é ter subsídio para que o leitor se conecte com o texto, já que as sensações evocadas pelo autor e transmitidas na narrativa vão se conectar com as sensações do leitor, que busca exatamente isso: que suas sensações sejam evocadas durante a leitura.

Eu sei que muitos autores, em geral os iniciantes, dizem que “eu escrevo para mim, como eu gosto, como eu quero e pronto”, e não há nada de errado nisso, desde que o objetivo desse autor seja guardar sua história apenas para si. Agora, um autor que pretende ver seu livro publicado precisa pensar no leitor. Quem vai querer ler esse livro e por quê? O que você, como autor, pode fazer para atrair esse leitor e, principalmente, mantê-lo engajado na história até o fim?

Conhecendo a sua história e o seu leitor, o autor pode adequar a linguagem do seu livro, os elementos que ali aparecem, as sensações que ele quer evocar, criando condições para uma melhor reação do público. Portanto, deve existir uma consciência clara do autor quanto ao desenvolvimento da sua narrativa.

Como o poeta Ezra Pound disse uma vez: “A literatura é uma linguagem carregada de significado em seu mais alto grau”. Ou seja, as coisas não apenas acontecem porque sim em uma narrativa. Pelo contrário, os elementos evocados pelo autor têm razão de ser e aparecer em um momento ou outro da história. Para entender isso melhor, precisamos pensar na narrativa e como ela ocorre.

O autor Jéferson Assumção, no curso de escrita criativa da plataforma Quadro Amarelo, explica que a narrativa costuma ser construída através de mudanças de valores (de positivo para negativo ou vice-versa), isso desde as pequenas tramas até o arco maior dessa narrativa. Assim, a narratividade, esse processo de narrar, exige que eventos ocorram. Por exemplo: um homem colhe laranjas da laranjeira do seu quintal para levar ao seu amigo. Quando caminhava na rua com a sacola de laranjas, uma delas escapa da sacola e sai rolando pela rua (inversão de positivo para negativo). A partir daqui, o que acontece? A laranja rolando assusta alguém que estava distraído e essa pessoa é atropelada, ou essa pessoa é um outro amigo antigo do nosso personagem, que ele não via há muito tempo, havendo ali um reencontro? Uma sequência de eventos e transformações ocorrem para que a narratividade seja construída, até que se chegue a uma finalidade.

No seu livro “A poética”, Aristóteles já dizia que a história não tem um fim, mas uma finalidade. Isso quer dizer que, ao fim da nossa história, ela não só acaba, mas deve existir uma finalidade para a qual ela foi contada e porquê ela foi contada do jeito que foi.

Todos os elementos da narrativa, toda a causalidade precisa funcionar para que a história seja levada não apenas ao fim, mas à sua finalidade. Nesse sentido, Luiz Antonio de Assis Brasil diz que a narrativa precisa ser orgânica, comparada mesmo a um organismo que não tem início nem fim, mas onde tudo se encaixa e tem razão de ser para poder funcionar como uma unidade.

Na narrativa, os episódios também precisam fechar como uma unidade e, para isso, os autores precisam estar atentos às relações de causa e efeito entre esses episódios, e também atentos no sentido de não incluir nesse organismo elementos que não fazem parte dele, elementos de fora que possam ficar mal encaixados ou mal resolvidos na narrativa, porque o leitor percebe quando algo fica em aberto e isso pode frustrá-lo em relação ao seu livro.

Luiz Antonio de Assis Brasil ainda diz que, quando nós iniciamos o romance ou o conto, nós prometemos algo ao leitor e, no fim, precisamos ter cumprido essa promessa. Nós cumprimos nossa promessa com uma boa personagem, um enredo que desenvolve sua “questão essencial” mediante um conflito que aparece quando essa questão se choca com os fatos da vida. A personagem, portanto, é um elemento que deve ser criado com bastante cuidado.

Para o autor é muito fácil imaginar a personagem, ela já existe para ele. Mas para que ela exista da mesma forma para o leitor, essa personagem precisa ser humana.

Quando falamos sobre textos de ficção, não necessariamente a personagem precisa ser um ser humano, outros elementos também podem ser personagem, mas esses elementos precisam agir ou gerar reações, ou mesmo se “comportar” como seres humanos. É isso que o leitor espera, que sensações humanas estejam envolvidas ali. Durante a construção da personagem, então, ela precisa ganhar profundidade ao ponto de o leitor acreditar nela, já que ele compartilha a sua humanidade com a da personagem.

Para dar essa profundidade à personagem, o autor precisa conhecê-la, e uma das maneiras mais comuns e eficazes de se fazer isso é construindo um mapa de personagem, um conjunto de informações ou uma série de perguntas que devem ser respondidas sobre ela.

Nem todas as informações que você coloca ali vão ser abordadas diretamente na narrativa, mas quanto mais o autor conhece sobre essa personagem e consegue responder sobre ela, mais subsídio ele tem para desenvolvê-la de forma coerente no texto.

O mapa do personagem pode incluir as características sociais dessa personagem (o nome, estado civil, onde mora, terra natal, trabalho, estilo de vida…), as características físicas (idade aparente e idade real, etnia, altura, peso, cor dos cabelos e dos olhos, características marcantes do rosto e do corpo…), a família (quem são os pais, o cônjuge, os filhos…), como foi sua infância e juventude, quem foram/são seus amigos e inimigos, suas crenças, visão política, qualidades e defeitos, locais, esportes, filmes estilo musical favoritos, o que o faz feliz ou triste, o que ele mais ama ou odeia, sua maior conquista e maior fracasso, do que mais se envergonha, seu segredo mais sombrio e seu maior desejo.

Conhecendo tudo isso, quando necessário que essa personagem responda a algum estímulo na história, o autor consegue descrever uma resposta coerente com o que vem sendo descrito sobre ela até então, coerente com a pessoa que ela é. Porque a nossa proposta é que aquela personagem seja um ser humano e se comporte de acordo com a sua própria personalidade, profunda e cheia de questões íntimas como todos nós temos. E são justamente essas questões íntimas que a aproximam da humanidade que o autor busca dar a ela.

Se formos pensar no porquê de alguns personagens agradarem tanto na literatura, a resposta vai ser a presença de uma questão íntima forte, que acaba determinando as ações ou não-ações dessa personagem.

Jean Valjean, de Os Miseráveis, por exemplo: a questão essencial desse personagem é a dignidade, o que ele mais queria era ser digno. E ele até consegue, chega um momento da história onde ele é muito querido pela sua comunidade, ele se reconstrói e se torna prefeito. Mas isso é abalado (e aí surge o conflito) quando o policial Javert chega na cidade onde Jean Valjean está e acaba o reconhecendo como um certo criminoso. Temos aí, então, esse conflito entre os personagens, mas mais do que isso, temos uma questão própria do Jean Valjean que prende o leitor mais do que apenas o embate com Javert.

Podemos perceber que é essa questão essencial que cria o conflito da história quando se choca com os fatos da vida, e a narrativa segue para demonstrar como isso vai ser resolvido ou não. O conflito, então, não é exatamente um embate entre uma personagem a outra, mas mais do que isso.

Luiz Antonio de Assis Brasil explica que ele pode até decorrer de ações cruzadas das personagens, mas antes de tudo, ele é expresso por uma fórmula universal e abstrata: honra e desonra, bem e mal, vício e virtude, por exemplo. Geralmente, o conflito vai ser expresso por uma oposição de valores, mas uma oposição entre situações que são universais, e não apenas entre personagens.

O conflito da narrativa, portanto, é uma expressão genérica das tensões do ser humano. Por isso que, quanto mais universal o conflito, mais leitores ele vai abranger e convencer, porque o leitor também vive esses conflitos dentro de si, eles representam situações da vida real por mais ficcional que a história seja. Por outro lado, se pensarmos no conflito apenas como um embate entre uma personagem e outra, a história não se aprofunda e logo acaba. Por isso que, construindo a narrativa, o autor precisa estar ciente de qual questão essencial ele quer tratar e, para identificar isso, ele precisa aguçar a sua visão humana e profunda dos conflitos do dia a dia, das pessoas e das situações, e particularizar essa questão a partir das suas memórias e da sua imaginação.

Outro elemento que muitas vezes é negligenciado, mas que pode auxiliar o autor a desenvolver o conflito e a personagem, e ainda ajudar a envolver o leitor na narrativa, é o espaço.

Como leitora, eu me frustro bastante quando o espaço me é apresentado como uma fotografia estática, quase alheia à história, sendo que ele poderia interagir com o que está sendo contado. É muito mais envolvente quando o espaço se relaciona com o conflito e a personagem de forma mais subjetiva e indireta. Por exemplo: “Camila chegou no bar e observou aquela sala escura, de janelas fechadas e cheia mesas com toalhas quadriculadas”. Por que não desenvolver a personagem Camila em relação ao seu conflito e ao local onde ela está? Digamos que Camila está em um dia péssimo, então o autor pode dizer que Camila chegou no bar e imediatamente se arrependeu, porque a escuridão deixada pelas janelas fechadas a agoniava. Da mesma forma, as cores vivas das toalhas de mesa claramente recém lavadas, já que cheiravam a amaciante de lavanda, eram quase uma zombaria à sua tristeza.

O autor pode desenvolver o espaço e incluir a personagem e sua questão nele, para isso utilizando daquelas 3 ferramentas: memória, observação e imaginação.

Assim, o espaço pode também evocar as sensações humanas que o leitor busca durante a leitura: não só a visão, mas também o olfato, a audição, o gosto, o tato das coisas onde essa personagem está. Esses elementos todos podem também determinar o comportamento da personagem, inclusive influenciar suas atitudes e emoções.

Um bom exercício para isso é tentar descrever um espaço que inclua alguma pessoa que possamos observar e um conflito imaginário. E então, tentar responder: como é esse espaço? Como essa pessoa que estamos observando está se envolvendo com o espaço? Que emoções ela transmite? Essas emoções se relacionam de que forma com esse espaço? Propor questões como essas é sempre uma boa forma de desenvolver nossas ferramentas de escrita, já que as respostas para elas têm potencial de se tornar um romance ou conto bem constituído.

Este texto foi apresentado na noite do dia 15 de junho de 2023, em atividade do Projeto Moinhos – Literatura em movimento.

Autora: Letícia Copatti Dogenski

O assassinato do pensador

Sócrates, dizem, morreu por suas ideias. Cometeu uma espécie de “suicídio” por não condescender com as acusações que lhe foram imputadas e não aceitar penas alternativas. Afinal, a morte, para um filósofo como Sócrates, não era um mal em si mesmo, uma vez que via a filosofia como aprendizagem e preparação para a morte.

Uma mulher sentada e segurando o filho menor nos braços. Ao seu lado o marido, um prisioneiro recém-liberado das correntes, aguarda pelo cumprimento da sentença de pena capital. Eis que entra no recinto um grupo de homens, majoritariamente jovens, e ela diz: “Vê, Fulano, esta é a última vez que conversam contigo os teus amigos, e tu com eles!” E o marido faz o quê? Lança um olhar especial a uma pessoa do grupo e decreta: “Ciclano, faze com que a conduzam para a casa!” A mulher é levada contrariada, debatendo-se e amaldiçoando o marido e os amigos com coisas que só as mulheres estão propensas a dizer em uma ocasião como essa.

Que tal a cena descrita? Não aparenta insensibilidade do marido para com a mulher e o filho? Esse comportamento, ainda que para falar de coisas supostamente mais elevadas com os amigos, seria justificável para alguém que está prestes a morrer? Não nos apressamos em tirar conclusões.

A cena apesentada, creio que para os minimamente familiarizados com o Fédon, o mais popular e, possivelmente, o mais lido dos diálogos de Platão, pode ser identificada como a histórica passagem que relata a última conversa de Sócrates com alguns dos seus discípulos na prisão e no dia que seria executada a sentença da sua condenação à morte. A mulher é Xantipa, a esposa de Sócrates, cognominada de megera, e Fédon é o jovem que narra os trágicos e derradeiros momentos da vida do mestre.

Sócrates, dizem, morreu por suas ideias. Cometeu uma espécie de “suicídio” por não condescender com as acusações que lhe foram imputadas e não aceitar penas alternativas. Afinal, a morte, para um filósofo como Sócrates, não era um mal em si mesmo, uma vez que via a filosofia como aprendizagem e preparação para a morte.

A morte seria um início e não um fim. Assim, na cena do Fédon, Sócrates esbanja serenidade mais do que os outros personagens, mesmo diante da morte iminente.

E quanto ao fato de ele ter mandado a mulher e o filho embora e preferido ficar com amigos? Há estudiosos dos clássicos, como Olof Gigon, que argumentam que Xantipa e o filho representam o mundo da humanidade simples e não dedicada à filosofia e que, apesar do respeito merecido, deveriam arredar um passo quando a filosofia entra em cena.

Entenda-se que, na época, “arredar um passo” significava que a gente comum, sem sutileza filosófica, não tinha qualquer relevância quando um filósofo, ainda que, no caso, sendo o marido dela, abria a boca. Explica mas, nos tempos atuais, somos cientes, não justifica.

Sócrates gozava de popularidade, vivia cercado de jovens e, ao mesmo tempo, angariava inimigos com a sua ironia refinada. Acabaria, no ano 399 a.C., acusado de corromper a juventude e desdenhar o culto aos deuses que davam sustentação à democracia grega.

Uma coisa era indagar sobre o cosmos e outra bem diferente era especular sobre convenções e práticas do discurso oficial que relacionavam divindades à estabilidade cotidiana do Estado. Seus comentários em defesa da aristocracia (como um governo dos melhores) e de ironia à democracia, como sendo a instituição pela qual um macaco podia se tornar um cavalo, bastando que um número suficiente de pessoas votasse nesse sentido, custaram-lhe a submissão aos tribunais.

Há quem sustente que Sócrates não receberia a pena capital.

Havia alternativas para o seu caso. O processo fora montado para forçar o pensador a retratar-se. Mas ele se mostrou inflexível e irritou os juízes quando, na tradicional pergunta sobre qual a pena o réu considerava justa para si próprio, teria respondido que, uma vez tendo prestado tantos serviços à cidade, achava justo receber uma pensão vitalícia do Estado. Também declarou que não aceitaria o degredo. Foi o suficiente para ser condenado à morte. E tampouco aceitou as oportunidades de fuga que lhe foram facultadas.

Assim, no raiar de um dia (não precisado) do ano 399 a.C., o homem que, ao ser apontado pelo oráculo de Delfos como o mais sábio de todos, saiu-se com o “Só sei que nada sei” e nos legou a maiêutica e o lema “Conhece-te a ti mesmo”, seria executado ao beber um extrato de folhas de plantas da espécie Conium maculatum, a popular cicuta.

(Do livro Ah! Essa estranha instituição chamada ciência, 2021.)

Autor: Gilberto Cunha

Sobre a Potência da Docência

Sentimos necessidade de fazer um grande elogio à docência, uma ode à professora e ao professor, ajudando a superar argumentos inibidores em relação à profissão docente.

O que é preciso para melhorar a qualidade da educação escolar? Certamente, esta pergunta já foi feita milhares de vezes, e não pretendemos ter uma resposta definitiva, até porque esta resposta não existe, em função do movimento, do fluxo do real. É sempre uma aproximação.

Antes de tudo, cabe indagar: de que qualidade estamos falando? Entendemos que Educação de Qualidade Social/Democrática é aquela que, pautada num Projeto Humanizador, é visceralmente comprometida com o direito à Aprendizagem Efetiva, ao Desenvolvimento Humano Pleno, na perspectiva do Bem Comum, e à Alegria Crítica (Docta Gaudium), por parte de cada um e de todos os educandos, através da apropriação Crítica, Criativa, Significativa e Duradoura dos Saberes Necessários (conceituais, procedimentais e atitudinais-Proposta Curricular) visando a potencialização da Consciência, do Caráter, da Cidadania e da Formação para o Trabalho, pautada na Solidariedade, na Autonomia Crítica, na Justiça Social, na Paz e na Responsabilidade (por Si, pelo Outro e pelo Planeta).

Comumente, quando perguntamos sobre o que é preciso para melhorar a qualidade da educação escolar, três elementos são destacados.

1.Condições de Trabalho do Professor (salário, plano de carreira, concurso, número de alunos em sala, trabalho coletivo constante, gestão democrática, instalações e equipamentos adequados, quadro funcional completo, material didático, interação com a comunidade, inclusão, Projeto Político-Pedagógico, superar a rotatividade do grupo, a neurose da avaliação externa, o excesso de burocracia, etc.)

2.Formação do Professor, inicial e continuada (Saberes da Realidade; Saberes Éticos, Políticos, Estéticos, Filosóficos, Afetivos; Saberes da Atividade Humana; Saberes da Área de Conhecimento; Saberes da Profissão Docente; Saberes Pedagógicos, trabalhados de forma integrada e interativa, articulada à realidade – Práxis)

3.Prática Pedagógica (basicamente, superar o currículo disciplinar instrucionista e a avaliação classificatória e excludente)

Essas exigências, com toda certeza, são absolutamente fundamentais! Todavia, temos sentido falta de uma outra exigência, a nosso ver tão ou, em alguns casos, até mais relevante que estas.

Potência da Docência

Trazemos aqui uma categoria que não tem estado presente nas análises que circulam nos meios educacionais, tanto no âmbito da escola, como da academia. Trata-se de uma quarta exigência para a melhoria da qualidade da educação escolar que estamos denominando Potência da Docência. Na mesma franja de significação, podemos citar: boniteza da docência, dignidade da docência, sentido da docência, valor da professora e do professor, valor da docência, subjetividade da docência, grandes alegrias da docência, importância, relevância, magnitude, grandiosidade, imprescindibilidade, papel, potencialidade, poder da docência

Perguntamos: que sentido tem a mudança das condições de trabalho, da formação e da prática pedagógica para alguém que não quer ser Professor? Pode haver uma preocupação geral em relação ao futuro da nação, da formação das crianças, etc., mas nada que seja de cunho mais profundo, um apelo pessoal, existencial.

A valorização da atividade docente por parte da Sociedade é muito importante, até para que, no limite, as três exigências apontadas acima sejam cumpridas. No entanto, não adianta a Sociedade valorizar a docência se o próprio professor, ou aquele que está se preparando para ser professor, também não valorizar, não ver sentido, enfim não querer ser professor. Esse é um elemento decisivo, uma exigência absolutamente fundamental.

Por exemplo, mudar a metodologia de trabalho de pouco adiantará se o professor não estiver comprometido (ou seja, se não tiver amor) com a efetiva aprendizagem de cada um e de todos os alunos! De que adianta oferecer uma sofisticada formação para quem não quer ser professor? De que adianta ter um bom salário, poucos alunos em sala de aula, para alguém que não vê sentido na docência? Pode se manter no emprego, em função das boas condições, mas, digamos assim, “não entrega a alma”, não se compromete profundamente com a aprendizagem efetiva, o desenvolvimento humano pleno e a alegria crítica/docta gaudium de cada um e de todos!

Não queremos, de forma alguma, estabelecer uma dicotomia entre a Potência da Docência e as demais categorias de análise. Neste sentido, poderíamos interrogar: de que adianta o muito querer ser professor se as condições materiais, a formação e a possibilidade fazer um trabalho diferenciado lhes são negadas? Insistimos: não se trata de uma coisa ou de outra, mas de uma coisa e outra, em movimento dialético de superação por incorporação, avançando mais, na nova direção, onde for possível, sem perder a perspectiva de conjunto. Como dizia Hegel, a verdade é o todo!

O que desejamos propor é que esta quarta exigência, a Potência da Docência, seja incorporada quando pensamos no processo de melhoria da qualidade da educação escolar, isto é, que seja levada em conta, junto com as demais exigências, como fator decisivo para a melhoria da qualidade!

Utilizamos propositalmente o termo Potência, em princípio um tanto provocativo, para chamar a atenção a um grande problema, a um grande vazio nas análises e a uma grande necessidade de o professor desenvolver ou resgatar sua autoestima, de tomar consciência de sua relevância histórica e cultural. Vale lembrar que a Potência implica tanto a capacidade de realizar suas potencialidades, de transformar-se, quanto a de exercer o poder, sua capacidade de agir, influenciar, interferir, transformar.

Nos dias correntes, temos notícias de muitas situações de professores e professoras que estão em processo de desistência, além de muitos outros que já desistiram, mudando de profissão ou dando “graças a Deus” por terem se aposentado (fazendo questão de divulgar nas redes sociais). A falta de interesse dos jovens pela profissão docente é outro indicador extremamente preocupante. Nos induziram a desacreditar de nós mesmos, do nosso valor, de nossa importância, do nosso poder, de nossa capacidade de provocar mudança.

Sentimos necessidade de fazer um grande elogio à docência, uma ode à professora e ao professor, ajudando a superar argumentos inibidores em relação à profissão docente.

Há um certo costume de se afirmar uma pretensa tautologia de que a “a realidade é a realidade”, especialmente por alguns setores conservadores, que não desejam a mudança. Certamente, existem elementos bastante objetivos da base material da existência.

Por outro lado, sabemos que não temos acesso, digamos assim, à absoluta essência da realidade, que a visão que cada um tem é sempre uma construção, que pode/deve se aperfeiçoar no confronto com a dos demais. O que percebemos é a representação mental que muitos professores têm está muito marcada pela desvalia. Esta representação tem, certamente, um fundamento na vivência, já de um bom tempo, de tantos professores de um cotidiano escolar com muitas marcas de degradação e desrespeito. O sentimento de muitos é mesmo o de impotência, insignificância e desejo de desistência.

Ora, a constituição desta representação, além de elementos objetivos da realidade, tem também uma carga subjetiva marcada por ideias que acabam se tornando argumentos inibidores: conhecimento atualmente se tem em qualquer lugar (reforçado recentemente pelos avanços da Inteligência Artificial); que quem aprende é o aluno, donde se deduziria que o professor é dispensável; que o aluno fica apenas 4 ou 5 horas na escola, e que o que lá é feito é logo desfeito pela família ou sociedade; que a escola não tem os recursos tecnológicos capazes de encantar as novas gerações, etc. Estes argumentos, marcados por visões parciais, por meias verdades, uma vez assumidos pelos professores, minam sua potência!

Como qualquer atividade humana, a docência também é marcada por limites, falhas, contradições. Mas isto tem sido bastante dito e divulgado tanto pelos canais de WhatsApp dos familiares, pelas redes sociais, por uma certa mídia safada que só mostra os problemas das escolas (especialmente as públicas), ou mesmo a perseguição aos professores por governos neofascistas. Queremos aqui, justamente, fazer um contraponto!

Deixamos claro que a ênfase que estamos dando à Potência da Docência não é para um eventual reforço da imagem do professor como o grande demiurgo, o destinatário final da prática educativa escolar.

O fortalecimento da potência do professor é para que possa exercer, de fato, seu papel de mediador, fazer a articulação entre alunos, conhecimentos e realidades, qual seja, a centralidade não está nele (instrucionismo), nem nos alunos (escolanovismo), e sim nas relações que estabelecem em vista de um projeto, da construção de algo melhor, para os alunos e para o mundo (e para ele também, certamente, tanto no imediato – prazer, alegria, realização, sentido – , quanto no longo prazo, enquanto parte da Humanidade).

Focamos no professor inicialmente, de forma estratégica, não para ficar nele, mas para que possa abrir; ajudar a desbravar, colocar em movimento, de forma substancial o processo de ensino-aprendizagem, o cuidado com o aluno de maneira que possa alcançar, pessoal e coletivamente, a aprendizagem efetiva, o desenvolvimento humano pleno e a alegria crítica (docta gaudium).

Afinal, que sentido teria a docência se sistematicamente os alunos não aprendessem? Ao contrário, quando realiza isto, o professor consolida uma base extremamente sólida para sua Potência!

O Querer Ser Professor é uma Construção

Ao nos referirmos à relevância do Querer Ser Professor, cabem duas observações:

O Querer Ser Professor admite gradação e não “nasce pronto”; pelo contrário, será um desafio ao longo de toda a trajetória docente. Vemos situações de professores que nunca desenvolveram um autêntico querer pela docência; outros que desenvolveram e que, ao longo do tempo, por uma série de causas, foram perdendo o entusiasmo; assim como há aqueles que, apesar das dificuldades, conseguem manter um nível de mobilização para com a docência. Desde os tempos dos bancos escolares, ou antes, ao fim do exercício profissional, ou depois, o querer ser professor está em (re)construção!

– O Querer Ser Professor é uma construção que se dá no sujeito, porém numa base histórico-cultural, qual seja, muitas vezes o sujeito não quer ser professor em função daquilo que vivenciou ou tem notícia em termos de condições de trabalho, formação e práticas pedagógicas dos professores em atividade. Ao mesmo tempo, sabemos que esta constituição do Querer Ser Professor não é um reflexo mecânico das condições materiais da existência.

A relação é dialética, isto é, uma dimensão pede a outra, uma nega a outra, e neste processo vão se superando, avançando por aproximações sucessivas, e por superação por incorporação, preservando elementos válidos da dimensão negada (e não simples negação). Sempre há uma Zona de Autonomia Relativa. Basta ver que há pessoas, no atual momento, muitas vezes bastante degradado, que querem ser professores (querem vir a ser ou querem continuar sendo professores)!

O Amor Importa

Ao incluir a Potência da Docência como uma categoria a ser levada em conta no processo de melhoria da qualidade da educação escolar, o que visamos também é apontar para a necessária tomada de consciência de algo que está tão presente na realidade em geral e na educação escolar: os afetos, as emoções, os vínculos, os desejos, as necessidades, a mobilização, a curiosidade, enfim, tudo aquilo que o Amor abarca, e fazem parte, que são elementos indissociáveis da tecitura do real.

O Amor importa! Desta forma, é preciso refletir sobre este elemento central que é o Querer Ser Professor, o Amor à Profissão: querer ensinar, querer que o aluno aprenda, porque acredita, tem um amor pelo saber, pelo conhecimento, pelo conteúdo, vê a importância daquilo que está ensinando, tendo em vista um horizonte melhor tanto para a vida singular de cada um e de todos os estudantes, quanto para a transformação da Sociedade, na perspectiva da Emancipação Humana.

A tão necessária “atratividade da profissão docente” não pode ficar restrita aos aspectos objetivos da prática. Se o professor não encontrar um Sentido maior para sua Atividade, não há condições objetivas (salário, número de alunos em sala, cursos, ou metodologia inovadora, etc.) que possam realizá-lo!

Brevíssima Nota sobre o Amor

O Amor é uma das palavras mais faladas, mas também uma das mais distorcidas, banalizadas. Há zonas nebulosas em todas as partes, desde a questão conceitual (afinal, o que é o Amor?), até questões atitudinais (discurso negado pelas ações concretas), e mesmo éticas (sendo usado como estratégia de manipulação) e política (como forma de “adocicar” a realidade, levando ao apassivamento e comodismo, à alienação).

Não estamos falando do amor romântico, nem religioso, nem da autoajuda, nem de “receituário pedagógico”, nem do amor associado à frouxidão, à falta de limites, ao “passar a mão na cabeça do aluno”, e muito menos à associação com “sacerdócio” do professor (lembrando que “amor não paga as contas”…)!

Nossa abordagem do Amor se pretende antropológica, ontológica, filosófica, ética, política, psíquica e pedagógica.

Diferentes pensadores, de diferentes épocas, nos ajudam com suas formulações sobre o Amor: Eros, Philia e Ágape; Affectus; Energética da Ação; Amor Mundi; Aceitação do Outro como Legítimo Outro; Amorosidade, Amor como Revolução, Reconhecimento, Ressonância, Alteridade, Relação Ético-Política, etc. O conceito de Amor que temos assumido como referência maior é: “O Amor é a afinidade do ser com o ser”, justamente por seu caráter genérico, universal, cósmico (já que não é exclusivo do ser humano), admitindo uma gradação de enorme espectro que vai da força física (no caso das partículas subatômicas, por exemplo) ao amor incondicional pelo outro!

Retomando…

O que é mesmo essencial para melhorar a Educação Escolar?

Entendemos que quatro grandes exigências devem ser, em alguma medida, satisfeitas:

1.Garantir as Condições de Trabalho do Professor (e dos Trabalhadores da Educação em geral)

2.Rever a Formação do Professor

3.Rever a Prática Pedagógica

4.Resgatar a Potência da Docência

Lembrando que toda esquematização é uma simplificação da complexa realidade, com fins didáticos de a compreender. Não deve ser absolutizada; deve/pode ser usada e depois deixada de lado, analisando se de fato está ajudando a entender a realidade com vistas a nela intervir para transformar!

Autor: Celso dos S. Vasconcellos

Bibliografia de Referência

VASCONCELLOS, Celso dos S. Currículo: a Atividade Humana como Princípio Educativo, 4ª ed. São Paulo: Libertad, 2017.

__________ Avaliação da Aprendizagem: Práticas de Mudança – por uma práxis transformadora, 12a ed. São Paulo: Libertad, 2017.

__________ Avaliação: Concepção Dialética-Libertadora do Processo de Avaliação Escolar, 20ª ed. São Paulo: Libertad, 2015.

__________ Construção do Conhecimento em Sala de Aula, 18a ed. São Paulo: Libertad, 2017.

__________ Coordenação do Trabalho Pedagógico: do projeto político-pedagógico ao cotidiano da sala de aula, 16a ed. São Paulo: Cortez, 2020

__________ Indisciplina e Disciplina Escolar: fundamentos para o trabalho docente, 4ª reimpressão. São Paulo: Cortez, 2017.

__________ Para onde vai o Professor? Resgate do Professor como Sujeito de Transformação, 14a ed. São Paulo: Libertad, 2018.

__________ Planejamento: Projeto de Ensino-Aprendizagem e Projeto Político-Pedagógico, 26ª ed. São Paulo: Libertad, 2018.

Veja também