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Um banquete, uma ceia e duas mortes

O Sócrates platônico e o Jesus do Novo Testamento, pelo uso do mito e de parábolas, deixaram um legado imensurável de valores, que a bestialidade humana se recusa admitir e botar em prática.

Recaem sobre nós, queiramos ou não, as mortes de Sócrates e de Jesus de Nazaré. Talvez porque, se estivéssemos em Atenas, no ano 399 a.C., teríamos votado pela condenação do filosofo grego que pregava “só sei que nada sei”; ou, em Jerusalém, no ano 33 d.C., diante de Pilatos, teríamos engrossado o coro da turba que bradou “Esse não! Mas Barrabás, sim!”, em detrimento do “Filho de Deus”.

Há mais semelhanças entre as condenações à morte de Sócrates e de Jesus de Nazaré do que, ao estilo Shakespeare, a nossa vã filosofia possa imaginar. Nos personagens que emergem da dramaturgia de Platão e do Evangelho segundo João, há um leve toque de “suicidas”.

Sócrates, admite-se, assegurou a sua condenação ao se recusar a negociar, tornando a situação irreversível, para ele, com a proposta de castigo alternativo a lhe ser imposto no lugar da cicuta. Além de ter refutado todas as oportunidades de fuga que lhe foram facultadas.

Jesus, em João 19, flagelado e coroado de espinhos, não deixou opção a Pilatos, que havia dito “Eu não encontro qualquer culpa nele” (João 18), quando, no pretório, ao se recusar a responder de onde vinha e, diante do questionamento “Não me falas? Não sabes que tenho autoridade para te libertar e autoridade para te crucificar?”, ter contestado “Não terias qualquer autoridade sobre mim se ela não tivesse sido dada de cima. Por isso quem me entregou a ti tem mais culpa”. Pilatos vacilou. Ainda tentou libertá-lo. Mas, diante dos berros da turba “Se o libertares, não és amigo de César”, cedeu. Jesus foi levado ao Gólgota, onde foi crucificado. E morreu para que se cumprisse a Escritura.

Sócrates, ao não condescender negociar valores, praticamente forçou Atenas, e, de resto, todo o mundo ocidental, a assumir a culpa por uma morte que, admitem algum, ele mesmo escolheu. Idem Jesus, no caso dos cristãos, ao se deixar morrer para que se cumprisse a Escritura.

Se tivéssemos tomado assento naquele júri de Atenas, como teríamos votado? Lembremo-nos que Atenas vivia quadro de humilhação militar e divisão política, quando Sócrates foi julgado. É provável que, diante de argumentos ditos irrefutáveis, muitos endossassem teses de que é preferível a injustiça à desordem, Goethe, ou que a preservação da ordem social e legal torna possível a reparação dos erros da justiça, Hegel, e votassem pela condenação. E, no caso de Jesus, como se contrapor ao argumento de que libertar o nazareno era o mesmo que recusar a autoridade de César.

Enquanto refletimos, parece que não nos resta outro caminho que não seja colocar em recesso, pelo menos em tese, aquele júri de Atenas e o flagelo e a crucificação de Jesus, sobrestando o juízo no pretório. Nesse entremeio, buscamos a redenção do nosso sentimento de culpa. Pois, até para aqueles que acreditam na Ressurreição de Cristo, a agonia e os gritos de abandono do nazareno na cruz soam terríveis.

Mesmo que a morte de Sócrates, na descrição de Platão aparente certa leveza, isso também não nos exime, mesmo que simbolicamente, de responsabilidade. As justificativas para essas duas execuções ainda permanecem abertas.

O Sócrates platônico e o Jesus do Novo Testamento, pelo uso do mito e de parábolas, deixaram um legado imensurável de valores, que a bestialidade humana se recusa admitir e botar em prática.

Foram dois personagens singulares que, mesmo separados por 432 anos na existência terrena, comungaram em muitas coisas, havendo, inclusive, quem identifique sinais da maiêutica socrática nas parábolas de Jesus.

Sobre o título dessa coluna, o banquete mencionado é o ocorrido por volta do ano 400 a.C., na casa de Agáton, descrito na obra de Platão, O Banquete, que teve Sócrates como personagem principal; e, a ceia, evidentemente, A Última Ceia (João 13). Depois desse banquete, segue-se o julgamento e a execução de Sócrates, no ano 399 a.C. E Jesus de Nazaré, desse último encontro com os seus discípulos, partiu para a morte, quase imediatamente.

Em tempo, os ensinamentos deixados por Sócrates e Jesus colocam, acima de tudo, o altruísmo, o amor e a compaixão, como valores universais. Para aqueles que, em nome de Deus, insistem pregar o contrário do que ele ensinou, nunca é demasiado rememorar as palavras de Jesus: Quem julgam vocês que sou?

Autor: Gilberto Cunha

Liberdade

Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.

Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, a ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade.

Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão; nossos bisavós gritavam “Liberdade, Igualdade e Fraternidade! “; nossos avós cantaram: “Ou ficar a Pátria livre/ ou morrer pelo Brasil!”; nossos pais pediam: “Liberdade! Liberdade!/ abre as asas sobre nós”, e nós recordamos todos os dias que “o sol da liberdade em raios fúlgidos/ brilhou no céu da Pátria…” em certo instante.

Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre como diria o famoso conselheiro… é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo de partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho…

Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e de teleguiado é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Suponho que seja isso.)

Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.

Por isso, os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra inocentemente vai até onde o sonho das crianças deseja ir (As vezes, é certo, quebra alguma coisa, no seu percurso…)

Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora (muito de outrora!…) não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento! Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida.

E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões, usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade, morreram queimados, com o mapa da Liberdade nas mãos! …

São essas coisas tristes que contornam sobriamente aquele sentimento luminoso da LIBERDADE.

Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte.

E os tímidos preferem ficar onde estão, preferem mesmo prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato.

Mas os sonhadores vão para a frente, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos, que falam de asas, de raios fúlgidos, linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel…”.

AUTORA: Cecília Meirelles. Escolha o seu sonho: crônicas. Editora Record: Rio de Janeiro, pág. 7)

ATIVIDADE PEDAGÓGICA:

Neste vídeo a seguir, segue leitura do texto e propostas de atividades para estudantes das séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. A intenção, com esta publicação, é subsidiar a leitura e conhecimento do texto, o conhecimento sobre a autora e o aprofundamento do tema Liberdade junto aos estudantes através de atividades pedagógicas.

Acesse e confira! https://youtu.be/baHNcwgwtSU?t=470

Tempos de Utopias

Utopia é um conceito complexo e cheio de significados que atravessa o campo do conhecimento das ciências sociais, da filosofia política, da literatura e também da educação.

Conforme ressalta o sociólogo Michael Löwy, utopias são ideias, representações e teorias que aspiram uma outra realidade, ainda não existente. Sendo assim, as utopias tem uma dimensão crítica e até de negação da ordem social existente, pois são subversivas, podem assumir uma função revolucionária e são imprescindíveis para esperançar os tempos de crise.

Na história renascentista, um dos autores ligados ao conceito de utopia foi o inglês Thomas More (1478-1535). Filho do juiz John More, foi político, filósofo, humanista, diplomata, membro do parlamento inglês e chanceler no reinado de Henrique VIII. Decidido a seguir os passos do pai, formou-se em Direito na Universidade de Oxford e ingressou na vida política. Apesar de seus deveres públicos, foi um escritor influente. Além da Obra Utopia escreveu diversas outras obras dentre elas História de Ricardo III, considerada a primeira obra-prima de historiografia inglesa.

Thomas More pode ser considerado o grande representante inglês do renascimento e foi profundamente influenciado pelo pensamento de Erasmo de Rotterdam. Pode-se dizer que toda a obra de More inseriu-se dentro dos quadros do pensamento renascentista, mais particularmente dentro das coordenadas do Humanismo. Os humanistas se dispunham a repensar os filósofos antigos, de maneira a integrá-los na concepção cristã da vida.

(Sugiro leitura de crônica escrita a partir de obra Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam (1469-1536)): https://www.neipies.com/as-loucuras-de-nosso-tempo/

Descontente com a estrutura econômica vigente na Inglaterra, More escreve a obra Utopia, nome de uma ilha fictícia, na qual é apresentada uma sociedade ideal, sem desemprego, fome, doenças, guerras e intolerância religiosa. No centro de cada quarteirão destas cidades da ilha encontram-se um mercado de coisas necessárias a subsistência, onde são depositados os diferentes produtos necessários para as famílias.

Cada pai de família busca nestes mercados tudo o que necessita para os seus e por isso na Utopia de More não há famintos, indigentes, criminosos.

Quanto a organização política, a Utopia regula-se por um regime democrático, com um sistema completo de eleição dos magistrados de forma a não permitir o abuso de autoridade. As leis são discutidas amplamente a fim de evitar que sejam injustas e possam dar privilégios a qualquer cidadão. As instituições têm por finalidade impedir, por todos os meios, a possibilidade de os governantes conspirarem contra a liberdade, oprimirem o povo com leis tirânicas ou mudar a forma de governo.

No que tange a questão religiosa, os habitantes de Utopia professam várias religiões, desde os mais primitivos cultos astrológicos, como a adoração do Sol, até a crença num Deus único, eterno, imenso, desconhecido, inexplicável, onipotente e onisciente.

Apesar dessa diversidade, os adeptos das diferentes crenças e seitas não entram em conflito, pois todos se respeitam mutuamente. O Estado, por sua vez, não impõe nenhum credo e assegura a tolerância religiosa.

Thomas More se indispôs com o rei Henrique VIII por não concordar com a separação da Inglaterra da Igreja Católica e por isso foi destituído do cargo de chanceler. E ao negar-se a assinar o Ato de Sucessão que declarava nulo o casamento do monarca, foi preso e posteriormente condenado à morte por decapitação.

Mais de quinhentos anos nos separam dos escritos de Thomas More.

Seu pensamento e suas ideias influenciaram as democracias contemporâneas e continuam inspirando as novas gerações. Talvez seja urgente e necessário revisitar seus escritos, principalmente para perceber que ainda estamos longe de vivenciar a Utopia que ele tão bem descreveu.

Em certo sentido, do ponto de vista político, religioso e econômico estamos distantes das formulações que inspirou Thomas More a escrever sua Utopia da Inglaterra do século de XVI. Talvez devemos aprender com seus escritos o básico para a construção de uma sociedade democrática, a vivência da tolerância religiosa, o respeito pela diversidade e a solidariedade como valor econômico fundamental para a promoção da dignidade humana.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Sentir-se culpado é ruim, se sentir responsável é bom

Alimentar o sentimento onipotente de culpa, culpar a si ou aos outros, é o pior que temos a fazer. Resignar-se frente a parva condição humana, assumir nossa responsabilidade pelos erros cometidos e buscar uma atitude reparatória é o melhor que temos a fazer.

Emma: a pior “solução”

Flaubert, em “Madame Bovary” (1857), conta de Emma, uma mulher que, por ser “adultera”, trouxe sofrimento ao marido Charles, aos familiares de ambos, à sociedade. Mas Flaubert descreve a história de vida da personagem e nos permite entendê-la: Emma cresceu com o único sonho de encontrar na vida uma relação amorosa idealizada.

Casa com Charles, um médico viúvo, mais velho, e não encontra a relação que idealizou. No casamento não se encontra. Fora do casamento também não. Mas é só o que Emma tem na vida. Tenta encontrar o que busca em um amante. A relação acaba mal. Tenta em outro, o final é ainda pior.

Como constatou Alain de Botton: “No momento em que Emma perde seu status na comunidade, derrama arsênico e se deita na cama para esperar pela morte, poucos leitores têm ânimo para julgar”. Emma não tinha “pitadas de psicopatia”.

Emma: a segunda pior “solução”

Vamos imaginar que Emma, em vez de cometer o suicídio, dá-se conta de que, ao procurar amantes, além de se colocar numa posição ruim na sociedade em que vivia, trouxe sofrimento para si mesma, para seu marido e demais familiares. E, percebendo isso, passa a sentir uma culpa avassaladora. E a culpa a deixa paralisada, infeliz e sem perspectiva. Tenta expiá-la da forma como se expiam as culpas: com atitudes destrutivas. Convém lembrar dos métodos “medievais”: subir escadarias de joelho, açoitar-se…

Emma: a melhor solução

Nós, leitores de Flaubert, não culpamos Emma porque percebemos sua reduzida capacidade naquele momento de sua vida. Fica evidente que Emma agiu não por maldade, mas pela limitação de só ter um sonho na vida e não conseguir percebê-lo irrealizável. E não encontrou outro interesse. Não conseguiu ir atrás de outro interesse. Mas, se fosse possível a ela perceber a melhor saída, como seria essa “melhor saída”?

Não se culparia, pois reconheceria que, naquele momento, “não podia agir de outra maneira”. Seria “culpada” se tivesse, naquele momento, poder, “cabeça” para agir diferente. Não tinha.

Volto a citar o ótimo livro “Sentimento de culpa”, de Guedes e Walz: “O sentimento de culpa é o sentimento de onipotência”.

Emma perceberia que, por suas limitações, agira mal, sem poder não agir mal. Mas reconheceria o erro. E se sentiria responsável por ele e procuraria reparar. Com o sentimento de culpa, iria atrás de saídas destrutivas. Com o sentimento de responsabilidade, poderia buscar reparações construtivas.

Em síntese, alimentar o sentimento onipotente de culpa, culpar a si ou aos outros, é o pior que temos a fazer. Resignar-se frente a parva condição humana, assumir nossa responsabilidade pelos erros cometidos e buscar uma atitude reparatória é o melhor que temos a fazer.

No entanto, culpar-se? Quem consegue ficar sempre focado? Ninguém, é claro. Ninguém é, de fato, infalivelmente onipotente. Assumindo nossa limitação, não vamos esperar e exigir de nós mesmos o que não podemos. Leia mais: https://www.neipies.com/a-culpa-nao-serve-para-nada/

Autor: Jorge A. Salton

Lições de uma implosão

É válido lembrar que sempre poderemos aprender não somente com os nossos erros, mas também, com os erros dos outros. Seja por intermédio de uma estória, como vimos sobre Pandora e Eva, seja na própria vida “real”, como é o caso deste texto que procurou encontrar lições, mesmo em uma tragédia.

O Titan embarcou rumo a uma expedição nas profundezas obscuras do oceano com o principal objetivo, turístico, de visualizar nada mais que, segundo os boatos de 1915, o navio mais luxuoso e seguro do mundo.

A passagem do Titanic poderia chegar a 50 mil Euros ou 240 mil Reais. Isso sem correções, que poderia passar de meio milhão na atualidade. Já um “assento” do Titan (entre aspas, porque aquilo não parecia ter bem assentos e não era nenhum pouco luxuoso), poderia ser comprado pela bagatela de 1,1 milhão de Reais.

Isso tudo para ver uma das maiores catástrofes marítimas da história, por uma tela. Eu não iria, não porque eu não tenho dinheiro, sendo sarcástica, mas, porque entrar em contato direto com algo que representa tanto sofrimento não é algo que se assente muito bem em mim (eu sei, tem muita história por lá, e essa é a parte interessante, mas, ao menos para mim, o outro lado parece pesar mais).

Às pessoas que me rodeiam que sabem: ai delas se compartilharem fotos de acidentes ou tragédias no meu whatsapp: leva xingão e discurso na hora!

Isso, de algum modo, me faz questionar essa “curiosidade” que muitas vezes chega a ser insana. Aliás, para os curiosos, a palavra curiosidade, segundo a página “A Origem das Palavras” deriva do latim Curiositas que significa “desejo de conhecer, de se informar”, a raiz latina “cur” significa por quê. É também a origem da palavra “cura” que quer dizer cuidado, e da palavra curioso, que se refere àquele que teria sempre o cuidado de saber o porquê, de saber mais.

Curiositas era uma virtude, associada ao desejo da mente pelo conhecimento, e uma motivação nobre e louvável. Nada parecido com a curiosidade que estamos nos referindo por aqui, não é mesmo?

Mas, o povo antigo era esperto, pois possuíam uma denominação específica para esse outro tipo de curiosidade, eles a denominavam cupiditas, que também, segundo informações da página A Origem das Palavras, se trata de um tipo de “curiosidade” que tem efeitos opostos sobre a própria mente. Como, por exemplo, a curiosidade dos fofoqueiros, a curiosidade por informações inúteis, a curiosidade que coloca em risco a própria vida sem um bom motivo! Falando nisso:

De cupiditas sofreu Pandora, na mitologia, aquela que se fez esposa de Epimeteu e a quem deram os deuses uma caixa com a recomendação de que nunca a abrisse, pois, continha lá dentro todos os males e desgraças do mundo. Por não ter resistido ao pior da sua própria curiosidade, sucumbiu Pandora à tentação de ver o que havia dentro da caixa – e libertou toda a espécie de males sobre o mundo (o egoísmo, a crueldade, a inveja, o ciúme, o ódio, a intriga, a ambição, o desespero, a tristeza, a violência, e todas as outras coisas que causam miséria e infelicidade). E todos os males podem ser chamados por um único nome: Ignorância (A Origem das Palavras).

De algo parecido sofreu a Eva, lá no jardim do Éden, ao escolher comer a única fruta proibida naquele paraíso inteiro (e eu nem vou entrar na discussão de que essas estórias parecem ser um tanto quanto machistas, ao escolherem o que a ampla cultura impõe como o “sexo frágil”, para ceder as tentações, essa discussão fica para uma próxima oportunidade). Mas, salvo as exceções, parece-me que as nossas narrativas retratam muito bem os males que uma curiosidade mal-empregada pode nos causar.

É justamente dessa curiosidade que os telejornais se alimentam, de sangue e de tragédia. É a curiosidade oca, vazia que as pessoas mais consomem. Infelizmente, pois se utilizassem a curiosidade como virtude, aquela que está relacionada ao desejo por conhecimento, acredito fielmente que grande parte dos maiores sofrimentos e preocupações da humanidade estariam, no mínimo, bem encaminhados. No entanto, elas preferem continuar abrindo a caixa de Pandora ou comendo maças.

Mas, o Titan, além de carregar consigo o peso ou a problemática da curiosidade, também pode nos fazer refletir sobre as profundezas de nosso oceano: metaforicamente falando…

Isso porque, segundo o G1, ele já havia feito mais de vinte viagens. Segundo os especialistas, toda vez que ele submerge e emerge ele vai acumulando danos, que quando submetidos a altas pressões, um pequeno amassado que represente 2% da superfície do submarino é suficiente para reduzir a profundidade máxima da operação em 50%, pois, a pressão externa exercida em uma profundidade de 3,8 mil metros é equivalente a um elefante apoiado em cada pedaço de 25cm² (um quadradinho de 5cm x 5cm) e isso significa dizer que qualquer trinquinha, nessas condições, pode virar um trincão.

O que me faz lembrar de algumas questões subjetivas, como, por exemplo, quantas vezes nos submetemos a altas pressões, dizendo sim a todos os pedidos, enquanto o nosso corpo implora por descanso ou reparo. Quantas vezes fizemos mais do que podemos fazer, deixando marcas em nós mesmos, até que um dia, essas pequenas trinquinhas, acumuladas ao longo de inúmeras situações, culminem em uma implosão. Que pode ser um AVC, um infarto, um Burnout, uma Depressão ou um transtorno de Ansiedade Generalizada.

E o mais irônico de refletir, é que as pessoas se indignam com o que aconteceu com o Titan, mas, nem piscam para a implosão que está se encaminhando dentro delas, ignorando todas as medidas de segurança, dia após dia.

Podemos refletir também o quanto o mundo inteiro se envolveu com a história do Titan. Por alguns dias, ficamos aflitos e até mesmo sufocados em nos imaginar dentro de uma cápsula, a quilômetros de profundidade, sem comida e com o oxigênio contado.

Você já parou para refletir em como o fato de apenas imaginarmos algo pode nos causar tremendo mal-estar? Como nos lembra o Estoicismo, a sugestão é: domine a sua mente, caso contrário ela dominará você!

Mas, a essa capacidade de se colocar no lugar do outro, como se você fosse o outro, e portanto, compreendendo o contexto do outro, e o mais importante sentindo! Chamamos de empatia. Esse mecanismo natural é fundamental para a sobrevivência da espécie humana, porque ao nos solidarizarmos com aquela situação, de tal modo que consigamos sentir a dor a aflição do outro, também sentimos uma vontade de querer ajudar. Resultado das buscas para encontrar um submarino no oceano e a comoção mundial. É por essas que a empatia acaba promovendo a preservação de nossa espécie. É por essas que um mundo cada vez mais egoísta, uma grandeza diretamente contrária à empatia, pode mesmo culminar em nossa implosão.

Nem precisaremos de uma ajuda externa, um meteoro, como aconteceu com os dinos, a gente dá conte de acabar com a humanidade sozinha, dada a nossa “inteligência” ou “curiosidade”.

De tudo o que conversamos até aqui, ainda acredito que a maior lição vem a partir de agora, ou seja, em como alteraremos as normativas de segurança, o projeto de submarinos, a escolha de materiais, estudos, pesquisas dentre outras infinidades de cuidados redobrados, com o principal objetivo de tentar assegurar que essa tragédia não se repita.

E eu sei, ninguém gosta de errar, ficamos putos quando dá um erro no computador, ficamos chateados e incomodados quando erramos, quando as pessoas erram, pois, ele atrapalha os nossos planos… e ainda mais quando tudo isso resulta em uma tragédia. Vivemos em uma sociedade que associa o erro ao fracasso, a incapacidade. Essa cultura também alimenta um perfeccionismo tóxico, que deixa muita gente doente. Isso porque, a maioria de nós nunca parou para enxergar o erro como uma oportunidade.

Um erro, por pior e mais trágico que ele seja, sempre poderá nos fornecer um aprendizado para consertarmos o que não está bom, para escolhermos um caminho melhor, para nos tornarmos pessoas melhores. Mas, há um porém, é preciso reconhecer no erro essa capacidade, ao invés de apenas lamentar ou como muitos costumam fazer por aí: escondê-lo!

E tem mais uma coisinha (depois eu prometo que finalizo o texto). É válido lembrar que sempre poderemos aprender não somente com os nossos erros, mas também, com os erros dos outros. Seja por intermédio de uma estória, como vimos sobre Pandora e Eva, seja na própria vida “real”, como é o caso deste texto que procurou encontrar lições, mesmo em uma tragédia.

E agora eu desafio você, caro Leitor, a fazer o mesmo! Deixe um comentário contando para gente quais foram as lições que o submarino Titan lhe ensinou! Sinta-se à vontade para deixar um comentário e ampliarmos a discussão a respeito do assunto!

Conheça as outras 08 crônicas já publicadas no site: https://www.neipies.com/author/ana-paula/

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Bem pessoal, chegamos ao final de mais um texto reflexivo! Espero que essa reflexão possa ter contribuído, de algum modo, com a sua vida.

Se possuir interesse em conferir mais deste conteúdo, você pode clicar nos meus textos aqui em baixo ou conferindo os meus vídeos pelo youtube, procurando pelo canal Diálogos da Ana! https://www.youtube.com/channel/UC0_oBeGUwF2ce2YdL9-1GSQ

Autora: Ana P. Scheffer

FONTES:

A Origem das Palavras: https://www.facebook.com/113798452062157/posts/234575589984442/

G1: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/06/24/entenda-como-as-escolhas-de-design-e-materiais-do-submarino-podem-ter-causado-a-implosao.ghtml

Uma cidade sob um olhar fotográfico

Diogo Zanatta define-se repórter fotográfico. Zanatta é graduado em Publicidade e Propaganda pela UPF (Universidade de Passo Fundo), 2006. Cursou também uma pós-graduação – Fotografia Imagem em movimento – Universidade Positivo – PR.

Diogo atua, apaixonadamente, para revelar a realidade, eventos sociais, culturais e políticos, como também as mudanças visuais que ocorrem no Passinho, como é carinhosamente chamada a cidade Passo Fundo.

Este jovem fotógrafo funde, de certa forma, o ser cidadão com o ser fotógrafo. Em breves diálogos, pudemos constatar que as lentes e as suas máquinas fotográficas tornaram-se também ferramentas que revelam a cidadania dele mesmo e a cidadania da nossa gente passo-fundense.

Conheçamos Diogo Zanatta por ele mesmo.

Como, quando e porquê esta tua paixão pela fotografia? Conte-nos.

Sempre fui um menino inquieto, mas sem muita definição do que queria ser. Tentei ser até veterinário. Ao crescer, percebi uma tendência com as artes. O contato com as câmeras se deu a partir da minha mãe, que fotografava a partir de uma janela (a mesma pela qual ainda faço registros fotográficos). Minha mãe sempre nutriu amor por fotografias.

Ganhei do meu tio Nelceu Aberto Zanatta uma câmera um pouco mais moderna, pois o tio sempre gostou de fotografias também, e daí em diante nunca mais parei de clicar, mas já a partir do mundo digital.

Minha paixão é registrar o cotidiano a partir do lugar onde vivo, do que enxergo e do que posso revelar. A fotografia pode se tornar um instrumento de historicidade, quando revela o cotidiano dos acontecimentos de um lugar.

Com que olhar, com que sentidos e com que sentimentos desvendas Passo Fundo através das lentes?

Gosto de pensar que na nossa querida Passo Fundo temos muitas coisas para mostrar, que não estamos desconectados do resto do Brasil e do mundo. Como repórter fotográfico, posso registrar acontecimentos sociais, políticos e também fenômenos naturais como chuva, raios, eclipses, meteoros (que também gosto muito). Gosto de valorizar o que acontece na nossa cidade, uma cidade do interior.

O que mais chama atenção no cotidiano das pessoas que habitam nossa cidade Passo Fundo?

Ao observar o cotidiano de nossa cidade, percebo que somos um povo acolhedor, mas poderíamos ter um olhar mais aberto para diferentes realidades como a vida dos imigrantes que moram por aqui, dos indígenas, das pessoas que moram em nossas periferias e ocupações. Tento dar um pouco mais de visibilidade a estes tantos que não são tão bem valorizados, como deve ser a missão de um documentarista.

Um registro seu, feito em nossa cidade, que julgas especial. Tens?

Sim, tenho uma foto da Praça Tamandaré que gosto muito. Gosto deste lugar da cidade, tanto que já participei anos atrás de uma associação que cuidava desta praça.

Um registro seu, feito em nossa cidade, que julgas relevante. Tens?

Fiz uma foto que projetou Passo Fundo para fora, numa época em que aconteciam em todo o país um movimento de grandes manifestações (ano de 2013). Neste período exerci o papel de repórter fotográfico regional, o que me permitiu uma experiência de trabalho com fotos por certo período, em 2014, na nossa capital, Porto Alegre.

Um registro seu, feito em nossa cidade, que julgas tenha grande impacto social. Tens?

Faço registros fotográficos para um projeto chamado “Arquitetura para quem mais precisa”. Este projeto mostra necessidades que vão para além de casas, provocando olhares sobre a dignidade humana de quem as habita.

Consideras a fotografia uma forma de arte? Qual é a importância social da fotografia?

Não considero a minha fotografia uma arte; eu procuro mostrar os fatos, a informação que está presentes em fenômenos sociais, políticos e sociais. Se outros consideram minhas fotografias uma arte, tudo bem. O Brasil tem muita desigualdade social. Fazer da fotografia uma ferramenta para desvelar as realidades como elas são é parte de sua importância social. O fotógrafo tem de se despir de preconceitos, discriminação, mostrando as realidades como elas se apresentam, para serem vistas, apreciadas e enfrentadas por todos nós.

Como vês e como olhas Passo Fundo por teu olhar cidadão?

Nasci passo-fundense. Vi Passo Fundo em mudanças. Gosto de fotografar como uma questão de cidadania; me sinto cidadão por poder fotografar e registrar coisas boas de nossa cidade e coisas que precisam ser melhoradas. Não consigo mais separar o aspecto cidadão do aspecto fotógrafo. Faço da fotografia uma forma de cidadania!

Um pensamento, uma ideia ou uma filosofia que defina você.

“O sentimento de insignificância frente ao universo faz de você um ser humano melhor”. (Revista Galileu, matéria:https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Comportamento/noticia/2015/08/o-sentimento-de-insignificancia-frente-ao-universo-faz-de-voce-um-ser-humano-melhor.html)

Uma mensagem para quem te lê agora.

Sou movido pela coletividade. Acho que o senso de coletividade traz em si uma grande potência capaz de promover maiores mudanças. Na arte, na fotografia, na vida, a coletividade nos salva, constituindo mudanças reais e significativas para a maioria, para a humanidade como um todo. Acredite nisso você também e engaje-se!

Na solidão das livrarias

Visite as livrarias com urgência, porque corre-se o risco de restarem somente farmácias. E, ao longo de seu labirinto de uma vida sem letras, não há saída que possa ser encontrada.

O dia estava lindo, véspera de feriado, clima perfeito para uma prévia de um descanso programado em mais um final de semana tedioso com esquinas e ruas tomadas, gentes pelas calçadas, carros que ameaçam a todos, ratos que correm pelo meio-fio, sorrisos apressados, promessas de alegria.

Olho pelo ângulo de uma árvore formosa que estava ali, quase gigante, mas que fora cortada em pedaços para dar lugar a mais uma farmácia, em uma dupla tragédia urbana.

“Corta-se uma árvore, uma vida.

Nasce uma loja iluminada

em seu lugar

para vender a morte

ou seu dia adiar.”

Uma típica sexta à tarde, azulada, nervosa, de pessoas que andam mais rapidamente, sem saber muito exatamente em que parede sua noite vai topar. Aproximo meus passos cada vez mais rente ao shopping onde fala-se haver uma grande livraria, a mais sortida, como diziam alguns antigos, ou, com inúmeros títulos, em linguagem de anteontem.

Quantos carros!

Cada metro é disputado por esses casulos ambulantes, cada pessoa com o seu, como se fossem a roupa de cada um, colorida, de aparência duvidosa, e o seu mundo buscando estacionar no seu riscado. Pensei que teria problemas com o excesso de pedestres, logo à entrada, onde tive a certeza de que parques e espaços verdes estão em declínio abissal por aqui. Toda a cidade veio ao shopping.

“Corredores e lojas cheias de todos, pizzarias e lanchonetes ocupando cada meio metro possível nesta caverna moderna”, pensei… Caminho um pouco mais, vejo a capa de um livro cobiçado, pergunto seu preço e sumo. “Volto na segunda – pensei – quando a realidade será imposta a todos estes consumidores distraídos”.

Mas não.  Alcanço a livraria em minutos, e, surpresa: vazia!

– Não creio! – resmunguei baixinho.

“Quanta gente vem pra cá…

Como,

tantos a gastar,

comer e mostrar,

e ninguém a pensar?”

A atendente pula em minha direção em uma reação dúbia. De alegria intensa, mas, ao mesmo tempo, surpresa: “Um cliente… Nossa!” – Sabe-se lá quanto tempo não via um deles. Ela falava, mas de canto de olhos via seus colegas a esmo, pelas colunas da sala. Disfarçados, entediados, por horas e horas em pé, sem alguém para oferecer o Escravidão, do Laurentino; Ikigai, do Ken Mogi; ou mesmo A Vida dos Doze Césares, do Suetônio. E centenas de outros e mais outros…

De que falam mesmo os vendedores de livros enquanto seus clientes não chegam? Falam com os próprios livros, suas esperas e histórias? Não pode haver maior solidão do que uma livraria vazia cercada de gente por todos os corredores. A história adormecida em pilhas de obras não vendidas.

Nos hospitais, pelo menos, temos de aguardar os horários para sermos medicados. Em rodoviárias, temos de aguardar as chegadas de ônibus para que sejam anunciadas suas partidas. Em velórios, aguardamos a última lágrima para então sair da presença assustadora da dor humana que restou…

Em livrarias, todavia, a cura pode acontecer em segundos. É abrir o capítulo certo, a página perfeita, e a esperança se tornar manifesta. Não há espera que não possa ser desfeita nem resposta que se abstenha diante de um pretenso leitor curioso. Nada pode ser adiado, sequer o desejo de abrir o último romance e ler algumas linhas, apenas. Sentar-se, descansar os olhos, imaginar um viajante que não chega nunca… como este.

“Não sinto mais cheiro de nada.

Neste caminho estrangeiro que leva à minha casa,

nem mais composto de meus sonhos, apenas de mim.

Vou caminhando muitos passos, um de cada,                      

e estou andando há horas, na escuridão do dia, sem começo ou fim.

Nada mais humano, nem divino, nada sobre nada.

Sequer os raios me atingem, meu andar trôpego espia,

margaridas me seguem, crisântemos, fadas.

E o tempo que some, sombras se escondem, é o pio da noite, diria”.

Em que loja de calçados poderemos encontrar este presente? Quais farmácias nos dariam este calmante? Mas elas estão lotadas. Suas prateleiras mal suportam tantas promessas em suas caixas de alívio.

E as livrarias, que oferecem gotas de felicidade em suas poções mágicas de cura e de bálsamo, de contos e histórias, essas continuam vazias. Não as farmácias, mas elas mesmas poderiam receber receituários para poder vender seus livros. 

– Doutor, estou com vertigem.

– Tome a receita, vá e mergulhe com Alberto Caeiro.

– Doutor, tenho muitas dores pela manhã, logo ao despertar.

– Pronto, dose única: Manuel de Barros. Até o meio-dia, leia alternadamente.

É inaceitável o que se vê!

Estamos buscando nos shoppings desvios mais rápidos que nos satisfaçam, e saindo deles ainda mais vazios. Nossos passos nos apressam para que compremos mais e mais, e, em seguida, frequentemos as farmácias como se fossem pequenos free shopps para alívio e consolo das solidões que nós mesmos construímos.

Não seria mais simples irmos à essência? Logo após um lanche, misturar ao café Fernando Pessoa, adoçando lentamente a xícara com uma colher de açúcar da Clarisse?

Saio do lugar com a sensação de que os livros ainda irão se revoltar com todo o nosso descaso. Livros solitários, abandonados em prateleiras, nunca lembrados ou comprados, conspirando com outros ao seu lado, confabulando para todos irem às ruas e baterem os seus compêndios na cabeça dos humanos.

Coleções e avulsos que, na madrugada, desviam os centuriões modernos e fogem pelas calçadas para bater nos primeiros que encontram.  Dicionários, revoltados, gritando pelas esquinas. Romances, contos, biografias, todos indo à luta para despertar essa gente que caminha feliz em ruas iluminadas – todos, rigorosamente, a caminho da escuridão.

Então, ficamos assim: para pequenos enjoos da vida, busque a sua farmácia mais próxima. Se a dor persistir, corra para uma livraria e peça ao atendente uma solução simples e duradoura para o seu mal maior: leitura. Entre estantes, silêncio e muitos livros, é o lugar onde você pode dissolver de imediato suas dores da alma. Ou o seu vazio.

Mas visite as livrarias com urgência, porque corre-se o risco de restarem somente farmácias. E, ao longo de seu labirinto de uma vida sem letras, não há saída que possa ser encontrada.

Autor: Nelceu Alberto Zanatta

O Pavlo de Kiev

Estamos aqui na praça central de nossa cidade, não poderão destruir tudo.  Há muita história por aqui.  Venha, vamos dormir em um canto qualquer, um novo dia virá ao nosso encontro.

Um menino atravessa a rua, vem correndo ele, tentando cantar, tentando pular, tentando ser menino.

Sua Mãe o segura firme, entretanto, não o deixa ser o que apenas é.  Ela o puxa de todas as maneiras, como que a dizer… não seja um menino, seja invisível, ou uma pedra, uma nuvem, nada há de humano em um menino nesta praça diz ela. A praça morreu.

Ele não entende, a praça é a mesma onde fora criado, somente lhe tiraram suas cores. Virou preta, branca e cinza, por que suas cores foram sugadas pelas bombas.

Por que não posso correr minha Mãe se não se vê nada, não há bombas, elas já foram embora.  Até um esquilo, acho que vi a pouco. Vamos ficar aqui mais uns minutos.  Entre as bombas que caem pode-se encontrar um fiozinho de vida.

-Venha meu filho, temos de nos abrigar, porque o céu e o seu escuro muitas mortes nos trará.


E o menino que vê e sente seus passos sobre a destruição parece entender o alerta de sua mãe, ela mesma um alvo vivo, tentando proteger seu alvo menor. Fecha-lhe os lados do rosto para que não veja mortos retorcidos pelas ruas e a paisagem de horrores, planejada em salões suntuosos que um dia fora do Ivã, o terrível.

– Por que as bombas minha Mãe?  O que foi que vocês fizeram, que eu não possa saber.  Por que tanto fogo, e as árvores da praça por que queimaram todas? O que todos vocês fizeram para que nosso irmão se voltasse a nós?

-Nada Pavlo, não precisou fazer nada, bastou existir. O ódio, por si mesmo, vai se alimentando de mais ódio, e basta uma noite para se jurar vingança, e mais bombas cairão. Sem nada a fazer ou pensar, basta tentar e viver. Mais rápido Pavlo, temos de nos abrigar, porque bombas e mísseis são como a sorte, desde que o mundo se fez mundo, caem a esmo, não escolhem onde explodir. São as armas do ódio as que nos caem sobre as cabeças. Basta existir para a morte espreitar. Somos o alvo do mundo de ódio, Pavlo, e nossas defesas estão tão frágeis como se fôssemos crisântemos em campo minado.

Enquanto corriam e quase alcançavam um portão de ferro gongórico para entrar, o som pavoroso e infernal de um míssil atravessa a praça, roçando as copas das árvores que teimavam em não tombar, e, quase os atinge.  Não os matou, por ora. Mas os enterrou de poeira e pedras, ou o que restou delas, as mesmas que enquadradas em prédios, ordenadas em fileiras perfeitas que sustentavam casas enormes, vê-se agora caindo como centelhas em uma praça sem vida.

-Levanta-se meu filho Pavlo, ainda não chegou a hora.  Vamos entrar neste porão escuro e frio por que é o que o ódio planejou a nós.  Venha meu filho, pelo menos criemos um círculo de calor com o que nos resta. Vamos dormir abraçados, não importando se conosco fiquem abraçados os que já partiram.

Estaremos seguros aqui, pela manhã vamos pensar mais em nós mesmos e renovarmos nossa fé. Os homens que nos odeiam podem ter planos, mas é o Senhor quem cuida de nossos caminhos. Rezamos tantos séculos neste país, em nosso passado, que nada nos fará mal.

Estamos aqui na praça central de nossa cidade, não poderão destruir tudo.  Há muita história por aqui.  Venha, vamos dormir em um canto qualquer, um novo dia virá ao nosso encontro.  Afinal estamos seguros neste prédio de Assuntos Exteriores e amanhã, alguém que não ouça pelas ogivas, amanhã alguém poderá nos resgatar.

Enquanto o deus da Ucrânia procura entender por que tantas crianças precisam morrer para satisfazer as metas de adultos adoecidos, no quartel general do grande irmão, soldados acéfalos e robôs confabulam, tentando traçar uma nova rota para mísseis de última geração. A geração da morte! De marte. De pedras somente, da desolação e do desamparo na nova Ucrânia.

– Camaradas, apontem este supersônico para o prédio no centro de Kiev, neste portentoso que já nos pertenceu um dia.  É a casa dos Negócios Estrangeiros. Destruam tudo!

Mas vem do porão as palavras para uma última noite de paz.  Nesta, pelo menos, Pavlo e sua Mãe dormirão até o amanhecer.

-Boa noite, meu pequeno filho! Vamos enfim dormir o sono dos que perambulam pelo mundo, o sono dos resgatados. Amanhã todos seremos esta praça.

Autor:  Nelceu Alberto Zanatta, autor do recém-lançado livro “A planta, suas folhas e um sino”.

Leia matéria sobre o livro: https://www.neipies.com/uma-potente-pegada-por-empatia-em-livro/

A culpa não serve para nada

A responsabilização e a reparação servem, estas sim, para muita coisa. Já a culpa… A culpa não serve para nada.

No início do conto “Topsy”, do livro “1905”, Brian sente muita culpa pela morte de uma elefanta. Dono de um mercadinho “escondido” na Mulberry Street, em Nova Iorque, era quem a alimentava. Porém, um dia ela foi eletrocutada a mando de Thomas Alva Edson. O fundador da General Eletric queria provar que a corrente elétrica desenvolvida pelo seu concorrente, usada no ato, era perigosíssima.

Brian, um “ninguém” se comparado a Edson, não tinha como evitar a execução. Por que, como Brian, sentimos culpa em situações que, se examinarmos bem, estão além de nosso alcance? Em “Sentimento de culpa”, excelente livro escrito por Paulo Sérgio Rosa Guedes e Júlio Cesar Valz, encontramos a resposta: “O sentimento de culpa é o sentimento de onipotência”.

**

Em um dia de muita chuva, um homem dirigindo um caminhão na mão certa, na velocidade certa, viu, de repente, um automóvel mudar de pista e vir direto em sua direção. Ele chegou a ver os olhos arregalados da motorista antes da batida. Seu caminhão virou de lado. Com poucos ferimentos, tentou em vão salvar a mulher.

Aqueles olhos arregalados o faziam acordar à noite com um imenso sentimento de culpa. Revisou sua conduta: foi tudo muito rápido, não teve como desviar para o acostamento. Como, mesmo assim, a culpa não o abandonava, foi a sua igreja, rezou, fez penitência. Nada resolvendo, veio me procurar.

Ele saía a viajar, concluímos os dois, com a fantasia onipotente de que, fazendo tudo certinho como fazia, nunca se envolveria em acidentes. E, assim, trabalhava sem medo.

De certa forma, esse sentimento de onipotência o beneficiava. Porém, provocava um efeito colateral. Se estava “em suas mãos” não se ferir nem ferir alguém, como conviver com aquela morte sem se culpar?

Só havia uma maneira: reconhecer que não estava somente “em suas mãos”… E conviver com o medo, trocar a culpa pelo medo.

Vamos imaginar que ele tenha cometido algum erro: teria, por exemplo, havido tempo para tirar o caminhão para o acostamento. Não o fez por não estar tão focado na estrada, por sonolência, algo assim. Seria adequado se responsabilizar por isso. Inclusive, poderia, numa atitude reparatória, tornar-se mais e mais focado, mais “acordado” para possíveis acidentes na estrada.

No entanto, culpar-se? Quem consegue ficar sempre focado? Ninguém, é claro. Ninguém é, de fato, infalivelmente onipotente. Assumindo nossa limitação, não vamos esperar e exigir de nós mesmos o que não podemos.

Resignados com a condição humana, nossas ações serão mais realistas. Não viveremos nas “alturas” dos poderes divinos, viveremos com os pés no chão e cientes de nossas responsabilidades e de, muitas vezes, termos de realizar atitudes reparatórias. A responsabilização e a reparação servem, estas sim, para muita coisa. Já a culpa… A culpa não serve para nada.

Autor: Jorge A. Salton

Democracia à brasileira (uma reflexão sobre as diferenças) Parte I

Se olharmos mais atentamente para nossa história, veremos que a própria composição do povo brasileiro moldou-se nessa direção, calcada, sobretudo, no não reconhecimento das diferenças, embora essas diferenças até sejam evidenciadas quando se quer menosprezar alguém!

Como o título anuncia, divido esse texto em duas partes. Segue a primeira.

Há, ainda, muitos problemas quanto a uma possível “democracia à brasileira” – aqui já adianto que não vou me ater a conceitos – que parecem inviabilizar a superação da desigualdade social e o enfrentamento da injustiça estrutural que compromete uma grande parte da vida de nossa gente. E nem preciso me afastar muito de meu cotidiano para constatar o que afirmo: minha ação na Pastoral Carcerária me mostra a todo momento esse fato.

Gostaria, porém, de me reportar a um desses problemas mais especificamente, pois que, a meu ver, ele engloba muitos outros: trata-se da desigualdade de oportunidades! Sem ela, os maiores esforços envidados pela possível boa vontade de muitas e muitos (na política partidária ou não) correm o risco de cair no vazio. Mas o que significa mesmo isso – desigualdade de oportunidades?

Se olharmos mais atentamente para nossa história, veremos que a própria composição do povo brasileiro moldou-se nessa direção, calcada, sobretudo, no não reconhecimento das diferenças, embora essas diferenças até sejam evidenciadas quando se quer menosprezar alguém!

É então que surge a ideia, equivocada, de que nós vivemos, no Brasil, uma “unidade nacional”. Mesmo idioma (“quem não sabe falar é burro”!), mesmo tipo humano (“brasileiro é tudo igual, sempre querendo levar vantagem em tudo”!), mesma história (“do Oiapoque ao Chuí, eita brasilzão”!), mesmo modelito curricular para as escolas, expedido na capital federal para todo o país (“criança é criança, igual em qualquer parte”!) etc.

Esta presumida unidade nacional se tornou igualmente constitutiva de uma imposição cultural, já que se pauta pelo preconceito, por um moralismo falseado, por um cristianismo deformado e excludente, por um absurdo dizer seletivo que, ao absolutizar o que se deve ser, fazer, dizer, acreditar, descarta tudo e todas e todos que não se enquandram nos seus modelos. De arrasto, “todos são iguais perante a lei” (Constituição Brasileira…) e então, está arquitetada oficialmente a “democracia, com igualdade de direitos e deveres” para todas e todos nós…

Mas, é mesmo assim?!

Vejamos um exemplo: sobre a questão do “idioma nacional”. A Linguística (Ciência da Linguagem) se ocupa também de ajudar a demolir as muralhas do preconceito linguístico instaurado a partir da pretensa unidade linguística nacional (falamos todos um único idioma – Língua Portuguesa!). Tal empreendimento, se constante dos programas de ensino, nas escolas, redundaria numa “democracia linguística nacional”, já que se buscaria diminuir a resistência em tratar os postulados daquela ciência na prática do cotidiano, reconhecendo os dialetos, as variações regionais, não como “língua errada”, passível de ser “corrigida”, mas como um jeito diferente de falar, como constituinte da língua viva!

E o mais interessante é o que já se conseguiu apurar a partir da Linguística: o preconceito não é contra “a fala” da pessoa, mas contra ela mesma, enquanto falante! Destarte, infelizmente, vemos que uma “democratização linguística” está longe de se consolidar, e nós sabemos por quê: os lugares sociais estão também determinados (e muito!) pelo modo de falar! Essa, me parece, é uma das facetas da “democracia à brasileira” que traz enrustidos os ranços perigosos do “eu sei, tu não sabe, vim te ensinar”.

Pois proponho uma análise de democracia a partir das diferenças, o que até pode parecer paradoxal, já que “todos são iguais blá, blá”…

Há quem diga, inclusive, que o reconhecimento, a aceitação e a manutenção das diferenças, com vistas à construção da igualdade de oportunidades, pode se constituir até como chave de desenvolvimento do país! Ora, vejam só! Dessa forma, o fundo abismo criado em nome de uma suposta igualdade constitucional, que acaba por se consumar partindo de injustiças estruturais graves, se torna de alguma forma menos fundo, já que haveria, evidentemente, um esforço reconhecível empreendido, com reais políticas públicas no rumo das oportunidades, o que concorreria para que muitos desses abismos, que “selecionam” as pessoas e barram as oportunidades, viessem a ser paulatinamente desfeitos.

Os olhares do filósofo Paulo Freire indicam exatamente esta trilha, quando vem falando desde há mais de 50 anos, sobre “educação libertadora”, encontrando-se, em determinado trecho, com a Teologia da Libertação, o que torna ambas as propostas muito atuais e nos colocam frente a frente com a possibilidade de uma nova forma de democracia!

há grupos organizados que definem quem come e quem não come, quem pode ter casa para morar e quem não pode, já que a carência alimentar do corpo é cruel e seletiva e a moradia é um privilégio! Leia mais: https://www.neipies.com/fome/

Autora: Ir. Marta Maria Godoy

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