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Violência contra as Escolas e formação de uma Rede de Prevenção e Proteção

As respostas ao medo que assola as comunidades escolares não têm receita pronta, mas podemos buscar alternativas para o fortalecimento de um ambiente democrático e o auxílio de profissionais capacitados para a prevenção e a gestão adequada de ameaças e conflitos.

Acompanhamos as tristes notícias dos ataques ocorridos às escolas no país e no Rio Grande do Sul. Algumas das causas associadas a esses ataques são o bullying e a exposição da criança ou adolescente a situações violentas do cotidiano que o discurso de ódio, coordenado por grupos extremistas, busca canalizar. 

Desde 2013, existe um avanço da política de interdição do debate sobre a diversidade, valorização de mulheres e da educação sexual nas escolas. Isso gerou uma política de vigia sobre as e os profissionais da educação, cerceou debates importantes que visavam a justiça, o combate às violências, a democracia e a construção de cidadania plena. Assim, a escola virou um alvo também desprotegido pelo desinvestimento em formação, estrutura física e tecnologia.

As respostas ao medo que assola as comunidades escolares não têm receita pronta, mas podemos buscar alternativas para o fortalecimento de um ambiente democrático e o auxílio de profissionais capacitados para a prevenção e a gestão adequada de ameaças e conflitos.

O governo Lula, em resposta aos recentes ataques, anunciou medidas para o enfrentamento do problema da violência nas escolas.

Garantir a capacitação de profissionais em educação para a formação em direitos humanos, retomar a gestão democrática nas escolas com o protagonismo da juventude valorizado, é urgente para a recriação de um ambiente saudável, acolhedor e democrático em que todas e todos possam participar e serem sujeitos da construção de uma sociedade solidária, justa e igualitária.

É urgente a responsabilização das empresas de Internet para que impeçam que a rede de ódio angarie adeptos e crie o efeito buscado: popularidade pelo pânico e medo!

Estamos desencadeando a Jornada pela Segurança nas Escolas que buscará envolver gestores da educação e da segurança, estudantes e educadores/as, produzindo escutas e construindo políticas que possam proteger as escolas das violências que são da sociedade e ali se transformam em terrorismo por atingir inocentes indefesos.   

Jornada pela Segurança nas Escolas foi lançada em Rio Grande


A violência nas e contra as escolas também é efeito das bibliotecas escolares fechadas, como aqui no Rio Grande do Sul a exemplo do Instituto Estadual de Educação Juvenal Miller em Rio Grande, onde a deputada estadual Sofia Cavedon (PT), presidenta da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, realizou o lançamento da Jornada pela Segurança nas Escolas nesta última quarta-feira (12/04/2023).


A nossa escola tem Biblioteca? A pergunta foi de um aluno do Instituto, presente na reunião pública, após a manifestação da Deputada que também é presidenta da Frente Parlamentar Estadual em Defesa do Livro e da Leitura, e que desde 2019 luta pela abertura de todas as bibliotecas escolares, fechadas pelo governo Eduardo Leite.

Livros Sim, armas Não. Assim, Sofia Cavedon finalizou sua intervenção no primeiro encontro da Jornada pela Segurança nas Escolas que reuniu expressiva presença da juventude rio-grandina, além da comunidade escolar e autoridades da Segurança. “Foi uma grande oficina de formação dos alunos que escutaram a versão da Polícia Civil e da Brigada Militar, diferenciando o que é crime e o desafio das escolas neste momento. Fizemos uma escuta também da escola que além das ameaças, está com o refeitório interditado, não tem servidores para a limpeza, faltam professores e coordenadora pedagógica, monitores e porteiros, e a Biblioteca está fechada! Vamos ter que mudar isso tudo”, destaca a parlamentar anunciando que a escola entrará no relatório da Operação Dever de Casa e no monitoramento online da Comissão de Educação.

Seguem registros desta importante atividade na Cidade de Rio Grande.

(Fotos: Denis Soares)

Por Deputada Estadual Sofia Cavedon e Aline Seixas, Historiadora

Porto Alegre, abril de 2023

Como promover maior segurança nas escolas?

Group of children with female teacher walking in school corridor. Back view. Education or back to school concept

Qual é a melhor maneira de enfrentar a violência e garantir maior segurança e tranquilidade nas escolas?

Como mostra recente pesquisa realizada pela Nova Escola com mais de 5 mil educadores no período pós-pandemia, sete em cada dez professores relataram casos de violência nas instituições onde trabalham. 

Leia mais: https://www.neipies.com/como-o-aumento-da-violencia-nas-escolas-afeta-o-professor/

Estranhamente, mais uma vez, depois de graves acontecimentos que envolvem o uso de violência e morte dentro de escolas, todo mundo discute soluções, mas sem ouvir e considerar as vozes e as percepções das comunidades escolares (estudantes, pais e mães, professores e professoras, funcionários e funcionárias).


Precisamos, enquanto escola e sociedade, enfrentarmos a violência que envolve também os ambientes escolares na perspectiva de atacar as suas causas; não apenas as suas consequências.
A escola precisa ser organizada e reconhecida como um ambiente social seguro para todos. Neste sentido, a comunicação, a transparência e o permanente diálogo ajudarão na construção de vínculos de confiança entre escolas e famílias.


Algumas ideias para trabalhar o tema da violência nas escolas e no entorno delas:
*Divulgue em suas redes sociais #paznasescolas. Aborde o tema da violência na perspectiva propositiva/reflexiva e de prevenção;
*Fale da violência na perspectiva da prevenção e proteção com toda comunidade escolar: estudantes, pais e mães, professores e professoras, funcionários e funcionárias;
*Acredite e desenvolva, cada vez mais e com mais convicção, projetos que valorizem a cultura de paz nas escolas;
*Crie protocolos e cuidados específicos para a sua escola, pensando na maior segurança dos estudantes e dos professores e professoras, a partir da realidade e das condições que já existem;
*Cobre das autoridades maior zelo e responsabilidade por políticas públicas de segurança, capazes de garantir a todos o direito à segurança pública.
*Não alimente ilusões de que somente com mais policiamento e forças de segurança que resolveremos as questões que envolvem a violência na sociedade e nas escolas. Ataques a escolas estimulam projetos de vigilância armada, mas especialistas não veem benefícios. Pesquisadores defendem medidas como monitoramento em redes sociais mais efetivo do que policiamento ostensivo junto às salas de aula.


Leia mais: https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/amp/2023/04/ataques-a-escolas-estimulam-projetos-de-vigilancia-armada-mas-especialistas-nao-veem-beneficios


Cultura de paz e papel das escolas
A esperança é a força mobilizadora que nos faz olhar para o nosso lado (e para a história), com o propósito de perceber quem luta e quem já lutou por uma cultura de paz. Cremos que a cultura da tolerância e da paz nasce justamente nos esforços diários e perseverantes que afirmem o diálogo como pressuposto maior dos entendimentos humanos.


Martin Luther King, líder negro, religioso e pacifista, afirma que “nós não podemos nos concentrar somente na negatividade da guerra, mas também na positividade da paz”.


A paz não está e nem se realiza em contextos sem conflitos. Os conflitos fazem parte da natureza humana, mas cabe à sociedade e, às escolas, de modo particular, estabelecerem dinâmicas de convivência onde se experimentem a resolução de conflitos e diferenças pelas vias da escuta, do diálogo, do respeito mútuo e da aceitação das diferenças.


Quando escolas favorecem maior diálogo sobre o tema da violência, ajudam a desenvolver senso crítico em seus alunos e ganham força as ideias do respeito, da solidariedade e da convivência entre seres humanos, considerando que todos que chegam à escola tem origens, histórias, bagagens e limitações muito diferentes.


Leia mais: https://www.neipies.com/por-que-as-guerras-nao-nos-comovem/

Assista a este vídeo com importantes ponderações e reflexões de especialistas que abordam a complexa temática da violência nas escolas e na sociedade.


No #CanalLivre, o psiquiatra Daniel de Barros e o especialista em educação, Alexandre Schneider falam sobre como a segurança deve ser feita dentro e fora de instituições escolares.
https://www.band.uol.com.br/noticias/canal-livre/videos/como-ter-seguranca-nas-escolas-especialista-explica-17153951


Jornada pela Segurança nas Escolas


Inicia nesta quarta-feira, 12, a Jornada pela Segurança nas Escolas, uma ação da deputada estadual Sofia Cavedon (PT), presidenta da Comissão de Educação da AL/RS. O primeiro encontro será em Rio Grande no Instituto Estadual de Educação Juvenal Miller, às 14h na sede da escola, Rua Andrade Neves, s/n, Centro. Conforme Sofia, a reunião contará com a participação da comunidade escolar, Brigada Militar e Polícia Civil.


A Jornada pela Segurança nas Escolas é uma ação que buscará envolver gestores da educação e da segurança, estudantes e educadores/as, produzindo escutas e construindo políticas que possam proteger as escolas das violências, ressalta a deputada.


Entidades estudantis e movimentos sociais participaram da sessão e entregaram à presidenta da Comissão, deputada Sofia Cavedon (PT), uma carta apresentando suas reivindicações. O documento intitulado “Por uma escola democrática e acolhedora” traz sugestões e cobra iniciativas do governo do estado para combater todas as formas de violência, opressão, discriminação e intolerância.

Foto: Marta Resing
“Reforçamos que o papel do estado é acompanhar as ameaças, atuando ativamente no combate e desmobilização de grupos e comunidades virtuais que promovem o ódio e a violência, bem como na identificação e punição dos autores das mensagens que circulam nas redes sociais”, diz um trecho da carta. Outra cobrança é para que se cumpra a lei que assegura a presença de psicólogos e assistentes sociais dentro das instituições escolares.

Humana beleza de ser empático

Segue um belo exemplo de uma situação vivida que alguém aproveitou para enxergar o que não estava enxergando; para vivenciar a sensação maravilhosamente gratificante de ser empático.

Há situações que mudam nossas vidas. Uma delas é quando percebemos em nós, de repente, a humana beleza de ser empático. Até o nosso céu, como na foto, ganha cor.

Aleixo da Rosa conta, na crônica “Em todos os lugares” (CANALS, A.R. Coletânea: 2017. PPF), de uma “experiência modificadora de vida” que se passou com ele quando na escola.

Havia uma menininha, com seu vestidinho branco, com uma fita no cabelo, tímida, da qual todos zombavam por ser negra, por ser pobre. “A turma tinha um apelido para ela, um dos mais cruéis já ouvidos e repetidos por mim: Tição do Inferno”.

Certo dia, alguém derrubou o estojo dela no chão. Aleixo abaixou-se com intenção de pegar o estojo e jogar longe. Mas, nesse exato momento, ouviu a voz da professora a elogiar sua atitude de juntar o estojo para a coleguinha. Ele não sabia que a professora estava na sala. “Não tive outra opção, assim, a não ser juntar os materiais para minha colega. A menina não percebeu minha intenção inicial, ficou profundamente tocada, e disse-me obrigada, muitas vezes. Seus olhos se encheram de lágrimas por aquele gesto, tão simples. Senti-me a pior pessoa do mundo…”.

Uma lição para a vida, descreve Aleixo em sua magistral crônica.

“Naquele dia, sem querer, eu comecei a aprender o que é ter ética. Também aprendi que, comumente, a multidão está errada. É preciso tomar cuidado ao seguir a turba, ao fazer o comum simplesmente por que é comum”.

Um belo exemplo de uma situação vivida que alguém aproveitou para enxergar o que não estava enxergando; para vivenciar a sensação maravilhosamente gratificante de ser empático. Aleixo alertou que a tristeza do racismo, e outras tantas discriminações, podem existir “em todos os lugares”, daí o título de seu texto.

Há humanidade na menininha, ela agradeceu. Há humanidade em Aleixo que teve, inclusive, a bondosa coragem de contar o que se passou. E há humanidade em nós que desejamos fazer o possível e o impossível para que “menininhas de vestidinho branco e fita no cabelo” nunca mais sofram o que já sofreram.

Leia também reflexões de Aleixo, citado nesta crônica: https://www.neipies.com/author/aleixo_rosa/

Autor: Jorge Alberto Salton

Aos pais cujos filhos deixaram a igreja

Haja o que houver, jamais desista de seus filhos. Mas não tente impor-lhes sua fé.

Sim, sei o quanto dói cria-los no caminho da fé e vê-los se afastar da igreja ao ingressar na vida adulta. A gente se vê tomado de culpa, perguntando-se: Onde foi que errei?

Perdemos noites de sono. Perguntamo-nos onde eles estarão naquele momento. Se pudéssemos, retrocederíamos no tempo para poder colocá-los no colo novamente e protegê-los das ameaças deste mundo hostil.

Às vezes, erramos. Quase nunca, intencionalmente. Noutras vezes, simplesmente acontece sem que tenhamos feito nada para contribuir para o seu afastamento.

Mil coisas se passam pela nossa cabeça.

Como posso continuar pregando o evangelho se meus próprios filhos já não o seguem? Que credibilidade terei para ensinar a outros o que nem eles mesmos vivem?

Tais questões têm alguma pertinência, porém, devo salientar que estão longe de serem as mais importantes.

Esqueça o que os outros vão falar. Deixe de lado seu orgulho e preocupação com sua imagem. Pense neles, exclusivamente neles.

Não será com indiretas pelas redes sociais que você vai trazê-los de volta. Muito menos com sermões sobre o “filho pródigo” ou sobre “voltar ao primeiro amor.” Lembre-se de que eles cresceram ouvindo estes e tantos outros sermões.

O que fazer, então? Como reagir ao vê-los encantados com o que o mundo lhes pode oferecer?

Primeiro, vamos entender quais as possíveis razões de haverem se afastado.

Alguns se afastaram ao verem suas igrejas se comprometendo politicamente com o que consideram mais incongruente com os valores que abraçaram.

Outros se afastaram por enfrentarem uma crise legítima de fé. De repente, o que ouvem na igreja parece não fazer mais sentido diante das demandas do mundo que lhes cerca, ou diante do que têm aprendido na escola ou faculdade.

Outros ainda, se afastaram por desejarem experimentar aquilo que a igreja proíbe.

Há, também, os que se afastaram por razões ligadas à sua orientação sexual ou identidade de gênero.

E há os que se afastaram por problemas relacionados à sua própria família, como desentendimento com os pais ou o divórcio dos mesmos.

Certamente, há outros motivos que poderíamos relacionar aqui. Sejam eles quais forem, não devem ser motivo para questionarmos a legitimidade da experiência que tiveram com Cristo.

Jamais ponha em xeque a conversão deles. Só Deus conhece profundamente os seus corações e as razões que os levaram a se afastar.

Evite expor em redes sociais os eventuais conflitos enfrentados por vocês. A intromissão das pessoas só prejudicará ainda mais a relação de vocês, podendo, inclusive, inibir qualquer reaproximação da fé.

A menos que você tenha sido um pai ou uma mãe completamente relapso (a), não se culpe pelo afastamento deles.

A verdade é que cada um precisa percorrer sua própria jornada espiritual. Não dá para terceirizar nossa espiritualidade. A subjetividade é solo sagrado, onde ninguém deve se atrever a pisar sem estar descalço de suas suposições, preconceitos, ou mesmo, certezas.

Você já deve ter se perguntado: “Por que justamente comigo?” ou “Por que não com outros pais menos zelosos que eu?” Sugiro que substitua esta questão por outra: Por que não comigo? Afinal, ninguém é melhor do que ninguém. Aconteceu até com Billy Graham, considerado o maior evangelista do século XX, que enquanto fazia cruzadas evangelísticas reunindo multidões ao redor do mundo, seu filho se drogava e se entregava aos prazeres desenfreados da carne. Foi este mesmo filho que o sucedeu no ministério após sua morte.

Haja o que houver, jamais desista de seus filhos. Mas não tente impor-lhes sua fé.

Independentemente de estarem ou não na igreja, os princípios e valores que você lhes ensinou os acompanharão pelo resto de suas vidas, e isso é a evidência inconteste de que você cumpriu e tem cumprido sua missão.

Console-se com o fato de que “aquele que começou a boa obra, há de completa-la até o dia de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6). Deus jamais abandona uma obra pela metade.

O que você pode fazer? Orar, amar, acolher.

Ore por seus filhos diuturnamente. Peça que o Espírito Santo se encarregue de colocar as pessoas certas em seus caminhos, e de dirigir-lhes os passos.

Se antes, você buscou protegê-los do mundo, possivelmente agora terá que protegê-los da maldade fermentada na própria igreja.

Não permita que rotulem seus filhos. Confronte a hipocrisia daqueles que se aproveitam do momento para tripudiar como se estes tivessem a família perfeita. Defenda sua cria!

Eventualmente, o mundo vai decepcioná-los. Quando isso acontecer, não jogue na cara deles. Não diga algo do tipo “eu não te disse?” Isso só vai piorar as coisas. Quando todos os decepcionarem, abrace-os fortemente. Cubra-os de amor.

Eles podem até resistir aos seus argumentos, mas serão absolutamente vulneráveis ao seu amor.

Autor: Hermes C. Fernandes

Revogar ou reformar: para além da dicotomia

O “novo ensino médio” configura uma traição às gerações de jovens que estiverem a ele submetidos por condená-las a não terem as ferramentas básicas de conhecimento para a cidadania política e econômica” (Gaudêncio Frigotto, UERJ)

Revogar ou Reformar? Revogar ou Remendar? Revogar ou revisar e aperfeiçoar a reforma? Revogar ou “corrigir rotas e caminhos”? Reformar ou Revolucionar? Para o filósofo e escritor Vladimir Safatle (USP), dificilmente encontraremos uma dicotomia mais empobrecedora e equivocada para uma reflexão do que aquela que separa “reforma” e “revolução”, prática reformista e pensamento revolucionário.

No entanto, adverte Safatle, talvez seja importante dizer que uma revolução não deva ser um objeto político, pois estes processos são imprevisíveis, incalculáveis e, ainda, porque, na verdade, não sabemos como produzi-la. Será mais honesto, diz o filósofo, reconhecer que a história é o processo que transforma contingências e necessidades. Uma transformação que só é possível a posteriori. Desta forma, o que devemos é não recusar esses processos contingentes e inesperados que têm força de romper o tempo.

Transcorridos quase seis anos desde que a reforma do “Novo” Ensino Médio (NEM) foi imposta pela Medida Provisória (MP) 746/2016, desde último dia 15 de março, estudantes, educadores, pesquisadores, entidades educacionais, militantes socias e pais intensificam mobilizações, atos, discussões, formação de Comitês, publicações de Cartas Abertas e Moções Públicas pela revogação do “novo ensino médio”, sintetizados no slogan #REVOGANEMJÁ!.

Em fevereiro de 2017, contrapondo a publicidade oficial tendenciosa no governo Temer, publicamos coluna Quem conhece a reforma do ensino médio, a reprova, onde já se apontava que ela era um equívoco político, considerando que a sociedade não participou e nem a legitimou; é um equívoco metodológico, tendo em vista que não escutou os jovens, nem os professores e nem as escolas; e, também, tratava-se de um equívoco pedagógico-epistemológico, pois mutilava e fragmentava a formação humana, científica e técnica dos jovens por meio de um currículo mínimo e empobrecido.

Leia texto completo: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/colunistas/2017/02/quem-conhece-a-reforma-do-ensino-medio-a-reprova/

Transcorridos esses anos, atravessados por uma pandemia que impactou a educação e as comunidades escolares, o NEM chegou de fato as escolas e às salas de aula em 2021 e 2022, escancarando sua real finalidade maior: reduzir os investimentos com educação pública, privatizar e mercantilizar a educação básica, desestruturar a carreira docente, inviabilizar os sonhos das juventudes pelos seu direito “à educação de qualidade, com a garantia de educação básica, obrigatória e gratuita, inclusive para os que a ela não tiveram acesso na idade adequada” (Lei 12.852/2013, Art. 7º, Estatuto Juventude).

No Documentário Nunca nos sonharam, dirigido por Cacau Rhoden e lançado em 2017, a Profa. Samara Macêdo Diniz, adverte que “as pessoas que mais precisam ser ouvidas não foram nem citadas. São os alunos do Ensino Médio” (…) “A massa dos jovens da escola pública estão ralando, querem trabalhar, querem encontrar emprego, querem entrar na universidade, querem casar e querem ser felizes”.

Assista: https://youtu.be/tPRqUKsp5pE?list=PLggyRMb5eNeK7Oq2NA-lRr2FWrdTeBl1-&t=39

No entanto, essa reforma foi imposta, inclusive em plena pandemia com escolas fechadas e estudantes em distanciamento social, arquitetada pelos mesmos especialistas que elaboraram esta BNCC que foi aprovada com apoio das Fundações e Institutos Empresariais, Movimento Todos pela Educação e Movimento pela Base.

Muitos são os argumentos que estão postos na mobilização ​#REVOGANEMJÁ e esta BNCC ao qual está atrelado, como os que constam na Carta Aberta assinada por centenas de entidades. Destacamos, a seguir, algumas destas razões de natureza estrutural e processual que, no processo de sua implementação, demonstram as contradições e distorções incontornáveis e insolúveis, descumprindo as promessas da própria reforma, configurando um engodo e uma traição à grande maioria dos jovens brasileiros que estudam na escola pública.

O primeiro engodo é o descumprimento do que está previsto no caput da Lei 13.415/2017 que instituiu a Política de Fomento à Implementação de Escolas de Ensino Médio em Tempo Integral, cuja carga horária deveria ser ampliada de forma progressiva até 7h por dia. Porém, na prática, a Formação Geral Básica (FGB) está limitada ao máximo de 1.800h e os itinerários a 1.200h com variedade de opções que beira a irresponsabilidade.

Na perspectiva de ampliar o tempo integral, cabe lembrar que, a nível federal, a Meta 6 do PNE 2014-2024 já havia estabelecido oferecer educação em tempo integral em, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das escolas públicas, de forma a atender, pelo menos, 25% (vinte e cinco por cento) dos (as) alunos (as) da educação básica.

Portanto, bastava o MEC e as Secretarias Estaduais de Educação cumprirem seus planos decenais de educação. Mas o que ocorreu a partir de 2016 na prática foi um descumprimento da maioria das metas do PNE, dos Planos Estaduais (PEEs) e Municipais (PMEs).

O estado do Rio Grande do Sul é um emblemático. Empenhado na implementação do NEM, é o terceiro pior estado do país em número de matrículas (apenas 4,8%) em tempo integral. Logo, o NEM não prioriza a instituição da Política de Fomento de Ensino Médio em Tempo Integral, mas sim, seu oposto: redução de tempo na escola, redução de disciplinas mínimas obrigatórias, redução de servidores (funcionários e professores) e redução investimentos e gastos com a educação pública. Em síntese, o entes federados descumprem as próprias leis, planos e reformas que propõe praticando ilegalidades e enganando os estudantes e a sociedade.

A outra promessa de que os estudantes e jovens poderiam escolher o que estudar é mais um engodo. Em 2016 e 2017 os estudantes ‘ocuparam mais de mil escolas” em dezenas estados no Brasil, mesmo assim, as juventudes não foram ouvidas, as entidades estudantis ignoradas, audiências públicas, seminários e conferências sequem foram fomentadas. Ou seja, a reforma não abriu espaços para o protagonismo juvenil. Na pandemia, a escuta se resumiu a envio de um questionário via google.

Quando a possibilidade de escolha de itinerários o engodo é mais grave ainda. As mantenedoras, os sistemas de ensino, as redes e escolas planejaram e pré-determinaram, no máximo, duas opções.

Nos territórios do RS (no âmbito nos municípios) sequer é obrigatório a oferta de dois itinerários públicos. Ou seja, que opção o jovem tem para realizar escolhas? Na prática, nenhuma. E quando possibilidades de escolhas se restringem a dois itinerários que são reproduzidos nos anos seguintes para os novos estudantes ingressantes, ou seja, sem novas oportunidades de escolhas.

O quinto itinerário, que induz jovens de escolas públicas a cursarem itinerários de qualificação profissional de baixa complexidade e ofertados de maneira precária em escolas sem infraestrutura, configura outra ameaça ao prosseguimento dos estudos pelos estudantes. Além de se restringir a apenas 1.800h de Formação Geral Básica, as demais 1.200h sequer ofertam e garantem, na sua grande maioria, o Certificado de Técnico de Nível Médio. O que é disponibilizado é um “cardápio” de disciplinas eletivas (como “Brigadeiro gourmet” e “Mundo pet”), trilhas, rotas, itinerários que não configuram uma trajetória consistente e sólida de formação humana, científica e tecnológica, que farão muita falta no ENEM e no prosseguimento dos estudos.

Além do mais, a opção por diferentes arranjos, liquida o direito universal à formação básica de uma mesma qualidade para todos as juventudes. A desigualdade social se agravará na desigualdade educacional, particularmente entre escola particular e escola pública.

Para Gaudêncio Frigotto (UFFRJ e UERJ), o que o “novo ensino médio” oferece aos jovens “é um pastel de vento” porque liquida como o sentido da educação básica a qual supõe um equilíbrio entre as disciplinas que permitem entender as leis da natureza (Química, física, Biologia) e as que permitem entender e atuar nas relações sociais (história, sociologia, filosofia, literatura, arte, etc). A reforma prioriza os conhecimentos instrumentais, mas que sem a formação básica sólida oferta “o vento”, um currículo vazio, sem sentido e sem propósito para o presente e futuro dos estudantes das escolas públicas, pois na privada isto não ocorrerá.

Mas, na presente reforma, não apenas as juventudes estão sendo traídas prejudicadas.

Os educadores e graduandos de licenciaturas já sofrem com a desregulamentação e destruição da profissão docente, que se apresenta de várias formas: 1) construção de itinerários formativos que objetivam a aquisição de competências instrumentais, desmontando a construção dos conhecimentos e métodos científicos que caracterizam as disciplinas escolares em que foram formados/as os/as docentes; 2) oferta das disciplinas da educação profissional por pessoas sem formação docente e contratadas precariamente para lidar com jovens em ambiente escolar (“notório” saber, instrutor, tutor); 3) oferta 5º itinerários por empresas terceirizadas, Sistema S, EAD, plataformas digitais e, 4) extinção de concursos públicos para professores, eliminação de dezenas de disciplinas em concursos previstos e aumento contratos emergenciais e precários de professores.

Urge cessarmos a descontinuidade nas políticas públicas educacionais no Brasil. Nas primeiras duas décadas do século XXI já tivemos: três Diretrizes Nacionais para Ensino Médio, três diretrizes nacionais para Educação Profissional e Tecnológica (EPT), três DCNFP para Formação Professores e três Bases Curriculares (PCN, Orientações curriculares e BNCC atual), mais dois Decretos para EPT Nível Médio (Decretos 2.208/1997 e 5.154/2004).

A mobilização #REFOGANEMJÁ  o “novo ensino médio” vai se intensificar nos próximos meses.

O MEC precisa urgentemente: a) realizar escuta dos estudantes e professores de forma direta, aberta e transparente; b) abrir canais de diálogo com a sociedade, entidades educacionais e científicas, fortalecer a democracia nas escolas; c) revogar, com urgência, a Portaria 521/2021, que estabelece o Cronograma Nacional de Implementação do Novo Ensino Médio (NEM), determinado pelo governo Bolsonaro; d) suspender as mudanças no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) previstas para 2024 e, por fim, e) retomar as bases conceituais e programáticas para o Ensino Médio estabelecidos nas Diretrizes Nacionais de 2012 (Res. 02/2012 e Res. 006/2012) como ponto de partida para o diálogo com a comunidade educacional.

Lutar pelo direito à educação integral de qualidade social com as juventudes, mais do que um conselho político, talvez essa seja uma forma de vida do educador/a!

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/04/revogar-ou-reformar-para-alem-da-dicotomia/

Autor: Gabriel Grabowski

As pequenas mortes

Não adianta tentar controlar tudo. Não adianta chegar no horário e pagar as contas em dia. Os pontuais e aqueles que não erram morrem. Até para os bons pagadores a morte chega. Os melhores momentos da vida chegam quando não se está prevenido.

Corri ao Teatro de Arena para ver o show do Júnior Almeida. Chateado por me atrasar, avancei apressado enquanto ele cantava Pequenas Misérias:

“Penso na morte quando acordo

Penso na morte quando vou dormir”.

Bateu um arrepio. No dia anterior, um carro avançou em minha direção após sobrar na curva, obrigando-me a jogar o meu veículo para o acostamento e quase rodar. A quase morte chegou para lembrar que existe e é implacável. Muitas vezes nós fingimos não vê-la, que somos invencíveis e que ela não irá nos alcançar, bastando acelerar bastante a vida mas esse é a única parte não negociável do destino.

Enquanto a minha mulher cantava no mesmo show, fiquei pensando na possibilidade de deixar a nossa filha sem pai. Pensei na ideia de que morremos um pouco várias vezes antes da morte definitiva.

Morremos um pouco quando a sorveteria que foi palco do primeiro sorvete no Rio de Janeiro fecha e deixa de existir. Também morremos ao perder um dente jogando tênis no último dia de carnaval, ao não ser aprovado vestibular ou ao ver um amor medíocre ir embora. Ao perceber que o dinheiro não vai dar para terminar o mês, ao ter um retorno da escola sobre os problemas na atenção da filha, ao saber que um amigo querido morreu de COVID, ao mudar-se do Rio de Janeiro; a morte também quase nos alcança.

Quando a depressão nos pega ou Burnout come nossos sonhos há um recado da morte: viva enquanto há tempo. Na primeira brochada, ao perceber o primeiro cabelo branco e ao ver com desdém o casamento daquela pessoa que supostamente poderia ser ideal para gente; a idealização de quem somos morre e com ela um pouco nós.

Há morte na falha da voz do Milton Nascimento, na falta de ingressos para ver a Andrea Beltrão em Antígona, no Caetano Veloso atravessando a rua no Leblon ou ao final de um show do Chico Buarque.

Há um recado da morte quando noto que o tempo é implacável e “diditeca” já virou bicicleta no vocabulário da Lua, ao ver o primeiro dente de leite da minha afilhada cair, ao esquecer qual foi o motivo da primeira briga entre elas.

Há um tanto de morte ao imaginá-las morando sozinhas em São Paulo em um apartamento cheio de gatos e plantas em Santa Cecília, enquanto cultivam franjas e amores. Todavia, eu morro mesmo é quando me deparo com a verdade irrefutável de que as minhas pequenas meninas não são eternas.

Mais tarde, encontrei com o Júnior Almeida no pós-espetáculo e lembrei-me de uma história. Contei a ele que fui atrasado para uma aula de psicanálise e que ao chegar esbaforido, ouvi a coisa mais impactante que alguém disse durante a residência médica.

O professor provocou: “Sabia que nós morremos três vezes?”. O espanto foi geral e o homem prosseguiu dizendo que morremos primeiramente quando nossos pais morrem, pois vão embora com eles memórias da nossa vida sobre as quais não teremos mais acesso. É a morte das primeiras memórias. A segunda morte é a nossa própria morte e contra essa não há remédio. É o padecimento da matéria. A terceira e mais dolorosa morte é quando a última pessoa entre todas aquelas que nos conheceram ao longo da vida também morre. É a morte que nos leva ao total esquecimento.

Acho que é disso que se trata: passamos a vida inteira lutando contra o esquecimento e contra a nossa ínfima importância. Tentamos driblar a morte e o esquecimento com a arte, com grandes conquistas e grandes momentos. Com amores e desamores.

Queremos ser queridos, olhados, lembrados. Queremos não morrer na vida do outro. Começa pelos nossos pais e familiares, descambando por todos aqueles que nos atravessam. É uma luta injusta, inglória e já dada como perdida, no entanto, nós nos ocupamos disso na maior parte do tempo em vivemos.

Não queremos virar um nome vago na cabeça de alguém. Buscamos fazer grandes coisas pra deixar o nome registrado em algum lugar, dando ares coloridos a nossa pequena existência na amplidão de pessoas e do tempo. É um fuga desesperada de um destino que sempre nos alcança.

Não adianta tentar controlar tudo. Não adianta chegar no horário e pagar as contas em dia. Os pontuais e aqueles que não erram morrem. Até para os bons pagadores a morte chega. Os melhores momentos da vida chegam quando não se está prevenido.

Eles chegam quando não nos defendemos, matando certezas inabaláveis que estavam entranhadas dentro de nós no susto. E só é possível ter vida quando encaramos de frente que há morte. Todo dia algo morre. Todo dia algo nasce. Vivemos várias vidas dentro de uma só. Somos feitos de várias formas, faces e personalidades que se fundem e se expandem ao longo do tempo. Que nascem já certas de morrer e que morrem já certas de que algo novo está para chegar.

Os grandes momentos da vida não tem hora. Eles podem acontecer no show do Júnior Almeida mesmo com todo o meu atraso. Eles chegam atrasados, mas sempre chegam.

Por falar em grandes momentos há pouco tempo tive um, distraído e deitado com minha filha na rede. A pequena me perguntou se eu iria morrer. Eu respondi um atônito sim e ela chorou, já retaliando: “Se você morrer eu vou arrumar outro pai para não ficar sozinha”. Aquilo me pegou de surpresa.

Silenciei e logo depois menti ao dizer ter certeza que iria demorar muito para que esse dia chegasse e que não havia motivo para preocupação. Menti por uma boa causa. Ela continuou: ” E quando você morrer, vai lembrar de mim?”. Respondi rápido: “Vou, minha filha. Em qualquer lugar que eu esteja você nunca será esquecida”.

Ela saiu, como se a resposta a confortasse momentaneamente, limpando as lágrimas e dizendo:

– Não tem como você morrer, papai. Você vive dentro de mim. Você vai viver pra sempre.

Não retruquei a resposta. Com os olhos cheios de lágrimas, totalmente vulnerável, dei-lhe um abraço demorado com todo meu amor. Ela não entendeu o quão profundo aquilo me tocou e foi logo querendo fugir para brincar de outras coisas.

Eu perdi todo o chão, mas me sentia livre. Naqueles segundos em que estivemos abraçados eu me senti driblando a morte e mais vivo do que nunca. Naquele exato instante, senti que juntos seríamos imortais.

Autor: Fernando Tenório Nunes

Liberdade para caminhar e manifestar!

Centenas de professores das escolas públicas da rede municipal e rede estadual da cidade de Passo Fundo organizaram um dia de grande manifestação pública (neste dia 04 de abril de 2023) pela defesa da dignidade da profissão docente, pelo pagamento do piso nacional dos professores e professoras e pela necessidade de condições mais favoráveis ao trabalho nas suas escolas.

Uma professora exclamou, com a sensação de um dever cumprido:

“como sinto gosto por esta liberdade de caminhar e manifestar pelas ruas de minha querida cidade. Me sinto livre e comprometida com a história desta cidade que se diz educadora. Que coisa mais boa”.

As ruas desta cidade foram enxugadas pelo manto de bandeiras brancas e amarelas. As bandeiras representam a luta necessária que os sindicatos CMP SINDICATO e Sétimo Núcleo do CPERS empenham a favor da escola pública e dos legítimos interesses de sua categoria: os professores e as professoras. Estas mesmas ruas, em período recente, presenciaram outras bandeiras que incitavam ódio, divisão e violência, infelizmente!

Mais uma vez, os docentes ensinaram, manifestando-se de forma pacífica, organizada e pedagógica. Os professores e professoras sabem que, ao usarem do direito à manifestação e paralisação, conclamam toda a sociedade a pensar sobre a forma com que os governos tratam a educação.

No meio desta multidão, todos e todas renovaram, de forma significativa e contundente, suas crenças na educação pública como um valor a ser cuidado e zelado por toda sociedade. Renovaram desejos de que dias melhores virão, a partir de mais lutas, mais conscientização, mais entendimento e consciência de classe. Coletivamente, fizeram uma profunda reflexão sobre o tipo de sociedade na qual estão engajados e estão dispostos a construir.

Não há neutralidade na educação. Ela deve estar alicerçada em pilares como a democracia, como a liberdade (em sentido amplo), como o reconhecimento dos diferentes atores e sujeitos da cidade, como a formação integral do ser humano, como a autonomia dos sujeitos e das escolas, como a participação social. Estes pilares também sustentam os ideais das cidades educadoras, desde o seu surgimento.

As ruas testemunharam mais do que bonitas imagens de professores e professoras dispostos/as a defenderem a escola pública e a dignidade de sua profissão. As ruas acalentaram sonhos de uma escola e de uma cidade verdadeiramente democrática, inclusiva, educadora, vibrante, e como um lugar onde se possa viver, conviver e sonhar, sem medo de ser feliz.

A liberdade de caminhar e manifestar coletivamente é a maior riqueza da democracia.

Quando juntos, no magistério, potencializamos as nossas reivindicações, os nossos desejos de maior respeito e melhores condições de trabalho, fazemos história e ensinamos democracia.

O combustível, a energia que move os professores e professoras pela defesa de sua dignidade docente chama-se RECONHECIMENTO. Por melhores salários, por mais diálogo, por melhores condições de trabalho, por uma verdadeira valorização por parte dos governantes e de toda sociedade. O que deveria ser natural, impõe-se como um clamor de luta.

Quem luta, também educa!

Assista também a repercussão da atividade na RBS TV Passo Fundo.

https://globoplay.globo.com/v/11506581/

Autor: Nei Alberto Pies

Como o aumento da violência nas escolas afeta o professor?

Educadores relatam falta de apoio e orientação para lidar com a agressividade dos alunos, que aumentou no pós-pandemia, e, junto com especialistas, apontam caminhos. (matéria produzida por jornalista Carla Melo, setembro 2022)

No mesmo dia em que foi entrevistado pela NOVA ESCOLA para esta reportagem, Carlos Alexandre, diretor da EM Cônego Heitor Vieira Cavalcante, em Maranguape (CE), presenciou duas cenas de violência na instituição. Estudantes de diferentes séries se envolveram em brigas, e ambas terminaram em agressões físicas. Infelizmente, o ocorrido não é um fato isolado, e essa tem sido a realidade de muitos professores no Brasil. 

Educador há mais de 20 anos, Carlos sofreu a primeira violência dentro da sala de aula em 2007. Na ocasião, ele ficou com um hematoma nas costas após um aluno atirar contra ele uma borracha enquanto passava uma atividade no quadro. Depois desse caso, o professor não sofreu mais agressões físicas, mas continuou sendo vítima de violência verbal.

Hoje, como diretor, ele continua presenciando a violência no ambiente escolar, assim como grande parte dos professores. “Alunos brigando e chegando nas vias de fato. Estudantes que chegam armados à sala de aula. Eu descobri um desses casos após o professor contar e tive de intervir de imediato”, lembra. 

De acordo com uma pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que envolveu mais de 100 mil professores em todo o mundo, o Brasil lidera o ranking de agressões contra docentes. O levantamento considerou dados de 2013, quando ao menos 12,5% dos 22.840 professores entrevistados relataram ter sido vítimas de agressões verbais ou de intimidação de alunos pelo menos uma vez por semana.

Em julho deste ano, uma pesquisa quantitativa sobre violência, realizada pela NOVA ESCOLA com mais de 5 mil educadores, mostrou que sete em cada dez professores relataram casos de violência nas instituições onde trabalham. 

Apesar de menos frequentes, os casos em que os docentes foram agredidos também assustam. São 2.957 profissionais da Educação que afirmam ter sido vítimas de violência. Os estudantes são os principais agressores (50,5%), seguidos de familiares de alunos (25,7%), gestores escolares e colegas de trabalho (11,4%) e outros professores (9,4%).

Entre os principais motivos que ajudam a entender o porquê de tanta violência, a doutora em Educação Flávia Vivaldi aponta o aumento da violência no cenário global. “Quando vemos uma guerra acontecendo, quando vemos discursos de ódio sendo alimentados, inclusive pela liderança nacional, a violência vai sendo naturalizada. Então, é como se os sujeitos que têm atitudes assim na escola estivessem reproduzindo aquilo que está solto na sociedade. Há um incentivo latente para isso, e não há nenhuma ação de repúdio à violência e ao desrespeito. Muito pelo contrário, há um estímulo”, diz a especialista. Ela também é integrante do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM), da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Alunos mais agressivos no pós-pandemia

Com a retomada das atividades presenciais nas escolas, os casos de violência contra profissionais de Educação aumentaram. Na pesquisa realizada pela NOVA ESCOLA, 68,8% dos professores entrevistados tiveram essa percepção.

Ainda segundo o levantamento, a maioria dos docentes (57,4%) acredita que esse crescimento pode estar relacionado à maior incidência de questões psicológicas devido ao período de isolamento social durante a pandemia. A falta de socialização dos alunos foi o fator apontado por 45% dos profissionais de Educação como uma das explicações para a violência praticada nas instituições de ensino.

Antes da pandemia, a professora TCH [que preferiu não ter seu nome informado] nunca havia sofrido violência física na escola em que trabalha há 11 anos, na rede pública de São Paulo (SP). “Até então, a quantidade de casos de violência era pouca. Era um ou outro relato, um aluno ou outro. Mas, com a volta às aulas cem por cento presenciais, muitos estudantes da minha turma, com idade entre oito e nove anos, chegaram muito agressivos. Eles não sabiam dialogar – era tudo na base do grito e xingamentos. As crianças voltaram afetadas, agressivas, violentas.”

TCH lembra do primeiro caso de violência que sofreu de um aluno. À época, o estudante passava por uma complicada situação familiar: o alcoolismo do pai havia se agravado devido ao desemprego durante a pandemia. A mãe não trabalhava, e o irmão mais velho sempre o agredia verbalmente. “Às vezes o pai dormia na rua e deixava faltar alimento dentro de casa. O humor do menino variava muito, e ele chegava muito carente dizendo que me amava e me abraçava. Mas, no decorrer do dia, no contato com a classe e com aquela agitação, ele ia se mostrando agressivo”, relata a professora.

Ela conta que, no dia em que sofreu a agressão, no horário de saída dos estudantes, o aluno agressor estava jogando uma bola na parede, o que não era permitido naquele horário. “Eu disse para ele parar, mas ele continuou. Chamei a atenção dele mais uma vez, sem sucesso. No momento em que retirei a bola, ele veio me batendo, dando socos e chutes. Ele estava muito agressivo e gritava muito. Eu nunca tinha visto uma reação como essa em meus anos de magistério. Tive de segurá-lo. Ele caiu no chão e gritava pedindo socorro. Dizia que eu estava matando ele. Isso assustou a todos”, detalha a educadora.

Para Flávia Vivaldi, além da privação do convívio devido ao isolamento social, que separou os estudantes do ambiente escolar e da convivência com os pares, o crescimento da violência doméstica durante o período pandêmico tornou-se parte da rotina de muitas crianças e jovens de todo o Brasil.

“Quando uma criança ou adolescente passa por um período muito longo de incerteza e convívio com a violência, isso gera um trauma quase que crônico. Quando eles retornam para escola é como se tivessem vivendo toda aquela insegurança. Essas experiências traumáticas trazem a sensação de continuidade desse processo de sofrimento emocional, de angústias”, explica a especialista.

Uma das consequências desse processo, segundo ela, é a sensação de hipervigilância, que se torna um escudo para o estudante. “Eles agem como se estivessem em constante perigo, e aí acontece a agitação e a agressividade. É como se o mundo estivesse contra eles”, ressalta. “E, quando eu estou vigilante para essas questões, também não tenho uma resposta positiva em relação ao trabalho com o conhecimento”, completa. 

Lidando com os desafios

Nesse contexto, além do conhecimento e da didática, os professores precisam levar também uma coisa muito importante para a sala de aula: a preparação psicológica. Por estar inserido em uma comunidade periférica, essa é uma das preocupações recorrentes do diretor Carlos Alexandre. “Temos uma clientela bem complicada, acho que por conta dos fatores sociais, como a violência, a fome e a miséria, que influenciam bastante. Muitas crianças são órfãs de mãe e pai.”

Uma questão que aflige TCH é a ausência de orientações referentes aos casos de violência para os professores. Ela conta que não saberia o que fazer caso algo mais grave do que a agressão que sofreu aconteça em sala de aula. “Eu tenho me preparado psicologicamente. Já saio de casa falando: ‘Se acontecer tal coisa, como vou agir?’. Penso a quem eu devo recorrer nesses casos. Para a direção, a coordenação, a Secretaria de Educação? Está faltando isso [orientação] para a gente [os professores] também.”

Essa falta de mecanismo e alternativa para a redução e a erradicação da violência forçou os profissionais de Educação, mesmo sem as ferramentas e os conhecimentos específicos para lidar com a questão, a tomar iniciativas próprias e/ou coletivas. A solução encontrada pela professora TCH, junto com outros dois educadores, foi trabalhar diretamente com a “dor que deveria ser curada”.

“Por conta própria, nós começamos a trabalhar com as habilidades socioemocionais dos alunos, tentando incluir isso na nossa rotina. Cerca de 30 minutos antes de começar os conteúdos, nós vamos sentar [e conversar]: ‘E aí, galera, como foi o dia de ontem? Aconteceu algo de que vocês não gostaram?’”, exemplifica. “É preciso fazer isso porque tudo mudou, os alunos mudaram, os problemas das crianças mudaram. Se a gente não adaptar a nossa rotina a essas habilidades socioemocionais, não vai dar certo.”

Na escola onde Carlos Alexandre trabalha também foram incluídos projetos e ações para tentar contornar a violência. Um deles é o Pacto pela Aprendizagem, que oferece aos estudantes, até o mês de dezembro, atividades no contraturno para auxiliar nas dificuldades de aprendizagem. A escola também garante a alimentação durante esse período. Segundo o educador, isso possibilita que o estudante não fique ocioso nas ruas. 

“Concluímos este ano o projeto Educação em Família, no qual desenvolvemos atividades e palestras com psicólogos para os alunos e familiares, além de [promover] momentos de lazer. Esses projetos, que vêm tanto do governo do estado quanto do governo federal, podem ajudar a controlar a violência que assola não só as escolas, mas a comunidade em si. No entanto, isso ainda é pouco. Precisamos ter mais políticas públicas voltadas à Educação e à não violência”, avalia o diretor.

Professores e estudantes emocionalmente mais fragilizados

A falta de suporte e de apoio psicológico nos casos de violência na escola somada à excessiva carga de trabalho no momento pós-pandemia têm levado alguns professores a refletir se estariam dispostos a seguir lecionando. “Eu tive uma conversa séria com a direção [da escola] há uns meses. Falei que, antes da pandemia, eu ia trabalhar muito satisfeita. Eu entendia a minha profissão como uma missão. Mas, depois da pandemia, parece que as minhas frustrações e os meus medos não são os mesmos da gestão. Eu sinto que os professores foram abandonados”, desabafa a professora TCH. “Vou ser bem realista: se surgir outra oportunidade, eu deixo a sala de aula.”

Para Flávia Vivaldi, esse “combo” estressante da rotina no pós-pandemia afeta diretamente o profissional, que não recebe apoio para reconstruir o que passou no período pandêmico.

“O professor retorna com um nível de estresse ainda não refeito. As pausas durante a pandemia não foram suficientes para renovar tudo pelo que eles passaram, não só como profissionais que tiveram de fazer malabarismo para poder minimamente ter contato com os seus estudantes, mas com os problemas particulares que cada um vivenciou –de perdas, de doença”, analisa. “Então junta-se um sofrimento que é do âmbito privado com os desafios que ele tem como docente. Eles retornam já bastante fragilizados e se deparam com um quadro que não era o que eles esperavam.”

Além disso, a cobrança por um desempenho positivo nas avaliações externas também atinge os docentes, já que as consequências das condições pandêmicas fizeram com que os resultados sofressem retrocesso. “O professor se sente absolutamente impotente diante dessas questões. Tem muitas variáveis que estão aí agindo e impactando diretamente na qualidade da docência. São, às vezes, pressões das instâncias superiores em relação a relatórios, avaliações diagnósticas, recomposição de planos. É muita coisa para um ser humano que também está de alguma forma fragilizado”, acrescenta.

Para a especialista, a falta de uma estratégia nacional para reconstituir afetivamente e emocionalmente os profissionais tende a forçar um modelo de ensino tradicional e conservador, baseado em aulas de até 50 minutos, tarefas, notas e avaliações. Segundo ela, a causa da agressividade de estudantes contra professores pode ser explicada também pela cobrança por resultados imediatos por parte de instâncias educacionais superiores, que pressionam os educadores. Estes, por sua vez, acabam “perdendo a mão” e cobrando os alunos com a mesma intensidade.

“Quando a gente tem um cenário como esse, a tendência é que muitos educadores voltem a fazer aquilo que já não dava certo, que é aquela forma mais conservadora de o professor dar aula, com o aluno sentado e fazendo as tarefas. Ou seja, mais do mesmo, só que com um aluno com comprometimento emocional acima do esperado. Quanto mais conservador for o ambiente no que diz respeito ao trabalho com o conhecimento, mais coercitivo ele se torna.”

Caminhos para conter a violência em sala de aula

Assim como TCH e Carlos Alexandre, alguns professores têm adotado ações para trabalhar o aspecto socioemocional dos alunos em sala de aula. Na pesquisa realizada pela NOVA ESCOLA, 62,3% dos profissionais de Educação declararam acreditar que o desenvolvimento dessas competências é necessário para evitar a violência nas escolas.

Conforme os especialistas ouvidos pela NOVA ESCOLA, é fundamental também que a equipe educacional domine algumas informações básicas que ajudam a identificar problemas psicológicos. O objetivo não é habilitar o professor a fazer diagnósticos, mas capacitar os funcionários da escola. Eles devem conseguir identificar indícios de que algo pode não estar indo bem com o aluno e saber qual é a medida mais adequada a ser tomada. 

Flávia Vivaldi afirma que não há outra forma de controlar e combater os casos de violência nas escolas sem que a instituição de ensino elabore um plano de convivência – a medida também foi citada por 65,2% dos professores entrevistados na pesquisa realizada pela NOVA ESCOLA.

Mas ele deve ter regras e ações criadas coletivamente e ser algo permanente, para que o diálogo e a escuta sejam constantes. “No plano de convivência, você olha para essa dimensão das relações humanas com a intenção de planejar ações que incidam sobre a prevenção da violência e sobre o que fazer [quando ela acontece]. É uma atuação consistente, construtiva e formativa. Precisa haver um movimento inclusive de política pública nacional, porque nesse planejamento você alinha a sua comunidade escolar com ações efetivas nessas direções”, explica.

De acordo com ela, o sistema de apoio entre iguais e as diversas formas de protagonismo estudantil atuando na promoção de uma convivência mais saudável também devem fazer parte do plano de convivência. “Não tem outra forma senão esse caminho de olhar para a convivência como um valor real”, continua Flávia.

A especialista reforça a importância de ficar longe do “mais do mesmo” e passar a ouvir os estudantes, perguntando, por exemplo: “Como é que a gente pode retornar a este mundo do conhecimento e ao mesmo tempo ajudar vocês a recuperar esse equilíbrio emocional?”. “Eles vão trazer mil e uma soluções e propostas de como gostariam de dar continuidade ao processo de ensino e aprendizagem. A gente vê nos meninos, quando eles têm a oportunidade de fazer uma roda de conversa, o alívio em relação a isso, só de saber que alguém está escutando o que eles têm a dizer.”

*Matéria produzida por Carla Melo, Repórter Freelancer

 Fonte: https://novaescola.org.br/conteudo/21354/como-o-aumento-da-violencia-nas-escolas-afeta-o-professor

 

 

Em defesa da Escola

Os recentes tempos de pandemia e de isolamento social se tornaram oportunos para discutirmos sobre o sentido da escola e seu papel no atual cenário civilizacional.

Há um consenso entre os intelectuais que estudam sobre o desenvolvimento sustentável que não se pode falar em modernidade ou em sociedades desenvolvidas sem associá-las ao processo educacional e ao nível de escolarização. De fato, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que mede o nível de desenvolvimento humano dos países, utiliza como um dos mais importantes critérios o indicador da educação (alfabetização e taxa de matrícula), ao lado da longevidade (esperança de vida ao nascer) e de renda (PIB per capita). Isso significa que não teremos uma sociedade humanamente desenvolvida sem a forte presença de uma escola de qualidade.

Em seu instigante ensaio Em defesa da escola: uma questão pública, os pesquisadores belgas Jan Masschelein e Maarten Simons (2017) acertadamente ressaltam que “embora a escola tenha sempre permanecido como um símbolo de progresso e de um futuro melhor, suas origens não são sem máculas”. 

De fato, não faltaram críticos à escola que a denunciaram como culpada de más ações, de ser um lugar de alienação, de não preparar os alunos para a “vida real”, de não preparar para “o mercado de trabalho”, de não “proporcionar aos jovens uma ampla educação geral”, de não se abrir suficientemente para as demandas sociais ou de não fazer uma conexão real com o mundo.

Alguns críticos chegam a acusá-la de ser culpada por várias formas de corrupção, por abusar de seu poder, por promover “mecanismos sutis que reproduzem a desigualdade social”, por estar a serviço do capital econômico e por ter sido cooptada por aqueles que só tem a ganhar como o status quo da sociedade desigual. Há ainda os que criticam a escola por ser desmotivadora da juventude, porque ela está repleta de “professores chatos” que aborrecem os jovens ou de professores populares “que não ensinam nada aos alunos”.

Não podemos deixar de mencionar os representantes do “tribunal econômico” que acusam a escola por ser ineficaz no que tange a empregabilidade de seus alunos, por não ter “senso de negócios e espírito empreendedor”.

Todas estas acusações à escola sintomaticamente tem encontrado cada vez mais ressonância nos espaços da grande imprensa, nas redes sociais, nos discursos empresariais, na retórica de alguns políticos e tem sido absorvidas pelo grande público.

Assim, tacitamente está se constituindo uma opinião coletiva que a escola de fato está ultrapassada e necessita ser reformada para servir a estrutura social, ao sistema econômico e a formação/treinamento de futuros trabalhadores/consumidores para que sejam “produtivos” e “eficientes”.

A pandemia e o isolamento social, em que da noite pro dia todas as escolas foram fechadas, puseram em pauta a centralidade da escola e sobre a importância do seu funcionamento. Acompanhei muitos relatos de pais desesperados por não saber como lidar com os filhos que agora não estão mais formalmente na escola. Alguns perderam sua creche gratuita para depositar os filhos e assim ficarem “despreocupados para trabalhar” ou para “curtirem a vida”.

As aulas remotas e o uso das plataformas digitais foram um paliativo frágil para substituir temporariamente esse período de isolamento. Mas seria desesperador imaginar que devem durar para sempre. Me arisco a dizer que as tecnologias são incapazes de substituir a dimensão presencial da formação escolar, pois existe uma dinâmica de socialização, de interatividade, de desenvolvimento de valores que nenhuma tecnologia é capaz de substituir ou compensar.

Se enganam aqueles que acreditam e defendem que educação é somente passar conteúdos, treinar habilidades e ser bem avaliado em testes de larga escola. Educar é uma atividade complexa da ação humana que implica um conjunto de valores, de conhecimentos, de capacidades, de compromissos que nem sempre o dinheiro é capaz de comprar.

Se tivéssemos lucidez suficiente sobre o valor de educar, certamente colocaríamos a educação dos filhos como prioridade central das nossas atenções afetivas, políticas, sociais e econômicas.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

O digital, o social e o virtual

Quando o digital se distancia do social e se transforma em uma criação da inteligência, seja artificial ou humana, somos jogados para a realidade virtual.

A velocidade, o empobrecimento da linguagem e o reducionismo conceitual da realidade digital confundem, distorcem e empobrecem a vida social e a inteligência humana. 

A pobreza conceitual atingiu um nível no qual a realidade digital social são usados como sinônimos. No entanto, o digital é uma representação do social, por isto é psicologicamente desorientador atribuir o mesmo nome para realidades diferentes.  No momento que o digital    se distancia do social e se transforma em uma criação da inteligência, seja artificial ou humana, somos jogados para a realidade virtual.

A pobreza em curso é, também, uma pobreza conceitual, advinda do reducionismo epistemológico, que se tornou patológico, contribuindo para uma desorientação generalizada, na qual a sociedade se mobiliza em busca da liberdade defendendo a ditadura e a tortura.

A desorientação é tão grave que, em 2018, a sociedade brasileira elegeu presidente do Brasil um indivíduo que se declarou defensor da ditadura e da tortura.

O mais grave está no comportamento de 2022 e 2023, no qual milhões de pessoas demonstraram estarem inconscientes e desorientadas ao confundir virtual e social, acreditando em mentiras.

Nosso contexto de vida absorve muito tempo em contatos virtuais, e estes afetam o inconsciente e desumanizam os comportamentos. Os fatos sociais e os conceitos em uso devem ser reconstruídos para que o digital e o material possam ser distinguidos e relacionados. São exercícios necessários para assegurar a capacidade humana de distinguir e relacionar, buscando um bom entendimento dos comportamentos, aparentemente incompreensíveis.

Exercícios básicos e permanentes de reflexão, são um caminho para que a inteligência humana se reconheça diante da inteligência virtual/artificial, possibilitando aperfeiçoamentos nas relações, dos seres humanos entre si, com a natureza e com o totalidade.

Os fatos sociais culminados no acontecimento vergonhoso dos ataques aos três poderes, no dia 08-01-2023 em Brasília, são um exemplo, cujo histórico sinaliza desorientação grave, no qual a realidade digital, virtual e o social não foram distinguidas. 

Este fato, somado aos episódios violentos e desumanos, que se repetem e se acentuam cotidianamente, demonstram a necessidade de nos atentarmos para o básico, incluindo o afeto, as orientações educacionais, os vínculos e a convivência social.

Nesse contexto contemporâneo, onde necessidades materiais básicas não são atendidas como alimentação e habitação, com a presença de atitudes e comportamentos desumanos, os esclarecimentos elementares básicos são indispensáveis, incluindo a capacidade de distinguir e relacionar, digital, virtual e social.

Assista: “Nos Barracos da Cidade – Gilberto Gil – Racismo Ambiental”. https://youtu.be/j0OCVXZ9a7A?t=145

Autor: Israel Kujawa

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