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Lixo no chão

O simples exemplo de jogar ou não o lixo no chão me faz refletir, inclusive, sobre a importância de uma boa educação.

Uma vez eu aprendi na escola que a ética pode ser compreendida como aquilo que você faz quando ninguém está vendo, lá se encontra o seu verdadeiro eu. Há muita gente mal-intencionada por trás das máscaras e há pessoas que não usam máscaras, mas, são mal-intencionadas também.

Não, eu não prefiro nenhuma das duas, por mais que a última pelo menos não minta para você, e isso pode machucar menos, além de deixar um aviso claro que diz: quem sabe seja melhor você se afastar!

É o que penso toda a vez que me deparo com um infeliz ser humano jogando lixo no chão, assim, na cara dura e despreocupada, na minha frente. Eles são das mais variadas idades, gênero e personalidade. Há também aqueles que se auto enganam acreditando que o toco de cigarro que eles estão prestes a jogar no chão é uma folha orgânica, o mesmo vale para o chiclé.

Eu ainda não apanhei, mas, acredito ser uma questão de tempo. Isso porque a minha cara de desprezo por esses atos é incontrolável, aliás, todas as minhas expressões são (e eu nem deveria estar dizendo isso por aqui). A verdade é que depois de perceber que eu olhava torto, eu resolvi passar a fazer isso de modo proposital.

Antes, é claro, eu avalio o porte físico da pessoa, e se eu calcular que consigo correr, então, eu olho torto, com um simples objetivo de identificar se aquela pessoa tem o mínimo de compreensão que na sociedade em que ela está inserida, aquilo não é uma boa ação.

Em outras palavras, eu quero fazê-la refletir que aquilo não está certo sem palavra alguma, apenas olhando feio (pensando bem, acho que isso eu herdei de meu pai, ele nem me chamava quando eu estava saindo da linha, bastava um olhar).

E ao fazer isso, eu também pretendo fazer com que aquela pessoa se sinta envergonhada, pois, assim eu realmente acredito que ela não vai esquecer tão cedo (por mais que exista algumas pessoas que nem com isso se importem, mas, vale a tentativa!). Ah! Eu também já pensei em chamar a pessoa, pegar o lixo e dizer: olha, você deixou cair, é seu neh?!. Isso seria engraçado, mas, meu medo de apanhar cresce substancialmente, então, acho melhor não. Eu também já pensei em chamar a pessoa de porca, assim, no ato. Mas, talvez ela se ofenda com a verdade (quem nunca neh?!). E além do mais, eu considero que os porcos não são tão porcos, então, talvez, antes de fazer isso eu deveria encontrar um adjetivo mais adequado e também, aumentar os meus treinos de corrida…

O simples exemplo de jogar ou não o lixo no chão me faz refletir, inclusive, sobre a importância de uma boa educação.

Não me refiro àquela modalidade que educa por meio da punição, a qual estamos acostumados, diga-se de passagem. Que estipula regras que se não cumpridas, você será punido. Isso realmente funciona, e tem sua importância em um amplo contexto social, mas, não chega nem perto de onde deveria chegar.

Essa forma de “educar” inclusive subestima e bloqueia a inteligência e curiosidade das pessoas. Diga a um ser humano que ele não pode jogar lixo no chão, apenas. Diga a um ser humano que ele não pode jogar lixo no chão, caso contrário ele será multado.

Explique a um ser humano a importância de deixar uma cidade limpa. Argumente que uma estética agradável comprovadamente deixa a gente mais feliz, uma cidade mais limpa também deixa a gente mais saudável, pela menor probabilidade de proliferação de vetores de doenças, diga a ele que isso beneficiará a ele e também a quem ele ama.

Qual dessas opções você acredita que vai fazer com que uma pessoa compreenda a importância de não jogar o lixo no chão? E não jogue?

O problema da educação acontece quando a gente ensina com palavras vazias, ou seja, sem saber o porquê ensina. Ouso dizer que muitos educadores não sabem responder o porquê exatamente não é certo jogar o lixo no chão, porque foram educados desse modo, a obedecer a regras com medo das punições e inclusive, ameaçados quando questionavam o porquê, desde crianças.

Sabe, a ética Kantiana nos faz refletir justamente sobre isso. Ela nos incentiva a pensar no problema que causaríamos caso replicássemos as nossas ações não tão adequadas. Aplicando na prática seria o mesmo que pensar o que aconteceria, se todo mundo resolvesse jogar um papel de bala na rua toda vez que saísse de casa. Bom, se isso causaria um problema para todos nós, então, não é correto fazê-lo.

Kant ainda vai classificar as ações humanas, dividindo-as em três principais categorias, a saber:

As ações contrárias ao dever: que basicamente seria jogar o lixo no chão, visto que agora compreendemos a importância de não fazer isso para todos nós.

As ações conforme o dever: que basicamente seria aquele ser humano que não joga lixo no chão pois sente vergonha do que os outros iriam pensar (mas, isso não garante que ele não vai jogar quando ninguém estiver olhando). Ou quando a gente coloca o sinto de segurança apenas para passar na polícia rodoviária (achando que tá arrasando engambelando os policiais), sem entender que aquele apetrecho serve para salvar a própria vida.

E as ações por dever: que basicamente é o ato de não jogar o lixo no chão por compreender a importância que isso possui na vida de todos nós. Independente se alguém está olhando ou não.

Se todos nós compreendêssemos a importância de agir por dever, as detenções estariam com poucas vagas preenchidas. E tudo começa com um lixo no chão, ou melhor tudo começa com a educação.

Assista: Por que não jogar lixo no chão?#Ticolicos|EP11

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P.S: Casualmente, um dia após eu concluir este texto, estava caminhando, quando passei ao lado de uma pequena menina e sua mãe. No mesmo momento que passava por elas, ela parou no meio da calçada e disse: Olha, mãe! Um lixo no chão, isso não pode acontecer, neh! E sua mãe respondeu encantada, é verdade filha! Mais encantada fiquei eu de encontrar tamanha indignação em um toquinho de gente. Amigos, ainda há esperança! E mesmo sem conhecer aquela garotinha, deixo aqui a minha admiração por ela.

Autora: Ana P. Scheffer

O caso do travesseiro

Uma das piores solidões é a da madrugada e a da madrugada passada no hospital como era o caso da senhora que se queixava do travesseiro.

– Professor, no plantão eu não gosto quando sou chamado para ouvir bobagens – queixa-se um bom aluno do internato de medicina.

– Conte-me alguma das bobagens que você escuta?

– Noite passada fui chamado para atender uma senhora que não conseguia dormir. Não se adaptara ao travesseiro do hospital. E passou a me falar sobre travesseiros de pena de ganso! O senhor já escutou alguém descrevendo um travesseiro de pena de ganso às três da madrugada?

Insisti que por trás de uma aparente bobagem – e travesseiro nunca é bobagem -, há algo importante. E se a pessoa está doente, pode ser algo que dói.

Na aula seguinte, esse bom aluno me disse:

– Professor, descobri: a paciente sofre de uma solidão de dar dó. A solidão de uma mulher que está bem casada, tem bons filhos, mas ninguém a escuta. Pouco a visitam no hospital e, quando a visitam, não a escutam. Já senti algo parecido. Quando me mudei para cá, ao iniciar a faculdade, nos primeiros tempos as relações eram superficiais. Tipo: ‘bom dia’, ‘vai chover de novo’. Não havia quem quisesse realmente me ouvir.

A propósito, uma meta-analise muito citada hoje em dia demonstra que a solidão aumenta o risco de morte prematura em uma ordem de magnitude comparável aos fatores de risco bem reconhecidos como tabagismo e obesidade em grau elevado (Holt-Lunstad J, Smith TB, Baker M, Harris T, Stephenson D. Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: a meta-analytic review. Perspect Psychol Sci. 2015; 10 (2): 227–237).

Mas voltando ao aluno: juntos refletimos sobre a solidão e elencamos maneiras de aliviar esse doloroso sentimento incluindo a simples escuta. Escuta atenta, interessada, íntima… Mesmo que seja por minutos já ajuda e muito.

Reconhecemos que uma das piores solidões é a da madrugada e a da madrugada passada no hospital como era o caso da senhora que se queixava do travesseiro.

Esse antigo aluno, já médico faz um bom tempo, sabe como ninguém tirar da solidão seus pacientes. Também seus familiares, seus amigos, seus colegas…

É por isso, também por isso, que eu sou seu paciente.

Autor: Jorge Alberto Salton

CARTA ABERTA À COMUNIDADE SOBRE A SITUAÇÃO DOS PROFESSORES MUNICIPAIS DE PASSO FUNDO

Precisamos da ajuda da comunidade escolar nessa luta, pois a sala de aula é nosso lugar e, se em algum momento nos ausentamos para participar de atos ou assembleias é porque o executivo tem nos levado a esse desgaste da profissão.

Sabemos da importância do professor na sociedade, profissional que educa desde os pequenos até os adultos. A profissão que forma todas as outras sempre é homenageada no Dia do Professor, mas o que acontece no restante do ano?

No município de Passo Fundo, o magistério já foi a profissão dos sonhos de muitas pessoas mas, nos últimos anos, sofreu enorme desvalorização. Hoje, professores são chamados em concurso municipal e não assumem a vaga ou, quando assumem, acabam se exonerando pouco tempo depois. Da mesma forma, os cursos de licenciatura nas universidades não abrem turma.

Qual o motivo desse esvaziamento de cursos e falta de professores?

A resposta é que o magistério municipal está sobrecarregado, trabalhando no limite da exaustão. São inúmeras as queixas: falta de professores e auxiliares nas escolas, o que sobrecarrega os docentes; falta de monitores para atender os alunos incluídos, um problema que fere os direitos de todos os envolvidos, principalmente da criança com deficiência.

Além disso, a imensa lista de exigências pedagógicas e burocráticas da Secretaria de Educação está levando os professores ao cansaço extremo. Os professores estão adoecendo com tamanha sobrecarga de atividades e condições de trabalho precárias. Estamos presenciando cada vez mais casos de professores afastados com crises de ansiedade e estafa mental, sem falar nos problemas decorrentes do esforço de repetição.

Ao mesmo tempo, os professores estão, há anos, com uma grande defasagem salarial decorrente do não pagamento do piso do magistério. Nosso plano de carreira está sofrendo um sério ataque, pois as vantagens conquistadas ao longo dos anos de trabalho estão sendo usadas para pagar o piso. Essa manobra já levou à extinção do nível I e, muito em breve, fará com que professores graduados passem a receber por completivo, que é uma verba que complementa o salário, sem aumento real, e que não é considerada na aposentadoria.

Em Passo Fundo, um professor graduado ganha muito menos que qualquer outro servidor com graduação e, mesmo assim, estão desmantelando nosso plano de carreira. Vamos lembrar que o professor municipal, como qualquer servidor público, não tem Fundo de Garantia (FGTS) ou outros proventos para dar alguma segurança na hora da aposentadoria. Só o que temos é nosso plano de carreira, por isso não podemos e não vamos abrir mão dele!

O descaso com que a administração municipal trata os professores, tanto com a sobrecarga de trabalho e adoecimento dos docentes, quanto o desrespeito à lei que ampara a nossa carreira, são os motivos que levaram os professores à indignação e ao sentimento de desvalorização que estamos vendo hoje.

Precisamos da ajuda da comunidade escolar nessa luta, pois a sala de aula é nosso lugar e, se em algum momento nos ausentamos para participar de atos ou assembleias é porque o executivo tem nos levado a esse desgaste. Queremos que a comunidade perceba que precisamos melhorar as escolas que já existem antes de criar novas, investir no quadro de pessoal para atender nas escolas (professores, funcionários, monitores, entre outros) para que realmente possamos dizer que estamos investindo em educação. Aparelhos em geral não fazem a educação, quem faz a educação são as pessoas.

Nossa luta não é apenas pelo índice de reajuste, é muito mais que isso.

Nossa bandeira é a educação: queremos condições dignas de trabalho, queremos trabalhar sem adoecer pelas condições a que somos expostos, queremos os profissionais necessários para atuar nas escolas e fazer a educação ser realmente de qualidade, queremos autonomia para que as escolas possam desenvolver o bom trabalho que sempre mostraram na comunidade, queremos o nosso plano de carreira, queremos RESPEITO!

Autor: CMP SINDICATO

Edição: Aria

Reforma do ensino médio e fascismo

Luís Fernando Vitagliano, cientista político e professor universitário faz neste seu artigo uma análise necessária e crítica como a implantação do Novo Ensino Médio foi feita no Brasil e sobre a necessidade de revisar esta reforma. Uma leitura imprescindível para quem acredita na educação verdadeiramente democrática e que contemple a riqueza e a diversidade cultural brasileira.

Foram necessários quarenta e seis dias de governo para que o atual Ministro da Educação de Lula, o ex-governador do Ceará, Camilo Santana, abrisse sua agenda para conversar com a diretoria do CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores de Educação), principal entidade que representa educadores do ensino básico brasileiro. Apenas em 15 de fevereiro o ministro abril conversou com os trabalhadores da educação e ouviu suas demandas.

Entre elas, críticas à reforma do ensino médio iniciada no governo de Michel Temer. Mesmo com esse gesto, depois de algumas cotoveladas para atender aos sindicatos, o MEC parece pouco sensível a qualquer mudança de rumos em relação a Reforma do Ensino Médio implementada pelo governo Temer e que foi validada pelos petistas na equipe de transição ainda antes do início do governo.

Sinais claros na equipe de transição de 2022 já demonstravam que a educação do governo de frente ampla de Lula entraria na cota dos neoliberais.

A política para o ensino básico foi parar em Sobral, terra da produtividade do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) e do modelo para a educação brasileira neoliberal pautada em medida de indicadores de produtividade. As consultorias e as ONGs ligadas aos magnatas das finanças tomaram de assalto a equipe de transição e colocaram os seus. A partir daí, o acesso dos trabalhadores e dos formuladores de educação mais qualificados do país ao MEC do governo Lula é diferente da prioridade dada ao neoliberalismo. Melhor dizendo: o tempo dos trabalhadores é pautado pelos neoliberais já desde o ensino básico.

Em um primeiro momento, dadas as escolhas de Lula III (2023-2026) parece conceder ao neoliberalismo a cota de participação no seu governo a educação como serviço social. O resultado é que a educação no Brasil – tradicional espaço de construção de cidadania com nomes de peso como Mário Pedrosa, Anísio Teixeira, Paulo Freire e Darcy Ribeiro e tantos que hoje tem plenas condições de formulação privilegiada – tem cedido aos consultores do Banco Mundial a prioridade de formulação da política educacional.

Foi o Banco Mundial o autor intelectual e a instituição que financiou a reforma do ensino médio brasileiro de 2017.  Nela, dois pontos se destacam: primeiro, saiu de 4 para 5 horas diárias o mínimo de permanência do estudante nas escolas – com indicação para o ensino de tempo integral; e a segunda e, principal mudança, a apresentação de “itinerários formativos” com “metodologias ativas” para “temas transversais”, três neologismos para idiotas gostarem, todos com o mesmo conteúdo de “flexibilização”; termo caro apregoado pelo neoliberalismo na sua faceta econômica.

Não vamos entrar no mérito do tempo de aula, do aumento das horas. Tempo na escola não significa necessariamente melhora na educação.

No Brasil, de outro lado, as mazelas são tão gritantes que, ao alterar o tempo na escola, temos como consequências positivas resultados que não tem relação direta com a educação: são medidas sociais que melhoram a alimentação dos jovens, permitem retirar estudantes da violência das ruas e ter atividades monitoradas que pode incluir serviços sociais que acompanham a saúde e a cultura.

Já o segundo destaque da reforma é um ponto nevrálgico que está diretamente relacionado ao impacto da política neoliberal no Ensino Médio. Porque, mesmo com mais tempo nas escolas, a reforma tira tempo das principais disciplinas de formação cidadã. Ou seja, é uma reforma para ficar mais tempo na escola com menos compromisso com a educação.

Educação neoliberal

Mas para entender o argumento desta análise, cabe a pergunta: o que quer dizer uma educação neoliberal? Significa que a formação ganha um viés utilitarista voltada para a formação técnica e instrumental. Ou seja, a preocupação é quase que exclusivamente com o aprendizado que tem função na produtividade. Ler, escrever, fazer contas básicas. Responder automaticamente com um aprendizado que é funcional. Concentrar a educação nesses aspectos quer dizer que a produtividade para o trabalho é entendida como educação e não há lugar significativo para a reflexão e a crítica.

Na educação neoliberal, os índices de avaliação de desempenho norteiam as decisões e determinam a alocação de recursos. Essa política é acompanhada com uma série de avaliações quantitativas de desempenho. Os índices do SAEB (Sistema de Avaliação de Educação Básica) privilegiam o qualitativo, torna-se apenas norteador de distribuição de recursos no sentido econômico do termo.

Quem entrega um índice em português e matemática melhor é premiado com bonificações e recursos; quem não entrega bons indicadores, deixa de ganhar – parece um critério isento e justo, mas na pratica amplia as desigualdades e força as escolas a se concentrarem em um ensino conteudístico, que valorizam as provas de desempenho quantitativas, desvinculados dos problemas e questões locais e foca nas disciplinas de português e matemática. Na reforma neoliberal do Banco Mundial para a educação brasileira privilegia-se o conhecimento instrumental acrítico e se diz claramente que seu foco é matemática e português.

Educação emancipatória

Mas, o que seria então uma educação alternativa a isso? Voltada para a cidadania, progressista e crítica?

Em primeiro lugar, a valorização de conhecimentos analíticos e críticos que orientam o conteúdo instrumental. Áreas do conhecimento como história, geografia, biologia, química e física podem valorizar os saberes locais e vinculados a explicações da realidade dos estudantes para estimular a autonomia e a formação do sujeito circunscrito em uma realidade concreta. Uma coisa seria exigir que um aluno responda à pergunta: “quem descobriu o Brasil?”; de forma acrítica: Pedro Alvares Cabral. Outra coisa é apresentar ao estudante as nações indígenas e a diversidade que existia no território antes da chegada dos colonizadores e os efeitos que a chegada europeia provocou; aí então questioná-los e os provocar a refletir se isso foi uma invasão ou uma descoberta?

O ensino bancário torna o estudante um repositório de respostas prontas, o ensino emancipatório os torna cidadãos que questionam sua situação geral e os contextualiza como sujeitos históricos.

Ler, escrever e calcular e não sinônimo de boa educação. Embora seja condição mínima de formação educacional, não é condição plena de formação de cidadania. Calcular o indicador de 10% de juros compostos sobre R$ 1.000,00 em 24 meses é um conhecimento técnico necessário fundamental para o ensino médio. Considerar que uma instituição financeira cobra 9.99% ao mês de juros por um empréstimo bancário é um absurdo sem nenhuma justificativa ética e social plausível e a legalização da expropriação da usura que deveria caber na análise de qualquer estudante de ensino médio – que pode suscitar a capacidade de indignação cabível de denuncia a (ou da) autoridade monetária nacional.

Mas, nenhum educador que defende a reforma Temer do Ensino Médio vai reconhecer a proposta formulada pelo Banco Mundial para o ensino médio brasileiro vai à contramão do ensino emancipatório. Basta ler as lindas entrevistas de Maria Helena Guimarães de Castro – ex-secretária executiva do MEC de Paulo Renato de Souza nos tempos de FHC e que voltou ao MEC com Michel Temer e propôs esta reforma.

Os defensores do neoliberalismo justificam que o conteúdo analítico e critico pode ser discutido nos “itinerários formativos”. O que eles não nos dizem é que os chamados “itinerários formativos” são uma estratégia para usar métodos de educação pouco efetivas que empacotam as questões críticas na formação “técnica” (para o capital), tendo como resultado a diluição das disciplinas de história, de geografia, de sociologia, de filosofia, como da física, da química e da biologia para concentrar o tempo de sala de aula em matemática e português clássicos e trabalhar questões técnicas gerais voltadas a necessidade do mercado.

Com isso se permite maior flexibilidade e manipulação dos conteúdos nas áreas que interessam menos aprofundamento crítico e mais assuntos deslocados.

Na prática, temos uma redução de conteúdo que permitem a formação reflexiva, analítica e critica, com o nome falso de metodologias ativas.

A educação com os “itinerários formativos” através das metodologias ativas precariza o sistema e subverte a capacidade analítica dos estudantes. Esta afinação se choca com discurso educadores do mainstream político, mas explica a realidade que se tornará a reforma no caso concreto.

Para sustentar meu argumento, proponho testar se o que estou dizendo com um experimento: porque não fazer uma tentativa prática de formação e invertemos o padrão? Vamos colocar português e matemática em formato de metodologias ativas, através de itinerários formativos; e fazemos com que as disciplinas como história e geografia um desenho com material didático-pedagógico bem estruturado com tempo suficiente de aulas, professores estimulados e vemos o resultado desse esforço com provas que testem o valor significativo da formação do sujeito?

Como as escolas estão desenhadas hoje para a reforma do ensino médio, os itinerários formativos, na prática, tornam o Ensino Médio Brasileiro um grande ensino técnico. Porque permite (ou é de fato isso que se quer) que os currículos sejam desenhados para caber o ensino técnico e abre espaço para que se foque no ensino médio profissionalizante. Por isso os neoliberais logo correram para ocupar o espaço da equipe de transição em educação do governo Lula.

As diversas ONGs e Fundações benevolentes da burguesia agora vão financiar startups da educação. Todas supostamente preocupadas na ascensão social do trabalhador. Vão criar e financiar escolas técnicas voltadas a novos itinerários formativos para formatar o trabalhador de acordo com seus interesses e de modo absolutamente acrítico. Operários perfeitos: capazes de executar funções de trabalho, dóceis, gratos por tirá-los da miséria e sem capacidade cognitiva para reflexões críticas que o colocam como sujeitos da sua história.

Porém, é preciso debater o “Novo Ensino Médio” sem hipocrisia. Porque a proposta parece vender um grande avanço social quando se quer apenas um avanço de classe. Independentemente da concordância ou discordância que temos a respeito do papel que a escola deve exercer é importante deixar claro o viés da reforma. A reforma vai ao sentido da educação bancaria, onde o aluno é repositório de conteúdos e funções específicas predeterminadas na sociedade; o estudante é formado para ser um operário, seja um operário industrial do chão de fábrica, seja um trabalhador contemporâneo da produção de dados a partir dos computadores.

Muita gente acha que isso é mais importante que formar cidadanias e que tira muita gente da miséria dando a pessoas sem perspectiva um trabalho e/ou uma função social. É uma visão de mundo que tem elementos concretos na realidade brasileira para advogar nesse sentido; dada a miséria da condição educacional brasileira. Esta visão também se fundamenta no suposto de que as desigualdades existem e que não é papel primordial da educação tentar alterá-las, mas oferecer uma formação que permite a pessoa trabalhar. Que esteja límpido como água: são os fundamentos educacionais do neoliberalismo e, se diz algo a mais, é adereço retórico.

Portanto, não é possível dizer que a reforma no ensino médio, tal qual está sendo implementada, prepara o trabalhador e trabalhe os estudantes como sujeitos do conhecimento dando a eles instrumentos para a crítica – porque é dizer algo que ela não é capaz de entregar.

Os itinerários formativos são apenas um subterfúgio para embelezar o foco da reforma e permitem que a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) retire o compromisso com a melhora didática do material de ensino, tiram concentração dos conteúdos críticos, além de retirar dos parâmetros curriculares questões fundamentais para focar no ensino instrumental jogando a responsabilidade nas instituições de ensino, que cada vez mais são municipais ou filantrópicas.

É possível entender que o neoliberalismo está interessado nos resultados da acumulação do capital. É uma reinvindicação burguesa da sociedade atual. Sem novidade, é um movimento do capital como tantos outros. Sem ler, fazer conta, digitar e usar um periférico computacional, a produtividade do trabalhador é baixa – isso quer dize que reformar a educação para melhores resultados é importante para o capital numa sociedade de serviços baseada na acumulação de dados e na produção digital.

Diante dos fatos apresentados, não é loucura dizer que a porção dos neoliberais que defendem o ensino instrumental é uma parcela progressista para os padrões burgueses brasileiros e tem negociado com esse governo. Obviamente que não compactuam com a educação emancipatória por interesse de classe ou miopia social. Mesmo assim, é preciso dizer a eles que, dada a atual configuração das forças políticas, estão chocando o ovo da serpente e entregado os trabalhadores ao fascismo.

Propor uma escola acrítica e vinculada ao ensino técnico e profissionalizante, sem que conteúdos críticos, históricos e sociais recebam especial atenção vai se tornar um convite ao canto fascista que circula nas redes sociais.

Um estudante mal formado em história não tem a real dimensão do que é um genocídio ou do que foram os campos de concentração é um alvo fácil para aqueles que dizem que o holocausto não existiu, pois nem saberão o que foi o holocausto. Um estudante mal formado em biologia não tem noção da importância de uma vacina. Ou seja, um cidadão que não recebe uma formação social e critica está sujeito a todo tipo de enganação que o senso comum difunde nas redes sociais com o objetivo cooptar pessoas sem senso critico. Se você forma um trabalhador sem senso critico para o mundo do trabalho, vai formar também um cidadão sem senso critico para o fascismo. Sem uma boa escola, não podemos esperar uma sociedade democrática, por mais que os neoliberais queiram resolver seus problemas de classe.

Portanto, não importa se você acha que a educação deva formar meros trabalhadores ou cidadãos plenos. Também não adianta ficar fazendo campanha pelo bom senso em rede social. Tudo isso é inócuo diante dos riscos do momento. No atual contexto político, não é possível supor que a educação seja bancaria, é urgente que recorramos a uma escola engajada para enfrentar os desafios antidemocráticos.

Isso significa que, enquanto frente ampla, mesmo os neoliberais deste governo devem reconhecer que a educação deve caminhar no sentido oposto da reforma atual e permitir que se criem parâmetros para a formação do sujeito, com uma educação crítica que busca a emancipação do estudante para dar a ele elementos de análise da realidade com autonomia para que possam olhar para as redes sociais e não se seduzirem com as fakenews e suas armadilhas.

Com as ameaças vigentes, uma formação acrítica torna o futuro trabalhador alvo fácil do fascismo porque, na vida prática, a exploração do seu trabalho vai ocorrer, assim como as injustiças e as seduções fáceis da compreensão de mundo que o extremismo mostra nas redes sociais. Se o estudante não aprendeu na escola nenhum mecanismo social para lidar com isso, inevitavelmente é alvo fácil para aderir ao primeiro discurso nas redes e se render ao fascismo”.

Autor: Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor universitário.

FONTE: https://aterraeredonda.com.br/reforma-do-ensino-medio-e-fascismo/

Professor chorou! As professoras choraram também!

Ama-se a profissão, mas não há cartão-amor para cumprir com as despesas básicas de sobrevivência.

Dia 23 de Março de 2023. Dia de intenso calor. 10 horas. Em primeira chamada, iniciara-se a Assembleia deliberativa da categoria de professores municipais da cidade de Passo Fundo, norte do Rio Grande do Sul. Sul do Brasil.

O evento não fora apenas um encontro reivindicatório da data base, índice de reposição salarial, pedido de pagamento da lei do piso nacional dos professores, foi, entretanto, um grito coletivo por respeito àqueles cuja amorosidade inerente à profissão é confundida com saldo bancário.

Sim, ama-se a profissão, mas não há cartão-amor para cumprir com as despesas básicas de sobrevivência.

Assembleia de professores da educação básica! Básica. Essa mesma educação que é bandeira em toda eleição dos gestores públicos, do executivo, do legislativo…uma vez eleitos, pouquíssimos lembram do que escreveram ou disseram nos palanques eleitoreiros em defesa da escola pública e de seus principais agentes: os professores. E toda data básica, professores vão de pires na mão pedir o que lhes cabe por direito: O BÁSICO.

O que de fato seria o básico para os educadores?

Além do essencial para viver, muito precisa o educador para permanecer na sua profissão. Primeiramente, o básico respeito.

O sentimento de colega aposentada diante do desrespeito de quem muito contribuiu na formação básica dos cidadãos desse chão: participar de assembleia na condição de aposentada, foi uma experiência triste.

O olhar marejava, o coração doía e o futuro…ah, para esse, as circunstâncias apontavam -me que a alegria que espalhei, os afetos que conquistei, as horas que trabalhei em casa pela minha profissão, os estudos que fiz, os projetos, os quais participei…fizeram de mim, para os governantes, um número descartável, à espera da lucrativa morte na folha de pagamento. Um desprezo triste, humilhante, injusto e indigno.

Os relatos de colegas sobre desrespeito da profissão foram impactantes. Doentes, necessitam de atestado médico. Estão precarizando ainda mais o salário usando o vale alimentação. Justamente porque o vale alimentação terá maior reposição do que o salário base. Forma de castigo aliado à pedagogia de cabresto que se está enfrentando. 

Com mais de trezentos professores presentes, ativos e inativos, a escuta “materializava” a empatia e a sororidade.

A palavra “soror” quer dizer irmã. Diante do relato de um irmão professor, interrompido pelas lágrimas, várias vezes, a sororidade ficou uma palavra de dois gêneros. Choramos. Todos: professor e professora.

Desse choro veio a força encorajadora de dizer não à proposta salarial do patrão. Todavia, somado a não aprovação do índice de reposição salarial que não contempla o piso nacional, veio o grito de basta de desrespeito!

Ocorrera, nesse dia, não mais uma assembleia, mas uma assembleia da coragem!

Talvez não nos paguem o que nos devem. Talvez ainda o choro seja inevitável, porém a sensibilidade de ser professora e professor é, e sempre será, munição para lutar pelo básico, que é viver numa sociedade justa e fraterna.

Apesar de…a luta continua!

FONTE:https://www.ditosenaoditos.com.br/professor-chorou-as-professoras-choraram-tambem/

Autora: Marta Borba, professora aposentada da rede municipal de Passo Fundo.

Pretexto para falar de cavalos

Bom ladrão é aquele que rouba por necessidade. /Mau ladrão é o “peixe grande”. /Ou seja, aquele que rouba para sustentar seus luxos. (Padre Antônio Vieira)

Penso que a maioria das pessoas têm fascinação por cães. Outras por gatos, pássaros, cavalos, peixes. Prefiro cavalos, pois são paradigmas de força, beleza, virilidade e elegância. Já foram fundamentais aos transportes, guerras, jogos e instrumentos para conquistas amorosas. Hoje nem tanto, pois há outras formas de corcéis.  

Para transportar sementes aos moinhos de trigo, centeio e arroz, meu pai, adquiriu um cavalo manso para crianças e rápido o suficiente para ganhar algumas corridas entre a meninada da Vila das Borboletas. Além do mais foi barato o suficiente para suportar seu bolso. O nome dele era Petiço. Quando vencia uma corrida, era a glória. Porém, quando ia para os moinhos, envergonhava o pequeno Dom Quixote, simplesmente porque empacava nos piores momentos.

Explico. O defeito foi herdado pela mania do seu antigo dono que, conhecendo todo povoado, parava o Petiço para uma prosa de sete minutos com todos os que passavam no seu caminho. Não tinha jeito, pois o homem e seu cavalo paravam e pronto. Quando uma jovem bonita vinha, de longe ele diminuía o ritmo até parar. Sem ainda saber como falar com moça bonita, às vezes ouvia delas:

– Que piá bobo! Vai te criar!

Depois de sete minutos, descansados, cavalo e cavaleiro reiniciavam a pequena viagem. Podem não acreditar, parava até quando passava por um cachorro, boi, outro cavalo. Soube mais tarde que o Valde, o antigo dono, era um fervoroso devoto de São Francisco.

Quando ia aos moinhos os motivos do atraso sempre eram atribuídos ao pobre Petiço. Sempre algumas paradinhas para um banho nos rios Amandaú e Laranjeira. Um sorvete na vila. Não me importava se fazia calor ou frio, porque sorvete é sempre gostoso! Ah, como sorvete e Petiço combinavam!  O Petiço só não falava porque era cavalo, mas que gostava de ouvir prosas era um fato.

Outro cavalo que conheci na forma de livro, foi o famoso Cavalo de Troia. Dentro dele cabia um pequeno batalhão de soldados, inclusive, o Ulisses, o Odisseu, que lembra o título do livro ODISSEIA escrito pelo grego Homero. Na verdade, era um imenso cavalo de madeira edificado para ser dado de presente aos inimigos troianos. Por isso a expressão “presente grego”.

A guerra já durara 10 anos, sendo que os gregos/espartanos não conseguiam ultrapassar as instransponíveis muralhas de Troia. Pensando estrategicamente, eles, os gregos, simulam um acordo de paz, ofertando o “Cavalo de Troia” como símbolo de um “armistício” entre os dois reinos. A encrenca envolvia uma linda mulher, Helena, sequestrada por Páris, príncipe de Troia.

Aceito o presente grego edificado sobre 04 rodas, sem revistá-lo na Aduana, o grande e pesado Cavalo de Troia foi adentrado com facilidade na cidade inimiga. À noite, enquanto os troianos dormiam, o recheado e oculto batalhão de soldados, armados até os dentes, toma a cidade de assalto. A cidade foi destruída, sendo que finalmente o Rei Menelau resgata Helena, a mulher mais linda do mundo.

Outra história de cavalo ainda não terminada é a do Cavalo de Guarulhos. Vindo da Arábia Saudita em uma caixa de presentes a uma Primeira Dama do Brasil de Antão, nas mãos de um Ministro amigo do Presidente de Antão, deveria ir direto a Troia, digo, a Brasília. Ele, ao contrário do Cavalo de Troia, foi revistado ao ingressar no Aeroporto Internacional de Guarulhos e retido na Aduana. Nem Almirante e outros pau-mandados de Brasília conseguiram retirar o presente vindo das arábias. Devidamente desencaixotado, lá estava um cavalinho de ouro com três pernas decepadas. Dentro dele não havia soldados. Mas joias de diamante do mais alto quilate com valor estimado de R$ 16,5 milhões na moeda atual. Se fosse presente do governo saudita ao governo brasileiro deveria ser registrado na Aduana como tal. Porém, ninguém da comitiva governamental seguiu o protocolo oficial.

Algumas perguntas ainda não foram serão elucidadas: por quais motivos o registro não foi feito? Por que joias de tão alto valor?

Existem razões de Estado à doação de joias de forma tão obscura.  Shakespeare já escrevera: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha nossa vã filosofia”.   

–  Mertha! Diria meu vô paterno.   

Bom foi meu Petiço que parava no meio do caminho para ouvir as conversas entre o povo da Vila das Borboletas! O que mais me admirava era a atitude dele em parar por mais tempo quando as passantes eram mulheres. Nada falava. Olhava, sacodia as orelhas e se agitava todo com o perfume daquelas lindas mulheres. Aliás, as mulheres são lindas em todos os lugares e situações.

Naquela época de menino, eu já sentia as indomáveis energias de Teseu! Um tempo depois também foi entender que “sem tesão não há solução”. E isso vale para todas as coisas.

Sobre o Cavalo de Troia uma ensinagem: fica de olho em quem já te aprontou uma. Sempre um pé atrás! As conspirações estão mais vivas do que nunca, leitor(a)!   

Enfim, com exceção do Petiço, o Cavalo de Troia e o Cavalo de Guarulhos foram instrumentos para saquear nações enquanto o povo dormia o sono dos justos. Restam elogios à imprensa e à literatura pela busca da verdade, mesmo com seu jeito “gauche” de serem tão múltiplas na revelação da verdade.

Autor: Eládio V. Weschenfelder

Sua senhoria, o dinheiro!

Seja para qual finalidade for, nisso reside o poder escondido do dinheiro. Ele pode comprar o necessário, o supérfluo, o lícito e até aquilo que não se imagina.

Na padaria, meu amigo Pedro, em conversa sobre a vida cotidiana, proferiu uma frase emblemática: “O dinheiro é um péssimo patrão e um excelente escravo”. Aquela máxima formulada pelo filósofo inglês Francis Bacon não me saiu da cabeça. E fui percebendo que se trata de uma chave de leitura que pode ser utilizada na macroeconomia, na microeconomia, na economia familiar, na economia pessoal, etc. Pode servir de parâmetro para analisar a política, as relações sociais e também muitas psicoses individuais e/ou coletivas.

O dinheiro detém poder objetivo/material, mas, ao mesmo tempo, subjetivo/simbólico. E, na maioria das vezes, esses poderes não são equivalentes entre si.

Alguém pode possuir pouco dinheiro e absolutizar o seu valor. De outra parte, pode acontecer que alguém possua grande quantidade de bens (trocáveis por dinheiro) e não se apegue de forma absoluta ou doentia a eles. Entretanto, isso parece ser mais raro. 

O papel que o dinheiro exerce sobre a vida das pessoas coloca em xeque questões de ordem ética. No alvorecer do pensamento filosófico, Aristóteles afirmou que “o dinheiro é a medida de todas as coisas”. E pode sê-lo para o bem ou para o mal.

Ainda de forma embrionária, nas obras Ética a Nicômaco e A Política ele aponta que o dinheiro assume três funções: como meio de troca, como medida de valor e como reserva de valor. Tais conceitos serviram de base para múltiplas teorias complexas sobre esse senhor chamado dinheiro, que, de algum modo, nos governa ao longo da história.

Acerca do dinheiro e, por extensão, sobre todos os bens e riquezas, pairam diversas exortações de cunho religioso. Nas palavras de Jesus, “ninguém pode servir a dois senhores, pois odiará a um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6, 24). O apóstolo Paulo, por sua vez, sentenciou: “a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (ITm 6,10). Em geral, as religiões concordam que o dinheiro não é um mal em si, mas a forma de obtê-lo e de usá-lo pode levar à corrupção da alma humana.

Na sociedade de mercado, quem não tem dinheiro fica privado de produtos e serviços essenciais.

O dinheiro (no caso, a falta dele), não raras vezes, se configura como um determinante da escravidão, da opressão, da exclusão, da fome e da miséria. No limite, impõe a desumanização. De outra parte, a tomada do dinheiro como um patrão com poderes absolutos, mantém os impérios, a ganância, o lucro e a concentração da propriedade privada. Sobre essa máxima se afirma o capitalismo.

Enquanto isso, o diálogo seguia na padaria. Não demorou a que surgisse um rapaz. De pronto, disse ter fome, o que segue sendo uma grande chaga social. Ao invés de pedir pão, como seria de se esperar, pediu dinheiro. Muitos logo dirão que o utilizaria para outras finalidades.

Seja para qual finalidade for, nisso reside o poder escondido do dinheiro. Ele pode comprar o necessário, o supérfluo, o lícito e até aquilo que não se imagina.

Nessas variações de patrão e empregado é que se esconde seu poder misterioso a que cada um pode atribuir, usufruir ou a ele se submeter. Pelo dinheiro podemos nos escravizar a nós mesmos ou a outros. Por isso, bem advertia o filósofo francês Montesquieu: “O dinheiro é valioso desde que saibamos desprezá-lo”.

Nessa altura, veio à memória a filosofia de bolso que o amigo Valter costuma repetir. Segundo ele, se é verdade que “o dinheiro é do diabo, viver sem ele é um inferno”.

Na verdade, diante do dinheiro, alguns poucos vivem uma espécie de “paraíso terrestre” por serem senhores de muitos bens; uma grande parcela da sociedade experimenta um contínuo “purgatório”, por precisar controlar muito bem seus recursos limitados a fim de satisfazer as necessidades básicas. Entretanto, a grande maioria da população enfrenta realidades infernais ante a impossibilidade de adquirir o mínimo necessário para manter-se vivo.

Para construir uma sociedade mais igualitária, sem carências nem excessos, sua senhoria, o dinheiro, não pode governar de forma absoluta, nem funcionar como um patrão perverso que subjuga, corrompe e domina. Daí a necessidade de fortalecer a política do bem comum, a democracia econômica, a justiça social e a cidadania plena para que a vida e a dignidade humana de todas as pessoas estejam acima do senhorio do dinheiro e do império do capital!

Autor: Dirceu Benincá

Que teremos para o jantar?

Há filósofos que atribuem ao apetite humano a responsabilidade tanto pela nossa selvageria quanto pela nossa civilidade.

Eis uma pergunta (para muitas pessoas) trivial: que teremos para o jantar? Todavia, a trivialidade desse questionamento reside só na aparência de naturalidade com que é, na maioria das vezes, formulado.  Na sua essência, aquilo que o psicólogo e pesquisador da Universidade da Pensilvânia, Paul Rozin, chamou de “dilema do onívoro”. Ou seja, quando se pode comer qualquer coisa que a natureza pode nos oferecer, decidir o que se vai comer, racionalmente ou não, é causa de ansiedade. Especialmente porque alguns alimentos podem nos fazer mal ou, até mesmo, nos matar.

Nos dias de hoje, em que (para quem tem dinheiro) abundam alimentos como jamais visto na história da humanidade, o dilema do onívoro torna o ato aparentemente simples de comer em uma coisa complicada. A tal ponto, de muita gente necessitar ajuda de especialistas (médicos e nutricionistas, por exemplo) para decidir o que comer (a par do modismo de dietas, que duram até o lançamento do próximo livro).

A situação existencial de um onívoro contrasta radicalmente com a de um comedor especializado, para quem a questão do que comer na próxima refeição não poderia ser mais simples. No caso de um comedor generalista (onívoro) aquilo que pode ser uma aparente vantagem também se torna um desafio, especialmente para os humanos, em que entra em jogo a racionalidade e valores morais.

A nossa vantagem frente a outros onívoros não racionais (um rato, por exemplo) é a nossa cultura, que nos permite ter acesso a uma farta experiência acumulada em relação à comida. São muitas as regras de alimentação codificadas em tabus, rituais, receitas, costumes e tradições culinárias que nos eximem (ou eximiam) de reviver o dilema do onívoro a cada refeição.

Uma visada panorâmica nas gôndolas de um supermercado e, principalmente, uma leitura um pouco mais atenta das embalagens dos alimentos industrializados talvez não nos deixe tão seguros assim quanto ao dilema do onívoro ser algo do passado da humanidade. Somos todos vulneráveis, especialmente aos olhos dos marqueteiros, que percebem, na questão da alimentação, o dilema do onívoro como uma oportunidade de negócio.

Novos produtos (alguns com promessas milagrosas), em tese da propaganda, podem aliviar a ansiedade que sentimos frente aos nossos hábitos alimentares.

Na mesa de jantar ou no corredor de um supermercado, não é difícil nos defrontarmos, mesmo sem perceber e atentar para a denominação, com o dilema do onívoro: produto orgânico ou convencional? Peixe do mar ou criado em tanques? Alimento com ou sem gordura trans? Gado criado em confinamento ou sob pastagem? Devo virar vegetariano?  E se virar vegetariano, um do tipo moderado ou um vegano radical? Açúcar ou adoçante? É seguro comer um alimento que contém produto transgênico? Gordura vegetal ou banha de porco? Que significa “saudável para o coração”?  Que é TBHQ ou goma xantana? Afinal, para onde vão me levar todos esses questionamentos?

Possivelmente, a melhor maneira de enfrentarmos o dilema do onívoro desse começo de século XXI é o entendimento das cadeias alimentares que nos sustentam, desde o início do processo de produção do alimento, passando pelas fases de processamento industrial, armazenamento e comercialização até chegar à mesa na forma de comida.

Compreender o nosso lugar nessa cadeia alimentar e ter consciência que a nossa condição de onívoro moldou a postura que temos em relação ao mundo natural, particularmente frente às espécies que nos servem de comida.

As adaptações que o homem sofreu ao longo da evolução das espécies serviram para que conseguíssemos derrotar as defesas de outras criaturas e pudéssemos comê-las (inclua-se a capacidade de caça, a invenção da agricultura e o ato de cozinhar utilizando fogo, que permitiu tornar os alimentos mais palatáveis, digeríveis e eliminar toxinas).

Há filósofos que atribuem ao apetite humano a responsabilidade tanto pela nossa selvageria quanto pela nossa civilidade. Uma criatura para quem era possível comer qualquer coisa (inclusive outros seres humanos, que o diga o bispo Sardinha, deglutido pelos Caetés em 1556) necessita especialmente de regras éticas, costumes e rituais no que tange aos alimentos e à alimentação.

Comer talvez seja algo que nos define (o quê e como comemos). Por isso é muito mais que um mero “ato agrícola”. É, ao mesmo tempo, também um ato ecológico e um ato político. Não é outra a razão, que leva muitas pessoas a comerem como autômatos na extremidade da cadeia alimentar industrial: pensar no assunto pode estragar o apetite.

Autor: Gilberto Cunha

(Do livro Galileu é meu pesadelo, 2009.)

85 anos de existência da APL (Academia Passo-Fundense de Letras)

A Academia Passo-Fundense de Letras é uma instituição muito importante para a formação cultural e literária de nossa estimada cidade Passo Fundo. Esta instituição marca a história da cidade há 85 anos.

Conversamos com a presidente da Academia Passo-Fundense de Letras Marilise Brockstedt Lech sobre questões pertinentes quanto à comemoração dos 85 anos de existência desta importante Academia de Letras. Quisemos saber sobre importância de celebrar esta data, sobre a entrada de seis novos acadêmicos e sobre os desafios de manter uma Academia com tanta relevância e destaque cultural em nossa cidade.

“O relato sobre a história de uma instituição é sempre um espelho bem pouco nítido dos fatos reais que aconteceram nos diferentes momentos vivenciados. Contudo, olhando para tudo que passou, é possível visualizar os grandes feitos da Academia Passo-Fundense de Letras e dos acadêmicos que por ela passaram, e os que, hoje, compõem seu quadro de ocupantes das 40 cadeiras deste sodalício.

Ser acadêmico, embora represente um reconhecimento ao trabalho como escritor, está longe de ser apenas uma honraria ou um título. É, sim, uma função e um compromisso para com a comunidade.

Os acadêmicos cumprem um estatuto que inclui, dentre as finalidades, incentivar as letras e as artes, concorrendo para o seu aperfeiçoamento. Para tanto, dentre os inúmeros motivos para comemorarmos os nossos 85 anos, está o desenvolvimento dos 14 projetos literários e culturais. Tudo isso é feito de forma voluntária, já que a APLetras é uma entidade sem fins lucrativos e que se mantém unicamente com as anuidades pagas pelos acadêmicos, bem como com doações de pessoas da comunidade que sabem valorizar a literatura como caminho de formação humana.

A entrada de seis novos acadêmicos

“Neste ano de 2023 estamos tendo a alegria de receber seis novos acadêmicos, selecionados a partir de um processo que inclui, dentre outros requisitos, a análise do currículo vitae e das publicações. São eles: Alexandre da Rosa Vieira, Alex Antônio Vanin, Janaína Rigo Santin, Luiz Carlos Dale Nogari dos Santos, Marco Antônio Bomfoco de Almeida e Nei Alberto Pies. Com isso, a APLetras se renova, amplia seu valor e expande o seu alcance e influência para que aconteçam as necessárias transformações na sociedade”.

Desafios de manter uma academia com tanta relevância e destaque cultural em nossa cidade

“Os desafios são constantes, começando pela busca de recursos para fazer acontecer os nossos importantes projetos. Aos olhos de quem vê de fora, o nosso prédio ainda guarda mistérios…

Como não temos funcionários contratatos pela APLetras, infelizmente a porta mais alta do estado não fica aberta todos os dias da semana. No entanto, estamos sempre em atividades, organizando eventos (Congresso Estadual das Academias de Letras do RS, Momentos Culturais,…), preservando o bom uso da Língua portuguesa (Guardião das Letras), propondo oficinas para estudantes (Identificando Talentos), escrevendo (livros e a nossa Revista Água da Fonte), gravando entrevistas (Literatura Local – TV Câmara), incentivando os jovens para a escrita (Acadêmicos mirins), contando histórias junto à ONGs e Escolas, realizando o Concurso Literário, o Café Filosófico, a Mateada literária,…

E neste ano teremos a realização da VI Semana das Letras e retomaremos o projeto Academia nas Escolas, o qual prevê encontros de debates entre auotres da academia e estudantes passo-fundenses. Projetos como Cine-Literatura e Desafio Literário também estão sendo planejados.

Dentre os desafios também está ampliar a divulgação de tudo isso, para que mais pessoas possam ser beneficiadas com a nossa atuação”.

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