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Nós, os fanáticos

Todos estamos sujeitos ao fanatismo, porque a base dele está dentro de todos nós, no pensamento infantil ou primitivo que todos um dia já praticamos

Os anos vão passando e a gente encontra um amigo que se fanatizou. Não era assim. Mas agora ele é fanático, por exemplo, por um clube de futebol, acompanha a torcida até fora do Brasil. Pode estar fanático por um líder político, só fala naquele líder político, por uma religião, por um tipo de alimentação.

Não precisamos nos surpreender, todos somos fanatizáveis. Ao final, vou contar uma das vezes em que me tornei fanático.

Como funciona esse processo?

Uma determinada ideia vai se tornando supervalorizada por nós. Passamos a, gradativamente, mais e mais pensar nela, seja ideia política, religiosa, um modismo. E a ideia vai avançando, avançando, e tomando conta. Nesse momento, ela aproxima-se de uma ideia delirante. Mas não é. Para ser teria de haver uma alteração na bioquímica do cérebro, ser uma falsa crença, não corrigida pela realidade e ir se expandindo e tomando conta do pensamento. No caso referido, não há alteração na bioquímica do cérebro a causá-la. E se a pessoa se afastar daquele meio cultural, seja da torcida do futebol, do movimento político, ela tem possibilidade de sair da “bolha”. Pode continuar com pontos de concordância, mas terá crítica.

Se é uma doença da bioquímica do cérebro, como esquizofrenia, por exemplo, não adianta se afastar. Enquanto essa bioquímica não for corrigida por medicamentos apropriados, a pessoa não se liberta. Portanto, trata-se aqui de um problema cultural.

Todos estamos sujeitos ao fanatismo, porque a base dele está dentro de todos nós, no pensamento infantil ou primitivo que todos um dia já praticamos.

Chamado comumente de pensamento maniqueísta, tende a dividir as pessoas em boas e más, entre os que sabem e os que não sabem, entre os que tem a verdade e os que não tem.

Assista também: Mandela e Gandhi não eram maniqueístas.

Esse nosso amigo, que agora encontramos fanático, não está tão distante de nós. Costumo me observar quando estou a defender uma ideia: será ela tão verdadeira assim como de início está me parecendo? Inclusive, me dei conta disso em plena palestra/debate para centenas de pessoas. Enquanto eu defendia o valor da ciência, de sempre duvidar, o outro palestrante e amigo defendia o valor de crer. Ele defendia sua posição com uma convicção fanática.

Pois bem, a certa altura, dei-me conta, eu estava igual: defendia fanaticamente a ciência. Ele tinha a verdade. Eu tinha a verdade. Havia me contaminado. Havia, de repente, me tornado um fanático.

Ao me dar conta, diminuí o tom, aceitei tecer críticas ao método científico. E… perdi o debate!

Autor: Jorge Alberto Salton

Edição: Alexsandro Rosset

Livres, mas conectados na teia da existência

“Nossas vidas não são nossas. Estamos vinculados a outras, passadas e presentes. E de cada crime, e cada ato generoso nosso, nasce nosso futuro.” (Frase filme “A Viagem)

Tudo está conectado. Nada há que desminta tal fato. Pelo contrário, não faltam evidências. Porém, nem sempre a história segue uma trajetória linear. Às vezes, ela lembra mais a mecânica quântica do que o método cartesiano de causa e efeito. Na descrição microscópica proposta pela física quântica, alguns conceitos do nosso cotidiano são desafiados, dentre eles, o de causa e efeito.

No mundo subatômico, o efeito pode anteceder à causa, por mais irracional que isso pareça. Seria como se fôssemos diretamente influenciados pelo futuro, tanto quanto pelo passado (ou até mais). Destoando de seu mestre Freud, Carl Jung, psicanalista suíço, acreditava nesta possibilidade. Pierre Teilhard de Chardin, o teólogo e antropólogo francês, dizia que toda a criação é atraída pelo que chamava de Ponto Ômega.

Ora, os que se atrevem a crer em profecias, creem que o futuro exerça poder sobre o presente, de modo que o efeito preceda a causa na linearidade histórica. Recebemos sinais vindos do futuro o tempo inteiro.

Por isso, não faz sentido ficarmos presos a uma espécie de carma, sendo assombrados pelo passado. Há que se romper o cordão umbilical, ficando livre para avançar na direção do futuro.

Nossa conexão com o passado, entretanto, não se desfaz, assim como a criança não perde seu elo com a mãe depois que seu cordão umbilical é aparado. Se antes fomos carregados em seu ventre, agora a carregaremos em nosso DNA. Seremos, por assim dizer, a extensão de sua existência. Fora do ambiente intrauterino podemos alcançar estatura antes inimaginável. O ventre, entretanto, cumpriu o seu papel, embalando-nos por nove meses, até que estivéssemos prontos para o mundo exterior.

Estamos conectados com nossos contemporâneos, pois partilhamos o mesmo ar, a mesma realidade, a mesma ancestralidade, visto que todos descendemos de um ancestral comum. Somos atores no mesmo palco existencial, ainda que com falas diferentes. Mesmo a nossa felicidade está vinculada à felicidade de nossos companheiros de jornada.

Enfim, tudo está interligado. A existência é uma grande teia. Qualquer vibração em suas extremidades balança toda a sua estrutura.

No dizer de Paulo, somos membros uns dos outros, de sorte que, se um sofre, todos sofremos, se um se alegra, todos nos alegramos.

Que aprendamos com a aranha, listada em Provérbios de Salomão entre os quatro exemplos de sabedoria, tendo cuidado para que a teia que nos conecta a tudo nos sirva de pavimento na direção do porvir, mas jamais nos enrede, enclausure ou embarace o nosso caminhar (Pv.30:28).

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alexsandro Rosset

Homeschooling?

A importância da escola no exercício desta prática é imensa. Inaugura o caminho em direção a uma vida civilizada. Cabe à escola o papel de introduzir os estudantes e suas famílias no trato com as fronteiras dos diferentes territórios familiares (atualmente muito distintos) montando as bases da sociedade civil.

As ondas de doenças infecciosas no Brasil, iniciadas em 2018, continuam contaminando, em média, 25% da população. A primeira onda, em 2018, foi a dos alienados. A segunda onda chegou com a nave dos insanos. Morreu muita gente. A terceira reuniu os dementes, contaminados pelo vírus do ódio e da destruição do Estado e, a última, a do homeschooling, envolveu o desassossego de muitas famílias brasileiras.

Homeschooling é tema sobre o qual grande parte dos especialistas está de acordo entre si. A ideia não é boa, em princípio em razão de isolar a criança do convívio social. Mas é importante ressaltar: escola é uma coisa, família é outra. Separar para aproximar o caminho a ser percorrido.

Vários educadores renomados e com experiência na área educacional analisaram o tema e justificaram a inadequação do homeschooling à realidade brasileira citando, inclusive, problemas ligados à alimentação e à violência familiar. É sugestivo acrescentar, à discussão pedagógica, uma abordagem política.

Qual a origem deste hábito, homeschooling? Onde encontramos seus fundamentos? No exclusivismo da percepção dos membros de uma só família? No receio da diferença entre os humanos? Na impossibilidade de uma vida em uma comunidade política presidida pela liberdade de expressão e discussão?

Dentre os motivos destaco alguns deles. O primeiro se refere à forma de tratar “verdades”. Palavra com protagonismo em tempos de fake news. A suposição, por parte de algumas famílias, da existência de uma só verdade justifica os pais desejarem manter os filhos distantes de questionamentos envolvendo as suas convicções. A sensação de conhecer “a verdade única” e o fato de existir muita violência fora de casa justificam o esforço dos pais de proteger e isolar os filhos do perigo.

O segundo problema diz respeito à formação dos professores. As transformações ocorridas no mundo contemporâneo e a necessidade de preparar os jovens para os desafios de gênero, novas tecnologias e emprego (entre outros) exigem do professor e da escola um enorme preparo emocional, científico e cultural. Infelizmente grande parte dos professores brasileiros não recebeu formação adequada para os imensos desafios da atualidade e sobre eles recai a exigência de construir o difícil equilíbrio entre os estudantes, as famílias, a escola, a tecnologia e o mundo conectado nas redes.

O terceiro desafio diz respeito à incapacidade do Estado, por falta de recursos e qualificação da mão de obra, de montar estruturas para a conciliação entre família, escola e sociedade. O desafio é imenso, se, de fato, a intenção for conciliar. Por um lado, a família quer respeito aos seus pressupostos educacionais e, por outro, a escola tem que conciliar as diferenças entre as famílias, os professores e o sistema educacional.

É fácil? Não.

A importância da conciliação é enorme. Trata-se de um ensaio geral dos conflitos que permeiam a sociedade brasileira e o mundo. O primeiro ensaio da vida em sociedade é marcado pelo conflito e conciliação experimentados na escola. O tema (conflito e negociação) permeia não só os vínculos escolares, como se constitui em pauta de todas as relações em nível pessoal, nacional e internacional.

A importância da escola no exercício desta prática é imensa. Inaugura o caminho em direção a uma vida civilizada. Cabe à escola o papel de introduzir os estudantes e suas famílias no trato com as fronteiras dos diferentes territórios familiares (atualmente muito distintos) montando as bases da sociedade civil.

A negociação é uma arte própria da política. A negociação se ensina e se aprende, da mesma forma com que ensinamos e aprendemos física. A arte da retórica, da definição de hipótese, da argumentação e comprovação, a montagem do contraditório e a solução dos impasses são fruto de um extenso aprendizado. Nascemos com mais habilidade para brigar do que para conciliar. Em caso de dúvida, observem as crianças.

No Brasil, os brasileiros conheceram, ao longo de sua história, o pensamento único, o autoritarismo e seus heróis. Pobres e ricos foram preparados, cotidianamente, para mandar e obedecer, apenas. A frase: “Você sabe quem está falando?” tem origem em solo brasileiro.

A escola e a simples alfabetização foram, por anos, deixadas de lado. É justo cobrar das escolas com tão poucos recursos e professores mal pagos, criar as condições para resolver os imensos conflitos propostos pela modernidade?

É o que está acontecendo.

O problema ficou grande demais e os pais das crianças sem condições de enfrentar os desafios do contraditório postos no mundo atual resolveram: “Pelo amor de Deus fiquem em casa, não quero mais problemas no meu dia a dia”.

A proposta de homeschooling é um grito de desespero das sociedades democráticas, educadas democraticamente apenas na sua cúpula, mas autoritárias nas suas extensas bases. Fala-se muito em contraditório. Mas enfrentar o contraditório numa reunião de pais, em escolas de periferia, com professores nem sempre habilitados para este enfrentamento, não é fácil.

A dúvida, precioso ingrediente da razão, aliada da dedução, da experiência e da comprovação, é ingrediente sofisticado na vida escolar. É fruto do conhecimento, das práticas científicas e da razão. Precisa ser ensinada e praticada cotidianamente.

É fácil fazer a pergunta certa diante de um problema? É fácil defender a razão?

Não. Precisa de aprendizado em filosofia.

A narrativa desenvolvida no ambiente familiar é voltada para as emoções, afetos cotidianos, tradições e hábitos próprios à cada família. Já na escola as práticas retóricas visam ao debate, a elaboração de argumentos, o respeito ao contraditório e o uso da razão. Crianças na escola participam de uma microexperiência do viver em sociedade, na pólis. Elas descobrem, brincando, que os vizinhos, mesmo aqueles de hábitos diferentes, não são inimigos. A escola, por meio dos professores, patrocina, administra e protege o respeito à diferença criando as condições para um convívio sadio, sem exclusões.

O professor pode explicar, por exemplo, a sofisticação que envolve comer com pauzinhos sem levar à mesa instrumentos cortantes; é costume no Oriente, onde a faca, por educação, não deve ser levada à mesa. Ou, ainda, o hábito, delicado, de levar o seu próprio guardanapo ao ir comer na casa de amigos.

Conhecer e viver amigavelmente tanto com os vizinhos, defensores da floresta, como com os parceiros comerciais sejam eles chineses ou indianos (entre outros), é tarefa importante na montagem de um mundo civilizado e globalizado.

As descobertas proporcionadas pelo convívio na escola são muitas. Vão além de ensinar a ler, escrever e contar. A escola nos ensina a viver em sociedade, reconhecer o justo para além da família, compreender proporções, avaliar, se existe ou não, a equidade e a isonomia no país em que se vive.

A raiz da democracia é a amizade. Ela é a artesã do tecido social. O tear é a escola capaz de fazer a trama entre a família, os amigos e a escola, compatibilizando velhos e novos hábitos. Só com o auxílio do diálogo entre os amigos estudantes, a família e a escola, é possível diminuir a tensão dos problemas fronteiriços.

Os desafios do mundo contemporâneo são imensos e exigem a formação de um novo profissional capaz de conciliar as partes em conflito. Isolar os estudantes em casa, proibir amizades entre adolescentes é colocar lenha na fogueira. A família fechada tende à exclusão, do amigo, do emprego, da participação política. Não raro silencia ou desqualifica o Outro, o diferente, o forasteiro, o estrangeiro com feições e hábitos distintos. A família tende a preservar a autoridade do patriarca, garantir o seu poder, a sua riqueza e, muitas vezes, sem perceber, estimula o medo à diferença.

Viver envolve risco?

Sim?

É possível viver isolado?

Difícil.

Precisamos da sociedade para sobreviver, expandir os afetos, fazer amigos, arranjar emprego, praticar esportes, nos divertir e rir. Se precisamos da vida em sociedade, é melhor saber lidar com ela. Reconhecer os lugares amigáveis, os perigosos e, especialmente, ter consciência do projeto de vida possível de levar à frente.

A escola representa a pólis, a vida na cidade, lugar do ajuste, difícil, entre as partes. A variedade de professores em uma escola, de conhecimento e de sensibilidades variadas permite ao estudante encontrar distintos modelos de identidade.

E, entre inúmeras variáveis, por meio da prática do seu livre-arbítrio, escolher os amigos e qual será o desenho, possível, para o seu projeto de vida.

Ser livre é perigoso?

Sim.

Vale a pena caminhar?

Do meu ponto de vista, sim.

Trata-se de um exercício, longo, de fineza de espírito.

Temos problemas gravíssimos na educação brasileira, gerando falta de percepção de valor pelos estudantes e famílias de diversas classes sociais. Mas, se o barco está furado, precisamos nos concentrar em consertá-lo, e não oferecer salva vidas para quem pode, enquanto olham de longe o barco naufragando com 99,9% dos passageiros agonizantes. (Autor: Amilton Rodrigo de Quadros Martins) Leia mais: https://www.neipies.com/o-homeschooling-e-a-sentenca-de-morte-da-educacao-integral/

Fonte: Este artigo foi publicado em Jornal da USP. Link: https://jornal.usp.br/artigos/homeschooling/

Autora: Janice Theodoro da Silva, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

Edição: Alexsandro Rosset

Neri Gomes: uma vida dedicada à política e à cidade

Neri Gomes é um agente político bastante conhecido em nossa cidade. Já foi vereador por 2 mandatos, assessor parlamentar, fez parte do Sindicato dos Comerciários, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores) Regional Planalto, presidente do Conselho Municipal de Saúde, dentre outros serviços políticos já prestados em nossa cidade. No momento, ocupa temporariamente (por um mês) mandato parlamentar por conta da inédita iniciativa do rodízio de suplentes com mais de 500 votos do seu partido, o PT (Partido dos Trabalhadores), em 2022.

Neri Gomes sempre teve uma postura combativa, com muita clareza e convicção nas discussões e nas proposições legislativas.

Acompanhamos e prestigiamos sua valorosa trajetória política em Passo Fundo, RS, e queremos, neste momento, destacar sua atuação e sua percepção do atual momento político que vive a cidade, o Estado do RS e o Brasil.

SITE NEIPIES: Conte-nos, brevemente, um pouco mais de tua trajetória política. Alguma atividade política como destaque?

Neri Gomes: Tivemos vários momentos de bons debates políticos nestes quase 40 anos de militância no movimento sindical, comunitário e na defesa da saúde pública SUS, e mais o PT, é claro.

A conquista do Campus de Medicina da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) tem uma grande importância na economia do município e na vida das pessoas porque viabiliza que estudantes das escolas públicas e filhos de jardineiro, de professores, de pedreiros, de metalúrgicos, etc, se tornem médicos, como se diz no popular, se tornem Doutores. Eu tive um papel importante nesta conquista da UFFS, que eu queria destacar.

SITE NEIPIES: Como e porque a política te cativa tanto?

Neri Gomes: A verdadeira política é a arte de construção de espaços públicos e coletivos na inclusão dos vulneráveis nas políticas públicas dos governos.

Na verdade, eu tenho o entendimento que Lula falou na fundação do PT: todos os movimentos sociais e sindicais são importantes, mas todos tem um teto na construção da política. Quem elabora as propostas, quem aprova as leis são os parlamentares nas três instâncias e quem faz acontecer a política são os executivos. Neste caso, entendo que os trabalhadores(as) tem que estar também nos parlamentos para garantir o debate e aprovação dos projetos importantes para a classe trabalhadora. Eu sempre fui um entusiasta da função legislativa.

SITE NEIPIES: Qual é a importância do PT (Partido dos Trabalhadores) ter conquistado novamente uma cadeira na Câmara de Vereadores ocupada pela vereadora Eva Valéria Lorenzato?

Neri Gomes: Na minha opinião, a Câmara de Vereadores sem a presença de vereador(a) do PT não tem oposição política e programática. Nós temos muito a contribuir no parlamento, nossos parlamentares tem feito diferença nas câmaras de vereadores, nas assembléias legislativas e no Congresso Nacional.

SITE NEIPIES: Que importância tem o rodízio que o PT realiza com os três suplentes de vereadores assumindo um mês de mandato parlamentar na Câmara de Vereadores de Passo Fundo?

Neri Gomes: Penso ser um momento histórico para o partido na construção de novas lideranças e do próprio PT e da valorização de quem colocou o nome para contribuir na legenda, até porque em Passo Fundo nunca tivemos vereador que se elegeu sozinho, sem contar os votos da legenda.

SITE NEIPIES: Como foi assumir novamente a função parlamentar nesta cidade depois de alguns anos sem mandato?

Neri Gomes: Mudaram muitas coisas, a conjuntura política é outra. O momento agora é outro, com a informatização e as redes sociais mudou bastante a forma de se comunicar com a cidade, com as lideranças, mas as lutas, infelizmente, continuam as mesmas. Muito mais difícil é retomar as conquistas que já tínhamos e perdemos quase tudo, com o crescimento da extrema direita em nossa cidade.

SITE NEIPIES: Na sua visão, qual é a característica e o perfil dos vereadores eleitos nesta atual legislatura?

Neri Gomes: Na minha opinião, hoje a Câmara de Vereadores tem uma maioria que não conhece o que são políticas públicas, não conhece os programas dos seus partidos e não consegue fazer e propor debate programático e ideológico.

SITE NEIPIES: Quais foram suas prioridades e iniciativas neste mandato parlamentar extemporâneo de um mês?

Neri Gomes: Foi prioridade a defesa da saúde pública e a importância do SUS e, dentro deste tema, recuperamos o debate ambiental com a coleta seletiva e a reavaliação do plano municipal de gestão integrada de resíduos sólidos de Passo Fundo.

SITE NEIPIES: Política e eleições gerais em 2022.Como avalias?

Neri Gomes: Penso que estas eleições são as mais importante dos últimos anos, estamos sendo desafiados a construir programa de governo que possa recuperar o Brasil, mas também nos desafia a eleger o maior número de parlamentares de esquerda pra viabilizar sustentação de eventual governo do presidente da República Lula e, no estado RS, a mesma coisa.

SITE NEIPIES: Que mensagem deixas a todos os cidadãos e cidadãs da cidade de Passo Fundo?

Neri Gomes: A minha presença na Câmara de Vereadores mesmo que só por 30 dias mostrou a importância de um mandado que faça o enfrentamento programático e consiga dialogar com as lideranças partidárias do partido e do movimento sindical e popular. Sei que tenho um perfil diferente da vereadora Valéria que vem fazendo um bom mandato, por isso nosso desafio é aumentar a bancada de vereadores do PT na próxima eleição municipal.

Fotos: Divulgação/ Arquivo pessoal

Edição: Alexsandro Rosset

As coisas que o afeto ensina

Afeto é o que fica. Esse afeto que percebe que o educar se faz nas miudezas. Para além de toda a tecnologia pedagógica atual.

É muito melhor aprender e ensinar quando existe afeto envolvido. Afeto não é apenas beijinhos, palavras melosas.

Afeto é afetar. É o compromisso de transformar o outro. O coletivo. É desafiar, abrir caminhos. É dar as mãos, é generosidade.

Não se educa sem generosidade. A escolha por ser professor deve passar por essa reflexão.

Serei capaz de me entregar com afeto à minha profissão? Serei capaz de afetar o outro de forma a transformar a sua vida?

Somos marcados por mapas afetivos para sempre! Escuto muitas pessoas dizendo que escolheram as suas profissões por conta de um professor específico. Por quê? Pela forma como esse professor afetou você pelo conhecimento. O afeto está na preparação da aula. Nas escolhas do professor. Na voz, no toque, nos pequenos gestos. No silêncio, na forma como esse avalia.

Aprendi que de nada vale estar em uma superescola, com um supermaterial, num superespaço, numa superlinha pedagógica se não há seres capazes de afetar e dispostos a serem afetados pelos outros!

Afeto é o que fica. Esse afeto que percebe que o educar se faz nas miudezas. Para além de toda a tecnologia pedagógica atual.

A afetividade é a via de comunicação mais eficaz entre professor aluno, possibilitando o reconhecimento da capacidade intelectual do educando. Se dizemos que a educação hoje está caótica e difícil, temos o dever de pensar nas causas que a levaram a esta situação, fazendo uma reflexão acerca do comportamento dos pais e do corpo docente, para que possamos encontrar as causas e soluções para os problemas na escola hoje. (Ana Manoela Detoni) https://www.neipies.com/educacao-e-afeto/

Autor: Marcelo Cunha Bueno, é diretor pedagógico da Escola Estilo de Aprender (SP)

Edição: Alexsandro Rosset

Mudas de plantas como lembrancinhas de eventos

Ensinar as nossas crianças que cuidar de uma muda de planta até ela crescer poderá melhorar o ar que respiramos, nos dar sombra e frutos é muito rico para a sua formação enquanto cidadã e parte da mãe Terra.

Quando vamos realizar um evento nos preocupamos com todos os seus detalhes. Muitas vezes contratamos um profissional especializado para cuidar de tudo, mas sempre tem o nosso toque especial. Seja naquilo que vamos querer, na escolha do local ou do serviço a oferecer para os nossos convidados ou clientes. Algumas pessoas gostam de ir fundo nos detalhes.

Nem sempre é uma tarefa fácil escolher a lembrancinha para uma festa, principalmente de casamento, pensando nisso eu tenho uma dica super fofa, barata e sustentável para vocês.


Elas são uma forma simples, delicada e simpática de presentear alguém que esteve presente no seu evento, elas são super fáceis de conseguir, baratas se você for comprar e a montagem dessa lembrancinha também é bem simples e pode ser feita de várias formas.

Além de ser um artigo de decoração lindo na hora da festa, imagina só que fofo você poder levar para casa a sua mudinha depois?!

Eu, particularmente, gosto de participar de eventos de casamento, festas de aniversários, formaturas e lançamentos de livros. Este último um evento do qual sempre participo. Sou detalhista e observadora. Gosto de ver os cuidados que os meus amigos tiveram para realizarem os seus eventos. Uma coisa que chamou a minha atenção no último casamento do qual participei foram as lembrancinhas.

Sim, as lembrancinhas feitas com todo o carinho, estavam num vaso de cerâmica e eram mudas de plantas. Em cada vaso havia uma frase que dizia assim “cuide de mim, eu serei a sua árvore amanhã”. Fiquei encantada com esta lembrança. Passei a festa inteira levando a minha lembrancinha pra cima e pra baixo com muito cuidado, afinal as mudas das plantas são iguais a bebês e necessitam de todos os nossos cuidados.

Ao chegar em casa reguei a mudinha com um pouco de água e a coloquei à janela do meu quarto. Fiquei pensando em como seria bom se a maioria das pessoas que fazem eventos sejam eles os mais diversos fizessem lembrancinhas de mudas de plantas. A minha se tornará um ipê lindo que pretendo plantar de frente a minha casa para florir a rua.

As lembrancinhas feitas de mudas de plantas é um sinal de que as pessoas daquele evento estão preocupadas com as questões ambientais, são conhecedoras da importância das plantas para o planeta Terra e o mais importante têm consciência de que devemos plantar cada vez mais árvores e plantas de todas as espécies ao nosso redor. Não custa quase nada fazer lembrancinhas de mudas de plantas.

Você não precisa comprar as mudas se não tiver com dinheiro sobrando. Pode recebê-las como doação de algum horto público ou privado da sua cidade. Os vasos de cerâmica podem ser comprados no atacado e não precisam ser grandes. Garanto que dar lembrancinhas de mudas sai mais barato do que se preocupar com algo mais chique e elegante.

Para mim não existe algo mais chique do que se preocupar com o meio ambiente. Você pode colocar no vaso um pequeno poema sobre árvores e no final o seu nome. Acho extremamente delicado e necessário que façamos lembrancinhas desse tipo. De preferência que possamos fazer nas festas de aniversários dos nossos filhos quanto menores eles foram mais tomarão consciência da necessidade da preservação do meio ambiente.

Uma das plantinhas que mais está sendo usada nos casamentos é a suculenta, pois é bastante resistente e armazena bastante água. Além disso ela traz consigo um grande significado, segundo o Feng Shui, elas são purificadoras de ar, e são consideradas guardiãs. Tê-las por perto é um lembrete de vitalidade, persistência e integração com tudo o que está a sua volta, sendo assim, uma ótima opção de lembrancinha.

Dê preferência a espécies resistentes. Entre as espécies que combinam com o estilo do evento, é interessante que você invista naquelas que floresçam na estação em que ele ocorrerá para evitar aparência ruim e preço elevado.

Na internet fiz uma rápida pesquisa e encontrei vários sites que oferecem este serviço, mas como disse acima você não precisa desprender muito dinheiro para fazer as suas lembrancinhas de mudas, basta ser criativo e ter por perto um lugar que doe mudas de plantas. Acho que em toda cidade tem uma ONG e ou órgão público que realiza esse trabalho.

Você pode levar o seu filho junto com você para escolherem as mudas e montarem as lembrancinhas juntos. A criança vai sentir e aprender a necessidade de se plantar árvores onde for possível. Ela vai perceber a sua preocupação e interesse com o meio ambiente, vai levar isso para as outras crianças e será capaz até de contar na sala de aula sobre o seu gesto.

Para que a criança fique fascinada com as lembrancinhas de mudas, é bom que ela mesma seja orientada a oferecê-las no final da festa aos seus convidados dizendo em poucas palavras que as árvores são importantes para todos nós e por isso ela está presenteando a pessoa com uma. É um gesto educativo e rico para a criança e também para quem recebe.

Mudas de plantas como lembrancinhas de eventos têm se tornado um hábito cada vez maior entre as pessoas que se preocupam com o meio ambiente e penso que todos nós temos responsabilidades para com o nosso planeta.

Ensinar as nossas crianças que cuidar de uma muda de planta até ela crescer poderá melhorar o ar que respiramos, nos dar sombra e frutos é muito rico para a sua formação enquanto cidadã e parte da mãe Terra. Esta mãe que nos abraça e nos envolve em seus cuidados maternos dando-nos sempre a atenção necessária para que possamos aprender que o melhor para todos nós é aprendermos a amar incondicionalmente a natureza ao nosso redor.

Experimente nos seus próximos eventos dar mudas como lembrancinhas e anote os comentários dos seus convidados. Se possível registre o momento da entrega através de fotografias ou vídeos. Surpreenda os seus convidados. Muitos dirão que não têm espaço, outros dirão que nunca cuidaram de uma planta e ainda terão aqueles que vão dizer que não têm tempo para cuidarem de plantas.

Como qualquer outra lembrancinha, é interessante que as mudas de plantas passem por algum tipo de acabamento que seja capaz de integrá-las à decoração do evento e lembre os convidados de onde elas vieram. Em festas rústicas, é normal envolver as mudinhas com juta, por exemplo.

Para finalizar, é só prender uma tag com o nome do aniversariante, a data do evento e, se tiver espaço, uma frase fofa, o significado da espécie ou como cuidar dela. A frase da minha mudinha eu nunca vou esquecer. Seja criativo e invente a sua própria frase assim como o seu próprio poema. Todo mundo pode se tornar um poeta num momento de amor.

Você terá um milhão de motivos para convencer os seus convidados a cuidarem da sua lembrancinha porque ela é como se fosse uma parte de você. Sim, diga isso para os seus convidados. Provoque-os a tirarem a resistência fora e aceitarem a cuidar da mudinha da planta que você está os presenteando. Faça-os sentirem-se parte do meio ambiente.

É claro que as mudas como lembrancinhas só farão sentido se os eventos forem realizados em locais apropriados para que elas sejam oferecidas. Em grandes salões urbanos fica meio difícil, mas ainda assim é possível dar um jeitinho.

As amigas da minha mãe quando vêm aqui em casa e visitam o nosso jardim se apaixonam pelas nossas plantas e pedem sempre uma mudinha para levarem de lembranças. Mamãe faz a muda com todo o carinho colocando num saco plástico preto ou quando temos em casa num vasinho de barro. Elas ficam todas felizes por levarem uma parte do nosso jardim com elas.

As mudinhas de plantas são lembranças especiais, marcantes e com vida. Quando você presenteia alguém com algo vivo aquela pessoa assume a responsabilidade de cuidar daquele presente com muito mais cuidado e responsabilidade, pois sabe que se deixá-lo morrer se sentirá culpada diante de você. Ninguém se sente bem ao matar uma plantinha por falta de cuidados, por isso o seu convidado se sentirá tentado a cuidar da lembrancinha com todo o carinho do mundo.

Faz-se necessário educar as pessoas para o gesto do cuidado não somente com o outro o que ainda é pouco diante do ódio e da violência que vemos nos jornais todos os dias, mas um cuidado que está começando a aparecer nas gerações de adolescentes nascidos depois dos anos 2000 onde eles querem cuidar de maneira especial da vida e que essa vida esteja acima de todas as coisas nos seus cotidianos.

As mudas de plantas como lembrancinhas estão fazendo o maior sucesso entre os cuidadores do planeta Terra. Seja você mais um cuidador dando mudas de plantas como lembrancinhas dos seus eventos ajudando assim o mundo a se tornar cada vez melhor. Quando adotamos questões ambientais no nosso viver estamos antes de tudo cuidando de nós.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

Por onde passa o futuro das Cidades Educadoras?

Dedicamos esta crônica a educadores brasileiros como Darcy Ribeiro e Paulo Freire. Dedicamos também esta crônica à estudiosa Jaqueline Moll e ao professor Márcio Taschetto, que não medem esforços para disseminar as ideias das Cidades Educadoras no RS e no Brasil.

Participamos da Abertura do Evento Encontro das Cidades Educadoras região Norte do RS neste último dia 19 de maio de 2022, na cidade de Marau, RS. Foi uma noite de muitas aprendizagens e de muitas trocas entre os participantes e os Convidados.

Esta crônica pretende sistematizar algumas ideias apresentadas no evento, cuja intenção é de colaborar nas discussões e na apropriação dos conceitos de cidades educadoras, seja de professores ou professoras, seja da comunidade em geral.

Chama-nos atenção que Cidades Educadoras fazem parte de um movimento, de uma metodologia, de um horizonte de concepção de uma boa cidade: participativa, solidária, inclusivas, democrática.Como uma cidade pode dar errado se ela tem tantos talentos, tantas possibilidades de vivenciar a cidadania, tantas pessoas querendo ajudar para que ela se torne um bom lugar para se viver?

A cidade que se pretende Educadora deveria responder a questão: Por que queremos ser Cidade Educadora? Antes de ser slogan ou prêmio, é um compromisso que envolve toda a comunidade, que participa das proposições e das realizações que se farão na cidade.

Para que uma Cidade Educadora se concretize precisa de 04 aspectos:

*decisão da gestão;

* políticas públicas;

* continuidade dos processos e

* pessoas comprometidas.

Valendo-se de suas experiências e vivências em diversos processos e territórios (inclusive em solo africano), o professor Alexsandro dos Santos Machado, convidado especial do Evento em Marau, RS, está coordenando a retomada dos processos da cidade de Porto Alegre como Cidade Educadora e pontuou a importância do pertencimento e do reconhecimento dos talentos como parte fundamental.

Citando Marcel Mauss em Ensaio sobre a dádiva, reflete sobre o dom, sobra a graça. A partir do DAR, do RECEBER e do RETRIBUIR, ocorre o reconhecimento dos dons de cada um. A partilha de saberes oportuniza da gente se dar, se dar no dom: receber e retribuir. Observa-se a necessidade de potencializar territórios e favorecer o pertencimento,sobretudo das crianças e dos mais velhos.

Que cidades criamos onde esquecemos as origens e as conexões com os territórios, com os lugares onde vivemos e habitamos? Sem reconhecer as pessoas, as suas histórias, os seus desejos, não vale a pena.

Como as Cidades Educadoras trabalham com as contradições e com as diferenças de pensamento?

Pelo observado e apontado nas falas do evento, “um dos desafios da Cidade Educadora é promover o equilíbrio e a harmonia entre a identidade e a diversidade, tendo em conta os diversos contributos das comunidades que a constituem e o direito de todas as pessoas que nela vivem a sentirem-se reconhecidas pela sua identidade cultural própria. Para tal, é imperativo lutar contra o racismo e todas as formas de exclusão. O desafio atual é reconhecer o direito às singularidades sem colocar em risco a construção do que é comum. As Cidades Educadoras sentem-se portadoras do ideal de inclusão, acolhendo cada pessoa como ela é e convidando-a a participar num projeto comum de cidade”. (fragmento Carta das Cidades Educadoras)

Neste sentido, a pedagogia do diálogo fará aumentar as potências, a tração para novas perspectivas e soluções das cidades. É necessário conviver com o outro e não destituí-lo de seu legítimo espaço e lugar de fala.

A potência de uma cidade educadora está no fato de valorizar todas as pessoas, quando as mesmas ressignificam as suas vivências e histórias, quando são acolhidas em seu trabalho e suas habilidades e talentos, quando o poder público realiza diálogos com seus entes e articula políticas públicas a partir da percepção e da necessidade das pessoas. Uma cidade educadora não pode ser um conjunto esporádico de empregos, mas quando se transforma numa política de estado, com perspectivas de continuidade nas ações.

Cidade educadora não assume somente protagonismo disfarçados de cidadania como “Ação Global”, mas reconhece os diferentes protagonismos dos sujeitos da cidade, promove permanentemente eventos e oportunidades de cidadania e vivência de direitos. Todo espaço da cidade é um espaço educador.

Cidades Educadoras sob a ótica dos professores e professoras

Como afirma o provérbio africano, “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. Os professores e professoras darão sua contribuição para que suas cidades sejam verdadeiramente Educadoras, mas precisam do reconhecimento com aquilo que os conecta, que os envolve no trabalho pedagógico dentro das salas de aula e nas comunidades em que nossas escolas estão inseridas.

Como Cidade Educadora não é, de longe, uma ação específica da Secretaria Municipal de Educação, os professores/as e as suas escolas, a partir das respectivas comunidades escolares, podem fazer importantes ligações e interfaces com as demandas e as necessidades das comunidades locais. A escola pode se tornar um centro irradiador de estudos, de articulações e de realização de atividades que reúnam os diferentes sujeitos sociais das comunidades.

Os professores e professoras de uma Cidade Educadora precisam ser valorizados, reconhecidos e convidamos para serem também os protagonistas da mudança das realidades, a partir dos territórios que circundam as comunidades escolares.

Os princípios da Carta das Cidades Educadoras

Consultamos a Carta das Cidades Educadoras e destacamos, para conhecimento de todos que:

“Na Cidade Educadora, a educação transcende as paredes da escola para impregnar toda a cidade. Uma educação para a cidadania, na qual todas as administrações assumem a sua responsabilidade na educação e na transformação da cidade num espaço de respeito pela vida e pela diversidade.

A Cidade Educadora vive um processo permanente que tem como finalidade a construção da comunidade e de uma cidadania livre, responsável e solidária, capaz de conviver na diferença, de solucionar pacificamente os seus conflitos e de trabalhar “pelo bem comum”. Uma cidadania consciente dos desafios que a humanidade enfrenta atualmente, com conhecimentos e competências que lhes permitam tornar-se corresponsáveis pela procura de soluções exigidas pelo momento histórico que vivemos”. (Preâmbulo da Carta das Cidades Educadoras)

São princípios de uma cidade Educadora:

O DIREITO À CIDADE EDUCADORA

 Educação inclusiva ao longo da vida Política educativa ampla;

Diversidade e não discriminação;

Acesso à cultura Diálogo intergeracional.

O COMPROMISSO DA CIDADE

Conhecimento do território;

Acesso à informação;

Governança e participação dos cidadãos;

Acompanhamento e melhoria contínua;

Identidade da cidade;

Espaço público habitável;

Adequação dos equipamentos e serviços municipais;

Sustentabilidade.

O SERVIÇO INTEGRAL DAS PESSOAS

Promoção da saúde;

Formação de agentes educativos;

Orientação e inserção laboral inclusiva Inclusão e coesão social;

Corresponsabilidade contra as desigualdades;

Promoção do associativismo e do voluntariado;

Educação para uma cidadania democrática e global.

Como podemos observar, os princípios da Carta que são assinados e assumidos pelas cidades educadoras apontam para uma exigência cada vez maior de cidadania e de reconhecimento dos direitos de todos os cidadãos e cidadãs da cidade. Quem imaginar que Cidade educadora é apenas um prêmio ou um slogan logo perceberá que haverá cobranças e exigências legítimas da população sobre a qualidade dos serviços e as oportunidades de cidadania para todos.

E que futuro nos reservas, Cidade Educadora?

Como lembrado na abertura dos trabalhos em Marau, pelo Professor Márcio Taschetto, fazendo referência a Millôr Fernandes: “há muito passado no futuro do Brasil”. Então como poderemos, a partir de um legado histórico assentado em valores pouco nobres, como escravidão, desigualdade social, violência impregnada em nossa sociedade, sucessivos golpes de estado, falta de saneamento básico… fazermos essa ruptura?

Temos certeza que não é uma tarefa fácil, afinal, problemas complexos e estruturantes demandam da mesma forma, respostas complexas e estruturantes. Em algum momento teremos de dar o primeiro passo em direção a sociedade que almejamos.

Séculos vivenciando as infelizes experiências citadas acima, servem ao menos para ilustrar que tipo de sociedade não queremos? E isso já é muito.

Sabedores do horizonte que buscamos, nossas cidades devem intensificar seu papel de acolhimento e de reconhecimento das habilidades de cada cidadão que a habita.

Que nossas cidades sejam espaços de oportunidade, onde todos possam nela se desenvolver e, da mesma forma, contribuir para outros se desenvolvam e assim, se tornem seres humanos felizes.

Que possamos conviver com o contraditório, onde o calor do debate seja acolhido e não suprimido, pois um dos princípios básicos da democracia é a divergência. Temos certeza que assim nos tornaremos uma sociedade mais solidária e fraterna.

Como referido anteriormente, não se trata de uma tarefa fácil, mas como dizia Eduardo Galeano, as utopias são necessárias para continuarmos indo em frente: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

Imagens do evento: Créditos Divulgação Iura Kurtz, Prefeito Municipal de Marau, RS.

Se interessar, acesse evento gravado e disponibilizado neste link: https://fb.watch/d7eRX2oULV/

Autor: Tiago Machado

Edição: Alexsandro Rosset

O RS é o estado com mais escolas que aderiram ao Programa de Escolas Cívico Militares

Em um cenário de sucateamento da educação pública e desvalorização salarial dos educadores(as), a estruturação das escolas cívico-militares deixa a cargo dos estados os custos com a compra dos uniformes e a qualificação dos espaços. Ou seja, onera ainda mais os cofres públicos. Há dinheiro para tudo, menos para quem mais precisa.

De caráter reacionário e autoritário, o Programa Nacional de Escolas Cívico-Militares (Pecim), criado em 2019 pelo governo Bolsonaro (PL), via Decreto nº 10.004, impulsionou o processo de militarização nas escolas das redes públicas de ensino.

Até março deste ano, conforme o Ministério da Educação (MEC), 136 instituições já haviam aderido ao programa. O Rio Grande do Sul é o estado com maior número de adesões.

No total, 14 escolas do Rio Grande do Sul integram o Pecim, seis delas estaduais. Para além dessas, o MEC já prevê implantar o modelo em escolas de Bagé, Canela, Porto Alegre, Quaraí, Rosário do Sul, São Borja, São Gabriel e São Leopoldo. O objetivo do governo federal é o de estruturar 216 escolas cívico-militares em todo o país, até 2023.

Programa é inconstitucional e ilegal

O programa institui a presença de oficiais da reserva ou brigadianos reformados nas instituições para “resgatar princípios como disciplina, ordem e valorização dos símbolos da pátria”. Mas, na verdade, fere a gestão democrática das escolas e leva medo aos(as) estudantes.

Por não estar previsto nem na Constituição Federal e nem na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), o Pecim pode ser considerado inconstitucional e ilegal.

Cultura do medo nas escolas

Casos de agressão, racismo, assédio sexual e assédio moral são rotina em estados que já implantaram o programa.

Na Bahia, uma aluna, ao chegar à escola com o cabelo preso em um coque mas sem estar envolto em uma rede exigida pela instituição, foi impedida de entrar. O monitor disse para ela alisar os cabelos.

Em Brasília, um estudante de 12 anos, foi orientado por um sargento a cortar o cabelo.  O militar teria dito que o adolescente estava “se camuflando entre as meninas”.

No Paraná, estado com número significativo de escolas cívico-militares, casos de violência e assédio a alunos(as) se multiplicam. Em agosto deste ano, um PM foi preso suspeito de abusar de alunas. Menos de duas semanas depois, o monitor de um colégio em Imbituva, teria socado e ameaçado um estudante de morte por causa do desenho de uma folha de maconha e da frase “vida loca” na carteira. Alunos de 14 e 15 anos de um colégio de Curitiba usaram simulacros de arma durante uma atividade cívica. Em Paranavaí, um militar que atua como fiscal de pátio, teria assediado alunas e mostrado uma arma prateada a uma adolescente, ameaçando que caso a aluna contasse a alguém sobre o assédio, ele “acabaria com ela”.

Programa onera o Estado

Em um cenário de sucateamento da educação pública e desvalorização salarial dos educadores(as), a estruturação das escolas cívico-militares deixa a cargo dos estados os custos com a compra dos uniformes e a qualificação dos espaços. Ou seja, onera ainda mais os cofres públicos. Há dinheiro para tudo, menos para quem mais precisa.

Escola é para quem tem formação para educar, não para reprimir

O Pecim coloca militares atuando no lugar de profissionais de educação devidamente qualificados para o processo de ensino-aprendizagem, que uma educação de qualidade requer.

O CPERS reitera: trocar o giz pelo coturno é um desrespeito com a categoria e, cada vez mais, uma ameaça às crianças e adolescentes.

Foto: Jonathan-Campos

Matéria originalmente publicada em: https://cpers.com.br/o-rs-e-o-estado-com-mais-escolas-que-aderiram-ao-programa-de-escolas-civico-militares-pecim/

Autor: CPERS SINDICATO

Edição: Alexsandro Rosset

A filosofia enquanto busca de si mesmo

Quem eu sou? De onde eu vim? Para onde vou? Estas são perguntas que marcam a cultura filosófica em todos os tempos.

Desde os mitos até os mais sofisticados conhecimentos das ciências cognitivas, da psicologia, da psicanálise, da neurociência, tais perguntas não foram plenamente respondidas e por isso permanecem atuais.

O que me define, minhas origens, meu futuro não pode ser expresso com um nome, ou com uma explicação biológica, ou com a projeção de algo que hipoteticamente pode acontecer. Na tradição filosófica não faltaram definições sobre o humano, sobre a gênese, sobre a finalidade do existir.

Em seu livro O homem a procura de si mesmo, publicado pela primeira vez ainda em 1970, o psicanalista Rollo May construiu um conjunto de reflexões significativas no campo psicanalítico que nos ajudam a pensar tempo presente. Apesar de ser um livro escrito a quase 50 anos, suas reflexões permanecem atuais. May inicia perguntando sobre “quais são os principais problemas interiores do nosso tempo?” O próprio May ressalta que há três problemas que nos ameaçam e que estão interligados: o vazio, a solidão e a ansiedade. Vejamos rapidamente cada um deles.

Nas palavras de May a sensação de vazio provém, em geral, da ideia de incapacidade para fazer algo de eficaz a respeito da própria vida e do mundo em que vivemos. Trata-se de um vácuo interior que provoca desespero e futilidade.

O vazio faz com que as pessoas tenham dificuldade de tomar suas próprias decisões e passam a ser governados por autoridades anônimas como a opinião pública e assim cria-se o vazio coletivo. Para May, o uso de drogas, o consumismo, a insatisfação permanente são formas equivocadas de enfrentar o vazio existencial.

A solidão, diz May, é uma ameaça não violenta e penosa para muitos que não possuem a concepção dos próprios valores positivos do isolamento e até se assustam com a possibilidade de ficar sós. O medo da solidão e o vazio geralmente andam juntos e se fazem presentes quando uma pessoa não sabe, com convicção, o que deseja e o que sente; ou quando, numa época de mudanças traumáticas, percebe que as ambições e as metas convencionais que lhe inculcaram não proporcionam segurança e orientação.  

Assim, passam desesperadamente a buscar em outras pessoas consolo, esperando delas orientação, ou alguma forma de segurança para não se encontrar sozinha diante da solidão e dos problemas que cada um precisa enfrentar. O medo de ficar só deriva da ansiedade de perder a consciência de si mesmo. Por isso a necessidade desesperada da aceitação social, o desejo de “ser estimado”, “o estar cercado de cordialidade”, e com isso a fala sensação de vencer a solidão.

A ansiedade é indicada pelo psicanalista Rollo May como sendo o terceiro problema interior de nosso tempo. A ansiedade não se deve exclusivamente as depressões econômicas, aos desastres políticos ou as guerras, mas decorre das mudanças traumáticas ocorridas nos últimos tempos.

Essa ansiedade faz com que as pessoas busquem desesperadamente “um salvador” que possa nos dar a sensação de segurança. É nesse cenário que geralmente surgem os regimes totalitários e os ditadores.

O totalitarismo, diz May, não surge porque um maníaco assume o poder, mas porque uma sociedade insegura se encontra vazia psicológica e espiritualmente e as pessoas preferem trocar a liberdade pela ilusão de se livrar da ansiedade produzida pela insegurança. A ansiedade se manifesta quando nos sentimos ameaçados sem saber o que fazer para enfrentar o perigo. Assim como numa guerra, quando o inimigo destrói o centro de comunicações, a ansiedade causa no ser humano o sentimento de desorientação e a perda da consciência de si mesmo.

O estado mais grave de ansiedade é quando ocorre a apatia, que significa o fracasso no sentir e no enfrentar de maneira construtiva a própria ansiedade. Se prestarmos atenção as manifestações de ódio que circulam pelas redes sociais, certamente nos daremos conta de que a ansiedade se tornou um sentimento bem presente e ameaçador em nossos dias.

Contribuir para que as crianças, jovens e adultos consigam conhecer a si mesmos e saibam enfrentar o vazio, a solidão e a ansiedade que nos ameaça constitui um desafio não só para a filosofia, mas para todos os que acreditam no poder da educação.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alexsandro Rosset

A vida das crianças-condomínios

O mundo é doloroso para quem vive numa redoma e põe os pés fora dela pela primeira vez, nunca se sabe o que acontecerá. As crianças precisam estar preparadas para viverem no conforto de um condomínio ou numa casa simples da periferia do bairro.

Antigamente morávamos em casas e podíamos correr nas ruas e brincar de esconde-esconde. Mas, atualmente, a maioria das crianças estão presas por trás de muros altos nos condomínios onde moram.

Esses muros nos mostram todos os dias as grandes desigualdades sociais em que são colocadas as crianças ricas das pobres, as que têm quase tudo e as que não têm nada. Aquela criança que anda no carro blindado e aquela outra que senta do lado da janela do ônibus cheio para acompanhar com o seu olhar perdido os casarões que as separam do mundo de lá, do mundo onde quase sempre elas são rejeitadas.

Essas crianças desconhecem a realidade do país e vivem as suas vidas do condomínio para escola. Muitas delas não sabem o que é um transporte coletivo ou o que é uma comunidade na periferia. Vivem alheias aos problemas da sociedade.

Não precisam enfrentar filas para serem atendidas em postos de saúde e têm ao seu dispor seguranças e professores altamente qualificados. Tudo sem precisar sair do condomínio.

Será essa uma vida válida para as nossas crianças? O que elas aprenderão por trás dos muros? Será que lhes ensinam a verdade sobre o mundo lá fora onde a fome, a violência e a polícia trocando tiros com bandidos matam crianças dos seus tamanhos todos os dias?

Nos seus pequenos mundos são protegidas por excesso de carinho e cuidado não conseguindo desenvolver formas de proteção e confiança às coisas do outro lado dos muros. Não sabem se defender de pessoas e coisas estranhas e necessitam sempre da opinião dos pais ou responsáveis para praticar uma ação.

Presas dentro de quartos de dormir com janelas para os muros altos elas não conseguem saber o que se passa lá fora, muitas delas nem sabe que existe um mundo lá fora. Tomam um susto quando vêm uma criança suja aparecer na televisão.

Elas não sabem nada da vida que dói e mata milhões de crianças do outro lado do muro de concreto e das câmeras de segurança onde estão protegidas. Também elas não têm culpa. É o excesso de zelo e cuidado dos pais num mundo cheio de violência, e nisso eles têm uma certa razão.

Usei o termo crianças-condomínios para diferenciar das demais crianças que, ao contrário dessas, vivem em casas sem muros e proteção demasiada. Proteger é importante, porém precisamos ter limites quando lidamos com criancinhas, pois essas necessitam conhecer mundos, principalmente, o real.

As crianças-condomínios conhecem apenas o mundo atrás dos muros altos que as protegem. Nos condomínios há normas estipuladas pelos síndicos e por aqueles que não gostam de barulhos de crianças. Nem em suas próprias moradias podem gritar, correr ou pular… as crianças-condomínios não podem ser traquinas ou fazer peraltices.

As normas dos condomínios são rígidas e criança que esperneia aborrecida porque tiraram-lhe o brinquedo pode incomodar o vizinho do lado e os pais logo recebem uma reclamação.

Essas crianças nunca andaram pelas ruas da cidade a sentir o vento bater em seus rostos, olhando as vitrines das padarias, os campinhos de futebol ou o vendedor de picolés da esquina. Elas sequer sabem da existência de um outro mundo além dos muros dos seus condomínios.

Vivemos uma realidade difícil diante das nossas crianças. Ao buscar protegê-las pais e responsáveis acabam podando o melhor que podem oferecer-lhes, ou seja, mostrando a vida como ela verdadeiramente é.

As crianças-condomínios desconhecem a violência urbana, pois andam em carros blindados e na escola não comentam sobre a última vítima inocente da periferia. A superproteção dessas crianças acaba prejudicando as suas vivências e quando se tornam adultas não sabem como caminhar sozinhas.

As crianças-condomínios nunca tiveram o prazer de brincar de gato no pote ou pau de sebo, pois em seus condomínios apenas podem brincar no parquinho ou na quadra poliesportiva.

Há um menino morador de um condomínio que outro dia confundiu um transporte coletivo com um caminhão. Esse mesmo menino a primeira vez que viu um morador de rua pensou que fosse um Lobisomem pela sua barba grande e roupas rasgadas. Esse menino vive num mundo do faz de conta onde tudo parece ser belo e bom.

As crianças-condomínios desconhecem a maldade e, por isso, quando sofrem bullying nas escolas não sabem como se defender. Algumas dessas crianças por não terem espaço adequado para se divertirem brincam com os seus celulares, logo não correm, não pulam, não gritam… tornando-se assim obesos por viverem a maior parte das suas vidas deitadas ou sentadas.

É preciso salvar as crianças-condomínios. Mostrar para elas a realidade do mundo, mesmo que seja dura e difícil.

Levá-las a um passeio na feira ou a uma escola pública da periferia de algum bairro para que assim conheçam e valorizem mais as coisas que têm e sintam de perto como as crianças que com tão pouco são felizes, também.

O mundo é doloroso para quem vive numa redoma e põe os pés fora dela pela primeira vez, nunca se sabe o que acontecerá. As crianças precisam estar preparadas para viverem no conforto de um condomínio ou numa casa simples da periferia do bairro.

Ademais, essas crianças-condomínios não têm quem as ouçam muitas vezes, não têm com quem conversar quando chegam da escola, não têm sequer vontade de brincar com outras crianças. Presas em seus muros, dentro dos seus aconchegantes apartamentos passam o resto do dia assistindo a filmes ou jogando nos seus aparelhos celulares.

Enquanto isso, lá fora depois dos muros no semáforo da esquina há crianças limpando para-brisas de carros para conseguirem dinheiro e ajudar no jantar em casa. As crianças-condomínios não sabem que existem crianças que não estudam, que não têm comida ou roupa limpa.

Algumas crianças-condomínios têm medo de outras crianças das suas idades quando se aproximam delas para pedirem um pedaço de sanduíche ou coisa parecida, porque não sabem como lidar com a situação e foram ensinadas desde cedo a ficarem longe de desconhecidos.

Criamos nossas crianças com medo de que elas enfrentem o cotidiano da cidade grande, e acabamos prejudicando as suas vivências diante da cultura da sociedade, pois elas não foram preparadas para lidar com certas indagações a respeito do mundo real.

As crianças-condomínios vivem das aparências, das sombras, numa espécie de caverna moderna.

E nós, adultos, assustados que estamos com o mundo real esquecemos que as nossas crianças precisam de saberes para o amadurecimento das suas ideias.

Criemos crianças-estrelas para correrem atrás delas diante dos morros das cidades grandes e lutemos por um mundo mais digno para todos.

Antes de escondermos as nossas crianças atrás de muros de concreto com seguranças armados e câmeras espalhadas por todos os corredores e locais deixemos que elas experimentem um pouco do viver perto da natureza, sentindo o mar, os pássaros, as demais crianças e as borboletas conversaram com elas, porque nada é mais bonito e saudável para uma criança do que sujar-se na areia no meio de uma grande algazarra.

Não tenhamos medo de mostrar para elas que o mundo não é igual para todos, infelizmente. Elas vão crescer confiando mais em nós.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

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