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“Eu quero ver sorrisos”

Após dois anos, o projeto Sorriso Voluntário está de volta às atividades, com professores e estudantes da UPF levando alegria a pessoas em tratamento no HSVP

O silêncio tão habitual deu lugar a gargalhadas e brincadeiras. E quem passou pelos corredores do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP) na manhã dessa sexta-feira, 10 de junho, foi recebido com um bom dia inusitado: um grupo vestido de palhaço invadiu o espaço onde predominam os jalecos brancos. O motivo para tanta euforia era especial. Após dois anos “guardados no armário”, os voluntários do Sorriso Voluntário, projeto de extensão da Universidade de Passo Fundo (UPF), estavam de volta.

A palhaça Crisbela é a responsável pelo projeto. Na verdade, por baixo da máscara e da peruca está a professora Dra. Cristiane Barelli, quem conduz, semanalmente, acadêmicos voluntários dos cursos de Medicina e Enfermagem e também de estudantes do Ensino Médio Integrado UPF, pelos corredores do hospital.

O Sorriso Voluntário existe desde 2014, mas nos últimos dois anos foi interrompido pela pandemia. Ficou “escondido dentro do armário com muita tristeza”, como diz a professora. “É um projeto sobre a alegria do cuidar e quando a gente não consegue estar em campo, perde a oportunidade de fazer o bem para o outro e para nós mesmos”, pontua.

Além de fazer o bem para o outro, na perspectiva da formação acadêmica, o projeto é uma grande aula prática. “É muito significante para o estudante passar por esse processo, porque detrás da brincadeira do palhaço, tem uma mensagem. Hoje a gente está levando a importância da higienização das mãos, com uma dança, uma coreografia, então o estudante acaba tendo que desenvolver estratégias lúdicas de se comunicar com o outro”, explica.

Expectativa pela estreia

Nesta retomada de atividades, o projeto visitará os pacientes em hemodiálise e os doadores de sangue no Serviço de Hemoterapia. Todos os voluntários são estreantes. Entre eles está a acadêmica de Medicina Júlia Catharina Henicka. Com seu violão e vestida como a palhaça Canarinha, Julia estava empolgada com a estreia. “Minha expectativa é poder levar um pouco de conforto e de alegria para as pessoas que estão em uma situação tão chata dentro do hospital, por vezes, dolorosa. Então, eu quero ver sorrisos”, conta.

Na opinião da estudante do quarto nível, o papel do Sorriso Voluntário é justamente tornar o processo de cura menos doloroso. “Ninguém gosta de ficar ligado a uma máquina por 4 horas no seu dia ou mais. Então, eu acho que a gente facilita um pouco esse processo, torna menos árduo”, pontua. Mas apesar de voluntário, atuar no projeto tem suas recompensas. Para Júlia, é aprender a se comunicar com os pacientes, habilidade tão importante para um futuro médico. “Acho que esse contato mais íntimo com o ser humano na sua forma mais frágil ajuda a gente a desenvolver essa empatia, essa sensibilidade que precisa ter para lidar com o outro”, completa.

Um dia mais leve

Concretizando a expectativa da Júlia, foram muitos os sorrisos que professora e estudantes encontraram pelo caminho. E não apenas de pacientes. Durante toda a ação, funcionários e visitantes também foram convidados a parar e aprender a coreografia que ensinava a maneira correta de higienizar as mãos.

Natural de Fontoura Xavier, o aposentado Selmo Brunhera foi uma das pessoas tocadas pelo Sorriso Voluntário. Paciente em hemodiálise, ele viaja três vezes por semana a Passo Fundo para realizar o procedimento e fica por mais de 3 horas e meia sentado enquanto o processo acontece. Durante a ação, ele conversou com as voluntárias, sorriu e aliviou um pouco o cansaço da viagem e do tratamento. “Esses momentos ajudam a tornar o dia mais leve”, fala.

E do ponto de vista médico, só existem benefícios. “São pacientes que passam 12 horas semanais aqui envolvidos no tratamento dialítico. Então esses projetos que visam melhorar a qualidade de vida deles, vêm a agregar muito, tornando a rotina deles mais leve, mais divertida, mais alegre. Atendemos quase 200 pacientes em hemodiálise que, muitas vezes, vêm de longe, então, ter essa assessoria não só médica, mas multiprofissional, é essencial”, frisa a médica responsável pelo serviço e também professora da UPF Dra. Fabiana Piovesan.

Fotos: Camila Guedes

Autor: UPF (Universidade de PassoFundo)

Edição: Alexsandro Rosset

O bélico e o lúdico – a primazia do sentimento sobre a razão

Opiniões nos impõem. Sentimentos nos expõem. Opiniões nos destacam. Sentimentos nos nivelam. Opiniões provocam divergência. Sentimentos, convergência.

Alguém, por favor, me ajude a entender a razão de sermos tão atrevidos em emitir opiniões, porém tímidos em externar emoções. Por que é mais fácil expor o que se pensa do que expressar o que se sente?

Preferimos nos esconder atrás de raciocínios aparentemente embasados e tomar nossas decisões depois de calcular os custos, os pros e os contras, relegando os sentimentos a um segundo plano. O que nos importa são os resultados! Queremos sair sempre no lucro, ou pelo menos, ilesos.

Nossas opiniões são armaduras com as quais blindamos o coração. Cada peça desta armadura se articula com as demais, garantindo-nos certa mobilidade. Mas se não forem frequentemente lubrificadas, tendem a se enferrujar, comprometendo nossa flexibilidade, e, consequentemente, nossa performance existencial.

Lubrificamos nossas opiniões com argumentos cada vez mais refinados. Sonhamos ser imbatíveis.

Opiniões nos impõem. Sentimentos nos expõem. Opiniões nos destacam. Sentimentos nos nivelam. Opiniões provocam divergência. Sentimentos, convergência.

Reveste-se de armadura quem sai à vida como quem vai ao campo de batalha para brigar. Despe-se dela quem é capaz de transformar este campo minado num playground onde se desce para brincar. Para tal, teremos que nos abdicar do cinismo que nos contagiou a alma, roubando-nos a esperança. Teremos que recobrar nossa ingenuidade essencial, voltando a apostar na vida.

Argumentos se calarão. Pontos de vista serão relativizados. Substituiremos o olhar bélico da vida por um olhar lúdico. Em vez de tanques de guerra, carrosséis. Em vez de bazucas, gangorras. Em vez de granadas e lança chamas, balanços e pipas. O peso da armadura será substituído pela insustentável leveza do ser. Deixaremos de nos sentir ameaçados, para nos permitir amar e ser amados.

Ninguém tomaria banho vestido numa pesada armadura, não é verdade?

Despir-se dela é expor a intimidade, revelando assim quão frágeis e vulneráveis somos. Quem decidir acolher nosso amor, não o fará por outra razão que não seja aquilo que somos, e não o que pretendemos parecer.

Sob a armadura, a alma se sente sufocada. Lágrimas são contidas. Sorrisos inibidos. Gestos calculados. Palavras sofrem a censura da razão que as considera impronunciáveis. O outro, a quem nossos sentimentos se devotam, é visto como um inferno em potencial. Tememos ser devorados por suas inclementes labaredas.

Nossa alma precisa de ar fresco.

Lágrimas desejam ser extravasadas. Sorrisos largos exibidos despudoradamente. Gestos espontâneos. Palavras livres e sinceras. E assim, somente assim, o outro será visto como a possibilidade do céu. Desejaremos ser consumidos pelas chamas do seu amor, das quais renasceremos todos os dias como uma exuberante fênix que abraça a vida com as asas da liberdade.

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alexsandro Rosset

Sentido da Docência

Vamos apresentar esta lógica como sendo inexorável dizendo ao aluno: “seja o melhor”, “tenha um diferencial competitivo no mundo globalizado”, “garanta o seu”? Ou vamos ter coragem de despertar os educandos para a indispensável mudança que deve ocorrer?

“Estudar para ser isto que você é?” Alguns alunos chegam a indagar: “Professor, eu vou estudar para ser isto que o senhor é?”. Tal declaração funda-se no valor econômico, que é o hegemônico na sociedade hoje.

O professor que baseava o interesse de suas aulas nesta motivação extrínseca de ser alguém na vida está tendo sua segurança abalada, porque cada vez mais os meninos vão percebendo pessoas que não estudam e se saem bem, e, por outro lado, um grande contingente de pessoas que estudam, porém estão desempregadas ou mal remuneradas.

Há uma progressiva queda do mito da ascensão social através da escola, que foi um grande baluarte desde o início da escola burguesa (final do século XVIII, início do XIX): “vá para a escola e seja alguém (no sentido econômico) na vida”. O problema, a nosso ver, não é tanto o aluno fazer tal indagação, mas o professor, diante dela, não saber o que o responder!

Quando o professor tem claro para si a função social de sua atividade, os motivos de sua opção e permanência no magistério, pode revelá-los aos alunos, ajudando-os a ressignificarem sua presença e trajetória na escola.

Considerando aquela provocação do aluno citada acima, os termos da resposta do professor poderiam ser mais ou menos como os que seguem.

Quando você diz ‘estudar para ser isto que eu sou’, deve estar influenciado pelos valores da sociedade de consumo, que colocam o valor econômico como o maior ou único valor, e referindo-se ao meu salário, não é?

Pois é bom distinguir: uma coisa é o que eu ganho (ou aquilo que muitos professores ganham, fruto de uma relação de expropriação a que vêm sendo submetidos, como estratégia de desmonte profissional), que pode não ser suficiente para adquirir os bens que você considera indispensáveis. Outra, muito diferente, é o meu valor: isto não pode ser comparado com o que eu ganho! Estamos juntos há pouco tempo e você ainda não teve oportunidade de me conhecer melhor. Eu estou aqui por opção e não por medo da vida lá fora, por incompetência.

Note bem: o que estou falando é importante porque também na sua vida, num certo momento de sua trajetória, você terá de fazer uma opção profissional, e qual será o seu critério? Escolher a profissão onde se ganha mais? Será esta a melhor opção? Se o meu projeto fosse simplesmente ganhar mais, eu tenho conhecimento e capacidade para conseguir isto sem ser na escola. Não que eu queira ganhar mal; não é isto, tanto é que estou lutando nas instâncias certas para reverter este quadro. O que quero dizer é que estou aqui inteiro, por opção. Eu sei porque estou aqui, e tenho algo muito importante para vocês, que dificilmente encontrarão em outro lugar. Em outro lugar vocês podem encontrar informações, todavia provavelmente não as encontrarão marcadas por sentido, desejo, projeto, perspectiva, criticidade, totalidade, historicidade, tal como eu e meus colegas nos propomos a trabalhar com vocês, a partir da nossa competência e do nosso compromisso.

Não quero impor projeto algum a vocês, mas ajudar cada um a construir o seu. Tenho convicção disto. A escola compra o meu tempo, mas não compra o melhor de mim. O melhor de mim eu dou a quem eu quero. E é isto que quero partilhar com vocês: a busca de um sentido digno para a existência, através do conhecimento, do desenvolvimento humano pleno e da alegria crítica!”

Que sentido tem a vida se não podemos imprimir na realidade nossos sonhos, nossos projetos?

Que sentido pode ter a vida quando há tanto sofrimento, tanta dor, tanta incompreensão, injustiça? (o problema da presença do Mal). Ora, será que um dos sentidos básicos não é justamente nos colocarmos nesta luta por um mundo melhor?

A opção de ser professor passa por uma concepção de vida, de sociedade! O sistema social é altamente excludente, não havendo condições para que todo ser humano tenha uma vida digna.

Já há muitos anos, Josué de Castro denunciava uma tendência cruel que vem se confirmando: passamos a ter dois tipos de pessoas na sociedade: os que não comem porque não têm o que comer, e os que não dormem, de medo dos que não comem! (cf. 2003: 130).

A questão nuclear não está nesta constatação, mas justamente na postura diante dela. Este é o divisor de águas. Vamos apresentar esta lógica como sendo inexorável dizendo ao aluno: “seja o melhor”, “tenha um diferencial competitivo no mundo globalizado”, “garanta o seu”? Ou vamos ter coragem de despertar os educandos para a indispensável mudança que deve ocorrer?

 Eticamente, um novo paradigma se impõe: não se trata mais de estudar simplesmente para poder garantir o seu lugarzinho no bonde da história. Trata-se, isto sim, de estudar a fim de ganhar competência, buscar naturalmente seu espaço, mas se comprometer também em mudar o rumo deste bonde, ou seja, ajudar a construir uma sociedade onde haja lugar para todos!

(Do Texto “Para Não Desistir da Docência)

Autor: Celso Vasconcellos, professor, escritor e palestrante

Conheça: http://www.celsovasconcellos.com.br/

Edição: Alexsandro Rosset

Campina das Missões: imigrantes russos no Rio Grande do Sul

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” (Liev Tolstói,1828-1910)

Resumo: Este artigo resgata informações sobre a colônia de imigrantes russos formada em 1909 em Campina das Missões no Rio Grande do Sul. A vinda de europeus para o Brasil foi incentivada por uma política de imigrações a partir do século XIX e início do XX e apesar de haver ampla bibliografia historiográfica sobre os imigrantes alemães e italianos, o registro da vinda de russos não está nela refletida. Um único livro registra as memórias dos descendentes dos pioneiros em terras rio-grandenses.

Palavras chaves: Rio Grande do Sul; imigração; russos; Campina das Missões;

Introdução:

Ao estudarmos as imigrações que ocorreram para o Rio Grande do Sul a partir da política de imigrações do Império brasileiro no século XIX e mantida na República no século XX, encontramos uma série de teses, livros, artigos acadêmicos, temas de encontros anuais relacionados aos alemães e italianos. Esses, sem dúvida vieram em maior número, porém não foram os únicos que deixaram sua cultura viva e até hoje presente nas terras gaúchas. Os russos deixaram suas marcas, principalmente na região noroeste do estado e, seus descendentes através da memória, do folclore, da língua, da religião, alimentação, de alguns costumes e mesmo da cultura material em construções e objetos mantém uma conexão direta com as suas origens russas.

Nesse artigo fazemos um breve relato da relação entre Brasil e Rússia e, a partir do livro e entrevistas de Jacinto Anatólio Jabolotsky[1] e outros descendentes dos primeiros imigrantes, construímos uma narrativa da presença russa em Campina das Missões.

Os russos e o Brasil:  

O primeiro contato entre russos e brasileiros até agora reconhecido ocorreu em 1803. Os navios russos Nadejda e Neva faziam uma expedição de volta ao mundo, quando atracaram em alguns portos do Brasil. Langsdorff, um alemão naturalizado russo, era um dos vários cientistas que participavam da expedição, comandada por Ivan Fiodorovitch Kruzensternos.

Em 1813, após uma estada em Portugal, onde aprendeu a língua portuguesa, o então Barão Langsdorff mudou-se para o Rio de Janeiro, assumindo o Consulado Geral da Rússia no Brasil. Em 1816, comprou uma fazenda e passou a receber cientistas, naturalistas e artistas interessados em conhecer o país. Ele organizou diversas expedições, que além de explorar a flora e fauna, dedicaram-se a pesquisar a etnografia e os idiomas das tribos brasileiras. A grande expedição Langsdorff  a “Terra Brasilis” durou de 1818 a 1822, percorreu cerca de quinze mil quilômetros e foi custeada pelo czar Alexandre I da Rússia, que almejava estender os conhecimentos científicos assim como faziam as outras potências européias. O barão reuniu cerca de trinta e nove pessoas para esse grande evento e entre eles estavam os pintores Johann Moritz Rugendas e Aimé-Adrien Taunay que deixaram inúmeras obras ilustrando a natureza e o povo brasileiro. [2]

Em 1828, em carta oficial a D. Pedro I, a Rússia reconhecia oficialmente a Independência do Brasil e a partir dai iniciou-se um comércio entre os dois países. Nesse primeiro momento, o Brasil enviava açúcar, café, cacau e madeiras e recebia principalmente ligas de ferro.

Durante o século XIX o governo imperial brasileiro estimulou a vinda de europeus para o país. Uma política de imigração foi estabelecida e a historiografia associa a ela várias causas, sendo as principais: a necessidade de substituição da mão de obra escrava, conforme o processo de emancipação encaminhava-se ao fim; para ocupação de áreas consideradas “vazias”, fortalecendo áreas de fronteira; para criar uma classe média na estrutura social brasileira, capaz de desenvolver a policultura e abastecer cidades em expansão[3] e as grandes áreas de monocultura exportadora, como o Vale da Paraíba, produtor de café.

Além disso, na formação do “povo brasileiro”, em paralelo a construção do Estado Nacional, havia um grande debate sobre estimular a miscigenação ou o branqueamento do povo, que culminou com a escolha da segunda opção. Uma política/programa foi criada que contava com agentes no exterior responsáveis por fazer propaganda sobre o Brasil, recrutar e transportar europeus até as colônias que passaram a ser estabelecidas. 

Durante aquele século (XIX), os imigrantes chegaram ao Brasil, principalmente em função da promessa de posse de terras. A Europa passava por uma grande crise econômica, países em unificação, como a Alemanha e a Itália, países em conflito: como a Polônia, ora sob domínio da Prússia, ora sob domínio da Rússia, além do grande processo de industrialização, que automatizava processos e fazia crescer a mão de obra sem trabalho e também sem terra.

Ainda durante o Império, em 1876, D. Pedro II visitou a Rússia, em caráter não oficial, conta-nos o historiador Ângelo Segrillo (SEGRILLO, 2015, p.259). O imperador foi recebido pelo czar Alexandre II e também pela Academia de Ciências da Rússia. Entre as curiosidades a respeito do monarca brasileiro é notório seu interesse pelas ciências, era também poliglota e o russo era uma das línguas que conhecia.

Após a proclamação da República em 1889, “o governo brasileiro comprometeu-se a continuar a custear as despesas de viagem dos imigrantes desde o embarque nos portos europeus até o desembarque no Brasil” [4]. Houve momentos de imigração subsidiada e também momentos de imigração espontânea.

Segundo Fernando Lázaro de Barros Basto vieram mais de 300.000 russos para Brasil entre 1871 e 1968.[5] Em reportagem de 2017, na celebração dos cem anos da Revolução Russa de 1917, a BBC Brasil apontava um milhão e oitocentos mil descendentes russos no Brasil![6]  Já Segrillo indica que “calcula-se que cerca de 200 mil russos ou descendentes diretos de russos vivam no Brasil atualmente” (SEGRILLO, 2015, p.266).

Segrillo estabelece a imigração em quatro ondas: a primeira logo após a revolução de 1905, onde localizamos a vinda dos agricultores que estavam na Sibéria e que chegaram a Campina das Missões no Rio Grande do Sul, foco do artigo; a segunda, pós revolução de 1917, onde vieram os chamados russos brancos (contrários aos comunistas vermelhos), o autor aponta mais de 100.000 russos chegando especialmente em São Paulo; a terceira, que trouxe russos que estavam espalhados pelo mundo após a Segunda Guerra Mundial, incluindo o grupo que estava na China e que fugiu da Revolução Comunista Chinesa de 1949 e; a quarta após a desintegração da URSS em 1991, que escaparam da crise econômica na recém-criada Federação Russa (SEGRILLO, 2015,p.262-265).

As mudanças dos sistemas de governo, tanto no Brasil como na Rússia, interferiram no relacionamento de ambos os países durante suas histórias. Primeiro o Brasil virou uma república, enquanto a Rússia czarista ainda defendia sua monarquia. A partir de 1917, após a implantação do comunismo na Rússia, as relações estiveram rompidas. Na Segunda Guerra Mundial restabeleceu-se a conexão através de ambos os países no grupo de aliados contra a Alemanha nazista. Em 1947, o Brasil voltou a romper com o governo russo, na chamada Guerra Fria e houve perseguição aos comunistas no Brasil. Quando João Goulart assumiu em 1961, as relações são retomadas e não mais rompidas. Segrillo aponta que mesmo durante a ditadura militar houve uma ampliação nas relações comerciais.

Vários presidentes brasileiros visitaram a Rússia desde então: José Sarney, Fernando Henrique Cardoso, Lula (quatro vezes), enquanto o presidente russo Putin retribuiu a visita de FHC em 2004 e Medvedev esteve no Brasil em 2008 e 2010.

Em 1997, Fernando Henrique Cardoso e Boris Yeltsin criaram a Comissão Brasileira-Russa de Alto Nível de Cooperação (CAN), presidida pelo vice-presidente brasileiro e o primeiro ministro russo. A partir dela, vários acordos foram firmados, projetos implantados em conjunto e, principalmente, o comércio entre os dois países deu um salto de bilhões de dólares. (SEGRILLO, 2015, p.260).

Um marco na área cultural foi à abertura de uma filial do Balé Bolshoi em Joinville, Santa Catarina em 2000. Um projeto de inclusão social, onde praticamente todos os alunos estudam de graça, em um turno inverso à escola. (SEGRILLO, 2015, p. 262).

Imigrantes russos no Rio Grande do Sul: Campina das Missões

No Rio Grande do Sul, os primeiros russos chegaram em 1909. Eram famílias de colonos que estavam na Sibéria em busca de terras para cultivar, oriundos de várias regiões da Rússia, sendo que alguns também fugiam de conflitos a partir da Revolução de 1905.[7] Segundo o IBGE, quase 20.000 russos entraram no Estado até 1912. Assim como a maioria dos imigrantes que chegaram ao Brasil, eles vinham atrás da “terra prometida”, abundante e com solo fértil. Não encontraram mais o gelo, como na Sibéria, mas densa vegetação, coberta por cobras, escorpiões e aranhas e outros diferentes animais. Além disso, passaram a conviver com os charruas, o que causou estranhamento inicialmente, mas aparentemente de forma pacífica.[8]

Os imigrantes localizaram-se inicialmente na Região de Santo Ângelo, Santa Rosa e Campina das Missões, que era parte do município de Santa Rosa até 1963. A viagem durava cerca de três meses em navio. Em 1909, eles desembarcaram ou no porto em Santos ou no Rio de Janeiro, de lá seguiram de trem até Cruz Alta, estação mais próxima a Campina das Missões, depois seguiram de carroça até a colônia. [9]

Jacinto Zabolotsky, advogado e político de Campina das Missões, publicou o livro “A imigração russa no Rio Grande do Sul” em 1998. Esse é o único livro até o momento, que trata do tema, já foi reeditado quatro vezes e encontra-se esgotado, sendo que em 2009 a edição foi escrita também em russo, no centenário da imigração ao estado. A data comemorativa da imigração é dia nove de outubro e o governo do estado do Rio Grande do Sul estabeleceu essa data como o Dia da Etnia Russa no Estado.[10]

Na narrativa desse autor podemos identificar as dificuldades dos recém chegados para preparar a terra. Desmatar a densa área coberta por pés de cedro, louro, angico e canela pareceu um trabalho demasiado pesado para alguns. Os que tinham melhores condições financeiras voltaram à Rússia, ou seguiram até a Argentina. Entre os que ficaram, trabalhando sobre o calor intenso e o ataque de mosquitos, logo após a primeira colheita, enfrentaram mais um problema. O trigo que haviam guardado em rolos apodreceu com um ataque de carunchos e formigas. Eles passaram muito trabalho até se adaptarem.

Uma das características que distinguia as famílias russas dos outros imigrantes no Rio Grande do Sul era que as mulheres também faziam os serviços do campo, participando tanto da semeadura como da colheita, não se restringiam ao serviço de casa. Uma das descendentes da família Orizenko[11] conta que sua mãe explicava que as mulheres russas eram tão mandonas e voluntariosas pelo fato de terem que cuidar da casa e da lavoura, enquanto os homens estavam na guerra.

As mulheres são homenageadas em um dos artesanatos mais tradicionais da Rússia, as matrioshkas. “Essas bonecas representam a fertilidade da mulher do campo e também a permanência da cultura ao longo das diferentes gerações” conta Zabolotsky.

Os primeiros imigrantes pertenciam a Igreja Católica Ortodoxa Russa e uma das primeiras construções que ergueram foi o prédio da igreja. Ela está localizada na Linha Paca em Campina das Missões, a cerca de cinco quilômetros de onde hoje está o centro da cidade e foi fundada em 1912. Esta é a primeira Igreja Ortodoxa Russa do Brasil[12]. O patrono da igreja é o apóstolo São João Evangelista, que dá o nome a mesma.

Alguns costumes ainda são seguidos nos ritos da Igreja: o padre reza de costas para o público, que se divide em mulheres de um lado e homens de outro; a liturgia é em russo e as mulheres seguem usando lenços cobrindo os cabelos para não serem vistos pelos homens. Em frente à Igreja há um cemitério das famílias ortodoxas, onde a tumba mais antiga é de 1913, mais de 500 imigrantes estão enterrados lá. No local também se pode encontrar uma cruz ortodoxa de madeira, resistindo ao tempo desde a década de 1920. A cruz ortodoxa possui duas travessas horizontais e uma travessa na diagonal, próxima a base, as travessas horizontais lembram as da cruz missioneira.

Campina das Missões é o local de maior concentração dos descendentes de russo no estado do Rio Grande do Sul. Logo após os russos, chegaram imigrantes alemães ao local.

Atualmente, vinte por cento da população da cidade são descendentes de russos. Zabolotsky é um dos que tentam manter as tradições e costumes da Rússia. Ele comenta que os jovens já estão perdendo o idioma, mas a religião ainda é um ponto forte de conexão. O alfabeto cirílico que era ensinado nas escolas nas primeiras décadas da colonização é praticamente desconhecido dos campinenses hoje em dia.

Na casa de Zabolotsky, a televisão fica ligada em canais russos e a cozinha, apesar da mulher ser descendente de alemães, mantém pratos da culinária russa, tais como o blini, massa recheada similar a panqueca e o kotlete, um bolinho de carne. Ele também coleciona o samovar, utensílio tradicional utilizado para aquecer água e servir chá. Outra forma de manter as tradições se dá através do grupo de dança Troyka. Fundado em 1992, apresenta danças folclóricas com indumentária especialmente desenhada para reproduzir os trajes típicos russos, complementada por adereços e bijuterias importadas. O grupo já exibiu suas raízes por todas as regiões do país, além da Argentina e Paraguai.

A vodka, tradicional bebida da Rússia, também chegou a Campina das Missões. Os avôs de Marta Zabolotsky trouxeram um alambique de cobre, adquirido em 1894, junto na viagem ao Brasil. Marta herdou o alambique e fabricou a bebida até 2002. Na Rússia utilizavam beterraba ou batata para produzi-la, aqui os avôs substituíram esses insumos por cana de açúcar. (Castro, 2009).

Com pouco mais de 6000 habitantes, Campina das Missões tem um monumento na praça principal dedicada a São Vladimir, que batizou a Rússia. Ao lado de São Vladimir está o busto de Alexandre Zabezuk, mártir dos imigrantes. Zabezuk era um professor que foi arrancado da sala de aula e torturado até a morte pela polícia do governador Borges de Medeiros, em 1924, acusado de ser comunista.

Outros dois momentos de tensão que ocorreram na comunidade foram referentes à Segunda Guerra Mundial e a ditadura civil militar de 1964. Até a segunda guerra, colonos alemães e russos conviviam bem na região. Uma das descendentes lembra-se da chegada de novos moradores que começaram a difundir uma ideologia “macabra” na cidade, era o nazismo. Casamentos que eram comuns entre os imigrantes começaram a rarear, conta Ana Heleno Lins(LUCCHESE,2018,p.21).

Um padre alemão, que gostava de Hitler, passou a divulgar suas ideias. Ana é a outra pessoa, ainda viva, descendente dos primeiros imigrantes. Mesmo com a segregação e o purismo das raças pregado na época, Ana casou-se com um alemão, assim como Zabolotsky casou-se com uma alemã.

Quanto ao período do golpe militar de 1964, lembrado por Nina Orizenko, foi um momento de perseguição aos comunistas. Ela recorda dos parentes enterrando relíquias deixadas por pais e avós, assim como interrompendo a comunicação por cartas com a então União Soviética. Eles tentavam esconder qualquer ligação que pudesse ser interpretada como conexão com os comunistas. 

O pórtico da cidade tem a escultura de uma família de imigrantes. “A mulher carrega um feixe de trigo, a filha traz uma porção de girassóis, símbolo da pátria que deixaram, e o homem fita o horizonte com uma enxada nos ombros” (LUCCHESE, 2018,p.18), símbolo dos primeiros colonos, os pioneiros.

A título de conclusão

Campina das Missões durante os últimos meses tem sido o foco das atenções, justamente por ser o berço dos imigrantes russos no Brasil e por manter costumes e tradições do povo e da cultura russa.

Ao pesquisar sobre a imigração russa ao Brasil e, em especial ao Rio Grande do Sul, nota-se que há uma grande oportunidade de se estudar e aprofundar mais sobre esse tema, a bibliografia aponta uma produção acadêmica escassa, praticamente inexistente.

Assim como várias etnias indígenas, suas culturas e memórias ficaram invisíveis nos livros e artigos de história e só recentemente vem sendo resgatadas, há espaço para novos estudos nas imigrações e em especial a imigração russa, pois ela tem representatividade nos descendentes dos pioneiros que aqui chegaram e que, apesar de abraçar a nova terra, seguem com laços na cultura de seus ancestrais.

Lembrando Hanna Arendt[13]: “não devemos relegar a herança de nossos antepassados ao jovem, devemos mantê-la e deixar que eles a utilizem com suas novas ideias de forma a transformar o mundo”. As “pérolas do passado”, fragmentos do mundo precisam ser preservados e através da educação temos como manter o legado cultural vivo.

Leia também entrevista, de 2018, com casal de brasileiros que vive, no cotidiano de suas vidas, a história, a cultura e a religiosidade no Brasil, mas com um pezinho na Rússia:  o advogado Jacinto Anatólio Zabolotsky e a professora Ilse Ana Perius Zabolotsky. Leia mais: https://www.neipies.com/uma-russia-num-quintal-do-brasil/

Sobre o texto:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul

LET02080 – Cultura Russa

Professora: Tanira Castro

Semestre: 2018/1 – Turma U

Autora/Aluna: Rosângela Corrêa Alves

FOTOS: Capa da matéria-cidade Campina das Missões/Cemitério Comunidade Russa/Igreja Ortodoxa Campina das Missões/Portico Imigrantes Russos: Luis Frey / Agencia RBS

[1] ZABOLOTSKY, Jacinto Anatólio. A imigração russa no Rio Grande do Sul: “os longos caminhos da esperança”, 1998.

[2] Resumo das informações de CÂNDIDO, Luciana de Fátima. Expedição Langsdorff: a [re] construção do conhecimento através dos relatos de viagens. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Luciana Cândido é graduada em Letras (português/alemão) pela USP. Acesso ao site em 08/06/2018 as 14:20 hs: https://www.bbm.usp.br/node/80 . Informações sobre esse primeiro contato também podem ser encontradas em SEGRILLO, Ângelo. Os russos. São Paulo: Contexto, 2015.

[3] Oberacker Jr APUD CUNHA, Jorge Luiz da. Imigração e colonização alemã in República Velha 1889-1930. Tomo 1. Passo Fundo: Méritos Editora, 2007. p.279-300

[4] WENCZENOVICZ, Thaís Janaína. A Imigração Polonesa in República Velha 1889-1930. Tomo 1. Passo Fundo: Méritos Editora, 2007.

[5] Russians brazilian. Wikipédia. Referência ao livro: Síntese da história da imigração no Brasil (1970) de Fernando Bastos citado no site acessado em 25/05/2018 às 16:30 hs: https://en.wikipedia.org/wiki/Russian_Brazilians.  

[6] BERNARDO, André. Os russos que vieram para o Brasil fugindo da revolução comunista de 1917, reportagem da BBC Brasil de 07 de novembro de 2017. Esse dado apresenta muito contraste com outros e o autor não comenta as fontes utilizadas para chegar a este número tão expressivo de descendentes. Necessita maior validação, mas está publicado na BBC Brasil. Já Ângelo Segrillo, que é historiador e professor na USP, aponta 200 mil russos no Brasil, mas também não indica a fonte desse dado.

[7] LUCCHESE, Alexandre. Os russos do Rio Grande, reportagem de Zero Hora, sábado e domingo, 12 e 13 de maio de 2018.

[8] Nota da autora: Carece de maiores estudos sobre esse contato.

[9] DORNELES, Felipe. Reportagem do Correio do Povo de 20/07/2009 com informações de Zabolotsky.

[10] DORNELES no Correio do Povo de 20/07/2009.

[11] LUCCHESE, depoimentos de Nina Orizenko e Maria Orizenko, 2018, p. 19.

[12] Esse é uma das poucas referências que Segrillo também faz a imigração no Rio Grande do Sul(p.265). Quando indica as regiões do Brasil que receberam russos nesse primeiro período, logo após a revolução Russa de 1905, ele restringe-se a indicar Paraná, Goiás e Mato Grosso

[13] ARENDT, Hannah. A Crise na Educação in ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2011.

Edição: Alexsandro Rosset

A criança que sente fome não consegue aprender

Muitas vezes, as crianças precisam daquela comida que a escola lhes oferece. Os estudos ficam em segundo plano. A fome não nos deixa pensar em outra coisa senão em comida.

O Brasil tem 33 milhões de pessoas no mapa da fome no dia de hoje e só crescem os números. Dessas pessoas, milhões são crianças que não têm o que comer ou comem mal. Muitas delas vêem na escola uma forma de receber alimento e é lá onde conseguem encher a barriga para sobreviverem.

Mas, sei que apenas uma refeição para cada criança na escola ainda é pouco, pois no início da aula ela não conseguirá absorver quase nada com a sua barriga vazia, e só depois de se alimentar se sentirá pronta para o ensino-aprendizagem, no entanto quando chega a hora de ir para casa creio que deveria ser servida outra alimentação para que esta criança pudesse chegar em casa alimentada e com disposição para fazer as suas tarefas de casa, brincar e se divertir como faz toda criança e é direito seu.

Eu já senti fome. E sei do que falo. Na minha infância senti vontade de comer e não tinha nada em casa. Nada mesmo. Quando falo de fome não é teoria, mas a experiência de quem teve que ir às ruas à procura de comida como qualquer criança pobre brasileira. E foi uma experiência tão marcante e dolorosa que hoje tenho medo de ficar sem comida na minha geladeira.

A dor da fome vai matando aos poucos.

A barriga vazia, a dor de cabeça e a fraqueza no corpo. Senti fome não porque moro no Nordeste e devido a falta de água. Senti fome porque tive um pai irresponsável que largou quatro filhos com uma mulher doente e que não podia mais trabalhar para dar de comida às suas crianças. Se procurarmos famílias assim pelo nosso país encontraremos aos montes.

Há crianças com mães solos, crianças com pais alcóolicas, crianças que vivem sozinhas pelas ruas e nunca experimentaram um bolo de chocolate ou um sanduíche. Catam comida nas latas de lixo dos restaurantes e das padarias. Pedem comida às pessoas de casa em casa. E o que é pior trabalham para comprarem um pão para comerem ou pregam os rostos nas vitrines das docerias para sentirem o cheiro que vem lá de dentro como se esse cheiro pudesse matar as suas fomes.

Quando senti fome tive que trabalhar como faz a maioria das crianças brasileiras. Não larguei a escola porque lá eu tinha a merenda garantida. Vi a minha mãe chorar ao colocar os pratos na mesa com uma sopa feita de água e cheiro verde pra gente comer num fogão à lenha porque sequer o carvão ela podia comprar.

A fome é o pior mal que pode acontecer a uma criança. Ela não sabe dizer o que sente, ela não quer brincar, ela se sente fraca e sem forças para andar pelas ruas. As suas costelas vão aparecendo aos poucos, começa a desnutrir-se e acaba morrendo de fome. É triste ver alguém morrer de fome, porém é o que estamos vendo acontecer no nosso país todos os dias.

Os ricos cada vez mais ricos, o ódio aumenta cada vez mais, as desigualdades sociais, o medo, a inocência, a estupidez e a opressão aos negros tudo isso tem desencadeado um processo de transformação na cultura e qualidade de vida dos brasileiros que moram em periferias. O desemprego, a criminalidade, a violência, a ignorância têm levado às pessoas para o fundo do poço, para procurarem ossos nos carros de lixo ou nas caçambas de ferro onde alguns açougues costumam jogar os seus restos.

Parece que não estamos mais preocupados com a vida dos nossos irmãos pobres. Pensamos somente em nós. Talvez por estarmos vivendo uma situação parecida com a inflação cada vez maior e o aumento dos preços da cesta básica todos os dias, o corte de alguns alimentos que antes tínhamos nas nossas mesas e agora não podemos mais comprar. Os alimentos mais básicos têm aumentado bastante nos últimos tempos.

Eu me lembro bem que até seis meses passados comprava um pão por dez centavos, hoje um pão na minha cidade custa cinquenta centavos. O preço do tomate, da cenoura, do feijão e da carne subiram muito nos últimos tempos. E quando podemos comprar algum desses alimentos nos falta o dinheiro do gás de cozinha.

A criança que sente fome não dorme direito, tem pesadelos, faz xixi na cama e não consegue aprender como deveria.

Ela tem os olhos fundos e a cabeça é desproporcional ao seu corpo. Tem delas que com três ou quatro anos de idade nunca viu um prato de feijão, não sabe o que é um pedaço de bife de carne. É doloroso. É revoltante. Isso não deveria ser mais permitido acontecer.

Eu sofri na minha infância com a fome. Eu chorei com a fome. Devia existir uma lei internacional para que nenhuma criança sentisse fome em nenhum lugar do mundo porque é muito sofrimento. Como não sabemos direito ainda o que é a morte a gente fica esperando que caia do céu algo para comermos. Que apareça alguém que nos dê uma fruta ou um pedaço de pão para nos alimentarmos. A gente não deseja nada porque não temos forças para desejar. Ficamos quietos ali sentados no chão à espera de que algo nos aconteça sem saber o que exatamente.

Nove crianças morrem a cada minuto devido à falta de nutrientes essenciais em suas dietas.

O cenário continuará o mesmo a menos que a ajuda alimentar chegue a quem precisa. Quando crianças sofrem de desnutrição grave, seus sistemas imunológicos ficam tão debilitados que se amplia imensamente o risco de morte. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a desnutrição é a maior ameaça ao sistema de saúde público mundial, com 178 milhões de crianças desnutridas no mundo.

Morrem milhões de crianças desnutridas no mundo e essa desnutrição ocorre por falta de alimentos básicos ao pequeno corpo. Na minha casa a gente tinha uma geladeira com garrafas de água dentro, mas quando a mamãe não pôde mais pagar a conta de luz a gente ficou somente com a geladeira para olharmos para dentro dela na esperança de que um dia ela estaria cheia de novo.

Sempre fui defensora de três merendas escolares.

Uma na entrada outra na metade da aula e uma última no fim da aula porque sei que tem criança que vai à escola somente comer. Ela precisa daquela comida que a escola oferece. Os estudos ficam em segundo plano. A fome não nos deixa pensar em outra coisa senão em comida. Eu mantinha meus olhos fechados quando sentia o cheiro da comida que vinha da casa da vizinha e se senti alegria um dia nesta vida foi quando mamãe ganhou um caldeirão de feijão preto para que comêssemos no almoço. Os meus irmãos neste dia pegaram caranguejos no mangue que tem perto da minha casa até hoje e venderam alguns na feira. Com o dinheiro mamãe comprou feijão e arroz e podemos depois de dez meses ter uma refeição sadia.

A minha história com a fome foi de lutas e de vontade de que o tempo da infância passasse rapidamente para eu poder crescer e ajudar a minha mãe e os meus irmãos financeiramente. Com onze anos comecei a trabalhar vendendo vestidos de bonecas para as minhas amigas. O que ganhava trazia para casa. Era pouco, mas já dava para ajudar a comprar o pão. Uma vizinha amiga e pessoa de bom coração nos cedeu água potável para tomarmos banho, fazer a comida e bebermos.

Eu tinha um cajueiro no quintal da minha casa que era quem matava a minha fome. Eu chupava os seus cajus, mamãe fazia sopa de caju para a gente e comíamos ele cozido. Era uma delícia as várias receitas que mamãe inventava. Foi o meu cajueiro que matou a minha fome na infância. A gente também criava bichinhos que foram todos sendo mortos para que pudéssemos comer. Quando acabou tudo e já não tínhamos mais nada para comermos começamos a chorar de fome e deixamos mamãe desesperada.

A miséria caminha lado a lado com a fome no Brasil.

Uma em cada três crianças está com anemia no Brasil neste momento. Muitas mães para salvarem os seus filhos da fome infelizmente as deixam sob a guarda de outras pessoas, dos companheiros dos quais estão separados faz algum tempo, dos avós ou dos familiares que possam dar um prato de comida para eles. Algumas crianças são largadas nas ruas e sobrevivem sob os cuidados de outras pessoas em situação de rua que têm amor por elas e não as deixam sentirem tanta fome.

Em 2014 o Brasil era apontado pelas Nações Unidas como um país exemplar para os demais e ficamos fora do mapa da fome.  O tempo passou, as coisas mudaram e hoje os governantes não conseguem mudar o cenário político-econômico-financeiro que se estabeleceu no país. A inflação está alta, os empregos formais deixaram de existir, o preço da cesta básica cresceu assustadoramente e o salário-mínimo não acompanha as necessidades básicas da vida de um pai de família.

Mesmo com os auxílios oferecidos pelo governo federal, depois da pandemia do Coronavírus, ainda assim a fome só tem aumentado no nosso país. O problema está cada vez mais complicado.

É triste ver uma mãe entregar os seus filhos a desconhecidos para que eles não morram de fome.

O mais triste é vermos crianças desesperadas, com as mãos para cima ou estendidas pedindo um pedaço de pão ou um prato de feijão nas grandes cidades brasileiras. Tivemos uma redução de crianças que mendigavam de porta em porta em anos anteriores, mas já é possível vê-las novamente pedindo comida e carregando sacos nas costas pelas ruas das cidades onde as pessoas ainda abrem as portas das suas casas para atenderem um chamado ou um bater de palmas.

Não estou criticando aqui ninguém, mas alguém é responsável por toda essa fome e desigualdade social que vem ocorrendo no Brasil. Alguém que pode fazer alguma coisa por essas crianças e pelas famílias pobres moradoras de periferias deve descer do palanque das eleições e salvá-las antes que a fome as mate covardemente. É preciso logo que façamos alguma coisa ou teremos uma nova pandemia no país dessa vez de fome generalizada porque até as pessoas de classe média estão cortando os seus orçamentos imagine as que vivem de empregos informais e mal ganham para se alimentarem.

Atualmente, a cesta básica consome 65% do salário-mínimo, conforme o Dieese. Porém, 18,8 milhões de crianças com menos de 14 anos vivem em lares com renda per capita inferior a meio salário-mínimo, mostra a PNAD de 2019, e isso tem crescido muito nos últimos 03 anos. São dados que podem ser considerados desatualizados, é só para termos uma ideia da gravidade do problema.

Como se diz a frase “quem tem fome tem pressa”.

Não deixemos para dar um pão a uma criança amanhã se podemos ajudá-la a matar a sua fome hoje. Amanhã talvez seja tarde demais. Não deixemos de ajudar as crianças do nosso país preocupadas com crianças de outros continentes mais pobres, porque a fome é uma só. Ajudemos a quem pudermos. Do jeito que pudermos. A fome mata. A fome é uma coisa triste.

Creio que o poema de Manuel Bandeira nunca foi tão necessário à nossa leitura o quanto os dias de hoje onde ele nos diz

“Vi ontem um bicho / Na imundície do pátio / Catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / Não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / Não era um gato, / Não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um homem.”

E para que não vejamos mais nenhum homem catando comida em latas de lixo ou caçambas de caminhões à procura de ossos façamos a nossa parte doando um pouco do que temos para quem sente fome. Porque o homem com fome pode se transformar num bicho selvagem à procura de comida e atacar outro bicho homem atrás de comida.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

A fome

A fome não está só nos que morreram/ e nem apenas nos que não comeram/A Fome também está nos que foram enganados:/ nos que pensam que sobreviveram.

A Fome é um menino magro

de barriga inchada.

Tem pernas finas como dois gravetos

insistentes e tímidos

que teimam sustentar a carne

Viajada, a Fome Faminta,

mora por toda a parte

mas passa férias no Biafra.

E é de lá que envia postais

sem nenhuma arte

para a National Geographic.

A Fome

é uma senhora gorda

e cheia de plásticas.

Tem os braços enroscados

em argolas caras

e um pescoço duro

de colares de diamantes raros.

Ávida e sempre azeda,

traída por flatulências,

esta Senhora coleciona todos os tipos de bolsas

mas prefere as de valores.

A Fome é linda

quando aparece no Cinema

e essa beleza mata

(enquanto ganha um Oscar)

Com os olhos inflados de glórias

e distribuindo autógrafos

ela, a Fome, escreve suas memórias.

A Fome é farta

nas longas mesas de banquetes

onde se pede que a precedam,

em doses miúdas e bem educadas,

por aperitivos e canapés.

Ela, a Fome Cerimonial,

está em cada um dos cem convidados

e em cada um dos milhares de garfos

eternamente ausentes

de todos os deserdados

A Fome cutuca os ricos

duas ou três vezes por dia

mas no Pobre gruda

como um carrapato

Paradoxal, a fome também está

em uma estranha epidemia americana:

a Gordura

Ela grita de obesidade

pelos poros dos que dominaram o mundo

A Fome está no açúcar que foi queimado

e naquele que já não foi.

Viscosa, ela escorre pelo ralo

para atender ao Mercado.

Lá vai ela, sorrateira,

entre caixas de tomates não comidos,

sob a triste forma de leite derramado

Traiçoeira, a Fome é vingativa.

Está nas prostitutas que venderam seus corpos

para terem o que comer;

mas é Ela, somente Ela

a Grande Prostituta

anunciada pelos profetas que morreram

em longas greves de fomes

A Fome é indecente,

mas se veste bem.

Como o Diabo, veste Prada

e como um duende se esconde

no caroço de uma empada.

A Fome é alta costura:

perfeita para poucos,

mas pesando sobre muitos outros,

ela rebola de bunda murcha

e finge estar na moda.

Lá vai ela, a Fome

rolando pelas estradas

espiando pelas viseiras

seletiva nos seus destinos

Ela vive, quando se diz

que há muito já se acabou

(e até sorri com isto)

A Fome, covarde e cínica,

esconde-se nas estatísticas

manipuladas

e arranha teus rins e tuas entranhas

através de complicados cálculos

matemáticos.

A Fome está (ou estava)

nas oito pessoas que dela morreram

quando tu lias este poema

Não há como escapar da Fome:

ela está na miséria e na opulência

Escapa-se, sim, através da Morte

quando ela se torna mais um número

no Ministério do Planejamento

Mas a fome não está só nos que morreram

e nem apenas nos que não comeram

A Fome também está nos que foram enganados:

nos que pensam que sobreviveram.

Assista esta poesia em vídeo: https://youtu.be/H0kTNoSxARA?t=95

NOTA: Pesquisa divulgada nesta quarta-feira (8/6/2022) revela que 33 milhões de pessoas estão passando fome no Brasil. Em pouco mais de um ano, foram 14 milhões de brasileiros que entraram para o mapa da fome. O levantamento, realizado pelo instituto Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), mostra, ainda, que 58,7% da população vivem com insegurança alimentar. A situação atual é equivalente ao patamar da década de 1990. Leia mais: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/brasil/2022/06/33-milhoes-de-pessoas-passam-fome-no-brasil-aponta-pesquisa.html

FONTE: file:///C:/Users/VAIO/Downloads/POESIA%20FOME.pdf

Autor: José D’Assunção Barros, professor e poeta

Edição: Alexsandro Rosset

Em tramas e claro

Um poema aos enamorados!

Para mim, do sol és lenha

e desfibras minha alma como ao linho.

Entre mim e ti, tear tecendo,

teia natural como um sorriso,

luz no abrir de bocas.

No varal, toalha de auroras, o amor se quara.

Ao ir-se a tarde,

a ternura trama pães pra ceia.

Sente-se e fique.

Um pátio à porta,

de azul luminescente.

Em luz e linho, o amor,

quarando-se na tarde

desfia e tece

outro sol nascente.

Autor: Pablo Morenno

Edição: Alexsandro Rosset

Filosofia para enfrentar os medos

O pensamento racional filosófico, cuidadoso, abrangente e crítico nos ajuda a enfrentar o medo e construir espaços de socialização condizentes com uma vida saudável e de qualidade.

 

O medo é uma das emoções ou um dos sentimentos primordiais do ser humano. Desde as origens da espécie humana, o medo tem sido uma das reações fundamentais para viver e conviver. Os estudiosos mostram que o medo está na raiz das grandes motivações humanas. Os mitos, as religiões, as ciências, as filosofias, as diversas culturas, enfim todas as criações e realizações humanas não deixam de ser uma forma antropológica de reagir e enfrentar os medos da existência.

Biologicamente, o medo constitui uma reação natural de preservação da vida. Sem o dispositivo do medo estaríamos expostos ao perigo constante. A ausência do medo faz com que não tenhamos a noção de perigo e com isso estaríamos expostos à condição de risco.

No entanto, o excesso de medo e o medo constante pode nos paralisar, causar patologias incuráveis. As diversas fobias que fazem parte dos estudos da psicologia e das ciências da mente são evidências que mostram o quanto o medo pode se tornar destrutivo na condução da vida e atrapalhar a construção de uma personalidade saudável.

A sociedade brasileira de inteligência emocional (SBIE) divulgou recentemente um estudo que indica os 12 principais tipos de medo (fobias). São eles: acrofobia (medo de altura), agorafobia (medo de espaços abertos ou de multidões), aracnofobia (medo de aranhas), catastrofobia (medo de catástrofes ambientais), claustrofobia (medo de lugares fechados), fobia social (medo de pessoas), glossofobia (medo de falar em público), hematofobia (medo de sangue, injeções ou feridas), monofobia (medo de ficar sozinho), nictofobia (medo da noite ou do escuro), tanatofobia (medo da morte) e zoofobia (medo de animais).

A fobia é definida pela SBIE como sendo um medo irracional e neurótico diante de uma situação ou objeto que não apresenta qualquer perigo imediato. As pessoas neuróticas sentem tanto medo que evitam determinadas situações e acabam num certo isolamento social que prejudica a convivência e uma vida saudável e de qualidade.

A lista sobre os medos (fobias) poderia ser infinita e certamente nos próximos anos surgirão novos nomes para identificar os novos medos que surgem diante das transformações culturais ­­­e da evolução tecnológica. O mesmo estudo realizado pela SBIE mostra que as fobias atingem cerca de 10% da população mundial, e qualquer pessoa pode ser acometida por uma em algum momento de sua vida.

As fobias podem surgir de experiências traumáticas ou pela convivência com pessoas que são portadoras de algum tipo de fobia. “A melhor forma de tratar uma fobia”, indica o estudo, “é por meio da alteração emocional entre o indivíduo e o objeto ou situação que provoca o medo”.

Processos terapêuticos que promovem o reprocessamento emocional das situações relacionadas ao medo são os mais indicados para reprogramar os sentimentos e enfrentar os objetos ou situações que desencadeiam a fobia. Dependendo da gravidade e intensidade da fobia, se faz necessário o uso de medicação para equilibrar e ajustar as disfunções neurológicas.

Para além dos casos patológicos que precisam na maioria das vezes de ajuda profissional, há certos medos que precisam ser enfrentados. Me refiro aos medos cotidianos, banais, comuns, aparentemente inocentes, que muitas vezes se transformam em algo destrutivo para a boa convivência entre as pessoas.

A título de exemplos, menciono aqui aos medos provenientes dos preconceitos, da ignorância, da insensibilidade e da falta de caráter que impulsiona comportamentos doentios de discriminação, de racismo, de ódio, de violência, de apartação social.

Nesse sentido, o pensamento racional filosófico, cuidadoso, abrangente e crítico nos ajuda a enfrentar o medo e construir espaços de socialização condizentes com uma vida saudável e de qualidade.  

Leia também “A filosofia em busca de si mesmo”: O que me define, minhas origens, meu futuro não pode ser expresso com um nome, ou com uma explicação biológica, ou com a projeção de algo que hipoteticamente pode acontecer. Na tradição filosófica não faltaram definições sobre o humano, sobre a gênese, sobre a finalidade do existir”. Leia mais: https://www.neipies.com/a-filosofia-enquanto-busca-de-si-mesmo/

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alexsandro Rosset

Educação superior: mais retrocessos e falácia eleitoral

A história não se abre e fecha por si, são os homens e mulheres em luta que abrem e fecham o circuito da história” (Florestan Fernandes, 1977)

Para o professor, antropólogo e sociólogo Florestan Fernandes (1920-1995) o que se tem chamado de desenvolvimento no Brasil, em realidade, não passa de um processo de modernização e de capitalismo dependente, no qual a classe dominante brasileira.

Uma minoria prepotente que se associa ao grande capital, abrindo-lhe espaço para sua expansão. Isso resulta na combinação de uma altíssima concentração de capital para poucos com a manutenção de grandes massas na miséria, o alívio da pobreza ou um precário acesso ao consumo, sem a justa partilha da riqueza socialmente produzida.

O filósofo e educador Gaudencio Frigotto (UFRJ/Uerj) considera que a síntese do sociólogo Florestan, feita há décadas, ganha hoje um realismo sem precedentes.

A classe dominante brasileira, pequena, autoritária, racista, moralista, antipovo, anticlasse trabalhadora, antiEducação e Ciência, humanamente rasa e insensível sustenta, no momento presente, um (des)governo que nos transforma cada vez mais em um país gigante com pés de barro.

Logo, para o projeto da “elite do atraso”, destruir a Educação e a Ciência brasileira é necessário.

O novo bloqueio de 14,5% (R$ 3,8 bilhões) no orçamento das universidades federais em 27 de maio deste ano é emblemático e confirma a tese de redução contínua e sistemática, desde 2016.

Esse corte atinge os valores orçamentários de custeio e o investimento, conforme denuncia a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes):

“após todo o protagonismo e êxitos que as universidades públicas demonstraram até aqui em favor da ciência e de toda a sociedade no combate e controle direto da pandemia de covid-19; após o orçamento deste ano de 2022 já ter sido aprovado em valores muito aquém do que era necessário, inclusive abaixo dos valores orçamentários de 2020; após tudo isso, o governo federal ainda impinge um corte de mais de 14,5% sobre nossos orçamentos, inclusive os recursos para assistência estudantil, inviabilizando, na prática, a permanência dos estudantes socioeconomicamente vulneráveis, o próprio funcionamento das instituições federais de ensino e a possibilidade de fechar as contas neste ano” (Andifes).

Esse projeto em curso do governo brasileiro confronta-se com as propostas da III Conferência Mundial de Educação Superior (CMES) da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) transcorrida em maio, na cidade de Barcelona, Espanha.

Foram destacados nesta conferência os valores que criaram as universidades, tais como: o ideal humanista, a emancipação por meio do conhecimento, a liberdade, os direitos humanos, a justiça e a paz.

As universidades sempre foram forças fundamentais para transformar a própria sociedade e a realidade em que estão inseridas.

A CMES 2022 revisitou e reafirmou a missão das universidades: formação de cidadãos globais preparados para atuar na complexidade; geração e compartilhamento de conhecimento, ciência aberta e abordagens transdisciplinares; engajamento social, desenvolvimento e responsabilidade ética.

Desmonte

Enquanto isso, no Brasil, a Rede Pública Federal composta de Universidades e Institutos Federais vêm sendo sistematicamente fragilizada e inviabilizada.

Paralelamente, o segmento educacional privado, com dois terços das matrículas do ensino superior, sob o efeito da financeirização, da EaD e sob ataque dos empresários do setor, colocam os professores enquanto categoria em extinção nessas faculdades.

Vejamos algumas evidências:

O mais recente Censo de Educação do Ensino Superior, divulgado em maio ano, registrou a primeira queda de matrículas nas universidades federais (UFs) brasileiras desde 1990.

No período de 2019 a 2020, o número de estudantes que entraram no ensino superior pelas UFs passou de 1,3 milhão para 1,2 milhão.

E, ainda, cerca de 270 mil estudantes suspenderam a graduação por tempo indeterminado. Essa queda de matrículas é, em parte, explicada pela redução dos investimentos nas instituições e suspensão das políticas apoio estudantil;

Já as instituições privadas registraram aumento no número de ingressantes, chegando a corresponder a 86% do total das matrículas no ensino superior em 2020.

Porém, 53,4% desse ingresso ocorreu no ensino a distância, foram mais de 2 milhões de estudantes que se matricularam no ensino remoto, enquanto 1,7 milhão de estudantes, cerca de 46,6%, ficaram no ensino presencial.

Modelo de negócios

Para Andrea Harada, Gabriel Teixeira e Plínio Gentil, em recente artigo no Le Monde Diplomatique Brasil, o mercado educacional se converteu e se consolidou como modelo de negócios, atraindo investidores de toda natureza (muitos sem vínculo com a educação), sem qualquer relação com a democratização do ensino superior, com a redução das desigualdades ou com o desenvolvimento do país.

Na realidade, representam a efetiva oportunidade de valorização dos capitais privados de várias partes do mundo e, os estudantes, são tratados como ativos financeiros e, os docentes, como custos a serem eliminados.

Porém, neste ano decisivo para o futuro do país, a educação é novamente vítima de falácias eleitorais.

Os mesmos governantes e políticos que descumpriram os percentuais constitucionais de investimentos em educação, que reduziram gastos inclusive na pandemia, que apoiaram e aprovaram cortes orçamentários nas verbas da educação e da ciência, realizam novas falsas promessas da educação enquanto prioridade.

Princípios

Cabe registar que princípios como honestidade, coerência e compromisso com a educação não são negociáveis.

A primeira atitude séria deve ser alçar a educação e a ciência brasileira ao status de Política de Estado, fora do teto de gastos, impedindo ingerências político-eleitoreiras e de governos transitórios.

A primeira coisa a fazer para resolver um problema é admitir que ele existe.

A segunda é identificar sua origem e, a terceira, resolver a causa originária; no caso, os oportunistas e falaciosos defensores da educação.

É inadmissível que os cargos de ministros e secretários de educação sejam ocupados por pessoas alheias às escolas e às universidades.

Quem conhece e faz a educação são os professores. Jamais um CEO, um militar, um pastor, um técnico ou empresário deveria responder por essas funções educacionais, a exemplo das melhores experiências internacionais.

A nossa Constituição Federal (CF) de 1988 aponta os fundamentos da República brasileira: soberania, cidadania, dignidade da pessoa humana, valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e pluralismo político.

A mesma Constituição define os seus objetivos: construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação (artigos 1º e 3º).

É nela, também, que consta a educação como direito de todos e dever do Estado e da família, visando à garantia do pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (artigo 205).

Para que esses fundamentos e objetivos do Estado democrático se concretizem e a educação de qualidade se efetive, é necessário garantir o atendimento aos princípios do artigo 206:

– igualdade de condições para o acesso e permanência na escola, liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

– pluralismo de ideias e concepções pedagógicas e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;

– gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;

– valorização dos profissionais da educação, com planos de carreira e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos;

– gestão democrática do ensino público;

– padrão de qualidade;

– e piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação pública, nos termos de lei federal.

Já dizia Florestan Fernandes: o intelectual, seja professor ou pesquisador, não cria o mundo no qual vive. Ele faz muito quando consegue ajudar a compreendê-lo, como ponto de partida para a sua alteração real.

Portanto, não será com privatização da educação, nem com educação a distância, muito menos com ensino domiciliar (homeschooling), com pactos paralelos pela educação, com educação meritocrática ou empreendedorismo individual (“Crie o impossível”) que vamos priorizar a educação como pilar para reconstruir e transformar o Brasil.

Portanto, estas eleições oportunizam substituir as bancadas da “bala”, “evangélica” e similares por representações legítimas e qualificadas de professores, cientistas, jovens estudantes e gestores de escolas e universidades.

A decisão está em nossas mentes e em nossas mãos. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer!

Autor: Gabriel Grabowski

FONTE: Educação superior: mais retrocessos e falácia eleitoral – Extra Classe

Edição: Alexsandro Rosset

O poeta e o principezinho: as flores e a flor. Uma comparação do poema Flores de Jean Sartief com a flor do Pequeno Príncipe Flores

À sombra de uma árvore

repousa o meu coração de jardineiro. Desdobrei-me em cuidados.

Jean Sartief em Jardim dos Abismos, 2018

Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que a fez tão importante…

Antoine de Saint Exupéry, O pequeno príncipe

“Eu cantarei de amor tão docemente”, anunciou o poeta Luiz Vaz de Camões. Assim cantamos o amor, com a doçura dos nossos corações e a sabedoria do rei Salomão nos seus Cantares.

É sabido que o amor é o mais belo sentimento do mundo, o mais sincero e único, o que cura doenças e faz o inimigo temer. Aquele que nos faz largar qualquer coisa pelo nosso amante. Sendo assim, não poderia ser diferente o cuidado que o poeta Jean Sartief dedica a seu jardim daquele que Saint Exupéry demonstra ter, em seu Pequeno Príncipe, com sua flor. Ambos cuidam porque amam incondicionalmente. Um tem um jardim, o outro tem apenas uma flor. Quem será mais feliz? Existirá felicidade no plural? É possível amar por igual?

A verdade é que o poema “Flores” de Jean Sartief dialoga com a flor do Pequeno Príncipe de forma única e angelical, como se fossem duas crianças a cuidarem de algo precioso que não pode ser perdido, que não pode ser machucado, que não pode desaparecer dos seus olhares cuidadosos, porque quem ama desdobra-se em cuidados num planeta cheio de árvores ou em um planetinha onde há apenas uma flor.

Não importa o lugar. Importa o cuidado. Este que temos perdido ao passar dos anos, com a nossa pressa em estarmos sempre em mil lugares ao mesmo tempo e fazendo um milhão de coisas sem nos darmos conta de quantas pessoas e seres estão precisando de nós, do nosso amor e do nosso afeto.

O poeta brasileiro Jean Sartief se diz um jardineiro à sombra de uma árvore. Lá está o seu coração e, certamente, o seu grande tesouro. Como diz Mateus (6:21), “onde está o teu tesouro, aí está o teu coração.”

O coração de Sartief encontra-se diante do seu jardim, um jardim que fica à sombra de uma árvore, criando uma imagem belíssima em nossos pensamentos e fazendo-nos evocar as ninfas que tanto amam os bosques e os jardins. Assim, é a flor do Pequeno Príncipe, para ele, o tesouro maior.

Todos nós temos um tesouro dentro e fora das nossas almas cheias de sentimentos diversos, que muitas vezes são incompreendidos pelo próximo, mas que nos tornam gigantes quando apresentamos cuidados além do esperado por pessoas egoístas que ainda acreditam o tesouro ser apenas bens materiais.

Um tesouro é tudo aquilo que você guarda nas profundezas da sua alma, num lugar seguro, dentro de um baú trancado a sete chaves para que ninguém tenha acesso, porque só você sabe o valor que ele tem.

Cada pessoa tem um tesouro que pode ser desde uma folhinha velha de um cajueiro até um cálice de ouro. Os tesouros são os mais diversos. Eles se apresentam nos poemas e canções assim como nas histórias infantis, nas quais os piratas de perna de pau combatiam nos mares com outros piratas atrás de tesouros que os enriqueceriam materialmente. Aqui, vale o tesouro que enriquece o afeto, o cuidado, o espírito.

O Pequeno Príncipe necessitava cuidar da sua rosa porque era a única e, mesmo depois de descobrir, quem sabe, o jardim de Jean Sartief, ainda assim não deixou de amá-la nem por um segundo. Há um principezinho que tem apenas uma flor no universo, enquanto há um poeta que tem um jardim inteiro e ambos sabem que devem cuidar dos seus tesouros como quem cuida de si mesmo todos os dias, ou seja, fazendo os mais lindos mimos que se pode esperar de quem nos ama.

É preciso cuidar para não deixar morrer e para não deixar que o tempo nos destrua ou destrua os sentimentos surgidos do quase nada e que viraram tanto dentro da gente.

Na ética do cuidado, os cuidadosos estão sempre vigilantes com aqueles que são cuidados. É preciso ser cauteloso e valente para saber cuidar das coisas frágeis, ou seja, das coisas e das pessoas que, por serem delicadas demais, nos pedem cuidados mais atenciosos.

Quando se tem apenas uma flor no mundo que é tudo, além de amiga, é importante saber cuidar dela para que nenhum bicho ou homem a maltrate. Também é preciso cuidar de um jardim inteiro, porque muitas vezes o tesouro pode ser pesado, imenso, grande por demais, porém, a sua essência exige cuidados que o proteja das pragas, dos insetos, dos pés dos homens ignorantes e daqueles que gostam de arrancar flores só para vê-las morrerem em suas mãos.

Um poeta e um principezinho se encontram quando não importa a quantidade, mas o cuidado que é dedicado ao objeto que ganha espaço nos seus corações sensíveis e meigos.

Vivemos tempos em que poetas estão sendo construídos com a inteligência artificial para fazer amigos, cativar e demonstrar cuidados, mas nunca substituirão o verdadeiro homem, como é o caso do app Replika. Este app é um amigo virtual que pode nos escrever poemas caso peçamos.

O poeta de carne e osso não é programado para dar respostas prontas, mas para estar pronto a amar do seu jeito aqueles que precisam dos seus cuidados, mesmo nos momentos em que ele, o poeta ou o principezinho, também precisam de cuidados. Como se diz o velho ditado: eu esqueço a minha dor para cuidar da tua, amigo.

Nessa vida, em que o tempo é o senhor que diz as ordens de como devemos viver, todo cuidado se faz pouco com as coisas que são importantes para nossas almas.

A flor do Pequeno Príncipe era abusada e o deixava preocupado com as suas esquisitices de se fingir de morta só para deixá-lo preocupado, isso porque temia que ele descobrisse a existência de outras flores. O jardim de Jean acalma o seu coração de jardineiro e suas flores parecem ser tranquilas e não ciumentas, mas, ai dele se deixá-las sozinhas, logo morrerão sem cuidados. Assim são as flores cheias de bonitezas e ao mesmo tempo de uma fragilidade que requer zelo redobrado.

Quem tem apenas um amigo precisa cuidar muito bem dele, pois é o seu único tesouro; não é diferente de quem tem um milhão de amigos, pois também precisa cuidar bem de todos e se desdobrar em cuidados que vão exigir tempo e renúncias muitas vezes para ficar ali do ladinho, sempre fortalecendo os laços e ratificando o seu grande amor.

Se não aprendemos a cuidar bem dos nossos amigos, vai chegar o dia em que todos partirão e ficaremos sozinhos.

Tem gente que gosta de ter um jardim inteiro, assim como Sartief, já o nosso principezinho se contentava com a sua única flor. De qualquer modo, o que importa é a amizade, é o tempo que dedicamos a essas criaturas tão especiais para nós que se tornam grandiosas e fascinantes às nossas almas.

Também não é verdade quando as pessoas dizem que quem tem um não tem nada. Tem muita coisa, sim. Como disse anteriormente, não importa quantidade. Vale muito o cuidado e o amor existente a quem temos ao nosso redor.

Uma flor ou um jardim inteiro sempre nos darão trabalho e sempre demonstrarão necessidade de carinho e afeto no momento em que fizermos um sinal de viagem para longe, pois logo sentirão a nossa falta. Que saibamos cuidar da nossa flor ou do nosso jardim, o que fica é o cuidado à sombra de uma árvore ou em volta de uma redoma.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

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