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Memórias de um menino Sem Terra

Este livro não é a história de um único menino, mas é a de milhares de meninos e meninas que vivenciaram, sofreram e alegram-se com a vida em acampamentos e assentamentos do MST. Eles e elas, aprenderam com o espaço organizativo do acampamento, forjaram-se em movimento; o ambiente da coletividade os educou.

O livro Memórias de um menino Sem Terra, trata sobre a vida de crianças e adolescentes, que viveram em um acampamento e assentamento do MST, no Rio Grande do Sul, nas décadas de 80 e 90. Tendo como protagonista – o menino Igor.

Escrito para o público infanto-juvenil (e adulto também), o livro é dividido em três capítulos: o menino e infância; o menino e a adolescência; o menino e a juventude.

Baseado em fatos reais, o livro descreve o cotidiano de um acampamento/assentamento Sem Terra – a organização, a coletividade, os modos de produção, a escola, a educação; e principalmente, diz sobre formação humana.

O livro pode ser adquirido no site da Amazon, ou diretamente com o autor Munir Lauer pelo watsapp (54 98424-8724) ou através de seus contatos nas redes sociais.

Visão geral do livro

Este livro nada mais é do que uma história de criança, contada para outras crianças, adolescentes e jovens, mas, também, contada para adultos. E por ser verdadeira, não é a história de um único menino, mas é a história de milhares de meninos e meninas, que vivenciaram, sofreram e alegram-se com a vida em acampamentos e assentamentos do MST. Eles e elas, aprenderam com o espaço organizativo do acampamento, forjaram-se em movimento; o ambiente da coletividade os educou.

Leia mais nesta matéria: https://www.brasildefators.com.br/2024/01/26/munir-lauer-lanca-o-livro-memorias-de-um-menino-sem-terra?

Edição: A. R.

Ziraldo era o próprio Menino Maluquinho

Ele participou de três Jornadas Literárias em Passo Fundo quando esparramou lindos traços e muita simpatia.

Em 06 de abril, Ziraldo Alves Pinto morreu aos 91 anos de idade. Cartunista e ilustrador de traço inconfundível, foi além da charge e caricatura para ingressar na literatura. Da Turma do Pererê ao Menino Maluquinho, o mineiro de Caratinga abriu portas atrativas para novos leitores. Militante do velho PCB, enfrentou a ditadura na trincheira de “O Pasquim”, quando a intolerância ideológica o conduziu três vezes à prisão.

Com mais de 130 livros publicados, também esteve em Passo Fundo para participar de três edições da Jornada Nacional de Literatura. O evento, que colocou Passo Fundo no mapa cultural, foi idealizado em 1981 pela professora Tânia Rösing, que define Ziraldo como “um gênio, pois ele era a própria genialidade”. Aqui, além de lindas caricaturas, ele espalhou simpatia e deixou gostosas lembranças.

Tânia e a foto da neta Lavínia no colo de Ziraldo – Foto – LC Schneider-ON

Multiplicidade

A professora Tânia desenha a trajetória de Ziraldo como um caminho à leitura, um encaixe com a proposta das jornadas: a formação de novos leitores. “Ele começou a usar o desenho com texto, deu movimento e com isso veio o vídeo. Assim, ele traz a criatividade evolutiva no humor. E, o mais importante, a diversidade, pois ele não trata só da pessoa, usa animais e seres mitológicos sem perder o olhar nos nossos indígenas”. A interpretação da professora detecta a vanguarda de Ziraldo. “Quando começaram a ilustrar ele já era um ilustrador. Trabalhava com múltiplos suportes e múltiplos públicos. Desenhos, quadrinhos, charge, caricatura, cinema, escritor, fazia cartazes…”

Um moleque

Do traço às letras, o talento de Ziraldo entusiasma Tânia Rösing. “Ele se apresenta no texto como sapeca, divertido e prodígio que é o Menino Maluquinho. E o Menino Maluquinho é o próprio, pois ele sempre foi assim”. Um menino que, mesmo chateado com a idade avançada, continuou um moleque. “Ele convidou os amigos para a festa dos seus 80 anos em um restaurante do Rio. Sem a presença do aniversariante, criou-se um clima ruim. Lá pelas tantas acendem as luzes sobre Ziraldo que ninguém havia reconhecido, pois estava num canto com o cabelo pintado de preto. Lavou o cabelo e voltou. Foi uma grande festa”.

O apoio da Editora Melhoramentos foi fundamental para trazer Ziraldo a Passo Fundo em três oportunidades. Participou das Jornadas de Literatura em 1985, 1997 e 2007. “O Jaime Lerner (CEO da Editora) foi importante para isso. Até porque o cara (Ziraldo) já tinha vendido mais de 15 milhões de livros”, conta a professora. Logo, Ziraldo foi um grande parceiro das jornadas e até fez um cartaz para a Jornadinha.

Mas não faltam relatos de pequenos contratempos. “Em 2007, ligou de última hora dizendo que estava em Curitiba e não viria. Então, disse para ele falar com o Lerner e resolver. Deu certo, pegaram um jatinho e ele veio pois estava na programação do dia seguinte. Outra vez, na hora de falar, ele foi irredutível e disse que não iniciava a fala: ‘só ouço e respondo’. Então provoquei a plateia para perguntar e, enfim, começou a palestra”.

Um sorriso, um traço

E como se portou Ziraldo nas andanças pelo Planalto Médio? “Simpático, uma simpatia! Um artista. Atencioso com todos dava um sorriso, a mão vinha junto, fazia um risco que se transformava num desenho. Aliás, uma obra”.

Tânia diz que era um cara divertido e atencioso sem perder o característico estilo galanteador. “Exalava arte e falava muito sobre o irmão Zélio (pintor e artista plástico). Foi um entusiasta da Jornada, e dizia que ‘aquilo deveria ser reproduzido em todo o Brasil’. Leitor começa criança e esse era o público dele.” E o carinho pelas crianças está nas paredes do apartamento da professora, em ilustrações e fotos de Ziraldo com os maluquinhos da família Rösing de todas as idades.

Um encontro de moleques

A Família Repilica: os Rösing na versão de Ziraldo – Reprodução – ON

Em suas primeiras edições, o almoço e o jantar dos escritores eram oferecidos na residência de Acioly e Tânia, então numa casa da Paissandu em frente ao HC. “No almoço era churrasco ou comida campeira preparada pelos amigos do Acioly. À noite o jantar era da Dona Olívia, então chef do Clube Comercial”. Comes e bebes no velho estilo copa franca. Uma festa!

O esposo de Tânia, o também professor Acioly, recentemente falecido, era um moleque de carteirinha. Brincalhão, quebrava o gelo com tapinhas nas costas e dizia poucas e boas. Ora, o encontro com outro moleque resultou em uma fraterna amizade entre os meninos maluquinhos já bem crescidos. “Simpatia e bom-humor, logo Ziraldo estava em casa”. Uma amizade que prosseguiu no fluxo inverso, Passo Fundo-Rio. E, aqui, na caricatura de Ziraldo, retratando Tânia, Acioly e os filhos Cassiano e Ilana, que batizou de “Família Repilica”.

Ziraldo se foi. E a Jornada? “A Jornada foi destruída por não-leitores. A cidade perdeu o charme que era ser a Capital Nacional da Literatura”, finalizou Tânia Rösing.

FONTE: https://www.onacional.com.br/cultura,7/2024/04/19/ziraldo-era-o-proprio-menino-mal,128198

Autor: Luiz Carlos Schneider, colunista. Escreveu e publicou também no site a crônica “O silêncio das vilas”: https://www.neipies.com/o-silencio-das-vilas/

Edição: A. R.

É verdade que menina cresce mais rápido do que menino?

Deixem que as nossas meninas e meninos cresçam por igual e lhes deem as mesmas oportunidades de estudo e trabalho. Mesmo que o patriarcado e o conservadorismo estejam fortemente voltando aos nossos lares, as mulheres já sabem quais são os seus lugares e meninas, apesar de pequenas, já pensam em seguirem carreiras profissionais que antes eram impossíveis de sonharem.

O patriarcado é uma coisa cruel que machuca as mulheres do mundo inteiro ditando as suas normas, tradições e costumes. De uns tempos para cá tem diminuído um pouco com o empoderamento de algumas mulheres, mas no interior do Brasil e em bairros de periferias ainda vemos muito fortemente a sua presença nas casas de famílias mais pobres.

E começo pelas mulheres das cidades do campo quando os pais não aceitavam que elas estudassem para não aprenderem a escrever bilhetes de amor aos seus namorados, uma das formas do patriarcado maltratar as mulheres e deixá-las de fora da escola.

Eu sou uma feminista e acredito que a mulher é a dona do seu corpo e pode fazer dele o que quiser respeitando as leis de uma sociedade mesquinha e cruel que só dá direitos aos homens. Vamos sair por aí sem esse horrível sutiã, meninas, que machuca nossos seios?

As diversas ondas feministas ao redor do mundo ainda precisam ser consideradas como escolhas das mulheres para não mais serem subestimadas ou criadas para serem donas de casas.

Assim é que Simone de Beauvoir com a sua famosa frase “Ninguém nasce mulher, mas se torna mulher” ela quer nos dizer que nascemos numa sociedade pronta para nos ditar as suas normas, nos impor limites, nos colocar em lugares inferiores aos homens e nos subestimar dizendo que não somos capazes de quase nada a não ser cuidar de casas e de crianças.

Entrando no “paraíso” da infância vemos meninos e meninas da mesma idade morando na mesma casa e sendo filhos dos mesmos pais muitas vezes estudando coisas diferentes e sendo educadas de formas diferentes também. Meninos são educados para jogarem futebol nos fins de semana e meninas para passearem nas praças com os seus bichinhos de estimação.

Como história de mentirinha ainda enganam as mulheres dizendo que as meninas crescem mais rapidamente do que os meninos, o que é mentira e invenção do patriarcado para que as mulheres comecem desde cedo a serem tratadas como senhoras que serão para submissas aos seus maridos. Meninas e meninos crescem no mesmo ritmo. É mentira dizer que a menina cresce assustadoramente mais rápido do que o menino.

Muitas meninas podem ser mais experientes do que os meninos porque foram educadas para isso e sabem cozinhar, lavar, passar e cuidar de uma casa aos dez anos de idade enquanto os meninos com a mesma idade só sabem jogar bola ou assistir televisão.

Meninos são preguiçosos e não querem aprender tarefas domésticas porque desde cedo o patriarcado lhes disse que aquilo é coisa para meninas. E lá se vão as meninas para a cozinha fazer junto com a mãe um bolo de chocolate quando ela queria mesmo era estar no telescópio observando as estrelas.

Se fizermos uma pesquisa de quantas meninas são educadas para serem donas de casa e meninos para trabalharem e manterem uma família financeiramente ficaremos assustados com os resultados porque é isso que acontece ainda. Quase ninguém educa a sua filha para ser uma cientista, médica, juíza ou outra profissão qualquer.

Até um dia desses existia na minha cidade uma escola que ensinava as boas maneiras as meninas, a como cuidar de uma casa e fazer belos pratos para os seus maridos. Homens não podiam estudar nesta escola. Ainda bem que depois das ondas feministas repararam esse erro absurdo na educação.

Nunca vi uma mãe ensinando o seu filho menino a colocar roupas nos varais, a varrer uma casa, a passar roupas, mas sempre vejo a mãe reclamar da menina que passa o tempo todo brincando de médica com as suas bonecas. E se ela não quiser ser uma dona de casa? E se a sua escolha desde a infância sobre a sua vida adulta já estiver traçada?

Meninas e meninos crescem por igual. Os meninos deviam ser educados com os mesmos direitos das meninas. Não vejo pais levarem suas filhas pequenas aos estádios de futebol, mas vejo muitos meninos vestidos com as camisas dos seus times sentados nas arquibancadas. Dizem que o mundo está mudando e que as mulheres estão ficando chatas, será mesmo que estamos chatas ou é porque estamos reivindicando os nossos direitos e como dizia Simone de Beauvoir não existem sexos diferentes.

Para esta mesma pensadora acima enquanto o mito da maternidade e da família não for destruído a mulher será sempre oprimida. Dão bonecas as crianças para lhes dizerem que um dia elas serão mães e precisarão aprender a cuidar dos seus filhos enquanto para os meninos dão carrinhos, bolas, trens.

Nunca vi um menino ganhar uma boneca de presente de aniversário, pois o patriarcado não permite que isso aconteça. Pais machistas que se dizem modernos não os são na verdade. Eles dizem para os seus filhos que devem fazer xixi de pé porque é assim que homem de verdade faz.

Os tempos mudaram, contudo as meninas continuam ganhando bonecas de presente com casinhas e fogões para cozinharem comidas de mentiras e já irem treinando os seus dotes femininos para idade adulta. Continua do mesmo jeito no casamento religioso, pois ainda é o pai quem entrega a filha para o noivo e não a mãe.

Leia também crônica: Coisa de menino/coisa de menina: https://www.neipies.com/coisa-de-menino-e-coisa-de-menina/

São as meninas de dez ou doze anos de idade que devem cuidar dos irmãos menores quando as suas mães solos saem para trabalhar e não têm com quem deixá-los. Os meninos ficam brincando no pátio da casa sem sequer ajudarem as suas irmãzinhas a dobrarem uma roupa, a varrerem uma casa ou olhar o irmão menor. Claro, eles não foram educados para isso. As mães lhes ensinaram que devem brincar de carrinhos e correrem nas ruas. Que devem depois de grandinhos ajudar financeiramente no sustento da casa.

O menino ainda pequenino se sente mais poderoso segundo Freud por ter um pênis e o da menina deve ter sido cortado. Ele fica o tempo todo se perguntando onde está o pênis da menina e com isso vai se formando um amor pela mãe que também não tem pênis mais profundo do que pelo pai que não o interessa, pois ele sabe que o pai tem um pênis. É a mãe quem vai precisar de proteção, de cuidados, de zelo e afeto.

A menina vai menstruar aos onze ou doze anos de idade e vai se tornar uma mocinha pronta para ter filhos, como dizem os machistas e as mães criadas com base no patriarcado. Elas não sabem que aquilo é o começo de um novo ciclo onde as meninas precisam de cuidados para não se submeterem mais ainda aos deveres que os homens vão lhes impor quando souberem que já menstruaram e estão prontas para serem mães.

Houve um avanço na maternidade e as mulheres já não são mais como as nossas avós parindo quinze ou vinte filhos. Agora elas só querem um ou dois filhos. Talvez estejamos no caminho certo e educando as nossas meninas como deveriam ter sido educadas há muito tempo, ou seja, elas nasceram para serem o que quiserem e não para servirem machos ridículos que acham que mulheres são seus objetos de decoração.

Temos visto as meninas brincarem mais de bonecas, só que com um detalhe: elas agora também jogam online, usam tablets, têm smartphones e nas escolas sentam-se ao lado dos meninos e disputam na mesma igualdade as melhores notas. Ainda são os meninos os que se saem melhor nas Olimpíadas de Matemática, mas é porque em casa e na escola lhes são dadas oportunidades que não são oferecidas às meninas como tempo para estudos somente de uma disciplina. Ainda há desigualdades nas escolas e em casa. Os professores de matemática ainda dão mais suportes aos meninos, isso é fato.

Ter mulheres nas ciências é comemorado como algo maravilhoso, o que deveria ser garantido a elas por direitos a escolha das suas profissões. Igualdades salariais do mesmo jeito. As mulheres comemoraram até outro dia este direito aqui no Brasil.

Deixem que as nossas meninas e meninos cresçam por igual e lhes deem as mesmas oportunidades de estudo e trabalho. Sabemos que o patriarcado ainda vai continuar e não tem como acabar, com uma bancada política na Câmara e no Senado conservadora.

As meninas têm medo de falar dos seus sonhos porque os acham difíceis de conquistarem e quando são interpeladas pelo que querem ser quando crescerem titubeiam para não ouvirem risinhos de machistas, preferem inventar uma mentirinha de casamento e mãe de família.

Ainda vamos ter muitas meninas nas ciências e na política. Mesmo que o patriarcado e o conservadorismo estejam fortemente voltando aos nossos lares, as mulheres já sabem quais são os seus lugares e meninas, apesar de pequenas, já pensam em seguirem carreiras profissionais que antes eram impossíveis de sonharem.

Meninos e meninas crescem por igual, somente na sua cabeça é que eles crescem mais rapidamente um do que o outro, se você é um machista desavisado que estamos em pleno século vinte e um.

E para terminar deixo vocês com a grande filósofa americana Judith Butler que nos diz

“Sempre fui feminista. Isso significa que eu me oponho à discriminação das mulheres, a todas as formas de desigualdade baseadas no gênero, mas também significa que exijo uma política que leve em conta as restrições impostas pelo gênero ao desenvolvimento humano.”

O humano é a presença real nas políticas públicas que devem ser tratadas pelas autoridades governamentais dos países desenvolvidos e em desenvolvimento para que as nossas meninas possam ir tão longe o quanto se vai uma estrela cadente.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: A. R.

Sobre regulamentação das redes sociais

A regulamentação das redes sociais pode ajudar a promover a diversidade e a pluralidade de vozes na esfera pública digital. Muitas vezes, as plataformas tendem a privilegiar conteúdos populares ou controversos em detrimento de perspectivas mais equilibradas e menos sensacionalistas.

Diante dos desafios cada vez mais evidentes apresentados pelas redes sociais, é imperativo que consideremos seriamente a necessidade de uma regulamentação mais robusta dessas plataformas digitais. A disseminação descontrolada de desinformação, ódio e intolerância tem causado danos significativos à coesão social e ao debate público saudável, exigindo uma resposta firme e coordenada por parte das autoridades reguladoras.

Em primeiro lugar, a regulamentação das redes sociais se faz necessária para proteger os usuários contra os danos causados pela disseminação de conteúdo prejudicial e enganoso. A desinformação pode ter consequências graves, desde minar a confiança nas instituições democráticas até incitar à violência.

É fundamental que as plataformas sejam responsabilizadas por implementar medidas eficazes para combater a propagação de informações falsas e prejudiciais.

Além disso, a regulamentação das redes sociais é essencial para promover a transparência e a prestação de contas nessas plataformas. Muitas vezes, as decisões sobre o que é permitido ou não nas redes sociais são tomadas de forma opaca e arbitrária, levantando preocupações sobre censura e discriminação. Uma regulamentação clara e transparente ajudaria a garantir que as políticas de moderação de conteúdo sejam aplicadas de forma justa e consistente.

Leia também: https://www.neipies.com/somos-manipulados-nas-redes-sociais/

Outro aspecto importante da regulamentação das redes sociais é a proteção da privacidade e dos dados dos usuários. O modelo de negócios das redes sociais muitas vezes depende da coleta e exploração dos dados pessoais dos usuários, levantando questões éticas e de segurança. Regulamentações mais rigorosas poderiam estabelecer limites claros sobre como as informações dos usuários podem ser coletadas, armazenadas e compartilhadas, garantindo assim que sua privacidade seja protegida.

Além disso, a regulamentação das redes sociais pode ajudar a promover a diversidade e a pluralidade de vozes na esfera pública digital. Muitas vezes, as plataformas tendem a privilegiar conteúdos populares ou controversos em detrimento de perspectivas mais equilibradas e menos sensacionalistas.

Uma regulamentação que promova a equidade na distribuição de conteúdo poderia ajudar a garantir que uma variedade de pontos de vista seja representada nas redes sociais.

Em suma, diante dos desafios cada vez mais evidentes apresentados pelas redes sociais, a regulamentação é uma medida necessária para proteger os usuários, promover a transparência e a prestação de contas, proteger a privacidade dos dados e promover a diversidade de vozes na esfera pública digital.

É hora de as autoridades reguladoras assumirem um papel mais ativo na definição das regras do jogo no mundo das redes sociais, garantindo assim um ambiente online mais seguro, justo e inclusivo para todos.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site a crônica “Quem deve ter a última palavra: a mente ou o coração”?: https://www.neipies.com/quem-deve-ter-a-ultima-palavra-a-mente-ou-o-coracao/

Edição: A. R.

Livro físico ou digital? Uma breve discussão sobre a leitura…

A leitura é uma forma de acesso ao mundo, talvez a mais importante e implicada, mas deve se inscrever dentro de um repertório de reiterada humanização, como compromisso inarredável pela vida, pela formação, pelo esforço que constrange a violência, a estupidez e as garras dos que colonizam nossas geografias afetivas.

Particularmente acredito que nada substitui a relação direta com o livro físico, com o fato de podermos manipular, folhear, riscar, sentir o cheiro e a espessura, o “peso” dessa experiência. Por outro lado, não se pode negar que as tecnologias viabilizaram o acesso a livros, artigos e materiais que era inimaginável na virada do século XXI.

Podemos perguntar se se trata da mesma experiência, se a leitura do livro físico é diversa da leitura do (no) livro digital, por exemplo. Também podemos perguntar se é assim tão comumente dizer que as tecnologias ampliaram o acesso, pois temos plena consciência que há uma discrepância absurda nas realidades brasileiras, e mesmo os que têm acesso, não frequentam a “mesma” época da invenção.

Estamos vivendo e experimentando temporalidades distintas desde quando se inventou a primeira tecnologia, exponencialmente ampliadas no nosso tempo.

Creio que respondo melhor a pergunta dizendo que as experiências são distintas e que há um tipo de relação diversa quando se lê uma obra que pegamos com as mãos e uma obra que visualizamos. Há uma demora própria em cada uma das experiências e que a sociedade contemporânea tem optado pela pressa. Corremos, descartamos, destruímos.

O livro inscreve uma métrica de lentidão, é como um convite a um reolhar, reler, cuidar, estender sentidos e horizontes. Quem não se demora, sonha menos, enxerga menos, sente menos.

O mundo da técnica é o mundo da pressa, da produtividade, do empreendedorismo de si mesmo. Somos continuamente interpelados e atravessados por valores e sentidos que nos afastam do “alargamento” de nós mesmos. Tudo é subsumido ao ritmo do cálculo, da racionalidade e deste desespero por se reinventar.

Afloram pessoas que querem nos ensinar como fazer “tudo melhor”, em menos tempo, esforço e poesia. Há um coach de plantão em cada resto dessa maquinaria neoliberal que nos engole.

Portanto, não se trata apenas de bons professores, famílias comprometidas, alunos interessados, realização de eventos e projetos, depende de escolhas de horizontes para que o mundo se oriente por outros caminhos e que sejam de fato mais humanos e gentis às diferentes formas de vidas, sonhos e existências. Mas há um “enquanto”, ou seja, precisamos continuar fazendo, promovendo e sonhando da altura do mundo em que vivemos, sendo indispensável o cultivo da leitura e das demoras que ocasionam e ocasionarão seres humanos sentidos de outros.

Nada substitui os tantos mundos que se dão pelas páginas dos livros acolhidas das melhores esperanças.

Não creio que podemos afirmar que existe uma relação direta entre ler e amplidão humana, aqui entendida no sentido ético, de nos tornarmos pessoas melhores porque lemos. A história está carregada de exemplos de pessoas que eram (são) grandes leitores, com formação invejável, mas posicionadas do lado da barbárie. Por outro lado, é pouco provável que nossos melhores sonhadores não sejam grandes leitores.

O que quero dizer é que a leitura é uma forma de acesso ao mundo, talvez a mais importante e implicada, mas deve se inscrever dentro de um repertório de reiterada humanização, como compromisso inarredável pela vida, pela formação, pelo esforço que constrange a violência, a estupidez e as garras dos que colonizam nossas geografias afetivas.

A leitura precisa necessariamente vir acompanhada de implicação ética, como um esforço contínuo e coletivo para que a estupidez não seja reconhecida como posição, mas como negação de um mundo melhor. Ler um livro, ler o mundo, ler a vida. A leitura é um ato solitário, mas que se inscreve como um gesto infinitamente alargado, capaz de constituir indicações que podem ser experimentadas por cada um e todos nós.

Ler talvez seja a maneira mais poética e humana de se imaginar melhor.

Autora: Marli Silveira. Poeta e escritora. Acadêmica da Academia Rio-grandense de Letras. Também escreveu crônica “O tempo”, publicada no site: https://www.neipies.com/o-tempo/

Edição: A. R.

Políticas públicas e acesso à universidade: oportunidades necessárias

O Programa Professor do Amanhã mostrou que há, sim, interesse em estudar — e políticas públicas que apoiem essa decisão são cruciais para o ingresso nas universidades.

O programa Professor do Amanhã, lançado pelo governo do Estado ao final de 2023 e implementado em parceria com o Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas (Comung) neste primeiro semestre letivo de 2024, trouxe à tona uma reflexão importante sobre a entrada no ensino superior.

A Universidade de Passo Fundo (UPF) ofereceu cem vagas para ingresso nas quatro licenciaturas envolvidas no processo e teve mais de 1.000 inscritos. O número expressivo de candidatos desejando participar do programa evidenciou que há interesse em estudar na universidade, desde que se ofereçam condições e oportunidades para tanto. 

A existência de uma política pública no Rio Grande do Sul voltada para este fim provou ser uma alternativa efetiva para incentivar a formação pessoal e profissional, combater a desigualdade social, fomentar o desenvolvimento humano e econômico e, neste caso específico, qualificar a formação de professores para atuar na rede estadual de ensino.

O Censo da Educação Superior 2022, divulgado em 2023 pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), trouxe dados que demonstram a importância de ações como essa. O levantamento apontou que apenas 24,2% dos jovens de 18 a 24 anos no Brasil alcançam o ensino superior, o que significa que, em média, três em cada quatro jovens brasileiros nessa faixa etária não têm acesso a uma graduação

Somado a este aspecto, há de se considerar, ainda, o momento pós-pandemia e os desafios sociais e econômicos enfrentados pelo país. Tais fatores potencializam um cenário complexo às famílias e à juventude na construção de seu projeto de vida. O enfrentamento a esta realidade ultrapassa o esforço individual e requer ações compartilhados da sociedade como um todo.

Afinal, o jovem não quer mais estudar? Sim, ele quer. Mas para isso precisa de apoio.

Importante ressaltar que a questão do acesso à universidade vai além do escopo de uma formação profissional. A graduação abre portas, amplia a bagagem cultural, descortina horizontes, e oferece, pelo conhecimento, melhores condições de discernimento acerca das questões essenciais à vida e às relações humanas.

Neste contexto, e diante de uma procura sem precedentes já no primeiro dia de lançamento do edital do Professor do Amanhã, fica ainda mais evidente o poder transformador da educação, quando respaldado como um direito, a partir de uma política pública coletivamente construída e implementada.

Esta movimentação não apenas mostrou que é possível encontrar soluções, como também respondeu à pergunta que, por vezes, ronda a sociedadeafinal, o jovem não quer mais estudar? Sim, ele quer. Mas para isso, precisa de apoio.

O Programa Professor do Amanhã também ressaltou a importância das instituições comunitárias no Rio Grande do Sul e como elas podem ser parceiras potentes para solucionar problemas reais enfrentados não somente pelo Estado, mas pelo país. Ao atender ao chamado do governo do Estado para a formação de professores, demanda cada vez mais crescente em todos os níveis de ensino, as universidades comunitárias deixam claro que a educação só será um problema quando não for prioridade.

Fonte: GZH

FOTO: Assessoria de Comunicação UPF

Autora: Bernadete Maria Dalmolin, doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e reitora da Universidade de Passo Fundo (UPF) desde 2018. 

Edição: A. R

Bruno estava “infectado” pelo maniqueísmo

Seu pensamento infantil o fez generalizar: se não era considerado gente pelo pai, muito menos seria considerado gente pelos estranhos. Essa falsa crença foi assimilada como uma verdade incontestável, um dogma.

Um homem adulto jovem, vou chamá-lo de Bruno, evita conviver socialmente porque tem a certeza de que as pessoas não vão se interessar por ele, não vão “dar bola” para ele, vão ignorá-lo. Por que procurar encontros sociais, tentar fazer amigos, se ele já sabe que sofrerá essa horrível sensação de não ser considerado gente, de não existir?

Há essa crença arraigada dentro dele: é ela uma verdade incontestável, um dogma.

De onde vem essa crença?

Ocorre que seu pai era um homem distímico, ou seja, tinha uma depressão leve, crônica. Possuía ele uma família grande, seis filhos. Sua escassa energia era gasta fora de casa, no trabalho. Ao voltar para junto da família, não lhe sobravam forças para dar atenção aos filhos. No máximo, envolvia-se para reprimir o filho que estivesse a perturbar o ambiente.

Bruno era obediente, não incomodava. O pai, portanto, não sentia necessidade de se voltar para ele. E Bruno passou a evitá-lo. Pois, se o procurasse, acreditava que sofreria ao perceber o desinteresse do pai por ele.

Bruno não formulava esses pensamentos. Apenas tinha a sensação que, se colocada em palavras, refletiria a crença de “não ser considerado gente”. Essa sensação ruim voltava automaticamente na sua cabeça frente a qualquer pequena desatenção dos outros para com ele em um, como veremos mais adiante, salto para a conclusão.

Seu pensamento infantil o fez generalizar: se não era considerado gente pelo pai, muito menos seria considerado gente pelos estranhos. Essa falsa crença foi assimilada como uma verdade incontestável, um dogma. Nesse sentido, as pessoas não eram suas amigas, ao contrário. Tinha de evitá-las, elas o fariam sofrer. Não teriam, assim como o pai, empatia por ele.

Só muito mais tarde na vida, com a capacidade de pensar de forma madura, pôde compreender o que realmente aconteceu.

O pai não lhe dava atenção devido às suas próprias dificuldades, já referidas. E não havia por que reduzir a avaliação de si mesmo a esse fato. Até então, Bruno aproximara-se dos grupos sociais com a atenção autofocada. Preocupado consigo, não observava os demais e não exercitava a sua capacidade de empatia por eles. Ou seja, não fazia nada para conquistá-los.

Bruno, observando-se à luz da realidade, reconheceu suas qualidades e habilidades.

Com elas, seria capaz de despertar o reconhecimento e o interesse das outras pessoas por ele. Mas teria de repetir esse novo pensar. Repetir e repetir. E teria de agir e agir. Só assim conseguimos deixar para o passado o pensamento primitivo, infantil que costumamos chamar de maniqueísmo composto por: reducionismo, generalização, salto para a conclusão, dogma, ausência de autocrítica, ausência de empatia afetiva, tendência a acreditar que eu e os meus “somos bons”, os outros “são maus, são inimigos”.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site a crônica: “A culpa não serve para nada”: https://www.neipies.com/a-culpa-nao-serve-para-nada/

Edição: A. R.

A palmada numa criança é crime

Qual o problema de mudarmos a forma como educamos as nossas crianças? Só porque um dia fomos pequenos e sofremos os piores castigos físicos que possamos imaginar vamos fazer a mesma coisa com as nossas crianças? Você acha isso certo?

As crianças geralmente são incompreendidas pelos pais. O mundo contemporâneo mudou a forma de como cuidamos das nossas crianças e já não lhes damos a atenção necessária para um crescimento saudável e acolhedor.

Vivemos numa correria tremenda não tendo tempo nem para resolver os nossos problemas, sempre acumulando coisas para depois; como vamos parar para ouvir os nossos pequeninos? Eles têm coisas para nos dizer ou perguntar. Precisam de atenção nem que seja um pouco de cuidado antes do adormecer.

Outro dia, num supermercado vi uma criança fazer birra porque queria comer um chocolate e a mãe brutalmente a agarrou e deu-lhe uma forte palmada com a mão. Ninguém fez nada. Nem eu. Neste mundo de ódio em que vivemos fazer alguma coisa, defender alguém ou até mesmo uma criança pode ser um perigo para a nossa própria vida, mas também caracteriza a omissão de socorro.

A pobre criança foi levada aos puxões pela mãe chorando alto e gritando que queria um chocolate. Eu fiquei ali, parada, no meio do corredor largo do supermercado querendo ser uma mãe para mostrar aquela senhora como se cuida de uma criança. Ela nem precisaria dar o chocolate, mas conversar com o seu filho que pequenino não compreende um não ainda.

Ademais, os pais que gostam de dar palmadas como correção ou também aqueles que usam dos castigos físicos para obrigar a criança a fazer o que eles querem saibam que estão causando um crime baseado na Lei nº 13.010 de 26/06/2014, chamada Lei da Palmada que altera a Lei Menino Bernardo. Com esta Lei os pais e responsáveis ficam impedidos de baterem nas suas crianças mesmo uma simples palmada.

O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA visa combater os castigos físicos que tanto atemorizam as crianças e causam traumas pro resto das suas vidas. Há quem diga que apanhou muito quando criança e hoje é um adulto responsável e tal, mas não sabe que isso não acontece com todo mundo.

A palmada é um sinal de agressão física, de perda de controle emocional dos pais, pois depois da palmada, se a criança insistir no erro, vem outra e depois pode vir um castigo mais severo. Os pais devem se conscientizar que não e batendo que se educa uma criança, mas cuidando e dando atenção necessária para que essa criança hoje que está fazendo birra e com um comportamento malcriado possa ser tratada por um especialista.

As coisas mudam, gente. Os smartphones estão aí para nos mostrar isso. Monteiro Lobato todos os dias é chamado de racista com os seus lindos personagens. Qual o problema de mudarmos a forma como educamos as nossas crianças? Só porque um dia fomos pequenos e sofremos os piores castigos físicos que possamos imaginar vamos fazer a mesma coisa com as nossas crianças? Você acha isso certo?

Uma criança é uma bênção de Deus numa casa. É ela que anima tudo, é ela o xodó do vovô e da vovó, é ela quem vai fazer as maiores peraltices e num momento de desespero e incompreensão sem saber que existem outras opções para se conseguir o que deseja vai chorar, espernear, quebrar objetos e se enraivar muito. É preciso que um adulto saiba cuidar da criança neste momento.

Os consultórios de psicólogos e psicanalistas estão cheios hoje em dia por um motivo simples: eles sabem ouvir. Por que os pais não escutam seus filhos antes de ser preciso levá-los a um terapeuta? A arte de ouvir é uma das coisas mais bonitas que existe no ser humano. Nem todo mundo sabe fazer isso, mas a gente tem que parar um instante nas nossas vidas para ouvirmos principalmente a nós mesmos, a esse eu que grita dentro da gente para depois ouvirmos os outros.

A criança que mantém um comportamento malcriado talvez esteja querendo chamar a atenção para algo que está errado nela ou ao seu redor. Como ainda mal fala não sabe expressar o seu medo, o seu desespero, a sua dor, a sua ansiedade, a sua vontade e tantos outros motivos que podem levar essa criança a se comportar de forma feia diante das visitas causando vergonha nos pais e familiares.

A palmada machuca a criança fisicamente e psicologicamente. A mão de um homem é pesada para o bumbum de um bebê de seis a oito meses de idade ou até um pouquinho maior. Se for dada com muita força pode até ficar marca roxa no bumbum da criança. Mas, é claro que num país onde mulheres são agredidas pelos seus companheiros a cada minuto imagine como não são tratadas as crianças das mais diversas classes sociais.

Nos bairros de periferias, é comum ver a criança levar chineladas nas costas e até mesmo na cabeça. Como também o pai pega o cinturão e dar uma surra na criança como correção para que nunca mais faça aquela coisa errada. É nas periferias onde mais as crianças sofrem castigos físicos e eu digo isso porque moro numa e vejo como elas são tratadas.

O puxão de orelha é uma coisa super desagradável e vergonhosa à criança, mas já presenciei isso numa escola onde a mãe saiu puxando a sua criança pela orelha até chegar em casa porque tirou nota vermelha nas avaliações escolares. Muitas vezes, os pais são os próprios culpados pelos erros das crianças, pois quantas vezes esse menino ou menina chegou em casa da escola e foi brincar na rua sem nunca ter pegado no caderno para estudar? E a mãe agora se acha no dever de exigir da criança que ele se saia bem nas avaliações?

Peço que os Conselhos Tutelares visitem os bairros de periferia e conversem com as pessoas sobre como são tratadas as crianças daquela comunidade. Era pra ser assim, não é. Nunca vi um conselheiro tutelar no meu bairro a não ser para prender menor de idade que roubou um pirulito ou um aparelho celular de alguém. Eles parecem os reis e, nós, os seus súditos que lhes devemos favor. É assim que eu vejo os conselheiros tutelares da minha cidade. Ficam sentados nos seus birôs à espera de que cheguem queixas contra pais, mães ou algo que o menor fez. Absurdo isso! Melhor nem entrar neste mérito.

Você não pode castigar a sua criança. Não deve.

A melhor maneira de se educar uma criança também não é dando um aparelho celular para ela parar de chorar, mas conversando, mostrando exemplos, brincando, sendo amigo, sendo verdadeiro, sendo sincero nas suas palavras e mostrando-se forte o bastante para que a sua palavra faça se valer num mundo de coisas cruéis acontecendo a todo instante.

Os pais têm que se impor com palavras duras muitas vezes, mas não dá palmada ou castigar fisicamente. Quem fizer isso pode ser preso em flagrante. Criança não manda em mim, dizem os pais. Isso é verdade porque criança não manda nem em si própria, mas ela não pediu para vir ao mundo e merece respeito e carinho o tempo todo, até mesmo na hora da birra e da raiva descontrolada.

Chega de palmadas! As crianças já sofrem o suficiente em muitos lares vendo os pais discutindo sobre problemas os mais diversos, os pais assistindo programas que não são indicados para elas, os pais fazendo de conta que os pequeninos são invisíveis e chegarem em casa e não lhes darem sequer um abraço ou um cumprimento de boa noite. Quem merece mesmo uma boa palmada são os pais e responsáveis que criam as crianças de qualquer maneira as entregando as pessoas estranhas, as deixando o dia inteiro no meio da rua, para a noite quererem corrigi-las com castigos físicos. Palmada nos pais que deixam seus filhos o dia todo ao Deus dará e, quando voltam do trabalho, querem ser os bichões, os machões, os sabichões, os homens da casa como se diz ainda nas periferias das cidades pequenas corrigindo os seus filhos com palmadas!

Tem pai que só de olhar para a criança já a assusta e ela corre pra casa com medo da palmada, muitos acham isso bonito e ficam orgulhosos de somente com o olhar colocar o filho para casa. Talvez esta seja uma forma de castigo físico porque a criança anda tão traumatizada que um simples olhar é capaz de assustá-la. Eu já presenciei uma cena igual a esta, meu querido leitor.

Se você bate na sua criança cuidado para não ser preso baseado na Lei da Palmada. Hoje, não fazemos nada às escondidas e, apesar do ódio e da violência que tomam conta do país, ainda há justiça sendo feita em algumas cidades e crianças sendo salvas de palmadas e castigos físicos por Promotores da Vara da Infância e pelo Ministério Público. Não pense que a palmada que você dá no seu filho todos os dias porque ele não quer comer ou tomar banho um dia não será denunciada ao Conselho Tutelar, que espero faça alguma coisa por nossas crianças.

Para concluir este ensaio eu deixo vocês com uma canção que gosto muito do cantor Gonzaguinha mais uma vez que nos diz

Eu fico com a pureza / Da resposta das crianças / É a vida, é bonita
E é bonita… /”

A resposta de uma criança quando leva uma palmada é uma lágrima descendo pelo rosto e uma sensação de incompreensão desse mundo cruel dos adultos. Prefira a pureza das crianças que sorriem do quase nada… de uma careta no espelho ou de um pingo de chuva.

Autora: Rosângela Trajano. Também publicou no site a crônica “As crianças das guerras”: https://www.neipies.com/as-criancas-das-guerras/

Edição: A. R.

Guardião das Letras – Ironi Andrade

Obrigada, Ironi, por reforçar a nossa identidade nacional, aproximando as pessoas pelo uso correto da Língua, facilitando a comunicação e, consequentemente, melhorando os relacionamentos. Obrigada por aceitares ser o nosso Guardião.

A oportunidade de prefaciar este livro do conhecido e respeitado fundador e professor do Curso Permanente de Português, Redação, Literatura e Oratória – Sistema Educacional Ironi Andrade – e criador do Método de Ensino do Português Lógico, meu estimado confrade Ironi Andrade foi um presente que recebi com imensurável honra e, claro, alta responsabilidade.

Acolhi, porém, o convite como resposta ao desafio que lhe fiz, no início de 2022: ser o nosso Guardião das Letras. Como presidente da Academia Passo-Fundense de Letras (APLetras), aliás, busquei levar a cabo uma das finalidades do sodalício, conforme Artigo 6o, Capítulo II, do Estatuto Social: “Contribuir para o aprimoramento da língua nacional”. E ali estava a pessoa certa para tal função: o nosso mestre Ironi.

Buscando a perfeição em tudo que faz, e sempre disposto a colaborar, o confrade aceitou o desafio e elaborou um detalhado projeto, no qual definiu que o Guardião das Letras passaria a ser também uma publicação quinzenal, dividida em quatro partes:Editorial, Perguntas e Respostas, Pelas redes sociais e Curiosidades do idioma. No entanto, o Guardião é ele mesmo que, como um farol, ilumina e mostra caminhos, protegendo seu entorno. Este livro que ora tens em mãos, nobre leitor, é a materialização do amparo que o Guardião oferece frente à rica diversidade do idioma pátrio.

Conforme suas próprias palavras, o informativo somou mais de trinta edições ao longo da última gestão e teve o escopo de cumprir um dos múltiplos desideratos de toda e qualquer instituição de gênero análogo: propugnar pela preservação, difusão e domínio do idioma pátrio.

Honrando seu nome que, na origem indígena, siginifica “rio de mel”, o laureado advogado e professor Ironi, detentor de três graduações e quase uma dezena de especializações na área das Letras, do Direito e da Psicanálise, “mergulha” nas nuanças da linguagem, desvelando os segredos e os encantos que permeiam nossa rica tradição linguística. Sua maestria revela-se, não apenas na erudição, mas na paixão por compartilhar o poder transformador das palavras e por poder guiar seus confrades, alunos e leitores pelo majestoso universo do conhecimento linguístico-cultural.

Para a Academia Passo-Fundense de Letras é uma honra ter em seu quadro de quarenta acadêmicos este Cidadão Passo-Fundense Honorário, que veio da Linha Segredo, interior de Arvorezinha/RS, “falando tudo errado”, como ele próprio conta, mas que foi galgando degraus com muito estudo e trabalho, chegando a ser Professor Emérito da Feira do Livro e um dos homenageados com o prêmio máximo das Letras em Passo Fundo, Mérito Cultural Sante Uberto Barbieri, conferido pela APLetras. Em nível estadual, recebeu três vezes o Prêmio Competências, ao ser eleito o melhor professor do Rio Grande do Sul. Tantas conquistas e tantos reconhecimentos também são fruto de mais de cinquenta anos de dedicação à docência e de mais de 2.000 palestras proferidas no Brasil e no exterior.

Como todo bom Guardião, o autor da vez trabalha em várias frentes pelo sucesso dos quatorze projetos literários da APLetras. A partir deste ano, depois de já ter presidido o sodalício em 2001, volta para a Diretoria como vice-presidente e segue na luta pela preservação da Língua Portuguesa e pela expansão da cultura em geral. Como pessoa rara e imprescindível que é, nos influencia com o seu amor pelas letras, tal qual demonstrado em uma das edições do informativo Guardião das Letras, que vocês lerão neste livro: “Quanto mais conhecemos alguma coisa, mais a amamos”. Pergunta ele: “E conhecemos nosso idioma em sua origem, em sua evolução, em seu regramento, em sua grandeza? Se sim, por certo amamo-lo; se não, nossa alma não terá espaço para ele”.

Em outra edição, publica uma das perguntas que lhe fizeram: “Nobilíssimo Guardião, por que o idioma oficial do Brasil é Português, e não o Tupi-Guarani? E responde: “…o idioma é o maior elemento formador da identidade territorial de uma nação. (…) Urge esclarecer, que não existe uma língua tupi-guarani. Essa expressão designa uma família linguística, dentro da qual incluem-se dezenas de idiomas indígenas, inclusive, é claro, o tupi e o guarani. À época do descobrimento, havia mais de 1.200 povos indígenas e cerca de mil idiomas nativos aqui”.

Concluo assim meu mister: obrigada, Ironi, por reforçar a nossa identidade nacional, aproximando as pessoas pelo uso correto da Língua, facilitando a comunicação e, consequentemente, melhorando os relacionamentos. Obrigada por aceitares ser o nosso Guardião. E parabéns por mais esta rica obra!

Boa leitura a todos!

Maiores informações sobre a obra:

Para quem tiver interesse na obra, pode procurar o autor Ironi Andrade em suas redes sociais ou através do telefone (54) 99954 9698.

Autora: Marilise Brockstedt Lech. Psicóloga Educacional/Cadeira 39 da APLetras. Também publicou no site a crônica Revolução pela educação – uma nova consciência: https://www.neipies.com/revolucao-pela-educacao-urgencia-de-uma-nova-consciencia/

Edição: A. R.

Desqualificar educação pública é meta das reformas educacionais

Se não tomarmos consciência e reagirmos, a educação pública será destruída pela lógica do Empreendedorismo na escola, financeirização da educação e conformismo da sociedade e do “protagonismo juvenil”.

A educação básica no Brasil apresenta regressão e piora de vários indicadores. Esta condição do segmento não revela apenas uma crise e uma disputa pelo controle pedagógico, mas evidencia um projeto destrutivo. O país não somente abdicou de universalizar com qualidade social a formação das crianças e jovens – como prevê a Constituição Federal –, mas ataca a educação pública e implementa reformas educacionais de natureza privatista, financista e instrumental.

Desqualificar e privatizar a educação básica pública estatal, responsável por mais de 84,2% das matrículas no país, parece ser o objetivo principal das reformas educacionais em implementação nas escolas desde 2017, com as Bases Nacionais Comuns Curriculares (BNCCs) – da educação infantil e ensino fundamental, do Novo Ensino Médio –, bem como as BNCs – Formação Inicial e Continuada de Professores.

Educação Básica piora com as reformas educacionais

Para justificar as sucessivas reformas neoliberais, a educação pública foi sendo gradativamente atacada, desqualificada e deslegitimada junto à sociedade. Existem várias estratégias para atingir esta finalidade, como: sucatear mediante redução dos investimentos; destruir a carreira docente com contratos precários e temporários; descontinuar as políticas educacionais de estado; críticas e ataques sistemáticos a educação pública; negação do direito à educação aos estudantes; descumprimento dos Plano Nacional de Educação (PNE) e dos planos estaduais e municipais, entre outras.

Entre tantas estratégias praticadas, a educação pública sofre críticas sistemáticas e uma campanha constante de desqualificação protagonizadas pelos atores privados e diversos meios de comunicação (Jornais, TVs, Canais de Assinaturas, etc).

A título de exemplo, vejamos o que a pesquisadora da Faculdade de Educação da Unicamp, Thais Rodrigues Marin, identificou ao analisar 1.197 artigos de opinião e 145 editoriais publicados somente pelo Jornal Folha de São Paulo no período de 15 anos (2005–2020).

Na análise destas publicações, o que mais surpreendeu a educadora foi encontrar nos textos uma postura reiterada de desqualificação do sistema brasileiro de educação pública, com ataques que atingiram, também, os professores dessa rede pública. São recorrentes as expressões exageradamente negativas, catastróficas e mesmo grosseiras para caracterizar a educação pública, tais como “tragédia”, “desastre’, “fracasso” e “mediocridade’.

A pesquisa identificou e destacou seis narrativas que mais se evidenciaram. A primeira delas – “a mais expressiva”, é a da desqualificação da educação pública de modo geral no Brasil e a consequente necessidade de reformá-la. “Esse ideário de crise da má qualidade respalda as iniciativas de reforma da educação, ou reforma empresarial da educação, que temos hoje”.

A segunda narrativa, a do financiamento, defendendo não faltar recursos para a educação básica, mas faltar eficiência na gestão do Estado. A terceira, a de desqualificação dos professores da escola pública, descrevendo-os como acomodados, malformados e corporativistas. “Esse discurso coloca o professor como inimigo e nega sua condição de trabalhador”.

A avaliação educacional relacionada a mecanismos de vigilância do trabalho do professor e de mensuração em larga escala configura a quarta narrativa identificada na pesquisa. “Isso é reflexo do modo de funcionamento corporativo e meritocrático, de mensurar o trabalho com métricas, para premiar ou punir. A qualidade da educação passa a significar posições em rankings, e o professor é responsabilizado por esses resultados, desconsiderando-se problemas estruturais que também afetam o processo educativo”, explica Marin

A quinta narrativa versa sobre as parcerias educacionais, recorrente nos artigos, tendo relação “direta com a privatização” e fica até mais fácil de entender, porque coloca os atores não estatais como supostamente mais capazes para oferecer soluções e diz como eles são importantes para que a política educacional seja de melhor qualidade”

A sexta e última narrativa descrita pela pesquisadora trata das finalidades educacionais. “Essa narrativa resume-se a colocar na conta da escola a superação das desigualdades sociais e o desenvolvimento econômico, defendendo que a suposta má qualidade da educação seria a causa da perpetuação de desigualdades e do arrefecimento da economia. Isso é a teoria do capital humano alinhada ao discurso neoliberal”.

Tais narrativas endossam, legitimam e consolidam uma opinião pública contrária a oferta pública e favorável aos processos e práticas privatistas. Com a repetição, diz a pesquisadora, essas narrativas vão se tornando hegemônicas na sociedade e se naturalizando. A sociedade fica inerte e não reage na defesa da oferta de uma educação pública com qualidade que historicamente era a melhor no país, como ainda são as Universidades e Institutos Federais.

Por fim, a pesquisadora lembra que a educação escolar no Brasil já nasceu privatizada por intermédio da Companhia de Jesus, vinculada a igreja católica. Sempre houve um ator não estatal na política educacional brasileira. Porém, desde os anos de 1990, o Estado brasileiro vem sofrendo um processo de reestruturação e enxugamento e vem se abrindo a novos atores, que passam a participar, também, da política educacional”, descreve a pesquisadora.

Quando se examina a interferência da iniciativa privada na escola básica, nem sempre ficam inteiramente explícitos os conceitos e os princípios envolvidos na análise. Para o professor Vitor Henrique Paro (USP), a interferência do privado na escola básica – especialmente por meio dos pacotes e “sistemas” de ensino comercializados pela iniciativa, sonega dos educadores escolares o direito (e o dever) de planejarem, organizarem e executarem a aprendizagem em estreita colaboração com seus colegas e educandos. Ao invadir, assim, o espaço público, o privado não só reduz a universalidade da cidadania, mas, também, solapa o terreno em que se constrói o educativo.

Indicadores apontam retrocessos em vários níveis e modalidades

Conforme o Censo da Educação Básica de 2023 e a Pesquisa por Amostra de Domicílios (PNAD da Educação 2023) publicada em 22 de março/2024, a educação básica apresenta piora e retrocessos de indicadores em vários níveis e modalidades. Em 2023, registraram‐se 47,3 milhões de matrículas nas 178,5 mil escolas de educação básica no Brasil, cerca de 77 mil matrículas a menos em comparação com o ano de 2022. Essa leve queda é reflexo do recuo de 1,3% observado no último ano na matrícula da rede pública, que passou de 38,4 milhões em 2022 para 37,9 milhões em 2023, e o aumento de 4,7% das matrículas da rede privada.  A proporção de matrículas no ensino fundamental cai pelo terceiro ano seguido, sinalizando uma tendência estrutural.

O censo revela que foram registradas 26,1 milhões de matrículas no ensino fundamental em 2023. Esse valor é 3,0% menor do que o registrado para o ano de 2019. Nos últimos cinco anos, essa redução foi mais acentuada nos anos iniciais (3,9%) do que nos anos finais do ensino fundamental (1,9%).  O Ensino Médio apresentou 7,7 milhões de matrículas no ensino médio, uma redução de 2,4% no último ano.

Já na Educação de Jovens e Adultos (EJA), o número de matrículas diminuiu 20,9% entre 2019 e 2023 chegando a 2,6 milhões em 2023. A queda no último ano foi de 6,7%, ocorrendo de forma semelhante nas etapas de nível fundamental e de nível médio, que apresentaram redução de 6,9% e 6,3%, respectivamente.

Segundo a PNAD de Educação também de 2023, o Brasil tem 48,5 milhões de pessoas de 15 a 29 anos de idade e 15,3% deles estavam ocupadas e estudando, 19,8% não estavam ocupadas nem estudando, 25,5% não estavam ocupadas, porém estudavam e 39,4% estavam ocupadas e não estudavam.

A Pnad revelou que 9 milhões de estudantes não conseguiram terminar o Ensino Médio no Brasil, em 2023. Destes, 58,1% são homens e 41,9% são mulheres. A discrepância é maior entre a população negra. Cerca de 71,6% dos alunos que desistiram de estudar são pretos ou pardos, enquanto o cenário é de 27,4% entre os brancos. A mesma pesquisa mostra, também, que o Brasil, o analfabetismo resiste, ainda tem 9,3 milhões de pessoas analfabetas com 15 anos ou mais de idade.

Somente a modalidade da Educação Profissional (EP) apresenta indicadores de expansão, chegando a 2,4 milhão de matrículas em 2023, um aumento de 26,1% em relação a 2019. Porém, a EJA do ensino médio que teve um discreto declínio; a modalidade com maior incremento relativo foi a dos cursos de formação inicial e continuada ou de qualificação profissional (FIC), que apesar do baixo número de matrículas em termos absolutos, cresceu 71,9% no último ano.

Porém, as matrículas da EP estão principalmente concentradas na rede privada, representando 44,4%, seguida das redes estadual e federal, com 38,2% e 13,7%, respectivamente. De todas as etapas de ensino, a educação profissional é a que detém o maior número de matrículas na rede federal, alcançando 331.037 em 2023. A mesma rede apresenta o maior número de matrículas da educação profissional na zona rural (no campo).

Ainda, segundo dados da PNAD da Educação 2023, quase 400 mil crianças e jovens de 6 a 14 anos não estavam frequentando a escola em 2023. O número demonstra que 5,4% dos alunos abandonaram a escola no último ano. A parcela de crianças na escola começou a cair a partir de 2019. Daquele ano para 2022, o volume de alunos foi de 97,1% para 95,2%, refletindo, até então, os efeitos da pandemia de Covid-19, das reformas educacionais, da queda dos investimentos e da precarização das escolas.

Cabe lembrar que a educação pública há três décadas tinha suas vagas disputadas pelas juventudes que esperavam conseguir trabalho e mobilidade social com base em sua escolarização, hoje precisa oferecer recursos financeiros aos estudantes, como os programas Pé-de-Meia (MEC), Todo Jovem na Escola (SEDUC-RS) e Primeira Chance (Paraíba) para que a evasão não seja tão massiva. Essa mudança de posição da educação escolar, alerta Caroline Catini (UNICAMP), impõe a análise de outras contradições do sentido da escolarização, que não fique presa no argumento da garantia da permanência de estudantes mais pobres e que abandonariam a escola sem tal incentivo financeiro.

A ótica da financeirização e da privatização

Da ótica do empresariado e investidores, como comandam a reestruturação da forma e função da educação escolar, além de uma fonte direta de rendimentos, por meio de investimentos em ativos reais e financeiros e do controle sobre o orçamento estatal, a educação, antes de tudo, tende a ser reduzida a um conjunto de dispositivos voltados à divisão, fragmentação, seleção, discriminação, e controle sobre a juventude, seja na condição de trabalhadores a serem explorados, de consumidores a serem condicionados, ou de uma massa endividada e enredada nas teias da financeirização.

Não por acaso, prossegue a pesquisadora Catini, a educação financeira é componente curricular da BNCC, em vigor desde 2017, e em 2021 foi criada uma comissão para formar professores e professoras para abordar a temática em sala de aula. Além de calcular, poupar e investir, a educação financeira visa ensinar um conjunto de comportamentos para que os jovens façam escolhas mais “conscientes”. De fato, a educação financeira está ganhando cada vez mais centralidade nos currículos dos estados desde a educação infantil. Em São Paulo, por exemplo, desde o meio do ano de 2023, todas as disciplinas eletivas criadas com a Reforma do Ensino Médio foram substituídas por aulas de educação financeira. Chegaram a ser criadas mais de 1.500 disciplinas nos primeiros anos de implementação da reforma. O programa pretende atender 2,5 milhões de jovens, os mais pobres, do universo de quase 8 milhões de estudantes de ensino médio.

A educação superior seguiu esta lógica da privatização e mercantilização, com mais de 2/3 das matrículas pagas, onde cinco grupos educacionais respondem por 2,5 milhões de matrículas, a maioria na modalidade EAD. Esta lógica está sendo desenvolvida e aplicada à Educação Básica. É a lógica mercantil e financista do capitalismo adentrando os espaços de formação acadêmica e escolar. Trata-se da destruição da educação pública enquanto direito e espaço comum público.

Se não tomarmos consciência e reagirmos, a educação pública será destruída pela lógica do Empreendedorismo na escola, financeirização da educação e conformismo da sociedade e do “protagonismo juvenil”.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/04/desqualificar-educacao-publica-e-meta-das-reformas-educacionais/

Autor Gabriel Grabowski. Também já publicou texto “O Brasil é o terceiro país com menor investimento por aluno”: https://www.neipies.com/brasil-e-o-terceiro-pais-com-menor-investimento-por-aluno/

Edição: A. R.

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