Início Site Página 193

A luta por um projeto civilizatório

O centro do sistema também vive suas crises,
e tenta de todas as formas, transferir seus problemas
à parcela do mundo invisibilizado.

 A sociedade que é capaz dos feitos mais extraordinários em termos tecnológicos é a mesma que é arrastada por uma onda avassaladora ao passado, onde a barbárie se fez reinar. Ainda é verdade que a barbárie nunca deixou de existir, mas ao longo do tempo vem tomando outros formatos.

Conforme Voltaire, “A civilização não suprime a barbárie, aperfeiçoa-a.” Por isso, agora a necessidade de reflexão se impõe quanto ao que nos levou a permitir o implacável ciclo histórico de se restabelecer.

Estamos diante de ataques políticos virulentos que suprimem rapidamente conquistas civilizatórias importantes, historicamente conquistadas, que visam tirar da frente do “Todo Poderoso Capital” qualquer obstáculo que atrapalhe sua incessante, egoísta e desumana escalada lucrativa. Lucro este que se edifica rapidamente na destruição de direitos sociais e econômicos da classe trabalhadora.

Ao mesmo tempo, o sentido da liberdade é retorcido à lógica neoliberal da concorrência, onde os reflexos mais significativos são sentidos na consciência dos trabalhadores, no intuito de fragilizar as relações humanas e de classe. Dessa forma, a inércia se faz instrumento pelo qual se estabelecem políticas antidemocráticas das quais o Estado é o principal promotor.

O mesmo Estado que outrora tinha o papel de dirimir as diferenças, na busca de uma mínima harmonia social e que agora tem sua existência resumida a servir aos anseios do que ditam os grandes grupos capitalistas.


“Todos nós fomos coagidos e seduzidos para ver o consumo como uma receita para uma boa vida e a principal solução para os problemas. O problema é que a receita está além do alcance de boa parte da população”. (Sygmund Bauman)


O geógrafo Milton Santos já afirmara isso há pelo menos duas décadas atrás ao dizer que “As políticas que hoje são das grandes empresas, amanhã serão as políticas dos Estados.”

Diante da velocidade com que se desmantelam a democracia e a dignidade, e cresce a indiferença por pautas importantes para a qualidade de vida da população, é inevitável uma visita à ideia de Auguste Rodin. Para ele, a civilização é em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava.

A titulo de exemplo, no Brasil, alguns “traços” de democracia que levamos séculos para construir, foram sobre solo movediço, passos incautos em direção às diferenças abissais que fomentam a ignorância, a violência, as doenças e a fome. Esse é um exemplo imediato, que se encontra mais próximo de nós, estamos na periferia do sistema capitalista, somos o elo frágil desse imbricado sistema econômico e social globalizado, porém não somos o único, o centro do sistema também vive suas crises, e tenta de todas as formas, transferir seus problemas à parcela do mundo invisibilizado.

Estamos diante de graves problemas que não contam com antídotos de pronto efeito, oriundos de crises políticas, sociais e econômicas, que exigem uma frente única de resistência, classista e anticapitalista para reagir diante de tanto disparate a ser combatido, numa perspectiva societária e emancipatória dos trabalhadores.

Uma reflexão rápida, contudo importante, é fundamental na construção desta sociedade. É sabermos que existem causas que nos unem, que são anseios comuns. Todos querem vida plena e feliz, e esse já é motivo suficiente para a luta por um projeto plenamente civilizatório.


A história das coisas é um filme dinâmico e objetivo, que fala dentre outros assuntos, sobre o consumo exagerado de bens materiais, e o impacto agressivo que esse consumo desregrado acaba exercendo sobre o meio ambiente. O filme é apresentado por Annie Leonard, e mostra de uma maneira bastante clara todo o processo que vai desde a extração da matéria, confecção do produto, venda e ideologia publicitária, facilidade de compra e falsa ideia de necessidade, até o momento em que vai parar nos galpões de lixo ou incineradores.

Direitos Humanos e religiosidade popular: um debate necessário

O diálogo inter-religioso é necessário para a construção
de um ambiente de tolerância e respeito e uma
cultura de paz entre todos os povos, nações e culturas.

Aconteceu, neste último dia 16 de abril de 2019, o Primeiro Seminário Direitos Humanos e religiosidade popular, no Auditório da IFFS (Instituto Federal da Fronteira Sul), em Passo Fundo, RS.

O Seminário foi organizado pela Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF), juntamente com outras organizações apoiadoras. O Seminário foi organizado por estudantes do Curso de Especialização Agentes Defensores de Direitos Humanos.

O encontro que reuniu seis denominações religiosas teve a mediação dos debates com o professor da UPF Frederico Santos. A apresentação dos trabalhos foi de Ipácio Carolino. O evento contou com a presença das seguintes denominações religiosas: Centro Espírita Dias da Cruz, Igreja Católica/ITEPA, Comunidade judaica de Passo Fundo, Comunidade islâmica de Passo Fundo, Soto Zen Budismo Japonês, Igreja Evangélica de Confissão Luterana do Brasil e Religião de Matriz Africana.

Seguem alguns registros do encontro que foi definido como um grande EXITO pela participação expressiva de participantes e pela participação intensa e interessada das diferentes religiões que se dispuseram a realizar um diálogo inter-religioso que teve intuito tanto de reconhecer as diferenças como destacar os elementos comuns das diferentes organizações religiosas.

O diálogo inter-religioso é necessário para a construção de um ambiente de tolerância e respeito e uma cultura de paz entre todos os povos, nações e culturas.

A iniciativa, inédita em seu formato num ambiente acadêmico, deverá continuar inspirando a realização de outras iniciativas que promovam o respeito e a liberdade de crenças e de cultos no Brasil afora.

Reflexão do início dos trabalhos

A liberdade de crença é um dos direitos humanos mais importantes. Constitui aquilo que ficou conhecido na história como uma das liberdades fundamentais, uma expressão muito usada na declaração universal dos direitos humanos.

Nenhuma sociedade pode se constituir e se afirmar sem o respeito a essa liberdade, pois ela diz respeito a um dos elementos mais profundos da subjetividade humana, é do modo de ser humano ter crenças. E essas crenças podem ser filosóficas, ideológicas ou religiosas, podendo ganhar institucionalidade ou não.

Na raiz de toda religiosidade popular está este direito humano, que é uma condição fundamental para que a dignidade humana. Este direito está na dimensão subjetiva, simbólica, espiritual, que é tão importante quanto os direitos que dizem respeito às dimensões materiais, de reprodução da vida, das condições econômicas.

Falar de direitos humanos e religiosidade popular é colocar na agenda a importância da liberdade de crença e, em consequência, a responsabilidade com o respeito a todas as crenças, a todas as manifestações religiosas, a todas as religiosidades, e também a todas as religiões, sobretudo enquanto forem espaços de afirmação da dignidade humana.

Por outro lado, também é momento de fazer a denúncia daquelas práticas que são intolerantes, que não respeitam esta liberdade, que não conseguem conviver com a diversidade. Por isso, o Seminário Direitos Dumanos e religiosidade popular quer ser um espaço para que se reflita sobre esse direito fundamental à liberdade de crença e também para que se possa construir estratégias para fazer frente àquelas práticas que são agressivas e violam esse direito.

Reflexão de Gizele Zanotto, professora e Coordenadora do Laboratório de Estudos das Crenças (LEC-PPG/UPF) 

“É uma honra e um privilégio participar desse debate sobre Direitos Humanos e Religiosidade Popular. Mais do que parabenizar os organizadores, os agradeço pela ousadia do empreendimento – sempre necessário e talvez no contexto atual ainda mais urgente. Como cidadã, me sinto beneficiada pela oportunidade de aprender sobre formas de crer e de viver o religioso.

Religiões são culturas e a valorização cultural por si só é um direito, alçado à elemento constitucional com a defesa da cidadania cultural, do respeito à diversidade, consagrados em nossa Carta Magna de 1988.

Quando nos referimos a religiosidade popular, estamos designando opções, disposições e tendências religiosas de quaisquer religiões. Para além das ortodoxias defendidas pelas entidades, associações, movimentos e grupos religiosos, há um intenso processo de criação, composição e articulação que é próprio da ação humana em busca de elementos do sagrado que lhe façam sentido, que lhe respondam à anseios e demandas do cotidiano. Essas recomposições – criadoras e criativas – evidenciam a agência humana na formatação do seu crer, seja individual ou coletivo.

Religiões e religiosidades são fenômenos transversais, que se imbricam, complementam e retroalimentam cotidianamente. Tais recriações nos são direitos.

Tais direitos constitucionais, articulados aos direitos humanos, definem nossa possibilidade e dever de respeitar o outro em sua singularidade, diversidade e humanidade. São universais, inalienáveis, indivisíveis; são todos de igual importância. Como direitos – também vinculados a deveres que lhes são correlatos – deveriam ser seguidos. Todavia, cá estamos nós ainda debatendo situações em que o direito ao crer e ao praticar suas crenças sofre sanções, silenciamentos, desvalorização e mesmo restrição, censura e violações.

O que esperamos com esse debate, certamente enriquecedor a todos os presentes, é que consolidemos sempre mais nosso direito ao crer, articulado ao dever de cidadania e respeito à diferença”.

Fotos: Ingra Costa e Silva

Crescimento econômico e o problema do esgoto a céu aberto


A economia produtiva, historicamente, tem sido constantemente colocada para o serviço de atenuar os baixos padrões de renda, e pouco ou nenhum esforço é então direcionado para erradicar as condições inóspitas de vida, cuja expressão maior, sem espaço a dúvida, é a falta de saneamento básico.

O pensamento econômico convencional insiste em medir níveis de pobreza tão somente a partir da insuficiência de renda. Por esse critério, o Banco Mundial constatou em 2012 que 12,7% da população mundial (903 milhões de pessoas), que recebia menos de US$ 1,90 ao dia (considerando a paridade do poder aquisitivo) eram considerados pobres, vivendo, portanto, abaixo dessa “linha”. 

A questão central é que o correto conceito de pobreza não pode se limitar a insuficiência de renda, mas necessariamente tem que abarcar outras tantas privações que mancham as abjetas condições de vida dos mais necessitados, dentre essas a falta de saneamento básico, vale dizer, a convivência direta e diária com esgoto a céu aberto.

Pior é que não há, aos olhos da economia tradicional, pelo menos a contento, uma correlação entre as privações de renda e de higiene. Diante disso, o convencionalismo econômico “prioriza” medidas de combate à insuficiência de renda, usando para tanto políticas de estímulo ao crescimento físico da economia, enquanto fecha os olhos para o gravíssimo problema da falta de saneamento básico.

Não por acaso, no mundo, mais de 38% das pessoas sofrem com a falta de higiene básica. Tomando apenas os 48 países considerados “menos desenvolvidos” descobre-se que 65,5% das pessoas ali residentes desconhecem as noções centrais de um ambiente favorável em termos de saneamento básico.

No ranking mundial do saneamento, o Brasil ocupa a vexatória 112° posição, com mais da metade de sua população (estima-se em 118 milhões de pessoas) sem acesso a tratamento de esgoto. Somente a região Norte tem 90% dos brasileiros vivendo sem serviços de saneamento básico.

Daí decorre outro inquietante problema: ao expor especialmente as crianças em contato direto com esgoto a céu aberto, consequentemente com vírus e bactérias, aumenta-se sobremaneira a incidência de doenças como febre tifoide, cólera, leptospirose e parasitose.

Não é de hoje que estudos médicos mostram claras evidências que, recorrente infecção parasitária na primeira infância (de 0 a 7 anos), por exemplo, reduz sensivelmente a capacidade de raciocínio, comprometendo para sempre a inteligência e o desenvolvimento corporal dos futuros adultos.

De igual modo, um recém-nascido, cuja mãe, durante toda a gestação, esteve exposta a um ambiente sem coleta e tratamento de esgoto, vai sentir muito mais a exposição a essas substâncias e, certamente, poderá ter má formação cardíaca, sofrer de deficiência hepática, além de apresentar problemas de ordem imunológica.

Ademais, a comum diarreia que acomete crianças expostas ao contato direto com esgoto a céu aberto “suga” do cérebro as calorias necessárias a seu desenvolvimento. Relacionado a isso, não se pode perder de vista que o cérebro é o órgão do corpo humano que mais consome energia. Num recém-nascido esse “consumo” é de 87%; com cinco anos cai para 44%, aos dez chega em 34%, e, num adulto, consome 20%.

Desnecessário afirmar que essa energia é vital para manter as células cerebrais saudáveis e alimentar impulsos nervosos. Ora, é evidente que isso afeta todo o sistema neurológico, ou seja, o sistema nervoso central e periférico de uma criança, comprometendo-a em suas funções futuras.

Nesses casos, o cérebro pode até desenvolver o tamanho correto, mas a capacidade de fazer sinapses, ou seja, de conectar ligações nervosas estará pois completamente prejudicada.

A ciência mostra que 90% das sinapses se formam até os 7 anos de vida, atingindo a maturação e a complexidade de uma rede neuronal aos 18 anos. Logo, essas faixas de idade –  0 a 7, e de 8 a 18 – determinam a capacidade e a personalidade do indivíduo.

Uma criança que nasce e vive, especialmente em seus primeiros anos vida em ambientes expostos a péssimas condições de saneamento, convivendo com todo tipo de contaminação ali decorrente, sofrerá considerável déficit de aprendizado intelectual pelo resto de sua vida.

Pois bem. Aonde se relaciona a questão do crescimento econômico com esses fatos?  Simples: enquanto o tradicional pensamento econômico não se desgarrar da noção fartamente difundida de que a pobreza não deve ser vista apenas pela insuficiência de renda, e, por isso, enveredar esforços no crescimento da economia para tão somente “tentar” aumentar a renda geral, perpetuaremos o gravíssimo problema da falta de saneamento básico, condição essa posta em plano secundário diante da “necessidade” de promover o famigerado aumento da renda.

Num tempo em que o desenvolvimento tecnológico avança celeremente no intuito de facilitar a construção de mundo mais pacífico e menos desigual, parece não haver paradoxo mais tosco e aberrante que presenciar incomensurável contingente populacional vivendo em desumanas condições de vida, expostas ao convívio diário com esgotos a céu aberto.

No entanto, a economia produtiva, historicamente, tem sido constantemente colocada para o serviço de atenuar os baixos padrões de renda, e pouco ou nenhum esforço é então direcionado para erradicar as condições inóspitas de vida, cuja expressão maior, sem espaço a dúvida, é a falta de saneamento básico.

Posto isto, cabe indagar: até quando tal desproporção será aceitável?

Visita de conhecimentos: forma de conhecer as tradições religiosas

Numa experiência inédita na cidade de Passo Fundo, pelo quarto ano consecutivo, alunos e alunas do nono ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino de Costi (ZDC), organizados por seu professor de Ensino Religioso, realizam visitas de conhecimento à Catedral (referência dos cristãos católicos), Sinagoga (referência dos irmãos judeus), Mesquita (referência dos irmãos muçulmanos) e Centro Espírita Dias da Cruz (referência dos irmãos espíritas).

O objetivo da atividade é complementar e ampliar os conhecimentos das tradições religiosas já estudadas em sala de aula, conhecendo os lugares e as referências físicas (templos ou prédios com funções religiosas). O conhecimento mais rico das diferentes religiões nem sempre está disponível e compreensível em livros, vídeos ou na internet.

O conhecimento das estruturas religiosas e a conversa breve de 30 minutos com diferentes líderes religiosos numa única tarde, ajuda a desmistificar os valores e as crenças das religiões, como também ajuda os adolescentes e jovens a desconstruir preconceitos e construir novos conceitos sobre as mesmas.

Conhecer, conversar, ver, tocar, sentar, observar e trocar informações e impressões faz com que esta atividade se torne tão única e tão rica em aprendizagens.

Publicaremos, a seguir, depoimentos dos religiosos que atendem estas visitas de conhecimento, alguns depoimentos de alunos participantes e também breve avaliação de professores da rede municipal que já acompanharam esta atividade.

Religiosos

Berel Natan Engelman, líder religioso da Sinagoga dos judeus em Passo Fundo

“A experiência vivida certamente é muito positiva para ambos os lados, mas ter convivido esses momentos seguidos de várias perguntas formuladas pelos alunos, só vem reforçar o que nós, como entidade religiosa, pensamos em relação à proximidade com outras pessoas de culto e fé diferente da nossa. Parabenizo pela iniciativa das visitações junto aos locais sagrados, tendo a certeza que esta juventude crescerá com mais informações, sabendo respeitar as culturas diversas existentes em nosso país. Parabéns e Shalom!

Padre Ari dos Reis, Catedral Arquidiocese de Passo Fundo

“Considero muito significativa a oportunidade dos alunos visitarem os espaços sagrados das diferentes tradições religiosas. Foi uma alegria poder partilhar alguma coisa da história da Igreja Catedral para o grupo. Ao mesmo tempo, permite revisitarmos a história da construção da Catedral, partilhando dos elementos fundamentais do rito católico romano. Acredito que esta partilha também aconteceu com outros grupos e isto ajuda aos adolescentes a serem mais respeitosos das diferentes denominações religiosas. Sempre a disposição”.

Paulo Eberhardt, Centro Espírita Dias da Cruz

“As visitas e palestras sobre Espiritismo contribuem para a correta compreensão do Espiritismo. Quando realizamos um evento doutrinário ao público em geral, consideramos muito mais a oportunidade de levarmos os ensinos do Evangelho de Jesus, em sua pureza, desataviado, fazendo com que cada um compreenda os objetivos Divinos de sua existência, procurando dar um sentido a vida e também preparando para o inevitável, a seu retorno à pátria Espiritual, bem como o de seus entes queridos. Os adolescentes e jovens tem muito a aprender com o Espiritismo”.

Raduan Jehani, comunidade muçulmana em Passo Fundo

“Ficamos muito felizes ao receber adolescentes e jovens em nossa Mesquita. Assim, podem conhecer o islamismo como ele é, não como ele é apresentado pela grande mídia e pela internet. Nossa mesquita está sempre aberta, temos uma pequena biblioteca que pode auxiliar, e podemos explicar e atender a grupos de estudantes quando alguém ou alguma escola solicitar”.

Estudantes

Pedro Henrique Padilha

“Achei muito interessante os templos, mas o que mais me chamou a atenção foi a sinagoga, pois pensava que era uma coisa e era outra totalmente diferente. Achei muito legal o passeio e o tempo que passamos conhecendo os templo, mudei totalmente minha ideia de algumas religiões”.

Gabrielly Almeida

“Descobrimos durante as visitas que uma religião pode ser diferente do que as pessoas que estão por fora delas falam. Às vezes, tudo o que precisamos é de mais sabedoria, porque assim é que criamos o respeito. Se houver respeito, há esperança de paz”.

Júlia Eduarda Meneghini

“As visitas e palestras são uma ótima forma de nos trazer conhecimentos sobre religiões diversas. Este passeio foi muito importante para estudarmos mais a fundo as religiões, para entendermos sua história e suas crenças, tirarmos nossas dúvidas e também para deixarmos o preconceito de lado e termos mais respeito com todas as religiões”.

Ana Laura Freddi

“Gostei da ideia, pois somos jovens e podemos conhecer as religiões sem saber a verdade e só a partir do que os outros falam. Então, depois dessa visita, podemos ter mais respeito. Quero agradecer aos envolvidos que nos oportunizaram esta novidade. Esse passeio foi uma experiência incrível”. Obrigado!

Professoras que acompanharam a visita

Graziela Bergonsi Tussi, professora de Geografia

“Trabalhamos praticamente concomitante os aspectos do fundamentalismo religioso, mas com focos diferentes. Vejo essa atividade muito positiva para compreensão das temáticas trabalhadas na disciplina de Geografia. O nono ano está trabalhando conflitos mundiais e alguns deles são justificados pelos fundamentalistas como sendo necessários, por serem em ‘nome de Deus’. Esses esclarecimentos que são feitos na disciplina de Ensino Religioso, levando os alunos até seus templos, os ajuda a desmistificar o esteriótipo de muçulmanos terroristas, por exemplo. Entender essa pluralidade religiosa e aprender a respeitá-la fará com que eles levem essa cultura para sua vida adulta, e esse é nosso papel, como educadores”.

Vanilde Bordignon, professora Educação Física

“Não só falar, mas também oferecer a oportunidade de vivenciar e sentir na prática é muito importante para os jovens, pois assim agregam mais conhecimentos. Trazer o respeito e a união como forma de aproximação entre as religiões é de extrema importância para que alcancemos a paz e pessoas melhores, mais humanizadas”.

Luce Segat, professora de matemática

“Vejo o trabalho que o colega Nei Alberto Pies realiza com os adolescentes do nono ano do EF de extrema importância. Neste momento da vida humana chamada adolescência, é essencial para a definição social, psicológica e religiosa que irá interferir na construção da atuação individual e coletiva dos nossos alunos adolescentes.
O que o professor Nei faz é dar aos alunos a oportunidade de entender da maneira correta, no meu ver, as diferenças entre conceitos de crenças religiosas. De uma maneira agradável, até mesmo festiva, os alunos conhecem pessoas que vivem e valorizam as suas crenças. Além de ouvir, podem tirar dúvidas, curiosidades, preenchem lacunas. Compreendem que religião significa “religar” o ser humano a alguma crença. Não interessa a crença, e, sim, o seu Deus. Maravilhoso trabalho que já pude acompanhar pessoalmente”.

Para concluir…

Esta atividade de visita de conhecimentos aos templos sagrados de diferentes religiões é um diferencial pedagógico na abordagem do conhecimento das diferentes religiões.

Na escola, tem gerado importante expectativas entre os alunos, entre os professores e em toda comunidade escolar. Depois de quatro anos, pais e mães já entendem, com maior facilidade, o objetivo da atividade.

Percebe-se um interesse cada vez maior dos alunos em conhecer lugares sagrados. Os alunos do nono ano deste ano de 2019, desta escola, estão organizando também uma visita ao Templo Budista de Três Coroas, no RS.

Os representantes das religiões visitadas tornam-se cada vez mais receptivos, o que qualifica as visitas desde a recepção até os conhecimentos que são repassados aos alunos num tempo curto de meia hora. Quando necessário, os representantes das religiões são ainda convidados para uma palestra na escola.

A intenção desta publicação é despertar em outros professores e professoras que trabalham o Ensino Religioso a aplicação desta metodologia de trabalho.

Tiradentes: mito ou herói?


A função da história é esta.
Desconstruir tradições, reconstruir trajetórias,
questionar fatos consumados e discursos prontos.
O que, afinal, representou Tiradentes?

O momento que vivemos no país, em que são acionadas disputas diárias em torno da história e da memória, é preciso entender que tanto as memórias quanto os esquecimentos merecem ser considerados não como verdades absolutas, mas em suas possibilidades de interpretação.

A Inconfidência Mineira, por exemplo, e seu mártir Tiradentes, ainda hoje causam polêmicas. A conspiração dos mineiros foi, basicamente, um movimento de oligarcas, no interesse da oligarquia, sendo o nome do povo invocado apenas como justificativa.

Tiradentes foi um entusiástico e temerário propagandista da rebelião. Mas não há dúvida de que seu papel na trama foi, e sempre seria menor. Ainda assim, e por isso mesmo, era o bode expiatório ideal – e a Coroa o escolheu para servir de exemplo, papel que ele cumpriu com altivez espantosa.

A relevância de Tiradentes deriva de sua força simbólica que o transformou em herói nacional. As cenas de sua morte, esquartejamento de seu corpo, a exibição da cabeça, passaram a ser evocadas com muita emoção e horror nos bancos escolares.

Foi um longo processo de construção de um mito que tem sua própria história. Durante todo o período colonial ele foi visto como criminoso, por ter cometido crime der lesa-majestade.

Mesmo depois da independência Tiradentes incomodava, pois os conspiradores tinham pouca simpatia pela forma monárquica de governo. Mais. Os dois imperadores eram descendentes de Dona Maria, que o condenou à morte.

Quando da proclamação da República, esta não possuía nenhuma figura capaz de sintetizar e sustentar simbolicamente o novo regime. Fora um verdadeiro golpe militar, que precisava de legitimação. Era urgente uma figura heroica capaz de congregar diferenças, de unificar a nação e conferir legitimidade popular à República.

Eis que então é retirado do limbo da história, Tiradentes. O 21 de abril passou a ser feriado e Tiradentes foi cada vez mais retratado com traços semelhantes às imagens mais divulgadas de Cristo, tornado uma figura cívico-religiosa. O Brasil ganhou seu Cristo cívico!!

A figura do condenado ao enforcamento, com a corda no pescoço, tornou-se o grande símbolo da redenção do país. Até barba colocaram no morto.

O máximo que Tiradentes poder-se-ia permitir era um discreto bigode. Estudos contemporâneos, apresentam um Tiradentes bem mudado: sem barba, sem liderança e sem glória, como revela K. Maxwell, autor de A Devassa da Devassa, o melhor livro sobre o tema.

Como simples alferes – o equivalente a tenente, hoje – dificilmente lideraria a alta hierarquia militar, padres e desembargadores. O mesmo poderíamos dizer hoje sobre um certo capitão.

A verdade é que o enfoque excessivo sobre a figura de Tiradentes – herói, mito, bode expiatório? – acabou deixando de lado o real significado histórico da Inc.Mineira de 1789, um conflito entre grupos econômicos da colônia e do reino.

Os defensores da Escola Sem Partido devem estar indignados. Como ousa contestar um herói e um mito da nação? A função da história é esta. Desconstruir tradições, reconstruir trajetórias, questionar fatos consumados e discursos prontos.

Que filhos deixaremos para o mundo?


Os pais estão digitalmente distraídos, indulgentes,
permissivos e deixam as crianças e jovens governarem
o mundo e suas vidas, sem que se estabeleçam regras.

Nossos adolescentes estão em estado emocional muito triste, atualmente houve um aumento muito grande das doenças mentais na infância e agora na adolescência.

Um levantamento de dados estatísticos mostra que a cada 5 crianças 1 tem problemas de saúde mental, um aumento de 43% no TDAH (Transtorno de Hiperatividade e Déficit de Atenção) e um aumento de 37% de depressão em adolescentes e pior ainda um aumento de 200% em taxa de suicídio em crianças de 10 a 14 anos de idade.

Os adolescentes já estão com uma carga de problemas emocionais muito grandes, não sabem resolver seus problemas, não conseguem ser firmes em suas escolhas e não tem perspectiva de futuro, faltam-lhes objetivos, faltam-lhes pais emocionalmente disponíveis, limites claramente definidos, responsabilidades, alimentação equilibrada, sono adequado, exercícios ao ar livre, interação social e espaço para que possam demonstrar raiva e tédio.

É uma realidade que os pais estão digitalmente distraídos, indulgentes, permissivos e que deixam as crianças e jovens governarem o mundo e suas vidas, sem que se estabeleçam regras, todos podem obter tudo sem o direito de merecê-lo ou ser responsável por merecê-lo.


O que realmente importa para seu filho | Marcos Piangers

Um em cada três adolescentes brasileiros sofre de Transtorno Mentais Comum (TCM) caracterizado por tristeza frequente, dificuldade de se concentrar ou para dormir, falta de disposição para tarefas do dia a dia, entre outros sintomas.

Uma pesquisa no Brasil analisou 85 mil jovens de 12 a 17 anos de escolas públicas e privadas para levantar sintomas que podem provocar riscos cardiovasculares em adolescentes, e entre eles estão os TCM, por causa do desequilíbrio hormonal que podem provocar obesidade, hipertensão e tabagismo. Estes sintomas não podem caracterizar depressão porque são muito silenciosos, mas podem levar estes jovens a abandonar suas escolas por dificuldades de adaptação. Também podem ser a ferida emocional da depressão, da dificuldade de relacionamento e do abuso de drogas no início da vida adulta.

Katia Bloch

Segundo a Coordenadora desta pesquisa, a epidemiologista Katia Bloch da Universidade Federal do Rio de Janeiro, embora seja difícil determinar as causas do elevado índice de transtornos – por se tratar de um estudo quantitativo- os resultados nos alertam:

“É uma via de mão dupla: tanto os transtornos mentais comuns podem ser fator de risco para doenças cardiovasculares, por conta de uma mudança nos hormônios, quanto essas doenças cardiovasculares podem acabar provocando algum transtorno mental. Quem tem obesidade, por exemplo, pode vir a sofrer de TMC ou até depressão como consequência — destaca ela.

“Não precisamos ficar horas com nossos filhos, se ficarmos minutos, e estes minutos juntos emocionalmente, então estaremos, sim, amando e demonstrando esse sentimento por eles, o tempo não precisa ser medido, precisa ser vivido.

Devemos ensinar responsabilidade e independência, todos devem ter tarefas, afazeres, assim os pequenos momentos de ensinamentos se transformam em momentos de carinho, atenção e dedicação. Não podemos protegê-los de todos os problemas e frustrações, errar os ensinará a resiliência e a aprender a superar os desafios da vida. As decepções os ensinarão a lidar com os problemas e liberar o tédio, isso despertará a criatividade.

Se evitarmos o uso da tecnologia nos momentos de silêncio durante as refeições, nas horas de tristeza estaremos ensinando como funcionar quando estiverem no “modo tédio”. Ajude-os a ter uma reserva de atividades para quando estiverem entediados. Esteja emocionalmente disponível para se conectar com eles, ensinar-lhes a auto-regulação e habilidades socioemocionais.

Torne-se um regulador, um treinador ou um coaching emocional de seus filhos, ensine-os a reconhecer e gerenciar suas próprias frustrações e raiva. Conecte-se emocionalmente com seus filhos, demonstre seus sentimentos, diga que os ama, seja emocionalmente a referência de equilíbrio e boas maneiras”.

O maior legado que você poderá deixar para o mundo, não é o dinheiro, os bens materiais que você deixará para seus filhos, mas que tipo de filhos você deixará para o mundo.


“O mundo que deixaremos para nossos filhos depende dos filhos que deixaremos para o nosso mundo!”

Cultura de direitos humanos na escola formal?


Cultura de direitos humanos se tornará
uma realidade quando mudarem substancialmente
as práticas da educação no Brasil.

A escola pública e democrática é hoje uma conquista institucionalizada mas, na prática, ainda está longe de ser realidade plenamente vivenciada na escola. A escolha democrática das direções escolares, por exemplo, ainda não permitiu condições democráticas de organizar as escolas a partir de uma base curricular, de propostas pedagógicas, de metas e da organização do quadro dos professores.

Há que se considerar ainda, por vezes, a forma autoritária como os gestores da educação (secretarias municipais e estaduais de educação) organizam suas redes de ensino, sem o protagonismo da comunidade escolar, sobretudo, dos professores e alunos. Há que se considerar também que os alunos e pais ainda não participam de forma ativa na orientação e condução das práticas pedagógicas no cotidiano da vida escolar.

A escola, lugar de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de exercício de poder. Cotidianamente, através das relações interpessoais, administra as suas tensões internas, fortemente influenciadas pelo poder externo (dos governos e da comunidade). E o professor e os alunos, peças fundamentais, nem sempre são considerados em sua dimensão de pessoa humana e de sujeitos de direitos e dignidade.

As crianças e adolescentes de hoje, no atual momento histórico, são tratadas como sujeitos de direitos, a partir dos arcabouços jurídicos e legais como a Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), a Declaração Universal dos Direitos da Criança, a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) de 1990, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996, o Programa Nacional de Direitos Humanos de 21/03/2009, o Programa Mundial para Educação em Direitos Humanos (2004), dentre outros.

Para além de todo arcabouço legal, há a necessidade e uma cobrança social para avançarmos na implantação de uma cultura de direitos humanos e cidadania, a partir das próprias escolas. Estudos e pesquisas apontam que as próprias escolas poderiam ser lugares de vivências de uma cultura de paz, de superação e enfrentamento da violência e de promoção da solidariedade. A escola é um espaço de reconhecimento e promoção de cidadania, que se dá através da construção do conhecimento e da convivência social.

Lúcia Afonso (2011, p.5), afirma que:

 “embora o direito à educação seja reconhecido e garantido por lei, a escola ainda reflete as profundas desigualdades econômicas, sociais e culturais do contexto brasileiro e, se há de haver um projeto social para o fortalecimento a expansão deste direito, ele só poderá se realizar através de uma forte articulação entre educação e cidadania. É por isso que argumentamos que a escola tem papel preponderante na construção de uma cultura de promoção e garantia dos direitos humanos”.

O Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos vem trazer justamente os princípios e as linhas de ação que deveriam nortear a educação em direitos humanos não como disciplina ou área curricular específica, mas como um dos eixos norteadores da educação básica e de todo currículo escolar.

Destacamos dois princípios do Plano Nacional de Educação (2007, p.25) que sugerem que:

 “…a construção de uma cultura de direitos humanos é de especial importância em todos os espaços sociais. A escola tem um papel fundamental na construção desta cultura, contribuindo na formação de sujeitos de direito, mentalidades e identidades individuais e coletivas”. E ainda que: “a educação em direitos humanos, sobretudo no âmbito escolar, deve ser concebida de forma articulada ao combate ao racismo, sexismo, discriminação social, cultural, religiosa e outras formas de discriminação presentes na sociedade brasileira”.

Desconhecemos outra maneira de mudar culturalmente conceitos ou ideias senão pela educação. A educação em direitos humanos significa educar para a democracia, oportunizando que os cidadãos tenham noção de seus direitos e deveres e que lutem por eles. É papel da escola, e da educação, contribuir para a compreensão do mundo, para uma melhor inserção nele.

Mara Regina Zluhn (2013, p.32) pedagoga, especialista em Orientação Educacional e Mestre em Educação e Cultura, ao justificar a importância da vivência e da cidadania no cotidiano escolar, afirma que:

“… temos que considerar que estamos vivendo um momento de reestruturações e reavaliações culturais e sociais, de mutações importantes nas experiências coletivas (o Brasil é atualmente a 8ª economia mundial). Temos de adequar nossa prática pedagógica dando ênfase aos conteúdos historicamente construídos pela humanidade e retirando extratos, para fins didáticos, de uma educação que expresse as verdades humanas e seus dilemas fundamentais, com vistas para a implantação de uma escola democrática e cidadã, já que nas sociedades contemporâneas a escola é o principal lugar de estruturação de concepções de mundo e de consciência social, de consolidação de valores, da formação para a cidadania, de constituição de sujeitos sociais e de desenvolvimento das práticas pedagógicas”.

A cultura de direitos humanos promove condições em que ocorram a tolerância, o diálogo, a cidadania, a diversidade. Deve também permitir a liberdade de organização e luta aos grupos organizados em torno de seus direitos

Educação em direitos humanos não é somente um conteúdo a ser ensinado, mas pressupõe, antes de tudo, a vivência de valores e atitudes que cultivem a preservação da vida, das singularidades e das diferenças. Para mudarmos atitudes e conceitos precisamos ser motivados, sensibilizados e estimulados a compreender o ser humano em suas diferentes situações e realidades.

É preciso considerar que um dos maiores fatores que dificultam a promoção de uma cultura de direitos humanos nas nossas escolas é o desconhecimento da legislação mundial e brasileira sobre o tema, bem como a falta de entendimentos dos próprios conceitos de direitos humanos e de educação em direitos humanos.  Neste sentido, apontamos, neste artigo, marco conceitual sobre direitos humanos e educação em direitos humanos como condição indispensável para qualquer avanço na implantação dos mesmos nas escolas formais do Brasil.

Apontaremos, ainda, a necessidade de formação e debate permanente com os professores e professoras para que, assimilando os conceitos, possam promover processos pedagógicos capazes de traduzir, na prática cotidiana das escolas, aprendizagens e vivências de cidadania e direitos humanos. Apontaremos, ainda, mudanças de posturas dentro das escolas para que se promova a democracia, o respeito e a dignidade de todos os sujeitos que se envolvem na educação.

Cultura de direitos humanos

O conceito de direitos humanos faz-se historicamente, assumindo diferentes abordagens e perspectivas, gerando diferentes posturas e compreensões. Nasce, contudo, a partir da consciência e necessidade de preservar a vida e tudo o que nela está imbricado. Ao longo dos tempos, o conceito foi sendo construído culturalmente como se os sujeitos destes direitos fossem os outros, aqueles que estão numa situação de extrema indignidade, e nunca a gente (eu, você e nós). Há, então, a necessidade de compreender melhor o conceito de direitos humanos para que dele nos sintamos parte.

Sob o ponto de vista da compreensão histórica, os direitos humanos constituem-se a partir do reconhecimento, muito antes de constituírem faculdade de um ou de outrem. A defesa da vida, que também defesa da dignidade humana, engloba o que a humanidade, através de muita luta e conquista, reconheceu como direitos humanos. O que vem a ser dignidade humana? É difícil definir, mas entendemos quando ela falta a alguém (como aquilo que define a própria noção de humanidade, enquanto condições mínimas, básicas e elementares para sermos gente). O nosso cotidiano está repleto de infinitas realidades de indignidade, basta ativar a nossa sensibilidade e o nosso olhar.

A mesma cultura que nos fez acreditar que direitos humanos não são os nossos direitos de ser gente (de ser humano) também alimenta a falsa ideia de que, ao afirmamos os direitos das pessoas, estaríamos abrindo mão de seus deveres. Sempre nos foi dito, mesmo que não explicitamente, que temos mais deveres a serem cumpridos do que direitos a serem gozados, usufruídos. Muitas vezes entenderam-se direitos como privilégios de uma classe social, povo ou nação, em detrimento dos demais. Ocorre que, a cada direito que conquistamos, naturalmente, sem dizê-lo, está imbricado um dever. Direitos e deveres chegam juntos, não existem separados como muitos supõem.

Mas como criar identidade com direitos humanos? É preciso considerar a si mesmo e aos outros sujeitos de direitos, de liberdade, de dignidade: ao mesmo tempo diferentes e iguais uns em relação aos outros. O que todos temos em comum é que somos humanos e comungarmos das mesmas necessidades.

Educação em e para direitos humanos

A educação em e para os direitos humanos é mediação para a humanização das pessoas. Através dela podem ser construídas novas formas de relação interpessoal e com o ambiente cultural e natural que ponham a dignidade da pessoa, sua promoção e respeito, no centro da agenda.

Falar de educação em direitos humanos é tomar direitos humanos como tema e como abordagem de todo o processo educativo de tal sorte a fazer da educação a concretização de um dos direitos humanos e também mediação para a realização do conjunto dos direitos humanos. Falar de educação para os direitos humanos é compreender que a educação ocorre num contexto ainda marcado por processos de violação dos direitos, daí que, o papel central de educação está na formação de pessoas que reconheçam as outras como seres de dignidade e direitos.

A educação em e para os direitos humanos está desafiada a promover a diversidade, a denunciar todas as formas de violação, a viabilizar a solidariedade com (e entre) os mais fracos e as vítimas, a incidir na organização e na luta por justiça, a contribuir para realizar a paz e a boa convivência, enfim, a abrir espaço e tempo oportunos para que cada pessoa seja, com as outras, mais feliz.

Neste sentido, a educação em e para os direitos humanos pode ser feita em todo tipo de espaço pedagógico: grupos populares, organizações, movimentos sociais, escolas, igrejas, academias. Enfim, ela tem lugar sempre que pessoas e grupos se propuserem a aprender com as outras.

Aprender não é somente acumular conteúdos, mesmo que seja fundamental conhecer e compreender criticamente diversos conteúdos. Aprender é sustentar posturas, subsidiar o desenvolvimento de atitudes e construir sujeitos pluridimensionais agentes da história.

Neste sentido, a educação em e para os direitos humanos constitui-se em mediação para a realização de práticas pedagógicas capazes de mobilizar aprendizagens que, acima de tudo, podem se traduzir em engajamento efetivo de cada pessoa na luta pela realização de todos os direitos humanos de todas as pessoas.

Sujeitos de direitos na educação

A educação, concebida sob a ótica dos direitos humanos, pressupõe o entendimento de sujeitos pluridimensionais, que tem como exigência a sua humanização. Entendemos humanização como necessidade de tornar o ser humano melhor, através do conhecimento e das vivências que promovam a solidariedade, a cooperação, a ética e o respeito às diferenças.

A escola pode ser o lugar para promover a construção do conhecimento e a socialização como estratégias fundamentais para promover a construção de seres humanos mais humanizados. O conhecimento pode nos constituir sujeitos menos ignorantes, mais democráticos, menos estúpidos e mais sociáveis, exigências fundamentais do contexto contemporâneo onde reinam a violência, a corrupção e a competição desmedidas.

 Carbonari (2014, p.89) destaca que:

 “processos educativos desse tipo compreendem que a inteligência, o conhecimento e o saber não são dádiva ou acaso da sorte; e que além de competências, a educação há de promover a construção de atitudes e posturas de vida – tem exigência ética. Neste sentido, os processos educativos estão inseridos no amplo espectro da interação humana e se desdobram em aprendizagens e vivências diversas. A educação em direitos humanos que é construída na base de uma compreensão pluridimensional do sujeito de direitos promove os espaços de aprendizagem como exercício de reflexão e ação críticas. Ela exige acesso ao saber acumulado historicamente pela humanidade e sua reconstrução a partir das vivências, gerando a possibilidade de configurar escolhas, a implementação de processos e desenvolvimento de atitudes coerentes e comprometidas”.

Resumindo, a pedagogia da educação em direitos humanos pressupõe a construção da participação, a compreensão dos dissensos e dos conflitos, a abertura para o mundo como compromisso concreto com os contextos nos quais se dão os processos educativos.

Ainda Carbonari (2014, p.90) comenta que:

“A educação em direitos humanos, ou toma os sujeitos implicados no processo desde dentro e os põe dentro das dinâmicas que abre, ou resta inviabilizada por não atingir sua finalidade básica, que é exatamente a de abrir-se para os sujeitos pluridimensionais que estão em interação. Um exemplo talvez ajude a ilustrar: um estudo sobre violência contra a mulher não é apenas a identificação de uma situação estatística ou cientificamente descrita e catalogada; faz da mulher concreta, aquela que é vítima da violência, um sujeito presente no intervalo da relação educativa – não é apenas um sujeito abstrato ou objeto de estudo”.

Considerações finais

O desafio está posto para as escolas públicas formais deste nosso país. Em tempos que precisamos repensar a função e o papel social da escola, sugerimos o caminho da humanização, através de conhecimentos significativos e de relações interpessoais mais interessantes entre os sujeitos envolvidos nos processos de ensino-aprendizagem. Neste contexto, a importância e a necessidade da formação permanente e continuada dos professores e professoras e a mudança de práticas de aprendizagem que incluam a participação ativa dos alunos e alunas.

Paulo Freire priorizou a relação entre os sujeitos o aspecto mais relevante para os processos de ensino-aprendizagem, concluindo que “ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.

Algumas instituições de ensino público, por suas práticas contraditórias e autoritárias, minimizam o alcance e a importância das conquistas democráticas. É claro que exercitar cotidianamente a democracia, como se faz na escola, não é uma tarefa fácil. Para muitos, ela não passa de verborragia. Para outros, incansável exercício, prática de inclusão e respeito a todos, mesmo enfrentando as contradições do discurso e da prática.

Um dos maiores desafios de tornar as escolas públicas lugares de vivência e convivência de uma cultura de direitos humanos está na própria superação de sua estrutura arbitrária e pouco democrática. Se os professores ainda não conhecem suficientemente a democracia e a liberdade, como irão ensinar estes valores aos seus alunos?

Acreditamos que nossas escolas deveriam ser espaços de humanização. Humanizar-se é tornar-se melhor ser humano, a partir do conhecimento. As escolas deveriam cuidar, substancialmente, de duas dimensões inerentes ao ser humano e à própria escola: a integração e socialização das pessoas e a construção de conhecimentos. Se estas dimensões não estiverem bem organizadas nas escolas, elas esvaziam seu sentido e perdem sua importância.

A escola nunca deveria se distanciar da vida concreta das pessoas, pois esta deve e pode ser aperfeiçoada através do conhecimento. Acreditamos que as finalidades da escola deveriam sempre convergir. Anísio Teixeira, no ano de 1934, ao discutir as finalidades da vida e da educação inicia dizendo que “a única finalidade da vida é mais vida. Se me perguntarem o que é essa vida, eu lhes direi que é mais liberdade e mais felicidade. São vagos os termos, mas, nem por isso eles deixam de ter sentido para cada um de nós”. Concluiu dizendo: “a finalidade da educação se confunde com a finalidade da vida”.

A cultura pela dignidade humana promove condições em que ocorra a tolerância, o diálogo, a cidadania, a diversidade. Deve também permitir e incentivar a organização e luta coletiva por direitos. Deve exigir um Estado protetor e promotor de direitos humanos, e não violador da vivência da cidadania e das liberdades. A educação em e para os direitos humanos é mediação para a humanização das pessoas. Através dela podem ser construídas novas formas de relação interpessoal e com o ambiente cultural e natural que ponham a dignidade da pessoa, sua promoção e respeito, no centro da agenda.

Direitos humanos precisam ser aprendidos e ensinados. Aprender é sustentar posturas, subsidiar o desenvolvimento de atitudes e construir sujeitos pluridimensionais agentes da história. Neste sentido, a educação em e para os direitos humanos busca incentivar e motivar para o engajamento efetivo de cada pessoa e de todos na luta pela realização de todos os direitos humanos de todas as pessoas.

O exercício do poder democrático é um dever da escola e um legado que ela deve deixar para seus alunos e para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil. Qualidade na educação será uma realidade quando tratarmos gente como gente deve ser tratada e quando tomarmos a democracia como a base de nossas vivências e relações. Qualidade de educação se mede pelo tipo de relações que acontecem entre todos os sujeitos da educação (alunos, professores, pais e comunidades que cercam a escola). Estas relações devem buscar a humanização de todos através do conhecimento. Tornar-nos seres humanos melhores é o nosso maior desafio!

Cultura de direitos humanos se tornará uma realidade quando mudarem substancialmente as práticas da educação no Brasil. Todos os envolvidos na educação (gestores, professores, equipes diretivas) devem mudar as suas posturas autoritárias, para promover a democracia, o respeito e a consideração de todos como seres aprendentes.

A formação, o estudo e o debate permanente sobre direitos humanos nas escolas públicas, envolvendo professores, pais e alunos, são os caminhos para a mudança das práticas e vivências pedagógicas que façam com que a própria escola seja um lugar de vivências de direitos humanos, de cidadania e de democracia. Para superarmos a ignorância e os preconceitos que envolvem a cultura de direitos humanos, os caminhos são o conhecimento,  a apropriação dos conceitos e a vivência de práticas pedagógicas democráticas e inclusivas. Assim, direitos humanos, idealizados em legislações (declarações, tratados, estatutos e programas) poderão tornar-se cultura de direitos humanos.


EVC – Práticas Educacionais em Direitos Humanos na Escola



Referências
ANDRADE, Jair. REDIN, Giuliana (orgs) Múltiplos olhares sobre os direitos humanos. Passo Fundo: Ed. IMED, 2008.
AFONSO, Lúcia apud, org. Keila Deslandes e Erika Lourenço; Por uma cultura de direitos humanos na escola: princípios, meios e fins. Belo Horizonte, MG: Fino Traço, 2011.
CARBONARI, Paulo César; Direitos Humanos: tudo a ver com nossa vida. Passo Fundo: Berthier, 2012.
CARBONARI, Paulo César; Direitos Humanos: sugestões pedagógicas. Brasília-DF: 2ª ed. Revista e ampl – IFIBE, 2014.
ZLUHN, Mara Regina; Educação em direitos humanos na escola básica. Indaial: Uniasselvi, 2013.
Plano Nacional de Educação em Direitos Humanos / Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos. – Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, Ministério da Educação, Ministério da Justiça, UNESCO, 2007.

Artigo apresentado como parte da Conclusão de Curso Orientação Escolar, Uniasselvi.

A volta da censura


Quem quer impedir os outros de refletir
por conta própria tem que começar muito cedo.
É o que está fazendo o governo Bolsonaro
nestes seus primeiros caóticos cem dias.

A uniformidade ideológica e a luta contra qualquer dissidência constitui a base para a centralização e o fortalecimento do poder totalitário. Para instaurar uma verdade oficial, é necessário o controle da sociedade em todos os níveis.

Assim, não há nada, nem no âmbito público nem no privado, que permaneça excluído e não implique o monopólio estatal. A propaganda utiliza-se de estereótipos e os fatos são desfigurados.

As primeiras vítimas, em tais circunstâncias, são os jornalistas e seus veículos, isto é, rádio, televisão e jornais. São vítimas do crime de lesa-inteligência, que tem as mais variadas formas de manifestação.

Agora mesmo, um colega jornalista, enviou-me um texto dando conta que as piores previsões para a comunicação pública do “novo” governo de direita instalado no país vão se concretizando.

Censura nas redações, ameaça aos trabalhadores e fechamento de veículos abrem este 2019 nos diversos veículos de caráter público em todo o país.

A EBC, por exemplo, foi transformada pelo governo em uma mera reprodutora de propaganda do governo Bolsonaro e dos militares. Durante mais de 10 anos a Empresa Brasil de Comunicação, TVBRASIL, Agência Brasil e as Rádios Nacional e MEC seguiram linha editorial própria, diferente dos veículos estatais.

Agora a programação destes veículos irá atender exclusivamente ao governo. Noticiários, entrevistas, flashes de hora em hora, só trarão temas ligados ao governo. De bônus, a TV será invadida por programas da Marinha e do Exército brasileiro. Ou seja, a TV Brasil será simplesmente a TV do governo Bolsonaro. Ulala!! Isto me fez lembrar os tempos da ditadura do Estado Novo de Vargas(1937/1945), que usou o rádio para exaltá-la e a ditadura militar (1964/1985) que valeu-se do rádio e da TV.

A nova onda de perseguições e censura passou a ser exercida sobre os jornalistas da TVBrasil, como as proibições de citar a ditadura e o golpe militar no Brasil e de usar a palavra “fuzilamento” no assassinato de um músico no Rio com 80 tiros por homens do exército.

O que está em jogo, diante de tais práticas, é a luta pela liberdade de expressão e o direito à comunicação da população, bandeira fundamental para garantir as liberdades democráticas do país.

O governo está tentando dizimar a comunicação pública brasileira. Um exemplo foi o que o governo Sartori fez aqui com a Fundação Piratini. Todos devem estar lembrados.

Sempre, em todos os tempos, os governos autoritários, viram no intelectual e no profissional de imprensa como cidadãos perigosos e, se comunistas, “desde há muito, tanto mais temíveis”.

Quem quer impedir os outros de refletir por conta própria tem que começar muito cedo. É o que está fazendo o governo Bolsonaro nestes seus primeiros caóticos cem dias.


Karnal: liberdade de expressão nos tira da selvageria

O importante é ser feliz?

Girl drawing smiley face on to a wall

Consumimos antidepressivos,
livros sobre meditação,
treinamentos e vivências, porque sentimos
quase uma obrigação de sermos felizes.

Todo mundo quer ser feliz. Há livros, cursos, vídeos, palestras e terapias de todos os tipos partindo dessa premissa. Há algum tempo li sobre duas universidades oferecendo disciplinas sobre felicidade no currículo de cursos superiores. Parece que o assunto é discutido desde o ponto de vista médico até o místico, passando pelo pedagógico.

Nada contra a felicidade, também me importo com ela. Só não tenho certeza se persegui-la assim dá resultado.


Quem pauta nossas ambições? – A cultura do consumo e da felicidade – Flavio Siqueira

Num vídeo recente, o filósofo Luiz Felipe Pondé fala sobre as interpretações da felicidade, que nem sempre esteve relacionada ao prazer. O conceito muda no tempo e no espaço, hoje a visão que se tem de felicidade está relacionada justamente à satisfação pessoal. Claro que é importante que nos sintamos bem, realizados nesse sentido pessoal, mas não sei se isso é de fato o mais importante da vida. Ser equilibrado e viver em paz, acho que é muito importante. Ter saúde, fundamental. Em termos de metas,acho que deveríamos almejar ser boas pessoas, ser úteis e fazer a diferença para um mundo melhor. A felicidade deveria ser consequência.


O fato é que atualmente a busca pela felicidade alimenta um enorme mercado, porque o mundo nos convence que ser feliz depende do consumo. E desde roupas até viagens, cursos, terapias ou experiências, tudo é consumo.

Consumimos antidepressivos, livros sobre meditação, treinamentos e vivências, porque sentimos quase uma obrigação de sermos felizes. Acho que como um comportamento social generalizado, isso acaba sendo um pouco egoísta. Cada um pensando sóna sua realização.

Essa obsessão por felicidade a qualquer custo, como a meta mais importante, um objetivo onipresente, também acaba sendo uma tortura.

Se não estamos constantemente felizes é como se tivéssemos fracassado na nossa trajetória de vida. Isso traz ansiedade e frustração.

Penso que a felicidade não tem como ser um estado permanente. Tristeza também é natural, talvez até fundamental. O melhor seria buscarmos objetivos diversos, não só pessoais, mas comunitários, globais, e, entre outras conquistas, talvez alcançássemos a felicidade.


Documentário: O que é felicidade para você?

Acima do teto de vidro


Publicado originalmente em Radis.
Entrevista com Nísia Trindade, por Elisa Batalha


Primeira presidenta da Fiocruz, Nísia Trindade Lima é uma pessoa considerada “afável”. E isso, ela reconhece, chegou a ser apontado como um aspecto negativo de sua personalidade, que não contribuiria para exercer o posto que ocupa, por não corresponder ao estereótipo de um perfil de liderança agressiva, atributo considerado “masculino”. “Eu vejo que a minha posição, o lugar de autoridade, de mando, muitas vezes é associado com um lugar masculino, em uma visão que confunde autoridade com autoritarismo. Trata-se do imaginário sobre esses lugares de autoridade e de poder”, avaliou, quando abriu espaço na agenda para conversar com a Radis.

Estar no mais alto cargo de uma instituição tradicional de pesquisa com quase 120 anos de história é visto por ela como expressão “do reconhecimento de toda uma comunidade”. Para a socióloga e pesquisadora da história da ciência, é importante que o sistema de eleição da instituição em que atua há mais de 30 anos — com participação de todos os servidores e posterior confirmação da presidência da República — seja valorizado, por ser democrático e garantir maior diversidade. “O sentimento maior para mim é de gratidão pela confiança depositada, mas também o de responsabilidade”, conta ela, que assumiu o cargo em 2017.

Quanto à experiência na presidência, ela diz que o principal desafio tem sido atravessar a situação de crise no país. “Por outro lado, estou lidando com a imagem positiva que a instituição tem junto a sociedade, o seu capital simbólico, o seu reconhecimento pelas ações realizadas em prol do Sistema Único de Saúde ao longo dos últimos trinta anos”.

Nísia é uma exceção no país, por ser mulher e estar ocupando um cargo de liderança em uma instituição de pesquisa científica. As mulheres são maioria na população brasileira, e no ensino superior no país, há 27 anos, de acordo com o IBGE. Representam 49% das bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a principal agência de fomento à pesquisa no Brasil. Mas, a ascensão na carreira esbarra no chamado “teto de vidro” — a barreira invisível que impede mais mulheres de crescer na profissão e alcançar cargos mais altos.

As diferenças ficam bem claras quando observamos os números. Nas bolsas de iniciação científica, 59% são mulheres, já nas de produtividade, as mais prestigiadas, com financiamento maior, a parcela feminina cai para 35,5%. Dentro deste grupo, ainda há as bolsas 1A, as mais altas. Só 24,6% dos que recebem esse tipo de financiamento são mulheres, de acordo com os dados da própria agência. Existem ainda carreiras inteiras em que a predominância numérica masculina é muito maior, como nas áreas exatas e tecnológicas.

Nas universidades federais brasileiras, há apenas 28,3% de mulheres como reitoras. São 19 entre os 63 reitores, de acordo com o levantamento de 2017 feito pela pesquisadora Anelise Bueno Ambrosini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na Academia Brasileira de Medicina, apesar de as mulheres serem maioria entre os formandos (em torno de 55%), há apenas cinco mulheres entre os 115 membros, o que representa 4,3%.

A desigualdade de gênero na ciência não é exclusiva do Brasil. Dados do relatório Women in Science publicado em 2018 pela Unesco mostram que 28,8% dos pesquisadores do mundo são mulheres. As mulheres publicam menos artigos, têm menos colaborações internacionais, menor mobilidade acadêmica, atuam mais em pesquisas interdisciplinares e apenas 14% são inventoras listadas em patentes.

No mercado de trabalho como um todo, conforme lembra Nísia, há uma tendência a uma conquista de igualdade salarial entre homens e mulheres, mas ainda entre executivos persiste uma desigualdade. “O ingresso de mulheres em determinadas profissões infelizmente é acompanhado de uma desvalorização, como na enfermagem. Muitas profissões foram feminilizadas, e historicamente isso aponta para tensões. Isso aconteceu historicamente também com a profissão de professor, que inicialmente era composta na maior parte por homens”, comenta.

Minha posição, o lugar de autoridade, de mando, muitas vezes é associado com um lugar masculino, em uma visão que confunde autoridade com autoritarismo.

Gênero e ciência

Nísia lembra que ela vem de uma área profissional, as ciências sociais, onde a presença das mulheres é grande. “Faço parte de Associação Brasileira de Saúde Coletiva, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, organizações que já tiveram muitas mulheres na presidência, e também nas coordenações de grupos de trabalhos”, enumera, lembrando que o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea teve como primeira diretora de pesquisa Celina Vargas, em 1973, mulher cuja atuação recebeu muito destaque no Arquivo Nacional, e que também esteve à frente da Fundação Getúlio Vargas, na década de 1990. 

Mesmo tendo mulheres de destaque em sua área como referência, Nísia não escapou de sofrer discriminação. “Minha escolha pelas ciências sociais na família foi vista como não muito adequada, porque eu era boa aluna, então deveria fazer o que se achava que seria uma carreira mais valorizada, com maior apelo e remuneração. Ouvi de familiares que eu ‘podia fazer essa escolha porque eu ia me casar´”, relembra.

Casamento e casais de pesquisadores, aliás, hoje são um tema para estudo na área da sociologia histórica, dentro da história da própria Fiocruz como instituição, e na história do país, conforme lembra Nísia. “Há uma questão muito interessante e até é preciso incentivar mais pesquisas sobre casais de cientistas, que não necessariamente eram relações de dominação”. Isso pode ajudar a desmistificar a figura da “mulher por trás do grande homem” no imaginário social. Segundo ela, essa é a imagem pública de alguns casais, “até porque se atribui mais visibilidade aos homens, e muitos deles ocupavam cargos públicos além de serem cientistas”.

Ela cita Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro. “Berta também foi uma grande antropóloga”, destaca. “Casos como esse merecem ser investigados. Muitas mulheres cientistas estavam ali, lado a lado com pesquisadores homens. Algumas conseguiram ser reconhecidas individualmente, como a parasitologista Maria Deane [esposa de Leônidas Deane]. Ela teve uma luz própria, era uma mulher muito forte inclusive e é sintomático que tenhamos um instituto chamado Leônidas e Maria Deane”, aponta Nísia, se referindo a unidade Fiocruz Amazônia, em Manaus.

Hoje, gênero e ciência conformam um campo de estudos que vai além de se compreender o que está por trás das inequidades nas estatísticas. “Na ciência, vemos na linguagem a expressão de signos do universo masculino como o combate, a conquista, a caça”, aponta Nísia, discordando da ideia de que haja “uma ciência feminina” ou “um modo feminino de se fazer ciência”. “É uma questão em aberto, não pode ser vista de uma maneira simplificada. Há uma interferência da experiência, no modo de fazer ciência, o lugar de fala demarca que não existe um pensamento desvinculado da experiência, da existência. Isso não significa que eu só posso falar da minha experiência imediata. É claro que a experiência marca a sua visão, a sua linguagem”, discorre, lembrando que “a ciência não é uma atividade neutra”.

Para Nísia, a ampliação do acesso e a democratização dos espaços na ciência e nas instituições científicas passam por questões culturais, “que dependem de uma pedagogia, de um trabalho muito intenso, daí a importância de comitês de equidade que ajudam a trazer uma maior conscientização”.

Equidade e diálogo

A iniciativa que ela faz questão de reforçar, na sua gestão como presidenta, é a maior centralidade conferida ao Comitê para Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, que já existia desde a gestão anterior. Para ela, é preciso olhar para o que hoje se chama agenda identitária, considerando as desigualdades sociais, mas também de gênero e raça, presentes no país. “Nos editais de pesquisa, há artigos que preveem contagem de tempo diferenciada para mulheres que tiveram filhos. Nem todas as mulheres querem ter filhos, e não se deve confundir a mulher com a mãe, mas para que possamos exercer todos esses papéis é muito importante que haja uma política pública adequada”, afirma, apontando ainda que a agenda feminista foi quem trouxe para o país a demanda das creches, do apoio no cuidado com os filhos e a defesa do tempo de amamentação recomendado para as trabalhadoras.

“Não causava estranhamento até há poucos anos haver apenas três mulheres no Conselho Deliberativo [maior instância de decisão] da Fiocruz; hoje já causa. Isso é um avanço. Na composição de mesas, de seminários, a gente também já passa a estar atento a isso”, comenta.  Ela reconhece também o que a sua figura representa para mulheres e meninas mais jovens. A mensagem que procura deixar é de respeito e dignidade. “A mulher não pode admitir não ser valorizada, ser desrespeitada, nós não podemos nos calar diante de qualquer discriminação que aconteça ao nosso lado. É preciso ter respeito à diversidade. Você não tem que padronizar, escolher se encaixar no estereótipo da intelectual, que seria de uma absoluta seriedade, contenção no comportamento. Não é preciso criar uma imensa distância social das pessoas para exercer um cargo”, reflete.

Nísia conclui que a equidade de gênero é uma das questões centrais para construção de uma sociedade mais justa. E isso, segundo ela, é possível alcançar mediante diálogo, articulando a racionalidade com a afetividade. “Precisamos pensar em um mundo que preze valores do diálogo, da construção democrática. Isso deve ser uma luta de homens e de mulheres”.

Veja também