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Liberdade existe?

Ser livre é difícil,
mas ter respeito não é.

 

Segundo a filosofia, liberdade é a independência do ser humano. Isto é o mesmo que ter autonomia, porém, na prática, restam os questionamentos de que liberdade é utopia. Sartre, Descartes, Kant e Marx tiveram o cuidado de questionar o conceito. No dia-a-dia fica evidente a nossa incapacidade de sermos realmente livres.

Há profissionais brilhantes completamente dependentes do que pensam as corporações à qual pertencem. Pode-se aplicar essa dependência a todos os campos da atuação humana. Como agem os médicos ante o poder dos grandes laboratórios e planos de saúde submetidos a interesses multimilionários difíceis de serem driblados? A atuação profissional, nesse contexto, leva em consideração só a vida dos pacientes?

Assim como os médicos, o pensamento de jornalistas fica limitado à corporação. Como movimentar-se frente a interesses que movem a mídia? É grave a limitação de que são vítimas pessoas, por vezes muito bem formadas, mas que, frente ao contexto pontual, devem mover-se segundo o que o órgão midiático a que pertencem acha conveniente no momento.

A liberdade de expressão é verdadeiramente exercida quando o profissional é manietado e aviltado em favor dos anunciantes ou da subserviência política?

Creio ser difícil ser livre. Temos limitações no sentido de sermos dependentes de interesses. O grande espaço de liberdade é o particular, desde que não sejamos dependentes financeiramente de espaços em que atuamos. Aí cabe o medo de retaliações, de julgamentos, que podem colocar em risco o nosso ganha-pão.

Quem pode dizer abertamente, dentro do seu estabelecimento, qual a sua posição política? Como expor sua ideologia? Melhor optar pela neutralidade?

No bem particular, dentro da nossa casa, somos totalmente livres? Penso ser o momento de pensar nisso, em um momento sensível do nosso país. Por que estamos tão limitados, sem forças para nos dizermos? Fazemos parte dos que julgam os outros, não permitindo que todos tenham direito a pensar? Somos daqueles que, ante uma notícia de que profissionais agiram fora do que julgamos certo, procuramos saber o que os moveu, para só aí tirarmos conclusões justas.

Ando bem cabreira sobre o quesito liberdade, preferindo pensar que ela realmente não existe, mas procurando consolo na categoria interdependência, essa sim, bem mais bonita.

Não conseguimos ser nada sem que nossa liberdade seja dependente da liberdade do outro.

Mas a extrema alegria é saber que o nosso pensamento é nosso, bem lá no fundo. Por vezes ele é impublicável, mas com o pensamento posso ser livre, mesmo que esteja em uma solitária. O pensamento não tem limites e merece viajar por aí sem fronteiras.

Com o pensamento alimentado todos os dias com o que vejo, leio, vivo, sinto, tenho a liberdade de formar o que, na prática, transforma-se em minha performance pessoal, personalíssima, convenientemente inserida na vida coletiva, onde não posso prescindir do que exijo para mim, que é o respeito ao pensamento. Ser livre é difícil, mas ter respeito não é.

Qual é o sentido da verdade e dos conhecimentos?

A ciência e o conhecimento se consolidam
como um antídoto contra os charlatões e
picaretas que exploram a ignorância alheia.

 

“A verdade pode ser intrigante. Pode dar algum trabalho lidar com ela. Pode ser contraintuitiva. Ela pode contradizer preconceitos profundamente enraizados. Pode não se coadunar com o que queremos desesperadamente que seja verdade. Mas nossas preferências não determinam o que é verdade”. (Carl Sagan)

Começo minha reflexão com essas linhas, com uma dentre tantas frases que ficaram marcadas pela sabedoria deste grande cientista e divulgador da ciência moderna. Tão importante quanto querer saber a verdade, é nos livrarmos de todo o preconceito e senso comum que teimam em velar nossos sentidos, e tentarmos olhar na direção da realidade, criando assim, as condições necessárias para que a lucidez e o conhecimento prevaleça. Conhecimento este, que como diz Milton Santos também se dá pela intuição, mas sobretudo pelo estudo.

A verdade independe de nossa vontade, e conforme Neil de Grasse Tyson, saber como pensar nos empodera muito mais do que apenas saber o que pensar. Assim, a ciência e o conhecimento se consolidam como um antídoto contra os charlatões e picaretas que exploram a ignorância alheia.

O pensamento não pode ser mecânico, imediatista, nem tão pouco polarizado, ao contrário, deve ser elaborado, ponderado, relativizado, onde na fricção de ideias contrárias surjam novas ideias que possam transformar a realidade ou trazer um novo prisma sobre esta.

O conhecimento pode ter o impacto de um meteoro, mas também pode ser encantador como uma poesia, e na “nossa” prática diária como docente temos o dever, de através do ensino impactarmos a vida de nossos alunos, sem esquecer de trazer consigo também o encantamento.

Acredito que o conhecimento tem o propósito de atrair e incentivar as pessoas para a busca do novo, sem nenhum trauma, humilhação ou opressão. Talvez esse seja o ensino que liberta o indivíduo, que demonstra amor pelo próximo e pelo coletivo, e que como diz Paulo Freire impregna de sentido aquilo que fazemos a cada instante.

Ao se desenvolver um processo de ensino-aprendizagem dessa forma, construímos em nós mesmos e nos nossos interlocutores o compromisso social e moral do intelectual, que aliás, está acima do compromisso do cientista, visto que este nem sempre está comprometido com a ética. Como?

Imaginemos então Wernher von Braun, engenheiro aeroespacial brilhante, com conhecimentos avançados em física, matemática, astronomia, mas que em sua prática desenvolveu armas e foguetes para o exército nazista, para uma causa fascista. Pergunto: Estava esse senhor comprometido moralmente com a sociedade? – Já imagino sua resposta – Agora, compare a prática desse indivíduo com qualquer um desses, agora sim, intelectuais que eu citei logo acima. Aí está a diferença!

Abraço, e já que comecei com ele, divido mais uma com os amigos pra terminar: “Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você.” (Carl Sagan)

Futebol e Inclusão: destaques do Festival Internacional do Folclore 2018

O folclore uniu-se à história de nossa cidade,
tratando o futebol como mais uma das
mais eficazes formas de unir povos e culturas.

 

O Festival Internacional de Folclore de Passo Fundo, XIV edição, 2018, ocorreu entre os dias 17 a 25 de agosto de 2018, numa promoção da Prefeitura Municipal de Passo Fundo, tendo também a aprovação do Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet. Esta edição do Festival destacou como temas e novidades a inclusão e o esporte como uma construção cultural, capaz de promover a paz e a integração entre os povos e culturas.

Nesta edição, houve a participação e apresentação de 12 grupos internacionais e 62 grupos nacionais brasileiros e 160 pessoas voluntárias.

Quanto ao tema da inclusão, foi montada uma logística especial para que pessoas com deficiência pudessem participar ativamente do Festival como participantes (grupo da Colômbia) ou como público que assistiu às apresentações.

Paulo Dutra destaca o reconhecimento que o Festival recebeu da FIDRF (Federação Internacional de Festivais de Folclore), indicando o mesmo para concorrer a Melhor Festival do Mundo. A premiação ocorrerá no mês de setembro, na Coréia do Sul.

Passo Fundo e influências na formação de seu povo e sua cultura

O professor de Literatura da UPF (Universidade de Passo Fundo), Eládio Vilmar Weschenfelder é um grande colaborador das diferentes iniciativas literárias, de cultura, de folclore e de teatro em Passo Fundo. O professor faz uma leitura da história da nossa cidade.

Destaca que, desde o início da história de nossa cidade, “o vilarejo de Passo Fundo, hoje polo regional do Norte rio-grandense, viveu, ao logo de sua história, eventos antagônicos, com períodos de paz e guerra, dividindo opiniões e pessoas a ponto de, seus desdobramentos políticos provocarem batalhas campais, resultando na morte de centenas de seus cidadãos nas batalhas, inicialmente com arcos e flechas, adagas e facões, espingardas e canhões, resultando no caos humanitário, posto que não havia médicos e hospitais para salvas vidas e curar os feridos, nem palavras e canções para consolar seus familiares. Isso, na acepção de Heráclito de Éfeso, significa que “…a guerra é mãe e rainha de todas as coisas; alguns transforma em deuses, outros, em homens; de alguns faz escravos, de outros, homens livres”.   

Continuando sua reflexão, baseada em pesquisas e estudos sobre a história de nossa cidade, Eládio acrescenta: “dando tempo ao tempo, foi preciso transformar os efeitos do arco em lira, como entendia Octavio Paz. Ou como Fênix, pássaro simbólico da mitologia grega, que renasceu das suas próprias cinzas, o povo de Passo Fundo refez-se dos destroços, reerguendo-se com a instalação de dois grandes hospitais (Hospital São Vicente de Paulo e Hospital da Cidade) e fundando dois grandes clubes de futebol (Esporte Clube Passo Fundo e Esporte Clube Gaúcho)”.

Conforme acredita o professor, “as quatro instituições sublimaram as diferenças políticas e religiosas. Todavia, mantêm, simbolicamente e folcloricamente, seus matizes ideológicos, figurativamente manifestos em cores e bandeiras e formas de serviço.

Do homem guerreiro, bárbaro, surge o Homo Ludens, moderno, o homem que joga uma tipologia esportiva visando o lúdico. O genuíno tipo passo-fundense, que aliado aos que aqui chegaram para construir a cidade e fazer história, construiu um caldo cultural, histórico e folclórico, facilmente identificado nas personagens artísticas, nos esportistas, nos vanguardistas nas legendas que revelam as múltiplas faces dos passo-fundendenses, dentre os quais, o Gaúcho de Passo Fundo (Teixeirinha), a Salomé (Chico Anísio), o Bebeto (Canhão da Serra), o Felipão, os irmãos Gustavo e Murilo Endress, o Yamandu Costa, a dupla Oswaldir e Carlos Magrão, a professora Tânia Rösing, dentre tantos outros e outras.

Desdobramento de suas ações estão os monumentos, eventos e lendas que dão estamento ao rico e variado folclore regional passo-fundense, dentre eles, a lenda e a Praça da Mãe Preta, a Cuia e o Chafariz da Praça Floriano Peixoto, o monumento a Teixeirinha, o Largo da Literatura, os pórticos da Cuia, da Chaleira e das Botas (Roselândia), os Túneis das Letras, a Academia Passo-fundense de Letras, os prédios da antiga prefeitura, do Itaú e do Hotel Glória e da antiga Gare (Estação Ferroviária). Soma-se a tudo isso, as instituições que dão suporte cultural a Passo Fundo: a Universidade de Passo Fundo (50 anos), a Academia Passo-fundense de Letras (80 anos), os CTGs e as Companhias de Teatro, dentre outras”.

O Festival Internacional do Folclore de Passo Fundo de 2018 promoveu e enalteceu o esporte de nossa cidade: o Esporte Clube Gaúcho e o Clube Passo Fundo. O folclore uniu-se à história de nossa cidade, tratando o futebol como mais uma das mais eficazes formas de unir povos e culturas.

Para que serve a ética na política?

A política é a forma mais sublime
de praticar a caridade, já escreveu Paulo VI.

 

Que tal uma hipótese bem notória e conhecida? Suponhamos que um magnata da construção civil, por exemplo, resolva apoiar um certo partido e, a partir dele, um determinado aspirante à política, financiando nutridamente a campanha eleitoral do candidato. Este, se eleito, terá dificuldade em se manter neutro na hora de decidir que obras devem ter prioridade durante o seu mandato, onde construí-las e que empresas chamar à licitação. Isso partindo do pressuposto que haverá licitação, por um lado, e, por outro, que essa não representará uma farsa previamente orquestrada.

Entra em cena o conceito de “conflito de interesses”. Os interesses do político em questão, tanto no poder executivo quanto no legislativo, ou mesmo no jusidiário, em lugar de ter como horizonte as obras ligadas às necessidades básicas e mais urgentes da população, podem entrar em conflito com tais exigências do bem-estar comum para as quais foi eleito.

O prato da balança facilmente penderá para um compromisso, ou uma aliança, com quem, financeiramente, o ajudou a eleger-se. Há uma dívida a ser paga e o poder adquirido pode facilitar a negociação!

Querendo ou não, de forma consciente ou inconsciente, vem à tona a armadilha. O conflito de interesses tem tudo para converter-se em “convergência de interesses” entre doador e beneficiado. O filósofo alemão Friedrich Hegel, em sua Filosofia da História, alertava para a astúcia da razão. A política também padece de uma astúcia particular, às vezes sutil, outras vezes nem tanto.

Em outras palavras, nosso político eleito e nosso empresário da construção civil, ao invés de reconhecer um conflito de interesses tão manifesto e consequentemente repudiá-lo, podem terminar por celar um pacto que os unirá em uma empresa furtiva e obscura, mas reciprocamente rendosa.

Lamentavelmente, é bastante comum que eleitor e candidato mantenham os olhos fechados a essa possibilidade de que o conflito, mais ou menos encoberto, se transforme em convergência vantajosa de interesses. Disso resultam não poucas formas de corporativismo, de nepotismo e de apadrinhamento, para não falar de cumplicidade e corrupção. Instalam-se, assim, os históricos e famigerados currais eleitorais, bem como os balcões de negócios, onde se compram e se vendem cargos, benefícios, privilégios, poder de influência, e assim por diante.

De que maneira rasgar o véu que, bem ou mal, esconde tais práticas políticas? Como eliminar a máscara que as dissimula aos olhos da opinião pública e, não raro, às câmaras, microfones e holofotes dos próprios meios de comunicação? Isso quando estes últimos não fazem parte do mesmo conluio, usado palavras e imagens em benefício próprio!

É aqui que ganha relevância a pergunta do título: para que serve a ética na política? O exemplo acima torna a resposta muito simples e transparente: serve para identificar os possíveis conflitos de interesses que estão em jogo, precavendo-se contra eles desde o momento do registro da candidatura.

Os príncipios éticos, neste caso, são chamados não somente a discernir tais armadilhas, ou astúcias, mas sobretudo a impedir que eleitores e candidatos possam cair na ratoeira. Nesse ponto, a Doutrina Social da Igreja (DSI), ao longo do tempo, sempre se revelou muito clara e objetiva. “A política é a forma mais sublime de praticar a caridade” – escreveu o Papa Paulo VI na Carta Encíclica Octagesima Advenians (1971).

Os fundamentos da DSI – mas também a Declaração Universal dos Direitos Humanos, quase todas as Constituições dos países democráticos ocidentais e os Mass Media – advertem insistentemente para semelhante risco no exercício normal do poder. Advertência que serve para iluminar o vasto e complexo campo da atividade pública, separando com cuidado o joio do trigo, para usar uma parábola do Evangelho (Mt, 13,24-30).

O terreno escorregadio da política (como tantos outros, de resto) presta-se, com efeito, ao crescimento de ervas daninhas. Não faltam espinhos na arena da disputa pelo poder. Mas o mesmo terreno presta-se igualmente ao favorecimento de políticas públicas que garantam ao maior número de pessoas o desenvolvimento, a justiça, os direitos básicos e a paz.

 

Violência na sociedade e na escola

Foto: Ingra Costa e Silva

A sociedade contemporânea, que tem por
modelo a competição, e não a cooperação, estimula a
violência como a solução de todos os seus problemas.

 

A violência na sociedade é tema recorrente de reflexões, palestras e seminários e afeta, cotidianamente, a vida dos professores e professoras porque também se estende na sala de aula e nos ambientes escolares.

Como o professor deve se preparar para lidar melhor com a violência da sociedade e na escola? Como construir um ambiente educativo que promova cultura de paz? Como fazer da escola um ambiente de tolerância e respeito aos direitos humanos?

Para ser Cirandeira deste tema, o CMP Sindicato (Sindicato dos Professores Municipais de Passo Fundo) convidou a professora e psicóloga Maria Isabel Bristott. Ela participou da vigésima terceira Ciranda dos Saberes, em agosto de 2018, uma atividade formativa diferenciada para professores que visa integrar troca de saberes, música e poesia, comida e bebida, com duração de duas horas. As Cirandas dos Saberes iniciaram em 2014.

Sua abordagem foi instigante. Ela instituiu o abraço como o primeiro território para a construção de uma cultura de paz. Em círculo, todos estavam desmemoriados, e ninguém sabia mais o que era o abraço. O abraço passava entre os presentes e a dúvida do que ele era (o que é isso?) voltava para quem o instituiu: a cirandeira. Aos poucos, o abraço foi tornando-se um gesto natural, não mais um estranhamento.

Enfrentar a violência com atitudes de não-violência. Ouvir e entender a realidade sem pré-julgamentos. Construir territórios de proteção, de cuidado, de oportunidades de cada um dizer os seus sentimentos e promover ambientes de consideração e valorização de cada um e de todos é o caminho mais eficaz para construir cultura de paz.

Cultura de paz, segundo Monja Coen.

A sociedade contemporânea, que tem por modelo a competição, e não a cooperação, estimula a violência como a solução de todos os seus problemas. É muito grave perceber que esta ideia vem sendo instituída e institucionalizada no Brasil, gerando uma sociedade com uma cultura de violência.

O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A ignorância gera a violência e a estupidez. Qual é o papel da escola neste contexto?

Como os professores e professoras, a partir de suas escolas, podem intervir para vivenciar com seus educandos e educandas valores e processos que mostrem caminhos diferentes da competição e da violência?

Por que nossas escolas silenciam sobre a violência? Quais são as estratégias pedagógicas mais eficazes para construir uma cultura de paz, mesmo na contramão da promoção da violência na sociedade?

A troca de ideias, as experiências relatadas e as reflexões da Ciranda apontaram que a própria escola, desde a sua organização, gera ambientes amorosos ou conflitivos que influenciam no comportamento de todos que dela participam. Quando há equipes diretivas mais abertas ao diálogo e à escuta dos sujeitos (professores, alunos e pais), ocorrem vivências mais significativas e promotoras de uma cultura de paz. Quando há o contrário, tende-se acentuar a competição e a violência como um caminho de resolução dos conflitos, que são inerentes ao ser humano.

Todos somos sujeitos de nossa história e desejamos dizê-la. A escuta, paciente, amorosa e respeitosa, sem julgamentos, é parte do caminho para a promoção da paz. A palavra é a ferramenta instituinte do sujeito. Quem fala se liberta.

“Temos necessidade de comunicar aquilo que nos incomoda, que nos irrita, que nos prende a nós mesmos. Falar sempre é um ato libertador, porque nos permite uma melhor compreensão de nós mesmos e dos outros. É também constante busca de compreensão, pois viver na eterna incompreensão gera desilusão e descrença nas possibilidades humanas”. (Nei Alberto Pies)

Quem fala se liberta

Como o educador Paulo Freire já ensinou: “a educação não muda o mundo. A educação muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo”.

Embora tenha sempre um poder limitado, a educação, a partir das escolas, pode escolher caminhos, estratégias e processos que promovam uma cultura de respeito, consideração, cooperação e solidariedade. Desta maneira, estará ajudando a sociedade a rever suas posições, ou mesmo, tomar novos rumos.

“Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho”.  (Mahatma Gandhi)

 

Nenhum ser humano é ilegal

O direito de migrar é universal.
Nenhum ser humano é ilegal.
É dever do Brasil, signatário de vários tratados internacionais que reconhecem
esse direito, garantir a segurança e os direitos dos migrantes no país.
A face cruel do capitalismo não irá barbarizar nossa humanidade.

 

A violência xenofóbica-barbárica atravessou o Atlântico e aportou no Brasil. No sábado [18] um grupo de moradores da cidade de Pacaraima, Estado de Roraima, atacou com paus, pedras e bombas caseiras centenas de famílias de venezuelanos, inclusive mulheres e crianças que estavam acampados na cidade. Os refugiados tiveram suas barracas incendiadas e foram expulsos até o limite da fronteira. O fútil motivo detonador do conflito, um suposto assalto cometido por um refugiado venezuelano contra um comerciante da cidade, sequer foi comprovado.

As agressões aos venezuelanos [as] aconteceram com a vergonhosa e covarde complacência das forças de segurança locais, do Exército, com a conivência da governadora Suely Campos [PP] e da total inoperância do governo federal.

Atitudes xenofóbicas como a ocorrida em Pacaraima é um subproduto da crise sistêmica do capital que, desde 2008, tem aumentado sobremaneira a exploração e opressão dos povos, indiferente de sua nacionalidade, para garantir manutenção da lucratividade dos ricos e poderosos que não passam de 1% da população total do planeta, deixando por onde passam um rastro de destruição, miséria, sofrimento e mortes.

O ato de brutalidade foi metodicamente organizado por políticos locais criminosos e latifundiários assassinos. Foi uma selvageria contra os imigrantes venezuelanos que vivem em situação de extrema precariedade. Foi uma expressão clara da barbárie devido à falência agônica do modelo de organização social capitalista, materializada há tempos no velho continente. Agora está acontecendo no nosso país. Atitudes com estas são inaceitáveis e inadmissíveis.

O problema não são os refugiados. O problema é o capital!

A crise humanitária em todo o mundo é uma triste realidade nos dias atuais. Presenciamos a alguns anos refugiados sírios e africanos sendo vitimados por chauvinistas extremados nas mais diversas nações da Europa.

Culpá-los pela crise econômica sistêmica do capital no seu estágio da barbárie, que os forçam a abandonar sua terra-mãe em busca de sobrevivência em outro território, é ser signatário da sandice xenofóbica. Não podemos aceitar. No final das contas somos todos [as] vítimas da ganância dos trustes [monopólios e oligopólios], banqueiros internacionais e nacionais, latifundiários e grandes empresários.

O direito de migrar é universal. Nenhum ser humano é ilegal. É dever do Brasil, signatário de vários tratados internacionais que reconhecem esse direito, garantir a segurança e os direitos dos migrantes no país. A face cruel do capitalismo não irá barbarizar nossa humanidade.

Devemos combater o sistema que nos oprime, verdadeiro responsável pelo aumento da miserabilidade social, e não iniciar um processo de “autoextermínio” de pobres e miseráveis brasileiros contra miseráveis e pobres venezuelanos.

Devemos unir todos os oprimidos e explorados brasileiros e venezuelanos para lutar por emprego e direitos.  A crise humanitária não é venezuelana, mas de todos os trabalhadores e pobres que são sugados e depois descartados pelo capital.

Repudiamos com todas nossas forças e energias, a agressão contra os venezuelanos assim como repudiamos com a mesma intensidade as atitudes desumanas, criminosas e assassinas de vários governantes da Europa contra os refugiados das mais diversas nacionalidades, sobretudo sírios e africanos.

Quem precisa de psicólogo?

Um psicólogo não fala aquilo que você
quer ouvir ou o que você já sabe.
Seu compromisso profissional é o de identificar
suas dificuldades nas situações que você relata,
e a partir disso, ajudar a construir alternativas com você.

 

Em algum momento você já deve ter parado para pensar que de repente ir a um psicólogo não seria uma má ideia, ou ficou se perguntando: mas o que diabos um psicólogo iria adiantar de alguma coisa?

Se pararmos para entender o que um psicólogo tem a lhe oferecer, percebemos que o seu trabalho para com as pessoas, é o investimento nelas mesmas. Vejamos que, uma das mais difíceis ideias de se compreender é a ideia socrática do “conhecer-te a ti mesmo”.

Existe uma série de falácias que circulam pelos ouvidos frágeis como as que dizem que um psicólogo serve para te dar conselhos, ou que terapia em casal serve apenas para crises conjugais, ou mesmo que o psicólogo irá resolver todos os seus problemas. Essas não são verdades embora alguns acreditem que sejam. Um psicólogo pode lhe ajudar a abrir os caminhos para você conhecer um pouco melhor sobre a ti mesmo.

O conselho, no sentido formal da palavra, se refere à opinião, ensino ou aviso do que se deve fazer.

O papel do psicólogo em suas mais diferentes linhas da Psicologia Clínica não utiliza de conselhos em uma sessão de terapia.

Um psicólogo não fala aquilo que você quer ouvir ou o que você já sabe. Seu compromisso profissional é o de identificar suas dificuldades nas situações que você relata, e a partir disso, ajudar a construir alternativas com você. Isso se fundamenta em anos de estudo de técnicas do comportamento humano e funções mentais. Até porque, você pode não conseguir identificar suas próprias dificuldades e ficar sem entender nada sobre o que esta te trazendo sofrimento…  isso é mais comum do que parece.

Pouco se fala em Psicologia Escolar e Psicologia Organizacional, ou mesmo Psicologia Jurídica ou Psicologia Social.

O fato é que a importância dessa área de conhecimento nos mais diferentes contextos políticos sociais é muito mais do que sinônimo de qualidade, de oportunidade, ou, seja o que você pensar sobre. Trata-se também, e diria que principalmente, de uma necessidade.

Procurar investir em caminhos para se construir um bom desempenho na relação professor-aluno, no que se refere ao processo ensino-aprendizagem e o contexto escolar, é um sinal de avanço para a nossa educação.

Garantir uma boa gestão de pessoas em uma empresa ou organização, que visa satisfazer o seu modelo por completo, é valorizar o trabalho. Relacionar o conteúdo da mente humana com leis vigentes é aprimorar o nosso entendimento na aplicação da Psicologia nos assuntos relacionados ao Direito.

Compreender como as pessoas pensam, influenciam e se relacionam umas com as outras é qualificar a raiz de nossas políticas públicas. E aqui apresentamos, de maneira sucinta, a importância do profissional de Psicologia que tanto tem a agregar em nossa sociedade.

No dia 27 de agosto de 2018 completamos 56 anos, no Brasil, que a Psicologia é por direito uma profissão, sancionada pelo então Presidente João Goulart. Para todos os profissionais da Psicologia, eu quero desejar felicidade, mas principalmente dar os meus parabéns por todos os dias se dedicarem às suas demandas e compromissos.

Quanto custa a felicidade do seu filho?

Educar as futuras gerações para uma vida feliz e equilibrada
é também garantir a sustentabilidade do planeta, que depende,
entre outros fatores, do consumo responsável e do destino que
damos ao lixo resultante do consumo excedente da
sociedade moderna.

 

Toda mãe e todo pai certamente desejam que seus filhos sejam felizes e bem sucedidos, tanto na vida pessoal, como na vida profissional. E como é possível contribuir para a felicidade dos filhos em tempos onde o consumo parece ser a palavra de ordem? Será que dinheiro traz felicidade?

Muitas são as teorias a respeito dos temas dinheiro e felicidade. Há quem diga que dinheiro não traz felicidade. Outros dizem que dinheiro não traz felicidade, mas compra aquilo que poderá trazê-la. Outros, porém afirmam que é impossível ser feliz sem dinheiro…

Qual é a sua teoria?

Tendo ou não uma teoria a respeito do assunto, o fato é que vivemos num mundo globalizado e consumista. Temos hoje a disposição uma gama infinita de produtos e serviços a nossa disposição e que o acesso, a maioria deles, está diretamente ligado a condição financeira de cada indivíduo. Do que cada pessoa precisa para ser feliz, isso é muito pessoal, mas é certo que até mesmo   a manutenção das necessidades básicas de cada um, dependem do dinheiro.

O assunto que quero abordar aqui, como mãe e educadora, vai além de discutir se dinheiro traz ou não felicidade. É sobre a necessidade que temos de educar nossos filhos e nossos estudantes para uma vida feliz e equilibrada.

Estudos recentes alertam que muitas doenças como estresse, depressão, ansiedade, distúrbios do sono, hipertensão, distúrbios alimentares, entre outros, têm aumentado em virtude da dificuldade que muitas famílias têm tido em pagar suas contas e por conta de endividamentos.

Sabemos que, historicamente, as famílias não possuem o hábito de conversar com os filhos, especialmente os pequenos, sobre dinheiro, porém os tempos atuais exigem tanto dos pais como dos professores que esse assunto seja colocado em pauta.

Desde os primeiros anos de vida já é possível conversar com os filhos sobre quanto custa aquilo que compramos ou, se muito pequenos, trabalhar hábitos e atitudes de consumo consciente, como por exemplo, não desperdiçar alimentos e água; desligar a luz quando sai de um ambiente. Levá-los juntos ao supermercado para compararem o preço dos produtos e, principalmente, separar os itens que são necessários dos que são desejáveis (como por exemplo as guloseimas), podem ser boas estratégias para começar a desenvolver a responsabilidade com o dinheiro e garantir que na vida adulta eles não gastem mais do que ganham.

Lembro-me que quando meu filho completou 9 anos, a pessoa que nos auxiliava e cuidava dele no turno em que não estudava comunicou que iria parar de trabalhar conosco, pois necessitava fazer estágio da faculdade. Nesta ocasião, meu filho disse a mim e ao meu esposo que não precisava contratar outra pessoa, que gostaria de ficar em casa sozinho e ganhar uma mesada. Foi uma surpresa para nós e também uma decisão difícil de tomar. Como morávamos em um condomínio e todos os vizinhos o conheciam, resolvemos fazer a experiência de atender ao seu pedido, já que era bastante desenvolto e se necessitasse saberia a quem recorrer. Começou, então, receber a primeira mesada. Nos primeiros tempos sempre sobrava dinheiro, pois suas necessidades não passavam de alguns doces. Com o passar do tempo, mesmo a mesada sendo reajustada, o seu grau de exigência e também seus desejos aumentaram e então, para “comprar seus desejos”, precisava economizar e juntar o dinheiro de duas mesadas para alcançar seu objetivo. Muitas vezes, quando saíamos para comprar roupas, por exemplo, eu dizia para ele que era caro e ele me respondia: “compra no cartão”. Para ele, com o cartão dava para comprar tudo o que se quisesse. Foi então que decidi transformar a mesada dele em mesada eletrônica e, assim, conseguiu seu primeiro cartão. Alguns dias depois, veio a frustração, pois tentou realizar uma compra e seu dinheiro não foi suficiente. Com isso, ele aprendeu que mesmo tendo um cartão precisava controlar o seu dinheiro e priorizar os seus gastos.

Quero, com isso, mostrar que no nosso dia a dia temos muitas oportunidades de mostrar aos nossos filhos que ter controle do dinheiro é importante e necessário. Que nem sempre podemos comprar o que vemos.

Da mesma forma que as famílias, as escolas também podem e devem tratar desse assunto e não precisa, necessariamente, ser a professora de matemática. Os diferentes componentes curriculares podem trabalhar esse tema, que pode ser através de jogos, brincadeiras, discussões de temas, como por exemplo, o consumo consciente e a sustentabilidade do planeta até chegar nas noções de matemática financeira.

Cabe ressaltar que o exemplo dos pais influencia bastante no modo como as crianças vão lidar com o dinheiro na vida adulta, pois de nada adianta uma boa educação financeira se os familiares não reavaliarem os seus hábitos de consumo. Fazer a criança entender a diferença entre querer, poder, precisar e merecer não é uma tarefa fácil, porém esse aprendizado fará toda a diferença em sua vida e os auxiliará, inclusive a entender os “não”, que ao mundo os dirá.

Precisamos todos entender que ser feliz requer um conjunto de ações e atitudes que vão desde uma boa alimentação, passando por atividades físicas regulares, cuidados com a saúde do corpo e da mente e que, essa última, está intimamente relacionada com a saúde financeira de cada lar. Pesquisas mostram frequentemente que quando a situação financeira de uma família entra em colapso, as relações familiares e sociais também se abalam.

Educar as futuras gerações para uma vida feliz e equilibrada é também garantir a sustentabilidade do planeta, que depende, entre outros fatores, do consumo responsável e do destino que damos ao lixo resultante do consumo excedente da sociedade moderna. Lembramos assim, que o caminho da educação é uma via de mão dupla e que tão importante, quanto deixarmos um mundo melhor para nossos jovens, é deixar jovens melhores, mais responsáveis e mais felizes para a nossa sociedade.

Em outra reflexão publicada no site, a autora já escrevia: “Quando nascemos não temos noções de ética ou valores definidos. É tarefa dos pais passar para os filhos uma boa educação que deve sim ser democrática, porém não permissiva e não perniciosa”.

Limites: entre o direito dos filhos e o dever dos pais

 

 

Hora de encarar o tabu

“Manter o aborto como crime não diminui o número de procedimentos, não impede que eles aconteçam, só empurra as mulheres para uma situação de insegurança e clandestinidade”, resume a epidemiologista Rosa Domingues, uma das autoras da revisão sistemática sobre o aborto no país que aborda os trabalhos da última década sobre o tema. A pesquisa, realizada em coautoria com Sandra Fonseca, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), ainda está para ser publicada em edição temática especial do periódico científico Cadernos de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), mas alguns dados foram antecipados com exclusividade para esta reportagem de Radis. Dos 36 artigos científicos sobre aborto ilegal identificados pela revisão sistemática, quatro eram referentes a pesquisas de base populacional de abrangência nacional: duas edições da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Mulher e da Criança (1996 e 2006), realizadas pelo Ministério da Saúde, e duas edições da Pesquisa Nacional do Aborto, realizadas em 2010 e 2016.

Do emaranhado de estatísticas, entremeadas com uma névoa de subnotificação e tabu, é possível extrair grandes lições, de acordo com Rosa. A primeira é que a prevalência do aborto inseguro não caiu no Brasil. Os resultados da Pesquisa Nacional do Aborto (PNA) de 2016, por exemplo, indicam que esse é um fenômeno frequente e persistente entre as mulheres de toda as classes sociais, grupos raciais, níveis educacionais e religiões. No entanto, acontece com maior frequência entre mulheres de menor escolaridade, pretas, pardas e indígenas, vivendo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Como a PNA já apontava em 2010, metade das mulheres que aborta utiliza medicamentos para essa finalidade, e quase a metade precisou ficar internada para finalizar o procedimento. Um ponto que a epidemiologista destaca é que as complicações e hospitalizações decorrentes de aborto inseguro têm se reduzido, em especial pelo uso do medicamento misoprostol (de nome comercial Cytotec), cuja venda é proibida no país. Essas complicações são distribuídas de maneira desigual nas regiões e nos diferentes estratos sociais.

 

Seguro x inseguro

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica os abortos não como ilegais ou legais, mas como inseguros, parcialmente seguros ou seguros. No artigo “Estimating abortion safety: advancements and challenges”, produzido em parceria com o Instituto Guttmacher e publicado em outubro de 2017 no periódico científico The Lancet, a organização define como aborto não seguro uma gravidez que é encerrada por pessoas que não possuem as habilidades e informações necessárias ou em um ambiente que não está em conformidade com os padrões médicos mínimos. Quando é realizado em sintonia com as diretrizes e normas da OMS, o risco de complicações graves ou morte é insignificante.

Entre 2010 e 2014, aproximadamente 55% de todos os abortos no mundo foram realizados de forma segura, ou seja, por trabalhadores de saúde qualificados, usando um método recomendado pela OMS apropriado para a duração da gravidez, segundo a pesquisa. Por outro lado, 45% foram não seguros, somando 25 milhões por ano nesse período — 97% deles em países em desenvolvimento na África, Ásia e América Latina.

Pela primeira vez, o documento inclui subclassificações, como “menos seguro” ou “nada seguro”. A distinção permite uma compreensão mais matizada das diferentes circunstâncias de abortos entre as mulheres que não conseguem ter acesso a um profissional qualificado. Quase um terço (31%) foram considerados “menos seguros”, ou seja, executados por profissionais qualificados com um método não seguro ou defasado, como a “curetagem uterina”, ou por uma pessoa não qualificada, embora usando um método seguro. E 14% foram “nada seguros”, realizados por pessoas que usavam métodos perigosos, como a introdução de objetos estranhos e o uso de misturas de ervas. Complicações derivadas de abortos “nada seguros” podem incluir aborto incompleto (que acontece quando não se retira do útero todo o tecido da gravidez), hemorragia, lesões vaginal, cervical e uterina, além de infecções.

 

Aborto inseguro no Brasil

“Mulheres ricas abortam, mulheres pobres morrem”, dizem cartazes em manifestações dos movimentos de mulheres. Por se tratar de um procedimento ilegal, os óbitos maternos por aborto inseguro e suas complicações são difíceis de mensurar. Mas estudos dão pistas. A “Pesquisa sobre aborto no Brasil: avanços e desafios para o campo da saúde coletiva”, de Greice Menezes e Estela Aquino, de 2009, mostrou que o perfil das mulheres brasileiras que morrem em decorrência do aborto é de jovens, negras, de estratos sociais menos privilegiados e que residem em áreas periféricas das cidades.

“As razões para a interrupção da gravidez incluem a falta de acesso a contraceptivos ou falha destes; preocupações socioeconômicas, como situação de pobreza, baixa escolaridade e desemprego; necessidade de planejar o tamanho da família, como o espaçamento entre filhos; falta de apoio do parceiro; riscos para a saúde materna ou fetal e gravidez resultante de estupro ou incesto”, detalharam.

“O aborto induzido é muito comum. Ontem mesmo um colega atendeu uma paciente, mãe de quatro filhos, na quinta gestação, que tentou abortar injetando soda cáustica na vagina. Essa mulher nunca teve acesso sequer a métodos contraceptivos”, contou à Radis o médico Rodolfo Pacagnella, professor do Departamento de Tocoginecologia da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp e presidente da Comissão de Mortalidade Materna da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). “Muitas vezes, até há o acesso a um método, mas ele pode ter falhas, ou seu uso não respeita o estilo de vida da mulher, depende exclusivamente da memória, ou seu organismo não se adapta. Não dá para a gente achar que a culpa é dela quando acontece uma negligência do sistema de saúde”, pondera. A paciente mencionada por Rodolfo é um exemplo trágico do extremo da insegurança. Ela recorreu a uma tentativa desesperada e extremamente danosa para a sua saúde, sofrerá sequelas sérias, mas mesmo assim, ainda encontra-se grávida.

Fora do estrato de maior vulnerabilidade social, interromper a gravidez é uma decisão com menor risco. “Entre mulheres de maior renda e instrução, o aborto é um desfecho provável diante de uma gestação não desejada”, concluíram os pesquisadores Marcelo Medeiros e Debora Diniz, esta última uma das maiores especialistas no tema dos direitos humanos em saúde e dos direitos sexuais e reprodutivos no Brasil. Professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB) e pesquisadora do Anis Instituto de Bioética, a antropóloga tem recebido ameaças por defender a descriminalização do aborto (veja na pág. 19).

 

Queda nas complicações

Ainda que persistam tabu, preconceito e fundamentalismo em torno do tema, a tecnologia permitiu que as complicações decorrentes de abortos diminuíssem ao longo do tempo.  De acordo com a revisão sistemática antecipada à Radis, no período de 1992 a 2009, as hospitalizações por aborto foram reduzidas em 57%. Para as complicações mais graves, a queda foi de 69%. Diversos autores atribuem o fato ao uso do misoprostol (leia na pág. 16) — na PNA, aproximadamente metade das mulheres referiu ter usado o medicamento para interromper a gestação.

Ainda assim, o Brasil tem taxas de hospitalização mais elevadas que outros países. As maiores foram observadas nas regiões Norte e Nordeste; as menores, na região Sul. Existem algumas explicações possíveis: o aborto ainda é muito frequente no país; o acesso a métodos seguros ainda é limitado; e está disseminada a prática de curetagem. “Temos alto número de gravidezes não desejadas e acesso limitado a métodos seguros. Na clandestinidade, ão é possível saber se o medicamento tem a dose necessária para ser eficaz e se a pessoa toma no período gestacional indicado”, comenta Rosa.

De acordo com a OMS, a maioria das interrupções de gravidez se resolve apenas usando a medicação. Mas, no Brasil, é comum que se procure o serviço de saúde assim que começa o sangramento. “Mesmo as mulheres que utilizam o medicamento recorrem ao hospital, porque são orientadas a fazer dessa forma, o que pode levar a um excesso de intervenções ”, observa a epidemiologista. “Nos hospitais, muitas vezes são submetidas a uma curetagem, que nem sempre é necessária”.

 

Debate no STF

Todos os argumentos — contrários e favoráveis à descriminalização — serão desfiados na audiência pública do STF. Cerca de 500 instituições se inscreveram para ter seus representantes ouvidos, um recorde de participação na história do Supremo. “Essa é a melhor chance dos últimos 40 anos — e, talvez, dos próximos 40 anos — para discussão sobre o tema no Brasil. É essencial que se aproveite a oportunidade”, avalia Rodolfo Pacagnella. O STF decidiu convocar a audiência pública após o Partido Socialismo e Liberdade (Psol), assessorado por diferentes organizações da sociedade civil, ter dado entrada em uma ação de Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF), de número 442. A ADPF questiona a constitucionalidade dos artigos 124 e 126 do Código Penal brasileiro, de 1940, que criminalizam a prática do aborto.  A advogada Gabriela Rondon, da Anis, está otimista: “A expectativa para a audiência é muito positiva, com vozes muito fortes da ciência médica e da saúde”. Foram aceitos 45 pedidos de participação no momento da audiência. Mais 40 representantes de organizações estão registrados como amicus curiae — uma espécie de assessoria técnica que tem acesso aos gabinetes de ministros, com o papel de acompanhar e aconselhar durante todo o processo. “São 29 favoráveis e 11 contrários”, contabiliza Gabriela. A audiência não garante que o tema seja julgado em breve. De qualquer forma, a advogada comemora o fato de o assunto ter entrado em pauta.

Um dos inscritos para ser ouvido é o médico sanitarista José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde, professor e pesquisador aposentado da Fiocruz, que vai falar em nome da Academia Nacional de Medicina, ao lado do obstetra Jorge Rezende Filho. Em nota enviada à Radis, Temporão afirma que “o Brasil pode seguir a tendência global de ampliação de direitos reprodutivos e sexuais e de retirar da clandestinidade uma prática que é comum e persistente em nossa sociedade”.

O sanitarista defenderá a tese de que o aborto deve ser descriminalizado até a 12ª semana de gestação no Brasil, porque o cenário de criminalização tem consequências graves para a saúde pública. “Se realizado em condições adequadas, segundo os protocolos recomendados pela OMS, o aborto é um procedimento seguro e eficaz, com baixo risco de sequelas e que contribui para reduzir a morbimortalidade materna. Sustentamos que o tema precisa ser debatido com base em evidências científicas e nas experiências bem documentadas dos países onde a interrupção voluntária da gravidez é realizada legalmente”, afirmou.

 

Aborto legal

O aborto é permitido no Brasil em casos de estupro, risco de morte para a mãe ou anencefalia — neste último caso, foi permitido após o STF julgar uma ADPF sobre o tema em 2012. A Lei 12.845/2013 garante atendimento em qualquer hospital do SUS (Radis 162). Na prática, ainda há grandes entraves e obstáculos. “Existem barreiras geográficas, organizacionais e alto índice de objeção de consciência por parte das equipes [quando se negam a prestar o cuidado]”, explica Rosa Domingues.

Apenas metade das mulheres que tentam utilizar os serviços — muitas delas meninas e adolescentes estupradas — consegue efetivamente interromper a gravidez. “Pela norma técnica vigente, não é necessário o serviço estar credenciado para fazer o aborto legal. Qualquer serviço de saúde deve atender, mas poucos o fazem”, relata. “E, desde 2005, a mulher não tem que apresentar um boletim de ocorrência do abuso sexual sofrido, mas na ponta do serrviço muitas vezes isso é exigido”.

“As mulheres negras, jovens, adolescentes, com baixa escolaridade, têm corrido risco de vida e de sequelas graves”, afirma a advogada Beatriz Galli, consultora da organização Ipas Brasil, que trabalha pelo direito reprodutivo das mulheres, de forma autônoma, apoiado a rede de especialistas internacionais. “A descriminalização do aborto é, antes de tudo, uma medida de combate à desigualdade no acesso à saúde”.

A única das metas que o Brasil não conseguiu cumprir dos sete Objetivos do Desenvolvimento do Milênio foi a redução da mortalidade materna até 2015 em três quartos — para 35 mulheres a cada 100 mil nascidos vivos. A meta foi adiada e incluída nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, a nova agenda global que vigora até 2030. A quinta maior causa de mortalidade materna no país são complicações decorrentes de abortos induzidos.

Beatriz lembra que há um projeto de lei (PL 882/2015) de autoria do deputado Jean Wyllys proposto na Câmara que descriminaliza a interrupção da gravidez até a 12ª semana de gestação. No ano passado, a Proposta de Emenda Constitucional 181 incluía uma mudança no artigo 1º da Constituição, enfatizando a “dignidade da pessoa humana desde a sua concepção”. Com a mudança no texto, os deputados esperavam abrir uma brecha legal para condenar mulheres por fazerem aborto, mesmo em casos permitidos pelo Código Penal (Radis 187). A proposta foi aprovada em uma comissão mas não foi a plenário. Em 2016, a Associação Nacional de Defensores Públicos ingressou com uma ação no STF na qual pedia que grávidas afetadas pelo zika vírus, que provoca graves problemas de desenvolvimento no feto, tivessem direito ao aborto. A tramitação não foi adiante.

Enquanto as leis não mudam, as mulheres continuam a ser punidas. Segundo Beatriz, tem havido uma “verdadeira investida” de criminalização das que tentam comprar o medicamento na web e acabam sofrendo processos; além de tudo, o medicamento obtido pode ser falso.

 

Maternidade Compulsória

Mais da metade das gestações no Brasil (55%) não é planejada. É o que aponta a pesquisa “Nascer no Brasil: inquérito nacional sobre parto e nascimento”, de 2014, que ouviu mulheres nas maternidades, já com a criança nascida. Das cerca de 24 mil entrevistadas, 4.080 (17%) tinham entre 10 e 19 anos; entre elas, o índice de gravidez não desejada atingiu 66%. A coordenadora da pesquisa, Maria do Carmo Leal, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), conta que, para muitas, a gravidez não foi programada mas poderia acontecer na vida delas. Porém, 29% disseram que a criança não caberia de jeito nenhum naquele momento.

“Outra pergunta que fizemos foi se a mulher estava satisfeita com a gestação: 10% delas, com o bebê no colo, afirmaram que não estavam satisfeitas, que aquele filho não cabia em suas vidas”, relata. “Quando a gravidez não bem-vinda na vida da mulher, ela deve ter o direito de não ter esse filho. Ela não pode ser castigada por engravidar. É preciso garantir seu direito de decidir”, avalia Maria do Carmo.

A juíza de Direito do Pará Andréa Bispo estudou o discurso sociológico no ordenamento jurídico do país que mantém o aborto criminalizado (Radis 187). A justificativa para a criminalização é a naturalização da maternidade como papel tradicional — e, muitas vezes, visto como único — atribuído à mulher na sociedade. A maternidade compulsória é criticada também por Rodolfo Pacagnella: “A vida sexual é parte da vida e as pessoas não fazem sexo só para engravidar”.

Na Constituição Federal, é previsto o acesso a planejamento familiar, e isso significa programar quando engravidar, quantos filhos ter e o intervalo entre as gestações. Mas Maria do Carmo lembra que “as mulheres e os parceiros não fazem um maior planejamento da reprodução porque ninguém é capaz de planejar toda a vida com perfeição”.

 

Autor:  Elisa Batalha
Fonte: Radis

 

Salvem nossas crianças!

Esses inocentes já tem vida desde a concepção,
como aponta a ciência. Não são apenas um órgão
do corpo da mãe.

 

Ganhou repercussão planetária e comoção mundial o resgate dos meninos presos nas cavernas da Tailândia. Tudo se fez para recuperar a vida, no útero de uma caverna, envolvida por águas pluviais. Houve um senso de humanidade, à favor da vida, que rapidamente ganhou dimensões de voluntariado geral, enquanto as mídias sociais transbordavam de mensagens de amor, preces e solidariedade.

As atenções estavam voltadas à salvação da vida daqueles pobres meninos, custe o que custasse. Não se pensou as razões externas. A vida frágil em perigo de morte foi o foco principal de resgate.

Mesma luta pela vida frágil não há na busca da descriminalização do aborto em nosso país. Não são poucas crianças indefesas que estão correndo perigo, confinadas num lugar fechado, inertes, escondidas no útero materno. São milhões de abortos provocados no mundo inteiro. Esses inocentes já tem vida desde a concepção, como aponta a ciência. Não são apenas um órgão do corpo da mãe.

Mais indefesos do que os 12 meninos tailandeses, estão igualmente envolvidos em água. Essas crianças precisam ser salvas de qualquer intervenção criminosa, segundo o Código Penal Brasileiro. Não podemos perder de vista o direito inviolável do nascituro, sobre qualquer outro direito menor de liberdade da gestante.

Se tanto gritamos e lutamos pelos direitos da minoria, os menores indefesos confinados sem voz no ventre materno precisam ter defesa primordial com toda a sua integralidade (dado científico), dignidade (Art. 1º da Const.) e inviolabilidade (Art. 5º da Const.), conforme apontou recentemente a CNBB. Nossa reta consciência deve tutelar a favor da vida mais frágil e inocente que é a do bebê, sem chance de qualquer reivindicação, como este daqueles que tiveram a chance e a graça de nascer.

Quem é a favor do aborto não foi abortado. Por isso, pode reivindicar outros direitos. Poder viver é o maior direito sobre qualquer outro. Que a Suprema Corte Brasileira, dessa nação tão cheia de injustiças, não permita a descriminalização do atentado contra a vida nascente, para aumentar ainda mais o sofrimento dos inocentes.

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