Início Site Página 194

Defender fé cristã, mas amar a todos, independente do que pensam

Fernando Lyra é um homem educado, estudioso e de muita fé. Em sua passagem por Passo Fundo, fez amigos e deixou importantes marcas em sua atuação no ministério pastoral da Igreja Presbiteriana Independente. Em sua entrevista exclusiva ao site, revela-se como ser humano e como vocacionado a serviço da ética e vivência cristã. Conheça-o, por ele mesmo, através de nove questões formuladas para esta entrevista.

Nei Alberto Pies: Acompanhando sua trajetória de religioso, pastor da Igreja Presbiteriana Independente, podemos perceber que o senhor é um homem realizado. Quais foram, e continuam sendo, suas motivações na missão de difundir e viver a ética de Jesus Cristo?

Fernando Lyra: Há pastores e pastores, assim como padres e padres. Muitos caminham para o sacerdócio como meio de subsistência, outros pelo status e outros ingenuamente achando que tem vocação. A grande questão do ministério pastoral é o chamado de Deus. Quem não tem chamado (vocação) tomba pelo caminho ou desenvolve o ministério apenas sob o ponto de vista profissional, sem paixão. Esta é a primeira questão e a principal. Em segundo lugar eu creio no poder do evangelho. O apóstolo Paulo disse: “Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê…” – Romanos 1.16. Eu creio que o evangelho é a solução para os problemas existenciais, familiares e sociais. Tenho visto ao longo de meu ministério famílias inteiras sendo restauradas espiritualmente e socialmente.

O evangelho cura a nossa pior doença que é o pecado, a auto suficiência de achar que podemos viver sem Deus. Socialmente falando, é impossível quantificar o quanto as igrejas fazem, em todo mundo, para amenizar a desigualdade social e o sofrimento humano. Tenho certeza absoluta que muito mais do que todas as ONGs juntas.

Nei Alberto Pies: Em sua passagem pelo RS, na cidade de Passo Fundo, o que o senhor pôde aprender com a cultura e a experiência religiosa do povo gaúcho?

Fernando Lyra: Sem dúvida nenhuma descobri que existe uma “alma gaúcha”. Isto é muito bonito de ver. O apego à terra, às tradições, e o orgulho de ser gaúcho. Isto não existe em São Paulo. Até aprendi o hino gaúcho (rsrs). No entanto, faço uma observação e creio que seja pertinente. Este amor pelo estado deveria ser usado para transformá-lo no melhor estado da nação do ponto de vista da economia e do desenvolvimento social e de infraestrutura. Porém, a mesma corrupção e desgoverno que vemos nos outros estados, existe também no RS. Quanto a experiência religiosa do povo gaúcho também percebi diferenças em relação a SP.

Os gaúchos, por ser um povo aguerrido e bravo, são menos religiosos que os demais. A famosa expressão “não está morto quem peleia” mostra bem essa autossuficiência gaúcha. Sendo assim, ele é um povo menos “dependente” de Deus, porque crê muito na força de seu próprio braço. Isto é notável pelo número bem menor de igrejas evangélicas no RS. Outra particularidade religiosa do RS é que sendo o estado mais “europeu” do Brasil, ao mesmo tempo é o estado com o maior número de adeptos de religiões afros.

Nei Alberto Pies: Soube que o senhor está escrevendo um livro com o título “O lado B do sofrimento”. O que o senhor quer dizer com o lado “B” do sofrimento?

Fernando Lyra: O livro “O lado B do sofrimento” procura discorrer sobre os benefícios do sofrimento. Como diz o ditado “há males que vêm para o bem”, a vida nos mostra que isto é verdade. O segredo está em saber que a nossa história faz parte da grande história de Deus e descobrir qual o propósito de Deus no sofrimento que enfrentamos. Quando descobrimos isso, podemos “potencializar” todas as experiências negativas que passamos para nos tornar pessoas melhores, e viver com mais equilíbrio e serenidade.

Nei Alberto Pies: Conhecemos o senhor como um religioso que estuda, que procura aperfeiçoar o conhecimento e as novas técnicas de evangelização. Quais são, hoje, os maiores desafios de evangelização ou de promoção dos valores cristãos?

O maior desafio é mudar a igreja! O que temos visto hoje é que a nossa sociedade está cada vez mais secularizada, ou seja, mais mundanizada e menos religiosa. Seus valores estão cada vez mais distantes dos valores cristãos. Mas por que a fé cristã não tem tido relevância nos dias de hoje? A meu ver, é porque a igreja não está conseguindo cumprir a sua tarefa da evangelização e promoção dos valores cristãos. Conheço muitas pessoas que creem em Deus, mas estão fora da igreja. Elas dizem que não precisam dela para viver a sua fé.

O paradigma que muitos têm da igreja hoje é de uma igreja católica “maçante” e de uma igreja evangélica “mercantilista”. Sendo assim, muitos têm rejeitado a igreja. Então, a meu ver, o grande desafio é mudar a igreja, fazendo com que ela se torne novamente relevante para a sociedade. Para que isto aconteça, a igreja precisa olhar menos para dentro de si mesma, preocupada com suas estruturas internas e olhar mais para fora, preocupando-se mais com as pessoas. A sua pregação, a sua liturgia, a sua prática diaconal e o seu ensino precisam ser contemporâneos, precisam falar a língua do povo.

Neste mundo líquido pós-moderno, a igreja precisa abordar questões que deem sentido a vida das pessoas e lhes transmitam paz espiritual e esperança. No fundo, como disse Santo Agostinho, todo ser humano tem saudade de Deus. Ele disse: “Criaste-nos para ti, ó Deus, e a nossa alma não encontra repouso enquanto não descansar em ti”. O problema não está no evangelho, no conteúdo da mensagem, afinal, o evangelho tem as respostas para todos os anseios espirituais do ser humano. O problema está na comunicação do evangelho por que a igreja não está conseguindo fazer a ponte entre o evangelho e as necessidades das pessoas.

Nei Alberto Pies: O senhor produz um material audiovisual que se chama Conectar com Deus. Qual é a sua intenção com este material?

O vídeo semanal “Conectar com Deus” que publicamos toda terça-feira tem menos de 2 minutos, e é uma tentativa de contextualizar a ação evangelizadora da igreja dentro de uma sociedade midiática. Ele é enviado através de ferramentas de comunicação muito populares hoje, como o Whathsapp, Facebook e Youtube. O intuito é transmitir o evangelho de uma forma rápida (como tudo hoje em dia), mas também de uma forma clara e que tenha aplicabilidade no cotidiano das pessoas. Em toda a Bíblia, vemos Deus indo em direção ao ser humano, e não o contrário. Jesus disse: “Ide e fazei discípulos…”. Hoje, a igreja precisa encontrar caminhos de sair das quatro paredes para que a sua pregação alcance as pessoas onde elas estão.

Nei Alberto Pies: Nas aulas de Ensino Religioso das escolas públicas, promovemos o paradigma inter-religioso, oportunizando aos alunos e alunas o conhecimento das diferentes religiões com o propósito de que possam respeitá-las. O que o senhor acha disso?

Fernando Lyra: Acho fundamental todo e qualquer desenvolvimento do respeito. Na doutrina cristã, o ser humano foi criado a imagem e semelhança de Deus, por isso, qualquer pessoa deve ser respeitada como um semelhante, independentemente qual seja sua crença religiosa. Se necessário, posso até defender com toda convicção a fé cristã diante de outras religiões, mas é meu dever amar as pessoas, independente do que pensam.

Nei Alberto Pies: Qual é o seu conceito de espiritualidade? Por que a espiritualidade é um tema tão discutido nos dias atuais?

Fernando Lyra: Porque o ser humano é um ser espiritual, simples assim! (rsrs). Espiritualidade é o relacionamento com o sagrado. Na fé cristã, obviamente, é o relacionamento com Cristo, aliás, com mais assertividade, com o Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Os meios práticos do desenvolvimento da espiritualidade cristã mais comuns são a leitura bíblica, a oração, a comunhão, e a adoração comunitária (missa ou o culto). Além desses, porém menos praticados, temos a meditação, o jejum, a solitude (silêncio com Deus), a contemplação, etc.

Nei Alberto Pies: Qual é a mensagem que o Senhor gostaria de deixar para os leitores do site, que buscam conhecimentos que promovem a humanização?

Fernando Lyra: Que continuem empenhados nesta caminhada do conhecimento, mas que este conhecimento seja usado para o bem comum e não para a vanglória pessoal. Acrescento, porém, que apenas conhecimento pelo conhecimento não gera, necessariamente, um mundo melhor, mas sim, o conhecimento de Deus. Quanto mais cheio de Deus, o homem se torna humano e humilde, quanto mais cheio de si mesmo, o homem se torna deificado e soberbo.

Nei Alberto Pies: Outras considerações que o senhor queira fazer.

Fernando Lyra: O ministério pastoral é uma profissão árdua, que lida com pessoas, que lida com o sofrimento humano e que não traz vantagens financeiras (exceto aos mercenários religiosos da TV). Porém, eu continuo pregando a Palavra porque eu creio que o evangelho é o instrumento que nos reaproxima de Deus.

O ser humano foi criado em perfeição (Gênesis 1.31), mas pelo livre arbítrio escolheu ser independente de Deus. Ao pecar, o ser humano criou conflitos consigo mesmo (Gn. 3.7 e 10), com Deus (Gn. 3.8), com o próximo (Gn. 3.12) e com a natureza (Gn. 3.17). Mas Jesus Cristo veio, cumpriu a Lei que não podíamos cumprir e levou sobre si a culpa dos nossos pecados. Ele nos absolve perante Deus.

Quando depositamos nossa fé Nele e no que Ele fez, então Deus nos aceita novamente, somos reconciliados com Deus! A nossa vida entra no “eixo”, cumprindo o seu propósito principal de viver para Deus. O propósito principal para o qual Deus criou os seres humanos foi explícito pelo apóstolo Paulo em 1 Coríntios 10.31: “Portanto, quando vocês comem, ou bebem, ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus.” O ser humano foi criado por Deus e para Deus. Confira em Isaías 43.7 e 60.21, Romanos 11.36 e 14.7-8.

Vida, cultura e religião dos judeus do norte do RS

Apresentamos breve histórico dos imigrantes judeus que habitam a região norte do RS desde 1912, estabelecendo aqui suas raízes, suas crenças e tradições. Apresentamos, também uma conversa/entrevista com o líder religioso Berel Natan Engelman que, com muita sabedoria, serenidade e experiência vem conduzindo esta comunidade religiosa há 24 anos.

Os primeiros judeus a se estabelecerem em Passo Fundo datam de 1912. Após 10 anos, em 1922 fundaram a União Israelita Passofundense e logo providenciaram uma biblioteca. Nas ocasiões das grandes festas religiosas iam para o Município de Quatro Irmãos agregando-se aos demais judeus que lá viviam.

No ano seguinte em 1923, a Sociedade Israelita instalou-se em casa alugada, a Sinagoga, a biblioteca e a sede social e já na sequência, a escola com aulas de instrução religiosa. Na necrópole municipal, a Sociedade possui o Cemitério Israelita, este fundado em 1924. Nesta época a Sociedade Israelita, além da Sinagoga, havia também uma escola e um salão onde realizavam-se festas, bailes e teatros. Na escola havia um professor chamado Boruch Bariach que ministrava aulas para o primário e ensino judaico.

Moravam em Passo Fundo cerca de cinquenta famílias. Samuel Chmelnitzky e Celina Milman organizavam e dirigiam um grupo de amadores que apresentavam quadros e peças em Yidish (dialeto adotado pelos judeus na Europa Central). O Sr. Chmelnitzky também dirigia um coro misto que se apresentava para a comunidade com canções em Idish e Hebraico. Em 1944 havia cerca de setenta famílias judias em Passo Fundo. Quatro Irmãos fornecia população para Erechim, Passo Fundo e Porto Alegre. Philipson para Santa Maria, Cruz Alta e também para a capital.

A Sinagoga teve três incêndios em anos diferentes, mas o Sefer Torá (Rolo Sagrado) sempre foram salvos sem sofrerem danos. No último sinistro ocorrido, a Comunidade judaica se uniu novamente e reconstruíram a Sinagoga em dois meses, ficando pronta para as grandes festas religiosas. (Comunidades Judaicas-Leon Back.vol.IV-1958).

Atualmente vivem em Passo Fundo somente quinze famílias judaicas.Vários fatores contribuíram para este fenômeno. O primeiro é a diminuição dos filhos, acompanhando uma tendência geral da sociedade, pressionada pelas questões socioeconômicas e culturais.

O segundo fator é a migração de jovens para outros estados ou países, seja por causa de estudos, atrás de emprego, ou simplesmente buscando vida nova em outros lugares. Entre os chefes de família, todos os judeus desta região são de origem Askenazi, judeus provenientes da Europa Central e Europa Oriental.

A Coletividade Israelita local segue um calendário anual com datas a serem lembradas, dentre elas as Grandes Festas e tem como tradição à celebração do Cabalat Shabat todas as sextas-feiras na Sinagoga Abrahão Melnick.

O atual presidente da Sociedade União Israelita de Passo Fundo, é o Sr. Berel Natan Engelman que também exerce a função de Líder Espiritual da Comunidade Israelita de Passo Fundo. Veja mais aqui.

 

Segue entrevista de Berel Natan Engelman, líder espiritual da Comunidade Israelita de Passo Fundo.

 

Nei Alberto Pies: Como a Sinagoga é organizada em nossa cidade Passo Fundo?

Berel: Há uma diretoria composta por alguns membros da Comunidade Israelita local onde fica com a reponsabilidade de organização de todos os eventos, sejam eles de Orações ou para as festas representativas e a participação é para todos os integrantes desta Comunidade e também para outros judeus visitantes. Os encontros ocorrem semanalmente.

Nei Alberto Pies: Como e quando a Sinagoga pode ser visitada?

Berel: Todas as visitas devem ser sempre pré-agendadas para melhor organização e que possamos atender às necessidades desses visitantes. As datas sempre serão ajustadas conforme possibilidades.

Nei Alberto Pies: Como o Cemitério Israelita pode ser acessado?

Berel: Através de uma solicitação antecipada e acompanhada por algum membro desta Comunidade. Existem algumas datas indevidas para às visitações, seguindo um calendário específico judaico e aos sábados nunca será permitido a entrada.

Nei Alberto Pies: Como a suástica nazista é vista pelo povo judeu no Brasil e no mundo? O que o Holocausto representou para os judeus do mundo inteiro?

Berel: Esse símbolo degradante em que o Partido Nazista tem como representatividade “a batalha pela vitória do povo ariano”, ou seja, a “raça pura”, não somente é ofensiva para o povo judeu do Brasil, como é também para todos os judeus do mundo inteiro, assim também o é para muitos outros povos perseguidos e massacrados por esse regime genocida.

O Holocausto foi a maior barbárie já cometida em todos os tempos, foi o pior genocídio perpetrado pela Alemanha Nazista e seus colaboradores assassinando mais de seis milhões de judeus, cerca de dois terços da população judaica europeia.

Nei Alberto Pies: Qual é a relação dos judeus de Passo Fundo com o Estado de Israel?

Berel: Todos os judeus do mundo inteiro tem uma ligação forte com Israel, pois é sua Pátria-Mãe. A Torá (Livro Sagrado dos Judeus) menciona muitas vezes Israel, assim como a capital Jerusalém, sua ligação direta para com o povo judeu, seja àquele que vive em Israel ou todos os demais espalhados mundo a fora através da diáspora (dispersão do povo judeu pelo mundo).

Os judeus através das Escrituras Sagradas por mais de 4.000 anos seguem rezando na direção de Jerusalém, capital de Israel, tendo como o local mais Sagrado o Kotel Hamaaravi (Muro das Lamentações), local esse que era o 1º Templo de Salomão derrubado pelos babilônios em 586 a. C. E após reconstruído, novamente voltou a ser destruído pelos romanos no ano 70 da nossa era.

A relação dos judeus com Israel fica ainda mais forte com a resolução aprovada pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1948 e que decreta esse país como terra do povo judeu. Em Israel há uma das mais importantes Leis, chamada de “Lei do Retorno”, concede o direito de residência e cidadania a qualquer judeu, originário de qualquer país do mundo, que deseje emigrar para o território israelense.

Nei Alberto Pies: Qual é a importância social, econômica e religiosa da presença dos imigrantes judeus na região norte do Rio Grande do Sul?

Berel: A Imigração judaica na região norte se dá a partir dos primeiros judeus asquenazes oriundos do leste europeu. Se estabeleceram no município de Quatro Irmãos na Região do Alto Uruguai, no norte do estado gaúcho a 30 Km de Paiol Grande, atual cidade de Erechim; a 17 Km do núcleo de Erebango e em torno de 73 Km de Passo Fundo.

Os primeiros imigrantes chegaram trabalhando basicamente com a agricultura e posteriormente se desenvolvendo em várias atividades profissionais se fortalecendo como Comunidade judaica e se inserindo com a sociedade em geral, sempre contribuindo com os locais em que viviam para o crescimento e desenvolvimento destas localidades. Os judeus de antigamente, assim como os judeus desta geração, seguem firmes e fortes preservando suas identidades religiosas, trabalhando muito e preservando como um todo a nossa identidade social, sem esquecer da nossa ascendência e por tudo que o nosso querido País e o nosso Estado proporcionou para com aqueles que chegaram de muito longe.

Nei Alberto Pies: Como os judeus gostariam de ser vistos pelos demais povos do mundo?

Berel: Pertencemos a uma religião de mais de 4.000 anos, esta que acreditou em um único D’us e não em deuses. Não somos o povo que tem por objetivo o proselitismo, somos um povo de caráter religioso e que respeita todas as demais religiões e credos.

Acredito que todo judeu gostaria que todos pudessem conhecer melhor os fundamentos da fé judaica, conhecer seus princípios, conhecer melhor a História desde o início, ter conhecimento sobre as reais circunstâncias sofridas por esse povo desde que mundo é mundo, entender o real significado do judaísmo e o que é ser judeu. Que todos pudessem conhecer às contribuições não somente de Israel, assim como os diversos judeus de vários países com suas contribuições e colaborações para com a humanidade. Talvez com esses conhecimentos o povo judeu poderia estar num patamar bem melhor de respeitabilidade e evitar o que infelizmente ainda existe nos quatro cantos do mundo, o antissemitismo.

Nei Alberto Pies: Quais os principais fundamentos da fé judaica?

Berel: Rabi Yochanan ensinou: A maioria das leis da Torá é fundamentada na transmissão oral e apenas a minoria nas escrituras. Pois está escrito: ´Por meio da boca (palavras transmitidas oralmente), Eu (o Eterno) fiz uma aliança contigo e com Israel` (Êxodo 34:27). “Se a aliança de D’us com Israel foi estabelecida por meio de leis que foram transmitidas oralmente, isso significa que estas constituem a maioria da Torá”. (Talmud bavli, Gitin 60b).

Para os judeus a crença em um único D’us (a primeira religião monoteísta); seguir a Torá (Livro sagrado dos Judeus), conhecida como o Velho Testamento; reconhecer a presença e revelação de D’us nos acontecimentos da História; caridade também como um dos fundamentos da fé judaica não há fronteiras para o povo judeu; acreditar na vinda de Mashiach, ou o “Ungido”, conhecido como Messias. Estes são alguns fundamentos da fé judaica.

Nei Alberto Pies: Qual é a mensagem que a comunidade judaica de Passo Fundo gostaria de externar aos passofundenses?

Berel: Como atual presidente da Comunidade Israelita de Passo Fundo, comunidade esta que existe desde 1912, ou seja há 106 anos, quase 70% de convivência desde a fundação de Passo Fundo, gostaria de saudar a todos que aqui vivem, dizer que nunca, em momento algum houve se quer um ato de hostilidade contra algum membro da Comunidade Israelita e é isso que esperamos para esse modelo de cidade, uma contínua e boa convivência entre todos os povos, diferentemente de suas convicções religiosas.

Que possamos sempre respeitar-nos uns aos outros e juntos promover a Paz com nossas liberdades de cultos e tradições sem infringir às regras.

Nei Alberto Pies: Qual é a sua função como líder religioso da Comunidade Israelita de Passo Fundo?

Berel: Venho exercendo esta função há 24 anos, tenho como liderança a responsabilidade de atender a comunidade como um todo em vários pontos, o principal trata-se das atividades religiosas, sejam elas com as Tefilót (Orações), com as datas festivas ou datas importantes do calendário judaico, orientações diversas, visitações aos doentes e também com os momentos mais difíceis e em casos de falecimentos, além dos cuidados de manutenção tanto na Sinagoga como no Cemitério Israelita. Tudo isso com a colaboração de outros membros da Comunidade local. Seguidamente sou solicitado a participar com alguma palestra em escolas e com às visitações de professores e alunos tanto na Sinagoga, quanto no Cemitério Israelita.

Nei Alberto Pies: Qual é a importância da religião judaica estar representada no CONER Seccional Passo Fundo (Conselho do Ensino Religioso)?

Berel: Pertencer a esta Entidade é mostrar o lado mais aplicável das instituições judaicas espalhadas pelo Brasil, ou seja, estar sempre participativo e colaborando para que o bom conhecimento possa chegar cada vez mais a todos, numa forma clara de conhecimento e nesse caso junto àqueles que deverão estar ensinando e repassando ao maior número de pessoas.

Estamos sempre dispostos a somar forças na busca de meios e condições que assegurem a tutela do direito à liberdade de consciência religiosa e do direito ao Ensino Religioso, como parte integrante da formação básica do cidadão e a apoiar a formação de profissionais para o Ensino Religioso.

Nei Alberto Pies: Outras questões que queira destacar.

Berel: Esta Instituição Religiosa, que se encontra neste município por mais de um século, tendo em seus patrimônios uma Sinagoga datada de 1922 e um Cemitério Israelita desde 1924 (com um Monumento do Holocausto inaugurado em 2010), locais esses que se encontram em terrenos adquiridos e comprados, devidamente escriturados em suas épocas e que continuam sendo preservados e administrados pela Comunidade atual. Como Comunidade do interior do Estado está filiada com a Federação Israelita do Rio Grande do Sul (FIRS) e com a Confederação Israelita do Brasil (CONIB).

Mesmo que o número de judeus esteja reduzido em nossa cidade, seguimos juntos com a nossa Fé milenar, não esquecendo jamais daqueles que nos antecederam e firmamos juntos o compromisso de manter sempre viva a chama do judaísmo e que o nosso legado possa ficar para as gerações futuras.

 

Perguntas para quem tem mais curiosidades sobre a cultura e religiosidade judaica

COMO SE CHAMA O LIVRO SAGRADO DOS JUDEUS?
O QUE É SHABAT?
POR QUE SE ACENDEM DUAS VELAS NO SHABAT?
O QUE É SHALOM ALEICHEM?
O QUE SIGNIFICA KIDUSH?
COMO SE CHAMA OS PÃES DOS JUDEUS?
POR QUE OS MENINOS JUDEUS SÃO CIRCUNCIDADOS?
EXISTE ALGUMA CERIMÔNIA PARA AS MENINAS JUDIAS QUANDO NASCEM?
QUAL O SIGNIFICADO DO BAR-MITZVÁ?
QUAL O SIGNIFICADO DO BAT-MITZVÁ?
POR QUE O NOIVO QUEBRA UM COPO NO FINAL DA CERIMÔNIA DE CASAMENTO?
POR QUE É PROIBIDO AOS JUDEUS CASAREM-SE COM UMA PESSOA QUE NÃO SEJA DA MESMA RELIGIÃO?
POR QUE SE COBRE O CORPO LOGO APÓS O FALECIMENTO?
POR QUE SE COLOCAM VELAS ACESAS AO LADO DO CORPO DO FALECIDO?
COM QUAL ROUPA O FALECIDO SERÁ ENTERRADO?
POR QUE OS CAIXÕES NÃO SÃO ORNAMENTADOS E FLORES NOS ENTERROS JUDAICOS?
EXISTE UMA ORAÇÃO ESPECÍFICA PARA OS MORTOS?
POR QUE É COSTUME COLOCAR PEDRINHAS NOS TÚMULOS?
EXISTEM DATAS ESPECÍFICAS PARA LEMBRAR DOS FALECIDOS?
A LEI JUDAICA PERMITE A CREMAÇÃO?
POR QUE OS SUICIDAS SÃO ENTERRADOS SEPARADAMENTE?
UM JUDEU PODE SER ENTERRADO EM UM CEMITÉRIO ECUMÊNICO?
COMO O JUDAÍSMO ENTENDE A VIDA A PÓS A MORTE?
POR QUE OS HOMENS JUDEUS USAM UMA KIPÁ (SOLIDÉU)?
O QUE É TALIT?
O QUE É MEZUZA?
O QUE É TEFLIN?
O QUE É MAGUEN DAVID?
O QUE É MINYAN?
O QUE É SHAMÁ ISRAEL?
O QUE É SHOFAR?
O QUE É MITZVÁ?
EXISTE UMA ORAÇÃO ESPECÍFICA PARA VIAGENS?
A PALAVRA AMÉM É SIGNIFICANTE PARA OS JUDEUS?
POR QUE AS MULHERES SENTAM SEPARADAMENTE DOS HOMENS NA SINAGOGA?
O QUE SE FAZ COM OS LIVROS SAGRADOS QUE NÃO PODEM MAIS SER UTILIZADOS?
POR QUE OS JUDEUS ESCREVEM D’US COM APÓSTROFE?
UM CRISTÃO PODE ASSISTIR AO SERVIÇO RELIGIOSO NA SINAGOGA?
O QUE É COMIDA KASHER?
POR QUE OS JUDEUS NÃO COMEM CARNE DE PORCO E CAMARÃO?
OS JUDEUS COMEMORAM A PÁSCOA?
O QUE É MATZÁ?
COMO CHAMA O ANO NOVO JUDAICO?
O QUE É O DIA DO PERDÃO PARA OS JUDEUS?
QUAL A DIFERENÇA DE CHANUKÁ E CHANUKIÁ?
QUAL A DIFERENÇA ENTRE OS TERMOS HEBREUS, ISRAELITAS, JUDEUS E ISRAELENSES?
NA RELIGIÃO JUDAICA, O HOMEM VALE MAIS DO QUE A MULHER?
QUAL O LOCAL MAIS SAGRADO PARA OS JUDEUS?
JESUS ERA JUDEU?
POR QUE OS JUDEUS SE CUMPRIMENTAM COM A PALAVRA SHALOM?

 

 

Paternidade: um estado de ser

Pai tem que ser pai.
Independente das circunstâncias.
O carinho. O amor deve prevalecer.

 

Vê com o teu pai, se ele te deixar você vai? Você vai ver quando teu pai chegar? Liga pro teu pai e vê com ele? Se o teu pai chega saber você vai ver!

Com essas frases, já conhecidas, que trago, para reflexão, o assunto paternidade. O que é? Segundo o dicionário Michaelis é a qualidade ou estado de ser pai. Realmente não se trata de algo simples.

Já posso começar a reflexão por essa definição que nem todos têm qualidade para ser pai e, por outro lado, tem aqueles que assumem o estado de ser pai. Inclusive uma mãe pode assumir o estado paterno. E quantas vivem isso? Centenas. Milhares. Essas são “Mais”. Pai e mãe.

Tem aquele pai agricultor que gastou suas mãos para dar o sustento. Trabalhava de sol a sol. Tisnado. Quando a tecnologia não chegava ao campo. Puxava feixes de soja nas costas. Trilhava milho e soja, cevando numa antiga trilhadeira. Quando chegava em casa pedia um beijo para seu filho. O filhinho dizia: “goto ruim, pai”. Claro, seu rosto estava lavado de suor.

O suor era seu sonho. O suor era a esperança. Chegava em casa a noite. Lavava-se na água fria do rio. Rio esse que levava a canseira. Devolvia a coragem para luta do amanhã. Era duro nas palavras. Mas o coração grande. O coração sensível. Podia não saber muito de teoria. Mas carregava uma faculdade na mente. Histórias brotavam a luz do lampião e do fogão de chapa. Seu maior triunfo eram os valores que passava. Nas maiores dificuldades, mantinha a calma.

Numa outra nuance, aparece o pai urbano. Sua vida é trabalho. Para que tanto trabalho? Para dar aos filhos o que eu não tive. A ânsia é tanta. Ele esquece a vida sofrida porque se enxerga no seu filho que se veste bem. Que pode estudar. Se precisar trabalhar dia e noite, mas meus filhos não passam necessidade. Sua maior alegria é ouvir de seus amigos de empresa: você criou muito bem seus filhos. Como eles são educados! Sua família é linda. Esse pai já não é aquele de outrora. Ele peca, muitas vezes, pelo excesso.

Por outro lado, tem o pai que formou outra família. Que paga pensão. A pensão não é tudo. O carinho de pai ainda vale. Ele se perde. Esquece que o filho quer um alô. Vou passar para passear contigo. Um abraço. Esse pai não pode esquecer que continua desempenhando sua função de pai.

Pai tem que ser pai. Independente das circunstâncias. O carinho. O amor deve prevalecer. Quando esse filho crescer vai cobrar isso.

Por isso que, logo no início, o dicionário refere-se ao estado de ser pai. Entendemos que até mesmo um irmão pode assumir um estado de pai. E não é difícil encontrar isso. Muitas vezes, quando ganhamos conselhos que nos impulsionam. Quando somos carregados. Ajudados.

Muitos irmãos são luz no fim do túnel. É alento de vida nova. É luar na escuridão. E quando tudo parece estar perdido vem esse irmão e faz enxergar as possibilidades. Esse irmão é pai. Esse irmão são seus braços. Esse irmão é pai que te tira do fundo do poço te levanta e te põe de pé.

Não importa o tipo de pai que você tenha. E não espere o tempo passar.  Se você tem vontade de fazer algo, tome essa atitude simples. Dar um beijo. Um abraço que nunca deu por timidez ou vergonha. O carinho não pode esperar. O tempo não para pra você decidir fazer depois. Mate a saudade. Ligue de um desejo de bom dia. Vá visita-lo. Diga um eu te amo.

A vida é curta. Não teremos nossos pais pra sempre. Ou seja aquele pai que você não teve. Infelizmente não teremos privilégios eternos. Um dia esse pai habitará apenas no bater dos nossos corações. Pense nisso!

Um dos grandes ensinamentos de meu querido e saudoso pai foi ter-me ensinado que, para sobreviver, precisamos de muitas poucas coisas, mas que precisamos nos apegar ao que é fundamental: a família e a comunidade.

De uma presença ausente: meu pai

 

Autor: Laércio Fernandes dos Santos

Caridade, dedicação e mediunidade a serviço do bem

Passaremos a editar reflexões, entrevistas e conhecimento de diferentes religiões, envolvendo também os sujeitos que vivem, estudam e participam de práticas religiosas no seu cotidiano. Começamos pelo Espiritismo.

 

Conhecemos Paulo Eberhardt como Coordenador do Centro Espírita Dias da Cruz de Passo Fundo, RS, em eventos relacionados à formação de professores do Ensino Religioso nos últimos 10 a 15 anos. Paulo sempre é muito prestativo, solidário e responsável nas atividades em que se envolve, sobretudo para esclarecer sobre os fundamentos da doutrina espírita kardecista. Sempre tivemos desejo de conhecer e revelar um pouco mais de sua história, de seu intenso envolvimento com o Centro Espírita e seus compromissos com o Ensino Religioso Inter-religioso, paradigma que preconiza o conhecimento de todas as religiões com o propósito de respeitá-las.

 

Nei Alberto Pies: Como aconteceu sua aproximação com a Doutrina Espírita? o que você buscou e, ainda busca, no Espiritismo?

Paulo Eberhardt: Desde adolescente, vez que outra enxergava os Espíritos, registrava a presença de familiares falecidos, tinha frequentes premonições e não entendia direito o que acontecia, uma vez que ninguém falava sobre isso.

De origem católica, não sabia da possibilidade da vida no Mundo Espiritual. Me achava estranho. Certa vez, com pouco mais de vinte anos, os fenômenos mediúnicos começaram a ficar mais intensos, isso me incomodava. Estava para consultar um psiquiatra quando meus colegas de trabalho me questionaram o porquê de ir ao terapeuta. Então me sugeriram procurar o Centro Espírita de Caridade Dias da Cruz. Foi quando encontrei as respostas que precisava. Descobri que era mediunidade, por isso registrava os Espíritos.

No primeiro momento, buscava resolver a questão de ver, ouvir, de registrar a presença dos Espíritos.

Busco compreender melhor a vida, e a Mensagem de Jesus para usar em minha existência. Quanto a mediunidade, é apenas uma ferramenta para o trabalho no bem.

Hoje, compreendendo a missão desta Doutrina em mostrar a grande realidade da alma humana ainda não estudada pelas religiões, busco compreender melhor a vida, e a Mensagem de Jesus para usar em minha existência. Quanto a mediunidade, é apenas uma ferramenta para o trabalho no bem.

 

Nei Alberto Pies: O que te mais te realiza neste trabalho voluntário no Centro Espírita? como funciona o Centro Espírita Dias da Cruz?

Paulo Eberhardt: Há 35 anos atrás, voluntariei-me nas lides espíritas, onde trabalhei na Evangelização da criança e do jovem, na assistência social, no setor de palestras e, principalmente na Mediunidade. Ocupo o cargo de direção há 23 anos.

No trabalho voluntário, temos a oportunidade de colocarmos em prática, de exercitarmos o Evangelho de Jesus. O bem que vamos aprendendo a realizar, é um prazer indescritível. É uma oportunidade de sair de uma rotina religiosa teórica, ritualística, dogmática e começar a experiência prática. Neste sentido, como ninguém recebe pelo que faz, o Espiritismo oferece uma grande oficina de trabalho no bem de forma desinteressada.

O Centro Espírita tem aproximadamente 180 trabalhadores voluntários. Toda atividade realizada pela instituição é gratuita. Temos mais de vinte setores de trabalho como: atividade de passes, visita aos doentes, visita as famílias socialmente carentes, atendimento fraterno através do diálogo, palestras públicas, estudos do espiritismo, evangelização de bebês e das crianças, estudos para juventude, biblioteca, livraria, etc. Temos palestras públicas de segunda à sexta 20h e terças quintas e sábados às 16h

 

Nei Alberto Pies: Como se define o espiritismo?

Paulo Eberhardt: A Doutrina Espírita é de natureza tríplice, pois abrange princípios filosóficos (é uma “filosofia espiritualista”), científicos e religiosos ou morais. Daí Allan Kardec afirmar: O Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática consiste nas relações que se podem estabelecer entre nós e os Espíritos; como filosofia, compreende todas as consequências morais que decorrem de tais relações.

Tendo como referência essa orientação, o Espírito Emmanuel (guia espiritual de Chico Xavier) elucida: “podemos tomar o Espiritismo, simbolizado […] como um triângulo de forças espirituais. A Ciência e a Filosofia vinculam à Terra essa figura simbólica, porém, a Religião é o ângulo divino que a liga ao céu.”

No seu aspecto científico e filosófico, a Doutrina será sempre um campo nobre de investigações humanas, como outros movimentos coletivos, de natureza intelectual, que visam ao aperfeiçoamento da Humanidade.

No aspecto religioso, todavia, repousa a sua grandeza divina, por constituir a restauração do Evangelho de Jesus Cristo, estabelecendo a renovação definitiva do homem, para a grandeza do seu imenso futuro espiritual.

Em linhas gerais, o aspecto filosófico analisa a Criação Divina, explicando porque Deus criou o homem, qual é a sua origem e sua destinação, refletindo sobre as causas da felicidade e infelicidade humanas.

O aspecto científico fornece comprovações a respeito da natureza e imortalidade do Espírito; a influência exercida pelos Espíritos e o intercâmbio mediúnico estabelecido entre encarnados e desencarnados.

O aspecto religioso trata das consequências morais do comportamento humano, definido pelo uso do livre arbítrio e governado pela lei de causa e efeito.

A melhoria moral, orientada pelo Espiritismo, fundamenta-se nos preceitos doutrinários do Evangelho de Jesus, considerado “modelo e guia da Humanidade”: Para o homem, Jesus representa o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ensinou é a mais pura expressão de sua lei.

Nei Alberto Pies: O senhor realiza palestras em escolas, sobre os princípios básicos do Espiritismo, a convite de professores do Ensino Religioso. Como avalia estas palestras e a recepção dos alunos sobre este conteúdo?

Paulo Eberhardt: Estar entre a criança e o jovem é muito especial. Estas atividades oportunizam aos alunos o conhecimento real deste ou daquele princípio religioso, libertando o conhecimento de conceitos errôneos intencionais ou não. Avaliamos como muito importante, uma vez que eles, os alunos, podem conhecer as religiões de forma clara. O Espiritismo sempre é bem recebido pelos alunos. Gera curiosidade sobre a alma humana, sobre os Espíritos e as revelações que a Doutrina traz.

 

Nei Alberto Pies: Por que a caridade é tão essencial na vivência e na prática da Doutrina Espírita?

Paulo Eberhardt: No Evangelho segundo o Espiritismo, vamos encontrar o termo “caridade, como o mais repetido, e que está presente em quase todos os textos”. Diferentemente da interpretação comum, a caridade não gira em torno do “dar coisas materiais”, uma vez que dar é a parte mais fácil. É uma prática moral.

Em O Livro dos Espíritos, na questão 886, Allan Kardec perguntou aos Espíritos: Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como a entendia Jesus? E eles responderam: “Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas.”

A caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola, abrange todas as relações em que nos achamos com os nossos semelhantes, sejam eles nossos inferiores, nossos iguais, ou nossos superiores. Ela nos prescreve a indulgência, porque de indulgência precisamos nós mesmos, e nos proíbe que humilhemos os desafortunados, contrariamente ao que se costuma fazer.

Apresente-se uma pessoa rica e todas as atenções e deferências lhe são dispensadas. Se for pobre, há gente que entende que não precisa preocupar-se com ela. No entanto, quanto mais lastimosa seja a sua posição, tanto maior cuidado devemos pôr em lhe não aumentarmos o infortúnio pela humilhação.

Toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade, isto é, nas duas virtudes contrárias ao egoísmo e ao orgulho.

Em todos os seus ensinamentos, Ele aponta essas duas virtudes como as que conduzem à eterna felicidade: “Bem-aventurados”, disse, “os pobres de espírito”, isto é, “os humildes, porque deles é o Reino dos Céus; bem-aventurados os que têm puro o coração; bem-aventurados os que são brandos e pacíficos; bem-aventurados os que são misericordiosos; amai o vosso próximo como a vós mesmos; fazei aos outros o que quereríeis vos fizessem; amai os vossos inimigos; perdoai as ofensas, se quiserdes ser perdoados; praticai o bem sem ostentação; julgai-vos a vós mesmos, antes de julgardes os outros.”

Humildade e caridade, eis o que não cessa de recomendar e o de que dá, Ele próprio, o exemplo. Orgulho e egoísmo, eis o que não se cansa de combater. E não se limita a recomendar a caridade; põe-na claramente e em termos explícitos como condição absoluta da felicidade futura. Isso tudo é prática da caridade.

 

Nei Alberto Pies: O diálogo inter-religioso é o paradigma do Ensino Religioso das escolas públicas, construído nos últimos 20 anos no Brasil. Recentemente, o STF (Supremo Tribunal Federal) aprovou possibilidade do Ensino Religioso confessional na escola pública. Qual é sua visão sobre isso?

Paulo Eberhardt: Um erro. Avilta o princípio religioso que o aluno traz.

 

Nei Alberto Pies: Por que é possível dizer que o Espiritismo é cristão?

Paulo Eberhardt: Porque o Espiritismo traz ensinos novos, revelados pelos Espíritos e não coloca a salvação em seguir dogmas, ritos e rituais, mas sim na vivência pura do Evangelho, principalmente na melhora moral do indivíduo, na prática da verdadeira caridade, na humildade verdadeira, trabalhando cada criatura suas paixões inferiores, seus egos, que o distanciam da vivência verdadeiramente cristã. Não cobra por nenhum benefício espiritual que a pessoa venha receber.

Tudo é gratuito, o que em parte afronta algumas religiões. Jesus deixou a mais extraordinária obra de Luz para a Humanidade e não tinha “uma pedra que fosse sua para repousar a cabeça.”

Por outro lado, alguns não aceitam chamar o Espiritismo de cristão, devido a reencarnação. Esta foi uma revelação dada pelos Espíritos, em detrimento da ressureição, basta ter olhos de ver, pois os Espíritos sempre deram sinais de sua existência em todas as épocas da Humanidade, (está no Antigo, quanto no Novo Testamento), demonstrando a grande realidade de que as almas não dormem nos túmulos aguardando o “juízo final”, que irá condená-las ao “fogo eterno”, ou leva-las ao paraíso.

No Espiritismo, vimos Deus como Jesus nos ensinou: “Deus é amor”, não conseguimos ver Deus antropomórfico, um ser vingativo, indiferente e cruel para com os que erram.

Hoje cabe a ciência quebrar, como já quebrou, muitos paradigmas criados pelas religiões, e já tem demonstrado através das terapias com regressão de memória realizadas por psicólogos e psiquiatras a questão das vidas sucessivas. Os homens vão amadurecendo e entre os adeptos das religiões cristãs, boa parte, vão contra os próprios princípios, pois já aceitam a reencarnação como uma Lei Divina. É uma questão de tempo.

Ser Cristão é uma forma de se viver o Evangelho e o Cristo, livre dos condicionamentos religiosos criados pelos homens. Lembramos que o Cristianismo no mundo não chega a 30% da Humanidade, outros 70% praticamente são reencarnacionistas.

 

Nei Alberto Pies: Percebemos que eventos e palestras do Espiritismo sempre tem grande aceitação na comunidade e muita gente participa deles. Qual é a importância destes eventos para a promoção do Espiritismo?

Paulo Eberhardt: Sim, contribuem para difusão do Espiritismo. No entanto, quando realizamos um evento doutrinário ao público em geral, consideramos muito mais a oportunidade de levarmos os ensinos do Evangelho de Jesus, em sua pureza, desataviado, ensinando e também consolando muitos dos que buscam as palestras Espíritas, fazendo com que cada um compreenda os objetivos Divinos de sua existência, procurando dar um sentido a vida e também preparando para o inevitável, a seu retorno à pátria Espiritual, bem como o de seus entes queridos.

Não procuramos fazer adeptos, mas consolar quem perdeu um ente querido; ampliar sua fé no futuro encorajando para os enfrentamentos difíceis do dia-a-dia; compreender a função da dor em sua caminhada; também a aprender amar, perdoar, desenvolver valores morais nobres como a fé, a simplicidade, a humildade, o desapego, a bondade, enfim, trazer Jesus de volta, como dissemos, como há dois mil anos, Ele instruía, consolava acolhendo os sofredores e os que caíram moralmente.

Há muito sofrimento silencioso nos corações que nos cercam. Esses são os objetivos que nos norteiam na realização de eventos públicos.

 

Nei Alberto Pies: Todos temos sensibilidade mediúnica?

Paulo Eberhardt: Allan Kardec foi o primeiro a identificar, estudar o fenômeno mediúnico. Quando falamos que os Espíritos, eles sempre deram sinais de sua existência em todas as épocas da Humanidade, as manifestações aconteciam através de pessoas sensíveis as quais Kardec cunhou o termo mediunidade para identificar esses sensitivos que são pessoas com uma diversidade de dons, como os que podem ver os Espíritos, ouvir, psicografar e registrar espiritualmente suas presenças.

Todas as pessoas tem um certo grau de sensibilidade. No entanto o médium tem que ser capaz de mediar uma comunicação com um Espírito. Nesse sentido são mais de 70 possibilidades de mediunidade catalogadas.

A prática verdadeira da mediunidade deve sempre ser gratuita dentro do princípio do Evangelho: “Dai de graça, o que de graça recebeste“.  Nem mesmo o elogio deve ser considerado pelo médium, pois alimenta o orgulho e a vaidade.

 

Nei Alberto Pies: Percebemos que muitas pessoas hoje são menos apegadas à religião, mas estão em busca de realização pessoal dentro e fora das religiões. Que espiritualidade é essa?

Paulo Eberhardt: A espiritualidade tem sido vivenciada por muitas pessoas na atualidade e vai crescendo de forma extraordinária. Muitos não conseguem mais viver a experiência religiosa, diante do que tem sido feito pelas religiões.

Muitos dizem-se ateus, outros desvinculam-se das religiões, mas percebemos os valores internos que possuem, quando nobres, chamamos de espiritualidade.

Espiritualidade é o cultivo da dimensão espiritual fora do ambiente religioso, é uma espécie de resgate de conecções nobres e superiores, livre de dogmas, ritos e rituais.

Quem tem espiritualidade, tem uma forma humanizada de lidar com o próximo, são pessoas sensíveis a ética, ao caráter moral, a compaixão, a paciência, a tolerância, a capacidade de perdoar, as noções de responsabilidade, de harmonia e que trazem felicidade tanto para si como para os outros que os cercam. Carregam estímulos à solidariedade, realizam ações voluntárias junto a comunidade, buscando também obter no trabalho significado para a vida.

Poderíamos dizer que aquele que tem espiritualidade, faz tudo o que Jesus ensinou, mas livres de ambientes religiosos.

Poderíamos considerar que na atualidade os homens precisam mais de espiritualidade do que de religião. Quem sabe será um caminho novo a ser pensado para o futuro da religiosidade do homem, voltar a simplicidade do Evangelho.

 

Nei Alberto Pies: Que mensagem o senhor gostaria de deixar aos leitores do site que nele buscam conhecimentos que promovem a humanização?

Paulo Eberhardt: Vivemos um dos momentos mais intrigantes da Humanidade terrena. A mídia, na atualidade tem batido demais no culto ao corpo, as vaidades, aos títulos ilusórios terrenos, enfim ao materialismo.

A felicidade está na conta dos bens materiais, na esquina, nas lojas, nas farmácias. A arte parece ter perdido o sentido da verdadeira beleza, músicas com letras chulas e vulgares, artistas colocados pela mídia interesseira como deusas e deuses, como se seus corpos plastificados para sensualidade, fosse uma virtude, esquecendo que a verdadeira beleza é a da alma.

Cantores e cantoras transferindo aos jovens ideias equivocadas de arte em shows altamente sensualizados através de danças que viram hit, mas sem beleza e/ou poesia verdadeira… As redes sociais usadas para a futilidade em longas horas mal aproveitadas, levando muitos ao isolamento social, porque as amizades virtuais são frias e vazias de sentimentos, conduzindo os incautos para os transtornos do humor, da depressão, da ansiedade e até ao suicídio, etc.

A experiência religiosa é muito importante em nossas vidas. Considero uma das palavras mais belas que aprendi no Evangelho: a esperança. Quem a tem, tem fé, sofre menos, trabalha seu interior para o porvir.

Vivemos uns dos tempos mais intrigantes da Humanidade como dissemos. Interpretar esta hora, não deixar-se levar como a maioria das massas ao sabor dos ventos que sopra de todos e para todos os lados, sem uma direção.

É preciso crescer em valores reais, dar um sentido a vida como: o que estou fazendo aqui, de onde vim, para onde irei, etc. Buscar amar, sem nenhum tipo de interesse, gostar das pessoas, ajudar mais, vencendo o egoísmo, pensar na humildade, na simplicidade, desapegar-se. A ética e os valores morais nos fazem envelhecer mais saudáveis e felizes.

 

Conheça mais sobre o Centro Espírita Dias da Cruz.

Troyka – Grupo Folclórico Russo no RS

Fundado em julho de 1992, por ocasião dos deslocamentos ao Programa Nações Unidas, promovida naquele ano pela TV/SBT de São Paulo, onde participaram ativamente em sete oportunidades. Mantido pela Associação Cultural Russa Volga do Brasil. Dentre os objetivos principais consta promover a paz, preservar e divulgar o legado histórico-cultural dos imigrantes russos, fundadores de Campina das Missões a partir de 1909 e a arte da dança – que une fronteiras com o nosso idioma universal – a dança.

Nesta trajetória de 26 anos, em que pesem as dificuldades e obstáculos enfrentados, sendo todos superados com galhardia, com o auxílio da Administração Municipal local, do Poder Judiciário, da diretoria da Associação Cultural, dos integrantes e de seus pais, segue firme e forte atingindo ¼ de século neste ano de 2017.

Reportagem especial pela comemoração dos 25 anos do Grupo Troyka.
Veja mais aqui.

Constam em seu vasto currículo mais de 600 shows em eventos locais, regionais, nacionais, até internacionais, tendo divulgado Campina das Missões, sendo conhecido em todo o Estado e País.

Em sua jornada jubilosa, abrilhantou eventos importantes, com repercussão nacional e internacional, como a Expointer, irmanamento entre as cidades de Porto Alegre e São Petersburgo, Sessão Solene na Câmara de Vereadores da capital, Fenasojas, em todas as Festas das Etnias em Santa Rosa, festivais internacionais como de Passo Fundo, de Nova Petrópolis (5x), Dança comigo Itaqui, São Borja em Dança, quatro apresentações no Unishopping de Lajeado/RS e em abril de 2016, uma turnê na capital federal Brasília/DF, na Feira das Embaixadas, dentre outros grandes eventos culturais ainda esteve em seis ocasiões na Argentina, na Fiesta Nacional Del Inmigrante. Enumerá-los todos, certamente ocuparia muitas páginas deste semanário.

O legado

Centenas de jovens já dançaram no grupo e lembram com carinho e orgulho de quando participaram, os olhos brilham de satisfação, em razão das lindas lembranças que foram lhe oportunizadas quando faziam parte do elenco. São como sementes que frutificaram, pois melhoram sua desenvoltura, o nível de sua autoestima, expressão corporal, além de promover a inclusão social, disciplina e desinibição face às apresentações em plateias diante dos palcos.

Há ex-integrantes atuando como médicos, advogados, dentistas, jornalistas, farmacêuticos, agricultores, dentre outras profissões que já foram bailarinos do Troyka. Quem participa da arte da dança, é bonito por fora e por dentro, na parte corporal e espiritual, pelo aprendizado e polimento que a dança lhe proporciona.

A entidade é Presidida por Jacinto Anatólio Zabolotsky e na Coordenação geral a Profª. Ilse Ana Zabolotsky, sendo monitora Luana Braun, auxiliados pela Marina, Augusto e Rafael, com intensos ensaios semanais, busca aprimorar, inovar e apresentar excelência nas danças alegres e vibrantes do fascinante folclore russo!

As coisas que as mulheres escrevem

“Pouca gente se dá conta do quanto o espaço da escrita e da publicação é um espaço de poder – o poder de falar com legitimidade. A ideia é, então, incentivar e legitimar a voz e a visão de mundo das mulheres na escrita” (Luciana Lhullier)

 

Foi uma noite atípica. Mais mulheres do que homens ocupavam as cadeiras do Teatro Municipal Múcio de Castro, em Passo Fundo, na sexta-feira, dia 22 de junho. Mas o evento não era sobre moda, beleza ou qualquer outro tema clichê associado às mulheres. Era uma noite para falar sobre a literatura.

No palco, quatro mulheres falavam sobre o trabalho de outras quatro mulheres. Luciana Lhullier, autora de “A Casa de Dentro e Outras Loucuras” e responsável pela nova Editora Desdêmona, falou sobre a obra da americana Pearl S. Buck; a escritora e professora Piti Ochoa Ughini, trouxe a sua experiência com a escritora Lya Luft; a doutoranda em Letras, pela Universidade de Passo Fundo, Raquel Cesar da Silva, ressaltou a literatura feita por mulheres negras, destacando o trabalho de Carolina de Jesus; e a autora Sueli Gehlen Frosi, abordou a sua relação com a obra de Kate Chopin.

A fala das mulheres no palco, inspirou as mulheres da plateia a também se manifestarem e muitas saíram trocando ideias sobre os livros que poderiam escrever e, agora sim, publicar.

Afinal, a noite marcou o lançamento da Editora Desdêmona, idealizada por Luciana Lhullier para publicar livros escritos por mulheres. A escritora relata que há um número baixo de escritoras no Brasil, proporcionalmente ao número de mulheres do país. Por conta de pesquisas, sabemos que 72 % dos escritores brasileiros são homens. “Seria esse um indicativo de que as mulheres não escrevem ou simplesmente não são publicadas? Ou que a literatura feminina ainda não tem um espaço completamente estabelecido para desenvolver sua voz?”, questiona.

Luciana acredita que as mulheres escrevem, mas que suas oportunidades de publicação são menores que as dos homens, por diversas razões, inclusive a de não imaginar que isso seja possível. “Diante disso, abrir uma editora para mulheres faz sentido”, afirma.

Segundo ela, não há diferenças pontuais entre a escrita de homens e mulheres, mas há diferentes cenários e diferentes enfoques. “A escrita masculina é, frequentemente, uma escrita mais enquadrada nas tradições bem estabelecidas: a escrita das grandes façanhas e conquistas do mundo ou então a escrita das angústias do anti-herói, com grandes dificuldades de funcionar em um mundo dentro de vínculos emocionais mais significativos, sem saber o que fazer com os próprios sentimentos, e eternamente dependente de um olhar que o engrandeça. Já a escrita feminina privilegia o espaço interior, o território dos sentimentos, dos desejos, dos pequenos detalhes do cotidiano, da intimidade, das contradições de exercer múltiplos papéis e também das lutas por reconhecimento. Mas não são espaços fixos, engessados, apenas se observa uma presença maior do masculino e do feminino em um e em outro”, explica.

A Editora não deixa de se posicionar como um meio de incentivo a escrita das mulheres, pois acredita ser necessário criar ou retomar espaços igualitários e de direito.

“Pouca gente se dá conta do quanto o espaço da escrita e da publicação é um espaço de poder – o poder de falar com legitimidade. A ideia é, então, incentivar e legitimar a voz e a visão de mundo das mulheres na escrita”, enfatiza Luciana.

A Editora procura a voz das mulheres para ser publicada e a traduz em uma fala da escritora Marina Colassanti, que, em uma de suas passagens por Passo Fundo, disse que “essa voz é essa coisa muito feminina que cruza o doméstico com a carne de cozinha e com a carne do corpo; que cruza os filhos com as preocupações filosóficas”. Nas palavras de Luciana, “é essa voz sem fronteiras, multicolorida, multifacetada, dolorosamente profunda, muitas vezes, na simplicidade cortante do cotidiano, corajosa, maravilhosamente humana, que nós queremos publicar”.

A oportunidade para Desdêmona falar

O nome da Editora é inspirado em uma personagem de Shakespeare, da obra Otelo, o Mouro de Veneza. Na história que reúne amor e ciúmes, Otelo mata a esposa Desdêmona asfixiada, acreditando que ela o teria traído. Desdêmoda não teve a chance de se defender e de falar, e é por isso que o seu nome foi escolhido para a Editora – pois agora ela poderá dizer muito através das palavras de outras mulheres. O primeiro lançamento da editora quer reunir diferentes vozes em uma coletânea, que vai levar o nome de “As coisas que as mulheres escrevem”.  As mulheres poderão enviar poemas, crônicas e contos até o dia 15 de outubro de 2018, para o e-mail editoradesdemona@gmail.com. O regulamento completo pode ser conferido nas redes sociais da Editora e qualquer dúvida pode ser tirada através do e-mail. Os textos passarão pelo trabalho de revisão e edição e a ideia é que a coletânea seja lançada entre janeiro e abril de 2019.

 

As mulheres convidadas para falar sobre as autoras que as inspiram: Sueli Gehlen Frosi, Luciana Lhullier, Piti Ochoa Ughini e Raquel Cesar da Silva

CAIXA DE TEXTO:

Esta matéria foi publicada, originalmente, na Revista impressa Contato Vip do mês de julho de 2018. Conheça mais sobre a revista: http://www.contatovip.com.br/norte/

Como a culpa é de quem ouve rádio?

O fato de ouvir as duas músicas sempre neste horário, é parte daquilo que conhecemos como “jabá”, que é justamente a cobrança de dinheiro para tocar as músicas citadas, entre outras, o que coloca a música tocada no rádio, em uma situação semelhante a propaganda do sabonete, do refrigerante ou do biscoito.

 

 

Nos dias em que viajo para uma cidade de interior, entre 18 e 19 horas, a emissora sintonizada pelo motorista da Topic, nunca deixa de tocar duas músicas que colam no ouvido como chiclete.

Uma delas, Como A Culpa É Minha? (Oi Nego), é interpretada por Devinho Novaes, jovem oriundo de um bairro da periferia de Aracaju, produzido por um empresário e político sergipano, cuja carreira cresceu em meio a combinação rentável e devastadora em termos culturais, de uma teia de interesse e negócios que envolvem concessões de rádios para deputados e senadores, obtidas em troca de apoio político ao governo federal de plantão, cobrança de dinheiro para que as emissoras de rádio de propriedade desses políticos.

Embora formalmente sejam uma concessão pública, tocam determinados cantores e bandas e o apoio dos patrões desses artistas as campanhas de prefeitos e governadores, em troca da exclusividade para a contratação das suas empresas nas festas das cidades, quando financiadas com dinheiro público e/ou quando contam com as estruturas de apoio das prefeituras e governos estaduais.

O fato de ouvir as duas músicas sempre neste horário, é parte daquilo que conhecemos como “jabá”, que é justamente a cobrança de dinheiro para tocar as músicas citadas, entre outras, o que coloca a música tocada no rádio, em uma situação semelhante a propaganda do sabonete, do refrigerante ou do biscoito.

Por essa razão, a maioria dos brasileiros, deixam de ter acesso a uma rica produção musical de artistas que não tem patrocinadores com capital suficiente para investir na divulgação de suas canções, ou que não querem se submeter a esquemas “cabulosos”, os quais contribuem para eleger cada vez mais, um tipo de político que está destruindo, inclusive culturalmente, as cidades, os estados e o nosso país, semelhante a uma praga de cupins ou de insetos.

Isso me faz lembrar uma situação que vivi na adolescência quando residi no Rio de Janeiro na década de 1970.

Devia ter por volta dos treze ou quatorze anos, quando fui abordado, junto com alguns colegas pelo repórter de uma emissora, o qual munido de uma prancheta com uma relação de canções, propunha que escolhêssemos uma delas para que fosse tocada. As mais pedidas fariam parte de uma sequência das mais, mais. Perguntei se não poderia escolher livremente, fora da lista, a informação que recebi foi negativa. Então fiz a escolha, mesmo que limitada. Naquela época, não fazia ideia da existência do tal “jabá”, a razão pela qual, umas canções faziam parte da lista e outras não.

Essa situação toda me faz lembrar as tentativas dos ricos brasileiros em querer a não participação de Lula na disputa eleitoral em 2018, nos oferecendo uma lista de escolha, mas sem a presença de uma das maiores lideranças políticas que essa país já teve, reconhecida como tal, também por outras grandes lideranças políticas de outros países.

Assim também é com a música brasileira, sem negar o valor sentimental e afetivo, atribuído por milhões de brasileiros  as  canções que tocam várias vezes durante dia e noite,  nas emissoras de rádio de grande audiência, é bom que saibamos que muitas outras canções ficam desconhecidas e sem essa oportunidade,  porque seus artistas não tem dinheiro ou mesmo que tenham algum, não querem fazer parte desse verdadeiro esquema de corrupção cultural que é o “jabá”, combinado com outras “sacanagens”, reiterando o que já afirmei acima.

A situação é semelhante aos motivos da prisão de Lula e da sua interdição como candidato a presidente em 2018, pois como afirmado por ele, se eleito pretende revogar todas as leis injustas e criminosas aprovadas pelo governo dos golpistas, assim também como finalmente, combater o monopólio dos meios de comunicação que impede termos acesso a diversidade do melhor que o Brasil produz em todas as artes, assim como os espaços democráticos para a noticia, afim de que possamos ouvir as diversas versões de um mesmo acontecimento.

Devinho Novaes – Como A Culpa É Minha? (Oi Nego)

 

A segunda canção:
Largado às traças (Zé Neto e Cristiano)

Sou Zezito de Oliveira. Nasci em São Cristóvão(SE), cidade patrimônio histórico da humanidade, título conquistado recentemente, localizada na região metropolitana de Aracaju. Durante a minha adolescência morei no Rio de Janeiro e lá obtive régua e compasso, lembrando uma canção do Gilberto Gil, para atuar no campo da mobilização social e cultural. Retornei à Sergipe, em meados da década de 1980 e desde então resido em Aracaju, envolvido com diversas iniciativas sociais e culturais. Sou graduado em História e pós graduado (especialista) em arte-educação e desde a adolescência estou sempre buscando conhecer fundamentos e novidades relativas a arte e a cultura, seja para deleite pessoal, como para contribuir nos processos de desenvolvimento humano e social. Isso me leva a pesquisar e estudar politicas e gestão cultural, arte-educação popular culturas juvenis, cultura digital, economia solidária da cultura, campos prioritários de estudo e formação extra-curricular, bem como viajar país afora. Atualmente, atuo como professor de história e artes, blogueiro e como produtor e assessor em iniciativas culturais de base comunitária. Coordeno o blog Ação Cultural.

 

 

Desnacionalização predatória, é não!

Os predadores internacionais só estão interessados em administrar e
lucrar com as riquezas das nações, entram por meio das empresas
e roubam os países coloniais, não estão interessados em humanidades
e evolução, é um mundo sem alma, sem humanidade protagonista.

 

É preciso falar sobre desnacionalização predatória imputada aos povos por predadores imperiais nacionais e internacionais em absoluto conluio para controlar e escravizar os povos. É preciso fazer critério de verdade sobre o que é internacionalizar conhecimento, cultura e humanidade entre os povos. Agir em prol do que é local, nacional, soberano para então conectar internacionalmente.

Se um povo perde sua soberania será escravo da internacionalização de cérebros e mão de obra sem pátria ou dignidade.

O modelo do Ciências Sem Fronteira é perfeito exemplo do que deve ser feito. Conexões internacionais entre os povos são um grande bem, desde que cada povo mantenha sua identidade pátria e soberania humana e tecnológica para desenvolvimento recíproco. Não é aceitável a desnacionalização promovida pelos predadores capitalistas que tentam fazer isso à custa do sofrimento e da soberania das nações.

Uma geopolítica canibal está fora do rumo que a humanidade está preparada para tomar. É preciso um basta ao imperialismo predador por parte de todas as nações que compõe o planeta terra. É tempo de soberania e internacionalização evolutiva. É tempo de humanizar o mundo no que o humano tem de melhor. A dinâmica do mundo está plenamente ativa para uma nova vivência, para uma nova humanidade.

Os predadores internacionais só estão interessados em administrar e lucrar com as riquezas das nações, entram por meio das empresas e roubam os países coloniais, não estão interessados em humanidades e evolução, é um mundo sem alma, sem humanidade protagonista.

Depende de nós defender ou entregar nosso país a essa força anti-humana que tem assolado o planeta. Depende de nós dizer não!

Em outro artigo publicado no site, Cristina Schnorr também afirma: “Se, persistimos e somos sérios, ao final vencemos e recolhemos o fogo como vitória humana e humanizada na inteligência da vida. Se, erramos e somos preguiçosos, todos os dias nosso fígado será destruído e precisará regenerar-se do princípio, de dor em dor, até humanizar-se no fogo dos deuses, a liberdade”.

 

Democracia, uma escolha civilizatória?

 

Maconha é planta, mas mata a alegria

Liberar? Proibir? Acabar com o crime liberando o crime?
Terminar com o roubo permitindo o roubo.
Cuidando da vida destruindo a vida?

 

Por muitos anos observei. Hesitei. Constatei. Perdi algumas noites de sono. Me emocionei. Fiquei sem saber o que fazer. Talvez em alguns momentos me tornei refém de meus pensamentos.

A vida me enchera de máscaras. De carapaça. Não. Confesso que não tem quem aguente. Calado. Não mais.  O lamento. O choro. De muitas mães. A preocupação de infinitos pais. “Cuide com quem ele anda e me avise.”

Lamento se alguém discordar do que falarei. Meu coração não é de pedra. Muito menos minha alma é dotada de tanto poder. Vou falar! Depois que recebo do nada uma mensagem de um ex-aluno me perguntando se eu tinha tempo. Disse que tinha. Ele me diz: tem bastante? Desabafa. As palavras não conseguem expressar tamanha ansiedade para contar. Eu estático. Apavorado.

Você não fala pra ninguém o que te digo. Se quiser pode falar. Pode compartilhar. Só esconde meu nome. Robledo confiou a mim algo, um grande segredo. Um desabafo guardado a “sete chaves”. As chaves não bastaram. As palavras furaram a porta. Arrebentaram a garganta. Explodiram o coração. Rompeu o silêncio.

Daí Laercio, tudo bem? Me diz uma coisa: tá muito ocupado agora? Precisava conversar contigo. Seguinte, não tá ocupado mesmo? Laércio, entrei numa ruim prá te falar…..  Meu erro no colégio: fui me perdendo nas atividades até que fiz cagada e me fudi, literalmente me fudi, assim, nunca tive problema de droga né?

Entrei, Laércio, na vida da maldita maconha. Quando parei de estudar, demorou um pouco pra mim entrar, mas no final as amizades puxaram….. fumei, curti pra crlho a sensação que ela dá. Mas daí eu, como sempre fui meio atordoado com essas merda, por causa da minha família e tals. Eu fui indo aos poucos…. até que no começo pensei que não ia me dar nada, sabe? Tava tudo tranquilo. Eu fui indo aos poucos….Até que no começo pensei que não ia me dar nada, sabe? Reparei que quando eu fumava uns beck no início, que nem eu te falei, era bomm, prestava mais atenção … mas daí percebi que não era bem assim quando eu tava fazendo as coisas chapado. Daí completou 4 meses de maconha e eu peguei e percebi que tava passando meus dias chapadão. Comprei até um boong. Daí assim, tudo certo, jogava uns basquete ainda…. mas meu treino de luta eu parei. Então foi passando uns tempos e, tipo, nunca mais me dava fome se eu não fumasse, já tava nessas. Eu parei de jogar basquete e só ia naquela maldita praça fumar maconha. Laércio, mas tipo só tava passando dias e dias. Eu ali perdendo 1 semana da minha vida, sempre gostei de ler livro, sabe? Antes eu lia um livro de 100 páginas em 1 hora, entendendo bem o livro. Percebi que essa merda só atrasou minha vida tipo foi 1 ano perdido, Laércio. Perdido mesmo. Só nessa merda que eu quis entrar ….. Hj em dia só quero voltar a estudar… um piá ativo, fui sempre assim.

Percebo que a fala do meu aluno, e de tantos outros que já ouvi, é um clamor. Dor da alma. Dor da vida. Perdida. Tempo que foge. Como água na palma da mão. Tempo que está onde o vento sopra. Tempo da juventude. Desespero que grita a ânsia do ser. Ninguém pode negar a sensação agradável. Boa. Ilusória. A droga.

A maconha afeta a psique, que no adolescente está em formação.

Mas o que leva tantos jovens a buscar esse recurso destrutível para suas vidas? Há várias hipóteses. Umas das razões é a fraqueza moral. A falta de coragem para enfrentar seus problemas. Ela dará coragem para efetivamente vencer esse problema e ingressar no mundo fantástico. Assim ela mexe com o psicológico e logo adiante vem a depressão. Grande causa de suicídio.

Todas as drogas dão sensação. Euforia. Falsas. Cada vez mais requer doses para alcançar esse efeito. Isso requer dinheiro. Mais dinheiro. Surge o crime para a satisfação da abstinência. A abstinência ninguém segura. Extremo.

Vida real. Sensação verdadeira do viver se foi. Abraçar alguém. Beijar quem gostamos. Encontrar com um familiar. Ouvir uma boa música. Isso é natural. A pessoa vira robô, não sente mais sensações naturais. O morto vivo se constitui. Como ser vegetativo.

Liberar? Proibir? Acabar com o crime liberando o crime? Terminar com o roubo permitindo o roubo. Cuidando da vida destruindo a vida? Julga-se que a droga está sendo o grande flagelo da humanidade.

Será que estamos vivenciando este milênio que devasta e ilude a vida de tantos jovens?

Se fosse só a destruição de um ser da família, não era tão agravante. O pior a família toda se destrói. Mundo sem saída. Vida morta.

Não se trata de criminalizar quem usa a maconha ou qualquer outro tipo de droga tóxica. Trata-se de refletir sobre como encaramos as drogas. Trata-se de pensar que mundo é este onde as drogas impõem-se como condição de felicidade. Irreal. Ilusória.

Maconha não vicia. É planta. É bem saudável. Falsa impressão de felicidade. Euforia. Diferente de alegria. Primeira necessidade. Segunda necessidade. Terceira necessidade. Não vicia.

Há quem diga que a maconha tem propriedades medicinais, mas no Brasil não há regulação e nem controle de nada disso. Eu prefiro ficar com a ideia de não incentivar e nem promover qualquer droga, também a maconha.

Desculpa. Sou da vida. Pra vida vim. A vida quero viver. Luto pra viver. Não para morrer. Tudo o que não promove a vida sou contra.

Crenças e certezas

Numa destas boas aulas de Ensino Religioso em uma turma do nono ano do Ensino Fundamental, os adolescentes “travavam” uma boa discussão. O tema: a importância das religiões na vida da gente. Posições se alternavam, mas o respeito à opinião e crença de cada um foi mantido sempre. Alguns defendiam o direito dos ateus, outros defendiam a importância de suas religiões. Uns sinalizavam que o caminho da salvação passa pelas igrejas, outros defendiam que também passa pela ética ou pela espiritualidade.

Essa nossa geração de adolescentes e jovens não é uma geração perdida, mas uma geração com muita “sede de buscas”.

Neste contexto de uma aula, uma opinião mais estruturada de uma aluna chamou atenção dos demais colegas da turma e do professor. Desafiada a escrever sobre o tema que expressara, a aluna Ana Beatriz Peres de Souza assim registrou em uma folha de caderno.

“Duas palavras com significados diferentes, mas que causam certas confusões por causa de pessoas que não sabem usá-las. Acho que isso acontece pelo simples fato de que elas se completam.

Se eu creio em algo, a probabilidade de eu querer encontrar a certeza, ou de que algum dia irei encontrá-la, é grande. Comparo essas palavras com expectativa e realidade, sendo a crença uma expectativa e a certeza uma realidade a ser alcançada.

Na religião, a crença é indispensável, pois religiosos acreditam em um Deus que ninguém pode ver, ou seja, ninguém tem a certeza de sua existência e nem pode dizer que tem, já que até mesmo dentro do próprio coração, há uma dúvida. Porém, se alguém pudesse nos dar uma resposta clara para tudo ou se Deus aparecesse para nós, não haveria fé e a religião poderia passar a ser uma ciência racional, pois tudo estaria provado e claro para todos.

Percebo que a igreja cristã surgiu da certeza da existência de Jesus e da crença de que ele seja o filho de Deus, ou seja, a crença e a certeza e a crença, neste caso, podem andar juntas em um só caminho ou direção.

Enfim, devemos aprender a usar estas duas simples palavras para que não haja contradição e que a pregação seja mais clara. Eu não tenho certeza de muitas coisas, mas creio que um dia ainda terei”.

 

Autora: Ana Beatriz Peres de Souza

Veja também