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Vale mais na escola: a avaliação ou o conhecimento?

A escola deveria responsabilizar-se por despertar prazer,
autoestima, pelos estudantes como seres em formação,
que estão carentes de reconhecimento.

 

Nas formações e palestras que realizo para professores na região do RS, tenho focado muito na discussão sobre avaliação e a construção das notas dos alunos.

Uma questão basilar nas minhas provocações é a ideia da média. Como um professor pode saber se o aluno que atinge 7,0 aprendeu mais que o aluno que atingiu 5.0? Sendo que na maioria das vezes esse professor não tem diagnóstico do nível de conhecimento do aluno no início do processo? Quem me garante que o aluno que chegou na média, não iniciou a disciplina com conhecimentos acumulados 6.0, e ao longo do semestre melhorou 1.0? A média pode esconder e deturpar MUITO o processo.

Nesta mesma linha, pergunto sempre:
– Levantem a mão os professores aqui presentes que são medianos em TODAS as áreas do conhecimento!

Normalmente ninguém se pronuncia, por reconhecer que existem áreas do conhecimento que não domina ou não tem nenhum prazer em estudar ou se aprofundar. Nessas oportunidades gosto de falar das minhas próprias limitações, reconhecendo que sinto que falo melhor do que escrevo, mas que isso deveria ser normal para qualquer pessoa (ou pelo menos na ampla maioria de pessoas).

Se reconhecemos isso, alguém consegue explicar o motivo de obrigarmos os alunos a serem medianos em todas as áreas do conhecimento? (e se não for na minha disciplina, defenderei sua reprovação, independente se ele tiver altas capacidades em outras áreas?).

Alguém me explica qual seria o motivo de avaliarmos os alunos por notas que comparam pessoas diferentes (constroem hierarquias entre os alunos), mas que essas mesmas avaliações não são capazes de avaliar o aluno individualmente dentro das próprias capacidades e limitações que o seu contexto social e cultural o permite ser? A nota deveria perder centralidade, e entrar a aprendizagem dos alunos.

Se não problematizarmos essas questões, a educação estará apenas selecionando e retendo alunos por critérios que a maioria dos professores não atende.

Precisamos que a escola se responsabilize por despertar prazer, autoestima, e se responsabilize pelos estudantes como seres em formação, que estão carentes de RECONHECIMENTO. Se o aluno não escreve bem, mas fala bem, precisamos reconhecer essa habilidade e permitir que ele desperte prazer na escrita, mas seja RECONHECIDO pela sua capacidade. JAMAIS reprovar o aluno por isso. A escola e a universidade DEVERIAM ser espaços de descoberta de talentos e NUNCA MAIS espaços de destruição de sonhos.

Espero que essas formações sejam menos “beija-flor apagando incêndio”, e se se transformem gradativamente em movimentos de modificação de práticas no sentido de “água morro abaixo”.

Educação ética: uma necessidade contemporânea

A virtude moral pode ser ensinada e a síntese de toda virtude
moral é fazer ao outro o que gostaria que o outro me fizesse.
Não ensinar e não aprender esse princípio de eticidade
pode ter alto custo, inclusive, monetariamente.

 

De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier perder sua alma? Essa interrogação, feita por Jesus, não deve ser estranha aos pais que amam seus filhos e aos professores que amam seus alunos. Ou será que os pais não mais se preocupam com a vida ética dos filhos? E, os professores, será que só se preocupam com as habilidades técnicas dos seus alunos? Duvido.

Os pais e os professores se preocupam com a vida ética sim, até mais do que com a vida bem-sucedida profissionalmente. Cuidado, não há contradição entre ser bem-sucedido eticamente e ser bom, virtuoso e honrado. E se tiver que optar entre as duas, não tenha dúvida, de nada vale ter tudo se vier a perder a alma, outro nome para a honra.

Uma vida honrada demora uma vida para ser construída e um instante para ser destruída. E não é só para políticos tradicionais e grandes empresários que vale essa regra. Vale para qualquer vivente, mas tem afetado, sobremaneira, os “famosos” da sociedade do espetáculo.

Uma vida digna e honrada, vivida no anonimato, tem muito menos chance de ser destruída, por razões óbvias e, a mais evidente, pelo reduzido arco de relações em que orbita. Ser “famoso” e importante é uma faca de dois gumes. Sobretudo se a fama for seu ofício e ganha pão.

Há algum tempo o jornalista William Wacck, um bem preparado âncora da maior empresa brasileira de comunicação, famoso e respeitado no meio, deixou escapar, em frente às câmaras, fora do ar, mas que algum tempo depois vazou na internet, uma frase racista do tipo: “só podia ser negro mesmo”. Conheceu o inferno, caiu na desgraça e foi demitido. A demissão lhe rendeu milhões. Mas de que vale ganhar mundos e fundos se vier a perder a honra? Sim, ser racista é ser antiético e, mesmo que não leve para a prisão, faz cair na desgraça aos olhos dos outros, que é a maior das prisões.

Mais recentemente, “famosos” youtubers e atores “globais” caíram na mesma desgraça de ordem ética, perdendo patrocinadores e deixando de participar em eventos, não por falta de habilidades técnicas, mas por falta de educação ética. Sim, ser ético vai muito além do não roubar e não matar e pode ser ensinado.

Comportamentos racistas, machistas, homofóbicos, xenófobos e especistas são sinais de atraso e perversão de ordem moral e má formação de caráter. Pais e professores necessitam ter isso em conta.

Isso coloca uma pergunta constrangedora para todas as famílias e para as escolas. Qual é o conceito de vida bem-sucedida que estamos ensinando para os filhos e estudantes?

Um racista e machista, que não é fruto do acaso, ele aprendeu ser, é tão corrompido como qualquer corrupto. A corrupção é todo ato de desvirtuação da natureza boa de algo, pervertendo-a e tornando-a má. E toda tentativa de rebaixamento do outro, como é o caso do racismo e machismo, é uma perversão de si. O racista é, tal como o ressentido, aquele que toma veneno esperando que o outro morra.

Sim, o racismo é um veneno moral para quem o pratica, diminuindo o sujeito quem ue tenta diminuir o outro. O inferior e o diminuído num ato antiético é o próprio sujeito da ação e não a vítima.

Em outras palavras, o antiético faz mal à saúde moral e mental de quem pratica. O sofrimento é duplo, portanto, de quem pratica e de quem sofre a prática.

Assim, já não basta dizer para os filhos que não devem roubar e matar. Há outras formas de comportamento ético que podem nos levar à condenação e à desgraça, mas que podem ser evitadas se elevarmos a exigência de ordem moral ao limite máximo que nos torna, minimamente, civilizados e nos mantém longe dos seguidores dos homens das cavernas que insistem em achar normal uma moral regressiva e bárbara.

Bárbaro não é aquele que está fora da minha cultura, que não fala a minha língua, que vem de fora, que é migrante e que não confessa as minhas crenças. Bárbaro é o que exclui o outro, o que diminui o outro, o que causa sofrimento ao outro. E o seu contrário, o civilizado e o ético, é aquele que se abre para a hospitalidade que é a medida da eticidade.

A virtude moral pode ser ensinada e a síntese de toda virtude moral é fazer ao outro o que gostaria que o outro me fizesse. Não ensinar e não aprender esse princípio de eticidade pode ter alto custo, inclusive, monetariamente.

Gilmar Zampieri tem agora também o seu blog, onde edita textos que são utilizados em suas aulas no ensino superior. Confira aqui.

A bailarina de Cecília Meireles e os desejos das crianças

 As crianças só realizarão seus sonhos na idade adulta
se desde cedo começarem a receber conhecimentos e incentivos
que sirvam para alicerçar as estradas das suas vidas num futuro próximo.

 

A bailarina
Cecília Meireles

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
[…]
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Se perguntarmos a uma criança o que ela quer ser logo receberemos uma resposta. As crianças assim como os adultos têm sonhos, desejos, vontades. Ainda estão na fase do ser, ser isso ou aquilo, ser algo bonito, algo que impressione os adultos.

Apesar de tão pequeninas sabem bem falar dos seus desejos, sem levar em conta as dificuldades e obstáculos que sofrerão ao longo da vida para alcançarem essas vontades. Mas é desde a tenra idade que se constrói na criança uma vontade enorme de querer conquistar o mundo, salvar o planeta, proclamar a paz.

A bailarina de Cecília Meireles queria ser bailarina. E as nossas crianças o que querem ser? Será que sabemos? Algumas crianças mudam de ideia o tempo inteiro. Hoje querem ser bombeiros, médicos, enfermeiros, juízes, professores amanhã querem ser músicos, escritores, pintores.

É para que tenham sonhos que colocamos as nossas crianças nas escolas, que vigiamos os seus sonos nas madrugadas friorentas, que nos preocupamos com os seus desempenhos nas escolas. Só poderão realizar os seus sonhos na idade adulta se desde cedo começarem a receber conhecimentos e incentivos que sirvam para alicerçar as estradas das suas vidas num futuro próximo.

Quando uma criança diz querer ser alguma coisa, ficamos preocupados se é algo simples demais, pois como vivemos num mundo de ambições, concorrências e disputas achamos que as nossas crianças não estão num bom caminho querendo ser uma coisa tão simples. Trocamos a criança de escola, mudamos seus brinquedos, vigiamos seus amiguinhos, procuramos onde está o erro. Por essa razão vemos tantos adultos depressivos exercendo profissões que não foram escolhidas por eles, mas pelos pais.

Deixemos que as nossas crianças escolham o que querem ser, não nos preocupemos com o que dizem hoje, elas terão as suas próprias opiniões quando crescerem.

A preocupação que devemos ter com as crianças é a de uma formação virtuosa e zelosa para com o nosso próximo. Que as nossas crianças nunca se tornem egoístas, pior vício de uma pessoa.

Contudo, como toda criança que brinca de ser bombeiro o dia todo, que corre, pula, cai aqui e acolá, sobe em árvores, imagina voar em cavalos de cabos de vassoura… essa criança também quer dormir igual as outras na sua cama abraçada ao seu travesseiro ou ursinho de pelúcia. Ao final do dia brincou tanto de ser gente grande que à noite só quer descansar e esquece quem será amanhã para viver um novo sonho na madrugada.

Assim são as crianças ao nosso redor: elas querem apenas viver num mundo da imaginação, espelham-se em nós, geralmente desejam ser iguais aos pais, professores ou familiares, costumam imitar um desses.

Toda criança quer ser um herói da televisão, dos quadrinhos ou dos cinemas. Elas sentem que precisam ser boazinhas e ajudar as pessoas como fazem os seus heróis. Querem ter poderes sobrenaturais, poderes que não veem nos adultos e que não têm, mas gostariam de ter.

Assim como a menina que quer ser bailarina de Cecília Meireles, conheço muitas que gostariam de ser princesas, conheço meninos que gostariam de ser jogadores de futebol e tantos outros desejos de querer ser alguém nessa vida cheia de contradições e competições.

O melhor que fazemos é ensinar as nossas crianças o valor de uma competição, que elas sejam ensinadas a saber perder, a lutar pelos seus sonhos, mas nunca desanimarem diante das perdas.

Deixemos que as nossas crianças sejam tudo o que quiserem e que possam bailar no ar, feito a menina de Cecília Meireles, ou que elas queiram ser simplesmente grandes, como respondem muitas.

Roberto Cruz e a crença no poder da literatura

Os alunos têm que entender a importância de realmente ler,
porque se você lê, ninguém te faz de bobo,
porque você tem o conhecimento.

 

Desde o lançamento do seu 1º livro “Missão Fênix”, na Bienal de São Paulo, em 2016, o carazinhense Roberto Cruz tem se destacado nacionalmente pela sua escrita, que movimentou o nicho da ficção policial. O escritor, formado em geografia, divide o seu tempo entre o seu trabalho em uma transportadora, atualizações na página Conexão Geoclima, participação em palestras e feiras – e a criação de um novo livro! Nessa entrevista você vai conhecer mais sobre o trabalho do autor e sobre a sua relação com a literatura.

 

Como começou a sua relação com a leitura e a escrita?

Eu comecei com a leitura tardiamente. Eu sempre gosto de frisar isso, porque eu não era um leitor na minha infância e adolescência, eu me tornei um leitor ao entrar na fase adulta – e graças a Harry Potter!

“As escolas não oferecem o que a gente quer ler, elas têm uma listagem de livros que somos obrigados a ler e, às vezes, você não pega o gosto pela leitura, se não tem o exemplo de casa”.

A escola é muito focada na diretriz, por mais que hoje em dia, felizmente, isso venha mudando. Quando eu descobri o tipo de livro que eu gosto de ler, descobri que livros são muito bons (risos). Com relação a escrita, no colégio eu já escrevia peças de teatro e isso já era uma espécie de autoria. Eu tenho quatro livros prontos na minha carreira recente e, desses, somente um foi publicado, os outros três estão engavetados e vão permanecer assim (risos).

 

Como aconteceu a publicação desse seu primeiro livro?

A publicação é uma coisa muito engraçada, porque a gente escreve e quer ser publicado, queremos que as pessoas leiam, só que ao mesmo tempo vem o pânico de se aquilo vai ser aceito ou não. O ser humano tem medo do “não”, e isso é uma coisa que eu coloco sempre nas minhas palestras, que “o não você já tem”.

Eu já não tinha um livro publicado (risos), eu corria o risco de receber um sim. Mandei o livro para uma editora graças a alguns amigos meus que disseram que eu tinha que mandar. Fiz uma pesquisa e encontrei a Editora Novo Século, que tem um selo chamado “Talentos da Literatura Brasileira”. Esse selo é exatamente para pessoas como eu, que nunca tinham lançado um livro e que estão entrando agora no mercado nacional. No site dizia que poderia levar até 3 meses para receber uma resposta, então eu enviei o resumo da obra às 9h30 e desencanei. Ao meio-dia recebi um e-mail pedindo o original, pensei os três meses passariam a contar a partir daí, mas, no outro dia recebi o contrato da editora para assinar, eles iriam publicar o meu livro. A literatura recebeu um boom de novos autores, principalmente na literatura fantástica, mas atribuo essa rapidez na publicação ao nicho de leitura que o meu livro preencheu, que é o da ficção policial.

 

O lançamento desse seu primeiro livro aconteceu na bienal do livro em São Paulo, em 2016, esgotando todo o estoque de livros! Como foi essa experiência?

Surreal! Uma bienal é uma cidade que só respira literatura. Ter um estande para fazer o meu lançamento, com sessão de autógrafos, em uma bienal do livro foi surreal. E ter esgotado o estoque dele na bienal foi uma vitória a parte também. Na bienal do Rio de Janeiro, que eu fui no ano seguinte, também esgotei duas vezes o estoque dos livros, nos dois finais de semana!

É muito reconfortante saber que o livro está se vendendo, que as pessoas gostam e procuram. Há uns dias recebi um e-mail de uma professora de história que comprou o meu livro na Bienal, dizendo que o ela passou a usá-lo nas aulas do segundo ano do ensino médio, que estuda a Segunda Guerra Mundial. Ela propôs que os alunos lessem o livro para dizer o que é real ou ficção dentro da história. Isso não tem preço, é muito fantástico!

O Missão Fênix envolve temas como a 2ª Guerra Mundial, o atentado de 11 de setembro, espionagens e terrorismo… Como você chegou até essa história que mistura temas antigos e atuais?

Eu estava escrevendo um livro de fantasia antes de escrever Missão Fênix e aconteceu o acaso de eu estar assistindo televisão, no domingo a noite, e ver uma entrevista do Edward Snowden no Fantástico. Eu assisti e pensei que alguém poderia pegar uma história sobre esses temas de espionagem e fazer um livro sobre isso, eu adoraria ler essa história. Mas era para alguém escrever, não eu (risos). Terminei de ver a entrevista e troquei para o History Channel, em que estava passando um documentário sobre o terrorismo. Depois começou a passar outro sobre a 2ª Guerra mundial e pós-guerra. Eu assisti aquilo e fui dormir.

No outro dia acordei com a linha do livro na minha cabeça. Por mais que eu sentasse na frente do computador para escrever meu livro de fantasia, eu só tinha o Bernardo (protagonista de Missão Fênix) na minha cabeça. Pesquisei muito sobre a Segunda Guerra e usei muito do meu conhecimento sobre geografia. Foi um ano e meio de trabalho para chegar ao final do livro.

E agora você já está trabalhando em um novo livro! O que você pode nos contar sobre ele?

Esse segundo livro vai ter como base a Guerra Fria, porque eu me pego pensando que se a guerra fria acontecesse hoje o maior problema não seria a bomba atômica, mas sim a guerra biológica, então é esse o pano de fundo da história. A pesquisa está sendo muito maior porque biologia não é o meu forte (risos). O livro não é uma sequência, mas vai manter alguns personagens de Missão Fênix, como o protagonista Bernardo.

 

Você também tem sido convidado para dar muitas palestras em escolas da região. Como é essa experiência de contato com os jovens?

Acho muito importante essa participação nas escolas. Tenho duas palestras voltadas para literatura, outra sobre guerras, voltada para a 1ª e 2ª Guerra Mundial; e outras duas sobre geografia. Eu estou indo muito em escolas porque as escolas são o nosso futuro. No que depender de mim, no que eu puder ajudar, vou estar sempre ajudando! Os alunos precisam entender que é possível sair de uma escola pública e lançar um livro em uma bienal, por exemplo. Dá trabalho, é um caminho árduo, mas é possível. Eles têm que entender a importância de realmente ler, porque se você lê, ninguém te faz de bobo, porque você tem o conhecimento.

 

Agora Carazinho tem uma Academia de Letras! Você fez parte desse movimento de criação, como aconteceu?

Tudo começou com a Secretária Sandra Citolin (in memorian). Éramos amigos e toda vez que ela me encontrava dizia “Roberto, nós precisamos criar uma Academia em Carazinho, é uma vergonha Carazinho não ter uma academia ainda”. E ela falava isso para muitos escritores da cidade, mas ninguém tomava a frente para fazer. Até que o Lúcio e o Lorival, da Biblioteca Pública começaram esse movimento. Foi um processo longo e de muita discussão para chegarmos ao estatuto final da academia, mas agora ela já está em processo de legalização.

É de uma importância ímpar a criação da academia, porque a partir dela vamos conseguir talvez mobilizar a comunidade para uma feira do livro, eventos sobre literatura, palestras…

Esse passo dado é um ganho cultural muito grande para a cidade. Esperamos poder colaborar como entidade para que as pessoas aumentem o seu gosto pela leitura ou que ganhem esse gosto. Queremos colocar o povo dentro da Academia e colocar a Academia na rua para fomentar a leitura.

Entrevista originalmente publicada na Revista Contato Vip, mês de junho de 2018.

A Revista Contato VIP circula desde 1993 na região norte do Rio Grande do Sul, sediada em Carazinho, RS. Em 2014 foi iniciado um projeto expansão e hoje a revista circula também na região Noroeste e em Passo Fundo. Veja mais. 

 

Remédio para as “daninhas”

Os homens inventam coisas
que matam e que curam,
sem nenhum constrangimento,
porque agem em nome do progresso,
da ciência e dos lucros.

 

Certo dia, um senhor de 60 anos preparava-se para aplicar “secante” para controlar as ervas daninhas no quintal de sua propriedade. Estava sem equipamentos de proteção, dissolvendo o poderoso líquido com uma taquara, num latão de tinta, que havia sobrado na sua modesta e minifúndia propriedade.

Presenciando os riscos de tal situação, demonstrei a ele minha preocupação, interrogando-o sobre o que vira. Eis o que me disse, com a maior convicção: “professor, não tem problema, é puro remédio para matar as plantas. Daria até para beber, que nenhum mal me faria”.

Fiquei então a pensar na sua tão convicta afirmação. Meu pensamento e minhas percepções de mundo me indicaram que este senhor, e outros tantos, são iludidos a partir da semântica das palavras (imaginem quando um herbicida pode ser considerado um remédio!)

Tem gente preparada para inventar nomes, sobrenomes e propagandas sofisticadas, capazes de iludir gente humilde de nossa terra que planta. E tem gente que usa sofisticados meios para convencer quem compra os produtos que resultam desta engenhosa produção (de alimentos e de valores agregados).

Agrotóxicos e Saúde: esta edição do Sala de Convidados fala sobre agrotóxicos e os males que eles fazem à saúde. embora uma vasta gama de pesquisas científicas demonstrem o mal que os agrotóxicos fazem à saúde das pessoas que consomem os alimentos pulverizados com eles e à saúde dos trabalhadores do campo que aplicam os pesticidas, o Brasil ainda é um dos maiores consumidores mundiais desses produtos. E ainda há setores na sociedade que querem diminuir o controle sobre eles.

“Venenos ilegais contaminam o que você come”, estampa um jornal de grande circulação. Dos venenos legalizados o jornal não falou. Pagamos pela ilusão de produtos bonitos e saudáveis ao comprarmos verduras e frutas lindas e brilhantes, mas que escondem malefícios na sua cor, na sua textura e na sua aparência justamente pelo efeito de produtos tóxicos e, na maioria, nocivos à nossa saúde.

Os homens inventam coisas que matam e que curam, sem nenhum constrangimento, porque agem em nome do progresso e da ciência. Resta saber como cada um decide o que consumir saudavelmente. Quem morre ou quem se cura é sempre a gente. O problema é que não temos poder nenhum sobre a produção. Resta saber o que nos resta!

Pacote do veneno é aprovado em Comissão na Câmara dos Deputados. Projeto representa graves retrocessos à saúde e ao meio ambiente, ao afrouxar a atual Lei de Agrotóxicos; Idec e outras organizações são contrários a sua aprovação. Veja mais.

 

A prosa e o verbo: a cantilena do Estado mínimo

De acordo com os defensores da cantilena do Estado mínimo,
o Brasil não é capaz de gerir suas estatais.
Esta é a pseudo-tese utilizada pelos defensores da privatização
e multiplicada acriticamente na sociedade brasileira.

 

Por décadas [1930-1980], os setores-chaves da economia brasileira eram controlados pelo Estado.  Estes setores [siderurgia, telecomunicações, sistema financeiro, energético-petrolífero, segurança, transportes, logística…], são considerados estratégicos por qualquer nação e garantem sua soberania, autonomia e independência no mapa geopolítico internacional.

Algumas dessas empresas estatais que pertenciam ao Estado Brasileiro já foram privatizadas, sobretudo a partir dos anos 90: Companhia Siderúrgica Nacional; Usiminas, Embraer; Sistema Telebrás; Companhia Vale do Rio Doce; bancos estaduais, etc.         As remanescentes, que ainda não foram totalmente privatizadas, estão sempre na alça de mira dos defensores do Estado mínimo: Petrobras, Banco do Brasil, Hidrelétricas, Caixa Econômica Federal, BNDES, etc.

De acordo com os defensores da cantilena do Estado mínimo, o Brasil não é capaz de gerir suas estatais.  Esta é a pseudo-tese utilizada pelos defensores da privatização e multiplicada acriticamente na sociedade brasileira.

A privatização seria necessária para que o Estado consiga sanear suas contas e otimizar sua atuação.  Assim, poderia focar apenas nas áreas em que realmente sua presença é importante [saúde, segurança e educação], dizem eles.          

Os argumentos são sempre os mesmos, na maioria falsos ou, então, compostos de meias verdades.  De forma sintética, eles se resumem a um papagaiar sistemático de que todos os males do país residem na existência de estatais e o remédio é entregá-las à iniciativa privada.

No Brasil, a prosa utilizada pelos vendilhões do patrimônio público é bombardear com falácias mil contra nossas estatais, com o apoio incondicional da imprensa burguesa. Enquanto isso, o verbo utilizado por outros países é comprar com as suas estatais.  Parece contraditório? Não é.

Em outras palavras, no Brasil é pecado o Estado possuir estatais estratégicas que garantam sua soberania, porém em outros países não.  Ao contrário, além de assegurarem a propriedade do Estado em áreas estratégicas da sua economia, esses países estão espalhando seus tentáculos estatais nas áreas estratégicas de nossa economia.

Cabe aqui, no mínimo, uma reflexão crítica.  Privatizar realmente rendeu, rende ou renderá bons resultados para o nosso país? Ou o Estado brasileiro deveria manter o controle sobre áreas estratégicas da economia como serviços de água, energia elétrica, petróleo, mineração, siderurgia, tecnologia, sistema financeiro, comunicações, entre outros?

 

Invasão de estatais estrangeiras

Para assegurarem seus interesses geopolíticos estratégicos, os governos da Alemanha, França e Espanha acabam de fechar um acordo.  Eles adquiriram 52% do gigantesco grupo de armamentos European Aeronautic Defense Space Company [EADS].  Os três Estados controlam, direta e indiretamente, várias empresas prestadoras de serviços na área de defesa interna e externa, inclusive no nosso país, através da Cassidian Defesa e Segurança do Brasil Ltda.

No caso da Espanha, o Estado mantém sob seu controle a construção aeronáutica, naval, ferroviária e armamentos. É com essas empresas que a Espanha quer invadir o mercado brasileiro. O instrumento dessa operação é uma instituição chamada SEPI [Sociedade Estatal de Participações Industriais]. Com a SEPI, o Estado espanhol exerce sua tarefa permanente de controle nacional dos setores estratégicos da atividade econômica. No Brasil esse é um assunto tabu. Os defensores do Estado mínimo tem brotoejas só em pensar na possibilidade do país ter uma estatal como a SEPI.

No momento em que o governo FORA TEMER! anuncia a privatização da Eletrobrás, a estatal chinesa State Grid já está atuando no Brasil e, de olho no pré-sal, é sócia em 12 blocos no setor petrolífero. A maior companhia de energia do mundo, com 1,5 milhões de funcionários e faturamento de U$ 340 bilhões/ano, a State Grid desembarcou no país há seis anos.

Após uma série de aquisições, a State Grid tem hoje 7.000 km de linhas de transmissão em funcionamento e outros 6.600 em construção. Em junho deste ano a empresa anunciou a compra de 54% da participação do grupo Camargo Corrêa na CPFL, estatal privatizada em 1997 e que volta a ser estatal, só que agora chinesa!  Como é do interesse geo-político estratégico da China, seu governo financia, a baixo custo, o crédito para a State Grid expandir seus tentáculos. É quase certo que comprará também a participação dos demais controladores e assumirá 100% da CPFL a um custo estimado em 25 bilhões de reais.

O governo FORA TEMER!, tal qual um Nosferatu vassalo, está recolonizando a nação.  Recentemente, anunciou o projeto de privatizar 57 estatais, começando pela Eletrobrás, 18 aeroportos, rodovias e até a Casa da Moeda, o que já é, simbolicamente, uma atitude de país colonial.

Um país que até a sua própria moeda será produzida por multinacional demonstra publicamente a perda de sua soberania. A Eletrobrás, responsável, por 37% de toda geração de energia do país, pode ser entregue por R$ 20 bilhões.  A estatal fatura mais de R$ 60 bilhões ao ano. E a State Grid está com suas garras nela.   

Mas, essa entrega ou o dinheiro que entraria com esse literal negócio da China, diferente da mentira sempre contada de que seria usado para melhorar a saúde, a educação e outras lorotas, será entregue aos portadores dos títulos da dívida pública que são, em sua grande maioria, banqueiros e empresas multinacionais.

As consequências dessa política serão graves para as futuras gerações brasileiras. Temos o dever e a obrigação e, sobretudo a responsabilidade histórica com o devir histórico, de impedir, na luta, que ela se materialize.

 

E a montanha pariu um rato!

Mais de três décadas depois, o Reino Unido, que foi o carro chefe das privatizações nos anos 1980, sofre as consequências desta política desumana e de terra arrasada.  Uma pesquisa recente, realizada pelo jornal The Guardian [09/01], demonstra isso. A pesquisa apontou que os britânicos querem a volta do controle estatal de serviços essenciais.

Vejamos os dados:

  • 83% dos britânicos são a favor da nacionalização da água;
  • 77% a favor da nacionalização da eletricidade e gás;
  • 76% a favor da nacionalização das linhas férreas.

A propaganda pró-privatizações era insistente e exaustivamente repetida.  Prometia o paraíso na Terra e a privatização entregou o aumento da miserabilidade social.  A montanha pariu um rato!  Este é o resultado do chamado “Estado mínimo”. É o que afirma o pesquisador Will Hutton, diretor do Hertford College, em Oxford, e presidente do Big Innovation Center, pode-se dizer que os ingleses estão a se dar conta de que fizeram a escolha errada ao optarem pela privatização.

“Transferir os ativos públicos da Grã-Bretanha para a propriedade privada e confiar apenas na regulação para garantir que eles fossem gerenciados para oferecer um interesse público mais amplo foi sempre uma aposta arriscada. E essa aposta não valeu a pena”, afirmou Hutton. 

No artigo em que expôs os resultados da pesquisa, Hutton explica que não são apenas os números das pesquisas que representam uma queda geral da confiança nos serviços privatizados, mas há uma visão generalizada de que os exigentes objetivos de lucro anularam as obrigações de serviço público.

Devido ao caos instalado no Reino Unido pelas privatizações iniciadas nos anos 80, sob o comando de Margaret Thatcher e sequenciada pelos seus sucessores, o governo britânico estuda a criação de uma Empresa de Benefício Público [PBC]. O objetivo de uma empresa de água seria entregar a melhor água à população, o mais barato possível e não o lucro aos acionistas.  O próximo passo seria ter uma base de fundação da PBC em cada empresa privatizada como condição de sua licença para operar, fiscalizando e exigindo o cumprimento do acordado com o governo.

A participação da fundação daria ao governo o direito de nomear administradores cujo papel seria verificar se os objetivos de interesse público do PBC estariam sendo cumpridos como prometido. Isso incluiria assegurar que os consumidores, os interesses sociais e o interesse público viessem primeiro lugar. O modelo privatista implantado na Inglaterra é o mesmo modelo iniciado e implementado pelos antecessores do corrupto governo Temer e sequenciado pelo mesmo.

As grandes corporações transacionais dominam a economia brasileira.   Vejamos como está distribuído este domínio do capital privado por setores da economia: Montadoras [100%]; Eletroeletrônicos [92%]; Autopeças [75%]; Telecomunicações [74%]; Farmacêutico [68%]; Indústria Digital [60%]; Bens de capital [57%]; Bens de consumo [55%]; Siderurgia e Metalurgia [50%]; Petroquímica [47%]. No sistema financeiro, o Banco Itaú tem 40% de suas ações controladas pelo capital privado estrangeiro e o Bradesco 25%. O Banco do Brasil vendeu 30% das suas ações a investidores privados em 2009.

O controle dos principais ramos produtivos da nossa economia encontra-se nas mãos da iniciativa privada que comprovadamente não presta o melhor serviço aos cidadãos, pois seu objetivo é simplesmente o lucro. A PBC inglesa comprova, na prática, a urgência da reestatização das empresas públicas que foram privatizadas em todas as nações.

Urge a necessidade da defesa das empresas públicas brasileiras remanescentes [BB, CEF, Petrobras, Embraer, Eletrobras…] e exigir a reestatização das empresas públicas privatizadas no Brasil com o fim de evitar o caos social já instalado na Inglaterra. Só conseguiremos isso com organização, mobilização e luta!

Desesperança

Quando parece que nada depende de nós e tudo que podemos fazer
é seguir andando de
cabeça baixa, sem tropeçar em ninguém,
chegamos ao fundo do poço da cidadania.

 

Somos bons. Se não todos, ao menos a maioria de nós. Levamos a vida tentando não prejudicar ninguém, tentando fazer o que é certo. Ouvimos notícias sobre corrupção e sentimos raiva. Vemos imagens de violência e intolerância e sentimos medo. Vemos crianças negligenciadas e animais maltratados e sentimos pena. Passamos por prédios abandonados e lixo acumulado e sentimos vergonha. Sentimos muito.

Às vezes até saímos do nosso caminho para ajudar alguém, para colaborar com a cidade, para contribuir com alguma causa. Mas temos nossas vidas. Temos contas para pagar, obrigações a cumprir, nossos filhos para cuidar. Temos pouco tempo e uma sensação difusa de que nada do que fizermos fará diferença.

Parece que qualquer esforço é inútil. Esse cansaço prévio, essa sensação de impotência e essa urgência para desviar dos problemas, isso é um tipo de depressão coletiva que tomou conta de nós. Isso é desesperança.

Quando parece que nada depende de nós e tudo que podemos fazer é seguir andando de cabeça baixa, sem tropeçar em ninguém, chegamos ao fundo do poço da cidadania. Não temos mais força nem coragem para conduzir nossa vida, nosso futuro e nosso país. E o resultado é que deixamos pra lá. Deixamos para alguém melhor que nós decidir o rumo da nossa história. Só que esse alguém não existe.

Não basta seguirmos em frente cumprindo nossas tarefas. Sim, precisamos nos envolver. Precisamos denunciar a corrupção, enfrentar a violência, combater a intolerância, cuidar de todas as crianças, restaurar os prédios, recolher o lixo.

E nesse ano precisamos votar. E escolher com cuidado os candidatos. Também precisamos nos candidatar.

Se é difícil confiar nos políticos, talvez seja a hora de sermos nós os políticos.

E depois, precisamos cobrar responsabilidade dos eleitos e apoiar iniciativas para uma sociedade mais transparente. Temos que confrontar nossos representantes, exigir explicações e coerência. Só isso vai nos devolver a esperança. Porque só vale esperar resultados quando agimos para alcança-los, esperar frutos de sementes que plantamos. Isso é esperança.

“A vida em sociedade é o nosso grande palco. Neste palco, somos permanentemente observados por aquilo que somos, aquilo que fazemos e aquilo que representamos diante dos demais”. (Nei Alberto Pies)

Somos se temos palco, em busca de reconhecimento

 

Campos de migrantes, prófugos e refugiados

Da mesma forma que a economia,
o fenômeno migratório também se globalizou.
Tornou-se definitivamente planetário.

 

Se os séculos XVII, XVIII e XIX foram classificados, respectivamente, como Era da Razão, Era das Luzes e Era das Revoluções, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman propõe para o século XX a denominação de Era dos Campos de concentração. Refere-se particularmente às máquinas de extermínio dos regimes totalitários de Hitler, como Auschwistz; e de Stalin, como Gulag (Cfr Bauman, Zygmunt. La vie en Miettes, expérience postmoderne e moralité, Ed. Pluriel, Paris, 2014, pag. 178-182). É por demais conhecido e notório como milhões de pessoas perderam a vida nessas antecâmeras do inferno.

Mas os campos de concentração não terminaram no ano 2000. Passadas quase duas décadas do século XXI, é possível identificá-los em diversos pontos do planeta.

Não consistem exatamente em campos preparados para um extermínio objetivo, preciso e calculado. Nem por isso deixam de abrigar, em condições precárias e desumanas, milhões de seres humanos sem pátria. Não falta os exemplos: o povo de origem Rohingya expulso de Myanmar e refugiado num campo de Bangladesh; os que se originam no Oriente Médio e na África sbsahariana, amontoados nos campos da Líbia; os fugitivos da guerra da Síria, praticamente detidos em campos da Turquia; os venezuelanos que escapam da crise daquele país, retidos na fronteira com a Colômbia ou com o Brasil; os haitianos e hispano-americanos, convivendo com expatriados na fronteira entre Estados Unidos e México; os filipinos e indonésios na ilha de Batam, Indonésia, na esperança de alcançar o Eldorado de Singapura, e assim por diante.

Ainda sobre o mesmo tema, podemos retomar as palavras do fisósofo alemão Jurgen Habermas na última década do século XX: “A Europa deve fazer um grande esforço para melhorar rapidamente as condições dos setores mais pobres da população, tanto na Europa central quanto oriental, sem o qual o continente será submergido por um fluxo de demanda de asilo e de imigrantes” (Cfr.: Habermas, Jurgen. Cidadania e união nacional, reflexão feita numa cúpula sobre o futuro da Europa, em abril de 1992). Como se pode ver, sua previsão segue mais válida do que nunca.

Da mesma forma que a economia, o fenômeno migratório também se globalizou. Tornou-se definitivamente planetário. Além dos campos supracitados, contam-se igualmente aos milhões o número de migrantes, prófugos e refugiados que continuam errando pelas estradas do globo. Deve-se isso, em parte, ao fato de que as migrações atuais diferem das chamadas migrações históricas. Estas últimas, durante o século XIX e início do século XX, tinham uma origem e um destino mais ou menos predeterminados. O desenraizamento no velho continente era compensado por um novo enraizamento nas terras novas da América, Austrália ou Nova Zelândia.

Hoje as migrações se fazem por etapas. A terra natal é sempre o lugar de partida, evidentemente, mas ignora-se o lugar de chegada. Cada etapa representa, ao mesmo tempo, um o ponto de chegada e uma tentativa de fixação. Mas permanece aberta a possibilidade de retomar a estrada. O ponto de chegada pode converter-se em novo ponto de partida.

Disso resulta que os novos deslocamentos humanos são caracterizados, entre outros fatores, por um vaivém repetitivo e desordenado no complexo xadrez da geopolítica mundial. Se é certo que “as aves e as sementes migram nas asas do vento” – como escrevia Dom J. B. Scalabrini – é igualmente certo que os migrantes o fazem no rasto das migalhas e oportunidades oferecidas por uma economia cada vez mais globalizada. De outrio lado, com a crescente dificuldade de obter os documentos para uma migração legalizada, devido à criminalização da mobilidade humana e dos migrantes, verifica-se uma erupção vulcânica nos territórios fronteiriços. Estes convertem-se em verdadeiras panelas de pressão prestes a explodir.

No fundo, essa “economia que descarta, exclui e mata” – como diria o Papa Francisco – alia-se a uma exrema direita, não raro de orientação neofacista e xenófoba, que descrimina, rechaça e seleciona com rigor os que podem desfrutar dos benefícios da técnica e do progresso. Os demais estão condenados ao êxodo, ao exílio e à diáspora. Resta-lhes caminhar sem trégua e bater às portas de mentes e corações cada vez mais cerrados e endurecidos.

Pe. Alfredo J. Gonçalves.

 

O humano transformado pela literatura

Professor Laércio Fernandes dos Santos é um professor esforçado, esmerando arte com ousadia, para humanizar-se, tornar-se melhor ser humano. Como ele mesmo conta, a literatura foi chegando e ficou para impregnar sua existência de sentidos e inovações: “a literatura sempre correu no meu corpo feito sangue que alimenta a célula. Como água para o rio. Como a praia para o mar. Jamais, depois dessas maravilhosas experiências, posso viver sem que a arte da palavra esteja nos meus movimentos educacionais”.

 

Conheça Laércio Fernandes dos Santos por ele mesmo.

“Lembro-me como se fosse hoje. Ela apareceu na minha vida. Bom tempo já se passou não lembro quais dos pretéritos, se perfeito ou imperfeito, mas até acredito que ela tenha vindo num pretérito-mais-que-perfeito. Porque esse pretérito é raro: de lembrara, surgira, transformara. Transformara-se na minha vida. Arte que me conquistara. Arte que metornara essência. Palavra que é matéria prima para ela. A Literatura que é matéria.

“Era uma escola simples. Do interior. Na simplicidade nostálgica. A professora era mestra. Contar histórias era o que vidrava o olho de um garoto na primeira fileira. As histórias eram de sabedoria e encanto. Encanto que nascera e ficou. Da Salete era a voz e a maestria”.

O curso de Letras veio mais tarde. Como sonho de criança. Como algo impossível para quem viveu sua infância num interior longínquo. Casa de chão coberta de tabuinha. Mas dos sonhos não devemos desistir. Mais uma vez a Literatura revive. E o Projeto Invasão Cultural caiu como uma luva na minha alma e no meu coração.

O projeto Invasão Cultural começou há muitos anos quando ainda se estava na universidade, em específico no curso de Letras, em 1996, quando surge a ideia de levar a literatura de forma mais expressiva do que simplesmente ler um livro. Dessa forma, surge a vontade de um grupo de jovens, todos acadêmicos do Curso de Letras motivados pelos professores da área de literatura, com o mesmo objetivo: levar a palavra falada com emoção.

Primeiramente, reuniram-se Laércio Fernandes dos Santos, Clodoaldo Cirello Casagrande, Roberta Salinet, Douglas Pereto e Janaína Britto de Castro para discutir como se poderia chamar atenção com textos retirados dos livros. Esse grupo tinha como coordenadores Clodoaldo, Douglas e o professor Eládio Vilmar Weschenfelder.

Esse grupo precisava ter um nome, foi então que veio o nome Bando de Letras e a atividade envolvida “Invasão Cultural” por se tratar de uma declamação surpresa de textos diversos, em que a plateia seria surpreendida por poesias e histórias, inclusive em outros idiomas. Assim, o grupo se reúne e treina os textos com entonação e, em seguida, parte para as invasões culturais em todas as salas do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas – IFCH e em outros prédios da Universidade de Passo Fundo, logo esses jovens atingem destaque que recebem convites para eventos fora de Passo Fundo.

Na primeira apresentação de estreia, invadem-se as salas do IFCH com o seguinte combinado: um dos integrantes bate na porta da sala de aula e pergunta para o professor ou a professora se é prova ou não, recebendo a resposta da negativa, apaga a luz e os demais integrantes falam as palavras: “Medo”, “Sangue”, “Sombra”, palavras essas extraídas do poema “Impulso”, escrito por Clodoaldo que, em seguida, ele mesmo declamava na íntegra.

Na segunda apresentação, coube a mim, como integrante a entrada declamando a música Judiaria de Lupicínio Rodrigues, bradando: “Agora você vai ouvir aquilo que merece”. (Veja mais aqui). Com essas palavras apontava-se o dedo para alguém da sala.

 “Esse movimento da arte chama atenção por onde passa, pois a literatura passa a ser vista com outros olhos, e, acima de tudo, sentida. Assim, percebe-se, por parte dos espectadores, que a literatura mexe com as emoções e sentimentos de cada ser humano. Coisa que é inerente à arte no sentido amplo”.

Para (KAY PRANIS, 2010, p.55-56): “Quando se conta uma história, a informação é transmitida de modo a criar abertura por parte daquele que escuta. A partilha de histórias fortalece o sentido de conexão, promove a reflexão acerca de si mesmo e empodera os participantes.”

“Isso é o que a arte na educação tem o poder de fazer quando bem aproveitada, pois ela mexe com a oralidade, sentimentos mais íntimos, pois a humanidade volta a essência do escutar”.

O grupo edita um livro com vários poemas e contos dos integrantes de própria autoria, é o que aparece na apresentação do livro O Beijo Definitivo (1997) que o professor Eládio Vilmar Weschenfelder escreve na apresentação: “Esta antologia de poemas e de contos escritos por oito acadêmicos do Curso de Letras da Universidade de Passo Fundo. O Grupo identificado como Bando de Letras, tem proporcionado inúmeras “invasões” culturais divulgando sua produção literária no meio acadêmico.” (WESCHENFELDER: in PERETO, 1997, p. 05)

“A Literatura sempre correu no meu corpo feito sangue que alimenta a célula. Como água para o rio. Como a praia para o mar. Jamais, depois dessas maravilhosas experiências, posso viver sem que a arte da palavra esteja nos meus movimentos educacionais”.

Já fui diretor de escola, vice-diretor, Coordenador Pedagógico, Coordenador de Polo universitário, mas o que realmente me faz vibrar é a literatura.

“A literatura, arte da palavra, seja de qualquer nível, podendo juntar a arte e educação, torna-se uma aliada para um trabalho eficaz dentro das escolas. Visto que ela desperta o amor à admiração da arte e, por consequência, transforma o ser humano dando a ele oportunidade para expressar suas emoções ou deixá-las fluir, facilitando a comunicação oral e escrita, a convivência e o conjunto de valores, além de um sentimento melhor perante a sociedade”.

Além do que, possibilita o adentrar em outros mundos, até então, desconhecidos. Outro ponto que fica evidente é a mediação que o educador faz, porém essa será beneficiada quem a conduz gostar da arte da palavra e saber sensibilizar para que a experiência flua através dos sentimentos de quem está envolvido na aula.

“Ainda, o trabalho com o texto poético ou narrativo, seja ele, romance ou novela vai permitir que o educador de línguas possa despertar no educando um olhar diferenciado para o estudo da linguagem. Nesse sentido, o ensino fluirá muito melhor”.

Fica evidente que a arte na educação permite outra dimensão dentro das escolas e na vida de todos os educadores e educandos. E uma das formas para o princípio pelas leituras dos diferentes gêneros.

Vale ressaltar da necessidade do incentivo à leitura e do uso da mesma em todos os componentes curriculares, optando pelo uso de outros espaços e mídias que extrapolem as paredes da sala de aula. Isso permite a educadores e educandos uma vivência mais profunda da arte da palavra. Para isso tudo, tem de haver um desprendimento por parte do professor de língua e literatura e do educando, porque não trabalhará somente a mente, mas o corpo e a alma, seguidos das emoções e sentimentos.

“A literatura, como arte, consiste em um grande trampolim para o ensino e para despertar no educando o interesse em aprimorar a linguagem e a leitura, por consequência, uma mudança de atitude e de competência linguística em todas as áreas do conhecimento e da formação humana do cidadão”.

Muitos educadores trazem a educação juntamente com a arte e também há jovens que explicitam isso como Clodoaldo Cirello Casagrande, um jovem-arte-educador que buscava no outro a arte. Por isso, por onde passo, levo a literatura para meus alunos, intensamente.

 

Referências

KAY, Pranis. Processos Circulares. São Paulo: Palas Athenas, 2010.
PERETO, Douglas. O Beijo Definitivo. Passo Fundo: Ediupf, 1997.

Uma Rússia num quintal do Brasil

Da minha infância aos meus dezesseis anos, morei muito próximo de uma “comunidade russa” no Brasil. Nasci em Campina das Missões, uma cidade do RS que se tornou referência na vivência de costumes, tradições e de religiosidade ortodoxa russa.

Como descendente de imigrantes alemães, sempre vi, de forma desconfiada e intrigante, esta cultura que estava a me rodear. Tive colegas de escola que revelaram poucas coisas sobre sua história e a história de suas famílias.  Minha mãe, Lúcia, me contava algumas poucas palavras ditas “em russo” justamente por sua amistosa e intensa convivência com amigos e conhecidos da comunidade russa.

No meu imaginário, a Igreja Ortodoxa Russa, o cemitério e uma grande vontade de participar da festa anual comemorada pela instigante comunidade de russos em Campina das Missões.

Para descortinar um pouco mais desta história que conheci na minha infância, que agora passa a interessar a outros brasileiros por conta da realização da Copa do Mundo na Rússia, entrevisto um casal de brasileiros que vive, no cotidiano de suas vidas, a história, a cultura e a religiosidade no Brasil, mas com um pezinho na Rússia:  o advogado Jacinto Anatólio Zabolotsky e a professora Ilse Ana PeriusZabolotsky.

 

Nei Alberto Pies: Jacinto, como descendente de russos que vieram da Sibéria em busca de melhores condições de vida, como avalias o impacto cultural e econômico no desenvolvimento desta região missioneira a partir da imigração russa?

Os imigrantes de todas as etnias tem a sua parcela de contribuição no progresso do estado e da nação, independente da etnia de sua origem. Pois com a força de seu labor mudaram o rosto de Campina das Missões, do Estado e do Brasil, com determinação, garra e coragem em busca de novos horizontes que esta terra tão maravilhosa acolheu a todos a partir de 1909, que aqui plantaram sua história, constituíram as suas famílias, cultura, religiosidade, enfim, o seu legado histórico-cultural-religioso, se tornando o berço da cultura russa.

 

Nei Alberto Pies: O que torna esta cultura tão marcada em solo gaúcho? Foi a união, a identidade em torno da igreja e da cruz ortodoxa, do cemitério e das festas anuais que estes imigrantes realizavam por aí? O que mesmo identifica este grupo étnico nesta região do RS?

Assim como o Brasil, a Rússia é um país com dimensões continentais, culturalmente multifacetado e multiétnico. Os dois países são formados por inúmeros povos e culturas que se entrelaçaram ao longo dos séculos entre si, e formam as suas nacionalidades. A identidade do Brasil enquanto povo é formada essencialmente por estas misturas, e aqui no RS, onde vieram inúmeros imigrantes da Europa tal riqueza cultural da nossa identidade se torna ainda mais evidente.

Devido a singularidade do povo russo, ao chegarem ao Brasil trouxeram consigo não só o trabalho para desbravar estas novas terras, mas sobretudo uma série de novos costumes e tradições que não eram praticados pelos imigrantes da Europa Ocidental ou nesta região até aquele momento. Neste sentido, os imigrantes russos ajudaram a formar e enriquecer o mosaico cultural de nosso Estado.

“Uma das principais contribuições deste povo, foi justamente a introdução da fé ortodoxa russa no Brasil, sendo que em Campina das Missões, no ano de 1912 foi inaugurada a primeira Igreja Cristã Ortodoxa Russa em solo brasileiro”.

Tal excepcionalismo é uma marca que os difere da fé católica primordialmente praticada pelos imigrantes de origem europeia ocidental que colonizaram o RS. Para além de inúmeras diferenças culturais, como idioma, culinária, danças etc, se eu pudesse definir o que os identifica enquanto grupo étnico, seria primordialmente a fé ortodoxa, que é preservada até os dias de hoje em nosso município.

Também trouxeram na sua bagagem a determinação para vencer as vicissitudes, tanto é que tinham que desbravar as densas florestas, enfrentar animais selvagens, encontrando aqui índios e a vontade de lutar para melhorar as condições de vida de sua família e não esqueceram a fé, pois na hora das imensas dificuldades, era na fé que encontraram forças para vencer as dificuldades. Foi aqui erigida a primeira Igreja Ortodoxa no Brasil em 1912.

“As festas anuais realizadas cada ano no dia 09 de outubro, ou no domingo mais próximo, são como um encontro de todos e os que se mudaram para outras regiões do Estado e do Brasil. Nesta data é a comemoração em honra ao seu patrono, o Padroeiro Apóstolo São João Evangelista, o Apóstolo do Amor. Nesta data também é comemorado o Dia do Município de Campina das Missões e o Dia da Etnia Russa no Estado (Lei Estadual nº 13.299/2008)”.

Para salvar a história foi erigido um monumento na entrada da cidade, nas margens da RS 307, em homenagem ao Centenário da Imigração comemorado em outubro de 2009. Também, no centro da cidade, encontra-se a Praça Russa São Vladimir, Santo Equiapostólico, batizador da Rússia em 988, cujo busto está no arco, com  a cruz Ortodoxa, com cúpula dourada.

 

Nei Alberto Pies: Em sua vida cotidiana, estás bastante conectado com a cultura dos teus antepassados da Rússia. O que mais te realiza como cidadão brasileiro, mas com um pezinho na Rússia?

Para iniciar esta resposta, posso dizer que realmente estou conectado, pois possuo dois canais da TV Russa, canal um (pervií canal) e outro, Russia RTR, onde vejo as notícias em tempo real diariamente. Também tenho contato com os primos que residem na Sibéria, em Krasnoyarsk Ainda contatamos com o Pe. Dionisio, que atualmente exerce trabalho pastoral em Rublevo, próximo a Moscou.

Da mesma forma temos congresso anual de médicos, do qual sou o mediador entre Brasil-Rússia, deste projeto. Em meados de 2016 estive 47 dias, para aprimorar o idioma russo no Instituto Pushkin, em Moscou. Sempre que possível, viajo com a família.

Estamos na coordenação, há 26 anos (desde 1992) do Grupo Folclórico Russo TROYKA, que divulga os usos, costumes, tradições e as danças alegres e vibrantes do fascinante folclore russo.

“A preservação do legado histórico-cultural-religioso de meus antepassados no Rio Grande do Sul, é algo que me fortalece enquanto brasileiro, e que fortalece o Brasil enquanto uma nação multiétnica e multicultural. Não esquecer a memória e a vivência de luta dos imigrantes russos que vieram até as longínquas terras de Campina das Missões é sobretudo lembrar e resgatar a história da formação de nosso Estado e de nosso povo”.

 

Nei Alberto Pies: O que os destemidos e corajosos imigrantes russos tem a ensinar, de sua cultura, para a cultura brasileira?

A coragem de enfrentar os problemas com garra e determinação.

 

Nei Alberto Pies: Quais foram as principais trocas culturais a partir do seu casamento com  Ilse Ana Perius Zabolotsky, uma descendente de imigrantes alemães? Para irmos um pouco mais além, como avalias a convivência entre russos e alemães nesta região do RS?

Que cada um trouxe a educação de seus pais e a vontade de lutar, pois ambos temos Mestrado, a esposa em Matemática e eu em Direito e que juntos temos dois filhos, Tatiane, médica e Bóris, Mestrando em Relações Internacionais na UFRGS, com foco para a Diplomacia.

 

Nei Alberto Pies: Para aguçar um pouco da minha curiosidade de infância e dos leitores do site, poderias elencar palavras do cotidiano da vida em russo.

Que já estão incorporadas várias palavras russas no vocabulário português, tais como: A vodka, a babá, que cuida nossas crianças, ícone (por ex, este é um ícone da Cultura), ou ainda Ortodoxa (orto, significa reto) doxa (fé), por ex. economia ortodoxa, quer dizer economia correta; Bistrô, rápido em russo; Troyka: 3 membros; prato típico: Borsh (sopa de legumes), dentre outras.

Ilse Ana Perius Zabolotsky, esposa de Jacinto Zabolotsky.
Nei Alberto Pies: Como professora da rede estadual, esposa de um descendente de imigrante russo no Brasil e descendente de imigrantes alemães, como vês esta integração e convivência entre alemães e russos nesta região do RS?

Sem nenhum problema, pois vivem em perfeita harmonia e respeito, assim como o meu pai Oscar Perius dizia: “Tem pessoas boas em todas as raças”.

 

Nei Alberto Pies: Como são as viagens com o marido Jacinto para a Rússia? O que a Rússia de hoje tem a ensinar para o nosso querido Brasil?

As viagens são excelentes e produtivas, de amplo conhecimento e relacionamento com o povo russo que é muito receptivo.

“O que a Rússia pode ensinar é a disciplina e o respeito às Leis, sendo que levamos isto ao Grupo Troyka, por este motivo, que já possui mais de um quarto de século”.

 

Nei Alberto Pies: Como foi visto, na época de seu casamento, o seu casamento com um homem russo?

De forma natural, como qualquer pai de família faz, em analisar o novo integrante da família.

 

Nei Alberto Pies: Qual é a importância para as novas gerações russas o grupo de Danças Troyka? Qual é o papel da dança na divulgação da cultura russa que resiste para não morrer nesta querida cidade Campina das Missões?

Para que não se perca o legado histórico-cultural-religioso para as atuais e futuras gerações.

Difundir e levar consigo a linda tradição russa em todas as partes do Estado, do Brasil e além fronteiras, que possui no seu vasto currículo de sucessos em mais de 650 shows em festivais, regionais, nacionais e internacionais, eventos culturais, feiras e eventos realizados na região, estado e País, tanto que chamou atenção da grande mídia nacional, tais como: SBT Brasil (exibido em 06.06.2018), SBT RS, Globo Repórter (exibido em 08.06.2018), Globo News, várias exibições de 25 min, em rede nacional, na RBS TV, série partiu RS, Bom dia Rio Grande, Jornal do Almoço, revista Veja, O Estadão/SP, Folha de São Paulo, Zero Hora que dedicou reportagem de seis páginas, edição de 12.05.2018, além de outros jornais locais e regionais.

 

Nei Alberto Pies: Outras questões que você gostaria de considerar.

Que o Grupo Troyka aceita dançarinos de todas as etnias, desde que se empenham e tenham interesse e dedicação pela dança.

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