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Licença para matar


O projeto de Moro
não toca na grotesca vulgaridade
e na ignorância que geram o crime.
Não vai às origens profundas do crime.
Pune as consequências.

O projeto de lei de combate ao crime do ministro Sérgio Moro, refletindo o clima de violência institucionalizado por Bolsonaro, garante ao agente público o direito de matar se estiver numa situação de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”.

Está aberto o caminho para execuções sumárias. Aliás, sua excelência não explicou o significado concreto do “escusável medo ou emoção”. Fica claro que no projeto se reduz à pena ou se absolve a quem mata, nas circunstâncias acima citadas.

Aprendi na faculdade de Direito que a hipótese, em ciências, em especial na jurídica, é apenas uma ideia colocada. Ela não lida com o fato, a evidência. Ela nos indica algo para trabalhar em decorrência da evidência.

E onde estaria o lugar do crime? Nas favelas, é óbvio. Por que apenas nas favelas? Lá está uma população formada pelos excluídos de sempre. Para estes, não há uma política de segurança pública. Ao contrário, o que existe é a repressão permanente.

O curioso é que grandes apreensões de armas, por exemplo, se deram em aeroportos e condomínios de luxo. Agora mesmo, no condomínio do presidente, foram apreendidos dezenas de fuzis de propriedade do possível matador da vereadora Marielli. Conclusão: o ministro quer combater o crime no lugar errado.

Aliás, há uma pergunta que não quer calar. Como a Abin e a PF não descobriram que um pistoleiro perigoso era vizinho do primeiro mandatário do país? Ou a Abin é muito incompetente ou o atirador era comensal de Bolsonaro.

O projeto de Moro não toca na grotesca vulgaridade e na ignorância que geram o crime. Não vai às origens profundas do crime. Pune as consequências.

Não há dúvidas de que as leis precisam ser mais severas, mas o crime e a violência não desaparecem somente com penas e buscando apenas as consequências.

Para o cientista social, especialista em segurança pública e professor da Universidade Feevale, Charles Kieling, “o pacote anticrime de Moro é uma caça às bruxas sem precedentes na história brasileira e não resolverá o problema da criminalidade”.

O curioso é que o setor de inteligência foi desprezado por Moro em seu projeto, logo ele que segundo afirma a mídia, teve formação na CIA americana.

Temo que, se não bastasse a miséria, humilhação, agressões racistas, misóginas e homofóbicas, a população humilde agora ficará, igualmente, submetida ao “direito de matar”, outorgado ao agente público, de forma unilateral, sem dialogar com sociedade e mesmo com seus representantes políticos pelo Ministro da Justiça, que deixa claro todo o seu autoritarismo.

Ao governo que apregoa “Deus acima de todos”, é preciso lembrar, urgentemente, o que diz o 5º Mandamento do Senhor!


Em outra publicação neste site, já discorremos sobre a tese de que mais armas significam mais violência.

Educar por ideologia ou pela esperança?

Não existe, em se tratando em educação,
a ausência de neutralidade.

Por tempos ouço e me calo. Interiorizo. Mas agora falo. “Escola Sem Partido”, sim, porém esse discurso já vem carregado de pensamento ideológico. Não existe, em se tratando em educação, a ausência da neutralidade.

Precisamos retomar alguns conceitos educacionais. Educar parte do princípio da transformação. Que transformação é essa? É para que o indivíduo aceite sua condição social, sem que ao longo da escola não desenvolva sua autonomia de criticidade para perceber que a luta de classe existe e essa realidade não é a de se conformar.

 Não podemos negar que o professor tem a obrigação de trabalhar com o conteúdo que é determinado pelas bases nacionais, no entanto, um papel, que é inerente ao educador de qualquer área do conhecimento, é despertar a esperança da transformação social. Não há como educar na neutralidade.

Aliás, o próprio enunciado discursivo, “Escola Sem Partido”, já traz na sua essência a ideologia que determina que a educação deixe de ser ferramenta do despertar para o levante da desigualdade social. A grande massa das nossas escolas públicas, inclusive os professores, vem de uma exclusão social em favorecimento da elite brasileira e, dessa forma, nessa elite se pode incluir, inclusive, políticos que defendem essa ideologia.

No entendimento dessa ideologia, é que devemos apresentar dois lados da história, porém, muitas vezes, a história só tem um lado que podemos, de sã consciência defender. Esse lado é o das injustiças sociais. Para ser mais claro, vou dar um exemplo. No trabalho da Literatura Romântica, com o Segundo Ano do Ensino Médio, apresento a grande problemática do indígena, na voz dos textos de Gonçalves Dias e a escravidão, no clamor dos textos de Antônio de Castro Alves. É impossível achar que se tratando de massacre e exploração de seres humanos, eu proferir um discurso, enquanto professor, achando e tentando convencer os alunos que a posição, tanto dos colonizadores, como dos senhores de escravos, tem certo grau de positividade. É claro que o meu papel não é só apresentar o conteúdo, porém é meu dever fazer o aluno entender que algo está errado. Ou não está?

Ou ainda quando eu trabalho com o Texto do Fernando Sabino, A Piscina, que fala da mulher que invadiu a mansão no Rio de Janeiro, porque na favela não havia água para beber e pegou água da piscina com um balde e saiu.

O meu papel enquanto professor de língua e literatura é, além de trabalhar os tempos verbais, que dão significado ao texto, fazer o aluno entender que há contrastes sociais e que isso não é positivo em se tratando na essência da cidadania. Quer dizer se a mulher da mansão é brasileira e vive em determinadas condições, tanto como a mulher da favela tem os mesmos direitos cidadãos. Caso contrário, algumas injustiças estão sendo cometidas e indevidas.

É preciso dizer que se tratando de linguagem humana, ela sempre virá carregada de ideologia, pois o discurso proferido é uma escolha de um sujeito sócio-histórico e traz de ideologias fortemente carregadas.

Quem profere o discurso de “Escola Sem Partido”, automaticamente é ideológico. Pois não existe imparcialidade, neutralidade e objetividade no discurso, pois entendemos que para formar determinado enunciado houveram escolhas de palavras em detrimento de outras.

Entendemos que “Escola Sem Partido” já é um partido, carregado de ideologias, dentre elas a desmoralização da educação e dos que a fazem. Esse discurso tem um objetivo, não é por acaso que ele foi proferido. E eu diria mais, que esse discurso é produto de um sujeito, histórico, ideológico e espacial. Fica a dica.


“O projeto versa sobre a ética profissional do professor em sala de aula, criando uma série de regras comportamentais contra o “abuso da liberdade de ensinar”. O projeto cria canais de denúncia, incentivando pais e alunos a denunciar professores, inibindo a atuação de educadores”. (Luciano Pimentel, professor rede estadual)

O professor é condenado porque tem de trabalhar com a esperança. Esperança da inclusão social. Esperança da busca dos direitos inerentes ao ser humano. Esperança!

Liberdade de pensamento?

As verdades são nossa zona de conforto
e nossa cela intelectual.
Construímos nossa própria
prisão intelectual.

Julgamo-nos livres para pensar, mas não somos livres para expressar nosso pensamento. O patrulhamento de uns para com os outros nos aprisiona, na medida em que, por vezes, decidimos só ouvir, por que, desanimados, desistimos de argumentar. Mas essa constatação revela também uma prisão.

A superinformação que nos assola não permite que tenhamos tempo de processar o que ficamos sabendo. O resultado é, por comodismo ou por incapacidade de discernimento, nos agarrarmos a verdades cristalizadas. As verdades são nossa zona de conforto e nossa cela intelectual. Deixamos de pensar, para permanecermos aprisionados ao que nos tranquiliza: as verdades.

O maniqueísmo cria expressões duras, estanques, sem reflexão. Visa tolher o contraditório, com a intenção de reafirmar verdades construídas ao longo da vida. São muitos os elementos que alimentam as verdades.

A família, a religião, o partido, o herói, a facção, a turma, a ideologia, fazem-nos reféns do consagrado e tudo o que não é espelho do que conhecemos é agressivo e ameaçador.

É difícil sair da prisão intelectual, por que, expressar ideias requer disposição para considerar o que as confronta, exige pensar novas possibilidades e procurar mais formas de informação e, principalmente, tempo para a reflexão. A inteligência alimenta-se da capacidade de duvidar do que vem pronto, do que é estanque.

Mas só dúvida é insuportável. Alguém sem opinião, sem posicionamento frente a fatos concretos, revela falta de discernimento. Isso não quer dizer que, frente ao novo, frente ao dinamismo da vida, não possa mudar de opinião. A mudança é o pressuposto dos que se reconhecem falíveis, incompletos, em processo de amadurecimento.

“Eu acho” é uma expressão de que não gostamos, mas é a mais apropriada para quem sabe que a verdade é mutável e não propriedade. O livre pensar é sinônimo de liberdade. O livre pensador não usa expressões óbvias. Ele rejeita rótulos.

O livre pensador sabe-se um animal político e não afasta a possibilidade de se fazer política em todas as dimensões da convivência humana. O livre pensador deseja que todas as pessoas usem das suas faculdades intelectuais e psicológicas, para pensar por si, para que o diálogo seja instigante, aberto, característico dos que procuram a dinâmica do que é novo, do que é semente pronta a explodir.

A arte é capaz de refletir o pensamento livre, na medida em que não teme a ousadia, a criação, o aproveitamento fecundo do que antecede e o que precede a verdade. Ela apropria-se do que existe, mostrando nuances inusitadas e invisíveis ao que é comum. A arte mexe com as entranhas do maniqueísmo, por que ousa mostrar a complexidade do mundo como o conhecemos e como o imaginamos. Cada ser é um mistério! As certezas manietam, tolhem, aprisionam.

Portanto, pensar é reconhecer no outro uma riqueza invisível e auscultar esse invisível. É garimpar o que cada um tem com o intuito de enriquecer-se. Pensar é não renunciar à liberdade por medo de mudar ou de comprometer-se.

A liberdade inquieta! Ser livre é sair de si e viver no imponderável. Sair da prisão do pensamento pronto é obrigatório nos tempos bicudos em que estamos vivendo, sob pena de virarmos a Geni de Chico Buarque. “Joga pedra na Geni! Joga pedra na Geni! Ela é boa pra apanhar! Ela é boa pra cuspir! Ela dá pra qualquer um! Maldita Geni

No site, estão publicados mais 20 reflexões da autora Sueli Ghelen Frosi. Confira os demais artigos.

Como amar uma criança?

Estamos dedicando pouco
tempo às nossas crianças.
Estamos nos tornando inimigos
ocultos das nossas crianças.
A falta de amor dói na criança.

As crianças necessitam de amor. Somos os responsáveis pela formação espiritual desses pequeninos, logo não podemos deixar de amá-los com o cuidado que necessitam.

Amar é fácil? Nem sempre. Exige renúncias, compreensão, ternura, paciência, tolerância e, principalmente, sabedoria.

Compreender as nossas crianças tem sido cada vez mais difícil num mundo onde as relações interpessoais quase não existem mais, num mundo onde tudo é líquido, segundo dizia o sociólogo e professor Zygmunt Bauman.

No entanto, estamos dedicando pouco tempo às nossas crianças. Vivemos ocupados com os nossos afazeres domésticos e no trabalho, andamos de um lado para o outro preocupados com contas a pagar e não percebemos que estamos deixando de amar as nossas crianças. Sim, estamos sempre ocupados para responder um por quê delas, não temos mais tempo para fazê-las dormir contando-lhes uma história ou achamos desinteressante e perda de tempo uma conversa no sofá com uma delas.

Não nos preocupamos mais com as nossas crianças, essa é a verdade. Num mundo onde as emoções necessitam de atenção especial, as crianças choram e se aborrecem facilmente com os nossos “nãos” sem explicações.

Preferimos deixá-las entregues aos aparelhos celulares e tablets do que brincar com elas no pátio da casa; preferimos deixá-las trancadas no quarto do que correr com elas pelos canteiros das ruas; preferimos que tomem medicamentos para acabar com a ansiedade do que ensinar-lhes a serem pacientes.

Estamos nos tornando inimigos ocultos das nossas crianças. Aqueles que deveriam dar exemplos, serem os melhores pais e responsáveis para elas, não estão fazendo o dever de casa como deveriam. Estamos deixando de amar as nossas crianças.

Vejo muitos pais gritarem com os seus filhos, colocarem de castigo e arrancarem os celulares das suas mãos depois deles mesmos os terem viciado, como forma de punir o malfeito. A criança que não é amada cresce sem saber o que é o amor, tornar-se um ser humano insensível às coisas, suas emoções são abaladas, desacredita das pessoas e se sente frágil diante do outro.

A falta de amor dói na criança. Ela não se sente protegida, agasalhada e abraçada por aqueles que deveriam educá-la para amar incondicionalmente as pessoas, os animais e a natureza em geral. As crianças pedem tão pouco de nós, pensem nisso. Elas só querem ser amadas.

Por que estamos nos tornando mesquinhos para com as crianças? Por que escondemos o queijo das crianças? Talvez nos falte amor tanto quanto falta a elas, por isso não sabemos como amá-las. Porém, é preciso aprender as lições que a vida nos oferta e passarmos a ser adultos melhores, ou seja, amar mais as pessoas e as crianças que estão próximas de nós.

Outro dia, vi uma menininha olhar uma vitrine de uma loja onde tinha uma boneca de louça linda. A vendedora mandou a menina embora alegando que ela estava atrapalhando a visão das pessoas, a menininha abaixou a cabeça e se foi para nunca mais voltar a ver aquela boneca tão bonita e para nunca mais ver aquela mulher tão chata que a tratou sem amor. Todos os acontecem situações como esta no Brasil, onde tem shoppings ou lojas de brinquedos. E todos os dias vamos deixando de amar mais um pouco as nossas crianças.

Não permitamos que crianças morram igual “A menina dos fósforos” do conto de Andersen, no frio e sem amor.

Façamos alguma coisa pelas nossas crianças e procuremos dar-lhes amor enquanto ainda são pequeninas, pois quando adultas poderão se tornar as vilãs da sociedade, pois a falta de amor faz com que deixemos de pensar com sabedoria e voltemos a contemplar as coisas como se fôssemos homens das cavernas.

Amemos as crianças respeitando os seus pequenos mundos, os amigos imaginários, os seus desenhos e modos de falar. Amemos as crianças respeitando as suas subjetividades, afinal cada criança pensa diferente uma da outra, mas todas querem apenas correr e brincar.

Mais armas: mais violência

Há um culto às armas e à violência como
uma espécie de símbolo do poder.
Estima-se que nos próximos 3 anos,
tripliquem-se as armas em circulação no Brasil.

O massacre de Suzano está trazendo à tona a polêmica questão sobre a flexibilização concedida para a posse de armas e, futuramente, como defendem os mais afoitos, o seu porte.

A alegação dos defensores de tais medidas se baseia nos altos índices de violência e criminalidade verificados no país e o direito de o cidadão armar-se para se proteger.


O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, disse que armas não servem só para matar e comparou o objeto a um automóvel, ao comentar o ataque ocorrido nesta quarta-feira (13) em Suzano (SP).

O liberal defende, em síntese, a posse, e até o porte de armas, em nome do princípio absoluto da liberdade individual.

Ao defender o uso de armas de fogo pelos chamados “cidadãos de bem”, via de regra evoca o direito à defesa, à proteção de seus entes e propriedade e a suposta segurança na sociedade que resultaria do fato de haver pessoas armadas dispostas a reagir quando necessário.

É preciso lembrar, entretanto, que isto não se harmoniza com os valores conquistados pela humanidade ao longo do processo civilizatório.

Segurança pública, saúde e educação, passaram a ser dever do Estado e direito do cidadão, à medida em que a sociedade foi se estruturando.

É uma contradição defender a vida estimulando a circulação de um instrumento cuja única finalidade é a morte. Mais: a bandidagem costuma tomar armas até da polícia. Irá se fartar tirando revólver de usuário incauto.

Como teria chegado às mãos de um dos jovens assassinos de Suzano, o revólver que utilizou para matar estudantes inocentes?

Flexibilizar a posse de armas foi um erro em uma época de ódio, arbitrariedade e de “criança fazendo arminha”.  Há um verdadeiro culto às armas e à violência como uma espécie de símbolo do poder.

Na verdade, o governo trata de forma superficial o sintoma de um problema complexo, que é o da falência da segurança pública.

O líder do partido do governo no Senado, Major Olímpio, levianamente, disse que se os professores e funcionários da escola estivessem armados, poderiam ter evitado a tragédia. Escola é lugar de livros, não de armas!

As perspectivas são desastrosas. Externei aos meus espantados e fiéis botões sobre o que poderá acontecer no futuro, em termos de violência doméstica ou de massacres à moda dos Estados Unidos. Um deles, não deixou dúvidas: mais armas, mais violência!

Leia mais aqui.

Militarização no governo Bolsonaro?

Esse estranho binômio, a força da influência familiar
associada à pressão dos militares, por mais iluminados
que ambos se revelem, corre o perigo de
produzir filhos abortivos em série.

Talvez seja cedo para afirmar se o governo Bolsonaro deva ser considerado um Estado militarizado ou corra o risco de sê-lo. Entre os ministros e secretários provenientes das forças armadas de um lado, e a família Bolsonaro, de outro, quem comanda a nave?

Duas sombras estranhas rondam os corredores e salas do Palácio do Planalto. Primeiro, verifica-se a crescente presença militar nos altos escalões do atual governo, o que é no mínimo preocupante. Claro que um alto representante do exército, aeronáutica ou marinha pode ter qualidades para exercer função no poder executivo. Mas é essa, em linha de princípio, a sua missão primordial?

O Brasil e o Cone Sul, entre outros tantos países ao redor do mundo, já passaram por governos de exceção em que as forças armadas tomaram o poder e o comando. Via de regra, tais experiências têm sido traumáticas, para não dizer trágicas. Conhecemos a trajetória, não raro truculenta e sangrenta, de numerosas ditaduras, oligarquias e totalitarismos. A tendência, nesses casos, é eliminar a intermediação da sociedade civil organizada, com suas associações, movimentos, igrejas, entidades, instituições e mobilizações. O mesmo ocorre com os canais, instrumentos e mecanismos de participação popular.

Nos casos mais duros, instala-se a censura aberta ou disfarçada nos meios de comunicação, na música e nas expressões artísticas em geral, chegando ao extremo de impor o recesso do Congresso Nacional, como de viu no famigerado Ato Institucional n° 5 (AI-5), de dezembro de 1968.

A outra sombra que tende a se infiltrar nas brechas do poder executivo refere-se à interferência da família Bolsonaro em momentos decisivos, como se verificou no “caso Bebianno”. O Secretário Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, foi exonerado pelo presidente após atrito com Carlos Bolsonaro.

Aqui entra em cena um conceito que vem dos tempos da monarquia, implantado no Brasil pelos colonizadores portugueses, encontrando aqui terreno fértil para germinar. Referimo-nos ao patrimonialismo.

De acordo com a definição dos dicionários, “sua característica fundamental é a de um Estado que não possui distinções entre os limites do público e do privado. Foi comum em praticamente todos os absolutismos”.

Sérgio Buarque de Holanda (em Raízes do Brasil), Victor Nunes Leal (em Coronelismo: enxada e voto) e Raymundo Faoro (em Os donos do poder) – entre outras – foram alguns dos estudiosos brasileiros que se debruçaram sobre o tema. Retomando tal conceito da tradição monárquica portuguesa, depois transplantado para o Império colonial, historiadores e sociólogos convergem em afirmar que o patrimonialismo constitui uma chave de leitura não só para ler o passado, mas também os estigmas e impasses presentes na trajetória política brasileira. Ou seja, governa-se a rex publica como se fosse patrimônio familiar.

As necessidades básicas da nação acabam por se confundirem com os interesses privados do senhor/coronel/doutor, a tal ponto que nem o governante, e tanto menos a população, sabem onde terminam umas e começam os outros. Os rumos e o destino da nação coincidem muitas vezes com o horizonte do corporativismo que reúne os proprietários privados. Disso resulta que quando os moradores da Casa Grande decidem fazer uma obra em benefício da Senzala – para usar o título do livro de outro estudioso, Gilberto Freire – tal obra, seja ela um hospital, uma escola, uma ponte, um açude, ou qualquer outra coisa, venha batizada com o nome de Fulano ou Sicrano de Tal.

Embora construída com os recursos do orçamento público, a obra ganha o caráter de ação privada. O patrimonialismo é o berço dos currais eleitoreiros e dos apadrinhamentos, além de fonte de votos.

Se, ao patrimonialismo privado, acrescentamos a militarização do poder, forja-se um casamento de consequências imprevistas e imprevisíveis. Esse estranho binômio, a força da influência familiar associada à pressão dos militares, por mais iluminados que ambos se revelem, corre o perigo de produzir filhos abortivos em série. Restar torcer para que tais pressentimentos não passem de pesadelo e esperar pelo melhor.


“Não é democrática a sociedade que não tolera os pensamentos divergentes e que combate as diferentes formas de organização social que buscam praticar e viver as ideias coletivas. Democrática é a sociedade que permite aos homens e mulheres realizarem-se em sua dignidade, preservando seu modo de ser, pensar e agir, individual e coletivamente”. (Nei Alberto Pies)
Leia mais aqui.

Mito da caverna na atualidade?

Para atingir o conhecimento, advindo do senso crítico,
se faz necessário a libertação das correntes que aprisionam
e limitam o pensamento ao senso comum e que discutem
apenas as ideias projetadas por outros.

Uma metáfora apresentada por Platão, no livro VI da obra “A República”, é conhecida como como Mito da Caverna. Trata-se de uma história para explicar a condição de ignorância em que vivem os seres humanos, bem como do que seria necessário para atingir a verdade, o mundo real, baseado na razão, além dos sentidos e das aparências.

Nessa história, Platão divide a realidade em dois mundos. O primeiro é o mundo sensível, aquele experimentado a partir dos sentidos, onde reside a percepção falsa, a aparência ou as sombras da realidade. O segundo é mundo inteligível, que pode ser atingido apenas através das ideias ou dos exercícios da razão. Essa construção da Idade Antiga pode ser exemplificada por meio da frase proferida por Lula ex-presidente do Brasil, que antes de ser apresentar para ser preso afirmou: “Não sou mais um ser humano, sou uma ideia”.

A parábola platônica é um dos textos mais debatidos e conhecidos pela humanidade e se apresenta como uma ferramenta conceitual para explicar e diferenciar o senso comum de senso crítico.

Seguindo os ensinamentos de Sócrates, Platão indica que para atingir o mundo verdadeiro, o indivíduo deve exercitar o pensamento crítico e racional, transcendendo os limites dos sentidos básicos. De acordo com essa história, as pessoas que vivem em uma grande caverna, estão presas por correntes, que as forçam a estar fixadas com a olhar para as paredes em que estão projetadas as sombras.

Durante suas vidas, esporadicamente, algumas pessoas buscam se libertar das correntes, que aprisionam, restringem o conhecimento e o comportamento, ao mundo projetado por outros. Esses prisioneiros que se libertam, atingindo o conhecimento perfeito, compartilham as informações e experiências que existem para além do mundo projetado por outros, correm o risco de serem etiquetados como perigosos e criminosos.

Para evitar que as ideias perfeitas se disseminem, as pessoas que se libertam e compartilham a verdade devem ser condenadas, a exemplo do que aconteceu com Sócrates, que foi morto, para evitar a disseminação de ideias revolucionárias.

Deste modo, muitas pessoas tendem a ficar presas na caverna, com ideias pré-estabelecidas, sem buscar um sentido racional, evitando os perigos advindos da reflexão, preferindo o conforto e a segurança das informações que lhe foram oferecidas (comercializadas), por outras pessoas.

Ao aplicarmos a ferramenta conceitual disponibilizada pelo mito da caverna, entenderemos, por exemplo, que o judiciário é uma sombra da justiça. Além disso, perceberemos que as pessoas que limitam o comportamento, o pensamento e as análises sob as diretrizes institucionais do judiciário estão restritas e acorrentadas ao conhecimento imperfeito.

Essa ferramenta conceitual é útil e atual, representa as pessoas que preferem permanecer alheias ao pensamento crítico e não se comprometem com a construção da Justiça, aceitando as ideias e os conceitos que são impostos por um grupo que domina as instituições do judiciário.

Para atingir o conhecimento, advindo do senso crítico, se faz necessário a libertação das correntes que aprisionam e limitam o pensamento ao senso comum e que discutem apenas as ideias projetadas por outros.

Para atingir o conhecimento, advindo do senso crítico, se faz necessário a libertação das correntes que aprisionam e limitam o pensamento ao senso comum e que discutem apenas as ideias projetadas por outros.

Dia Internacional da Mulher

Foi só no século XIX que as coisas começaram a mudar.
Já no século XX as mulheres ganharam as ruas e
reivindicaram melhorias salariais e
redução nas jornadas de trabalho.

Por muito tempo, a mulher ficou restringida a uma imagem limitada e distorcida de si mesma. Ao longo dos séculos, identificar uma imagem positiva das mulheres na história da humanidade se tornou tarefa quase impossível.

Elas foram protagonistas de uma história marcada por dores, sofrimento, lutas e violência, devido, exatamente, à subordinação que através dos séculos, lhes foi imposta pelo machismo dominante.

Ao longo dos tempos o patriarcado determinou que as mulheres fossem inferiores e, portanto, submissas aos homens. A ideologia patriarcal colocou em oposição homens e mulheres, fundamentando-se na divisão sexual das tarefas e no controle da sexualidade feminina.

As mulheres não encontraram aliados no Renascimento. O Iluminismo, representou para as mulheres, a tão sonhada oportunidade de emancipação.

Às vésperas da Rev. Francesa, escritores e filósofos iluministas, exploraram a emancipação feminina nos seus programas políticos, reivindicando o direito à cidadania e valorização da mulher no mundo masculino. Ficou só no discurso.

Foi só no século XIX que as coisas começaram a mudar. Já no século XX as mulheres ganharam as ruas e reivindicaram melhorias salariais e redução nas jornadas de trabalho.

Em 1911, houve em Nova Iorque um incêndio na Triangle Shirtwaist Company, que vitimou criminosamente 146 trabalhadoras. A tragédia teria inspirado a criação do “Dia Internacional da mulher”.

No Brasil, a situação da mulher não foi diferente. Os desejos e sonhos femininos eram ignorados, as mulheres não eram ouvidas, ou melhor, sequer se manifestavam, pois eram educadas para o silêncio, a resignação e a obediência. Belas, recatadas e do lar.

Isto marcou a realidade do mundo feminino brasileiro durante séculos. Mas elas buscaram seu espaço até chegar a eleger uma mulher para a Presidência da República, vítima de um golpe torpe.

Agora, entretanto, na onda conservadora que atingiu a política brasileira, representada por um Presidente que transita entre o anedotário e a psicopatia, o patriarcalismo ressurge, com traços inequívocos de misoginia.

Entre o silêncio do passado e a nova polifonia, entre as esposas obedientes, a legião de executivas e as donas de casa, existe um histórico de rubores, proibições, censuras, violências, como o caso da vereadora Marielle – e uma longa batalha.

Foi um duro, espinhoso e árduo caminho percorrido pelas mulheres para consolidar sua afirmação. Não será um governo caracterizado pela intolerância e a misoginia, que as remeterá de volta a um passado de submissão.

Salve o Dia Internacional da Mulher! Salve as lutas das mulheres brasileiras!

Desafio atual no Brasil: compreender o Feminicídio, morte de mulheres pelo simples motivo de serem mulheres — em outras palavras, que tenha sido motivada por sua “condição” de mulher.

Os bons, os justos e os filhos de Deus

Só os verdadeiramente livres sabem amar,
perdoar e não julgar os outros.

A homilia do sacerdote, no Sétimo Domingo do tempo Comum (24-02-19), despertou-me para reflexão sobre como nos percebemos humanos. Neste domingo, a liturgia que sucede as bem-aventuranças, trata do modo como Jesus viveu e pregou um ideário de ser humano: capaz de amar, perdoar e de se abster de julgar os outros.

“O verdadeiro amor é doação”. Tudo o que contradiz a doação não é amor; pode ser interesse ou egoísmo.  Amar é ser capaz de desprender-se um pouco de si para compartilhar com os outros o que temos de melhor e de mais sagrado dentro de nós. Amar é também investir, apostar e acreditar que todas as pessoas podem ser melhores do que já são, cada uma a seu tempo e a seu modo.

O verdadeiro perdão significa sermos capazes de re-considerar tudo aquilo que nos atingiu negativamente; que advém dos outros e também de nós mesmos. Como perdoamos aos outros, também temos de nos perdoar. Só conseguimos perdoar a pessoa: não é possível perdoar o mal que ela fez. Perdoar as maldades dos outros seria como concordar com elas. O perdão é necessário muito mais para quem sofreu o mal do que para quem o praticou. Perdoar é uma necessidade para manter o espírito da gente em ordem e em paz.

Abster-se de julgar os outros é uma aprendizagem necessária para reconhecermos a nossa própria limitação. Quem sempre julga os outros não é capaz de avaliar as suas próprias fragilidades e fraquezas. Abster-se de julgar os outros não significa que não devamos empenhar esforços para corrigir alguém, amorosamente. O condenável sempre é o julgamento inquisitório.

A soberba não pode ser virtude de quem julga. Como ensinou um certo juiz de direito: “o meu julgamento de alguém tem de ser justo. Quem está sendo julgado, sabe, como eu, o que é justo ou injusto, certo ou errado. Se eu usar o poder de julgador para humilhar ou enquadrar moralmente o acusado, perderei minha autoridade e o meu reconhecimento. Se o critério para julgar for a justiça (não a vingança, a raiva ou o desejo de punição) poderei andar de cabeça erguida e de forma livre na rua, pois embora contrariado, o julgado saberá reconhecer que sua condenação foi justa e merecida”.

Amar, perdoar e não julgar podem ser conjugados e vivenciados cotidianamente e permitem vivermos a liberdade. Liberdade, esse sonho humano que, embora necessidade íntima e pessoal, só concretizamos na relação com os outros. Só os verdadeiramente livres sabem amar, perdoar e não julgar os outros.

A bondade e a justiça são medidas que muitas pessoas usam apenas em relações de reciprocidade. Muitos são bons e justos somente para com aqueles dos quais imaginavam receber de volta o que lhes oferecem. De forma interesseira e egoísta, julgam-se bons ou justos a partir de suas obras. Mas os filhos de Deus aprendem que a gratuidade, a misericórdia e o perdão nos conectam ao espírito e aos propósitos do Criador. Somente aqueles que fizerem este grande esforço de superação das tentações humanas colaboram para fundir o humano com o divino. Nada fácil, mas Deus convida!

Autor: Nei Alberto Pies

Matam os professores, aos poucos!

A maldita polarização política nos escolheu como doutrinadores, fanáticos, pedófilos, frustrados, massa de manobra e outros pejorativos.

Sou professor da rede pública estadual há 18 anos. A cada governo, implementam um novo modo de ver a educação. Nenhum tem sequência: conceitos, seminários, preparação para o trabalho.

Todo mundo quer palpitar na nossa profissão de uma maneira absurda como não vejo em mais nenhuma. Ninguém diz para advogados, engenheiros, médicos, como eles devem trabalhar, o que devem ler ou como conduzir suas rotinas.

A cada ano, mais arrocho, perda de poder aquisitivo, salários atrasados, parcelados, mais regulamentações, falta de profissionais melhor qualificados pois não há concurso.

A pressão psicológica sobre quem precisa de tranquilidade para formar os ditos cidadãos do futuro do país não chega às escolas: nas redes sociais, na mídia, tudo é vomitado contra nós.

“Educar sempre foi e será uma grande arte, um grande desafio, que sofrem influências de cada momento histórico. Neste momento histórico, o conceito de rede também pode ser aplicado aos desafios da educação, cada vez mais complexos, o que não permite quaisquer simplificação”. (Nei Alberto Pies)

Deixem a gente em paz, amparem que a gente precisa muito.

A maldita polarização política nos escolheu como doutrinadores, fanáticos, pedófilos, frustrados, massa de manobra e outros pejorativos.

E hoje chega mais uma paulada no RS: o fim da licença-prêmio, que eram três meses de afastamento remunerado a cada cinco anos, caso você não tenha faltas ao trabalho. E dava pra vender e conseguir uns trocos. Agora querem que seja licença-capacitação. “Mas só no serviço público tem isso!”, alguém dirá. Pois bem, no dito serviço público não tem FGTS, não tem dissídio.

Ah, nem a inflação, há tempos, é dada. Sabe as promoções? Também não.

“Procura outra coisa pra fazer!”, exclamam. Claro, diante das baixas condições de infraestrutura, penúria salarial e da enorme responsabilidade em educar quem chega com fome/frio/agredido/a pé/etc, quem você acha que vai querer ser professor?

Respondo: pobre que possa pagar a faculdade mais barata, a licenciatura com 50% de desconto, ofertada como fruto de fim de feira. Só para ter ideia, tem áreas que nem curso abre mais por falta de interessados. Geografia, por exemplo.

Meu, tem cada anta sendo contratada de qualquer jeito pra dar aula que eu tenho até vergonha de chamar aquilo de “professores”.

Nota: contratado e mesmo concursado que dá sua aula, com qualidade, não vai se ofender com o parágrafo anterior. O resto é carapuça.

Par quem defende “melhor ter algum emprego que emprego nenhum”, saibam que a teoria de o governo ter que pagar melhor por risco de ficar sem profissionais nunca vai acontecer, há sempre alguém desesperado que vai aceitar trabalhar por trocados. A educação de verdade desaparecerá.

Mas fique tranquilo, pais poderão, em breve, educar seus filhos em casa! E pais com qual formação/poder aquisitivo você acha que poderão fazê-lo?

Maioria dos pais da rede pública, sim, maioria, não sabe nem a turma do filho. No Ensino Médio não aparecem para reuniões ou pegar boletins. Mas já vi muitos deles palpitando sobre economia, política, blá, blá, blá, nas redes sociais. Santa Paciência, olhai por nós.

Maldita hora que partidarizaram Paulo Freire, a ponto das pessoas não quererem/conseguirem entender como ele denunciava que o oprimido tem sido educado como boi no pasto, sem questionar diante do opressor.


“Educar já foi instrumento de dominação e legitimação de violências – e isto está na base do muito do que somos. Já o conhecimento usado como ferramenta de reflexão, só pode ser transformador”. (José Ernani de Almeida)

Pausa pra explicar: opressor pode ser um governo com projeto de poder, um grupo empresarial ou de fanáticos religiosos, não necessariamente o rico, embora dinheiro, poder e sexo mandem nessa bagaça toda.

Gente, tá difícil. E se a gente reclamar, não pode fazer greve: é egoísmo nosso.

Pátria Educadora ou Brasil acima de tudo.


Autor: Douglas Pereto, professor.
Douglas Pereto, junto com Laércio Fernandes dos Santos, Clodoaldo Cirello Casagrande, Roberta Salinet e Janaína Britto de Castro, do Curso de Letras, e professor Eládio Vilmar Weschenfelder ajudaram a criar o Bando de Letras da UPF (Universidade de Passo Fundo).


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