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Em defesa do amor

Defendamos o amor. Eu e você sabemos, o amor jamais é culpado.
Por amor se morre, mas jamais se mata.

Não sei de ninguém que tome suco de sal quando sedento. Tampouco conheço quem regue flores com água fervente. Contudo, muitos, por aí, acusam o amor de assassino, mandante de barbaridades. Não se trata daquela metáfora antiga para seduzirmos: teu amor me mata. Acusam o amor de pistoleiro e mandante do crime. Acusam o amor de assassino. Imputação absurda como a defesa de guerras justas.

A cada hora deste ano quinhentas mulheres sofreram algum tipo de violência. Muitas delas feridas de morte por maridos ou companheiros. A maioria após romperem um relacionamento. Ouvi da boca de alguns desses agressores ou assassinos a desculpa de que estavam motivados por uma emoção muito forte por causa do amor. Resumindo, a culpa era do amor, esse ser invisível. Segundo esses amorosos maridos ou parceiros, o amor apossara-se deles como um espírito obsessor, movera braços e punhos, pegara as armas e, em alguns casos, o amor é que havia estrangulado aquela mulher. Houve até um caso em que o amor jogou uma garota pela janela de um apartamento.

 Os agressores e assassinos pareciam falar com a mesma propriedade como Jesus: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos que ama”; como São Francisco: “Por amor deixei todos os bens e optei pela irmã pobreza.” Justificam-se como Tereza de Calcutá: “Por amor entreguei minha vida aos pobres e doentes.” Quem lhes deu autoridade para a profanação do amor?

Defendamos o amor. Eu e você sabemos, o amor jamais é culpado. Por amor se morre, mas jamais se mata.

Seja a defesa do amor a solidariedade, a caridade, a entrega e o perdão. Defendamos o amor pela prática do carinho, da ajuda, do sacrifício e da tolerância. Defendamos o amor pela alegria gratuita, pelo abraço dos amigos.

Defendamos o amor como o fazem as mães, como filho que prepara o futuro, como os pacificadores em qualquer canto, como Zilda Arns, como Dom Hélder Câmara. Falemos do amor como quem recolhe animais abandonados das ruas, como os bombeiros em Brumadinho, como os missionários em lugares remotos, como os médicos sem fronteiras, como os defensores dos direitos humanos, como os que morreram pela ecologia.

Principalmente, defendamos o amor em nossa família: trabalhando dignamente para ter uma casa bonita, grande e segura; sacrificando-nos para que os filhos tenham uma vida boa, façam faculdade, saibam três ou mais línguas.

Defendamos o amor construindo um muro real e simbólico ao redor da casa, para que a violência não entre. Mas tenhamos cuidado! Será que tantas preocupações com o mundo não nos farão esquecer o amor em sua pátria mais simples? De que adianta proteger-nos do mundo exterior quando há uma janela sem tranca no coração daqueles que nos rodeiam?

Há momentos em que o amor pode nos salvar. Sua defesa é imprescindível e deve ser ostensiva, para que o encontremos à mão quando preciso. Mas o amor verdadeiro se defende apenas pela prática, com exemplos efetivos a começarem no lar, cuidando as janelas do coração dos filhos, por exemplo. Jamais poderemos estar entre os sedentos tomando sal; ou entre os jardineiros com água escaldante em seu regador.

Estou aqui pensando se no lugar da excludente de culpabilidade “por violenta emoção”, que o ex-juizinho da República de Curitiba colocou no projeto milagroso, não seria melhor colocar um crime, com pena perpétua, para aqueles que falam que o amor move braços para agredir, punhos para esmurrar, que o amor pega armas para disparar, que o amor é um ser invisível e incontrolável no desejo de sangue.

Estão tomando o santo nome do amor em vão. Precisamos de providências urgentes. Especialmente para salvar meninas e mulheres.


“O amor extravagante sofre as intempéries, desgasta-se com a poluição, fica ao risco das pragas, e ao expores ao mormaço as raízes sem o esmero da sutileza causarás, embora indesejado, o seu ressecamento”. 

Os 40 anos da morte de Jango

Jango, na verdade, construiu uma intimidade com o povo, de estar ao seu lado, não querendo se confundir com o povo, mas como um companheiro maior, o irmão mais velho que ali estava.

Foi no dia 6 de dezembro de 1976, aos 57 anos, que faleceu João Goulart, o único presidente da República a morrer no exílio, impedido pela força e pela intolerância, de rever seu país. Foi seu esquife lacrado que veio para ser sepultado em São Borja, às pressas, tamanho era o temor e o medo que Jango, embora morto, incutia no regime militar.

Afinal, ele havia tentado fazer reformas básicas para que o Brasil se tornasse mais justo, era popular e bom de voto. Amir Labik, traça o perfil do ex-presidente: “Há uma definição de seu posicionamento ideológico que o classificou como um latifundiário com saudável preocupação social”.

Estes foram os seus crimes. Jango como Getúlio eram homens da tradição sul-rio-grandense mais profunda, da região missioneira tão sofrida, em que 300 mil índios foram assassinados ou vendidos no Nordeste como escravos, o que criou naquela população missioneira algumas características que se difundiram no sul-rio-grandense.

Características que tinham Jango e Getúlio: a capacidade de convívio, ainda que assimétrico, com as classes subordinadas, de tomar o chimarrão juntos, de viver conversando, de amanhecer e passar a manhã juntos, conversando. Jango tinha uma capacidade extraordinária de falar com o operário, com o lavrador.

Era um homem que gostava de ouvir. Hugo de Faria, no livro “João Goulart, uma biografia”, de Jorge Ferreira, afirma: “Foi um dos homens que eu vi ter mais paciência no mundo. Eu nunca vi um homem que tivesse tamanha capacidade e paciência para escutar e conversar dez horas sem ficar irritado”.

Jango, na verdade, construiu uma intimidade com o povo, de estar ao seu lado, não querendo se confundir com o povo, mas como um companheiro maior, o irmão mais velho que ali estava. Jango se fez sucessor de Vargas por méritos próprios.

Era um jovem estancieiro muito rico; engordava 20 mil cabeças de gado por ano. Suas terras se especializaram na “invernada”. Entre a compra do gado e o despacho por trem, tudo era muito rápido, na mesma velocidade dos lucros.

Podia continuar sua vida venturosa e bem-sucedida, mas o convívio com Getúlio o foi chamando para outras tarefas, uma tarefa que, segundo Darcy Ribeiro, “era o Brasil, era o trabalhismo, era os trabalhadores”. Jango agarrou a bandeira do trabalhismo e a levantou com dignidade, com honestidade a vida inteira.

Combinou com Getúlio dobrar o salário mínimo, que desde o Governo Dutra não tinha se alterado. Isso provocou raiva muito grande. Alguns coronéis se irritaram, como se ofendesse a eles o fato de um operário ganhar mais.

Jango nessa época ganhou uma grande bandeira de luta, mas ganhou, igualmente, uma odiosidade feroz, terrível, das velhas classes dominantes. Como Getúlio, Jango teve sua carreira política marcada por essas duas dimensões: o amor do povo e o ódio das classes dirigentes. Também coube a Jango estruturar o movimento operário, o movimento trabalhista brasileiro, uma vez que a liderança do movimento estava sendo disputado por comunistas, anarquistas e por Getúlio.

Hoje, quando o governo ameaça as conquistas históricas dos trabalhadores, Jango deve ser lembrado e servir de inspiração, como um dos maiores defensores dos direitos trabalhistas ao lado de Vargas.

Ao lembrar Jango, lembramos também do senso de democracia e de criatividade cultural. Foi no seu período que surge o movimento da bossa-nova, o movimento do cinema-novo, o movimento das canções de protesto, o movimento do teatro de opinião, que empolgavam toda a juventude.

 Em 1964 Jango achou que era possível enfrentar o latifúndio e a direita latifundiária. Suas Reformas de Base foram derrubadas pela aliança da direita com os norte-americanos obcecados com a Guerra Fria.

A mídia da época preparou o caminho para a sua queda desqualificando-o de toda a forma, de bêbado à comunista. O Globo, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo trabalharam arduamente para derrubá-lo do poder. Agora, em 2016, vimos que continuam os mesmos.

Jango foi um reformista com grande sensibilidade social. Um pacifista – em duas ocasiões evitou a guerra civil – e nas duas foi incompreendido. Foi, como disse Darcy Ribeiro, “derrubado por seus méritos e não por seus erros”.

Sua morte é cercada de mistério. Para o historiador Juremir Machado, no livro “ Jango, a vida e a morte no exílio” a hipótese de ele ter sido vítima da Operação Condor não procede. Jango morreu em função de um ataque cardíaco fulminante.

Fronteiras militarizadas

A fome lhes persegue os calcanhares, os braços inativos
pedem trabalho, o olhar das crianças torna-se um
espelho vivo do grito pela justiça e pela paz.
Mas a teimosia do lucro e do poder
bate-se com a teimosia pela vida.

No momento em que escrevo estas linhas, duas fronteiras estão fechadas pelas forças militares: em Tijuana, o limite entre o México e os Estados Unidos; em Cúcuta, o limite entre a Colômbia e a Venezuela. Em maior ou menor grau de militarização, há outros confins entre países em idêntica situação. Essas duas, porém, chamam a atenção tanto pelas diferenças que apresentam quanto pelas semelhanças implícitas ou explícitas. Vozes silenciadas e silêncios gritantes se batem contra muros de indiferença e desinteresse.

Em ambos os casos – Tijuana e Cúcuta – o muro visível ou invisível separa multidões famintas de um sonho e de uma oportunidade. Nas duas situações, escancaram-se as portas às assimetrias estridentes e disparidades socioeconômicas que dividem e separam povos e nações.

Em ambas as fronteiras, surge nítida a ponta do iceberg que revela o acúmulo simultâneo da renda e da riqueza, de um lado, e da exclusão social, de outro. Os motivos que levaram ao fechamento e à presença do exército não são os mesmos, claro, mas suas consequências convergem para o sofrimento anônimo de milhões de seres humanos. Incongruências, contradições e conflitos de um planeta ao mesmo tempo tão rico e tão pobre.

No pano de fundo desse cenário de precariedade, três tipos de personagens tecem fios que se cruzam e recruzam: “os donos do poder” (Raymundo Faoro), os gigantescos conglomerados empresariais e os migrantes/refugiados.

Comecemos com os gigantescos conglomerados transnacionais. Sejam seus interesses ligados à extração e comercialização do petróleo e derivados, ao controle militar da região amazônica, à extração de minérios ocultos no subsolo, à possibilidade de criação de gado, à fatia rendosa das telecomunicações ou à produção e venda de armas – a verdade é que a lei férrea do Sr. Mercado Total, com sua “mão invisível” (Adam Smith), manda e desmanda, através de seus agentes secretos ou em plena luz do dia.

Depois, entre “os donos do poder” e tais companhias que atuam na rede capilar da economia globalizada, não são poucos os interesses que trilham as mesmas vias e seguem os mesmos horizontes. Num quadro onde o corporativismo histórico e estrutural reveste-se com as roupas de um nacionalismo populista de direita, os interesses se mesclam e se confundem.

Os limites entre as necessidades básicas da população e os privilégios e benesses privados tornam-se fluídos. Tudo se vaporiza e se volatiza. Uma legislação ambígua e frequentemente descumprida acaba legitimando falcatruas e “maracutaias”. Comanda a tirania bruta do ditador, junto com seus dois leões de chácara: o poder judiciário e as forças armadas.

Os migrantes/refugiados, enfim, batem com a cara no muro. Uma vez mais, a porta encontra-se cerrada, hermeticamente cerrada. A dura e longa travessia foi improvisamente interrompida na reta de chegada.

Sejam os venezuelanos que tentam buscar trabalho e pão nos países vizinhos, como a Colômbia e o Brasil, sejam os latino-americanos que correm atrás da esperança de um futuro mais promissor na América do Norte – vêm seus sonhos esfacelados contra o arame farpado e os soldados armados. A fome lhes persegue os calcanhares, os braços inativos pedem trabalho, o olhar das crianças torna-se um espelho vivo do grito pela justiça e pela paz. Mas a teimosia do lucro e do poder bate-se com a teimosia pela vida.

Em meio a esse campo minado de choques entre urgências e interesses, tenta atuar a chamada “ajuda humanitária” – a qual, se é verdade que tem aparência e gestos de uma ação realmente humanitária, também é verdade que, consciente ou inconscientemente, de um ponto de vista político e econômico, esconde uma série de ambiguidades. Perguntas: quem acumula maior parte das responsabilidades (ou irresponsabilidades)? Onde vai parar tudo isso, seja num caso como no outro?

Em termais mais gerais, que sociedade tais situações revelam e que sociedade necessitamos construir? Como encontrar linhas de ação comuns e metas viáveis e possíveis e como somar as forças de esquerda? Perguntas que não têm resposta imediata, mas impõem priorizar desafios e perspectivas.

Igreja Católica como inimiga

Nós, que nunca fomos bafejados pelos
valores do Iluminismo e da Revolução Francesa,
estamos vivendo um momento de
assustador retrocesso político.

O governo Bolsonaro que está mais para circo ou manicômio, acaba de eleger mais um inimigo: a igreja católica. E isto, em função do Sínodo da Amazônia, encontro marcado para outubro, no Vaticano.

Será um encontro em que estarão em pauta temas sobre como melhorar a ação católica na região e a defesa da floresta e dos povos dali, como indígenas, ribeirinhos e quilombolas, gente odiada por Bolsonaro, defensor dos ricos: fazendeiros, banqueiros, mineradoras, etc.

O Papa Francisco, para a turma de Bolsonaro, é um comunista de batina que sempre se interessou pela Amazônia.

Na encíclila Laudato Sí, de 2015, dizia que a Amazônia e a Bacia do Rio Congo são “pulmões” do mundo e que “a importância desses lugares para o conjunto do planeta e para o futuro da humanidade não se pode ignorar”.

Sobre o selo de “comunista”, ele comentou: “A pobreza está no centro da pregação de Jesus: ‘Bem-aventurados os pobres’ é a primeira das Bem-aventuranças!” Mais: “sempre tivemos na história essa fraqueza de tentar deixar de lado essa pregação sobre a pobreza, acreditando que se trata de algo social, político. Não! É evangelho puro, é Evangelho puro”.

Para o ministro do Gabinete de Segurança Institucional, general Augusto Heleno, o sínodo é uma afronta à soberania do Brasil e ao governo Bolsonaro.

Não há registro de que o general de pijama tenha visto ameaça à soberania quando o Brasil abriu as portas da Amazônia aos Estados Unidos pela primeira vez na vida, em novembro de 2017, durante uma manobra militar conjunta do Brasil com tropas do Peru e Colômbia. A convite do Brasil, Tio Sam acompanhou tudo. Igualmente, o general nada disse, quando seu chefe bateu continência para o pavilhão americano. Ulala!!

Sabe-se que os povos amazônicos originários nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora. Obras, fazendeiros, mineradoras. Há uma gigantesca pressão por grandes interesses econômicos ávidos por petróleo, gás, madeira, ouro e monocultivos agroindustriais.

Além disso, há um governo que sempre demonstrou ver nos ambientalistas verdadeiros inimigos. Um exemplo é o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, que no programa Roda Viva, negou a importância de Chico Mendes, o maior líder ambientalista da história brasileira.

O sanatório geral, comandado pelo capitão, agora resolveu tratar a igreja católica como inimiga. Mais. A Abin passou a monitorar padres e bispos, no velho estilo da ditadura que Bolsonaro e Heleno veneram.

Nós, que nunca fomos bafejados pelos valores do Iluminismo e da Revolução Francesa, estamos vivendo um momento de assustador retrocesso político. Do caldo do autoritarismo, brota a demência.

Autor: José Ernani de Almeida

A volta da lei dos sexagenários

As pessoas terão que trabalhar desde os 16 anos
para conseguir receber a aposentadoria.
E quem começar a trabalhar com 20 anos ?
Irá se aposentar depois dos 80.

Em 1885, no final da Monarquia, foi aprovada a Lei dos Sexagenários, ou Saraiva-Cotegipe, que estabelecia a liberdade aos escravos “ de 60 anos de idade, ficando, porém, obrigados a título de indenização pela alforria, a prestar serviços a seus ex-senhores pelo espaço de três anos”.

Na prática, era simples: cada idoso teria de envelhecer um pouco mais sob o jugo de seu apegado proprietário. Na verdade, os negros maiores de 65 anos foram libertados já que não podiam mais produzir e eram considerados como fardos. Os que ainda estavam vivos, é bom que se diga.

 A acumulação primitiva do capital no Brasil ostentava um superávit de cadáveres jamais visto em outro lugar. A lei ficou conhecida como “ a gargalhada nacional”, uma vez que a expectativa de vida dos negros era de 30 anos.

Não faltariam imitadores da lei dos sexanegários no futuro. É o que estamos vendo agora com a proposta de reforma da aposentadoria, que representa um gigantesco retrocesso social.

É impensável que um trabalhador fique exercendo suas atividades até os 65 anos e que precise ter 49 anos de contribuição previdenciária para que possa ter a sua aposentadoria integral. A média de vida em alguns estados é de 65 anos ou menos.

As pessoas terão que trabalhar desde os 16 anos para conseguir receber a aposentadoria. E quem começar a trabalhar com 20 anos ? Irá se aposentar depois dos 80. Estamos diante de outra “gargalhada nacional”!!

Previdência Social, é preciso deixar claro, não é gasto, mas sim investimento. Mais: Auditores da Receita Federal revelam que a previdência é superavitária, ao contrário do que diz o governo.

Ao longo de nossa história, governos desviaram e desviam a finalidade de seus recursos aplicando o dinheiro do contribuinte em outras atividades. Assim foi, por exemplo, em Itaipú, Ponto Rio-Niterói e Brasília. Isto gerou descontroles. Mesmo assim, a Previdência não é deficitária.

É evidente que os trabalhadores precisam mudar a sua cultura quanto as prioridades do seu futuro. É preciso desenvolver o hábito de poupar e se preocupar com a sua velhice.

Entretanto, esta responsabilidade individual deve ser acompanhada pelo empenho do Estado em resolver o grande problema que é o da desigualdade social. Enquanto esta crucial questão não for resolvida, dificilmente haverá uma sociedade capaz de comandar seu próprio futuro previdenciário. Acima de tudo, é preciso promover condições para a formação de cidadãos com dignidade plena.

O governo acena com o regime de aposentadoria por capitalização. Em síntese: cada um por si. Empregadores e Estado ficam livres de contribuir de maneira universal para o bem-estar da população na velhice.

Este modelo foi aplicado no Chile, onde o número de suicídios de idosos aumentou de forma exponencial. Ulala!

O ministro que propõem tal modelo, Paulo Guedes, é um ex-banqueiro. Então fica claro. A velhice será vendida aos bancos. Isto é, sua reforma é muito boa para quem ganha com o dinheiro dos outros. Mais uma “gargalhada nacional”.

Sabe-se que o principal inimigo da dignidade humana adotou muitas vezes o nome de progresso.

Autor: José Ernani de Almeida – Professor.

Quem não se trumbica, se comunica

comunicacao

Terá o choro da criança mais efetividade comunicativa
que nossos esforços de construção de coesão para
resistir aos retrocessos e aberrações?


Passou o tempo em que a conversa de portão com os vicinais bastava à necessidade de informação. Já não se está mais em momento onde acatar passivamente as ponderações do repórter da rádio local é a única opção de saber sobre fatos e acontecimentos. Âncoras de telejornais também já perderam a exclusividade do palco e das lentes das câmeras. Por sua vez, esse novo cenário demanda um conjunto de conhecimentos (alguns bastante simples, outros ainda pouco investigados) sobre comunicação. Não é mais suficiente comunicar: está-se diante do imperativo de saber como comunicar. A velha máxima do “quem não se comunica, se trumbica”, parece estar sendo precedida por “quem não se trumbica, se comunica”.

Como estamos nos comunicando? Tal problematização não põe em questão, primariamente, os meios e instrumentos de comunicação. Que, diga-se de passagem, nunca foram tão diversos e de acessibilidade objetiva, ainda que padronizada. Em primeiro lugar, esta provocação quer despertar para o quão preparados estamos para comunicar.

O choro de uma criança é ato de comunicação. Ato fundamentado, objetivo, baseado em fatos. Ato eficaz. Com uma única opção de forma de comunicação, com um palco social restrito, sem qualquer conhecimento de teorias de comunicação e de capacidade de manuseio de tecnologias, ainda implume, a criança é capaz de, através do recurso do choro, comunicar e reivindicar condições para sua sobrevivência. Por sua vez, o/a cidadão/ã contemporâneo, crítico/a, civilizado/a e alfabetizado/a, esbraveja em diferentes palcos, hora até em caixa alta e, mesmo assim, passa desapercebido/a, como apenas mais uma “aparição” qualquer nas “linhas da vida”.

Como recuperar nossa efetividade comunicativa? Como sermos ouvidos/as em meio a uma sociedade de “diplomados/as a falar”? Terão as redes sociais e as formas contemporâneas de comunicação realmente democratizado o ato de comunicar?

Democracia é, sobretudo, condição de comunicação. Mas não de qualquer forma de comunicação. Comunicação organizada, coletiva, discutida, sistematizada, consensuada. Teremos perdido nossa capacidade de comunicação? Será que não estamos nos trumbicando, apenas emitindo ruídos? Quantas conversas acabam em defesas egoístas e até irracionais de pontos de vistas? Quantas ponderações são rechaçadas com alegações de não ter, o interlocutor, gabarito para falar sobre o assunto em questão? A arrogância que inviabiliza a “conversa de portão”, desmobiliza a construção da democracia, que se dá, também, pela comunicação. Será que não estamos nos trumbicando mais que comunicando?

O pretensioso discurso “dono de si” dos/as fulanos/as em suas padronizadas (mas personalizáveis) redes sociais tem pouco ou nada de autonomia e maturidade. Para que a tortura física, se a dominação social pode ser conquistada pela moldagem do pensamento, lícita, limpa, não-reativa. A comunicação efetiva controla a rua, influencia o povo, garante a sobrevivência. Comunicação é poder de manipulação, mas pode também ser instrumento de resistência e construção democrática. Discursos odientos, ao disseminarem a imbecilidade, fortalecem e afirmam a comunicação como ato de dominação, de manipulação, de subjugação. Somente o discurso aberto, crítico e desarmado (que não significa despreparado) pode construir e ser espaço de resistência.

Não se ser quer aqui um retorno ao “na minha época era assim…” Mas, aqueles e aquelas que se pretendem agentes sociais na construção de sujeitos, precisam compreender que o atual contexto demanda que qualifiquemos nossa atuação, que repensemos processos. O que era efetivo e eficaz em contextos aparentemente lineares, se esvai no atual contexto, cuja complexidade torna difícil até mesmo uma analogia figurativa. E o passo preliminar para isso é recuperarmos nossa condição de comunicação. Uma condição que não significa apenas capacidade de fala, mas também de escuta e, fundamentalmente, de discernimento do que escutar. Estamos tendo a capacidade de discernir o choro de fome, fralda suja ou dor de barriga, daquele “choro de manha”?

Somos muitos. Podemos ser fortes. Comunicaremos o coletivo ou nossa necessidade mais animalesca de sobreviver ocupando o centro do espetáculo? É isso que faz a criança. Para sobreviver, com seu choro, ocupa o centro do espetáculo. Em nossa ânsia por “reconhecimento”, expresso no número de curtidas e compartilhamentos, nos esquecemos que o real engajamento se dá na conversa de portão, que, como se disse no início, não precisa mais “ser no portão”, mas precisa ser tão efetiva e significativa como “a do portão”.

Comunicação não violenta.

Estar com medo é como estar morto

Presos e amordaçados, como deliberamos?
Como escolhemos se estamos intimidados,
se temos medo de caminhar adiante?

“O medo é um obstáculo à ética, porque paralisa a ação. E se não podemos agir, então estamos apartados de nossas escolhas, isso porque se não há ação não há possibilidade, não há devir.

Uma ação paralisada se configura como uma prisão no tempo presente. Estar preso é não poder prosseguir, é não ir adiante porque estamos acorrentados a nós mesmos. E se entendemos o pensamento como um modo de ação, concluímos que estar preso é manter em cativeiro nossa alma, é impedir o fluxo de nossas ideias e romper com a perspectiva de interação e transformação.

Estar preso é continuar a estar preso. É estar incapaz, pela circunstância que nos é imposta pelo próprio medo, de deixar de ter medo. É aniquilar a ideia de futuro como algo diferente. É impedir que a ideia de futuro, como algo libertador, seja realizada. É assumir que a prisão do sono, ou daquele que sonho preso em uma cama, é a única realidade possível.

Presos e amordaçados, como deliberamos? Como escolhemos se estamos intimidados, se temos medo de caminhar adiante?

Ter medo é como se deparar num labirinto espirado, e se ver como quem escorre num ralo, mas sem poder ir embora, sem conseguir escapar para longe do redemoinho de eternas repetições.

Estar com medo é o mesmo que estar morto”.


O que é vencer na vida? Feat Sérgio Mario Cortella

Para saber mais, clique aqui.

Fonte: Flávio Tonnetti e Arthur Meucci. 
Ética, Medo & Esperança – Coleção Miniensaios
de Filosofia. Petrópolis: Vozes, 2013

Você tem medo de que?


Medo e esperança são duas faces da mesma moeda.
Não há esperança sem medo e não há medo sem esperança.


Será que o medo vai vencer a esperança? Medo por todos os lados! Uma criança que nasce hoje vem à luz sob o signo do medo! O medo parece que se tornou o sentimento dominante. Medo, medo, medo!


 “Você é o que você faz”.

Medo por todos os lados e por diversos motivos. Medo de desastres ecológicos. Medo de assaltos. Medo do desemprego. Medo de doenças. Medo da mudança climática. Medo da polícia. Medo do outro. Medo do inimigo invisível! Medo do terror. Medo do medo!

O medo nos imobiliza. O medo nos entristece. O medo nos paralisa. O medo nos faz todos retraídos e desconfiados. O medo nos acua! O medo nos recolhe. O medo nos despotencializa. O medo nos oprime. O medo nos torna reféns.

O medo não é um afeto ou sentimento mau em si. A esperança não é um afeto ou sentimento bom em si. Medo e esperança são duas faces da mesma moeda. Não há esperança sem medo e não há medo sem esperança.

O que é o medo? O medo é uma tristeza instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida.

O que é a esperança? A esperança é uma alegria instável, surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, de cuja realização temos alguma dúvida.

Quem tem esperança tem medo de que a coisa não se realize. Quem tem medo, tem dúvida sobre a realização ou não do que não gostaria que se realizasse e, portanto, tem esperança.

Esses conceitos dialeticamente dispostos são do filósofo Spinoza. Conceitos e relação entre conceitos que captam bem a nossa sensação e dança de afetos nos tempos atuais.

Parece que definitivamente entramos na era da incerteza e da insegurança.

Aliás, dois conceitos mais para fechar o quadro. Segurança e insegurança.

Segurança é uma alegria surgida da ideia de uma coisa futura ou passada, da qual foi afastada toda causa de dúvida. Insegurança, é o estado de tristeza surgida da ideia de que o que causa o medo, ainda permanece (Spinoza).

Se assim for, e parece que é, então a tensão entre medo e esperança, segurança e insegurança está longe de ser resolvida e teremos que saber conviver com ela.

Não aceitar seguranças e esperanças ilusórias e medos fictícios, eis ai a tarefa de discernimento que só o pensamento pode operar.


Como lidar com o medo? Monja Coen responde.

Europa e seus encantos: relatos de uma viagem


Reconhecendo as virtudes de outros povos e outros países,
conseguimos refletir muito sobre nosso modo de ser,
pensar e agir brasileiros.

Uma viagem à Europa, muitas coisas me saltam aos olhos: a língua, a educação, a arquitetura, a arte e a comida. Num texto único fica impossível descrever tamanha admiração e emoção.

Talvez eu pudesse falar do que vi nas ruas e em alguns lugres públicos como igrejas e palácios, na França, professoras com seus alunos ensinando a arte.

Talvez eu pudesse falar sobre o uso da língua inglesa ao chegar na Inglaterra e ter que me explicar por horas, sobre meu objetivo em estar querendo ultrapassar a migração. E em tudo o que eu falava era posto um ponto de interrogação, mesmo mostrando o endereço onde ficaria e a passagem de retorno.

Talvez eu pudesse falar da arquitetura que encanta e surpreende tanto na França como na Inglaterra, ou até mesmo, do clima e a expressão das pessoas que vi.

Poderia, ainda, contar sobre a ética, a moral e a honestidade em ver que nos supermercados da Inglaterra ou da França: você mesmo pesa suas frutas e produtos da padaria, colocando o preço e ao chegar ao caixa você se depara com uma máquina em que você mesmo passa seus produtos, encere uma determinada nota na máquina e ela te devolve o troco, saindo sem que ninguém lhe pergunte se realmente você fez correto.

Todavia, relatarei fato impressionante que me aconteceu, levando em conta a seriedade das instituições e a pontualidade.

Era 24 de janeiro. Muito cedo. Estávamos em Paris, França. Saímos eu e meu amigo. Destino aeroporto. Sem nem mesmo olhar na passagem. Chegamos no Aeroporto Orly. Meu amigo me olhou. Tem certeza que é esse aeroporto? Olhamos na passagem não era. Desespero. Hora que voa. Que não espera. O que fazer? O Aeroporto era Charles de Gulle, mais conhecido como CDG. Ficava do outro lado de Paris.

Pagamos um táxi. Caro. Muito caro. Custou$ 130,00 euros. Em reais R$ 585,00 mais ou menos. Disso fica a dica, nunca saia para viagens somente com o dinheiro limitado. Chegamos correndo. Despachamos as malas. Corremos para o embarque. Um avião de porte pequeno. Bem pequeno. Com muitas oscilações.  Destino Inglaterra. O avião balançava. Ao invés de turbina. Tinha hélices.

Atravessamos o Canal da Mancha que levou cerca de 1 hora. Chegamos à Inglaterra, Cidade de Southampton. Fomos crivados de perguntas na Migração do Reino Unido, inclusive nos perguntaram várias vezes a mesma coisa. Entrevista por três agentes da Migração. Dispensados. Seguimos em direção à esteira aonde chegam as malas. Cadê minha mala? A policial respondeu que era para nós passarmos falar com mais dois policiais. Chegamos noutra sala. Dois policiais com luvas como se fossem revistar as malas. Muitas perguntas. Inclusive se usávamos drogas.

Dispensados do novo interrogatório, dirigi-me ao balcão da Empresa AirFrance. Questionei-os sobre a minha mala que não havia encontrado. Começa bater o desespero. Ligam para a França. Minha mala havia ficado na França. Fizeram o protocolo. Desespero aumenta. Cheguei à Inglaterra, onde passaria uns dias, inclusive visitaria Londres, porém tudo o que precisava estava num outro país, no caso França. Solícitos, garantiram que minha mala chegaria à Inglaterra naquela noite. Naquele momento, 17 horas da tarde. Desespero ainda mais aumenta. Insegurança. Já que eu não ficaria em Southampton, meu destino final era a cidade de Portsmouth, onde moram meus amigos que fica a 32 km de Southampton. Nisso o agente reintegrou que não precisava criar pânico porque minha mala estaria no endereço dos meus amigos em Portsmouth no mesmo dia.

Ao chegamos à casa do meu amigo, minha surpresa, logo tocou o telefone. Era a companhia aérea dizendo que minha mala havia chegado a Southampton. E que às 20 horas estaria no endereço indicado em Portsmouth. Ficamos aguardando.

Vinte horas, nem um minuto mais nem a menos toca a companhia. Era o entregador. Verifiquei. Intacta estava a minha mala.

Isso me fez perceber o quanto é importante a seriedade institucional e a responsabilidade com o cliente. A pontualidade também é uma marca dos europeus.

A Europa tem este poder de nos surpreender e de nos ensinar. Reconhecendo as virtudes de outros povos e outros países, conseguimos refletir muito sobre nosso modo de ser, pensar e agir brasileiros.

Universidade para a Casa Grande

É óbvio que o conceito de “universidade para todos” é uma utopia. Entretanto, as afirmações do presidente e do ministro condenam a  senzala ao seu papel  histórico entre nós.

Durante a campanha eleitoral, Bolsonaro afirmou que os jovens  brasileiros  tem “tara” pelo  diploma  superior e que seria melhor  se muitos deles  buscassem  o ensino profissionalizante  para  atuar  em funções  como técnico em conserto de eletrodomésticos  e mecânico de automóvel. Isto é, condenou os pobres a se conformarem com  posições  subalternas.

Agora, o ministro da Educação Ricardo V. Rodrigues, importado da  Colômbia, afirmou que a  universidade não é para todos, mas somente  para algumas  pessoas. As Universidades, segundo ele, “devem ficar reservadas  para uma  elite intelectual,  que não é a mesma  elite  econômica”.

Estaria o sistema de cotas – que dá oportunidade para negros, pardos, índios e estudantes  de escolas públicas  entrarem  nas universidades federais sob ameaça?  Seria o ensino  superior  um privilégio dos  filhos  da Casa Grande ?

Usando chavões, clichês e jargões para não manifestar o que realmente pensa, o ministro usa  o  “pensamento twitter”, o mesmo  do presidente. Faz   afirmações, mas não as  detalha.

Sabemos   que o ensino  básico  precisa  ser melhorado  com urgência.  É a fórmula   ideal para assegurar  acesso igualitário  ao ensino superior.  Mas  quando não se alcança  esta qualidade? Simplesmente excluir  ou adotar  políticas  que  facilitem  o equilíbrio  desta balança?

Boaventura Sousa Santos, no livro “Pela mão de Alice: o Social  e o Político  na Pós-Modernidade”, abordou  na década de  90 do século passado, as crises das  universidades. Uma delas estava relacionada  às  restrições  do acesso  e  da  credenciação das competências, por um lado, e  as exigências  sociais  e políticas  da democratização  da universidade  e da reivindicação  da igualdade de oportunidades para os  filhos das classes populares, do outro.

Eis que o tema reaparece no Brasil do séc. XXI. É óbvio que o conceito de “universidade para todos” é uma utopia. Entretanto, as afirmações do presidente e do ministro condenam  a  senzala ao seu papel  histórico entre nós.


Universidade para todos, Willian Cardoso.



A família dos muito pobres repete há 500 anos  a  família dos escravos. Pior. Eles ainda fazem o mesmo  tipo de serviço  que faziam antes.  São escravos domésticos.

O Brasil atual  não gosta  do pobre. Temos um  verdadeiro apartheid. O PT alimentou um ódio  visceral  por um motivo  central: tocou  no grande pecado  de ter  diminuído  um pouquinho a distância  entre  as  classes. Coisa de comunistas.

Como a classe média não pode transformar esse ódio  ao pobre  em mensagem política – porque  seria  canalhice  e temos a questão da influência cristã –, ela utiliza  mecanismos como o que está propondo o ministro colombiano, para manter a exclusão e manter  a senzala em seu  devido  lugar.

Suas excelências, o presidente e seu ministro, deveriam ler a Constituição que  no art. 205 deixa claro:  “A educação, direito de todos e dever do Estado  e da família, será promovida e incentivada  com a colaboração da sociedade, visando o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo  para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”.

Já o inciso V, do art. 206, garante, “acesso aos níveis  mais elevados  do ensino, da pesquisa e da criação  artística, segundo a capacidade de cada um”.

Resgatar práticas de pseudoprofissionalização pode perpetuar  o atraso tecnológico e científico do Brasil.


Ministro da Educação de Bolsonaro, Ricardo Vélez, declara que Universidade para todos não existe: “As Universidades devem ficar reservadas para uma elite intelectual”. O que você acha destas afirmações?

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