Definitivamente, o que fazemos não é torcer contra. Tem outro nome. Chama-se Resistência.
Os apoiadores [as] do governo
“temoquemudaiçudaí” afirmam que estamos torcendo contra e nos pedem para
deixá-lo governar. Vituperam alto. Porém seus vilipêndios resumem-se ao ignóbil
e esdrúxulo comentário de que livraram o país de um regime político que nunca
existiu no…país!
Certamente não estamos torcendo
contra o governo simpatizante e apoiador das milícias e capacho do capital
financeiro-rentista-especulativo internacional e nacional. Não. Em hipótese
alguma estamos torcendo contra.
Torcer contra não condiz com nossa ação ativa-prática
de militante em defesa do mundo do trabalho. Não tem nada a ver com torcer.
A gente torce por algo que
gostaríamos que acontecesse ou não. Por exemplo: eu torço contra qualquer time
que jogar com o meu glorioso Internacional e torço a favor de qualquer time que
jogar contra o Grêmio. O resultado final independe da minha ação prática e
direta de militante social e político. Fico esperando o término da
partida na expectativa de um resultado favorável a minha torcida ou secada!
Então, se não estamos torcendo contra, fazemos o que?
Muy bien, para facilitar a compreensão da nossa atitude, vejamos o que já fez,
pretende fazer e a caracterização, de forma sintética, que temos do governo
“vinho velho em pipa nova”.
Em menos de um mês extinguiu o Ministério do Trabalho. Seu ministério é composto por 8 generais, 3 banqueiros, 2 pastores evangélicos, 2 latifundiários, 3 políticos mafiosos tradicionais e 4 áulicos de outras áreas. Está utilizando a máquina pública em benefício próprio da sua família e da pacotilha ministerial. É xenófobo, homofóbico, machista, racista e envolvido em corrupção. Deixou claro que irá atacar os direitos dos trabalhadores [as] para garantir a lucratividade dos banqueiros, latifundiários e grandes empresários; Quer acabar com a Justiça do Trabalho. Quer aprofundar aquela desgraça de reforma trabalhista com a tal carteira verde amarela destruindo definitivamente os direitos dos trabalhadores. Acabar com a nossa aposentadoria. Flexibilizar as licenças ambientais. Privatizar nossas estatais. Privatizar a saúde e educação, além de ser um governo canalha e com relações promíscuas com milícias assassinas.
Cintes de suas políticas, não
podemos, em hipótese alguma, ficar aguardando, na torcida, de que os ataques
não virão. Temos o dever e a obrigação militante de organizar a luta contra
esse governo. Definitivamente, o que fazemos não é torcer contra. Tem outro
nome. Chama-se Resistência. E certamente resistiremos, pois, enquanto existir
vida e luta, haverá esperança!
Um vídeo esclarecedor e interessante sobre estratégias de seguir as lutas por direitos sociais e resistência no governo Bolsonaro, de Débora Baldin.
Manobrando a vontade popular, por uma série de mecanismos já entrevistos, faz dela seu trampolim para subir os degraus do poder, como também seu ponto de apoio para desdenhar e liquidar os opositores.
Não é difícil traçar o perfil de um representante do chamado
nacionalismo populista, o qual tem levado ao poder “homens fortes” em vários e
diferentes países, como Estados Unidos, Áustria, Hungria, Brasil, Itália, entre
outros.
O jornalista e escritor italiano, Federico Rampini, elenca
alguns de seus ingredientes “universais” (Rampini
Federico, Quando inizia la mostra storia,
Ed. Mondadori, Milano, 2018, pag. 383). Em primeiro lugar, é preciso
desenvolver uma mensagem apocalíptica, no sentido de despertar medos e
preconceitos na população. Por um lado, trata-se de manipular e
instrumentalizar ameaças e fantasmas, em vista de interesses eleitoreiros e
corporativistas. Por outro, entra em jogo a habilidade de desenhar os contornos
de caricaturas falsas, exagerando, por exemplo, os riscos de abrir as portas aos
estrangeiros ou da concorrência comercial. Daí a tendência ao isolamento e ao
fechamento das fronteiras, evitando o “problema” dos migrantes, prófugos e
refugiados.
Um segundo ingrediente vem de um contexto em que predomina
uma crise econômica forte e prolongada. Crise que avança sempre acompanhada de
declínio e debilidade do “establishment”. Evidentemente, o medo e a ameaça,
citados anteriormente, ganham raízes profundas no terreno movediço da falta de
emprego, da perda de poder aquisitivo e de condições precárias de vida.
Ao mesmo tempo que um
solo cada vez mais escorregadio parece abrir-se debaixo dos pés, as estrelas
como que se apagam nos céus. Perdem-se as referências que nos guiavam: as
verdades convertem-se em dúvidas, as certezas em incertezas e as perguntas
superam a capacidade de encontrar respostas.
Navega-se sem bússola na “modernidade líquida” de Bauman. Em
lugar de assumir as consequências das próprias decisões, melhor depositar a
liberdade pessoal aos pés de alguém mais poderoso. Alguém que passa a ditar as
leis e as regras, carregando sobre os ombros o “fardo” da responsabilidade. A
força aparente, entretanto, esconde uma dificuldade de diálogo e de raciocínio
lógico. Os instintos se sobrepõem à racionalidade.
Um terceiro fator pode ser a coincidência de um novo meio de
comunicação, ou de uma forma inédita e mais veloz de comunicar-se. Neste
sentido, não é exagero afirmar que a invenção da imprensa, por Johannes
Gutenberg (1398-1468), permitiu a Martin Lutero (1483-1546) e demais seguidores
acelerar suas ideias a uma velocidade sem precedentes. Permitiu igualmente a
difusão também sem precedentes da Bíblia, bem como a livre interpretação de
seus escritos. Deus origem a uma onda de tensões e guerras religiosa que só
seriam controladas pelo tratado ou paz de Vestfália, em janeiro de 1648.
Nos dias atuais, a
maioria dos estadistas eleitos nos últimos anos nos países assinalados acima,
chegou ao poder com o auxílio da Internet e das redes sociais do mundo virtual.
Veículo ambíguo e volátil, em que as “fake News” e os fatos reais têm limites
nebulosos e flexíveis.
O quarto e último elemento tem a ver com o narcisismo do
político, o qual costuma apresentar-se, simultaneamente, como profeta e
pregador. Uma ilimitada e às vezes doentia autoestima desvia-o de qualquer
confronto direto e aberto com os demais projetos concorrentes, enquanto
candidato, ao mesmo tempo que o leva a fugir de uma séria e oportuna
autocrítica, quando sentado no trono. Prepotente a arrogante, basta-se a si
mesmo.
Manobrando a vontade
popular, por uma série de mecanismos já entrevistos, faz dela seu trampolim
para subir os degraus do poder, como também seu ponto de apoio para desdenhar e
liquidar os opositores.
O apelo frequente ao número de votos recebidos torna-se sua
arma principal, como se a democracia dependesse mais da quantidade que da
qualidade. Tende a dirigir-se diretamente à massa, em lugar de contar com a
intermediação, mais atenta e menos incauta, de grupos, movimentos, instituições
ou organizações de base. Teme e dispensa os debates, agarrando-se
prevalentemente a determinados bordões, slogans ou chavões, os quais costumam
dizer tudo sem nada explicar de maneira concreta e detalhada. Em vez de um
passo adiante no duro processo democrático, instalam-se uma espécie de ditaduras
disfarçadas.
Educar sempre trouxe desafios imensos, sobretudo em tempos de profundas transformações tecnológicas, de organização da produção e da sobrevivência humana.
Educar sempre foi e será uma grande arte, um grande desafio,
que sofrem influências de cada momento histórico. Neste momento histórico, o conceito de rede
também pode ser aplicado aos desafios da educação, cada vez mais complexos, o
que não permite quaisquer simplificação.
Educar faz parte do processo dinâmico da vida em sociedade.
Educar sempre trouxe desafios imensos, sobretudo em tempos de profundas
transformações tecnológicas, de organização da produção e da sobrevivência
humana. O sentido de educar (ou ensinar)
sempre foi o de acompanhar as evoluções e mudanças sociais, gerando maiores
possibilidades de inserção no mundo da cidadania e no mundo do trabalho. A
escola cumpre, historicamente, função de propiciar as condições de inserção dos
indivíduos na sociedade.
Neste momento
histórico, a escola cumpre com a função insubstituível de sistematização das
informações (para transformá-las em conhecimento) e da socialização
(convivência saudável e respeitosa, mediada pelo conhecimento).
A divulgação acelerada e o alto volume das informações
disponíveis às crianças, adolescentes e jovens exige uma postura educativa
capaz de fazê-los construir entendimentos de si mesmos, dos outros, da natureza
e da sociedade.
Ao mesmo tempo em que leem mais, tem mais acesso aos
diferentes conhecimentos, os educandos de hoje escrevem menos, tem muitas
dificuldades de comunicar e expressar seus sentimentos e conhecimentos, tem
grandes dificuldades nos seus relacionamentos interpessoais, tem dificuldades
de projetar suas vidas alicerçadas em sonhos e projetos de vida.
“Humanização nas escolas”, entrevista com jornalista e especialista em educação Anna Penido.
O excesso de informações, somadas com a velocidade da divulgação destas, gera, muitas vezes, uma distância enorme entre o mundo real e o mundo virtual. Estar informado e conectado ao mundo virtual não é suficiente para decidir o que fazer com o mundo real, seja a partir de uma intervenção e atitude pessoal ou coletiva. O mundo real exige posturas e atitudes que ensejam coragem, determinação, empenho e esforço pessoal, criatividade, ousadia.
O fato de vivermos na
era da tecnologia e da informação não quer dizer que podemos suprimir a
importância da oralidade, da escrita e outras formas de comunicação como a
arte, a linguagem corporal, a linguagem simbólica e religiosa, o audiovisual,
dentre tantas outras. Afinal, o ser humano é um ser integral e as suas
diferentes dimensões (características) devem ser desenvolvidas e articuladas no
seu processo de ensino-aprendizagem.
Mais do que nunca, para a nossa humanização, precisar
comunicar e compreender melhor a nós mesmos e aos outros, em sintonia com a
natureza e com o transcendente (Ser superior). Este processo também é chamado
de ESPIRITUALIDADE, que é muito mais do que religião.
“Espiritualidade é um sopro interior que que me faz ter fé na vida”. (Pe. Fábio de Mello)
Por vivermos num mundo onde o domínio das diferentes linguagens é condição para uma boa inserção social, precisamos, desde a escola, aperfeiçoar as nossas capacidades comunicativas, o que pode ser traduzido por EDUCOMUNICAÇÃO.
Documentário Educomunicação.
Assim, para darmos conta da integralidade do ser humano, precisamos empenhar esforços para que a educação se torne um PROCESSO DE APROPRIAÇÃO INDIVIDUAL E COLETIVA de experiências, de confrontações, de resoluções e desafios da vida e do conhecimento, de aplicação do conhecimentos e das informações na vida prática e cotidiana. A isso podemos chamar de SISTEMATIZAÇÃO, processo no qual nos apropriamos de informações para dar às mesmas utilidade e função prática e aplicável na vida de cada um e de todos.
Uma escola é como uma rede. Uma rede que articula e promove
a interação de diferentes sujeitos aprendentes: os educandos, os educadores, os
pais, as equipes diretivas e gestoras, os funcionários e funcionárias. Estes
sujeitos fazem a educação acontecer utilizando os diferentes meios e métodos de
aprendizagem, que geram processos de apropriação de conhecimento e de
convivência social.
A apropriação do
conhecimento do conhecimento e a convivência social são os dois maiores
objetivos da educação contemporânea. Fazer educação, nos dias atuais, significa
compreender o sentido da escola, do mundo e do ser humano, contemplando a
diversidade e a complexidade social que construímos até aqui como humanidade.
Nada de modismos, nada de simplificações! Educação em rede
exige postura que integre os diferentes pensamentos, métodos pedagógicos e
formas de convivência social.
Cada escola constitui um ambiente único, mediado pelos
sujeitos, pelas suas intencionalidades e pelos seus métodos e modos de ver o
ser humano, a vida e a sociedade. Os diferentes sujeitos e as diferentes
estratégias educativas representam os “nós” que fazem uma rede ser o que ela é.
Por isso mesmo, que o parâmetro de avaliação de cada escola deve ser ela mesma.
A qualidade social de educação se mede a partir de critérios previamente
definidos pela comunidade escolar e, sobretudo, pelo grau de satisfação de
todos os que estão envolvidos nela e com ela.
“A missão do professor é provocar inteligência, provocar espanto, provocar curiosidade”. (Rubem Alves)
A esperança, ao contrário do que pensa o comum dos mortais, longe de nos ajudar a viver melhor, nos faz perder o essencial da vida, que deve ser abraçado aqui e agora. É preciso viver intensamente o aqui e agora.
Começo uma das últimas
reflexões deste ano lembrando de John Lennon: “A vida é aquilo que acontece enquanto
você está planejando o futuro”.
Contar o tempo é uma grande ilusão, como sabemos, mas – e se
não contássemos? Li esta indagação tempos atrás. Não lembro quem a escreveu, mas
a achei muito pertinente.
Agora, quando nos aproximamos de um novo ano, a questão de contar
o tempo se torna muito presente. Ao iniciar 2019 lá iremos todos assistir à queima
dos fogos, tomar espumante, trocar votos de um feliz ano novo entre abraços e beijos
efusivos. Estaremos comemorando o tempo que passou e, igualmente, o tempo que está
chegando.
É a emoção da virada,
da volta a uma espécie de marco zero, do recomeço, de projetar o futuro. Vamos renovar
propósitos, fazer um balanço do que passou e do que poderemos fazer nos próximos
12 meses.
É um momento de doçuras e reconciliações, principalmente, no
momento em que vivemos. Tempo de soerguimento de ânimo e afirmação de propósitos.
Quantas vezes já fizemos isto no passado e, obviamente, continuaremos a fazê-lo.
É um ritual de passagem do tempo. Ah! o tempo! Sempre ele.
Embora saibamos que não há recomeço pelo simples fato da passagem
de ano, mesmo assim, iremos todos aderir ao coro da contagem regressiva e, ao toque
da meia-noite, estaremos emocionados trocando votos de felicidades, saúde, progresso
etc.
Sabemos que o tempo, para todos nós, avança de forma inexorável.
Talvez, na passagem de um ano para o outro, busquemos aprisionar o que não é possível
deter, o calendário. Sabemos que ele provoca desgaste e envelhecimento.
É ele que, diariamente, nos mostra, nos alerta, que o tempo está
passando. Entretanto, a cada 365 dias, todos nós temos a ilusão de retornar ao marco
zero e começar tudo de novo. Vamos dizer feliz ano novo e derramar lágrimas ao saudar,
com alegria, emoção e esperança, a chegada de 2019. Esta é a mágica da passagem
de ano.
Caetano Veloso compôs uma canção, Oração ao Tempo, na qual exalta
o seu mistério:
“ És um senhor tão bonito/Quanto a cara do meu filho/Tempo, tempo,
tempo, tempo/Vou te fazer um pedido/Compositor de destinos/Tambor de todos os ritmos/Entro
num acordo contigo/Por seres tão inventivo/E pareceres contínuo/És um dos deuses
mais lindos/Que sejas ainda mais vivo/No som do meu estribilho/Ouve bem o que te
digo/Peço-te o prazer legítimo/E o movimento preciso/De modo que o meu espírito/Ganhe
um brilho definido/E quando eu tiver saído/Para fora do teu círculo/Não serei nem
terás sido/Ainda assim acredito/Ser possível reunirmo-nos/Num outro nível de vínculo/Tempo,tempo,tempo”.
Coisas de um grande poeta.
A Grécia e seus sábios nos deixaram um ensinamento célebre, o
Carpe Diem (aproveita o dia de hoje),
ou seja, a convicção de que só vale a pena viver a vida que se situa no aqui e no
agora, na reconciliação com o presente.
Nesta época de renovação de esperanças, é preciso lembrar de
um ensinamento dos filósofos, segundo o qual, a esperança, ao contrário do que pensa
o comum dos mortais, longe de nos ajudar a viver melhor, nos faz perder o essencial
da vida, que deve ser abraçado aqui e agora. Isto é, não podemos viver a nostalgia
de um passado que não existe mais e a espera de um futuro que ainda não existe.
É preciso viver intensamente o aqui e agora.
O poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu, com toda a sua genialidade, uma Receita de Ano Novo:
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
Não precisa
Fazer lista de boas intenções
Para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
Pelas besteiras consumidas
Nem parvamente acreditar
Que por decreto de esperança
A partir de janeiro as coisas mudem
E seja tudo claridade, recompensa,
Justiça entre os homens e as nações,
Liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
Direitos respeitados, começando
Pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
Que mereça este nome,
Você, meu caro, tem de merecê-lo,
Tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
Mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o ano novo
Cochila e espera desde sempre.
As exigências atuais estão mais no compartilhar do que no acumular; mais no observar e motivar do que no “ditar” e dirigir; mais no inspirar e acolher, do que no determinar e controlar. Que tempo é esse, o tempo “digital”?
É difícil dizer o
que significa aprender! E o que é ensinar, então? Aprendemos que ensinar e
aprender são dois verbos que se conjugam na transitividade da relação de
presença entre sujeitos.
Ensinamos que
aprender e ensinar encontram sua síntese e finalidade nos sujeitos e sua
mediação nos múltiplos liames da vida e nas diversas formas de fazer o viver.
Sendo assim, que sentido tem a transitividade entre sujeitos e as mediações
numa época cada vez mais “digital”?
A maior parte dos pais e dos educadores é de
uma época na qual o aprender se dava de forma linear, contínua, catalizadora e
agregadora, capaz de a tudo dar sistematização num tempo e num lugar
determinantes e determinados.
Nela ensinamos que esta mesma lógica é capaz de dotar a multiplicidade diversa
de sentidos unificados, unificadores, quando não uniformes e uniformizadores.
Aprendemos a pensar
contra o jeito de Funes, de Borges, para quem “não havia senão detalhes, quase
imediatos”, visto que aprendemos e ensinamos que “pensar é esquecer diferenças,
é generalizar, abstrair”. Aprendemos e ensinamos de forma discursiva e
argumentativa. Enfim, aprendemos e ensinamos de modo “analógico” e num modelo
físico newtoniano, talvez, no máximo, einsteniano.
O contexto, os
novos sujeitos e as dinâmicas sociais de aprendizagem, todavia, parece que são
cada vez mais “digitais”. São multilinguísticos, descontínuos, híbridos e
descentrados, numa física da indeterminação, quântica. Um tempo que reclama o
“pensar” ao modo de Funes, como ocupar-se de “detalhes, quase imediatos”, senão
imediatamente imediatos.
As exigências estão mais no compartilhar do
que no acumular; mais no observar e motivar do que no “ditar” e dirigir; mais
no inspirar e acolher, do que no determinar e controlar. Que tempo é esse, o
tempo “digital”?
Seria o fim da
presença imediata e o tempo da pura mediação – mesmo a da tela plana em
múltiplas dimensões? Será que é o tempo da interatividade sem presença
imediata? Ou da imediatividade mediada pelo humano-máquina da “tela quente” do
vídeo conectado em tempo real? De tantos “detalhes”, que parecem ignorar o que
é que faz o “detalhe ser detalhe” e do que é que é “detalhe”? Da
descontinuidade contínua e da contínua descontinuidade?
Afinal, o que então significa pensar? E
aprender? E ensinar?
Indagações como
estas, e tantas outras, põem pais e educadores em estado de perplexidade. A
elas reagem, em geral a seu modo, avessos ao que as questões propõem, até
porque educados a ensinar no modelo “analógico”. Instala-se um não-diálogo.
Interrompe-se a transitividade do ensinar e do aprender. Abre-se o hiato e o
silêncio improdutivo.
Talvez o principal desafio dos pais e dos
educadores para educar hoje seja voltar a aprender. Aprender como cada vez
menos acumular continuidades e ensinar como cada vez menos mostrar
continuidades; aprender como cada vez mais lidar com descontinuidades,
continuamente; e ensinar como cada vez mais conectar e mobilizar
descontinuidades, continuamente.
E quem vai ensinar
isso aos pais e aos educadores? Certamente serão aqueles que, desde há muito,
são entendidos por pais e educadores como os que nada teriam para tal, aqueles
para quem se insiste em destinar o que se sabe, sem se perguntar se lhes
interessa a isso aprender.
Talvez nunca antes,
como em nosso tempo, ensinar e aprender sejam verbos a serem conjugados na
extensividade e na intensividade múltipla da transitividade, continuamente, na
descontinuidade.
Nossas escolas devem ser lugares de “vivência de direitos” e de cidadania, onde possam ser praticados valores como a solidariedade, os direitos humanos, o respeito às diversidades culturais, religiosas e étnicas, a camaradagem, a promoção da dignidade humana.
Os professores e professoras da educação básica de nossa
cidade, estado e país passam diariamente por muitas dificuldades para cumprirem
com sua função de educar, em tempos ligeiros, complexos e cheios de incertezas.
Como educador, definido como o professor que acredita no
poder do amor, percebi que não faz sentido simplesmente reclamar dos educandos
e educandas com os quais trabalho diariamente. Reclamo, com muita razão, da
falta de estrutura e apoio que as redes de ensino não oferecem em nossas
escolas. Da falta do reconhecimento do meu trabalho e pela autonomia dos
professores em suas salas de aula.
Moro num país que
ainda não reconheceu a educação como um valor, mas que ainda considera a mesma
um gasto e, na melhor hipótese, um investimento sempre muito alto e que nosso
país não tem condições de arcar.
Sonho e luto muito para que a educação seja prioridade, que
as escolas sejam de qualidade e que o trabalho dos educadores seja reconhecido
por toda sociedade. Mas, cotidianamente, tenho que arregaçar as mangas, os meus
pensamentos e as minhas forças criativas para realizar o melhor trabalho como
professor, sem descuidar da minha responsabilidade de lutar por melhores
condições de trabalho do professor e da aprendizagem dos educandos e educandas.
E de me somar com as forças de toda comunidade escolar, sobretudo dos pais dos
estudantes e das organizações vivas do entorno de nossas escolas para que nossa
educação tenha como rumo a qualidade social.
“O prazer maior nas relações de ensino-aprendizagem está na construção do conhecimento como algo útil, agradável e capaz de desencadear alegria e realização. O educador é um dos maiores interessados em qualidade na educação, pois ela sempre carrega potenciais para sua satisfação (o fracasso dos educandos também representa o seu fracasso)”. (Nei Alberto Pies)
A postura “vitimizante” do professor, adotada por muitos colegas, cega-os para reconhecer um universo de possibilidades e intervenções cotidianas que os mesmos realizam e que fazem uma grande diferença na vida de muitos estudantes e na vida das comunidades.
Nós, professores e
professoras, fazemos a diferença na educação brasileira. Por isso mesmo, temos
que considerar também a nossa condição humana de “seres aprendentes”.
Como aprendentes, temos que nos dispor a compreender novos contextos e novas
realidades que estão em processo de mudança na nossa sociedade, principalmente
na vida de nossos adolescentes e jovens, mas sem deixar de lado as lutas por
educação, na forma mais ampla. “Quem luta, também educa”.
O direito de aprender de nossos educandos e educandas
precisa ser exercido com muita responsabilidade em nossas escolas, propiciando
aos mesmos os conteúdos, habilidades e atitudes historicamente construídas e
acumuladas. O direito à participação, através da opinião, de consultas e de
tomada de decisões deve ser exercido permanentemente com eles. O direito à convivência
saudável, organizada coletivamente no ambiente escolar, propicia aos
adolescentes e jovens oportunidades únicas para o exercício de sujeitos sociais
e interdependentes.
Nossas escolas devem
ser lugares de “vivência de direitos” e de cidadania, onde pudessem
ser praticados valores como a solidariedade, os direitos humanos, o respeito às
diversidades culturais, religiosas e étnicas, a camaradagem, a promoção da
dignidade humana.
Não podemos esquecer que a escola é para muitos jovens
brasileiros o único lugar de reconhecimento social e representa, para a maioria
deles, a grande oportunidade de humanização.
Se os jovens tem o direito de aprender, os professores tem
para com eles o dever de se importar. A comunidade escolar tem o dever de
acompanhar e subsidiar a compreensão das distintas realidades. Os governos tem
o dever de respeitar a autonomia de cada escola e de prover as melhores
condições para que a mesma possa se organizar conforme a necessidade e a
vontade de quem a faz. Os estudantes tem o dever de aproveitar o que as
escolhas lhes oferecem.
“Creio que um dos papéis mais importantes de um educador é permitir que os alunos sejam mais do que a minha geração foi e façam o mundo um lugar melhor. Se eu puder auxiliar eles nesta caminhada, ficarei grato. Existe uma diferença entre facilitar e permitir. Eu, ao invés de falar para eles estudarem, compartilho meus métodos para permitir que desde cedo tenham o mesmo prazer que adquiri com os estudos”. (Ivan Dourado, sociólogo)
Nós já fazemos uma escola assim, mas ainda acreditamos pouco nos seus potenciais de humanização, inclusão, valorização e promoção de cada pessoa e de todas as pessoas que dela fazem parte. Certo é de que ninguém fará esta escola pela gente, senão a gente mesmo.
O amor na escola não é uma ilusão, mas é uma revolução! O
amor transforma a vida de quem aprende e de quem ensina. O amor carrega este
caráter revolucionário, porque é capaz de promover aquilo que está apagado no
interior de cada um de nós.
Educação acontece
quando promovemos o desabrochar das possibilidades, dos valores, dos sonhos e
dos objetivos que cada ser humano carrega dentro de si.
Que em 2019, renovemos o nosso ideal de uma educação pública, de qualidade social. Qualidade social acontece quando a escola tem resultados e processos importantes para todos os sujeitos que nela se envolvem. Qualidade social na educação é sinônimo de uma escola de gente feliz, e que se realiza acreditando que o conhecimento humaniza, sempre nos torna seres humanos melhores
Na minha experiência, se a escola se construir num espaço onde os estudantes são convidados a se encantar com os conhecimentos, onde sejam aguçadas as curiosidades sobre os conteúdos mais interessantes com ações pedagógicas dotadas de sentimentos e significados, formaremos mais que alunos. Formaremos seres humanos. (Ivan Dourado, sociólogo)
Conviver intensamente e desinteressadamente com os outros é a melhor forma de buscar felicidade.
Não existe felicidade “fora
dos outros”. Na contramão desta idéia, construímos a ilusão de que felicidade
pode resultar de conquistas meramente individualistas. Deste modo, fomos abrindo
mão daquilo que nos é o mais essencial: a convivência e confiança nos outros. Ensimesmados
e distantes dos outros, geramos um vazio existencial, hoje uma enfermidade social:
o stress e a depressão.
Somos parte de uma sociedade que privilegiou as coisas,
transformamo-nos também nós em anônimos, números, seres em competição.
Ao invés de vivermos o amor e
a compaixão, valorizamos demais os valores da competição, egoísmo e auto-suficiência.
Cultivamos sentimentos interesseiros e oportunistas, e os entendemos como forma
de amar. Desaprendemos que amar significa, no sentido último, morrer para a gente,
para renascer com os outros. Convivemos com os outros, visando suprir carências,
esquecendo que também eles, como a gente, tem as mesmas necessidades de permanente
reconhecimento.
Solidariedade e compaixão são
valores e atitudes que nos unem para a superação dos sofrimentos comuns à nossa
condição humana. A libertação e superação dos sofrimentos humanos requerem que a
gente seja capaz de colocar-se no lugar do outro, lá onde o outro está. Para fluir
compreensão e entendimento, precisamos ser capazes de escutar.
Falar e escutar são atitudes libertadoras, para a gente e para o outro. A afeição, a doçura, o amor, o perdão, a esperança e a paz são virtudes destacadas por Charles Chaplin para uma vida sem violência, uma vida a partir da própria humanidade. “Sem estas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido”.
"Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso". (Charles Chaplin)
Dizem os estudiosos e especialistas
que a natureza humana não é feita para a acomodação, mas sim para a constante superação,
para o desenvolvimento de nossos potenciais. Este princípio, nem sempre é assimilado
e traduzido na prática e vida cotidiana de muitos, por conta das pressões e mudanças
sociais, bem como dos novos desafios de nossos tempos, sejam pessoais ou coletivos.
Mas “se pararmos no meio
do caminho e nos acomodarmos, pagaremos um preço elevado por isso. Viveremos com
ansiedades desnecessárias, não encontrando mais o verdadeiro sabor das coisas e,
sem nos darmos conta, procurando compensações para nossas frustrações. Daí se explica
por que muitas pessoas acabam deprimidas, viciadas, consumistas ou hedonistas. Essas
atitudes ou características seriam consequências do não desenvolvimento do nosso
potencial. Quem não cresce, adoece”. (AntônioVieira)
Vida fácil não é bela vida. A vida vale a pena quando é
conquistada, a partir das pequenas e singelas superações que fazemos ao longo da
existência. Cada desafio superado sinaliza conquistas para nossa felicidade.
A solidariedade deve ser um valor
constante, capaz de nos propiciar sentido de vida. Ela é um sentimento que nos acompanha
de forma intensa nas tragédias humanas, mas ainda não acompanha nossas relações
cotidianas, capazes de nos re-aproximar conosco mesmos e com os outros. Nada melhor
do que a convivência, a relação e a troca com aqueles que compartilham das mesmas
necessidades.
Conviver intensamente e desinteressadamente
com os outros é a melhor forma de buscar felicidade. Como disse Chaplin, “não
preciso me drogar para ser um gênio; não preciso ser um gênio para ser humano, mas
preciso do seu sorriso para ser feliz”.
Esta publicação faz parte do livro "Conviver, educar e participar: nos palcos da vida", publicado pela Editora IFIBE em 2014.
Tenho saudades da minha infância, mas nenhuma da escola repressora, nem da igreja de missas intermináveis, sequer dos sermões moralistas e violentos. Sinto saudades das pessoas.
Quando criança minha mãe levou a mim
e a minhas irmãs ao barbeiro da cidade. O que ela pretendia só podia ser feito
por um barbeiro, jamais por uma cabeleireira. Explicou direitinho como queria
que cortasse nossos cabelos revelando um conhecimento bem cosmopolita. Já
adulta identifiquei o corte chanel tão do gosto das européias desde os anos
vinte e que minha mãe deve ter visto na revista O Cruzeiro.
Tratava-se de um corte curtinho com franja reta e nuca batida de forma radical. Feliz com o resultado minha mãe arrumou-nos com vestidos brancos enfeitados na frente e nas barras. O dia era muito quente por isso aqueles vestidos foram os escolhidos. Eles não tinham mangas, o que era uma temeridade à época e lá fomos as três de corte de cabelo novo, vestidinhos vaporosos, rumo ao clube onde faziam sorvete com aquele cheiro inacreditável de antigamente.
E fomos vistas! E pagamos o preço
logo, logo. Ao chegarmos à escola no dia seguinte esperavam por nós.
Na década de cinquenta as salas de
aula eram divididas. De um lado os meninos e do outro as meninas, a exemplo da
distribuição do povo católico. Na igreja as mulheres ficavam do lado esquerdo e
os homens no direito. Normal para a época. Pois fomos obrigadas a sentar com os
meninos, cada uma em sua sala. O motivo era o corte de cabelo igual ao dos
meninos.
As freiras aproveitaram para comentar
sobre nossos vestidos, completamente inapropriados para meninas católicas. Com
o tempo compreendi o comportamento das freiras, assim como o do padre, que
desceu do púlpito em uma manhã de domingo, para colocar mangas de papel nos
braços de uma paroquiana envergonhada. Minhas irmãs e eu fomos humilhadas como
aconteceu com aquela mulher. Sinais dos tempos!
Frente ao constrangimento que jamais
esqueci, passei a observar atentamente o comportamento das pessoas. Meu pai
alfaiate fazia roupas masculinas, mas nunca fez calças compridas para meninos,
que só podiam usá-las curtas. As compridas eram conquistadas quase passando à
adolescência. Usar calças compridas era sinal de ser quase um homem.
Minha mãe e meu pai demoraram a
engolir o acontecido. As palavras deles soavam estranhas para a época e para a
cidadezinha pequena e submissa aos preceitos ainda medievais que pautavam a
filosofia do colégio e da igreja. Não demorou e nos mudamos para cá a fim de
continuarmos os estudos. Minha mãe continuou assim, com seu jeito inquieto e
curioso. Devo a ela e ao meu pai o senso de que há imposições ridículas, que
diminuem as pessoas em nome de uma moral arcaica e discriminatória.
Dona Lina gostava de quebrar regras,
principalmente aquelas que tolhiam o que ela considerava adequado para os
filhos. Assumiu tarefas quase impossíveis contando com a cumplicidade do seu
Elmo, um trabalhador alegre e generoso.
Acho que vem de lá, do cabelo chanel
e do vestidinho cavado, a repulsa que sinto por “normalizações”, tão comuns até
hoje, quando meninas e meninos são criados com moral dupla, uma para eles e
outra para elas.
Vem do exemplo da minha mãe um senso
de justiça do qual me orgulho e do meu pai a alegria por ter filhos e filhas,
amigos e amigas e o gosto por bailes, chopp, risadas e um pouquinho de
irreverência, o que dava a ele um charme especial.
Tenho saudades da minha infância, mas nenhuma da escola repressora, nem da igreja de missas intermináveis, sequer dos sermões moralistas e violentos. Sinto saudades das pessoas. Algumas indomáveis como minha mãe, outras conformadas com as limitações que julgavam certas. Mas tudo é um patrimônio que acalento como a um tesouro
Papel da família e da escola na educação dos filhos.
O sentido da vida não é algo que temos, mas é ele que nos tem, a todos. Nem somos nós que o formulamos e o criamos, nós o recebemos e o reconhecemos.
Albert Camus, filósofo
e literato francês, disse com todas as letras que a única questão fundamental a
ser respondida é: por que não me mato? Muita gente tem levado essa questão a sério
e tem sucumbido.
Os suicídios no mundo
não param de aumentar. Os que não sucumbem, onde encontramos a razão para continuar
vivendo? Ou será que paramos de fazer as grandes perguntas da vida (quem somos,
de onde viemos, para onde iremos, qual o sentido de estarmos aqui?) e simplesmente
vivemos uma vida biológica igual a tantos animais não humanos que vivem felizes
comendo, bebendo, dormindo, se reproduzindo e curtindo a vida?
As duas perguntas são
incômodas, tanto a de Camus quanto a que acabo de formular. Eu prefiro pensar que
a vida não se esgota na dimensão bio-lógica e ainda mantemos viva a dimensão espiritual
que pode, de alguma forma, nos ofertar “sentido último” para continuar afirmando
e confirmando a vida, mesmo nas condições mais adversas, injustas e degradantes.
A religião e a filosofia
são duas doutrinas de salvação exatamente por elaborarem, sistematicamente, aquilo
que seria o essencial numa ordem hierárquica de valores, não só para viver, mas
bem viver.
Do ponto de vista psicológico,
Viktor Emil Frankl, judeu e psiquiatra austríaco, foi o que melhor formulou e estruturou
uma ciência do sentido. E, em boa parte, pela sabedoria advinda da própria experiência.
Ele experimentou a adversidade e o pavor em grau extremo, no campo de concentração
Theresienstald, durante a segunda guerra mundial. Numa situação em que nenhum prazer
da vida biológica lhe era possível, em estado de sofrimento e medo total, numa situação
em que a morte era a mais incômoda das presenças reais, no inferno da banalidade
do mal, sobreviveu e desejou permanecer vivo ancorado, não ao visível e sensível,
que era terrível por todos os lados, mas ao invisível e ausente que da alma lhe
alimentava a esperança, dando-lhe sentido e resistência. Ao seu redor, no campo
de concentração, os que sobreviveram e conservaram a sanidade e dignidade, observava
Frankl, o fizeram por alguma razão transcendental, da ordem do sentido, da ordem
do dever e da missão, que lhes dava forças para não perder a identidade e a dignidade.
E, sobretudo, lhes dava sentido para não desejar morrer.
“Quem tem um porquê, então pode suportar
quase qualquer como”. Frankl imortalizou essa frase nietzschiana e ela resume
bem o que se estruturou em teoria psicanalítica, a logoterapia. A logoterapia é
a cura pela estruturação da vida em torno de algo que lhe dá sentido.
A dor, o sofrimento
e a neurose, podem ser de ordem espiritual e intelectual, e não somente de ordem
afetivo e sexual, como pensava Freud. O sentido, contudo, não é algo abstrato e
metafísico, válido igualmente para todos, mas algo identificável como missão própria
e intransferível, algo que é uma espécie de vocação, um chamado que só o indivíduo
implicado pode responder.
Não há humano que não tenha algo de sagrado que
só ele pode preservar. Esse algo é o que lhe dá sentido. Não há nada de esotérico
nisso, isto é, que só alguns possam acessar o sentido da existência. Não. O sentido
da vida não é algo que temos, mas é ele que nos tem, a todos. Nem somos nós que
o formulamos e o criamos, nós o recebemos e o reconhecemos. E em todas as direções
ele opera.
Alguns reconhecem o
sentido na fé e no dever de ordem religiosa. Outros, na fé e no dever de ordem moral.
Outros na preservação das memórias e lembranças guardados no corpo e na alma. Outros,
em alguma missão política e ideológica. Outros ainda, no humor, na beleza e no amor
que nos tiram da banalidade do mal e nos eleva para além de nós mesmos, aproximando-nos,
como diz o salmista, muito mais dos anjos do que dos animais não humanos.
Alguém poderia objetar
e dizer que a vida não tem sentido nenhum, mas não custa lhe dar algum. Não compartilho
dessa ideia. Custa muito dar um sentido, onde a vida mesma não nos imponha um. Cabe
a cada um/a prestar atenção em qual ‘o seu sentido’ que se oferece como graça e
dom, mais do que como mérito e conquista.
“Pode-se enganar a todos
por algum tempo; pode-se enganar alguns por todo o tempo; mas não se pode enganar
a todos todo o tempo”. (A. Lincoln)
O pensamento mítico teve início na Grécia e nasceu do desejo
de dominação do mundo, para afugentar o medo e a insegurança. A verdade do mito
não obedece à lógica, nem da verdade baseada na experiência, nem da verdade científica.
Normalmente, associa-se, erroneamente ou não, o conceito do mito
à mentira, ilusão, ídolo, lenda ou ficção.
O mito depende de um tempo e espaço para existir e ser compreendido.
Isto posto, vamos ao “mito” recém eleito Presidente.
Quando da diplomação, no último dia 10, Jair Bolsonaro enfatizou:
“Sempre me pautei pela defesa dos valores da família, pelos interesses do Brasil
e pela soberania nacional”. Indaguei a meus fiéis botões: valores da família? Estes
me olharam espantados.
Lembrei-me que a futura primeira-dama, Michelle, recebeu em uma
conta, entre 2016 e janeiro de 2017, um cheque de 24 mil reais depositado por um
funcionário do gabinete do enteado Flávio Bolsonaro, senador eleito e filho do ex-capitão.
Assim, o bordão eleitoral “valores da família” soa com um significado
um tanto estranho. Bolsonaro explicou que se tratava do pagamento parcial de um
empréstimo feito por ele ao depositante, Fabricio Queiroz, amigo do futuro presidente.
Na frágil explicação afirmou que o dinheiro só não foi parar
em sua conta, já que ele, Bolsonaro, não tinha tempo de ir ao banco. Apenas esqueceu
que depois da vitória, foi duas vezes a um caixa eletrônico onde posou para fotos
com fãs. Estranho!
Claramente estamos diante de um característico caso de alguém
que faz parte da velha e sobejamente conhecida turma do patrimonialismo. Assim,
a imagem do “mito” está definitivamente arranhada.
Para quem ganhou a eleição com o mote de ser contra “tudo o que
está aí”, verdadeira flôr no pântano, demonstra ser “mais do mesmo”.
O episódio escancara a triste realidade de nossa classe média
que votou em peso no “mito”. Esta é portadora de um moralismo de fachada contra
a “corrupção seletiva” só da política e só da “esquerda”, como assevera Jessé Souza
no livro A Classe Média no Espelho.
Pior. Elegeu um político que representa os interesses e usa dos
mesmos mecanismos ilegais da elite, que a explora e a utiliza como instrumento para
permanecer no poder.
Para a frustração dos eleitores conscientes, as denúncias contra
a família Bolsonaro, mostram que em um ano (janeiro de 2016 a janeiro de 2017),
o motorista movimentou em sua conta 1,2 milhões de reais, dos quais mais ou menos
metade foi dinheiro que entrou e metade que saiu.
É preciso destacar que movimentar recursos em espécie é tido
no mundo policial como uma maneira de tentar despistar as autoridades, pois o destino
da bufunfa não seria nada republicano.
Perguntado sobre tais fatos o futuro ministro da Justiça, Sérgio
Moro, sempre tão severo e atento quando se trata de políticos da esquerda, desconversou
e deu a entrevista por encerrada. Uau! Vem perdão por aí!
Assim é que o “mito” chega ao seu epílogo antes mesmo de assumir
a presidência. Como é tempo de Papai Noel, muitos ainda o enxergam como o arauto
da ética e da honestidade.
Na verdade, Bolsonaro supunha-se o Moisés que conduz seu povo à terra prometida, e vai acabar como o Panúrgio (personagem do romance Pantagruel, de François Rabeais) que se afoga com sua grei.