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Projeto Rio Passo Fundo: educação ambiental em pauta

Um dos trabalhos realizado pelo
Projeto envolveu as escolas de Passo Fundo
e região em ações de educação ambiental.

 

Antes da cidade, o Rio foi berço para os indígenas e levou tropeiros por caminhos recém abertos, serviu de alimento, abrigo e passagem. Pelo Rio, passavam o gado, o couro, o sebo, e parte da gente que desbravava o país no início do século XIX. Antes mesmo de Passo Fundo nascer, o Rio, que dá nome ao município e a sua Bacia Hidrográfica – que abrange 30 municípios –, já aguardava a chegada da cidade e testemunhava a história: a vinda dos índios Caingangues e Tupi Guaranis, do tropeiro paulista, do imigrante, do comércio e da indústria.

É essa importância histórica, cultural e econômica que o Projeto Rio Passo Fundo: patrimônio paisagístico, natural, ambiental, histórico-cultural, econômico e político – desenvolvido pelo Museu de Artes Visuais Ruth Schneider (MAVRS), com o apoio do Museu Histórico Regional (MHR), do Museu Zoobotânico Augusto Ruschi (Muzar) e do Comitê Rio Passo Fundo e realizada a partir do patrocínio do Programa CAIXA de Apoio ao Patrimônio Cultural Brasileiro 2017/2018, busca reconstruir com a sociedade. Ele propõe sensibilizar a comunidade para olhar, de forma diferente, abrangente e consciente, para o Rio Passo Fundo.

O projeto, que envolverá os 30 municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Passo Fundo – desenvolvido durante os anos de 2017 e 2018 –, consiste na realização de exposições e, principalmente, na construção de um banco de dados, constituído a partir de informações obtidas durante as expedições realizadas e, ainda, através do Edital de Mapeamento de Potenciais Informativos que permitirá que a comunidade tenha acesso e conhecimento sobre todas as informações que compreendem a Bacia Hidrográfica. Para a construção das exposições – que serão abertas à visitação no mês de julho – foram realizadas nove expedições aos municípios ribeirinhos ao Rio Passo Fundo, em busca de informações, vestígios históricos e ambientais, onde realizou-se entrevistas e coletas de material biológico para análise e produção de tintas naturais.

Buscando a interdisciplinaridade, o projeto envolve diversos cursos e acadêmicos da Universidade de Passo Fundo, além da participação de vários apoiadores, entidades e instituições da sociedade. Os estagiários, bolsistas e voluntários com a supervisão de professores e da equipe que coordena o projeto, estão auxiliando na elaboração de materiais que irão compor as exposições – maquetes, jogos interativos, banco de dados, compilação de informações e o planejamento das próprias exposições.

 

Ações educativas

Uma sala de aula cheia de alunos com olhares atentos, dispostos a conhecer e a compartilhar histórias, lendas e fatos relacionados com o Rio Passo Fundo. Este foi o cenário encontrado pela equipe do Projeto Rio Passo Fundo não apenas em Passo Fundo, mas, também, nas escolas visitadas na região por onde este rio passa.

O Projeto realizou, desde 2017, diferentes ações que buscaram compreender a visão dos alunos a respeito do Rio Passo Fundo e do meio ambiente, além de fornecer instrumentos e informações a respeito do uso dos recursos hídricos e o impacto que pequenas atitudes podem gerar.

Uma das primeiras ações encaminhadas dentro do Projeto Rio Passo Fundo foi a distribuição de questionários investigativos. Além de serem aplicados nas comunidades e cidades visitadas, os questionários foram enviados para escolas e trabalhados em sala de aula. O retorno aos alunos foi realizado através de palestras e oficinas que abordaram a importância da água para a vida. Além dos questionários, outras ações educativas – aplicação de oficinas, participação em feiras e projetos – foram realizadas. O objetivo é um só: proporcionar conhecimento para a comunidade da Bacia Hidrográfica do Rio Passo Fundo.

Para Débora Bueno, integrante da equipe de metodologia do Projeto, trabalhar a educação ambiental é trabalhar a questão de pertencimento. “O Projeto tem como intuito reconstruir a história desse rio que é tão importante para nós e para 30 municípios que compõe a Bacia Hidrográfica”, inicia. “E só damos valor para aquilo que conhecemos. E a reconstrução dessa história é essencial para que as pessoas comecem a valorizar esse recurso e se sensibilizem diante dele. Costumo dizer que o objetivo é conhecer para pertencer: a pessoa só se identifica com aquilo que ela realmente conhece”, explica.

Kélen Scherer da Costa, que também integrou a equipe de metodologia, acredita que a educação ambiental possibilita que o sujeito compreenda sua relação com o meio ambiente. “Assim, é possível instigar um olhar mais amplo e sensível com as questões sociais e suas transformações. É por intermédio desses processos que as pessoas constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente e para a consolidação de uma sociedade mais justa e equilibrada ambientalmente.”, comenta. “O Projeto Rio Passo Fundo possibilitou a aproximação da equipe, tanto com as crianças, através das ações realizadas nas escolas, quanto com a comunidade. Levou até esses grupos a possibilidade da troca de conhecimento, através de uma construção coletiva”, complementa.

Com a abertura do circuito de exposições, no mês de julho, outras ações serão realizadas dentro dos Museus. “As exposições resultam de todo o processo que passamos no Projeto e vão estar abertas para que as pessoas tenham acesso às informações e percebam a significância e a importância desse. Precisamos conhecer o nosso rio para se sentir parte dele”, conclui Débora.

 

Texto: Sammara Garbelotto

Desfile de fantasmas em tempos de crise

Quando se trata de olhar para o futuro do Brasil,
a crise revela um horizonte sombrio e povoado de incertezas.
Neste caso, a escuridão e a falta de transparência torna-
se terreno fértil para a produção de fantasmas.

 

Tempos de crise costumam dar origem a uma série de medos, dúvidas, apatia, indiferença e não poucas perguntas sem resposta. Do ponto de vista socioeconômico e político, além do desemprego e subemprego, a crise engendra descrédito e desconfiança com respeito ao governo, mas também insegurança e instabilidade frente às instituições. Quando se trata de olhar para o futuro, entretanto, a crise revela um horizonte sombrio e povoado de incertezas. E neste caso, a escuridão e a falta de transparência torna-se terreno fértil para a produção de fantasmas.

Um desses fantasmas é o discurso sobre o retorno dos militares ao poder. Nas últimas semanas, com efeito, seja a partir da intervenção do Rio de Janeiro, seja durante a greve dos caminhoneiros, alguns representantes de alto grau das forças armadas levantaram o tom da voz.

O problema é que, para muitos, crise é sinônimo de caos e desordem. Nessa visão marcadamente conservadora, passa-se o mais rápido possível à necessidade de buscar uma nova ordem, no sentido de restabelecer o status quo. A crise é imprevista e imprevisível, o que significa que o “novo” constitui um perigo a ser imediatamente exorcizado. Ordem e imprevisto são dois inimigos declarados de morte.

Mais do que “caos”, porém, a crise costuma ser uma “encruzilhada” nos rumos da trajetória humana. Um sulco na história pronto para nova semeadura. O conceito de encruzilhada supõe a existências de diversos caminhos e, portanto, a possibilidade de uma escolha, seguida de consequente ação transformadora. Em outras palavras, de um ponto de vista mais aberto e inovador, encruzilhada pressupõe distintas alternativas e a necessidade de uma opção.

Em lugar de uma ameaça, o “novo” representa uma oportunidade de avanço, rompendo com os padrões tirânicos da mesmice. Disso resulta que, enquanto a visão de crise tende a ser obsoleta e retrógrada, a encruzilhada lança-nos em um novo desafio. A primeira tende a bloquear toda e qualquer iniciativa, para defender com unhas e dentesa ordem estabelecida, a segunda toma as rédeas do momento para fazer amadurecer as iniciativas no terreno remexido da história.

Talvez seja isso que está em jogo nas eleições de outubro. Ao invés de usar as trevas para preparar o palco a um verdadeiro desfile de fantasmas, por que não iluminar as nuvens sombrias até o fundo, no sentido de encontrar alguma luz que possa nos servir de semente e de orientação?

A voz alterada de certas figuras das forças armadas ou das autoridades não passam de braçadas de náufragos: tanto mais raivosas, brutais  e desesperadas quanto mais grave a tempestade e maiores as ondas. Por outro lado, o redemoinho da tempestade não é o melhor lugar nem o melhor momento para tomar decisões de longo alcance. Os ventos e as águas revoltas não permitem ver o porto e a luz do farol. Mais sábio esperar pela calmaria, quando o rumo da embarcação pode ser retomado com maior segurança.

Voltemos ao “sulco na história para nova semeadura”. Nesta perspectiva, as eleições ganham nova roupagem. Ao invés de cultivar o medo dos fantasmas, torna-se imperativo acreditar na semente lançada à terra. Temos ainda bem frescas na memória expressões como “trabalho de formiguinha”, “visita às famílias”, “círculos de reflexão e ação”, “comunidades eclesiais de base”, “fortalecer as organizações de base” – entre outras. Daí é que pode nascer a visão inovadora da encruzilhada. São frases que apontam distintas alternativas e que nos chamam a dar uma resposta, a fazer uma escolha.

Mas não só! São sobretudo formas de ação conscientizadora, organizadora e mobilizadora que devem ser cultivadas como se faz a um jardim de flores. Estas, como sabemos, antes de buscar o calor e a luz do sol, buscam o frio e o escuro do solo. Antes de aventurar-se pelo azul do céu, mergulham as raízes no umidade da terra. Antes de respirar o ar livre, nutrem-se do respiro pesado que reina nos porões e periferias da sociedade.

Com fantasmas ou sem eles, qualquer projeto novo de país deve fincar seus alicerces bem firmes na realidade econômica, social, política e cultural. Só assim terá tronco forte e braços rígidos para enfrentar os ventos que varrem continuamente a paisagem do mundo globalizado.

Orientação profissional e educacional na escolha da profissão do ser humano

A orientação educacional nos dias de hoje
extrapola as quatro paredes da escola, vai além
da cultura local e se universaliza cada vez mais.

 

Para falar da orientação profissional e educacional da escola, sempre é bom comungar da concepção grega do ambiente social que gera aprendizagem de qualidade: o verbo ballein (lançar, arremessar), com os prefixos sym (junto, com) e diá (separar, desunir, dividir), pode render uma bela e significativa reflexão sobre a função do orientador em uma escola.

Symbolus remete à confirmação da filição. Assim, a orientação precisa confirmar a unidade, dar o direito, fazer participar. Cada pessoa tem o direito de se exibir, mas também tem o dever de desenvolver a dimensão ética do acolhimento e respeito alheios presentes, espera-se, no projeto político e pedagógico da escola.

Diábolus é o termo que expressa a presença do espírito que tende a dividir, a separar, a desunir. Todos nós somos ao mesmo tempo simbólicos e diabólicos, faz parte da contingência humana. O trabalho do orientador é fazer tender para o simbólico.

Cabe ao orientador educacional fazer prevalecer o simbólico. É dele a responsabilidade de lançar sua presença e suas ações de tal maneira que se crie, se sustente e se aprofunde, na comunidade escolar, o entendimento, a colaboração, a comunhão. Assim, a escola cumpre com suas principais funções (passar o conhecimento de geração para geração e elevar o nível de convivência amorosa) e todos ganham em seu processo de amadurecimento e personificação autônoma.

As dificuldades se avolumam quando a escola está inserida em um ambiente social injusto e regido por políticas que se articulam para manter e ampliar privilégios de alguns grupos.

A vergonhosa e atual realidade política do país, veiculada todos os dias pelos meios de comunicação, é o contraponto negativo do que se espera de uma comunidade escolar. Trabalhar educação nos dias de hoje é remar contra a maré. O orientador precisa ter ciência dessa realidade. Sua atuação deve declinar para a coesão do grupo docente e sua liderança imbuída do ânimus que congrega e impulsiona: a reversão de um processo é sempre difícil, complicada e duradoura.

O caminho a ser percorrido está descrito no Plano Político-Pedagógico da escola. Cabe ao orientador conhecê-lo em profundidade, já que é o norte a ser perseguido. Com esse referencial, todas as ações adquirem caráter convergente, o que vai exigir planejamento prévio. As ações soltas, desconexas estão fadadas ao fracasso.

A força orientadora sempre deve conduzir, à luz do Projeto Político-Pedagógico, ao symbolus grego. Todos são convocados e merecem marcar seus passos na caminhada da comunidade escolar. Outra vez o orientador prima pela solidariedade e ajuda mútua, todos vão se constituindo na relação.

Saber do momento histórico de cada educando, bem como de sua condição social, é fator preponderante para o sucesso da orientação como também para o progresso do estudante em sua vida escolar.

Plantar o espírito de colaboração entre os estudantes é certeza de colheita farta, é preciso mostrar a todos os benefícios que a comunhão gera e o quanto ela melhora as condoções de vida não só dos seres humanos, mas de todas as formas de vida que o planeta abriga. Ninguém mais pode se ausentar do cuidado das condições de vida que o Planeta Terra ainda nos está a oferecer.

A orientação educacional nos dias de hoje extrapola as quatro paredes da escola, vai além da cultura local e se universaliza cada vez mais. É preciso entender que a competição gera miséria, desumanidade e morte. O amor, a comunhão, não é a proclamação da anulação pessoal, e sim sua afirmação, mas também é afirmação e preservação do outro.

Entre as muitas e variadas tarefas e responsabilidades de um orientador educacional, destaca-se a de identificar as dificuldades dos alunos e a busca de possíveis soluções para as dificuldades que se apresentam. O olhar do orientador não pode pairar somente sobre as dificuldades que o aluno revela em seu processo de ensino-aprendizagem, mas se ampliar para além das quatro paredes da escola.

É preciso alcançar a realidade familiar e conhecer as relações existentes entre pais e filhos (responsáveis). Muitas vezes os entraves no processo de aquisição do conhecimento são de fundo emotivo. Toda a ajuda que produz equilíbrio emocional favorece o desempenho intelectual. Aqui, o elogio tem sua vez.

Na relação com a escola, o orientador tem a incumbência de acompanhar o trabalho diário dos professores; participar do reforço escolar dos alunos; analisar e avaliar o rendimento dos alunos; orientar para a continuidade dos estudos e para a escolha profissional e/ou vocacional; acompanhar os alunos incluídos presentes na escola; ministrar palestras aos pais, visando a cooperação entre as famílias e a comunidade escolar, informando sobre o processo avaliativo adotado pela escola e sua prática em relação aos encaminhamentos necessários, dialogar com os pais sobre a permanência ou troca de escola em casos diagnosticados; expedir documentos escolares e arquivar documentos dos alunos.

O orientador educacional precisa compreender a fluidez e a dinâmica da sociedade humana como um todo, contudo há de atentar para as especificidades das comunidades locais, uma vez que toda a realidade pode ser expressa pelas mais variadas linguagens.

A pesquisa se impõe tanto na codificação quanto na decodificação dos sentidos. A meta maior aponta para a qualificação das relações na constituição da personalidade humana, que preserva e promove as dimensões da justiça, da verdade (ainda que relativa), do amor e da vida.

De fundamental importância para uma boa orientação educacional é o orientador conhecer o chão da vidade cada estudante. As muitas e diversificadas realidades familiares que constituem o universo da comunidade escolar revelam a complexidade profissional de um orientador educacional, ainda mais hoje em dia com a inclusão a cargo das escolas.

A investigação e a observação são dimensões vitais com exigência de tempo integral. O que socialmente é instituído como profissão requer, como extensão, a opção vocacional.

Delimitação legal das atribuições do Orientador Educacional

A Lei nº 5564, de 21.12.1968, regulamentada pelo Decreto nº 72846, de 26.09.1973, em seus artigos 8º e 9º define as atribuições do orientador educacional, que ora transcrevo aqui:

“Artigo 8º” –São atribuições do Orientador Educacional:

  1. Planejar e coordenar a implantação e funcionamento do Serviço de Orientação Educacional em nível de: 1 – Escola; 2 –Comunidade.
  2. Planejar e coordenar a implantação e funcionamento do Serviço de Orientação Educacional dos Órgãos do Serviço Público Federal, Estadual, Municipal e Autárquico; das Sociedades de Economia Mista, Empresas Estatais, Paraestatais e Privadas.
  3. Coordenar a orientação vocacional do educando, incorporando-a no processo educativo global.
  4. Coordenar o processo de sondagem de interesses, aptidões e habilidades do educando.
  5. Coordenar o processo de informação educacional e profissional com vistas à orientação vocacional.
  6. Sistematizar o processo de intercâmbio das informações necessárias ao conhecimento global do educando.
  7. Sistematizar o processo de acompanhamento dos alunos, encaminhando a outros especialistas aqueles que exigirem assistência especial.
  8. Coordenar o acompanhamento pós-escolar.
  9. Ministrar disciplinas de Teoria e Prática da Orientação Educacional, satisfeitas as exigências da legislação específica do ensino.
  10. Supervisionar estágios na área da Orientação Educacional.
  11. Emitir pareceres sobre matéria concernente à Orientação Educacional.

“Artigo 9º” –Compete, ainda, ao Orientador Educacional as seguintes atribuições:

  1. Participar no processo de identificação das características básicas da comunidade;
  2. Participar no processo de caracterização da clientela escolar;
  3. Participar no processo de elaboração do currículo pleno da escola;
  4. Participar na composição, caracterização e acompanhamento de turmas e grupos;
  5. Participar do processo de avaliação e recuperação de alunos;
  6. Participar no processo de encaminhamento dos alunos estagiários;
  7. Participar no processo de integração escola-família-comunidade;
  8. Realizar estudos e pesquisas na área da Orientação Educacional.

 

A atividade de orientação, sem dúvida, é uma tarefa complexa, a experiência avoluma o aprendizado, que por sua vez confere maior consistência e segurança ao profissional de orientação educacional. Aliás, esta é uma lei natural da contingência humana, quanto maior a experiência, o exercício, tanto maior será o aperfeiçoamento.

Espera-se de todo o orientador educacional e profissional que faça a opção ética pelo bem, que em sua postura assume ser para-raio, bússola, afeto, enfim, o amor em seu ambiente de trabalho.

Nós é que construímos o caráter político

Essa é uma clave de caráter cultural.
A riqueza está na mente.
Somos nós quem construímos
o caráter político.

 

Se fossemos deuses ou uma espécie de seres perfeitos, não precisaríamos da política. Precisamos da política por causa das nossas imperfeições inevitáveis. Somos seres imperfeitos por natureza e devemos nos fazer exemplo da evolução sempre que possível, no melhor sentido possível, na busca por sobriedade. Somos nós quem construímos o caráter político.

Estamos em uma crise de representatividade.Uma cultura que nasce de carências não se define como pobre por ser aquela que tem tão pouco. A verdadeira pobreza se encontra naquele que tem muito e deseja mais e mais e infinitamente mais. Essa é uma clave de caráter cultural.

A riqueza está na mente. Está na sobriedade, na bagagem leve. Está na sensatez, no que é solidário, na comunicação.

Eu particularmente aprecio uma fala lenta e bem pensada. Quem nunca presenciou uma confusão dialogal que beirava o enfurecer com pessoas que impunham a razão como se estivessem empunhando uma britadeira?

Ou aquela pessoa que não tem o mínimo de sensibilidade com o que sente o próximo. Assim, uma pessoa manifesta sua carência de recursos construtivos e agregadores, pobre por sua negligência. Mas não sejamos hipócritas, em algum momento de nossas vidas já tivemos atitudes parecidas. E é preciso reconhecer.

Uma das poucas certezas que temos é que a base fundamental para termos mais compreensão em um mundo de controvérsias é que precisamos praticar mais a autocrítica.

Tenha paciência. Não tente doutrinar as pessoas. Porque falar de política é importante, é legal e se faz muito necessário nos dias de hoje. Mas sejamos felizes uns com os outros, acima de tudo. 

Busque a autocrítica

Pensemos: como problemas tão complexos, que envolvem toda uma história milenar, podem ser respondidos cruamente? Supondo que o desenho de nossa atual magnitude se construa na trajetória de nossos passos?

A educação, em seu modelo dialogal e libertador, é a mais importante fonte para nos conectar à informação e ao conhecimento, o que se faz essencial para darmos passos sóbrios. A falta dela interfere na boa relação com o próximo e incorpora a índole malfeitora. Faz corromper seu estado sóbrio, fortalecendo seus mecanismos mais primitivos, tomando como exemplo um deles a negação: a negação de termos uma história de escravização; a negação de assassinatos e torturas em um regime ditador;a negação de fraudes; a negação de um golpe…

Você nunca sentiu a sensação da ignorância?

Dizer que a democracia será daqui a 50 anos aquela que conhecemos hoje é negar o espírito evolutivo do homem e da civilização.

Nada democrática a sociedade que não tolera os pensamentos divergentes e que combate as diferentes formas de organização social que querem praticar e viver os ideais coletivos. (Nei Alberto Pies)

Novas ditaduras

Não façamos de nós uma rotulação fútil de esquerda ou direita ao nos comparar com o mundo de interesses que gira em torno de se locupletar.

Como latino-americanos, não podemos negar a nossa história.A integração não é de esquerda nem de direita, é uma necessidade histórica do continente, porque chegamos tarde. O fato é que precisamos nos dar a abertura de nos integrarmos econômica e politicamente. Não vamos a lugar nenhum sozinhos. Como já dizia um grande educador, ”não há saber mais ou saber menos: há diferentes saberes”.

Precisamente, pois esse é o tesouro mais importante que temos… quando lutamos por um mundo melhor, o principal elemento que é a nossa felicidade. De minhas reflexões em relação a humanidade sou um leigo e por vezes indignado. Mas creio que somos todos.

“Não se governa um país como se administra uma empresa. Política tem que ter interesse de carinho humano, de reconhecimento humano. Não pode ser instrumento para acumular riqueza. Deve ser um instrumento para colher o amor social”. Pepe Mujica

Por que o Brasil não é um Uruguai?

Tudo o que escrevi não é contra você e
nem contra o Brasil, viu?
Não estou ofendendo ninguém,
é só um desabafo!

Está na moda escrever desabafos, então, como não sou anacrônica, faço também.

Eu juro que gostaria de morar no Uruguai, onde o povo é calmo, é pobre, mas de cabeça erguida e catedrático, aprova leis que aqui são inconcebíveis, pelo simples fato de que estão dentro do seu tempo, sem falsos moralismos.

Fico com inveja de ver um povo que vê as coisas com generosidade, que olha para o outro e torce para que seja feliz, mesmo que case com alguém do mesmo sexo, não havendo necessidade de paradas gays.

O povo uruguaio tem crianças conectadas à internet há anos e fornece notebooks às crianças desde os sete. O presidente uruguaio, de cabeça erguida, incita seu povo a estudar, muito, porque ele quer fornecer ao mundo pessoas de excelência.

Tive uma amiga uruguaia, há mais de 30 anos atrás, que era uma pessoa diferenciada, pianista formada e pós graduada, que aqui no Brasil costurava para fora, por que aqui não aceitaram seus títulos. Ela, sem saber, ensinou-me muita coisa sobre como ter filhos que gostam de estudar. As crianças dela tinham prazer com as pesquisas, com os mapas que desenhavam, com as maquetes que faziam, mesmo que o professor não pedisse. E ela não encarava aquilo como algo extraordinário, mas como normal, coisa de criança fazer mesmo.

Aqui não! Se alguém estuda mais e se destaca é CDF, sofre até bulliyng. Aqui, suporta-se que se roube tanto, que as cifras escapam da nossa capacidade de contagem e importam-se e muito, com as migalhas que o governo destina para a erradicação da fome.

Aqui a gente não entende que renda mínima é dever do Estado, gente! Aqui, a gente acha que há uns mais humanos do que os outros, por que falam em Direitos Humanos como se a expressão fosse um desaforo, ou palavrão.

Se a gente não fosse ignorante, não precisaríamos de leis novas, porque, sendo humanos, enxergando quem está ao nosso lado e respeitando a constituição, tudo estaria resolvido.

E isso tudo o que escrevi não é contra você, viu? Não estou ofendendo ninguém, é só um desabafo!

Conversa com Bial – Pepe Mujica.

 

Busque a autocrítica

Tenha paciência. Não tente doutrinar as pessoas.
Porque falar de política é importante, é legal
e se faz muito necessário nos dias de hoje.
Mas sejamos felizes uns com os outros,
acima de tudo.

 

Todo discurso eleitoreiro político é mutável com o tempo, com os acontecimentos… tanto da esquerda quanto da direita, isso é política. Não faça dessa ilusão partidária uma doutrinação cotidiana. Isso cega e te fere, te contamina e o que mais preocupa: te adoece. Você fica mais propenso a promover o ódio, a agir compulsivamente e a fortalecer o seu preconceito.

O que eu proponho fazer aqui é uma reflexão sucinta.

Sabemos que o sentimento de injustiça é enorme dentro de todos nós que acompanhamos tudo o que se passa, e devemos lutar por aquilo que prezamos ser o certo. Lute. É importante. E seja flexível, seja inteligível. Todo mundo erra e precisamos respeitar isso! Às vezes, não é necessário provar o tempo todo, para todo mundo, o quanto você é coerente a qualquer custo e que precisa provar que está com a razão sempre. Isso cria uma necessidade em sentir prazer pelo conflito e esquecer do que deve ser construído a partir daqui.

Tentar construir, e não conflitar, pode ser um bom avanço para própria saúde mental. Permita-se compreender o que o outro está falando. Escute mais. Tente fazer o máximo para que o diálogo seja proveitoso, mesmo que esteja falando com aquela pessoa difícil de se manter um papo reto.

Tenha paciência. Não tente doutrinar as pessoas. Porque falar de política é importante, é legal e se faz muito necessário nos dias de hoje. Mas sejamos felizes uns com os outros, acima de tudo.

Ou pelo menos tente. Tentar ser mais permissível, compreensível e manter a criticidade como um ato construtivo, é um passo evolutivo.

Uma ideia bem bacana que pode serpropícia no nosso dia-a-dia: busque a autocrítica.

O orgulho é um fator interessante quando tocamos neste assunto, pois parece que, automaticamente você mostra sua vulnerabilidade ao admitir seus erros, o que pode ser usado contra você por algum tipo de oposição. Isso, tomando aqui uma dose de ciência, é devasto. A definição de uma má cultura. É um tabu que precisa ser quebrado.

“Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Que tal mudarmos o mundo começando por nós mesmos?”(Martin Luther King)

Afetos em tempos líquidos e a ilusão que vivenciamos

Somos seres humanos com esperanças e desejos.
Agora pergunto: Será que a esperança e a
ilusão estão numa linha tênue?

 

Como de conhecimento literário, sabemos que a maioria dos textos brota como um insight na mente do escritor, com esse texto não poderia ser diferente, porém ele brotou na sala dos professores, quando me deparei com um colega degustando sua refeição rápida no intervalo da manhã para tarde. Por ele estar comendo apressadamente, pois logo o sinal anunciaria o início das atividades do turno da tarde, não me surpreendeu, porque na vida de um trabalhador passa, inclusive, despercebido, porém o que me prendeu o olhar foi que ele estava comendo umas folhas de rúcula, queijo branco e frutas. Não me contive, logo, abordei-o: – Professor, isso te sacia a fome? Ele sem hesitar me respondeu: – A vida é uma ilusão e a gente se ilude com tantas coisas! Frente a essa resposta do colega surge um insight para escrever este texto que hora você lê.

Assim, com essa resposta, o colega me desestabilizou. Desestabilizar significa para um escritor, o provocar para a escrita. Será que a vida é uma ilusão? Vivemos de ilusão? Ilusão ou desilusão? Tudo o que vivemos torna-se ilusório? Questões que permearam  automaticamente meu cérebro.  E decidi escrever uma crônica para compartilhar essa reflexão.

Somos seres humanos com esperanças e desejos. Agora pergunto: Será que a esperança e a ilusão estão numa linha tênue? Precisamos de certas ilusões? Precisamos acreditar em algumas ilusões que são desejos de aperfeiçoamento humano na terra? Eu quero trazer aqui, segundo a minha concepção uma divisão entre ilusão/desejar/querer/crescer de ilusão/acomodação/tapar os olhos.

Assim, quando ouço ou dizemos que este ano perderei tantos quilos. A ilusão de encontrar nossa cara metade. Que aquela música vai aliviar a dor. Que poderemos mudar o mundo. Que o casamento vai durar até que a morte nos separe. Que a juventude tem jeito. Que a educação é a essência social. Que a leitura transforma. Que é com a luta que conquistamos direitos. Que podemos acreditar no ser humano ou ainda que os sonhos não são mentiras. Isso tudo, me faz entender que essa ilusão, na verdade, é a esperança que trazemos dentro de nós.

Quem seríamos nós se não acreditássemos que a cada dia podemos ser melhores ou que o mundo pode ser melhor a cada dia vivido. Quem seríamos nós se não tivéssemos ilusões que se transformam em esperança?

Realmente vivemos em tempos líquidos, segundo teoria de BAUMAN. Teoria essa que traz tal denominação porque os líquidos não mantém sua forma com facilidade, não fixam espaço nem prendem o  tempo, não se atêm muito em qualquer forma, movem-se facilmente. Os afetos são líquidos, a felicidade efêmera, os relacionamentos se dissolvem. Isso é o que chamo de ilusão/acomodação. Acreditar que a roupa trará a felicidade. A marca estabelecida por uma grande empresa me fará alguém de prestígio. Se pudesse comprar aquele carro seria feliz. Se fulano/fulana me quisesse encontraria a felicidade. Isso tudo se resume em sentimentos líquidos. Líquidos estão nos olhares ilusórios do consumismo.

A vida se torna líquida quando esquecemos e ignoramos o céu, a lua e as estrelas.

Por outro lado, podemos observar essa geração líquida que não é de todo ruim, pois consegue adaptar-se com mais facilidade. As mudanças não os incomodam. Porém o que cabe a nós é trazer o equilíbrio entre o passado e o presente porque não podemos ser totalmente líquidos, nem totalmente sólidos.

Essa geração precisa entender que os valores têm de ser sólidos. O amor é sólido. O afeto deve ser sólido, para que a vida emocional não se lidifique. Nem tudo que é passado é ruim. Para construir nossa identidade, precisamos de solidez e não de liquidez. Para dominar o que virá precisamos dominar o presente e buscar base no passado. Por isso, nem tudo pode representar “mico”, por exemplo: tomar chimarrão não é perda de tempo.

Conversar com a família só ajuda. Passear num parente pode ajudar trazer identidade. Rever amigos distrai as tensões cotidianas. Dançar pode ser um momento de construção psicossocial. Pois as ilusões que trazem negatividade estão na vivência, que muitas vezes, não percebemos. As mensagens são descartáveis. As escritas são efêmeras. Os sentimentos efêmeros. Guardar coisas é ultrapassado.

Depois de tudo isso, fica a folha que cai para brotar outra e não para morrer. A noite que traz a noite não para entristecer, mas para percebermos o sol. Mantemos o que vale para florescer não só para iludir. Ilusão para acreditar. Para lutar. Para sermos melhores. Seremos líquidos para a mudança de atitude positiva. Líquido que transforma em sólido os sentimentos, os afetos e a felicidade. Esperança que aviva a alma e o coração. Jamais ilusão que nos tapa os olhos e nos acomoda.

Hoje e sempre, Marielle Presente!

Essas balas não podem matar as nossas ideias.
Elas não podem matar o sentimento de mudança que
brotou em milhares após calarem essa
representação de luta.

 

No dia 14 de março de 2018 fui surpreendida com a terrível notícia de que a vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco foi brutalmente assassinada. Executada no centro do Rio de Janeiro após nove tiros serem disparados contra o seu carro. Anderson Pedro Gomes, motorista da vereadora no dia do crime, estava na linha de tiro e também teve a vida ceifada neste episódio.

Marielle representava uma grande parcela da população carioca, foi a quinta mais votada da cidade. Representava um conjunto de ideias que defende as minorias (sociais), que busca igualdade e justiça. Era mulher, negra, lésbica e favelada. Estava ocupando um espaço de poder que há séculos tentam deixar o mais distante possível desta parcela da população.

Marielle era socióloga. Em sua dissertação de mestrado estudou as Unidades de Polícia Pacificadora no Rio, as UPPs. Ela se preocupava com o fato de o Brasil ser o país em que a polícia mais mata e mais morre. Era militante de Direitos Humanos e atuava diretamente com as famílias de policias assassinados na guerra carioca. Se preocupava com os outros seres humanos, com a sociedade, com o próximo.

Gritava bem alto que nem todo favelado é bandido e que nem todo bandido é favelado. Na atual conjuntura, por exemplo, o país está toda essa bagunça por planos orquestrados por bandidos moradores de condomínios chiques e pele clara, bem diferente da realidade na comunidade.

Defendia o direito das mulheres. Levou a discussão de gênero para a favela, empoderou aquelas mulheres. Discutiu com elas a maternidade da mulher trabalhadora. Não baixava a cabeça e não admitia que interrompessem sua fala, prática comum na sociedade machista que a gente vive.

Marielle me representa, muito. Lutava por tudo que eu acredito, se elegeu após uma campanha popular, sem compromisso com empreiteira, com grandes corporações, para ter que pagar a conta depois. O único compromisso de Marielle era com o povo que ela representava e que a elegeu. Seu único compromisso era com as pautas que acreditava.

Ao denunciar o abuso das Forças Armadas no Rio e a violência desnecessária utilizada contra os moradores da favela, Marielle cutucou um sistema podre. Logo após questionar o desempenho de um serviço público, que não estava cumprindo seu papel de maneira adequada e sem gerar qualquer resultado positivo, foi alvejada com balas de calibre 9mm.

A morte de Marielle, assim como outras mortes políticas na história, é um recado daqueles que sempre mandaram para aqueles que sempre obedeceram no país. Um recado dizendo que estes lugares não são para nós e que se chegarmos lá devemos ficar de boca fechada.Não foi um incidente, foi um assassinato e aguardamos que se descubram os culpados.

A morte de Marielle foi uma perda irreparável. Mas Marielle não era um único ser a defender estas pautas, estas pessoas. Essas balas não mataram suas ideias.  Essas balas não podem matar as nossas ideias.Elas não podem matar o sentimento de mudança que brotou em milhares após calarem essa representação de luta.

Eu sou porque nós somos, ela dizia o tempo todo. E mesmo sem ela, nós seguimos daqui.

Marielle, presente! Anderson, presente!

Não à intervenção militar

Não sejamos ingênuos a ponto de achar que
os militares venham resolver os problemas que nossos melhores
quadros políticos, nossas melhores organizações políticas,
têm dificuldade de fazer.

 

Nesses últimos dias tenho pensado muito. Várias pessoas têm me provocado para produzir uma posição a respeito do que temos assistido, ouvido, acompanhado no nosso país. Então, resolvi escrever esta reflexão como colaboração à reflexão e ao debate, sobretudo movido por essas chamadas que temos visto em todo canto pedindo “Intervenção Militar Já”. Acho que isso merece uma reflexão e um posicionamento sério, consistente, contundente.

Pessoas democratas, pessoas que valorizam os direitos humanos, pessoas que apoiam o respeito à dignidade, pessoas que apóiam a luta social, o respeito à pessoa humana, não podem pactuar com esse tipo de solicitação.

Pedir intervenção militar significa acreditar que nós, cidadania, não temos condições de resolver nossos próprios problemas e precisamos recorrer a uma força que, nós mesmos, como cidadania, constituímos para nos ajudar a nos proteger naquelas situações de maior ameaça e de violência, particularmente de violência externa. É para isso que existem Forças Armadas.

Então, é, na minha avaliação, primeiro, um atentado contra a consciência democrática, e, segundo, uma declaração de falência ou de incompetência cidadã.

Muitas pessoas têm dito: “não, mas gente não quer uma ditadura militar, só quer uma Intervenção Militar”. Espera aí, o que é isso? Intervenção Militar está prevista na Constituição, é verdade, como está acontecendo no Rio de Janeiro, por exemplo, no caso da Segurança Pública. Mas isso é apenas em situações absolutamente excepcionais e dentro de um contexto bem particular e específico. Não é o caso do que essa gente está pedindo. O que essas pessoas estão pedindo é um Golpe Militar, ou seja, que os militares assumam o poder do país, como já fizeram em outras épocas, sobretudo em 1964.

Dizem: “não, mas se o povo pede, pode fazer, já que o poder emana do povo”… Quem advoga Golpe Militar, advoga a destruição da democracia. Por quê? Porque, efetivamente, ao assumir um governo dessa maneira rompem-se os processos democráticos, rompe-se aquilo que a Constituição brasileira determina ser o processo através do qual o povo, e cada um e cada uma de nós, exerce o poder.

Claro que o poder emana do povo, mas o poder será exercido conforme aquilo que a própria sociedade, aquilo que o próprio povo, no processo Constituinte, estabeleceu como regras fundamentais inscritas na Constituição para que esse poder seja exercido, ou seja, com processos eleitorais, com alternância do poder e outros mecanismos.

“Ah, mas não teve ditadura no Brasil”. O que é isso? Quem governou o país de 1964 a 1985 se não foram militares. Foram eleitos por acaso pelo povo? Não. O Parlamento nesse período foi eleito pelo povo? Não. Ou seja, objetivamente, o poder deixou de emanar do povo.

Quem pensa em Intervenção Militar, sob esse ponto de vista está defendendo Ditadura, Ditadura Militar – não tem outro nome, apenas pode ser um eufemismo –, e isso não faz bem para ninguém. Aliás, não se cura a democracia, e a democracia pode ter muitos problemas, com menos democracia. SÓ SE CURA DEMOCRACIA, COM MAIS DEMOCRACIA. Só se cura liberdade, com mais liberdade. Só se cura injustiça, promovendo a justiça.

Só a democracia nos permite alargar os horizontes das ideias que estamos construindo na história. Somente ela é capaz de considerar as contradições dos pensamentos, para aperfeiçoá-los. Por conta disso, convivemos em permanente tensão entre aqueles que querem fazer das ideias exercício de liberdade e aqueles que gostariam de dizer aos outros “o que podem e devem pensar e fazer”.

Novas ditaduras

Enfim, se esses elementos todos são básicos da nossa compreensão, então acho que não dá para a gente conviver com esse tipo de oportunismo político, populismo político, sem-vergonhice política, que quer enganar os pobres achando que, com isso, vai produzir uma solução rápida, fácil, que resolva todos os problemas. Resolveremos nossos problemas, sim, na medida em que, como cidadania, formos capazes de tomá-los a sério em nossas mãos, a enfrentá-los como problemas nossos, como problemas comuns, como problemas a serem resolvidos por todos e todas.

A crise do abastecimento, a crise dos combustíveis, não tem a ver só com a incompetência e a incapacidade desse governo – que é fruto de um golpe. Tem a ver também com a lógica toda do mercado internacional que joga os combustíveis num campo fundamental de acumulação de riqueza, por isso é que a Petrobras, que agora está a serviço do grande capital internacional, prefere especular vendendo petróleo in natura e comprando petróleo refinado, a custo muito mais caro, onerando o povo brasileiro, a fazer uma política decente que dê efetivamente apoio às condições de vida do povo brasileiro. Então, são opções políticas condicionadas por lógicas de mercado. E elas são parte da política, não nos esqueçamos.

Não vamos ser ingênuos a ponto de achar que os militares venham resolver os problemas que nossos melhores quadros políticos, nossas melhores organizações políticas, têm dificuldade de fazer.

Se temos dificuldade de fazer porque atravessamos esse momento difícil da história, aprendamos com ele e acumulemos consciência e força para seguir lutando, para seguir se organizando, para seguir fazendo da democracia, para seguir fazendo da liberdade, para seguir fazendo da Justiça, para seguir fazendo dos direitos humanos LUTA PERMANENTE e não concessões por qualquer razão que seja.

É isso que me ocorre dizer nesse momento tão difícil, mas que, ao mesmo tempo, exige que a gente assuma posições claras, consistentes e consequentes.

Nossos maiores resíduos

Seremos capazes de assumir todos os resíduos,
inclusive aqueles que “incomodam muito mesmo sem aparecer”?

 

Está mais difícil viver e conviver em nossas cidades. O trânsito agitado e massacrante, a correria cotidiana, o stress e a pressão por produtividade em todas as áreas e atividades vêm tirando o nosso bem-estar e nos deixando estafantes, tensos e insatisfeitos.

Neste mesmo ritmo, temos consumido a natureza, tirando-lhe muito além do que a mesma pode nos oferecer, gratuitamente. Já construímos uma consciência pela necessidade definitiva de uma vida sustentável, mas ainda agimos diante dos recursos da natureza mais por etiqueta do que por ética. Construímos o inferno, pensando que podemos viver um paraíso mesmo que seja transitório e momentâneo.

Realizamos regularmente grandiosas conferências, importantes encontros de discussão e de debates, assinamos protocolos politicamente corretos, mas não somos ainda capazes de promover posturas e atitudes gratuitas e comprometidas com a nossa sobrevivência e a sobrevivência planetária.

Até quando deixaremos escapar, nos interstícios de nossos discursos, o compromisso ético em defesa de todas as formas de vida antes de qualquer outra questão? Aliás, para viver eticamente nem precisaríamos de discursos, precisamos enfrentar a coerência de nossas ações e pensamentos.

“Há o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; não há o suficiente para a cobiça humana”. (Mahatma Gandhi, hinduísta)

Afirmações como “avançamos muito pouco” ou “erramos mais do que acertamos nos últimos anos em relação ao cuidado do meio ambiente e o destino dos resíduos” parecem ser insuficientes para despertar na gente cobranças e responsabilidades mútuas: do poder público, dos cidadãos e da sociedade.

Água, solo e alimentos saudáveis são a tríade sagrada que está na base da sobrevivência humana e planetária, mas o nosso discurso e prática ainda não incorporou a ética do cuidado, nem o respeito ao sagrado (porque gerador de vida) que se manifesta nestes.

“Não é a terra que é frágil. Nós é que somos frágeis. A natureza tem resistido a catástrofes muito piores do que as que produzimos. Nada do que fazemos destruirá a natureza, mas podemos facilmente nos destruir” (James Lovelok).

A afirmação: “o lixo é nosso e é um problema social” parece dizer tudo, em todos os sentidos. Quanto ao lixo material, já descobrimos destinos como a reciclagem e o reaproveitamento, na medida em que ele pode gerar algum dinheiro.

Quanto ao lixo da mente e dos nossos pensamentos, ainda não sabemos o que fazer. Reciclar ou reaproveitar, neste caso, não vai muito efeito.

Seria o caso de nos reinventar, concebendo-nos pertencentes às mesmas matrizes que originam e permitem a vida? Como sugere Leonardo Boff, “queremos (e precisamos) de uma justiça social que combine com a justiça ecológica. Uma não existe sem a outra”.

“A diferença está entre os que pregam a ética e os que pregam a etiqueta como formas de colaborar com a sobrevida do planeta, entre quem se dispõe a promover mudanças na organização econômica e social e entre aqueles que buscam compensar o planeta com “atitudes politicamente corretas”.

Meio ambiente: cuidados por ética ou por etiqueta?

Como alguém já sugeriu, a saída deveria ser a redução da produção dos resíduos. Resta saber como fazer isto, sem mudar o nosso modo de viver. Estaríamos dispostos a diminuir o consumo, vivendo e sobrevivendo com o “essencial que a vida e a natureza naturalmente estão sempre dispostas a nos oferecer, gratuitamente”?

Seremos capazes de assumir todos os resíduos, inclusive aqueles que “incomodam muito mesmo sem aparecer”? O meio ambiente, no entanto, precisa mais de nossas respostas do que de nossas perguntas.

Leonardo Boff e o conceito de sustentabilidade.

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