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Família: se esta moda pega!

Família não é uma “moda passageira”,
mas é o espaço que criamos para nos humanizar.
Humanizar é nosso maior trabalho humano.

 

Somos, em maioria, movidos por modismos. Adesivar carros com desenhos da família virou moda por afirmar família como nosso maior “porto seguro”. Mas para esta idéia surtir efeitos para além da estética, é importante perguntar sob quais condições estruturais, sociais e culturais estão postas as nossas famílias, sob pena de frustrarmos as nossas expectativas para com elas, as famílias, e para com a referida moda.

Família Feliz foi uma campanha, uma moda, onde milhares de carros foram adesivados no Brasil, em 2011 e 2012.

A exaltação do amor pela família, por mais interessante que seja, por mais sucesso e adesão que já tenha ou venha a ter, pode contribuir para sobrecarregar a família, mais uma vez, com todo o peso da desestruturação social que o nosso mundo está produzindo.

Não resolvemos mais os dramas das pessoas pelo discurso fácil da solução de todos os problemas passarem pela família. É a própria família que precisa ser resgatada e re-significada em seu papel e função social em nossos tempos.

O que a sociedade tem feito, através de suas instituições, é cobrar da família uma responsabilidade que ela sozinha não tem mais como arcar. Por estar fragilizada, envolvida em imensos desafios de convivência, a família reclama de cuidados, zelo e proteção, invertendo-se uma lógica sempre alimentada e projetada por todos.

Livro “Conviver, educar e participar: nos palcos da vida”, lançado na 28 Feira do Livro de Passo Fundo.

A revolução industrial gerou nas famílias o primeiro grande impacto na medida em que homens, mulheres e filhos passaram a dedicar-se mais a seu local de trabalho do que a sua própria casa.

Com a revolução tecnológica e da eletrônica, substituiu-se a convivência e o diálogo entre os membros de uma família pela escuta passiva do rádio, da televisão e da internet. Hoje, mais do que nunca, vivemos a afirmação de nossas individualidades a partir de um vazio existencial e histórico. Não contam mais a memória, a coletividade, a convivência. Conta agora sermos livres: sem vínculos com nada e com ninguém.

“Numa época em que uma noção errada de liberdade, muito divulgada, leva a não contrair vínculos e a quebrar com facilidade os vínculos contraídos, é oportuno recordar que a liberdade é, na sua forma maior, liberdade de nos amarrarmos. É esse o significado de “criar laços”. (Paulo Geraldo)

A família não é um produto para a gente oferecer como solução para os reais problemas do ser humano e da humanidade. Se ainda acreditamos nela como um “porto seguro”, como referência para a vida pessoal e comunitária, precisamos investir nosso melhor tempo e nossas melhores energias para que ela possa cumprir com esta expectativa que temos dela. Esta é uma opção que a sociedade precisa fazer, garantindo todos os apoios, programas e investimentos que forem necessários.

O amor é a mais revolucionária das armas que a humanidade já construiu para gerar seres humanos livres, solidários, abertos, comprometidos com a defesa e promoção da vida.

Não acreditamos na mera verbalização deste nosso desejo de amar a família, mas acreditamos que possamos, de forma individual e coletiva, adotar posturas que promovam a convivência, a integração e a troca de saberes e de experiências no nosso ambiente familiar.

Promovamos a família como o melhor espaço de convivência  para nos fazermos gente. Acreditemos que a família, ao ser vivenciada pela gente, também é promovida.

Adesivemos nossos carros com as caricaturas de nossa família, mas não esqueçamos de comprometer o nosso coração, a nossa alma, as nossas energias. A família não é uma “moda passageira”, mas é o espaço que criamos para nos humanizar. Humanizar é nosso maior trabalho humano.

Por uma gota de gasolina

A guerra do petróleo dos ‘acionistas’ de
Pedro Parente X caminhoneiros é parte da
nossa guerra na busca permanente de mais atraso.

Petróleo é política de Estado em qualquer lugar, mesmo onde não exista petróleo. Não é política de governo golpista em favor de ‘acionistas’ de uma empresa que deveria ser de todos.

O petróleo move os americanos atrás de guerras e mais guerras. Sempre mataram civis por petróleo. É assim que tentam se apropriar da Venezuela há séculos. Aliam-se ao que existe de pior no mundo árabe por causa de poços de óleo.

No Brasil, destruíram a estrutura de produção da Petrobras, sob a alegação da caçada moralista e seletiva a corruptos, e saquearam o pré-sal para que o golpe fosse completo.

Mas agora o golpe pode ser golpeado pelo próprio golpe. Não é preciso ter CIA, nem FBI, não é preciso nada de mais sofisticado do Exterior para que o Brasil arcaico se mobilize por seus interesses e suas crueldades.

O que se move, desde antes do agosto de 2016, é este Brasil atrasado, ainda escravista, machista, racista, homofóbico, xenófobo, que odeia pobres, negros, índios.
A guerra do petróleo dos ‘acionistas’ de Pedro Parente X caminhoneiros é parte da nossa guerra na busca permanente de mais atraso.

E o que eles pensam do povo? O povo que entre na fila atrás de uma gota de gasolina.

Exageros de um dia de corrida a supermercados e lojas, por causa do medo do desabastecimento. Seu Mércio viu uma avó numa livraria, com o neto ao lado, comprando 150 envelopes de figurinhas da Copa.

Viu a avó enfiando os pacotes numa sacola, olhando para os lados como se estivesse guardando um tesouro, enquanto o neto dizia:

– Só falta vir um monte de Messis repetidos.

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Seu Mércio me disse que, em alguns supermercados, o cenário é o mesmo do romance O Ensaio sobre a Cegueira, do Saramago.

Com a diferença, segundo ele, de que aqui todos fingem que estão enxergando.

Sebastião Salgado: um parceiro da vida!

A formação humanista de Sebastião Salgado é o combustível que move seu olhar
para encontrar as falhas éticas que dizimam fatias da humanidade, quilômetros de florestas, assim como nossa sensibilidade para reconhecer o que realmente tem valor.

 

Ele é um homem de formação marxista, luta pela causa em que acredita baseado em setenta anos de lucidez, sensibilidade e um amor duradouro por sua mulher e parceira a arquiteta Lélia. Foi ideia dela reflorestar a fazenda dos dois em Minas Gerais, que encontraram devastada, após voltarem do exílio. Hoje é uma reserva invejável.

Foi de Leila que Sebastião ganhou a primeira máquina fotográfica, o que o encorajou a abraçar sua paixão pela fotografia. Com a máquina começou uma trajetória de denúncias sociais contra a vida e a saúde do planeta e das pessoas. Seu olhar de compaixão alcança questões graves como a causa indígena, dos sem-terra, do êxodo de refugiados, de bombeiros banhados em óleo combatendo as chamas dos poços de petróleo do Kwait.

O Sal da Terra: Sebastião Salgado.

A formação humanista de Sebastião Salgado é o combustível que move seu olhar para encontrar as falhas éticas que dizimam fatias da humanidade, quilômetros de florestas, assim como nossa sensibilidade para reconhecer o que realmente tem valor. Sebastião dá-nos o epíteto de “cruéis conosco mesmos”.

Uma das marcas fortes da minha trajetória é o impacto que a série “Terra” provocou em mim e que conheci quando meus filhos ainda eram crianças. Comprei o livro com a coleção de fotos e textos, que não tive coragem de mostrar no primeiro momento a eles, tal a brutalidade que transparece nas fotos dos acampamentos de sem-terra.

As imagens de crianças sofridas e de seus pais movidos pela esperança, mas massacrados por um dia a dia miserável me fizeram guardar o livro por algum tempo. Logo as crianças o descobriram e hoje ele figura na biblioteca do nosso filho mais velho, o que me enche de orgulho.

Hoje não vejo o fotógrafo como um subversivo, nem um homem de esquerda, contrariando o que pensava dele na época de Terra. Vejo-o como alguém que lê o mundo como ele realmente é.

Temos acompanhado a transformação do Mar Mediterrâneo em um cemitério de crianças e adultos, que procuram desesperadamente um lugar para viver. Eles refletem o que Salgado retratou em Êxodos, outra obra de impacto. Acerca desse trabalho ele escreveu: “Minhas fotos foram tiradas porque pensei que o mundo inteiro devia saber. É meu ponto de vista, mas não obrigo ninguém a vê-las. Meu objetivo não é dar uma lição a ninguém nem tranquilizar minha consciência por ter despertado algum sentimento de compaixão em outrem. Fiz essas imagens porque eu tinha uma obrigação moral, ética, de fazê-las. Alguns me perguntarão: em tais momentos em que estou diante de alguém que está morrendo é quando decido ou não se tiro a foto”.

Ler o mundo está ao alcance de todos nós. Ter uma visão global e estar atento ao outro é algo cheio de possibilidades. No entanto, a maioria de nós está longe de conseguir a abrangência de Sebastião Salgado, para ver o que acontece in loco, denunciar e fazer alguma coisa mundialmente visível. Mas temos o aqui e o agora.

Cada um de nós tem sonhos, aspirações, sensibilidades. Cada um de nós ainda acredita poder agir para corrigir injustiças. Resta-nos olhar para os lados, arregaçar as mangas e fazer deste mundo um lugar melhor, a começar pela nossa própria casa, pela nossa família, pelo nosso quarteirão, pela nossa cidade.

Fernando Morais entrevista Sebastião Salgado.

VI Jornada de Extensão do Mercosul: fortalecendo redes e o intercâmbio extensionista

Representantes da Universidade de Passo Fundo

Para Bernadete Maria Dalmolin, além de construírem conhecimentos,
as Jornadas de Extensão são intensas vivências que demarcam
nossa existência como pessoas, cidadãos, extensionistas, professores,
fazendo do lugar das universidades espaços diferentes de ser e de viver.

 

Entre os dias 25 a 27 de abril de 2018 aconteceu a VI Jornada de Extensão do Mercosul (JEM) na cidade de Tandil, província de Buenos Aires, Argentina, na Universidad Nacional del Centro de la Provincia de Buenos Aires (UNICEN).

Desde 2010, as Jornadas de Extensão são organizadas de forma conjunta entre a UNICEN e Universidade de Passo Fundo através de uma parceria que se consolida através da atual Política de Internacionalização. Em 2010, partiu-se de um trabalho envolvendo dois países, com a parceria entre a UPF e UNICEN.

A sexta edição da JEM teve como linhas temáticas: Contextualização da Extensão, Práticas Extensionistas e a Gestão Universitária. Também comemorou os 100 anos do Manifesto de Córdoba, movimento realizado em 1918 por estudantes universitários que buscavam uma reforma universitária com sua participação efetiva para o cumprimento da função social da universidade, buscando garantir espaços de co-governos.

Ao longo das Jornadas, a participação dos países do Mercosul foi se ampliando, chegando nesta sexta edição com 12 países presentes, reunindo-se com o objetivo de fomentar o compromisso universitário com a sociedade, estimulando o trabalho conjunto e coordenado com os distintos atores governamentais, sociais, produtivos, educativos, científicos e culturais dos países do Sul.

Fortalecendo a perspectiva latino-americana de conhecimento em extensão, o evento contou com 644 trabalhos apresentados em 32 mesas de debate que ocorreram de forma simultânea, com uma metodologia participativa, envolvendo os atores da sociedade e os universitários.

A Universidade de Passo Fundo (UPF) foi representada por um grupo de 82 extensionistas, entre gestores, professores, estudantes e funcionários da instituição. A participação do grupo se deu por meio de diferentes inserções, em apresentações de trabalhos, oficinas, debates, painéis, rodas de conversa e conferências.

As experiências extensionistas dos diversos territórios contemplados pelos programas e projetos de extensão da UPF, foram representadas por mais de 70 trabalhos enviados e apresentados nos dias da JEM.

Para os representantes da UPF, a participação na VI JEM foi uma experiência de aprendizagem que transcende o conhecimento construído no ambiente acadêmico. Ao colocarem-se como protagonistas de suas práticas extensionistas, conectam os saberes universitários à realidade social das comunidades e seus territórios, transformando seu fazer e agir perante o mundo, em uma perspectiva mais sensível e humanizadora que constrói conhecimentos com o outro. Este é um compromisso da extensão universitária que tem consolidado as Jornadas ao longo de suas edições.

Para Vice-Reitora de Extensão e Assuntos Comunitários da UPF, professora Bernadete Maria Dalmolin, além de construírem conhecimentos, as Jornadas de Extensão são intensas vivências que demarcam nossa existência como pessoas, cidadãos, extensionistas, professores, fazendo do lugar das universidades espaços diferentes de ser e de viver.

As Jornadas não são um evento em si, mas parte de um processo permanente construído na UPF, com a rede de instituições brasileiras e com as instituições de todos os países que circulam e se agregam a estas redes. Através dessa troca e integralidade que é possível fazer uma formação diferenciada, qualificada, a altura dos nossos povos.

A VII Jornada de Extensão do Mercosul já está confirmada para ser realizada na UPF, em maio de 2019, com o objetivo de fortalecer cada vez mais as redes e intercâmbios extensionistas.

Cerimônia de abertura da VI Jornada de Extensão do Mercosul

 

Representantes da Universidade de Passo Fundo

Autoras: Lisiane Ligia Mella e Roberta Aparecida Borges Brito Dal Paz – Divisão de Extensão – Universidade de Passo Fundo

A violência não é de Deus

Religiosa e teologicamente, a violência é o mal
a ser evitado e superado em nome de Deus,
pois Deus é o antimal por excelência.

 

Eticamente, a violência é o que não deveria ser, o que não é bom que aconteça. Antropologicamente, é preciso fazer uma distinção entre agressividade e violência.

Somos um animal agressivo por natureza, mas não somos violentos naturalmente. A violência é uma opção e não um destino e uma condenação, tal Sísifo, condenado a carregar eternamente a maldita pedra.

Em outras palavras, a violência em nós é uma possibilidade de ser, uma escolha, e não uma condição natural ou uma condição ontológica. Religiosa e teologicamente a violência é o mal a ser evitado e superado em nome de Deus, pois Deus é o antimal por excelência. Entender Deus como antimal e, por consequência, o não violento, é o que nos cabe pensar.

A paz veste as cores das religiões. No Bandaranaike memorial international conference hall de Colombo, os representantes do budismo, hinduísmo, islamismo e cristianismo, as quatro principais comunidades religiosas do Sri Lanka, lançaram uma mensagem de paz e reconciliação com o Papa Francisco.

Há muita gente, inclusive bons intelectuais, que acusam o Deus bíblico de sádico e violento. É fato que a Bíblia é perpassada por violência do início ao fim, mas seria fundamentalismo vulgar atribuir a Deus a sua autoria.

Não é o caso, e nem sou gabaritado para tanto, de fazer exegese e hermenêutica bíblica das passagens mais representativas da bíblia para mostrar que lá onde o fundamentalista enxerga violência de autoria divina há, na verdade, uma narrativa do que não deve ser e o que deve ser evitado e condenado em nome de Deus. Dois lugares são, contudo, paradigmáticos: Caim e Abel e A cruz de Jesus.

A narrativa de Caim e Abel é, segundo alguns intérpretes, o lugar privilegiado para se pensar a violência, inclusive, como pecado original. Tradicionalmente, o pecado original foi situado e interpretado como sendo o pecado de Adão e Eva, um ato de soberba e de desobediência. Uns mais moralistas têm, inclusive, interpretado o pecado de Adão e Eva como sendo um pecado de cunho sexual e transmissível sexualmente, feito vírus que penetra a corrente sanguínea e contamina hereditariedade.

Na verdade, o lugar privilegiado para se pensar o pecado original é Caim e Abel e ele é sinônimo de violência assassina. O que Deus criou, na palavra e no amor, era bom e harmonioso. A palavra e o amor tendem para a paz. Mas, Caim não quer saber de paz e amor e parte para a ignorância, como diríamos no popular e mata o irmão Abel.

O motivo do primeiro homicídio da história, segundo a bíblia, é envolto em interpretações múltiplas que vão da inveja pura e simples, até a trama sofisticada da construção da rivalidade num jogo de desejo mimético triangular entre Caim, Abel e o reconhecimento e o não reconhecimento da oferta de Caim por parte de Deus. Para o nosso intento, contudo, é irrelevante saber o verdadeiro motivo.

Não está claro, também, porque Deus não se agrada da oferta de Caim, mas está claro que Deus não quer a violência de tal forma que protege Caim contra possíveis assassinos no círculo da vingança.

É isso que importa perceber, Deus não quer a violência e não fica feliz com Caim, mas o protege mesmo assim. O ato de proteção não é, da parte de Deus, um ato que abençoa a violência, antes, pelo contrário, é um ato de desejo de superação da violência e proteção da vida.

O interessante é que Deus não evita magicamente que o ato aconteça, mas está “de olho” e aparece no final para dizer: que feio, Caim! Mesmo assim, o protege contra a escalada da violência sem fim no círculo da vingança.

Em Jesus acontece o mesmo. Deus não quer a sua morte violenta, contudo, não a impede. Impedir a morte de Jesus seria intervir na liberdade do mundo criado e, como num retorno ao mitológico e ao não histórico, intervir magicamente por cima das vicissitudes humanas que Deus, por ser Deus, respeita. Mas, no final, a morte violenta, fruto dos podres poderes do mundo, é vencida pela ressurreição.

É de se notar que Deus não exerce nenhuma violência contra os violentadores de seu amado Filho. Não há vingança alguma. Mas há um processo pedagógico e teológico do mais alto grau. Contra a violência e o mal, nem mesmo Deus está isento, pois sofre das suas consequências.

Aquele que foi dom, amor, entrega e pregador da paz, é vítima sumária e injusta da violência. Jesus, que se compadecia e sofria com o sofrimento do outro, na cruz, sofre a violência, mas Deus não o abandona e o Ressuscita. Compaixão, Paixão e Ressurreição. Eis a resposta cristã ao mal e à violência.

Ainda que eu falasse A língua dos homens E falasse a língua dos anjos. Sem amor eu nada seria.

A vida nas redes

“A internet transformou
a inteligência das pessoas.”

 

Esse foi o tema da fala do professor e historiador Leandro Karnal, que palestrou em Passo Fundo, no dia 04 de abril, a convite da Em Resumo Magazine, Programa Ceia Giongo e agência MZ Comunicação. Nessa matéria comentamos alguns dos principais pontos abordados por ele para que você também possa refletir sobre a sua vida nas redes

Leandro Karnal convidou os presentes na palestra para refletir sobre a sua inserção nas redes sociais. Para começar, fez uma pergunta: “Quem aqui não tem celular?”. Das mais de 300 pessoas presentes, ninguém levantou a mão. O celular é hoje uma ferramenta universal, usada por nós em todos os momentos do dia, seja para o trabalho ou para o lazer.

Através desse aparelho, temos uma facilidade de acesso a muitos conteúdos que são postados a todo segundo nas redes. Karnal apresentou alguns dados, de uma pesquisa datada do mês de janeiro, que mostra que a internet tem mais de 5 milhões de terabytes em tamanho – número que já pode estar desatualizado, pela velocidade que a rede cresce a cada dia. No YouTube, por exemplo, são postadas 24 horas de vídeos por minuto. “Vídeos de uma relevância brutal”, brincou o palestrante.

A internet, porém, é feita por anônimos. As pessoas que postam e compartilham nem sempre são seres reais – e nem sempre falam sobre dados e informações reais. O espaço virtual propicia a omissão do sujeito e, todos os dias, o facebook te convida a dar a sua opinião quando te pergunta na página inicial: “No que você está pensando?”.

Segundo o professor, nunca antes as pessoas acharam tão importante dar a sua opinião. O mais simples post provoca nos sujeitos a necessidade de comentar, de dizer se gosta ou não gosta daquilo – e logo as redes sociais se tornaram um belo palco para os discursos de ódio.

O ódio sempre existiu, não foi uma criação do ambiente das redes sociais, afinal, como exemplificou Karnal, o nazismo e outras ditaduras extremas se realizaram sem a internet, apesar de terem tido um grande auxílio do rádio, na época. Porém, as discussões que envolvem comentários de ódio na internet costumam não dar em nada. “As discussões na internet são como dois torcedores fanáticos discutindo sobre qual time é melhor, não tem efeito nenhum, um torcedor não vai mudar de time por causa de uma discussão – assim como os comentários online, as pessoas discutem porque acham que há algo em ‘mim’ que é interessante”, comenta.

Todas as tecnologias que utilizamos hoje no nosso dia a dia – e que parecem indispensáveis para viver, são extremamente recentes. O whatsapp, por exemplo, nasceu em 2009. Porém, o vício que o celular e as suas funcionalidades causam já deram até nome para novas doenças e síndromes. Existe a nanofobia, que é uma fobia de ficar sem celular. “Essa é uma ansiedade específica, que causa, entre outros sintomas, aceleração cardíaca. O celular não é mais visto como um simples aparelho de comunicação, hoje se comporta como um HD externo da nossa memória. Nossa vida inteira está dentro daquele pequeno aparelho. Números de telefones, conversas, fotografias, documentos…”, ressaltou Karnal.

Há também outra síndrome chamada FOMO – Fear of missing out, em inglês. Traduzindo para a nossa língua, é como um “medo de ficar de fora” do que acontece nas redes. Nos Estados Unidos já existem até fazendas de reabilitação para quem sofre dessa síndrome.

 

Uma fonte inesgotável de informações

Foi com a invenção da prensa, por volta de 1450, que Johannes Gutenberg mudou a forma de disseminação de informações. Nessa época, acontecia o período histórico do Renascimento, em que aconteceu a quebra a unidade religiosa – que detinha na época o monopólio da informação. Hoje o que temos nas redes sociais é uma capilarização do conhecimento. As informações estão em muitos lugares da internet, e temos acesso a (quase) tudo, mas, muitas vezes, não temos tempo para ver nada.

Os dados presentes na rede não fazem parte do nosso conhecimento, assim como as informações não contribuem para a nossa formação – se não tiverem o esforço de serem bem estudadas. Karnal diz que ouve muitas pessoas dizendo que a internet diminuiu a inteligência das pessoas, mas ele não acredita nisso. “Para mim, a internet transformou a inteligência das pessoas”. O nosso desafio dentro da internet não é obter conhecimento, mas saber o que buscar e o que validar.

No ambiente virtual circula um neologismo conceituado como “pós-verdade”, que na definição dada pelo professor é algo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais”. Essa pós-verdade propicia a veneração do eu, pois a pessoa considera verdade tudo aquilo o que acredita.

Muitas pessoas reclamam das particularidades do ambiente virtual, mas Karnal ressalta que estar nas redes é uma “servidão voluntária”, ou seja, ninguém te obriga a criar um perfil, assim como não te obriga a assistir televisão.

Ao ressaltar todos esses pontos, Leandro Karnal propôs a reflexão ao tema, para fazer nascer em cada pessoa uma possível mudança de conduta. O professor ressaltou que nesse mundo cheio de mensagens curtas e pós-verdades, a leitura é fundamental, pois é através dela que conheceremos diversos mundos e saberes. Não importa se essa leitura vai ser em um livro físico ou na tela de um tablet, mas é preciso ler. “Ler é um esforço e o sucesso ainda pertence a pessoas esforçadas. As técnicas vão ser revolucionadas a cada ano, mas sempre vai permanecer o esforço, pois, a felicidade é uma conquista”, finalizou.

 

Texto e foto de Camila Docena
Publicado originalmente na Revista impressa Contato Vip, edição de abril de 2018.

Alimentação durante a adolescência

É importante que o adolescente faça mudanças de hábito possíveis e flexíveis,
discutindo com ele as alterações necessárias, evitando abordar a alimentação
de forma monótona e baseada em cobranças, assim como tudo ocorre
nesse período, a família exerce um papel importante, de estímulo,
cobrança e ensinamentos.

 

A adolescência é a fase das grandes mudanças e transformações na vida de qualquer pessoa. É durante a puberdade que o corpo vive em constante estímulo hormonal o que acarreta em algumas alterações no hábito alimentar. Por isso, durante esse período, é necessário haver estímulo da inclusão de hábitos alimentares regrados para manter a construção de uma saúde adequada na vida adulta.

É muito comum os adolescentes sentirem muita fome e exagerarem na alimentação diária, contudo, mesmo estando em fase de crescimento, esse desequilíbrio precisa de limites.

Apesar de ser uma fase de intensas transformações fisiológicas e emocionais na vida do adolescente, não é indicado liberar o consumo de todo e qualquer alimento neste período, por isso é comum esse período ser marcado pelo alto consumo de guloseimas, fast food, refrigerantes e doces o que pode acentuar o nervosismo e rebeldia.

A alimentação deve ser variada, composta por frutas, verduras e legumes, até porque quando há alterações no consumo de doces aumentam a tendência da ocorrência de acne

Melhorar a frequência da alimentação fazendo de 5 a 6 refeições ao dia aumentando o consumo de cereais integrais ajuda a melhorar os processos fisiológicos e melhorar  a pele.

Um dos nutrientes mais importantes na fase de puberdade é o cálcio. Seu consumo indicado é de 1300mg ao dia e por isso é importante incluir na dieta alimentos como os vegetais verde-escuros como a couve e o espinafre, leite, sardinha fresca, grão de bico e aveia.

As necessidades desse mineral são maiores durante a puberdade e a adolescência do que em qualquer época da vida, devido ao acelerado crescimento muscular e esquelético característico da fase. Nesse período, a densidade óssea é máxima e a massa esquelética equivale a 45% do total da fase adulta, que se completará até aproximadamente os 30 anos de idade.

É importante propor ao adolescente mudanças de hábito possíveis e flexíveis, discutindo com ele as alterações necessárias, evitando abordar a alimentação de forma monótona e baseada em cobranças, assim como tudo ocorre nesse período, a família exerce um papel importante, de estímulo, cobrança e ensinamentos.

Aprender com as experiências dos outros

Aprender algo ouvindo conselhos, lendo, frequentando palestras é uma forma de obter informações que ajudam a impulsionar as ações no âmbito pessoal e subjetivo.  No entanto, aprender com a experiência dos outros pode fazer toda a diferença na nossa vida e na vida social.

A vivência humana inclui o relacionamento interpessoal, o compartilhamento de ideias, de emoções e sentimentos. Nessa convivência, está incluído o conhecimento teórico, que é um recurso precioso para o desenvolvimento pessoal, pois influencia na decisão da atitude a ser tomada. Entretanto, por mais que se adquira conhecimento através do estudo sobre um tema, nada substitui o aprendizado que vem da experiência.

Quem é capaz de aprender com as próprias experiências, aprende profundamente, pois esse aprendizado é incorporado no seu comportamento. A compreensão subjetiva do comportamento do outro é desvendada a partir do contexto histórico, social e psicológico.  Nesse modo de pensar, a força da expressão: “aprender com a própria experiência” deve ser cotejada com o conteúdo do aprender com a experiência do outro.

As pessoas devem ser valoradas por si mesmas e não pela posição econômica, profissional ou social. A presença valorativa das relações interpessoais se mostra pela fala, pela ação, pela emoção, pelos sentimentos, pela intenção visualizada em atos. Um pensamento, uma escolha, a intuição de um caminho a seguir, são pontos que desenham e sinalizam o processo de transformação.

As construções humanas individuais estão interligadas com uma rede de variáveis, a exemplo da natureza, em que a fertilização da terra e a manutenção da vida passam por estágios que demandaram acumulação de água em forma de vapor.

Do mesmo modo como ocorre com a natureza, em que a semente passa por diversos estágios até se tornar uma árvore e dar frutos, antes de conhecer as letras e dominar a formação de palavras, não é provável que uma pessoa possa ler e estar amplamente integrada na sociedade.

Albert Einstein, um dos cientistas mais importante da século XX, disse que a imaginação é mais importante do que o conhecimento, pois é nela que todas as realizações se efetivam. Para um entendimento da experiência do outro, por exemplo, se faz necessário aproximar a imaginação da realidade objetiva, vivenciando o movimento para transformar a visão da realidade.

Sem exercitar as relações entre o que está na mente, com a realidade objetiva, não estaremos aptos para direcionar nossos recursos internos a favor do que queremos. Ao usar nossos sentidos para construir mentalmente a realização de um objetivo, configuramos nosso pensamento para produzir os resultados projetados.

As ações de alto impacto começam com as transformações lentas e microscópicas e, por essa razão, não são de fácil identificação. A busca de sentido para a própria vida demanda um entendimento sobre o que é a natureza, a história e o ser. Existe um abismo separando a ideia, o conhecimento teórico e o comportamento, que exclui atitudes de estar fazendo o que é necessário para concretizar aquilo que está teoricamente proposto.

Aprender algo ouvindo conselhos, lendo, frequentando palestras é uma forma de obter informações que ajudam a impulsionar as ações no âmbito pessoal e subjetivo.  No entanto, aprender com a experiência dos outros pode fazer toda a diferença na nossa vida e na vida social.

Em outra publicação, chamamos atenção para a necessidade dos sujeitos responsáveis. “A construção de relações mais equilibradas com ênfase na responsabilidade do adulto e na responsabilização gradativa da criança é uma das condições necessárias para construção de sujeitos responsáveis”.

A construção de sujeitos responsáveis

Ser mãe do SIM ou do NÃO?

Nossa sociedade está doente, por que não é possível que
uma geração toda receba educação quando os adultos
não entendem seus papeis de progenitores e educadores de vidas.
Que precisam dizer não, ao invés de sempre dizer sim.

 

Embora, muitas vezes, dizer sim represente uma comodidade maior para quem emite, nem sempre representa a forma de educar correta. Em muitas situações esse sim dito na infância ou na juventude tem reflexos devastadores do ponto de vista humano e da formação do caráter. Entre o sim ou o não, tenha certeza que o não sempre vai educar muito melhor, pois ele representa um direcionamento de vida. E por mais que a educação torna-se obrigação dos dois genitores, a responsabilidade recai muito mais para a mãe.

Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.

Para exemplificar melhor, vou contar uma história verídica que aconteceu no interior, numa cidade pequena: – Mãe, posso posar na casa da minha amiga? – perguntou a filha. Era sábado à noite. A mãe respondeu: – Não. Vai fazer o que lá? Posso? Vamos assistir a um filme. – Insistiu a garota. De tanta insistência a mãe acabou cedendo. Transformando o não em um sim.

A menina já estava combinada com sua amiga. Em seguida, vieram dois garotos da cidade de buscar as duas para ir à festa nessa cidade. Lá se foram as duas garotas. Como era de se esperar todos beberam na devida festa. Na madrugada, um dos garotos estava dirigindo em alta velocidade em direção a cidade das garotas.

A curva se transformou em uma reta. O SIM se transformou em não. Não a vida. Não a alegria. Sim para o desespero. Sim para a tragédia.

Em seguida toca o telefone na casa de uma das garotas. A mãe foi atender. Era o policial dizendo que a mãe deveria comparecer na determinada curva do asfalto que sua filha havia sofrido um acidente. A mãe rebate a informação dizendo que possivelmente havia um engano, pois sua filha Camila estava posando na casa da amiga Paula. O policial insiste dizendo que era Camila que estava lá.

Chegando lá a mãe se depara com a filha esmagada embaixo de um automóvel. O desespero bate. O arrependimento chega. A tristeza toma conta do coração de uma mãe que perde seu maior presente que a vida lhe deu. Se a mãe tivesse dito o NÃO e persistido o máximo que aconteceria era a garota ter ficado “birrenta” e bater a porta do quarto.

Por isso o não é uma palavra poderosa, pois remete a uma força inimaginável. Muita gente parece que a aboliu, pensando que essa palavra foi proibida nas relações e na educação dos filhos.

O NÃO não significa a negativa de alguma coisa, mas ele remete ao direcionamento para a percepção da vida mais real possível.

Caso você entenda o não como sacrifício, ele representa negativa na educação. Agora, se você entender a educação como edificação ele torna-se fundamental. Se entender essa palavra como cuidado eu não estou maltratando meu filho eu estou cuidando. Esse é o primeiro passo.

 

O fato de se reconhecer que crianças têm direitos, entre eles à educação, carinho, lazer e “querer”, fez com que as relações entre pais e filhos melhorassem muito, que os pais fossem menos autoritários e que os filhos pudessem participar mais da vida em família e até ajudar a tomar decisões. Em síntese, a relação entre pais e filhos se tornou mais democrática.

Limites: entre o direito dos filhos e o dever dos pais

Por outro lado dizer sempre SIM é mais cômodo para o momento. Seguidamente, ouço dizer que “essas crianças não tem mais limites.” Nessa fala há uma inversão, pois quem não tem limites são os pais.

Aparentemente a mãe dizer sim para a filha de 14 anos que quer dar uma volta de carro com as amigas é mais fácil do que ver a frustração dessa filha perante a infração grave da lei. Dessa forma a mãe, irresponsavelmente, deixa que a filha saia dirigindo pelo centro da cidade. E o que é mais grave, colocando em risco a vida de outras pessoas. Esse sim novamente, como no primeiro caso, transforma-se em incômodo. “Dor de cabeça”.

Além de Joana acabar com o único carro que a família tinha e que usava para trabalho, vai desembolsar mais 10 mil para consertar o carro de outra pessoa que não teve nada a ver com a irresponsabilidade dessa mãe. Além do que vai responder processo na justiça por não assumir seu papel de mãe.

Geralmente o Sim de hoje pode se transformar em bater o carro. A prisão. A droga. O assalto. A vida fácil. O fim do relacionamento amoroso. Vai ser o NÃO de amanhã.

Como professor, convivo diariamente com jovens que não recebem não da família. Então me pergunto. Será que uma garota de 14 anos que ouve só sim em casa vai respeitar o não quando o professor pede para sentar, para escutar, para copiar. Vai entender que tem momentos que o não prevalece. Com toda a certeza não. Esse jovem, essa jovem vai enfrentar o professor.

Sem sombra de dúvidas, afirmo que nossa sociedade está doente, por que não é possível que uma geração toda receba educação quando os adultos não entendem seus papeis de progenitores e educadores de vidas.

A indisciplina na sala de aula reflete o comportamento permissivo que recebem as crianças e jovens e não vai ser na escola que eles vão respeitar. E os pais só vão entender que o limite é importante quando refletir no bolso como uma avalanche.

Fico sempre me perguntando como podem meninos se tornarem machistas e sem respeito às mulheres, sendo que quem os educa são as mães, são mulheres? Sempre digo para mulheres de minha família que tudo aquilo que não gosta em seu marido procure ensinar para o seu filho. Pois as chances de ele ser mais feliz no casamento dependem disso. Levante a tampa do vaso. Leve a toalha ao banheiro. Não reclama da comida. Aprenda cozinhar. Você não vai casar com mãe. Você vai encontrar uma mulher que quer dividir a relação não para te servir. Ensina a menina a cozinhar. A fazer as coisas também. Ensina a limpar as coisas. Não dê tudo pronto. Seja uma mãe mais do Não do que do SIM.

Sou um favelado com orgulho

Sou favelado e tenho orgulho de ser favelado.
Eu ascendi social e economicamente,
mas essa é minha origem,
essa são as minhas diferenças.

 

Da laje de sua antiga casa, na favela da Maré, Jaílson de Souza e Silva perguntava aos visitantes: “O que seus olhos veem?” Para uns, um amontoado de pobreza e carências. Para outros, vidas em sua potência. Superar a visão da precariedade por outra que batizou de “paradigma da potência” passou a ser o trabalho e a razão de vida desse geógrafo formado em universidade pública, com mestrado e doutorado pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e atualmente professor da Universidade Federal Fluminense (UFF). “Pensar a favela a partir de suas potências é romper com o discurso da ausência e da carência e tentar ver o que ela tem”, defende, em entrevista à Radis. Nascido em uma comunidade de Brás de Pina, na zona norte do Rio de Janeiro, e ex-morador da Maré, o filho de migrantes nordestinos foi um dos fundadores do Observatório de Favelas, em 2001, junto com um grupo de amigos. No horizonte, estava o desejo de formar pesquisadores locais nas favelas e ampliar os olhares sobre esses espaços, vistos de fora com estigmas e preconceitos. Um de seus livros, “Por que uns e não outros?” (Editora 7 letras, 2003), oriundo de sua tese de doutorado, aborda a luta de jovens de favela para acessar a universidade. “Qualquer forma de regulação do espaço público nas favelas tem que ser a partir da participação de seus moradores, principalmente de seus jovens”, destaca.

 

Como a favela marcou sua trajetória afetiva e intelectual?

A minha tese de doutorado — “Por que uns e não outros?” — tem muito a ver com a minha trajetória. Eu sou membro de uma família da periferia do Rio de Janeiro, filho de migrantes nordestinos e fui o primeiro descendente da minha avó, entre filhos, netos e bisnetos, a entrar na universidade. Definitivamente, a minha geração de periferia tinha uma dificuldade muito grande de chegar à universidade. Discutir isso e por que alguns de nós conseguiam, a partir de que estratégia, era o eixo central do trabalho. Eu morava na favela quando entrei na UFF. Sou favelado e tenho orgulho de ser favelado. Eu ascendi social e economicamente, mas essa é minha origem, essa são as minhas diferenças. A partir disso fui construindo formulações distintas da maioria dos intelectuais e pesquisadores que pensam as práticas sociais. Eu trabalho tentando basicamente entender por que as pessoas agem como agem, pensam como pensam no âmbito do urbano. Participei de várias organizações e, em 2001, fundei junto com o Jorge Barbosa, um amigo que também é professor da UFF, o Observatório de Favelas.

 

Qual é a visão que se tem da favela de fora dela?

O pressuposto do Observatório de Favelas e da minha tese de doutorado era fazer a crítica a uma representação muito difundida em que a favela é pensada a partir de um paradigma da ausência, da precariedade. A favela é definida sempre a partir do que não seria. Seja a definição do Ministério das Cidades de “assentamento precário”, seja a definição do IBGE de “aglomerado subnormal”, seja a definição da mídia em geral como “comunidade carente”, a favela sempre tem substantivado o que seriam as suas carências, as suas precariedades. Há uma leitura sobre a paisagem dentro da favela e nela só se vê a partir de uma visão que eu chamo de sociocêntrica: aquilo que não está dentro da normalidade, da organização formal, que seriam os espaços das classes mais ricas, das classes dominantes.

 

Como esse modo de “ver a favela” define as políticas urbanas e a forma como o poder público se relaciona com seus moradores?

Esse paradigma da ausência e da carência define uma forma de pensar a favela e suas políticas públicas a partir sempre de um processo sistemático de precariedade. É muito comum se fazer uma praça dentro da favela sem nenhum tipo de manutenção. Seis meses depois ela está destruída e responsabiliza-se os moradores por aquela falta de manutenção, por aquelas condições. Ao mesmo tempo em que se fazem projetos de grande envergadura em áreas nobres da cidade e outros muito pontuais e localizados, como as chamadas Lonas Culturais, dentro das favelas cariocas. Historicamente foi se produzindo uma política em que sempre eram destinados à favela os espaços de menos investimentos. Existe uma lógica profundamente perversa de utilização dos recursos públicos, em que a maior parte vai para as áreas mais ricas, o que só favorece ainda mais a sua valorização.

 

Como essa “seletividade” se reflete na política de segurança pública, que encara a favela apenas como “espaço do crime”?

O desafio fundamental é como a gente constrói políticas públicas para as favelas que reconheçam seus moradores como cidadãos plenos. Em particular no campo da segurança pública, isso é mais complexo, pois as grandes cidades brasileiras trabalham com a ideia de “cidadela”: proteger e garantir as regras em determinado espaço da cidade, das classes dominantes, e a imensa maioria das periferias e favelas ficam entregues a um processo de privatização da regulação do espaço público. E aí as facções criminosas, o tráfico de drogas e as milícias terminam definindo as formas de controle desse espaço. A partir daí, surgem formas de combate por parte do Estado e de incursões em que se gera um processo de guerra do extermínio. Vivemos um círculo vicioso. O Estado não cumpre efetivamente o seu papel de regulador do espaço público de toda a cidade, esse processo faz com a regulação seja privatizada, essa privatização gera grupos criminosos específicos, principalmente traficantes de drogas, que são combatidos a partir da lógica do extermínio pelas forças de segurança do Estado, tornando a vida um inferno e absolutamente perigosa e precária. Ocorre um processo perverso em que os moradores das favelas são profundamente atingidos pela incapacidade do Estado de produzir efetivamente uma política para eles.

 

Como a favela pode se afirmar como espaço de resistência, criatividade e luta por direitos?

A forma que a gente tem de enfrentar isso e que construímos com a organização foi o que a gente chama de “paradigma da potência”. Pensar a favela a partir de suas potências é romper com o discurso da ausência e da carência e tentar ver o que ela tem. Certa vez uma amiga foi na minha casa, na Maré, ela nunca tinha entrado na favela, chegou no terceiro andar e falou: “É muito feia, né?” Eu falei: “Feios são seus olhos domesticados que não conseguem perceber quantos tipos de beleza têm aqui”. A vida, a beleza da solidariedade, a invenção de brincadeiras as mais diversas, a capacidade dessas pessoas produzirem novas formas de regulação do espaço público, a festa, a intensidade, a alegria que muitas vezes se faz presente por causa do número imenso de jovens e crianças. É um conjunto de belezas que você não reconhece porque está acostumado a pensar a beleza a partir de critérios mais formais. É a mesma coisa que se faz quando a polícia e o Exército entram e só veem ali o que há de risco. Especialmente porque estamos falando de uma população negra, que são basicamente pretos e jovens, os mais estigmatizados no espaço urbano.

 

Como as práticas e saberes populares podem ressignificar os espaços da favela?

O desafio principal é afirmar essa potência. Afirmar essa capacidade de invenção, de criação cultural que permeia a vida cotidiana dos moradores das favelas, especialmente da juventude. Por isso, não é casual que existam tantos projetos da juventude nas favelas e que produzam tanto impacto do ponto de vista da cultura e das atividades artísticas da cidade. Hoje o funk, o hip hop, o grafite, o passinho e tantas outras manifestações cada vez mais se tornam centrais. Então é um equívoco pensar as favelas como espaços periféricos. Cada vez mais as periferias se tornam centros. Elas assumem um lugar central de representação e configuração da cidade. Qualquer forma de regulação do espaço público nas favelas tem que ser a partir da participação de seus moradores, principalmente de seus jovens. O erro fundamental das UPPs [Unidades de Polícia Pacificadoras] foi a preocupação em controlar mais o espaço do que garantir o direito de seus moradores à segurança pública. Os comandantes queriam ser os novos “donos” das favelas e isso efetivamente não permitiu que elas se sustentassem.

 

Qual é o impacto da intervenção militar na vida de quem vive nas favelas?

A intervenção na Maré [abril de 2014 a junho de 2015] foi muito impactante, foi muito forte. Houve a presença ostensiva de mais 2 mil homens das Forças Armadas gastando mais de R$ 600 milhões e nesse processo ela se revelou um verdadeiro fracasso. Mesmo com a presença das Forças Armadas, os jovens traficantes estavam lá, agindo, e principalmente se fortaleceram mais ainda após a sua saída. Esse tipo de intervenção militar é a 13ª que nós vivemos no Rio de Janeiro, é um engodo, não tem nenhuma eficácia, nenhuma eficiência, viola o direito dos moradores em geral e trabalha principalmente com a lógica de guerra, que não cabe na segurança pública. A segurança pública não pode ser guerra. Tem uma necessidade de fazer um trabalho de inteligência, a longo prazo, que respeite o direito à vida de todos (dos moradores, dos agentes de segurança e dos próprios jovens criminosos) e que não tenha a lógica de extermínio como seu eixo de atuação. Essa intervenção é antes de tudo uma estratégia política. Não está no campo da segurança pública. E o objetivo é principalmente melhorar a popularidade do governo federal, mais do que qualquer outra coisa. Então ela é inaceitável. (LFS)

 

Autor: Luiz Felipe Stevanim
Fonte: Radis

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