Início Site Página 199

Família, religião e escola

A escola não deveria ser sem partido.
Antes, deveria ser “escola livre e sem censura”,
possibilitando perspectivas diferentes,
reguladas por aquilo que pode garantir uma
vida mental e moral saudável: a empatia e a razão.

 

 

O que não falta são pessoas, geralmente com precário conhecimento acadêmico, mas com muito interesse político ou com vontade de poder controlador, que raramente trabalham em educação, que se metem a dizer o que os professores podem ou não podem fazer, se apresentando como portadores de uma suposta nova pedagogia, surgida do nada, vinda dos fundos das cavernas e que, agora, reivindica cidadania, nem que seja à força.

A escola necessita ser neutra e se restringir a ensinar habilidade técnicas, cabendo à família e à religião ensinar valores, dizem esses novos “gênios” da pedagogia, com ar de sabedoria acumulada por séculos, mas que não resiste aos fatos e a mínima ponderação epistemológica, por várias razões, das quais enumero três:

 

Correlação e complementaridade

Que a família e a religião sejam instâncias privilegiadas de conservação e transmissão de sabedorias e valores essenciais à vida individual e social, qualquer pessoa sensata e intérprete isento, haverá de reconhecer. O vínculo de afeto e empatia sanguíneo e espiritual são eficazes na conservação e na transmissão de valores morais e espirituais e nisso estamos todos de acordo. Há inclusive acordo na ideia de que a família colabora com a religião e a religião colabora com a família numa mútua e fecunda complementaridade colaborativa sem exclusivismos.

Acontece que disso não se deduz que a escola seja somente o lugar de aprendizagem e de capacitação de habilidades técnicas e de sociabilidade. Ela também colabora para a elevação do nível moral das pessoas. Os valores da família e da religião ainda são restritos, por mais sagrados que possam ser, ao âmbito do privado. Ao privado da autoridade paterna e materna e privado da fé religiosa que só tem validade dentro da comunidade dos que creem. Isso não significa que não possa haver abertura para a universalidade, mas a universalidade só pode ser alcançada na pluralidade de pontos de vistas legítimos em processo dialogal em um ambiente, como a escola e a universidade, em que a única autoridade aceitável é a autoridade da razão e não a razão da autoridade.

Uma razão aberta e dialogante, numa dialética de identidades e diferenças ampliadoras dos pontos de vistas particulares e preconcebidos do mundo familiar, só a escola e a universidade podem alcançar. Nesse sentido, os valores da família e da religião precisam ser complementados com os valores baseados na racionalidade comunicativa, cujo lugar preferencial de sua memória viva é a escola.

É da escola e das universidades que se pode almejar a educação moral que abre para os valores morais mais altos de uma vida societária: a justiça, a paz, o bem comum, a tolerância e a solidariedade. Só por má fé, perversão ou malícia, poderemos restringir os valores morais à propriedade, a moral sexual e a defesa da vida como sinônimo de “não ao aborto”.

É muito pobre o conceito de ética quando restrito ao âmbito das crenças privadas, ou das tradições, como é a da família e das religiões.

Um exemplo apenas. Se as tradições familiares e religiosas continuarem dizendo que a mulher merece um lugar secundário em relação ao homem e que criar animais na indústria da carne, ovos e leite não tem nada de errado e que essas crenças devem ser respeitadas, a quem cabe contestar e mostrar a limitação e o preconceito insustentável desse ponto de vista moral? Ou está tudo certo e devemos respeitar o limite moral do mundo privado, familiar e religioso, sem almejar valores com pretensão à universalidade ancorada na razão que o espaço acadêmico pode oferecer com qualidade e rigor?

 

O mito da neutralidade

Ao lado do mito da exclusividade da família e das religiões na formação moral dos indivíduos, pelo menos numa sociedade aberta e democrática, está o mito da neutralidade ou da suposta objetividade.

Não será preciso evocar os trabalhos de fôlego de grandes intelectuais, tal como um Nietzsche ou um Habermas, para concluir que sempre há um interesse no conhecimento e que a ciência opera em perspectiva e com interesses manifestos ou camuflados. Só por um resquício de positivismo ou um naturalismo metafísico, poderíamos, hoje, sustentar que as escolas e as universidades deveriam ter “professores robôs”, e que seriam melhores do que os professores de carne e osso, com suas preferências sexuais, políticas e ideológicas e até partidárias.

A escola não deve e não pode ser sem partido, mas a expressão legítima de perspectivas plurais legítimas e defensáveis racionalmente, no livre jogo do pensamento rigoroso, consequente e de boa fé. Os professores, não somos idiotas e robôs e não perdemos o bom senso para doutrinar os alunos escondendo deles as múltiplas perspectivas respeitáveis na arena dos valores do campo prático e do conhecimento. A escola não deveria ser sem partido. Antes, deveria ser “escola livre e sem censura”, possibilitando perspectivas diferentes, reguladas por aquilo que pode garantir uma vida mental e moral saudável: a empatia e a razão. Isso mesmo, no lugar do medo e do terror: empatia e razão.

 

Respeito, confiança e valorização

O ambiente acadêmico em geral, os professores em particular, não precisa e não deseja que o governo crie terror e medo, incendiando ambiente com táticas de guerra onde, naturalmente, deveria reinar a paz, a confiança, o afeto entre gestores, professores e discentes. A educação é um ambiente de racionalidade, respeito, confiança e amor. Os de fora, como são os políticos e os governos, deveriam se preocupar com uma única coisa: valorização dos profissionais e colaboração na sua formação permanente. O resto deixe que nós fazemos e nos deixe em paz. Nós não nos metemos nas profissões e vocações dos outros e muito menos incendiamos e criamos um estado de guerra e desconfiança onde não somos chamados.

Se se quer uma educação de qualidade, com alta performance técnica e com altos valores éticos que animam o espírito de cidadania, sugiro aos políticos que criem projetos de inclusão nas escolas e nas universidades e incendeiem o país com programas de leitura, de todas as matizes e tendências políticas, ideológicas e filosóficas e o resultado será bom para todos e não só para os espertos que sabem tirar proveito da ignorância alheia.

 

O judiciário mais caro do planeta

Esta prática de perpetuar privilégios desgasta
a imagem do Poder Judiciário.
No país em que milhões de pessoas ganham salário mínimo,
tais privilégios soam como verdadeiro deboche.

 

O reajuste aos ministros do STF concedido por Temer, que terá um impacto de bilhões sobre o orçamento federal e dos Estados é mais uma regalia que os brasileiros bancarão para o privilegiado very important people, a turma togada do País.

Nossa justiça é a mais cara do planeta. Seus gastos representam 1,4% em percentual do PIB. A dos EUA 0,14%, da Argentina 0,13 e da Espanha 0,12, que figuram entre as três mais modestas em gastos.

Como ato de boa vontade o ministro Fux, um dos beneficiados pelo novo aumento, extinguiu o escandaloso auxílio-moradia, que fora concedido em 2015, em sessão fechada do STF. Isto, na verdade, era uma espécie de aumento, disfarçado de auxílio.

“Se a humildade é uma excelência em si mesma creio ser incompatível que certas Excelências do Poder Judiciário não a tenham”. (Marco Aurélio – Imperador Romano)

Aliás, já há um movimento de juízes e procuradores federais para reverter tal decisão.

Convenhamos que tais privilégios concedidos ao Judiciário contribuem de forma cristalina para a inaceitável desigualdade nacional. São salários nababescos.

Em 2016, o valor médio pago aos juízes com verba pública foi de 47,7 mil reais mensais. Naquele ano, a renda domiciliar per capita no País foi de 1,2 mil reais. É como se um juiz valesse por 40 cidadãos, uma fantástica colaboração para a desigualdade que permeia nossa sociedade!

Nossos togados fazem parte do pelotão 1% mais rico da população, grupo que , segundo o IBGE, ganhava acima de 27 mil reais por mês em 2016.

A FGV, diante do corporativismo e da agenda salarial do Judiciário, resolveu incluir o tema, a partir deste ano, na pesquisa periódica que faz sobre a percepção do brasileiro a respeito da Justiça, o Índice de Confiança na Justiça.

No último levantamento realizado em 2017, o Judiciário tinha confiança de 24%, uma queda de 10 pontos desde 2013 .

É compreensível. O cidadão medianamente consciente não consegue entender que, quem desfrutava até agora do direito ao indecente auxílio-moradia, ordena o despejo de miseráveis de prédio públicos abandonados!

Mais um dado comparativo: A União Europeia possui um órgão de estudos do Judiciário, a Comissão Europeia para a Eficiência da Justiça. Segundo um relatório de 2016 do órgão, com dados de 2014, um juiz do Supremo na Europa recebia 17 mil mensais, pelo câmbio da época.

Por aqui, no STF embolsavam-se 29 mil. Lá, a diferença salarial entre um juiz e a média recebida pelos trabalhadores era de quatro vezes. Aqui, 20 vezes, conforme dados do IBGE.

Esta prática de perpetuar privilégios desgasta a imagem do Poder Judiciário. No país em que milhões de pessoas ganham salário mínimo, tais privilégios soam como verdadeiro deboche.

Fico imaginando o que diria Montesquieu diante de tais posturas de nossos ilustres togados!

Intolerância e condição humana no Brasil

“A intolerância assume vários matizes,
seja a falta de diálogo, a crença de portar ‘verdades’,
de odiar o diferente, de compartilhar ódio em
soluções simplistas para problemas complexos”.

 

Ivan Dourado traz uma reflexão sobre a onda de intolerância que estamos vivendo e que se manifesta, principalmente, nas redes sociais. No artigo, ele aborda os razões e soluções para esse comportamento que desrespeita tudo o que é diferente do eu.

O Brasil vive uma crescente onda de intolerância, seja por motivos étnicos, políticos, religiosos ou ideológicos, estamos em um momento onde o diálogo parece ser algo cada vez mais raro. Temas cotidianos que nos faziam pensar e repensar posturas, que brotavam em conversas informais, nos últimos anos, tem se transformado em discussão e brigas.

Redes Sociais são campos minados, familiares “se revelam” em mensagens prontas e frases clichês em grupos de WhatsApp, perdemos a paciência com amigos e nos distanciamos de vizinhos que pensam diferente de nós. A intolerância assume vários matizes, seja a falta de diálogo, a crença de portar “verdades”, de odiar o diferente, de compartilhar ódio em soluções simplistas para problemas complexos.

O que é intolerância?

Quando passamos a discutir a humanidade dentro de um paradigma filosófico chamado de Condição Humana, é que reconhecemos um ponto fundamental: não nascemos humanos, nos tornamos humanos. Assim é preciso compreender que a cultura e a experiência social cotidiana em que cada ser é submetido, dará ou não condições deste se humanizar.

A filósofa Hannah Arendt, em sua obra A Condição Humana resgata a ausência da capacidade de pensar dos Alemães Nazistas durante o Holocausto, demonstrando onde a falta de humanização pode conduzir um povo.

Desde a Segunda Guerra, o mundo passou a responsabilizar a educação, não apenas pela formação social, cultural, política e profissional, mas também responsável pela humanização. Não basta apenas uma “formação para o trabalho”, mas uma formação para a vida.

As Redes Sociais deram ainda maior amplitude para essas e outras posturas. O que antes era possível escutar de algum familiar ou colega de trabalho, em ambientes privados (piadas racistas, homofóbicas e machistas) com pouco alcance, agora com a internet, essas posturas viram piadas, correntes de pensamento, muitas delas baseadas em fofocas e notícias falsas (as chamadas fake news).

Humberto Eco bem definiu: “As redes sociais deram voz aos imbecis”. Cabe notar, imbecis que advém de todas as classes sociais, de todas as regiões e níveis de formação. No meu entendimento, o intolerante é como um idiota, ambos são os últimos a perceber que são.

Mas preciso indicar um caminho importante para reversão deste quadro de intolerância. Parece pouco responsável identificar o problema, aproximar ele do leitor e não propor um caminho.

Existe um risco muito forte da nossa própria cultura nos conduzir a um caminho de intolerância, um tipo de intolerância cultural. A formação cultural de um povo, por criar regras e costumes e reproduzir esses de geração para geração, tende a formar seres que acreditam que apenas a sua cultura é correta as demais erradas. Vemos isso com hábitos alimentares (onde achamos nojento povos que comem insetos e carne de cachorro, mas não gostamos que esses mesmos povos tenham nojo ou indiquem ser um desrespeito nosso hábito de comer carne de boi).

Essa tendência automática de toda cultura ensinar seus praticantes a ver o mundo com “as lentes” fornecidas pela sua cada cultura, leva a cegueira em relação a diferença, podendo originar intolerâncias.

Fé e liberdade no Brasil (Arlindo Cruz)

A antropologia, ciência responsável pelo estudo das culturas, assim define essa postura como etnocêntrica. O etnocentrismo, leva o sujeito a dizer e sentir um amor, um sentido para sua cultura e suas tradições, construindo um mecanismo de identidade cultural. Normalmente, para fazer isso, o sujeito fortalece seus traços culturais se opondo a outra cultura ou traço cultural distinto. Fazemos isso com clubes de futebol, partidos políticos, entre culturas diferentes. Esse “reforço” de identidade cultural, leva muitos indivíduos a ter posturas intolerantes.

Imagine contextos culturais, onde o homem se constrói em oposição ao homossexual, que o rico constrói sua identidade em oposição ao pobre, que uma religião se constrói em oposição a outra. Esses exemplos poderiam ser, em parte, explicados pela formação cultural de um grupo ou sociedade. Posturas que se radicalizam facilmente, transformam a identidade cultural etnocêntrica, em intolerância.

A intolerância precisa de diversos fatores para ser superada na sociedade brasileira. Mas podemos começar reconhecendo que superar o etnocentrismo, a identidade cultural radicalizada, é necessário recuperar a essência do papel educativo na formação da conduta humana. Propondo posturas mais sensíveis a diferença, que constitui um traço essencialmente humano.

Ser diferente é próprio de cada ser humano. Mas em um país onde a maioria da população sobrevive, para se humanizar, não basta apenas desejar, ela precisa ter acesso a condições mínimas de vida, acesso a saúde, moradia, alimento e educação. Não existe mérito individual na humanização, esse compromisso precisa ser de cada um e de todos. Sem esse compromisso, continuaremos a aceitar a intolerância, como algo comum, em um cotidiano menos humanizado, onde fugimos para nossa “bolha” de amigos que pensam e compartilham da mesma realidade. Aceitamos que intolerância será sempre o ingrediente principal responsável por manter a percepção da realidade da maioria assim limitada, fechada para o processo contínuo e infinito que chamamos de ser em busca da humanidade, ou seja, ser-humano.

 

Ivan Dourado é Mestre em Ciências Sociais e Doutor em Educação. Atua como Professor de Sociologia na Universidade de Passo Fundo e como Palestrante e Assessor pedagógico em prefeituras da região sul do RS.
Este artigo foi publicado originalmente na Revista impressa Contato Vip, março 2018. Conheça mais aqui.

 

Quem tem medo de Paulo Freire?

O conhecimento usado como ferramenta
de reflexão só pode ser libertador.

 

Educar já foi instrumento de dominação e legitimação de  violências – e isto está  na base do muito do que somos. Já o conhecimento usado como ferramenta de reflexão, só pode ser  transformador.

Cabe à  sociedade  a decisão, sempre política: as escolas  devem ser espaços  para a vivência  da liberdade  ou estruturas  que se prestam à reiteração de tudo aquilo que não queremos  ser?

Esta é a questão que nos é colocada hoje, diante  da  caixa de Pandora  da vida política nacional, aberta  em 2013, quando das  manifestações  que liberaram das  conhecidas  amarras cordiais  os males  do autoritarismo, do ódio, da intolerância, do preconceito  e  do desapreço  à  democracia.

Neste turbilhão fascista emergiu a anacrônica, reacionária e medieval campanha pela Escola Sem Partido. Os defensores desta  estapafúrdia  tese  escolheram  um inimigo:  Paulo  Freire, que os  assusta e lhes provoca medo.

Pedagogia libertadora de Paulo Freire.

A acusação contra o grande pedagogo é de ter sido um “doutrinador”.  Pergunto aos acusadores se haveria na obra  de  Freire alguma  mensagem capaz  de autorizar  tamanha indignação  e  reprovação?

“Doutrinador” – vamos esclarecer –, é aquele que prega, instrui, incute em alguém uma crença, um ponto de vista ou  um princípio  sectário, ou seja,   realiza  uma transferência  de  conteúdos,  de  si  para  o objeto  de sua  doutrinação.

Nada está mais distante do pensamento pedagógico de  Paulo  Freire  do que isto. Ele repeliu com contundência  qualquer  procedimento  doutrinador. Em Pedagogia da  Autonomia (1996) escreveu: “Ensinar  não é transferir  conhecimento, mas  criar  as   possibilidades  para a sua produção  ou a sua  construção”.

São claras suas recomendações sobre  os  saberes necessários  à prática  educativa. Em Pedagogia do Oprimido (1968) asseverou: “A educação como prática da liberdade, ao contrário daquela  que  é prática  da dominação, implica  na negação do homem abstrato, isolado, solto, desligado  do mundo, assim  como  também  na  negação do mundo  como  uma realidade  ausente de homens”.

Fica evidente o pressuposto de toda compreensão e de toda  a ação educativa  capaz  de promover  a autonomia  e  a libertação das pessoas.

Promover a tomada de consciência e a transformação do indivíduo em sujeito qualificado de sua própria história: eis  a prática (práxis) educativa de  Paulo Freire.

Onde encontrar o ímpeto doutrinador em alguém que, em vez  de pregar  e impor, pergunta  e escuta  para compreender?

Na verdade, a chave para compreendermos a acusação  de  “doutrinador marxista”  contra  Paulo  Freire   não está  na sua obra. Encontra-se na mentalidade  daqueles  que  produziram  a mensagem, em sua compreensão  anacrônica  e estreita  do que é  educação  e do que é ensinar.

A mentalidade  retrógada  dos  acusadores  rechaça  a dimensão  política  da pedagogia  concebida  e posta  em prática  por Paulo Freire.  “Ensinar  exige  reconhecer  que  a  educação  é ideológica”, deixa  claro o educador.

Os defensores da  Escola Sem Partido  querem resgatar  grande parte  da  cultura  escolar  remanescente  de uma educação  que  exclui  e divide  ao invés  de incluir. De  um projeto  educacional  que  ainda  associa  saber, poder e ordem.

Paulo Freire lhes causa medo e perplexidade. Seu conservadorismo não entende que a pedagogia de  Freire  é  radical, isto é, vem da e vai à raiz  das coisas.

Privilegia a cultura, os saberes e os valores dos educandos  como  ponto  de partida e chegada  de uma educação  como  prática  de liberdade e  da  transformação.

Quem prega doutrinação? Na verdade, é quem acusa Paulo Freire. O acusador grita contra o espelho! Qual a doutrinação dos reacionários de plantão? Afirmo, sem medo de errar: a “doutrinação bancária”, aquela que transfere “ao outro, tomado  como paciente  de seu pensar, a inteligibilidade  das coisas, dos fatos, dos conceitos”.

Encerro esta reflexão com a famosa citação do educador, replicada nas redes sociais  como resposta  dada  pela  Unesco  ao cartaz  levantado  contra  Paulo  Freire:  “Educação  não transforma  o mundo. Educação  muda  pessoas. Pessoas  transformam o mundo”. Eis o que  os  reacionários  temem!

(Artigo produzido à partir de uma reflexão sobre  o texto  “Quem é doutrinador?”  dos  professores  Paulo Cavalcante  da  UFRJ e  Yllan de Matos  da UEP, publicado na  Revista  de História, setembro de  2015).

Carta à comunidade escolar Escola Protásio Alves e comunidade de Passo Fundo

Como já dizia Rubem Alves,
“escolas que são asas não amam pássaros engaiolados.
O que elas amam são os pássaros em vôo”.

 

Sou Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor de um site de educação, cidadania e espiritualidade.

Escolhi ser professor da Centenária Escola Estadual Protásio Alves porque sempre vi nesta grande escola um pouco da história de minha cidade, Passo Fundo.

A contribuição desta primeira escola estadual para a história de Passo Fundo é imensa e de grande valor histórico, cultural e social.

 

Também fui ser professor desta escola porque nela vi a possibilidade de exercer o magistério a partir dos conhecimentos das diferentes religiões, pela disciplina do Ensino Religioso, tanto no Ensino Fundamental, quanto do Ensino Médio.

Nunca pensei em ser Vice-diretor. Minha escolha sempre foi de exercer o magistério a partir das salas de aula. Porém, ao deparar-me com uma realidade de gestão interna de extrema complexidade na escola, envolvendo colegas professores, alunos e funcionários, decidi aceitar o convite para compor uma Chapa e colocar-me a disposição para assumir compromissos de gestão que possam elevar o respeito, a credibilidade e a consideração desta Escola para com os nossos alunos, professores, funcionários, pais e comunidade de Passo Fundo. Muita gente da nossa comunidade sabe disso, porque acompanhou em período recente, desdobramentos que levaram, inclusive, a destituição do diretor desta escola.

Acredito que precisamos, merecemos e podemos elevar a condição social e pública de nossa Escola Estadual Protásio Alves superando o medo, as mentiras e fofocas, o ambiente belicoso e tenso entre direção, professores e funcionários, a falta de ética, a falta de transparência nas ações administrativas com uma proposta de gestão compartilhada, que tenha por fundamentos a EDUCAÇÃO e a HUMANIZAÇÃO.

Para termos uma escola boa, precisamos de QUALIDADE SOCIAL NA EDUCAÇÃO. A qualidade social acontece quando todos que participam da escola se sentem bem. Os alunos se sentem felizes por estudar. Os professores se realizam na escola trabalhando e sendo respeitados. Os funcionários estão satisfeitos por colaborar na escola. Os pais que acessam a escola são bem acolhidos e valorizados.

Os alunos não precisam de bajulação, precisam de apoio, incentivo e bons desafios para que não percam vontade de estudar. Os alunos não devem ser manipulados, mas devem ser emancipados para as suas conquistas e sua liberdade de ser, de pensar e de agir.

Como já dizia Rubem Alves, “escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são os pássaros em vôo”.

Com propostas concretas, pé no chão, a Escola Protásio seguirá rumos seguros e consistentes. Estas propostas valorizam o protagonismo dos estudantes e dos professores. Valorizam o ambiente físico da escola, tornando-o aconchegante, bonito e prazeroso. Valorizam as capacidades, as inteligências e a criatividade da galera jovem que deseja ser, pensar e agir a seu modo e a seu jeito, respeitando as diversidades. Valorizam a organização dos estudantes, apoiando a formação de um Grêmio Estudantil, justamente porque este também é um espaço de construção social dos futuros líderes da sociedade.

Uma boa gestão escolar deixa acontecer e coordena, organiza, valoriza e apoia todas as iniciativas pedagógicas de relevância que qualificam a aprendizagem dos alunos. Mas também propõe, discute, sabe ouvir, faz mediações e organiza as condições para que ocorra boa aprendizagem.

Uma escola é feita por todos e todas. Não há somente um que faz e outros que só discursam e sonham. Aliás, o que seria da educação se ela não promovesse o anúncio de esperanças!

Uma disputa de diferentes chapas na escola é feita justamente para que a comunidade escolar possa conhecer propostas para melhorar uma escola e para que possam escolher perfis, habilidades e qualidades dos futuros gestores.

Uma gestão compartilhada e democrática saberá promover a socialização e a construção do conhecimento como pilares e funções da escola contemporânea. Saberá priorizar as relações humanas dos seres aprendentes que estão em permanente processo de humanização: os alunos, os professores, os funcionários e os pais e mães.

O maior desafio da escola contemporânea é a humanização. Humanização significa apostar que o ser humano pode ser melhor, através do conhecimento crítico e reflexivo. A superação da ignorância e da violência será pelo conhecimento e pela relação dialógica de seres que se respeitam e que promovem a cidadania, a democracia e a felicidade de cada um e de todos.

O Protásio Alves merece ser uma escola legal onde se possa aprender, conviver e ser feliz!

Integrantes da Chapa 1 que concorre às eleições na Escola Protásio Alves no dia 27 de novembro de 2018.

Existe “consciência negra”, mas não existe “consciência humana”

“Consciência negra” enfatizada em um dia, uma semana ou um mês não é bobagem. É através de periodizações desse tipo, que atraem a mídia e outros elementos formativos e informativos, que uma “consciência” abre espaço para que elementos empíricos possam criar suas identidades sociais de minorias.

 

Existe “consciência negra”, mas não existe “consciência humana”. Isso é uma verdade, se estamos na sociologia. E, no caso, estamos na sociologia.

Consciência humana é toda e qualquer consciência. Assim, “consciência humana” é uma expressão toda, unificada, em que o “humana” funciona não como adjetivo do substantivo consciência, mas apenas como uma peça reiterativa.

Na sociologia, não faz sentido falar em “consciência humana”, pois a ideia de consciência X ou Y está ligada à ideia de identidade social. Há, então, “consciência negra”, “consciência operária”, “consciência feminista” etc.

Identidades sociais são formadas por tais “consciências”, ou seja, a capacidade de ter um pensamento próprio, um modo cultural e determinado de apreciar o mundo e de se reconhecer no mundo como um diferente a partir da inserção em um grupo.

Faz sentido dizer “eu sou negro e não tinha uma consciência negra, agora tenho”. Não faz sentido dizer “eu sou humano e não tinha uma consciência humana, agora tenho”. Quem não entende isso vai insistir, erradamente, em querer destituir de importância as datas referentes à “consciência negra”. Fazendo isso, na certa estará contribuindo exatamente para o arrefecimento dos ganhos trazidos pela consciência negra.

“Consciência negra” enfatizada em um dia, uma semana ou um mês não é bobagem. É através de periodizações desse tipo, que atraem a mídia e outros elementos formativos e informativos, que uma “consciência” abre espaço para que elementos empíricos possam criar suas identidades sociais de minorias. Isso se faz necessário para que não tenhamos apenas uma massa de carne humana vivendo, mas homens e mulheres inseridas em culturas distintas, capazes então de nos dar nosso melhor, que é a criatividade gerada pela diferenciação de necessidades, gozos, aspirações e epistemologias.

A “consciência X” é sempre uma qualidade não empírica. Nenhum homem ou mulher a possui, ela e uma expressão significativa ou, para alguns filósofos, um conceito. Utilizamos do conceito para saber o quanto, na nossa vida cotidiana, no mundo empírico, agimos e pensamos segundo os dispositivos normativos do conceito ou não.

“Faltou-me consciência de negro”, pode dizer um negro que não percebeu que deveria buscar a lei antirracismo para se proteger ou para denunciar uma injustiça. Ninguém diria “faltou-me consciência humana” ou “ele não tem consciência humana”. O que se diz é: “ah, faltou-lhe humanidade”, ou seja, ele não agiu como os humanos devem agir quando se diferenciam das bestas por X ou Y.

Época de “consciência negra” é época em que as pessoas podem dizer para o Demétrio Magnoli e outros empertigados que negro não é cor da pele, mas cultura, e ninguém é negro, as pessoas se declaram negras se se inserem na cultura negra. As cotas, portanto, são para os que se declaram negros, e avalia-se isso pela boa fé e pela razoabilidade de se reconhecer quem pertence e quem não pertence a uma dada cultura declarada.

As cotas não precisam de tribunais. As cotas são para que minorias se integrem rapidamente no seio da maioria, ainda que preservando sua identidade. A política de cotas é solicitada exatamente por quem não é só negro, mas é negro com “consciência negra”, e pelo branco inteligente que entendeu que acelerar o processo de diminuição de preconceitos é acelerar uma bola de neve necessária.

Fonte: ghiraldelli.pro.br

 

 

 

Centavos e milhões

Centavos e milhões representam, respectivamente,
miséria, subnutrição e fome, de um lado, e,
de outro, riqueza, luxo e ostentação:
ambas crescem em proporção
recíproca e exponencial.

 

Existem aqueles que poupam e juntam os centavos pelos quatro cantos da casa, para pagar o pão e o leite do dia seguinte; e existem os que, em uma só jogada de gala, atiram pela janela milhões em uma aposta na corrida de cavalos.

Alguns, num único encontro com os amigos, desperdiçam fortunas nos manjares mais requintados, regados com os licores e vinhos mais finos; e outros, do lado de fora, como o pobre Lázaro do Evangelho, anseiam pelas migalhas que caem da mesa do banquete. Há gente pela rua que, de daqui e dali, recolhe seus parcos pertences, na tentativa de passar a noite ao abrigo de qualquer cobertura, fugindo da chuva e do frio; e há gente que sequer sabe quantas mansões possui espalhadas pela cidade, pelo campo ou pela praia, em grande parte vazia.

Multidões marcham, dia após dia, por quilômetros e quilômentros, em busca de um solo que possa ser chamado de pátria; uma minoria de proprietários acumula em suas mãos terras e mais terras, em latifúndios vazios e improdutivos…

Os exemplos poderíam multiplicar-se por páginas e páginas. Centavos e milhões representam, respectivamente, miséria, subnutrição e fome, de un lado, e, de outro, riqueza, luxo e ostentação: ambas crescem em proporção recíproca e exponencial.

Trata-se, evidentemente, de casos extremos. O espectro das assimetrias socioeconômicas, na realidade, é bem mais diversificado, plural e complexo. Entre os polos opostos, o cenário das desigualdades entre indivíduos, grupos, empresas, empreendimentos, conglomerados, classes, regiões ou países – descortina uma imensa variedade de situações intermediárias.

Os extremos, porém, servem para alertar-nos sobre a estrutura atual da economia globalizada, onde o pico e a base da pirâmide social aprofundam cada vez mais o abismo que divide o andar de cima dos andares de baixo. O quadro vem se agravando progressivamente a partir da crise da década de 1970, a tal ponto que nestes 50 anos os andares médios da pirâmide (onde efetivamente existiam) sentem-se cada vez mais sacrificados e relegados. Disso resulta a coexistência de um pequena porção de super ricos, ao lado da enorme massa de “os condenados da terra”, para usar o título da obra de Frantz Fanon, publicada pela primeira vez ainda em 1961.

Isso significa que a economia mundial hoje, nos moldes em que se desenvolve, produz contemporaneamente concentração de renda e exclusão social.

Os economistas, sociólogos e demais estudiosos não se cansam de ilustrar semelhante disparidade através de dados e números, estatísticas e tabelas, gráficos e percentuais de análises cada dia mais alarmantes. A crise prolongada do último meio século constitui terreno fértil para quedas e falências, bem como para ascendências e oportunismos anômalos.

Como todo estado de incerteza e insegurança, é também terreno fértil para projetos políticos igualmente anômalos. Daí a onda da extrema direita que, a partir dos Estados Unidos, vem se estendendo pelas mais variadas partes do planeta, chegando ao continente verde e amarelo chamado Brasil.

Com fúria inusitada, alastra-se e se consolida o nacionalismo de épocas pretéritas. Revestido com a máscara do populismo, o renascimento de uma identidade nacional mórbida e doentia não se resume, porém, a um punhado de candidatos recentemente eleitos. Ela brota e cresce a partir do chão, do medo difuso entre determinados estratos da população.

São os representantes dessas fatias populares que, nas urnas, depositam sua confiança em “regimes fortes”, elegendo políticos duros e intolerantes, como se a força bruta fosse o único meio de exorcizar o fantasma da desordem econômica e social.

Está em jogo, além disso, uma espécie de identidade nacional baseada não tanto sobre os valores culturais e históricos de um povo, e sim sobre uma atitude de oposição, não raro gratuita e intransigente, diante de quem chega de fora – o outro, o diferente, o estrangeiro. Estrangeiro como estranho, como problema, risco e ameaça, pronto para representar o papel de “bode expiatório” dos tempos contemporâneos.

O resultado aparece em forma de estridente contradição. De uma parte, dada a situação de crise, a qual sempre sacrifica os povos, regiões e países menos desenvolvidas e mais vulneráveis, multiplicam-se a fuga, o êxodo, a marcha ou a migração sistemática de milhões e milhões de pessoas. Deixam a pobreza e a violência, na tentativa de encontrar o trabalho, o pão e a paz. Tornam-se prófogos, refugiados, errantes. De outra parte, a visão fechada, discriminatória e intolerante da política econômica induz a uma legislação antimigratória e xenofóbica. O impasse tem reflexos imediatos e cinematrográficos nas fronteiras geográficas, em modo particular naquelas que separam as economias centrais dos países periféricos.

Dançamos nós

Nada mais importante
do que livros e professores.
É hora de prestarmos atenção.
Porque se não reagirmos dançamos nós.

 

 

Um sujeito de chapéu e terno azul entra na sala de aula. Ele chega dançando e seus movimentos estão muito bem sincronizados com a música. Então a professora e os alunos o acompanham e dançam também.

A cena faz parte do comercial de uma grande empresa. É tudo de primeira: a fotografia, a montagem, a coreografia, a direção. Toda a estética contida em poucos segundos encobre o horror.

Vejamos. O dançarino não bateu na porta da sala de aula. Ele não pediu licença ao professor. Tomou conta do ambiente e fez do local seu palco. Pior: a professora se deixou contagiar e dançou. E todos dançaram.

É obvio que a grande empresa não teve intenção de humilhar ou denegrir ninguém. Ainda assim aprovou a publicidade que, de certa forma, reflete a cara da sociedade brasileira de hoje. A sala de aula não é tão importante assim. A alegria e a desenvoltura do sujeito de chapéu e terno azul se sobrepõem. A autoridade do professor foi para o brejo, sua aula pode ser invadida e transformada sem que isso pareça desaforo.

Não é de admirar. Hoje, de um modo geral, os professores apanham dos alunos, são espinafrados pelos pais e, conforme as direções, precisam se adequar aos novos tempos. No novo modelo, aluno não é mais aluno, é cliente.

Baseada na filosofia do “cliente tem sempre razão” a publicidade reforça o pensamento insuportável de que piada e descontração valem mais do que respeito a quem ensina e ao próprio Ensino. Está certo, professor não precisa ser carrancudo, mas poderia ter papel mais digno (sem mencionarmos como deveria ter melhor formação, salário e condições de trabalho) e a aula não deve ser um tormento, mas precisa ensinar.

Por que a publicidade não presta mais atenção às mensagens – nem tão subliminares assim – que espalha? Por que o sujeito de chapéu e terno azul não aparece lendo um livro? Nada mais importante do que livros e professores. É hora de prestarmos atenção. Porque se não reagirmos dançamos nós.

Como escritor, Luis Dill foi brindado com uma interpretação de conto seu. Confira a resenha e a história.

“Conteúdo”, baseado no conto homônimo de Luís Dill, conta a história de um adolescente que, na véspera do vestibular, tem sua vida transformada e deve tomar decisões sérias em relação ao seu futuro. A maneira como seus pais encaram a situação é fruto de uma relação familiar desgastada e preconceituosa, e revela a falta de comunicação. Realmente enxergamos quem convive conosco? Ou só vemos aquilo que queremos ver?

Professor de história

O professor de História tem a mesma
bagagem universitária de um advogado, um médico,
um engenheiro e um jornalista e, como estes,
também tem opinião e convicções.

 

Nos dias atuais, uma das funções que se tornou alvo de intensa vigilância e verdadeira perseguição por segmentos da extrema-direita é a de professor de História. Alguns andam com medo.

Sua formação lhe possibilita tomar o passado e o presente como objetos de seu estudo e da sua análise crítica. Daí passou a ser visto como perigoso, já que o conhecimento usado como ferramenta de reflexão, gera transformação.

Isto acontece desde os tempos da Grécia antiga. Por isso, os pensadores, os filósofos e educadores eram recebidos com rancor e inconformidade. A fúria dos intolerantes matou Sócrates.

Numa aula de História os estudantes aprendem a analisar o passado e a pensar sobre o futuro; a ter e a dar opinião; a dialogar com seus pares, sem levar em conta gêneros, etnias, cores, classes etc.

“A aula de História compartilha o mistério da generosidade, porque ela inclui ao invés de excluir” (Nilton Mullet Pereira – Historiador-UFRGS)

Foto: Divulgação

O professor de História tem a nobre missão de levar às novas gerações o estudo do passado de forma contextualizada. Não de forma ingênua, fria e neutra. Cabe a ele o estudo crítico da herança deixada pelas gerações anteriores.

Ser imparcial não significa não ter opinião. O professor de História tem a mesma bagagem universitária de um advogado, um médico, um engenheiro e um jornalista e, como estes, também tem opinião e convicções.

A análise crítica ele faz em um ambiente aberto, de respeito pelas opiniões e, é óbvio, com a garantia do contraditório.

O patrulhamento vem dos defensores da estapafúrdia tese da “escola sem partido”, donos de uma compreensão das mais estreitas do que é educação e do que é ensinar.

 O que é a Lei Escola sem Partido? 

 

Tais pessoas, de um reacionarismo espantoso, acreditam piamente no mito da neutralidade da ação docente, segundo o qual, o professor não tem cara, não tem lado, não toma partido, não pensa, nem intervém de modo transformador na realidade social.

Dizem que querem acabar com a doutrinação, mas é justamente a sua doutrinação que eles querem impor às escolas.

Como asseverou o historiador e doutor em educação pela UFRGS, Nilton M. Pereira “perseguir, vigiar, desconfiar de professores em função de sua aula é um ato de barbárie”.

O passado nos legou lições de sociedades doentes que permitiram colocar barreiras para o pensamento e para a educação da juventude, com resultados desastrosos.

Gravar aulas de professores foi incentivada por uma deputada eleita em Sta. Catarina, mas ela ia para a sala de aula com camiseta do Bolsonaro. O presidente eleito também se mostrou favorável a este tipo de censura e patrulhamento. Uau!

O ensino de história é a base da formação do cidadão político. Obviamente ela trata de política, como também de economia, da sociedade e da cultura. Sua missão não é elencar meros detalhes.

É evidente que a história que faz apologia não tem nenhum valor para a educação, como também a história que não desenvolva a capacidade crítica. Para tratar história com fundamentação científica, o professor precisa desenvolver capacidades intelectuais nos alunos, caso contrário não é ensinar história.

Educar é um ato político em seu sentido histórico: a discussão da pólis em que vivemos e na qual queremos viver.

Na verdade, os defensores da “escola sem partido” querem que ela tome o seu partido. São inimigos da liberdade, da livre expressão e da educação.

Se pudessem, condenariam Sócrates a novamente tomar cicuta!

“A história da educação no Brasil, assim como na maioria dos países ao redor do mundo, coincide com a história da discriminação de gênero. A formação da sociedade brasileira, marcada pelo patriarcalismo, pelo autoritarismo e pela influência da Igreja Católica, reflete diretamente na constituição da educação formal no país, com total exclusão das mulheres e afirmação do machismo”. (José Ernani de Almeida) 

Identidade de gênero

 

O desafio de fato: da esquerda? Não, da humanidade!

Ou entendemos esse novo formato cibernético
que chamam de guerra híbrida e suas armas ou
seremos engolidos como civilização humanista.

 

Correndo o risco de ser uma interprete da ficção, mas não posso me furtar da realidade que vejo!

O velho discurso sobre os pecados que a esquerda tem de pedir perdão são na verdade um grande engodo que não permite ver com clareza o que verdadeiramente está acontecendo. Por que a esquerda deveria pedir perdão? Por governar, por ter um programa de governo? Por ter alguns corruptos? Mas qual instituição não tem? Qual mal fizeram a humanidade brasileira no pós comunismo da guerra fria?

No geral foi muito bem sucedida em termos humanos e sociais, então porque pedir perdão? O buraco é mais embaixo! Não nos iludamos!

Estamos lidando aqui na verdade com uma estratégia cavalar, lesa-mente, cibernética como instrumento de passagem para o que houve e há de mais letal na história da civilização, o retorno do medo, da guerra, da repressão, da injustiça social de tempos seculares reeditadas sobre a humanidade por moderníssimos instrumentos de manipulação mental e emocional da humanidade.

É tempo de estudar essa realidade sob novos parâmetros. Nada de meas culpas piegas que não encontrarão ressonância diante da massiva replicação de imagens em redes televisivas e pessoais que entram direto no cérebro e acionam profundos estereótipos mortais da história da civilização. É manipulação mental pura e simples, sobre a qual poucos tem defesas, resultando numa epidemia mental que leva o povo a atuar contra si mesmo alienado do real.

Se aqueles que estão despertos não tiverem a capacidade de despertar seus semelhantes, estaremos todos num universo paralelo pré impostado de modo artificial que está acontecendo no mundo todo destruindo a civilização alcançada até então e no lugar dela impondo outro sistema que de maneira nenhuma é humano.

O que estamos vivendo é uma guerra dos mundos bem a modo dos filmes de ficção americanos, só que no caso, os humanos, com uma única arma: a consciência desperta e a possibilidade de raciocinar fora do programa. Nada fora disso resolverá a situação. Ou entendemos esse novo formato cibernético que chamam de guerra híbrida e suas armas ou seremos engolidos como civilização humanista.

A primeira questão é desenhar a proposta dessa civilização que ingenuamente chamamos de extrema-direita e os resultados disso para as necessidades e aspirações humanas, constatada a incompatibilidade com a felicidade almejada, firmar propósito num pacto coletivo de resistência crítica com propósito. O propósito máximo é o projeto humano de natureza ao bem máximo de si mesmo em todas as esferas de necessidades para a evolução renascentista sem perda de foco.

O momento é sério e definidor do futuro. Será a mente, a inteligência, o intelecto e a vontade da humanidade permanecer humana ou sucumbir de vez ao anti-Prometeu apagando de vez o fogo roubado dos deuses e que tanto custou ao protagonista Prometeu, apagado o fogo do espirito reafirmado por Cristo quanto ao potencial humano, restaremos robôs, autômatos, escravos na negação da nossa existência original.

ACORDEMOS, não há outro caminho neste momento. É tempo de entender e centrar a história da humanidade e posicioná-la ou perder de vez o protagonismo sobre o planeta. Ser humano é uma das maravilhas da vida, indiferente para a vida em si, mas profundamente importante como glória de uma espécie que ainda não desabrochou como potencial para honra de si mesmo. “Não sóis máquinas! Homens é que sois!” (Chaplin)
Não somos escravos psicofísicos da inteligência artificial imperialista, a não ser da nossa própria ignorância sobre o que é ser humano!

Veja também