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Ocupações

Que Alexandre Garcia, William Bonner, Mirian Leitão e seus
similares aqui no Estado continuem vendo esse povo como invasores.
Não importa. Caco Barcellos está formando jornalistas.


O jornalismo vai sobreviver aos ataques dos que dizem defendê-lo, mas se encarregam de destruí-lo.

Acabei de ver o programa “Profissão Repórter” sobre ocupações.
Ouvi nove vezes, pela voz das repórteres, as palavras ocupação, ocupar, ocupando, ocupantes. Matéria repercutida pelo portal G1.

Nenhuma delas falou de invasão ou invasores. Os jornalistas decidiram desafiar a definição usada pela própria Globo para os sem-teto que ocupam prédios e áreas sem utilidade e que muitas vezes são mantidas apenas como reserva de valor para especulação.

Uma reportagem emocionante feita por meninas sob a liderança do grande Caco Barcellos. E Caco foi o primeiro a anunciar que o programa trataria de ocupações.

Profissão Repórter 01.11.2017 – Ocupações em São Paulo, completo.

Que Alexandre Garcia, William Bonner, Mirian Leitão e seus similares aqui no Estado continuem vendo esse povo como invasores. Não importa. Caco Barcellos está formando jornalistas.

Dráuzio entrevista Caco Barcellos. Conheça mais sobre este grande jornalista.

 

Jornais impressos contam histórias das comunidades

Associo-me aos jornais impressos que têm como missão integrar as comunidades pelo caminho da informação. Produzir informação e jornalismo com responsabilidade social é uma das características que justificam a existência de jornais impressos, contanto que as informações neles contidos não sejam instrumentos de dominação, mas que sirvam para democratizar o conhecimento nas comunidades.

O jornal impresso sempre cumpriu muitas funções, sobretudo nas pequenas comunidades gaúchas.

Os imigrantes alemães e italianos sempre valorizaram os jornais que eram impressos nos idiomas deles. Os alemães assinavam o jornal St. Paulus-Blattt, impresso em alemão, lido e discutido entre – os letrados e interessados –, os quais, geralmente, eram lideranças das comunidades. Também assinavam o calendário, na forma de livro, denominado Ignatiuskalender. O mesmo era impresso em Porto Alegre e sob responsabilidade dos Padres Jesuítas. Os imigrantes italianos, por sua vez, recebiam em suas comunidades o Jornal Correio Rio-grandense, editado a partir de 1909. Depois das celebrações dominicais, os principais títulos eram lidos para todos. Havia também havia assinaturas que eram feitas pelas famílias, diríamos mais abastadas, ou interessadas.

Os jornais impressos eram uma das poucas fontes de informação, geradas de fora dos contextos das comunidades do interior. Quando apareceu o rádio, o veículo praticamente tomou o lugar das informações, antes restrita aos jornais e aos relatos dos viajantes.

O fato é que todo o jornal, entregue na forma de assinatura, ou distribuído gratuitamente pelas prefeituras, sindicatos ou outras organizações, sempre despertava uma grande curiosidade na comunidade, principalmente por ser uma informação palpável (ilustrada com fotos, charges, pinturas a nanquim e noutras linguagens, com informações gerais e locais, que vinham ao encontro dos desafios comunitários, da organização e da produção escrita das próprias comunidades).

Tudo o que vinha escrito era aceito como verdadeiro, a exemplo de outros impressos como a Bíblia, dos folhetos da celebração dominical e do livro de cantos, geralmente folclóricos e religiosos.

O jornal também cumpria funções práticas como embrulhar produtos alimentícios e frágeis, sobretudos nos bolichos, casas de comércio ou supermercados. Ao chegar nas famílias, na forma de embrulhos, os jornais cumpriam a função de informar seus leitores.

Particularmente, fui obstinado por jornais, justamente porque continham informações novas e diferentes, nem sempre muito compreensíveis ao meu entendimento. Justamente por isso, eu fui assíduo leitor dos jornais amassados, antes dos mesmos cumprirem sua última missão: acender o fogo do fogão à lenha.

Até hoje, nas comunidades do interior, o destino final do jornal, após a leitura, vai à caixa de lenha. Nas cidades, destinam-se à reciclagem, ou para cães, gatos e aves preservarem a higiene da casa. Nos centros urbanos, entopem bueiros ou servem para proteger do frio de quem mora na rua. Mas mesmo antes de seu destino derradeiro, o jornal impresso ainda está disponível para cumprir função de informar e instigar curiosidades pelo mundo desconhecido.

Avalio como mágico, poderoso e instigante o poder e a influência dos jornais impressos nas pequenas comunidades.

Acreditando neste poder, dez anos atrás, ajudei a construir um jornal impresso de uma rede municipal de ensino de um município do norte gaúcho com predominância de comunidades no interior. Chamava-se “Criando para encantar”. Era uma publicação da Secretaria Municipal de Educação. O objetivo era contar as práticas educativas de cada escola. Em pouco tempo, tornou-se o Jornal de toda comunidade, distribuído a todas as famílias daquele município, tornando-se logo referência de informação à comunidade. Deixou de ser impresso porque dava muito trabalho.

Hoje, associo-me aos jornais impressos que têm como missão integrar as comunidades pelo caminho da informação. Produzir informação e jornalismo com responsabilidade social é uma das características que justificam a existência de jornais impressos, contanto que as informações neles contidos não sejam instrumentos de dominação, mas que sirvam para democratizar o conhecimento nas comunidades.

Em nossa cidade, Passo Fundo, RS, ainda há dois jornais impressos diariamente: Diário da Manhã e O Nacional.

Mas há também jornais periódicos, com natureza e objetivos distintos como o Jornal Rotta.

O jornal Rotta é uma publicação periódica – quinzenal, que circula há mais de 20 anos em meio a comunidade de Passo Fundo, sempre com distribuição gratuita e de forma ininterrupta neste período. Com uma tiragem de 2 mil exemplares (em edições normais), é distribuído nos mais diversos segmentos da comunidade, chegando com suas notícias ao Poder judiciário; Prefeitura Municipal, Câmara de Vereadores, escritórios de advocacias, consultórios médicos – e outros profissionais da área da saúde; Universidades, setores da Segurança Pública – com ênfase para as polícias Civil e Militar, entre vários outros.

Com um material (matérias) de fácil entendimento, tratando dos mais diferentes temas da vida da sociedade; com colunistas que enfatizam temas das mais diferentes atividades do cotidiano de uma cidade como Passo Fundo – com mais de 200 mil habitantes, o jornal Rotta é muito bem aceito; conquistando leitores a cada edição e mantendo um grupo fiel ao seu trabalho há anos.

A filosofia do jornal Rotta sempre foi trabalhar com a verdade dos fatos; ter em seu quadro colunistas profissionais que se dedicam, além da arte de escrever, a outras tantas atividades, lhes possibilitando repassar ao leitor as mais diferentes opiniões e experiências sobre qualquer assunto. Aliado a isto, a publicação zela, como sempre zelou, pela qualidade na sua diagramação, em peças publicitárias e na qualidade de sua impressão.

Manoel de Barros na sala de aula para crianças

Nas minhas andanças pelo país tenho visto professores com dificuldades para trabalharem a poesia em sala de aula. Tal esta dificuldade se dê porque o professor não gosta de poesia, pois tudo o que gostamos aprendemos a transmitir para o outro. Fica o convite para uma aula com poesia.

 

Quando a gente se depara com a poesia de Manoel de Barros, toma um susto com a forma pela qual ele consegue usar as palavras, coisificando-as e trabalhando com metáforas. Dá uma vontade enorme de ser ele só para podermos brincar desse jeito com as palavras!

Manoel de Barros tem uma poesia voltada para o público infantil de uma singeleza ímpar. Uma poesia que fala por si mesma, que brinca com a criança e a filosofia, que fala dos vazios, do mundo, dos quintais, dos besouros e de tantas outras coisas.

O menino que carregava água nas peneiras. Manoel de Barros.

Nas minhas andanças pelo país tenho visto professores com dificuldades para trabalharem a poesia em sala de aula, mas acho que essa dificuldade se dá quando o professor não gosta de poesia, pois tudo o que gostamos aprendemos a transmitir para o outro.

A poesia de Manoel de Barros é um convite para uma aula diferente, uma aula onde as crianças possam brincar com a metafísica e as coisas sem se preocuparem com os seus conceitos complexos.

O poeta inventa palavras, e isso faz muito bem. Inventa mundos e inventa meninos. Sabe bem brincar com a imaginação das crianças. Explora o imaginário de forma inteligente e criativa chamando a criança para dentro da sua poesia.

Quem já leu a poesia o menino que carregava água na peneira sabe bem do que estou falando. O poeta fala de um menino que gostava mais do vazio do que do cheio e isso já chama a atenção da criança, pois como pode um menino gostar de uma coisa vazia se no cheio é onde estão as coisas nas quais podemos mexer? O poeta usa a palavra “despropósitos” que pode ser questionada pelo professor aos seus alunos.

Ao analisar cada palavra da poesia o professor segue descobrindo a magia e o encanto que Manoel de Barros dá ao seu menino da peneira, um menino simples, porém cheio de coisas maravilhosas, igual a qualquer outro menino, igual aos nossos alunos que vez ou outra gostam de vazios e a gente não consegue entender o motivo.

Outro poema que pode chamar a atenção dos alunos é o livro sobre nada. Usa as metáforas de forma linda e com a alegria de uma criança fala que palavra poética tem que chegar ao grau de brinquedo para ser séria. E assim o poeta nos esclarece que todo brinquedo deve ser levado a sério. Esta já é uma poesia para alunos maiorzinhos, do ensino fundamental II, mas que nos leva a uma reflexão tamanha sobre a vida e as coisas.

Uma poesia que fala do nada; a gente fica a se perguntar o que é o nada o tempo todo e se o nada existe como é ele.

Poesia Livro sobre o Nada. Manoel de Barros.

As crianças gostam de perguntar sobre o nada, por isso a poesia voltar a ser das crianças menorzinhas novamente.

A poesia também fala de presença e de falta dentro da gente num mundo onde a falta de amor ao próximo, de cuidados, zelo e carinho vem tomando conta da nossa sociedade pode-se usar esse verso para refletir com os alunos para onde estamos indo com a nossa individualização, o que está faltando na sociedade para que ela se torne melhor e como fazê-la melhor. Pode ser questionado também o que está presente tão fortemente na sociedade que não conseguimos enxergar a olho nu, e por que as coisas costumam dá errado para alguns que não conseguem se enxergarem presentes no mundo.

No mesmo poema, o poeta fala que gostaria de ser lido pelas pedras. Daí a gente fica pensando que importância pode ter uma pedra? Será que uma pedra pode lê alguém? De que forma? Por que o poeta usou essa metáfora? O que as crianças acham desse verso? É um verso bem filosófico esse. Nos leva a um pensar crítico e investigativo forte.

Num primeiro momento percebemos que o poeta dá uma importância significativa para a pedra. Logo, podemos brincar com as crianças perguntando-lhes o que acham de uma pedra, e se gostariam de ser uma, como deve ser a vida de uma pedra, que sentimentos deve ter uma pedra, etc. Claro que isso tudo está na base do mundo imaginário, mas talvez seja esse o convite do poeta, fazer a criança entrar no mundo imaginário para ler a sua poesia.

Para concluir, citarei mais um verso que chamou a minha atenção na poesia o livro sobre nada: “não saio de dentro de mim nem pra pescar”, diz o poeta.

Eu me pergunto como seria esse sair de dentro de mim? Como a gente faz pra sair de dentro de nós? Acho que essas são boas perguntas a serem feitas às crianças que estão sempre cheias de curiosidades.

O meu objetivo com este artigo é convidar os professores a trabalharem com a poesia em sala de aula, pois ela é um instrumento de despertar o imaginário, o pensar crítico e reflexivo diante de nós e do mundo ao nosso redor. Trouxe hoje aqui a poesia de Manoel de Barros, mas acho que qualquer boa poesia faz isso com maestria e beleza. Fica o convite para uma aula com a poesia.

Poema, de Manoel de Barros.

 

Arte de manipular através de promessas

A verdade é que as condições materiais, os fatos e a sensação
de segurança tem um grande apelo material e emocional.
Todos buscam segurança, temos necessidades físicas e subjetivas,
que se apresentam como condição garantidora da mesma.

 

Nas vésperas da eleição presidencial de 2018, o Brasil está vivendo uma mistura explosiva da mentira emotiva no contexto pós-verdade. Em sintonia com a definição do dicionário de Oxford pós-verdade é: “circunstâncias em que os factos objetivos têm menos influência na formação de opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais”.

Em outras palavras, pode ser dito que se trata de uma nova palavra, simbolizando um conceito que agrega a dimensão emocional, para um conceito antigo em que as relações entre emoção e a imaginação tem mais poder do que as relações entre os fatos concretos.

A pós-verdade de que a corrupção iria ser combatida, com a retirada de um partido político do poder e as condições de vida melhorariam moveu multidões em 2016, mas perdeu força em 2017.  

Na medida em que o que está acontecendo se sobrepõe ao que foi prometido e esperado, novas promessas são construídas com o objetivo de fazer com que as mentiras continuem manipulando as multidões.

As opiniões, por exemplo, de que a vida estava melhorando com as mudanças, que incluíram o congelamento dos investimentos sociais e a reforma trabalhista foi desconstruída. O poder de convencimento dos benefícios da reforma da previdência e da prisão de um ex-presidente foram “constrangedoramente” desconstruídas em manifestações de em uma das maiores festa populares, que é o carnaval brasileiro.

Para manipular multidões, as técnicas de mentir e controlar as opiniões são aperfeiçoadas.  Um aspecto central para a eficácia dessa estratégia é incluir uma porcentagem de verdade para que a mentira seja mais convincente.

Uma dificuldade está no descontrole da comunicação e da verificação, que precisam ser superada pela insistência na propagação da falsidade e na desqualificação de quem a contradiz. Além disso, quando uma promessa perde força, como é o caso da promessa vendida, como foi garantia de melhoria, a partir das mudanças de 2016, se faz necessário construir uma nova mentira que agrega componentes verídicos.

A verdade é que as condições materiais, os fatos e a sensação de segurança tem um grande apelo material e emocional. Todos buscam segurança, temos necessidades físicas e subjetivas, que se apresentam como condição garantidora da mesma.

Nesta edição do programa o tema é Segurança Pública e como a sensação de segurança influência no nosso dia a dia. O assunto é tema de uma pesquisa que está sendo desenvolvida pelo professor Erni Siebel da UFSC em parceria com professores da Unochapecó.

A promessa mentirosa, anunciada nos últimos dias (intervenção militar) é que a segurança será viabilizada pela guerra, com confronto armado, em contraposição ao entendimento de que o aumento da insegurança decorre da diminuição dos investimentos em educação, habitação e distribuição justa da renda.

O Sala Debate apontou os holofotes para a segurança pública, utilizando como pano de fundo as atitudes dos justiceiros. Você é a favor da justiça com as próprias mãos? Pra onde está caminhando a segurança pública do Brasil, um país que tem mais de 50 mil homicídios por ano?

 

Um útero para elas

As mães, que protegem os filhos
em seu ventre e no mundo,
pedem encarecidamente
um útero para si mesmas.

 

Ainda que a maioria dos super-heróis seja masculina, as supermamães existem. Talvez não sejam aladas, a não ser de ternura. Talvez não corram à velocidade da luz, mas disparam em máxima velocidade humana ante um choro de filho. Talvez não consigam salvar-nos dos alienígenas, mas podem gerar novos seres comprometidos com outro mundo.

Só as mães têm o maior de todos os superpoderes: conseguir em segundos que desapareçam terríveis e enormes problemas de um filho. E sem magia. Simples resultado da imaginação, do tal de instinto materno, de não-sei-o-quê. Tudo do modo mais simples. E usam materiais à mão de qualquer um: palavras, um colo, um olhar, uma comidinha especial, um beijo, um sorriso, um afago, um cafuné, um não-foi-nada-meu-filho.

Estudiosos das emoções já descobriram que a incapacidade de amar dos psicopatas deve-se à falta de vínculos de afeto com suas mães. Mães frias, violentas, imaturas afetivamente, enviam para o mundo filhos com graves problemas emocionais. Porém, mães de mimos exagerados, sabe-se também, formam tiranos, egocêntricos e insensíveis.

Mães são importantes não apenas pela geração. Gerar, por si só, não é relevante. Há quem gera e mata, quem gera e maltrata, quem gera e abandona. Mães são importantes porque todo o amor do mundo, em suas múltiplas expressões, depende da têmpera e do tempero do amor materno.

Por ser esse amor tão importante para o mundo, mais que melosas homenagens, o dia das mães deve ser para a sociedade um momento de reflexão sobre o papel da maternidade na formação dos seres humanos.

O amor materno é sempre sagrado, capaz de abarcar as dimensões humanas mais ricas e contraditórias. Sua pureza se confunde com amor radical, mas nem sempre compreendido por sua incondicional capacidade de perdoar, reatar, reconsiderar, reaprender a viver do jeito que é possível, apesar dos pesares.(Nei Alberto Pies)

Amores de nossas mães

A maternidade pede um lugar central nas políticas públicas de combate à miséria, de educação, de saúde, de diminuição da violência e da criminalidade. O abandono de recém-nascidos por mães pobres, que tem chocado a opinião pública, deve ser interpretado como sinal de graves problemas sociais.

Mães são heroínas poderosas. Seus beijos e carinhos podem fazer milagres e curar grandes feridas. Mães são rosas, rainhas, merecem jóias, presentes, telefonemas, e até panelas e liquidificadores. Mas, sobretudo, as mães precisam da atenção da sociedade para que os filhos do futuro possam continuar sendo salvos por seus superpoderes.

As mães, que protegem os filhos em seu ventre e no mundo, pedem encarecidamente um útero para si mesmas.

“Deixa os outros se espantarem com o amor, mas nunca pelo fiasco. O amor é feito de alma e, como ela, existe, mas não pode ser tangido. Sente o amor como uma brisa anunciando mudança de tempo. O amor tem um corpo de aura que se esmigalha ao ser exposto sem finesse”. (Pablo Morenno)

Para o amor durar…

Coisa de menino e coisa de menina

Reforçando papéis construídos socialmente,
lá na infância, fazemos com que os adultos naturalizem
que o trabalho doméstico e ensinamos que cuidar dos filhos
é uma função da mulher, que o homem deve ser agressivo,
correr de carro, demonstrar masculinidade portando armas…

 

Cresci ouvindo que menino brincava com menino e menina com menina.

Os meninos não podiam brincar de bonecas. As meninas não podiam ficar brincando na rua até tarde. As meninas brincavam de casinha e os meninos de astronauta. Menina fecha as pernas quando senta, menino levanta a saia da menina, é engraçadinho: já é um garanhão. A menina que “deixou” levantarem sua saia é castigada e não pode usar mais saia, não sabe se comportar usando uma.

Já experimentou ver a diferença, numa loja de brinquedos, das coisas de menino e das coisas de menina? Para as meninas você vê todo o tipo de vassourinha, cozinha, chapinha e secador de cabelo, além do bebê, é claro, para já ir brincando de mamãe ou ainda ser princesa e esperar o príncipe chegar para que tudo se resolva.

Existe brinquedo de menino e brinquedo de menina? A expectativa dos adultos sobre os papeis de meninos e meninas muitas vezes impedem que as crianças brinquem do que querem. Será que isso é certo? Como abordar esse assunto com as crianças?

Para os meninos tudo que a imaginação permitir. Tem arco e flecha para os mais aventureiros, todo tipo de carro, armas e eles podem super-heróis, cowboys, cientistas e outras coisas legais com brinquedos que vão além da reprodução dos cuidados com a casa, com filhos ou cuidados com a própria beleza e aparência de acordo com padrões já pré-estabelecidos.

Na hora de brincar as profissões para os meninos são engenheiro, astronauta, bombeiro. As meninas professoras, enfermeiras, psicólogas. O contrário, nunca.

“Nossa que exagero, são só brincadeiras. São só crianças.”

Exatamente.

E por isso todos deveriam poder brincar tranquilamente com todos os brinquedos ao invés de reforçar papéis que, depois de adultos, devem assumir para manter o sistema que está posto.

É reforçando estes papéis construídos socialmente, lá na infância, que fizemos com que os adultos naturalizem que o trabalho doméstico e cuidar dos filhos é uma função da mulher, que o homem deve ser agressivo, correr de carro, demonstrar masculinidade portando armas…

Brincar é coisa séria! As brincadeiras consistem numa representação e experimentação da vida adulta e no momento que limitamos a criança a determinados brinquedos fazendo diferenciação de acordo com seu gênero, nas entrelinhas estamos limitando suas perspectivas de futuro em carreiras pré-estabelecidas e minando talentos que fogem do padrão “de menino” e “de menina”.

Então essas crianças crescem acreditando que as suas escolhas são determinadas por serem mulher ou homem e isso é imutável.

Isso, meus amigos, é desigualdade de gênero.

Desde cedo, meninos e meninas aprendem o que podem e o que não podem fazer. Eles são levados a acreditar que as suas escolhas são determinadas pelo sexo. Só que isso tem consequências sérias para as mulheres, que se tornam vítimas da desigualdade.

 As mulheres são mais de 50% da população do Brasil e nem metade das mulheres jovens tem carteira assinada enquanto 65% dos homens jovens estão empregados. Somente 30% dos jovens brancos e 40% dos jovens negros fazem atividades domésticas, enquanto que para as meninas o percentual é de 78% das jovens brancas e 86% das jovens negras.

Menino brincando de boneca não é problema, é solução! Quem sabe assim teremos uma geração de pais que realmente sejam pais e entendam que eles devem ao filho e à companheira mais do que “ajudar”. Menina brincando de luta não é problema, é solução! Quem sabe assim incentivamos mais mulheres a serem atletas no Brasil, assim como a ocuparem espaços predominantemente masculinos.

O gênero é a identidade do que é considerado feminino ou masculino. Não é universal, é construído socialmente e pode variar ao longo do tempo. Ora, se pode transmutar, porque não o fazê-lo para melhor?

Porque não incentivar meninos e meninas serem o que quiserem ser, a explorarem o seu potencial independente dos papéis que nos foram impostos até agora e serem respeitados por isso?

Que diferença faz na sua vida continuarmos reforçando lugares na sociedade usando o gênero como critério de diferenciação? Quando entenderemos que o ser-humano é muito mais do que o que se diz que ele deve fazer de acordo com as suas genitais?

Somos mais que isso.

E se você se sente bem com os papéis colocados, pense que do outro lado tem alguém sofrendo com essas imposições.

Somos seres dotados da capacidade de mudar o mundo para melhor, é só querer.

Quase feliz

 É impossível ser feliz num mundo onde crianças morrem sob o fulgor das bombas, das metralhas e escombros; onde a fome grassa como peste negra, matando gente de todas as idades; onde governantes desumanos, a pretexto de azeitar o sistema, as engrenagens do sistema, aceleram as formas de aniquilar os defeituosos de todas as idades, das mais variadas etnias, num diabólico exercício de higienização.

 

Desde menino eu soube que seria uma peça defeituosa. E o sistema, a engrenagem, prescindi de coisas defeituosas, seja porca, parafuso, corrente ou roda dentada, prejudicando as velocidades angulares e os torques dos eixos, independentemente de serem cônicas, helicoidais ou hipóides. Qualquer coisa fora do padrão, prejudicando o movimento uniforme é deixada de lado.

Cresci, estudei e fui ser jornalista, porém, bem fundo, enfiado em minhas entranhas, o artista pulsava, causando defeito nas engrenagens.

Para aliviar a tensão criada (sufocando o vulcão interior) dediquei-me à literatura, escrevendo compulsivamente por longo período, aliviando, assim, a intensidade das lavas internas. Funcionou por um tempo. Até que, de súbito, agarrei-me aos pincéis, às telas e ao cavalete e a mecânica do mundo, do meu mundo, alterou-se.

As peças que tinham falhas falharam de vez. Tornei-me um parafuso de rosca sem rosca, um pinhão defeituoso danificando o sistema de transmissão entre as engrenagens.

Evidentemente que paguei (e pago) valor altíssimo pelos defeitos apresentados, pois o sistema refuga o imprestável. Entretanto, explodiu dentro de mim a semente da liberdade, levando sangue às regiões mais distantes e improváveis do meu corpo, rejuvenescendo-o. Foi como se torrencial chuva inundasse o deserto de Gobi, na Ásia, o quarto maior deserto do mundo, nutrindo-o.

Hoje sou quase feliz em meu ateliê, meio às telas, aos pincéis e tintas, fazendo de meu cavalete a nave do capitão Nemo.

 

Digo que sou quase feliz porque é impossível ser feliz num mundo onde crianças morrem sob o fulgor das bombas, das metralhas e escombros; onde a fome grassa como peste negra, matando gente de todas as idades; onde governantes desumanos, a pretexto de azeitar o sistema, as engrenagens do sistema, aceleram as formas de aniquilar os defeituosos de todas as idades, das mais variadas etnias, num diabólico exercício de higienização.

Sim, quase feliz. Lê-se este quase como se fosse móvel ponte sob o precipício da crueldade. Equilibro-me sobre ela, porém não há como espantar a visão da desumanidade que domina o mundo.

Novas ditaduras

Nada democrática a sociedade que não
tolera os pensamentos divergentes e que combate
as diferentes formas de organização social que
querem praticar e viver os ideais coletivos.

 

As ditaduras (políticas, de consumo, religiosas, de mercado) são as maiores inimigas das palavras. As palavras sempre traduzem conceitos, que nada mais são do que o nome das coisas. Por isto mesmo, as diferentes ditaduras são extremamente hábeis em reduzir o sentido e o significado das coisas que podemos pensar.

Só a democracia nos permite alargar os horizontes das ideias que estamos construindo na história. Somente ela é capaz de considerar as contradições dos pensamentos, para aperfeiçoá-los. Por conta disso, convivemos em permanente tensão entre aqueles que querem fazer das ideias exercício de liberdade e aqueles que gostariam de dizer aos outros “o que podem e devem pensar e fazer”.

Nossa democracia ainda precisa ser muito mais exercitada e experimentada, para ser apreendida.

Vivemos, por vezes, uma equivocada disputa entre ter posição e ser contra. As disputas, demasiadamente ideologizadas, não permitem que as palavras/conceitos se revelem em todos os aspectos, sob os mais diferentes pontos de vista.

Ser democrático não é ser dono da verdade. Significa estar aberto à construção do conhecimento, considerando as diferentes interpretações das coisas e dos fatos, num processo dialético de aprendizagem. A verdade surge no exercício do consenso, nem sempre fácil, mas sempre e absolutamente necessário.

Conquistamos liberdade de pensar, mas nossas ações ainda são, demasiadamente, obras de ideias dominantes. Temos a sensação de que nossas ideias pessoais nada resolvem; de que elas são fracas e impotentes.

Antes do sistema se tornar democrático, precisamos nós, sermos democráticos, no mais alto patamar da nossa responsabilidade humana, humanizando-nos ao bem comum! (Cristina Schnorr)

Democracia, uma escolha civilizatória?

O mundo e as pessoas são movidos por ideias, sempre em disputa na sociedade. Isoladamente, nossas ideias perdem fôlego, não conseguem concretizar-se. Somente as ideias gestadas e praticadas coletivamente conseguem romper com a lógica ideológica dominante e conseguem traduzir-se em prática da vida cotidiana daqueles que resolvem assumir-se como sujeitos de seus conhecimentos e de sua história.

“Não existe uma verdade igual para todos. As leis, as regras, a cultura, tudo deve ser definido para um conjunto de pessoas; o que vale para um lugar pode não valer para outro”.(www.dsilvasfilho.com/index.htm)

Problema é que em ditaduras contemporâneas como as nossas não somos educados para a cooperação e a solidariedade. Prevalece a cultura hedonista (culto ao eu) que sempre reproduz o conceito dos vencedores. Aos vencedores, a glória. Aos vencidos, sentimentos de incompetência, revolta e impotência. Estes últimos geram tensões sociais e de convivência, desfavorecendo nossa condição de seres em relação.

A autonomia dos sujeitos é a maior concretização da democracia real e verdadeira. A luta por democracia invoca novas relações interpessoais, baseadas na interdependência e na reciprocidade.

Jean Piaget, ao estudar o juízo moral das crianças, nos ajuda a considerar que “a autonomia só aparece com a reciprocidade, quando o respeito mútuo é bastante forte, para que o indivíduo experimente interiormente a necessidade de tratar os outros como gostaria de ser tratado”.

Nada democrática a sociedade que não tolera os pensamentos divergentes e que combate as diferentes formas de organização social que querem praticar e viver os ideais coletivos.

Democracia está ameaçada no mundo.(Sociólogo Boaventura de Sousa Santos)

Democrática é a sociedade que permite aos homens e mulheres a realização de sua dignidade, preservando seus modos de ser, pensar e agir, individual e coletivamente.

Pratiquemos e aprendamos democracia, intensamente, com ousadia, sem nenhum culto às ditaduras.

As ditaduras nos reduzem; as democracias promovem a nossa dignidade e humanidade, expandem nosso conhecimento e aumentam as chances de maior felicidade.

O golpe na sala de aula

A escola que nada me ensinou sobre o
golpe de 64 precisa enfrentar os que a
amordaçaram por tanto tempo e pretendem
continuar controlando seus atos.

 

A universidade brasileira ganhou a chance de se redimir dos seus silêncios em meio às articulações que derrubaram Dilma Rousseff. Professores, estudantes, servidores em geral e comunidades ao redor têm a missão de levar o debate do golpe dos pátios para as salas de aula, como fez a Universidade de Brasília e como promete fazer agora a Universidade de Campinas.

A Unicamp terá uma disciplina com o mesmo título da criada pela UnB: “O golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”. Outras universidades poderiam imitá-las. Criem disciplinas e cursos sobre o golpe. Estudem o golpe, debatam, condenem e alertem sobre novos golpes.

Não se acovardem diante da ameaça de que a universidade pública não pode se meter em política. Não levem a sério os processos do Ministério da Educação de Mendonça Filho contra a UnB.

Se a universidade não tivesse autonomia para estudar golpes, ninguém saberia hoje que a exaltada proclamação da República foi um deles. A escola que nada me ensinou sobre o golpe de 64 precisa enfrentar os que a amordaçaram por tanto tempo e pretendem continuar controlando seus atos.

Hoje, até a Globo diz no Jornal Nacional que em 1964 houve um golpe. A universidade não precisa esperar que a Globo diga, daqui a 40 anos, que Dilma também foi golpeada. A universidade quieta, omissa e encaramujada diante do golpe de agosto de 2016 (por favor, não me citem exceções) tem agora a oportunidade que os restos de democracia oferecem.

Os professores não podem fugir da obrigação de ensinar o que é um golpe, como se articula e como é levado adiante, como este executado pelo Brasil arcaico, sem a necessidade de ajuda externa. A universidade deve esclarecer: o golpe foi uma artimanha dos coronéis, não só os do Nordeste, mas do grande empresariado paulista. Junto com os sargentos e os coronéis da imprensa, do Ministério Público, do Judiciário.

Os jovens distanciados da política talvez digam que não querem saber dessa conversa, que pretendem se mumificar como jovens até os 40 anos, quem sabe até os 60. Mas é tarefa do professor tentar acordá-los para a idade adulta, já que muitos desistiram de cumprir a vocação dos estudantes de protestar, instigar e transgredir.

O Ministério da Educação avisou, para assustar a UnB, que o projeto de estudar o golpe não tem sustentação em nenhuma ciência. Mas de que ciência falamos num desgoverno que despreza a cultura e a ciência? Que ciência deu aos cúmplices de 64 o direito de dizer, nas aulas de Moral e Cívica, que a ditadura era lastreada pelo desejo moralizante das famílias?

Vamos torcer para que que se multipliquem pelo Brasil os cursos sobre o golpe. Que a universidade pública, ameaçada de extinção, ressuscite em grande estilo. Queremos cursos sobre o golpe em toda parte, em igrejas, sindicatos, ONGs, inclusive no ensino médio.

Falem do golpe como quem fala de racismo, de xenofonia, de homofobia. Enfrentem os discordantes, não temam os reacionários do fundo da sala.

Tanto na UnB como na Unicamp, o curso é optativo, não é uma disciplina dentro de uma grade obrigatória. Deveria ser. A universidade pública precisa estudar o golpe como estuda a Guerra do Paraguai, sem a desculpa de que é algo muito recente.

A universidade golpeada um dia perderá o medo, como aconteceu depois de 64, e será restabelecida como reduto da resistência.

A Unicamp incluiu no seu curso o protagonismo do Judiciário, com aulas sobre “O jogo político do STF e o golpe”. A educação talvez acabe assumindo sozinha uma tarefa que em outros tempos, inclusive na ditadura, era dela e da imprensa.

Mas a imprensa acovardou-se e se dedica há anos a reproduzir conversas, vazamentos e delações filtradas pela Lava-Jato. A imprensa é quase uma extensão subalterna do Judiciário. Querer contar com o jornalismo é quase como pretender que Curitiba pegue tucanos.

Sorte dos estudantes que poderão estudar o golpe e, como prometem as duas universidades, a depreciação moral das instituições a partir do que aconteceu em agosto.

Que estudem também o fechamento de escolas, como parte da estratégia de esvaziamento do ensino público, e o racionamento da merenda escolar (quando não é furtada pelo superfaturamento dos tucanos, como aconteceu em São Paulo), como tática para que as crianças não fiquem obesas, como disse o secretário de Educação de Porto Alegre.

Os estudantes da UnB e da Unicamp saberão mais não só sobre manobras golpistas, mas sobre democracia. Colegas de outras universidades, inclusive privadas, poderiam exigir que seus cursos façam o mesmo.

Não tenham medo dos golpistas, muito menos dos que não aguentarão o tranco e sairão porta afora gritando o nome do Bolsonaro.

Moisés Mendes escreve para o Jornal Extra-classe online. Este artigo foi originalmente publicado no mesmo.
Acesse aqui.

O Problema da fome não está na produção de alimentos

O problema da fome no mundo — e no Brasil —
não está na produção de alimentos: hoje, se produz quantidade
de alimentos suficiente para se alimentar a todos no planeta.
Assim, a questão é de se ter acesso a esses alimentos.

 

 

Setenta anos depois de o sanitarista brasileiro Josué de Castro ter denunciado a fome como um “flagelo fabricado pelos homens contra outros homens”, o Brasil já consegue enxergar a fome como um problema político? Como o mundo tem olhado para esse drama humano e universal? Nesta entrevista concedida à Radis por e-mail, outro brasileiro, o agrônomo José Graziano da Silva, reflete sobre essas questões. Responsável pela implantação do Fome Zero, em 2003, programa precursor de uma série de outros que colocaram a luta contra a fome na agenda das políticas públicas do Brasil, Graziano hoje está no segundo mandato como diretor-geral da FAO, órgão da ONU responsável pelo combate à fome e à pobreza por meio da melhoria da segurança alimentar. Aqui, ele explica por que os programas sociais que contemplem o acesso aos alimentos não podem deixar de ser prioridade.

 

Por que, apenas três anos depois de deixar o Mapa da Fome, o Brasil já corre o risco de voltar a figurar nesse indicador?

Para entender o possível retorno do Brasil ao Mapa da Fome, precisamos recordar, antes, quais foram os fatores que o levaram a sair do mapa, depois de décadas. A experiência brasileira revela que é necessária uma firme atuação de governo, por meio de um conjunto de programas sociais, articulados em torno do conceito de segurança alimentar. Ações específicas, como o Programa de Aquisição de Alimentos, o crédito ao pequeno produtor rural, os bancos de sementes, além do Bolsa Família, são ferramentas fundamentais para o combate à pobreza. Seriam insuficientes, porém, se não fossem combinadas com medidas macroeconômicas de geração de crescimento inclusivo de empregos formais, de valorização real do salário mínimo, previdência social robusta, aposentadoria rural não contributiva etc. Foi com essa combinação de esforços que as camadas mais vulneráveis da população brasileira passaram a ter acesso aos alimentos básicos, que antes lhes eram vedados por causa da alta dos preços e da baixa renda. Os indicadores econômicos do Brasil em 2017 mostram, entretanto, que o salário mínimo deixou de ter um reajuste real acima da inflação e que poucos novos empregos foram criados no último ano. Nessas condições adversas, seria fundamental a manutenção dos investimentos sociais no orçamento de 2018, conforme recomendam o FMI e o Banco Mundial. O que se noticia, porém, são cortes nos orçamentos dos programas sociais e das redes de proteção social; daí a nossa preocupação.

 

Que leituras é possível fazer das estratégias de que o Brasil lançou mão naquele período?

Por terem logrado resultados positivos em pouco mais de uma década, as estratégias nacionais de combate à fome tornaram-se, em grande medida, diretrizes e referências para estratégias adotadas em outros países. O Brasil é fonte de inspiração para outras nações no enfrentamento da fome estrutural por meio de políticas públicas articuladas e previstas no orçamento nacional.

 

Por que essas políticas estão se revelando mais frágeis do que pareciam há bem pouco tempo? Quão longe ainda estávamos de consolidar o combate à fome e à miséria como política pública?

A crise econômica brasileira terminou por impedir que se consolidasse uma política de segurança alimentar. Para que a fome seja combatida de maneira eficiente, nossa recomendação é sempre a adoção de políticas anticíclicas: quando há recessão econômica, propõe-se aumentar os investimentos nos programas sociais. Não é só o tema da alimentação. Os gastos sociais do governo são muito importantes: as pessoas são muitas vezes pobres porque não têm acesso aos bens comuns, como saúde, educação — e não podem pagar por eles. Há que se entender que a chamada linha da pobreza é muito flutuante. Ter ou não ocupação informal, mesmo que temporária, pode empurrar a família para cima ou para baixo dessa linha.

 

Estivemos no interior da Paraíba e testemunhamos como programas de transferência de renda vinham revertendo a situação de pobreza absoluta e miséria extrema, o que fazia do Brasil uma referência no modelo da renda básica universal. É possível dizer que, com uma série de cortes nesses programas, estamos na contramão do restante do mundo?

Os últimos dados da fome da FAO revelam que, em 2016, houve um aumento da fome mundial pela primeira vez na última década, e há três razões para isso: os conflitos armados, as mudanças climáticas e a redução de políticas de proteção social em razão da recessão econômica. Trata-se, sim, de uma situação que não afeta somente o Brasil. No entanto, precisamos entender que o investimento em políticas sociais e a alocação de recursos para a redução da pobreza são, também, janelas para a oportunidade de crescimento. No caso brasileiro, é motivo de preocupação a recente adoção de Emenda Constitucional que estabelece um teto orçamentário para os gastos sociais no Brasil. Sua aplicação deve dificultar gravemente a realização dos direitos sociais, tais como o direito a uma alimentação adequada, ou nos casos de saúde e educação.

 

Que cara tem a fome no Brasil?

A fome tem muitas caras, como costumo dizer. A cara da fome no Brasil é de uma mulher, de meia idade, com muitas crianças e que vive no meio rural. Em geral, o marido migra e não a leva, resultando em grande parte no abandono da família. Essa mulher, com muitos filhos, já de uma idade mediana e que foi abandonada, tem de ser beneficiária de mecanismo de proteção social — se não, jamais irá deixar tal condição, assim como os seus filhos. Essa é a geração que está sendo comprometida pela ausência de políticas sociais. Então, por mais deficiências que possam ter programas de transferência de renda — e que geralmente não têm, pois são facilmente corrigidos —, não se justifica deixar sem um mínimo atendimento as pessoas que não têm condições de ter acesso à alimentação. Apesar disso, uma outra cara da fome brasileira, como revelado na última Pnad [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios], está também na periferia dos centros urbanos, onde se encontra um grande número de famílias sem emprego estável.

 

Quais você diria que são os maiores desafios para quem trabalha com o combate à fome no atual contexto brasileiro?

Quando tive a oportunidade de trabalhar como Ministro Extraordinário do Combate à Fome no primeiro governo Lula, pude contribuir na realização de uma das principais prioridades traçadas por aquela administração: fazer com que cada brasileiro pudesse passar o dia com a certeza de que faria três refeições: café da manhã, almoço e jantar. Com o Fome Zero e com a implementação dos sucessivos programas sociais, o Brasil conseguiu, nos anos seguintes, livrar milhões de pessoas da pobreza extrema e da fome. O compromisso político assumido naquela ocasião permitiu que os pobres tivessem seu lugar cativo no orçamento. Quando isso não é prioridade, fica muito mais difícil por em evidência a importância de se consolidarem políticas de segurança alimentar e de combate à fome.

 

Qual a relação entre os programas sociais e a questão da segurança alimentar?

Os programas sociais, em especial os de transferência de renda condicionada como o Bolsa Família, possibilitam o acesso das famílias mais pobres à alimentação básica. O problema da fome no mundo — e no Brasil — não está na produção de alimentos: hoje, se produz quantidade de alimentos suficiente para se alimentar a todos no planeta. Assim, a questão é de se ter acesso a esses alimentos.

 

Do ponto de vista de alguém que tem a trajetória ligada às questões de segurança alimentar, qual a sensação de ver a fome voltar a bater na porta de milhões de brasileiros?

A sensação é, naturalmente, de grande frustração e tristeza, mas em nada nos desanima a prosseguir neste caminho. Somos muitos a enfrentar este desafio, desde Josué de Castro, mas também figuras históricas como o Betinho, com sua campanha do Natal sem Fome, e Dona Zilda Arns e todos os colaboradores da Pastoral da Criança. Mais recentemente, temos a atuação dos membros do Consea [Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional], ativistas das ONGs humanitárias, enfim uma enorme rede que atua em torno das Conferências Nacionais de Segurança Alimentar. Enfrentar a miséria e a fome deve ser uma preocupação de todas e de todos brasileiras e brasileiros. Não é um problema só do governo, é de toda a sociedade.

 

Texto de Ana Cláudia Peres
Entrevista com José Graziano
Fonte: Radis

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