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A poesia que nos mantêm vivos

Que triste a escola que não oportuniza
a chance de seus estudantes sonharem, chorarem,
debaterem livremente sobre o presente e o futuro.

 

Acompanhei a manifestação dos adolescentes atravessada pela maternidade e pela docência. Como mãe de duas meninas, vi o olhar de admiração da mais velha pelas colegas da antiga escola que usaram o horário do intervalo para se expressar. Ainda no campo materno, percebi pais preocupados com o excessivo espaço que a política poderia estar ocupando na formação dos filhos.

Desde então uma imagem não me sai da cabeça: era 1984. No pátio da minha escola, também na hora do intervalo, um aluno grita: pessoal, hoje vai ser votada a emenda Dante de Oliveira, que prevê eleições diretas para presidente! É um dia histórico! O aplauso foi geral, uma alegria tomou conta. Ali, embaixo daquele caramanchão, a gente se sentia vivo. Não teve professor na jogada, o intervalo terminou, e a consequência subversiva disso foi um enorme sorriso, que teimava em não sair da nossa expressão.

Que triste a escola que não oportuniza a chance de seus estudantes sonharem, chorarem, debaterem livremente sobre o presente e o futuro.

Num tempo em que boa parte da vida deles se passa na web – esta sim, cheia de riscos – a escola é o lugar mais seguro, o espaço mais preparado para mediar as possibilidades do olhar.

O que preocupa, nesta onda revisionista, é o clima de ameaça que ronda os espaços de ensino, incluindo as universidades, a suspeição sobre o papel dos professores, o questionamento sobre o sentido da autonomia do ensino.

Não deveria ser necessário, mas é preciso lembrar que a liberdade é vital para criar métodos pedagógicos e modos de pensar a sala de aula. Mas não governa sozinha. A autonomia está condicionada à Constituição Federal e a uma série de leis, normas, regimentos internos, planos, metas, reuniões, enfim. Sem falar no compromisso – por vezes centenário – de cada instituição de ensino com a ética e o desenvolvimento integral de seus jovens.

Por certo que a escola não é imune a questionamentos e erros, mas é preciso cuidar a dose, para que a atenção não ganhe o tom de censura. No lugar de prevenir, o remédio pode ter como consequência a secura.

Quando o olho de um professor para de brilhar, a escola perde a poesia. E como diz aquele professor de literatura que refundou a sociedade dos poetas mortos, nada contra as demais matérias, mas é a poesia que nos mantêm vivos.

Identidade de gênero

É preciso uma atuação da educação sexual escolar
também na direção do combate às discriminações
de gênero ou sexuais.

 

A história da educação no Brasil, assim como na maioria dos países ao redor do mundo, coincide com a história da discriminação de gênero. A formação da sociedade brasileira, marcada pelo patriarcalismo, pelo autoritarismo e pela influência da Igreja Católica, reflete diretamente na constituição da educação formal no país, com total exclusão das mulheres e afirmação do machismo.

Desde a colônia a mulher era considerada um ser inferior, que não tinha necessidade de aprender a ler e a escrever. Era o espírito medieval, reforçado pelo monopólio da Igreja Católica na educação. Somente no século 20 essa situação começou a ser revertida. Após a Revolução de 1930, surgiram as primeiras medidas educacionais voltadas para a educação de massas e com isso, as mulheres tiveram acesso à escola.

Com a Constituição de 1988, e com a redemocratização do país é que se nota também a incorporação de demandas sociais específicas na legislação. O conceito de gênero, entretanto, esteve ausente na discussão. Agora, o tema vem provocando muita polêmica diante das propostas em torno da inclusão da identidade de gênero nas escolas.

Na lógica disciplinar que atravessa práticas e discursos desde o início da Modernidade, a escola dentre outras instituições, consolidou um espaço importante na produção e reprodução de normas sociais.

Tal característica instaura o contexto escolar, muitas vezes, como resistente a propostas críticas e inovadoras, como as questões que permeiam os estudos de gênero. Foucault, entre outros autores, analisam que, ao longo da história, os corpos feminino e masculino têm sido alvos de inscrições discursivas e objeto de disciplinarização e controle, sendo atravessados pela física e pela microfísica dos poderes.

Assim, é preciso uma atuação da educação sexual escolar também na direção do combate às discriminações de gênero ou sexuais. Inserir no cotidiano escolar as discussões sobre sexualidade, afetividade e gênero é desafiador, por tratar-se de temáticas cercadas de mitos e tabus, e ainda não garantidas nos currículos de formação inicial de educadores.

É indispensável prepará-los para desenvolver uma postura crítica em relação aos processos socioculturais, dos conceitos e estereótipos presentes na educação escolar. A escola precisa sim retomar os conceitos de gênero, sexualidade, orientação sexual e identidade de gênero através de um olhar crítico sobre a construção da heterossexualidade que abriga os binarismos macho/fêmea, sexo/gênero e que historicamente contribuem para a manutenção de práticas sexistas e homofóbicas no ambiente escolar.

O silenciamento dessas discussões na escola é o mesmo que negar as plurais identidades de gênero e orientação sexuais e insistir no padrão dicotômico masculino/feminino. A educação em sexualidade deve ser compreendida na perspectiva dos direitos sexuais e reprodutivos e, estes, como direitos humanos.

É necessário entender que a realidade da escola abrange a presença de homossexuais, travestis, transexuais e gravidez na adolescência. Os professores devem estar preparados para enfrentar esta realidade.

O velho conceito que assevera “a valorização da família como o mais importante meio de educação, na formação e estruturação da sociedade”, precisa ser urgentemente revisto. Os tempos são outros. A identidade de gênero desenvolvida na escola será o mecanismo fundamental para ampliar o respeito à pluralidade sexual.

Não se trata de inferir na orientação sexual das crianças e adolescentes. Segundo uma especialista em educação, “compreendemos a sexualidade não apenas como materialidade biológica, universal e enfocada na genitália, mas sim como construção histórica, cultural e social, que articula saberes e poderes para o governo do sexo através dos corpos e das maneiras de as pessoas viverem seus prazeres”.

Para os segmentos sectários a sexualidade é entendida observando simplesmente seus componentes “naturais”. Esses só podem ser entendidos e adquirir significado graças a processos inconscientes e formas culturais.

Em Passo Fundo, no Plano Municipal de Educação a bancada do reacionarismo da Câmara de Vereadores, quer eliminar a palavra “gênero”, existente em ações previstas no Plano de Educação, o que representa um retrocesso. É um sinal inequívoco da pressão de igrejas e lobby conservador. Tomara que a Câmara demonstre uma postura independente e não seja conivente com posturas homofóbicas, de discriminação, ódio e violação de direitos.

Ideologia de gênero não existe. Você não pode ensinar uma pessoa qual orientação sexual ela vai ter, ela já nasce com isso. A diversidade é uma variação genética, igual ter olho verde, ser canhoto, ser loiro etc.

 

Reconstruir laços fraternos

Com compaixão e prudência,
precisamos enfrentar esta cisão social,
tecendo redes de afetos pelo diálogo.

 

Vivenciamos recentemente um período em que se viu gerar e agravar uma cisão social. Fake news, ameaças, denúncias, extremismos, brigas entre amigos e familiares. Em jogo, o destino do Brasil. Como resultado, paira uma estranha tensão sobre grande parte da população.

O sentimento de insegurança, diante da incógnita sobre o futuro e do medo de possíveis anos de violência, em curto, médio e longo prazo, é real. Isso exige reconstruir os laços fraternos que fazem do Brasil uma nação.

“Neste momento, o cenário adquire formas concretas de tensão, conflito, rejeição, intransigência e rechaço. Quando o medo se expande e se torna generalizado entre amplos setores da população, gera-se um contexto propício à multiplicação de fortalezas, onde corações, portas e fronteiras são cuidadosa e hermeticamente fechadas”. (Alfredo Gonçalves)

Xenofobia

Que todos os brasileiros sejam chamados a assumir a responsabilidade por suas decisões, independentemente de partidos ou posições políticas, e a se unir em defesa da paz, dos direitos humanos e da democracia.

Sejam eleitores de Bolsonaro ou de Haddad, a imensa maioria votou com a esperança de construir um futuro digno para o Brasil, a partir de seus valores e convicções.

Essa maioria, que congrega eleitores dos dois lados, não optou pela tortura, nem votou contra a dignidade e os direitos da população LGBTI+ ou dos índios, nem apoiou o racismo, a misoginia, a destruição do meio ambiente ou o incremento do aquecimento global. A imensa maioria não votou pelo fim da democracia, nem pela extinção dos direitos humanos universais.

Cada cidadão fez uma aposta que julgou ser a mais adequada diante de uma difícil decisão. Cumpre que se comprometa com essa aposta, em seus atos e palavras, assumindo responsavelmente um compromisso com a liberdade e a dignidade das gerações presentes e futuras.

Torna-se prioridade a construção de um clima de segurança. Nos espaços públicos e privados, na convivência cotidiana, nos lares, escolas e universidades, que possamos, gradualmente aplacar, com compaixão e prudência, esta cisão social, tecendo redes de afetos pelo diálogo.

Esse é o primeiro passo para uma cultura de paz, na qual a participação de todos é base de sustentação do “poder que emana do povo”, a democracia, e que ao povo deve servir, em respeito à Constituição.

Xenofobia

Se as crises históricas são fonte de medo, ameaça e perigo, semelhante contexto converte-se em alicerce para o autoritarismo ou totalitarismo, combustível das ditaduras e dos tiranos. O medo se transforma em arma populista contra as bases populares.

 

O medo é um dos sentimentos mais reservados e que mais se escondem. Mas, ao mesmo tempo, é também um dos que mais se condividem. Este aparente paradoxo é de fácil entendimento: esxitem medos estritamente pessoais, íntimos, ocultos, fechados, sepultados no fundo de nossas entranhas; e exitem medos coletivos, que envolvem uma família, um determinado grupo humano, uma comunidade e até mesmo toda uma sociedade.

A “fobia” – palavra que deriva do grego phóbos – representa um medo misto. Tem um lado pessoal, uma espécie de pânico persistente, por vezes silencioso, irracional e patológico… Porém, pode contagiar todo um povo, uma nação, uma cidade, uma cultura – contra uma etnia específica, pessoas de outra cor, sexo, religião. Quando a pretensa ameaça desenvolve-se em virtude do temor “ao outro, ao estrangeiro, ao diferente”, trata-se, em ambos os casos, de xenofobia. O estranho e desconhecido, da mesma forma que uma novidade inusitada, inspira um medo não raro obscuro, absurdo e desproporcionado.

Em outros termos, tudo que é “novo” amedronta, porque foge ao comportamento rotineiro e cotidiano, às respostas programadas, à atitude habitual. O “outro” adquire a função de espelho: rompe com toda espécie de máscara, revela a nudez da própria fragilidade e impotência. Daí o receio diante de riscos possíveis, previsíveis ou imprevistos.

O perigo bate à porta e provoca pânico. Faz-se necessário construir muros visíveis ou invisíveis em vista da autodefesa. E tal defesa, por sua vez, frequentemente converte-se em ataque e perseguição, em intolerância e discriminação, em violência ou aberta perseguição. Resulta que o medo dista pouco das formas extremas de neonazismo e nefascismo.

Instala-se a divisão entre “nós” e “eles”, ou entre os de “dentro” e os de “fora”. Do ponto de vista cultural e religioso, a fronteira divide, por uma parte, os que falam a nossa língua, seguem nossos costumes e se guiam por nossos valores e, por outra, os extra-comunitários. Do ponto de vista socioeconômico, os esrtangeiros são aqueles que ameaçam nosso emprego, nossa família e filhos, nossa paz e nosso futuro. Potiticamente, apela-se para o discurso da própria segurança nacional e a paz.

Neste momento, o cenário adquire formas concretas de tensão, conflito, rejeição, intransigência e rechaço. Quando o medo se expande e se torna generalizado entre amplos setores da população, gera-se um contexto propício à multiplicação de fortalezas, onde corações, portas e fronteiras são cuidadosa e hermeticamente fechadas.

Cada pessoa ou família protege-se atrás dos próprios muros. Parte da mídia, como verdadeiros abutres esfaimados, espalha a sensação de mau agouro. Mas o medo pode ser também sufocado, silenciado, dissimulado, reprimido. O silêncio vira mutismo de uma agressividade represada a custo. Olhares oblíquos e palavras envenenadas cruzam os ares. A socidade reveste a forma de uma cemitério da esperança, onde os vivos erram como fantasmas assustados e assustadores.

Pior de tudo quando o medo é instrumentalizado pelas autoridades de um país, pelas campanhas eleitorais e pela prática política em geral. Se as crises históricas são fonte de medo, ameaça e perigo, semelhante contexto converte-se em alicerce para o autoritarismo ou totalitarismo, combustível das ditaduras e dos tiranos. O medo se transforma em arma populista contra as bases populares.

Setores de extrema direita, com a bandeira de um nacionalismo exacerbado, sabem como manipular o medo, dirigindo-o contra um certo alvo – um bode expiatório – que podem ser os bárbaros e selvagens, os loucos e vagabundos, as bruxas e feiticeiras, os judeus e muçulmanos… Ou, nos tempos que corem, os migrantes, os refugiados e os prófugos. No seu modo de ver, são estes que atravessam desertos e mares, cruzam todas as fronteiras, invadem nossa sociedade, ameaçam a ordem, ignoram nossos valores mais profundos, fruto lento e árduo de “séculos de civilização”.

O medo xenofóbico, entretanto, pode ser dominado. O jardineiro, ao cultivar as flores, tem o cuidado de eliminar as ervas daninhas e os espinhos nocivos. Medos são como tumores malignos: podem ser analisados, radiografados, dissecados e submetidos ao bisturi. Este rasga o tecido não para expô-lo aos olhares alheios, mas para curá-lo. Dominados e controlados, os medos transfiguram-se em fonte de esperança, sonhos e construção de alternativas. Entra aqui o papel das autoridades, dos organimos internacionais, da Igrejas, das organizações não governamentais, das entidades e  movimentos populares…

Os novos velhos

Grupo Maturidade Ativa SESC Carazinho, RS.

A nova geração de idosos é de dar inveja em muito jovem!
Eles fazem academia, viajam, vão a bailes, se reúnem para confraternizar,
para fazer ações sociais… Conheça as transformações que estão
acontecendo na forma de se lidar com o envelhecer

 

O que significa ser velho? É a idade que completamos depois de fazer muitos aniversários? Ou é um estado de espírito que faz com que tenhamos menos disposição? Será que a gente fica velho quando não dá mais pra esconder as rugas e os cabelos brancos? Ou isso não tem nada a ver com a velhice? Segundo a legislação brasileira, a idade de 60 anos é o marco para a identificação de uma pessoa idosa. Mas, segundo o Doutorando em Filosofia e Professor do Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE), Iltomar Siviero, para considerar uma pessoa como idosa é preciso levar em conta sua idade e suas condições de vida, pois ambos elementos estão interligados. “Com o avanço da idade surgem, naturalmente, os declínios típicos das transformações físicas, mentais e sociais. Pessoas em condições de vida precária tendem a ter esses fenômenos presentes ainda mais cedo do que a idade mínima estabelecida para o reconhecimento do ser idoso”, destaca.

Iltomar Siviero
Doutorado em Filosofia
Professor de Filosofia no Instituto Superior de Filosofia Berthier (Ifibe)

Segundo ele, as condições de vida são importantes porque interferem no envelhecimento tardio e até em evitar que certas doenças e demências se manifestem. Mas, por melhor que sejam as condições de vida, elas não atrasam os anos e, com o avanço da idade surgem, gradualmente, dificuldades e lentidão física, afetando diversos órgãos que desafiam as pessoas a buscar novos interesses e formas de relacionamento, impactando, de algum modo, na dimensão pessoal, social e mental/espiritual.

Apesar do ônus que acompanha o avanço da idade, os “novos velhos”, de quem queremos falar, tem aproveitado essa fase da vida de uma forma diferente – pois a forma de envelhecer se transformou e, nos últimos anos, passamos a ter uma preocupação maior com envelhecimento humano. Um bom exemplo dessa preocupação é o programa Maturidade Ativa, criado pelo Sesc, em 2003. Ele tem como objetivo promover a qualidade de vida e o envelhecimento ativo de pessoas com idades a partir de 60 anos (em 2019, será a partir dos 50 anos!). No programa, os participantes se reúnem para conviver, se divertir, confraternizar, aprender, desenvolver seus potenciais, além de realizar trabalhos comunitários e solidários. Esse é um movimento social, que tem por missão construir um novo significado para o envelhecimento, que valoriza o papel do idoso na sociedade contemporânea e estimula a realização de trabalhos comunitários, assim como a prática da responsabilidade social individual.

Em Carazinho, a Maturidade Ativa tem hoje 168 participantes em seu grupo. Eles se reúnem em todas as segundas-feiras para reuniões de continuidade – e seguem cheios de atividades durante a semana. Eles participam de palestras, bate-papos educativos e oficinas (de canastra, bocha, dança e cambio!). O grupo também é presença confirmada nas apresentações culturais promovidas pelo Sesc, como shows e teatros. Como se isso já não fosse o bastante, eles ainda fazem passeios turísticos em grupo e viajam pelo Rio Grande do Sul para visitar outros grupos de Maturidade Ativa. A próxima viagem da agenda é para Erechim, no dia 25 de outubro, para participar do Baile da Primavera.

Segundo o Facilitador da Maturidade Ativa do Sesc Carazinho, Guilherme Augusto Ferreira, os participantes do grupo são muito ativos e querem participar de todas as atividades promovidas. “Muitas vezes nos surpreendemos com a participação deles. Às vezes está um temporal, achamos que ninguém virá na reunião e logo mais de 100 pessoas chegam. Nós ficamos muito felizes de ver que eles têm um envelhecimento tão ativo”, ressalta.

Uma das integrantes do grupo, Dona Dalila, não deixa de participar de nenhuma atividade. Aos 94 anos, ela vem com seu andador e é presença confirmada nos eventos da Maturidade Ativa. “Ela e todas as pessoas que participam do grupo são um grande exemplo para nós. O nosso objetivo é promover a qualidade de vida aos idosos, junto a um envelhecimento ativo. Eles se reúnem para se divertir, confraternizar, realizar trabalhos comunitários e, cada vez, mais valorizar o papel do idoso na sociedade”, enfatiza.

 

O grupo também realiza diferentes ações sociais. No mês de setembro, em parceria com o projeto Brasil Sem Frestas, de Passo Fundo, realizou uma ação para revestir internamente a moradia de uma família carente de Carazinho, em que caixas de leite foram utilizadas para proteger a casa das intempéries do tempo. Os idosos ajudaram e se emocionaram com a história da família.

Como lidar com o envelhecer?

Envelhecer é algo natural e intransferível, que, inevitavelmente, acontecerá com todos nós com o passar de cada dia. Porém, aprender a envelhecer é algo cultural. Segundo Iltomar, para que possamos ter uma relação melhor com a velhice, não podemos ser logrados pelos anos e nos depararmos com ela somente na fase tardia, mas ao longo da vida. “Inserir o envelhecimento humano como uma diretriz e componente curricular nos sistemas de ensino é um dever que precisa ser implementado, a exemplo de portarias publicadas em períodos recentes sobre outros temas ausentes (educação em direitos humanos, educação ambiental e educação para as relações étnico-raciais)”, sugere.

Quando aprendemos a lidar com o envelhecer, não é difícil passar dos 100 anos e ainda manter o bom humor. Assim é a Esther Sauner Barrozo, que completou 102 anos! A família conta que em todos os dias ela acorda feliz, sempre com vontade de fazer alguma coisa! “Atualmente ela cuida da sua saúde e alimentação. De vez em quando até faz uns pontinhos de crochê e está sempre querendo plantar e cuidar das flores do seu jardim. Tem sempre alguém por perto: as filhas e as cuidadoras que se revezam para estar com ela 24h por dia. Ela ama a todas e quer bem as pessoas que lhe ajudam no seu cotidiano”, conta a família.

Esther tem 7 filhas e 2 filhos, 18 netos, 4 bisnetos e 2 tataranetos. A família é grande e está sempre presente em sua vida. “É um convívio intenso! Além da família, ela também recebe muitas visitas de amigos e vizinhas que gostam de visita-la, afinal, ela é um exemplo de vida!”. Para chegar até essa idade com tanta alegria, não tem segredo! Esther sempre levou a vida de forma muito tranquila. Sempre manteve a alimentação saudável e fazia caminhadas diárias. Os trabalhos em crochê eram feitos com frequência até os 101 anos. Além disso, o bom humor sempre foi (e continua sendo) uma constante em sua vida!

É preciso pensar no futuro

Na segunda metade do século XX, aconteceu um crescimento populacional gigantesco, tanto em âmbito mundial, quanto nacional. No intervalo do século passado, de 1900 a 2000, passamos de 1,5 bilhão para 6 bilhões de pessoas no mundo. E a população brasileira passou de 17,3 milhões para 169,8 milhões, sendo que o período de maior crescimento foi pós-guerra, entre 1950 e 1970, que resultam num volume elevado de idosos/as no século XXI, considerando que hoje no Brasil, segundo dados do IBGE, somos 207,7 milhões de pessoas (Senso 2016).

Com o crescimento populacional, consequentemente, cresceu o número de idosos. Em 1940 essa população representava 4,1% do total, e em 2016 a porcentagem aumentou para 14%. A expectativa de vida mudou de 43,3 anos de idade em 1940 para 72,5 em 2007 e 75,2 em 2017; estima-se que em 2050 teremos um número bem mais elevado de idosos do que jovens, pois, comparando aos anos de 1980, em que tínhamos 10 idosos para cada 100 jovens, em 2050 teremos 172 idosos para cada 100 jovens. “Face a esse contexto, grosso modo, listamos que tem crescido o interesse por estudos e pesquisas, necessidade de maior investimento público, maior oferta de serviços e lazer da iniciativa privada, preocupações e impactos no âmbito da família que passa a ser a primeira atingida por essa realidade. Mas a realidade gritante dos descasos e falta de uma política pública séria e contextualizada vai tornando o envelhecimento, lamentavelmente, como um peso e um problema diante da necessidade de gastos com saúde e previdência, em especial. Bastaria olhar as estimativas e pensar políticas de médios e longo prazo, que extrapolem medidas paliativas de um projeto de governo. Precisa-se de um projeto público que leve a sério essa realidade”, alerta o Professor.

Breve história do envelhecer em Passo Fundo: memória, testemunhos e crônicas

O livro, publicado pela Editora IFIBE (selo SALUZ), teve como organizadores: Iltomar Siviero e Agostinho Both. Ele retrata a rica trajetória do caminho percorrido por jovens, adultos e idosos em vista da atenção à condição humana da velhice de muitas pessoas de Passo Fundo, mostrando os grandes feitos do passado e do presente, abrangendo o período de 1989 a 2017. Os textos foram produzidos por diversos autores, representantes das instituições envolvidas na organização de ações em favor dos idosos da cidade e região. Além de uma possibilidade para angariar maior conhecimento sobre as iniciativas em favor do envelhecimento humano em Passo Fundo, também subsidia interessados em dar passos na direção da criação e oferta de oportunidade para o convívio social em vista da promoção e resgate da cidadania das pessoas idosas.

Crédito fotos: Felipe Granville/divulgação Sesc Carazinho.
Matéria originalmente publicada na Revista impressa Contato Vip, Ano XXV, número 286, Outubro 2018. Conheça mais aqui.

Demônio interior

Qual é o sentido da raiva em nossas vidas?
O que ela pode nos oferecer? A raiva pode oferecer tanto
coisas boas como ruins, nós é que escolhemos.

 

O que é? Raiva é um dos sentimentos mais profundos, que vai se mostrando forte ou vingativa. Vivemos com ela, ela é parte de nós. Mas podemos escolher deixar ela ser maior que a gente, deixar ela ser o que é e nos tornarmos pessoas diferentes, pessoas que respiram raiva. Ou podemos escolher não sentir raiva, não respirar raiva, não deixar que ela mude o que somos.

Tudo depende de nós. Quando decidimos estar tristes por causa da raiva do outro é porque queremos. São escolhas, cada um escuta, se magoa com o que melhor lhe convém.

Jornalista Marina Machado analisa livro de Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi,  A virtude da raiva.

Mas somos seres frágeis, em constante evolução, e nem sempre conseguimos nos blindar para escutar e ver somente o que nos convém. Por esses motivos, nossa raiva, nosso demônio interior, deve ser controlado. Devemos encontrar nosso ponto de equilíbrio para assim termos algo de bom para oferecer aos outros. Afinal, não sabemos por onde anda a evolução do outro ser, o quanto sensível ou forte ele pode estar.

Nossas emoções devem ser sentidas por nós mesmos. Se elas machucarem o outro, não exale a ele o que não gostaria de receber.

A raiva é parte de tudo o que queremos mostrar. É tudo aquilo que não superamos carregar sozinhos. Por não vivermos sozinhos, expulsamos de nós o que já não conseguimos carregar e suportar dentro da gente.

Nem sempre conseguimos controlar o que está dentro da gente, perdemos o controle, esquecemos a sensatez, machucamos o outro e a nós mesmos, perdendo a noção de como poderíamos parar com isso.  Então, tudo começa a dar errado em nossa vida e nos perguntamos: – Porque? Será que é meu Deus que quer tudo isso para mim? Não, não podemos culpar nosso Deus ou os que estão próximos da gente pelas coisas que acontecem, pelas nossas emoções desiquilibradas.

Qual é o sentido da raiva em nossas vidas? O que ela pode nos oferecer? A raiva pode oferecer tanto coisas boas como ruins, nós é que escolhemos.

A raiva pode nos ensinar a ter coragem, a nos tornarmos seres mais fortes, nos ensina a evoluirmos com os nossos erros. Problema é que, muitas vezes, só aprendemos quando ferimos alguém com a nossa raiva. Mas sentir esta dor, esta decepção que causamos nos outros pode nos fazer evoluir, mudar de vida. Tudo depende da gente! Cada um com seu tempo, com seu relógio lento ou rápido.

Junto com a raiva temos a violência, tudo por um descontrole que, às vezes, pode provocar algo fatal. O mundo atualmente vem sofrendo com todo tipo de violência, em todos os lugares. Precisamos de equilíbrio e mais paz no coração da gente!

“Em tempos em que se dissemina raiva, ódio e estupidez, é preciso promover a paz”. (Nei Alberto Pies)

Antídoto para intolerância e ódio: promovamos paz

 

Privilégios

Quem se beneficiou ou se beneficia de privilégios
tem o dever moral de ajudar a combatê-los.

 

Eu tenho uma família amorosa, filhos saudáveis, uma casa confortável. Tenho um trabalho digno e uma vida tranquila. Parte disso é mérito meu, a maior parte é privilégio. Eu tive e tenho muitos privilégios. Cresci em um ambiente seguro, onde nunca faltou médico ou comida. Entrei na escola na época recomendada, e consegui concluir o ensino superior. Tive acesso a muitas coisas simples, mas que para muita gente são inacessíveis.

Um privilégio é uma vantagem, uma regalia, um direito que não é acessível a todos, mas apenas a um indivíduo ou grupo. Pode ser algo que distingue uma pessoa das demais.

Alguns privilégios são conquistados com trabalho árduo. Dá para pensar em privilégios transferidos, como quando os pais trabalham e se esforçam muito e podem proporcionar aos filhos uma vida mais fácil, independente das qualidades pessoais dos sucessores. Acho que, se pensarmos bem, algumas pessoas merecem privilégios, pelas qualidades morais, intelectuais ou artísticas que possuem, com as quais contribuem para a sociedade. Pessoas que tornam o mundo melhor merecem nosso reconhecimento.

Mesmo que alguns privilégios se justifiquem por mérito, grande parte é fruto da desigualdade, condição que esses mesmos privilégios perpetuam. No nosso país, muito do que deveria ser básico e universal é para poucos. Educação de qualidade não pode ser privilégio. Saúde não pode ser privilégio. Ter uma casa confortável, alimentação adequada, trabalho digno, infância segura, nada disso poderia ser privilégio.

O privilégio causa distorções difíceis de corrigir. Princípios teóricos interessantes como a meritocracia não funcionam onde há privilégios. Não há como medir adequadamente o mérito ou esforço pessoal quando as condições iniciais são tão diferentes. As distorções causadas pelo acesso inadequado à saúde, educação, lazer, também tem um efeito nefasto no desenvolvimento das potencialidades das crianças e jovens. Quantos grandes talentos são perdidos por falta de acesso a condições básicas de desenvolve-los? Acredito que é um prejuízo incalculável o número de cientistas, esportistas, empreendedores e artistas que o país poderia ter e nunca terá.

Enquanto o básico não for universal, teremos um país injusto, desigual e que não avança no desenvolvimento humano. É certamente um caminho longo o que temos que trilhar para superar essa dificuldade, e penso que quem se beneficiou ou se beneficia de privilégios tem o dever moral de ajudar a combatê-los, cabe a essas pessoas uma parcela maior de responsabilidade pela construção de uma realidade mais digna para todos.

O pensamento e o comportamento

A liberdade e a realização individual é exercitada
nas fronteiras entre as pulsões da dimensão mental primitiva,
a fragilidade do corpo e as imposições do mundo social.

 

 

A importância de avaliar as relações entre pensamento e comportamento foram impulsionadas no século XX por Sigmund Freud, ao demostrar que a singularidade da conduta humana pode ser explicada pelo modo individual de lidar com as três dimensões psíquicas, que são o Id, o Ego e o Superego.

Essas três dimensões, podem ser genericamente caracterizadas como primitiva/instintiva, racional/individualmente elaborada e social/moral, realçando a importância de explicar o comportamento mediante a análise do pensamento. Conjuntamente com as abordagens decorrentes da construção freudiana, a Psicanálise Lacaniana ou a Psicologia Analítica Junguiana, se apresentam como ferramentas para entender, alterar ou administrar condutas.

A disciplina e as técnicas necessárias para avaliar o pensamento, identificando as fronteiras e transições entre o comportamento primitivo, emocional, racional e social devem ser praticadas.

Várias estratégias podem ser empregadas na projeção da atuação, por meio do isolamento ou integração em um grupo, para evitar o mal-estar e experimentar a felicidade, o prazer e a realização. Independentemente da opção, se faz necessário observar que o isolamento é afetado pela realidade exterior e o afeto/proteção fornecido pelos outros é permeado pelo inconveniente do individualismo.

Cada indivíduo deve identificar o tipo de felicidade mais importante para si próprio, sabendo que é impossível chegar a um estado de plenitude.

Nenhuma estratégia irá funcionar como fórmula universal para o comportamento individual, pois as mesmas passam pela singularidade da constituição mental. As auto análises podem auxiliar na adaptação ao ambiente externo, se apresentando com uma chave para a construção da satisfação pessoal.

As insatisfações nas relações entre o indivíduo e a sociedade estão permeadas pelo impasse, das formas de vida mecânicas e tecnológicas, que paradoxalmente restringem os espaços do humano.

A liberdade e a realização individual é exercitada nas fronteiras entre as pulsões da dimensão mental primitiva, a fragilidade do corpo e as imposições do mundo social. A consciência desses contextos movediços, supõe a interpretação da cultura e dos modos de existir coletivos como opções e construções humanas, que decorrem da coerção, da capacidade de renunciar a pulsão e administrar os instintos.

 “Um pensamento, uma escolha, a intuição de um caminho a seguir, são pontos que desenham e sinalizam o processo de transformação”. (Israel Kujawa)

Aprender com as experiências dos outros

Meu novo vizinho e filosofia

A necessidade de nos inquietarmos é cada vez maior.
A superficialidade torna-nos máquinas e não conseguimos enxergar
o que está ali, à nossa frente.

 

Temos um vizinho novo. Trata-se de um rapaz alto e saudável, que chega ao final da tarde e sai bem cedinho. Presumo que seja um trabalhador como qualquer outro, todavia, sua morada é inusitada por estar em um terreno baldio onde existe um telhado e, embaixo dele, algumas caixas de papelão. É ali que o vizinho dorme e onde guarda suas coisas. Sua condição de vida e invisibilidade lembram-me de outro caso bem emblemático.

Uma professora de filosofia conta sobre uma aula frequentada por adolescentes em uma escola pública. Os estudantes foram chegando e fizeram companhia a um grupo uniformizado fazendo limpeza na sala. Alguns minutos depois, a ausência da professora foi sentida e as reclamações pelo atraso foram inevitáveis.

Em meio à estranheza pelo atraso alguém falou: “O que é filosofia?” Os alunos perceberam então que a professora integrava o grupo uniformizado. O episódio resultou em uma aula inusitada, cheia de significado, pois perceberam a condição de invisibilidade do grupo que limpava.

Os alunos entenderam, após uma conversa, que a filosofia propõe-se a ver o mundo à nossa volta, com atenção, com senso crítico e com o intuito de compreender as raízes da experiência humana.

Duvido que alguém tenha saído daquela sala sem ter sido profundamente afetado. Certamente aquela meninada tinha a impressão de que a filosofia fosse algo abstrato, fruto de conceitos que, através da história da filosofia diferentes pensadores elaboraram para entender os valores, a natureza, a beleza, o homem, cada um à sua maneira.

Entenderam que esses filósofos tinham a característica de questionar o mundo considerando as teias das nossas relações cada vez mais complexas.  A necessidade de nos inquietarmos é cada vez maior, por isso ampliaram os questionamentos chegando a mais significados. Os alunos compreenderam a invisibilidade como uma questão forte que precisa ser visitada.

“O trabalho do filosofar não se faz sem o trabalho de adentrar o pensamento de alguns filósofos. Essa entrada é uma armadilha. Entramos no pensamento de filósofos consagrados, mas então percebemos que só podemos assim realmente fazer se deixarmos as coisas se inverterem: é o filósofo que adentra em nós e nos utiliza para voltar a pensar. Perdemos nossa identidade nisso”. (Filósofo Paulo Ghiraldelli)

Crenças do estudante de filosofia

A experiência humana mostra-nos seres que passam por nós sem que sejam vistos. As ciências fundamentam o conhecimento, mas os comportamentos fogem da abrangência delas. Há que manter um afastamento do real, para que enxerguemos o que o pensamento radical nos proporciona.

A superficialidade torna-nos máquinas e não conseguimos enxergar o que está ali, à nossa frente.

Não precisamos estar de uniforme para que sejamos invisíveis. Tantas vezes ignoramos pessoas em função do que a tecnologia permite, fazendo-nos indiferentes ao lugar onde estamos e às pessoas que nos rodeiam. O aparelho celular tornou-se um companheiro inseparável em todos os lugares em detrimento do convívio humano. Preferimos olhar paisagens armazenadas no celular, ao invés de apreciá-las enquanto passamos.

O mundo real passa a ser invisível. Pessoas reais são ignoradas, enquanto vivemos nossas vidas em ritmo alucinante, sem que consigamos ver a verdadeira beleza. Observar o mundo de verdade torna-nos sensíveis e aptos ao aprimoramento da condição humana.

Meu vizinho novo continua lá, invisível em seu modo de vida. Imagino as privações por que passa, imagino a solidão que a noite lhe traz, avalio o frio percorrendo seu corpo e os insetos corrompendo sua pele. Sinto-me cada vez mais impotente diante das desigualdades. A pobreza extrema é uma excrescência imperdoável e a indiferença nos avilta enquanto cidadãos.

Considero a filosofia indispensável. Considero o alhar atento cada vez mais necessário. Enquanto nos inquietamos, o Estado nos brinda com planos elaborados dentro de gabinetes por pessoas dissociadas da realidade.

Essas pessoas dos governos deveriam andar de ônibus, ter seus filhos em escolas públicas e seus sapatos sujos de tanto frequentar os guetos onde pessoas invisíveis amargam a falta de tudo o que traz conforto, saneamento, moradia digna, comida suficiente.

Utopia: a cadeia infinita dos significados

A crise das utopias encontra na população juvenil
sua expressão mais perversa. O ato criativo como estratégia
crítica e política é o importante passo que devemos dar para
garantirmos o bom desempenho da nossa consciência e juventude.

 

É necessário o debate sobre nossas políticas públicas contemporâneas no momento em que nos deparamos com os impasses sobre as mesmas. Me refiro a qualidade de vida, ao compromisso da política social e a educação. Os modelos atuais que movem essas estruturas nos transferem a sensação urgente de melhorias, e é fato. Para isso, um importante passo que precisamos dar para a abertura de reflexões é permitir-se vagar pela utopia.

A utopia é justamente a construção de novas realidades, a partir de fendas simbólicas, no caso, como efeito do ato criativo. Este pode, de forma singular, despertar novas metáforas, lançar interpretações sobre o contexto histórico e abrir diálogos com outros campos de saber¹.

Quando me refiro á utopia eu gosto muito de lembrar as palavras de Eduardo Galeano que a relaciona elegantemente ao horizonte. “Se me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Se me aproximo dez passos, ela se afasta dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais irei alcança-la. Para que então serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Aqui, abrimos novos caminhos para outros mundos possíveis.

Desta forma, é importante investigar uma maneira utópica e iconoclasta daquilo que nos desafiamos a refletir. Quais nossas estratégias de crítica na atualidade? Os protestos, ao tomá-los como exemplo, possuem muitas faces que podem ser consideradas como um desafio a autocomplacência ética e a inação gerada pela colisão de otimistas e pessimistas. É importante saber distinguir com clareza os elementos destrutivos dos movimentos de protesto e sua função construtiva.

A crise das utopias encontra na população juvenil sua expressão mais perversa. Bem poderia dizer-se que o desencanto dos jovens e, de uma maneira geral, o declínio das aspirações militantes da população adulta, devem-se ao estrondoso fracasso do socialismo, um projeto que prometeu realizar os sonhos de liberdade, justiça e igualdade negados pela brutal realidade excludente do capitalismo². É curioso pensar nisso, não?

Nosso campo educacional sofre também com a invasão deste desencanto. Estamos freando, com cortes de um governo ilegítimo e a ameaça de um governo que se caracteriza pela imposição totalitária. O que podemos esperar de um conservador nato que nega a evolução das pluralidades?

É fato que a evolução das nossas metodologias de ensino, do nosso modelo educacional, lentamente andou ao longo dos anos passados. A não superação da metodologia tradicional reflete o efeito paulatino dos nossos avanços. Compreender como se passou a ensinar a muitos, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, os mesmos conteúdos, com os mesmos ritmos, para chegar aos mesmos objetivos, é compreender como a simultaneidade da sincronia dessas ações, faça com que nossa noção de escola não seja simplesmente a evolução de nosso passado remoto.

Existe uma conservação da nossa metodologia de ensino de nossas escolas que se escoram em um tradicionalismo disciplinar, que negligenciam a flexibilidade de tomar procedências plurais no que se refere ao olhar para a singularidade do aluno e, sobretudo, a singularidade do professor³.

O espaço privilegiado de disciplinarização dos corpos mediante a articulação de estratégias de heterogestão dos pensamentos e atos: obsessão pela ordem, pontualidade, compostura, distribuição dos fazeres e dizeres dentro de uma regulada espaço-temporalidade, hierarquização entre saber formal e informal… ⁴ lembra muito bem aquela conhecida música dos tijolos no muro que Roger Waters deu origem.

Devemos focar nossas direções á contribuição para o redimensionamento das relações sociais travadas no contexto escolar, de modo a que a escola constitua-se efetivamente como espaço de múltiplos encontros, como lócus de socialização, produção e apropriação de saberes necessários à transformação da sociedade em direção a modos de vida solidários e dignos. Os processos de subjetivação e a afetividade, desse modo, são compreendidos em uma perspectiva ética e potencializadora da vida.

A análise que gostaria de discutir é o quão importante nossas políticas públicas, como as nossas escolas públicas, são para o desenvolvimento humano das pessoas, digo, de todas as pessoas. Poderia dizer que ninguém melhor para fazer isso do que os próprios professores regerem o rumo educacional, de maneira social crítica na prática de libertação.

Sofremos grandes ameaças pelas políticas de ajuste e privatização promovidas pelos governos neoliberais, que excluem os que não tem condições de pagar para estudar e que não prioriza a população mais pobre. A redução do gasto público nas áreas sociais ameaça estruturalmente a possibilidade de manter ou de elevar os níveis de qualidade dos processos pedagógicos. Como resultado disso, os pobres tem que conformar-se com escolas pobres, enquanto os ricos mantém o privilégio de escolas ricas, simplesmente pelo fato de poderem pagá-las.

Há os reformistas de plantão que afirmam que o problema do sistema escolar está em sua crise de qualidade, e que a crise de qualidade é, em boa parte, culpa dos docentes que trabalham pouco e mal. Dizem, de forma bastante leviana e enganosa, que com austeridade devemos modernizar o Estado, eufemismo que, até o momento, não significou outra coisa que cortes orçamentários nas políticas sociais.

É importante que busquemos a reflexão dos mais diversos significados que atribuem á compreensão das nossas políticas. Ficar imerso a razoabilidade dessas questões compromete, no sentido não colaborativo, com a superação do tradicionalismo. O ato criativo como estratégia crítica e política é o importante passo que devemos dar para garantirmos o bom desempenho da nossa consciência e juventude.

Referências e citações

¹ Marsillac, Ana Lúcia. “Aberturas Utópicas: pesquisa, arte e psicanálise, 2014.
²  Gentili, Pablo. Alencar, Chico. “Educar na esperança em tempos de desencanto”, 2001.
³ Freitas, Marcos Cezar.  “Forma Social Ética e Inclusão”, 2017.
⁴ Zanella, Andrea Vieira. Molon, Susana Inês. “Psicologia em contextos de escolarização Formal de 2007.

Veja também