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Quem faz nossa cabeça?

Quem faz a nossa cabeça?
De onde vêm essas ideias que distorcem o
verdadeiro sentido das palavras e conceitos e acabam
tirando o foco dos reais problemas que devemos atacar?

 

É comum nas postagens de facebook e outras redes sociais, a referência ao comunismo como um perigo e uma ameaça. Se diz que o Lula e o PT querem transformar o Brasil numa Venezuela ou Cuba, que o comunismo quer a destruição da família, etc, etc, etc.

A influência da mídia na sociedade.

Como faz falta um pouco de conhecimento em Ciências Sociais para todos que se manifestam nas redes. São muitos conceitos usados com equívoco e, de tanto repetidos, acabam passando como “verdades”. Por exemplo, o que o presidente Lula fez durante seu governo está muito distante do socialismo.

Podemos dizer que o Brasil viveu um período de capitalismo um pouco mais humanizado, com mais distribuição de renda (não da riqueza), com menos desemprego e mais acesso ao consumo.

Mas, o que é mesmo esse tal de comunismo, que causa tanto pavor? O comunismo é a utopia, o horizonte das pessoas que colocam a igualdade como um valor primordial.

Muito antes de Karl Marx, Jesus Cristo ensinava a partilha como um dever fundamental. Tanto que seus discípulos, nos Atos dos Apóstolos, dizem: “todos estavam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam suas propriedades e bens e os repartiam entre todos, segundo as necessidades de cada um” (At 2, 43).

Podemos nos reportar também à utopia guarani da “terra sem males” como outra experiência de comunismo, como fez o jesuíta suíço Clóvis Lugon na obra “A República comunista cristã dos guaranis: 1610-1768” (Paz e Terra, 1976). E assim poderíamos nos reportar a muitos exemplos de projetos de igualdade na história da humanidade.

O certo é que a ideia de comunismo e socialismo é como um horizonte onde os valores da igualdade, da equidade, da distribuição da riqueza, o coletivo se sobrepondo ao individual, entre outros, são essenciais.

Se queremos um mundo melhor, mais justo, talvez o primeiro passo é partirmos de uma boa análise da realidade. Quais são os desafios da realidade brasileira, sobre os quais devemos unir esforços e buscar soluções?

Certamente não é a ameaça do comunismo o nosso problema real. Nem mesmo a corrupção, da forma como é propalada pela mídia. Nossos problemas reais continuam sendo a brutal desigualdade social, a fome, a falta de acesso à saúde, educação, terra, entre outros problemas que, estes sim, destroem famílias e projetos de futuro, especialmente das crianças e jovens.

Diante dessa falta de informações e mal-entendidos, a pergunta que fica é: quem faz a nossa cabeça? De onde vêm essas ideias que distorcem o verdadeiro sentido das palavras e conceitos e acabam tirando o foco dos reais problemas que devemos atacar?

Levante sua voz – Documentário que mostra o poder da mídia na nossa formação.

A alegoria da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, sugerindo a manipulação dos manifestantes pró impeachment da presidenta Dilma, no mínimo nos faz pensar se não estamos sendo marionetes de redes de televisão, de grupos das redes sociais, de interesses poderosos que impedem a busca pela verdade e a conquista de um Brasil mais justo para todos.

 

Quem ou o que é a elite?

O poder silencia, cria um clima de
uns contra os outros e materializa
um maniqueísmo autofágico tão
nosso conhecido em nosso país.

 

Está todo mundo cansado de ouvir falar em elites pejorativamente chamadas de “zelites”, pelos que consideram cansativas as generalizações que analistas e alguns políticos repetem sem parar. Mas, quem se aprofunda e vive a atuação do verdadeiro poder no mundo tem autoridade para falar sobre o assunto.

É o caso de Robert Reich, economista e ex-ministro do trabalho do governo Clinton nos Estados Unidos. Ele escreveu um livro intitulado Salvando o Capitalismo, que foi motivo para um documentário com o mesmo nome disponível no Netflix.

Trailer oficial documentário Netflix.

Senti uma luz acendendo-se na minha tão limitada compreensão, do que sejam as verdadeiras elites que regem os meandros da política e da concentração brutal de renda, em países como o nosso.

Recomendo para quem abomina as pessoas que denunciam a prática mais comum do que se pensa a assistir ao documentário, capaz de tornar-nos críticos revoltados e conscientes do que acontece de verdade dentro das bolhas do poder.

Ele não fala dos ricos como você, que tem uma empresa, uma fazenda, uma boa aposentadoria, um cargo importante, dinheiro guardado, mas dos bancos, das multinacionais, da concentração de riquezas por pouquíssimas pessoas, que engordam seu poder cada diz mais.

Ele fala também de lobistas poderosos capazes de influenciar os parlamentos, onde se joga com a vida ou morte de países, cujo povo ignora as manobras macabras, que empobrecem, retiram direitos, matam em filas de hospitais, deixam a cidadania inerte e ignorante do que realmente acontece.

Há uma cena comovente onde o autor do livro conversa com jovens supostamente desesperançados, mas que revelaram ter vontade de mudar as coisas e crentes de que alguma coisa seja capaz de dar-lhes voz.

Na conversa Robert Reich diz que tem a sensação de não ter feito tudo o que podia enquanto ministro do trabalho, mas que, por vezes, ele pensa ter feito o que era possível.

Concluíram que o poder silencia, cria um clima de uns contra os outros e materializa um maniqueísmo autofágico tão nosso conhecido. Segundo ele o que acontece nessa equação é a exacerbação de dualismos do tipo “democratas x republicanos”, “esquerda x direita”, e, no nosso caso, “coxinhas e mortadelas”, numa clara degradação das relações entre as pessoas. A máquina que alimenta a concentração de renda é um plano urdido nos bastidores e é inalcançável em uma sociedade dividida.

Para arrematar, Reich conclui o óbvio. Temos que unir forças, reconhecer o que é o inimigo e, se for necessário, causar tumulto. Nós aqui no Brasil causamos tumulto, mas sempre dois tumultos.

Chegamos ao absurdo de construir muros para separar as “torcidas”, ignorando que não somos dois povos, mas um só. No calor dos tumultos tupiniquins não somos o povo de que a constituição fala, não emanamos o poder, mas comportamo-nos como duas torcidas de futebol.

 

Sociólogo Jessé Souza: classe média pensa que é elite.

Quando compreendermos tudo isso, não limitaremos nosso poder ao voto, mas cobraremos incansavelmente do vereador em quem votamos, do deputado estadual, federal, senador, o comportamento ético que esperamos dele. Deixaremos seus telefones ocupados, suas caixas de email lotadas, seremos presença em audiências públicas, em sessões de câmaras pelo Brasil afora e tomaremos o poder em nossas mãos.

Cobrar das pessoas que elegemos é nossa obrigação. É o futuro dos nossos filhos e netos que está em jogo.

Da próxima vez que falarmos em “zelites”, voltemos ao livro ou ao documentário, para lembrarmos onde realmente as elites estão e qual é o verdadeiro nome da nossa desgraça.

Adversários?

A sensação é de que estamos
lutando uns contra os outros.
Mas o fato é que estamos
todos no mesmo barco,
à deriva.

 

Em tempos de crise política e ano de eleição, parece que todo mundo tem que escolher um lado. Tem que ser contra ou a favor de alguma coisa. E tem que ter opiniões definitivas. E tem que odiar os do “outro lado”. É uma pena que seja assim.

Todos querem estar do lado certo, mas nem sempre essa é uma escolha clara e simples. Há verdade por todos os lados, e ideias erradas também. Se não formos capazes de ouvir, será difícil encontrar soluções e caminhos para os desafios que temos em comum.

A sensação é de que estamos lutando uns contra os outros. Mas o fato é que estamos todos no mesmo barco, à deriva.

Não conseguimos discutir adequadamente nenhum projeto, nenhuma reforma, porque todas as opiniões estão obscurecidas pelos posicionamentos políticos de cada um.

Antes de ouvir uma consideração, um argumento, queremos saber “de que lado a pessoa está”, queremos julgar todas as ideias segundo um entendimento maniqueísta. Não é possível avançar enquanto não houver um pouco mais de tolerância e equilíbrio.

É um risco que estejamos assim tão desorientados. Acabamos expostos ao surgimento de alguma liderança salvadora, dessas que aparecem com frequência em momentos de crise, trazendo soluções mágicas, que acabam sendo trágicas.

Espero, para o nosso bem, que antes que isso aconteça possamos encontrar alguma convergência entre nossos objetivos. Afinal, o que todos nós queremos é poder trabalhar, viver, criar nossos filhos em um país justo e seguro. Queremos tranquilidade e a possibilidade de planejar o futuro. O que precisamos é enxergar que estamos todos do mesmo lado, do lado do Brasil.

No Brasil, não existe crítica ou critério de idade para a violência na Grande Mídia

Almoçamos com nossos familiares escutando que alguém matou,
esquartejou e violentou vítimas. Nesse momento não surge
nenhum conservador MBL moralista para pautar mudanças. 

 

Temos um vazio completo sobre os desdobramentos dessa violência em nosso cotidiano.

Nos acostumamos a viver com doses enormes de ódio, violência e vingança. A fascinação pela morte é parte da nossa patologia que amplia o poder do fascismo.

Desconsiderar isso, é esquecer que o medo e o pânico são ingredientes fundamentais do ódio e da mentalidade simplista.

Toda vez que escuto alguém falar: “nem direita e nem esquerda, precisamos ir para frente” me pergunto:

Realmente a pessoa acredita que existe alguma possibilidade do Patrão abrir mão dos seus privilégios para se unir aos trabalhadores? Que os racistas e preconceituosos deixarão suas crenças e passarão a incluir a diversidade de forma igualitária?

Que os possuidores de privilégios acumulados (homens, brancos, heterossexuais e moradores dos grandes centros) abrirão mão destes para permitir que todos tenham os mesmos direitos?

Creio que quem fala frases assim, quem copia pensamentos desse nível de simplificação e aplaude, tem grande chance de serem analfabetos políticos.

Negar a desigualdade, os preconceitos e as lutas de interesses entre classes sociais, é típico de quem vive numa bolha social da classe média.

Um brinde hipócrita para a simplificação da realidade miserável vivida pela maior parte da população do nosso país.

Escola Sem Partido: festival de horrores

A escola contemporânea forma o aluno para a vida,
ela não é mais um espaço apenas para ensinar,
mas para formar pessoas e construir conhecimentos.
E é ela quem ameaça o poder, ameaça as certezas, a doutrinação.
Esse é o real papel da escola. A escola crítica assusta o poder.

 

Não é de hoje que se discute a qualidade da educação no Brasil. Não há dúvida para a sociedade que ela vem sendo negligenciada por diversos governos, de diferentes concepções partidárias. A educação vem sendo tratada muito mais como projeto de governo do que projeto de Estado. Creio que nesse ponto encontraremos poucas divergências.

Mas há outro debate que exige um pouco mais de atenção e cuidado no que aponta soluções. Trata-se do projeto “Escola Sem Partido”, nome audível aos ouvidos e simpático a muitos cidadãos desavisados. E é aí que mora o perigo.

 

O programa debateu o movimento Escola sem Partido, que pretende incluir na legislação brasileira de educação nove artigos que tratam da missão da escola e dos deveres dos professores. O projeto define, por exemplo, que os professores devem ser “neutros” na escola e cria canais de reclamação para alunos.

O movimento Escola sem Partido surgiu em 2004 pelo procurador de Justiça de São Paulo Miguel Nagib. Em 2014, ganhou espaço no cenário nacional quando se transformou no Projeto de Lei 2974/2014, apresentado na Assembleia Legislativa Estadual do Rio de Janeiro (Alerj). O movimento é contrário ao que chama de “doutrinação ideológica” nas escolas e disponibilizou modelos de projetos de lei, estadual e municipal, a fim de que a iniciativa seja aplicada em outros locais do país.

Inicialmente, tratado por desprezo pela comunidade acadêmica, tornou-se em 2015, em meio a crise política que o país passava, no Projeto de Lei 867/2015, do deputado federal Izalei Lucas, PSDB/DF. Acabou agregando outros cinco projetos e está em discussão na Câmara Federal.

O projeto versa sobre a ética profissional do professor em sala de aula, criando uma série de regras comportamentais contra o “abuso da liberdade de ensinar”. O projeto cria canais de denúncia, incentivando pais e alunos a denunciar professores, inibindo a atuação de educadores.

O projeto de lei precisa ser contextualizado. Esse movimento surgiu e ganhou força num momento em que as relações políticas no Brasil estavam extremamente complicadas, e que há o desejo de uma parte da sociedade de que seja cerceado o pensamento dos professores. Fala-se sobre uma Síndrome de Estocolmo, onde o professor é um sequestrador intelectual dos alunos.

Mesmo que o PL não chegue a lugar algum, pelo menos se espera, ainda assim já se consolidou no imaginário de parte da população, que se sentiram respaldados e partiram para uma série de assédio moral nas escolas, uma perseguição ao educador por parte da família e do aluno.

O movimento Escola Sem Partido apresenta inúmeros equívocos e bizarrices, desde ser uma ação “preventiva”, passando por uma denúncia de que os professores são doutrinadores em favor do Partido dos Trabalhadores, até a tentativa de alterar o código penal e o ECA. Nesse caso definindo o conceito de assédio ideológico e prevendo até mesmo prisão de três meses a um ano. Ideia essa que foi criado pelo deputado federal Rogério Marinho PSDB/RN e que estrategicamente foi retirado do projeto.

Esse é um PL da mordaça, como se fosse uma escola com ou sem partido, proposto por uma direita delirante que perdeu o rumo e o debate. A acusação de doutrinação não tem procedência empírica e cientifica. Não há sequer apoio do setor privado, que claramente professa ideologia. Recentemente as escolas particulares do RJ realizaram um abaixo assinado se posicionando contra o Escola Sem Partido.

 

Afinal, que escola nós precisamos?

Não é uma pergunta para encontrarmos uma única resposta, mas podemos apontar alguns caminhos. Antes de mais nada, precisamos delimitar qual o papel da escola. Ela tem que ser o espaço da diversidade, igualdade e inclusão. É o espaço de apropriação de cultura, de ser estimulado pelo processo de aprendizado.

A escola moderna construiu uma unidade e identidade nacional, ela é uniformizadora, padronizadora.

Já a escola contemporânea forma o aluno para a vida, ela não é mais um espaço apenas para ensinar, mas para formar pessoas e construir conhecimentos. E é ela quem ameaça o poder, ameaça as certezas, a doutrinação. Esse é o real papel da escola. A escola crítica assusta o poder. O que estão propondo é uma superficialidade, e a superficialidade namora o fascismo.

Uma das críticas do Escola sem Partido é a dita “doutrinação” que ocorre nos estabelecimentos educacionais do país. Mal sabem eles que o livro didático sempre foi doutrinador e reacionário. Ele já é distribuído pelo MEC há quase três décadas e o negro por muitos anos foi excluído da história. Da mesma maneira que não conseguem entender que cerca de 70% dos professores no Brasil são formados por instituições privadas. Além do que na maioria das escolas públicas se reza o cristianismo antes das aulas. Isso não seria doutrinação?

Afinal, como se abordaria numa sala de aula a concepção de Estado ou concepção de homem e Estado? Seria doutrinação falar sobre a visão de Estado de Lock, Hobbes ou Rousseau?

A única doutrinação que se impõe à escola nos últimos anos é o horário de chegada. Um horário muito cedo que especialistas reforçam constantemente não ser o ideal para o aprendizado e que atende aos desejos do mercado.

Sentar em fila na sala, pedir autorização para levar lixo a sexta de lixo, não reclamar, não falar, ficar quieto e não questionar, isso é doutrinação. O que é estendido depois para o mundo do trabalho. Não questione o patrão, não atrapalhe. Não se questiona na escola, não se questiona no trabalho.

A sociedade brasileira é conservadora. Temos 52 milhões de matrículas na educação básica e ainda assim isso nunca se converteu numa ideologização da sociedade a ponto de ser possível questionar a ordem vigente de maneira contundente. A qualidade vergonhosa da educação, que está abaixo da média mundial, sequer é apontada suas origens, como a má gestão pública ou a responsabilização do gestor. Alias, não se discute a qualidade ou a crise da educação e das escolas no Brasil.

 

Gaudêncio Frigotto, professor da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), explica quais os riscos que o programa Escola sem Partido traz à educação brasileira.

Outra discussão desse movimento é a pretensa “neutralidade” da educação ou da escola. A escola não é ambiente fechado. Pelas circunstâncias históricas não há neutralidade. Segundo Durkhein, a possibilidade de você se afastar do objeto e observá-lo sem nenhuma intervenção de suas ideias intimas não é possível. É uma concepção infantil e desonesta.

Qual é a neutralidade do Estado? Ele é criado para a sustentação de um determinado modelo econômico.

Construímos nossos valores profundamente influenciados pelas instituições da sociedade civil, como as igrejas, grupos de escoteiros, em meio aos amigos, clube social, etc. A neutralidade não passa de uma ficção. O juiz ao tomar suas decisões não se dissocia de suas convicções, ele deve ser imparcial, mas jamais é neutro.

O Estado moderno foi construído pelo pensamento de direita, como a economia liberal, valores de família judaico-cristã, pensamento conservador. Portanto, carregado de ideologia. A nossa constituição também não é neutra. Ela é formada sob determinados olhares e valores. O pensamento crítico diz que a lei é de determinada forma e ela mesma aponta a crítica, suas divergências e aonde pode mudar.

Se o professor ficar repassando apenas conteúdo, ele reproduzirá o sistema, ou seja, também estará sendo ideológico e não crítico. A verdade, portanto, torna-se uma imposição, porque não permite questionamento. O mais grave professor ideológico é aquele que só passa conteúdo sem nenhuma crítica. O pensamento crítico é investigativo, os conteúdos são ideológicos.

As grandes descobertas surgiram com o ousar em pensar diferente. Como deixar de discutir o papel dos sindicatos e a luta pela jornada de oito horas de trabalho? E a emancipação da mulher, o direito ao voto conquistado com manifestações contra um regime patriarcal e repressor? A liberdade de ensinar, pluralismo de concepções pedagógicas são elementos excluídos do projeto.

O aluno precisa questionar e ter outros olhares sobre a realidade. Isso se dá com professores críticos que permitem a possibilidade de debate. Como debater temas como ocupação das escolas? Ali os estudantes estavam defendendo as escolas públicas e os desmontes delas.

Não podemos ser cúmplices e formar alunos adestrados e acríticos para a lógica empresarial. Os educandos estão na escola para criar.

Por fim, a tão falada liberdade que os pais devem ter para definir que tipo de moral seus filhos devem receber. Essa se assemelha as repúblicas fundamentalistas, onde é determinado o que os professores devem ensinar apenas dentro do que aquela concepção religiosa determina. Esse fundamentalismo tem tanta força que consegue acabar com a espiritualidade e substitui-la pelo dogma.

A direita brasileira é liberal na economia, mas no campo moral ela é conservadora. Acusam que formar para a cidadania é ideologia, mas não explicam como se dará o controle do conteúdo.

Dar uma aula que condiz com a moral de cada família é ufanismo. Para cada aluno seria um programa de educação. No fundo eles querem uma escola sem ideologia, sem construção do conhecimento e sem capacidade de criação. Atacam o pluralismo, a constituição e a LDB.

Para pensar como seria, na prática, uma Escola sem partido.

Se essa lei for aprovada, vai surgir um tribunal pedagógico. Como ser plural e ao mesmo tempo neutro? A escola não é a única formadora de opinião. A mídia e a igreja tem muito mais poderes de doutrinação e são mais eficazes.

Esse movimento é antidemocrático. Em recente debate no canal por assinatura GloboNews, mediado pela jornalista Waldvogel, o líder do Escola Sem Partido encerrou com uma ameaça aos professores e um incentivo aos pais contaminados pelo neomacartismo à brasileira: “Eu quero dizer o seguinte aos pais que estão me ouvindo aqui: se sentirem que os seus filhos estão recebendo orientação moral que conflite com a orientação moral que você, pai, dá na sua casa, pode processar esse professor. Eu digo isso: você tem direito a dar ao seu filho a educação moral que esteja de acordo com as suas próprias convicções. A lei garante esse direito”.

A pergunta que se faz: a escola sem partido será de que partido?

As escolas criaram ao longo do tempo um espaço para os pais participarem da elaboração pedagógica, como os CMPs, Conselhos Escolares, que juntos integram a comunidade escolar e elaboram o PPP. Ali se discute a gestão democrática e debatem o currículo. O nome vem para confundir, final, todos não querem partidos nas escolas. É uma liberdade de pensamento fundada na proibição.

A luta de todos é a defesa da escola pública, pela garantia de acesso e permanência dos alunos, pela qualidade da educação e garantia de gestão democrática. No fundo, esse jogo de palavras tenta encobrir as escolhas e mentiras. A única coisa neutra que eu conhecia era o detergente lava louça que eu uso.

Luciano Pimentel, professor da rede estadual de ensino do RS.

Uma russa em Carazinho

A estudante russa Mariana Smirnova, de 18 anos,
está em Carazinho através do programa de intercâmbio do Rotary Club.
Ela compartilhou com a gente como está sendo essa experiência –
e também nos contou muitas coisas sobre o seu país.

 

Fazer um intercâmbio era um dos sonhos de Mariana Smirnova. Ela sempre acreditou que estudar em outro país seria uma oportunidade muito boa para ela, que adora conversar e conhecer novas pessoas.

Através do programa de Intercâmbio do Rotary Club, que acredita que a exposição a novas culturas e costumes é uma excelente maneira de promover a paz e a compreensão mundial, Mariana poderia escolher entre o México e o Brasil para fazer o intercâmbio.

“Eu achei que aprender português no Brasil seria muito legal porque é uma língua única, o português do Brasil é diferente do português europeu. Na minha cidade apenas uma pessoa consegue falar e entender português e pensei que seria legal se eu também pudesse falar essa língua. Essa foi uma das razões de porquê escolhi o Brasil e eu também amo esse país, as pessoas, são todas muito generosas, divertidas, comunicativas, e também tem muitas comidas boas (risos), há uma similaridade entre a comida tradicional russa e a brasileira”, conta.

A mãe de Mariana estava bem interessada no programa de intercâmbio e na oportunidade que a filha teria, mas seu pai tinha um pouco de medo, afinal, o intercâmbio tem a duração de um ano. “Eles entendem que é a minha vida e que eu tenho que aprender coisas. Esse conhecimento pode me ajudar em um trabalho futuro e faz parte dos meus interesses”, diz.

Os pais de Mariana não precisariam ficar tão preocupados, afinal, em Carazinho, ela foi acolhida por uma bela família: João Rafael Dal Molin e Nubia Schutt, que se tornaram seus pais brasileiros. “A minha família aqui é a melhor das melhores! Eu gosto muito de passar meu tempo com eles, às vezes sinto falta da minha família na Rússia, mas me sinto em casa aqui no Brasil. Com eles não sinto tanta saudade de casa”, comenta Mariana.

Para que Mariana pudesse vir ao Brasil, um brasileiro teria que ir para a Rússia, afinal, o intercâmbio é uma troca. Para a alegria de Mariana, o carazinhense Enzo Fulber tinha interesse em conhecer o seu país e, assim, os dois conseguiram realizar o intercâmbio para o país que gostariam de viajar.

Alguns registros fotográficos de Mariana no Brasil e na Rússia (slides com fotos)

Uma das preocupações da estudante era se ela conseguiria fazer amigos no Brasil, pois, apesar de ser muito comunicativa, viveria em um país novo, com novas regras. “Consegui muitos amigos aqui, vamos caminhar, jantar, bem como os adolescentes na Rússia”, conta.

Em Carazinho, Mariana estuda na escola Sorg, apesar de na Rússia já ter concluído seus estudos na escola, e faz aulas de língua portuguesa no Yázigi. Ela diz que aprender a nossa língua é difícil, mas que existem similaridades entre russo e português e, como ela também conhece a língua inglesa e francesa fica mais fácil. Mariana consegue entender o que falamos em português, mas ainda é difícil para ela falar, então, em boa parte do seu tempo, se comunica através da língua inglesa.

Mariana ressaltou que uma das principais diferenças do Brasil com o seu país, é que aqui comemos com muita frequência! “Aqui tem muita comida e eu gosto muito de comer, mas para mim é terrível porque sou uma garota esportiva (risos). As sobremesas, as novas comidas… É tudo muito bom. Já me sinto como uma brasileira típica”, conta.

A estudante era nadadora profissional há dois anos e, pela carreira esportiva, teve a oportunidade de ir para a Alemanha, Finlândia, Estônia e Bulgária. “Tenho muito interesse em países e culturas estrangeiras, é tão diferente e incrível para mim, pois existem muitas diferenças entre a Rússia e os outros países”, comenta.

No mês de março de 2018, contamos também a história do professor da UPF Rogério Silva que também nos contou como sua viagem e intercâmbio na Espanha mudou a sua vida.

Espanha: a viagem que mudou a minha vida!

 

Veliky Novgorod, Rússia

A cidade natal de Mariana é uma das mais antigas em toda a Rússia, e fica a 155 km de São Petersburgo e a 552 km de Moscou, capital do país.

A Rússia tem invernos rigorosos, com temperaturas negativas e neve, mas a estudante conta que é possível viver normalmente em meio ao frio – bem diferente do calor que ela encontrou nessa época do ano no Brasil. “Aqui estamos na primavera, mas para mim é como se já fosse verão porque é muito quente. Eu gosto desse clima, posso ficar bronzeada (risos), mas esse calor é demais para mim”, diz.

Veliky Novgorod é considerada uma cidade pequena, mas guarda muito da história da Rússia em seus prédios históricos e monumentos. Um dos principais atrativos é o Monumento ao Milênio da Rússia (Памятник Тысячелетия России), erguido em 1862, por ordens do Czar Alexandre II (Александр II), em comemoração ao início do estado russo, quando o príncipe Rurik e seu exército, foram chamados para governar os eslavos. O monumento é formado por diversos símbolos, capítulos e personagens dos mil anos russos. Além dele é preciso destacar o Kremlin, a Catedral de Santa Sofia e o Rio Volkhov (Peка Волхов), que foi uma das principais rotas comerciais da idade média, ligando o norte europeu ao oriente.

Mariana conta que em sua cidade há várias atividades interessantes para se fazer no tempo livre, e ela, como uma típica adolescente, gosta de sair com seus amigos, ir ao cinema e caminhar pelos parques.

Esta matéria é assinada por Camila Docena, recentemente publicada na Revista impressa Contato Vip. A revista Contato VIP foi fundada em abril de 1993, circulando mensal e ininterruptamente até hoje. Sua sede está localizada na cidade de Carazinho, mas sua circulação se dá em toda a região do planalto médio e região noroeste do Rio Grande do Sul, através de assinaturas, venda em bancas e divulgação dirigida.

Conheça mais: http://www.contatovip.com.br/norte/

A morte dos que sonham

Marielle tombou antes de ensinar aos homens de
lata como ter um coração de carne. Mulher e negra regou a
terra com sangue antes de ensinar ao espantalho a
importância de um cérebro.

 

“Sou fruto do pré-vestibular comunitário”, disse Marielle Franco para lembrar quando anos atrás se engajou num cursinho no complexo da Maré, uma das maiores favelas do mundo, para ter alguma chance nos vestibulares mais concorridos do Rio de Janeiro.

Passou o microfone para outra mulher negra da Roda de conversa Mulheres Negras Movendo Estruturas. Pouco tempo depois, sua trajetória de ativista negra inundaria as redes em choque pelo horror: a vereadora do PSOL, 38 anos, a quinta mais votada no Rio em 2016, havia sido assassinada a tiros na região central do Rio de Janeiro sob intervenção federal militar.

História e trajetória de Marielle Franco.

Todo menino ou menina tem ao menos um sonho. A paz do mundo, uma roseira de esperança no quintal, um caderno de justiças para ser desfolhado na precisão. Mas, há meninos e meninas que sonham comprar pedaços do mundo.

Há meninos e meninas que querem vender roseiras e ser donos de canteiros. Há meninos e meninas que sonham ter fábricas de cadernos. Não podemos ser ingênuos. Quase sempre uns sonhos precisam vencer os outros. Isso pode tornar-se, às vezes, questão de vida ou morte.

O relógio faz meninos e meninas homens e mulheres. Crescidos, expõem para venda seus sonhos redondos. Fartas bandejas.

Verdade, alguns não os vendem. Oferecem-nos gratuitamente para famintos. Quem vende sonhos sonhou tornar-se um vendedor. Quem apenas os oferece sonhou ser um doador.

O problema é que os doadores de sonhos estragam o mercado dos vendedores. Isso pode tornar-se, às vezes, questão de vida ou morte.

Marielle, negra, saiu da favela não para ser exemplo de meritocracia, mas como exceção para olhar aos seus como quem salva. Como Doroty tinha sonhos além do arco-íris descolorido dos negros, pobres e favelados.

Entrevista de Marielle Franco ainda em 2016 sobre a sua eleição. Muito interessante!

Marielle tombou antes de ensinar aos homens de lata como ter um coração de carne. Mulher e negra regou a terra com sangue antes de ensinar ao espantalho a importância de um cérebro. Só os leões tiveram uma lição de coragem. Pena que seus dentes a calaram antes da última frase.

Ao cerrar os olhos, Marielle olha com ternura o buraco esquerdo em nossa lata. Marielle morta profetiza nossas cabeças descerebradas. Mas, se quisermos, poderemos apreender sua coragem.

Eu só não desculpo Marielle por sua ingenuidade. Devia ter desconfiado. Além do arco-íris, o mundo não está preparado pra ser colorido. Marielle, você exagerou na dose de fé e esperança!

Quem precisa de políticos anjos?

Palácio do Congresso Nacional

“Não somos anjos em voo vindos do céu,
mas pessoas comuns que amam de verdade.
Pessoas que querem um mundo mais verdadeiro,
pessoas que unidas o mudarão”.
(Gente, de A. Valsiglio/Cheope/Marati).

 

Muitos de nós gostaríamos que os políticos fossem anjos. Se assim fosse, estariam imunizados contra todas as situações e oportunidades que não promovem o bem comum e a prática da bondade. Mas os políticos, assim como cada um de nós, não são anjos e sim, seres humanos, ou seja, também não são perfeitos.

A política não é um espaço para a ação de anjos, mas é o espaço de disputa dos mais diferentes interesses que estão em jogo na sociedade. A disputa destes interesses é legítima, desde que os mesmos estejam sempre bem explicitados, para que todos saibam o que move os candidatos que se propõem a representar os interesses da população.

As contradições no exercício do poder estão sempre presentes nos movimentos que operam a política.

Os políticos posicionam-se a partir das conjunturas e contextos de cada momento, das articulações e negociações que são possíveis para aprovar os projetos que estão em pauta, das forças sociais que estão mobilizadas em cada momento histórico. É natural que joguem com seus interesses pessoais, mas é inaceitável, numa democracia, que estes interesses sobreponham-se aos interesses coletivos.

O mais intrigante e perigoso em nossa cultura de não-reflexão é que abrimos mão das responsabilidades para com a gente e para com o mundo.

Política sem reflexão

As agremiações partidárias (partidos) expressam e materializam os projetos de sociedade que estão em disputa no País. Estes projetos traduzem-se em propostas concretas de como governar, de como construir as políticas públicas, de como distribuir a renda, de como construir as oportunidades, de como desenvolver uma nação.

Há então que se discernir a diferença entre votar em pessoas ou votar em projetos, que embora “sempre juntos e misturados”, traduzem-se em diferentes consequências. “O voto não tem preço, mas tem consequências”. Por isso mesmo, é possível contemporizar as posições e atitudes pessoais dos candidatos com os projetos que os mesmos representam, observadas as circunstâncias e as intencionalidades em que ambas acontecem.

Defenda a Democracia. Ela é civilizatória, ela é progressista, ela é pacificadora, ela é de todos e para todos!

Democracia, uma escolha civilizatória?

Os candidatos não representam a si próprios, mas representam interesses que estão em disputa na sociedade. Talvez fosse melhor sermos governados por anjos, seres sobrenaturais e imunes a qualquer interesse mundano. Como não é possível, cabe a cada um e cada uma avaliar o projeto com o qual cada um dos candidatos está comprometido. Neste projeto, o compromisso com a vida humana e com a sociedade é o bem maior que deve ser resguardado.

Diferenças entre caravanas de Lula e Bolsonaro

As posturas radicalmente diferentes dos dois blocos
constituem indicadores importantes sobre o Brasil que temos
e, o mais assustador, a possibilidade de radicalizá-lo
ainda mais no futuro.

 

A caravana de Lula pelo Rio Grande do Sul ainda vai produzir muitos trabalhos teóricos sobre o “desnível” de muitos grupos militantes para viver republicanamente em um país democrático.

Historicamente, a direita sempre foi violenta e covarde. O seu alimento é o ódio e suas próprias frustrações. As arruaças, seu prazer. O que vemos é o alarido autoritário, a agressão gratuita, a negação de direitos elementares e constitucionais.

Estas turbas que andam pelas ruas, alimentando as redes sociais, são marionetes de fascistas de longa história, que agora entram em êxtase com os ecos dos filhotes de suas ninhadas. São matilhas deste lúmpen ignorante e violento criado pelo autoritarismo. Está tudo com os conformes da história.

São as classes sociais que dominam sociedades injustas e autoritárias, que criam a la farta os grupos abjetos de capangas, jagunços, lacaios, militantes abandidados, e correntes de ódios para impedir os direitos dos outros.

Há uma grande diferença com a esquerda em geral, com os republicanos e democratas.

Bolsonaro também fez a sua caravana recentemente pelo Rio Grande do Sul. Todo mundo conhece a sua história macabra e seus desejos de retorno do autoritarismo, negação de direitos republicanos, conquistas harmonizadoras das sociedades propostas pelos direitos humanos.

A caravana do Bolsonaro foi recebida efusivamente pelos seus correligionários. Fez sua pregação. Destilou ódios e mostrou sua vaga plataforma de um paizinho mixo de caserna. Todos que foram vítimas do que ele defende não foram perturbá-lo fisicamente e nem cercear o seu discurso.

Os democratas e republicanos, a esquerda em geral e os movimentos sociais, inclusive com poder de mobilização muito maior que os apoiadores de Bolsonaro, não fizeram um só gesto para calá-lo ou impedir a sua mobilização. Vale lembrar que estes movimentos anti-Bolsonaro ultrapassam em muito o petismo.

Bolsonaro passou para deslumbre de seus partidários, deixou outdoors semeados com sua figura patética e ameaçadora; enormes audiovisuais reproduzem seu semblante ameaçador nas paredes dos prédios sem que tenha recebido uma pedrinha sequer…

As posturas radicalmente diferentes dos dois blocos constituem indicadores importantes sobre o Brasil que temos e, o mais assustador, a possibilidade de radicalizá-lo ainda mais no futuro.

O que o anti-lulismo está fazendo é somente a antecipação de momentos ainda mais tensos e violentos. E tem revelado o quanto é torpe nas relações sociais e humanas, o quanto trabalha contra a formação de uma sociedade que divirja sob preceitos republicanos e democratas.

 

Amor, dedicação e luta por uma educação transformadora

Professora Emérita 2017
é referência para a rede municipal de Passo Fundo
e para comunidade escolar na qual atua.

 

O ano de 2017 foi marcado pelo reconhecimento da dirigente do CMP Sindicato, vice-presidente do Conselho Municipal de Educação e diretora da EMEF Antonino Xavier Vera Lúcia Mondin dos Santos, que recebeu das mãos do vice-prefeito João Pedro a distinção de Professor Emérito, conferida pela Prefeitura de Passo Fundo.

Com uma trajetória marcada pelo afeto com os alunos e colegas, Verinha desenvolve um trabalho que consolidou os laços da comunidade em torno da escola em que atua desde a nomeação na rede municipal, em 1992.

Atuante não só na vida escolar e na comunidade, como também nas lutas travadas pela qualidade da educação pública e valorização do magistério, a professora foi homenageada pela trajetória marcada pela luta para a melhoria das condições físicas da escola e pela efetiva mudança que conseguiu promover na vida de diversas gerações de alunos. Alunos, colegas e comunidade também prestaram homenagens à professora através de apresentações artísticas e da entrega de flores. Na oportunidade, o Secretário de Educação Edemilson Brandão reforçou que Vera foi escolhida por ser um exemplo de luta pela educação.

 

Pedagogia como instrumento de transformação

Graduada em Educação Física, antes de prestar o concurso do município, atuou nas redes particular e estadual, mas foi na rede municipal, especificamente na EMEF Antonino Xavier, que Vera passou os últimos 25 anos.

Dentre os orgulhos que Vera demonstra durante a conversa que conta sobre sua trajetória, está a dedicação com a escola. A relação que vai além do vínculo de trabalho é envolvida de amor e afeto, além do cuidado no desenvolvimento de uma pedagogia transformadora, que já colhe como fruto a união da comunidade.

“A razão da escola são os alunos, aqueles que estão ali. Então, se você não tem uma proposta político-pedagógica que sirva, a escola se torna inoperante. Não se torna uma escola boa de ir, uma escola que possa unir a comunidade e nós percebemos isso numa época que a comunidade sofria com a violência, a pobreza absurda e o alto índice de analfabetismo”, relata.

Na década de 90, a AXO era uma escola despreparada para a comunidade, sem estrutura. Além dos buracos no chão, vidros quebrados e ratos que corriam pela antiga Brizoleta, não existia uma escola diferenciada, proposta para a comunidade. Foi quando a equipe da qual Vera já fazia parte percebeu que aquela escola não servia para aquelas famílias: era urgente que a escola tivesse a identidade daqueles pais e alunos.

Há cerca de 15 anos, a escola desenvolve uma pedagogia diferenciada. Primeiramente, com a pedagogia do amor, depois a pedagogia do abraço, que foi quando se explicou que a escola era para acolher, não era uma inimiga, seguido pela pedagogia da emancipação, em que se continuou o processo que estava trazendo resultados.

“Se está lá e não ajuda para melhorar a vida daquelas pessoas, para que serve? Com o tempo, a estrutura física foi melhorando, mas não adianta estrutura se não tiver acolhida e espaço para a comunidade vir e se sentir acolhida. Depois desse processo, a comunidade se sentiu valorizada tanto na questão pedagógica, de acolhida quanto na questão de estrutura, e se sentiu parte da escola, criou um laço conosco. Hoje nossos ex-alunos trazem seus filhos para estudar aqui na escola, porque eles sabem desta relação”, conta orgulhosa.

“Acho que uma escola tem que ser afetiva. O laço com o aluno e a comunidade tem que ser real. Acredito que uma escola acolhedora, alegre, afetiva faz a diferença na vida das crianças. Educação é oportunidade. Eles precisam de espaço, uma luz, um caminho, ter uma opção, enxergar que existem outras possibilidades”, salienta.

 

De luta!

Com a fala mansa e amorosa, Vera buscou diversas melhorias para a escola em que sempre atuou. Defensora ferrenha da educação pública de qualidade, desempenha um importante papel como vice-presidente do Conselho Municipal de Educação e integrante de espaços como o Fórum Municipal de Educação, por exemplo.

Desde o início da sua carreira, Verinha atua ativamente das lutas pelas pautas do magistério e foi uma das defensoras da criação do Sindicato dos Professores Municipais. Foi uma das idealizadoras da transformação do CMP em Sindicato representativo do magistério municipal. “As lutas são constantes. Eu acredito que autonomia tanto da rede pública quanto da rede privada precisa acontecer. Nós precisamos ter uma questão geral que são as leis, a LDB está aí, e essa autonomia de cidades e localidades precisa existir. Uma escola não pode ser igual à outra, uma criança não é igual à outra, as comunidades precisam de escolas que sirvam para as suas necessidades”, destaca.

Vera lembra que o magistério é uma categoria massacrada, que enfrenta diversas dificuldades para atuar, como as famílias que não vão até a escola e deixam que decisões sobre a vida dos alunos tenham de ser tomadas pela escola, que fica sozinha.

“Nos sentimos abandonados em várias questões políticas da atuação do professor, mas precisamos continuar tendo esperança, oferecendo esse caminho. Porque a escola é a única trincheira de civilidade que eles ainda têm, em várias comunidades, e a nossa é uma delas. Sempre fui em busca dos direitos dos alunos, dos professores, dos pais, da comunidade, todas as questões que são de direito são bandeira de luta”, desabafa.

A professora aponta que, se você quer um local onde as crianças possam ter um exemplo e onde possam contar com uma estrutura acolhedora, esse caminho é a escola. Para ela, as escolas de periferia devem oferecer tudo que as crianças dali têm direito.

Nessa luta por educação pública de qualidade e luta pelos direitos da categoria, Vera destaca que o CMP Sindicato sempre teve atuação direta e as categorias precisam de quem as represente. “Alguém precisa estar à frente desta luta. Precisamos de pessoas que lutem nestas questões da vida funcional do professor municipal, principalmente quando o funcionalismo público tem sido acusado de tantas crises. Nós somos lutadores por uma sociedade melhor e eu estendo essa homenagem a todos os meus colegas da rede municipal, a todos os dirigentes do CMP Sindicato, Conselho Municipal de Educação e por todos que lutam por uma educação melhor, uma educação pública de qualidade”, disse.

 

Dança da vida

Um dos projetos que marcaram a carreira da professora foi o “Criança na Dança da Vida”. Incentivada pelo CMP, que na época ainda era associação, Vera e outra colega montaram uma apresentação de dança com os alunos da rede. O espetáculo foi um sucesso e, no ano seguinte, a Secretaria Municipal de Educação abraçou o projeto, subsidiado pela SME, onde, duas vezes por semana, as professoras cedidas trabalhavam dança com alunos de diversas escolas. Esses alunos, por sua vez, levavam o aprendizado para suas escolas multiplicando o conhecimento passado por Verinha.  Anos depois, várias alunas do projeto desenvolveram suas carreiras voltadas para atividades da dança ou educação física, área em que atuam até hoje.

 

Esta reportagem foi produzido pela jornalista Ingra Costa e Silva e publicada no Jornal Impresso Educação e Debate do CMP Sindicato de Passo Fundo, RS.

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