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Valores cristãos

Nem todos os cristãos conhecem a proposta de Jesus na sua essência.
Arrisco-me a um decálogo daquilo que considero ser o central
e o núcleo inegociável dos valores cristãos deduzidos
da vida e das palavras de Jesus.

 

Depois de dois mil anos ainda não chegamos a um acordo sobre o que é fundamental e o que é secundário no seguimento de Jesus. Facilmente, toma-se a parte pelo todo, o acidental pelo essencial, o periférico pelo central e nos agarramos a posições que, talvez, Jesus mesmo não se reconhecesse nelas. Eu arrisco um decálogo daquilo que considero, modestamente, ser o central e o núcleo inegociável dos valores cristãos deduzidos da vida e palavras de Jesus.

Defesa da vida. Toda vida merece ser preservada, cuidada, promovida e defendida. Quando falamos de vida estamos falando da humana ou também a vida dos animais e dos vegetais? Dos animais e vegetais podemos, nós humanos, dispor e fazermos o que bem entendermos para o nosso proveito, ou há neles um valor em si que não depende de nós? Eu arrisco dizer que há um erro de interpretação do cristianismo quando pensamos que o “não matar” e “que todos tenham vida e vida em abundâncias” seja aplicável somente aos humanos. Eu não tenho dúvida de que se Jesus vivesse hoje seria vegano e ambientalista. E por quê? Porque o senhor da criação não é o homem, mas Deus, e a culminância da criação não é o Homem, mas o sábado da confraternização da comunidade de vida.  Essa consciência, hoje, é tranquila entre os mestres e entendidos, como não seria para Jesus, mestre dos mestres?

Opção pelo vulnerável. Quando há conflito e a vida está em jogo, o cristão não deveria ter dúvida de se colocar do lado mais frágil e injustiçado, chamando à conversão o que, pretensamente, se acha superior e “do bem”. Mas e se o lado frágil for pecador? Ficar do lado dos fortes contra os fracos, dos bem constituídos contra os de fora das “rodas sociais e das igrejas”, dos supostos “do bem” contra os supostos “do mal”, significa renegar a mulher adúltera e ficar do lado dos que queriam apedrejá-la. Para um cristão não há os “do bem” e os “do mal”. Somos todos pecadores nos esforçando para ser bons ao lado de outros pecadores fazendo o melhor para serem bons. Só Deus é bom. Mas, e o marginal? Atire a primeira pedra…Mas, e o marginal? O ladrão? Atire a primeira pedra… A vida do marginal e do ladrão não nos pertence. Prendemo-los, se for o caso, mas o julgamento não nos cabe e não nos cabe o direito de vida e morte. Mas, bandido bom não é bandido morto?  Atire a primeira pedra….

O Reino de Deus. O Reino de Deus é a meta e o fim último da vida e das palavras de Jesus e, por dedução, dos cristãos. Quem não prega o reino, prega a Igreja ou se prega a si mesmo e seus interesses. Quem prega o Reino de Deus, prega o senhorio e o domínio de seus valores. Quais valores? Os valores do Reino são monetários? Só por perversão poderíamos dizer que ganhar dinheiro seja uma benção de Deus. Só por perversão podemos dizer que acumular capital seja um valor do Reino de Deus. Só por perversão…A teologia da prosperidade é uma perversão. Dizer que dá para servir a Deus e seu reino e ao dinheiro, é perversão. Mas o dinheiro não é mau. Sim, é bom, se distribuído. Mas, isso é comunismo. Se cada um ficasse com os seus peixes e seus pães não haveria o milagre da partilha. Mas, isso é comunismo. “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”.

Os bens do Reino de Deus. Há bens que são pessoais e privados. Sobre os bens pessoais e privados tudo o que um cristão pode dizer é: se foram adquiridos justamente, desfruta-os e partilhe quanto puder, pois nem todos têm. Não dá para dizer mais do que isso quanto aos bens privados. Os bens do Reino de Deus, contudo, são bens comuns, são bens que dizem respeito a todos e seria bom que todos tivessem. A paz é um bem do reino. A justiça é um bem do reino. O resultado da justiça federal e da paz, e a paz como fruto da justiça, leva ao maior dos bens: a felicidade. Felizes e bem-aventurados os que vivem e proclamam a justiça e a paz, deles é o reino dos céus. Uma coisa há em comum entre os bens privados e os bens do Reino, ambos não são puro mérito humanos, mas graça e dádiva divina.

A Família. Muito se fala sobre os valores da família cristã. Muito se fala sobre a sexualidade como parte da família cristã. Mas, o que de fato Jesus falou da família e da sexualidade? Jesus amava sua mãe, certamente. Respeitava seu pai, certamente. Mas não era o sangue o critério do respeito e do amor. A família de Jesus não tem nada a ver com o que os supostos defensores da família dizem. A família de Jesus é ampliada. Quem são meus irmãos e meus pais senão aqueles que fazem a vontade do Pai? É moralismo, sem base hermenêutica, continuar insistindo na família sanguínea e nuclear, sem se abrir à grande família dos que acolhem, agem e pregam os valores do Reino de Deus e seus bens. Defender a família e pregar a violência, a tortura, a morte ao outro, aos fora da família, é algo diabólico e não cristão. Quanto à sexualidade, convenhamos, Jesus falou muito mais “da mesa” do que “da cama”. A família se reúne e acontece, mesmo, é na mesa! A família acontece, no amor, ao redor da mesa. Isso é o essencial, a cama é secundária!

O amor. O amor é a síntese mais acabada do cristão. Amar é igual respeitar, cuidar, zelar, promover e ajudar o outro, sem vingança, sem ódio e sem ressentimentos. O perdão é o fruto mais genuíno do amor. Quem ama é livre para perdoar até mesmo o inimigo e o que lhe causa o mal. Quem ama não quer o mal do maldoso. Quem ama quer o seu bem, a sua conversão, não sua morte. O amor é paciente, o amor é generoso, o amor tudo suporta, até a ignorância arrogante dos que dizem que alguns não merecem amor.

Espiritualidade e Oração. Jesus vivia segundo o Espírito Santo de Deus. Todos vivemos segundo um espírito. Alguns vivem segundo o espírito da estética. Outros, segundo o espírito do eu e do apego. Outros, ainda, segundo o espírito do capitalismo. Outros, ainda, segundo o espírito de porco a fuçar e se lambuzar na lama. Para cada um segundo seu espírito. O cristão vive segundo o Espírito Santo de Jesus. O “espírito da coisa”, isto é, o espírito de Jesus, é o que foi dito nos seis primeiros itens, e os que seguem, desse decálogo. Não há nada de exotérico e nada de fuga do mundo na espiritualidade de Jesus e dos cristãos. A oração, o recolhimento, a distância do cotidiano, a separação dos afazeres da labuta diária para um momento de oração, é o que alimenta e dá energia para o fogo da espiritualidade cristã.

A fé, esperança e caridade. As virtudes cristãs são retroalimentadas e circularmente fecundadas. Onde há fé, há esperança e caridade, onde há caridade aí há fé e esperança e onde há esperança reina a fé amorosa. Há tempos em que a fé é a prioridade, há tempos que a esperança se impõe contra o desespero, há tempos que a caridade é uma exigência. Há tempos que se exige as três, sob pena de secarmos e perecermos. Em tempos sombrios, a esperança. Em tempos de fome e sofrimento, a caridade. Em tempos de medo, a fé.

A comunidade. O Deus cristão é trino: pai, filho e espírito santo. O culto ao eu, à espiritualidade intimista e interesseira, à uma vida isolada e refratária à vivência com os outros é, no mínimo, estranha aos valores cristãos. Deus é comunidade de amor. A identidade na diferença encontra na comunidade o lugar de sua expressão e cultivo. Fora da comunidade não há salvação. A família é uma comunidade. A escola é uma comunidade. A igreja é uma comunidade. A associação de bairro e as organizações não governamentais são uma comunidade. A rede social seria uma comunidade? Sim, é, mas não substitui as demais. A vida acontece no aparto de mão, no abraço, no encontro face a face, na partilha do pão e não comunhão de sonhos. A amizade, o amor, a comunhão, a fraternidade, a paz, a solidariedade, a justiça, enfim, os valores cristãos só são possíveis na abertura ao outro e no encontro com o outro na comunidade real.

A liberdade. A servidão involuntária não cabe nos valores cristãos. O Deus cristão é tão pouco mesquinho que não obriga ninguém, contra a vontade. Perder-se sempre será uma possiblidade respeitada por Deus. Se o humano não quiser, Deus não salva. Deus não salva quem quer se jogar no abismo. Deus não salva quem prefere a ditadura à democracia. Deus não salva quem prefere a ignorância e a mentira, à verdade. Deus respeita e fica olhando…Ele sofre, mas não força, contra a liberdade.

Fake News – o que você precisa saber sobre notícias falsas

A poucos dias das eleições que irão definir os
novos rumos do país, queremos trazer uma reflexão importante:
será que as notícias que você está consumindo são verdadeiras?

 

De uns anos para cá, a nossa maneira de consumir informações mudou. O jornal impresso, o rádio e a televisão não são mais os nossos únicos meios de ficar sabendo o que acontece no mundo – as notícias chegam pelo Facebook, pelo Twitter, pelo Instagram e até mesmo pelo Whatsapp. Qualquer pessoa pode ser um produtor de conteúdo nas redes sociais, o que significa uma vitória para a liberdade de expressão, mas, também, uma oportunidade para pessoas mal intencionadas (ou bem intencionadas a favor dos seus interesses) manipularem informações e disseminá-las.

A Diretora da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo, Doutora em Comunicação, Bibiana de Paula Friderichs, explica que as Fake News nem sempre são criadas assim em sua origem. “Muitas delas podem ser resultado do mau jornalismo, da falta de apurar uma informação e até mesmo da distorção dos fatos”, diz. É parecido com a brincadeira do telefone sem fio, em que se começa dizendo uma frase e a última pessoa a ouvi-la recebeu algo completamente diferente do original. Na internet, isso é chamado de Cyber Acontecimento. A medida que um fato ganha dimensão dentro da rede e viraliza, ele vai se afastando do seu ponto de origem, tanto físico quanto temporal, e vai perdendo elementos jornalísticos. “Chega um ponto em que esse fato já não é mais uma notícia e está completamente distorcido”, explica Bibiana.

Mas, existem outros casos em que uma notícia falsa é, sim, intencionalmente criada, se baseando em interesses de determinado grupo que quer persuadir outras pessoas a acreditarem em suas ideias. Nas eleições, por exemplo, uma notícia falsa pode ser plantada para um público específico, que é criado a partir de meta dados que fazem um desenho desse público, dizendo quem ele é, o que consome, quem são seus amigos, qual é a sua posição política… “Essas informações que colocamos nas redes sociais, como Facebook, por muitas vezes, são usadas de forma indevida por quem produz essas notícias faltas. Quanto mais de mim eu dou para a rede, quanto mais preencho o que ela pede, quanto mais interajo, quanto mais circulo, mais dados a meu respeito ela saberá”, explica a Doutora. Nesses casos, não é somente uma notícia falsa que está circulando na rede: é uma notícia falsa feita especialmente para você consumir.

Segundo o sociólogo e professor da IMED, Jandir Pauli, do ponto de vista tecnológico, é importante considerar que a maior parte das fake news são divulgadas por robots (ou boots), que são mecanismos tecnológicos que simulam relações humanas, por exemplo, por meio de perfis falsos em redes sociais. Seu objetivo: divulgar informações fake que passam a ser compartilhadas por “pessoas reais”. “Embora os Robots tenham uma capacidade para enviar notícias de forma muito mais rápida do que as pessoas (uma notícia falsa a cada dois segundos), pesquisas têm demonstrado que o fator humano ainda é o principal responsável pela disseminação das Fake News”, pontua o professor.

Aqui, podemos então nos perguntar: por que disseminamos notícias falsas? Por que aceitamos “entrar no jogo” da divulgação destas notícias sem checar sua autenticidade? Por que divulgamos possíveis boatos, distorções e mentiras que podem afetar a vida de outras pessoas? Será que fazemos isso simplesmente por falta de senso crítico e desinteresse?

Jandir destaca que considerar o fator humano para entender o fenômeno exige enxergar a ponte entre o perfil psicológico do potencial disseminador de fake news e a estratégia de quem produz este tipo de informação. “A tecnologia dos robots apenas media o contato entre o formulador da mentira e o leitor que a recebe. Estudos mostram que o produtor de fake news considera dois aspectos: criar uma fictícia credibilidade de fonte da notícia que acabou de inventar e, principalmente, organizar as informações considerando pressupostos morais e cognitivos que aumentam as chances da notícia ser ‘aceita’ pelo leitor sem que ele desconfie da autenticidade”, diz.

O que faz uma notícia falsa ser aceita?
As notícias falsas são construídas em cima dos mesmos valores notícias e dos mesmos elementos universais que as notícias verdadeiras, um dos motivos que, muitas vezes, causa a aceitação imediata de uma notícia mentirosa. Bibiana ressalta que esses elementos que fazem uma notícia falsa circular são os mesmos que fazem notícias reais circularem, pois são coisas que dizem respeito ao nosso cotidiano, atrelados a elementos de universalidade com os quais nós, como sujeitos, podemos nos identificar. Ela também acredita que outros fatores possam contribuir para que essas notícias falsas sejam aceitas tão facilmente:

  • A Fake News expressa algo que a pessoa quer dizer, geralmente em sua manchete. Muitas pessoas leem somente a pequena frase do título e, se nela está expressa uma ideia com a qual a pessoa concorda, ela simplesmente passa a notícia a diante sem ler ou checar o que recebeu.
  • Ela envolve elementos universais com os quais nos identificamos como seres humanos. Quando há filhos, mães/pais ou idosos envolvidos a notícia vai reverberar, porque as pessoas se colocam nesses lugares.
  • O absurdo também chama a atenção em uma Fake News, principalmente, se envolve celebridades, pessoas notórias ou crimes.

Para Jandir, o “sucesso” de uma fake news depende da associação entre o interesse do formulador e o acesso a informações sobre o perfil psicológico dos internautas. Portanto, é a partir de hábitos cotidianos simples e despretensiosos que empresas constituem perfis capazes de dar credibilidade a uma mentira a ponto de ativar o comportamento capaz de compartilhar essa informação em grupos de contatos. “Tudo isso nos leva a concluir que talvez a tecnologia da informação tenha apenas dado o impulso, criando consequências muito mais graves e confundindo os leitores sobre o que é ou não confiável. A receita para evitar ‘entrar no jogo’ da fake news parece simples, mas não é fácil: é preciso, por regra, desconfiar da informação recebida. Acreditar que existem profissionais mal-intencionados que trabalham para criar confusão e se beneficiar política e economicamente com a disseminação de notícias falsas. Quanto menos desconfiamos, mais sucesso terá a fraude. É desta forma que cada um de nós pode contribuir de forma efetiva para melhorar nossa vida em sociedade. E, considerando que as discussões dos principais temas sociais da atualidade acontecem por meio de dispositivos eletrônicos, torna-se urgente o hábito de checar as informações e, assim, contribuir de forma efetiva para um debate saudável e responsável”, alerta o sociólogo.

Como identificar uma notícia falsa

  • Quando as manchetes parecerem muito absurdas ou irem muito ao encontro de algo que você acredita, suspeite.
  • Abra os links e leia as notícias. Muitas manchetes são construídas para passar uma ideia que não representa o que a notícia comunica.
  • Procure essa informação em veículos de credibilidade. É importante que a mesma informação possa ser encontrada em mais de um veículo de comunicação.
  • Verifique as fontes da notícia, afinal, toda notícia precisa ter fontes de informação com nomes e ocupações reais, de pessoas que possam ser encontradas.
  • Quando uma notícia apresentar dados, você pode confirmar a veracidade deles em sites como IBGE, Governo Federal e outras empresas concentradoras de dados.
  • Procure se informar em sites que possuem expediente, para que você consiga saber quem são as pessoas que produzem aquele conteúdo. Matérias assinadas são ainda mais confiáveis, pois assim, você sabe que um jornalista está reivindicando a autoria da matéria e garantindo o seu comprometimento com a informação.
  • Se você ainda ficar na dúvida, procure as agências de checagem de informação! Elas se espalharam pelo mundo nos últimos anos e tem prestado um serviço muito importante de apuração. No Brasil, as agências Pública e Lupa se destacam por esse trabalho de checagem.

Matéria produzida por jornalista Camila Docena e publicada, originalmente, na Revista impressa Contato Vip, Ano XXV, número 285, Setembro 2018. Saiba mais da Revista aqui.

 

 

As eleições 2018 e o fanatismo religioso

O fanatismo religioso é o pior, pois atinge o cerne da pessoa,
atinge a sua dimensão mais íntima, sagrada e transcendente.
Como dialogar com uma pessoa que está certa, sem uma mínima
chance de equívoco, de que é Deus que a manda dizer
o que diz e fazer o que faz?

 

Segundo o dicionário, “Fanatismo religioso é uma forma de fanatismo caracterizada pela devoção incondicional, exaltada e completamente isenta de espírito crítico, a uma ideia ou concepção religiosa. Em geral o fanatismo religioso também se caracteriza pela intolerância em relação às demais crenças religiosas. Um fanático religioso é, muitas vezes, um indivíduo disposto a se utilizar de qualquer meio para firmar a primazia da sua fé sobre as demais”.

Ciente de que posso estar me colocando diante da crítica impiedosa, mas impulsionado ainda mais por uma consciência que me diz que aquilo que não se diz na hora certa se deve calar depois dos fatos ocorridos, e de que em certas circunstâncias a omissão pode ser o maior dos pecados, decidi emitir minha opinião sobre a mistura da religião com a política neste momento do nosso amado Brasil.

Prefiro correr o risco do erro de avaliação do que estar para o rebanho como uma “sentinela adormecida”, que embora veja o lobo se aproximando não cumpre sua missão.

O recente dia de Nossa Senhora Aparecida, foi muito intenso para mim. Enquanto viajava pelas estradas da nossa diocese de Vacaria, na direção das comunidades, minha mente, quase que independente de minha vontade, voltava toda hora ao fato de que nossa querida padroeira já foi vítima, ao menos duas vezes, do fanatismo religioso. Em 1978, um homem se dizendo enviado por Deus, destroçou a pequena imagem de Nossa Senhora em mais de duzentos pedaços; há alguns anos atrás um pastor fanático desrespeitou grosseiramente a representação de Nossa Senhora (sua imagem) com uma sequência de chutes em um programa de televisão.

Outra experiência recente de fanatismo, dentro da própria Igreja Católica, fez com que indivíduos instruídos por gurus das redes sociais, tenham agredido a CNBB como se ela fossa composta por moleques imaturos que não sabem o que fazem. Se tudo isso não bastasse, o grande Papa Francisco tem sido alvo de ataques ferrenhos contra a sua pessoa. Em todos estes casos podemos detectar uma doença espiritual/psicológica que revela a ausência de discernimento e de juízo equilibrado.

De todas as possíveis manifestações fanáticas, das quais a primeira vítima é sempre o próprio uso da razão (o fanático se nega a raciocinar por que isso seria muito perigoso), o fanatismo religioso é o pior, pois atinge o cerne da pessoa, atinge a sua dimensão mais íntima, sagrada e transcendente. Como dialogar com uma pessoa que está certa, sem uma mínima chance de equívoco, de que é Deus que a manda dizer o que diz e fazer o que faz? O fanatismo no futebol e o próprio fanatismo ideológico da política, de longe não são tão prejudiciais quanto o religioso. Famílias e comunidades que convivem com pessoas que se deixaram fanatizar sabem bem o que isso significa. Imaginemos agora, por exemplo, o estrago que faz misturar a doença religiosa com a ideológico/política! Que Deus nos acuda!

O atual fenômeno do fanatismo religioso, misturado com a política, tem se caracterizado por algumas causas (bandeiras) defendidas a “unhas e dentes” sobre as quais é praticamente impossível se dizer qualquer coisa sem ser condenado ao “fogo dos infernos”. Vou me referir a duas delas:

A BANDEIRA DO ANTICOMUNISMO – Aqui não se trata absolutamente de defender o pensamento comunista, questão já tratada adequadamente pela Igreja, mas é necessário se dar conta que ao reduzir a responsabilidade de todos os males do mundo aos comunistas se está fechando os olhos para a realidade que é muito diferente.

O problema do nosso tempo é bem outro que o comunismo, é a ditadura do “deus mercado”, o verdadeiro “deus” do capitalismo selvagem que vem devastando valores, destruindo pessoas, famílias, cooptando igrejas e movimentos eclesiais e colocando em xeque a possibilidade de sobrevivência do planeta. A idolatria em torno do “deus mercado” é tão absurda que o torna a única divindade inatacável. Pode-se debochar e desprezar qualquer outra representação religiosa, que isso é tido como liberdade de manifestação, porém se alguém ousar criticar o “deus mercado” será perseguido de morte como o profeta Elias depois de acabar com os profetas de Baal. De fato, o capitalismo não nega a existência de Deus (o que é simpático aos crentes desavisados) mas o que ele faz é substituir o Deus de Jesus Cristo pelo “deus dinheiro/lucro”.

Esta mesma causa anticomunista, que possui seus méritos, serve para que a doença espiritual (fanatismo) leve seus adeptos a pensar que o “Mal” está sempre fora da sua igreja, que é sempre um perigo que vem de fora e que deve ser combatido. Tudo o que aprendi sobre o Demônio até hoje, me faz lembrar que ele é tudo, menos ingênuo e burro. Com isso quero dizer que a pessoa não fanatizada é capaz de perceber primeiro o pecado que está dentro de si e da sua própria instituição. Esta tarefa é a mais difícil e mais dolorosa, mas também é a mais equilibrada e madura, e é a única que pode curar o problema na sua raiz.

Proponho uma questão concreta para reflexão: o que faz mais mal às famílias, às igrejas e à própria experiência de fé, a proximidade com um ateu ou a existência de graves escândalos de ministros no interior das próprias igrejas?

O Papa Francisco, modelo de lucidez e equilíbrio para o nosso tempo, tem o foco de suas principais preocupações noutro alvo. No seu documento do início do ministério ele afirma: “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras…” (EG 56). Com estas palavras não me prece que o Papa entenda que o risco do comunismo seja o único, e muito menos o maior perigo da atualidade.

A BANDEIRA ANTIABORTISTA – Antes que alguém aponte sua arma na minha direção, dou testemunho da minha firme decisão de ser um missionário da sagrada e intocável vida que é dom de Deus. Uma recente experiência de milagre que aconteceu entre meus familiares, em torno do nascimento da Cecília (minha sobrinha-neta) chancelou para sempre meu amor a vida desde sua origem. Nenhuma ideologia, ciência, medicina e nenhum médico está acima da vida ou a pode tratá-la como objeto ou coisa. A questão da doença espiritual (fanatismo) aqui não é a de assumir a indispensável luta contra o aborto, mas a cegueira que impede o crente de pensar mais além. A vida não vale somente enquanto está no útero materno, ela vale sempre. Hoje, a fixação exclusiva nesta causa serve muito mais aos projetos do grande poder econômico que, neste caso, instrumentaliza uma causa nobilíssima dos cristãos para impor seus mesquinhos interesses políticos.

Novamente é o Papa Francisco que convoca à lucidez e afirma no seu mais recente documento sobre o chamado à santidade no mundo atual: “Mas é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando algo superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da pessoa humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente de seu desenvolvimento. Mas igualmente é sagrada a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura e em todas as formas de descarte. Não podemos nos propor um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (GE 101). Entendo que Francisco está nos pedindo para não permitir que uma questão tão importante como a sacralidade da vida seja instrumentalizada, a ponto de os mesmos que defendem ferrenhamente a vida do nascituro sejam os que pregam o ódio, a violência, a tortura, o racismo, a homofobia etc.

Os pensamentos acima são frutos da inquietação de um pastor que se angustia muito com os fenômenos do nosso tempo e que entende que não tem o direito de se calar. Silenciar sobre estes temas que estão pautando o momento político brasileiro seria para mim muito mais difícil de administrar, do que correr o risco do equívoco tanto no mérito da minha manifestação quanto na interpretação dos que a lerem. Fico à disposição para todo tipo de crítica e de discordância, contanto que não seja mera agressão. Vale lembrar o que dizia Dom Helder Câmara: “se discordas de mim, tu me enriqueces”.

O que eu quero crer de verdade é que não cheguemos ao ponto de ter que pedir socorro aos ateus, para que nos livrem do fanatismo de cristãos adoecidos que estão prestes assumir o governo do nosso país.

O que exponho aqui não pretende ser toda a verdade, muito menos a única verdade. É apenas minha palavra.

 

Fonte: Diocese de Vacaria
Autor: Dom Sílvio Guterres Dutra, Bispo Diocesano de Vacaria-RS

 

 

Fraternidade e Políticas Públicas

As Políticas Públicas tem em vista garantir a eficiência dos
investimentos na resolução de problemas sociais e coletivos,
superando o debate político tão somente ideológico e pouco atento
aos efeitos e às consequências reais da realização ou não das
ações do Estado em favor da população.

 

Arrisco dizer que a Campanha da Fraternidade 2019 pode ser chamada “a campanha das campanhas”. O motivo é o tema, “Políticas Públicas”,  muito bem escolhido pelos bispos, ainda mais se considerarmos o contexto social, econômico e político que estamos vivendo em nosso país.

Antes de abordar Políticas Públicas é bom reforçar aquilo que já foi dito pelo Papa Paulo VI, atualizado pelo Papa Francisco e que está bem expresso na Doutrina Social da Igreja: “a política é a melhor forma de fazer caridade”. Pois é somente através da política que se universalizam os bens, os serviços e que se promove a equidade. Por isso, das nossas decisões políticas depende o futuro de milhões de pessoas que terão acesso ou não à condições dignas de vida.

As Políticas Públicas são um direito da cidadania e servem para garantir os direitos fundamentais à saúde, educação, moradia, trabalho, cultura, lazer, acesso às tecnologias, preservação do meio ambiente, entre outros.

Falar de Políticas Públicas é justamente falar de uma forma de ação do Estado, desde a elaboração, execução, participação popular até a avaliação, num percurso que dificulta a corrupção e a politicagem, além de permitir que se chegue a resultados concretos e que mudam a vida das pessoas. É diferente de serviços públicos, pois estes são a tarefa diária das administrações públicas na manutenção de  serviços sanitários, saneamento, pavimentação, transportes, escolas, etc.

As Políticas Públicas tem em vista garantir a eficiência dos investimentos na resolução de problemas sociais e coletivos, superando o debate político tão somente ideológico e pouco atento aos efeitos e às consequências reais da realização ou não das ações do Estado em favor da população.

O que são políticas públicas? 

Com o lema “serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27), a CF 2019 visa aprofundar o que são as Políticas Públicas enquanto garantidoras de direitos. São muitos os problemas e desafios da sociedade atual. É preciso olhar sobretudo para a realidade das pessoas que mais sofrem as consequências de um sistema que impede a vida com dignidade. Muitos ainda enfrentam problemas dos direitos básicos, como saneamento, habitação, alimento, saúde, emprego e educação.

Desde 1964, a CNBB propõe um tema relevante para a sociedade brasileira refletir e engajar-se durante a Campanha da Fraternidade. O método ver, julgar, agir conduz a uma prática transformadora diante das situações de injustiça e de agressão à vida. Aqui, podemos perceber algo em comum e que faz desta “a campanha das campanhas”. Ou seja, tanto as Políticas Públicas como a Campanha da Fraternidade – com o método ver, julgar, agir – exigem que o resultado sejam ações transformadoras da realidade.

Oriundo da Ação Católica, esse método foi criado pelo Cardeal Josef Cardijn, na década de 1950, na Bélgica, onde exercia seu ministério pastoral entre os trabalhadores. E foi reconhecido oficialmente pelo Papa João XXIII na Encíclica Mater Et Magistra, em maio de 1961. O método propõe os seguintes passos:

Ver: estudo da realidade. Especial atenção é dada, neste olhar, para as pessoas e famílias mais necessitadas e excluídas da sociedade. Para escolher as Políticas Públicas a serem implementadas, as administrações precisam fazer escolhas, preferencialmente com a participação popular, definindo os problemas mais urgentes e que afetam a qualidade de vida da população.

Julgar: análise e julgamento a partir de alguns referenciais, especialmente da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, servindo como luz que ilumina nossas ações. Outros instrumentos, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Carta da Terra, a  Constituição Cidadã, também são importantes para que os cristãos possam enxergar a sociedade como um todo e não apenas os que participam da vida eclesial.

Agir: são as considerações sobre as perspectivas pedagógicas e comportamentais que se abrem, com vistas a uma ação social transformadora. No caso das Políticas Públicas, significa propor às administrações públicas, políticas que busquem transformar as situações mais gritantes de injustiça e que causam sofrimento às pessoas, famílias e comunidades do município, estado ou país.

Combater o fascismo dará muito trabalho

O fascismo mora na simplificação,
no ódio baseado em pensamento simplista.
Estamos flertando com o agrupamento de ideias e
pessoas que abriram mão ou não tiveram
acesso ao pensamento complexo e profundo.

 

É impossível acabar com o FASCISMO no voto. Da mesma forma o pensamento fascista.

Precisamos reconhecer isso.

Mas se temos eleições e elas estão permitindo que ideias e posturas fascistas governem o país, precisamos também lutar por votos. Mas essa luta é temporária e emergencial.

“A democracia burguesa tem a aparência da civilidade. Mas quando as coisas vão mal, ela abre as portas do inferno”. (Sociólogo Ricardo Antunes)

 

Mas passadas as eleições, independente do resultado, precisaremos enfrentar o fascismo (que aqui poderia ser simplificado com ideias que flertam com o racismo, machismo e homofobia, com ideias de supremacias que se impõe pela força; que acreditam que matar ou oprimir minorias seja a solução; que violência seria solução para algum dos nosso problemas sociais, políticos e culturais). Ficaremos hoje com essa simplificação, pelo potencial didático.

Se perdemos amizades e cortamos relações com amigos e familiares, precisaremos, deste ponto em diante, botar o dedo na ferida, abrir a caixa de “Pandora” dos temas e fatos que até então não falamos. Precisamos falar e se responsabilizar por dialogar com esta e com a próxima geração. O desgaste está só começando nesse sentido.

Podemos reconhecer que até aqui, nem escola, nem faculdade, nem universidade, nem família se responsabilizaram o suficiente na HUMANIZAÇÃO do nosso povo. De ensinar que pensar, procurar informações sérias e questionar sempre a realidade é como respirar. De mostrar que existem princípios na nossa condição humana que NÃO PODEMOS ABRIR MÃO. Pois isso coloca em risco a nossa própria vida.

Independente do cara ser conservador, liberal, de esquerda ou direita, indiferente ou extremamente engajado em ações políticas. Independente de posições econômicas e ideológicas que cada um deseje seguir como base. NÃO PODEMOS ABRIR MÃO do RESPEITO pela diferença. Respeitar e estar aberto a dialogar, escutar.

MAS NUNCA, NUNCA abrir mão do PENSAMENTO.

Pensar é como andar de bicicleta, aprendemos fazendo. Não aprendemos olhando e falando igual a quem pedala. Aprendemos pedalando. Assim como aprendemos a pensar sendo estimulados a pensar no diálogo, na leitura e na reflexão.

Seremos educadores sociais, responsáveis por humanizar, pelo estímulo à capacidade de pensar. Fake News é típico exemplo de pessoas que abandonaram a capacidade de pensar. E essas pessoas estacionaram no pensamento simples e superficial, de frases clichê. De repetir ideias simples para ter alguma vez na “explicação” da realidade. Mas sem ter trabalho nenhum de pensar e refletir.

E se formamos pessoas assim, o fascismo mora na simplificação, no ódio baseado em pensamento simplista. Estamos flertando com o agrupamento de ideias e pessoas que abriram mão ou não tiveram acesso ao pensamento complexo e profundo.

É sobre essa realidade que temos que lutar. Foco nas eleições, mas em poucas semanas é que o trabalho vai REALMENTE COMEÇAR.

Inteligência artificial usada de modo viral como algoritmos imbecilizadores e bárbaros

A máquina é para o humano e não podemos aceitar que seja o contrário, nós as construímos, devemos dominá-las a bem da humanidade. 

 

Funciona assim: todos nós temos um inconsciente coletivo e também um inconsciente pessoal. Em todas as nossas tecladas nas redes, esse inconsciente é capturado no que nem mesmo nós nos damos conta. Isso acaba resultando em uma cultura do meme, modo binário e polarizado, linguagem da máquina que se formaliza por algoritmos que defletem o real, não por reflexão sobre o real.

Refletir sobre o real aqui e agora, tomar consciência, mudar, evoluir, amadurecer, são prerrogativas da inteligência natural por meio do intelecto e todas as faculdades mentais de que somos dotados.

O modo máquina e a cultura do meme, usados de forma pedagógica e inteligente,  pode dar velocidade a evolução, educar, mas só é evolução com o critério insubstituível do ser, modo humano de natureza e a seu serviço.

A cultura do meme usada como viral é manipulação mental exponencial, veloz, irracional para controle da mente e das humanidades, por predadores dos valores e princípios caros a nossa humanidade, manipulados artificialmente.

O objetivo é gestar uma civilização não humana, robótica, sem espírito livre, sem alma, sem corpo, somente com cérebros como bateria de memes, sem consciência de si  ou do outro como diálogo, apenas replicador da cultura do meme  e seu “inconsciente” cheio de racismos culturais e estereótipos regressivos pré impostados artificialmente, como plagio do real humano criativo, capaz de cultura viva humanista, renascentista.

Robotizando o modo humanidade, toda a natureza está em perigo, toda civilização humana está em perigo. A máquina não renasce, não ama, não evolui em sentido humano. A máquina é para o humano e não podemos aceitar que seja o contrário, nós as construímos, devemos dominá-las a bem da humanidade.

Somente a gente e nosso discernimento pode salvar este país e a própria humanidade

Fake News não são brincadeiras virtuais como games em que nunca se morre de verdade. Matamos virtualmente e sem consequências. Fake News destroem vidas, destroem reputações, destroem afetos, destroem a civilidade de uma nação inteira.

Humanidade e discernimento são os antídotos contra esse vírus que lesa a mente e destrói nossa humanidade. A verdade e a presunção de inocência, a notícia feita de forma respeitosa e com informações reais e testemunhais, o respeito próprio, o respeito ao outro, o respeito a civilização deve voltar a ser nosso lema.

Do contrário, seremos destruídos como valores e princípios de elevada civilização. O que estamos vivendo é uma invasão viral dos algoritmos da inteligência artificial usados para manipular e controlar mentes para destruir a civilização com um único objetivo: destruir a soberania e roubar recursos das nações pelos predadores das economias e seu imperialismo anti humano.

Porque anti humano? Porque para controlar e roubar é preciso destruir a consciência da grandeza de ser humano e soberano sobre qualquer território.

Guarde seus monstros, cure seus ressentimentos, ame a civilização, ame a si mesmo e ame os outros, próximos e distantes. ame a humanidade que habita esse planeta. discernimento e amor a verdade, essa é a essência da humanidade !

 

 

Crise Ética

Você já parou para pensar que muitos dos
problemas que o nosso país enfrenta podem
vir da falta de ética?

 

Não há como fugir. De todos os lados estamos cercados de atitudes que nos fazem afirmar que estamos vivendo em meio a uma crise ética. O primeiro indício desse fato vem justamente da política – dos nossos líderes que deveriam prezar pelo bom desenvolvimento da nação, por mais que essa pareça ser a última coisa que façam em meio a tantos escândalos de corrupção. Mas os méritos que nos levam até essa crise ética não são exclusivamente políticos. Muitas outras ações, que contribuíram para essa situação que enfrentamos, estão bem pertinho de nós, no nosso dia a dia.

A falta de ética está naquela fila que o sujeito “fura” para ganhar um tempinho; está naquele troco em que você percebeu que o atendente deu um pouco a mais e não reclamou… A falta de ética transparece em muitos momentos e você certamente já deve ter presenciado algum deles.

Segundo o Doutor e Pós-Doutor em Filosofia, Ângelo Vitório Cenci, essa crise ética em que vivemos não é de hoje, ela acompanha o nosso país, digamos que, desde sempre. “A ética ou a falta dela reflete sempre um contexto social e nós temos um contexto marcado por múltiplas deficiências que prejudicam a ética.

Quando a ética falta na política é porque, da mesma forma, ela falta na base da sociedade, nas relações humanas, nas relações familiares, nas empresas. Aquilo que está lá em cima é o reflexo do que está aqui na base”, explica o professor.

As razões para vivermos essa situação são inúmeras e, segundo Ângelo, uma das causas mais profundas que resultam nessa falta de ética é o fato de vivermos em meio a uma grande desigualdade em nosso país. Temos uma herança histórica do Brasil enquanto colônia, que se constituiu a partir do espólio que levava as riquezas da terra embora. “O que vemos hoje no contexto de instituições políticas, sociais e até empresarias é um reflexo ainda dessa lógica predatória, que revela outra razão profunda e importantíssima que é a falta da perspectiva do bem comum. Hoje temos uma carência profunda de líderes, de pessoas que pensam uma ideia para além dos seus interesses pessoais, que pensem no interesse comum coletivo”, destaca Ângelo.

Além da desigualdade e da falta de se pensar no bem comum, o país também sofre com o reflexo da educação pública deficitária. Deveríamos ter uma educação de qualidade, pública, para que todos pudessem desenvolver uma igualdade em termos de capacidade, o que é um elemento fundamental para uma boa convivência social. “Nenhuma sociedade tem saúde ética, social, política, se não tiver uma coesão social e, para ter uma coesão social, as pessoas tem que ser educadas para isso”, aponta.

 

Mas afinal, o que é ética?

Resumindo, a ética trata do agir humano. É também uma postura, uma atitude e um modo de ser, como diziam os gregos. No dia a dia o papel da ética é orientar as ações humanas para que sejam as melhores possíveis. Por isso é importante saber como as ações deveriam ser, assim como no trânsito. “A ética tem uma analogia muito estreita com o trânsito que, através de normas, regras e sinais, indica para o condutor o melhor caminho e a melhor maneira de trafegar. A gente olha para as placas e sabe como deveria ser, mas se as pessoas agem de acordo ou não é outra questão”, exemplifica o professor.

Quando se fala em ética as pessoas têm o costume de olhar somente para um indivíduo, o abstraindo do contexto em que vive – o que é um erro. “Eu procuro trabalhar sempre a ética pensando o indivíduo como interdependente, nós sempre estamos em um contexto.

A ética não é nata do indivíduo e também não é transmitida, nos nem nascemos éticos e nem transmitimos uma ética para as outras pessoas, da forma como se transmite conhecimentos matemáticos, por exemplo. A ética é um processo de desenvolvimento. Usando um trocadilho, pode-se dizer que a ética não se ensina, mas se aprende. Através de exemplos, de atitudes é possível ser uma boa referência para as pessoas agirem da mesma forma”, ressalta.

Paulo César Carbonari destaca que, mesmo tempo que pode estar na perspectiva de potencialização e afirmação positiva, a humanidade pode também estar na perspectiva da destruição e dominação de uns sobre os outros. Por vezes, ao invés de ética, somos impelidos a agir mais por etiqueta do que por ética. Agimos mais por aparência ou imposição das conveniências.  

 

Ser ou não ser ético – eis a questão

Muita gente segue o seguinte raciocínio: “Se ninguém faz as coisas certas, por que eu deveria fazer?”. O professor Ângelo nos ajudou a pensar sobre isso e o veredito final é: as ações dos outros não justificam as nossas omissões ou as nossas ações erradas. “A ética pode ser reconhecida por qualquer pessoa como válida nas mesmas circunstâncias, então, se os outros não agem bem isso não justifica que eu também não aja bem”, argumenta.

A vida seria muito melhor para todos se todo mundo resolvesse ser ético no dia a dia. O que, segundo o professor, é absolutamente possível. “Só é preciso que a sociedade queira. Quando se fala em educação, por exemplo, se fala muito na Coréia do Sul, na Finlândia, que são modelos, e no fundo quando vamos olhar o que foi decisivo para esses países chegarem onde chegaram a razão sempre é: a educação é um projeto de nação, a sociedade quer. A sociedade acha isso importante e ela opta que isso aconteça, não depende só de governo”, enfatiza.

Hoje a falta de ética também gera um custo extremamente elevado para a sociedade. Afinal, se todas as obras públicas precisam ter um percentual destinado a corrupção essa conta vai cair no bolso da sociedade. É como se no custo de todos os produtos já estivesse incluído uma parte que seria roubada, outra que seria desviada, outra que cobre o descumprimento da palavra de algum fornecedor…

“Existe uma relação inversamente proporcional entre ética e leis. Quando existem leis demais existe ética de menos e quando existe ética o bastante existem menos leis, porque você não precisaria de muitas normas se todos fossem éticos”, destaca Ângelo. Se tivéssemos uma ética maior do que temos hoje, teríamos menos burocracia, menos regras, menos impostos, menos sonegação e menos corrupção. Todas essas situações seriam bem melhor contornadas se todos prezassem por essa pequena palavrinha que resulta em atitudes grandiosas e que fazem bem para todo mundo: a ética.

A partir desta referência, Ângelo comenta que existem três fatores fundamentais para que a ética funcione: boas pessoas, boas regras e boas instituições. E o exemplo vindo desses fatores é fundamental, desde o processo de socialização da criança até o trabalho dentro de uma empresa. Temos referências positivas e individuais de pessoas, temos leis excelentes, mas o terceiro ponto está sendo falho hoje no Brasil. “As instituições têm um papel educativo fundamental e, para a ética funcionar, temos que ver isso como uma perspectiva sistêmica: pessoas, regras e ambientes deveriam funcionar de forma integrada”, alerta o professor.

 

Esta publicação foi originalmente publicada na Revista Contato Vip, Ano XXV, número 272, Agosto 2017. Para conhecer mais, clique aqui.

 

 

Razão e paixões

Como gostaríamos que acabasse a história brasileira
que está por viver dias decisivos? Em que será melhor apostar,
na democracia racional ou nas pulsões sob o
sentimento difuso de ódio e ressentimento?

 

Quando alguém nos diz “siga o coração”, não está dizendo outra coisa senão: siga as paixões e não a razão. Quando alguém nos diz “pense bem”, outra coisa não está dizendo senão, siga a razão, pondere, não siga os sentimentos, os interesses imediatos e as paixões.

Cabeça e coração, razão e sensibilidade são as duas energias que conduzem a locomotiva das aventuras humanas. O senso comum percebe isso de uma forma imediata e intuitiva.

“O que se assiste hoje é a uma raiva excessiva, irascível, birrenta e mal-humorada. Uma raiva destrutiva, excludente, injusta!” (Paulo César Carbonari)

O que fazer com a raiva?

A filosofia ocidental, por sua vez, sintetizou conceitualmente a condição humano, naquilo que a mitologia grega já tinha identificado em dois deuses que diretamente lidam com a essência antropológica: Apolo e Dionísio.

Apolo é nosso lado razão, ponderação, moderação, ciência, medida e luz. Dionísio é nosso lado paixões, desmedida, festa, embriagues e sombra. Apolo e Dionísio, razão e sensibilidade são duas grandezas que melhor dizem o que somos. Não há humano que não seja síntese dessas duas grandezas. A síntese, contudo, pode ser feita por negação, por subordinação ou por integração.

O racionalismo nega que o coração e as paixões sejam bons guias para a condução do caminho ético, político ou religioso. O racionalismo, de Sócrates à Kant, diz que o homem só é humano se guiado pela razão e, no mínimo, se não puder negar e eliminar as paixões, deve exercer domínio e controle sobre as mesmas. Os estoicos sintetizaram a ideia racionalista dizendo que a razão é que nos faz virtuosos e as paixões, via de regra, nos arrastam para um redemoinho de perturbação da alma.

Não conheço filósofo ou movimento filosófico e teológico que diga o contrário, a saber, que as paixões devem dominar e submeter a razão aos seus propósitos.

Schopenhauer, porém, e depois dele Nietzsche e Freud, disse que toda tentativa da razão, no pretenso senhorio sobre a vontade e as paixões, resulta sempre em fracassada tentativa, pois é a vontade cega que domina e submete a razão a seus propósitos. Dito de outra forma, a razão só entra como justificadora de decisões prévias e inconscientes da vontade passional.

Em outras palavras ainda e de uma forma simples e direta: o coração e as paixões alugam a cabeça para que esta justifique e racionalize o que já está previamente decidido pela vontade passional.

O racionalismo é um idealismo, um postulado do que seria bom que fosse, mas raramente é. O vitalismo de Schopenhauer e Nietzsche, não idealistas, dão-se conta que a razão é um anão sentado nos ombros de um gigante chamado vontade de poder. Como está sobre os ombros pode enxergar mais longe, mas raramente consegue frear, submeter e dominar a vontade e, por isso, pode haver muita tragédia no caminho da vida.

 Mas o trágico é o que é e a vida parece não se imunizar do trágico, pois o trágico é o que é inevitável, apesar do querer humano.

O trágico, quando bem entendido, significa que nem tudo está sob controle e, mesmo contra a razão, as coisas acontecem. O trágico é o contrário da concepção racionalista que postula que um Logos domina tudo e sempre para o melhor. O trágico, ao contrário, postula que não há como controlar as energias e pulsões que movem o mundo e, ás vezes, as coisas não acabam bem.

Como gostaríamos que acabasse a história brasileira que está por viver dias decisivos? Em que será melhor apostar, na democracia racional ou nas pulsões sob o sentimento difuso de ódio e ressentimento?

O que podemos esperar do futuro imediato, fruto de nossa decisão individual? Quem conduzirá os dedos nas urnas, a paixão ou a razão?

A aposta na razão é a aposta na democracia. A aposta na paixão é a aposta no obscuro e na “razão da autoridade”, mais do que a “autoridade que vem da razão”.

Os que vierem depois de nós viverão as consequências do ato que estamos prestes a protagonizar e assistir. Qual dos afetos nos conduzirá: o medo ou a esperança? O que nos conduzirá: o trágico ou a racionalidade com o mínimo de previsibilidade controlada?

Sobre as costas dos indivíduos recai o maior dos pesos. Não será demasiado grandioso o ato que estamos prestes a empreender? Estaremos à altura das exigências do tempo, ou seremos merecedores do destino trágico que virá?

“Seguindo os princípios da não-violência propagados por Jesus, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King e Mandella quero te pedir que aprendamos a perdoar os que nos causam raiva, ofensa e desrespeito por conta das diferenças políticas e ideológicas. Muitos ainda não sabem viver a democracia, como ela deve ser”. (Nei Alberto Pies).

Antídoto para intolerância e ódio: promovamos paz

 

Antídoto para intolerância e ódio: promovamos paz

Em tempos em que se dissemina o ódio, a estupidez e a raiva;

Te peço, Senhor.

Fazei-me compreender de onde vem e porque existe tanta desavença entre a gente;

Quando há muitos que não se entendem mais/ famílias que não conversam mais/ amigos que deixaram de conviver.

Muitos brasileiros perderam a noção da civilidade, do respeito e da responsabilidade ao pregarem o ódio, a discriminação e o apelo às armas como saídas para a nossa nação.

Quero te pedir discernimento, compaixão e amor para perdoar os que incitam a violência e promovem o ódio sem razões;

Quero te pedir serenidade, paciência e tolerância com tantas inverdades que são espalhadas entre nós e nas redes sociais.

Seguindo os princípios da não-violência propagados por Jesus, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King e Mandella quero te pedir que aprendamos a perdoar os que nos causam raiva, ofensa e desrespeito por conta das diferenças políticas e ideológicas. Muitos ainda não sabem viver a democracia, como ela deve ser.

Quero te pedir que nos encoraje a sermos instrumentos de vossa paz.

“Onde houver ódio, que levemos o amor;
Onde houver discórdia, que levemos a união;
Onde houver dúvidas, que levemos a fé;
Onde houver erros, que levemos a verdade;
Onde houver ofensa, que levemos o perdão;
Onde houver desespero, que levemos a esperança;
Onde houver tristeza, que levemos a alegria;
Onde houver trevas, que levemos a luz”.

Ó Mestre, fazei com que desejemos o amor e a compaixão como fontes e saídas para nossos entendimentos. Que sejamos, mais uma vez, corajosos para promover a paz a partir da tolerância, da compaixão, do perdão e do respeito as diferentes formas de ser, pensar e agir de nossa querida gente brasileira.

Estacionados no presente

Para que elaborar e executar um plano para o futuro
se as coisas mudam com a velocidade de um toque digital
na telinha do smartphone?

 

A revolução da Internet – mas de modo particular o Facebook, WhatsApp e o Instagram – levou uma boa parte da população, homens e mulheres, a estacionar no presente. Um presente fortemente marcado por uma conduta narcisista, no amplo espectro do individualismo moderno ou pósmoderno. E não se trata somente da adolescência e da juventude, como muitas vezes se nota em visões esteriotipadas.

Certo, os jovens representam uma grande fatia dos internautas, mas boa quantidade de adultos segue as pegadas da mesma atitude egocêntrica. O objetivo primeiro e primordial é desfrutar, aqui e agora, todo o potencial do próprio “eu”, das relações com os outros e dos bens que a natureza nos oferece.

Daí o exibicionismo inédito de si mesmo, num encanto exacerbado pelo próprio corpo, com imagens e mensagens de nudez e tonalidade estridentes, e não raro embaraçantes. O mesmo vale para a exposição em praça pública, digamos assim, da intimidade com outras pessoas, às vezes com os próprios familiares e amigos.

Tem-se a impressão que tal comportamento seja movido por uma dose extrema de vaidade. Do outro lado da linha, o olhar e o aplauso do internauta tornam-se incenso indispensável para uma certa auto-idolatria. Tudo e todos podem ser objetos desse jogo onde está em campo um exagerado apaixonar-se por si mesmo e pela própria performance. Esta palavra, por si só, representa uma espécie de imaginário fabuloso, hollywoodiano, da perfeição nas formas, no vestiário, no modo de apresentar-se ou de aparentar.

Aparentar, com efeito, toma o lugar não só do ser, mas, em determinadas circunstâncias, até do ter.

Semelhante obsessão conduz em geral a um consumismo igualmente exagerado, sem falar dos custos. De fato, a necessidade permanente de corrigir e aperfeiçoar o desing requer uma série de prudutos inovadores e de recente lançamento, por um lado, e de artifícios engenhosos e especializados, por outro.

Geração sem filtros.

Não é fácil surfar na onda da moda! A moda, entretanto, é uma sombra: sempre efêmera, fugaz, fictícia, provisória e descartável. Faz-se necessário correr atraz dessa sombra traiçoeira. O pior é que, escorregadia como ela costuma ser, quanto mais a perseguimos, mais ela nos escapa.

Melhor nem entrar no mérito dos efeitos e consequências de tal acompanhamento da moda, seja no balanço entre os custos-benefícios, seja no que diz respeito à preservação do meio ambiente. Evidente que, em tudo isso, o bolso, a balança e o espelho acabam convertendo-se nos orgãos mais sensíveis do corpo: amigos fiéis ou letais inimigos.

Estacionados no presente! E o passado? Melhor fugir dos fantasmas que essa palavra pode ressuscitar. Por que correr riscos desnecessários. Noticiário, formas de pensar, argumentos sobre causas e efeitos, compromissos, engajamento social ou político, conhecer tradições, cultura e raízes… Tudo isso só complica as coisas.

Para quê olhar para trás se ao redor tudo está se apresenta positivamente? O importante é curtir o que a terra, a existência, a produção crescente e o poder de aquisição oferecem neste exato momento.

Prevalece a miopía de usar, abusar e jogar fora – tudo se torna descartável! O “viver bem”, desfrutando toda e qualquer possibilidade de fartura, conforto e benesses, toma o lugar do “bem viver”, responsável e solidário com os pobres e excluídos, com o planeta e com as gerações futuras.

Quanto ao futuro, amanhã será outro dia! Nada de projetos, eles podem antecipar desgraças. Nada de empenhos para toda vida. Melhor saborear a vida como ela se apresenta. E partilhar pelas redes sociais, viver duas vezes.

Em vez de prever e elaborar um plano, bastam as respostas imediatas para problemas imediatos.

Plano para quê, se as coisas mudam com a velocidade de um toque digital na telinha do smartphone.

Instala-se, desse modo, o império do hoje absoluto. A colheita pura e simples desconhece a tarefa lenta e laboriosa de preparar o tereno, lançar a semente e cultivar a fragilidade do nascimento e do crescimento.

Inútil acrescentar que tal imediatismo do presente responde, em boa medida, à própria linguagem da Internet e das redes sociais. Nestas novas formas de comunicar-se, fatos e notícias são simultâneos. Tudo ocorre online.

A história não figura como um entrelaçamento entre passado-presente-futuro, e sim como um espetáculo grandioso e inédito, a ser desfrutado diante de nossos olhos e ouvidos. Em outras palavras, não há história, apenas um suceder-se descontínuo e desconectado de “presentes”.

Neste documentário, o educador e filósofo Mario Sergio Cortella, com o auxílio de mais duas especialistas, nos conduzem ao interior do universo da juventude atual, tanto da área urbana quanto da rural.

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