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O que fazer com a raiva?

O voto virtuoso, feito com a raiva na medida certa,
é uma boa vacina para proteger-se e para ajudar a proteger
aqueles que não entendem ser ela necessária ou aqueles que se
perderam nos descaminhos do excesso de raiva!

 

Martha Nussbaum, filósofa americana, autora do livro “Anger and Forgiveness” (Oxford, 2016), que se poderia traduzir por “Raiva e Perdão”, se perguntava numa entrevista dada em outubro de 2017 ao El Clarín, se estamos vivendo na “época da raiva”. Ela certamente não estava se reportando à situação brasileira, mas sua análise pode nos inspirar para entender o que se tem chamado de “cultura de ódio”, da intolerância e do fascismo social que grassa entre nós tanto nas redes sociais quanto nas ruas.

Ela reconhece que seu livro é atual visto que, “a política da raiva tem alterado o curso da história de muitas nações” entre elas incluindo os EUA e da Europa. Refere-se aos processos de agressão violenta a grupos populacionais contra os quais se produzem ações raivosas orientadas por posições não construtivas de relações sociais. Essa é a dimensão da raiva, que vem carregada do ressentimento, busca de vingança e de revanche.

Nesta linha, em grande medida o que vem sendo destilado como raiva/ódio em nossos cotidianos é parte de um forte ressentimento em razão de que privilégios históricos de classe (as médias e a elite) são questionados, ainda que não estejam efetivamente sendo retirados.

A possibilidade, ainda que remota, de um pouco mais de justiça e de igualdade, e até mesmo de alguma generosidade com aqueles e aquelas cujas condições de proteção e a satisfação de suas necessidades nunca chegaram, tem sido suficiente para produzir um movimento de reação e de retorno da concentração. Inclusive para estes, é impossível admitir que qualquer avanço social, cultural ou até alguma mudança moral, sejam fruto da organização e da luta dos sujeitos em processos complexos e coletivos de enfrentamento e conflito, melhor admitir que são fruto do mérito pessoal/individual, na mais fina flor da “meritocracia” – quando não se prefere reconhecer que os avanços tecnológicos foram mais úteis para a superação das opressões do que as mudanças nas relações interpessoais, afinal, a máquina de lavar e a pílula foram mais úteis para a liberação das mulheres do que qualquer ação ou discurso feminista, se ouvirá dessas bocas!

Nussbaum também fala de uma “raiva de transição”, no sentido de uma emoção que se orienta para benefícios futuros. Isto porque a raiva pode servir de sinal de que algo não está bem, mobilizando as pessoas da inércia diante de realidades inadequadas.

Martin Luther King, segundo ela, “entreviu na raiva uma motivação essencial para o trabalho de correção das injustiças sociais”, já que “somente a raiva impulsiona o povo a mover-se”. Lembra que ele alertava, porém, que este sentimento precisa ser “purificado” para retirar dele o “aspecto perigoso enquanto desejo de revanche”. Assim, a raiva aponta futuro na medida em que mobiliza ao protesto, mas se não estiver eivada pelo desejo de revanche. Este é um tipo de raiva que talvez se aproxime muito da “justiça messiânica” e da “virtude” aristotélica.

“Não precisamos ter vergonha da raiva. Ela é algo muito bonito e poderoso que nos leva a agir. Temos que nos envergonhar é de exagerarmos a dose.” – Mahatma Gandhi 

A raiva (ira/cólera) é “meio-termo” e tem a “a excelência característica da virtude” quando sentida “[…] na ocasião apropriada, com referência aos objetos apropriados, para com as pessoas apropriadas, pelo motivo e da maneira conveniente” (Aristóteles, Ética a Nicômacos, 1106b20). Daí porque, “louva-se o homem que se encoleriza justificadamente com coisas ou pessoas e, além disso, como deve, na devida ocasião e durante o tempo devido” (1125b30). Não encolerizar-se seria uma deficiência, pois: “[…] os que não se encolerizam com as coisas que deveriam excitar sua ira são considerados tolos, e da mesma forma os que não o fazem da maneira apropriada, na ocasião apropriada e com as pessoas que deveriam encolerizá-los” (1126a5). Agir assim seria o mesmo que ser insensível, próprio dos tipos incapazes de se defender. O contrário seria ser irascível (1126a15), birrento (1126a20) ou mal-humorado (1126a25), agindo por excesso.

A virtude está no meio-termo, ou seja, no uso virtuoso da raiva: trata-se de encolerizar-se com as pessoas e coisas devidas, da maneira devida, na ocasião e no tempo devido. Recolhemos desta abordagem de Aristóteles a ideia de que o problema não é ter raiva, mas é ter raiva de modo virtuoso.

O que assistimos na situação contemporânea entre nós de modo cada vez mais enfático nas práticas intolerantes e fascistas aponta não para uma raiva na justa medida, ou para a raiva justa, no sentido da necessária raiva contra a injustiça, a raiva mobilizadora da luta pela superação da injustiça. O que se assiste é a uma raiva excessiva, irascível, birrenta e mal-humorada. Uma raiva destrutiva, excludente, injusta!

O apelo ao razoável é difícil de ser feito a quem age de modo excessivo. O irascível, o birrento e o mal-humorado tem dificuldade de receber uma resposta razoável, virtuosa. Ainda assim, é recomendável a quem luta contra todas as injustiças inclusive contra o uso excessivo da raiva que não use excessivamente a raiva e nem deixe de usá-la, mas que a use na medida certa.

Saber qual é a medida certa é uma construção que se faz como prática virtuosa. Ou seja, não há como saber de antemão nem o que e nem como fazer, necessário é estar atento à sabedoria prática que assiste ao sujeito ético e lhe orienta a tomar as decisões certas, na hora certa. Traduzindo, não há garantias prévias e nem absolutas de que fazendo desta ou daquela maneira, fazendo da mesma maneira como se fez em outros momentos, seja o modo a fazer noutra situação.

O certo é que não se poderá agir com os mesmos meios que se quer combater. Ou, dito de outro modo, ter raiva virtuosa ou de transição é uma necessidade para combater a raiva excessiva, destrutiva, injusta e excludente, tão comum e inadequada. 

Vivamos a raiva na medida certa, na justa medida, contra quem deve ser sentida; ou ao menos nos vacinemos contra transmissores das suas versões excessivas. E o voto virtuoso, feito com a raiva na medida certa é uma boa vacina para proteger-se e para ajudar a proteger aqueles/as que não entendem ser ela necessária ou que se perderam nos descaminhos do excesso de raiva!

 

Referências

(Entrevista ao El Clarín, Vivimos en la época de la Rabia? Martha Nussbaum. Publicada em 13/10/2017. Tradução livre nossa.)

UPF lança movimento “Educar é a nossa ação”

Campanha pretende chamar a atenção da sociedade
para a importância de uma educação de qualidade.

 

O movimento “Educar é a nossa ação” da Universidade de Passo Fundo (UPF) pretende chamar a atenção da sociedade para a importância de uma educação de qualidade. Acreditando que só por meio da educação é possível transformar a realidade, a UPF, maior instituição de ensino superior do norte do Rio Grande do Sul, lançou a campanha na segunda-feira, 17 de setembro, no auditório da Faculdade de Ciências Econômicas, Administrativas e Contábeis (Feac) da UPF, Campus I.

A campanha tem o propósito de valorizar o trabalho de professores, funcionários e gestores educacionais que, apesar do contexto adverso (falta de investimentos e desvalorização da carreira), são sujeitos engajados e buscam fazer a diferença na vida de milhares de crianças, jovens e adultos do Brasil.

Educar é a nossa ação. Conheça a nova campanha lançada pela UPF.

Em cinco décadas de existência, a Universidade já formou mais de 76 mil profissionais em distintas profissões. Sabendo da sua importância para o desenvolvimento local e regional e cumprindo a sua missão enquanto instituição comunitária, a UPF pretende chamar a atenção da sociedade para a importância de uma educação de qualidade.

“A campanha é mais um exemplo do foco e da atenção desta Instituição para com a educação em todos os níveis. Também reforça nossa convicção de que a realidade pode ser alterada a partir da ação comprometida de um professor preparado, que se sinta valorizado e apoiado em sua profissão”, destacou o vice-reitor de Graduação da UPF, professor Dr. Edison Alencar Casagranda.

A necessidade de valorizar os profissionais da educação, chamar a atenção da sociedade para o descaso com as questões educacionais e mostrar que a educação é condição para o crescimento das pessoas e da sociedade foi o que motivou a campanha. A ideia nasceu do grupo de coordenadores dos cursos de licenciatura da UPF, que estão em permanente contato com estudantes, professores e escolas de Passo Fundo e região.

É sempre momento de falar da importância da educação, tanto que as instituições de ensino e os profissionais da educação, historicamente e de modo sistemático e contundente, têm apontado as potencialidades dos processos educativos e denunciado o efeito nefasto do descaso com a educação em nosso estado e no Brasil”, comentou a coordenadora da Coordenadoria das Licenciaturas (Coorlicen), professora Dra. Carina Tonieto.

A campanha foi apresentada pela supervisora do Núcleo Experimental de Publicidade e Propaganda da Faculdade de Artes e Comunicação (Nexpp/FAC) da UPF, Me. Maria Goreti Betencourt, e pela supervisora do Nexjor, Me. Nadja Hartmann.

O movimento realizará ações em escolas da rede de ensino municipal e estadual e na comunidade acadêmica e veiculará peças publicitárias em diferentes canais de comunicação por meio de mídia impressa e digital. Mais informações estão disponíveis no site do movimento www.upf.br/educar.

Os rumos da educação

A solenidade de lançamento da campanha “Educar é a nossa ação” ocorreu na abertura da sessão de exposições sobre “Os rumos da educação no Rio Grande do Sul: realidades, perspectivas e projetos”, que contou com a presença de candidatos a deputado estadual pelo Rio Grande do Sul, vinculados ao município de Passo Fundo. O evento foi promovido pela Faculdade de Educação (Faed) e pelo Sindicato dos Professores Municipais (CMP Sindicato).

Compareceram os candidatos Airton Lângaro Dipp (PDT), Cacá Nedel (Podemos), Eduardo Peliciolli (Podemos), José Carlos Carles de Souza (PSD), Juliano Roso (PCdoB) e Mari dos Santos (PT). Entre os assuntos pautados, estiveram o “Fortalecimento da escola pública – Quais os caminhos concretos para o fortalecimento e a retomada da escola pública de qualidade”; “Escola sem partido – Qual a compreensão mais pertinente desse fenômeno?”; e a “Profissão docente – Como atuar para a melhoria e a atratividade da carreira docente?”. A ordem dos candidatos para abordar os temas foi definida por sorteio.

O evento faz parte de um conjunto de ações da Faed que visam fortalecer e ampliar o debate junto à comunidade externa sobre questões educacionais em pauta no cenário da educação. “Em encontros de professores realizados pela Faed, surgiu uma série de discussões que afligem as redes de ensino. Foi sugerido pelos colegas que chamássemos para conversar pessoas que estão, do ponto de vista político e da ação, muito próximas, mas que pouco se encontram. A ideia é proporcionar momentos que coloquem essas pessoas no mesmo espaço para conversar sobre os problemas educacionais que a sociedade enfrenta”, salientou a diretora da Faed, Adriana Dickel.

A coordenadora da Área Fundamentos Pedagógicos da Faed e professora do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu) na área de Políticas Educacionais, Dra. Rosimar S. Esquinsani, contextualizou os temas aos presentes. Muitos dados foram apresentados sobre a educação. Um deles, referente a um estudo do Tribunal de Contas, denominado “O perfil da educação pública no RS”, mostra que o investimento médio por aluno no estado é quatro vezes menor do que o encontrado em todos os países componentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O RS é o 11º no ranking da Federação em termos de educação, ficando muito atrás dos outros dois estados da região Sul, que são Santa Catarina (3º colocado) e Paraná (2º colocado). “Em razão dos rumos da educação no Rio Grande do Sul, pedimos que, na Assembleia Legislativa ou em qualquer outro espaço público, os deputados considerem pautar suas agendas de trabalho pelo fortalecimento da escola pública”, enfatizou Rosimar.

Acolhimento e proteção para as vítimas de violência doméstica

“O atendimento na delegacia da mulher precisa
ser diferenciado e vir com essa carga de carinho e acolhimento
para que essa vítima tenha liberdade para procurar a Delegacia”

 

Há oito anos atuando como Delegada, Rafaela W. Bier é, há cerca de um ano, Titular da Delegacia Especializada ao Atendimento à Mulher – DEAM, de Passo Fundo, que também atende os municípios de Coxilha e Mato Castelhano. Neste mês de setembro, Rafaela inaugura uma nova editoria da Revista Contato VIP, que vai trazer entrevistas e reportagens com mulheres que se destacam em suas profissões. Em nossa conversa, ela ressaltou questões pertinentes à violência doméstica, a lei Maria da Penha e ao trabalho feito pela Polícia Civil, que atende em média 160 ocorrências de violência doméstica por mês.

 

Por ser mulher, de que forma você enxerga o trabalho desempenhado pela DEAM na proteção as vítimas de violência doméstica na região?

Sou e estou sensibilizada com a questão da violência doméstica e acredito que isso faça o atendimento ser mais acolhedor. O atendimento na Delegacia da Mulher precisa ser diferenciado e vir com essa carga de carinho e acolhimento para que essa vítima tenha liberdade para procurar a Delegacia, para então agirmos de forma mais rígida com o agressor. Toda equipe é muito qualificada para fazer esses atendimentos, uma vez que o trabalho de polícia é muito complexo, lidamos com crimes de diversas espécies, trabalhamos tanto na repressão criminal, quanto na prevenção, tudo objetivando evitar a ocorrência de feminicídios.

 

O que pode ser considerado um tipo de violência doméstica?

Essa violência pode ser um xingamento e, configurar, portanto, um crime contra a honra da mulher; um crime patrimonial, que acontece quando o agressor danifica os bens da mulher ou da casa, por exemplo, quando ele queima suas roupas ou furta o seu celular; um crime contra a liberdade sexual, uma vez que mesmo em uma relação entre cônjuges, companheiro, namorados, etc., a vítima tem a liberdade de praticar ou não uma relação sexual, sob pena do cometimento do crime de estupro. Ainda, crime de lesão corporal, que acontece quando a vítima é agredida e as agressões deixam marcas; as contravenções penais de vias de fato, que são agressões que não deixam vestígios, como um tapa no rosto. Da mesma forma em relação ao crime de ameaça, que ocorre quando o agressor afirma que irá matar aquela vítima ou que irá agredi-la. Por fim, dentre outros crimes, temos o feminicídio. Em Passo Fundo, contamos hoje com a instauração de 6 inquéritos policiais por feminicídios, cinco tentados e um consumado.

 

Por que se faz essa diferenciação para o feminicídio?

O feminicídio é uma qualificadora do crime de homicídio. Há essa diferenciação porque no feminicídio existe uma questão de gênero envolvida, ou seja, há um aumento de pena em razão daquela vítima ser do sexo feminino, e, normalmente, envolve questões domésticas e/ou familiares. É um crime que pode ser praticado pelo companheiro, pelo namorado, pelo “ficante”, pelo filho, pelo genro, pelo cunhado, por todas aquelas pessoas com as quais a vítima conviva ou tenha convivido em âmbito familiar ou doméstico, contra uma mulher em razão da condição de sexo feminino.

 

Quando uma mulher procura as autoridades para denunciar uma violência, o que é feito em seguida pela Delegacia da Mulher?

A vítima relata o seu problema para a nossa assistente social, que trabalha no sentido de trazer um acolhimento para essa vítima. Ato contínuo, é feito o boletim de ocorrência, bem como lhes são ofertadas as solicitações das medidas protetivas de urgência, como a proibição de o agressor manter qualquer contato com a vítima. Também lhe é propiciado ser acolhida na casa de apoio, uma casa vinculada ao município de Passo Fundo, onde a vítima pode levar os filhos até 12 anos de idade e lá permanecer por um período indeterminado até a concessão das medidas protetivas para que essa vítima possa retornar em segurança para o seu lar. Nessa casa ela vai ter toda a assistência de alimentação, estadia, assistência jurídica, psicologia, atendimento de assistente social, é uma rede completa de atendimento. Ainda, no atendimento inicial na Delegacia, é possibilitada a vítima atendimento psicológico, o qual é realizado através de um convênio firmado com a CEPAVI, a Clínica de Estudos, Prevenção e Acompanhamento à Violência, mantida pelo curso de Psicologia da UPF. Assim, caso a vítima deseje esse atendimento, já sai com o agendamento feito. A Delegacia está localizada em local discreto e estratégico, pois está sediada a cerca de duas quadras do CEPAVI/UPF, PROJUR/UPF e Departamento Médico Legal, possibilitando à vítima atendimento psicológico, jurídico e a feitura do exame de corpo de delito, respectivamente. Após esses tramites iniciais, é instaurado Inquérito Policial para apuração dos fatos, tudo objetivando a elucidação do crime, condenação e prisão desse agressor.

 

Muitas mulheres que sofrem violência doméstica acabam não procurando a ajuda das autoridades. Por que isso acontece?

Muitas mulheres não procuram a Delegacia por vergonha, por medo do agressor, ou até mesmo pela dependência financeira. Muitas mulheres dependem do agressor para a manutenção dos seus filhos. Ela prefere continuar sofrendo aquela agressão a ver os filhos privados de alimentação, moradia, etc.

 

Essa denúncia de violência doméstica deve ser feita somente pela vítima ou alguém fora da relação pode fazer uma denuncia?

A denúncia pode ser feita por qualquer pessoa, de forma anônima ou não. A partir da denúncia nós vamos até a vítima e verificamos a procedência da informação. Não se pode mais aceitar a máxima de que ‘em briga de marido e mulher ninguém mete a colher’. Hoje, em briga de marido e mulher o Estado deve meter a colher para evitar um mal maior, evitar a ocorrência do chamado feminicídio.

 

A Lei Maria da Penha completou 12 anos no Brasil. Quais foram os avanços conquistados através dela?

Tivemos uma alteração recente na Lei, que hoje possibilita a prisão do agressor quando ele descumpre as medidas protetivas. Antes não tínhamos essa possibilidade, porque não havia um crime específico para isso. Atualmente, desde o mês de abril, temos esse dispositivo legal, que permite a prisão em flagrante do agressor, não se admitindo o arbitramento de fiança pela autoridade policial, sendo o agressor diretamente recolhido ao Presídio Regional de Passo Fundo.

 

Durante esses anos, a Lei vem sendo efetiva? O que precisaria mudar para que os números de violência doméstica sejam reduzidos?

Infelizmente, a Lei Maria da Penha é uma lei de primeiro mundo para um país de terceiro mundo. É uma Lei muito bonita, que tem muitas práticas que protegem a vítima. No entanto, a falta de recursos humanos em todos os órgãos da rede de atendimento faz com que ela não possa ser aplicada em sua integralidade. Em que pese tamanhas dificuldades, o trabalho conjunto da Polícia Civil, Patrulha Maria da Penha da Brigada Militar, Ministério Público e Poder Judiciário, tem tornado a atuação de combate à violência doméstica efetiva no Município. Além de atuarmos na repressão, também temos um trabalho forte na prevenção, ministramos palestras em Colégios, Faculdades, Municípios próximos, tudo com a finalidade de esclarecer a população acerca dos direitos das mulheres e sobre inadmissibilidade de práticas abusivas que atentem contra a vida, integridade física e sexual, honra e patrimônio dessas vítimas.

 

Por vezes, a vítima que denunciou um agressor retira a queixa e volta a viver com ele. Mas existem muitos casos de recidiva da denúncia. Como vocês procedem nessas situações?

No que se refere aos crimes mais graves, tais como lesão corporal, cárcere privado, feminicídio, tal discricionariedade não existe. É obrigatória a instauração de Inquérito Policial. Ocorre que, existem casos que são facultados à vítima processar ou não o agressor. Exemplo: ameaças, vias de fato. Nesses casos, não cabe a nós julgarmos os motivos pelas quais a vítima tomou tal decisão, embora saibamos que a ‘fase de lua de mel’, pós-retorno do convívio, dure pouco tempo. De qualquer forma, independentemente de quantas vezes a vítima nos procure, estaremos de braços abertos para servir e proteger. Sempre destacando para a vítima que, em que pese a dificuldade da jornada, é possível viver feliz longe do agressor.

 

“O atendimento na delegacia da mulher precisa ser diferenciado e vir com essa carga de carinho e acolhimento para que essa vítima tenha liberdade para procurar a Delegacia”
Denuncie a violência doméstica!
Pelo telefone: (54) 3581-0725 | 180 | 197
Ou na Delegacia da Mulher, na Av. Nascimento Vargas, 153 – Centro – Passo Fundo

 

Esta entrevista foi publicada na Revista Impressa Contato Vip, setembro 2018. Confira outras matérias e reportagens aqui.

Francisco quer uma igreja em saída, mas…

O professor Oscar Beozzo elenca vários avanços de Francisco
nesses cinco anos de pontificado. Entretanto, aponta como central a
perspectiva da “Igreja em saída”. Ele destaca que o Papa “quer uma
Igreja em saída, que aceite sujar pés e mãos para socorrer
os necessitados e que seja um hospital de campanha
para os feridos nas vicissitudes da vida”.

 

Acrescenta, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line: “[esse Papa] recolocou o exercício da política como imprescindível, qualificando-a, na linha de Pio XII e Paulo VI: A política é uma das formas mais elevadas da caridade, do amor!”. Partindo desse ponto, Beozzo analisa a recepção desses cinco anos de Francisco na Igreja brasileira. Recorda que a passagem do Papa pela Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro revelou o espírito do novo sucessor do trono de Pedro. A simplicidade e a necessidade de estar entre o povo trouxeram uma adesão entusiasmada.

Porém, com o passar do tempo, percebeu-se que há fraturas nessa adesão. “O entusiasmo com Francisco foi menor entre parte do clero mais jovem e seminaristas instados a sair da zona de conforto dos seminários e sacristias e lançar-se na aventura missionária a serviço dos pobres e excluídos”, aponta. Como consequência, o clero se torna pouco hábil para fazer a “Igreja em saída” na prática. “Encontram-se, por formação e por prática pastoral, distantes, de certa forma, dos problemas econômicos, sociais e políticos e carentes de instrumentos de análise, para compreender as causas da atual crise”, completa.

Para o professor, tal resistência se dá porque grande parte desse clero é advindo de nunciaturas de pontificados anteriores. “Os bispos são respeitosos em relação ao Papa, mas têm dificuldade em percorrer os novos caminhos, em retomar as inspirações maiores do Vaticano II”, aponta, indicando que a mudança é um processo em desenvolvimento.

José Oscar Beozzo é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo – USP, mestre em Sociologia da Religião e especialista em Comunicação Social pela Université Catholique de Louvain, na Bélgica. Ainda possui especialização em História do Brasil pela Faculdade Auxilium de Filosofia, Ciências e Letras, de São Paulo, e graduação em Ciências Políticas e Sociais pela Université Catholique de Louvain, em Teologia pela Pontificia Università Gregoriana, de Roma, e em Filosofia pelo Seminário Central do Ipiranga/Seminário Central de Aparecida. Atualmente coordena o Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular – CESEP.

 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Quais os avanços e os limites de Francisco nesses seus cinco anos de pontificado?

Oscar Beozzo – Entre os avanços, o principal foi colocar os pobres, os descartados pelo sistema, os que se encontram à margem, os estigmatizados, no centro de sua atuação pastoral. Seu gesto de ir à Ilha de Lampedusa, aonde chegam os migrantes da África, e silenciosamente lançar flores no mar onde mais 20 mil migrantes morreram afogados, ou o de trazer famílias de refugiados da guerra na Síria para serem acolhidos no Vaticano falam muito de suas prioridades.

Insiste com as igrejas particulares para que reassumam, na linha do Vaticano II, seu protagonismo e responsabilidades nas questões mais candentes do mundo de hoje e da Igreja.

Acolher e não excluir

“[O Papa] quer uma Igreja em saída, que aceite sujar pés e mãos para socorrer os necessitados e que seja um hospital de campanha para os feridos nas vicissitudes da vida – Oscar Beozzo

 Coloca como obrigação da comunidade eclesial “acompanhar, discernir e integrar a fragilidade” e desafia a tratar as dificuldades e tropeços na vida dos casais e da família em chave pastoral, com ênfase na misericórdia e não em exclusões e condenações. Assim, quer uma Igreja em saída, que aceite sujar pés e mãos para socorrer os necessitados e que seja um hospital de campanha para os feridos nas vicissitudes da vida.

Construir pontes e não muros

As migrações explodiram em todo o mundo, por conta de guerras e conflitos políticos, por conta da crise econômica e desastres climáticos, como secas prolongadas, inundações, desertificação de extensas áreas. A reação aos refugiados e migrantes por parte dos governos tem oscilado entre acolhida mais ou menos restritiva e agressiva política de fechar fronteiras, construir barreiras e muros, expulsar os indocumentados. Em sua viagem ao México, em plena campanha eleitoral nos Estados Unidos e diante da proposta do então candidato Donald Trump de construir um muro na fronteira entre os dois países, o papa Francisco foi enfático: devemos construir pontes, e não erguer muros entre as nações e povos.

O diálogo e a paz a qualquer custo

O Papa também se empenhou para abrir portas para o diálogo. Convidou o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, o presidente de Israel, Shimon Peres, líderes religiosos judeus, muçulmanos e cristãos a se comprometerem com o diálogo e a reconciliação e a orarem juntos pela Paz nos Jardins do Vaticano. Ajudou a intermediar o diálogo entre Cuba e Estados Unidos, para que reatassem, depois de 60 anos, as relações diplomáticas, facilitassem as visitas para o reencontro entre familiares e que fossem suspensos os aspectos mais onerosos para a população no embargo comercial como o que pesava sobre os medicamentos, alimentos ou remessa de recursos às famílias. Deu importante contribuição para os acordos de paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – FARC na Colômbia, pondo um ponto final a mais de seis décadas de guerra civil, com milhares de mortos e mais de sete milhões de pessoas deslocadas das zonas de conflito armado.

Além disso, vem se empenhando para que o impasse entre governo e oposição na Venezuela seja superado e que países deixem de intervir para agravar a situação e exacerbar os conflitos. Com paciência vem tentando um diálogo para superar a ruptura promovida pelo governo chinês após a revolução de 1949 e amenizar a difícil situação dos católicos no país.

Vaticano II: inspiração e compromisso

Retomou as grandes intuições do Vaticano da Igreja, como povo de Deus, o protagonismo dos leigos, a presença da Igreja no mundo, o diálogo ecumênico e inter-religioso, a centralidade da palavra de Deus, condenando uma igreja autorreferencial, centrada no clero e afastada das alegrias e esperanças, das tristezas e angústias dos homens e mulheres de hoje, sobretudo dos pobres.

O cuidado com a casa comum

Causou grande impacto dentro, mas talvez mais ainda fora da Igreja com sua encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado com a casa comum. Acolheu a contribuição de cientistas e universidades, o aporte de outras Igrejas cristãs, como o empenho do Patriarca Ecumênico Bartolomeu de Constantinopla, de um místico muçulmano sufi, de poetas e filósofos, mostrando o quanto a sobrevivência do planeta e da própria vida é um empenho que pode e deve unir toda a humanidade.

Terra, trabalho e teto e os movimentos sociais

Papa Francisco buscou estabelecer um diálogo com os Movimentos Sociais de todo o mundo, convidando-os para encontros e instando-os a buscar saídas para uma globalização que vem gerando exclusão e indiferença frente aos sofrimentos e angústias das maiorias. No primeiro encontro, em outubro de 2014, em Roma, ficaram célebres as três palavras evocadas, para definir os instrumentos necessários para garantir a vida e dignidade das pessoas: Terra, Trabalho e Teto.

No segundo encontro, de 7 a 9 de julho de 2015, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, foram publicados um manifesto, um decálogo e um compromisso. Francisco destacou dentre os frutos desse encontro: colocar a economia a serviço dos povos, construir a paz, a justiça e defender a Mãe Terra.

Acrescentou: “falamos da necessidade de uma mudança para que a vida seja digna, uma mudança de estruturas; além disto, de como vocês, os movimentos populares, são semeadores desta mudança, promotores de um processo em que convergem milhares de pequenas e grandes ações concatenadas em modo criativo, como em uma poesia; por isto quis vos chamar “poetas sociais”; e temos também elencado algumas tarefas imprescindíveis para caminhar em direção a uma alternativa humana diante da globalização da indiferença.

“[Francisco] Recolocou o exercício da política como imprescindível, qualificando-a, na linha de Pio XII e Paulo VI: A política é uma das formas mais elevadas da caridade, do amor! – Oscar Beozzo”

 No terceiro encontro, encerrado pelo Papa no Vaticano no dia 5 de novembro de 2016, quis aprofundar o intercâmbio entre os movimentos sociais e as Igrejas nacionais. Denunciou o “terrorismo” de um sistema econômico a serviço do lucro e acumulação de uns poucos e a ditadura econômica global que levanta muros entre classes sociais e países. Insistiu na construção de pontes e do amor e na busca de caminhos para enfrentar o drama dos migrantes, refugiados e deslocados. Recolocou o exercício da política como imprescindível, qualificando-a, na linha de Pio XII e Paulo VI: A política é uma das formas mais elevadas da caridade, do amor!

IHU On-Line – Em que medida podemos afirmar que a Igreja no Brasil compreende e adere ao ministério de Bergoglio?

Oscar Beozzo – Houve uma alegre acolhida da mensagem libertadora do papa Francisco, da sua proximidade com o povo, simplicidade de vida e atitudes, experimentadas logo no início do seu pontificado com a sua vinda para a Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro, em julho de 2013. A Evangelii Gaudium e a Laudato Si’ provocaram impacto favorável e fizeram renascer muitas esperanças. A Exortação Amoris Laetitia já suscitou mais controvérsia e reação aberta de setores conservadores.

“O entusiasmo com Francisco foi menor entre parte do clero mais jovem e seminaristas instados a sair da zona de conforto dos seminários e sacristias e lançar-se na aventura missionária a serviço dos pobres e excluídos – Oscar Beozzo”.

O entusiasmo com Francisco foi menor entre parte do clero mais jovem e seminaristas instados a sair da zona de conforto dos seminários e sacristias e lançar-se na aventura missionária a serviço dos pobres e excluídos. Tem que se tomar em consideração o fato de que em 01/04/2018, dos 476 bispos do Brasil entre eméritos e em função, grosso modo, 50% foram nomeados por João Paulo II [18] e 25% por Bento XVI [19]. O restante se divide entre 41 eméritos que vêm do pontificado de João XXIII [20] (2) e Paulo VI (39) e os 81 nomeados por Francisco. Ou seja, cerca de 16% do episcopado. Se tomarmos em conta, os bispos com responsabilidades pastorais, cerca de 25%, um quarto do episcopado foi nomeado pelo papa Francisco.

O perfil das nomeações de João Paulo II e de Bento XVI era distinto do pretendido hoje por Francisco no seu projeto de Igreja em saída.

Os bispos são respeitosos em relação ao Papa, mas têm dificuldade em percorrer os novos caminhos, em retomar as inspirações maiores do Vaticano II, a herança das Conferências do episcopado latino-americano de Medellín a Aparecida e a tradição do empenho social e político da Igreja do Brasil em favor da causa dos pobres e excluídos.

Estão mais voltados para a administração interna da Igreja. Sentem-se mais comprometidos com a formação do clero do que dos leigos e leigas, mais preocupados com a liturgia e os sacramentos, a moral e os bons costumes. Encontram-se, por formação e por prática pastoral, distantes, de certa forma, dos problemas econômicos, sociais e políticos e carentes de instrumentos de análise, para compreender as causas da atual crise. Ficam à mercê dos noticiários das redes de televisão e da opinião de jornais ou revistas. Acodem os pobres, como parte das obras de misericórdia e da caridade, sem se interrogar sobre as causas estruturais dessa situação e as maneiras para se buscar uma saída em aliança com os movimentos sociais. Têm dificuldade para compreender e lidar com as próprias pastorais sociais da Igreja, deixando por vezes de incentivá-las e chegando até a proibi-las em suas dioceses.

 

IHU On-Line – No Brasil, especialmente durante a ditadura militar, a Igreja teve um protagonismo nos enfrentamentos para assegurar direitos humanos. Hoje, diante dos desafios propostos pelo Papa para que saia de si mesma, como observa a atuação da Igreja diante de problemas como crise política, econômica e social, além de diversas formas de ataques a direitos essenciais?

“Os bispos são respeitosos em relação ao Papa, mas têm dificuldade em percorrer os novos caminhos – Oscar Beozzo”

Oscar Beozzo – O agravamento da situação social e política, com o desmonte das políticas públicas, o congelamento por 20 anos dos investimentos sociais, disparada do desemprego, a violação de territórios indígenas e o aumento de chacinas no campo e na cidade, a liquidação de direitos trabalhistas e uma proposta de reforma da previdência que mantém e amplia privilégios de magistrados, membros do ministério público, políticos e militares, ao mesmo tempo em que elimina direitos das maiorias e onera os mais vulneráveis, acendeu um sinal de alerta e despertou a Igreja católica e as outras Igrejas cristãs.

Multiplicaram-se os pronunciamentos da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB: sobre a PEC 287/16; sobre a Reforma da Previdência (23/03/17); em defesa dos direitos indígenas e do Conselho Indigenista Missionário – CIMI (22/06/17); aos trabalhadores/as do Brasil (27/04/17); sobre o grave momento nacional (03/05/17). Bispos da Arquidiocese de Belo Horizonte MG (20/03/17) e da Província eclesiástica de Natal, RN (05/04/17) pronunciaram-se no mesmo sentido. A Comissão Brasileira de Justiça e Paz, o Conselho Nacional de Leigos, a Conferência dos Religiosos do Brasil, a Pastoral Operária Nacional, as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs do estado de São Paulo, a Ordem franciscana e os dominicanos, Centros, como o Centro de Estudos Bíblicos – CEBI, Centro Ecumênico de Serviços à Evangelização e Educação Popular – CESEEP, Centro Alceu Amoroso Lima para a Liberdade de Petrópolis – CAALL, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Brasília somaram-se às denúncias e protestos.

No campo ecumênico, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil – CONIC expressou seu apoio à greve geral de 28 de abril de 2017 contra a reforma trabalhista e da previdência social. Entre as Igrejas evangélicas houve fortes pronunciamentos da direção geral da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil – IECLB e das mulheres luteranas nos 500 anos da Reforma; dos Presidentes e Representantes das Igrejas Evangélicas históricas do Brasil (IELB, IPU, IECLB, RENAS, IPB, IMB) em 23/03/17; da Câmara Episcopal da Igreja Episcopal Anglicana (05/04/17).

“A grande mídia praticamente ignorou todos esses pronunciamentos, e as Igrejas, por outro lado, perderam nesses últimos anos sua capacidade de mobilização social – Oscar Beozzo”

 A grande mídia praticamente ignorou todos esses pronunciamentos, e as Igrejas, por outro lado, perderam nesses últimos anos sua capacidade de mobilização social e muitos dos laços com os movimentos operários, sindicais e populares. Em todo caso, pela primeira vez, todas as centrais sindicais endereçaram um público agradecimento à CNBB pelo apoio da entidade e de mais de uma centena de bispos à greve geral de repúdio às reformas trabalhista e previdenciária.

 

IHU On-Line – Qual a sua leitura sobre as viagens de Francisco, especialmente a países da América Latina, como Chile e Peru mais recentemente? O que o difere de outros pontífices?

Oscar Beozzo – As viagens à América Latina começaram no ano de sua eleição. Veio em 2013, esteve no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude (22 a 29 de julho). Em 2015, foi ao Equador, Bolívia e Paraguai (5 a 13 de julho) e depois a Cuba (19 a 22 de setembro), de onde prosseguiu viagem aos Estados Unidos (22 a 27 de setembro). Em 2016, viajou ao México (12 a 18 de fevereiro) e, no caminho, parou em La Habana para encontrar-se com o Patriarca Kiril da Igreja Ortodoxa Russa, quando assinaram declaração conjunta sobre o propósito das duas Igrejas de superarem as divisões seculares, trabalharem pela unidade e aprofundarem a cooperação mútua.

Foi quando destacou: “O nosso olhar volta-se para as pessoas que se encontram em situações de grande dificuldade, em condições de extrema necessidade e pobreza, enquanto crescem as riquezas materiais da humanidade. Não podemos ficar indiferentes à sorte de milhões de migrantes e refugiados que batem à porta dos países ricos. O consumo desenfreado, como se vê em alguns países mais desenvolvidos, está gradualmente esgotando os recursos do nosso planeta. A crescente desigualdade na distribuição dos bens da Terra aumenta o sentimento de injustiça perante o sistema de relações internacionais que se estabeleceu”.

Em 2017, viajou à Colômbia (6 a 11 de setembro). Em 2018, foi ao Chile e ao Peru (15 a 22 de janeiro de 2018). Visitou, ao todo, nove países.

Pela novidade e pela imediata empatia que estabeleceu com as multidões que o acolheram, certamente a viagem ao Brasil foi marcante e projetou uma imagem positiva do Papa para o país, para a América Latina e o mundo. Soube cativar os jovens, parou para orar junto com um pastor pentecostal e sua comunidade que estavam acolhendo os peregrinos numa favela, entrou imprevistamente numa casa para visitar uma família; estabeleceu um diálogo de alto nível com intelectuais e lideranças de outras igrejas cristãs e religiões.

As visitas a Cuba e a Colômbia foram recebidas como signo do seu firme compromisso com a justiça, a reconciliação e a paz. Mais conflituosa foi sua visita ao Chile. Numa Igreja e sociedade divididas pelo escândalo do Pe. Fernando Karadima, sua defesa do bispo Juan Barros, do grupo União Sacerdotal do citado Karadima, acusado de encobrir abusos sexuais, provocou desconforto, muita controvérsia e empanou outros aspectos da visita.

No Peru, ao contrário, seu encontro com representantes dos povos indígenas no dia 19 de janeiro em Puerto Maldonado foi de grande empatia mútua e de compromissos mútuos para o presente e o futuro: “a Igreja não é alheia aos vossos problemas e à vossa vida, não quer ser estranha ao vosso modo de viver e de vos organizardes. Precisamos que os povos indígenas plasmem culturalmente as Igrejas locais amazônicas. E, a propósito, encheu-me de alegria ouvir um dos textos da Laudato Si’ ser lido por um diácono permanente da vossa cultura. Ajudai os vossos bispos, ajudai os vossos missionários e as vossas missionárias a fazerem-se um só convosco e assim, dialogando com todos, podeis plasmar uma Igreja com rosto amazônico e uma Igreja com rosto indígena. Com este espírito, convoquei um Sínodo para a Amazônia no ano de 2019, cuja primeira reunião do Conselho Pré-Sinodal se realizará, aqui, hoje de tarde”.

 

Fonte: IHU

As mulheres e o general

Os generais e os estudos acadêmicos que aprendam mais com a vida,
com a literatura, com o jornalismo, a arte, as avós, as tias e as mães.
Eu exalto sim as avós e as mães que sobrevivem sozinhas e
asseguram a sobrevivência dos netos e dos filhos com bravura.

 

Há uns 10 anos, fiz uma das reportagens que mais me gratificaram. Conversei com cinco mulheres da periferia de Porto Alegre. Todas sem homem em casa, sem marido, sem companheiro, sem namorado. Só elas e os filhos pequenos.

Cada uma ganhou uma página de Zero Hora. Eram Cinco Retratos de Mães Coragem. Tentei mostrar a cara que as estatísticas não mostram. Entrei nas casas em que as mulheres chefes de família fazem a gestão da educação, da comida, dos sonhos e das fomes.

Me lembrei disso agora depois da fala desse general que põe a culpa da criminalidade nas avós e nas mães. Procurei minha reportagem na internet e não encontrei.

Mas achei um estudo que esculhamba com a reportagem. O estudo dito acadêmico diz que eu tentei particularizar histórias de mães (e assim exaltei demais a ‘maternidade’), quando deveria ter exaltado o sentimento coletivo da luta pela superação etc etc.

É na linha da abordagem pretensamente esquerdista que desconsidera sempre o particular, inclusive no jornalismo. Quando é disso que o melhor jornalismo vive desde os anos 50.

Conta-se uma história para enxergar um contexto. É antigo como a Bíblia. Foi o que tentei fazer ao ouvir mulheres pobres e saber de suas vivências e realidades. Sustentei o texto numa apresentação em que faço referência a dados sobre a situação das mulheres que assumem tudo e levam a vida adiante.

Um terço dos lares brasileiros é chefiado por mulheres. São quase 30 milhões de lares. Eu fui criado por mulheres, por uma avó, a vó Nina, uma mãe, a mãe Nora, e minhas tias, Zina e Herondina.

Eu sei do que falo. Eu exalto sim as avós e as mães que sobrevivem sozinhas e asseguram a sobrevivência dos netos e dos filhos com bravura.

Os generais e os estudos acadêmicos que aprendam mais com a vida, com a literatura, com o jornalismo, a arte, as avós, as tias e as mães.

A direita e boa parte das esquerdas precisam aprender muito com as mulheres.

Ao criticar famílias chefiadas por mulheres, o general Mourão, candidato a vice na chapa de Jair Bolsonaro, provocou reações como a do escritor Marcelo Rubens Paiva. Ele foi criado pela mãe e pela vó porque o pai foi morto pela ditadura. A manifestação grosseira do general é o tema do comentário de José Lopez Feijóo.

 

Temos carne nova no pedaço, ops música nova

Assim como a agricultura ligada aos interesses
do grande capital ocupou espaços robustos dentro dos legislativos,
os empresários e/ou artistas ligados a música comercial também estão de olho.

 

O espaço dedicado a “que culpa tem eu” de Deivinho Novaes e a “largado às traças” da dupla  Zé Neto e Cristiano Acústico diminuiu, quem está pagando para subir no gosto da preferência popular é “Novinha Pode Pá” do Igor Kannário, também vereador em Salvador (BA).

Como também sou pop, embora não seja agro, particularmente gostei da batida e da melodia da música, porém a letra tem um refrão que “pelo amor”. “Eu te agarrei novinha pode pá, e te beijei novinha pode pá. Te conquistei novinha, novinha, novinha.

No mais, fica a dica para a leitura do texto que publiquei sobre essa história de uma música pagar para conseguir subir, algumas não apenas nas paradas de sucesso, mas associadas também ao interesse mercadológico de fazer subir o consumo de álcool e drogas, além da frequência aos motéis, em detrimento da subida da leitura de livros, frequência a teatro, da subida no voto em candidatos comprometidos com um Brasil que pode pá, deixar de descer ladeira abaixo.

O fato de ouvir as duas músicas sempre neste horário, é parte daquilo que conhecemos como “jabá”, que é justamente a cobrança de dinheiro para tocar as músicas citadas, entre outras, o que coloca a música tocada no rádio, em uma situação semelhante a propaganda do sabonete, do refrigerante ou do biscoito.

Como a culpa é de quem ouve rádio?

Lembrando, quase tudo feito com moderação não agride e nem ofende. Embora certos tipos de drogas nem seja bom experimentar. Fico mesmo, com o veneno na mesa da maioria dos alimentos fornecidos pelo agronegócio, com os hamburgueres do McDonald’s, com a Coca-Cola e com as cervejas feitas com milho transgênico produzidas pela AMBEV, também financiadora do golpe de 2016.

Assim como a agricultura ligada aos interesses do grande capital ocupou espaços robustos dentro dos legislativos, os empresários e/ou artistas ligados a música comercial também estão de olho.

Lembrando, não trato aqui de ser contra as músicas mais “comerciais” pura e simplesmente, até porque gosto da sonoridade de “novinha pode pá”, o que discuto aqui são as relações do poder político com o poder econômico.

No campo da produção cultural e da comunicação,  além da pobreza das letras e melodias,  de dois ou três acordes fáceis comuns e repetitivos, feito à medida para uma população que em sua maioria, não dispõe de uma educação de qualidade, a despeito do esforço dos bons professores, técnicos e gestores, e nem do acesso ao biscoito fino da cultura produzido no Brasil e no mundo, incluindo o que vem debaixo, do barro  do chão, como bem definido por Gilberto Gil.

“Suicídio.com – autoextermínio na era da internet” é tema de roda de conversa na UPF

Entre abril e maio de 2017,
foram registradas mais de 1 milhão
de menções virtuais ao suicídio.

 

O município de Passo Fundo tem mais do que o dobro de suicídio da média nacional, que é de 5 suicídios para cada 100 mil habitantes (2013). A capital do Planalto Médio está entre as cidades brasileiras com o maior número de suicídio, 12 para cada 100 mil habitantes, configurando entre as 20 cidades do país com maior incidência dessa ação. Os dados foram apresentados em uma roda de conversa na Universidade de Passo Fundo (UPF), na quarta-feira, 12 de setembro, com o tema “Suicídio.com – autoextermínio na era da internet”, com a participação das professoras da UPF Dra. Ciomara Benincá e Dra. Bibiana de Paula Friderichs, e da mestranda em Psicologia Maria Eugênia Benincá. A atividade integra a programação do comitê municipal de ações sobre o Setembro Amarelo, do qual a UPF faz parte.

Entre abril e maio de 2017, foram registradas mais de 1 milhão de menções virtuais ao suicídio, sendo 94,2% no Twitter, 5% no Facebook, 0,4% no Youtube e 0,4% no Instagram, conforme pesquisa da iniciativa Comunica que Muda, da agência de comunicação Nova/sb. Os estados que registraram mais menções foram: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Pará, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, conforme informações apresentadas durante o evento.

O suicídio de jovens de 15 a 29 anos de idade já é a 2ª principal causa de morte no mundo. E esses jovens são os que mais acessam a internet, de acordo com o Comitê Gestor da Internet (CGI) no Brasil. Por esse motivo, é necessário discutir e refletir sobre o “Suicídio.com”. “A ideia do Setembro Amarelo e dessa conversa sobre ‘Suicídio.com’, que é aberta a toda a comunidade, alunos do ensino médio e comunidade acadêmica, é falar de um fenômeno muito grave e que vem se tornando cada vez mais comum: os anúncios de suicídio pela internet e o estímulo que se faz na internet para que as pessoas venham a atentar contra a própria vida. A ideia é provocar a discussão e a reflexão para que cada um de nós possa combater esse tipo de crime”, destacou a coordenadora do projeto de extensão da UPF “Clínica de estudos, prevenção, intervenção e acompanhamento à violência” (Cepavi), doutora em Psicologia, professora Ciomara Benincá.

A professora Bibiana, diretora da Faculdade de Artes e Comunicação (FAC) e que tem pesquisas vinculadas à cibercultura, ressaltou que é preciso entender e saber usar a tecnologia. “O suicídio sempre existiu, antes mesmo da chegada da tecnologia. A internet não aumenta o suicídio, mas impacta os rituais, os caminhos que envolvem as questões de morte e de luto. A internet é um espaço perigoso, mas sem volta. Ninguém vai deixar de usar celulares e computadores, mas é preciso olhar para ela com cuidado, porque ela elimina os rituais que temos no cotidiano real, as fronteiras, as regras sociais, o certo e o errado. Precisamos reentender esses rituais”, comentou Bibiana.

 

Passo Fundo está entre as cidades com maior número de suicídio

Os dados não param por aí. A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo. Ou seja, 804 mil pessoas cometem suicídio anualmente, uma taxa de 11,4 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS 2016). As taxas de suicídio nas faixas etárias de 15 a 24 anos e acima de 60 anos são consideradas as que mais crescem.

Das 20 cidades brasileiras onde o número de suicídio é mais elevado, 11 são gaúchas. No Rio Grande do Sul, entre os anos 2000 e 2016, o índice foi de 10,1 para 10,4 para cada 100 mil habitantes, sendo que o índice nacional é de 5 para cada 100 mil habitantes. Passo Fundo está entre as cidades onde esse índice tem as taxas mais elevadas. A capital do Planalto Médio registrou 12 para cada 100 mil habitantes. Em 2016, Passo Fundo teve 28 casos de suicídio, em 2017, o número subiu para 30, e em 2018, até o momento, já são 14 casos. “Para o tamanho da cidade, é muita coisa. E a perspectiva é negra. Provavelmente vamos fechar o ano com números tão assustadores quanto nos anos anteriores. E é isso que move eventos como esse. Discutir e pensar estratégias de prevenção. Temos uma grande responsabilidade em desenvolver políticas de prevenção contra o suicídio”, enfatizou a professora Ciomara Benincá.

Os motivos para esse grave cenário ainda não estão bem esclarecidos. “Cogita-se questões que têm a ver com agrotóxicos fosforados orgânicos, mais presentes na região da indústria fumageira. Se cogita questões de ordem genética, mas no Rio Grande do Sul, o que mais conseguimos entender é em virtude das questões étnicas e culturais, envolvendo a rigidez de valores, de honra e dignidade do gaúcho, que não lida muito bem com as frustrações, porque acha que tem que dar conta de tudo. Essas são questões que mais têm se apontado para entender o alto número de suicídios no Rio Grande do Sul”, comentou Ciomara.

A professora observa que o suicídio é o “estopim” de uma série de fatores agravados e que passam pela ordem social, biológica e até econômica. “Muitas vezes, o suicídio é visto como se fosse motivado por uma única causa e isso é um engano. Os eventos acontecem ao longo da vida do sujeito, motivo pelo qual ele dá muitos sinais. A ideia é discutir quais são esses sinais para poder evitar e prevenir o suicídio”, salienta ela.

 

Acolhimento e compreensão

De acordo com Ciomara, a família tem um papel importante e deve acolher e compreender as pessoas que estão passando por uma situação difícil. “Nada de dizer que o sujeito não valoriza a vida ou não tem Deus no coração. Ele tem que ser acolhido sem julgamento. A ideia é dizer ‘se você está passando por uma situação muito difícil, uma dor intensa, me diga qual é que eu vou te ajudar a enfrentar’”, ressalta.

O segundo passo é procurar ajuda profissional. “É preciso procurar ajuda médica, por meio de psiquiatras, clínicos gerais e até um psicólogo, que farão o encaminhamento adequado nessas questões. Numa situação de desespero, existe um telefone disponível 24 horas por dia, todos os dias do ano, gratuito, para o qual as pessoas podem ligar e desabafar, para poder passar pelo momento de crise, sem tomar o ato impulsivo de atentar contra a própria vida. É só ligar para o 188, para o Centro de Valorização da Vida (CVV)”, salientou a professora.

 

Sobre o Setembro Amarelo

A UPF faz parte de uma grande articulação institucional que preparou uma série de ações relacionadas ao Setembro Amarelo, mês dedicado a debater o tema do suicídio. Em Passo Fundo, um comitê foi montado para pensar essas ações. Promovida pela Prefeitura de Passo Fundo, em parceria com a UPF, o Hospital da Cidade, o Hospital Psiquiátrico Bezerra de Menezes, a IMED, a Universidade Federal Fronteira Sul (UFFS), a Associação Psiquiátrica do Planalto Gaúcho (APPG), o Núcleo de Apoio à Vida de Passo Fundo (Navipaf) e a Coordenadoria da Juventude, a campanha vem sendo realizada desde o ano passado.

Escolas públicas: eleições de diretores e democracia

A escola pública e democrática é hoje uma
conquista institucionalizada, mas que, na prática, ainda está
longe de ser realidade plenamente vivenciada na escola.

 

A escolha das direções escolares ainda não permitiu condições democráticas de organizar as escolas a partir de uma base curricular, de propostas pedagógicas, de metas e da organização do quadro dos professores (distribuição da carga horária e disciplinas). Há que se considerar ainda, por vezes, a forma autoritária como os gestores da educação organizam suas redes de ensino.

As eleições de diretores e diretoras nas escolas públicas, muitas vezes, padecem dos mesmos vícios e desvios éticos das eleições gerais em nosso país.

A escola deveria ser a referência do ensino para a vida e para cidadania. Alunos e professores deveriam ser considerados sujeitos e não apenas números ou peças de manipulação para a tomada do poder.

A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade.

Espaço de significativas e distintas aprendizagens, é também um grande laboratório de exercício de poder. Cotidianamente, através das relações interpessoais, ela administra as suas tensões internas, as escolas são fortemente influenciadas pelo poder externo (dos governos e da comunidade). E o professor, uma peça fundamental, nem sempre é considerado em sua dimensão de pessoa humana e de sujeito, portador de desejos, direitos e dignidade.

Além de sua estrutura administrativa, a escola é um lugar onde se constroem vínculos. Estes vínculos determinam a qualidade das relações entre professores, funcionários, equipe diretiva, alunos e pais.

A maior diferença da escola pública, em relação às demais, reside no fato de sua gestão ser pública e democrática. Por isso mesmo, torna-se mais exigida e exigente para todos os que convivem nela.

O professor, peça chave desta engrenagem, “deve ser um verdadeiro educador. Um mestre da vida e do saber. É mestre porque é homem de fé, que acredita em si e nos outros, que confia e ama seus discípulos”. (Maximiliano Menegolla).

Professores não são números. Professores são sujeitos, seres humanos, com suas opções pedagógicas e ideológicas. Aliás, o exercício de seu ofício não lhes permite neutralidade, pois a educação é, por natureza, um ato político. Suas práticas pedagógicas resultam de suas trajetórias pessoais, de seus compromissos com o ser humano e de seus conhecimentos e aperfeiçoamento profissional.

Algumas instituições de ensino público, por suas práticas contraditórias e autoritárias, minimizam o alcance e a importância das conquistas democráticas. É claro que exercitar cotidianamente a democracia, como se faz na escola, não é uma tarefa fácil. Por isso que, para muitos, ela não passa de verborragia. Para outros, incansável exercício, prática de inclusão e respeito a todos, mesmo enfrentando as contradições do discurso e da prática.

Jovens entre 16 e 24 anos são os que menos sabem quais são os seus direitos e deveres, a importância do Estado de Direito e da cultura democrática. É possível ensiná-los?”
Veja mais aqui.

Espera-se dos diretores e diretoras que serão eleitos competências técnicas, mas também que construam menos paredes e mais pontes. Que usem o poder que lhes foi delegado para valorizar e promover seus professores, com ampla participação de toda comunidade escolar. Que não se apeguem apenas à seus méritos, mas que promovam métodos de participação e de divisão de responsabilidades nos educandários públicos. Que promovam o poder como um serviço!

A escola pública deve buscar a qualidade social. Qualidade social de ensino se mede e se verifica quando as escolas se tornam um lugar onde todos os sujeitos da aprendizagem: alunos, professores, funcionários, pais, mães ou responsáveis sintam prazer em participar, em aprender, em se integrar, em conviver. Sintam-se valorizados e responsáveis pela aprendizagem de todos.

O exercício do poder democrático é um dever da escola e um legado que ela deve deixar para seus alunos e para a sociedade como um todo; esta é sua contribuição para a consolidação da democracia no Brasil. Qualidade na educação será uma realidade quando tratarmos gente como gente deve ser tratada e quando tomarmos a democracia como a base de nossas vivências e relações.

Chegaremos lá, mas ainda temos muito trabalho, reflexão e aprendizagem para serem feitos!

À escola pública exige-se que seja democrática e é nessa cultura que se desenvolve a inclusão. Como pode uma escola que não é democrática na sua organização e no funcionamento educar para a democracia? Como poderão os jovens ser educados para os valores da democracia, da cidadania, do diálogo ou da participação, sem uma vivência democrática na escola? (Mário Nogueira)
Veja mais aqui.

 

 

Também há fome de poesia

Apenas três candidaturas a presidente tem real compromisso com o fortalecimento do papel do estado e investimento no mercado de produção e consumo: Lula-Haddad-Manuela, Guilherme Boulos e Ciro Gomes. Estas candidaturas são comprometidas com um projeto de nação realmente democrático, desenvolvimentista e sustentável. 

 

Andando pelas ruas de nossa cidade, não tem como passar despercebido o aumento da quantidade de pessoas pedindo dinheiro ou revirando o lixo das ruas.

Ontem a noite encontrei dois homens nesse tipo de situação, depois me pediram dinheiro. Logo após, passando por um ponto de ônibus, um jovem me pede dinheiro para a passagem e hoje cedo na caminhada matinal próximo a uma padaria, um trabalhador desce de sua bicicleta e me pergunta se não tenho R$0,50.  Detalhe: Aqui não estamos tratando de pedintes profissionais, a exceção dos dois primeiros citados.

Ao mesmo tempo, vejo e me recordo do noticiário da imprensa que denuncia o retorno do Brasil ao mapa da fome, trazendo a recordação  de uma situação que deveria  ter ficado para trás, apenas como uma lembrança de “páginas  infelizes da nossa história”.

Essa realidade também me fez recordar   poemas de   Solano Trindade e Manuel  Bandeira.

O primeiro:  TEM GENTE COM FOME (Solano Trindade) -1944

“Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Piiiiii
Estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome(…)”

O segundo: O BICHO (Manuel Bandeira) – 1947

“Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.”

 

Se a fome aumenta, também aumenta o violência gerada pelo tráfico de drogas e a prostituição, assim também como um maior controle e dominação por parte dos velhos políticos e empresários de “bens”, pois um povo esfomeado fica mais sujeito as pressões para votar nos candidatos indicados pelos patrões e ser submetido aos salários degradantes e em condições de trabalho que beira ao tipo escravo.

Daí a importância dos programas de transferência de renda, incluindo o Bolsa Família e aumento real do salário mínimo. Sem isso, parte significativa da população fica mais carente e dependente da “caridade de quem os detesta”.

Como apenas três candidaturas a presidente tem  real compromisso com o fortalecimento do papel do estado e  investimento no mercado de produção e  consumo, por meio das medidas citadas acima, entre outras, vale a  pena acompanhar as campanhas de Lula-Haddad-Manuela, Guilherme Boulos e Ciro Gomes, bem como buscar escolher candidatos aos governos do estado, ao congresso e as assembleias estaduais, comprometidas com um projeto de nação realmente democrático, desenvolvimentista e sustentável.

Essas escolhas são fundamentais, porque o terceiro e o quarto poder, o judiciário e a imprensa, não darão trégua àqueles que desejam a retomada de um país que possa fazer jus ao que diz uma passagem de nosso hino nacional.

 

“Terra adorada,
Entre outras mil,
És tu, Brasil,
Ó Pátria amada!
Dos filhos deste solo és mãe gentil,
Pátria amada,
Brasil!”

 

E como apesar disso tudo, não podemos deixar de acreditar e agir, que tal lembrar a nossa fé e resistência secular, que nos fez chegar até aqui? Mesmo com tantos golpes, roubos e traições.  A que nos faz insistir e re-existir.

“Credo” de   Milton Nascimento e Fernando Brant.(1978)

“Caminhando pela noite de nossa cidade. Acendendo a esperança e apagando a escuridão. Vamos, caminhando pelas ruas de nossa cidade. Viver, derramando a juventude pelos corações. Tenha fé no nosso povo que ele resiste”

 

Olhar mais tolerante e compassivo com os imigrantes

As histórias se repetem: fome, pobreza, perseguição política ou religiosa, medo, violência, ou alguma razão semelhante faz com que as pessoas abandonem sua casa, seu país, suas raízes e parte de sua família para viver em outro lugar.

Há alguns anos, visitei a cidade holandesa de onde alguns de meus antepassados vieram. Chama-se Groede, pequena, parecia quase deserta, mas era limpa, charmosa e bem organizada, como imaginamos as cidades de países desenvolvidos.

No passado não era bem assim. Pelo que sei, a família era pobre e provavelmente emigrou empurrada pela miséria, talvez pela perseguição religiosa. Parece que fingiram-se de alemães para poder embarcar em um navio que partia da Bélgica para o Brasil, com outros imigrantes. Devem ter passado por muitas dificuldades, mas sobreviveram, sobrevivemos. De outra parte da família, sabemos vagamente que eram de origem paulista, talvez bandeirantes, por alguma razão foram para a Argentina, e lá nasceu meu bisavô, que depois emigrou para o Brasil.

Essa é parte da história da minha família. Acredito que seja parecida com a de muitas outras famílias brasileiras. As histórias se repetem: fome, pobreza, perseguição política ou religiosa, medo, violência, ou alguma razão semelhante faz com que as pessoas abandonem sua casa, seu país, suas raízes e parte de sua família para viver em outro lugar.

Imagino que para meus tataravós, recomeçar a vida em um novo país com idioma, cultura e clima tão diferentes deve ter sido extremamente difícil. Assim costuma ser para os que emigram. E a grande maioria só o faz porque não há alternativa possível.

Lembrei dessa história de família quando ouvi notícias tristes sobre conflitos na fronteira do Brasil com a Venezuela. Houve outras notícias, de outros lugares, sobre confrontos, intolerância, violência. E há ainda o discurso agressivo de muitas pessoas contra os imigrantes.

Claro que a imigração é um problema complexo e as cidades que recebem os maiores fluxos enfrentam um enorme desafio, que só será superado com a implementação de uma política nacional, bem articulada entre estados, municípios e governo federal. No entanto, parte da solução pode estar em nós, através de um olhar mais tolerante e compassivo aos que chegam. Para isso talvez ajude pensarmos que, de certa forma, somos todos imigrantes.

“O direito de migrar é universal. Nenhum ser humano é ilegal. É dever do Brasil, signatário de vários tratados internacionais que reconhecem esse direito, garantir a segurança e os direitos dos migrantes no país”. (Setembrino Dal Bosco)

Nenhum ser humano é ilegal

 

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