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Pessimismo ou realismo?

Há algum motivo para ter esperança
e ser otimista a partir do Governo Bolsonaro?

Dias atrás, amigo internauta me disse: “Professor, você anda muito pessimista”!. Fui obrigado a responder com o português José Saramago, Prêmio Nobel de Literatura: “Não sou pessimista; a realidade é que é péssima”.

Efetivamente, a realidade está sendo péssima. A cada semana, o governo Bolsonaro nos oferece atitudes tragicômicas, fazendo inveja aos produtores de programas humorísticos.

O ministro da deseducação nos brindou com uma progressista postura contra disciplinas como Filosofia e Sociologia, no que foi referendado pelo presidente. Ambos deixaram claro que pobre não deve pensar na vida. Pobre é mera mão de obra.

Bolsonaro, foi mais adiante, “queremos uma molecada que comece a não se interessar por política dentro das escolas”. O governo, na verdade, quer “Alienados acima de tudo. Deus acima de todos”.

O “marxismo cultural” continua sendo o grande medo do governo. É preciso destruí-lo, já que este prepara o terreno para uma revolução comunista. Direitos das minorias, avanços civilizatórios são coisas do comunismo a ser eliminado.

O ministro Weintraub, da deseducação, deixando claro o que pensa a ala manicomial do governo, vociferou recentemente: “Os comunistas são o todo do país. Eles são os donos dos jornais. Eles são os donos das grandes empresas. Eles são os donos dos monopólios”. Enfim, estamos em Cuba, ou Venezuela, ou Coréia do Norte e não sabíamos.

O censor-mor Bolsonaro, alegando “respeito à família”, vetou uma campanha publicitária do Bco. do Brasil. Esta exaltava a diversidade étnica, sexual e comportamental. Lembram de Jânio e os biquínis?

O já sobejamente conhecido homofobismo de sua excelência veio novamente à tona, com a afirmação de que “o Brasil não pode ser um país do mundo gay, do turismo gay”. Tudo em defesa da família. Já o turismo heterossexual, segundo o presidente, está liberado. “Quem quiser vir aqui fazer sexo com uma mulher fique à vontade”. Ode ao machismo!

Estas posturas levaram o país a viver um vexame vergonhoso. Bolsonaro teve sua visita à NY vetada por iniciativa do prefeito da metrópole americana. Algo inédito na história republicana. Alguém sugeriu que sua excelência seja homenageado ao pé da Estátua da Liberdade da Havan. Uau!!

O ministro (da destruição) do Meio Ambiente, condenado por descumprir leis ambientais e manipular mapas de manejo ambiental do rio Tietê(!!!!), em São Paulo, só pensa no agronegócio, em tolher o trabalho do Ibama e liberar agrotóxicos. Na verdade, é o ministro dos Ruralistas. Beleza!

O ministro do Turismo, por sua vez, não consegue explicar a plantação do laranjal eleitoral. Haja transparência na “nova política”. Agora mesmo a ONU recolocou o país no mapa da fome. Quem sabe o governo distribui laranjas!!

Passados três meses de mandato presidencial, a economia continua acorrentada ao passado recente de recessão e austeridade, sobrando evidências do poder destrutivo do atual governo tanto no que se refere à relação com os principais parceiros comerciais do País quanto no encaminhamento político interno das próprias propostas.

No primeiro trimestre da gestão Bolsonaro, as contas públicas somaram déficit de R$9,3 bilhões, o segundo pior resultado da série histórica iniciada em 1997.

Como escreveu com muita propriedade meu amigo Juremir Machado da Silva, “ o que se esperar de um governo cujo guru foi astrólogo?

Num bestiário, é a história da união inusitada do astrólogo, do capitão que não deu certo no Exército, do juiz que flexibilizava provas, do banqueiro que pretende obrigar pobre a poupar e do agente do mercado financeiro determinado a privatizar a filosofia e a sociologia”.

Agora me respondam: Há algum motivo para ter esperança e ser otimista? Repetindo Saramago: “Não sou pessimista, a realidade é que é péssima”. Simples!


Leia minhas outras últimas reflexões no site.

Contribuinte: um novo sujeito na educação pública?

A linguagem quase de guerra, é clara.
Trata-se de se defender contra
“predadores ideológicos”. 

Considerando o pronunciamento da autoridade central política educacional federal, há um novo sujeito na educação: o “contribuinte”, o pagador de impostos? Passaria ele, como tomador de serviços, a ter direito de interferir no “produto” entregue em sala de aula? Segundo a autoridade, parece que, se é ele que paga a conta, é dele a palavra final. Não só, parece que é a única efetivamente legítima. As demais todas estariam a seu serviço.

Tudo parece orientado pela tal lógica “lean” aplicada à educação: vamos retirar todos os excessos, todos os atravessadores, todos os desperdícios, todos os intermediários… a questão tem que ser direta e produzir resultados satisfatórios para quem paga. E quem paga e não recebe aquilo pelo que pagou, sente-se “lesado”.

Os pais não são mais pais, estritamente, agora são contribuintes; os/as estudantes não são mais estudantes, agora são contribuintes, melhor, ambos são clientes; os/as professores/as, estes não são contribuintes, são prestadores de serviços; a educação não é mais um direito, é um serviço, um produto, um negócio. 

Nesta relação comercial, quando for detectado algum conflito, aplique-se a legislação penal: o eventual “lesado”, que produza provas contra o agressor, o denuncie às autoridades. Elas, instalem um tribunal, melhor que seja de exceção, ainda que excepcionalmente dento da lei e proceda julgamentos, de preferência que sejam sumários. Puna-se rápido, não dá para dar chance à impunidade, ela alimenta a doutrinação ideológica.

O posicionamento é justificado por um dos filhos da autoridade maior do País que, sobre o caso declarou que “Gravar/filmar aulas é ato de legítima defesa contra os predadores ideológicos disfarçados de professores”. A linguagem quase de guerra, é clara. Trata-se de se defender contra “predadores ideológicos”. 

A expressão para qualificar professores/as que tenham posição e a expressem é cristalina: são “predadores”. Se não são, são suspeitos. O que se faz com predadores, se elimina! Isso faz com que se instale a desconfiança no núcleo da relação pedagógica e a seus agentes, em confronto, só resta atacar/se defender.


Qualidade na educação: a culpa é do professor?


Este tipo de relação destrói a condição básica das exigências pedagógicas da aprendizagem, que é a confiança. 

O novo sujeito da relação educativa, o “contribuinte”, “pagador de impostos”, tido por “cliente”, não participa de outro modo desta relação senão que por meio de uma relação vertical, não discute, não sugere, cobra pelo que pagou.

O direito à educação, um dos direitos mais elementares para o exercício dos demais direitos, ao ser tratado deste modo, torna-se mercadoria, produto, e, ao ser assim entendido, é destruído.

Os sujeitos que o constituem são destituídos de sua condição de sujeitos de direitos para os quais a relação se dá em bases não comerciais e as dinâmicas próprias da relação comercial que, somadas às penais, destroem as condições do exercício da educação como direito. 

Assim, a rigor, não se trata de um “novo sujeito”, mas da desqualificação dos agentes do direito à educação como sujeitos e sua transformação em agentes interessados numa relação comercial. Enfrentar esta “nova” forma de fazer a educação é o que se põe aos/às educadores/as e a todos/as que seguem acreditando e fazendo da educação um direito.



“Para avaliarmos a educação, precisamos de legitimidade nos processos avaliativos, a partir de acordos e convencimentos capazes de promover o envolvimento dos sujeitos nas realidades avaliadas. Seres humanos não são passivos como os produtos, e suas ações e atitudes sempre remetem à sua liberdade, sempre em construção”. (Nei Alberto Pies)

Pensar é perigoso

Para radicais de direita, avanço civilizatório é comunismo.

Para que ensinar filosofia e sociologia? O ministro da Educação já havia afirmado na internet que “em vez de as universidades do Nordeste ficarem aí fazendo sociologia, fazendo filosofia no Agreste, devem fazer agronomia”. Tradução: pobre é mão de obra, nada de pensar na vida.

Bolsonaro, ao empossar o dito ministro, não deixou por menos, “queremos uma molecada que comece a não se interessar por política dentro das escolas”. Isto é, vamos produzir alienados.

Agora Bolsonaro anunciou que os cursos de Filosofia e Sociologia não existirão mais nas Universidades Federais. A medida deve fazer parte do combate ao “marxismo cultural”, visto pelo governo como um dos perigos que ronda o país.



Queremos sorrisos, tranquilidade, comida boa, lazer, escolas bonitas e seguras, professores e professoras cuidados e bem pagos, condições dignas de transporte público, pais confiantes e crianças cujo brilho não tenha sido roubado. É pedir muito? (Sueli Ghelen Frosi)


Direitos das mulheres, dos negros, dos indígenas, dos LGBT, dos pobres, tudo isso seria “marxismo cultural”, a preparar o terreno para uma revolução comunista. Isto é, para esses radicais de direita, avanço civilizatório é comunismo.

Esta verdadeira teoria conspiratória, como todas do seu gênero, funciona para denegrir e deslegitimar seus alvos.

As teorias da conspiração são, afinal, muitas vezes tão esdrúxulas que dificilmente se pode esperar que as pessoas acreditem nelas literalmente. Sua função é, antes, levantar suspeitas gerais sobre a credibilidade e a decência de seus alvos.

Este anti-intelectualismo do governo Bolsonaro, atacando universidades e sistemas educacionais que podem contestar suas ideias, é típico de governos fascistas. 



Por seus críticos, o Projeto Escola sem partido é visto como uma proposta autoritária, que limita a pluralidade de ideias nas escolas e ainda constrange professores, favorecendo um clima de rivalidade entre estudantes e entre estudantes e professores.


A política fascista tende a criar um estado de irrealidade, em que as teorias da conspiração – marxismo cultural – e as notícias falsas tomam o lugar do debate fundamentado.

À medida que a compreensão comum da realidade se desintegra, a política fascista abre espaço para que crenças perigosas e falsas criem raízes. Então fica fácil entender a razão de acabar com cursos de Filosofia e Sociologia. Estas disciplinas permitem a formação do pensamento crítico, essencial para qualquer sociedade se desenvolver.

Esta cruzada contra o pensamento crítico é uma tentativa de emburrecimento do país, de levá-lo à mediocridade. Fica claro o objetivo, que é de impedir a senzala de compreender e ter a dimensão da exploração a que é submetida historicamente pela Casa Grande.

Povo que não pensa não luta por seus direitos. Daí ser perigoso pensar. Filosofia e Sociologia passam a ser impertinentes. Uau!

Por outro lado, o “iluminado” presidente parece desconhecer que as universidades possuem algo que se chama autonomia universitária. Me parece ser uma espécie de vingança, uma vez que o Bolsonaro sabe que não tem o reconhecimento do mundo universitário.

Este episódio é altamente representativo do alcance terrificante do cataclismo que se abate sobre todos nós, tenhamos ou não consciência da monstruosa intensidade do fenômeno gerado pela demência em estado puro transformada em forma de governo.



Falta sensibilidade nas escolas porque falta arte. E quando a arte está presente, é mais como conteúdo, não como fruição. Com pouca arte, há pouco humanismo nas escolas, há pouco afeto, há pouca ternura. E isso é resultado de uma visão da educação “para vencer”, para ter sucesso. Isso acontece desde a família, que espera de seu filho ser bem s sucedido socialmente. (Pablo Morenno)

Gentileza gera lucros

Christine Porath cita atitudes que fazem grande diferença tanto no ambiente de trabalho, quanto no ambiente doméstico ou mesmo virtual: agradecer, dividir o crédito pelas conquistas, ouvir com atenção, perguntar com interesse, reconhecer as contribuições dos outros, e sorrir.

A professora e pesquisadora americana Christine Porath analisou o impacto da incivilidade e desrespeito no ambiente de trabalho. O resultado das pesquisas e entrevistas está resumido em uma palestra proferida por ela em janeiro de 2018 para TEDxUniversityofNevada.

Acho que todos concordamos que grosseria e agressividade afetam negativamente o ambiente de trabalho, causando prejuízos à saúde. A novidade apresentada pela professora Christine está na quantificação dos danos causados por ambientes contaminados pelo desrespeito. As conclusões são impressionantes e nos fazem refletir sobre o impacto das nossas atitudes quotidianas na sociedade.

Qualificar um comportamento desrespeitoso não é tão simples, cada um percebe de forma diferente a maneira de agir do outro. Em linhas gerais podemos considerar uma incivilidade o uso de palavras grosseiras ou agressivas, comentários irônicos ou maldosos, piadas de mau gosto ou fofocas.

Esses comportamentos trazem consequências óbvias como aumento da agressividade e mesmo violência no ambiente de trabalho. Mas os dados mostraram mais. Das pessoas expostas a palavras e atitudes grosseiras no ambiente de trabalho, 66% reduziram seus esforços nas tarefas realizadas, 80% perderam tempo de trabalho pensando sobre o ocorrido e 12% abandonaram o emprego. Uma empresa americana de tecnologia estimou em cerca de 12 milhões de dólares por ano o valor perdido em função do desrespeito e incivilidade no ambiente de trabalho.

A pesquisa mostra também que o tratamento desrespeitoso não afeta somente a pessoa que é alvo das palavras ou atitudes rudes, mas também todos aqueles que presenciam o fato. Experimentos mostraram que quando um colega de trabalho foi agredido verbalmente houve uma queda de cerca de 25% no desempenho do grupo que também teve 45% menos ideias no período que sucedeu o acontecimento.

O efeito das palavras ofensivas sobre o comportamento das pessoas não está relacionado apenas ao que ocorre no local de trabalho, ouvir ou mesmo ler palavras desagradáveis nos faz diminuir a atenção e piora nosso desempenho nas atividades quotidianas, conforme experiências feitas pela equipe da pesquisadora.

Ela compara a incivilidade ou comportamento desrespeitoso a um vírus, que afeta não só quem é alvo da grosseria, mas todo o ambiente, contaminando as pessoas no entorno e fazendo com que as atitudes delas também tendam a ser agressivas e rudes.

A boa notícia é que os antídotos para esse mal são simples e estão ao alcance de todos nós. A professora cita seis atitudes que fazem grande diferença tanto no ambiente de trabalho, quanto no ambiente doméstico ou mesmo virtual: Agradecer, dividir o crédito pelas conquistas, ouvir com atenção, perguntar com interesse, reconhecer as contribuições dos outros, e sorrir.

É uma boa reflexão para todos nós, como chefes, colegas de trabalho, clientes, professores, pais e mães.

Assim como a grosseria e falta de educação contaminam o ambiente e nos tornam menos criativos e focados, acredito que a gentileza e o respeito também podem ser contagiosos e tornar nossa vida mais leve e nossa sociedade mais produtiva. Parafraseando Gandhi, sejamos a mudança que queremos ver nos outros, e no mundo.

Ler: prazer pouco explorado

“Bendito o que semeia livros,
livros à mão cheia,
e faz o povo pensar.
O livro caindo na alma é
germe que faz a palma;
é a chuva que faz o mar”.
(Castro Alves)

Com uma dessas atividades, das quais ganha quem a cultiva, tive a oportunidade de me encontrar logo nos primeiros tempos de estudos do seminário. Tive a sorte, ou mais, tive a graça de encontrar professores que incentivavam a amizade com os livros.

Com esses me dei bem, fato que continua até hoje. Quanto à escolha de escrever este texto sobre leitura e livros, ela me veio, fortuitamente, ao ler dias atrás, nas páginas de um grande jornal paulista, a matéria intitulada: “O prazer de ler”.



Um livro foi capaz de mudar a trajetória de Robson Mendonça, ex-morador de rua e criador do projeto Bicicloteca. Ao ler A revolução dos bichos, de George Orwell, ele teve a ideia de começar sua pequena revolução. Hoje, leva uma biblioteca em forma de triciclo, a Bicicloteca, às ruas de São Paulo. Com isso, oferece obras a quem tem pouco acesso a elas.


Imediatamente me entusiasmei e pensei em iniciar campanha pró-leitura, a qual, garanto, trata-se de ato prazeroso em meio ao tempo disponível que possa nos visitar, por mais ocupados que sejamos.

Tenho como bendito quem a descobre e a escolhe como companheira pela vida. Também não foi por acaso que, ao descobrir na leitura de Castro Alves o grande poema “O navio negreiro”, quando estava na quarta série do ginásio, fiz questão de decorar o imenso poema. E o recitei na sessão da retórica que tínhamos no seminário. Eu me lembro que falei com toda a força o protesto do poeta contra a escravidão, numa das 54 estrofes de sua valiosa obra. Ele dizia: “Senhor Deus dos desgraçados, dizei-me vós, Senhor Deus, se é mentira ou se é verdade tanto horror perante os céus”! Paixão pela leitura à parte, entendo que essa não é a escolha de muita gente.

Afinal, gostar de ler exige uma série de situações pelas quais é preciso passar: a primeira é a descoberta do valor da leitura; a segunda é a curiosidade pelas novidades que os livros trazem; a terceira é ter livros ou impressos ao alcance das mãos. Tais fatores aparecem, principalmente, quando as bibliotecas estão por perto e são facilmente visitáveis, fornecendo livros emprestados.

Certamente muitas pessoas não leem quase nada porque não são incentivadas ou não cresceram cercadas de livros. Se posso dar uma sugestão, sugiro que faça dos tantos presentes que tem de dar, a oferta de livros. Estará praticando o que propõe Castro Alves que diz: “Bendito o que semeia livros, livros à mão cheia, e faz o povo pensar. O livro caindo na alma é germe que faz a palma; é a chuva que faz o mar”.



Conheça a Revista de Aparecida
Fonte: Originalmente publicado na Revista impressa “A revista de Aparecida” Ano 17, n. 200, Nov. 2018)
Autor: Padre César Moreira

Dia do trabalho: há o que comemorar?

“O desemprego do homem deve
ser tratado como tragédia
e não como estatística econômica”.
(João Paulo II)

A cada primeiro de maio as marcantes histórias de luta dos trabalhadores são lembradas. Senso de cidadania, união popular e reflexão sobre direitos adquiridos fazem parte desta data.

Marx descreveu o movimento dos padeiros irlandeses contra o trabalho noturno e dominical no século XIX, nos “comícios de maio”. O proletariado moderno começava a se organizar, mesmo antes da consagração da data.

Foi nos Estados Unidos que o contemporâneo significado de 1º de maio se consolidou, com as greves que estouraram em 1832, reivindicando a jornada de oito horas e que culminaram em tragédia. Em 1886 foi convocada uma greve geral para 1º de maio. A polícia reagiu com violência deixando um saldo de seis mortos e 50 feridos.

No dia seguinte em um ato contra a violência policial, uma bomba foi arremessada na direção de policiais. O episódio determinou uma perseguição a líderes do movimento operário. Um processo suspeito, com forte caráter político, (alguma novidade ??), condenou sete deles à morte por enforcamento.

A luta pela comprovação da inocência dos acusados transformou os “mártires de Chicago” em símbolo mundial da injustiça do Estado capitalista contra uma classe trabalhadora oprimida. Em 1889, a 2ª Internacional dos Trabalhadores, organização criada em Paris, decretou o 1º de maio como Dia Internacional do Trabalho. Assim, a data nasceu sob o signo da revolta e da luta.

É bem verdade que a imprensa, o Estado e até a Igreja, tentaram elaborar outras interpretações para a data, fugindo do discurso do proletariado. No Brasil, um discurso unificado sobre o 1º de maio veio na Era Vargas, modelado pelo Estado e não pela sociedade civil.

O governo, sob a égide do trabalhismo, se apropriou da data e a utilizou para fins políticos e, evidentemente, propagandísticos, ao lado das políticas concretas – jornada de oito horas, férias, carteira do trabalho, CLT e criação do Ministério do Trabalho.

O protagonismo deixou de ser do operariado e sim do Estado, da Nação e do seu dirigente máximo. Os anos 1930 foram de repressão ao movimento operário livre e de criação de sindicatos atrelados ao Estado.

No início da década de 1980, entretanto, o sindicalismo ganhou força com o surgimento da CUT e da CGT que foram fundamentais para o processo de redemocratização do país. Lideranças como Luis Inácio Lula da Silva, representaram a ascensão de um novo, independente e poderoso sindicalismo no Brasil.

Agora, neste 1º de maio, os trabalhadores brasileiros tem muito pouco a comemorar. O desemprego massivo é, possivelmente, a maior fonte da angústia que os aflige.

A massa assalariada está conhecendo na prática os estragos sobre seus direitos: celetistas estão sendo trocados por contratados temporários, sem férias e 13º, sem licença de gravidez, FGTS, aviso prévio, seguro-desemprego, etc. O subemprego se espalha rapidamente sem amparo sindical.


 O futuro do trabalho.


Há hoje no Brasil um projeto que visa desmontar a legislação trabalhista, asfixiar os sindicatos, extinguir a aposentadoria pública universal por repartição e acabar com a justiça do trabalho. Afinal, como disse Bolsonaro, “é difícil ser patrão no Brasil”. Então, vamos facilitar sua vida. Ulala!

No caso da aposentadoria, com a implantação de um regime por capitalização, empregadores e Estado livram-se de contribuir de maneira universal para o bem-estar da população na velhice. É o cenário ideal: cada um por si. A reforma só é boa para quem ganha com o dinheiro dos outros.

Assim, esperança é um bem escasso no Brasil de Bolsonaro. Os que mudaram ilegitimamente os rumos do país, impondo um ultraliberalismo, estão assassinando a esperança do trabalhador brasileiro. As medidas tomadas só penalizam as grandes maiorias que veem as conquistas sociais e históricas sendo literalmente desmanteladas.

Está na hora do trabalhador resgatar o papel que exerceu no século XIX. Isto é, de ser o sujeito da história, o transformador social. O primeiro de maio deve voltar a ser, mais do que história, mas um presente em constante transformação.


Dia do trabalhador 2019: não há nada a comemorar!

O juiz, o traficante e os calhordas

O tráfico mata, corrompe, abrevia a vida de adolescentes
e vai continuar matando enquanto não admitirem
que o sistema da tal ‘guerra às drogas’ é vencido, é antigo,
é ineficiente, é fracassado e só pega negros e pobres.


O liberal que cheira cocaína e participa de simpósios sobre liberdades quer consumir sua droga, para ficar esperto, mas berra que traficante tem que ser preso e se possível morto.

O liberal cínico ataca, para consumo externo, quem fornece a droga que o mantém inteligente e competitivo com o patrão, com os amigos e com as mulheres.

Pois escrevo esse texto pensando no juiz Ramiro Oliveira Cardoso, que nunca vi. Sei da existência do juiz substituto da 4ª Vara Civil do Foro de Porto Alegre pelas notícias recentes que revelam a indignação de delegados e promotores, porque o juiz solta traficantes com quantidades de drogas que considera irrelevantes.

O juiz não manda prender esses miseráveis varejistas de esquina, invariavelmente jovens e negros, que se matam na disputa pelo mercado de coca e maconha da Grande Porto Alegre. Porque o juiz entende que não adianta prender.

Cardoso disse numa entrevista a Eduardo Matos, de ZH, que a repressão pega um traficante de rua hoje, com a maior facilidade, e quando ele é levado para uma delegacia, outro já o substituiu.

São jovens sem perspectivas, sem proteção do Estado, vulneráveis às tentações do tráfico. Essa gurizada lota as cadeias, onde o esquema de dominação das facções se aperfeiçoa e se reproduz.

O juiz diz: “O crime de tráfico não é um crime natural. Ele é um crime cultural e ele é temporal de determinado entendimento social. Ele não tem uma reprovação imediata, por exemplo, como um homicídio, como um estupro, como um roubo. Ele é um delito que pode ser que em alguns anos nem seja mais criminalizado”.

Agora digo eu: o traficante, principalmente esse da ponta, mesmo que trabalhe para alguém (e trabalha) é uma mão de obra barata de quem está à espera do que ele vende, o cheirador de coca. O traficante mandalete morre para manter seu espaço e seu cliente, sem custos para o cheirador. E o cheirador, principalmente o liberal, esse que defende livre mercado, o que faz o cheirador? O cheirador pede que matem o traficante.

Cheira e pedem que matem. Que esfolem, que acabem com o traficante e suas famílias. E que outros os substituam e também sejam mortos.

O cheirador de coca moralista (muitos são contra o Bolsa Família para as mães de aprendizes de traficantes) é o mais cínico dos consumidores de vícios, incluindo cigarro, álcool, propinas e outras drogas.

O bacana consumidor de droga, dessa classe média movida a estímulos químicos, é um babaca. É para esse bacana e babaca que o juiz fala.

Há pouco, aconteceu uma gritaria parecida, quando uma mãe e dois filhos foram presos por tráfico em Charqueadas. O mundo da tradição, da família e da moral bolsonarista se levantou contra a mulher que usava os filhos para traficar.

E massacraram a mãe. A que vende drogas. Não a mãe que muitas vezes sustenta o drogado bem de dinheiro e fala mal dos traficantes imorais.

A humanidade se encharca de alguma droga desde tempos bíblicos. E vai continuar cheirando, bebendo, fumando. É um mercado ilegal em nome de uma ‘ética’ fracassada, de punições que não funcionam, de vinganças.

O tráfico mata, corrompe, abrevia a vida de adolescentes e vai continuar matando enquanto não admitirem que o sistema da tal ‘guerra às drogas’ é vencido, é antigo, é ineficiente, é fracassado e só pega negros e pobres.

Por isso entendo a posição do juiz que libera pequenos traficantes e desafia o sistema todo a enfrentar seus cinismos e suas demagogias diante do traficante invisível como expressão do que Jessé Souza define como a ralé brasileira.

Calhordas moralistas consumidores de drogas, admitam: o traficante negro, jovem, miserável, sempre trabalhou para vocês sem salário, de graça, sem FGTS, sem férias, sem 13º, e morre por vocês.



Leia outros artigos de minha autoria no site.

A polêmica reforma da previdência

O que se espera para um tema de tal impacto,
que vai mexer com a vida de milhões de brasileiros, é transparência.
Até para que sejamos convencidos da real necessidade da mesma.

Todos  aqueles  que conhecem a nova  realidade  estrutural  das relações de  trabalho  que  vem se consolidando  nos últimos anos  entre nós  e pelo  mundo afora,  em função da automação da economia compartilhada, sabem  da necessidade de uma mudança no sistema previdenciário.

Na   indústria, na tecnologia e no mercado de   trabalho, as transformações  são  palpáveis, exigindo  uma inevitável  mudança no contrato ou pacto social.  Isto   hoje   abrange   todos os países e sistemas econômicos-sociais.

Os economistas mostram que no Brasil isto se faz   ainda mais urgente, diante   de um quadro   de rápidas e intensas  transformações do emprego  formal para trabalho independente. 

Hoje   é  expressivo  e crescente o grupo  que prefere  ser autônomo e microempreendedor, ao invés de assalariado.

Com isto, o padrão da   Previdência   fica prejudicado  e a tendência  é piorar, não apenas  pelo crescente  trabalho independente  como também  em função da maciça  destruição do emprego  que virá  em consequência  da automação  fabril e dos  serviços, os maiores  contribuintes  da  Previdência Social.

Hoje, entre nós, segundo  o  IBGE, o contingente  de  trabalhadores  fora  do sistema pleno de proteção social  é superior à metade  do total. Com carteira do trabalho   assinada são   apenas 38,9% dos trabalhadores.

Há no  Brasil   uma grande massa  de  trabalhadores  que preferem  receber  mais como autônomos, sem benefícios  trabalhistas  e com impostos  mais baixos. Os que  optam  por carteira do trabalho  assinada,  com benefícios  trabalhistas  e pagando mais impostos, representam  uma minoria.

Diante deste quadro, a sustentabilidade  do sistema  previdenciário  tende  a ficar  crítica. É preciso lembrar, igualmente, o quão devastadora  foi a  mudança  introduzida no sistema  em  1988.

A participação relativa dos que recebem três pisos previdenciários  quase quadruplicou, enquanto a daqueles  com renda  superior  a dez pisos  caiu drasticamente, de  31,5%  dos contribuintes  para  2,4% do total, entre  1988 e  2017.

Diante deste  contexto, apresentado pelo economista Carlos  Drumond, no artigo  O perigo  de um tropeço (CartaCapital,17/4/2019), a conclusão é de que a  mudança  se  faz  necessária.   Entretanto, indago   aos meus fiéis  botões, sobre  a razão  de o governo esconder  dados que embasam a Reforma.

O que se espera para um tema de tal impacto, que vai mexer com a vida de milhões  de  brasileiros, é  transparência. Até para que sejamos convencidos  da real necessidade da mesma.

O governo nos pede  para  trabalhar mais  anos  e ganhar menos  como aposentados, mas  se nega  a revelar  os elementos  supostamente  comprobatórios  da necessidade do seu plano.  Por que esta estranha e ilegal postura?

Mais. O combate à  sonegação  não seria a alternativa  viável às políticas  de austeridade  econômica, dispensando  especialmente a reforma  da Previdência?

Tenho certeza que, se fossem resgatados os milhões e milhões de reais que anualmente os  grandes  bancos, os fundos de investimentos, as  grandes fortunas  e as  empresas  deixam de  recolher  ao  INSS, tornaria supérflua  uma reforma  da  Previdência  e haveria  fundos  para a  saúde, a  educação, a cultura  e a inovação tecnológica.



Leia também reflexão sobre volta da lei dos sexagenários.

Mudanças transformadoras

A humanidade que sairá dessa época avançará
integrada na melhor tradição dos esforços da
racionalidade humana ou será guiada por um imenso
vagalhão de anti-intelectualismo e de apologia à ignorância.

Vivemos um grande paradoxo. As profundas mudanças tecnológicas que permitiram novos modelos de negócios e modificaram a forma como os indivíduos vivem, trabalham e se relacionam, oportunizam pela primeira vez na história acesso ilimitado a conhecimentos que poderão dar respostas aos grandes problemas que nos afligem.

Por outro lado, ao nos tornamos uma imensa plataforma exponencial de comunicação, liberando a capacidade de indivíduos de qualquer lugar do planeta de emitirem suas mensagens e ampliarem a sua intensidade e alcance, potencializamos a expansão da horda que é nutrida da negação das evidências científicas e da disseminação de preconceitos medievais.

Estamos, portanto, diante de um tempo de mudanças. A humanidade que sairá dessa época avançará integrada na melhor tradição dos esforços da racionalidade humana ou será guiada por um imenso vagalhão de anti-intelectualismo e de apologia à ignorância.

Neste tempo, as instituições de ensino superior precisam reafirmar seu papel de herdeiras da modernidade e retomar o protagonismo, percebendo que precisam renovar seus códigos de conduta como condição de reestabelecerem seu relevante papel na dinâmica da construção do futuro.

O Pacto pela Inovação de Porto Alegre, liderado pela UFRGS, UNISINOS e PUCRS, é o exemplo concreto de uma mudança de perspectiva que já está ativando as potencialidades da cidade em torno de uma ampla aliança em favor de novas respostas para novas questões. E é nesta perspectiva que a IMED irá colaborar por meio do Centro de Inovação e Governança em Políticas Públicas / FutureGov, promovendo o diálogo de diferentes atores sociais e a cultura colaborativa em prol de soluções inovadoras, criativas e inteligentes para os problemas concretos da sociedade.

O nosso futuro está sendo gestado agora. Mirar para as melhores práticas do país e do exterior, a inteligência multidisciplinar de pesquisadores e policy makers, poderá nos ajudar a identificar o que funciona, o que dá resultados em maior escala e qualidade para as pessoas. Esse é também um compromisso indeclinável de um ensino superior arejado e sintonizado com padrões de excelência mundial e com pesquisas aplicadas dirigidas a cocriar caminhos para um mundo mais humano, sustentável e inovador.

“Alguém dirá: o bom momento econômico do país ajudou o negócio da educação privada a prosperar. Verdade. Mas igualmente é verdade que, em meio à crise que o Brasil atravessa nos últimos anos, seguimos com a convicção intacta. Continuamos investindo e procurando o crescimento sustentável, mesmo diante de indicadores econômicos não favoráveis”.

Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova 1932: um novo olhar

O sistema educacional é visto como algo
isolado como se não fizesse parte da
organização geral do país, juntamente
com as questões sociais e econômicas.

Apesar de vivermos no Século XXI, em que a evolução em vários aspectos como acesso à educação, à saúde e outros direitos sociais deveriam ser ampliados a impressão que dá é que estamos retrocendo. Afirmo isso porque participo de um grupo de estudos da Universidade de Passo Fundo, Língua e Discurso, Coordenados pelas professoras, Doutoras Marlete Sandra Diedrich e Patrícia Valério e analisamos o documento: O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932 e tivemos a impressão de que estamos vivenciando um discurso em 2019 que se assemelha a um discurso anterior a 1932, com relação à educação que querem implantar, infelizmente. Será que não está na hora de reelaborarmos o nosso manifesto? Até quando vamos permitir o retrocesso ser efetivado?

Esse documento é muito atual do ponto de vista do discurso político que vigorava, que levou um grupo de intelectuais renomados do país como: Anísio Teixeira, Cecília Meireles, Afranio Peixoto e outros a realizarem esse manifesto. E hoje estamos observando alguns discursos políticos que merecem nosso olhar crítico e não sei se não é momento de organizarmos nosso repúdio público.

O que estamos esperando? O que mais precisa ser feito nesse país, para que, de fato, acordamos? Avante educadores!

Nesse sentido, quero trazer muitos discursos políticos que atacam a educação como direito primordial do cidadão e fazer um comparativo ao documento de 1932. O primeiro discurso que me atenho é do “Escola sem Partido” que na verdade deveria ser escrito “Escola com partido”, remetendo a ideia que todo discurso não é neutro, nem subjetivo. Com isso, o que se quer é destruir a imagem do professor, dando-lhe toda a culpa do fracasso da educação, porém esse discurso vem carregado de ideologia generalizando que a educação não tem importância alguma e, por isso, não cabe ao governo valorizá-lo, já que a educação não cumpre o papel de “fazer ciência, mas sim de fazer lavagem cerebral”. Assim, fica fácil culpar a própria escola pelo fracasso e ausentar a responsabilidade do estado, como já dizia o Manifesto de 1932, p.407:

A situação atual, criada pela sucessão periódica de reformas parciais e frequentemente arbitrárias, lançadas sem solidez econômica e sem uma visão global do problema, em todos os seus aspectos, nos deixa antes a impressão desoladora de construções isoladas, algumas já em ruína, outras abandonadas em seus alicerces, e as melhores, ainda não em termos de serem despojadas de seus andaimes…

Percebemos que o documento traz uma ideia atualizada, que perfeitamente podemos usar para as situações recentes que atacam à educação. Pois a cada dia lançam um discurso de ataque isoladamente para desestruturar o sistema educacional, ao invés de encontrar soluções para o problema. E, ainda, o sistema educacional é visto como algo isolado como se ele não fizesse parte da organização geral do país, juntamente com as questões sociais e econômicas. E, aí, preciso trazer mais uma parte do Manifesto de 1932, p.407,

Onde se tem de procurar a causa principal desse estado antes de inorganização do que de desorganização do aparelho escolar, é na falta, em quase todos os planos e iniciativas, da determinação dos fins de educação (aspecto filosófico e social) e da aplicação (aspecto técnico) dos métodos científicos aos problemas de educação. Ou, em poucas palavras, na falta de espírito filosófico e científico, na resolução dos problemas da administração escolar. Esse empirismo grosseiro, que tem presidido ao estudo dos problemas pedagógicos, postos e discutidos numa atmosfera de horizontes estreitos,…

Um discurso que tem chamado atenção, que vem do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, que chega a ser cômico, o Ensino Domiciliar, permitindo que pais optem por ensinarem seus filhos em casa.

Pergunto: Quais pais têm condições psíquicas, em primeiro lugar, docente e tempo para isso? Isso é uma ideia imediatista de resolver um problema tão complexo que é o sistema educacional. Ah, o sistema está com problema, vamos editar uma medida que solucionará o problema, ao invés de investir na escola, se é visto que ela está deficitária. Isso seria como lavar o filho na bacia e jogar não só a água suja, mas o filho junto.

Se a escola está mal, se destrói ao invés de consertá-la. Cuidado com os eufemismos, ou para usar um termo benvenistiano “Eufemia” que anda junto com “Blasfemia”, porque é uma “Blasfemia” o que estão fazendo com a educação, pois para enganar o povo transformando a expressão “Educação Domiciliar” amena, eufêmica, usam uma expressão em inglês “homeschooling”. Isso porque a maioria da população não entende de fato a significação da palavra. Dessa forma, nos reportamos ao documento novamente:

Já se despertava a consciência de que, para dominar a obra educacional, em toda a sua extensão, é preciso possuir, em alto grau, o hábito de se prender, sobre bases sólidas e largas, a um conjunto de ideias abstratas e de princípios gerais, com que possamos armar um ângulo de observação, para vermos mais claro e mais longe e desvendarmos, através da complexidade tremenda dos problemas sociais, horizontes mais vastos. (Manifesto, p.409)

Ainda, falando sobre a educação domiciliar, quem não terá problema, será quem tem dinheiro, pois as famílias pagarão um professor que ensinará em casa, mas me pergunto: E a filho do empregado, que mal tem tempo de tomar um banho e deitar no final do dia cansado? E é para essa classe que precisamos pensar a educação de qualidade, senão estaríamos infringindo um princípio básico da Constituição federal que explicita que a educação é dever do Estado.

A verbalização da fala de um aluno da escola pública de Alvorada, RS, explicita a importância da escola na vida de uma criança, inclusive em termos de alimentação, a fala nas redes sociais de um menininho dizia o seguinte:

 “Oh, meu… Tu ‘rateou’ em ter faltado a aula, ‘parça’. Tu ‘rateou’ muito, muito, muito, muito, meu. Oh, logo hoje que tu faltou, filho, foi chuchu ao molho branco, iscas de frango, arroz e feijão, salada de tomate e banana na sobremesa”, diz Pierre no áudio. https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2019/04/10/menino-viraliza-com-frase-tres-conchadas-de-galinha-ao-enviar-audio-sobre-merenda-escolar-em-alvorada.ghtml

 Isso fica claro que a escola só precisa melhorar em alguns aspectos e que ela vai muito além de ensinar o conteúdo, fica explícito no discurso do aluno que a “escola domiciliar” é uma ideia retrógada de educação, pois o verdadeiro papel está no convívio social, de suprir carências básicas como a alimentação. E, aí, revisitamos novamente ao Manifesto de 1932, p. 411:

A diversidade de conceitos da vida provém, em parte, das diferenças de classes e, em parte, da variedade de conteúdo na noção de “qualidade socialmente útil”, conforme o ângulo visual de cada uma das classes ou grupos sociais. A educação nova que, certamente pragmática, se propõe ao fim de servir não aos interesses de classes, mas aos interesses do indivíduo, e que se funda sobre o princípio da vinculação da escola com o meio social, tem o seu ideal condicionado pela vida social atual, mas profundamente humano, de solidariedade, de serviço social e cooperação.

A educação não deve ser restrita a uma classe, em detrimento de outra. Ela precisa ser abrangente na horizontalidade de concepção básica de um direito e que tem sim a responsabilidade do Estado Brasileiro. Por isso, devemos estar muito ligados nos discursos que vem com soluções pontuais e estanques para os problemas e ainda prometem resolvê-los.

Devemos tomar cuidado com eufemização dos termos, dos conceitos, porque eles vêm com propostas implícitas que na prática se demonstram a destruição de forma dominó. Sugiro que quem não leu o documento na íntegra, O Manifesto dos Pioneiros de Educação Nova de 1932, leia para entender questões atuais da educação no Brasil.


“A escola nunca deveria se distanciar da vida concreta das pessoas, pois esta deve e pode ser aperfeiçoada através do conhecimento. Acreditamos que as finalidades da escola deveriam sempre convergir. Anísio Teixeira, no ano de 1934, ao discutir as finalidades da vida e da educação inicia dizendo que “a única finalidade da vida é mais vida”. (Nei Alberto Pies)

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