Início Site Página 191

Combater o fascismo dará muito trabalho

O fascismo mora na simplificação,
no ódio baseado em pensamento simplista.
Estamos flertando com o agrupamento de ideias e
pessoas que abriram mão ou não tiveram
acesso ao pensamento complexo e profundo.

 

É impossível acabar com o FASCISMO no voto. Da mesma forma o pensamento fascista.

Precisamos reconhecer isso.

Mas se temos eleições e elas estão permitindo que ideias e posturas fascistas governem o país, precisamos também lutar por votos. Mas essa luta é temporária e emergencial.

“A democracia burguesa tem a aparência da civilidade. Mas quando as coisas vão mal, ela abre as portas do inferno”. (Sociólogo Ricardo Antunes)

 

Mas passadas as eleições, independente do resultado, precisaremos enfrentar o fascismo (que aqui poderia ser simplificado com ideias que flertam com o racismo, machismo e homofobia, com ideias de supremacias que se impõe pela força; que acreditam que matar ou oprimir minorias seja a solução; que violência seria solução para algum dos nosso problemas sociais, políticos e culturais). Ficaremos hoje com essa simplificação, pelo potencial didático.

Se perdemos amizades e cortamos relações com amigos e familiares, precisaremos, deste ponto em diante, botar o dedo na ferida, abrir a caixa de “Pandora” dos temas e fatos que até então não falamos. Precisamos falar e se responsabilizar por dialogar com esta e com a próxima geração. O desgaste está só começando nesse sentido.

Podemos reconhecer que até aqui, nem escola, nem faculdade, nem universidade, nem família se responsabilizaram o suficiente na HUMANIZAÇÃO do nosso povo. De ensinar que pensar, procurar informações sérias e questionar sempre a realidade é como respirar. De mostrar que existem princípios na nossa condição humana que NÃO PODEMOS ABRIR MÃO. Pois isso coloca em risco a nossa própria vida.

Independente do cara ser conservador, liberal, de esquerda ou direita, indiferente ou extremamente engajado em ações políticas. Independente de posições econômicas e ideológicas que cada um deseje seguir como base. NÃO PODEMOS ABRIR MÃO do RESPEITO pela diferença. Respeitar e estar aberto a dialogar, escutar.

MAS NUNCA, NUNCA abrir mão do PENSAMENTO.

Pensar é como andar de bicicleta, aprendemos fazendo. Não aprendemos olhando e falando igual a quem pedala. Aprendemos pedalando. Assim como aprendemos a pensar sendo estimulados a pensar no diálogo, na leitura e na reflexão.

Seremos educadores sociais, responsáveis por humanizar, pelo estímulo à capacidade de pensar. Fake News é típico exemplo de pessoas que abandonaram a capacidade de pensar. E essas pessoas estacionaram no pensamento simples e superficial, de frases clichê. De repetir ideias simples para ter alguma vez na “explicação” da realidade. Mas sem ter trabalho nenhum de pensar e refletir.

E se formamos pessoas assim, o fascismo mora na simplificação, no ódio baseado em pensamento simplista. Estamos flertando com o agrupamento de ideias e pessoas que abriram mão ou não tiveram acesso ao pensamento complexo e profundo.

É sobre essa realidade que temos que lutar. Foco nas eleições, mas em poucas semanas é que o trabalho vai REALMENTE COMEÇAR.

Inteligência artificial usada de modo viral como algoritmos imbecilizadores e bárbaros

A máquina é para o humano e não podemos aceitar que seja o contrário, nós as construímos, devemos dominá-las a bem da humanidade. 

 

Funciona assim: todos nós temos um inconsciente coletivo e também um inconsciente pessoal. Em todas as nossas tecladas nas redes, esse inconsciente é capturado no que nem mesmo nós nos damos conta. Isso acaba resultando em uma cultura do meme, modo binário e polarizado, linguagem da máquina que se formaliza por algoritmos que defletem o real, não por reflexão sobre o real.

Refletir sobre o real aqui e agora, tomar consciência, mudar, evoluir, amadurecer, são prerrogativas da inteligência natural por meio do intelecto e todas as faculdades mentais de que somos dotados.

O modo máquina e a cultura do meme, usados de forma pedagógica e inteligente,  pode dar velocidade a evolução, educar, mas só é evolução com o critério insubstituível do ser, modo humano de natureza e a seu serviço.

A cultura do meme usada como viral é manipulação mental exponencial, veloz, irracional para controle da mente e das humanidades, por predadores dos valores e princípios caros a nossa humanidade, manipulados artificialmente.

O objetivo é gestar uma civilização não humana, robótica, sem espírito livre, sem alma, sem corpo, somente com cérebros como bateria de memes, sem consciência de si  ou do outro como diálogo, apenas replicador da cultura do meme  e seu “inconsciente” cheio de racismos culturais e estereótipos regressivos pré impostados artificialmente, como plagio do real humano criativo, capaz de cultura viva humanista, renascentista.

Robotizando o modo humanidade, toda a natureza está em perigo, toda civilização humana está em perigo. A máquina não renasce, não ama, não evolui em sentido humano. A máquina é para o humano e não podemos aceitar que seja o contrário, nós as construímos, devemos dominá-las a bem da humanidade.

Somente a gente e nosso discernimento pode salvar este país e a própria humanidade

Fake News não são brincadeiras virtuais como games em que nunca se morre de verdade. Matamos virtualmente e sem consequências. Fake News destroem vidas, destroem reputações, destroem afetos, destroem a civilidade de uma nação inteira.

Humanidade e discernimento são os antídotos contra esse vírus que lesa a mente e destrói nossa humanidade. A verdade e a presunção de inocência, a notícia feita de forma respeitosa e com informações reais e testemunhais, o respeito próprio, o respeito ao outro, o respeito a civilização deve voltar a ser nosso lema.

Do contrário, seremos destruídos como valores e princípios de elevada civilização. O que estamos vivendo é uma invasão viral dos algoritmos da inteligência artificial usados para manipular e controlar mentes para destruir a civilização com um único objetivo: destruir a soberania e roubar recursos das nações pelos predadores das economias e seu imperialismo anti humano.

Porque anti humano? Porque para controlar e roubar é preciso destruir a consciência da grandeza de ser humano e soberano sobre qualquer território.

Guarde seus monstros, cure seus ressentimentos, ame a civilização, ame a si mesmo e ame os outros, próximos e distantes. ame a humanidade que habita esse planeta. discernimento e amor a verdade, essa é a essência da humanidade !

 

 

Crise Ética

Você já parou para pensar que muitos dos
problemas que o nosso país enfrenta podem
vir da falta de ética?

 

Não há como fugir. De todos os lados estamos cercados de atitudes que nos fazem afirmar que estamos vivendo em meio a uma crise ética. O primeiro indício desse fato vem justamente da política – dos nossos líderes que deveriam prezar pelo bom desenvolvimento da nação, por mais que essa pareça ser a última coisa que façam em meio a tantos escândalos de corrupção. Mas os méritos que nos levam até essa crise ética não são exclusivamente políticos. Muitas outras ações, que contribuíram para essa situação que enfrentamos, estão bem pertinho de nós, no nosso dia a dia.

A falta de ética está naquela fila que o sujeito “fura” para ganhar um tempinho; está naquele troco em que você percebeu que o atendente deu um pouco a mais e não reclamou… A falta de ética transparece em muitos momentos e você certamente já deve ter presenciado algum deles.

Segundo o Doutor e Pós-Doutor em Filosofia, Ângelo Vitório Cenci, essa crise ética em que vivemos não é de hoje, ela acompanha o nosso país, digamos que, desde sempre. “A ética ou a falta dela reflete sempre um contexto social e nós temos um contexto marcado por múltiplas deficiências que prejudicam a ética.

Quando a ética falta na política é porque, da mesma forma, ela falta na base da sociedade, nas relações humanas, nas relações familiares, nas empresas. Aquilo que está lá em cima é o reflexo do que está aqui na base”, explica o professor.

As razões para vivermos essa situação são inúmeras e, segundo Ângelo, uma das causas mais profundas que resultam nessa falta de ética é o fato de vivermos em meio a uma grande desigualdade em nosso país. Temos uma herança histórica do Brasil enquanto colônia, que se constituiu a partir do espólio que levava as riquezas da terra embora. “O que vemos hoje no contexto de instituições políticas, sociais e até empresarias é um reflexo ainda dessa lógica predatória, que revela outra razão profunda e importantíssima que é a falta da perspectiva do bem comum. Hoje temos uma carência profunda de líderes, de pessoas que pensam uma ideia para além dos seus interesses pessoais, que pensem no interesse comum coletivo”, destaca Ângelo.

Além da desigualdade e da falta de se pensar no bem comum, o país também sofre com o reflexo da educação pública deficitária. Deveríamos ter uma educação de qualidade, pública, para que todos pudessem desenvolver uma igualdade em termos de capacidade, o que é um elemento fundamental para uma boa convivência social. “Nenhuma sociedade tem saúde ética, social, política, se não tiver uma coesão social e, para ter uma coesão social, as pessoas tem que ser educadas para isso”, aponta.

 

Mas afinal, o que é ética?

Resumindo, a ética trata do agir humano. É também uma postura, uma atitude e um modo de ser, como diziam os gregos. No dia a dia o papel da ética é orientar as ações humanas para que sejam as melhores possíveis. Por isso é importante saber como as ações deveriam ser, assim como no trânsito. “A ética tem uma analogia muito estreita com o trânsito que, através de normas, regras e sinais, indica para o condutor o melhor caminho e a melhor maneira de trafegar. A gente olha para as placas e sabe como deveria ser, mas se as pessoas agem de acordo ou não é outra questão”, exemplifica o professor.

Quando se fala em ética as pessoas têm o costume de olhar somente para um indivíduo, o abstraindo do contexto em que vive – o que é um erro. “Eu procuro trabalhar sempre a ética pensando o indivíduo como interdependente, nós sempre estamos em um contexto.

A ética não é nata do indivíduo e também não é transmitida, nos nem nascemos éticos e nem transmitimos uma ética para as outras pessoas, da forma como se transmite conhecimentos matemáticos, por exemplo. A ética é um processo de desenvolvimento. Usando um trocadilho, pode-se dizer que a ética não se ensina, mas se aprende. Através de exemplos, de atitudes é possível ser uma boa referência para as pessoas agirem da mesma forma”, ressalta.

Paulo César Carbonari destaca que, mesmo tempo que pode estar na perspectiva de potencialização e afirmação positiva, a humanidade pode também estar na perspectiva da destruição e dominação de uns sobre os outros. Por vezes, ao invés de ética, somos impelidos a agir mais por etiqueta do que por ética. Agimos mais por aparência ou imposição das conveniências.  

 

Ser ou não ser ético – eis a questão

Muita gente segue o seguinte raciocínio: “Se ninguém faz as coisas certas, por que eu deveria fazer?”. O professor Ângelo nos ajudou a pensar sobre isso e o veredito final é: as ações dos outros não justificam as nossas omissões ou as nossas ações erradas. “A ética pode ser reconhecida por qualquer pessoa como válida nas mesmas circunstâncias, então, se os outros não agem bem isso não justifica que eu também não aja bem”, argumenta.

A vida seria muito melhor para todos se todo mundo resolvesse ser ético no dia a dia. O que, segundo o professor, é absolutamente possível. “Só é preciso que a sociedade queira. Quando se fala em educação, por exemplo, se fala muito na Coréia do Sul, na Finlândia, que são modelos, e no fundo quando vamos olhar o que foi decisivo para esses países chegarem onde chegaram a razão sempre é: a educação é um projeto de nação, a sociedade quer. A sociedade acha isso importante e ela opta que isso aconteça, não depende só de governo”, enfatiza.

Hoje a falta de ética também gera um custo extremamente elevado para a sociedade. Afinal, se todas as obras públicas precisam ter um percentual destinado a corrupção essa conta vai cair no bolso da sociedade. É como se no custo de todos os produtos já estivesse incluído uma parte que seria roubada, outra que seria desviada, outra que cobre o descumprimento da palavra de algum fornecedor…

“Existe uma relação inversamente proporcional entre ética e leis. Quando existem leis demais existe ética de menos e quando existe ética o bastante existem menos leis, porque você não precisaria de muitas normas se todos fossem éticos”, destaca Ângelo. Se tivéssemos uma ética maior do que temos hoje, teríamos menos burocracia, menos regras, menos impostos, menos sonegação e menos corrupção. Todas essas situações seriam bem melhor contornadas se todos prezassem por essa pequena palavrinha que resulta em atitudes grandiosas e que fazem bem para todo mundo: a ética.

A partir desta referência, Ângelo comenta que existem três fatores fundamentais para que a ética funcione: boas pessoas, boas regras e boas instituições. E o exemplo vindo desses fatores é fundamental, desde o processo de socialização da criança até o trabalho dentro de uma empresa. Temos referências positivas e individuais de pessoas, temos leis excelentes, mas o terceiro ponto está sendo falho hoje no Brasil. “As instituições têm um papel educativo fundamental e, para a ética funcionar, temos que ver isso como uma perspectiva sistêmica: pessoas, regras e ambientes deveriam funcionar de forma integrada”, alerta o professor.

 

Esta publicação foi originalmente publicada na Revista Contato Vip, Ano XXV, número 272, Agosto 2017. Para conhecer mais, clique aqui.

 

 

Razão e paixões

Como gostaríamos que acabasse a história brasileira
que está por viver dias decisivos? Em que será melhor apostar,
na democracia racional ou nas pulsões sob o
sentimento difuso de ódio e ressentimento?

 

Quando alguém nos diz “siga o coração”, não está dizendo outra coisa senão: siga as paixões e não a razão. Quando alguém nos diz “pense bem”, outra coisa não está dizendo senão, siga a razão, pondere, não siga os sentimentos, os interesses imediatos e as paixões.

Cabeça e coração, razão e sensibilidade são as duas energias que conduzem a locomotiva das aventuras humanas. O senso comum percebe isso de uma forma imediata e intuitiva.

“O que se assiste hoje é a uma raiva excessiva, irascível, birrenta e mal-humorada. Uma raiva destrutiva, excludente, injusta!” (Paulo César Carbonari)

O que fazer com a raiva?

A filosofia ocidental, por sua vez, sintetizou conceitualmente a condição humano, naquilo que a mitologia grega já tinha identificado em dois deuses que diretamente lidam com a essência antropológica: Apolo e Dionísio.

Apolo é nosso lado razão, ponderação, moderação, ciência, medida e luz. Dionísio é nosso lado paixões, desmedida, festa, embriagues e sombra. Apolo e Dionísio, razão e sensibilidade são duas grandezas que melhor dizem o que somos. Não há humano que não seja síntese dessas duas grandezas. A síntese, contudo, pode ser feita por negação, por subordinação ou por integração.

O racionalismo nega que o coração e as paixões sejam bons guias para a condução do caminho ético, político ou religioso. O racionalismo, de Sócrates à Kant, diz que o homem só é humano se guiado pela razão e, no mínimo, se não puder negar e eliminar as paixões, deve exercer domínio e controle sobre as mesmas. Os estoicos sintetizaram a ideia racionalista dizendo que a razão é que nos faz virtuosos e as paixões, via de regra, nos arrastam para um redemoinho de perturbação da alma.

Não conheço filósofo ou movimento filosófico e teológico que diga o contrário, a saber, que as paixões devem dominar e submeter a razão aos seus propósitos.

Schopenhauer, porém, e depois dele Nietzsche e Freud, disse que toda tentativa da razão, no pretenso senhorio sobre a vontade e as paixões, resulta sempre em fracassada tentativa, pois é a vontade cega que domina e submete a razão a seus propósitos. Dito de outra forma, a razão só entra como justificadora de decisões prévias e inconscientes da vontade passional.

Em outras palavras ainda e de uma forma simples e direta: o coração e as paixões alugam a cabeça para que esta justifique e racionalize o que já está previamente decidido pela vontade passional.

O racionalismo é um idealismo, um postulado do que seria bom que fosse, mas raramente é. O vitalismo de Schopenhauer e Nietzsche, não idealistas, dão-se conta que a razão é um anão sentado nos ombros de um gigante chamado vontade de poder. Como está sobre os ombros pode enxergar mais longe, mas raramente consegue frear, submeter e dominar a vontade e, por isso, pode haver muita tragédia no caminho da vida.

 Mas o trágico é o que é e a vida parece não se imunizar do trágico, pois o trágico é o que é inevitável, apesar do querer humano.

O trágico, quando bem entendido, significa que nem tudo está sob controle e, mesmo contra a razão, as coisas acontecem. O trágico é o contrário da concepção racionalista que postula que um Logos domina tudo e sempre para o melhor. O trágico, ao contrário, postula que não há como controlar as energias e pulsões que movem o mundo e, ás vezes, as coisas não acabam bem.

Como gostaríamos que acabasse a história brasileira que está por viver dias decisivos? Em que será melhor apostar, na democracia racional ou nas pulsões sob o sentimento difuso de ódio e ressentimento?

O que podemos esperar do futuro imediato, fruto de nossa decisão individual? Quem conduzirá os dedos nas urnas, a paixão ou a razão?

A aposta na razão é a aposta na democracia. A aposta na paixão é a aposta no obscuro e na “razão da autoridade”, mais do que a “autoridade que vem da razão”.

Os que vierem depois de nós viverão as consequências do ato que estamos prestes a protagonizar e assistir. Qual dos afetos nos conduzirá: o medo ou a esperança? O que nos conduzirá: o trágico ou a racionalidade com o mínimo de previsibilidade controlada?

Sobre as costas dos indivíduos recai o maior dos pesos. Não será demasiado grandioso o ato que estamos prestes a empreender? Estaremos à altura das exigências do tempo, ou seremos merecedores do destino trágico que virá?

“Seguindo os princípios da não-violência propagados por Jesus, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King e Mandella quero te pedir que aprendamos a perdoar os que nos causam raiva, ofensa e desrespeito por conta das diferenças políticas e ideológicas. Muitos ainda não sabem viver a democracia, como ela deve ser”. (Nei Alberto Pies).

Antídoto para intolerância e ódio: promovamos paz

 

Antídoto para intolerância e ódio: promovamos paz

Em tempos em que se dissemina o ódio, a estupidez e a raiva;

Te peço, Senhor.

Fazei-me compreender de onde vem e porque existe tanta desavença entre a gente;

Quando há muitos que não se entendem mais/ famílias que não conversam mais/ amigos que deixaram de conviver.

Muitos brasileiros perderam a noção da civilidade, do respeito e da responsabilidade ao pregarem o ódio, a discriminação e o apelo às armas como saídas para a nossa nação.

Quero te pedir discernimento, compaixão e amor para perdoar os que incitam a violência e promovem o ódio sem razões;

Quero te pedir serenidade, paciência e tolerância com tantas inverdades que são espalhadas entre nós e nas redes sociais.

Seguindo os princípios da não-violência propagados por Jesus, Gandhi, Francisco de Assis, Martin Luther King e Mandella quero te pedir que aprendamos a perdoar os que nos causam raiva, ofensa e desrespeito por conta das diferenças políticas e ideológicas. Muitos ainda não sabem viver a democracia, como ela deve ser.

Quero te pedir que nos encoraje a sermos instrumentos de vossa paz.

“Onde houver ódio, que levemos o amor;
Onde houver discórdia, que levemos a união;
Onde houver dúvidas, que levemos a fé;
Onde houver erros, que levemos a verdade;
Onde houver ofensa, que levemos o perdão;
Onde houver desespero, que levemos a esperança;
Onde houver tristeza, que levemos a alegria;
Onde houver trevas, que levemos a luz”.

Ó Mestre, fazei com que desejemos o amor e a compaixão como fontes e saídas para nossos entendimentos. Que sejamos, mais uma vez, corajosos para promover a paz a partir da tolerância, da compaixão, do perdão e do respeito as diferentes formas de ser, pensar e agir de nossa querida gente brasileira.

Estacionados no presente

Para que elaborar e executar um plano para o futuro
se as coisas mudam com a velocidade de um toque digital
na telinha do smartphone?

 

A revolução da Internet – mas de modo particular o Facebook, WhatsApp e o Instagram – levou uma boa parte da população, homens e mulheres, a estacionar no presente. Um presente fortemente marcado por uma conduta narcisista, no amplo espectro do individualismo moderno ou pósmoderno. E não se trata somente da adolescência e da juventude, como muitas vezes se nota em visões esteriotipadas.

Certo, os jovens representam uma grande fatia dos internautas, mas boa quantidade de adultos segue as pegadas da mesma atitude egocêntrica. O objetivo primeiro e primordial é desfrutar, aqui e agora, todo o potencial do próprio “eu”, das relações com os outros e dos bens que a natureza nos oferece.

Daí o exibicionismo inédito de si mesmo, num encanto exacerbado pelo próprio corpo, com imagens e mensagens de nudez e tonalidade estridentes, e não raro embaraçantes. O mesmo vale para a exposição em praça pública, digamos assim, da intimidade com outras pessoas, às vezes com os próprios familiares e amigos.

Tem-se a impressão que tal comportamento seja movido por uma dose extrema de vaidade. Do outro lado da linha, o olhar e o aplauso do internauta tornam-se incenso indispensável para uma certa auto-idolatria. Tudo e todos podem ser objetos desse jogo onde está em campo um exagerado apaixonar-se por si mesmo e pela própria performance. Esta palavra, por si só, representa uma espécie de imaginário fabuloso, hollywoodiano, da perfeição nas formas, no vestiário, no modo de apresentar-se ou de aparentar.

Aparentar, com efeito, toma o lugar não só do ser, mas, em determinadas circunstâncias, até do ter.

Semelhante obsessão conduz em geral a um consumismo igualmente exagerado, sem falar dos custos. De fato, a necessidade permanente de corrigir e aperfeiçoar o desing requer uma série de prudutos inovadores e de recente lançamento, por um lado, e de artifícios engenhosos e especializados, por outro.

Geração sem filtros.

Não é fácil surfar na onda da moda! A moda, entretanto, é uma sombra: sempre efêmera, fugaz, fictícia, provisória e descartável. Faz-se necessário correr atraz dessa sombra traiçoeira. O pior é que, escorregadia como ela costuma ser, quanto mais a perseguimos, mais ela nos escapa.

Melhor nem entrar no mérito dos efeitos e consequências de tal acompanhamento da moda, seja no balanço entre os custos-benefícios, seja no que diz respeito à preservação do meio ambiente. Evidente que, em tudo isso, o bolso, a balança e o espelho acabam convertendo-se nos orgãos mais sensíveis do corpo: amigos fiéis ou letais inimigos.

Estacionados no presente! E o passado? Melhor fugir dos fantasmas que essa palavra pode ressuscitar. Por que correr riscos desnecessários. Noticiário, formas de pensar, argumentos sobre causas e efeitos, compromissos, engajamento social ou político, conhecer tradições, cultura e raízes… Tudo isso só complica as coisas.

Para quê olhar para trás se ao redor tudo está se apresenta positivamente? O importante é curtir o que a terra, a existência, a produção crescente e o poder de aquisição oferecem neste exato momento.

Prevalece a miopía de usar, abusar e jogar fora – tudo se torna descartável! O “viver bem”, desfrutando toda e qualquer possibilidade de fartura, conforto e benesses, toma o lugar do “bem viver”, responsável e solidário com os pobres e excluídos, com o planeta e com as gerações futuras.

Quanto ao futuro, amanhã será outro dia! Nada de projetos, eles podem antecipar desgraças. Nada de empenhos para toda vida. Melhor saborear a vida como ela se apresenta. E partilhar pelas redes sociais, viver duas vezes.

Em vez de prever e elaborar um plano, bastam as respostas imediatas para problemas imediatos.

Plano para quê, se as coisas mudam com a velocidade de um toque digital na telinha do smartphone.

Instala-se, desse modo, o império do hoje absoluto. A colheita pura e simples desconhece a tarefa lenta e laboriosa de preparar o tereno, lançar a semente e cultivar a fragilidade do nascimento e do crescimento.

Inútil acrescentar que tal imediatismo do presente responde, em boa medida, à própria linguagem da Internet e das redes sociais. Nestas novas formas de comunicar-se, fatos e notícias são simultâneos. Tudo ocorre online.

A história não figura como um entrelaçamento entre passado-presente-futuro, e sim como um espetáculo grandioso e inédito, a ser desfrutado diante de nossos olhos e ouvidos. Em outras palavras, não há história, apenas um suceder-se descontínuo e desconectado de “presentes”.

Neste documentário, o educador e filósofo Mario Sergio Cortella, com o auxílio de mais duas especialistas, nos conduzem ao interior do universo da juventude atual, tanto da área urbana quanto da rural.

Escola Fagundes dos Reis: 90 anos de história, conhecimento e saudades

A Escola Estadual Fagundes dos Reis é mais uma das escolas destaques de nossa cidade Passo Fundo. Completou noventa anos de história voltados à educação pública, de qualidade social.

Vida que se vive. Vida que se constrói história. Construção da ponte entre conhecer, viver, sentir, transformar e guardar. Será que 90 anos guarda muitas histórias? Quantas vidas foram necessárias para escalar 90? Quantas saudades cabem dentro de 90 anos de história, de conhecimento e saudades?

Para responder tantas indagações é necessário voltar no tempo. Acionar o túnel. O túnel da história. “Fagundes, Fagundes. É a ti que te saudamos neste instante. Os teus anos de trabalho. Tornam-te o mais importante… Nesta escola grandiosa desde pequenos começamos…” O hino é saudosista, porém traz na essência a chama do amor de quem passa pela escola e a saudade inevitável que carrega.

O ano era 1928. No Rio Grande do sul, as políticas públicas direcionadas a área da saúde em Passo Fundo  iam “de vento em polpa”. Era fundada a Vila Vera Cruz com mais de 40 ruas. Mas precisamente no dia 30 de 1928. Algo importante para a cidade de Passo Fundo tornava-se realidade. Fundada a Escola Joaquim Fagundes dos Reis.  Escola semente do presente, passado e futuro.

Hoje revivemos esse tempo. Tempo de sonhos. De amor. De conhecimento. De entusiasmo. Era de fartas colheitas educacionais.

Época que ser professora ou professora era disfrutar de até 12 salários mínimos. Era vivenciar o glamour, o respeito da profissão. Uma das coisas mais marcante da escola é a receptividade e respeito com os profissionais. Tanta gente. Tantas vidas poderiam dar seus valiosos depoimentos, porém o espaço é para uma pessoa. Insignificante pessoa. Insignificante? Sim. Levando o tempo de chegada à escola.

Precisamente há um ano chegava a esta escola um professor de Língua Portuguesa. Há um ano, porém as palavras me faltam para expressar tamanha gratidão para esta escola e para as pessoas que nela fazem acontecer. O ponto forte é o acolhimento. O respeito que se tem pelo profissional. Senti-me orgulhoso por encontrar um lugar onde se torna fácil trabalhar, estudar e ser feliz. A felicidade vem trazida pelo coração e ofertada dia a dia pelos inúmeros alunos que ainda motivam e dão energia. Apesar das adversidades esmagadoras de governos ingratos.

Viva! 90 anos é a história celebrada nessa última semana de setembro. E essa semana muitos eventos foram promovidos para rememorar as saudades de quem vive e de quem viveu. Em especial preparamos o Espetáculo Coordenado por mim e pela colega Heloísa Gremmelmaier. Espetáculo intitulado “90 anos de História, Conhecimento e Saudades”.  Com isso você pensa que é você que leva e ensina o conhecimento para jovens maravilhosos e se surpreende quando o conhecimento é construído na sua vida. E mais gratificante é ver a emoção advinda daqueles que ensinamos e aprendemos.

 

Depoimentos sobre o momento celebrativo na Escola

 

“ Entrei só com a parceria Laércio, a direção, apresentação, organização e atuação foi contigo! Parabéns por explorar as habilidades artísticas dos nossos alunos …foi show!! (Heloísa – Colega).

Enorme satisfação fazer parte dessa história, foi realmente incrível, fazer novas amizades, dar boas risadas … simplesmente incrível e espero que venham ainda muitas apresentações. Obrigado pela oportunidade “Lalá” e Fagundes. Professor, sempre continue espalhando essa tua alegria e boa vontade por todos os lados. Porque ela está em falta em muitos lugares. Nunca gostei de português kkkk, mas só por saber da animação da tua aula já me faz querer vir pra escola (Davi Vieira – Aluno e integrante do grupo de apresentações).

Parabéns Laercio, você é competentíssimo, e nesta escola então, com estes alunos merecem os parabéns! (Glaziela – Colega).

Muchas felicitaciones a la gran familia de vuestro querido colegio……. el compromiso de un educador que siempre brinda su compañia, amistad y autoestima a su alumnado para que realicen sus sueños….felicitaciones. El prof. Laercio siempre aporta su compañia a los estudiantes estimulando su crecimiento personal y promoviendo la participacion en las diversas actividades y compromisos de su centro educativo. muchas felicitaciones desde uruguay. (Juan – Professor do Uruguai)

Parabéns prof. Laercio belíssima apresentação. Muito lindo. Você é uma inspiração para todos nós. ( Maria Alcione – Colega)

 

Muitas pessoas passaram por este estabelecimento de ensino levando em suas memórias as lembranças dos professores, da convivência e de histórias de conhecimento e amor. Por isso, é inevitável que muitos passem por este lugar e digam: como lá eu fui feliz. Fomos felizes. Vivemos. Aprendemos. Muitas pessoas que hoje são reconhecidas na sociedade passaram por aqui como: Luis Felipe Scolari (Felipão), Juliano Roso – Deputado.  No presente, a história está sendo feito por Laercios, Davis, Educardos, Larissas, Claudetes, Mirellas, Roberts, Júlias, Biancas, Anas, Rogers, Mateus, Valters, Suelens, Fernandas, Shelsis, Jaínes, Leonardos, Gabrielas. Muitas vidas. Que ficarão registradas para sempre.

Votem em mulheres que respeitam as mulheres

Ao mesmo tempo que uma onda conservadora cresce no país,
a primavera feminista mostra a força das mulheres
contra o avanço de todos os tipos de preconceitos
representados pelo inominável.

 

A realidade é a seguinte: temos menos mulheres atuando na política do que o Afeganistão. O dado foi divulgado em março de 2018 pela União Interparlamentar Internacional (UIP), com base em dados de janeiro do mesmo ano. Foi levado em consideração o número de assentos ocupados por mulheres nas duas casas (Câmara ou Casa Baixa/Senado ou Casa Alta) de seus respectivos congressos.

Estamos na lanterna do mundo ocupando a 161ª posição de um ranking de 186 países sobre a representatividade no poder executivo. Atrás de todos os demais países do continente americano. O levantamento foi realizado pelo Projeto Mulheres Inspiradoras, que luta pela participação feminina nos espaços de poder. Para chegar às conclusões foram cruzados dados fornecidos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ONU e Banco Mundial.

Somente 17 destes países têm chefes de governo mulheres, ou seja, cerca de 92% do planeta é governado por homens. Através deste estudo é possível se estimar que aí por 2065 as mulheres conseguirão ocupar metade das cadeiras do governo do Estado no país.

Como consequência da ausência de mulheres nos espaços de decisão muitas (para não dizer a maioria) das políticas não são pensadas para mulheres. Mais do que nunca as mulheres bradam para serem ouvidas e o que se escuta, muitas vezes, é que essas demandas são “mimimi”.

Ao longo dos últimos anos o feminismo vem tomando cada vez mais forma seja nas redes sociais ou nas rodas de conversa. Mulheres passam a ter compreensão do machismo reforçado diariamente pela sociedade e já não se calam diante destes abusos. Não se calam diante de tanto feminicídio, relacionamento abusivo, desigualdade de gênero.

E isso tem incomodado muitos. Incluindo o candidato à presidência que não deve ser nomeado.

Por muito tempo (cerca de 30 em vida política) este senhor destilou seu ódio, machismo, misoginia, homofobia e racismo e agora as mulheres se cansaram de ver uma pessoa de tanta influência fortalecendo essas ideias. Ao mesmo tempo que uma onda conservadora cresce no país, a primavera feminista mostra a força das mulheres contra o avanço de todos os tipos de preconceitos representados pelo inominável.

A rejeição do eleitorado feminino, de acordo com as pesquisas do Datafolha, atingiu 49%. Isso se materializou no grupo de combate ao político criado no Facebook e que passa de um milhão de participantes. A ideia saiu da rede social e já se materializa em atos que devem ser realizados em todo o país no dia 29 de setembro.

Como dizia um áudio que recebi pelas redes sociais, “Ele é o atraso que o país não merece ter e nós mulheres não vamos deixar ele vencer”.

Para mudar a realidade machista em que vivemos e minar os discursos de ódio que, atualmente, parecem ser exaltados e considerados normais, é preciso sim mostrar nossa indignação com quem propaga esse tipo de posicionamento. É preciso que mulheres falem o que lhes incomoda, suas demandas e anseios.

Precisamos de mulheres que falem com outras mulheres, que pensem pelas mulheres, que se unam às mulheres. Mais do que votar, precisamos eleger mulheres trabalhadoras para o governo, para que o país respeite a vida das mulheres.

Precisamos nos organizar e nos unir.

Eu e tu, até sermos todas.

A nova juventude e a escola humanizadora

Precisamos de uma geração crítica, de pensamento
complexo e com comportamentos mais humanos.
Sem isso, pouco ou nada muda.
E aí, podemos contar com você?

 

A geração atual de jovens mudou e mudou muito. A velocidade com que os estudantes ou alunos mudaram nos últimos dez anos foi profunda. As transformações são de diferentes ordens: o acesso à telefonia, internet, tecnologias e fontes de informação extremamente diversas (apesar de reconhecer o abismo social entre ricos e pobres no Brasil) são bastante evidentes. O convívio no interior da sala de aula reflete muito isso.

Se no passado recente tínhamos apenas a televisão, a escola e os pais figurando como as principais fontes de informação, a escola e especialmente os professores cumpriam uma função específica, sendo responsáveis pela apresentação dos principais conhecimentos científicos para a próxima geração. A responsabilidade de apresentação do máximo de conteúdos era fundamental, já que, se não fossem apresentados pela escola, resultariam em lacunas no conhecimento dos alunos.

Quanto à geração atual de jovens, mesmo com a infinidade de dificuldades econômicas e sociais (cabe ressaltar que estamos regredindo profundamente nos últimos anos), grande parte dos jovens possui celular, algum tipo de internet e acessa todo dia conteúdos diversos. Além disso, existem aplicativos de filmes e uma infinidade de redes sociais que ampliam muito a fonte de informação. Ou seja, existe uma distância grande relacionada ao que os estudantes possuem de fontes de informação e, em alguns casos, de conhecimento fora da escola.

Essa infinidade de estímulos condu-los a desenvolver capacidade de atenção múltipla dividida de formas surpreendentes e, muitas vezes, pouco criteriosas ou amadurecidas no que vale ou não a pena focar (se o jovem não acreditar na importância de algo, vai migrar sua atenção rapidamente para o celular). Assim, será possível identificar que a escola e a sala de aula estão competindo com outras tantas atrações listadas anteriormente. Se essas questões não forem levadas em conta, estamos perdendo a essência que a educação atual precisaria se fundamentar, ou seja, na humanização.

Se essa diferenciação fizer sentido ao leitor e se essa nova geração de jovens for profundamente diferente, a escola e a sala de aula precisam se transformar. O professor não pode mais acreditar que ensina conteúdos e, se eles não forem todos ensinados, os seus estudantes não irão mais aprender.

Na minha experiência, se a escola se construir num espaço onde os estudantes são convidados a se encantar com os conhecimentos, onde sejam aguçadas as curiosidades sobre os conteúdos mais interessantes com ações pedagógicas dotadas de sentimentos e significados, formaremos mais que alunos. Formaremos seres humanos.

Discutir temas atuais, combinados com conteúdos e reflexões que humanizam os seres, reforma a escola levando-a a cumprir um papel fundamental na construção de um Brasil melhor. Precisamos de uma geração crítica, de pensamento complexo e com comportamentos mais humanos. Sem isso, pouco ou nada muda. E aí, podemos contar com você?

Esta reflexão foi publicada, originalmente, no Jornal Impresso Educação e Debate do CMP Sindicato, Ano 2, número 4, Agosto 2018. Conheça mais em http://cmpsindicato.com.br/

 

Quem sou eu?

Nós somos constituídos por pessoas. Eu não sou eu.
Eu sou o outro. A vida do outro que viveu pra mim.
E eu vou constituindo outras pessoas. Assim nós nos tornamos eternos.

 

Embora eu saiba que sou um ser gerado por Salete e Otávio, Procópio e Iracema, Hélia e Wilkerson, Mercedes e Arno. Ainda fico me perguntando quem mais me “gerou”?  Quem sou eu?

Primeiramente sou esse ser sim. Sou ser fruto de um lugar muito pobre. Brincava com alguns objetos confeccionados por meu pai. Feitos de madeira. Carreteis eram rodas. Sabugo de milho eram os bois. Eram de sonhos. Quantos sonhos! Brotavam de uma criança. Um dos primeiros desejos. Como o mar está para a praia. E a praia para o mar. Muito cedo. Tão cedo que antes de raiar os primeiros flashes de luz solar ele apareceu. Por volta de 5 anos. É dessa constituição que quero falar. É de quem me concebeu. É quem me fez esse eu.

Me pego pensando. Fui constituído. As pessoas me constituíram no eu que sou. Esse eu profissional. Sentimental. Completo. Esse “eu” sonho. Ser professor. Tudo se encaminhou para esse foco. Lembro-me da primeira palavra que decorei. A luz de lampião. Numa casa de chão batido. Copiava mecanicamente. Talvez uma das poucas escritas que haviam. Fecho os olhos e vejo. Uma lata amarela. Isso. Uma lata. A lata poderia se transformar em muitas coisas. Mas naquele momento ela me ensinava. A escrever. A decodificar. Borella. Borella. Era o nome do óleo de soja.

Quando ingresso na escola. No interior. O mundo se abriu. A cada dia reafirmava meu sonho. Quero ser professor. Salete é o nome da pessoa que me ensinou a gostar dos livros. Das letras. Fecho os olhos e vejo. Como se fosse hoje. Seus lábios pronunciar as mais belas palavras. As mais lindas. As histórias incríveis. Ursinho. Abelha. Rei e sua cadeira feita de couro de piolho. Os gestos não se apagam. Um menino sentado à frente. Ela dizia: “vocês podem ser o que vocês quiserem. Sonhem. Vocês serão prefeitos. Professores. Vereadores. Então sou “Salete”, quando hoje conto histórias e meus alunos brilham os olhos.

 

Nós somos constituídos por pessoas. Eu não sou eu. Eu sou o outro. A vida do outro que viveu pra mim. E eu vou constituindo outras pessoas. Assim nós nos tornamos eternos.

Sou “Claudete”, quando penso incondicionalmente nos meus alunos. Quando me preocupo se eles não entendem a matéria. Quando sou simpático e amável. Quando avalio da melhor forma, colocando-me na vida de cada ser que ali está.

Sou tanta gente. Sou eu. Sou o outro. Sou “Luciane” e “Carmen Schons” na medida em que meus alunos aprendem a escrita tanto no inglês ou em português. Sou “elas” quando vibro em perceber que meus alunos construíram um belo texto. Sou “as duas” quando deixo recado de incentivo no final das produções textuais. Essas professoras deixaram marcas positivas em mim. Que as reproduzo em outros. Sou “Luciane” quando uso a dureza sem perder a ternura. Sou “Carmen” quando sento ao lado de meus alunos e pratico a escrita orientada.

Eu poderia ser Laercio. Mas Laercio só, não. Sou eu e mais um monte de gente num único ser. Você já percebeu? Você não é você. Eu não sou eu. Eu sou “Marlete”. Sou “Sônia” quando ensino com entusiasmo e carinho a disciplina para a qual fui designado. Sou “Marlete” quando gesticulo querendo entrar no cérebro de cada um. Quando passo o gosto pelo estudo. Sou “Sônia” quando escrevo com uma caligrafia perfeita e amo a literatura.

Depois disso, sei quem sou. Sou eu. Sou os outros. Sou a vida dos outros. Sou a eternidade dos outros em mim. Sou você. E você talvez possa ser um pouco de mim.

CAIXA DE TEXTO:

A qualidade de nossa vida social está intrinsecamente ligada com a nossa capacidade de conviver, de associar-se, de mover-se, de construir acordos e projetos coletivos, de agregar. (Nei Alberto Pies) https://www.neipies.com/somos-se-temos-palco-em-busca-de-reconhecimento/

Veja também