Velha ou nova política no Brasil? O que o novo tem de velho e o velho tem de novo?
A ideia da “república democrática” é uma das tantas contribuições
da Revolução Francesa. Os revolucionários de 1789 pretendiam transformar o homem
e a sociedade através da política republicana, caracterizada pela busca do consenso,
da negociação, do respeito ao jogo eleitoral.
Também da temperança, da consolidação do princípio majoritário
e da proteção das minorias. Enfim, consagrava o exercício da política para produzir
uma sociedade civilizada.
No Brasil dos últimos 4
anos, estamos assistindo ao renascimento do autoritarismo em que se nega espaços
à política e, em seu lugar, é colocada a manipulação da voz das ruas, clamando por
“vingança” e não por “justiça”.
Os primeiros 11 artigos da Carta de 1988 que tratam dos Princípios
e Direitos Fundamentais, estão sendo solenemente esquecidos e desprezados. Eles
nos remetem às instituições que, consolidadas, produzirão uma sociedade civilizada.
Entretanto, para os segmentos reacionários da extrema-direita,
me parece, tais princípios estariam dentro do que chamam de “velha política” que
deve ser revista ou eliminada em nome de uma “nova ordem”.
A velha política defende
que a melhor sociedade é a pluralista – que tenha vários e diversos centros de poderes,
mesmo que conflitantes. Entende a democracia como o reino do diálogo e do compromisso.
Velha política que sustenta o processo eleitoral não como critério
de razão, mas de legitimidade. Que, com profunda sensibilidade pelo seu significado,
não aceita que símbolos religiosos sejam instrumentalizados em favor de uma ordem
vinda do além – nem de Jesus encontrado na goiabeira, nem de pastores engordando
o bolso com falsos milagres e galgando postos na política.
Velha política onde juiz não pode ter lado, salvo o da verdade.
Que vê na corrupção algo a ser combatido. Mas garantir o processo legal também.
Velha política que não tolera um presidente medíocre, cercado de medíocres, fazendo
um governo medíocre.
Velha política que insiste em defender o meio ambiente em um país
que consome 20% dos herbicidas do planeta e praticamente aboliu os mecanismos de
controle e inspeção, e, onde a ministra da Agricultura, ostenta o constrangedor
apelido de “musa do veneno”.
Velha política que defende um fim de vida digno para os idosos
e não vendê-los para o sistema financeiro, como almeja o governo Bolsonaro.
Velha política que se recusa a aceitar e organizar a vida social,
segundo um plano unitário. Ao contrário, vê com bons olhos a diversidade, a dissidência
e a pluralidade. A extrema-direita gritará histéria, isto é balbúrdia!!!
Matam a educação no Brasil desqualificando professores e professoras, que agora são declarados, junto com a classe artística, inimigos da nação.
Faz tempo que estão matando a
educação brasileira. Faz tempo que não cuidam da escola pública, para que ela
possa prover uma educação de qualidade. É fato, só cego que não queira ver. E
chegamos ao pior: bem recentemente, escolheram artistas e professores como os
inimigos da nação.
Como professor da rede pública
municipal e estadual, sempre lutei para que a escola pública tenha qualidade
social. Não a qualidade dos números ou das estatísticas frias, mas a satisfação
que a escola pode produzir na medida em que é mediadora da convivência social e
da construção do conhecimento.
Escolas públicas com qualidade social existem às pencas, mas não há reconhecimento. Reconhecer a qualidade e o sentido de pertencimento de todos com a escola somente em campanhas de TV em rede nacional. Parece perigoso reconhecer, verdadeiramente, o esforço fora do comum que muitos professores, professoras, estudantes e pais fazem por este Brasil afora para manter suas escolas de pé, com o mínimo de estrutura e decência.
As greves e paralisações dos
professores Brasil afora revelam a luta pelo reconhecimento profissional que os
mesmos foram perdendo ao longo das últimas décadas. Para os profissionais da
educação, a educação não é um fim em si mesma, mas é meio para estimular e
projetar no imaginário das crianças, dos jovens e dos adultos as condições
subjetivas, materiais e sociais para que cada um conquiste sua vida e sua
felicidade.
Professores reclamam condições materiais e subjetivas para que possam exercer função de alimentar esperanças para a superação da vida sofrida da maioria de seus estudantes e de toda comunidade onde atuam através da escola. Reclamam apoio para implantar propostas pedagógicas que considerem a organização dos sujeitos para a conquista dos direitos e construção de sua dignidade.
A
pergunta é: a quem interessa manter a escola pública tão sufocada e tão
maltratada?
Sempre é urgente e
necessário perguntar o que é uma boa escola, uma escola com qualidade social.
Responder o que é uma boa escola nos desafia a pensar as escolas que fazemos,
cotidianamente, para torná-las cada dia melhores. Da mesma forma, o ser humano
precisa responder o que é uma vida boa. Vida e escola se entrecruzam, cumprindo
finalidades distintas e complementares na vida das pessoas.
O mais incrível é que quando a sociedade se mostra disposta a debater qualidade na educação, os professores/as são atacados e apontados como responsáveis pelo insucesso escolar. E o que é mais grave: as peculiaridades de seu ofício começam a ser entendidas como privilégios, não como direitos. Professores e artistas passam a ser tratados como inimigos da família e da sociedade.
O maior crime dos professores é
lutar pela dignidade da sua profissão e pela qualidade da educação pública. O
maior crime é que na escola pública, apesar de tudo, ainda há conhecimento de
qualidade social. O maior crime é que professores, organizados através de seus
sindicatos, ainda denunciam as mazelas da educação brasileira e exigem
mudanças. O maior crime da educação brasileira é que ela ainda resiste, para
dar aos brasileiros e brasileiras, as bases para sonhar com uma sociedade
diferente.
Enquanto o Brasil considerar os
investimentos na educação como gasto e não como investimento, continuaremos a
ser uma nação pobre e medíocre. Um país, uma nação que não permite o
desenvolvimento integral, crítico e soberano de seus cientistas, pesquisadores
e pensadores está fadada ao fracasso cultural e econômico.
É bravo quem luta quem luta pela educação como
um direito de todos.
Sonho e luto muito para que a educação seja prioridade, que as escolas sejam de qualidade e que o trabalho dos educadores seja reconhecido por toda sociedade. Mas, cotidianamente, tenho que arregaçar as mangas, os meus pensamentos e as minhas forças criativas para realizar o melhor trabalho como professor, sem descuidar da minha responsabilidade de lutar por melhores condições de trabalho do professor e da aprendizagem dos educandos e educandas. E de me somar com as forças de toda comunidade escolar, sobretudo dos pais dos estudantes e das organizações vivas do entorno de nossas escolas para que nossa educação tenha como rumo a qualidade social.
Além de afirmar, resta perguntar: No Brasil que vivemos, que educação
queremos e precisamos?
Coragem! Tempos difíceis tentam
abater a educação integral, tão bravamente construída e alicerçada por
pensantes mentes brilhantes como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Maria Nilde Mascellani, Florestan Fernandes, Miguel Arroyo,
Jaqueline Moll e Paulo Freire, para citar alguns.
Por sermos seres holísticos bio-psico-sociais e espirituais, é quase impossível afirmarmos ter um caráter harmônico.
Ao perguntar à qualquer pessoa se
ela possui bom caráter, quase sempre e de imediato, a resposta é sim;
normalmente em tom convincente.
Mas entenda que o caráter pode
estar sendo questionado, muitas vezes, de forma isolada: sobre um
relacionamento por exemplo, ou no processo seletivo de uma empresa.
Segundo Reich, o universo do
caráter é complexo, eu diria quase freudiano.
Sabemos que ética, existe ou não, naquilo que você faz, quando ninguém
está te olhando.
Por sermos seres holísticos
bio-psico-sociais e espirituais, é quase impossível afirmarmos ter um “caráter
harmônico”.
À exemplo disso vemos que, por um
momento ou outro, podemos simplesmente trair a si próprios quebrando uma
promessa pessoal, ou uma dieta, ou uma novena, mas não quebra de forma alguma
um contrato com outrem (isso é louvável).
Acredito em que na vitrine da vida é onde expomos o nosso “trigo limpo
“, ou sustentamos a pau e corda aquilo que gostaríamos de ser na integralidade,
mas, ao menos ali, o somos.
Mas ainda assim é um fragmento da
nossa construção e nos mostra que nossa intenção é o grande pedreiro desta
jornada, mas queremos ser mestre de obras, engenheiro e um dia ao meu ver, o
arquiteto.
Isto não desmerece nossos
esforços, nem desconstrói o que conseguimos ser nesta vitrine, mas, é a parte
pronta do caráter humano.
As falhas nesse contexto da
construção desta “catedral” chamada caráter, o transforma num processo
demorado, em razão do aprendizado humano, das boas e más experiências, das
dores e prazeres necessários ´`a existência humana, do ego e suas artimanhas
tal qual o “pan’ da mitologia grega, trocando os ovos dos ninhos, pelo prazer
de ver a bagunça, risos….
Que o desejo pleno da construção
do caráter harmonioso, seja seu caderno de caligrafia, onde almeja-se a beleza,
a limpidez e a clareza do que somos.
Paz e luz!
“Se não possuíssemos olhos, ficaria mais fácil aceitar uns aos outros pois teríamos que confiar no sentimento nutrido pelo amor e não em estereótipos. Portanto quando você enxergar um casal com uma disparidade vertiginosa de diferenças estéticas não julgue pois alí pode realmente estar o gérmen de um verdadeiro amor”.
As vítimas podem desenvolver problemas de saúde, como depressão, distúrbios alimentares, toxicodependência, além de se sentirem incapazes de voltar a criar relações afetivas saudáveis.
A
violência doméstica é um padrão de comportamento abusivo, onde uma pessoa constrange
outra num contexto doméstico. Essa violência pode assumir diversas formas, tais
como, abusos físicos, verbais, emocionais, econômicos, etc., e pode ser
praticada por homem ou mulher contra qualquer membro da família. O perfil da
vítima geralmente se assenta em crianças, adolescentes, idosos, portadores de
necessidades especiais e mulheres.
Infelizmente,
como a realidade nos mostra, a maioria esmagadora das vítimas de violência
doméstica são mulheres. Nesse passo, registro, a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as
Mulheres da Organização
das Nações Unidas (ONU) afirma que a violência contra mulheres é uma
manifestação da desigualdade histórica na relação de poder entre homens e
mulheres.
O
título do presente texto faz referência ao clássico
filme americano “Sleeping whit the enimy” (Dormindo com o inimigo), de 1991,
onde a atriz Julia Roberts, interpretando Laura, após o casamento,
passa por situações repudiantes com seu abusivo marido, Martin, interpretado
por Patrick Bernig. No suspense, Laura sofre com violência física e psicológica
no lar do casal até que um dia resolve simular um afogamento, fazendo Martin
acreditar que estaria morta, fugindo, então, das suas garras e abandonando o
seu passado.
Embora o filme acima
referido tenha sido produzido em 1991, ainda hoje é possível encontrar diversos
casais que se encaixam no perfil abusivo proposto no seu roteiro, o que mostra
que, por mais que a legislação tenha avançado, a cultura de opressão à mulher
parece estar enraizada na sociedade brasileira.
Essa
violência ocorre quando o abusador acredita que o seu abuso é aceitável,
justificado ou improvável de ser reportado a terceiros. É nesse contexto, via
de regra, que a violência doméstica se desenvolve. As vítimas ficam
encurraladas e acabam por preferir o isolamento, seja pela “aceitação”
cultural, pela falta de recursos financeiros, pelo medo, pela vergonha ou, às vezes, para
proteger os filhos.
“E isso acontece pelo simples fato de que os homens acreditam que podem fazer o que bem entenderem conosco. Quando falamos de estupro temos que ter claro que não estamos falando de sexo: estamos falando de poder. Estamos falando de violência”.
Em outros casos, a própria vítima não percebe ou não compreende que está em uma relação abusiva. Acreditando que apenas a violência física configura a violência doméstica, as vítimas encaram como normal diversas formas de abuso psicológico, como ameaças, isolamento, humilhação em público, críticas incessantes, negligenciamento constante ou a manipulação psicológica.
São
vários os reflexos negativos da violência doméstica. As vítimas podem desenvolver
problemas de saúde, como depressão, distúrbios alimentares, toxicodependência,
além de se sentirem incapazes de voltar a criar relações afetivas saudáveis.
Outro reflexo negativo é o denominado “ciclo de abuso intergeracional” que,
segundo especialistas, cria a imagem em crianças, submetidas a este meio, de
que o abuso é algo normal e aceitável.
Uma característica comum
entre os agressores é o fato de terem sido vítima ou testemunha de abuso
durante a infância, reproduzindo esse comportamento na idade adulta. Quem
cresce sendo abusado, ou presenciando o abuso, se tornará um abusador. A
interrupção deste ciclo é tão importante na diminuição da violência doméstica
do que as próprias medidas para gerir os abusos.
Quando
uma relação abusiva é identificada sempre se faz a seguinte pergunta: “Mas por
que ela não abandona o companheiro?” Já respondemos a esta pergunta antes, mas,
com o perdão pela tautologia, vamos repetir: Na maioria dos casos, as vítimas ficam
encurraladas, seja pela falta de recursos financeiros, pelo medo, pela vergonha ou, às vezes, para
proteger os filhos.
Portanto,
a resposta à pergunta acima não é tão óbvia quanto parece e quase que na
totalidade dos casos, a vítima precisará da ajuda de familiares e de amigos ou,
ainda, dependendo do grau de estresse a que estiver submetida, a vítima
precisará da ajuda de profissional da área da saúde.
É necessário se ter muita
compreensão com a vítima.
Para
a responsabilização do agressor, na área criminal, deve a vítima procurar uma
Delegacia de Polícia e relatar os fatos ocorridos, fazendo um “registro de
ocorrência” e, se a agressão foi física, será preciso fazer um exame médico, o
que será requisitado no ato do registro. A vítima pode comparecer sozinha para
ao ato do registro que não possui custo algum. Não é necessária a presença de um
advogado.
Ainda,
se desejar, no ato do registro da ocorrência, a vítima poderá solicitar medidas
protetivas de urgência (MPUs), descritas na Lei 11.343/06 (Lei Maria da Penha) como,
por exemplo, o afastamento do lar do agressor e a proibição de manter contato,
entre outras. Descumprindo essas medidas de proteção impostas estará o agressor
sujeito à prisão, além de responder pela prática de novo crime.
Os
países subdesenvolvidos, como é o caso do Brasil, são campeões nos índices de
agressões contra grupos vulneráveis e, como o tema central do texto, é a
violência doméstica contra a mulher, vamos nos reportar especificamente, agora,
ao crime denominado na legislação criminal como “feminicídio”, palavra nova que
se refere à uma prática antiga.
O feminicídio é definido
na legislação penal como “o assassinato de uma mulher por razões da condição de
sexo feminino”. A pena para este crime é de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. Os
estudos apontam que mais do que 10 (dez) mulheres são assassinadas todos os
dias no Brasil, possuindo a 5ª maior taxa de feminicídios no mundo.
Neste
contexto, a tipificação criminal do feminicídio foi apontada por especialistas
como uma importante ferramenta para denunciar a violência sistêmica contra
mulheres em relações domésticas. Na maioria dos casos, quando o agressor é
íntimo da vítima, até chegar-se a uma violência fatal, a mulher é vítima de uma
série de outras violências de gênero, tal qual referimos antes: violência física
ou psicológica.
O
feminicídio, por ser uma forma qualificada do crime de homicídio é considerado
um crime hediondo, nos termos da Lei 8.072/90, assim entendidos como aqueles
mais reprováveis e que, por conta disso, acarretam ao seu autor um grau mais
severo de tratamento jurídico-penal.
Há
que se estabelecer uma diferença conceitual entre “femicídio” e o
“feminicídio”. Para esclarecer ao leitor (que não tem obrigação de conhecer o
Direito), o que estamos tratando neste artigo é o “feminicídio” (o assassinato
de uma mulher por razões da condição de sexo feminino), trata-se de um
crime motivado pela diferença de gênero. Já o “femicídio” é o homicídio
praticado contra mulher, mas não por esta condição, não se trata de um crime
motivado pela condição de gênero.
Assim,
o feminicídio não define o assassinato de todas as mulheres. Veja-se que, por
exemplo, uma mulher que é morta após um roubo sofre o crime de latrocínio. De
outra banda, uma mulher que sofre ameaças do companheiro – ou de um
ex-companheiro – e que venha a ser morta por ele é uma vítima de feminicídio,
pois o caso, ao que parece, envolveu discriminação à condição de mulher.
O feminicídio é a
instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da
morte. Essa prática precisa ser combatida por toda a sociedade como um todo. Se
você vê uma agressão e se cala, você é conivente com ela. Lembre-se que a
violência pode estar em qualquer lugar, que não existe um perfil básico de
agressor e que a culpa nunca é da vítima.
Infelizmente,
vivemos em uma cultura punitivista onde parece que a maior preocupação é sempre
a punição do agressor, mas a violência doméstica é uma questão muito mais
complexa, estrutural, que não se resolverá pelo Direito Criminal pura e
simplesmente. Todos os seguimentos da sociedade devem estar engajados contra a
violência doméstica, de mãos dadas, como forma de transplantar essa cultura
machista e do patriarcado, atacando o problema pela sua raiz.
Além da punição dos
agressores é preciso investir em instrumentos de prevenção à violência
doméstica, implementando políticas públicas contínuas e articuladas em rede, a
fim de que ao menor indício de violência doméstica seja o casal acompanhado por
profissionais técnicos preparados para atender e contornar o problema antes da
“evolução” do cenário desvirtuado.
Seria
interessante, nesse ponto, que os municípios implementassem “grupos
socioeducativos” para homens autores de violência doméstica e “grupos de apoio”
para mulheres vítimas, no intuito de evitar o agravamento do quadro e dando um
tratamento especializado a todos os envolvidos (não esquecendo, logicamente,
das crianças e adolescentes que eventualmente estejam suscetíveis a este meio).
Finalmente,
friso, se você é vítima de violência doméstica procure uma Delegacia de Polícia
para relatar o fato e saber sobre os seus direitos. E, se você é testemunha de
violência doméstica, denuncie! Quando a causa é nobre, o ditado popular deve
ser reescrito, pois, nesse caso, em briga de marido e mulher, se deve meter a
colher. E, não esqueça: Se você vê uma agressão e se cala, você é conivente com
ela.
Autor: William Garcez, Delegado de Polícia no Estado do Rio Grande do Sul. Pós-graduado com especialização em Direito Penal e Processo Penal. Professor de Direito Penal da graduação e da pós-graduação da FEMA. Professor de Direito Penal e Processo Penal do CERS/Ad Verum. Professor de Direito Penal e Legislação Penal Especial da Casa do Concurseiro.
O Brasil, como sabemos, está longe de ser um país com padrões civilizados, situação que deverá avançar com o atual presidente.
Entidades que defendem a vida em nosso país, estão alarmadas com
as decisões do presidente da República. Como verdadeiro Cavaleiro do Apocalipse
– Os cavaleiros, Peste, Guerra, Fome e Morte, são descritos na terceira visão profética
do Apóstolo João no livro Bíblico de Revelação –, Bolsonaro vem pautando seu governo
por excessos assustadores, brincando com a vida dos cidadãos.
Na verdade, ele vem sendo coerente com o que sempre foi. Foi expulso
do exército por ter planejado explodir bombas no Rio como protesto por aumento salarial.
Quando do impeachment de Dilma Roussef, homenageou um dos maiores assassinos da
ditadura militar, Brilhante Ustra.
No seu governo, o Estatuto
do Desarmamento, aprovado em 2003, virou letra morta. Por meio de decreto, Jair
Bolsonaro, ampliou o porte de armas de fogo para 20 categorias.
Assim, 19,1 milhão de brasileiros
poderão ter o porte de armas facilitado, segundo cálculos do Instituto Sou da Paz.
Mais armas representam mais mortes, em um país que já é o recordista mundial em
mortes por armas de fogo.
Não é tudo. O decreto autoriza crianças e adolescentes a praticar
tiro desportivo mesmo sem aval judicial. É a receita perfeita para a repetição de
tragédias nas escolas, tão comuns nos Estados Unidos.
A façanha de conter a violência num contexto de pobreza, tensão social e hormônios explosivos talvez se explique mesmo pela descoberta do afeto cada vez que um conflito chega ao fim.
Já o pacote “anticrime” do seu Ministro da Justiça tem o condão
de autorizar execuções sumárias pelos agentes da segurança pública.
Determinou o fim das lombadas eletrônicas e dos pardais nas rodovias
federais, o que beira à total irresponsabilidade ao ignorar o papel fundamental
dos controladores de velocidade no combate às mortes no trânsito. Segundo o Presidente,
é para dar “paz aos motoristas”. Seria a paz dos cemitérios?
Agora, quer acabar com a multa para quem desrespeita a regra de
transportar crianças na cadeirinha, substituindo por uma mera advertência. Menos
mal que a atitude insana do Presidente foi rebatida com veemência e será desautorizada
no Congresso.
Tem mais. Quer acabar com o exame toxicológico dos caminhoneiros,
quando sabe-se que tais profissionais, para cumprir longas jornadas de trabalho,
utilizam-se de remédios estimulantes. Outro disparate amazônico.
O Brasil, como sabemos,
está muito longe de ser considerado um país com padrões civilizados. Cerca de 40
mil pessoas morrem em acidentes de trânsito, muitos deles verdadeiros crimes.
É o quinto no ranking da OMS com mais mortes no trânsito. Enquanto
isto, o Presidente, literalmente, insiste em dirigir o país na contramão! Haveria
alguém com lucidez, tranquilidade e firmeza para conduzir o governo?
A severidade na aplicação das punições vem resultando na diminuição
das mortes em nossas ruas e estradas. Isto, entretanto, parece não sensibilizar
o chefe da Nação que, previsivelmente, o máximo que consegue é identificar-se como
herói dos motoristas irresponsáveis.
Quando o prefeito de NY, Bill de Blasio, disse ser Bolsonaro “um
ser humano muito perigoso”, as hostes bolsonarianas foram à loucura. Mas, convenhamos,
o prefeito Blasio apenas fez uma constatação. Estaríamos diante de um dos Cavaleiros
do Apocalipse?
Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento crítico e reflexivo. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. (Nei Alberto Pies)
O Homeschooling, ao contrário do que afirmam, não será, no Brasil, salvamento seletivo para um modelo educacional moribundo?
Puxada estranhamente pelo Ministério
da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ao invés do Ministério da
Educação, a MP do Homeschooling, sob pretexto de liberdade de escolha,
encontrou a solução para qualificar a educação brasileira: tirar todas crianças
da escola.
Aliás, todas não, só algumas. O
modelo já funciona muito bem em países desenvolvidos, com taxas de
analfabetismo perto do zero e alto desenvolvimento humano, e vem dar voz a
pouco mais de 15 mil estudantes, segundo a ANED, deixando no vácuo mais de 50
milhões de estudantes que esperam uma resposta de qualificação da educação
formal, que em milhares de casos é a única chance de romper ciclos de pobreza.
A grande motivação dos defensores do modelo, seria a violência e o
bullying sofrido pelos estudantes, além de incompatibilidade moral e religiosa
das famílias com o sistema escolar. Mas será mesmo? Ou seria um processo de
salvamento seletivo para um modelo educacional moribundo?
Para reflexão, lembro dos 4 pilares
da Educação para o Século XXI da UNESCO: aprender a conhecer, aprender a fazer,
aprender a viver com os outros e aprender a ser.
Nessa rica e contemporânea visão de
Educação Integral, estão presentes habilidades cognitivas e socioemocionais.
As cognitivas, dão conta dos
multiletramentos como leitura e escrita do mundo, habilidades mais técnicas e
mecânicas, mas imprescindíveis para qualquer pessoa ser produtiva e
independente na sociedade atual.
As socioemocionais, tratam justamente
de “aprender a viver com os outros” e “aprender a ser”, desenvolvendo empatia,
valorização da diversidade, resiliência e percepção do outro como seu par,
temas que podem ser colocados em segundo plano no Homeschooling, criando um
hiato social irreparável em toda uma geração.
Temos problemas gravíssimos na
educação brasileira, gerando falta de percepção de valor pelos estudantes e
famílias de diversas classes sociais. Mas, se o barco está furado, precisamos
nos concentrar em consertá-lo, e não oferecer salva vidas para quem pode,
enquanto olham de longe o barco naufragando com 99,9% dos passageiros
agonizantes.
Para Ana Pennido, trazer os jovens para dentro do processo de construção do conhecimento e incluir de fato a tecnologia no dia-a-dia das salas de aula estão entre as prioridades de uma educação mais eficaz, justa e condizente com a aprendizagem de indivíduos do novo século. Leia mais clicando aqui.
Amilton Rodrigo de Quadros Martins Líder do InovaEdu/IMED – Laboratório de Ciência e Inovação para a Educação, e do Núcleo Norte Gaúcho de Letramento em Programação do Instituto Ayrton Senna. Membro da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa e Articulador do Arranjo do Desenvolvimento da Educação Norte Gaúcho. Pesquisador e ministrante de Cursos e Palestras sobre Educação Maker e Aprendizagem Ativa. Senador na JCI – Junior Chamber Internacional, com atividades de formação de jovens em comunicação e liderança. Professor de Graduação, Pós Graduação e Estágio Docência de Stricto Sensu da IMED e Professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias, Comunicação e Educação da UFU-MG. Doutor em Educação (UPF/2017) com bolsa CAPES PDSE na Universidade de Roma Tre, com tese em Criatividade e Teoria do Flow usando Robótica Educacional, Mestre em Educação com foco em aprendizagem e criatividade através de programação de computadores para jovens e graduado em Ciência da Computação.
Ignorar a Natureza, o meio ambiente, o capital e o patrimônio natural, assim sabemos, faz parte da estúpida ação que consolida o predomínio das forças produtivas da economia.
Em apenas dois séculos de
existência, pode-se dizer que o impacto de dois movimentos basilares da
economia – o industrialismo e o consumismo – alinhavado a uma histórica
estrutura disfuncional que permeia a economia global e imiscuído na órbita do
mercado capitalista, conseguiu desequilibrar completamente a relação Homem-Natureza;
Homo sapiens-Terra.
Ocorre que a estratégia
econômica organizada pelos países que rapidamente foram se industrializando ao
longo dos últimos tempos – centrada na fixa ideia do crescimento econômico
ilimitado – obrigou a comunidade humana a conviver com a insidiosa destruição
do meio ambiente; destruição ajudada, seja dito, pela ação antrópica.
Dito isso, vê-se que a
devastação ambiental pode ser claramente percebida desde pelo menos os últimos setenta
anos; momento em que começou a ficar evidente que o modelo econômico em curso iniciava
esforços no sentido de transformar simples desejos humanos em necessidades
materiais, o que levou a consolidar a aquisição material como sinônimo de
prosperidade (paradigma da conquista).
No entanto, a linguagem
teórica precisava mensurar isso tudo. Eis que entrou em cena o recém-criado
indicador PIB (pós-1945), usado desde então como métrica de avanço econômico.
Na verdade, usado como “contabilidade” do crescimento econômico que compara a “riqueza”
produzida pelas nações.
Mas
observe-se algo relevante: à medida que algumas questões políticas foram simplesmente
“transformadas” em temas econômicos, rapidamente os economistas criaram a
relação PIB/censo populacional, traduzindo-se no PIB per capita, ou seja, numa perspectiva quantitativa que visava comparar
o desempenho das nações no espaço e no tempo. O estofo dessa ação, importa
deixar claro, terminou por fazer do crescimento econômico o principal dogma da
economia moderna.
Desde então, tudo passou a
ser “pensado” (e sonhado) em termos de expansão quantitativa da economia – a
essência do crescimento. Sob essa inspiração, dir-se-á que a dosagem de mais
crescimento (aumento do PIB, em destaque) ainda hoje é vista como uma espécie
de “remédio” (milagroso) para curar todo e qualquer tipo de disfunção
(anomalia) social.
O problema, no entanto, é
que o aumento do PIB – além de ocasionar – acaba por encobrir (simplesmente
ignora) qualquer tipo de preocupação com o agravamento da questão ambiental decorrente.
Se o PIB está subindo, a economia está indo muito bem, obrigado! É assim que reza
a cartilha do pensamento convencional.
Ora,
diga-se em bom tom: se a boa saúde de qualquer governo, tenha ele a coloração
político-partidária que tiver, depende artificialmente do crescimento do PIB, a
verdadeira (e desejada) boa saúde do contingente populacional depende sobretudo
da vitalidade dos ecossistemas.
Aceite-se ou não, goste-se
ou não, isso é fato sólido, e não mera retórica de ambientalista. No entanto,
como o que predomina é a força do poder econômico – portanto, aqueles que
realmente mandam e determinam as coisas no mundo – a produção material global,
até mesmo por ter se tornado muito maior que a capacidade de suporte da Terra,
acaba por promover o enfraquecimento dos ecossistemas.
Em outro artigo, publicado no site, defendo que nada pode ser superior à defesa da vida. Se o aumento produtivo dos dias de hoje vem ocorrendo na contramão do equilíbrio ecológico, afetando sobremaneira a qualidade social da vida humana e aproximando-nos assim de um perigoso colapso ambiental, acelerando de vez o impasse civilizatório, somente nos resta com alguma coragem engendrar um percurso diferente de tudo o que fizemos até agora.
O resultado? Simples assim: à medida que a política do crescimento – quando emerge entre nós – consolida o mercado de consumo, a economia global segue “engolindo” os recursos naturais e os ecossistemas, piorando desse modo as condições de vida das populações.
As
consequências? Simples também de ser entendida: deterioração ambiental
crescente; algo evidenciado cada vez mais no esgotamento do capital natural (solos aráveis, rios,
mares, florestas, polinização, fauna, flora e outros) com o consequente
empobrecimento biológico da Terra.
Mas, todavia, repare no
seguinte: para o pensamento econômico tradicional (algo fácil de presumir) tudo
isso que foi colocado acima pouco importa; tanto é que esses recursos, dito capital natural, valiosos por definição,
não aparecem nos apontamentos do PIB.
O PIB, simplesmente, ignora-os.
Certo mesmo foi o que disse, em seu tempo, o senador norte-americano Robert
Kennedy (1925-1968): “O PIB mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a
pena”.
Ignorar
a Natureza, o meio ambiente, o capital e o patrimônio natural, assim sabemos,
faz parte da estúpida ação que consolida o predomínio das forças produtivas da
economia. É difícil romper com isso.
Pela visão economicista, o
que deve ser considerado não é a Natureza, mas sim o capital físico criado pelos homens (máquinas, rodovias, carros, fábricas,
roupas, eletrodomésticos e outros); afinal, é isso que permite o crescimento do
PIB. Outrossim, é isso o que dá vitalidade aos governos. Seja dito que, aos donos do mundo, pouco importa se toda a rica
biodiversidade vira alvo de desconfiguração.
À luz de alguma
sensibilidade, anuncia-se uma infeliz constatação: as forças produtivas ignoram
que o sistema-vida, do jeito como o conhecemos, somente prospera devido a
existência do mundo natural; daí a assertiva de que a natureza é, sobretudo,
matriz da existência de tudo o que vive.
Atualmente, tendo como cenário
o esfacelamento dos principais serviços ecossistêmicos, a ultrapassagem das
fronteiras planetárias (limites ecológicos) e a crescente e preocupante perda
de biodiversidade que afasta cada vez mais de nossas vistas várias espécies
animais, não é exagerado afirmar que estamos na iminência de um colapso geral.
O perigo nos espreita.
Pois bem. Voltando o olhar
crítico aos desajustes axiais da economia-mundo que resvalam sobretudo na
questão ecológica, vale agora fazer uso de terminologias marxistas para dizer
que parte considerável da disfuncionalidade econômica ora sentida está, de
fato, na raiz do “reino da necessidade material”, manifestada na incessante (por
isso sufocante) “necessidade” de atingir crescimento econômico, esquecendo-se
num canto qualquer o “reino da liberdade”.
Em
sentido geral, a busca do desenvolvimento (mais qualidade) tem sido
constantemente inferiorizada frente à busca do crescimento (mais quantidade), e
a conquista material (paradigma de progresso) cada vez mais tende a gozar de
supremacia diante de qualquer outra condição socioeconômica.
Por parte do
convencionalismo econômico, repare nisso, cria-se assim condição de justificar
o atual comportamento da economia tradicional que, bem sabemos, continua usando
os serviços prestados pelos homens da atualidade
para consolidar dois movimentos axiais bastante prejudiciais à causa ecológica:
a economia de mercado (com seu renovado desejo de aumentar o nível de produção)
e a sociedade de consumo (com a prática do consumismo, algo que já se tornou
patológico).
É curioso notar algo mais: mesmo
que hoje, diante da superioridade do mercado de consumo capitalista, orientado
por decisões de cunho mercadológico, pareça pouco provável que as orientações e
práticas da humanidade consigam atingir um nível de produção industrial que use
menos taxa de consumo material e energético das sociedades industriais,
mitigando os efeitos nocivos que recaem sobre a natureza e o meio ambiente, é
necessário, tanto quanto desejável, que enxerguemos a porta de saída para fugir
desse “modelo”, criando a partir daí condições para que se levante as bases de
uma civilização verdadeiramente humana.
É sabido que os principais problemas
da humanidade – dos quais a destruição do meio ambiente empreendida por mãos
humanas ocupa lugar central – não serão resolvidos (ou mitigados), apenas, e
tão somente, com avanços científicos e tecnológicos, mas, sim, quando
devidamente combinados à ação dos próprios humanos, dado o alcance de
conscientização planetária (projeto comunitário).
Na prática, espera-se então que esse espírito comunitário propicie o
reconhecimento de duas importantes causas: 1) que todos nós estamos abrigados
sob o mesmo teto (a Casa da Vida, o Lar Terrestre) da qual somos meros hóspedes,
e não os donos e; 2) a aceitação de que somos, todos, partes (e participantes) da
própria Natureza.
Utopia ou não, temos que pensar assim. É preciso ainda
que saíbamos, antecipadamente, que todo e qualquer animal homem é também terra fértil; é húmus, de onde etimologicamente vem a palavra “homem”.
Sob essa
inspiração, é predito que o principal desafio colocado à humanidade talvez seja,
de fato, o de construir uma nova economia.
Uma nova economia que sirva o Ser Humano e que entenda que os processos de
produção material devem se subordinar à lógica da ecologia; compreendendo que a
Natureza tem a função de limitar o avanço da economia.
Por fim, em reforço ao que foi dito, carecemos mesmo de um novo modelo de economia que tenha a cor verde da sustentabilidade ambiental, e que, mutatis mutandis, seja plenamente capaz de aproximar o Homem moderno do mundo natural numa relação benfazeja, colocando a ação econômica sob orientação do bem comum; portanto muito diferente da distrofia atual.
Sobre o autor: (*) Economista e ativista ambiental. Autor de “Civilização em desajuste com os limites planetários” (Ed. CRV), entre outros. prof.marcuseduardo@bol.com.br
Sofia Cavedon nasceu numa cidade da Serra Gaúcha: Veranópolis. Foi estudar em Porto Alegre e lá fixou residência, exerceu sua profissão de professora e atua na política, em defesa da educação pública de qualidade, da cultura, do esporte e da democracia, dentre outras bandeiras de sua atuação.
Na sua trajetória política, foi dirigente do Sindicato dos Servidores
Municipais de Porto Alegre e, em função de sua atuação e liderança, desafiada
pelos colegas a representar a sua categoria de professores na Câmara de
Vereadores de Porto Alegre por cinco mandatos e agora assumiu como deputada
estadual.
Sofia Cavedon é Destaque na Educação neste site justamente por
demonstrar a importância dos professores e professoras na política. Sua atuação
política e cidadã demonstra que, ocupando espaços políticos, os professores e
professoras, através de mandatos parlamentares, podem contribuir para a
elaboração de políticas educacionais, para a defesa da educação pública de
qualidade e para o resgate da dignidade na profissão docente.
Sofia é reconhecida por seus pares como uma liderança forte, convicta e
batalhadora. Conheçamos mais dela por ela mesma.
NEI ALBERTO PIES: Nasceste no
interior do estado, numa cidade da serra gaúcha e atuas e vives hoje na Capital
do RS, Porto Alegre. Como, quando e porque o seu interesse pela educação e pela
política?
A educação constituiu minha
família e utopias originárias. A mãe formou-se professora primária e isso abriu
a porta da autonomia e liberdade para ela que desde criança trabalhava em casa
de família. Ensinou para seus cinco filhos que educação era tudo na vida. Não
conseguiu fazer faculdade e. mesmo só com vinte horas de contrato e meu pai
operário serralheiro, ela afirmava que seus filhos fariam e não sossegou até
que isso acontecesse.
Eu me criei inquieta como ela, no meio de cadernos e livros, rezas e
trabalho. A política era proibida no interior.
Como nasci em 63, fomos
educados e disciplinados para a obediência e pelo medo. Desperto para as
injustiças e para a solidariedade no grupo de jovens da igreja, mas isso se
tornará engajamento político na faculdade e no trabalho de professora já em
Porto Alegre.
NEI ALBERTO PIES: Sua
trajetória de estudante, líder sindical, vereadora e agora deputada estadual.
Qual é a motivação deste seu trabalho na política?
Fui fazer educação física na
UFRGS cujo vestibular era uma epopéia para nós lá no interior! Foi um divisor
de águas na minha vida pela experiência da casa de estudante – CEURGS -, pela
efervescência cultural da capital e pelo trabalho de professora que começou no
Colégio Sevigné onde estudamos os pensadores construtivistas e a metodologia de
Projetos, inovadores na época.
Os concursos para a Rede Municipal e depois para a Estadual de Ensino – conquistas da redemocratização – abriram as portas para a carreira pública e aí eu comecei a militar pela educação de qualidade para todos e todas, a discutir os projetos de mundo que estavam em disputa nas primeiras eleições diretas, me filiei ao Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras e assumi a liderança sindical.
Visita da CECE à Escola Mário Quintana, no bairro Restinga. Na foto, a vereadora Sofia Cavedon aponta para os problemas que as crianças relatam que ocorrem perto da escola.
NEI ALBERTO PIES: Como o seu
trabalho de militância ligado à juventude, aos grupos e coletivos de jovens,
mulheres e trabalhadores vem colaborando com sua trajetória de professora,
liderança sindical, vereadora e agora deputada estadual?
Minha militância começou de
fato com o exercício da docência na periferia da cidade discutindo a
redemocratização da educação, transformando a prática pedagógica que era
autoritária, excludente e seletiva, advinda da ditadura militar.
A Educação Física me deu um lugar alargado de coordenação de atividades
gerais da escola municipal Ildo Meneguetti, de muita relação comunitária e
afetiva com os e as estudantes. Também fui alfabetizadora e regente de classe
de segundo e quarto anos.
Quando passei pela gestão da
Secretaria Municipal de Educação como Secretária, penso que consegui manter o
mesmo compromisso que me mobilizou e que pelos quais muitos mobilizei na luta
sindical e nas salas de aula a valorização dos e das profissionais da educação,
a construção de uma educação inclusiva, democrática, de qualidade para cada um
e cada uma das estudantes.
NEI ALBERTO PIES: Na sua visão,
qual é a importância das mulheres professoras na política sindical e
educacional?
As mulheres estarem nos espaços
públicos e profissionais é em si um processo revolucionário. A acumulação
capitalista as pressupõe no trabalho gratuito de reprodução da vida. Por isso
no Rio grande do Sul temos mais de 300 mil mulheres no trabalho doméstico e
somente cerca de 90 mil tem carteira assinada, por exemplo.
Acumulamos essas funções quando fomos para o trabalho fora do lar e
também por isso as categorias onde majoritariamente trabalham as mulheres são
com menor remuneração como a das professoras.
Tomar consciência disso e fazer
as rupturas necessárias desde a produção cultural dos meninos e das meninas até
a construção das políticas afirmativas reparadoras da desigualdade, é nossa
tarefa política primordial se queremos alterar a vida das mulheres e da
sociedade desigual.
NEI ALBERTO PIES: Quais são,
hoje, os maiores desafios da profissão docente?
Compreender que a defesa de sua
profissionalização digna e da realização do seu objeto de trabalho depende da
luta geral de todos os trabalhadores na defesa do valor do trabalho, dos
valores da vida diante da mercantilização, da financeirização da economia, da
concentração de privilégios, terras e renda que se impõem pela violência e pelo
pensamento único dominado através das mídias empresariais. A educação para
esses será pobre, alienadora e excludente. Os professores desvalorizados e
aplicadores de conteúdos gerados por empresas.
Nosso desafio é sermos construtores de nossa valorização junto com a
melhor educação para os filhos e filhas dos trabalhadores e trabalhadoras.
NEI ALBERTO PIES: Quais são, hoje, os maiores desafios da escola pública
de qualidade social (que interessa a todos os envolvidos nela: estudantes,
professores, professoras, pais e mães)?
De duas ordens: disputar o
financiamento de uma educação como direito de todos e todas e defender a
educação integral, democrática, humanizadora e produtora de sujeitos de
pensamento livre.
Esse financiamento que os
defensores do Estado Mínimo dizem que é impossível, está na riqueza do Pré-Sal,
está nos impostos que o lucro financeiro não paga e buscar isso na mudança
da correlação de forças nas ruas, na organização social, comunitária, sindical
e popular.
NEI ALBERTO PIES: Qual a
importância da atuação e organização dos sindicatos de professores neste
momento histórico do país e da educação em nossa cidade?
Trata-se nesse momento de
defender um país de direitos sociais e políticos que a geração anterior à nossa
buscou com suas vidas na redemocratização do Brasil, que escrevemos na
Constituição de 88 e que está severamente ameaçado.
A luta na defesa da Previdência
significa defender todo a Seguridade Social dos brasileiros e brasileiras com
sua universalidade e solidariedade geracional. Estão em risco o Sistema de
Previdência Social que poderá se tornar um seguro individual e miserável, o
Sistema Único de Saúde e o Sistema Único de Assistência Social que serão
desconstitucionalizados se passar essa reforma, que na verdade é uma
destruição!
NEI ALBERTO PIES: Como o seu
mandato de Deputada Estadual está direcionando pautas e ações em defesa da
escola pública no Rio Grande do Sul?
Com muita honra e alegria, a
partir da articulação de toda a bancada do PT na Assembleia Legislativa, eu
estou presidindo por dois anos a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência
e Tecnologia e estou dedicando a esse espaço institucional toda a força
política para dar voz aos educadores e educadoras, para as comunidades
escolares, aprofundando o debate e exigindo respeito e investimento na área.
Desde fevereiro já pautamos em
audiências públicas a falta de Recursos Humanos, o tema das obras escolares, a
defesa das bibliotecas, a escola de tempo integral, a educação indígena
escolarizada, a UERGS- nossa Universidade Estadual do Rio Grande do Sul -, a
violência nas escolas. Todos os temas têm desdobramentos para a busca de
soluções. Logo lançaremos um Observatório da Educação com números e dados que
nos ajudarão muito a caminhar, lançaremos a Mostra das Boas Práticas
Pedagógicas e faremos um grande Seminário no mês de outubro.
NEI ALBERTO PIES: Uma frase
pela qual valha a pena viver.
Se a vida é assim injusta,
violenta e desigual é porque foi produzida por homens e mulheres, não é natural
nem inexorável. Outro Mundo é possível, vamos fazê-lo!
NEI ALBERTO PIES: Uma frase que
defina Sofia Cavedon.
Uma inquieta professora que ama
a vida e as possibilidades de transformá-la.
NEI ALBERTO PIES: Uma frase pela
qual valha a luta pela educação.
A educação não muda o mundo,
ela muda as pessoas que podem transformá-lo. É do mestre Paulo Freire
NEI ALBERTO PIES: Uma mensagem
a todos os professores e professoras do RS e do Brasil.
Sobre
o brilho reflexivo da arte, derrubaram o manto ofuscado do preconceito e da
irracionalidade. Aquilo que provoca tuas verdades, que derruba teu pedestal do
elevado status social, que, mesmo
impróprio, faz pensar na possibilidade de tua falta de propriedade, que
escancara as tuas portas e revela tua alma carregada de falso moralismo, tudo
isso que te toca, que te desloca, que te tira do lugar onde você se coloca,
deseja obscurecer, com a tua mania de dizer o que é certo e o que é errado sem sequer
saber ou aceitar, se certo ou errado possa estar.
Por que te assusta tanto a
nudez, talvez o medo de revelar que por baixo das tuas vestes caprichosas
esconde a igualdade que deseja negar e a diferença que não consegue aceitar
porque nunca teve a coragem de ser aquilo que hoje condena?
Por
que o teu Deus merece mais respeito que o Deus ou Deuses de outrem e até mesmo
que o respeito pela defesa da ausência de um Deus? Talvez te seja conveniente
manter as aparências porque te falta a capacidade de aceitar que não deve
aceitar tudo e que, por isso mesmo, também não pode rejeitar tudo o que pode
ser aceito por outro qualquer.
Por
que tuas crianças não podem ser expressadas na dor que sentem, escondidas sob
os luxuosos mármores frios da tua própria morada? Seria porque aquilo que os
olhos não veem o coração não sente ou porque teu coração mente e, por isso
mesmo, deseja que os olhares dos outros não possam ver para dentro do teu ou
porque sabe que tua verdade é frágil que teu filho poder ser teu maior crítico
e destruir teu reinado forjado sobre o lodo do teu conhecimento?
Por quê? Por que matar a
arte? Talvez, porque a arte tenha, mais uma vez, cumprido sua missão: provocar
a catarse humana, despertando em ti o que você guarda reprimido em si mesmo, a persona que é ocultada pelo personagem
que você criou e vê, agora, ameaçado pela arte que te desvela.
Por
isso, por tua fraqueza mórbida, por tua moralidade de “cueca suja”, por tua
insegurança, por tua convicção ameaçada, por teus olhos estarem há tanto tempo
acostumados à escuridão, é que, mais uma vez, sobre o brilho reflexivo da arte,
você derruba o manto ofuscado do preconceito e da irracionalidade que te abate
e te condena ainda mais que a própria arte que tua imbecilidade abate.
“Não é só de pão que vivemos, mas de poesia, como disse brilhantemente William Carlos Williams: “não é fácil encontrar novidades em poemas, mas homens morrem miseravelmente todos os dias por falta do que neles existe”. (Manoel Soares Magalhães)
A tendência é de que este número de “malabaristas” aumente. São
malabaristas reais, frutos de uma sociedade de mercado.
Eles já
fazem parte do nosso cotidiano. Estão diariamente nas principais esquinas de
Passo Fundo aproveitando o tempo do sinal vermelho para oferecer o seu show.
Fazem malabarismos, engolem fogo, equilibram bolinhas, jogam cones para o alto
e os acolhem nos braços com rara habilidade, equilibram-se em pernas de paus,
vestidos com roupas coloridas. Agora, apareceu até um solista de violino, em
uma de nossas artérias mais movimentadas de nossa cidade Passo Fundo, RS.
Verdadeiros
palhaços das ruas: Os malabaristas do sinal vermelho.
João Bosco e
seu filho Francisco retrataram com rara inspiração estes personagens do nosso
dia-a-dia em uma canção composta em 2003: “Penso nos malabaristas do sinal
vermelho/Que nos vidros dos carros/Descobrem quem são/ Uns, justiceiros,
reclamam o seu quinhão/Outros pagam com a vida sua porção/ Todos são excluídos
na grande cidade”. https://youtu.be/CXdmsnOADp8?t=39
Depois do
rápido espetáculo, que precisa ser ajustado ao tempo do sinal vermelho, eles
passam entre os carros para colher o “pagamento” pelo que ofereceram. São
movimentos rápidos, cronometrados e arriscados. É a busca pela sobrevivência no
modelo capitalista neoliberal. E, aí, como diz a letra da canção – nos vidros dos
carros, descobrem quem são –isto é, os verdadeiros mendigos contemporâneos.
“Como não aplaudir e encher o rosto de encanto ao ver um espetáculo de marionetes? Como não se prender na confusa tentativa de compreender como pode, um boneco, fazer tantos movimentos e com uma dinâmica que parece dar vida ao mesmo?” (Elias Foschesatto)
E nós, acomodados em nossos carros, com ar-condicionado, ouvindo uma boa música, também descobrimos naquele pequeno tempo do sinal vermelho os graves problemas sociais que ainda nos rodeiam. Dias atrás, fiquei observando que, diante da abordagem do malabarista, que era um adolescente de no máximo uns 18 anos, a maioria fingiu não ver o que acontecia à sua frente.
Nada, ninguém se abalou, nenhuma moeda. A maioria ignorou o seu
“trabalho”. As janelas dos carros permaneceram fechadas. Os motoristas nem
olhavam, nem reconheciam a existência daquele artista. A questão que talvez
poucos perceberam é que não se tratava de circo ou de teatro, era realidade.
Realidade
social exposta, jogada na nossa frente. Lembrei que a Constituição Federal e o
Estatuto da Criança e do Adolescente rezam que viver não é apenas respirar, mas
a participação em todos os direitos da cidadania, bem como a proteção contra as
agressões, danos físicos, emocionais, sociais, etc.
Sou sempre
receptivo e lhe dei uma pequena recompensa pelo breve show. Quando o sinal
abriu ele voltou para a calçada, contou os trocados até então arrecadados e
começou a se preparar para o próximo número do seu repertório. Até imaginei que
a Secretaria de Serviços Urbanos poderia remunerá-los por aliviar, por breve
instantes, a tensão dos estressados motoristas diante dos problemas do nosso
conturbado trânsito.
Na verdade
andamos todos apressados. Afinal, tempo é dinheiro. Paulinho da Viola, em uma
antológica canção de 1967, retratou esta realidade em Sinal Fechado: “Eu vou
indo correndo/pegar meu lugar no futuro/ me perdoe a pressa/é a alma dos nossos
negócios.” Muitas vezes ficamos contrariados por sermos obrigados a frear e
esperar o interminável tempo de um sinal vermelho.
O correto,
sem dúvida, é encaminhá-los para os órgãos assistenciais. É difícil,
entretanto, não ajudá-los. Ao vê-los não tem como não se recordar de outra
canção, sobre esta verdadeira saga de nossas esquinas. Chico Buarque e Francis
Hime já cantavam em 1993: “No sinal fechado/Ele vende chiclete/Capricha na
flanela/E se chama Pelé/Pinta na janela/Batalha algum trocado”.
A verdade é
que hoje eles fazem parte do cenário urbano das nossas cidades. São o retrato
das desigualdades sociais que ainda nos atormentam e que possuem raízes
históricas como a forma de colonização, a profunda dependência externa do país,
a acumulação de riqueza pelas camadas mais favorecidas da população.
A marginalização histórica de parcelas significativas da nossa gente,
aliadas às práticas administrativas que privilegiam o apadrinhamento político e
favorecem o desvio de verbas, podem explicar a situação de segmentos como
destes “malabaristas do sinal vermelho”.
E a
tendência é de que este número de “malabaristas” aumente. Em março, segundo o
Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, em meio aos 13 milhões destes
últimos já existentes, o Brasil fechou mais de 43 mil empregos com carteira
assinada.
Estes personagens são o resultado do que Karl Polanyi denunciou em 1944
em seu clássico “A Grande Transformação”, segundo o qual de uma economia de
mercado se passou a uma sociedade de mercado. E em qualquer mercado, sempre algo
é descartado.