Início Site Página 190

Os novos velhos

Grupo Maturidade Ativa SESC Carazinho, RS.

A nova geração de idosos é de dar inveja em muito jovem!
Eles fazem academia, viajam, vão a bailes, se reúnem para confraternizar,
para fazer ações sociais… Conheça as transformações que estão
acontecendo na forma de se lidar com o envelhecer

 

O que significa ser velho? É a idade que completamos depois de fazer muitos aniversários? Ou é um estado de espírito que faz com que tenhamos menos disposição? Será que a gente fica velho quando não dá mais pra esconder as rugas e os cabelos brancos? Ou isso não tem nada a ver com a velhice? Segundo a legislação brasileira, a idade de 60 anos é o marco para a identificação de uma pessoa idosa. Mas, segundo o Doutorando em Filosofia e Professor do Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE), Iltomar Siviero, para considerar uma pessoa como idosa é preciso levar em conta sua idade e suas condições de vida, pois ambos elementos estão interligados. “Com o avanço da idade surgem, naturalmente, os declínios típicos das transformações físicas, mentais e sociais. Pessoas em condições de vida precária tendem a ter esses fenômenos presentes ainda mais cedo do que a idade mínima estabelecida para o reconhecimento do ser idoso”, destaca.

Iltomar Siviero
Doutorado em Filosofia
Professor de Filosofia no Instituto Superior de Filosofia Berthier (Ifibe)

Segundo ele, as condições de vida são importantes porque interferem no envelhecimento tardio e até em evitar que certas doenças e demências se manifestem. Mas, por melhor que sejam as condições de vida, elas não atrasam os anos e, com o avanço da idade surgem, gradualmente, dificuldades e lentidão física, afetando diversos órgãos que desafiam as pessoas a buscar novos interesses e formas de relacionamento, impactando, de algum modo, na dimensão pessoal, social e mental/espiritual.

Apesar do ônus que acompanha o avanço da idade, os “novos velhos”, de quem queremos falar, tem aproveitado essa fase da vida de uma forma diferente – pois a forma de envelhecer se transformou e, nos últimos anos, passamos a ter uma preocupação maior com envelhecimento humano. Um bom exemplo dessa preocupação é o programa Maturidade Ativa, criado pelo Sesc, em 2003. Ele tem como objetivo promover a qualidade de vida e o envelhecimento ativo de pessoas com idades a partir de 60 anos (em 2019, será a partir dos 50 anos!). No programa, os participantes se reúnem para conviver, se divertir, confraternizar, aprender, desenvolver seus potenciais, além de realizar trabalhos comunitários e solidários. Esse é um movimento social, que tem por missão construir um novo significado para o envelhecimento, que valoriza o papel do idoso na sociedade contemporânea e estimula a realização de trabalhos comunitários, assim como a prática da responsabilidade social individual.

Em Carazinho, a Maturidade Ativa tem hoje 168 participantes em seu grupo. Eles se reúnem em todas as segundas-feiras para reuniões de continuidade – e seguem cheios de atividades durante a semana. Eles participam de palestras, bate-papos educativos e oficinas (de canastra, bocha, dança e cambio!). O grupo também é presença confirmada nas apresentações culturais promovidas pelo Sesc, como shows e teatros. Como se isso já não fosse o bastante, eles ainda fazem passeios turísticos em grupo e viajam pelo Rio Grande do Sul para visitar outros grupos de Maturidade Ativa. A próxima viagem da agenda é para Erechim, no dia 25 de outubro, para participar do Baile da Primavera.

Segundo o Facilitador da Maturidade Ativa do Sesc Carazinho, Guilherme Augusto Ferreira, os participantes do grupo são muito ativos e querem participar de todas as atividades promovidas. “Muitas vezes nos surpreendemos com a participação deles. Às vezes está um temporal, achamos que ninguém virá na reunião e logo mais de 100 pessoas chegam. Nós ficamos muito felizes de ver que eles têm um envelhecimento tão ativo”, ressalta.

Uma das integrantes do grupo, Dona Dalila, não deixa de participar de nenhuma atividade. Aos 94 anos, ela vem com seu andador e é presença confirmada nos eventos da Maturidade Ativa. “Ela e todas as pessoas que participam do grupo são um grande exemplo para nós. O nosso objetivo é promover a qualidade de vida aos idosos, junto a um envelhecimento ativo. Eles se reúnem para se divertir, confraternizar, realizar trabalhos comunitários e, cada vez, mais valorizar o papel do idoso na sociedade”, enfatiza.

 

O grupo também realiza diferentes ações sociais. No mês de setembro, em parceria com o projeto Brasil Sem Frestas, de Passo Fundo, realizou uma ação para revestir internamente a moradia de uma família carente de Carazinho, em que caixas de leite foram utilizadas para proteger a casa das intempéries do tempo. Os idosos ajudaram e se emocionaram com a história da família.

Como lidar com o envelhecer?

Envelhecer é algo natural e intransferível, que, inevitavelmente, acontecerá com todos nós com o passar de cada dia. Porém, aprender a envelhecer é algo cultural. Segundo Iltomar, para que possamos ter uma relação melhor com a velhice, não podemos ser logrados pelos anos e nos depararmos com ela somente na fase tardia, mas ao longo da vida. “Inserir o envelhecimento humano como uma diretriz e componente curricular nos sistemas de ensino é um dever que precisa ser implementado, a exemplo de portarias publicadas em períodos recentes sobre outros temas ausentes (educação em direitos humanos, educação ambiental e educação para as relações étnico-raciais)”, sugere.

Quando aprendemos a lidar com o envelhecer, não é difícil passar dos 100 anos e ainda manter o bom humor. Assim é a Esther Sauner Barrozo, que completou 102 anos! A família conta que em todos os dias ela acorda feliz, sempre com vontade de fazer alguma coisa! “Atualmente ela cuida da sua saúde e alimentação. De vez em quando até faz uns pontinhos de crochê e está sempre querendo plantar e cuidar das flores do seu jardim. Tem sempre alguém por perto: as filhas e as cuidadoras que se revezam para estar com ela 24h por dia. Ela ama a todas e quer bem as pessoas que lhe ajudam no seu cotidiano”, conta a família.

Esther tem 7 filhas e 2 filhos, 18 netos, 4 bisnetos e 2 tataranetos. A família é grande e está sempre presente em sua vida. “É um convívio intenso! Além da família, ela também recebe muitas visitas de amigos e vizinhas que gostam de visita-la, afinal, ela é um exemplo de vida!”. Para chegar até essa idade com tanta alegria, não tem segredo! Esther sempre levou a vida de forma muito tranquila. Sempre manteve a alimentação saudável e fazia caminhadas diárias. Os trabalhos em crochê eram feitos com frequência até os 101 anos. Além disso, o bom humor sempre foi (e continua sendo) uma constante em sua vida!

É preciso pensar no futuro

Na segunda metade do século XX, aconteceu um crescimento populacional gigantesco, tanto em âmbito mundial, quanto nacional. No intervalo do século passado, de 1900 a 2000, passamos de 1,5 bilhão para 6 bilhões de pessoas no mundo. E a população brasileira passou de 17,3 milhões para 169,8 milhões, sendo que o período de maior crescimento foi pós-guerra, entre 1950 e 1970, que resultam num volume elevado de idosos/as no século XXI, considerando que hoje no Brasil, segundo dados do IBGE, somos 207,7 milhões de pessoas (Senso 2016).

Com o crescimento populacional, consequentemente, cresceu o número de idosos. Em 1940 essa população representava 4,1% do total, e em 2016 a porcentagem aumentou para 14%. A expectativa de vida mudou de 43,3 anos de idade em 1940 para 72,5 em 2007 e 75,2 em 2017; estima-se que em 2050 teremos um número bem mais elevado de idosos do que jovens, pois, comparando aos anos de 1980, em que tínhamos 10 idosos para cada 100 jovens, em 2050 teremos 172 idosos para cada 100 jovens. “Face a esse contexto, grosso modo, listamos que tem crescido o interesse por estudos e pesquisas, necessidade de maior investimento público, maior oferta de serviços e lazer da iniciativa privada, preocupações e impactos no âmbito da família que passa a ser a primeira atingida por essa realidade. Mas a realidade gritante dos descasos e falta de uma política pública séria e contextualizada vai tornando o envelhecimento, lamentavelmente, como um peso e um problema diante da necessidade de gastos com saúde e previdência, em especial. Bastaria olhar as estimativas e pensar políticas de médios e longo prazo, que extrapolem medidas paliativas de um projeto de governo. Precisa-se de um projeto público que leve a sério essa realidade”, alerta o Professor.

Breve história do envelhecer em Passo Fundo: memória, testemunhos e crônicas

O livro, publicado pela Editora IFIBE (selo SALUZ), teve como organizadores: Iltomar Siviero e Agostinho Both. Ele retrata a rica trajetória do caminho percorrido por jovens, adultos e idosos em vista da atenção à condição humana da velhice de muitas pessoas de Passo Fundo, mostrando os grandes feitos do passado e do presente, abrangendo o período de 1989 a 2017. Os textos foram produzidos por diversos autores, representantes das instituições envolvidas na organização de ações em favor dos idosos da cidade e região. Além de uma possibilidade para angariar maior conhecimento sobre as iniciativas em favor do envelhecimento humano em Passo Fundo, também subsidia interessados em dar passos na direção da criação e oferta de oportunidade para o convívio social em vista da promoção e resgate da cidadania das pessoas idosas.

Crédito fotos: Felipe Granville/divulgação Sesc Carazinho.
Matéria originalmente publicada na Revista impressa Contato Vip, Ano XXV, número 286, Outubro 2018. Conheça mais aqui.

Demônio interior

Qual é o sentido da raiva em nossas vidas?
O que ela pode nos oferecer? A raiva pode oferecer tanto
coisas boas como ruins, nós é que escolhemos.

 

O que é? Raiva é um dos sentimentos mais profundos, que vai se mostrando forte ou vingativa. Vivemos com ela, ela é parte de nós. Mas podemos escolher deixar ela ser maior que a gente, deixar ela ser o que é e nos tornarmos pessoas diferentes, pessoas que respiram raiva. Ou podemos escolher não sentir raiva, não respirar raiva, não deixar que ela mude o que somos.

Tudo depende de nós. Quando decidimos estar tristes por causa da raiva do outro é porque queremos. São escolhas, cada um escuta, se magoa com o que melhor lhe convém.

Jornalista Marina Machado analisa livro de Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi,  A virtude da raiva.

Mas somos seres frágeis, em constante evolução, e nem sempre conseguimos nos blindar para escutar e ver somente o que nos convém. Por esses motivos, nossa raiva, nosso demônio interior, deve ser controlado. Devemos encontrar nosso ponto de equilíbrio para assim termos algo de bom para oferecer aos outros. Afinal, não sabemos por onde anda a evolução do outro ser, o quanto sensível ou forte ele pode estar.

Nossas emoções devem ser sentidas por nós mesmos. Se elas machucarem o outro, não exale a ele o que não gostaria de receber.

A raiva é parte de tudo o que queremos mostrar. É tudo aquilo que não superamos carregar sozinhos. Por não vivermos sozinhos, expulsamos de nós o que já não conseguimos carregar e suportar dentro da gente.

Nem sempre conseguimos controlar o que está dentro da gente, perdemos o controle, esquecemos a sensatez, machucamos o outro e a nós mesmos, perdendo a noção de como poderíamos parar com isso.  Então, tudo começa a dar errado em nossa vida e nos perguntamos: – Porque? Será que é meu Deus que quer tudo isso para mim? Não, não podemos culpar nosso Deus ou os que estão próximos da gente pelas coisas que acontecem, pelas nossas emoções desiquilibradas.

Qual é o sentido da raiva em nossas vidas? O que ela pode nos oferecer? A raiva pode oferecer tanto coisas boas como ruins, nós é que escolhemos.

A raiva pode nos ensinar a ter coragem, a nos tornarmos seres mais fortes, nos ensina a evoluirmos com os nossos erros. Problema é que, muitas vezes, só aprendemos quando ferimos alguém com a nossa raiva. Mas sentir esta dor, esta decepção que causamos nos outros pode nos fazer evoluir, mudar de vida. Tudo depende da gente! Cada um com seu tempo, com seu relógio lento ou rápido.

Junto com a raiva temos a violência, tudo por um descontrole que, às vezes, pode provocar algo fatal. O mundo atualmente vem sofrendo com todo tipo de violência, em todos os lugares. Precisamos de equilíbrio e mais paz no coração da gente!

“Em tempos em que se dissemina raiva, ódio e estupidez, é preciso promover a paz”. (Nei Alberto Pies)

Antídoto para intolerância e ódio: promovamos paz

 

Privilégios

Quem se beneficiou ou se beneficia de privilégios
tem o dever moral de ajudar a combatê-los.

 

Eu tenho uma família amorosa, filhos saudáveis, uma casa confortável. Tenho um trabalho digno e uma vida tranquila. Parte disso é mérito meu, a maior parte é privilégio. Eu tive e tenho muitos privilégios. Cresci em um ambiente seguro, onde nunca faltou médico ou comida. Entrei na escola na época recomendada, e consegui concluir o ensino superior. Tive acesso a muitas coisas simples, mas que para muita gente são inacessíveis.

Um privilégio é uma vantagem, uma regalia, um direito que não é acessível a todos, mas apenas a um indivíduo ou grupo. Pode ser algo que distingue uma pessoa das demais.

Alguns privilégios são conquistados com trabalho árduo. Dá para pensar em privilégios transferidos, como quando os pais trabalham e se esforçam muito e podem proporcionar aos filhos uma vida mais fácil, independente das qualidades pessoais dos sucessores. Acho que, se pensarmos bem, algumas pessoas merecem privilégios, pelas qualidades morais, intelectuais ou artísticas que possuem, com as quais contribuem para a sociedade. Pessoas que tornam o mundo melhor merecem nosso reconhecimento.

Mesmo que alguns privilégios se justifiquem por mérito, grande parte é fruto da desigualdade, condição que esses mesmos privilégios perpetuam. No nosso país, muito do que deveria ser básico e universal é para poucos. Educação de qualidade não pode ser privilégio. Saúde não pode ser privilégio. Ter uma casa confortável, alimentação adequada, trabalho digno, infância segura, nada disso poderia ser privilégio.

O privilégio causa distorções difíceis de corrigir. Princípios teóricos interessantes como a meritocracia não funcionam onde há privilégios. Não há como medir adequadamente o mérito ou esforço pessoal quando as condições iniciais são tão diferentes. As distorções causadas pelo acesso inadequado à saúde, educação, lazer, também tem um efeito nefasto no desenvolvimento das potencialidades das crianças e jovens. Quantos grandes talentos são perdidos por falta de acesso a condições básicas de desenvolve-los? Acredito que é um prejuízo incalculável o número de cientistas, esportistas, empreendedores e artistas que o país poderia ter e nunca terá.

Enquanto o básico não for universal, teremos um país injusto, desigual e que não avança no desenvolvimento humano. É certamente um caminho longo o que temos que trilhar para superar essa dificuldade, e penso que quem se beneficiou ou se beneficia de privilégios tem o dever moral de ajudar a combatê-los, cabe a essas pessoas uma parcela maior de responsabilidade pela construção de uma realidade mais digna para todos.

O pensamento e o comportamento

A liberdade e a realização individual é exercitada
nas fronteiras entre as pulsões da dimensão mental primitiva,
a fragilidade do corpo e as imposições do mundo social.

 

 

A importância de avaliar as relações entre pensamento e comportamento foram impulsionadas no século XX por Sigmund Freud, ao demostrar que a singularidade da conduta humana pode ser explicada pelo modo individual de lidar com as três dimensões psíquicas, que são o Id, o Ego e o Superego.

Essas três dimensões, podem ser genericamente caracterizadas como primitiva/instintiva, racional/individualmente elaborada e social/moral, realçando a importância de explicar o comportamento mediante a análise do pensamento. Conjuntamente com as abordagens decorrentes da construção freudiana, a Psicanálise Lacaniana ou a Psicologia Analítica Junguiana, se apresentam como ferramentas para entender, alterar ou administrar condutas.

A disciplina e as técnicas necessárias para avaliar o pensamento, identificando as fronteiras e transições entre o comportamento primitivo, emocional, racional e social devem ser praticadas.

Várias estratégias podem ser empregadas na projeção da atuação, por meio do isolamento ou integração em um grupo, para evitar o mal-estar e experimentar a felicidade, o prazer e a realização. Independentemente da opção, se faz necessário observar que o isolamento é afetado pela realidade exterior e o afeto/proteção fornecido pelos outros é permeado pelo inconveniente do individualismo.

Cada indivíduo deve identificar o tipo de felicidade mais importante para si próprio, sabendo que é impossível chegar a um estado de plenitude.

Nenhuma estratégia irá funcionar como fórmula universal para o comportamento individual, pois as mesmas passam pela singularidade da constituição mental. As auto análises podem auxiliar na adaptação ao ambiente externo, se apresentando com uma chave para a construção da satisfação pessoal.

As insatisfações nas relações entre o indivíduo e a sociedade estão permeadas pelo impasse, das formas de vida mecânicas e tecnológicas, que paradoxalmente restringem os espaços do humano.

A liberdade e a realização individual é exercitada nas fronteiras entre as pulsões da dimensão mental primitiva, a fragilidade do corpo e as imposições do mundo social. A consciência desses contextos movediços, supõe a interpretação da cultura e dos modos de existir coletivos como opções e construções humanas, que decorrem da coerção, da capacidade de renunciar a pulsão e administrar os instintos.

 “Um pensamento, uma escolha, a intuição de um caminho a seguir, são pontos que desenham e sinalizam o processo de transformação”. (Israel Kujawa)

Aprender com as experiências dos outros

Meu novo vizinho e filosofia

A necessidade de nos inquietarmos é cada vez maior.
A superficialidade torna-nos máquinas e não conseguimos enxergar
o que está ali, à nossa frente.

 

Temos um vizinho novo. Trata-se de um rapaz alto e saudável, que chega ao final da tarde e sai bem cedinho. Presumo que seja um trabalhador como qualquer outro, todavia, sua morada é inusitada por estar em um terreno baldio onde existe um telhado e, embaixo dele, algumas caixas de papelão. É ali que o vizinho dorme e onde guarda suas coisas. Sua condição de vida e invisibilidade lembram-me de outro caso bem emblemático.

Uma professora de filosofia conta sobre uma aula frequentada por adolescentes em uma escola pública. Os estudantes foram chegando e fizeram companhia a um grupo uniformizado fazendo limpeza na sala. Alguns minutos depois, a ausência da professora foi sentida e as reclamações pelo atraso foram inevitáveis.

Em meio à estranheza pelo atraso alguém falou: “O que é filosofia?” Os alunos perceberam então que a professora integrava o grupo uniformizado. O episódio resultou em uma aula inusitada, cheia de significado, pois perceberam a condição de invisibilidade do grupo que limpava.

Os alunos entenderam, após uma conversa, que a filosofia propõe-se a ver o mundo à nossa volta, com atenção, com senso crítico e com o intuito de compreender as raízes da experiência humana.

Duvido que alguém tenha saído daquela sala sem ter sido profundamente afetado. Certamente aquela meninada tinha a impressão de que a filosofia fosse algo abstrato, fruto de conceitos que, através da história da filosofia diferentes pensadores elaboraram para entender os valores, a natureza, a beleza, o homem, cada um à sua maneira.

Entenderam que esses filósofos tinham a característica de questionar o mundo considerando as teias das nossas relações cada vez mais complexas.  A necessidade de nos inquietarmos é cada vez maior, por isso ampliaram os questionamentos chegando a mais significados. Os alunos compreenderam a invisibilidade como uma questão forte que precisa ser visitada.

“O trabalho do filosofar não se faz sem o trabalho de adentrar o pensamento de alguns filósofos. Essa entrada é uma armadilha. Entramos no pensamento de filósofos consagrados, mas então percebemos que só podemos assim realmente fazer se deixarmos as coisas se inverterem: é o filósofo que adentra em nós e nos utiliza para voltar a pensar. Perdemos nossa identidade nisso”. (Filósofo Paulo Ghiraldelli)

Crenças do estudante de filosofia

A experiência humana mostra-nos seres que passam por nós sem que sejam vistos. As ciências fundamentam o conhecimento, mas os comportamentos fogem da abrangência delas. Há que manter um afastamento do real, para que enxerguemos o que o pensamento radical nos proporciona.

A superficialidade torna-nos máquinas e não conseguimos enxergar o que está ali, à nossa frente.

Não precisamos estar de uniforme para que sejamos invisíveis. Tantas vezes ignoramos pessoas em função do que a tecnologia permite, fazendo-nos indiferentes ao lugar onde estamos e às pessoas que nos rodeiam. O aparelho celular tornou-se um companheiro inseparável em todos os lugares em detrimento do convívio humano. Preferimos olhar paisagens armazenadas no celular, ao invés de apreciá-las enquanto passamos.

O mundo real passa a ser invisível. Pessoas reais são ignoradas, enquanto vivemos nossas vidas em ritmo alucinante, sem que consigamos ver a verdadeira beleza. Observar o mundo de verdade torna-nos sensíveis e aptos ao aprimoramento da condição humana.

Meu vizinho novo continua lá, invisível em seu modo de vida. Imagino as privações por que passa, imagino a solidão que a noite lhe traz, avalio o frio percorrendo seu corpo e os insetos corrompendo sua pele. Sinto-me cada vez mais impotente diante das desigualdades. A pobreza extrema é uma excrescência imperdoável e a indiferença nos avilta enquanto cidadãos.

Considero a filosofia indispensável. Considero o alhar atento cada vez mais necessário. Enquanto nos inquietamos, o Estado nos brinda com planos elaborados dentro de gabinetes por pessoas dissociadas da realidade.

Essas pessoas dos governos deveriam andar de ônibus, ter seus filhos em escolas públicas e seus sapatos sujos de tanto frequentar os guetos onde pessoas invisíveis amargam a falta de tudo o que traz conforto, saneamento, moradia digna, comida suficiente.

Utopia: a cadeia infinita dos significados

A crise das utopias encontra na população juvenil
sua expressão mais perversa. O ato criativo como estratégia
crítica e política é o importante passo que devemos dar para
garantirmos o bom desempenho da nossa consciência e juventude.

 

É necessário o debate sobre nossas políticas públicas contemporâneas no momento em que nos deparamos com os impasses sobre as mesmas. Me refiro a qualidade de vida, ao compromisso da política social e a educação. Os modelos atuais que movem essas estruturas nos transferem a sensação urgente de melhorias, e é fato. Para isso, um importante passo que precisamos dar para a abertura de reflexões é permitir-se vagar pela utopia.

A utopia é justamente a construção de novas realidades, a partir de fendas simbólicas, no caso, como efeito do ato criativo. Este pode, de forma singular, despertar novas metáforas, lançar interpretações sobre o contexto histórico e abrir diálogos com outros campos de saber¹.

Quando me refiro á utopia eu gosto muito de lembrar as palavras de Eduardo Galeano que a relaciona elegantemente ao horizonte. “Se me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Se me aproximo dez passos, ela se afasta dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais irei alcança-la. Para que então serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”. Aqui, abrimos novos caminhos para outros mundos possíveis.

Desta forma, é importante investigar uma maneira utópica e iconoclasta daquilo que nos desafiamos a refletir. Quais nossas estratégias de crítica na atualidade? Os protestos, ao tomá-los como exemplo, possuem muitas faces que podem ser consideradas como um desafio a autocomplacência ética e a inação gerada pela colisão de otimistas e pessimistas. É importante saber distinguir com clareza os elementos destrutivos dos movimentos de protesto e sua função construtiva.

A crise das utopias encontra na população juvenil sua expressão mais perversa. Bem poderia dizer-se que o desencanto dos jovens e, de uma maneira geral, o declínio das aspirações militantes da população adulta, devem-se ao estrondoso fracasso do socialismo, um projeto que prometeu realizar os sonhos de liberdade, justiça e igualdade negados pela brutal realidade excludente do capitalismo². É curioso pensar nisso, não?

Nosso campo educacional sofre também com a invasão deste desencanto. Estamos freando, com cortes de um governo ilegítimo e a ameaça de um governo que se caracteriza pela imposição totalitária. O que podemos esperar de um conservador nato que nega a evolução das pluralidades?

É fato que a evolução das nossas metodologias de ensino, do nosso modelo educacional, lentamente andou ao longo dos anos passados. A não superação da metodologia tradicional reflete o efeito paulatino dos nossos avanços. Compreender como se passou a ensinar a muitos, ao mesmo tempo, no mesmo lugar, os mesmos conteúdos, com os mesmos ritmos, para chegar aos mesmos objetivos, é compreender como a simultaneidade da sincronia dessas ações, faça com que nossa noção de escola não seja simplesmente a evolução de nosso passado remoto.

Existe uma conservação da nossa metodologia de ensino de nossas escolas que se escoram em um tradicionalismo disciplinar, que negligenciam a flexibilidade de tomar procedências plurais no que se refere ao olhar para a singularidade do aluno e, sobretudo, a singularidade do professor³.

O espaço privilegiado de disciplinarização dos corpos mediante a articulação de estratégias de heterogestão dos pensamentos e atos: obsessão pela ordem, pontualidade, compostura, distribuição dos fazeres e dizeres dentro de uma regulada espaço-temporalidade, hierarquização entre saber formal e informal… ⁴ lembra muito bem aquela conhecida música dos tijolos no muro que Roger Waters deu origem.

Devemos focar nossas direções á contribuição para o redimensionamento das relações sociais travadas no contexto escolar, de modo a que a escola constitua-se efetivamente como espaço de múltiplos encontros, como lócus de socialização, produção e apropriação de saberes necessários à transformação da sociedade em direção a modos de vida solidários e dignos. Os processos de subjetivação e a afetividade, desse modo, são compreendidos em uma perspectiva ética e potencializadora da vida.

A análise que gostaria de discutir é o quão importante nossas políticas públicas, como as nossas escolas públicas, são para o desenvolvimento humano das pessoas, digo, de todas as pessoas. Poderia dizer que ninguém melhor para fazer isso do que os próprios professores regerem o rumo educacional, de maneira social crítica na prática de libertação.

Sofremos grandes ameaças pelas políticas de ajuste e privatização promovidas pelos governos neoliberais, que excluem os que não tem condições de pagar para estudar e que não prioriza a população mais pobre. A redução do gasto público nas áreas sociais ameaça estruturalmente a possibilidade de manter ou de elevar os níveis de qualidade dos processos pedagógicos. Como resultado disso, os pobres tem que conformar-se com escolas pobres, enquanto os ricos mantém o privilégio de escolas ricas, simplesmente pelo fato de poderem pagá-las.

Há os reformistas de plantão que afirmam que o problema do sistema escolar está em sua crise de qualidade, e que a crise de qualidade é, em boa parte, culpa dos docentes que trabalham pouco e mal. Dizem, de forma bastante leviana e enganosa, que com austeridade devemos modernizar o Estado, eufemismo que, até o momento, não significou outra coisa que cortes orçamentários nas políticas sociais.

É importante que busquemos a reflexão dos mais diversos significados que atribuem á compreensão das nossas políticas. Ficar imerso a razoabilidade dessas questões compromete, no sentido não colaborativo, com a superação do tradicionalismo. O ato criativo como estratégia crítica e política é o importante passo que devemos dar para garantirmos o bom desempenho da nossa consciência e juventude.

Referências e citações

¹ Marsillac, Ana Lúcia. “Aberturas Utópicas: pesquisa, arte e psicanálise, 2014.
²  Gentili, Pablo. Alencar, Chico. “Educar na esperança em tempos de desencanto”, 2001.
³ Freitas, Marcos Cezar.  “Forma Social Ética e Inclusão”, 2017.
⁴ Zanella, Andrea Vieira. Molon, Susana Inês. “Psicologia em contextos de escolarização Formal de 2007.

Valores cristãos

Nem todos os cristãos conhecem a proposta de Jesus na sua essência.
Arrisco-me a um decálogo daquilo que considero ser o central
e o núcleo inegociável dos valores cristãos deduzidos
da vida e das palavras de Jesus.

 

Depois de dois mil anos ainda não chegamos a um acordo sobre o que é fundamental e o que é secundário no seguimento de Jesus. Facilmente, toma-se a parte pelo todo, o acidental pelo essencial, o periférico pelo central e nos agarramos a posições que, talvez, Jesus mesmo não se reconhecesse nelas. Eu arrisco um decálogo daquilo que considero, modestamente, ser o central e o núcleo inegociável dos valores cristãos deduzidos da vida e palavras de Jesus.

Defesa da vida. Toda vida merece ser preservada, cuidada, promovida e defendida. Quando falamos de vida estamos falando da humana ou também a vida dos animais e dos vegetais? Dos animais e vegetais podemos, nós humanos, dispor e fazermos o que bem entendermos para o nosso proveito, ou há neles um valor em si que não depende de nós? Eu arrisco dizer que há um erro de interpretação do cristianismo quando pensamos que o “não matar” e “que todos tenham vida e vida em abundâncias” seja aplicável somente aos humanos. Eu não tenho dúvida de que se Jesus vivesse hoje seria vegano e ambientalista. E por quê? Porque o senhor da criação não é o homem, mas Deus, e a culminância da criação não é o Homem, mas o sábado da confraternização da comunidade de vida.  Essa consciência, hoje, é tranquila entre os mestres e entendidos, como não seria para Jesus, mestre dos mestres?

Opção pelo vulnerável. Quando há conflito e a vida está em jogo, o cristão não deveria ter dúvida de se colocar do lado mais frágil e injustiçado, chamando à conversão o que, pretensamente, se acha superior e “do bem”. Mas e se o lado frágil for pecador? Ficar do lado dos fortes contra os fracos, dos bem constituídos contra os de fora das “rodas sociais e das igrejas”, dos supostos “do bem” contra os supostos “do mal”, significa renegar a mulher adúltera e ficar do lado dos que queriam apedrejá-la. Para um cristão não há os “do bem” e os “do mal”. Somos todos pecadores nos esforçando para ser bons ao lado de outros pecadores fazendo o melhor para serem bons. Só Deus é bom. Mas, e o marginal? Atire a primeira pedra…Mas, e o marginal? O ladrão? Atire a primeira pedra… A vida do marginal e do ladrão não nos pertence. Prendemo-los, se for o caso, mas o julgamento não nos cabe e não nos cabe o direito de vida e morte. Mas, bandido bom não é bandido morto?  Atire a primeira pedra….

O Reino de Deus. O Reino de Deus é a meta e o fim último da vida e das palavras de Jesus e, por dedução, dos cristãos. Quem não prega o reino, prega a Igreja ou se prega a si mesmo e seus interesses. Quem prega o Reino de Deus, prega o senhorio e o domínio de seus valores. Quais valores? Os valores do Reino são monetários? Só por perversão poderíamos dizer que ganhar dinheiro seja uma benção de Deus. Só por perversão podemos dizer que acumular capital seja um valor do Reino de Deus. Só por perversão…A teologia da prosperidade é uma perversão. Dizer que dá para servir a Deus e seu reino e ao dinheiro, é perversão. Mas o dinheiro não é mau. Sim, é bom, se distribuído. Mas, isso é comunismo. Se cada um ficasse com os seus peixes e seus pães não haveria o milagre da partilha. Mas, isso é comunismo. “Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus”.

Os bens do Reino de Deus. Há bens que são pessoais e privados. Sobre os bens pessoais e privados tudo o que um cristão pode dizer é: se foram adquiridos justamente, desfruta-os e partilhe quanto puder, pois nem todos têm. Não dá para dizer mais do que isso quanto aos bens privados. Os bens do Reino de Deus, contudo, são bens comuns, são bens que dizem respeito a todos e seria bom que todos tivessem. A paz é um bem do reino. A justiça é um bem do reino. O resultado da justiça federal e da paz, e a paz como fruto da justiça, leva ao maior dos bens: a felicidade. Felizes e bem-aventurados os que vivem e proclamam a justiça e a paz, deles é o reino dos céus. Uma coisa há em comum entre os bens privados e os bens do Reino, ambos não são puro mérito humanos, mas graça e dádiva divina.

A Família. Muito se fala sobre os valores da família cristã. Muito se fala sobre a sexualidade como parte da família cristã. Mas, o que de fato Jesus falou da família e da sexualidade? Jesus amava sua mãe, certamente. Respeitava seu pai, certamente. Mas não era o sangue o critério do respeito e do amor. A família de Jesus não tem nada a ver com o que os supostos defensores da família dizem. A família de Jesus é ampliada. Quem são meus irmãos e meus pais senão aqueles que fazem a vontade do Pai? É moralismo, sem base hermenêutica, continuar insistindo na família sanguínea e nuclear, sem se abrir à grande família dos que acolhem, agem e pregam os valores do Reino de Deus e seus bens. Defender a família e pregar a violência, a tortura, a morte ao outro, aos fora da família, é algo diabólico e não cristão. Quanto à sexualidade, convenhamos, Jesus falou muito mais “da mesa” do que “da cama”. A família se reúne e acontece, mesmo, é na mesa! A família acontece, no amor, ao redor da mesa. Isso é o essencial, a cama é secundária!

O amor. O amor é a síntese mais acabada do cristão. Amar é igual respeitar, cuidar, zelar, promover e ajudar o outro, sem vingança, sem ódio e sem ressentimentos. O perdão é o fruto mais genuíno do amor. Quem ama é livre para perdoar até mesmo o inimigo e o que lhe causa o mal. Quem ama não quer o mal do maldoso. Quem ama quer o seu bem, a sua conversão, não sua morte. O amor é paciente, o amor é generoso, o amor tudo suporta, até a ignorância arrogante dos que dizem que alguns não merecem amor.

Espiritualidade e Oração. Jesus vivia segundo o Espírito Santo de Deus. Todos vivemos segundo um espírito. Alguns vivem segundo o espírito da estética. Outros, segundo o espírito do eu e do apego. Outros, ainda, segundo o espírito do capitalismo. Outros, ainda, segundo o espírito de porco a fuçar e se lambuzar na lama. Para cada um segundo seu espírito. O cristão vive segundo o Espírito Santo de Jesus. O “espírito da coisa”, isto é, o espírito de Jesus, é o que foi dito nos seis primeiros itens, e os que seguem, desse decálogo. Não há nada de exotérico e nada de fuga do mundo na espiritualidade de Jesus e dos cristãos. A oração, o recolhimento, a distância do cotidiano, a separação dos afazeres da labuta diária para um momento de oração, é o que alimenta e dá energia para o fogo da espiritualidade cristã.

A fé, esperança e caridade. As virtudes cristãs são retroalimentadas e circularmente fecundadas. Onde há fé, há esperança e caridade, onde há caridade aí há fé e esperança e onde há esperança reina a fé amorosa. Há tempos em que a fé é a prioridade, há tempos que a esperança se impõe contra o desespero, há tempos que a caridade é uma exigência. Há tempos que se exige as três, sob pena de secarmos e perecermos. Em tempos sombrios, a esperança. Em tempos de fome e sofrimento, a caridade. Em tempos de medo, a fé.

A comunidade. O Deus cristão é trino: pai, filho e espírito santo. O culto ao eu, à espiritualidade intimista e interesseira, à uma vida isolada e refratária à vivência com os outros é, no mínimo, estranha aos valores cristãos. Deus é comunidade de amor. A identidade na diferença encontra na comunidade o lugar de sua expressão e cultivo. Fora da comunidade não há salvação. A família é uma comunidade. A escola é uma comunidade. A igreja é uma comunidade. A associação de bairro e as organizações não governamentais são uma comunidade. A rede social seria uma comunidade? Sim, é, mas não substitui as demais. A vida acontece no aparto de mão, no abraço, no encontro face a face, na partilha do pão e não comunhão de sonhos. A amizade, o amor, a comunhão, a fraternidade, a paz, a solidariedade, a justiça, enfim, os valores cristãos só são possíveis na abertura ao outro e no encontro com o outro na comunidade real.

A liberdade. A servidão involuntária não cabe nos valores cristãos. O Deus cristão é tão pouco mesquinho que não obriga ninguém, contra a vontade. Perder-se sempre será uma possiblidade respeitada por Deus. Se o humano não quiser, Deus não salva. Deus não salva quem quer se jogar no abismo. Deus não salva quem prefere a ditadura à democracia. Deus não salva quem prefere a ignorância e a mentira, à verdade. Deus respeita e fica olhando…Ele sofre, mas não força, contra a liberdade.

Fake News – o que você precisa saber sobre notícias falsas

A poucos dias das eleições que irão definir os
novos rumos do país, queremos trazer uma reflexão importante:
será que as notícias que você está consumindo são verdadeiras?

 

De uns anos para cá, a nossa maneira de consumir informações mudou. O jornal impresso, o rádio e a televisão não são mais os nossos únicos meios de ficar sabendo o que acontece no mundo – as notícias chegam pelo Facebook, pelo Twitter, pelo Instagram e até mesmo pelo Whatsapp. Qualquer pessoa pode ser um produtor de conteúdo nas redes sociais, o que significa uma vitória para a liberdade de expressão, mas, também, uma oportunidade para pessoas mal intencionadas (ou bem intencionadas a favor dos seus interesses) manipularem informações e disseminá-las.

A Diretora da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade de Passo Fundo, Doutora em Comunicação, Bibiana de Paula Friderichs, explica que as Fake News nem sempre são criadas assim em sua origem. “Muitas delas podem ser resultado do mau jornalismo, da falta de apurar uma informação e até mesmo da distorção dos fatos”, diz. É parecido com a brincadeira do telefone sem fio, em que se começa dizendo uma frase e a última pessoa a ouvi-la recebeu algo completamente diferente do original. Na internet, isso é chamado de Cyber Acontecimento. A medida que um fato ganha dimensão dentro da rede e viraliza, ele vai se afastando do seu ponto de origem, tanto físico quanto temporal, e vai perdendo elementos jornalísticos. “Chega um ponto em que esse fato já não é mais uma notícia e está completamente distorcido”, explica Bibiana.

Mas, existem outros casos em que uma notícia falsa é, sim, intencionalmente criada, se baseando em interesses de determinado grupo que quer persuadir outras pessoas a acreditarem em suas ideias. Nas eleições, por exemplo, uma notícia falsa pode ser plantada para um público específico, que é criado a partir de meta dados que fazem um desenho desse público, dizendo quem ele é, o que consome, quem são seus amigos, qual é a sua posição política… “Essas informações que colocamos nas redes sociais, como Facebook, por muitas vezes, são usadas de forma indevida por quem produz essas notícias faltas. Quanto mais de mim eu dou para a rede, quanto mais preencho o que ela pede, quanto mais interajo, quanto mais circulo, mais dados a meu respeito ela saberá”, explica a Doutora. Nesses casos, não é somente uma notícia falsa que está circulando na rede: é uma notícia falsa feita especialmente para você consumir.

Segundo o sociólogo e professor da IMED, Jandir Pauli, do ponto de vista tecnológico, é importante considerar que a maior parte das fake news são divulgadas por robots (ou boots), que são mecanismos tecnológicos que simulam relações humanas, por exemplo, por meio de perfis falsos em redes sociais. Seu objetivo: divulgar informações fake que passam a ser compartilhadas por “pessoas reais”. “Embora os Robots tenham uma capacidade para enviar notícias de forma muito mais rápida do que as pessoas (uma notícia falsa a cada dois segundos), pesquisas têm demonstrado que o fator humano ainda é o principal responsável pela disseminação das Fake News”, pontua o professor.

Aqui, podemos então nos perguntar: por que disseminamos notícias falsas? Por que aceitamos “entrar no jogo” da divulgação destas notícias sem checar sua autenticidade? Por que divulgamos possíveis boatos, distorções e mentiras que podem afetar a vida de outras pessoas? Será que fazemos isso simplesmente por falta de senso crítico e desinteresse?

Jandir destaca que considerar o fator humano para entender o fenômeno exige enxergar a ponte entre o perfil psicológico do potencial disseminador de fake news e a estratégia de quem produz este tipo de informação. “A tecnologia dos robots apenas media o contato entre o formulador da mentira e o leitor que a recebe. Estudos mostram que o produtor de fake news considera dois aspectos: criar uma fictícia credibilidade de fonte da notícia que acabou de inventar e, principalmente, organizar as informações considerando pressupostos morais e cognitivos que aumentam as chances da notícia ser ‘aceita’ pelo leitor sem que ele desconfie da autenticidade”, diz.

O que faz uma notícia falsa ser aceita?
As notícias falsas são construídas em cima dos mesmos valores notícias e dos mesmos elementos universais que as notícias verdadeiras, um dos motivos que, muitas vezes, causa a aceitação imediata de uma notícia mentirosa. Bibiana ressalta que esses elementos que fazem uma notícia falsa circular são os mesmos que fazem notícias reais circularem, pois são coisas que dizem respeito ao nosso cotidiano, atrelados a elementos de universalidade com os quais nós, como sujeitos, podemos nos identificar. Ela também acredita que outros fatores possam contribuir para que essas notícias falsas sejam aceitas tão facilmente:

  • A Fake News expressa algo que a pessoa quer dizer, geralmente em sua manchete. Muitas pessoas leem somente a pequena frase do título e, se nela está expressa uma ideia com a qual a pessoa concorda, ela simplesmente passa a notícia a diante sem ler ou checar o que recebeu.
  • Ela envolve elementos universais com os quais nos identificamos como seres humanos. Quando há filhos, mães/pais ou idosos envolvidos a notícia vai reverberar, porque as pessoas se colocam nesses lugares.
  • O absurdo também chama a atenção em uma Fake News, principalmente, se envolve celebridades, pessoas notórias ou crimes.

Para Jandir, o “sucesso” de uma fake news depende da associação entre o interesse do formulador e o acesso a informações sobre o perfil psicológico dos internautas. Portanto, é a partir de hábitos cotidianos simples e despretensiosos que empresas constituem perfis capazes de dar credibilidade a uma mentira a ponto de ativar o comportamento capaz de compartilhar essa informação em grupos de contatos. “Tudo isso nos leva a concluir que talvez a tecnologia da informação tenha apenas dado o impulso, criando consequências muito mais graves e confundindo os leitores sobre o que é ou não confiável. A receita para evitar ‘entrar no jogo’ da fake news parece simples, mas não é fácil: é preciso, por regra, desconfiar da informação recebida. Acreditar que existem profissionais mal-intencionados que trabalham para criar confusão e se beneficiar política e economicamente com a disseminação de notícias falsas. Quanto menos desconfiamos, mais sucesso terá a fraude. É desta forma que cada um de nós pode contribuir de forma efetiva para melhorar nossa vida em sociedade. E, considerando que as discussões dos principais temas sociais da atualidade acontecem por meio de dispositivos eletrônicos, torna-se urgente o hábito de checar as informações e, assim, contribuir de forma efetiva para um debate saudável e responsável”, alerta o sociólogo.

Como identificar uma notícia falsa

  • Quando as manchetes parecerem muito absurdas ou irem muito ao encontro de algo que você acredita, suspeite.
  • Abra os links e leia as notícias. Muitas manchetes são construídas para passar uma ideia que não representa o que a notícia comunica.
  • Procure essa informação em veículos de credibilidade. É importante que a mesma informação possa ser encontrada em mais de um veículo de comunicação.
  • Verifique as fontes da notícia, afinal, toda notícia precisa ter fontes de informação com nomes e ocupações reais, de pessoas que possam ser encontradas.
  • Quando uma notícia apresentar dados, você pode confirmar a veracidade deles em sites como IBGE, Governo Federal e outras empresas concentradoras de dados.
  • Procure se informar em sites que possuem expediente, para que você consiga saber quem são as pessoas que produzem aquele conteúdo. Matérias assinadas são ainda mais confiáveis, pois assim, você sabe que um jornalista está reivindicando a autoria da matéria e garantindo o seu comprometimento com a informação.
  • Se você ainda ficar na dúvida, procure as agências de checagem de informação! Elas se espalharam pelo mundo nos últimos anos e tem prestado um serviço muito importante de apuração. No Brasil, as agências Pública e Lupa se destacam por esse trabalho de checagem.

Matéria produzida por jornalista Camila Docena e publicada, originalmente, na Revista impressa Contato Vip, Ano XXV, número 285, Setembro 2018. Saiba mais da Revista aqui.

 

 

As eleições 2018 e o fanatismo religioso

O fanatismo religioso é o pior, pois atinge o cerne da pessoa,
atinge a sua dimensão mais íntima, sagrada e transcendente.
Como dialogar com uma pessoa que está certa, sem uma mínima
chance de equívoco, de que é Deus que a manda dizer
o que diz e fazer o que faz?

 

Segundo o dicionário, “Fanatismo religioso é uma forma de fanatismo caracterizada pela devoção incondicional, exaltada e completamente isenta de espírito crítico, a uma ideia ou concepção religiosa. Em geral o fanatismo religioso também se caracteriza pela intolerância em relação às demais crenças religiosas. Um fanático religioso é, muitas vezes, um indivíduo disposto a se utilizar de qualquer meio para firmar a primazia da sua fé sobre as demais”.

Ciente de que posso estar me colocando diante da crítica impiedosa, mas impulsionado ainda mais por uma consciência que me diz que aquilo que não se diz na hora certa se deve calar depois dos fatos ocorridos, e de que em certas circunstâncias a omissão pode ser o maior dos pecados, decidi emitir minha opinião sobre a mistura da religião com a política neste momento do nosso amado Brasil.

Prefiro correr o risco do erro de avaliação do que estar para o rebanho como uma “sentinela adormecida”, que embora veja o lobo se aproximando não cumpre sua missão.

O recente dia de Nossa Senhora Aparecida, foi muito intenso para mim. Enquanto viajava pelas estradas da nossa diocese de Vacaria, na direção das comunidades, minha mente, quase que independente de minha vontade, voltava toda hora ao fato de que nossa querida padroeira já foi vítima, ao menos duas vezes, do fanatismo religioso. Em 1978, um homem se dizendo enviado por Deus, destroçou a pequena imagem de Nossa Senhora em mais de duzentos pedaços; há alguns anos atrás um pastor fanático desrespeitou grosseiramente a representação de Nossa Senhora (sua imagem) com uma sequência de chutes em um programa de televisão.

Outra experiência recente de fanatismo, dentro da própria Igreja Católica, fez com que indivíduos instruídos por gurus das redes sociais, tenham agredido a CNBB como se ela fossa composta por moleques imaturos que não sabem o que fazem. Se tudo isso não bastasse, o grande Papa Francisco tem sido alvo de ataques ferrenhos contra a sua pessoa. Em todos estes casos podemos detectar uma doença espiritual/psicológica que revela a ausência de discernimento e de juízo equilibrado.

De todas as possíveis manifestações fanáticas, das quais a primeira vítima é sempre o próprio uso da razão (o fanático se nega a raciocinar por que isso seria muito perigoso), o fanatismo religioso é o pior, pois atinge o cerne da pessoa, atinge a sua dimensão mais íntima, sagrada e transcendente. Como dialogar com uma pessoa que está certa, sem uma mínima chance de equívoco, de que é Deus que a manda dizer o que diz e fazer o que faz? O fanatismo no futebol e o próprio fanatismo ideológico da política, de longe não são tão prejudiciais quanto o religioso. Famílias e comunidades que convivem com pessoas que se deixaram fanatizar sabem bem o que isso significa. Imaginemos agora, por exemplo, o estrago que faz misturar a doença religiosa com a ideológico/política! Que Deus nos acuda!

O atual fenômeno do fanatismo religioso, misturado com a política, tem se caracterizado por algumas causas (bandeiras) defendidas a “unhas e dentes” sobre as quais é praticamente impossível se dizer qualquer coisa sem ser condenado ao “fogo dos infernos”. Vou me referir a duas delas:

A BANDEIRA DO ANTICOMUNISMO – Aqui não se trata absolutamente de defender o pensamento comunista, questão já tratada adequadamente pela Igreja, mas é necessário se dar conta que ao reduzir a responsabilidade de todos os males do mundo aos comunistas se está fechando os olhos para a realidade que é muito diferente.

O problema do nosso tempo é bem outro que o comunismo, é a ditadura do “deus mercado”, o verdadeiro “deus” do capitalismo selvagem que vem devastando valores, destruindo pessoas, famílias, cooptando igrejas e movimentos eclesiais e colocando em xeque a possibilidade de sobrevivência do planeta. A idolatria em torno do “deus mercado” é tão absurda que o torna a única divindade inatacável. Pode-se debochar e desprezar qualquer outra representação religiosa, que isso é tido como liberdade de manifestação, porém se alguém ousar criticar o “deus mercado” será perseguido de morte como o profeta Elias depois de acabar com os profetas de Baal. De fato, o capitalismo não nega a existência de Deus (o que é simpático aos crentes desavisados) mas o que ele faz é substituir o Deus de Jesus Cristo pelo “deus dinheiro/lucro”.

Esta mesma causa anticomunista, que possui seus méritos, serve para que a doença espiritual (fanatismo) leve seus adeptos a pensar que o “Mal” está sempre fora da sua igreja, que é sempre um perigo que vem de fora e que deve ser combatido. Tudo o que aprendi sobre o Demônio até hoje, me faz lembrar que ele é tudo, menos ingênuo e burro. Com isso quero dizer que a pessoa não fanatizada é capaz de perceber primeiro o pecado que está dentro de si e da sua própria instituição. Esta tarefa é a mais difícil e mais dolorosa, mas também é a mais equilibrada e madura, e é a única que pode curar o problema na sua raiz.

Proponho uma questão concreta para reflexão: o que faz mais mal às famílias, às igrejas e à própria experiência de fé, a proximidade com um ateu ou a existência de graves escândalos de ministros no interior das próprias igrejas?

O Papa Francisco, modelo de lucidez e equilíbrio para o nosso tempo, tem o foco de suas principais preocupações noutro alvo. No seu documento do início do ministério ele afirma: “Enquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequilíbrio provém de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira. Por isso, negam o controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras…” (EG 56)Com estas palavras não me prece que o Papa entenda que o risco do comunismo seja o único, e muito menos o maior perigo da atualidade.

A BANDEIRA ANTIABORTISTA – Antes que alguém aponte sua arma na minha direção, dou testemunho da minha firme decisão de ser um missionário da sagrada e intocável vida que é dom de Deus. Uma recente experiência de milagre que aconteceu entre meus familiares, em torno do nascimento da Cecília (minha sobrinha-neta) chancelou para sempre meu amor a vida desde sua origem. Nenhuma ideologia, ciência, medicina e nenhum médico está acima da vida ou a pode tratá-la como objeto ou coisa. A questão da doença espiritual (fanatismo) aqui não é a de assumir a indispensável luta contra o aborto, mas a cegueira que impede o crente de pensar mais além. A vida não vale somente enquanto está no útero materno, ela vale sempre. Hoje, a fixação exclusiva nesta causa serve muito mais aos projetos do grande poder econômico que, neste caso, instrumentaliza uma causa nobilíssima dos cristãos para impor seus mesquinhos interesses políticos.

Novamente é o Papa Francisco que convoca à lucidez e afirma no seu mais recente documento sobre o chamado à santidade no mundo atual: “Mas é nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando algo superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem. A defesa do inocente nascituro, por exemplo, deve ser clara, firme e apaixonada, porque neste caso está em jogo a dignidade da pessoa humana, sempre sagrada, e exige-o o amor por toda a pessoa, independentemente de seu desenvolvimento. Mas igualmente é sagrada a vida dos pobres que já nasceram e se debatem na miséria, no abandono, na exclusão, no tráfico de pessoas, na eutanásia encoberta de doentes e idosos privados de cuidados, nas novas formas de escravatura e em todas as formas de descarte. Não podemos nos propor um ideal de santidade que ignore a injustiça deste mundo, onde alguns festejam, gastam folgadamente e reduzem sua vida às novidades do consumo, ao mesmo tempo que outros se limitam a olhar de fora enquanto a sua vida passa e termina miseravelmente” (GE 101). Entendo que Francisco está nos pedindo para não permitir que uma questão tão importante como a sacralidade da vida seja instrumentalizada, a ponto de os mesmos que defendem ferrenhamente a vida do nascituro sejam os que pregam o ódio, a violência, a tortura, o racismo, a homofobia etc.

Os pensamentos acima são frutos da inquietação de um pastor que se angustia muito com os fenômenos do nosso tempo e que entende que não tem o direito de se calar. Silenciar sobre estes temas que estão pautando o momento político brasileiro seria para mim muito mais difícil de administrar, do que correr o risco do equívoco tanto no mérito da minha manifestação quanto na interpretação dos que a lerem. Fico à disposição para todo tipo de crítica e de discordância, contanto que não seja mera agressão. Vale lembrar o que dizia Dom Helder Câmara: “se discordas de mim, tu me enriqueces”.

O que eu quero crer de verdade é que não cheguemos ao ponto de ter que pedir socorro aos ateus, para que nos livrem do fanatismo de cristãos adoecidos que estão prestes assumir o governo do nosso país.

O que exponho aqui não pretende ser toda a verdade, muito menos a única verdade. É apenas minha palavra.

 

Fonte: Diocese de Vacaria
Autor: Dom Sílvio Guterres Dutra, Bispo Diocesano de Vacaria-RS

 

 

Fraternidade e Políticas Públicas

As Políticas Públicas tem em vista garantir a eficiência dos
investimentos na resolução de problemas sociais e coletivos,
superando o debate político tão somente ideológico e pouco atento
aos efeitos e às consequências reais da realização ou não das
ações do Estado em favor da população.

 

Arrisco dizer que a Campanha da Fraternidade 2019 pode ser chamada “a campanha das campanhas”. O motivo é o tema, “Políticas Públicas”,  muito bem escolhido pelos bispos, ainda mais se considerarmos o contexto social, econômico e político que estamos vivendo em nosso país.

Antes de abordar Políticas Públicas é bom reforçar aquilo que já foi dito pelo Papa Paulo VI, atualizado pelo Papa Francisco e que está bem expresso na Doutrina Social da Igreja: “a política é a melhor forma de fazer caridade”. Pois é somente através da política que se universalizam os bens, os serviços e que se promove a equidade. Por isso, das nossas decisões políticas depende o futuro de milhões de pessoas que terão acesso ou não à condições dignas de vida.

As Políticas Públicas são um direito da cidadania e servem para garantir os direitos fundamentais à saúde, educação, moradia, trabalho, cultura, lazer, acesso às tecnologias, preservação do meio ambiente, entre outros.

Falar de Políticas Públicas é justamente falar de uma forma de ação do Estado, desde a elaboração, execução, participação popular até a avaliação, num percurso que dificulta a corrupção e a politicagem, além de permitir que se chegue a resultados concretos e que mudam a vida das pessoas. É diferente de serviços públicos, pois estes são a tarefa diária das administrações públicas na manutenção de  serviços sanitários, saneamento, pavimentação, transportes, escolas, etc.

As Políticas Públicas tem em vista garantir a eficiência dos investimentos na resolução de problemas sociais e coletivos, superando o debate político tão somente ideológico e pouco atento aos efeitos e às consequências reais da realização ou não das ações do Estado em favor da população.

O que são políticas públicas? 

Com o lema “serás libertado pelo direito e pela justiça” (Is 1,27), a CF 2019 visa aprofundar o que são as Políticas Públicas enquanto garantidoras de direitos. São muitos os problemas e desafios da sociedade atual. É preciso olhar sobretudo para a realidade das pessoas que mais sofrem as consequências de um sistema que impede a vida com dignidade. Muitos ainda enfrentam problemas dos direitos básicos, como saneamento, habitação, alimento, saúde, emprego e educação.

Desde 1964, a CNBB propõe um tema relevante para a sociedade brasileira refletir e engajar-se durante a Campanha da Fraternidade. O método ver, julgar, agir conduz a uma prática transformadora diante das situações de injustiça e de agressão à vida. Aqui, podemos perceber algo em comum e que faz desta “a campanha das campanhas”. Ou seja, tanto as Políticas Públicas como a Campanha da Fraternidade – com o método ver, julgar, agir – exigem que o resultado sejam ações transformadoras da realidade.

Oriundo da Ação Católica, esse método foi criado pelo Cardeal Josef Cardijn, na década de 1950, na Bélgica, onde exercia seu ministério pastoral entre os trabalhadores. E foi reconhecido oficialmente pelo Papa João XXIII na Encíclica Mater Et Magistra, em maio de 1961. O método propõe os seguintes passos:

Ver: estudo da realidade. Especial atenção é dada, neste olhar, para as pessoas e famílias mais necessitadas e excluídas da sociedade. Para escolher as Políticas Públicas a serem implementadas, as administrações precisam fazer escolhas, preferencialmente com a participação popular, definindo os problemas mais urgentes e que afetam a qualidade de vida da população.

Julgar: análise e julgamento a partir de alguns referenciais, especialmente da Palavra de Deus e da Doutrina Social da Igreja, servindo como luz que ilumina nossas ações. Outros instrumentos, como a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Carta da Terra, a  Constituição Cidadã, também são importantes para que os cristãos possam enxergar a sociedade como um todo e não apenas os que participam da vida eclesial.

Agir: são as considerações sobre as perspectivas pedagógicas e comportamentais que se abrem, com vistas a uma ação social transformadora. No caso das Políticas Públicas, significa propor às administrações públicas, políticas que busquem transformar as situações mais gritantes de injustiça e que causam sofrimento às pessoas, famílias e comunidades do município, estado ou país.

Veja também