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A velha política

Velha ou nova política no Brasil?
O que o novo tem de velho e o velho tem de novo?

A ideia da “república democrática” é uma das tantas contribuições da Revolução Francesa. Os revolucionários de 1789 pretendiam transformar o homem e a sociedade através da política republicana, caracterizada pela busca do consenso, da negociação, do respeito ao jogo eleitoral.

Também da temperança, da consolidação do princípio majoritário e da proteção das minorias. Enfim, consagrava o exercício da política para produzir uma sociedade civilizada.

No Brasil dos últimos 4 anos, estamos assistindo ao renascimento do autoritarismo em que se nega espaços à política e, em seu lugar, é colocada a manipulação da voz das ruas, clamando por “vingança” e não por “justiça”.

Os primeiros 11 artigos da Carta de 1988 que tratam dos Princípios e Direitos Fundamentais, estão sendo solenemente esquecidos e desprezados. Eles nos remetem às instituições que, consolidadas, produzirão uma sociedade civilizada.

Entretanto, para os segmentos reacionários da extrema-direita, me parece, tais princípios estariam dentro do que chamam de “velha política” que deve ser revista ou eliminada em nome de uma “nova ordem”.

A velha política defende que a melhor sociedade é a pluralista – que tenha vários e diversos centros de poderes, mesmo que conflitantes. Entende a democracia como o reino do diálogo e do compromisso.

Velha política que sustenta o processo eleitoral não como critério de razão, mas de legitimidade. Que, com profunda sensibilidade pelo seu significado, não aceita que símbolos religiosos sejam instrumentalizados em favor de uma ordem vinda do além – nem de Jesus encontrado na goiabeira, nem de pastores engordando o bolso com falsos milagres e galgando postos na política.

Velha política onde juiz não pode ter lado, salvo o da verdade. Que vê na corrupção algo a ser combatido. Mas garantir o processo legal também. Velha política que não tolera um presidente medíocre, cercado de medíocres, fazendo um governo medíocre.

Velha política que insiste em defender o meio ambiente em um país que consome 20% dos herbicidas do planeta e praticamente aboliu os mecanismos de controle e inspeção, e, onde a ministra da Agricultura, ostenta o constrangedor apelido de “musa do veneno”.

Velha política que defende um fim de vida digno para os idosos e não vendê-los para o sistema financeiro, como almeja o governo Bolsonaro.

Velha política que se recusa a aceitar e organizar a vida social, segundo um plano unitário. Ao contrário, vê com bons olhos a diversidade, a dissidência e a pluralidade. A extrema-direita gritará histéria, isto é balbúrdia!!!

Matam a educação, aos poucos!

Matam a educação no Brasil
desqualificando professores e professoras,
que agora são declarados,
junto com a classe artística,
inimigos da nação.

Faz tempo que estão matando a educação brasileira. Faz tempo que não cuidam da escola pública, para que ela possa prover uma educação de qualidade. É fato, só cego que não queira ver. E chegamos ao pior: bem recentemente, escolheram artistas e professores como os inimigos da nação.

Vejam que, em recente visita ao Brasil, Vikas Pota, CEO da Varkey Foundation, instituição que organiza o Prêmio Melhor Professor do Mundo, se reuniu com educadores e representantes de ONGs e fundações da área. Em entrevista ao Estado, mostrou-se informado sobre as políticas do governo federal e criticou o ambiente educacional que coloca alunos e professores uns contra os outros. “Elegeram os professores como inimigos, eles que são, e deveriam ser reconhecidos, como os maiores aliados da melhora do ensino.”

Matam aos professores, aos poucos, como já afirmou meu colega de profissão Douglas Peretto: “Procura outra coisa pra fazer!”, exclamam. Claro, diante das baixas condições de infraestrutura, penúria salarial e da enorme responsabilidade em educar quem chega com fome/frio/agredido/a pé/etc, quem você acha que vai querer ser professor?”.

Como professor da rede pública municipal e estadual, sempre lutei para que a escola pública tenha qualidade social. Não a qualidade dos números ou das estatísticas frias, mas a satisfação que a escola pode produzir na medida em que é mediadora da convivência social e da construção do conhecimento.

Escolas públicas com qualidade social existem às pencas, mas não há reconhecimento. Reconhecer a qualidade e o sentido de pertencimento de todos com a escola somente em campanhas de TV em rede nacional. Parece perigoso reconhecer, verdadeiramente, o esforço fora do comum que muitos professores, professoras, estudantes e pais fazem por este Brasil afora para manter suas escolas de pé, com o mínimo de estrutura e decência.

As greves e paralisações dos professores Brasil afora revelam a luta pelo reconhecimento profissional que os mesmos foram perdendo ao longo das últimas décadas. Para os profissionais da educação, a educação não é um fim em si mesma, mas é meio para estimular e projetar no imaginário das crianças, dos jovens e dos adultos as condições subjetivas, materiais e sociais para que cada um conquiste sua vida e sua felicidade.

Professores reclamam condições materiais e subjetivas para que possam exercer função de alimentar esperanças para a superação da vida sofrida da maioria de seus estudantes e de toda comunidade onde atuam através da escola. Reclamam apoio para implantar propostas pedagógicas que considerem a organização dos sujeitos para a conquista dos direitos e construção de sua dignidade.

A pergunta é: a quem interessa manter a escola pública tão sufocada e tão maltratada?

Sempre é urgente e necessário perguntar o que é uma boa escola, uma escola com qualidade social. Responder o que é uma boa escola nos desafia a pensar as escolas que fazemos, cotidianamente, para torná-las cada dia melhores. Da mesma forma, o ser humano precisa responder o que é uma vida boa. Vida e escola se entrecruzam, cumprindo finalidades distintas e complementares na vida das pessoas.

O mais incrível é que quando a sociedade se mostra disposta a debater qualidade na educação, os professores/as são atacados e apontados como responsáveis pelo insucesso escolar. E o que é mais grave: as peculiaridades de seu ofício começam a ser entendidas como privilégios, não como direitos. Professores e artistas passam a ser tratados como inimigos da família e da sociedade.

O maior crime dos professores é lutar pela dignidade da sua profissão e pela qualidade da educação pública. O maior crime é que na escola pública, apesar de tudo, ainda há conhecimento de qualidade social. O maior crime é que professores, organizados através de seus sindicatos, ainda denunciam as mazelas da educação brasileira e exigem mudanças. O maior crime da educação brasileira é que ela ainda resiste, para dar aos brasileiros e brasileiras, as bases para sonhar com uma sociedade diferente.

Enquanto o Brasil considerar os investimentos na educação como gasto e não como investimento, continuaremos a ser uma nação pobre e medíocre. Um país, uma nação que não permite o desenvolvimento integral, crítico e soberano de seus cientistas, pesquisadores e pensadores está fadada ao fracasso cultural e econômico.

Educação pública é para “alguns especialistas de ocasião” um “fetiche socialista”. Vai discutir o que, num país que se permite uma aberração como esta: “…educação estatal não é e nem pode ser eficiente e, além disso, o acesso universal à educação garantido através do estado — e não o resultado de um mercado livre — é algo que vem com um custo altíssimo e indesejável, o qual é jogado nas costas de outros”.

É bravo quem luta quem luta pela educação como um direito de todos.

Sonho e luto muito para que a educação seja prioridade, que as escolas sejam de qualidade e que o trabalho dos educadores seja reconhecido por toda sociedade. Mas, cotidianamente, tenho que arregaçar as mangas, os meus pensamentos e as minhas forças criativas para realizar o melhor trabalho como professor, sem descuidar da minha responsabilidade de lutar por melhores condições de trabalho do professor e da aprendizagem dos educandos e educandas. E de me somar com as forças de toda comunidade escolar, sobretudo dos pais dos estudantes e das organizações vivas do entorno de nossas escolas para que nossa educação tenha como rumo a qualidade social.

Além de afirmar, resta perguntar: No Brasil que vivemos, que educação queremos e precisamos?

Coragem! Tempos difíceis tentam abater a educação integral, tão bravamente construída e alicerçada por pensantes mentes brilhantes como Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Maria Nilde Mascellani, Florestan Fernandes, Miguel Arroyo, Jaqueline Moll e Paulo Freire, para citar alguns.

Como disse Sofia Cavedon, ao ser perguntada sobre os desafios da profissão docente, em entrevista a este site: “Nosso desafio é sermos construtores de nossa valorização junto com a melhor educação para os filhos e filhas dos trabalhadores e trabalhadoras”.

O caráter está sempre em construção

Por sermos seres holísticos
bio-psico-sociais e espirituais,
é quase impossível afirmarmos
ter um caráter harmônico.

Ao perguntar à qualquer pessoa se ela possui bom caráter, quase sempre e de imediato, a resposta é sim; normalmente em tom convincente.

Mas entenda que o caráter pode estar sendo questionado, muitas vezes, de forma isolada: sobre um relacionamento por exemplo, ou no processo seletivo de uma empresa.

Segundo Reich, o universo do caráter é complexo, eu diria quase freudiano.

Sabemos que ética, existe ou não, naquilo que você faz, quando ninguém está te olhando.

Por sermos seres holísticos bio-psico-sociais e espirituais, é quase impossível afirmarmos ter um “caráter harmônico”.

À exemplo disso vemos que, por um momento ou outro, podemos simplesmente trair a si próprios quebrando uma promessa pessoal, ou uma dieta, ou uma novena, mas não quebra de forma alguma um contrato com outrem (isso é louvável).

Acredito em que na vitrine da vida é onde expomos o nosso “trigo limpo “, ou sustentamos a pau e corda aquilo que gostaríamos de ser na integralidade, mas, ao menos ali, o somos.

Mas ainda assim é um fragmento da nossa construção e nos mostra que nossa intenção é o grande pedreiro desta jornada, mas queremos ser mestre de obras, engenheiro e um dia ao meu ver, o arquiteto.

Isto não desmerece nossos esforços, nem desconstrói o que conseguimos ser nesta vitrine, mas, é a parte pronta do caráter humano.

As falhas nesse contexto da construção desta “catedral” chamada caráter, o transforma num processo demorado, em razão do aprendizado humano, das boas e más experiências, das dores e prazeres necessários ´`a existência humana, do ego e suas artimanhas tal qual o “pan’ da mitologia grega, trocando os ovos dos ninhos, pelo prazer de ver a bagunça, risos….

Que o desejo pleno da construção do caráter harmonioso, seja seu caderno de caligrafia, onde almeja-se a beleza, a limpidez e a clareza do que somos.

Paz e luz!



“Se não possuíssemos olhos, ficaria mais fácil aceitar uns aos outros pois teríamos que confiar no sentimento nutrido pelo amor e não em estereótipos. Portanto quando você enxergar um casal com uma disparidade vertiginosa de diferenças estéticas não julgue pois alí pode realmente estar o gérmen de um verdadeiro amor”.

Dormindo com o inimigo: a violência doméstica enraizada na sociedade brasileira

As vítimas podem desenvolver problemas de saúde,
como depressão, distúrbios alimentares, toxicodependência,
além de se sentirem incapazes de voltar a
criar relações afetivas saudáveis.

A violência doméstica é um padrão de comportamento abusivo, onde uma pessoa constrange outra num contexto doméstico. Essa violência pode assumir diversas formas, tais como, abusos físicos, verbais, emocionais, econômicos, etc., e pode ser praticada por homem ou mulher contra qualquer membro da família. O perfil da vítima geralmente se assenta em crianças, adolescentes, idosos, portadores de necessidades especiais e mulheres.

Infelizmente, como a realidade nos mostra, a maioria esmagadora das vítimas de violência doméstica são mulheres. Nesse passo, registro, a Declaração sobre a Eliminação da Violência contra as Mulheres da Organização das Nações Unidas (ONU) afirma que a violência contra mulheres é uma manifestação da desigualdade histórica na relação de poder entre homens e mulheres.

O título do presente texto faz referência ao clássico filme americano “Sleeping whit the enimy” (Dormindo com o inimigo), de 1991, onde a atriz Julia Roberts, interpretando Laura, após o casamento, passa por situações repudiantes com seu abusivo marido, Martin, interpretado por Patrick Bernig. No suspense, Laura sofre com violência física e psicológica no lar do casal até que um dia resolve simular um afogamento, fazendo Martin acreditar que estaria morta, fugindo, então, das suas garras e abandonando o seu passado.

Embora o filme acima referido tenha sido produzido em 1991, ainda hoje é possível encontrar diversos casais que se encaixam no perfil abusivo proposto no seu roteiro, o que mostra que, por mais que a legislação tenha avançado, a cultura de opressão à mulher parece estar enraizada na sociedade brasileira.

Essa violência ocorre quando o abusador acredita que o seu abuso é aceitável, justificado ou improvável de ser reportado a terceiros. É nesse contexto, via de regra, que a violência doméstica se desenvolve. As vítimas ficam encurraladas e acabam por preferir o isolamento, seja pela “aceitação” cultural, pela falta de recursos financeiros, pelo medo, pela vergonha ou, às vezes, para proteger os filhos.



“E isso acontece pelo simples fato de que os homens acreditam que podem fazer o que bem entenderem conosco. Quando falamos de estupro temos que ter claro que não estamos falando de sexo: estamos falando de poder. Estamos falando de violência”.


Em outros casos, a própria vítima não percebe ou não compreende que está em uma relação abusiva. Acreditando que apenas a violência física configura a violência doméstica, as vítimas encaram como normal diversas formas de abuso psicológico, como ameaças, isolamento, humilhação em público, críticas incessantes, negligenciamento constante ou a manipulação psicológica.

São vários os reflexos negativos da violência doméstica. As vítimas podem desenvolver problemas de saúde, como depressão, distúrbios alimentares, toxicodependência, além de se sentirem incapazes de voltar a criar relações afetivas saudáveis. Outro reflexo negativo é o denominado “ciclo de abuso intergeracional” que, segundo especialistas, cria a imagem em crianças, submetidas a este meio, de que o abuso é algo normal e aceitável.

Uma característica comum entre os agressores é o fato de terem sido vítima ou testemunha de abuso durante a infância, reproduzindo esse comportamento na idade adulta. Quem cresce sendo abusado, ou presenciando o abuso, se tornará um abusador. A interrupção deste ciclo é tão importante na diminuição da violência doméstica do que as próprias medidas para gerir os abusos.

Quando uma relação abusiva é identificada sempre se faz a seguinte pergunta: “Mas por que ela não abandona o companheiro?” Já respondemos a esta pergunta antes, mas, com o perdão pela tautologia, vamos repetir: Na maioria dos casos, as vítimas ficam encurraladas, seja pela falta de recursos financeiros, pelo medo, pela vergonha ou, às vezes, para proteger os filhos.

Portanto, a resposta à pergunta acima não é tão óbvia quanto parece e quase que na totalidade dos casos, a vítima precisará da ajuda de familiares e de amigos ou, ainda, dependendo do grau de estresse a que estiver submetida, a vítima precisará da ajuda de profissional da área da saúde.

É necessário se ter muita compreensão com a vítima.

Para a responsabilização do agressor, na área criminal, deve a vítima procurar uma Delegacia de Polícia e relatar os fatos ocorridos, fazendo um “registro de ocorrência” e, se a agressão foi física, será preciso fazer um exame médico, o que será requisitado no ato do registro. A vítima pode comparecer sozinha para ao ato do registro que não possui custo algum. Não é necessária a presença de um advogado.

Ainda, se desejar, no ato do registro da ocorrência, a vítima poderá solicitar medidas protetivas de urgência (MPUs), descritas na Lei 11.343/06 (Lei Maria da Penha) como, por exemplo, o afastamento do lar do agressor e a proibição de manter contato, entre outras. Descumprindo essas medidas de proteção impostas estará o agressor sujeito à prisão, além de responder pela prática de novo crime.

Os países subdesenvolvidos, como é o caso do Brasil, são campeões nos índices de agressões contra grupos vulneráveis e, como o tema central do texto, é a violência doméstica contra a mulher, vamos nos reportar especificamente, agora, ao crime denominado na legislação criminal como “feminicídio”, palavra nova que se refere à uma prática antiga.

O feminicídio é definido na legislação penal como “o assassinato de uma mulher por razões da condição de sexo feminino”. A pena para este crime é de 12 (doze) a 30 (trinta) anos. Os estudos apontam que mais do que 10 (dez) mulheres são assassinadas todos os dias no Brasil, possuindo a 5ª maior taxa de feminicídios no mundo.

Neste contexto, a tipificação criminal do feminicídio foi apontada por especialistas como uma importante ferramenta para denunciar a violência sistêmica contra mulheres em relações domésticas. Na maioria dos casos, quando o agressor é íntimo da vítima, até chegar-se a uma violência fatal, a mulher é vítima de uma série de outras violências de gênero, tal qual referimos antes: violência física ou psicológica.

O feminicídio, por ser uma forma qualificada do crime de homicídio é considerado um crime hediondo, nos termos da Lei 8.072/90, assim entendidos como aqueles mais reprováveis e que, por conta disso, acarretam ao seu autor um grau mais severo de tratamento jurídico-penal.

Há que se estabelecer uma diferença conceitual entre “femicídio” e o “feminicídio”. Para esclarecer ao leitor (que não tem obrigação de conhecer o Direito), o que estamos tratando neste artigo é o “feminicídio” (o assassinato de uma mulher por razões da condição de sexo feminino), trata-se de um crime motivado pela diferença de gênero. Já o “femicídio” é o homicídio praticado contra mulher, mas não por esta condição, não se trata de um crime motivado pela condição de gênero.

Assim, o feminicídio não define o assassinato de todas as mulheres. Veja-se que, por exemplo, uma mulher que é morta após um roubo sofre o crime de latrocínio. De outra banda, uma mulher que sofre ameaças do companheiro – ou de um ex-companheiro – e que venha a ser morta por ele é uma vítima de feminicídio, pois o caso, ao que parece, envolveu discriminação à condição de mulher.

O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Essa prática precisa ser combatida por toda a sociedade como um todo. Se você vê uma agressão e se cala, você é conivente com ela. Lembre-se que a violência pode estar em qualquer lugar, que não existe um perfil básico de agressor e que a culpa nunca é da vítima.

Infelizmente, vivemos em uma cultura punitivista onde parece que a maior preocupação é sempre a punição do agressor, mas a violência doméstica é uma questão muito mais complexa, estrutural, que não se resolverá pelo Direito Criminal pura e simplesmente. Todos os seguimentos da sociedade devem estar engajados contra a violência doméstica, de mãos dadas, como forma de transplantar essa cultura machista e do patriarcado, atacando o problema pela sua raiz.

Além da punição dos agressores é preciso investir em instrumentos de prevenção à violência doméstica, implementando políticas públicas contínuas e articuladas em rede, a fim de que ao menor indício de violência doméstica seja o casal acompanhado por profissionais técnicos preparados para atender e contornar o problema antes da “evolução” do cenário desvirtuado.

Seria interessante, nesse ponto, que os municípios implementassem “grupos socioeducativos” para homens autores de violência doméstica e “grupos de apoio” para mulheres vítimas, no intuito de evitar o agravamento do quadro e dando um tratamento especializado a todos os envolvidos (não esquecendo, logicamente, das crianças e adolescentes que eventualmente estejam suscetíveis a este meio).

Finalmente, friso, se você é vítima de violência doméstica procure uma Delegacia de Polícia para relatar o fato e saber sobre os seus direitos. E, se você é testemunha de violência doméstica, denuncie! Quando a causa é nobre, o ditado popular deve ser reescrito, pois, nesse caso, em briga de marido e mulher, se deve meter a colher. E, não esqueça: Se você vê uma agressão e se cala, você é conivente com ela.



Autor: William Garcez, Delegado de Polícia no Estado do Rio Grande do Sul. Pós-graduado com especialização em Direito Penal e Processo Penal. Professor de Direito Penal da graduação e da pós-graduação da FEMA. Professor de Direito Penal e Processo Penal do CERS/Ad Verum. Professor de Direito Penal e Legislação Penal Especial da Casa do Concurseiro.

O cavaleiro do Apocalipse?

O Brasil, como sabemos, está longe de ser
um país com padrões civilizados,
situação que deverá avançar
com o atual presidente.

Entidades que defendem a vida em nosso país, estão alarmadas com as decisões do presidente da República. Como verdadeiro Cavaleiro do Apocalipse – Os cavaleiros, Peste, Guerra, Fome e Morte, são descritos na terceira visão profética do Apóstolo João no livro Bíblico de Revelação –, Bolsonaro vem pautando seu governo por excessos assustadores, brincando com a vida dos cidadãos.

Na verdade, ele vem sendo coerente com o que sempre foi. Foi expulso do exército por ter planejado explodir bombas no Rio como protesto por aumento salarial. Quando do impeachment de Dilma Roussef, homenageou um dos maiores assassinos da ditadura militar, Brilhante Ustra.

No seu governo, o Estatuto do Desarmamento, aprovado em 2003, virou letra morta. Por meio de decreto, Jair Bolsonaro, ampliou o porte de armas de fogo para 20 categorias.

 Assim, 19,1 milhão de brasileiros poderão ter o porte de armas facilitado, segundo cálculos do Instituto Sou da Paz. Mais armas representam mais mortes, em um país que já é o recordista mundial em mortes por armas de fogo.

Não é tudo. O decreto autoriza crianças e adolescentes a praticar tiro desportivo mesmo sem aval judicial. É a receita perfeita para a repetição de tragédias nas escolas, tão comuns nos Estados Unidos.



A façanha de conter a violência num contexto de pobreza, tensão social e hormônios explosivos talvez se explique mesmo pela descoberta do afeto cada vez que um conflito chega ao fim.

Já o pacote “anticrime” do seu Ministro da Justiça tem o condão de autorizar execuções sumárias pelos agentes da segurança pública.

Determinou o fim das lombadas eletrônicas e dos pardais nas rodovias federais, o que beira à total irresponsabilidade ao ignorar o papel fundamental dos controladores de velocidade no combate às mortes no trânsito. Segundo o Presidente, é para dar “paz aos motoristas”. Seria a paz dos cemitérios?

Agora, quer acabar com a multa para quem desrespeita a regra de transportar crianças na cadeirinha, substituindo por uma mera advertência. Menos mal que a atitude insana do Presidente foi rebatida com veemência e será desautorizada no Congresso.

Tem mais. Quer acabar com o exame toxicológico dos caminhoneiros, quando sabe-se que tais profissionais, para cumprir longas jornadas de trabalho, utilizam-se de remédios estimulantes. Outro disparate amazônico.

O Brasil, como sabemos, está muito longe de ser considerado um país com padrões civilizados. Cerca de 40 mil pessoas morrem em acidentes de trânsito, muitos deles verdadeiros crimes.

É o quinto no ranking da OMS com mais mortes no trânsito. Enquanto isto, o Presidente, literalmente, insiste em dirigir o país na contramão! Haveria alguém com lucidez, tranquilidade e firmeza para conduzir o governo?

A severidade na aplicação das punições vem resultando na diminuição das mortes em nossas ruas e estradas. Isto, entretanto, parece não sensibilizar o chefe da Nação que, previsivelmente, o máximo que consegue é identificar-se como herói dos motoristas irresponsáveis.

Quando o prefeito de NY, Bill de Blasio, disse ser Bolsonaro “um ser humano muito perigoso”, as hostes bolsonarianas foram à loucura. Mas, convenhamos, o prefeito Blasio apenas fez uma constatação. Estaríamos diante de um dos Cavaleiros do Apocalipse?



Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento crítico e reflexivo. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. (Nei Alberto Pies)

O Homeschooling e a sentença de morte da Educação Integral

O Homeschooling, ao contrário do que afirmam,
não será, no Brasil, salvamento seletivo para
um modelo educacional moribundo?

Puxada estranhamente pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, ao invés do Ministério da Educação, a MP do Homeschooling, sob pretexto de liberdade de escolha, encontrou a solução para qualificar a educação brasileira: tirar todas crianças da escola. 

Aliás, todas não, só algumas. O modelo já funciona muito bem em países desenvolvidos, com taxas de analfabetismo perto do zero e alto desenvolvimento humano, e vem dar voz a pouco mais de 15 mil estudantes, segundo a ANED, deixando no vácuo mais de 50 milhões de estudantes que esperam uma resposta de qualificação da educação formal, que em milhares de casos é a única chance de romper ciclos de pobreza.

A grande motivação dos defensores do modelo, seria a violência e o bullying sofrido pelos estudantes, além de incompatibilidade moral e religiosa das famílias com o sistema escolar. Mas será mesmo? Ou seria um processo de salvamento seletivo para um modelo educacional moribundo?

Para reflexão, lembro dos 4 pilares da Educação para o Século XXI da UNESCO: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser.

Nessa rica e contemporânea visão de Educação Integral, estão presentes habilidades cognitivas e socioemocionais.

As cognitivas, dão conta dos multiletramentos como leitura e escrita do mundo, habilidades mais técnicas e mecânicas, mas imprescindíveis para qualquer pessoa ser produtiva e independente na sociedade atual.

As socioemocionais, tratam justamente de “aprender a viver com os outros” e “aprender a ser”, desenvolvendo empatia, valorização da diversidade, resiliência e percepção do outro como seu par, temas que podem ser colocados em segundo plano no Homeschooling, criando um hiato social irreparável em toda uma geração.

Temos problemas gravíssimos na educação brasileira, gerando falta de percepção de valor pelos estudantes e famílias de diversas classes sociais. Mas, se o barco está furado, precisamos nos concentrar em consertá-lo, e não oferecer salva vidas para quem pode, enquanto olham de longe o barco naufragando com 99,9% dos passageiros agonizantes.



Para Ana Pennido, trazer os jovens para dentro do processo de construção do conhecimento e incluir de fato a tecnologia no dia-a-dia das salas de aula estão entre as prioridades de uma educação mais eficaz, justa e condizente com a aprendizagem de indivíduos do novo século.
Leia mais clicando aqui.


Amilton Rodrigo de Quadros Martins
Líder do InovaEdu/IMED – Laboratório de Ciência e Inovação para a Educação, e do Núcleo Norte Gaúcho de Letramento em Programação do Instituto Ayrton Senna. Membro da Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa e Articulador do Arranjo do Desenvolvimento da Educação Norte Gaúcho. Pesquisador e ministrante de Cursos e Palestras sobre Educação Maker e Aprendizagem Ativa. Senador na JCI – Junior Chamber Internacional, com atividades de formação de jovens em comunicação e liderança. Professor de Graduação, Pós Graduação e Estágio Docência de Stricto Sensu da IMED e Professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Tecnologias, Comunicação e Educação da UFU-MG. Doutor em Educação (UPF/2017) com bolsa CAPES PDSE na Universidade de Roma Tre, com tese em Criatividade e Teoria do Flow usando Robótica Educacional, Mestre em Educação com foco em aprendizagem e criatividade através de programação de computadores para jovens e graduado em Ciência da Computação.

Página: fb.com/profeamilton
Twitter: @profeamilton

Uma economia que sirva o ser humano

Ignorar a Natureza, o meio ambiente,
o capital e o patrimônio natural, assim sabemos,
faz parte da estúpida ação que consolida o
predomínio das forças produtivas da economia.

Em apenas dois séculos de existência, pode-se dizer que o impacto de dois movimentos basilares da economia – o industrialismo e o consumismo – alinhavado a uma histórica estrutura disfuncional que permeia a economia global e imiscuído na órbita do mercado capitalista, conseguiu desequilibrar completamente a relação Homem-Natureza; Homo sapiens-Terra.

Ocorre que a estratégia econômica organizada pelos países que rapidamente foram se industrializando ao longo dos últimos tempos – centrada na fixa ideia do crescimento econômico ilimitado – obrigou a comunidade humana a conviver com a insidiosa destruição do meio ambiente; destruição ajudada, seja dito, pela ação antrópica.

Dito isso, vê-se que a devastação ambiental pode ser claramente percebida desde pelo menos os últimos setenta anos; momento em que começou a ficar evidente que o modelo econômico em curso iniciava esforços no sentido de transformar simples desejos humanos em necessidades materiais, o que levou a consolidar a aquisição material como sinônimo de prosperidade (paradigma da conquista).

No entanto, a linguagem teórica precisava mensurar isso tudo. Eis que entrou em cena o recém-criado indicador PIB (pós-1945), usado desde então como métrica de avanço econômico. Na verdade, usado como “contabilidade” do crescimento econômico que compara a “riqueza” produzida pelas nações.

Mas observe-se algo relevante: à medida que algumas questões políticas foram simplesmente “transformadas” em temas econômicos, rapidamente os economistas criaram a relação PIB/censo populacional, traduzindo-se no PIB per capita, ou seja, numa perspectiva quantitativa que visava comparar o desempenho das nações no espaço e no tempo. O estofo dessa ação, importa deixar claro, terminou por fazer do crescimento econômico o principal dogma da economia moderna.

Desde então, tudo passou a ser “pensado” (e sonhado) em termos de expansão quantitativa da economia – a essência do crescimento. Sob essa inspiração, dir-se-á que a dosagem de mais crescimento (aumento do PIB, em destaque) ainda hoje é vista como uma espécie de “remédio” (milagroso) para curar todo e qualquer tipo de disfunção (anomalia) social.

O problema, no entanto, é que o aumento do PIB – além de ocasionar – acaba por encobrir (simplesmente ignora) qualquer tipo de preocupação com o agravamento da questão ambiental decorrente. Se o PIB está subindo, a economia está indo muito bem, obrigado! É assim que reza a cartilha do pensamento convencional.

Ora, diga-se em bom tom: se a boa saúde de qualquer governo, tenha ele a coloração político-partidária que tiver, depende artificialmente do crescimento do PIB, a verdadeira (e desejada) boa saúde do contingente populacional depende sobretudo da vitalidade dos ecossistemas.

Aceite-se ou não, goste-se ou não, isso é fato sólido, e não mera retórica de ambientalista. No entanto, como o que predomina é a força do poder econômico – portanto, aqueles que realmente mandam e determinam as coisas no mundo – a produção material global, até mesmo por ter se tornado muito maior que a capacidade de suporte da Terra, acaba por promover o enfraquecimento dos ecossistemas.



Em outro artigo, publicado no site, defendo que nada pode ser superior à defesa da vida. Se o aumento produtivo dos dias de hoje vem ocorrendo na contramão do equilíbrio ecológico, afetando sobremaneira a qualidade social da vida humana e aproximando-nos assim de um perigoso colapso ambiental, acelerando de vez o impasse civilizatório, somente nos resta com alguma coragem engendrar um percurso diferente de tudo o que fizemos até agora.


O resultado? Simples assim: à medida que a política do crescimento – quando emerge entre nós – consolida o mercado de consumo, a economia global segue “engolindo” os recursos naturais e os ecossistemas, piorando desse modo as condições de vida das populações.

As consequências? Simples também de ser entendida: deterioração ambiental crescente; algo evidenciado cada vez mais no esgotamento do capital natural (solos aráveis, rios, mares, florestas, polinização, fauna, flora e outros) com o consequente empobrecimento biológico da Terra.

Mas, todavia, repare no seguinte: para o pensamento econômico tradicional (algo fácil de presumir) tudo isso que foi colocado acima pouco importa; tanto é que esses recursos, dito capital natural, valiosos por definição, não aparecem nos apontamentos do PIB.

O PIB, simplesmente, ignora-os. Certo mesmo foi o que disse, em seu tempo, o senador norte-americano Robert Kennedy (1925-1968): “O PIB mede tudo, exceto aquilo que faz a vida valer a pena”.

Ignorar a Natureza, o meio ambiente, o capital e o patrimônio natural, assim sabemos, faz parte da estúpida ação que consolida o predomínio das forças produtivas da economia. É difícil romper com isso.

Pela visão economicista, o que deve ser considerado não é a Natureza, mas sim o capital físico criado pelos homens (máquinas, rodovias, carros, fábricas, roupas, eletrodomésticos e outros); afinal, é isso que permite o crescimento do PIB. Outrossim, é isso o que dá vitalidade aos governos. Seja dito que, aos donos do mundo, pouco importa se toda a rica biodiversidade vira alvo de desconfiguração.

À luz de alguma sensibilidade, anuncia-se uma infeliz constatação: as forças produtivas ignoram que o sistema-vida, do jeito como o conhecemos, somente prospera devido a existência do mundo natural; daí a assertiva de que a natureza é, sobretudo, matriz da existência de tudo o que vive.

Atualmente, tendo como cenário o esfacelamento dos principais serviços ecossistêmicos, a ultrapassagem das fronteiras planetárias (limites ecológicos) e a crescente e preocupante perda de biodiversidade que afasta cada vez mais de nossas vistas várias espécies animais, não é exagerado afirmar que estamos na iminência de um colapso geral. O perigo nos espreita.

Pois bem. Voltando o olhar crítico aos desajustes axiais da economia-mundo que resvalam sobretudo na questão ecológica, vale agora fazer uso de terminologias marxistas para dizer que parte considerável da disfuncionalidade econômica ora sentida está, de fato, na raiz do “reino da necessidade material”, manifestada na incessante (por isso sufocante) “necessidade” de atingir crescimento econômico, esquecendo-se num canto qualquer o “reino da liberdade”.

Em sentido geral, a busca do desenvolvimento (mais qualidade) tem sido constantemente inferiorizada frente à busca do crescimento (mais quantidade), e a conquista material (paradigma de progresso) cada vez mais tende a gozar de supremacia diante de qualquer outra condição socioeconômica.

Por parte do convencionalismo econômico, repare nisso, cria-se assim condição de justificar o atual comportamento da economia tradicional que, bem sabemos, continua usando os serviços prestados pelos homens da atualidade para consolidar dois movimentos axiais bastante prejudiciais à causa ecológica: a economia de mercado (com seu renovado desejo de aumentar o nível de produção) e a sociedade de consumo (com a prática do consumismo, algo que já se tornou patológico).

É curioso notar algo mais: mesmo que hoje, diante da superioridade do mercado de consumo capitalista, orientado por decisões de cunho mercadológico, pareça pouco provável que as orientações e práticas da humanidade consigam atingir um nível de produção industrial que use menos taxa de consumo material e energético das sociedades industriais, mitigando os efeitos nocivos que recaem sobre a natureza e o meio ambiente, é necessário, tanto quanto desejável, que enxerguemos a porta de saída para fugir desse “modelo”, criando a partir daí condições para que se levante as bases de uma civilização verdadeiramente humana.

É sabido que os principais problemas da humanidade – dos quais a destruição do meio ambiente empreendida por mãos humanas ocupa lugar central – não serão resolvidos (ou mitigados), apenas, e tão somente, com avanços científicos e tecnológicos, mas, sim, quando devidamente combinados à ação dos próprios humanos, dado o alcance de conscientização planetária (projeto comunitário).

Na prática, espera-se então que esse espírito comunitário propicie o reconhecimento de duas importantes causas: 1) que todos nós estamos abrigados sob o mesmo teto (a Casa da Vida, o Lar Terrestre) da qual somos meros hóspedes, e não os donos e; 2) a aceitação de que somos, todos, partes (e participantes) da própria Natureza.

Utopia ou não, temos que pensar assim. É preciso ainda que saíbamos, antecipadamente, que todo e qualquer animal homem é também terra fértil; é húmus, de onde etimologicamente vem a palavra “homem”.

Sob essa inspiração, é predito que o principal desafio colocado à humanidade talvez seja, de fato, o de construir uma nova economia. Uma nova economia que sirva o Ser Humano e que entenda que os processos de produção material devem se subordinar à lógica da ecologia; compreendendo que a Natureza tem a função de limitar o avanço da economia.

Por fim, em reforço ao que foi dito, carecemos mesmo de um novo modelo de economia que tenha a cor verde da sustentabilidade ambiental, e que, mutatis mutandis, seja plenamente capaz de aproximar o Homem moderno do mundo natural numa relação benfazeja, colocando a ação econômica sob orientação do bem comum; portanto muito diferente da distrofia atual.




Sobre o autor: (*) Economista e ativista ambiental. Autor de “Civilização em desajuste com os limites planetários” (Ed. CRV), entre outros. prof.marcuseduardo@bol.com.br

Mulher professora na política. Por quê?

Sofia Cavedon nasceu numa
cidade da Serra Gaúcha: Veranópolis.
Foi estudar em Porto Alegre e lá fixou residência,
exerceu sua profissão de professora e atua na política, em defesa da
educação pública de qualidade, da cultura, do esporte e da democracia,
dentre outras bandeiras de sua atuação.

Na sua trajetória política, foi dirigente do Sindicato dos Servidores Municipais de Porto Alegre e, em função de sua atuação e liderança, desafiada pelos colegas a representar a sua categoria de professores na Câmara de Vereadores de Porto Alegre por cinco mandatos e agora assumiu como deputada estadual.

Sofia Cavedon é Destaque na Educação neste site justamente por demonstrar a importância dos professores e professoras na política. Sua atuação política e cidadã demonstra que, ocupando espaços políticos, os professores e professoras, através de mandatos parlamentares, podem contribuir para a elaboração de políticas educacionais, para a defesa da educação pública de qualidade e para o resgate da dignidade na profissão docente.

Sofia é reconhecida por seus pares como uma liderança forte, convicta e batalhadora. Conheçamos mais dela por ela mesma.

NEI ALBERTO PIES: Nasceste no interior do estado, numa cidade da serra gaúcha e atuas e vives hoje na Capital do RS, Porto Alegre. Como, quando e porque o seu interesse pela educação e pela política?

A educação constituiu minha família e utopias originárias. A mãe formou-se professora primária e isso abriu a porta da autonomia e liberdade para ela que desde criança trabalhava em casa de família. Ensinou para seus cinco filhos que educação era tudo na vida. Não conseguiu fazer faculdade e. mesmo só com vinte horas de contrato e meu pai operário serralheiro, ela afirmava que seus filhos fariam e não sossegou até que isso acontecesse.

Eu me criei inquieta como ela, no meio de cadernos e livros, rezas e trabalho. A política era proibida no interior.

Como nasci em 63, fomos educados e disciplinados para a obediência e pelo medo. Desperto para as injustiças e para a solidariedade no grupo de jovens da igreja, mas isso se tornará engajamento político na faculdade e no trabalho de professora já em Porto Alegre. 

NEI ALBERTO PIES: Sua trajetória de estudante, líder sindical, vereadora e agora deputada estadual. Qual é a motivação deste seu trabalho na política?

Fui fazer educação física na UFRGS cujo vestibular era uma epopéia para nós lá no interior! Foi um divisor de águas na minha vida pela experiência da casa de estudante – CEURGS -, pela efervescência cultural da capital e pelo trabalho de professora que começou no Colégio Sevigné onde estudamos os pensadores construtivistas e a metodologia de Projetos, inovadores na época.

Os concursos para a Rede Municipal e depois para a Estadual de Ensino – conquistas da redemocratização – abriram as portas para a carreira pública e aí eu comecei a militar pela educação de qualidade para todos e todas, a discutir os projetos de mundo que estavam em disputa nas primeiras eleições diretas, me filiei ao Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras e assumi a liderança sindical.   

NEI ALBERTO PIES: Como o seu trabalho de militância ligado à juventude, aos grupos e coletivos de jovens, mulheres e trabalhadores vem colaborando com sua trajetória de professora, liderança sindical, vereadora e agora deputada estadual?

Minha militância começou de fato com o exercício da docência na periferia da cidade discutindo a redemocratização da educação, transformando a prática pedagógica que era autoritária, excludente e seletiva, advinda da ditadura militar.

A Educação Física me deu um lugar alargado de coordenação de atividades gerais da escola municipal Ildo Meneguetti, de muita relação comunitária e afetiva com os e as estudantes. Também fui alfabetizadora e regente de classe de segundo e quarto anos.

Quando passei pela gestão da Secretaria Municipal de Educação como Secretária, penso que consegui manter o mesmo compromisso que me mobilizou e que pelos quais muitos mobilizei na luta sindical e nas salas de aula a valorização dos e das profissionais da educação, a construção de uma educação inclusiva, democrática, de qualidade para cada um e cada uma das estudantes.

NEI ALBERTO PIES: Na sua visão, qual é a importância das mulheres professoras na política sindical e educacional?

As mulheres estarem nos espaços públicos e profissionais é em si um processo revolucionário. A acumulação capitalista as pressupõe no trabalho gratuito de reprodução da vida. Por isso no Rio grande do Sul temos mais de 300 mil mulheres no trabalho doméstico e somente cerca de 90 mil tem carteira assinada, por exemplo.

Acumulamos essas funções quando fomos para o trabalho fora do lar e também por isso as categorias onde majoritariamente trabalham as mulheres são com menor remuneração como a das professoras.

Tomar consciência disso e fazer as rupturas necessárias desde a produção cultural dos meninos e das meninas até a construção das políticas afirmativas reparadoras da desigualdade, é nossa tarefa política primordial se queremos alterar a vida das mulheres e da sociedade desigual.

NEI ALBERTO PIES: Quais são, hoje, os maiores desafios da profissão docente?

Compreender que a defesa de sua profissionalização digna e da realização do seu objeto de trabalho depende da luta geral de todos os trabalhadores na defesa do valor do trabalho, dos valores da vida diante da mercantilização, da financeirização da economia, da concentração de privilégios, terras e renda que se impõem pela violência e pelo pensamento único dominado através das mídias empresariais. A educação para esses será pobre, alienadora e excludente. Os professores desvalorizados e aplicadores de conteúdos gerados por empresas.

Nosso desafio é sermos construtores de nossa valorização junto com a melhor educação para os filhos e filhas dos trabalhadores e trabalhadoras.

NEI ALBERTO PIES: Quais são, hoje, os maiores desafios da escola pública de qualidade social (que interessa a todos os envolvidos nela: estudantes, professores, professoras, pais e mães)?

De duas ordens: disputar o financiamento de uma educação como direito de todos e todas e defender a educação integral, democrática, humanizadora e produtora de sujeitos de pensamento livre.

Esse financiamento que os defensores do Estado Mínimo dizem que é impossível, está na riqueza do Pré-Sal, está nos impostos que o lucro financeiro não paga e buscar isso na mudança da correlação de forças nas ruas, na organização social, comunitária, sindical e popular.  

NEI ALBERTO PIES: Qual a importância da atuação e organização dos sindicatos de professores neste momento histórico do país e da educação em nossa cidade?

Trata-se nesse momento de defender um país de direitos sociais e políticos que a geração anterior à nossa buscou com suas vidas na redemocratização do Brasil, que escrevemos na Constituição de 88 e que está severamente ameaçado.

A luta na defesa da Previdência significa defender todo a Seguridade Social dos brasileiros e brasileiras com sua universalidade e solidariedade geracional. Estão em risco o Sistema de Previdência Social que poderá se tornar um seguro individual e miserável, o Sistema Único de Saúde e o Sistema Único de Assistência Social que serão desconstitucionalizados se passar essa reforma, que na verdade é uma destruição! 

NEI ALBERTO PIES: Como o seu mandato de Deputada Estadual está direcionando pautas e ações em defesa da escola pública no Rio Grande do Sul?

Com muita honra e alegria, a partir da articulação de toda a bancada do PT na Assembleia Legislativa, eu estou presidindo por dois anos a Comissão de Educação, Cultura, Desporto, Ciência e Tecnologia e estou dedicando a esse espaço institucional toda a força política para dar voz aos educadores e educadoras, para as comunidades escolares, aprofundando o debate e exigindo respeito e investimento na área.

Desde fevereiro já pautamos em audiências públicas a falta de Recursos Humanos, o tema das obras escolares, a defesa das bibliotecas, a escola de tempo integral, a educação indígena escolarizada, a UERGS- nossa Universidade Estadual do Rio Grande do Sul -, a violência nas escolas. Todos os temas têm desdobramentos para a busca de soluções. Logo lançaremos um Observatório da Educação com números e dados que nos ajudarão muito a caminhar, lançaremos a Mostra das Boas Práticas Pedagógicas e faremos um grande Seminário no mês de outubro. 

NEI ALBERTO PIES: Uma frase pela qual valha a pena viver.

Se a vida é assim injusta, violenta e desigual é porque foi produzida por homens e mulheres, não é natural nem inexorável. Outro Mundo é possível, vamos fazê-lo!

NEI ALBERTO PIES: Uma frase que defina Sofia Cavedon.

Uma inquieta professora que ama a vida e as possibilidades de transformá-la.

NEI ALBERTO PIES: Uma frase pela qual valha a luta pela educação.

A educação não muda o mundo, ela muda as pessoas que podem transformá-lo. É do mestre Paulo Freire

NEI ALBERTO PIES: Uma mensagem a todos os professores e professoras do RS e do Brasil.

Coragem!



Fotos: Divulgação/Arquivo pessoal

A arte e o imbecil

Por quê? Por que matar a arte?

Sobre o brilho reflexivo da arte, derrubaram o manto ofuscado do preconceito e da irracionalidade. Aquilo que provoca tuas verdades, que derruba teu pedestal do elevado status social, que, mesmo impróprio, faz pensar na possibilidade de tua falta de propriedade, que escancara as tuas portas e revela tua alma carregada de falso moralismo, tudo isso que te toca, que te desloca, que te tira do lugar onde você se coloca, deseja obscurecer, com a tua mania de dizer o que é certo e o que é errado sem sequer saber ou aceitar, se certo ou errado possa estar.

Por que te assusta tanto a nudez, talvez o medo de revelar que por baixo das tuas vestes caprichosas esconde a igualdade que deseja negar e a diferença que não consegue aceitar porque nunca teve a coragem de ser aquilo que hoje condena?

Por que o teu Deus merece mais respeito que o Deus ou Deuses de outrem e até mesmo que o respeito pela defesa da ausência de um Deus? Talvez te seja conveniente manter as aparências porque te falta a capacidade de aceitar que não deve aceitar tudo e que, por isso mesmo, também não pode rejeitar tudo o que pode ser aceito por outro qualquer.

Por que tuas crianças não podem ser expressadas na dor que sentem, escondidas sob os luxuosos mármores frios da tua própria morada? Seria porque aquilo que os olhos não veem o coração não sente ou porque teu coração mente e, por isso mesmo, deseja que os olhares dos outros não possam ver para dentro do teu ou porque sabe que tua verdade é frágil que teu filho poder ser teu maior crítico e destruir teu reinado forjado sobre o lodo do teu conhecimento?

Por quê? Por que matar a arte? Talvez, porque a arte tenha, mais uma vez, cumprido sua missão: provocar a catarse humana, despertando em ti o que você guarda reprimido em si mesmo, a persona que é ocultada pelo personagem que você criou e vê, agora, ameaçado pela arte que te desvela.

Por isso, por tua fraqueza mórbida, por tua moralidade de “cueca suja”, por tua insegurança, por tua convicção ameaçada, por teus olhos estarem há tanto tempo acostumados à escuridão, é que, mais uma vez, sobre o brilho reflexivo da arte, você derruba o manto ofuscado do preconceito e da irracionalidade que te abate e te condena ainda mais que a própria arte que tua imbecilidade abate.


“Não é só de pão que vivemos, mas de poesia, como disse brilhantemente William Carlos Williams: “não é fácil encontrar novidades em poemas, mas homens morrem miseravelmente todos os dias por falta do que neles existe”. (Manoel Soares Magalhães)

Os malabaristas do sinal vermelho

A tendência é de que este número de “malabaristas” aumente. São malabaristas reais, frutos de uma sociedade de mercado.

Eles já fazem parte do nosso cotidiano. Estão diariamente nas principais esquinas de Passo Fundo aproveitando o tempo do sinal vermelho para oferecer o seu show. Fazem malabarismos, engolem fogo, equilibram bolinhas, jogam cones para o alto e os acolhem nos braços com rara habilidade, equilibram-se em pernas de paus, vestidos com roupas coloridas. Agora, apareceu até um solista de violino, em uma de nossas artérias mais movimentadas de nossa cidade Passo Fundo, RS.

Verdadeiros palhaços das ruas: Os malabaristas do sinal vermelho.

João Bosco e seu filho Francisco retrataram com rara inspiração estes personagens do nosso dia-a-dia em uma canção composta em 2003: “Penso nos malabaristas do sinal vermelho/Que nos vidros dos carros/Descobrem quem são/ Uns, justiceiros, reclamam o seu quinhão/Outros pagam com a vida sua porção/ Todos são excluídos na grande cidade”.  https://youtu.be/CXdmsnOADp8?t=39

Depois do rápido espetáculo, que precisa ser ajustado ao tempo do sinal vermelho, eles passam entre os carros para colher o “pagamento” pelo que ofereceram. São movimentos rápidos, cronometrados e arriscados. É a busca pela sobrevivência no modelo capitalista neoliberal. E, aí, como diz a letra da canção – nos vidros dos carros, descobrem quem são –isto é, os verdadeiros mendigos contemporâneos.



“Como não aplaudir e encher o rosto de encanto ao ver um espetáculo de marionetes? Como não se prender na confusa tentativa de compreender como pode, um boneco, fazer tantos movimentos e com uma dinâmica que parece dar vida ao mesmo?” (Elias Foschesatto)


E nós, acomodados em nossos carros, com ar-condicionado, ouvindo uma boa música, também descobrimos naquele pequeno tempo do sinal vermelho os graves problemas sociais que ainda nos rodeiam. Dias atrás, fiquei observando que, diante da abordagem do malabarista, que era um adolescente de no máximo uns 18 anos, a maioria fingiu não ver o que acontecia à sua frente.

Nada, ninguém se abalou, nenhuma moeda. A maioria ignorou o seu “trabalho”. As janelas dos carros permaneceram fechadas. Os motoristas nem olhavam, nem reconheciam a existência daquele artista. A questão que talvez poucos perceberam é que não se tratava de circo ou de teatro, era realidade.

Realidade social exposta, jogada na nossa frente. Lembrei que a Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente rezam que viver não é apenas respirar, mas a participação em todos os direitos da cidadania, bem como a proteção contra as agressões, danos físicos, emocionais, sociais, etc.

Sou sempre receptivo e lhe dei uma pequena recompensa pelo breve show. Quando o sinal abriu ele voltou para a calçada, contou os trocados até então arrecadados e começou a se preparar para o próximo número do seu repertório. Até imaginei que a Secretaria de Serviços Urbanos poderia remunerá-los por aliviar, por breve instantes, a tensão dos estressados motoristas diante dos problemas do nosso conturbado trânsito.

Na verdade andamos todos apressados. Afinal, tempo é dinheiro. Paulinho da Viola, em uma antológica canção de 1967, retratou esta realidade em Sinal Fechado: “Eu vou indo correndo/pegar meu lugar no futuro/ me perdoe a pressa/é a alma dos nossos negócios.” Muitas vezes ficamos contrariados por sermos obrigados a frear e esperar o interminável tempo de um sinal vermelho.

O correto, sem dúvida, é encaminhá-los para os órgãos assistenciais. É difícil, entretanto, não ajudá-los. Ao vê-los não tem como não se recordar de outra canção, sobre esta verdadeira saga de nossas esquinas. Chico Buarque e Francis Hime já cantavam em 1993: “No sinal fechado/Ele vende chiclete/Capricha na flanela/E se chama Pelé/Pinta na janela/Batalha algum trocado”.

A verdade é que hoje eles fazem parte do cenário urbano das nossas cidades. São o retrato das desigualdades sociais que ainda nos atormentam e que possuem raízes históricas como a forma de colonização, a profunda dependência externa do país, a acumulação de riqueza pelas camadas mais favorecidas da população.

A marginalização histórica de parcelas significativas da nossa gente, aliadas às práticas administrativas que privilegiam o apadrinhamento político e favorecem o desvio de verbas, podem explicar a situação de segmentos como destes “malabaristas do sinal vermelho”.

E a tendência é de que este número de “malabaristas” aumente. Em março, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados, em meio aos 13 milhões destes últimos já existentes, o Brasil fechou mais de 43 mil empregos com carteira assinada.

Estes personagens são o resultado do que Karl Polanyi denunciou em 1944 em seu clássico “A Grande Transformação”, segundo o qual de uma economia de mercado se passou a uma sociedade de mercado. E em qualquer mercado, sempre algo é descartado.



Incríveis artistas de rua.

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