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As mulheres da vida de Jesus

Dentre tantos mestres da época, como Sócrates, Platão e Aristóteles, considerados homens bem à frente de seu tempo, Jesus foi o único a aceitar mulheres como discípulas.

Tempos atrás, em um post em que eu defendia o empoderamento feminino, alguém postou um comentário afirmando que a primeira mulher a se empoderar foi Eva, e deu no que deu.

Como é triste em pleno século XXI alguém insistir em ler a Bíblias com as lentes do seu machismo cafona e mofado.

As Escrituras estão repletas de personagens femininos que se empoderaram, dentre as quais poderíamos destacar Sara, Débora, Ester, Rute, Raabe, Ana e tantas outras. E o que dizer daquelas ilustres anônimas que cruzaram o caminho do Messias nas empoeiradas ruas da Galileia? Eram elas que mantinham o ministério de Jesus.

Mulheres como a Samaritana que mesmo não gozando de uma reputação ilibada, foi capaz de atrair todo o seu vilarejo para ouvir Jesus. Mulheres como a que ungiu os Seus pés com um perfume que lhe custou um ano inteiro de serviços na mais antiga profissão do mundo.

Mulheres como a que sangrou por doze anos seguidos, mas que resolveu enfrentar o preconceito, infiltrando-se entre a multidão para tocar na orla de Suas vestes e ser curada.

Mulheres como as que choravam vendo-o passar pela Via Crucis carregando a cruz dos homens.

Mulheres como a Cananeia, que seguia-o clamando por sua filha enferma, sob o olhar daqueles que consideravam seu povo como meros cães, apesar de serem os habitantes originais daquela terra. Mesmo ouvindo de Jesus a reprodução daquele discurso, ela não titubeou e humildemente argumentou: “Os cachorros também comem das migalhas que caem da mesa de seu senhor.”

Tal resposta a fez ouvir dos lábios do Mestre um elogio que pouquíssimos mortais receberam. Mulheres como Maria Madalena, a primeira a vê-lo ressurreto e a receber a missão de contar aos seus discípulos o que testemunhara.

Mas, sem dúvida, dentre todas as mulheres da vida de Jesus, ninguém foi tão importante quanto Maria, de quem herdou o ímpeto revolucionário tão nítido em sua canção de louvor a Deus (Magnificat).

Jesus empoderava as mulheres quando estas nem sequer eram contadas nos censos. Dentre tantos mestres da época, mesmo alguns como Sócrates, Platão e Aristóteles, considerados homens bem à frente de seu tempo, Jesus foi o único a aceitar mulheres como discípulas.

Pena que dois mil anos depois, muitos dos que se apresentam como seus seguidores emprestem os lábios ao machismo imperante em nossa sociedade, negando à mulher o espaço e a dignidade que lhe são devidos. Temos muito que aprender com Jesus.

Autor:  Hermes C. Fernandes

Edição: Alex Rosset

Ideias para incorporar o Ensino Híbrido

Para impulsionar a motivação, o engajamento e a colaboração é preciso agregar estratégias de aprendizagem contextualizadas, significativas e centradas nos estudantes.

A transformação digital em andamento oferece múltiplas oportunidades para ampliar as abordagens na educação. O ensino híbrido emerge como uma alternativa para superar alguns dos desafios associados à incorporação das tecnologias dentro e fora da sala de aula.

Alguns desses desafios estão associados à dificuldade de harmonizar as abordagens pedagógicas e os suportes tecnológicos. Além de promover uma extensão dos momentos e ambientes de aprendizagem. Quando mal gerenciadas elas podem causar baixos níveis de motivação, poucas chances do desenvolvimento de habilidades, pouca colaboração, subutilização de equipamentos, entre outros fatores.

Para impulsionar a motivação, o engajamento e a colaboração é preciso agregar estratégias de aprendizagem contextualizadas, significativas e centradas nos estudantes. Para ajudar na incorporação e harmonização entre o digital e o presencial, compartilharmos a seguir dicas para você incorporar o ensino híbrido à sua prática docente.

Preparar para a mudança

Incorporar experiências de aprendizagem centradas no estudante é um desafio para toda instituição. A resistência à mudança e a quebra de paradigmas pode ser realizada por meio de ações graduais e engajadoras. Abaixo, listamos alguns exemplos de abordagens que podem ser adotadas para facilitar o processo de mudanças para uma aprendizagem centrada no estudante.

1. Hora do gênio

Reserve um período semanal e solicite aos estudantes que estruturem e definam um plano de pesquisa sobre um assunto relacionado ao tema a ser estudado.

2. Momentos e Espaços “Maker

Elabore momentos dedicados à criação e a criatividade. Utilize materiais e equipamentos que permitam aos estudantes aplicarem os conhecimentos e desenvolverem habilidades relacionadas às áreas estudadas. Caso seja possível, recomende a criação de um espaço destinado à estas atividades. Eles podem ser elaborados com materiais básicos, recicláveis e de baixo custo (maquetes, jogos, eletrônicos, pontes, etc).

Quer criar um espaço maker baratinho? Existem vários kits disponíveis e encorajamos você a fazer uma pesquisa na internet. Nós achamos interessante o RUTE, kits eletrônicos para educação “maker” com opções acessíveis que variam entre R$6 e R$39 reais.

3. Hora do show

Crie projetos de pesquisa orientados. Neles os estudantes oferecerão minicursos sobre temas e/ou habilidades que eles dominam. É possível trabalhar com diferentes níveis educacionais e integrar o ambiente educacional. Por meio dos cursos é possível associar conhecimentos, habilidades e atitudes relacionadas aos temas de estudo.

Fomentar a autonomia e o protagonismo

Para a incorporação do ensino híbrido é preciso incentivar e oferecer aos estudantes mais opções sobre o que eles estudam e diversificar as maneiras como eles produzem o conhecimento.

4. Participação em concursos e olimpíadas do conhecimento

Ofereça aos estudantes desafios estimulantes. Promova a extensão da sala de aula com pesquisas e aplicações de conhecimentos. Harmonize os momentos presenciais e online. Trabalhar com problemas reais do cotidiano, criar planos e projetos, além de refinar as investigações com metas específicas e com entregas, podem ser uma alternativa para explorar os interesses dos estudantes com resultados baseados em padrões.

5. Combinar a aprendizagem personalizada com a baseada em projetos

Ao trabalhar com a aprendizagem baseada em projetos é possível combinar a personalização ao determinar o papel e as metas de cada estudante no desenvolvimento do projeto. Conceitos como gestão do tempo, organização, colaboração e pensamento crítico são estimuladas em atividades como estas.

6. Promover o pensamento de “designer”

Estimular a prática de soluções futuras e imaginar protótipos pode ser uma ótima alternativa para se trabalhar com atividades integradoras e estimulantes. E nesse sentido, as estratégias de pensamento de design, como por exemplo, a metodologia de design thinking, podem ser de grande valia para a orientar essas criações.

Extensões e comunidade

7. Promover o aprendizado baseado em resolução de problemas

Trabalhar com problemas da comunidade do entorno da instituição. Essa pode ser uma alternativa para que os estudantes apliquem o conhecimento de diversas áreas para o desenvolvimento de soluções relacionadas à problemas sociais, econômicos, ambientais e cívicos.

Traçar caminhos em diferentes ritmos

8. Promover a aprendizagem adaptativa

Com o suporte de plataformas adaptativas é possível identificar, através de avaliações e acompanhamento das atividades online dos estudantes, quais assuntos precisam ser revisados por eles. Desse modo, é possível respeitar o tempo de aprendizagem de cada estudante. Acelerando, desse modo, o diagnóstico, acompanhamento do progresso e o trabalho personalizado com a orientação adequada para cada caso.

9. Criar a aprendizagem baseada em lugares

Aproveite a globalização e a geografia para criar uma aprendizagem personalizada autêntica, significativa e atraente para os estudantes. Crie uma experiência de aprendizagem imersiva e incentive-os a pesquisar a história, geografia, culturas, oportunidades e experiências locais. Pode-se usar a saída de campo em sua localidade ou escolher países e regiões de interesse. Todas as informações servirão de base para associar os estudo com todas as áreas de conhecimento.

10. Incentivar a aprendizagem baseada em competências

Crie atividades instigantes que trabalhem os conhecimentos, habilidades, atitudes e valores necessários para o desenvolvimento do estudante. Essa abordagem propõem a reestruturação curricular e a promoção de uma formação integral e transversal. Permitindo ao estudante desenvolver as competências necessárias e úteis para o exercício profissional e de cidadania.

Compartilhando saberes

Todas essas dicas podem ser combinadas e adequadas ao seu contexto. É preciso avaliar com quais você se identifica e convidar os colegas professores para entrar nessa jornada de transformação.

Sabemos que Iniciar um processo de mudança sempre exige um grande esforço inicial. Além de uma análise prévia minuciosa para garantir a escolha certa. Essa mudança paradigmática dos currículos e do processo de ensino e aprendizagem são temas que têm se destacado nas últimas décadas. Preparar os colegas da equipe de professores e planejar as ações de acordo com a realidade da instituição garantem um caminho mais seguro nessa jornada!

Se você conhece alguma iniciativa de sucesso ou já participa de uma, compartilhe conosco sua experiência! Deixe o seu comentário abaixo e ajude os colegas!

Lembre-se:

“Se você continuar a fazer o que sempre fez, vai continuar a conseguir o que sempre conseguiu.” – Tony Robbins (1994)

“O Brasil, na última década, vem discutindo a importância das redes de ensino fazer maior uso das tecnologias no processo de aprendizagem dos estudantes. O fato é que nem todas as redes de ensino, nem todos os professores e nem todos os estudantes estão vinculados a estas ferramentas ainda. Por que demoramos tanto? Por que ainda não incorporamos, de forma mais efetiva, as ferramentas tecnológicas nas práticas docentes como aliadas ao aprendizado no século XXI?. Leia mais aqui!

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ROBBINS, T. Passos de Gigante. 1° ed. Best Seller: São Paulo, 1994.

AUTOR: Kamil Giglio

Edição: Alex Rosset

Aprendizagem baseada em competências

Os currículos de educação baseada em competências permitem que os estudantes usem o conhecimento adquirido previamente fora da sala de aula. Ou seja, busca-se valorizar o contexto de cada estudante, bem como utilizá-lo à favor de sua educação.

Você já ouviu falar sobre a aprendizagem baseada em competências? O primeiro passo para entender como funciona é desconstruir a imagem e alguns dos conceitos que temos sobre a educação (tradicional).

Na educação baseada por competências (EBC) o sistema é mais holístico e os créditos não estão fundamentados sobre a carga horária. As disciplinas cedem espaço para abordagens mais interdisciplinares, focadas nos estudantes. Por consequência, o foco muda do conteúdo para o desenvolvimento de habilidades, conhecimento e atitudes. Confira a seguir algumas das principais características e benefícios dessa abordagem.

Fundamentos da Educação Baseada em Competências (EBC)

O termo “competências” começou a ser amplamente utilizado na década de 1970 em ambientes organizacionais. Geralmente associado ao desenvolvimento de habilidades necessárias para o desempenho de uma função por um profissional.
No âmbito da educação, podemos afirmar que ele já existe há séculos. Um singelo exemplo que pode ser citado é o ensino de profissões na idade medieval (carpinteiro, ferreiro, cavaleiro etc.). Contudo, foi somente na década de 1980 que o termo foi incorporado a área. E a partir de 1990 que surgiram as primeiras abordagens incorporando as competências nos diferentes níveis educacionais. Nos últimos anos, a EBC tem ganhado relevância devido ao potencial de transformação e pela eficiência comprovada no processo de ensino e aprendizagem.

Nesse sentido, a abordagem incentiva o desenvolvimento global de competências em todos envolvidos no processo educacional. No que diz respeito aos docentes, constata-se que ele impulsiona a melhoria contínua da equipe ao:

  • Criar novas dinâmicas de comunicação e interação;
  • Estimular o trabalho colaborativo e a criatividade;
  • Compartilhar as melhores práticas;
  • Expandir os ambientes de ensino e aprendizagem;
  • Estimular atitudes e criando uma nova cultura na instituição;
  • Promover a extensão para comunidade.

Isso, consequentemente, acaba refletindo na formação dos estudantes. Pois, através da reestruturação curricular promove-se uma formação integral e transversal. Permitindo ao estudante desenvolver as competências necessárias e úteis para o exercício profissional e de cidadania.

Benefícios DA EBC

1 . Contextualizado para as necessidades da sociedade do mundo e do trabalho

A aprendizagem baseada em competências é focada em conectar formação e aprendizagem dos estudantes, preparando-os para atuar com eficácia no ambiente de trabalho. Além disso, ele busca atender às demandas da sociedade em permanente transformação, bem como as necessidades do setor produtivo (Tuning, 2007)¹.

2. Reconhecimento das experiências prévias de cada estudante 

Os currículos de educação baseada em competências permitem que os estudantes usem o conhecimento adquirido previamente fora da sala de aula. Ou seja, busca-se valorizar o contexto de cada estudante, bem como utilizá-lo à favor de sua educação. Consequentemente, isso permite identificar as lacunas ou áreas que cada estudante precisa melhorar, sem que isso envolva necessariamente um grade rígidas de disciplinas.

3. Flexibilidade e acessibilidade

Como o foco está na aprendizagem e não no tempo necessário para completar os créditos, os estudantes deixam de seguir os currículos com grades rígidas de disciplinas e períodos pré-definidos como bimestres, trimestres e semestres, por exemplo. Eles passam a desenvolver atividades, como projetos ou resolução de problemas, por exemplo, para interiorizar as competências necessárias para desempenhá-las. Essas atividades podem ser acompanhadas e orientadas pelos professores e devem estar dentro de um cronograma estabelecido conjuntamente pelas partes envolvidas.



4. Autogestão do aprendizado

A aprendizagem baseada em competências, segundo Everhart (2014)², permite melhorar a capacidade dos estudantes identificar, gerenciar e construir continuamente as suas próprias competências. Tuning (2007)¹ corrobora afirmando que ela também permite aos estudantes avaliar e melhorar o seu desempenho, interpretar situações, analisar o contexto, resolver problemas e realizar ações inovadoras.

5. Transparências das capacidades para orientação vocacional dos egressos

Por meio da aprendizagem baseada em competências é possível comunicar aos estudantes, com eficácia, o que eles sabem e o que eles podem fazer com isso (Klein-Collins, 2012)³. Com a estruturação de um mecanismo de acompanhamento e avaliação, no momento de ingresso ao mercado de trabalho ou de seleção de um curso universitário, o estudante está mais consciente sobre as suas escolhas.
Paralelamente, ao adentrar no mercado de trabalho, os selecionadores de recursos humanos nas organizações acabam tendo uma compreensão mais ampla sobre os resultados de aprendizagem dos estudantes. Conseguindo alocá-los ou direcioná-los nas funções corretas. Com isso, evita-se problemas decorrentes desse contexto, como insatisfação e desmotivação nos ambientes de trabalho. Ou dedução de competências dos candidatos, por somente possuírem diplomas e/ou certificações.

Compartilhando saberes

Iniciar um processo de mudança sempre exige um grande esforço inicial, bem como uma análise prévia minuciosa para garantir a escolha certa. A mudança paradigmática dos currículos e do processo de ensino e aprendizagem na educação são temas que têm se destacado nas últimas décadas. Você é a favor ou contra? Conhece alguma iniciativa de sucesso? Tem vontade de começar um projeto nesses moldes? Compartilhe conosco sua opinião! Deixe o seu comentário abaixo!
Lembre-se:

“Se você continuar a fazer o que sempre fez, vai continuar a conseguir o que sempre conseguiu.” Tony Robbins (1994)

Ensino Híbrido: conceitos e aplicação | Metodologias Ativas: possibilidades, participação em Formação de professores da rede municipal de Passo Fundo.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
¹ TUNING. Reflexiones y perspectivas de la Educación Superior en América Latina – Informe final Proyecto Tuning América Latina 2004-2007. Disponível em: <
http://goo.gl/w7m5ad>. Acesso em: 30 Abr. 2017. 

² EVERHART, D. 3 Key Characteristics of Competency Based Learning. Blackboard Blog, 2014. Disponível em: <http://blog.blackboard.com/3-key-characteristics-of-competency-based-learning/>. Acesso em: 26 Jun. 2017. 

³ KLEIN-COLLINS, R.. Competency-Based Degree Programs in the U.S. Post-secondary Credentials for Measurable Student Learning and Performance. CAEL, 2012. Disponível em: <http://www.cael.org/pdfs/2012_competencybasedprograms>. Acesso em: 13 Jun. 2017. 

ROBBINS, T. Passos de Gigante. 1° ed. Best Seller: São Paulo, 1994.

AUTOR: Kamil Giglio

Edição: Alex Roset

O caso Lula

Lula não está acima da lei. Nunca se opôs a qualquer investigação, desde que realizada com a observância da lei e das garantias constitucionais.

Luiz Inácio Lula da Silva, um torneiro mecânico de baixa escolaridade que, após ser líder sindical, chegou à Presidência, sob sua liderança tirou milhões de pessoas da pobreza e tornou o Brasil uma potência mundial – a primeira letra do prematuro acrônimo: BRIC, é um verdadeiro fenômeno de nossos tempos.

Quando todas as pesquisas passaram a apontá-lo com popularidade suficiente para ser reconduzido à presidência, uma verdadeira cruzada, comandada pelo juiz Sérgio Moro, passou a tê-lo como alvo, apesar da ausência de provas e de tramoias processuais.

O caso Lula – especialmente violação de seus direitos humanos em meio aos esforços de encontrar algum delito – impôs graves problemas ao Estado de Direito: como em uma democracia pode-se combater efetivamente a corrupção se isso não for feito de maneira justa?

São Tomás de Aquino advertiu que os que em caso de necessidade julgam em desacordo com a lei não julgam a própria lei, mas sim o caso singular em que acham que a lei não deve ser aplicada. O caso de necessidade que se refere o grande teólogo dominicano é um conceito amplo e subjetivo, que pode servir aos mais variados propósitos, inclusive ao de fazer o bem através do mal.

Partindo do que disse o teólogo, podemos concluir que se a luta contra a corrupção no Brasil se fizer às custas dos direitos e garantias individuais, colheremos o mesmo tipo de resultado desastroso alcançado por outras sociedades.

Não são poucos os exemplos históricos em que a máxima de que “os fins justificam os meios”, aplaudida pelo povo, gerou consequências nefastas, resultando na piora das liberdades civis ou, como no caso da Alemanha Nazista, na degeneração dessas liberdades.

Precisamos entender que uma sociedade não evolui do dia para a noite – puxando a outra ponta da corda – a natureza humana é pródiga em exigir respostas rápidas. Em períodos de grande comoção, na ânsia de recolocar o trem nos trilhos, o inconsciente coletivo busca socorro em mitos, dando-lhes uma espécie de carta branca para travar a guerra que reputar justa.

A impropriedade dos meios empregados, como no caso Lula, podem criar precedentes que permitam flexibilizar garantias constitucionais que hoje – na visão equivocada daqueles que acreditam que é possível impor pela via judicial um novo padrão moral à sociedade – atrapalhariam o exercício do bem.

No Brasil, a presunção de inocência passou a não ter nenhum significado, pois a imprensa, em colaboração com o então juiz Moro e promotores, assiduamente passou a criar uma expectativa em relação à culpa de Lula.

Direito não é política; não é religião; não é filosofia; e não é moral. Ele bebe de todas estas fontes. Depois de posto, não pode ser alterado por injunções pessoais, subjetivas ou ideológicas. A democracia não pode depender de bons ou maus juízes e procuradores. Muito menos da mídia. E nem do que clamam as maiorias.

Aliás, a democracia tem um lema: ela é protegida pela Constituição, que é um remédio contra maiorias eventuais. No caso Lula, entretanto, algo muito estranho ao Direito foi manifestado pela Operação Lava Jato.

O que é intolerável para a classe dominante é a liderança carismática que Lula irradia, reconhecida mundialmente. O que mais lhes dói é dar-se conta de que ele, Luiz Inácio Lula da Silva, é muito mais inteligente do que eles e que seu governo fez mais transformações do que eles em todo o tempo que estiveram no poder.

Com Lula, o povo ganhou centralidade, algo inaceitável para as oligarquias conservadoras e reacionárias.

Lula não está acima da lei. Nunca se opôs a qualquer investigação, desde que realizada com a observância da lei e das garantias constitucionais. Parece que agora isto começa a ser observado. A decisão do ministro Fachin mostra que sua condenação foi política.

Para concluir, repito um antigo conceito de Ruy Barbosa, “a pior ditadura é a ditadura do Poder Judiciário”.

Autor: José Ernani Almeida

Edição: Alex Rosset

Escutar mais e falar menos nos faz bem

Escutar não é uma condição passiva, é prática, é exercício, é querer.

Dia desses li um texto de Bruna Lombardi, intitulado A difícil arte de escutar, que permite alguma reflexão. A autora termina, afirmando que escutar é uma forma de amor e uma arte difícil de executar, mas que ajuda a trazer paz em qualquer discussão. Concordo com a definição de que se trata de uma atitude difícil de ser realizada, porém, uma vez atingida, de fato, brinda-nos com uma paz compensadora.

Discutir qualquer relação deixa a gente com os nervos à flor da pele. A ansiedade e a impaciência são as principais inimigas de qualquer diálogo produtivo, e quem briga logo de cara perde a razão. Veja mais!

Na mesma linha, há um livro editado recentemente (2019), intitulado O palhaço e o psicanalista: como escutar os outros pode transformar vidas. Nele, a ênfase é para o fato de que saber escutar propicia relacionamentos afetivos com qualidade e duradouros, amizades às claras, rendimento melhor no trabalho e na escola, enfim, o enaltecimento sobre o quanto é importante saber escutar.

Mas o que fazer para aprender a escutarmos melhor?

A arte de não interromper uma conversa exige atenção e respeito. Quando não percebemos que transbordamos argumentos e que somos incapazes de deixar nosso interlocutor concluir sua fala, corremos o risco de querermos impor nossa opinião autoritariamente.

Mas o que fazer para aprender a escutarmos melhor? A arte de não interromper uma conversa exige atenção e respeito. Quando não percebemos que transbordamos argumentos e que somos incapazes de deixar nosso interlocutor concluir sua fala, corremos o risco de querermos impor nossa opinião autoritariamente. Viralizou, nos meios de comunicação, a intervenção do rei espanhol no ano de 2007, ante a verborragia do presidente venezuelano em uma conferência: Por que não te calas, Chaves?.

Mas, e quando não conseguimos fazer essa escuta de nós mesmos? Quantos aborrecimentos gerados unicamente por assumirmos o discurso de quem não tem tempo para nada? Exercitar incorretamente o ato da escuta gera mal entendidos, situações constrangedoras evitáveis e, por isso, não há qualquer forma de amor quando o diálogo parte para um contexto de agressividade e competitividade que produzem tristezas e aborrecimentos.

Saber escutar a si e aos outros requer estar harmonizado com a vida, pressupõe um bom estado de saúde, uma vez que a incapacidade de escutar pode estar ligada a transtornos de ansiedade, de falta de atenção/concentração ou a situações estressoras, por exemplo.

Acalme-se. Diz a sabedoria popular que se temos dois ouvidos e apenas uma boca é para que escutemos mais.

A psicoterapia é o espaço dual da fala e da escuta, e é na moderação entre o falar e o ouvir ponderadamente que poderemos encontrar nosso ponto de equilíbrio, nossa harmonização interior, nosso bem-estar.

Escutar não é uma condição passiva, é prática, é exercício, é querer. Escute mais e a vida tornar-se-á melhor.

Ao praticar oratória, aprendo a expressar tudo aquilo que já sei. Porém, ao praticar escutatória, abro-me para novos horizontes. Assista ao vídeo.

Autor: César A R de Oliveira

Edição: Alex Rosset

Fratelli tutti: O bom samaritano

A atitude do samaritano, não sendo judeu, considerado impuro por este, é de um poder simbólico absoluto. Fez o bem sem olhar a quem.

Papa Francisco é um raio de luz no meio da escuridão. Mas, o Papa não se vê assim porque, para ele, a luz é Jesus que, com suas palavras e ações, ilumina a realidade sombria em que vivemos, pelo menos na perspectiva da fé.

Do Evangelho de Jesus, o Papa destaca uma parábola que tem a força e brilho de um raio a iluminar a realidade, tanto para os que creem quanto aos homens e mulheres de boa vontade, mesmo os ateus. A parábola é conhecida como o Bom Samaritano. Pela riqueza de detalhes nela contida e pela interpretação que o Papa faz, é conveniente transcrevê-la integralmente, porque não é possível dizer mais e melhor do que ela mesma em seu conteúdo, estilo, cenário, circunstâncias e personagens.

“E eis que um doutor da Lei se levantou e disse para experimentá-lo: “Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” Ele disse: “Que está escrito na Lei? Como lês”? Ele, então, respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus, de todo teu coração, de toda a tua alma, com toda a tua força e de todo o teu entendimento; e a teu próximo como a ti mesmo”. Jesus disse: “Respondeste corretamente; faz isso e viverás“. Ele, porém, querendo se justificar, disse a Jesus: “E quem é meu próximo?” Jesus retomou: “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto. Casualmente, descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu. Certo samaritano em viagem, porém, chegou junto dele, viu-o e moveu-se de compaixão. Aproximou-se, cuidou de suas chagas, derramando óleo e vinho, depois colocou-o em seu próprio animal, conduziu-o à hospedaria e dispensou-lhe cuidados. No dia seguinte, tirou dois denários e deu-os ao hospedeiro, dizendo: ‘Cuide dele, e o que gastares a mais, em meu regresso te pagarei’. Qual dos três, em tua opinião, foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” Ele respondeu: “Aquele que usou de misericórdia para com ele”. Jesus então lhe disse: “Vai, e também tu, fazes o mesmo” (Lc 10, 26-37).

Parábola é uma figura de linguagem que convoca o ouvinte à ação. Parábolas não são contadas para ensinamento de ordem epistêmico ou intelectivo, mas de ordem prático, ético e político.

Quando Jesus contou a parábola do filho pródigo, por exemplo, o que lhe importava era fazer o ouvinte perceber as posturas práticas dos personagens narrados, colocando o ouvinte diante do espelho, enxergando-se como filho mais novo, filho mais velho ou o pai. Não há como ficar indiferente a uma narrativa dessa ordem.

Na parábola do bom samaritano acontece o mesmo e, para tirar todas as lições práticas que ela se propõe, é importante ter em conta o contexto, o cenário, as circunstâncias e os personagens, pois só assim se capta a mensagem intencionada por Jesus.

O contexto: uma regra básica para ler a Bíblia é ler cada texto em seu contexto para não virar pretexto de justificar ideologias e interesses escusos, descontextualizando-o. Assim, para melhor entender o poder simbólico e evocativo da parábola do bom samaritano, o Papa Francisco remonta às origens da defesa bíblica da fraternidade que, como um “fio de ouro” perpassa a Bíblia do Antigo ao Novo Testamento, iniciando pela narrativa de Caim e Abel.

Conhecemos a história de Caim e Abel. O cerne da narrativa é a pergunta que Deus lança à Caim, depois desse ter matado o irmão Abel. “Onde está Abel, teu irmão”? A resposta que Caim dá é a mesma desculpa de sempre, inclusive a nossa: “Acaso sou guarda do meu irmão?” A pergunta de Deus é incontornável e a interrogação que vem da resposta de Caim já está respondida na pergunta de Deus. Deus não disse, mas fica subentendido: “sim, você é o guarda do seu irmão” e o que você fez não se faz e não há desculpas ou escapatórias.

Nesse contexto a dimensão ética e religiosa que nos convoca a fraternidade recebe um lugar central que será elevado a grau máximo nas palavras de Jesus na parábola do bom samaritano.

Outro lugar de parada obrigatória no chamado à fraternidade, no contexto bíblico, encontra-se em Jó. O livro de Jó postula um mínimo fraterno e de direitos comuns, para além do sangue familiar, fundados no laço de “parentesco espiritual” que nos envolve a todos pelo fato de termos um “criador comum”.

Essa ideia de “criador comum” é um eco da longa tradição judaica que perpassa o Antigo Testamento e que aponta para em direção ao princípio da fraternidade, para além do sangue e para além da nacionalidade, em direção à universalidade. O antigo preceito “amarás o teu próximo como a ti mesmo’ (Lv 19,18), vai se afirmando como regra de ouro de não fazer aos outros o que não queremos que nos faça (Tb 4,5) e que, no Novo Testamento, receberá uma fórmula nova, positiva e definitiva, a saber, “tudo, pois, quanto querei que os outros vos façam, fazei-o, vós também, a eles. Essa é a Lei e os profetas (Mt 7,12). Esse apelo é universal e a conclusão não poderia ser outra senão o “sede misericordioso como o vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).

Em São Paulo o princípio de caridade, para com todos, ganha expressão de programa teológico e social (1Ts, 3,12). É nesse arco ampliado da defesa da fraternidade universal que deve ser inserida, para melhor ser compreendida, a parábola do bom samaritano.

O cenário, as circunstâncias e os personagens: Sobre o cenário o que o texto nos informa é que um homem descia de Jerusalém a Jericó e no caminho foi assaltado, espancado, deixando-o semimorto. “Um homem descia de Jerusalém a Jericó, e caiu no meio de assaltantes que, após havê-lo despojado e espancado, foram-se, deixando-o semimorto”. Nada mais. E o texto, ainda, nada diz sobre quais foram as circunstâncias do evento. Não dá detalhes dos assaltantes, nem do homem assaltado e espancado e jogado no caminho. Não diz se foi de dia ou de noite, quantos assaltantes haviam, quem eram, que arma usaram, qual sua etnia, religião, nacionalidade etc.

Nada disso interessa para a moral da parábola. Não faz juízo sobre os salteadores e sua índole. Nem lamenta o fato e muito menos prega vingança que geraria mais violência. Simplesmente toma o fato como ponto de partida já consumado. Mas, se pouco ou nada diz sobre o cenário e as circunstâncias, diz muito sobre os personagens que entram na cena e completa o drama e, por força performativa, nos arrasta, também, para dentro da cena. Se sobre os salteadores e o homem caído e violentado a parábola dá como fato consumado, já não dá para dizer o mesmo dos outros personagens. Estes sim, dão o que pensar.

Os primeiros personagens são os que “passam adiante”. “Casualmente, descia por esse caminho um sacerdote; viu-o e passou adiante. Igualmente um levita, atravessando esse lugar, viu-o e prosseguiu”. Logo, os que deveriam, por dever de ofício, parar e socorrer, “passam adiante”?

É um paradoxo e o paradoxo faz pensar e, no caso, faz parar para pensar quem são os sacerdotes e os levitas. Não seriam eles os que ensinam o dever de socorrer e amar e praticar a lei? Se pregam uma coisa e fazem outra, então são, além de insensíveis, hipócritas. Diz o Papa: “o fato de crer em Deus e adorá-lo não é garantia de viver como agrada a Deus” (FT 74).

Mas, seria injusto apontar para essas duas personagens como se fossem alguém que não nos diz respeito. Injusto e perigosamente confortável, mas ilusório, acharmo-nos justificados por não pertencermos a essas duas classes. Não se enxergar espelhados na atitude de indiferença pode ser confortável, mas não faz jus à realidade. Quem nunca passou adiante? Esse espelhamento deixa-nos desconfortável e incômodos. Por outro lado, é preciso dizer também que, às vezes, “aqueles que dizem que não acreditam podem viver melhor a vontade de Deus do que aqueles que creem” (FT 74).

E que dizer do homem ferido e deixado à beira do caminho? O texto nada diz, além do seu lamentável estado, mas faz dizer. E o que faz dizer é que, atualmente, não faltam humanos abandonados, despidos de dignidade e violentados, deixados à margem da sociedade.

Diz o Papa: “Hoje, há cada vez mais feridos. A inclusão ou exclusão da pessoa que sofre na margem da estrada define todos os projetos econômicos, políticos, sociais e religiosos. Dia a dia, enfrentamos a opção de sermos bons samaritanos ou caminhantes indiferentes, que passam ao largo”. (FT 69).

 E o Papa arremata dizendo que diante das pessoas caídas e feridas, há uma redução das possíveis atitudes em apenas duas: “Já não há diferença entre habitante da Judeia e habitante da Samaria, não há sacerdote e nem comerciante; existem simplesmente dois tipos de pessoas: aquelas que cuidam do sofrimento e aquelas que passam ao largo; aquelas que se debruçam sobre o caído e o reconhecem necessitado de ajuda e aquelas que olham distraídas e aceleram o passo.

De fato, caem as nossas múltiplas máscaras, os nossos rótulos e os nossos disfarces: é a hora da verdade” (FT 70). Por fim, e o central, é a atitude do samaritano. O samaritano foi, concretamente, quem se fez próximo do judeu caído. A atitude do samaritano, não sendo judeu, considerado impuro por este, é de um poder simbólico absoluto. Fez o bem sem olhar a quem. Ultrapassou todas as barreiras culturais, religiosas e históricas. Levou o amor ao próximo como a si mesmo ao patamar superior.

Todas as fronteiras foram ultrapassadas, em nome do amor e do cuidado. Ele fez o que não lhe era um dever, fez por amor. Deu de seu tempo, dinheiro, preocupação. Realizou o mandato do amor de uma forma exemplar. No seu gesto está sintetizado o que de melhor se pode dizer sobre o amor ao próximo. Um amor incondicional e universal. Realizou de forma plena a dimensão fraterna de toda a espiritualidade que se queira cristã.

Como conclusão, pode-se dizer duas coisas.

Primeiro que se há alguém caído, ferido, excluído, nele mora Jesus, pelo menos na ótica cristã. Na ótica humanista, aí mora alguém com dignidade que precisa ser resgatada.

Quando se diz que fora de Jesus não há salvação está se dizendo, em outras palavras que fora dos pobres não há salvação. E isso por uma razão simples.

Salvando os pobres, e toma-se, aqui, os pobres como sinônimo de violentados, condenados da terra, os sem terra, sem teto, sem trabalho, os excluídos do mercado, das igrejas e das rodas sociais. Pobres e caídos no caminho são as mulheres que sofrem na cultura do machismo, os negros que enfrentam a cultura do racismo, os doente, velhos, enfim, os que estão fora do sistema de direitos no suposto Estado de Direitos.

Fora deles não há salvação. Isso significa algo muito simples. Se os pobres forem salvos, todos serão, pois os ricos e incluídos, já estão salvos…

Em segundo lugar é preciso que se diga que há uma única forma de mudarmos o estado de coisas: mudarmos de atitudes no cotidiano da opções pessoais, passando da indiferença ao cuidado, da violência à paz, da exclusão à inclusão, do individualismo à solidariedade, realizando assim o mandamento do amor. Além da mudança subjetiva, é imperioso voltarmos a ter esperança na política como a maior forma de caridade, pois dela depende o destino de muitos. “Vai, e também tu, fazes o mesmo” (Lc 10, 26-37).

Conheça outras duas reflexões sobre Fratelli Tutti, publicadas no blog do autor: Uma introdução e As sombras de um mundo fechado.

Autor: Gilmar Zampieri

Edição: Alex Rosset

Mães e pais defendem suspensão de aulas presenciais no pior momento da pandemia

A Associação de Mães e Pais pela Democracia (AMPD), junto com CPERS Sindicato, protagonizou ação judicial (pedido de antecipação de tutela em ação civil pública) que suspendeu aulas presenciais em escolas públicas e particulares em todo os RS.

A presidente Aline Kerber, em entrevista exclusiva ao nosso site, fala das motivações que levaram a AMPD a ingressar com esta ação na Justiça, bem como das repercussões que esta decisão alcançou logo após proferida decisão judicial. Fala também sobre a importância de preservarmos vidas, evitando aglomerações a partir das escolas e dos espaços públicos de convivência.

Em tempos em que o destino das nossas vidas frente à pandemia está politizado, o Brasil agoniza todos os dias com a tragédia de milhares de mortes anunciadas, que poderiam ser evitadas se outros rumos fossem tomados. O Estado do RS, que entra pela terceira semana em bandeira preta, precisa adotar medidas duras para conter o avanço da disseminação, reduzir a mortandade e desafogar os hospitais para que estes possam atender as necessidades dos que se contaminam com o novo vírus.

Entrevista

SITE NEIPIES: Quais são os princípios que organizam a Associação de Mães e Pais pela democracia? Como estes princípios são vivenciados, durante a pandemia?

Aline Kerber: A associação se organiza pelos princípios de direitos humanos e uma educação livre, plural e inclusiva, uma escola pública qualificada para todos e que viva e promova a diversidade. A Associação surgiu a partir de uma mobilização de estudantes, de nossos filhos em escolas privadas de Porto Alegre e que sofreram ataques de membros do Movimento Escola sem Partido. Foi uma forma de organizar a resistência.

Durante a pandemia, passamos ainda mais a defender o direito à educação e também a contestar questões estruturais que impossibilitam uma sala de aula adequada e com protocolos muito frágeis.

Falamos a partir de pesquisa que fizemos Educação na pandemia do Covid 19 da necessidade de superação deste apagão educacional que passa pelas questões estruturais, mas também pelo acesso à tecnologia.

Sabemos que há uma elitização pelo acesso às tecnologias, pois a maioria dos alunos não tem internet ou condições de acesso à plataforma ou aos conteúdos oferecidos e compartilhados pelas escolas, sobretudo as escolas estaduais e municipais. As escolas privadas fazem por meio de live ou de EAD, que está ligado a outro problema que é a overdose das tecnologias e a dificuldade de interação dos nossos filhos com estas plataformas e com esta metodologia e pedagogia adotada.  Sabemos que tudo isso dá conta de manter o contato dos nossos filhos com a escola, com os colegas, com os conteúdos.

O problema grave mesmo é com a educação pública e o descaso com que se reforça a cada nova medida. Por isso, a Associação tem feito vários movimentos para reforçar a escola pública e também a valorização dos professores.

SITE NEIPIES: O que motivou a Ação de Mães e Pais pela Democracia a propor a Ação Civil Pública objetivando a suspensão das aulas presenciais neste momento?

Aline Kerber: O que motivou foi o momento de bandeira preta, cuja previsão era de que, nesta situação, não haveriam aulas presenciais, o que foi modificado.

No nosso entendimento, dado o contexto o aumento de casos de infectados e de pessoas doentes de forma exponencial e o colapso do sistema de saúde e a falta de atendimento com a superlotação, a gente se viu numa escolha de Sofia: sabemos que muitas crianças só tem a escola como forma de sobreviver, sabemos que os profissionais da linha de frente da saúde tem de contar com este apoio, sabemos que a escola é um espaço de aglomeração e que acarretará maior disseminação do vírus, o que precisa ser revertido para sairmos destas curvas que nos levaram à bandeira preta.

Precisamos de protocolos que possam garantir uma volta às aulas presenciais mais segura e mais democrática, principalmente nas escolas públicas.

A maioria das Mães e Pais pela Democracia tem seus filhos em escolas privadas, mas foi um exemplo para mostrar aos nossos filhos que devemos lutar para que todos tenham direito à educação, mas as vidas estão em primeiro lugar.

SITE NEIPIES: Como avalia as reações após a decisão judicial?

Aline Kerber: A reação de muitos foi desesperada, pela surpresa da decisão. Por outro lado, o planejamento dos gestores não fechava com a realidade que estava por vir e que está acontecendo agora. As pessoas se organizaram para levar seus filhos à escola depois de um ano sem aulas, outros tem real necessidade de deixar as crianças pequenas, os filhos nas creches, na educação infantil, mães e pais preocupados com déficit educacional.

Teve uma escola do Município de Farroupilha, RS, que orientou pais a ligarem para nossos telefones, insistentemente, nos constrangendo e responsabilizando pelas decorrências desta decisão liminar. Em função dos ataques pessoais e à Associação, fizemos um Boletim de Ocorrência. Houve também muitos ataques nas redes sociais, diretos e indiretos, dizendo que não éramos democráticos. Na maioria, são questões de cunho pessoal e não coletivo.

Para nossa tristeza, ao invés das pessoas pedirem por medidas governamentais como auxílio emergencial ou garantias de manutenção de emprego, vacinação em massa, só pediram a volta às aulas e sem contextualizar a questão da pandemia.

Defendemos medidas de melhoria do contexto da pandemia, não de agravamento. A maioria das reações foram pouco racionais, mas baseadas em necessidades do sistema e necessidades individuais.

SITE NEIPIES: Qual a importância de manter as escolas fechadas, sem aulas presenciais, neste período de enfrentamento à pandemia?

Aline Kerber: Foi muito importante a decisão, no contexto de bandeira preta, para que não houvesse ainda mais disseminação do vírus e para que os professores, que são obrigados a voltar, mesmo de escola privada, não tenham seus direitos mais básicos também violados, pela questão da sobrevivência. Passamos também a pedir vacinação prioritária para os professores, pois o trabalho da educação é essencial; a educação é essencial para a sociedade e para as famílias.

SITE NEIPIES: As escolas particulares, que mais se incomodaram com esta decisão, têm mesmo condições de atender os estudantes, protegendo as famílias e os professores da disseminação e contágio do vírus?

Aline Kerber: Sim, foram as escolas particulares que mais se incomodaram com a decisão. O SINEP (Sindicatos das Escolas Particulares) disse que as escolas tem condições de atender os alunos, mas vimos, através de muitos vídeos, que mostravam logo que as escolas voltaram que havia descumprimento de protocolos, seja pela faixa etária, seja pela quantidade de alunos por sala, seja porque não houve um treinamento adequado.

Por outro lado, só andar na rua para perceber que as pessoas não usam máscaras, principalmente adultos. A sala de aula, particular ou pública, é um lugar de aglomeração e, consequentemente, de disseminação do vírus. Vejamos o caso de São Paulo, onde, antes de fecharem as escolas, houveram mais de mil contaminados nas salas e 21 mortes até agora.

Há, hoje, um contexto de crescimento de mortalidade de crianças e adolescentes para Covid 19. Este é um componente que precisa ser observado do ponto de vista da saúde coletiva.

Somente o uso dos protocolos, alegados pelas escolas particulares, não garante segurança total porque a estrutura e a abertura das escolas aumenta e potencializa o contágio da Covid e aumenta, neste momento, a situação por conta da bandeira preta e da situação da pandemia no RS, o que exigiria um lockdow de pelo menos 21 dias.

SITE NEIPIES: Como mãe de dois filhos, como vês a educação e o mundo pós pandemia?

Aline Kerber: Estou muito preocupada com o que vem como resposta a este lapso ou apagão educacional que vivenciamos.

No mundo pós pandemia, a educação precisa abrir mais espaço para as competências e habilidades socioemocionais, espaço para tratar estes traumas, esse processo de socialização que a escola possibilita e que foi impossibilitado em decorrência do vírus.

Realmente, espero que educação esteja voltada para a reafirmação dos valores que agregam uma sociedade: empatia, solidariedade, liberdade, de igualdade e fraternidade porque passa por aí a reconstrução da sociedade neste contexto de pós pandemia. Vou estar empenhada para tensionar a educação para que esteja voltada para as pessoas e para formar cidadãos e cidadãs que possam, de forma engajada, transformar o mundo.

SITE NEIPIES: Uma mensagem aos pais e mães de todo o RS.

Aline Kerber: Quero dizer às Mães e Pais do RS que a melhor coisa que podemos fazer é cuidar dos nossos filhos neste momento e evitando que estejam em circulação nas ruas.

Nossos filhos já são a mudança que nós queremos para o mundo. Então, a gente, agora, enfrenta as dificuldades de acompanhar as aulas e dar suporte necessário. As mães, com tripla jornada de trabalho, acompanham este processo e tem dificuldades de sobrevivência, como também de saúde mental, mas vai passar.

A gente vai conseguir enfrentar isso coletivamente e o que vai restar são os momentos de resistência e resiliência, de afeto e aprendizados grandiosos como se importar com o outro, de entender o que está acontecendo e de trazer segurança e tranquilidade para nossos filhos em relação ao que vem, ao futuro.

O futuro é incerto, nós não sabemos quando voltaremos. A volta depende da redução drástica nas curvas de contágio e mortalidade da Covid, suficiência dos sistemas de saúde e UTIs e da vacinação.

Temos de entender complexidades e desigualdades, de quem tem ou quem não tem os recursos, aumentar ainda mais a solidariedade e pedir o que precisa ser pedido nas nossas redes sociais que hoje são nossas ferramentas e, depois, nas ruas, com carreatas que defendam a vacinação e a vida.

A educação e a escola são fundamentais, mas na bandeira preta não é a escola o lugar dos nossos filhos.  Vidas em primeiro lugar e educação voltada à valorização da vida e não a banalização da vida como vemos por aí.

Para finalizar: não é uma escolha o pai ou a mãe levar seus filhos para escola, o que está em jogo é a vida como o maior dos direitos. O direito à educação, também importante, em tempos de pandemia, de caos e de colapso, é secundário com relação ao direito à vida de todos e todas. Por isso, ingressamos com esta ação, que já foi ratificada na Justiça e no STF, mesmo com SINEP e Governo Estadual que continuam defendendo a volta às aulas presenciais neste contexto e lutando judicialmente para reverter estas decisões judiciais.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

Vamos resistir?

“Até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem?” (Renato Russo)

Nós estamos aqui conscientes, resistentes, organizados e corajosos, exercendo nossa cidadania. Não podemos deixar que nos roubem o que conquistamos a duras penas: nossa liberdade cidadã.

As liberdades conquistadas e exercidas precisam expressar o sentido de uma luta, que não pode ser levada senão em conjunto com os movimentos sociais, sensíveis e comprometidos com a ideia de democracia e emancipação, combatendo qualquer forma de dominação, prepotência e crueldade.

Somos, como sociedade civil, o outro do Estado e temos o direito e o dever de nos contrapormos às decisões estatais, quando essas desconsideram o respeito à vida, sob pena de sucumbirmos.

Estamos, nesse momento, vivendo um caos na saúde pública, com potencial para produzir ainda mais mortes nessa Pandemia. Não podemos aguardar calados até que esse inferno dantesco se espalhe sobre todo o País. Nossa “Pátria Amada” está doente e morrendo dia a dia.

Vamos resistir?

Mais uma vez Bolsonaro despreza a ciência, adota comportamento criminoso, desacreditando os efeitos da vacina e fazendo, novamente, da vida e da saúde um campo de batalha política. Descumpre o papel básico de qualquer Estado e governo:  garantir minimamente o direito à vida e à saúde dos cidadãos. Estamos diante de um governo que as despreza abertamente, sem constrangimentos. Moralmente, é o pior governo da nossa história e mais letal que o vírus! (José Ernani Almeida) Veja mais!

É o que sempre fizemos e continuaremos a fazer, apesar dos abusos de quem gerencia o poder central e se sente senhor da vida e da morte das pessoas, tergiversando e encobrindo sua irresponsabilidade com piadinhas arrogantes e pronunciamentos cruéis.

Pensar e agir é o que nos caracteriza como humanos. Nós, como povo soberano, vivemos nossas contradições e temos que enfrentá-las, como desafio do presente, na preservação da vida de todos.

De nada adianta o Estado aparecer como avalista das relações sociais e políticas, se não tem competência para gerir uma crise sanitária, elaborar um programa nacional de imunização efetiva e compartilhar com os cidadãos a riqueza nacional, fruto do trabalho de todos nós.

Vamos resistir, apesar da pessoa que no momento ocupa o lugar de presidente do país? Ou, vamos permanecer numa atitude de autocomiseração, amedrontados, imóveis, desesperados deixando que nos exterminem?!

Quem avaliza a soberania pública dos governantes somos nós, sociedade civil livre e organizada. Precisamos agir de forma competente, para deliberar sobre os rumos de nosso país. A hora é agora!

Não adianta depois chorarmos sobre uma “Jerusalém destruída”. Façamos algo para interromper essa incúria civil!

Que nossas vozes sejam ouvidas por todo o território nacional e pelos demais territórios do globo, num clamor cívico, ético, político em que proclamaremos nosso senso de justiça, liberdade e cidadania, denunciando o descaso, a arrogância, a crueldade e a irresponsabilidade que está ocorrendo aqui, neste Brasil.

Com a mesma esperança que acreditamos que podíamos mudar o mundo, não deixemos que roubem nossa coragem.

Autora: Cecilia Pires

Edição: Alex Rosset

Psicologia humanista: identificação e reconhecimento de potencialidades

As frustrações e as grandes tragédias que ameaçavam o desenvolvimento humano contribuem, também, para impulsionar o estabelecimento de acordos humanitários entre os quais vale salientar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

De modo semelhante a um grão de feijão que tem a potencialidade de germinar, se transformar em um pé e se multiplicar, nós seres humanos podemos desenvolver nossas potencialidades.

Contudo, o desenvolvimento é dependente de condições específicas. A história humana da primeira metade do Século XX é marcada por frustrações e tragédias humanitárias decorrentes das guerras mundiais, do nazismo e do fascismo. A história da primeira metade do Século XXI está sendo marcada pelo drama das vidas abreviadas pela pandemia.

As frustrações e as grandes tragédias que ameaçavam o desenvolvimento humano contribuem, também, para impulsionar o estabelecimento de acordos humanitários entre os quais vale salientar a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

O direito de toda pessoa em ter sua dignidade humana, na dimensão psicológica e material, foi regulamentado pela Organização das Nações Unidas, em 1948. O acordo que reconheceu socialmente os Direitos Humanos, contribuiu para que inúmeras iniciativas humanitárias no campo material e psicológico fossem multiplicadas, mas ainda não se apresenta como uma realidade concreta e universal.

Na esfera psicológica, alguns pensadores simbolizam contribuições marcantes para a evolução humana. Um dos precursores principais é Sigmund Freud, identificado como pai da psicanálise. Freud demonstrou vínculos existentes entre a dimensão mental e o comportamento materializado em ações e patologias.

Ao descrever a estrutura psíquica, Freud apresentou a teoria do ID, EGO e SUPEREGO, demonstrando a constituição do pensamento humano e da sua relação com o comportamento, consolidando a importância da análise psicológica e da psicoterapia.

A Psicologia como área do conhecimento e como ciência aplicada pode se adaptar e provocar mudanças significativas na sociedade do século XXI. O avanço desta área deve trazer contribuições para situações conflituosas das dimensões subjetivas e sociais, que se apresentam como problemas para a humanidade. Saiba mais!

Inumeráveis ramificações, frutificadas em abordagens psicológicas específicas, foram disseminadas na segunda metade do século XX. Entre os nomes que se destacam estão, por exemplo, Abraham Maslow, Viktor Frankl  e  Carl Rogers.  São pensadores que consolidaram uma abordagem conhecida como   psicologia humanista, ao defender uma visão integral e integrada do ser humano, incluindo saúde, criatividade e individualidade.

No início deste século XXI, a disseminação de atos terroristas, guerras, tragédias e a pandemia ampliaram o impacto de ações violentas e desumanas, transformando a psicologia em um campo de conhecimento altamente demandado.

A pandemia de 2020, que continua se agravando em 2021, nos força a pensar ações para perpetuar o humano, o humanismo e as potencialidades humanas.

O fascismo mora na simplificação, no ódio baseado em pensamento simplista. Estamos flertando com o agrupamento de ideias e pessoas que abriram mão ou não tiveram acesso ao pensamento complexo e profundo. Combater o fascismo dará muito trabalho. (Sociólogo Ivan Dourado). Veja mais!

Sinta-se convidado a acompanhar as produções do nosso canal do youtube, em especial nosso encontro sobre psicologia humanista. Acesso ao canal.

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

Mães solos e educação das crianças em meio à pandemia

As mamães solos estão aprendendo com as suas crianças a cuidarem de si e dos outros a cada dia que passa nesta pandemia pela qual estamos passando.

Ser mãe não é nada fácil, pois exige amor, dedicação, cuidados, entrega ao outro e mudanças repentinas no corpo, de repente. Quando uma mulher descobre que será mãe o seu pensamento, imediato, é de felicidade.

Sim, ela com o seu instinto de maternidade e, desde cedo educada para ser mãe, se vê rodeada de alegrias indefinidas. Prepara-se para comprar roupas para mulheres grávidas, prepara o enxoval do bebê e visita o seu médico que fará o chamado pré-natal, ou seja, o acompanhamento dos primeiros dias de gravidez até o nascimento do bebê por um médico especialista. Tudo é feito com muito carinho por parte da mulher.

Há um adendo em meio a tudo isso, pois essa mulher da qual falo é mãe solo. Ela vai ter que se virar sozinha para cuidar do seu bebê, ir ao médico, conseguir dinheiro para comprar fraldas pro bebê e tantos outros cuidados que são necessários numa gravidez. Mas, ela sabe que vai ser mãe e não importa se o pai está perto ou não.

A alegria da maternidade é maior que tudo e segue em frente nessa gravidez linda já sentindo a criança chutar a barriguinha em algumas horas de tranquilidade.

A maternidade parece um presente a muitas mulheres, noutras muitas vezes, não é bem-vinda por vários motivos que poderemos discutir em outro texto.

Passados nove meses, o bebê nasce. Aos olhos da mãe, uma criança linda que crescerá sob os seus cuidados com saúde e alegria. Mas, a dura e cruel vida começa a cobrar da mãe a presença do pai no registro civil, na pensão alimentícia, pois educar uma criança sozinha quando não se tem um emprego não é nada fácil.

A mulher luta. Não pode trabalhar porque o bebê ainda requer cuidados maternos e não quer deixá-lo nas mãos de pessoas alheias. A mãe solo sabe que terá de matar muitos leões por dia para enfrentar as picuinhas das pessoas próximas a ela em respeito a ter um filho sem a presença de um pai. Porém, ela não se importa. O bebê é mais lindo que todas as picuinhas do mundo!

O bebê cresce e completa seis anos de idade. Vai à escola. Acontece uma pandemia e o mundo fica de pernas pro ar. A mamãe perde o emprego que conquistara há três anos e a sua criança ficava o dia inteiro na escola. Agora, sozinha em casa com a sua criança entra em desespero com a falta de comida, atraso de pagamento das contas de água e luz, aluguel da casa também atrasado e cobradores à porta da sua casa.

A criança brinca o dia todo correndo dentro de casa e pulando na poltrona da sala. Para ela, o mundo ficou melhor. Está ao lado da mamãe o dia inteiro é um grande presente. Mas, alguém fala a todo instante à criança que muitas pessoas estão morrendo e ela começa a ficar com medo de perder a mamãe para esse vírus sobre o qual todo mundo vem falar com a mamãe, que ela vê passar na televisão e escuta no radinho de pilha. Sorte que a criança não encuca com isso e logo está a brincar novamente.

Seguem-se cuidados da mamãe quando sai à rua no uso de máscaras nela e na sua criança que não entende nada do que está acontecendo.

Sozinhos, mãe e filho, vão ao supermercado e para a criança aquilo tudo é uma brincadeira incrível. Poder comprar frutas, biscoitos, leite, pipoca e tantas outras coisas gostosas é maravilhoso! Sair de dentro de casa depois de três meses não tem coisa melhor! A mamãe aproveita as compras para educar a sua criança perguntando-lhe se o feijão está caro, se o açúcar está mais barato do que o feijão, quanto podem gastar naquele dia, como podem fazer para economizar. A criança se diverte sentindo-se importante na vida da mamãe.

Em casa, todos os cuidados são tomados com a criança. Ela não entende por que não pode brincar no parquinho ou na praça. Ela não entende por que as aulas são agora por aquele celular que a mamãe pediu dinheiro emprestado e financiou em trinta e seis parcelas só para que pudesse estudar em casa sem perigos. Mamãe, que perigo estamos correndo? A pergunta que toda criança curiosa ou não já deve ter feito aos seus pais em meio a pandemia.

A mamãe tem uma casa para limpar, roupas para lavar e comida para fazer, mas o filho tem dever de casa que deve ser enviado até às quinze horas daquele mesmo dia, conforme mensagem recebida da professorinha.

A criança diz que sabe fazer sozinha, a mamãe não confia e deixa todos os seus afazeres de lado para acompanhar a tarefa escolar.

O cuidado é grande. Em casa, apenas a família: pai, mãe e filhos. E agora? O que vamos fazer com os nossos filhos? Como vamos incentivá-los nos estudos se estamos assoberbados de trabalho? Veja mais sobre o assunto.

A criança pede ajuda na primeira pergunta. É sobre o papai. Querem que ela desenhe como é o papai. Sem saber o que dizer a mamãe pede para que desenhe um homem de calça, camisa e sapato. Este é o meu papai, mamãe? Não! O papai é uma figura imaginária da mamãe. E, aos seis anos de idade, a criança começa a ficar curiosa para conhecer o seu papai. A mamãe a senta no colo e inventa uma história de contos de fadas, porque a real é muito dolorosa.

A mamãe descobre que a criança gosta da história e descobre junto com ela uma forma de educá-la mais lúdica, ou seja, contando-lhe histórias fantásticas e maravilhosas.

A contação de histórias tornar-se uma arte educativa para aquela mamãe que sozinha precisa educar uma criança de uma forma que lhe cause prazer e felicidade estudar e participar das atividades online da escola.

A criança não gosta de estudar remotamente, mas a mamãe faz de tudo para que ela permaneça concentrada na aula sentando-se com ela para juntos assistirem a aula. A mamãe demonstra interesse e curiosidade pelo que está sendo ensinado à distância.

Em meio a pandemia, a educação da criança não tem sido nada fácil para a mamãe solo. Com mais tempo em casa, a criança começa a ficar inquieta, não quer dormir cedo, não quer mais ver televisão e nem assistir as aulas pelo celular.

Ela quer brincar com os seus amiguinhos e chora o tempo inteiro para ir comer os bolinhos da vovó. É preciso explicar-lhe que a vovó não pode receber visitas no momento e que brincar na rua é perigoso. É preciso explicar-lhe da necessidade de estudar em casa, pelo celular. De nada adianta. A criança está de birra e tristonha. Acha chato tudo o que a mamãe diz.

Sem querer contar-lhe que também está achando chato tudo aquilo, a mamãe sabe o quanto a sua criança está sofrendo com todas as mudanças repentinas que ocorreram na sua vida de uma hora para outra. Ela precisa se reinventar, do nada. Mas, antes que descubra o que fazer para alegrar a sua criança, ela a surpreende desenhando bonecos nas paredes da casa.

A mamãe pensa em reclamar, melhor não. As coisas estão tão difíceis para todos nós. Melhor deixar que a criança faça o que gosta, o que está lhe dando prazer naquele momento de isolamento social, longe dos amiguinhos e de tudo o que lhe faz bem.

As mamães solos estão aprendendo com as suas crianças a cuidarem de si e dos outros a cada dia que passa nesta pandemia pela qual estamos vivendo. As crianças todos os dias ensinam a nos reinventarmos. Elas pedem para aprenderem a cozinhar, lavar roupas, dar banho no cachorro, limpar o cocô do gato.

As crianças gostam das tarefas domésticas. Isso faz com que elas se sintam úteis. E as mamães vão ganhando alegrias ao verem as suas crianças contentes mesmo estando longe do que gostam. Por isso é importante dar liberdade para elas nesse momento tão difícil para todos nós.

Não tem nada demais em ser uma mamãe solo em pleno século vinte e um se não fossem as exigências da sociedade e de algumas escolas da criança pela presença de um homem adulto na família porque as mamães aprendem com as lutas da vida a criarem os seus filhos com sabedoria mesmo enfrentado diversos problemas ao longo das suas infâncias não sentem falta de uma companhia.

Não é nada fácil ser uma mamãe solo, mas muitas mulheres exercem esse amor com a maestria muitas vezes até melhor do que as mamães que têm maridos.

A criança ensina à mamãe não ter medo do vírus com o seu sorriso e brincar o dia inteiro.

Há momentos que as brincadeiras são tantas que ela esquece das milhares de mortes pelo mundo inteiro. Só lembra quando a criança vez por outra pergunta: mamãe, por que todo mundo tá morrendo? Sim, não adianta mentir para uma criança. É preciso falar a verdade com cuidado nas palavras para não causar pânico. Apesar dessa pergunta ser frequente quando a criança escuta um jornal ou sabe que alguém querido morreu, logo esquecerá a dor se a mamãe continuar tranquila e paciente. É difícil agir assim, porém é preciso.

Às mamães solos é dedicada a tarefa de educar as crianças com dupla função: a de mãe e a de pai. As crianças filhas de mães solos não se preocupam com a falta de um pai caso a sociedade não lhes cobre a sua presença. Essas crianças tornam-se mais próximas das suas mães e as ensinam a todo instante uma forma melhor para se viver com os seus jeitinhos de olhar o mundo.

Um mundo que nem sempre olha para elas com carinho, mas com questionamentos: sem pai será que vai dar pra bom menino? Sem pai será que vai dar pra moça recatada? Esse mundo que chora a morte de milhares de mamães solos que morreram vítimas de um vírus que destrói famílias todos os dias.

Que as crianças possam continuar alegres e esquecendo das coisas chatas dos adultos o mais rapidamente possível com as suas brincadeiras e vontades de viverem. Seja pintando ou desenhando em paredes ou papéis. Aprendamos a enfrentar a pandemia com o sorriso de uma criança.

Entrevista com Daniel Cara, professor da USP (Economia da educação) e membro da Campanha Nacional pelo Direito à Educação sobre os desafios da educação em tempos de ensino remoto e/ou híbrido. Assista a entrevista na íntegra.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alex Rosset

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